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Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social do Uni-BH Ano 28 - número 180 - Junho de 2010 - Belo Horizonte/MG

Toque de letras Desde seu nascimento, o futebol atraiu a atenção de escritores brasileiros. Craques como Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Nelson Rodrigues ajudaram a intensificar o diálogo entre esse esporte e a literatura no país. Páginas 2 e 3


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Belo Horizonte

TOQUE DE LETRAS O namoro entre literatura e futebol existe há décadas; craques como José Lins do Rego e Nelson Rodrigues foram fundamentais para a criação do imaginário cultural brasileiro

O pontapé inicial foi dado ainda nos anos 1930. Durante a Copa do Mundo de 1938, na França, o antropólogo e escritor Gilberto Freyre, autor do clássico Casa Grande e Senzala, escreveu um artigo no jornal Diário de Pernambuco, em 17 de junho, sobre um curioso esporte: “foot-ball”. Era apenas o primeiro passo para a construção de uma identidade entre os brasileiros e o esporte jogado com os pés. Com o sugestivo nome de “Foot-ball mulato”, Freyre arriscava traçar um perfil dos nossos jogadores, fracassados nas Copas de 30 e 34 e recém-eliminados da de 38. “O nosso estilo (de jogar futebol) parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, manha, astúcia, ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual. Os nossos passes, pitus, despistamentos, floreios com a bola, há alguma coisa de dança ou capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses”. A associação do estilo brasileiro ao futebol artístico ganhou força décadas mais tarde, no mundo todo. Em 1994, o historiador britânico Eric Hobsbawm, no livro Era dos extremos, indagou: “quem, tendo visto a seleção brasileira jogar em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”. O cineasta italiano Píer Paolo Pasolini relacionou o futebol brasileiro à poesia, livre e mágica; enquanto o estilo europeu estava associado à prosa, presa aos resultados. No Brasil, não foi apenas Freyre que contribuiu para a “invenção” da nossa nacionalidade por meio do futebol. O jornalista Mário Filho e o romancista José Lins do Rego, com iniciativas institucionais em torno dos esportes, também o fizeram. Isso sem falar em Nelson Rodrigues, que, em meados do século XX, já construía um verdadeiro imaginário do futebol brasileiro, principalmente após a derrota da Copa de 1950, para o Uruguai, no Maracanã. A coletânea À sombra das chuteiras imortais reúne suas melhores crônicas futebolísticas publicadas entre 1955 e 1970.

Nas entrelinhas A relação da literatura com o futebol, a princípio, assumiu papel mais de “registrador histórico” do nosso estilo de jogar, do que de homenagens poéticas e prosaicas ao esporte. É o que acontece no maior clássico da literatura sobre o nosso futebol: O negro no futebol brasileiro, lançado em 1947, por Mário Filho. Nele, o autor constrói uma imagem do futebol no Brasil como resultado da miscigenação, observando no esporte um meio de ascensão dos negros. Em 1964, o livro ganhou versão definitiva, após ser revisado e ampliado; incorporou, inclusive, a derrota brasileira de 1950 e as vitórias de 58 e 62. Nelson Rodrigues foi o primeiro a criar personagens para falar de futebol. Livros como À sombra das chuteiras imortais e A pátria em chuteiras dão uma idéia da contribuição do dramaturgo para o namoro entre literatura e futebol. Nelson criou um alter-ego de sua própria personalidade em um de seus personagens: o “ceguinho tricolor”. Ainda que menos expressivas do que as contribuições diretas de Mário Filho e Nelson Rodrigues ao mundo do futebol, outros poetas e escritores ousavam escrever sobre o tema. Carlos Drummond de Andrade, que tem uma coletânea de escritos futebolísticos, Quando é dia de futebol, dizia, em forma de verso quase-prosa: “Precisamos dar um nome / português a este desporto”. Monteiro Lobato se deleitava com as partidas: “impossível assistir-se a espetáculo mais revelador da alma humana”. Já Vinicius de Moraes apreciava os dribles de Mané Garrincha, no poema “O gênio das pernas tortas”. Para o professor universitário Fábio Mário Iorio, mesmo os escritores que não estão diretamente relacionados ao mundo da bola podem ser vistos como contribuintes para o diálogo do esporte com as artes. “Carlos Drummond de Andrade pouco escreveu sobre o esporte, mas sempre deu importância ao futebol brasileiro diante da geração do Maracanã e do contexto histórico nacional, relacionando suas crônicas aos fatores sociais e culturais do futebol plebeu”, explica Fábio. O professor tem tese de doutorado, pela UFRJ, baseada apenas nos

escritos futebolísticos de Carlos Drummond. “Com a tese, pude resgatar ruínas históricas da sociedade e do futebol brasileiros”, conta. Para o jornalista José Roberto Torero, a relação entre futebol e literatura traz bons frutos para o universo literário: “É um tema diferente para a literatura, pois abre um leque de possibilidades. Cria memórias e documenta a história do esporte. O futebol é uma narrativa, favorece a escrita”. Para ele, futebol e arte se aproximam pela magia que envolve esse jogo: “Acho que essa relação com a arte se dá pois o futebol tem que ser belo, como a seleção de 82”. Como arte ou beleza, o diálogo do futebol com a literatura ainda está no começo, e pode render mais publicações. O combustível da literatura está na voz do torcedor, no balançar das bandeiras, no giro da bola. As letras, que unem o futebol ao mundo das artes, contam histórias, documentam momentos e craques. Transportam, ao longo do tempo, a história do esporte mais praticado e apaixonante do planeta. Doutores do futebol Na Academia, o futebol virou tema de inúmeras pesquisas de mestrado e doutorado. Para a professora e doutora em Literatura Comparada pela UERJ, Leda Costa, a afinidade entre esporte e letras é muito produtiva. “No caso do futebol, por exemplo, essa relação é muito importante”, afirma. De acordo com a doutora, há inúmeros jogos e jogadores que foram incluídos na memória das pessoas devido à intervenção da narrativa, seja através da imprensa ou outra forma de escrita. “Se pensarmos em figuras como os irmãos Rodrigues - Mário Filho e Nelson Rodrigues - é impressionante como ambos, por intermédio do imenso talento com as palavras, fizeram do futebol uma fábrica de histórias e fabulações”. São histórias cômicas, dramáticas, trágicas e muitas beirando o mítico que, segundo Leda, levaram o futebol para além das quatro linhas. “As palavras tiveram papel fundamental na confirmação do futebol em mais do que um jogo, em algo que permanece na memória e mexe com a imaginação”, observa a professora Leda.

RICARDO LIMA

Gilmar Laignier Bruno Trindade Paula Andrade 8° período


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“Ave, palavras” Belo Horizonte

Guimarães Rosa era apaixonado por bichos e deixou vários depoimentos sobre os que encontrou em suas andanças; alguns estão reunidos no livro “Zoo”, para o público infantil Juliano Nunes 8º período

Guimarães Rosa tinha verdadeira mania de bichos. Quando viajava – e ele fez isso a vida toda –, visitava o zoológico de cada lugar. E ia anotando em seus caderninhos tudo o que os animais “diziam” para ele. No livro Ave, palavra, publicado depois de sua morte, foram reunidos contos, notas de viagem, poemas em prosa e reflexões. Vários capítulos têm o título Zoo e, a cidade onde ele escreveu estas anotações: Berlim, Londres, Rio, Hamburgo, Nápoles, Paris. “Desses capítulos tirei e arrumei as frases que formam este livroobjeto. Para que as crianças de todas as idades pudessem gostar ainda mais dos bichos e das palavras encantadas de mestre Rosa”. Estas palavras foram escritas por Luiz Raul Machado, o organizador da obra Zoo, uma coletânea de frases de João Guimarães Rosa sobre animais, e estão na parte posterior do box verde com desenho de rinoceronte vazado. Machado, um “carioca da gema”, selecionou trechos escritos por Guimarães Rosa, um dos mais cosmopolitas entre os mineiros, que legou aos leitores obras-primas da literatura como Grande Sertão: Veredas e Sagarana. Este depoimento serve como cartão de visita para o livro. Animais de todas as partes do mundo – Europa, Oriente Médio, Oceania, África e, claro, das Américas – como elefantes, macacos, leões, girafas, camelos, cabritos, cangurus, castores, focas, coelhos, esquilos, coatis, capivaras, tamanduás, onças, borboletas, abelhas, besouros e vespas serviram de perso-

divulgação

nagens para Rosa em Ave, palavra. A partir desse livro, Luiz Raul Machado apresentou o projeto à editora Nova Fronteira, detentora dos direitos autorais da obra de Rosa. Segundo Machado, a proposta agradou a editora e, durante o lançamento, uma das herdeiras do escritor mineiro, sua filha Vilma, esteve presente ao evento e elogiou o resultado do trabalho. Machado diz que pensou em uma obra voltada para crianças, público para o qual direcionou a maior parte dos seus trabalhos. Tudo no livro leva mesmo a crer nisso. O formato, as ilustrações, o tamanho, até os trechos a serem transcritos foram cuidadosamente selecionados pensando em uma linguagem acessível aos pequenos leitores. Zoo proporciona um prazer além da leitura, porque as páginas, em formato de sanfona, permitem que se brinque com elas, criando a réplica de um zoológico. O processo de seleção dos trechos durou dois anos, de acordo com Machado, porque muitas passagens precisaram ser excluídas devido à complexidade das palavras do autor. “Elas não seriam adequadas para crianças”, justifica. Ainda de acordo com o organizador, sua experiência como editor foi fundamental na concepção do projeto. “Trabalhar com ideias próprias é diferente de trabalhar com ideias dos outros. Deve-se ter respeito ao conteúdo que já está pronto”, acrescenta. Entre os trechos transcritos por Raul Machado estão reflexões (inclusive a que dá título a esta matéria) e conselhos, como estes: “se todo animal inspira ternura, que houve, então, com o reprodução

Animais de toda parte do mundo inspiravam o escritor Guimarães Rosa; as girafas não ficaram de fora homem?”; “não dar pão aos leões”.

Guimarães Rosa e seus gatos, uma de suas paixões

Machado e Rosa Dois homens e uma paixão: as palavras. Esta definição se encaixa aos perfis do carioca Luiz Raul Machado e do mineiro João Guimarães Rosa. Eles não são contemporâneos, mas o trabalho de Rosa em Ave, palavra, reescrito por Machado, mostra que a arte é atemporal e pode ser apreciada por várias gerações. João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, interior de Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Talvez o gosto por animais e palavras seja herança do pai, Florduardo Pinto Rosa, “seu Fulô”, que além de comerciante e juiz-depaz era contador de estórias e vivia à procura de onças. Gui-

marães era o primogênito dos seis filhos de Florduardo e D. Francisca Guimarães Rosa. Aos seis anos de idade, Joãozito, como era chamado, começou a estudar francês sozinho e aos nove, sob orientação do frade franciscano holandês Canísio Zoemulder, iniciou-se nos estudos do holandês. Poliglota, falava ainda português, inglês, espanhol, alemão, italiano e um pouco de russo; lia outros tantos e estudou a gramática de mais alguns. Em 1925, com apenas 16 anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Exerceu a medicina pouco tempo e passou a se dedicar à vida diplomática. Morou em Hamburgo, Alemanha, como cônsul-adjunto; em Bogotá,

Colômbia, como secretário da Embaixada Brasileira. Foi chefe-de-gabinete ministerial e recebeu o Prêmio Machado de Assis, oferecido pela Academia Brasileira de Letras, instituição na qual se elegeu para ocupar uma cadeira. A eleição aconteceu em 1963 e a posse somente quatros anos depois, três dias antes de sua morte. O falecimento do autor impediu sua indicação ao Prêmio Nobel de Literatura. Luiz Raul Machado nasceu no Rio de Janeiro, em 1946. Escritor, redator e especialista em literatura infantil, publicou trabalhos em jornais, revistas e livros. João Teimoso, seu primeiro livro, foi lançado na Bienal de São Paulo, em 1974, primeira obra de ficção publicada pela editora Ática.

Durante 20 anos, trabalhou como jornalista na Editora Abril, de Victor Civita. Integrou a equipe que criou o projeto Ciranda de Livros em parceria com a Fundação Roberto Marinho. Vários de seus livros foram premiados, entre eles Chifre em Cabeça de Cavalo, que recebeu o prêmio Orígenes Lessa – O Melhor para o Jovem –, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em 1996, um ano após seu lançamento. Os arquivos do escritor João Guimarães Rosa, como livros e artigos, entre 1908 a 1971, com aproximadamente doze mil documentos, foram adquiridos pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP).


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Livro-objeto atrai criança “Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.” Este trecho de Guimarães Rosa mostra como ele escrevia com detalhes suas impressões sobre o mundo. Foi assim em Sagarana (1946), um livro de contos e novelas regionalistas; em Corpo de Baile (1956), novelas, hoje publicado em três partes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, No Pinhém e Noites do Sertão; em Grande Sertão: Veredas (1956), romance so-

bre a expedição de Guimarães nessa região pobre em recursos e rica em cultura; em Ave, palavra (1970), obra publicada após a morte do escritor, semente de Zoo. Zoo pode ser definido como um livro-objeto, uma criação dos poetas concretistas para divulgar poesia para adultos. De acordo com o ex-professor do curso de Letras do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), Hércules Toledo, a obra assinada por Luiz Raul Machado se encaixa neste conceito. “O projeto gráfico é muito interessante, a seleção dos trechos foi bem feita. Isso valorizou o texto”, observa. O professor, pósdoutor em Literatura, analisou o livro e comentou sobre um detalhe importante para as crianças: o fato de elas poderem interagir com o objeto. “Em uma época onde a imagem é muito valorizada,

brincar com o livro-objeto acrescenta mais prazer à leitura”. Em relação às ilustrações, Hércules Toledo diz que elas remetem a outras obras de Rosa. A escrita dos trechos, em curva, é outra característica dele para brincar com as palavras. Para Toledo, há outras marcas importantes na obra do escritor mineiro: linguagem renovada e a possibilidade de, através de seus textos, estudar a psicanálise, a psicologia, a linguística, a alquimia, a geologia. João Guimarães Rosa era filho de um comerciante e, durante a infância, passava os dias em-baixo do balcão da loja do pai ouvindo as histórias contadas pelos fregueses de seu Florduardo. Hercules Toledo acredita que este hábito influenciou bastante o lado escritor de João Guimarães Rosa. DIvULgAçãO

Em 2005, editora foi condenada a tirar livro de Guimarães Rosa de circulação

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Luiz Machado, o organizador do Zoo, uma coletânia de frases de Guimarães Rosa

Obra com muita polêmica A riqueza da obra e a vida de João Guimarães Rosa chamam a atenção de vários autores. Suas obras percorreram o mundo. Alguns escritores já contaram sua trajetória e outros tantos já citaram trechos dele em seus trabalhos. Os livros Corpo de Baile – duas partes: Buriti e Noites do Sertão –, Primeiras Estórias e Grande Sertão: Veredas (foram traduzidos para o francês. O cinema e a televisão adaptaram contos e romances de Rosa para as telas. Também a música buscou inspiração nele. O disco “Rio Abaixo”, de Paulo Freire e outros, e o CD “Rosas para João”, do casal belo-horizontino Renato Motha e Patrícia Lobato, foram inspirados pelas pa-

lavras do escritor mineiro. Mas, em 2008, a editora LGE, de Brasília, foi condenada a retirar de circulação o livro Sinfonia de Minas Gerais — A Vida e a Literatura de João Guimarães Rosa, do escritor goiano Alaor Barbosa. A decisão foi do juiz Marcelo Marinho, da 24ª Vara Cível do Rio de Janeiro. A LGE foi processada pela filha de Guimarães, Vilma Guimarães Rosa, e pela Nova Fronteira, editora responsável pelas publicações do escritor. O juiz Marcelo Marinho alegou danos irreparáveis ou de difícil reparação, devido ao fato de a obra conter informações erradas, ter sido publicada sem autorização de Vilma Guimarães e conter, segundo advogados da Nova Fronteira, 103

trechos de João Guimarães Rosa. Informação contestada pelos representantes da LGE, que reconheceram a presença de 82 trechos. Para a professora do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNIBH), jornalista e advogada Elisangela Dias Menezes, o direito autoral é importante porque protege a criação intelectual, seja no campo artístico ou cultural. “A Constituição Federal, no artigo 5°, inciso 27, prevê o direito autoral, e a Lei 9610/98 foi criada com esta finalidade”, acrescentou Elisangela, especialista no assunto. Ainda de acordo com Menezes, o direito autoral não fere o conhecimento da cultura. “Se não houver o autor, não existe a cultura”, justifica. INFOgRAFIA:ISABELLA BARROSO


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Ensaio

Crença multicultural Na Festa do Senhor do Bonfim, quem tem fé vai à pé, vai cantando, vai girando. Gente de todos os cantos da Bahia se misturam nas ladeiras do Pelourinho, em direção ao Mercado Modelo, de onde segue a procissão. Ao redor das escadarias centenárias da Igreja do Bonfim, as folhas de arruda exalam o candomblé. Uma multidão aguarda o início da lavagem, a benção do padre, as palavras do governador. Nas letras de Jorge Amado, “há entre esses eleitos do Vaticano e aqueles curingas e caboclos de terreiro um traço comum: sangues misturados.” E na mistura “criaram uma cor e um som, imagem nova, original”.

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TEXTO E FOTOS: Roberto Romero, 5 período EDITORA: Mariana Medrano, 7 º período

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Pinóquio, 70 anos Boneco de madeira mais famoso do mundo, que a cada mentira dita tem seu nariz aumentado, desafia o tempo e passa uma bela lição de moral a crianças, jovens e adultos do mundo inteiro Fotos divulgação

Guilherme Guimarães Kelly Aquino 7º período Baseado no livro de 1883, escrito pelo italiano Carlo Collodi, pseudônimo de Carlo Lorenzini, o filme Pinóquio, lançado em 1940 pelos Estúdios de Walt Disney completou em fevereiro 70 anos. Em comemoração à data, a Walt Disney Pictures se antecipou e lançou no ano passado, nos Estados Unidos, uma versão da animação que ganhou restauração digital. As mudanças na obra duraram mais de um ano e alteraram ícones tanto da imagem quanto do som do filme. A nova versão ganhou making of, um final alternativo e jogos. O longa poderá ser assistido agora com mais detalhes, já que as técnicas utilizadas na animação foram totalmente transformadas. O motivo dessa remasterização foi o de atender aos padrões tecnológicos de alta definição digital utilizados atualmente pela indústria cultural. A nova versão de “Pinóquio” foi gravada em blue-ray, novo formato de disco óptico que veio para substituir o DVD, e que é utilizado para vídeos de alta definição e armazenamento de dados. O conto literário do mais famoso boneco falante da literatura mundial

inspirou diversas adaptações e referências em todas as formas possíveis, seja em livro, filme, documentário ou desenho. O enredo original de Pinóquio narra sua evolução de simples boneco para a condição de um “ser humano”. Uma fadinha azul, vista como uma estrela cadente, realiza o pedido de Gepeto, um velho marceneiro que se sente muito solitário e quer que sua criação de madeira ganhe vida. O bonequinho Pinóquio é um velho conhecido de todas as pessoas, pois marcou e marca até hoje várias gerações de adultos e crianças. A moral da história, famosa por conter uma mensagem que até hoje é utilizada na criação e alfabetização de crianças, traz consigo a valiosa importância de lidar com a verdade, seja ela qual for. A mensagem passada por Collodi é bem interpretada no filme da Disney. A cada mentira contada pela marionete de Gepeto, seu nariz cresce e sua orelha começa a tomar a forma da orelha de um burrinho. Diferenças Para a professora Ana Carolina Oliveira, responsável pela tradução do texto integral de Collodi para o português, a história de Pinóquio é a mais recon-

tada no mundo, e tem uma linguagem muito particular. “Fiz a tradução para a Editora Dimensão a partir da versão integral, em inglês, “The Adventures of Pinocchio”. Carlo Collodi era jornalista e, em julho de 1881, escreveu para o “Jornal das Crianças”, na cidade de Florença, na Itália, o primeiro capítulo de Pinóquio. Dali nasceu um dos personagens mais famosos de todos os tempos e uma das narrativas mais recontadas do mundo. Como se trata da versão original, o texto do livro tem uma linguagem mais difícil, mais rebuscada do que a do filme. Essa característica dificultou um pouco a tradução. Por outro lado, as ilustrações extremamente bem cuidadas, de Robert Ingpen, trazem a história à vida”, diz Ana Carolina. A tradutora ressalta ainda que o livro de Carlo Collodi é uma obra de arte e o filme da Disney, um clássico. “Além de fazer parte da minha infância, continuou a ser um ícone para minha filha, Luísa, agora com 9 anos. Pinóquio ganhou tanta repercussão, que o italiano Carlo Collodi sequer imaginava que um dia, no futuro, gerações inteiras saberiam de cor seu livro sobre o famoso boneco.

Pinóquio ganhou dois Oscar em 1940 e foi premiado com melhor música

Filme marcou uma época Psicologia da história As imagens do filme que passam nas telas até hoje trazem para a nossa mente, com força total, a imaginação de como e qual teria sido na época o efeito na plateia quando a gigantesca baleia aparece para engolir todo o navio com Gepeto, Pinóquio, o Grilo Falante, o gato, den-

tre outros personagens. A Disney já utilizava técnicas bem avançadas para a época com o propósito de tentar aproximar o público de seu espetáculo. Um marco para aquele tempo. A fim de chegar a um nível próximo à perfeição, os Estúdios Disney não mediram esforços na produ-

Disney não mediu esforços na produção do filme

ção de “Pinóquio”, o que Para o psicólogo passar para os filhos que exemplo citado por meio gerou um grande custo na Sálvio Franco, a cultura a mentira não é um bom do próprio personagem produção do filme. O longa também ajuda na criação caminho sempre tem que principal para passar a teve um orçamento tão alto e formação do caráter da ser levada em conta pelos mensagem é bem infantil, que perdeu dinheiro em sua criança. A moral da histó- pais. Se os filhos aprende- porém, com ressalvas a estreia original. O alto gasto ria, extraída do filme Pinó- rem a lidar com a verda- serem feitas. Amedrontar se destacou pelo extensivo quio, serve como base para de desde cedo, o caráter as crianças com histórias uso da câmera multiplano, a orientação aos filhos, deles se formará de modo horrendas e de forma a um aparato técnico utilizado porém, com considerações bem delineado. A manei- frustrá-las no futuro não é para dar aspecto de profun- a serem feitas. “A ideia de ra utilizada pelo filme, e o um bom caminho” explica. didade em algumas cenas e uma melhor percepção de realidade no desenvolver da história. Apenas a cena em 3D da câmera pairando sobre a cidade, que dura cerca de meio minuto na tela, rendeu uma conta de US$ 25 mil aos produtores. Prejuízo que foi recompensado bem antes do esperado, pois esta obra de Walt Disney abriu as portas para filmes como “Fantasia”, recordista de bilheterias em todo o mundo. Pinóquio é considerado como uma das obras cinematográficas mais perfeitas tecnicamente, pela complexidade dos recursos empregadas e devido ao seu Para ajudar na desafiante tarefa de criar Pinóquio, ele primeiro foi esculpido em madeira perfeccionismo.


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Uma sobrevivente da ditadura no país É assim que se sente Giselle Nogueira, autora de “Casaco Marrom – amor nos tempos de guerrilha”, história que relata coragem e determinação de jovens com ideais revolucionários reprodução

Renata Martins 8° período 1970, interior de Minas Gerais. Poderia ser um dia qualquer. Mas para a jovem de 20 anos, que era perseguida por militares, ali começava o momento mais difícil de sua vida. A família não entendia o que se passava. Ela, com instinto de sobrevivência, tentou fugir pelos fundos da sua casa. Naquele tempo a prisão era sinônimo de desaparecimento, tortura, morte. Após 30 anos de silêncio, essa história foi eternizada no livro Casaco Marrom – amor nos tempos da guerrilha, romance autobiográfico de autoria da jornalista Giselle Nogueira. Só quem viveu durante a ditadura mi-

litar sabe contar com fidelidade a luta pela liberdade, o medo e a incerteza que assombrava os jovens da época. Os sentimentos que estavam esquecidos em sua memória e coração voltaram para dar vida a Raquel, uma garota ingênua e sonhadora - personagem principal do livro. Com uma linguagem acessível e um trabalho de pesquisa histórico, a autora retrata os anos de chumbo em um Brasil conturbado, cruel, onde não existia democracia e os direitos humanos eram violados. Com Casaco Marrom Giselle ganhou dois prêmios nacionais. Hoje ela se distanciou da militância política e pretende dar foco à sua vida como escritora. Leia, a seguir, entrevista com Giselle:

A vida da jovem Raquel se mistura à realidade de Giselle Nogueira, em “Casaco Marrom”

Entrevista DIVULGAÇãO

Inspirado na biografia da autora, o livro conta a história da ditadura brasileira Você considera o livro “Casaco Marrom” realidade ou ficção? Incluo o livro na categoria de memória ficcional. Ele é autobiográfico, mas é ficção também. Qualquer trabalho que você faz sobre a memória você altera um pouco. Você está lembrando coisas, mas omitindo outras, não é a realidade perfeita. Como você começou a militância? Aos 16 anos. Era muito co-

mum isso acontecer porque os jovens também eram vítimas das arbitrariedades da época. Fazia parte da rotina dos jovens a censura, os professores presos, a tentativa de passar o ensino público para o privado. Você escolhia um lado, eu fui para o movimento de esquerda. O que você sentiu quando se viu, aos 20 anos, uma presa política? Fiquei presa quatro meses e depois um tempo em con-

dicional, sem poder sair de casa. Ficava em uma cela sozinha, mas na penitenciária tinha mais de 40 presos políticos. No início fiquei muito assustada. Todos tínhamos conhecimento de tortura, violação de direitos, então, ficar sozinha em uma situação dessa é muito assustador, você não sabe o que vai acontecer. Muita gente morreu, muitos estão desaparecidos até hoje. Eu posso me considerar uma sobrevivente.

A escolha de não mencionar nomes dos personagens foi sua? Sim. Primeiro porque eu estava tratando de pessoas que já morreram e não conseguia me dar esse direito. Estava trabalhando com a memória dos outros, que não poderiam opinar sobre aquilo. Segundo porque a gente realmente não tinha nome na militância, só nome de guerra, como Raquel. Como foi a retomada da sua militância? Você não ficou com medo dessa volta? Foi em 1972, quando voltei a estudar. Além do movimento estudantil me engajei no movimento pela Anistia, fui membro fundador do PT e escrevia para jornais alternativos. Ainda havia perseguição e lideranças eram presas. Mas quando você entra não tem mais volta. Nessa época eu tinha participação ativa, porém discreta. Eu não podia aparecer muito porque poderia acabar despertando atenção da polícia, por ser uma pessoa visada. Sua mãe e amigos reagiram ao lançamento do livro? Foi um presente para minha mãe, talvez a que mais ficou feliz com isso. Ela sempre amou livros, e para ela, ver o livro da filha exposto em

uma livraria foi o máximo. E também foi um reconhecimento, ela é parte dessa história e sofreu muito. Grande parte dos meus amigos também passou por isso. Eu quis contar uma história que as pessoas se identificassem. Elas ligam, contam o que passaram durante a ditadura. Muitos não dão valor a isso, coisa que eu mesma não dava, talvez. Mas por menor que seja a sua contribuição, ajudou a contar a história do país. Foi muito doloroso relembrar essa parte difícil de sua vida? Em alguns momentos, sim. Quando eu escrevia é que as coisas iam se encaixando na minha cabeça. Eu fui organizando minha própria memória, estava em um momento muito difícil na minha vida e o livro, de certa forma, me salvou. Foi como uma catarse, eu escrevi a primeira versão do livro em cerca de dois meses. Depois reli, reescrevi, fiz trabalho de pesquisa nos arquivos públicos do Estado e pesquisei jornais da época, para dar mais polidez à história. Ao saber da morte do seu, então, namorado pelos jornais, como você reagiu? Isso foi muito ruim, uma coisa terrível. Quando publicavam da morte, falando

que era em confronto com a polícia, já sabíamos que havia sido por tortura. É uma sensação horrível. A gente precisa chorar os nossos mortos. É muito cruel você não poder enterrar, você só interioriza a perda, não despede da pessoa. Assim como ele, isso aconteceu com muitos. Em determinado momento no livro você diz “parte da menina que ainda era morrera ali”, quando foi presa. Isso realmente aconteceu? Com 20 anos você é muito novo, está saindo da adolescência. Isso foi uma coisa que me forçou a amadurecer rapidamente. É uma experiência muito pesada. O que eu tinha de infantil, acabou ali. Depois de tudo que você passou, qual foi a maior frustração e o maior aprendizado? O aprendizado é solidariedade, ver o mundo de outra forma, sem individualismo, com organização. Você cria muitos laços de amizade, com pessoas que convivem e pensam como você. A frustração que tenho é com a perda de amigos que morreram. Mas não tenho arrependimentos. Certamente, se minha história fosse a mesma, eu faria tudo de novo.


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O intrigante muro continua inabalável The Wall, disco clássico da banda de rock Pink Floyd, continua influente após 30 anos Gustavo de

Morais

7° período

O ano era 1977 e o Pink Floyd estava em turnê de divulgação do disco “Ani-

nadá, Waters cuspiu na face de um fã que apresentava comportamento indevido e atrapalhava o desempenho da banda em cena. A partir desse episódio, Waters

dos discos mais aclamados da história da música contemporânea: “The Wall”. A intenção do álbum não é criar uma ferramenta separatista entre a banda, e os

pela mãe, oprimido na escola, o anti-herói cria um muro em sua consciência e assim estabelece uma divisão entre ele e o restante da sociedade. Esse novo Fotos divulgação

The Wall está entre os 100 melhores álbuns de rock de todos os tempos, segundo a revista Rolling Stones mals”. O quarteto inglês era formado por Roger Waters (baixo/voz), David Gilmour (guitarra/voz), Nick Manson (bateria/vocais) e Richard Wright (teclado/vocais). Durante um concerto realizado em Montreal, no Ca-

pensou na possibilidade de construir um muro entre ele e a plateia e assim não mais haveria incômodos. A ideia foi engavetada e dois anos depois o conceito do ‘muro’ serviu de embrião para o surgimento de um

atos, às vezes, desrespeitosos dos fãs. Waters desenvolveu o conceito do ‘muro’ e o aplicou na vida de Pink, um personagem fictício que é execrado e detonado pela sociedade desde o dia de seu nascimento. Sufocado

mundo de fantasias serve de refúgio para o jovem e nessa dimensão tudo acontece de acordo com as regras dele. Durante um momento de estado alterado de consciência, decorrente do uso de drogas, Pink transforma-se

em um líder totalitário ditador nazi/fascista - e faz com que a sua consciência rebelde o leve ao tribunal. O seu juiz interior decreta uma sentença na qual é ordenado que o personagem derrube o muro e mergulhe no mundo exterior. Produção A ficha técnica do álbum indica que ele foi produzido entre os meses de abril a novembro de 1979. No dia 8 de dezembro daquele mesmo ano, o disco foi lançado em nível mundial. A produção ficou a cargo de Bob Ezrin, David Gilmour, James Guthrie e principalmente de Roger Waters. Segundo o site da “Record Industry Association of America” – Associação das Gravadoras da América – (RIAA), “The Wall” é o disco duplo mais vendido da história, e já bateu a marca das 11 milhões de unidades comercializadas. O processo de concepção de “The Wall” foi um tanto quanto turbulento. As relações internas entre os músicos estavam críticas e Richard Wright foi demitido durante as gravações, mas continuou a trabalhar com a banda sob a condição de músico contratado. Por mais inacreditável que pareça, o grupo passava por sérios problemas financeiros em razão da má administração do executivo Norton Warburg. Com isso, o disco acabou sendo gravado em quatro estúdios distintos; dois deles na França. Foi em meio a tantas condições ad-

versas que o Floyd colocou nas estantes de roqueiros do mundo todo um álbum recheado de músicas que se tornaram clássicos do rock. Canções como “Mother”, “In The Flesh”, “Comfortably Numb” e “Another Brick in The Wall” ainda fazem sucesso em muitas rádios. Em 1990, Roger Waters se fez valer do direito de propriedade intelectual do álbum e sem o menor pudor lançou uma edição revisada do disco. Sob a alcunha de “The Wall Live in Berlin”, ele lançou uma trilha que trazia músicas com as roupagens de artistas que iam do hard rock alemão do grupo Scorpions, até o pop estadunidense da cantora Cindy Lauper. No entanto, os novos intérpretes em nada alteraram os arranjos ou letras. Em iguais proporções, o público e os cofres de Waters aplaudiram a iniciativa do músico. Veco Marques, guitarrista da banca gaúcha de pop rock Nenhum de Nós, afirma que sempre que tem a oportunidade de escutar Pink Floyd imagina que tudo ali gravado vai ficar eternizado. “Vejo o todo o processo criativo da banda como um grande laboratório sonoro, de espaços e de generosidade.” Segundo Marcelo Dolabela, poeta e produtor musical, após “The Wall”, o quarteto se tornou uma vítima do próprio sucesso. “Infelizmente o sucesso tirou do Pink Floyd o direito de ser uma grande banda”, comenta.

Pink invade as telonas

Em 1982, a MGM lançou uma versão cinematográfica do disco “The Wall”. O filme chegou às telas sob o título de “Pink Floyd: The Wall”. O projeto foi idealizado por Alan Parker e coube ao ator e músico Bob Geldof o papel de protagonista. O longa-metragem quase não apresenta diálogo e tem como pano de fundo as músicas do disco homônimo. O filme gira em torno da vida de um jovem chamado Pink, que perdeu o pai durante a infância no ápice da II Guerra Mundial e assim passou a ter uma re-

lação de muita proximidade com a mãe. O garoto sem amigos e prestígio na escola cresceu e se tornou uma estrela do rock. Casou-se com uma libidinosa “groupie” (tipo de garota que tem por hábito prestar favores sexuais a músicos), mas viu seu universo particular se reduzir a problemas mentais após descobrir uma traição por parte da esposa. Tentou auto-extermínio, e após uma alucinação, fruto do efeito das drogas, se viu na figura de um líder neonazista e passou a comandar a sua plateia na luta contra o muro.

Coincidência, ou não, dois ex-integrantes do Pink Floyd tiveram parte de suas vidas relacionadas à trajetória da personagem principal do filme. O exbaixista Roger Waters perdeu o pai durante a guerra e o ex-guitarrista e fundador da banda Syd Barret foi afastado do grupo em razão de ter suas faculdades mentais comprometidas pelo uso excessivo de entorpecentes. Mas desgraças pessoais à parte, “Pink Floyd: The Wall” apresenta duras críticas ao consumismo exagerado naquela época.

Pink Floyd: Rick Wright, David Gilmour, Roger Waters, Nick Mason (esq. p/ dir.)


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Belo Horizonte

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Impressão

Belo Horizonte

Crítica

EDITOR: RAFAEL IGOR ROCHA 5° Período

Quando B.B. King vem à cidade Luciana Cafaggi

Guilherme Reis 5° Período

Um jovem negro trabalhando em uma fazenda que ficava em Itta Bena, Mississipi. Um violão e uma plantação de algodão. Esse jovem americano não estudou música, tudo o que ti-

nha era apenas um ouvido apurado e o coração capaz de transformar sentimentos em notas. A música surgida antes como lamento do negro escravo parecia ter encontrado um representante genial: blues e BB King foram feitos um para o outro. O tal bluesman

voltou ao Brasil com ar de despedida, mesmo o próprio músico dizendo que quer voltar. Os 84 anos de BB King não permitem grandes turnês e ele mesmo explica: “minhas pernas não estão boas, minhas costas também não, e a cabeça já não é a mesma”. O que não foi problema para o público que pôde ver o Blues Boy no dia 20 de março no Via Funchal, São Paulo. Além do talento musical que transborda do braço de sua eterna amada Lucille, BB King se encontra em total sintonia com o público. Nos momentos em que se poupava durante as músicas para descansar, conversava com a plateia, enaltecendo seus companheiros de banda, fazendo piadas e falando sobre sua própria vida, eram notórios seu respeito e sua simpatia com aqueles que reconheceram por

tantos anos sua majestade. Como guitarrista BB King tem a característica

“Minhas pernas não estão boas, minhas costas também não, e a cabeça já não mais a mesma” B.B. King

de não usar firulas ou exageros em seus solos e licks (frases na guitarra). Por não ter estudado as escalas musicais, BB King aprendeu a flutuar como ninguém sobre o bra-

ço da guitarra. Com todos esses anos de carreira os dedos não têm a agilidade de antes, e, é verdade, Lucille não canta com a frequência que cantava antes, mas, quando BB King conversa com sua famosa guitarra usando poucas palavras, é fácil entender porque é rei. Quem foi ao show teve a honra de ouvir canções que serviram de influência para vários outros músicos, que vão do blues até o rock ‘n’roll, de autoria de BB King ou de outros nomes do gênero, como Blind Lemon Jefferson em “See That My Grave Is Kept Clean” e “Key to the Highway”, de Charlie Segar. Outros sucessos não ficaram de fora, como “I Need You So”, a inesquecível “ The Thrill is Gone” e “Rock Me Baby”, que fez o público levantar da cadeira e dançar literalmente. Quando o show terminou

o bluesman ainda ficou alguns minutos no palco dando autógrafos e cumprimentando fãs, um até levou a guitarra para BB King autografar, mas o segurança não deixou. Acabava uma noite especial de blues e de provavelmente o adeus do astro.

O seu mais recente CD, levou o troféu de Melhor Álbum de Blues Tradicional no Grammy 2009 e apresenta clássicos nunca antes tocados. Além de homenagear dois dos seus mais importantes ídolos: Lonnie Johnson e Blind Lemon Jefferson.

Bom e velho A-Ha divulgação

Fábio Bastos 7° período

Foi com o Chevrolet Hall completamente lotado que o A-Ha demonstrou que não perdeu o pique das grandes apresentações dos anos 80. A banda, que mantém a mesma formação durante todos esses anos, Morten Harket (voz), Magne Furuholmen (teclados) e Paul Waaktaar-Savoy (guitarra), já possui oito álbuns de estúdio, sem falar nos registros ao vivo. Com esse material, não faltaram hits como “Crying In the Rain”, “Stay On These Roads”, “Early Morning”, “Cry Wolf”, “The Sun Always Shines On TV”, “Hunting High and Low”, “Take On Me”. Essa última pedida desesperadamente pelo público após a banda deixar o palco pela segunda vez. Mas é claro que eles não foram embora sem ela. Em tempos de es-

Morten Harket, vocalista da banda norueguesa, que lançou oito CDs em 24 anos cassez no quesito boa música na indústria cultural, fica difícil encontrar alguma nova banda que escreva canções honestas e verdadeiras como faz o trio norueguês. O que o apaixonado público

belo-horizontino presenciou foi uma aula de bom gosto musical, arranjos complexos e vocais perfeitamente limpos e afinados. A plateia foi como um integrante extra para os músicos, cantando

não somente os refrãos, mas até as linhas melódicas foram seguidas nas faixas mais conhecidas. O show de luzes, aliado ao telão que ficava atrás da banda e transmi-

tia imagens relacionadas às músicas, deu uma atmosfera muito nostálgica ao evento. Como já foi dito, o A-Ha não perdeu a presença que tinha há mais de duas décadas e não ficou para trás das bandas que ainda continuam na ativa. Pelo contrário, os noruegueses demonstraram mais carisma e competência do que os também veteranos do Information Society em sua passagem pela capital mineira, para citar só um exemplo. Completando quase duas horas de espetáculo, o público, fiel até o fim da apresentação, deixou o Chevrolet Hall certamente saciado por um bom show, com uma ótima banda em fase perfeita e amadurecida. É claro que o trio não está mais na mídia como há 20 anos e seus álbuns não emplacam mais nas paradas de sucesso. Mas o grupo que foi o primeiro da Noruega a chegar às paradas da Billboard é um exemplo de que o pop pode ser muito

bem escrito e executado, desta forma conseguindo se perpetuar. Em despeito ao pop/rock “água com açúcar” encontrado por aí e às milhares de bandinhas que caem de árvores a cada dia com sua criatividade duvidosa, prefiro um om e velho (quase velho) A-Ha..

Formada em 1982, três anos depois se tornou um sucesso no mundo todo. O grupo ficou mais de duas décadas no topo das paradas, produzindo vários hits.


Edição 180 - Caderno 2