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DE 5 A 10 DE DEZEMBRO

IFFAM

SOFIA MARGARIDA MOTA

ESTE SUPLEMENTO É PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU DE 11 DE DEZEMBRO DE 2019 E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

VITÓRIADARESILIÊNCIA


IFFAM

GIVE ME LIBERTY ARRECADA PRÉMIO PARA MELHOR FILME

Pedro Arede

info@hojemacau.com.mo

Na Competição Internacional, o prémio de melhor filme foi para Give me Liberty, dos Estados Unidos da América. Lynn + Lucy, uma co-produção de Inglaterra e França arrecadou os galardões de melhor realizador e melhor actriz. Já na competição dedicada ao Novo Cinema Chinês o melhor filme foi Dwelling in the Fuchun Mountains, de Gu Xiaogang E NO FINAL, o amor do Milwaukee acabou mesmo por vencer. Give me Liberty, filme nascido das profundezas do cinema independente dos Estados Unidos da América e realizado pelo russo Kirill Mikhanovsky arrecadou o galardão de melhor filme da Competição Internacional do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM). Cinco anos depois de um conturbado processo, quer a nível financeiro, quer a nível de produção, até pelo “simples” facto de o filme contar com actores não-profissionais (alguns com mais de 80 anos) e outros, portadores de deficiências, o realizador russo e a argumentista norte-americana Alice Austen mostraram-se radiantes após a distinção. “É um sentimento incrível, sobretudo pelo trabalho de todas as pessoas que fizeram parte deste filme, que por pouco não existia. Cada momento que contribuíu para a produção deste filme é um milagre. Estamos aqui para celebrar a comédia da vida, pois essa é a única maneira de enfrentar a realidade”, disse Kirill Mikhanovsky. “Este

filme é muito dramático mas conseguimos sempre encontrar sentido de humor nos momentos mais difíceis”, acrescentou Alice Austen. Acerca do filme, passado num dia da vida de um jovem que conduz uma carrinha de transporte de pessoas que necessitam de cuidados de saúde na “segregada” e complexa cidade do Milwaukee, o realizador disse há dias, numa entrevista concedida ao HM, que o filme “não é sobre pessoas com deficiência, nem sobre racismo. É um filme sobre humanidade, com uma história muito simples, que se assume como um pretexto para um tema maior, uma ponderação filosófica quase, acerca do destino da América e também do mundo”. Lynn + Lucy foi outro dos vencedores da noite, ao arrecadar dois prémios da Competição Internacional do IFFAM: Melhor Realizador, atribuído a Fyzal Boulifa, e Melhor Actriz, atribuído a Roxanna Scrimshaw. Lynn e Lucy fala da história de duas amigas desde os tempos da escola, que acabam por desenvolver uma relação tão intensa como qualquer romance.

“Depois do prémio de melhor actriz nunca pensei que pudessemos ganhar mais um. Fico muito contente por todos os que fizeram parte deste filme e em especial pela Roxanna Scrimshaw porque ela não tinha qualquer experiência prévia em cinema”, foi desta forma que reagiu Fyzal Boulifa após Lynn + Lucy ter sido distinguido com dois prémios. Já o prémio de Melhor Actor foi atribuído a Sarm Heng, pelo seu desempenho em Buoyancy, filme realizado pelo australiano Rodd Rathjen que conta a história de Chakra, um jovem do Cambodja com 14 anos, que acaba juntamente com o seu colega Kea, por ser escravizado por um capitão de um barco de pesca tailandês, após ter partido em busca oportunidade de ter um trabalho remunerado numa fábrica. Buoyancy foi ainda galardoado com o prémio do público.

“Decidimos rapidamente os prémios e isso, para mim, é um sucesso.” PETER CHAN PRESIDENTE DO JÚRI DA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

FOTOS SOFIA MARGARIDA MOTA

E o vence Por fim, o prémio de Melhor Argumento foi para o neo-zelandês Hamish Bennet, realizador e argumentista de Bellbird, filme que a história de Ross, um agricultor parco em palavras, que parece perder o rumo da vida, a partir do momento em que a sua mulher Beth, morre inesperadamente. O presidente do Júri da Competição Internacional, Peter Chan sublinhou o facto de os membros do júri terem “uma ideia comum” e de não

ter havido discussões para encontrar os vencedores. “Decidimos rapidamente os prémios e isso, para mim, é um sucesso”, disse Peter Chan. O presidente do júri enalteceu ainda a juventude dos realizadores presentes no festival que estão a produzir as suas primeiras ou segundas obras.

OS MELHORES DA CHINA

Dwelling in the Fuchun Mountains, de Gu Xiaogang venceu o prémio de melhor filme na competição dedica-


“Cada momento que contribuiu para a produção deste filme é um milagre. Estamos aqui para celebrar a comédia da vida, pois essa é a única maneira de enfrentar a realidade”

edor é KIRILL MIKHANOVSKY REALIZADOR DE GIVE ME LIBERTY

“Penso que este tema do bullying das escolas é uma questão social que conseguimos chamar à atenção do público” ZHOU DONG YU ACTRIZ EM BETTER DAYS

da ao Novo Cinema Chinês. Inspirado no título de uma famosa pintura chinesa de Huang Gongwang, Dwelling in the Fuchun Mountains conta o drama familiar de quatro irmãos que assistem ao declínio de saúde da mãe, ao longo das quatro estações do ano. Já com o troféu nas mãos, o realizador agradeceu o apoio de todos os que ajudaram a obra a tornar-se realidade e falou da homenagem à cultura chinesa que o filme pretende também ser.

“Este filme conta a história de uma família contemporânea (…) que tem de cuidar da sua mãe, assumindo-se como um reflexo actual da sociedade chinesa. O processo de gravação foi muito difícil pois o filme passa-se em quatro estações, o que

implicou fazer gravações durante dois anos”, referiu. Já o prémio de Melhor Realizador foi atribuído a Anthony Chen, pelo seu trabalho em Wet Season, filme que tem como pano de fundo Singapura. “É uma honra ganhar este prémio e agradeço ao Festival de Cinema de Macau. Acho que este filme é muito especial até porque, no início, não estava à espera de voltar a utilizar os mesmos actores”, apontou Anthony Chen. Zhou Dong Yu foi a vencedora do prémio de Melhor Actriz pela sua prestação em Better Days, filme realizado por Derek Kwok-cheung Tsang. Adaptado do romance “In His Youth”, Better Days conta a história de uma jovem estudante vítima de bullying, no contexto da preparação dos exigentes exames de admissão à Universidade na China, intitulados de gaokao. Para a actriz receber este prémio foi “um momento muito emocionante. Penso que este tema do bullying das escolas é uma questão social que conseguimos chamar à atenção do público”, explicou Zhou Dong Yu. Já o prémio de Melhor Actor foi atribuído a Wu Xiao Liang pela sua prestação em Wisdom Tooth. O melhor actor da competição do Novo Cinema Chinês admitiu que o prémio “foi uma surpresa” e sublinhou que este foi um filme “muito difícil de fazer e que tem muita paixão”, até pelas condições climatéricas adversas que encontraram no norte da China. “Havia momentos em que estava tanto frio que era impossível abrir a boca para dizer as deixas”, partilhou. Por fim, o prémio de Melhor Argumento distinguiu Johnny Ma pelo seu trabalho em To Live to Sing, que o próprio também realizou. Para Ma, apesar de o processo ter sido “mui-

quarta-feira 11.12.2019

“Comparado com outros lugares, a China é o lugar mais difícil para se fazer um filme”

JOHNNY MA REALIZADOR E ARGUMENTISTA DE TO LIVE TO SING to difícil” é depois compensador quando “oferecemos uma história ao público”. “Quero, por isso, agradecer à minha equipa, pois comparado com outros lugares, a China é o lugar mais difícil para se fazer um filme”, desabafou Johnny Ma.

DISTINÇÕES HONROSAS • 2019 ASIAN BLOCKBUSTER FILM 2019: Parasite (Coreia do Sul) • NETPAC AWARD: “To Live to Sing”, de Johnny Ma • “SPIRIT OF CINEMA” ACHIEVEMENT AWARD: Li Shao Hong (A City Called Macau) • CINEPHILIA CRITIC’S AWARD: “Wet Season”, de Anthony Chen • CINEPHILIA CRITIC’S AWARD FOR BEST MACAU FILM: “Years of Macao, de Tou Kim Hong, Penny Lam, Albert Chu, Emily Chan, Peeko Wong, Chao Koi Wang, Maxim Bessmertny, Ao Leong Weng Fong e António Caetano de Faria


IFFAM

JULIETTE BINOCHE

quarta-feira 11.12.2019

ACTRIZ

“Estou solidária com os artistas que não se podem exprimir livremente aqui” Pedro Arede

info@hojemacau.com.mo

JULIETTE BINOCHE, aclamada actriz francesa que se tornou na primeira a ser galardoada com o prémio de Melhor Actriz nos três principais festivais de cinema europeus, mostrou-se ontem solidária com os artistas que têm de ver as suas obras escrutinadas pela censura chinesa. No entanto, para Binoche que só sabe “viver de forma independente”, há sempre maneira de continuar a desenvolver qualquer forma de arte. “Eu quero ser livre e vou ser livre, mas há muitas formas de o ser. Como actores também temos limites: temos de saber as nossas deixas, as nossas marcações e, às vezes, só temos a oportunidade de fazer um take. Mas no interior, temos de encontrar o nosso caminho (...). Por isso há sempre formas de nos expressar e estou solidária com os artistas que não se podem exprimir livremente aqui”. “Há sempre limites, mas para mim a arte deve ser levada o mais longe possível”, partilhou Juliette Binoche quando questionada pelos jornalistas sobre a forma como iria lidar com a censura na China, caso aceitasse o convite lançado no dia anterior

SOFIA MARGARIDA MOTA

A “embaixadora-estrela” da quarta edição do Festival Internacional de Cinema de Macau (IFFAM), defende que “há muitas formas de ser livre”, mesmo quando existe censura

por Diao Yinan, realizador chinês que em 2014 venceu o Urso de Ouro em Berlim pelo filme “Black Coal, Thin Ice”, para participar num filme por ele realizado. Acreditando que a essência do seu trabalho como actriz, e no limite, de uma boa cena, está numa “certa incerteza” e “na energia que existe em saltar para o desconhecido”, Juliette Binoche falou da importância que a descoberta e a vontade de aprender têm para si.

“A curiosidade é a base da humanidade. É possível aprender interagindo, viajando (...) é essa paixão que me leva a ir, a paixão de aprender o contacto com grandes artistas”, referiu.

REALIZAR? TALVEZ UM DIA

Questionada sobre a possibilidade de vir a realizar os seus próprios filmes, a actriz francesa admite que até “pode acontecer”, mas que,

MARIA HELENA DE SENNA FERNANDES directora da DST e presidente da comissão organizadora anteriores e isso é bom sinal”, referiu Maria Helena de Senna Fernandes. A presidente da comissão organizadora do IFFAM recordou as dificuldades que marcaram as primeiras edições, onde foi “preciso aprender quase tudo acerca da realização de um festival” e as mudanças que foram feitas a partir da segunda edição, que classificou com um ano de “reorganização”, marcado SOFIA MARGARIDA MOTA

EM ENTREVISTA, a Directora dos Serviços de Turismo e Presidente da comissão organizadora do Festival Internacional e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM), Maria Helena de Senna Fernandes fez um balanço dos últimos quatro anos de festival e apontou, apesar das muitas dificuldades, que a edição deste ano foi pautada por um sentimento de consolidação e de maior adesão por parte do público e da indústria. “O Mike [Goodridge] disseme que este ano foi mais fácil atrair novos projectos que nos anos anteriores (...). Temos que dar confiança às pessoas, aos filmes e sobretudo às distribuídoras, que nos oferecem os seus filmes. Este ano foi já muito mais fácil do que nos anos

por uma nova direcção artística chefiada por Mike Goodridge. Depois de uma terceira edição apostada em atrair “bons projectos e bons filmes”, Maria Helena de Sena Fernandes sentiu grandes melhorias, consistência ao nível dos conteúdos e, sobretudo, menor preocupação com a organização, porque “a equipa está cada vez mais madura e sabe o que é necessário”.

neste momento, se sente sortuda por trabalhar com realizadores e equipas fantásticas. “Se não tivesse essa oportunidade provavelmente escreveria e realizava eu”, explicou Juliette Binoche, vencedora do Óscar de MelhorActriz Secundária pela sua prestação em “O Paciente Inglês” (1997), uma das obras destacadas no evento “Em conversa com Juliette Binoche” do IFFAM. “O momento da pós-produção é quando o realizador tem verdadeiramente o poder. É aqui que o filme está mesmo a ser feito e o realizador pode mostrar a sua inteligência, sabedoria e também o artista que é, ao nível do ritmo, por respeitar ou não aquilo que foi gravado, por adicionar música ou confiar pura e simplesmente na forma como estava planeado”, referiu Juliette Binoche. “Lembro-me de uma cena que o Anthony Minghella, realizador do Paciente Inglês, gravou entre o Kip e a minha personagem no sótão da casa, e ele, que acabou por cortar essa parte, resolveu usar uma reacção minha gravada nessa cena, noutro contexto completamente diferente, onde o Willem Dafoe revela ser o paciente inglês. E nesse momento a minha personagem passa a ouvir o que se está a passar e a estar envolvida no segredo. Fiquei impressionada por ele ter sido capaz de fazer isso”, exemplificou a actriz francesa.

“De facto, de todos os quatro anos, este ano foi aquele em que fizemos menos reuniões internas, porque quase toda a gente já sabe o que é necessário e conhecem melhor (...) os pontos em que temos de ter mais atenção. Por causa disso eu não tenho que chamar as pessoas a atenção este ano e isso é bom sinal”, explicou a Directora dos Serviços de Turismo. Quanto à adesão, apesar de admitir “continuar a ser uma batalha”, Maria Helena de Sena Fernandes afirmou que a quarta edição do IFFAM assistiu a uma procura superior, até porque a “equipa de programação está agora mais sensível ao gosto do público”. Sublinhando que “nem todos os filmes estiveram lotados porque (...) há muita

“A média de lotação tem sido de 80%” oferta” e existe a vontade de criar “o hábito de comprar bilhetes”, a lotação média em sala tinha sido positiva, tendo chegado aos 80 por cento.

PARA CONTINUAR

Não querendo comprometerse com a realização da próxima edição do IFFAM em 2020 por não ter ainda tido oportunidade de debater o assunto com a nova secretária para os Assuntos Sociais e Cultura do novo Executivo, Ao Ieong U,

Maria Helena de Sena Fernandes afirmou contudo que, seja de que forma for, a aposta do Governo nas indústrias criativas, e em particular no cinema é para continuar. “Esta é uma aposta do Governo, que sempre deu oportunidades às indústrias criativas, até porque em Macau há muita gente que quer fazer filmes e entrar no circuito de produção. Por isso, temos de dar oportunidades e haverá sempre maneira de apoiar”, explicou. P.A.

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MIFF 2019 #4  

Especial Festival Internacional de Cinema de Macau 2019 - 11 DEZ 2019

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