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DEZEMBRO DE 2013. ANO IV. NÚMERO 23

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA - VENDA PROIBIDA

Arrocha

JORNAL-LABORATÓRIO DO CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL/JORNALISMO DA UFMA, CAMPUS DE IMPERATRIZ NATALIA CATHERINE

Mundo Especial Deficientes físicos e pessoas com transtornos mentais e suas lições de vida


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Arrocha

ANO IV. NÚMERO 23 IMPERATRIZ, DEZEMBRO DE 2013

CHARGE

EDITORIAL - Histórias de Superação

RHAYSA NOVAKOSKI

Para tratar de temas tão complexos como o da deficiência física e do transtorno mental o melhor caminho para um jornalista é procurar ouvir, com atenção, histórias de vida. Elas são muito mais reveladoras, em vários casos, do que números, estatísticas e dados, algumas vezes imprecisos que cercam esse universo que chamamos, nesta edição do Arrocha, de Mundo Especial. Se o mais indicado é humanizar, esse foi o grande norte desta edição. Após dividirem os temas, os acadêmicos de Jornalismo do campus da UFMA de Imperatriz foram encontrar relatos emocionantes e, em muitos casos, verdadeiras lições de superação na vida. O leitor vai se deparar neste jornal com queixas sobre dificuldade de mobilidade, sentimentos de inade-

quação e denúncias de preconceito. Mas, também, histórias de amor e de dedicação ao próximo que inspiram. Elaborar um jornal com boa carga de humanização não é tarefa fácil. Os futuros repórteres botaram em prática todo seu conhecimento para se aproximar com carinho dos seus personagens e interpretar depoimentos que muitas vezes os entrevistados têm dificuldade de compartilhar. Bom percurso por esse universo e uma boa leitura. Arrocha: É uma expressão típica da região tocantina e também é um ritmo musical do Nordeste Significa algo próximo ao popular desembucha. Mas lembra também “a rocha”, algo inabalável como o propósito ético desta publicação.

Ensaio Fotográfico LETICIA SEKITANI

ISABEL DELICE

RHAYSA NOVAKOSKI

RAONNI VELOSO

EXPEDIENTE

Jornal Arrocha. Ano IV. Número 23. Dezembro de 2013 Publicação laboratorial interdisciplinar do Curso de Comunicação Social/Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). As informações aqui contidas não representam a opinião da universidade. Reitor - Prof. Dr. Natalino Salgado Filho | Diretor do Campus de Imperatriz - Prof. Dr. Marcos Fábio Belo Matos | Coordenadora do Curso de Jornalismo - Profa. M. Marcelli Alves da Silva.

Professores: M. Alexandre Maciel (Jornalismo Impresso), M. Marco Antônio Gehlen (Programação Visual), M. Marcus Túlio Lavarda (Fotojornalismo).

Reportagem: Adaylma Rocha, Ananda Portilho, Angra Nascimento, Beatriz Karine, Brenda Herênio, Daniela Souza, Diego Sousa, Isabel Delice, Laís Ferreira, Lawson Almeida, Leticia Sekitani, Lineker Costa, Raônni Veloso, Rhaysa Novakoski, Samia Mulky, Silvanete Gomes e Vanessa De Paula.

VANESSA DE PAULA

ANDRÉ NETO

Diagramação: Aleilton dos Santos Silva, Ana Lourdes Sousa Pereira, Arnoldo Araujo dos Reis, Caroline Duarte Nepomuceno Marinho, Dina Marcia Marinho Giannotti, Dioned de Araujo Campos, Edmara Silva da Silva, Guilherme Miranda Silva, Irisvania Pinheiro da Silva, Jaysa Karla Silva Gomes, John Erik Sousa Silva, Kelver Pereira Padilha, Leiliane de Araujo dos Santos, Leonan Alves de Sousa Moraes, Lorrane Maria Clemente de Araujo Alvarenga, Lucas Jhonata Andrade da Silva, Luis Fernando França da Cunha, Marcos Tand Ferreira da Silva Gomes, Margaret Valente Pereira, Maria do Socorro Oliveira Pereira, Monica Dias Monteiro da Silva, Romulo da Silva Costa e Stephanne Rufino Menezes

Fotografia: Adaylma Rocha, Ananda Portilho, Angra Nascimento, Beatriz Karine, Brenda Herênio, Daniela Souza, Diego Sousa, Isabel Delice, Laís Ferreira, Lawson Almeida, Lanna Luiza, Leticia Sekitani, Lineker Costa, Natalia Catherine, Raônni Veloso, Rhaysa Novakoski, Samia Mulky, Silvanete Gomes e Vanessa De Paula. Contatos: Estagiários: Sararuth Andrade Chagas Abreu, Tayã Santana da Silva e Valdiane Costa de Santana

www.imperatriznoticias.com.br | Fone: (99) 3221-7625 Email: contato@imperatriznoticias.com.br


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INCLUSÃO Sala de Recurso garante apoio educacional e pedagógico a alunos portadores de deficiência ou com qualquer tipo de déficit de aprendizagem na escola

Educação inclusiva já é uma realidade local DIEGO SOUSA

LINEKER COSTA

Em uma sala ampla, com poucas carteiras, uma mesa grande, vários armários, lousa, espelho e muitos cartazes lúdicos. Esse é o cenário da Sala de Recursos Multifuncionais para Deficientes Auditivos da Escola Governador Archer, a única da rede estadual de ensino, em Imperatriz, que possui esse tipo de sistema de assistência educacional e pedagógica para pessoas com deficiência. São 13h45 e os alunos aos poucos vão chegando, seis no total, todos surdos. A professora Adriana Oliveira, também deficiente auditiva, já está na sala e os recebe se comunicando em sua própria língua, a Língua Brasileira de Sinais – Libras. Eles interagem entre si, e mesmo falando por meio dos sinais, o que parecia ser algo silencioso, torna-se uma “algazarra”. Por não ouvirem, eles não têm noção da altura dos sons que emitem. Outra diferença nessa unidade de ensino foi a criação de uma segunda sala de recursos, uma para deficientes visuais e outra para deficientes auditivos. Devido a determinações do MEC, cada escola deve ter uma sala desse tipo para que haja um trabalho multifuncional com assistências a alunos com deficiências distintas. Em gestões anteriores a direção da escola decidiu criar a segunda sala para que o rendimento escolar fosse potencializado, já que no quadro discente do Governador Archer 48 alunos possuem deficiência, seja auditiva, intelectual, visual total, baixa visão, entre outras. Na rede estadual

teu interesse no mundo deles”. Rhuan Filipe, 17 anos, é surdo e veio visitar a antiga escola. Quando estudou no Governador Archer, Rhuan morava em Governador Edison Lobão, município vizinho à Imperatriz e percorria 12 quilômetros de ônibus todos os dias para assistir às aulas. Hoje, está matriculado em uma escola da rede municipal, a Castro Alves, no bairro Vila Lobão. O município conta com 20 salas de recursos que são distribuídas geograficamente pelos bairros da cidade. Foi assim que Rhuan, hoje morando em Imperatriz com os tios, conseguiu estudar em uma escola do ensino regular, próxima da casa onde mora e continua sendo assistido pelo sistema de salas multifuncionais.

Siadi - Em Imperatriz, a Secretaria

Adriana Oliveira, professora, interprete e deficiente auditiva, utiliza material lúdico e pedagógico para revisar a Língua Brasileira de Sinais - Libras

em Imperatriz, são 68 o total de alunos com alguma deficiência matriculados no ensino regular nível fundamental e médio, dados cedidos pela Supervisão de Educação Especial da Unidade Regional de Ensino de Imperatriz (UREI). Adriana Oliveira Santos Matias, 33 anos, é professora de Libras, graduada em Terapia Ocupacional pela Cest-SLZ (Faculdade criada pela Apae-SLZ para assistência educacional para pessoas com deficiências) e em Letras/Libras pela UFSC - Santa Catarina. Hoje ela é funcionária pública do governo estadual e atua na Sala de

Recursos da Escola Governador Archer. Trabalha ainda no Instituto Federal do Maranhão como professora de Libras no ensino superior. Às 14 horas todos já receberam orientação da professora. Ela auxilia os alunos a realizarem as atividades que os professores do ensino regular passaram, como os deveres de casa. Enquanto eles produzem, nós conversamos e ela vai contando como é a sua rotina. Ela mora com o marido e o filho de um ano, dois cachorros, dois gatos e quatro galinhas. Adriana faz questão de dizer que ela mesmo é quem cuida do seu filho e dos ser-

viços de casa. Até que somos interrompidos por Géssica Bezerra, 20 anos, estudante da 6ª série que, com semblante preocupado solicita à professora que a explique melhor como fazer a atividade. Com a pausa, todos param e começam a conversar, em Libras, sobre a presença de um repórter na sala. Perguntam meu nome, meu sinal em Libras e a professora logo intervém como nossa intérprete. “Eles ficam felizes em perceber que você compreende um pouco da língua deles e logo querem interagir contigo. Ter um sinal em Libras para eles representa o

Municipal de Educação criou o Setor de Inclusão e Atenção a Diversidade (Siadi), que é responsável por garantir a inclusão no sistema regular de ensino e proporcionar assistência educacional e pedagógica aos alunos com necessidades especiais. Desde 2009, a Secretaria de Educação do Município iniciou a sensibilização e adaptação nas escolas para receber os alunos com deficiência. A partir de então iniciou um processo de permanente formação continuada com professores do ensino regular e com aqueles responsáveis pelas Salas de Recursos Multifuncionais do Município. Para a assistente técnica de Planejamento, Leila Lopes, esse é o caminho, mas ainda falta muito para um sistema educacional perfeito.

Menos de 20% das vagas reservadas pela Lei de Cotas são preenchidas DIEGO SOUSA

Com seu jeito tímido, ela chega, fala com os amigos de trabalho e já vai logo limpando as mesas, varrendo o pátio, dando um trato nos bebedouros e armários da secretaria. Depois toma o café e descansa. Espera o lanche das crianças no intervalo e volta a limpar tudo, inclusive os banheiros. Descansa novamente até o fim da aula e, em seguida, varre todas as salas, passa um pano aqui, outro ali, e finalmente vai para casa, já por volta do meio dia. A rotina de Thaís Albuquerque Carvalho, 28 anos, na Escola Municipal Juracy Conceição, onde trabalha há nove anos como auxiliar de serviços gerais, seria bem mais fácil se não fosse sua deficiência física: “Nasci com uma má formação no membro inferior esquerdo, e desde os seis anos de idade eu venho me adaptando com uma prótese que consegui de uma instituição filantrópica lá em Brasília”. Acadêmica do quarto período de Administração em uma faculdade particular da cidade, Thaís conta que chegou a chorar quando sofreu preconceito na escola onde trabalha. Mas seus olhos brilham quando fala que seu maior sonho é se formar e passar em um concurso público federal. Ela toma como exemplo o irmão, que trabalha na Infraero. “O esforço dos deficientes no local de trabalho estimula nas pessoas o espírito de solidariedade”, argumenta

LINEKER COSTA

Samuel Ricardo Gomes, chefe do setor de inspeção do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Ele explica que as empresas da região sempre oferecem vagas para pessoas com deficiência, no entanto, a baixa qualificação desses profissionais tem dificultado o acesso aos postos de trabalho.

Lei das Cotas – De acordo com dados do MTE, Imperatriz possui hoje mais de 24 mil empregos formais, dos quais pouco acima de 160 estão preenchidos por pessoas com algum tipo deficiência. Isto representa apenas 16,5% do total de vagas garantidas pela Reserva Legal de Cargos ou Lei de Cotas (8.213/91), que abrange ainda trabalhadores em processo de reabilitação profissional. Em seu artigo 93, a Lei de Cotas estabelece proporções de 2% a 5% no número de contratações exigidas para pessoas com deficiência ou em reabilitação. As empresas com quadro total a partir de 100 trabalhadores devem se adequar à lei federal, caso contrário, estão sujeitas a multas que podem chegar a mais de R$ 110 mil . A operadora de telemarketing Camila Sousa, 22 anos, estava há um ano e meio na função quando começou a apresentar os primeiros sintomas de uma lesão devido ao esforço repetitivo na digitação. “No início, eram leves incômodos. Com o tempo, foram se agravando e causando fortes dores e inchaço”. Estes foram os primeiros estágios da doença que atingiu o braço

Thaís Alburquerque Carvalho, auxiliar de serviços gerais, realiza sua rotina na escola onde trabalha usando uma prótese na perna esquerda

direito de Camila. Ela afirma que caso não tivesse conseguido o afastamento do emprego, poderia ter perdido os movimentos do membro atingido. Após várias sessões de fisioterapia, Camila entrou no programa de reabilitação profissional da Previdência Social. “Fui treinada para a nova função de auxiliar administrativo, onde faço movimentos que não interferem a integridade física do meu braço. Só assim, me mantive empregada”. O Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) também garante benefí-

cio aos deficientes de baixa renda com incapacidade para a vida independente e para o trabalho. Eles recebem o valor referente a um salário mínimo, mas ainda é possível encontrar deficientes no trabalho informal para complementar a renda. A psicopedagoga do Centro de Referência da Pessoa com Deficiência (CRPD), Adelcirene Brito, diz que alguns fatores influenciam muito para essa informalidade: “Quando começam a trabalhar, eles perdem o benefício do governo. Alguns têm medo por

causa da rotatividade no trabalho. Em outros casos, é a própria família que não acredita no potencial do deficiente”. O CRPD desenvolve oficinas de arte e cursos profissionalizantes e também possui um banco de currículos. Em média, seis a oito profissionais são encaminhados às empresas todo mês. Quando elas procuram o centro, quase sempre têm a mesma exigência: não contratam deficientes intelectuais, nem com deficiência física muito notável.


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LAÇOS Relacionamentos entre pessoas com deficiência podem despertar a curiosidade e estranhamento nos indivíduos, mas o coração não aceita preconceitos

O que o amor une, limitações não separam ISABEL DELICE RHAYSA NOVAKOSKI

No festival de sorvete organizado pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), um grupo de mulheres começa a se aglomerar, muitas com o celular na mão. Tem início a sessão de fotografias. O relacionamento entre pessoas com deficiência pode causar estranheza ou admiração em muitos indivíduos. No entanto, o amor não conhece limitações, sejam elas físicas ou mentais. Janaína dos Santos e José Manuel Filho, ambos com 21 anos, são estudantes da Apae. Ela possui sequelas de uma hipóxia cerebral (problema causado pela falta de oxigenação no cérebro) e ele, atraso mental. Mas não é isso que une a vida desses dois jovens. Eles namoram há três meses e falam constantemente em se casar, inclusive já usam aliança de compromisso. “Foi amor à primeira vista”, afirma Janaína, com os olhos muito bem maquiados e cheios de felicidade. José concorda, fitando o chão com um sorriso acanhado. “Dá um beijo nele, Janaína”, diz uma das professoras ao tirar a foto. Não precisaria nem pedir, já que a moça enche o namorado de carinho e atenção. “Eles são um sucesso aqui”, comenta a fisioterapeuta Natália Barros. Já para Aricélia Damasceno, 30, essas demonstrações de carinho em público não são tão bem vindas. Ela namora com Thiago Pimentel, 24, há três anos e diz que não gosta de beijar em público. “Mas já ‘tô’ tirando essa mania dela”, protesta

Janaína dos Santos e José Manuel possuem transtornos mentais, namoram há três meses e vivem trocando carinhos e declarações de amor

Thiago. Os dois possuem deficiência física: ela tem a perna direita com má formação e ele é cadeirante. O ritmo desse namoro é de dar inveja. Eles saem quase todo final de semana, vão a festas, shows e acampamentos. “O povo chama, a gente monta na motinha (adaptada) e se manda”, diz Thiago, acrescentando que a única real limitação deles é a financeira. “Se tiver dinheiro a gente vai”, brinca Aricélia. Thiago lembra que a primeira relação sexual do casal aconteceu

em uma de suas viagens, na praia. “Tá bom de memória”, admira a namorada. Eles enfatizam o respeito um pelo outro e a prevenção. Ele sempre acompanha Aricélia nas idas ao ginecologista. “A gente é muito compreensivo nessa parte”. Francisco Cabral, 39, e Iolanda Emídio, 34, estão casados há sete anos e lembram da frequência de suas saídas. Como ele é cadeirante, a mulher, também deficiente física, sentava em suas pernas nos shows, atraindo olhares curiosos. Ao contar, ele imita

a reação das pessoas, que chegavam até a tropeçar. “Deixa olhar, pode ser inveja”, era o que Cabral falava. No namoro e no começo do casamento era assim, mas hoje em dia, os encontros se tornaram praticamente extintos. “Agora a Ana Vitória não deixa”, explica Cabral, com um sorriso emocionado, olhando para a barriga da mulher. Iolanda, que já tem um menino de outra relação, está grávida de sete meses do primeiro filho do casal, Ana Vitória. “Já tá mandando a mulher. Tô

dormindo num quarto rosa”, protesta Cabral, num falso tom de indignação, ao revelar que, além de ter que dormir e acordar olhando para paredes cor de rosa, divide seu espaço na cama com bonecas e ursos de pelúcia. “É pra ele ir se habituando ao novo espaço”, argumenta a esposa. Ana Vitória só veio depois que Cabral cumpriu todas as condições impostas por Iolanda: passar em um concurso para professor – ele passou em dois – e comprar uma casa. Como a gravidez é de risco, quem assumiu todas as tarefas domésticas foi ele. “Jurava que ia botar fogo na casa”, brinca a mulher depois de admitir que o marido está se saindo bem. Iolanda diz que as dificuldades da vida de casada são as mesmas que a de pessoas sem deficiência. Convívio, dificuldade financeira, discussões e responsabilidade são palavras presentes no vocabulário de qualquer casal. “Acho que a maior limitação da pessoa é aquela que você impõe a você mesmo”, acrescenta Cabral.

Declarações de amor – Peço uma declaração de amor e Janaína se ajeita na cadeira. Olha para José, concentrada. Quando ela fala, não consigo entender muito bem. Além da voz mais baixa, possui uma certa dificuldade em se expressar. Mas isso não é problema para seu amado, que ouve com atenção. Quando ela termina, ele simplesmente ri. “Você é o amor da minha vida também”, diz José, fazendo com que a namorada dê gritinhos de satisfação.

Interação e acolhimento estão presentes na vida familiar dos especiais DANIELA SOUZA

Em uma conversa com a vizinha, que tem uma neta deficiente, a tia soube do Centro de Referência da Pessoa com Deficiência (CRPD), onde havia fisioterapia e atividades físicas. “Levei os papeis do Sydney, fiz tudo direito e graças a Deus ele está se dando bem”.

Dia a dia - A rotina de Sydney é o

Sydney Sousa, no meio, e ao lado, seus primos, Jullyanna e Daniel estão assistindo televisão DANIELA SOUZA

Muros azuis. Portões brancos. Casas iniciando com os mesmos números: Dois e três. Eles são cuidadosos, responsáveis e tímidos. A princípio calados, só escutam. Ao lado deles, as mãos familiares que lhes acariciam os cabelos, demonstram carinho e proteção. Moram em bairros distantes, mas sob o mesmo mundo. Aos 12 anos de idade, Sydney saiu de casa para jogar futebol e durante o jogo a bola atingiu sua cabeça. Na hora ninguém percebeu o que podia acontecer. Mas, “com o tempo o Sydney ficou sem coordenação motora, dificuldade em se equilibrar, porém não afetou em nada o seu aprendizado”,

relembra tia Eva, explicando o que causou a doença mental no sobrinho. Há quatro anos, o jovem Sydney Sousa Lima, agora com 24, mudouse para Imperatriz na intenção de estudar o ensino médio. Na casa, que fica nos fundos de outra residência, mora com a tia Eva, João, o marido dela, o tio Francisco e os primos Jullyanna, Daniel e Jonas. Nos olhares e conversas com a tia, encontra-se todo o carinho e dedicação. “Não deixo ele fazer nada de casa, fico aqui e vez ou outra eu falo: ‘Sidney, tu não tomou água hoje, vai tomar água! Vai no banheiro!’. Tenho que ficar atenta porque se não ele passa o dia sentado nesse sofá com os olhos na televisão”.

seu maior prazer atualmente: durante as manhãs, de segunda à quinta-feira vai para o CRPD, onde desenvolve atividades de pintura, curso de informática, almoça, bate papo com os amigos e, a partir das 14h, faz fisioterapia. Às 15h30, volta para casa, sozinho e a pé. TV até o final da tarde, depois academia. Quando criança, Sydney gostava de pescar sem rede e subia em árvores, “porque isso tinha emoção”. Nas horas vagas aprecia assistir desenhos animados e novelas, mas o tio Francisco alerta: “Sydney, você não está mentindo, não? Eu te vejo assistindo direto o Bob Esponja e indo dormir três da manhã”. Sydney ri, mas não concorda com as afirmações do tio. Ele quer fazer o curso de Contabilidade, habilidade oposta à vida de artista plástico que vive atualmente. Na casa de Walmir Cordeiro da Silva, apelidado pela família de Tiba, 45, a rotina não é muito diferente. Ele aparenta ter 20 anos a menos e mesmo com o jeito esperto de ser a sua mãe, Maria, 74, não dispensa os velhos e necessários cuidados. O olhar da mãe é desconfiado. Ao

lado do filho adotivo, cego desde os dois anos, ela conta com a fala sussurrada. “Quando bebê a mãe biológica alimentou ele com carne de porco e peixe e eu recebi ele assim, sem enxergar, não vendo nada”. A voz de Tiba é calma, mansa, em casa ele veste bermuda e camiseta. Gosta de passear e se diverte imitando a voz do Tio Patinhas, Catatau e Mandachuva, além de cantar músicas gospel. A mãe zelosa, tece elogios ao filho. “Ele é um filho bom, não me dá trabalho nenhum, eu tenho cuidado porque ele não enxerga. As pessoas que enxerga já vive do jeito que é, imagine as que não?”.

Boas lembranças da infância vêm à cabeça de Tiba. “Lembro que eu brincava com as outras crianças sem problemas, porque criança é assim: não tem preconceito com nada”. Na fase da adolescência, Tiba sentia vontade de se matar e hoje se vê abençoado por Deus. “Vou para a igreja, eu canto, eu sou uma pessoa feliz”. Tiba ensaia todos os dias para cantar na igreja nas terças e quartas-feiras, e com isso, sonha em viver da música gospel. Apesar da deficiência visual de Tiba e da doença mental de Sydney, ambos são tratados com respeito. Por vezes até acham um exagero de seus familiares lhes darem tanta atenção. LANNA LUIZA

Tiba (Walmir) possui deficiência visual, ao lado sua mãe, Maria, que o adotou quando criança


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ACESSIBILIDADE Problemas de mobilidade dificultam o dia a dia das pessoas que possuem algum tipo de deficiência física. Só em Imperatriz existem 58.126, segundo o IBGE

Moradores reclamam de inacessibilidade NATALIA CATHERINE ANGRA NASCIMENTO

Vilmar Leite Pereira, 32 anos, cadeirante, artesão, ex-jogador de basquete, ficou paraplégico há cinco anos, ao ser atingido por uma bala perdida. Deise Cortez, 43 anos, professora, é deficiente visual desde 2005 em decorrência de toxoplasmose. Jéssica Bezerra Barbosa, 20 anos, estudante, é deficiente auditiva desde que nasceu. Essas pessoas estão entre os 58.126 mil imperatrizenses que têm algum tipo de deficiência. Esse número equivale a 23% da população de Imperatriz, que é de 247.505 mil, segundo dados do IBGE. São pessoas que trabalham, estudam, namoram, vão ao cinema, teatro e fazem compras. No entanto, elas precisam vencer uma série de dificuldades. Calçadas sem acessibilidade, ônibus lotados, táxis sem adaptação e falta de intérpretes. Apesar dos avanços, Imperatriz é considerada uma cidade sem acessibilidade. “Inacessibilidade não é só uma barreira arquitetônica, é a barreira da atitude humana”, afirma a coordenadora do Fórum Regional das Entidades de Pessoas com Deficiência e Patologia, Maria da Conceição Silva

Vilmar Leite Pereira, que ficou paraplégico em decorrência de um tiro sofrido há cinco anos

Cardoso. Para ela, falta compreensão e respeito às pessoas com deficiência. “Todos os direitos assegurados por lei, são violados, de certa forma”. O martírio de Valmir Leite começa em sua residência, uma casa simples

localizada no centro da cidade. De família humilde, ele conta que não recebe benefício social do governo federal e por essa razão só pôde construir duas rampas: uma na entrada da casa e outra que dá acesso ao quarto. “Des-

de que fiquei paraplégico nunca recebi nenhum benefício. Com a ajuda de familiares, foram feitas duas rampas, mas ainda falta adaptar o banheiro”. Vilmar conta que era estivador de carros antes da tragédia. Agora se vira como artesão e vive muito tempo em casa, onde produz suas criações. Quando precisa pegar um ônibus para ir a algum lugar, sente na pele a falta de acessibilidade. “Se estou sozinho ninguém ajuda. Além disso, é impossível andar pelas calçadas”, diz, enquanto segue em sua cadeira de rodas em meio aos carros. Em Imperatriz falta acessibilidade para que cadeirantes, deficientes visuais e auditivos possam usar o sistema de transporte coletivo, circular por calçadas, estudar em qualquer escola ou até mesmo escolher em que fileira do cinema preferem se sentar. Para assistir um filme, Valmir enfrentou várias barreiras. Foram mais de 40 minutos em um ônibus, que apesar de adaptado para cadeirante, estava superlotado. Na parada, ele encontrou mais um obstáculo: para atravessar a pista, Valmir precisou da ajuda de um estranho para poder subir na passarela, que não é adaptada. No cinema, que fica localizado

no segundo piso do Imperial Shopping, existem várias adaptações, como elevadores e rampas. A sala três, por exemplo, é toda sinalizada e conta com três lugares para cadeirantes. Apesar disso, Valmir reclama. “Eu acho injusto o cadeirante não poder escolher um lugar, é ruim ficar na primeira fila”, diz enquanto procura o melhor ângulo. A maioria das reclamações de pessoas com deficiência física e visual é com as calçadas que não dispõem de acessibilidade. E outros problemas que dificultam circulação de pessoas com mobilidade reduzida. Para o secretário municipal de Meio Ambiente, Cleto Vasconcelos, as rampas de rebaixamento devem ficar justas às faixas de travessia de pedestres para facilitar a passagem. No primeiro contato, ele disse que havia um projeto de padronização das calçadas já elaborado pela prefeitura, informação que corrigiu dois dias depois, informando que o projeto havia sido apenas idealizado. “Sabemos dessa necessidade, no entanto, faltam recursos. Mas o prefeito já disse que ano que vem esse projeto, idealizado, será colocado em prática e todas as calçadas da cidade serão padronizadas”.

Acessibilidade: um dilema Estacionamentos e locais adaptados na vida dos deficientes auxiliam as pessoas com deficiência ANGRA NASCIMENTO

Jéssica Bezerra é surda e tenta levar uma vida normal, mas reclama que sente falta de ser compreendida como gostaria. Aluna do sexto ano do ensino fundamental, em uma barulhenta sala de 32 alunos do Centro Educacional Governador Archer, ela é uma dos cinco alunos que têm deficiência. A escola recebe 24 estudantes especiais no ensino fundamental no período da manhã, os quais são distribuídos pelas salas que possuem intérprete. Mesmo assim, Jéssica afirma por meio da tradutora, que os educadores não estão preparados para lidar com alunos deficientes. “Falta acessibilidade. Os professores não sabem traduzir o que eu preciso aprender”, conta, expressando com as mãos por meio da intérprete, a professora Márcia Moreira. Jéssica tem dificuldades em Matemática e ressalta que além da limitação dos professores, estudar junto com alunos do ciclo regular é um obstáculo. “É ruim estudar no meio de pessoas que não têm deficiência porque mesmo eu não ouvindo consigo sentir as vibrações”. Dos 23% da população de Impe-

ratriz que tem algum tipo de deficiência, a maioria é deficiente visual, conforme o IBGE. A professora Deise Cortez é uma delas. Com apenas 20% da visão do olho direito, a docente, que está fora da sala de aula, é presidente da Associação de Pessoas com Deficiência Visual. Ela conta que enfrenta muitas dificuldades e acredita que a cidade pouco tem avançado em termos de acessibilidade. “As dificuldades vão do transporte público à falta de nivelação das calçadas”. Deise completa dizendo que “falta, também, piso tátil em lugares que deveriam ter, como bancos, escolas e supermercados”. Mostrando uma cicatriz na perna esquerda em decorrência de um tombo que levou ao tentar andar por uma calçada, Deise sugere ações educativas para pessoas com pouca mobilidade. “É preciso campanhas educativas e um processo contínuo de mudanças. Por exemplo, em escolas que têm pessoas com deficiência auditiva é preciso ter sinais luminosos para indicar que a aula terminou, não apenas o sinal sonoro. Nos semáforos, deveria ser o contrário: além dos sinais luminosos, poderia ter, também, sinal sonoro”. NATALIA CATHERINE

Jéssica Bezerra é um dos 24 alunos com deficiência da escola municipal Governador Archer

SILVANETE GOMES

Flagrante mostra desrespeito às vagas destinadas a pessoas com deficiência no estacionamento de um dos maiores supermercados da cidade ANGRA NASCIMENTO

Em Imperatriz, a maioria dos ônibus de transporte público coletivo é adaptada para cadeirantes. A empresa Viação Branca do Leste (VBL), disponibiliza 84 veículos circulando nas ruas de Imperatriz, todos adaptados, atendendo ao decreto 5.296/04, da Lei da Acessibilidade. Durante o percurso para o cinema, onde o cadeirante Vilmar Pereira escolheu assistir o filme “Dose Dupla”, ele denuncia: “Hoje, que estou acompanhado, o cobrador logo me ajudou a subir. Porém, se estivesse sozinho, certamente ele ia fingir que não tinha me visto”. Deise Cortez, que é cega, reivindica mais sinalização no transporte público. “Quando pego um ônibus fico contando pontos de referência. Isso dificulta a trafegabilidade e tira a autonomia”. Mas as dificuldades vão além do transporte público coletivo. A frota de táxis que circula diariamente na cidade

é de aproximadamente 500 veículos. Destes, não existe nenhum adaptado para cadeirante. Valmir Leite sabe bem a falta que um táxi adaptado faz. Na volta do ci-

“Essa é a primeira vez que estaciono numa vaga especial, mas aqui no shopping pode, ninguém multa” nema, ele levou mais de uma hora para chegar à sua casa empurrando sua cadeira de rodas. O ônibus daria uma volta por pelo menos três bairros distantes para poder pegar a rota que passa pelo centro. Se tivessem um táxi adaptado o tempo de deslocamento reduziria para menos da metade. O Imperial Shopping e o Mateus

Supermercados, da Bernardo Sayão são alguns dos estabelecimentos que possuem vagas de estacionamento para deficientes exigidas pelo Conselho Nacional de Trânsito. No shopping, a sinalização da parte interna é apenas no chão, o que faz com que muitas pessoas estacionem nas vagas especiais alegando não visualizar as placas. Foi o caso de Gilson Sousa, que estacionou na vaga para cadeirante. Questionado, ele disse que não viu a sinalização. “Essa é a primeira vez que estaciono numa vaga especial, mas aqui no shopping pode, ninguém multa”. Já no supermercado, as vagas especiais são bem sinalizas. Mesmo assim, algumas pessoas estacionam indevidamente. De acordo com o artigo 181 do Código de Trânsito Brasileiro, quem desrespeitar as vagas especiais está sujeito à multa de R$ 53, mais três pontos na carteira.


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CUIDADOS Estatísticas do Ministério da Previdência Social apontam o Nordeste como segundo lugar no ranking de acidentes no trabalho, com 16% dos casos em todo o país

Falta de equipamento provoca acidente FOTOS: VANESSA DE PAULA

Glelson Queiroz de Souza, vítima de acidente de trabalho pelo não uso do equipamento de proteção individual

Empinar a cadeira de rodas é uma das saídas encontradas por cadeirantes para facilitar o acesso à rampas, degraus e calçadas

BEATRIZ MACHADO

Glelson se adaptou a usar a força dos braços para entrar na sua casa, superando a deficiência

O dia 2 de janeiro de 2013 significou para muitos, mudança. Para Glelson Queiroz de Souza, 23 anos, também. Ao meio dia desta data o “Manim”, como é mais conhecido, sofreu um choque de três mil volts e foi arremessado de uma altura de três metros, enquanto fazia uma manutenção elétrica no telhado de uma residência. Ele ainda não sabia, mas naquele instante tinha acabado de adquirir uma deficiência física. Glelson passou a ser cadeirante. “Era um dia normal. Depois do ano novo fui trabalhar, mas, não estava com vontade. Parece que eu estava sentindo”. Ele tinha subido em uma escada, estava com luvas e botas de borracha, porém, faltava um ítem essencial na lista de seus equipamentos de proteção individual (EPI): o cinto de segurança. De acordo com estatísticas

do Ministério da Previdência Social, o número de acidentados no trabalho em 2011 era de 711.164 mil. A região Nordeste ocupa o segundo lugar nesta estatística, com 16%, perdendo apenas para o Sudeste, com 69% dos casos. Manim comenta que apenas naquele dia não havia colocado o cinto. Quando ele caiu, não sentiu mais as pernas. Quem o socorreu foi o proprietário da casa onde ele estava trabalhando, pois ele estava com muitas dores e a ambulância demoraria para chegar ao local. O esquecimento do EPI lhe custou uma fratura na coluna, o dedo amputado, um dia em coma, dez na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), 15 de recuperação no Hospital Municipal de Imperatriz (HMI), ou Socorrão, e um mês deitado em cima de uma cama, sem poder sair. “Na verdade o meu acidente foi um milagre. Se o choque não tivesse sido tão forte eu te-

ria ficado ‘pregado’ nas instalações, e assim meus órgãos internos teriam sido queimados, e não apenas meu dedo”, conta, em tom de agradecimento. Apesar de tudo, Glelson é bem humorado e transmite felicidade. “Nós, cadeirantes, aprendemos muitas coisas bacanas, como por exemplo, empinar a cadeira”, afirma, ao mostrar o movimento na calçada de sua rua. No início ele sentiu dificuldades para sair na cadeira, por conta da força nos braços. Agora consegue se movimentar e só reclama da falta de rampas nas ruas. Hoje é evangélico da Igreja Adventista do Sétimo Dia, integra o grupo de basquete de Imperatriz e recentemente casou-se com Vanessa Ferreira Lima, que já conhecia antes do acidente. O casal alugou uma casa e fazem planos para o futuro: querem comprar uma moto e adaptá-la para facilitar a locomoção.

Perda de braço não impede avanço nos estudos e motiva superação BEATRIZ MACHADO

Marcus Vinnícius Borges da Silveira, 21 anos, é aluno do 1° período de Direito na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) de Imperatriz. Muito simpático, brinca quando perguntado como perdeu o braço esquerdo: “Geralmente pensam que foi acidente de moto ou algo assim”. Vinnícius perdeu o braço aos 17 anos. O motivo foi um tumor benigno, porém, “agressivo”. Ele acredita que o adquiriu durante uma partida de futebol no colégio como goleiro. “Depois de um tempo não conseguia mais virar a palma da mão esquerda e percebi que algo não estava certo”. O tumor já havia atingido os ossos do braço. Então, ele e a mãe Sônia, viajaram para Teresina em busca do tratamento. A solução seria uma cirurgia de retirada do tumor e dos ossos afetados. “Eu entrei na sala de cirurgia bem confiante, tinha chances de sair de lá com o braço, eu e minha família nos agar-

ramos a ela. E foi o que aconteceu”. Sua primeira cirurgia durou sete horas. Os médicos retiraram inicialmente o tumor e os ossos afetados. Depois, de uma de suas pernas, pegaram um pedaço de osso e realizaram um enxerto, com a ajuda de duas placas de platina e 11 parafusos. Seis meses após a cirurgia, um resquício do tumor foi detectado e os médicos constataram que ele teria que amputar o braço. Para Vinícius, a vida não parou, ele apenas teve que se adaptar à sua nova condição. Conta que no início sentiu a síndrome do membro fantasma, que ocorre quando a pessoa, mesmo sem o membro, sente “dores”, como, por exemplo, de picadas de inseto. Ele diz que ainda sente, só que bem pouco. Os amigos fazem perguntas como: “Como faz para lavar o braço que ainda tem?”. E pra amarrar o cadarço do tênis?”. Vinnícius diz que tudo é questão de jeito, mas que consegue fazer. Tudo é adaptado.

VANESSA DE PAULA

Marcus Vinnícius aproveita o intervalo da Universidade Federal do Maranhão para aprofundar o conteúdo exposto nas aulas de Direito


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ENSINO ESPECIALIZADO Pessoas que estão inseridas no ensino regular melhoram o desempenho escolar frequentando as atividades educativas do centro especializado da Apae

Apae assume funções do poder público ANGRA NASCIMENTO

SILVANETE GOMES

Às 9 horas da manhã o ônibus escolar da cidade de Campestre já estava estacionando em frente ao prédio da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae). Todas as segundas e terças-feiras o motorista Antonio Sousa faz o percurso de Campestre a Imperatriz. Ele transporta de forma alternada, nos dois dias, 50 crianças com necessidades educacionais especiais. A coordenadora de Educação Especial do município, Carmem Vieira Duarte, acompanha as crianças nos dois dias. Ela diz que muitos estão matriculados na rede de ensino regular, mas melhoraram o desempenho frequentando as atividades do centro de atendimento especializado. Além de Campestre, outros municípios da região sul do Maranhão e do estado do Tocantins procuram a instituição. O poder público acaba transferindo para a Apae o serviço de atendimento especial nas áreas da saúde e da educação. Segundo dados da Federação Nacional das Apaes (Fenapaes), 54,8% das pessoas atendidas pela entidade apresentam deficiência intelectual. outras 22,8% deficiências múltiplas e 13,8% têm alguma síndrome. A unidade de Imperatriz é uma das duas mil Apaes instaladas no país. É uma organização não governamental que funciona com recursos oriundos de doações e repasses

Atividades realizadas na sala de recursos Frei Manoel Procópio para melhorar o desenvolvimento psicomotor dos usuários de diferentes faixas etárias

públicos. Uma parte do dinheiro para custeio das despesas é destinado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em função dos serviços prestados na área. Para manutenção dos gastos com a educação, o centro educacional especializado elabora projetos para captação de recursos junto ao Ministério da Educação

(MEC). Além da parte educativa a instituição realiza também assistência social, principalmente para as famílias dos usuários, com o dinheiro das doações. Os serviços na área da educação ficaram suspensos por dois anos, mas foram retomados em 2012, após alterações na lei de in-

clusão que mantém as escolas especiais para aqueles usuários que não conseguem se adequar ao ensino regular. Eles alegam que a rede pública de ensino regular não está preparada para atender todas as pessoas com necessidades especiais. Os professores não foram treinados e as salas de aula não

estão preparadas para atender pessoas com ritmos de aprendizagem diferentes. O mecânico Júlio Farias fala do alívio que sentiu quando a Apae retomou as atividades educativas. Pai dos gêmeos Rafael e Ricardo, que nasceram com paralisia cerebral, ele conta que os filhos não se adaptaram ao ensino regular. Quem vê os gêmeos hoje, tão comunicativos, não imagina que antes eles não falavam. Eles estão na Apae desde os 6 anos e conseguiram desenvolver a fala e a coordenação motora. O pai conta que é uma alegria eles comerem com as próprias mãos. Os gêmeos perderam a mãe muito cedo e Júlio cuida sozinho dos filhos. De acordo com informações da Fenapaes, apenas 6,9% dos usuários têm o pai como único responsável. A maioria dos alunos atendidos pela entidade têm a mãe como única responsável, representando 55,2%. A responsabilidade com os usuários é compartilhada entre pais e mães em apenas 26,7% dos casos que chegam à instituição. A diretora Juracy Eloi de Sousa Nascimento, fundadora da Apae em Imperatriz há 34 anos, fala com entusiasmo do novo projeto de construção da Casa Lar para abrigar os usuários que não têm família. Na sala, ela mostra com orgulho a estante cheia de troféus conquistados pelos alunos. “Vitórias é só o que temos alcançado até hoje. Vamos conseguir mais uma”.

Escola Bilíngue renova perspectiva para alunos surdos na cidade RAONNI VELOSO

Estudante surdo e professora conversam em Libras no atendimento educacional especializado oferecido pela Escola Bilíngue de Imperatriz LAWSON ALMEIDA

Eles acordam bem cedinho e 6 horas da manhã já estão na parada de ônibus de Governador Edison Lobão para, às 7 horas, chegarem à escola. Maria Aparecida é mãe de Gabriel da Silva, 8 anos, que é surdo. De segunda a sexta ela acompanha o filho e fica esperando até 11h15, quando a aula de Gabriel termina na escola bilíngue. A Es-

cola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos Professor Telasco Pereira Filho nasceu do anseio da comunidade e foi implementada pela Associação dos Surdos de Imperatriz (Assim). A instituição prepara os surdos para adentrar no ensino regular e ajuda a inserí-los no mercado de trabalho. No local, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a primeira língua e o português a segunda.

Atualmente, trabalham oito professores e cinco intérpretes, dentre eles a professora Sara Lopes, formada em Pedagogia e especializada em Libras e Educação Inclusiva. Para ela, a unidade de ensino é como todas as outras. “A rotina é normal, a diferença é a adaptação do português para o Libras”. Gabriel começou a estudar com 5 anos em uma escola regu-

lar, para não surdos, em Governador Edison Lobão. Nela, não tinha nenhum preparo para atender uma pessoa com alguma deficiência, ele aprendeu pouco. Segundo Maria, o seu filho era excluído. “Ele sofria preconceito por parte dos outros alunos e até da própria diretora, que não aceitou ele na escola”. Em 2010, Gabriel foi matriculado na escola inclusiva Governador Archer e desde então, a rotina de Maria é feita de muita paciência. Em 2012, quando a Escola Bilíngue foi criada, Gabriel foi transferido. “Antes era muito difícil. Como eu não sabia Libras, nem ele, a gente fazia os gestos informais. Depois que ele começou a estudar, tudo ficou bem melhor”, relata Maria, sobre a mudança ocorrida na vida do filho. Maria se mostra satisfeita com o trabalho e tem boas perspectivas para o futuro. “Eu acredito que meu filho vai fazer uma faculdade. Trago ele pra cá, para se espelhar nos exemplos e ver que pode chegar lá”. Nesse período de espera pelo filho, Maria já fez cursos como o de Libras, de informática e o de corte e costura que são oferecidos pelos sócios da escola para os familiares. Maria também faz o curso de Pedagogia e deseja ser professora de Libras.

Sala de recursos - O Atendimento Educacional Especializado (AEE), conhecido como sala de recursos,

é um trabalho realizado na escola bilíngue. São desenvolvidas atividades especiais, como jogos, brincadeiras lúdicas, teatros e outras tarefas, além de atendimento com fonoaudióloga. Eles atendem alunos de outras escolas. Em uma manhã ensolarada, na véspera do Dia das Crianças, o ambiente está em festa. O silêncio toma conta da escola, mas o que os ouvidos não escutam, os olhos se encarregam do trabalho. Todos estão conversando em Libras. Os alunos estão ensaiando a peça teatral “Chapeuzinho Vermelho”. Emerson Mateuhs, 15 anos, é o lobo mau da peça. Antes de estudar na Escola Bilíngue, esteve em outra escola do município de Buritirana. Mas, como não aprendia muita coisa, a sua família se mudou para Imperatriz. Ele conta que a matéria preferida é a matemática e no futuro deseja estudar bastante, pois pretende ser policial. Quando perguntado sobre a estrutura da escola ele demonstra consciência: “A escola é boa, mas quero que seja melhor, com mais estrutura, para aprender mais”. Chega o momento da apresentação, os olhos dos pais e professores na plateia refletem o orgulho pelo trabalho realizado. Durante a encenação, todos dão boas gargalhadas. Maria é uma delas. Gabriel não está participando dessa vez, mas ela está lá fotografando tudo, cada cena. Enquanto isso, Emerson, ou melhor, o lobo mau, corre atrás da Chapeuzinho Vermelho.


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SUPERAÇÃO Pessoas com deficiência contam como vencem diariamente suas limitações, superam dificuldades e conseguem ter uma rotina produtiva fazendo o que gostam

Desafio de romper as próprias limitações BEATRIZ MACHADO

BEATRIZ KARINE

Gabriela Tavares é surda oralizada e dá aula de Libras em escolas e faculdades. Ela é formada, concursada e casada

Everiano Carvalho Junior, mais conhecido como Junior, tem Síndrome de Crouzon. Ele nada, toca violão e até anda de bicicleta

VANESSA DE PAULA

Silêncio. Ouve-se de vez em quando a voz da intérprete Júlia Aquino traduzindo o que a professora Gabriela Tavares fala. Com movimentos rápidos e expressão facial destacada, Gabriela ensina de forma bem humorada. Cerca de dez alunos, todos ouvintes, ocupam o auditório do Centro de Ensino Governador Archer toda terça-feira das 19h às 22h, em um curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras). Gabriela se formou em Nutrição em 2005, é concursada pela prefeitura de Imperatriz e trabalha no Setor de Inclusão e Atenção à Diversidade (Siadi). Também é professora de Libras em uma faculdade particular nos cursos de Pedagogia

e Direito e na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) no curso de Pedagogia. Ela utiliza a língua dos surdos é também a língua oral para se comunicar, fazendo leitura labial, ou seja, é surda oralizada. Em sua casa, em um condomínio, ao lado de sua irmã Isabela Crema, que faz a tradução quando necessário, ela diz que aprendeu Libras há apenas cinco anos. Ao se mudar para a casa atual, a vizinha ficou animada, pois tem um neto surdo, por isso, pediu para que ela conversasse com o garoto na língua dos sinais e Gabriela lhe disse que não sabia o que era. Acabou se interessando e foi fazer o curso. Gabriela conheceu seu marido na igreja. “Começou com troca de olhares, depois conversamos or-

ralizando. Ele entendia tudo que eu falava sem dificuldade.” Hoje, eles têm dois filhos e estão casados há 11 anos. Na sua primeira gravidez, as pessoas lhe diziam que seu filho não iria entender o que ela falava. “Fiquei muito confusa”, conta, com uma expressão triste. “Meus filhos me entendem melhor do que eu entendo eles”. Aos 25 anos de idade, ela ganhou um aparelho auditivo. “Imaginei que iria ouvir meu filho dizer mamãe, mas nada, só ouvia barulho”. Todo som a irritava. Não podia ouvir o ruído de água caindo ou de ventilador. “Sou acostumada com o silêncio”. Gabriela perdeu a audição na infância, no primeiro ano de idade após ter adoecido de meningite. “O médico disse que corria o risco de

ficar cega ou surda”. Ela conta que a maior limitação é sair de casa, porque sempre tem que ser acompanhada. “Nos locais públicos deveria ter um intérprete que pudesse nos atender.”

Atendimento - Na cidade, algumas organizações atendem pessoas com deficiência com o objetivo de socializá-las. Uma delas é o Centro de Referência da Pessoa com Deficiência (CRPD), que trabalha com 40 alunos. Everiano Carvalho Junior, conhecido como Junior, é um dos alunos atendidos pelo CRPD. Aos 20 anos, ele faz a 7ª série. “Me atrasei porque as escolas não queriam me aceitar”. Ele nasceu com a rara Síndrome de Crouzon, resultado de uma alteração genética, por isso

tem baixa visão, enxerga apenas 10%. Da infância, se recorda da discriminação que sofreu nas escolas que frequentou. “Já tentaram até furar meu olho”. Um dos sintomas da síndrome é ter o olho protuberante. Everiano já quis desistir de estudar. “A diretora de uma escola disse pra minha mãe: tire seu filho daqui senão vão matar ele!”. Junior fugia das escolas por não aguentar o preconceito. Com bom humor, ele diz que gosta de se exercitar. “Faço caratê e natação. Sou invocado com esporte”. Além disso, toca violão, faz aulas de computação e até anda de bicicleta. “Só em lugar que eu conheço”. Seu sonho é se formar em Direito. “Quero defender as pessoas que sofrem com discriminação”.

Sociedade de Imperatriz está cega ou não quer mesmo enxergar? ADAYLMA ROCHA

rua ou um lojista para falar com Manoel, mas na maioria das vezes ele não passa muito tempo sem ter alguém para conversar. Manoel tem 41 anos e mora com a mãe. Pega ônibus todos os dias e não pode andar. Ele se arrasta pelo chão quando se locomove. Há vezes que conta com a ajuda de moradores de rua que o carregam até a parada de ônibus. O pedinte não tem perspectiva nenhuma de mudar de vida, e está conformado com sua situação. ‘‘Acho bom o que faço, o melhor dia da minha vida foi a primeira vez que pedi, foi bom!’’.

LAÍS FERREIRA

A partir do momento que falamos da roupa, da forma como se fala, ou do estilo de vida de alguém sem o conhecer com profundidade já estamos exercendo o preconceito. São 12h55 e Vanderlan já está pronto para ir ao ponto de ônibus, que fica a cinco quadras de sua casa. Com passos rápidos e sem a ajuda de bengala, vai andando ora pela rua, ora pela calçada, por serem irregulares. ‘‘Não uso bengala para não sofrer mais preconceito’’. Ele já memorizou por onde deve andar, mas, uma vez ou outra esbarra em alguém. Na correria do dia a dia das pessoas ele sempre ouve as mesmas coisas: ‘‘Parece que é cego! Tá doido!’’. E Vanderlan nem consegue falar de sua deficiência. No ponto de ônibus, alguns motoristas que percebem que Vanderlan é deficiente visual não param, pois sabem que ele possui o beneficio da passagem gratuita. Vanderlan Viana Lima, 37 anos, nasceu com catarata congênita – doença que causa a cegueira infantil. Ele enxerga apenas vultos. Filho de primos legítimos, tem dez irmãos, dos quais quatro possuem alguma deficiência.

Outro Olhar – Thiago Pimentel

Percebe-se um olhar diferenciado em um dos momentos raros que o pedinte Manoel Lopes é visto pelas pessoas que andam no centro da cidade

Cursa o 3º ano do Ensino Médio, na Escola Governador Archer. Autodidata, aprendeu a escrever sozinho na infância. ‘‘Fazia letras grandes no chão e assim aprendi o alfabeto’’, lembra Vanderlan.

Pedinte - Você já deve ter ouvido falar de Manoel Lopes de Souza. Não? Então já deve ter visto o Ma-

noel, um pedinte que está sempre na calçada do Armazém Paraíba. Com seu coador de café preto, ele passa o dia esperando alguém lhe ver e dar algum dinheiro. Ele é bem conhecido entre os lojistas do centro, porém, Manoel é praticamente invisível para a maioria das pessoas que passam por ali. Quando me aproximei de

Manoel, que estava sujo e sem tomar banho há alguns dias, percebi o quanto um olhar pode ser preconceituoso. ‘‘Tem gente que quer ser mais que a gente’’, conta Manoel após um senhor de idade o olhar com repúdio. Ele chega para pedir às 9 horas e fica até as 17 horas. Algumas vezes, chega um morador de

tem 24 anos e faz parte do time de basquete dos cadeirantes. Ele teve que usar cadeiras de rodas após cair de uma árvore aos 13 anos de idade. ‘‘A maior causa do preconceito é a falta de conscientização das pessoas’’, explica Thiago. Ele conta que não ficou revoltado e muito menos deprimido após o acidente. Quando percebe que tem alguém que está olhando diferente ou dizendo algo depreciativo para outro que tenha deficiência, ele se aproxima e tenta conscientizar a pessoa que aquilo é errado.


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ENTREVISTA Terapeuta ocupacional Pamylla Lima fala sobre cotas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho e a importância da assistência familiar

“Ensino regular contribui para inclusão” BRENDA HERÊNIO

Pamylla Lima é terapeuta ocupacional no Centro de Referência da Pessoa com Deficiência em Imperatriz (CRPD) há três meses. O Centro é um programa assistencial mantido pela Prefeitura Municipal de Imperatriz por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). Em entrevista, ela afirma acreditar que o acompanhamento individual tem que acontecer em paralelo à escola. E que as cotas para pessoas com deficiência precisam ser mais incrementadas para que elas sejam incluídas no mercado de trabalho. Na sua opinião, a lei que tem obrigado de certa forma a inserção de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, diminui ou aumenta o preconceito? O deficiente é empregado pela existência dessa lei e não pelos seu atributos intelectuais? Na minha opinião, essa lei inclui o deficiente por diversas razões. O deficiente tem algumas limitações, mas isso não impede que a empresa exija competência, habilidade e agilidade, e nem sempre o portador vai ter. Quando o deficiente vai entrar no mercado de trabalho sabendo que vai ter uma vaga pra ele, ele fica um pouquinho mais animado, até porque a quantidade de pessoas com deficiência é menor do que a quantidade de pessoas que não tem deficiência, então a concorrência pra ele é menor. Sou a favor, pelo que eu acompanho e pelo que eu escuto deles também, acredito que tinham que haver até mais vagas. Mas é a minha opinião, pode ser que a sociedade não pense assim. Você afirmou que a famÍlia tem um grande peso na reabilitação da pessoa com deficiência. Por que você acha que muitas mães tem mantido seus filhos deficientes em casa? Pre-

ANANDA PORTILHO

conceito ou cuidado excessivo? Os dois, na verdade acho que mais preconceito. Medo do que outros vão dizer. Quando a mãe gera um bebê, ela gera pensando que ele vai sair perfeito, que ele vai se formar e ter uma grande profissão. Então, quando ela deixa seu filho em casa é porque tem medo do que os outros vão pensar. Segundo: tem medo de pegar alguma doença quando é bebezinho, quando tem o sistema de defesa baixo, e por último, tem medo de que os outros possam machucá-lo. Esse último acontece principalmente quando chega na idade escolar, 4 ou 5 anos e a mãe diz: “Eu acho que não tá na hora, porque ele vai cair, não sabe falar, escutar e a professora não vai cuidar dele direito”. Claro que depende muito da fase, mas

No Centro, você acompanha muitas pessoas com deficiência. Existe alguma história de superação que você destacaria? Existem várias. Na verdade, eu estou a pouco tempo aqui no Centro. Já percebi avanços na área de conhecimento e de aprendizado. Os alunos que fazem Braile, são comprometidos com o horário e em aprender, tem aquela vontade e compromisso. Na parte de computação eles têm aprendido muito também, alguns têm um limite e o professor sabe disso. É muito gratificante ver pessoas com grandes limitações, às vezes até na área mental, conseguirem ligar o computador, fazer uma atividade que a gente faz no dia a dia. A pintura também é outra atividade que eles fazem aqui. A gente observa o jogo de cores que eles fazem, a melhora na coordenação motora para os que têm paralisia cerebral. Então, essa é a superação, eles conseguirem fazer algo que eles não conseguiam fazer antes de vir pra cá.

“Acredito que a melhor opção é a paralela: frequentar a escola e ter aula de reforço”

a mãe também tem essa dificuldade de mostrar o filho pra sociedade. Por mais que ela não fale isso, as ações demonstram. Muitas pessoas acreditam que a melhor escolha para uma pessoa com deficiência é um acompanhamento individual. Elas creem que numa escola de ensino regular esse tipo de pessoa com deficiência não rende o bastante ou não acompanha os outros alunos. O que você acha desse pensamento? Eu acho que o acompanhamento individual tem que acontecer paralelo à escola, porque a escola é um local

atendimento na própria escola, individualizado.

Terapauta ocupacional Pamylla Lima fala sobre inclusão de deficiente no mercado de trabalho

onde há, além da questão da educação, a inclusão. Por mais que ele não desenvolva como uma outra criança, ou como a professora gostaria que ele desenvolvesse, o mínimo possível ele vai conseguir, alguma capacidade será desenvolvida. O que é melhor do que se ele fosse atendido somente individualmente. Acredito que a melhor

opção é a paralela: frequentar a escola e ter aula de reforço. Tem alguns municípios que já estão trabalhando assim, quando a professora identifica o problema intelectual ou de aprendizado, já encaminha pra psicopedagoga do município e ela já atende a criança. Tira ele de sala alguns minutos, uma hora em média, e faz uma sessão de

Você acha que atualmente o centro recebe os recursos financeiros necessários para os trabalhos oferecidos? Não. Inclusive a verba daqui é muito pouca, o centro recebe R$ 3 mil por mês. É muito pouco, porque a gente precisa de material adaptado e de equipamentos. Precisamos de recursos, não pra reabilitação física, mas pra reabilitação social. Precisa de investimento na questão da capacitação dos profissionais, como, por exemplo, na informática. Nós precisamos de dispositivos de acessibilidade que os programas de informática disponibilizam. Se nós recebessemos mais recursos, daria para atender melhor e bem mais a população. Por enquanto o centro só atende a região também por questões financeiras.

ENTREVISTA Alcirene Brito, psicopedagoga do Centro de Referência à Pessoa com Deficiência, discorre sobre as problemáticas desse universo em Imperatriz

“Falta de acessibilidade impede maior autonomia de deficientes” ANANDA PORTILHO

Em Imperatriz, são cerca de 37 mil pessoas com algum tipo de deficiência. A falta de acessibillidade nas ruas, escolas e estabelecimentos impede uma maior autonomia dos deficientes. A psicopedagoga do Centro de Referência à Pessoa com Deficiência (CRPD), Alcirene Brito, fala sobre as problemáticas e os avanços nesse campo. No Centro são oferecidas várias oficinas, como música, artes, esportes e informática. Como essas oficinas contribuem para o desenvolvimento dos usuários? Elas contribuem porque eles conseguem aprender e desenvolver a coordenação motora. Além disso, porque eleva a autoestima deles quando percebem que são realmente capazes de desenvolver as atividades e isso melhora a qualidade de vida deles. Quais as dificuldades de aprendizagem que os usuários mais apresen-

tam? As maiores dificuldades são dos deficientes intelectuais, porque não estiveram na escola desde cedo tendo acompanhamento de especialistas para trabalharem as dificuldades em sala de aula. Os deficientes físicos qua-

“É indispensável essa autonomia. Antes eles não tinham condição de andar a sós. Então os pais tinham que trazer e nem sempre conseguiam”. se não têm limitações no cognitivo e os surdos se comunicam muito bem por meio de Libras. No plano político pedagógico do Centro uma das metas é propiciar a autonomia dos deficientes. Como a autonomia interfere no desenvolvimento deles? É indispensável essa autonomia. Antes

eles não tinham condição de andar a sós. Então, os pais tinham que trazer e nem sempre conseguiam. Hoje eles já têm até um grupo que vem e vão sozinhos. A autonomia no trabalho também. Muitos deles ficavam em casa isolados, hoje estão no mercado de trabalho.

BRENDA HERÊNIO

A falta de acessibilidade é um fator que os impede de adquirir essa autonomia? Sim. Porque limita a possibilidade de desenvolverem uma autonomia maior. Se eles não têm acessibilidade como poderão andar sozinhos, por exemplo? A falta de acessibilidade prejudica muito os avanços deles. Em relação à educação inclusiva como você avalia a atual situação? A inclusão é nova e ainda está em processo de implantação. Estamos tentando mudar essa visão de que eles não aprendem. Mas a inclusão ainda não foi alcançada. Digo isso porque sou professora e na escola eu vejo a dificuldade.

Psicopedagoga do Centro de Referência à Pessoa com Deficiência falando sobre autonomia


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AÇÃO Histórias de esportistas que possuem algum tipo de deficiência demonstram como o esporte pode ajudar a superar obstáculos e realizar grandes feitos

Atletas (re)nascendo por meio do esporte RHAYSA NOVAKOSKI

Antônio Alves da Silva, mais conhecido como PVC, em umas de suas pedaladas costumeiras

ISABEL DELICE

São dez pessoas em quadra. Cinco para cada lado. A bola é arremessada. É cesta e todos comemoram. Os elementos são de um jogo de basquete e a disputa é acirrada. A única diferença é que os jogadores estão sobre cadeira de rodas. Na quadra e em outras modalidades esportivas a superação é a palavra de ordem e de orgulho para deficientes físicos. Eles se organizam em associações para motivar outras pessoas com deficiência. Antônio Alves da Silva, 42 anos, é apaixonado por bicicletas desde os 12. O atleta, também conhecido como PVC, sofreu um acidente que o deixou sem uma das pernas. Foi o começo de um novo estilo de vida. “Costumo dizer que por conta de uma bicicleta me tornei um especial, e por ela voltei à vida”. O acidente aconteceu em uma segunda-feira habitual. Ele saiu com sua moto, para pegar sua bicicleta em um povoado vizinho. No caminho de volta, passando por uma ponte, se deparou com um carro em alta velocidade no sentido contrário. O automóvel o atingiu. Seu corpo foi arremessado e, com o choque, uma de suas pernas foi praticamente decepada. PVC conseguiu superar todas as dificuldades e dedicou todo esforço e amor ao esporte, tornando-se as-

sim, um destaque no ciclismo. Um dos desejos do atleta é participar das próximas paraolimpíadas, no ano de 2016. “O primeiro passo é a profissionalização”. Em Imperatriz, existem apenas dois ciclistas com deficiência física. Nenhum é profissional. O Centro de Assistência Profissionalizante ao Amputado e Deficiente de Imperatriz (Cenapa), possui hoje 18 atletas. O projeto existe há 14 anos. Com suas motos adaptadas e outros transportes, os atletas do time de basquete chegam por volta de 19 horas de uma noite de terça-feira. O time inicia seus trabalhos. As cadeiras apropriadas vão sendo montadas por eles mesmos, e cada um vai se acomodando na sua. Para começar, uma série de alongamentos. Quem os auxilia nessa atividade é a fisioterapeuta do time, Daniele de Carvalho Lima. “Os alongamentos são realizados priorizando os membros superiores”, conta. Todos os semblantes refletem entusiasmo. Edilson Vieira de Sousa, 31 anos, chega ao treino pontualmente. Ele está sempre com um ar descontraído e conversando com todos os colegas. Quando tinha 20 anos, Edilson sofreu um acidente de moto, que o deixou sem uma das pernas. Joga no time há cerca de sete anos e diz que antes de praticar basquete sobre

rodas, fazia parte de uma equipe de futebol para amputados na cidade de Goiânia. ‘‘Era apaixonado por futebol antes do acidente, e isso não mudou’’. Por motivos pessoais, o cadeirante teve que retornar para Imperatriz. Assim que chegou surgiu um convite para jogar basquete, atividade que até hoje pratica. “O esporte veio pra quebrar a barreira do preconceito e até mesmo mostrar superação. Quando você adquire uma deficiência, vai ter que aprender a lidar com ela. A tendência é no primeiro momento ter preconceito consigo”, conta Vieira. O professor de Educação Física, Eriverto Conceição Silva, 34 anos, afirma que o esporte é de extrema importância, principalmente para a coordenação motora. “A prática de atividade física é fundamental em todos os sentidos para as pessoas que têm síndromes ou alguma deficiência. Ajuda inclusive na questão emocional”. Tanto no ciclismo, quanto no basquete sobre rodas, os investimentos por parte do poder público são poucos. De acordo com os jogadores do time do Cenapa, a prefeitura municipal apoia, mas não como deveria. Todos os recursos são obtidos por meio de doação. “Não temos apoio do poder público e a cidade não possui nenhuma infraestrutura”, protesta Antônio.

Cavalos ajudam na recuperação de pacientes pela equoterapia LETICIA SEKITANI SAMIA MULKY

No final da tarde, o Parque de Exposição Lourenço Vieira da Silva, localizado a cinco quilômetros do perímetro urbano de Imperatriz, recebe aproximadamente 16 pessoas especiais para realizar a equoterapia. O tratamento é responsável pelo desenvolvimento dos aspectos cognitivos dos seus pacientes. Lucas Eduardo Gomes tem 16 anos e é um adolescente esguio, pequeno, com um olhar bastante expressivo “Ele fala muito com os olhos”, diz a cuidadora e amiga da família, Gildeane Ribeiro. As sequelas da paralisia infantil não permitem que ele fale ou ande. Mas é notório que o tratamento semanal já ajudou muito. “Percebi com o tempo que ele entende todas as coisas e a coordenação motora também melhorou. Nós desconfiamos até que ele sabe ler, porque quando estou no Facebook e ele está atrás, começa a rir das conversas”. O paciente Gleison da Rocha Lopes é simpático. Cumprimenta nossa equipe de reportagem com um aperto de mão. A deficiência mental faz com que ele se esqueça de coisas simples, como por exemplo, quanto tempo faz o tratamento. “Eu faço há alguns dias aí”. A mãe não confirma sua versão e diz que Gleison cumpre o tratamento há cinco anos. Gleison precisa de ajuda para subir no cavalo, mas cavalga sozinho enquanto o fisioterapeuta observa de perto. Lucas Eduardo é mais dependente. Ele aguarda em um grande colchonete preto no chão. Quando chega sua vez, ele é levado nos braços para montar no cavalo e três pessoas o acompanham no trajeto de 20 minutos.

A equoterapia é um tratamento com cavalos praticado no Brasil desde os anos 1980, quando foi criada a Associação Nacional de Equoterapia. Imperatriz ganhou sua sede no Parque de Exposições em julho de 2007, vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), e atualmente, mantida pelo Ministério da Saúde. Contando com dez funcionários, observa-se uma variedade de profissões, atendendo às necessidades de cada paciente. Os animais usados na terapia são emprestados para o programa. O espaço é cedido pela administração do parque de exposições, que incentiva o projeto. A van da prefeitura passa todo dia para transportar os pacientes que necessitam de ajuda para ir até o local. A equoterapia, que antes abria apenas dez vagas pela pequena quantidade de funcionários, cresceu esse número no último ano devido à nova administração, que solicitou ao governo federal mais vagas em benefício dos pacientes da CAPS e da Apae. Na cidade, o tratamento tem seis anos e já beneficiou dezenas de crianças, jovens e adultos com deficiências físicas ou mentais. O fisioterapeuta Sinval Damasceno é coordenador do projeto há cinco anos. Ele destaca que a iniciativa não é tão comum no Brasil. “Há uma fila de espera de quase 300 pessoas”. Sinval também mensura os benefícios para os praticantes. “Para quem ganhou alta é notório a melhora. Tivemos pacientes com danos leves que já andam com firmeza e habilidade”. O auxiliar técnico e funcionário da equoterapia, Iones Batista, explica, com um grande sorriso no rosto, o quanto o local é harmonioso e

feliz. “Aqui a gente cria afinidade com as famílias, sempre ajudando e principalmente sendo educado”. Batista, que trabalha na iniciativa há três anos, mesmo sem formação superior, entende as necessidades dos pacientes e os trata com proximidade. As mães que frequentam o local já criam certa amizade umas com as outras enquanto esperam seus filhos. Lucas não tem previsão de alta. Mas a acompanhante fala otimista da sua melhora. “Espero que ele continue o tratamento porque ele evoluiu muito. Ele é muito ‘sabido’ e feliz”. A equoterapia acontece de terça à sexta, no Parque de Exposição Lorenço Vieira da Silva. O programa é gratuito e para se inscrever é só ir até o local. O horário de funcionamento do programa é das 17h até as 21h.

Gleison, mais independente. mostra os avanços que teve junto à equoterapia nos últimos cinco anos LETICIA SEKITANI

Lucas, com um grande sorriso no rosto, enquanto faz a terapia acompanhado por um guia e pelos médicos que cuidam de seu tratamento


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SAÚDE Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade pode afetar o aprendizado e a socialização destes portadores e trazer prejuízos para a vida adulta

Vida e dificuldades das mentes inquietas LAÍS FERREIRA

LAÍS FERREIRA

*Lucas é hiperativo e não consegue parar quieto. Ele é uma criança com TDAH e tem dificuldade em manter a concentração em uma atividade por vez ADAYLMA ROCHA

*O nome foi trocado a pedido dos pais para proteger a imagem da criança. São 11h27, *Lucas de seis anos, chega da escola com seu pai. Enquanto corre pela casa, começa a tirar o uniforme escolar. Ele não para de correr. Agora, percorre um corredor que separa a sala e a cozinha, imitando seus super-heróis favoritos. Lucas é portador do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), um problema que aparece na infância e acompanha a pessoa durante toda sua vida. Finalmente senta-se em uma cadeira na sala em frente à televisão para assistir, mas logo se levanta, vai ao corredor procurar um brinquedo que não encontra, se zanga por não ter encontrado. Volta à sala, para em frente ao ventilador e corre novamente para cozinha. São 11h32, se passaram apenas cinco minutos do contato inicial. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), entre 3% a 6% das crianças são diagnosticadas com TDAH. “Geralmente quem observa os sintomas é o pediatra ou a escola”, conta a psicóloga Júnia Alves. Entre os

principais sintomas estão: fácil distração, ansiedade, dificuldade em manter concentração, perda de objetos e movimentação constante. Lucas é uma criança inteligente, aprendeu a ler aos três anos como a maioria dos colegas. Mas diferente, de seus companheiros, não conseguia parar sentado para assistir a aula. Sua professora da segunda série infantil, o colocava em suas pernas até ele terminar a sua atividade para não prejudicar o seu aprendizado. Hoje em Imperatriz, não há um local que atenda crianças com TDAH. Nossa equipe de reportagem foi à Secretaria Municipal de Educação (Semed), que nos encaminhou para o Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPS Infantil). Lá, nos informaram que devido à grande demanda, só atendem crianças com transtorno mental. O Setor de Inclusão e Atenção à Diversidade (Siadi) nos encaminhou para o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), que por sua vez nos informou que só fazem acompanhamento familiar e tornou a nos encaminhar ao Siadi. David América Viana, 12 anos, foi diagnosticado com TDAH pelo

Siadi esse ano. “A psicóloga que veio na escola (Moreira Neto) e diagnosticou”, conta Joana América, sua avó. Ela complementa cogitando: “Acho que desde a barriga da mãe ele já era agitado”. As crianças com TDAH têm muita dificuldade em manter atenção em uma atividade específica. “Eu não consigo me concentrar mesmo”, afirma David.

Interação - Para essas crianças, além das problemáticas que envolvem essa doença, se relacionar com outras pessoas também se torna um desafio. “O prejuízo para a vida adulta são diversos, eles são mal interpretados pelos colegas”, conta Júnia. David já sofre com a falta de conhecimento das pessoas. “Por enquanto ele não tem amigos. As outras mães não deixam muito. Acho que é porque as brincadeiras dele são mais pesadas”, conta, emocionada, a avó de David. Ela entende que ele tenta mudar, embora não consiga sem antes começar o tratamento que a mãe dele procura e completa: “No interior as pessoas não entendem, dizem que é só sem-vergonhice”. David é uma criança portadora do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH)

Decisão garante reformulação no tratamento de transtornos mentais RAONNI VELOSO

Às oito horas da manhã, familiares e paciente dão risadas enquanto se alongam. Alguns estão tímidos e outros já parecem saber o que deve ser feito, enquanto uma professora de educação física aponta os comandos. Essa realidade é parte do tratamento oferecido por um dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em Imperatriz, que nada se assemelha ao que ocorria no antigo hospital psiquiátrico. Devido a uma determinação do Ministério Público em novembro de 2011, a cidade garantiu uma reformulação no tratamento de transtornos mentais, na tentativa de torná-lo mais humanizado. Quando o hospital psiquiátrico foi fechado, contava com cerca de 300 pacientes internados. “Eles viviam como em uma prisão”, explica a cuidadora social Evanilde Lima, antiga funcionária do Hospital Psiquiátrico. Hoje a estrutura de atendimento aos por-

tadores de transtornos mentais funciona integrando o trabalho do Caps AD, o CAPS Infantil, o CAPS II e o CAPS III. A dona de casa Raimunda Nonata fala com entusiasmo sobre o tratamento oferecido a sua filha no CAPS. “Hoje já posso dizer que minha filha está quase boa”. Há sete

LAWSON ALMEIDA

“Eles viviam como em uma prisão” anos a filha teve que ser internada no hospital psiquiátrico por meses, porém não obteve nenhuma melhora. Jackson Silva, 13 anos, é paciente do CAPS há um ano, e relata em um dos ambientes, em meio a inúmeros brinquedos espalhados pela brinquedoteca, que conta os dias para a próxima visita, pois já tem inúmeros amigos que conheceu ao longo do tratamento. No lugar de internações e tra-

Pacientes e familiares participando de atividades recreativas no CAPS Infantil no início da manhã

tamentos que se baseavam quase que completamente em medicações, hoje os pacientes contam com oficinas, aulas de canto, teatro, música, além de visitas periódicas a familiares. Em círculo, em um tom informal, alguns familiares conversam com profissionais da saúde mental, expõem suas dificuldades, compartilham emoções, contam piadas e falam sobre o andamento dos tratamentos. Reuniões com os familiares são frequentes e encaradas como parte essencial do tratamento. “A família é uma peça importantíssima para a eficiência do tratamento”, confirma a assistente social Marlene Alves. A auxiliar administrativa Erivania Santos, que hoje trabalha no CAPS Infantil, conta que na época do hospital psiquiátrico não havia ligação nenhuma entre o paciente e a família, e que, em alguns casos, a família “esquecia” o paciente e não voltava para buscá-lo. “O tratamento não envolvia a família, não era humanizado”.


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TRANSTORNO MENTAL Os reflexos da reforma psiquiátrica vividos por Edla Brilhante e contados por pessoas que têm relações próximas com a saúde mental de Imperatriz

Brilhante: lágrimas e conflitos familiares SAMIA MULKY

mílias a melhor forma de recuperação do paciente. Edla Paula Brilhante é uma A enfermeira Gleiciane Maadulta de 24 anos conhecida tam- deira trabalha com saúde mental bém como “Nega”. Foi encontrada há seis anos e elenca as transforquatro horas após seu nascimento mações que a reforma psiquiátriem frente a uma loja de confecção ca trouxe para o tratamento das no Mercadinho, próximo à antiga doenças mentais. “Eu tive a oporrodoviária de Imperatriz. Ela foi tunidade de trabalhar em uma clídiagnosticada com retardo mental nica psiquiátrica e no Centro de moderado na infância. Após inter- Atenção Psicossocial de Imperatriz nações, acolhimentos, agressões (CAPS). Os pacientes eram tratados à família, e outras histórias, Edla de maneira desumana antes da reacompanha cronologicamente o forma. O CAPS é acolhedor e aconsistema psiquiátrico de Imperatriz chegante no trato com eles, devole suas mudanças. ve a dignidade a esses usuários”. Em 2001, o Brasil aprovou Denise Ayres, professora do mudanças estratégicas para o tra- curso de Comunicação Social - Jortamento das pessoas portadoras nalismo, estuda a reforma psiquiáde transtortrica no Brasil. nos mentais. Sobre o assun“Ela quer dinheiro, O modelo to, a estudiosa quando não tem, me bate, faz um panode internação em casas rama levando rouba os vizinhos. Ela ou hospitais em considequer comprar biscoito, psiquiátricos ração a atual foi substitusituação das refrigerante e cigarro. ído por um clínicas. “EsDos cigarros, fuma dois, sistema que tamos em um permite o processo. Há rasga os outros com as paciente incríticos da mãos e joga na calçada.” teragir com reforma psia família. As quiátrica que longas interdizem que os nações caíram em desuso. O novo pacientes estão desamparados. Por tratamento usa como base o aco- outro lado, os reformistas dizem lhimento, já que o paciente passa que as pessoas com deficiência um tempo reduzido nas unidades intelectual precisam de uma assisde saúde. Há uma equipe multipro- tência descentralizada e multidisfissional que participa de todo o ciplinar, que foi um ganho para o processo. Psicólogos, psiquiatras, tratamento das doenças mentais”. enfermeiros, discutem junto às faO CAPS recebe, segundo o paLETÍCIA SEKITANI

SAMIA MULKY

Erismar Brilhante, mãe adotiva de Edla Brilhante, se recorda da história da filha com um tom enorme de emoção e sensibilidade

Edla Paula Brilhante do lado de fora do Caps, esperando o transporte para ir para casa

drão de atendimento da reforma tando para a perna com um grande ram para não serem identificadas psiquiátrica, pessoas que apresen- machucado. na reportagem, afirmaram que sua A mãe conta que na noite an- agressividade é resultado de um tam transtorno mental grave ou gravíssimo. O Centro acolhe os pa- terior, Nega procurou dinheiro tratamento ineficaz recebido nesse cientes e os trata até receber a alta em todas as roupas de cama que local. do médico responsável. Nas sema- estavam em uma mala dentro do O perfil agressivo, violento nas que Edla recebe o documento guarda roupa. “Ela bagunçou tudo, e intimidador, não foi constatado que libera sua ida para casa o des- deixou tudo jogado. Depois saiu em nenhum dos nossos dois gosto arrebata sua família. “Todas para a rua”. Erismar ultimamente encontros. Pelo contrário, as vezes que ela vem para casa, ela convive com a angústia durante as quando soube que iríamos visitanoites mal dormidas. “Eu fico espe- la, ficou bastante feliz. “Vocês bate na mãe”, afirma a irmã Edla. Chegamos a uma casa pequena, rando a notícia da morte dela. Ela vão lá mesmo, né?”, confirmou. escura, sem ventilação. Começamos já roubou R$ 3,5 mil. Já atirou pePara a professora Denise a entrevista com a irmã de Edla. Ela dra nas janelas de moradores. Che- Ayres, o comportamento agressivo tem três filhos, dois estão de pessoas com transtornos à espreita, enquanto “As pesquisas provam que qualquer mentais não é reflexo de sua amamenta a caçula. Edla deficiência. “As pesquisas pessoa que tem transtorno mental, provam que qualquer pessoa conta que se preoucupa com o comportamento da que tem transtorno mental, não é mais violenta que outra irmã: “Eu tenho medo dela não é mais violenta que outra pessoa dita normal. Isso é um mito pessoa dita normal. Isso matar a mãe, você vai se assustar quando ela sair do é um mito que precisa ser que precisa ser desfeito na nossa quarto.” Erismar Brilhante desfeito na nossa sociedade”. sociedade”. sai do quarto. Tem a voz No meio da entrevista com a baixa, embargada, o enfermeira, entra na sala Edla rosto cheio de linhas Paula Brilhante. Sua aparência expressivas. Seu olhar é triste. As ga nos bares e rouba cerveja dos é masculina, cabelo raspado, marcas estão por todo o corpo. clientes. Apesar de tudo, eu tenho roupas largas e sujas. O receio de Conta-nos sobre a diária rotina medo de matarem ela”. um ataque tomou conta da equipe Em Imperatriz, a situação da de reportagem. Já tínhamos sido de agressões que sofre. “Ela quer dinheiro, quando não tem, me reforma precisa ser mais bem es- informados que ela era agressiva. bate, rouba os vizinhos. Ela quer truturada. Faltam médicos psi- Ela observa as pessoas estranhas, comprar biscoito, refrigerante e quiatras, psicólogos, enfermeiros mas age com carinho e nos recebe cigarro. Dos cigarros, fuma dois, e terapeutas para melhorar o aco- com um abraço. Pega o celular que rasga os outros com as mãos e lhimento dos seus pacientes. En- estávamos usando para gravar a joga na calçada. Os biscoitos e quanto isso, Edla vive a mercê dos entrevista, mas é advertida para refrigerante ela compra e divide dois tratamentos. Na infância e devolver o aparelho pela enfermeira. com as crianças ou pessoas que ela adolescência ficou reclusa na anAinda assim, a família pede a tiga clínica Naise que internava os internação e o CAPS, dentro de suas gosta”. “Essa aqui é uma ferida, que pacientes com transtornos mentais limitações, oferece um tratamento ela fez, me batendo”, afirma, apon- em Imperatriz. Pessoas que pedi- que, segundo a mãe, não é suficiente.

Arrocha deficientes 5 dezembro  
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