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Nº 4790 RÓMULO SANTOS

QUINTA-FEIRA 17-6-2021 DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10

ENXURRADA DE CRÍTICAS PÁGINAS 4-5

SANDS VS AAEC

O CASO BILIONÁRIO PÁGINA 7

Nem Formosa nem segura Macau decidiu encerrar, por tempo indeterminado, a Delegação Económica e Cultural em Taiwan. A não aprovação da ‘‘renovação dos documentos dos actuais e novos funcionários do organismo’’ terá estado na origem do encer-

ramento, segundo o Governo. Taiwan já lamentou a decisão ‘‘unilateral’’ do Executivo de Macau, que anunciou, entretanto, a criação de linhas abertas para apoiar os residentes da RAEM que permanecem na Formosa. GRANDE PLANO

TAISHAN

TUDO NOS LIMITES PÁGINA 11

OPINIÃO

CLIMA E POLÍTICA

JOSÉ RODRIGUES SIMÃO

LITERATURA

HISTÓRIA INÉDITA EVENTOS

EURO 2020

COM DEDO DE RONALDO CENTRAIS

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AL | INUNDAÇÕES

hoje macau


2 grande plano

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ADMINISTRAÇÃO MACAU SUSPENDE FUNCIONAMENTO DE DELEGAÇÃO EM TAIWAN

As pedras no caminho

O Executivo vai suspender temporariamente, a partir de sábado, o funcionamento da Delegação Económica e Cultural de Macau em Taiwan. A suspensão foi justificada com a não renovação dos documentos de funcionários do organismo. O Governo de Taiwan lamentou a posição “unilateral” de Macau. Entretanto, as autoridades da RAEM vão criar linhas abertas para apoiar os residentes que estão em Taiwan

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Governo anunciou ontem que vai suspender temporariamente, a partir de sábado, o funcionamento da Delegação Económica e Cultural de Macau em Taiwan, justificando a decisão com o facto de a “renovação dos documentos dos actuais e dos novos funcionários do organismo, até ao momento, não terem sido aprovados”. No entanto, o Executivo garante que “tem procedido, de acordo com a lei, com as formalidades de apreciação dos pedidos de documentos dos funcionários da Delegação de Taiwan em Macau”, ou seja, as autoridades da RAEM argumentam a falta de reciprocidade no tratamento de documentação. Além disso, o Executivo indica que desde que a RAEM foi estabelecida “tem promovido de forma pragmática o desenvolvimento estável da relação entre Macau e Taiwan”. “Em 2011, com o reconhecimento mútuo do «consenso 1992», como fundamento político, foi alcançado consenso quanto à instalação das respectivas delegações, marcando, a partir desse momento, o início do funcionamento de ambas as delegações”, contextualiza o Executivo. A Delegação Económica e Cultural de Macau em Taiwan, criada pelo Governo da RAEM, iniciou oficialmente as suas funções em Dezembro de 2011.


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soal da delegação acusando o Governo de Tsai Ing-wen de “interferência grosseira” nos assuntos da RAEHK. Sem dar detalhes, ou exemplos concretos, o Executivo de Carrie Lam afirmou que as relações com Taiwan estavam “severamente danificadas”, o que terá colocado em perigo os funcionários da delegação.

Alunos pendurados

Ainda no comunicado que explica a decisão, no que toca aos assuntos entre as duas regiões, o Governo da RAEM “agirá, como sempre, de acordo com a Lei Básica, o princípio de “uma única China”, assim como o princípio e política fundamental do Governo Central sobre os assuntos entre Macau e Taiwan”. Em resposta ao anúncio da suspensão, o Conselho dos Assuntos do Continente do Governo de Taiwan lamentou em comunicado a decisão “unilateral” da RAEM. “Sempre mantivemos uma atitude de boa vontade e benefício mútuo e tentámos o nosso melhor para prestar assistência”, referiu o organismo da Formosa, acrescentando que Taiwan irá manter aberta a representação em Macau. Até ao fecho da edição, o Governo de Taiwan não comentou a justificação dada pela RAEM, divulgada cerca de oito horas após o anúncio da suspensão de actividade da delegação na Formosa.

Por arrasto

No passado dia 18 de Maio, Hong Kong emitiu um comunicado semelhante a dar conta da suspensão do funcionamento da sua delegação em Taiwan, também sem adiantar razões. Porém, passados três dias do anúncio, o Executivo de Carrie Lam veio a público justificar a retirada de Taiwan de pes-

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Enquanto a representação estiver encerrada, o Executivo “vai criar, através da Direcção dos Serviços de Turismo, uma linha aberta de 24 horas (+853 2833 3000) para lidar com pedidos de informação em geral e prestar, não apenas serviços de apoio aos residentes de Macau em Taiwan, mas também informações relacionadas com Macau aos residentes de Taiwan”. Para pedir informações relacionadas com a pandemia, o Executivo sugere a linha aberta (+853) 2870 0800. De acordo com a Direcção dos Serviços de Educação e de Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) estudam em Taiwan entre 3.000 e 4.000 residentes de Macau. No final de Maio deste ano, a DSEDJ indicou que mais de 800 estudantes pretendiam regressar à RAEM até Agosto. Há pouco mais de três semanas, o Governo garantia que a DSEDJ iria manter contacto próximo com as autoridades de Taiwan para apoiar os alunos. Na conferência de imprensa do Centro de Coordenação e Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, os representantes do Governo foram ontem questionados sobre o encerramento da delegação, e se estaria relacionada com o aumento de casos de covid-19 em Taiwan. No entanto, foi dito que não dispõem de mais informações.

“Sempre mantivemos uma atitude de boa vontade e benefício mútuo e tentámos o nosso melhor para prestar assistência.” CONSELHO DOS ASSUNTOS DO CONTINENTE DO GOVERNO DE TAIWAN

Lau Fong Chi, representante da Direcção dos Serviços de Turismo, assegurou que, até à data, as autoridades de Macau receberam cerca de 37 pedidos de apoio ou informações por mês por parte de residentes em Taiwan O Executivo garante que “tem procedido, de acordo com a lei, com as formalidades de apreciação dos pedidos de documentos dos funcionários da Delegação de Taiwan em Macau”, ou seja, as autoridades da RAEM argumentam falta de reciprocidade Lau Fong Chi, representante da Direcção dos Serviços de Turismo, assegurou que, até à data, as autoridades de Macau receberam cerca de 37 pedidos de apoio ou informações por mês por parte de residentes em Taiwan. Relativamente ao fecho da delegação, ainda não foram feitos quaisquer pedidos. O representante da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude frisou que um terço dos estudantes de Macau que frequentam o ensino superior em Macau já adquiriram bilhetes de avião para o regresso ao território, sendo que “alguns deles já regressaram a Macau”. “Queremos abrir mais linhas abertas e ter mais meios para apoiar os estudantes”, concluiu. João Luz e Andreia

Sofia Silva

Portas fechadas Paul Pun espera maior procura do serviço da Caritas em Taiwan 

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M representante da Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ) referiu ontem que as autoridades de Macau têm contactado diversas associações que prestam apoio aos estudantes de Macau que estão em Taiwan, tendo em conta o encerramento da delegação. Uma delas é o Serviço da Caritas para Estudantes de Macau. Ao HM, Paul Pun, secretário-geral da Caritas, diz que pode haver um aumento do número de pedidos de apoio após o fecho da delegação. “Para já vemos a necessidade de manter este serviço e poderemos ter uma maior procura no futuro, sobretudo da parte dos estudantes.” Ainda assim, Paul Pun diz que esta entidade não tem capacidade para substituir a delegação na pres-

PUB.

tação de alguns serviços, nem pretende fazê-lo. “A delegação é uma entidade governamental e não podemos substituir o Governo, porque somos apenas uma ONG. Não temos o objectivo de substituir nenhuma entidade porque temos uma pequena dimensão.” Paul Pun lembrou que o serviço “pode preencher alguma lacuna se esta surgir”, lembrando que há estudantes de Macau em outros países e que esses também “enfrentam dificuldades”. “Não sei como comentar [o fecho da delegação]. Mas, independentemente da mudança, há sempre várias reacções e necessidades. Se alguém que costumava deslocar-se à delegação e agora se depara com os escritórios fechados, pode contactar o Governo de Macau através das linhas abertas que criaram. Estamos dispostos

a cooperar”, adiantou Paul Pun.

Pedidos em alta

Este serviço da Caritas funciona há vários anos, mas devido à pandemia da covid-19 o número de pedidos disparou. “Recebemos muitos pedidos de pessoas que queriam saber o que fazer, se regressavam a Macau ou se ficavam em Taiwan. Não temos estatísticas dos pedidos, mas o nosso foco principal são os estudantes.” O serviço da Caritas presta apoio em diversas áreas, até a nível psicológico. “Recebemos os pais que viajam de Macau, tratamos de casos de falecimentos, problemas emocionais, e trabalhamos com diferentes organizações. É nosso objectivo a longo prazo ajudar os estudantes de Macau em Taiwan.” A.S.S.


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deputado Au Kam San afirmou ontem que a época “dourada” da indústria do jogo pode ter chegado ao fim, com as alterações à lei no Interior, que criminalizam a angariação de clientes para o jogo no outro lado da fronteira. O democrata considerou assim a necessidade de a economia local se adaptar a uma nova realidade, menos dependente do jogo, que considerou patriota. “Por detrás das receitas anuais de centenas de milhares de milhões de patacas, há sangue. A transferência de riqueza implica que Macau está a ganhar o que os outros perdem. É um derrame de sangue que acarreta montantes avultados de receitas, e que implica, no Interior da China, corrupção, falência de empresas, tragédia de famílias, e mesmo perdas de vida”, afirmou. “É verdade que não aconteceram em Macau, mas enquanto

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JOGO AU KAM SAN FALA DE INDÚSTRIA DE “SANGUE”

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chineses de Macau, que se vangloriam do valor nuclear do “amor à Pátria e a Macau”, não podemos nunca ficar alheios”, acrescentou. O deputado criticou também o desenvolvimento de Macau nos últimos anos, uma vez que considera que o território ficou cada vez mais dependente do jogo. “Esta é também a razão pela qual o Governo Central tem vindo, desde sempre, a pedir a Macau que diversifique as suas indústrias, de modo a reduzir a sua dependência excessiva da indústria do jogo”, explicou. “Porém, a verdade é que, nas últimas duas décadas, a dependência da indústria do jogo não diminuiu, antes se foi tornando cada vez maior, sendo assim cada vez maior o seu peso. A chamada diversificação das indústrias é apenas um slogan, e o facto é que as indústrias em Macau estão a ficar cada vez mais reduzidas”, rematou.

LÍNGUA SULU SOU APELA À DEFESA DO CANTONÊS

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deputado Sulu Sou defendeu ontem a necessidade de proteger o ensino do cantonês e evitar mudanças no ensino da língua chinesa em Macau, face ao avanço do ensino em mandarim. Na Assembleia Legislativa, o democrata reconheceu as vantagens de os residentes aprenderem e dominarem o mandarim, mas considerou que Macau deve manter a sua riqueza cultural. “O cantonês tem muita riqueza e história, e deve ser valorizado e transmitido de geração em geração”, começou por apontar. “Os fenómenos linguísticos do cantonês têm elevadíssimos valores científicos, pois a pronúncia, o léxico e a gramática preservam as características essenciais do chinês medieval, por exemplo, o tom “curto” com consoantes finais, que faz com que a declamação em cantonês de poemas clássicos seja mais respeitadora de rimas, agradável e rítmica”, acrescentou.

A posição de Sulu Sou foi tomada depois de o Ministério da Educação do Interior ter publicado “Relatório da Situação da Vivência Linguística da Grande Baía - 2021”, que elogia a promoção do mandarim em Macau. Sulu Sou vincou que os resultados são vantajosos para as pessoas de Macau, mas mostrou-se preocupado com o facto de haver poucas referências aos dialectos antigos da Grande Baía. Por isso, desafiou os residentes a não desistirem do cantonês. “No futuro, todos os que apreciam as vantagens culturais únicas de Macau devem ter a responsabilidade de exortar o Governo a encorajar os estudantes a aprender bem o mandarim e outras línguas, e, ao mesmo tempo, a investir mais recursos para melhorar as qualificações dos docentes de cantonês e aumentar o número de cursos de cantonês”, indicou. “Gentes de Macau, vamos todos defender o cantonês!”, apelou.

Zheng Anting, deputado “Os serviços competentes identificaram irregularidades em 3 dos 4 restaurantes nas imediações, que não têm retentores de

A falar nos entendemos INUNDAÇÕES PROBLEMA CRÓNICO AGRAVA-SE E MARCA AGENDA DOS DEPUTADOS

As medidas do Governo para lidar com as inundações foram ontem alvo de críticas e os deputados querem ver a situação alterada. A preocupação foi comum a diferentes bancadas do hemiciclo


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RÓMULO SANTOS

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Trabalho Rejeitada discussão de projecto de Pereira Coutinho O deputado José Pereira Coutinho pretendia discutir um projecto de lei para que os empregados deixassem de estar obrigados à confidencialidade das indicações recebidas pelos empregadores, quando as instruções atentassem aos seus direitos laborais. No entanto, a proposta foi recusada pelo presidente da Assembleia Legislativa, que entendeu que o deputado tinha de obter o consentimento do Chefe do Executivo. Coutinho

recusou a indicação e recorreu para o Plenário da AL, já depois da decisão do presidente Kou Hoi In ter sido validada pelos deputados da Assembleia Legislativa. Também no plenário, o deputado apoiado pela Associação de Trabalhadores da Função Pública de Macau foi derrotado. Coutinho contou com o apoio de três deputados, Ng Kuok Cheong, Au Kam San e Sulu, contra o chumbo de outros 27 legisladores.

Covid-19 Ho Ion Sang pede ponderação com gastos em aplicação móvel Ho Ion Sang afirmou ontem que o Governo deve ponderar muito bem antes de lançar uma aplicação que permita saber o percurso de todos os cidadãos, no caso de haver casos comunitários de covid-19. O deputado ligado aos Moradores está preocupado com os gastos e a falta de aceitação da população: “O Governo tem de ponderar cuidadosamente a sua operacionalidade e a aceitabilidade dos residentes, para evitar situações de ineficácia após

gastar grandes recursos e erário público”, avisou. Por outro lado, Ho mostrou-se preocupado com a situação das pessoas que não utilizam telemóveis ou que não estão familiarizados com as diferentes tecnologias. O deputado dos Kaifong pediu ao Governo que face à importância de mostrar a declaração de saúde que tenha métodos alternativos à utilização de telemóveis, como postos com canetas e papel para preencher as declarações.

Fronteiras Deputados nomeados querem menos restrições na circulação gordura adequados e fazem a drenagem de forma ilegal, o que esteve na origem do entupimento”

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S inundações e a necessidade de resolver um problema que se repete anualmente foi um dos principais aspectos focados pelos deputados da Assembleia Legislativa, ontem, durante as intervenções antes da ordem do dia. O primeiro deputado a mencionar o assunto foi Zheng Anting, ligado à comunidade de Jiangmen, que alertou para os restaurantes que fazem descargas de gordura sem qualquer tratamento nos esgotos, que contribuem para os entupimentos. Zheng mencionou mesmo um caso ocorrido no dia 12 de Junho. “Os serviços competentes identificaram irregularidades em 3 dos 4 restaurantes nas imediações, que não têm retentores de gordura adequados e fazem a drenagem de forma ilegal, o que esteve na origem do entupimento”, apontou. “O entupimento dos esgotos é uma das razões para as inundações no Porto Interior”, alertou.

Face ao cenário traçado, Zheng Anting pediu mão pesada para os infractores e fiscalizações radicais nos restaurantes. Na bancada de Jiangmen, também Mak Soi Kun pediu soluções para o problema e uma fiscalização mais eficaz. Por sua vez, Leong Sun Iok, dos Operários de Macau, pediu ao Governo que apresse as instalações de prevenção de inundações, o aumento da capacidade da rede de drenagem e o aperfeiçoamento do sistema de alertas para cheias. Leong foi mais longe e avisou que Macau está na época de tufões.

Outras queixas

Também a estação elevatória de águas pluviais do Norte do Porto Interior foi alvo de queixas. Agnes Lam recordou que o projecto demorou vários anos a construir, mas que quando entrou em funcionamento não chegou para o problema. “É uma instalação contra inundações que o Governo levou anos

a planear e construir, e que só entrou em funcionamento mesmo em finais de Maio deste ano. E só uma chuva “deixou tudo exposto”!”, atirou Lam. A deputada questionou ainda a situação, que diz que tem vindo a piorar. “Assim, é difícil evitar a seguinte dúvida: porque é que o problema vai piorando à medida que se trata das inundações?”, questionou. A legisladora indicou que ao contrário do habitual começam a registar-se cheias em zonas em que o fenómeno já não era comum, como na Avenida Venceslau Morais ou

“Assim, é difícil evitar a seguinte dúvida: porque é que o problema vai piorando à medida que se trata das inundações?” AGNES LAM DEPUTADA

junto à biblioteca octogonal. “Francamente, nesta vez, o volume de precipitação foi assustador, no entanto, é também incontestável a grave carência de Macau em relação à capacidade para evacuar cheias”, ressalvou. O mês de Junho começou com cheias e um nível de precipitação sem precedentes nos últimos anos. Segundo os dados oficiais dos Serviços de Meteorologia e Geofísica (SMG), a precipitação diária de 1 de Junho registada pela estação da Fortaleza do Monte até às 19h50 era de 408,8 milímetros (mm). Esta escala significa que por cada metro quadrado havia o equivalente a 408,8 litros de água. O valor até às 19h50 já ultrapassava o recorde de chuva por dia desde 1952, que segundo os SMG, tinha sido registado a 10 de Maio de 1972, com 348,2 mm, ou seja 348,2 litros de água por metro quadrado. Os dados sobre a precipitação estão disponíveis desde o ano de 1952. João Santos Filipe

O deputado Davis Fong defendeu ontem menos restrições na circulação de pessoas entre a RAEM e as regiões vizinhas de forma a incentivar a recuperação da economia e ajudar as Pequenas e Médias Empresas. O pedido foi feito ontem antes da ordem do dia e a intervenção contou com o apoio dos deputados Iau Teng Pio e Ma Chi Seng, todos eles nomeados

pelo Chefe do Executivo. “Espera-se que o Governo, com a situação epidémica cada vez mais estável nas regiões vizinhas, ajuste, atempada e dinamicamente as nossas medidas de prevenção da epidemia, e tente a aprovação de mais visitas transfronteiriças, para injectar uma força da circulação externa, em prol da plena recuperação da economia e das PME de Macau”, foi desejado.

Hotelaria Nova Lei aprovada A Assembleia Legislativa aprovou ontem na especialidade, sem votos contra nem abstenções entre os votantes, a Nova Lei da Indústria Hoteleira, que tinha entrado no hemiciclo em 2019. Na altura da apresentação, o Executivo tinha explicado que o objectivo passava por garantir que a nova lei visava

actualizar as normas à hotelaria a restauração, depois de um ano de desenvolvimento acelerado. A lei passa também a permitir que as unidades hoteleiras possam funcionar com 10 quartos, quando no passado se exigia que houvesse um mínimo de 40 quartos, e cria o licenciamento para os food courts.

Mercados Luz verde para novo regime de gestão de espaços públicos A Assembleia Legislativa aprovou um novo regime de gestão de mercados públicos. A proposta recolheu o consenso geral, mas a necessidade de realizar concursos públicos para a atribuição de bancas de venda acabou por gerar alguma polémica. Deputados como Ng Kuok Cheong e Au Kam San questionaram a possibilidade de haver ajustes directos por motivos de “interesse público”. Os legisladores consideraram que a medida pode gerar injustiças,

por não haver obrigatoriedade de apresentar os fundamentos do interesse público. Contudo, o secretário André Cheong justificou que todo o processo vai ser feito com transparência e com as portas abertas à população. O artigo da lei que dispensa concurso público acabou por ter votos contra de Ng Kuok Cheong, Au Kam San, José Pereira Coutinho e Sulu Sou, mas foi aprovado. Na mesma sessão foi aprovado o novo estatuto dos guardas prisionais, por unanimidade.


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AIR MACAU INJECÇÃO DE 1,8 MILHÕES “CRUCIAL” PARA EQUILIBRAR CONTAS

MACAU WATER CONSUMO BAIXOU 25 POR CENTO EM 2020

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pandemia da covid-19 e a consequente quebra no número de turistas no território levou a uma redução do volume de água consumida na ordem dos 25 por cento o ano passado, aponta o relatório e contas da Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau (Macau Water) publicado ontem em Boletim Oficial (BO). Este número representa uma “redução anual de 8 por cento ou 93 milhões de metros cúbicos de bombagem anual” em relação a 2019, o que constituiu “um desafio imprevisto”. Ainda assim, a concessionária acredita que conseguiu “cumprir as obrigações ao longo do ano passado ao assegurar a estabilidade no abastecimento de água, mesmo sob a conjuntura adversa da pandemia”.  Em 2020 foi também concluída a construção da Estação de Tratamento de Água de Seac Pai Van “com sucesso”. Esta infra-estrutura “irá permitir uma distribuição de água ainda mais abrangente em Macau baseada na complementaridade entre os sistemas do Norte e Sul, contribuindo para garantia e reforço da segurança no abastecimento de água na região”, aponta a empresa.   

Assédio Jovem detido na Biblioteca do Patane

Um jovem de 19 anos foi detido por alegadamente ter tocado na anca de uma mulher com 30 anos, quando tentava fotografá-la em segredo. O crime aconteceu ontem na Biblioteca do Patane, de acordo com a notícia do jornal Exmoo, e o jovem admitiu ter tocado na mulher e ter tentado fotografá-la, por ser “sentir atraído”. O caso foi reencaminhado para o Ministério Público e o homem foi indiciado pela prática do crime de importunação sexual, que pode envolver uma pena que pode chegar a um ano de prisão. Os dois envolvidos são residentes e o jovem encontra-se desempregado.

SMG Temperaturas chegam aos 33º no fim-de-semana

Os Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) alertam para uma onda de calor em Macau nos próximos dias, prevendo-se que “a temperatura máxima atinja os 33 graus celsius ou valores superiores”. Entre amanhã e domingo a temperatura deverá atingir os 33º graus, baixando depois para os 30º na quarta-feira. Os SMG aconselham a população a tomar medidas preventivas como o aumento do consumo de água, entre outras.

Toca a voar baixinho

A pandemia obrigou a Air Macau a receber uma injecção adicional de capital de 1,8 milhões de patacas em Janeiro, segundo o relatório e contas publicado em Boletim Oficial. A companhia aérea registou quebras nas receitas na ordem dos 80 por cento

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A IR Macau recebeu, em Janeiro deste ano, uma injecção adicional de capital de 1,8 milhões de patacas para fazer face à crise económica causada pela pandemia da covid-19. Segundo o relatório e contas publicado ontem em Boletim Oficial (BO), a Air Macau “envidou esforços para assegurar o bom funcionamento e delinear um plano de aumento de investimento”, com o objectivo de “lidar com a prevista deterioração da situação financeira e do estado dos fluxos financeiros, causados pela precariedade da economia”.  A injecção de 1,8 milhões de patacas “melhorou consideravelmente o estado financeiro da companhia, desempenhando um papel crucial para assegurar que esta ultrapassasse sem problemas a ‘idade de gelo’ da indústria da aviação civil”, aponta o relatório.  A Air Macau, que viu o contrato de concessão com o Governo renovado por mais três anos, desde 9 de Novembro do ano passado, registou uma

ramento significativo da nossa rentabilidade no ano de 2020”, aponta a empresa. O ano passado a Air Macau fez ainda a devolução do arrendamento de duas aeronaves A319, estando 21 aeronaves em funcionamento desde o final de 2020. 

Futuro “incerto”

perda de receitas operacionais de 81 por cento, no valor total de 846,66 milhões de patacas. Além disso, registou-se um prejuízo líquido superior a 1 milhão de patacas, em comparação

com um lucro líquido superior a 150 milhões de patacas registado em 2019. “A instabilidade económica e a restrição de viagens provocadas pela pandemia traduziram-se em um deterio-

A Air Macau, que viu o contrato de concessão com o Governo renovado por mais três anos, desde 9 de Novembro do ano passado, registou uma perda de receitas operacionais de 81 por cento, no valor total de 846,66 milhões de patacas

O relatório do conselho fiscal vem confirmar a difícil situação financeira da empresa, devido “à queda abrupta da procura de voos de passageiros” devido “às extensas restrições de viagem e controlos fronteiriços que foram implementados em todas as regiões em resposta à pandemia”. A Air Macau conheceu, assim, “dificuldades e desafios sem precedentes” e o futuro mantém-se “incerto”.  “A gestão deverá continuar a acompanhar de perto a procura do mercado, ajustando o modelo operacional e a flexibilidade da oferta, no intuito de permitir à companhia emergir com competitividade quando a indústria de viagens aéreas retomar”, conclui o mesmo documento. A.S.S.

MONG-HÁ CENTRO DESPORTIVO ACOLHE VACINAÇÃO A PARTIR DE SEGUNDA-FEIRA

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já a partir da próxima segunda-feira que o Centro Desportivo de Mong-Há começa a receber pessoas para a vacinação contra a covid-19, prevendo-se uma capacidade de atendimento de dez mil pessoas por dia. “Vamos aumentar o número de quotas [para a vacinação]”, disse ontem Tai Wa Hou, coordenador do plano de vacinação na habitual conferência de imprensa do Centro de

Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus. “O Fórum Macau vai funcionar entre as 9h e as 21h e terá três mil quotas por dia. Teremos 15 postos em funcionamento com um total de 8200 vagas”, frisou.  Em Mong-Há será administrada apenas a vacina da Sinopharm. “Temos dois postos que fornecem a vacina da mRNA e temos vagas suficientes. Neste momento 85 por cento das pessoas procura a

vacina da Sinopharm e 15 por cento a vacina da mRNA. Neste momento parece-nos que a procura é maior pela Sinopharm e é por isso que fornecemos esta vacina [em Mong-Há]”, explicou Tai Wa Hou. Em relação ao caso de um residente que entrou em Macau e teve um resultado positivo, embora fraco, à covid-19, depois de ter estado infectado em Hong Kong, Leong Iek Hou, coordenadora do Centro, assegurou

que são necessários ainda mais testes. “Não podemos confirmar ainda se este residente é um caso de recaída ou uma nova infecção, e não conseguimos confirmar se é ou não um caso importado. Neste momento não tem sintomas, estamos a fazer testes e a observar a situação.” A coordenadora garantiu que a “situação é estável” e que “é grande a possibilidade de ser um caso de recaída de covid-19”. A.S.S. 


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TIAGO ALCÂNTARA

DST ENCERRADO CENTRO DE PROMOÇÃO E INFORMAÇÃO TURÍSTICA EM LISBOA

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JUSTIÇA ARRANCOU JULGAMENTO ENTRE SANDS E ANTIGO PARCEIRO DE CONCESSÃO

Os dados estão lançados Começou ontem o julgamento que envolve a Las Vegas Sands e a Asian American Entertainment Corporation, com o foco principal na inquirição de testemunhas a incidir no fim da relação entre as duas empresas. Durante o dia inteiro foram ouvidas duas testemunhas que destacaram o peso do grupo Sands para a atribuição da concessão

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HE GOU a tribunal um caso bilionário que há teimava em não passar do papel. Ontem começou o julgamento que senta no banco dos réus a Las Vegas Sands devido ao processo instaurado pelo antigo parceiro na corrida às primeiras concessões de jogo em Macau, a Asian American Entertainment Corporation (AAEC), que é liderada pelo empresário taiwanês Marshall Hao. A AAEC pede uma indemnização superior a 96 mil milhões de patacas. A disputa remonta a 2001. A Las Vegas Sands e a AAEC submeteram um pedido para licença de jogo, mas a Sands decidiu mudar de parceiro a meio do processo para se aliar à Galaxy Entertainment, acabando por obter a concessão. A autora do processo acusa a operadora fundada por Sheldon Adelson de ter quebrado os termos do acordo. O final da relação das empresas esteve ontem em destaque no Tribunal Judicial de Base. Um documento apresentado na sessão de ontem mostrou que a relação acabara a 15 de Janeiro de 2002. No entanto, Maria Nazaré Portela, que integrou a comis-

são do concurso público para a atribuição de concessões para a exploração de jogos de fortuna ou azar em casino, frisou que o fim da relação entre as duas empresas só foi comunicado ao organismo a 1 de Fevereiro de 2002. Como tal, foi considerado que até ao momento da comunicação o vínculo se mantinha. Além do teor da proposta, a testemunha indicou que a conduta durante o concurso também mostrava que as duas entidades estavam associadas. A AAEC terá mesmo sido chamada a uma segunda fase de consultas, ao contrário da Galaxy.

Nazaré Portela assegurou que as propostas eram apreciadas com base em critérios e pelo mérito na sua globalidade, entendendo que a AAEC aliada ao grupo Sands obteria uma das concessões de jogo

Segundo explicou Nazaré Portela, a comissão tinha “amplos poderes discricionários”, podendo os concorrentes ser chamados caso fossem necessários esclarecimentos adicionais, mas que isso não significava que fosse preferencial para a adjudicação de concessão. Foi também ouvido o testemunho de um outro membro da comissão, Erik Ho, que explicou que quando a comissão foi notificada de que o grupo Sands já não estava a cooperar com a AAEC – numa carta de Fevereiro – foi rever documentos, apercebendo-se então de um documento de cooperação em que se acordava terminar a relação a 15 de Janeiro de 2002. Porém, Erik Ho afirmou em tribunal não se recordar se o grupo informou na segunda fase de consultas que as entidades se iam separar.

O mérito da Sands

Nazaré Portela observou que a proposta inicial da AAEC e, mais tarde, a da Galaxy eram “praticamente idênticas”, e que tinham como mais valia a participação do grupo Sands, por causa da sua experiência. A comissão entendia que seria “muito vantajoso” uma

proposta envolver o grupo Sands para conseguir uma concessão. Além disso, Nazaré Portela assegurou que as propostas eram apreciadas com base em critérios e pelo mérito na sua globalidade, entendendo que a AAEC aliada ao grupo Sands obteria uma das concessões de jogo. Os resultados do concurso foram anunciados pelo Governo da RAEM em Fevereiro de 2002. Para Erik Ho, a Galaxy não teria ficado em primeiro no concurso se não estivesse com o grupo Sands. “Penso que não, porque não tinha qualquer experiência na gestão dos casinos”, disse. Outro documento exibido em tribunal, sobre a proposta da AAEC, abrangia investimentos de 780 milhões de dólares americanos, a criação de 6.330 postos de trabalho e também de actividades não relacionadas com o turismo. Questionado sobre a possível de a AAEC criar um banco em Macau, o antigo membro da comissão comentou que na altura a área financeira “não era tão primordial” como a do turismo. O advogado da autora é Jorge Menezes, estando a Las Vegas Sands representada por Luís Cavaleiro de Ferreira. Salomé Fernandes

Governo de Macau decidiu encerrar o Centro de Promoção e Informação Turística de Macau em Lisboa “tendo em conta a racionalização de quadros e simplificação administrativa”, disse ontem a directora dos Serviços de Turismo. O Centro é um projecto do Executivo “cuja intenção original foi estabelecida para o curto prazo, mas que foi prolongada por muito anos”, afirmou à Lusa Maria Helena de Senna Fernandes. “Tendo em conta a racionalização de quadros e simplificação administrativa do Governo da RAEM e a existência da Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa” foi decidido agora extinguir o Centro, acrescentou a responsável, à margem da conferência de imprensa sobre a segunda fase do programa “Passeios, gastronomia e estadia para residentes de Macau”. O Centro de Promoção e Informação Turística de Macau em Portugal foi estabelecido em 2005, de acordo com o despacho do primeiro Chefe do Executivo da RAEM, Edmund Ho. A Direcção dos Serviços de Turismo de Macau mantém uma representação em Londres, sendo “uma delegação para promover turismo, mas não um órgão do Governo da RAEM como [era] o Centro de Promoção em Portugal”, explicou. Londres “é como as delegações em Hong Kong, Malásia, Japão”, entre outras, em que são contratadas empresas locais ou são adquiridos serviços destas empresas “através de concursos públicos, a nível internacional, para fazer promoção no país, pelo que não são um órgão externo do Governo da RAEM”, indicou.

Turismo Anunciados 15 novos roteiros locais

A directora dos Serviços de Turismo (DST), Helena de Senna Fernandes, apresentou ontem 15 novos roteiros turísticos que integram a segunda fase do programa de incentivo ao sector. Para esta segunda fase, que inclui desportos, gastronomia, excursões e passeios marítimos, entre outros, o Governo prevê a participação de cerca de 100 mil pessoas, disse. O programa de “Passeios, gastronomia e estadia para residentes de Macau”, começou em Abril e vai decorrer até Dezembro, tendo um orçamento inicial de 120 milhões de patacas. Na primeira fase, que terminou na segunda-feira, “o apoio financeiro do Governo foi de 4,8 milhões de patacas“, disse a responsável. “Um total de 297 excursões foram realizadas nas seis rotas da primeira fase, com um total de 9.445 participantes e 8.343 pacotes de experiência hoteleira foram vendidos com a participação de 21.029 pessoas”, afirmou.


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MELHORES MARCADORES

Romelu Lukaku 2 golos

Patrik Schik 2 golos

Cristiano Ronaldo 2 golos

Thomas Meunier 1 golo

ASSISTÊNCIAS

Rafa Silva 2

Kalvin Phillips 1

Konrad Laimer 1

Marek Hamšík 1

PRÓXIMOS JOGOS 00:00

Dinamarca-Bélgica

03:00

Países Baixos-Áustria

21:00

Suécia- Eslováquia

Gauleses indomáveis França domina Alemanha e reforça favoritismo

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ENDO o primeiro jogo entre dois gigantes europeus, esperava-se alguma paridade. A França venceu a Alemanha apenas por 1-0, com um autogolo de Mats Hummels aos 20 minutos de jogo após um cruzamento do lateral francês, Lucas Hernández, mas a diferença entre as duas equipas não podia ser mais gritante. AAlemanha não tem grandes referências a não ser no meio-campo, a zona onde o jogo ficou decidido. Ilkay Gündoğan, que já frequentou o Club Cubic em Macau, e Toni Kroos tiveram desempenhos notáveis nas respectivas equipas esta temporada, mas eram as únicas unidades à frente da linha defensiva alemã, com a difícil tarefa de controlar os três médios franceses: Adrien Rabiot, N’Golo Kanté e Paul Pogba. A desvantagem numérica germânica fez com que a França tivesse sempre espaço nas costas dos médios da Mannschaft. Enquanto Rabiot e

Pogba controlavam a zona média do terreno, Benzema fazia de médio ofensivo, Kylian Mbappé descaía para a esquerda eAntoine Griezmann procurava movimentos de ruptura. Apesar do meio-campo francês ter sido uma das chaves da vitória do campeão mundial de 2018, a organização defensiva gaulesa foi determinante. Presnel Kimpembe e Raphael Varane, com o apoio de Benjamin Pavard na lateral direita e Lucas Hernández na lateral esquerda, formam a melhor linha defensiva deste Euro. Por muito que a Alemanha controlasse o esférico, acabou o jogo com 62% de posse de bola, a defesa dos bleus mantinha-se tranquila e cómoda. O grande segredo da equipa francesa está neste aspecto, por muito que se foque, e com razão, na frente de ataque. Depois de Portugal dominar a Hungria e a França esmagar a Alemanha, o confronto entre os dois finalistas de 2016 será impróprio para cardíacos.

17.6.2021 quinta-feira

PORTUGAL ENTRA COM O PÉ DIREITO E VENCE HUNGRIA POR 3-0

Ronaldo, o m Com a pressão natural de um campeão a defender o seu estatuto, Portugal entrou da melhor maneira em território hostil. Em Budapeste, e em clara desvantagem numérica nas bancadas, a selecção deu conta do recado, tendo sido superior à Hungria em todos os sentidos. O que parecia, inicialmente, um sonho desmedido de revalidação de título, tem agora pernas para andar

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O primeiro jogo do Euro 2020 com estádio cheio, a selecção das quinas não tremeu. Para todos os efeitos, Portugal é campeão europeu em título e tem um estatuto a defender. O adversário era o mais fraco dos três oponentes do Grupo F, mas a consistência na grandeza é reservada apenas para os melhores deste mundo. A vitória de Portugal sobre a Hungria dá esperança de que o tabaco que Fernando Santos levou para estágio acabe mesmo no dia 11 de Julho. O primeiro encontro do Euro 2020 a ser jogado com um estádio cheio não podia ter um nome qualquer. O campo Ferenc Puskás em Budapeste tem o nome de um dos melhores jogadores da história do futebol e do Real Madrid. O estádio do Major Galopante, alcunha de Puskás, serviu de palco para o início da caminhada europeia de Portugal. Em plena capital do ex-Império Austro-Húngaro, Cristiano Ronaldo

“Uma primeira parte muito bem conseguida em, praticamente, todos os momentos do jogo. Em posse de posse de bola, a procurar a variação, a procurar entrar.” FERNANDO SANTOS SELECCIONADOR PORTUGUÊS

comandou as tropas para um jogo inicialmente tremido, nervoso e com diversos tiros ao lado. Portugal derrotou a Hungria por 3-0, mas o jogo não é só o resultado. A equipa das quinas começou com muita bola e com os húngaros a não se importarem muito com isso. Fernando Santos apostou em Danilo Pereira e William Carvalho de início no meio-campo, mas a criação de jogo parecia inconsistente. Danilo é bom nos duelos e na cobertura de espaços, mas não se enquadra na construção de jogo da selecção. Na primeira parte, Bruno Fernandes teve pouca bola e Portugal sofreu com isso. A proximidade que o médio do Manchester United tem com o esférico deve ser mais vezes aproveitada. Além destes pormenores, Portugal não podia ter feito um jogo melhor. Dominou a Hungria, subiu as linhas até ao meio-campo e começou a tentar passar o 5-3-2 do italiano Marco Rossi, seleccionador húngaro. As oportunidades foram caindo nos pés de Diogo Jota, avançado do Liverpool, mas o guarda-redes Peter Gulasci estava atento à pontaria do jogador luso. Cristiano Ronaldo também falhou um remate mesmo em frente da baliza, numa primeira parte que parecia agoirada. Já a Hungria, com uma estratégia de bloco baixo e aposta no contra-ataque, estava confiante nos processos defensivos. O central Endre Botka e o lateral esquerdo Attila Fiola foram autênticos guerreiros na paragem das investidas portuguesas. Apesar das dificuldades in-

cutidas pelo adversário, na primeira parte, Fernando Santos enalteceu a qualidade da sua equipa ‘Uma primeira parte muito bem conseguida em, praticamente, todos os momentos do jogo. Em posse de posse de bola, a procurar a variação, a procurar entrar.’

Aposta certeira

Ao intervalo, e com o selccionador luso a pedir aos jogadores para manterem o ‘coração e a cabeça a funcionar’, o jogo continuava igual.


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mundo a seus pés

A Hungria usava Adam Szalai, ponta de lança do Mainz, como referência de jogo mais directo com o apoio de Rolland Sallai, jogador do Friburgo, o mais habilidoso da equipa de Marco Rossi com a bola nos pés. Contudo, e à medida que o tempo ia passando, Portugal parecia caminhar para um novo empate na caminhada europeia. Por volta dos 70 minutos, Fernando Santos lançou Rafa Silva, extremo do Benfica, que foi determinante nas suas arrancadas para a baliza adversária. Apesar de

uma entrada atribulada, aos 84 minutos assiste para o primeiro golo da selecção, marcado por Raphaël Guerreiro numa jogada com vários ressaltos à mistura. Minutos depois com uma boa arrancada de Renato Sanches, jogador do Lille que entrou para o lugar de William Carvalho, Rafa Silva recebe a bola do ex-Benfica e ao entrar na grande área da equipa húngara sofre uma falta do central Willi Orban. Cristiano Ronaldo converteu a grande penalidade, marcando o seu primeiro tento

nesta competição. Porém, o jogador do Benfica não ficaria por aqui. O terceiro golo português foi um recital de bom futebol com 33 passes que culminaram no 11.º golo do capitão luso em Euros, tornando-se, desta maneira, no melhor marcador de sempre da competição. Rafa Silva fez, novamente, a assistência. Fernando Santos apelidou a vitória como justa e não podia ter mais razão. Portugal foi superior em todos os momentos da partida. Para vencer os tubarões, Alemanha

e França, precisará de exibições idênticas. Com mais de 60 mil adeptos num estádio em plena Hungria, Ronaldo e a selecção não sentiram a pressão. Pelo contrário, deram-lhe as boas-vindas. Sob os ombros de Ronaldo e com a convicção de Fernando Santos de que ‘Portugal está preparado para jogar com qualquer adversário’, serão poucas as selecções que conseguirão dificultar a caminhada portuguesa rumo à reconquista.

EM ROMA, SÊ ROMANO I

TÁLIA e Suíça não se defrontam desde o ano de 2010, mas volvidos 11 anos muito mudou. A Itália foi vice-campeã europeia em 2012, chegando aos quartos de final em 2016. A Suíça, em 2016, alcançou os oitavos de final do Euro, a sua melhor classificação de sempre. Em 2021, porém, a Itália é de caras um dos favoritos a conquistar o troféu de campeão europeu de selecções, enquanto a Suíça, com algum talento à mistura, consegue impor dificuldades a qualquer equipa. O embate entre ambas ocorre na madrugada de quarta para quinta-feira (03:00), no que se avizinha ser o jogo da jornada. A selecção italiana demoliu, no resultado pelo menos, a Turquia de forma evidente e não podendo contar com o seu melhor jogador, Marco Verratti. Verratti é, facilmente, dos melhores médios do Mundo. Tem a facilidade de jogar como 6 ou como 8, com uma percentagem de passe por jogo a rondar os 92% e consegue ser astuto quando defende. Saber-se que já treina com a selecção, só dará alegrias aos adeptos italianos. A Suíça estará em território inimigo porque este será o segundo de três jogos que a Itália disputará em solo romano. A cerimónia de abertura do Euro 2020 deu-se no Estádio Olimpico em Roma e a seleção azzurri completará a fase de grupos sem ter de sair de casa. Para a Suíça, esta será a batalha mais difícil de travar. Os helvéticos são inferiores aos italianos e superando esta pressão e hostilidade inicial de jogarem em casa do adversário, podem abrir caminho para um jogo mais disputado do que, em teoria, é esperado. Daquilo que se viu da Suíça contra o País de Gales, Itália não terá muitas dificuldades em vencer a selecção de Vladimir Petkovic, treinador suíço que já orientou a Lazio. O lateral Alessandro Florenzi está em dúvida para o encontro. Saiu no intervalo do jogo inaugural contra a Turquia devido a uma lesão muscular, sendo substituído no onze por Giovanni Di Lorenzo.


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17.6.2021 quinta-feira

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ANDRÉ LEVY

SINÓLOGO E TRADUTOR

Figura maior da sinologia francesa, nasceu em Tianjin, em 1925, tendo crescido na concessão francesa desta cidade do Norte da China. Foi tradutor de várias obras de ficção chinesas, entre elas as traduções de dois dos quatro grandes ciclos novelísticos, a Peregrinação a Oeste (Xi you ji) e o Lótus de ouro (Jin Ping Mei). André Lévy foi também autor de diversas obras de sinologia, entre elas a que aqui se traduz. Depois de se formar na Escola de Línguas Orientais da Universidade da Sorbonne, seguiu uma vida de investigador e professor em Hanói, Kyoto e Hong Kong. Em 1969 foi nomeado director de Estudos Chineses da Universidade de Bordéus. Em 1974 defendeu a tese de Doutorado de Estado sobre contos chineses em língua falada no século XVII. Entre 1981 e 1984, foi director do Departamento da Ásia Oriental na Universidade de Paris VII. Em 1995 tornou-se Professor Emérito da Universidade de Bordéus III. André Lévy recebeu várias distinções, entre elas, em 1998, a de comendador das Palmas Académicas. Faleceu em 2017. PUB.

ANÚNCIO CONCURSO PÚBLICO N.º 18/P/21 Faz-se público que, por despacho de Sua Excelência, o Chefe do Executivo, de 24 de Março de 2021, se encontra aberto o Concurso Público para a «Prestação de Serviços de Lavagem e Engomagem aos Serviços de Saúde», cujo Programa do Concurso e o Caderno de Encargos se encontram à disposição dos interessados desde o dia 16 de Junho de 2021, todos os dias úteis, das 9,00 às 13,00 horas e das 14,30 às 17,30 horas, na Divisão de Aprovisionamento e Economato destes Serviços, sita na Rua do Campo, n.º 258, Edifício Broadway Center, 3.º andar C, Macau, onde serão prestados esclarecimentos relativos ao concurso, estando os interessados sujeitos ao pagamento de MOP69,00 (sessenta e nove patacas), a título de custo das respectivas fotocópias (local de pagamento: Secção de Tesouraria dos Serviços de Saúde, que se situa no r/c do Edifício do Centro Hospitalar Conde de São Januário) ou ainda mediante a transferência gratuita de ficheiros pela internet na página electrónica dos S.S. (www. ssm.gov.mo). As propostas serão entregues na Secção de Expediente Geral destes Serviços, situada no r/c do Centro Hospitalar Conde de São Januário e o respectivo prazo de entrega termina às 17,30 horas do dia 16 de Julho de 2021. O acto público deste concurso terá lugar no dia 19 de Julho de 2021, pelas 10:00 horas, na “Sala de Reunião”, sita na Rua do Campo, n.º 258, Edifício Broadway Center, 3.º andar C, Macau. A admissão a concurso depende da prestação de uma caução provisória no valor de MOP2.244.000,00 (dois milhões, duzentas e quarenta e quatro mil patacas) a favor dos Serviços de Saúde, mediante depósito, em numerário ou em cheque, na Secção de Tesouraria destes Serviços ou através da Garantia Bancária/Seguro-Caução de valor equivalente. Serviços de Saúde, aos 9 de Junho de 2021 O Director dos Serviços de Saúde Lo Iek Long

LANÇADA EM MACAU PRIMEIRA OBRA EM PORTUGUÊS SOBRE A HISTÓRIA DA LITERATURA CHINESA

Diamante puro F OI ontem lançada, pela editora Livros do Meio, na Fundação Rui Cunha “A Literatura Chinesa Antiga e Clássica”, de André Lévy, numa tradução para língua portuguesa de Raul Pissarra. Trata-se da primeira que uma obra que abrange a literatura do País do Meio, das suas origens até ao início do século XX, surge na língua de Camões. “Esta tradução para português é um passo muito importante, um marco, para o conhecimento da nossa literatura. Não só para leitores mas também para tradutores para conhecerem as obras de qualidade que existem na nossa literatura”, disse o professor e poeta Yao Jingming, que falou aos presentes durante a apresentação da obra. De facto, o livro apresenta aos leitores um vasto panorama da literatura chinesa. Como se pode ler na contracapa do volume, “A literatura chinesa mergulha fundo no tempo as suas origens. Este livro parte dessa remota época e percorre um longo percurso até aos primeiros anos do século XX, momento em que se considera o advento da modernidade. Pelo

caminho, encontramos alguns dos mais belos textos que a humanidade produziu, pela pena de escritores de excelência, reflexos de uma civilização complexa, de uma História acidentada e de uma cultura caracterizada pela sua profundidade e erudição. Este livro de André Lévy proporciona-nos uma fundamental introdução a uma literatura cuja influência é patente no Oriente e que urge ser descoberta e entendida pelos falantes de língua portuguesa.” Ainda segundo Yao JIngming, “A literatura chinesa é bastante complexa. É muito arriscado traduzir uma obra destas quando não se domina a língua e a cultura chinesas, mas este trabalho é bem conseguido pelo que posso avaliar das traduções dos originais chineses. Pessoalmente, gostei imenso desta obra de André Lévy, que não segue uma abordagem cronológica e tem uma linguagem muito sintética e também viva.” Grosso modo, o livro apresenta-se dividido entre a literatura antiga, ou seja, das suas origens há mais de 3000 anos até ao advento da dinastia Qin (220 a.E.C.), e a literatura clássica, que abrange o longo período do

império até ao início do século XX. Carlos Morais José explicou que no primeiro período considerado não tinha ainda sido efectuada uma uniformização dos caracteres e que, estando a China dividida em vários reinos, cada um usava caracteres a seu bel-prazer. Segundo o editor, é com a dinastia Qin que se efectua a referida uniformização o que tem consequências drásticas para a escrita. Depois, graças ao movimento de Maio de 1919, que pugnava pela modernização da China, inicia-se a fase “moderna”, com a simplificação de caracteres e o aparecimento de uma escrita mais simples e directa que virá até aos nossos dias. O livro queda-se nesse momento, não abrangendo a contemporaneidade. A primeira parte da obra, além da literatura propriamente dita, inclui também extensas referências ao pensamento chinês, na medida em que refere os trabalhos de Lao Zi, Confúcio, Mozi e Zhuang Zi, entre outros, todos eles pensadores cuja importância se estende até aos nossos dias e de influência crucial na mentalidade chinesa. Na era clássica, o livro começa por abordar a prosa

clássica, fundamentalmente ensaística, que aborda temas variados da História à crítica literária, passando pelos chamados “ensaios fúteis”. Depois passa para a poesia que, geralmente, se considera ter atingido a sua Idade de Ouro durante a dinastia Tang, com nomes como Li Bai, Wang Wei, Du Fu a Bai Juyi. Finalmente, o volume descreve o que chama de “literatura de entretenimento”, na qual inclui o teatro, o romance, a literatura oral e os contos. O tradutor da obra, Raul Pissarra, formado em Filologia Clássica, falou da sua admiração pela “cultura antiga” europeia; “talvez por isso”, acrescentou, uma das coisas que mais o fascinou na China foi “a antiguidade da cultura chinesa”. “Estar a viver num sítio que foi testemunha de milénios de uma cultura tão antiga, sempre me deixou calado, no sentido do respeito. Foi isso que me aproximou da cultura chinesa, a sua antiguidade”. Também o facto desta literatura “não ter sido contaminada por uma cultura exterior”, ser uma expressão pura de um povo, sempre fascinaram Raul Pissarra. Logo, confessou ter iniciado este trabalho devido ao “fascínio” que este “diamante puro” lhe causara. Seguidamente, o tradutor fez leituras esparsas da obra. Os presentes tiveram então a oportunidade de ouvir trechos variados de literatura chinesa de diferentes géneros, da poesia ao conto, separados por extensas fatias temporais.


quinta-feira 17.6.2021

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ANGOLA APROVADO FINANCIAMENTO DE 70 MILHÕES DE EUROS COM EMPRESA ESTATAL DE DEFESA CHINESA

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NGOLA aprovou um acordo-quadro de financiamento de 85 milhões de dólares (com a empresa China National Aero-Technology Import & Export Corporation, que actua no setor da defesa e aviação. Segundo o despacho presidencial a que a Lusa teve acesso, o acordo contempla “fornecimento de equipamentos, meios militares e de serviços de assistência”, não especificados, ao sector da defesa nacional. O diploma menciona a “necessidade de reforçar o controlo do espaço aéreo, bem como o terrestre, para salvaguardar os objectivos estratégicos nacionais”, sem dar detalhes sobre as áreas que serão reforçadas. Compete à ministra das Finanças, em representação da República de Angola, assinar o acordo com a empresa chinesa, bem como toda a documentação necessária. A China National Aero-Technology Import & Export Corporation já está presente em Angola, e está actualmente ligada à construção do Novo Aeroporto Internacional de Luanda (NAIL), tendo sido anteriormente (2017) adquiridos equipamentos militares para a Força Aérea Angolana no valor de 238 milhões de dólares.

DIPLOMACIA CHINA AVISA BÉLGICA PARA DETERIORAÇÃO DAS RELAÇÕES

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China avisou ontem a Bélgica que as relações entre os dois países estão a deteriorar-se, após o parlamento belga ter aprovado uma resolução que alerta para um “sério risco de genocídio” da minoria uigure muçulmana. “Pedimos à Bélgica que retifique imediatamente o seu erro para evitar a deterioração das relações sino-belgas”, disse o porta-voz da diplomacia chinesa, Zhao Lijian, em conferência de imprensa ontem realizada. Deputados belgas expressaram preocupação na terça-feira sobre o destino da minoria étnica chinesa de origem muçulmana uigure na região de Xinjiang. Em Bruxelas, a declaração da comissão parlamentar dos Negócios Estrangeiros deve ser confirmada em sessão plenária na Câmara dos Representantes no dia 1 de Julho, disse o deputado ecologista Samuel Cogolati, relator da resolução, citado pela agência AFP. O porta-voz chinês atacou directamente Cogolati, a quem Pequim já impôs sanções. “Este deputado espalhou mentiras e informações falsas deliberadamente, causando graves danos aos interesses e à soberania da China”, acusou Zhao.

TAISHAN MINISTÉRIO DA ECOLOGIA E AMBIENTE REFUTA NOTÍCIA DA CNN

Por cinco barras

O Ministério da Ecologia e Ambiente respondeu ontem oficialmente ao artigo da CNN sobre uma alegada fuga na Central Nuclear de Taishan, referindo que o nível de radiação em torno do complexo é normal. Além disso, as autoridades esclareceram que não foi aumentado o limite aceitável de radiação

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M dia depois de o artigo da CNN que alegava ter ocorrido uma fuga de radiação na Central Nuclear de Taishan, que terá levado a um pedido de assistência operacional no passado dia 3 de Junho, o Ministério da Ecologia e Ambiente refutou as alegações. Citado pelo Global Times, o Ministério da Ecologia e Ambiente afirmou que a entidade de regulamentação máxima de segurança nuclear da China negou a existência de fugas e que tenha sido aprovado o aumento do limite aceitável de radiação em torno da central de Taishan, tal como a CNN adiantou. No cômputo geral, a segurança do complexo está garantida segundo o ministério, que revelou que a quantidade de radioactividade por unidade de volume ou peso, do refrigerante do reactor de circuito primário na central da Unidade 1 subiu, mas ficou ainda dentro do intervalo de variação normal, o que permite o funcionamento estável da central.

Segundo as autoridades, o elevado nível de radioactividade no circuito primário da Unidade 1 está principalmente relacionado com danos de barras de combustível nuclear, que contém o isótopo radioactivo. Existem mais de 60.000 barras de combustível no núcleo do reactor da Unidade 1 da central de Taishan. Estima-se que cinco varetas de barra de combustível estão danificadas, representando menos de 0,01 por cento do total. Segundo a explicação do ministério, os danos são “muitos inferiores à taxa máxima de danos, que é de 0,25 por cento.

Em perspectiva

Além disso, o ministério salientou que o elevado nível de radioactividade no circuito primário da Unidade 1 é totalmente diferente de um acidente com fugas radioactivas. O circuito primário encontra-se no interior do reactor. Desde que os limites de pressão e os selos de contenção do sistema de refrigeração do reac-

tor (que actuam como barreiras de contenção radioactiva) cumpram os requisitos, não há fugas radioactivas para o ambiente. O ministério salienta que ambas as barreiras físicas se encontram em estado de segurança. A CNN afirmou também que “a autoridade de segurança chinesa aumentou os limites aceitáveis de detecção de radiação” na central para evitar

Existem mais de 60.000 barras de combustível no núcleo do reactor da Unidade 1 da central de Taishan. Estima-se que cinco varetas de barra de combustível estão danificadas, representando menos de 0,01 por cento do total

o seu encerramento, citando uma carta da empresa francesa Framatone “ao Departamento de Energia dos EUA obtida pela CNN”. O ministério chinês refutou as alegações, argumentando que a CNN utilizou conceitos errados na reportagem, e que a Administração Nacional de Segurança Nuclear não aprovou o aumento do limite aceitável de radiação em torno da central de Taishan. As autoridades revelaram que o que foi aprovado foram os limites relevantes para a radioactividade específica dos gases inertes do refrigerante do reactor no circuito primário. Limites esses que são utilizados para fins de operação e gestão e não estão relacionados com a monitorização da radiação fora da central. O ministério afirmou ainda que a Administração Nacional de Segurança Nuclear está em contacto com a Agência Internacional de Energia Atómica e os reguladores franceses.


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Retrovisor

LUÍS CARMELO

Por razões muito pessoais tenho tido mais tempo para ver televisão e, sem quase dar por isso, eis que, sobretudo em Maio, devorei western atrás de western como nunca antes acontecera. Este facto fez-me regressar às minhas aulas de filmologia e ao momento em que a produtora Bison, no final da primeira década do século passado, se instalou na Califórnia - à boleia das experiências de William Selig - tendo aí encontrado todas as características do que viria a ser a épica norteamericana. Em poucos meses produziu mais de duas centenas de filmes, alguns filmados num único dia geralmente com realização de Charles French. Paisagens, cenários e figurantes naturais, entre os quais convém destacar as tribos Cahuenga e Cherokee, contribuíram para que a pequena aldeia de Hollywood se transfigurasse e nela aparecessem protagonistas, como Thomas Ince e William Hart, que emprestaram ao género uma desgarrada fotogenia. Depois da primeira grande guerra mundial, o epicentro do cinema deslocou-se da Europa para a América e os westerns tornaramse rapidamente numa gesta universal, de que John Ford foi um cultor único até ao fim dos anos sessenta (tendo até as vanguardas europeias da época revisto na sua obra a graça do chamado “cinema de autor”). Por vezes interrogo-me sobre o papel da violência que atravessa os westerns. Ela faz parte íntima do género, mas, apesar da sua predominância, nada a torna mais implacável do que a que grassa no quotidiano da nossa actual experiência da imagem. A violência do western desenvolve-se num tipo de lógica de “gag” porque corresponde quase sempre a lances ficcionais que desarrumam uma certa expectativa de normalidade. Tudo nessa violência tende para o exagero, ou seja, para a hipérbole. Até o modo desabrido com que as vítimas dos sucessivos tiroteios voam ao caírem por terra espelha bem o espírito pioneiro do “wrestling”.  A violência que perpassa nos terminais de imagem do nosso tempo - que já interiorizámos e a que já nos habituámos - é dominada por um apelo muito mais cru, directo e cruel, pois tende a colar-se ao horizonte do que consideramos ser a normalidade

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17.6.2021 quinta-feira

I am a cowboy

(ver os rockets no médio-oriente ou ver uma série em que uma cidade inteira explode é, hoje e dia, digerido no sofá como se fosse quase a mesma coisa). Existe uma segunda característica da violência dos westerns que a torna relativamente inocente. Tratase do formato - ou do jogo - que a prefigura e cujo contexto distingue, de um lado, um domínio selvagem (onde se insere a paisagem por domesticar, assim como os índios autóctones que a habitam e a alma bravia dos

VER WESTERNS TEM SIDO PAR MIM UMA FORMA DE DECANTAR E DE PURGAR TUDO AQUILO QUE A TECNOLOGIA E A APARENTE PLURALIDADE DA REDE NOS COLOCA - A TODOS - DIANTE DOS OLHOS

vilões que a fustigam e exploram) e, do outro lado, um domínio da lei (onde se inserem os heróis solitários na representação de uma idealidade ou então os “sherifs” na representação de uma ideia de estado). Esta oposição de base é sempre vivida em pequenas localidades de desenho efémero, todas com seu o “saloon” enquanto ponto de encontro entre uma relativa estabilidade e a iminência dos forasteiros desordeiros que a virão pôr em causa. Na maior parte das séries que hoje visionamos nos canais de “streaming” ou na tv clássica, a violência surge, ao invés, fora de qualquer contexto (ou de qualquer jogo narrativo pré-definido) e, por isso, dá à carne e ao sangue um tipo de verossimilhança muitíssimo distinta, porque tendencialmente hiper-real e dissociada de uma clara empatia de jogo. A violência dos westerns tem muito que ver com a violência algo gratuita que se lê nas páginas da Ilíada e que, neste último caso, chega a cansar

(tantos são os combates corpo a corpo que por vezes se diluem na recorrência retórica). O que une ambos os registos é a necessidade de vincar a origem duma história e o seu fulcro inevitavelmente heróico. A épica rasga a vida para a colocar sob perspectiva e, por essa razão, chama a si um ritual de violência, independentemente da sua verossimilhança. Muito diferente de um ritual de violência - criado por irrealidades que metaforizam um desejo de superação - é o verdadeiro culto da violência da nossa era que mistura realidade com ficção, contextos com factos e a força do hábito e da repetição com a (mais suprema) indiferença. Se um ritual tende a projectar e a socializar um determinado mundo nas experiências individuais, a virtualização do mundo hipnotiza, adormece e gera um perigoso sentido de depreciação.  Ver westerns tem sido par mim uma forma de decantar e de purgar tudo aquilo que a tecnologia e a aparente pluralidade da rede nos coloca a todos - diante dos olhos.


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Um filme de: Patrick Huges Com: Ryan Reynolds, Samuel L. Jackson Salma Hayek 14.30, 16.45, 19.15, 21.30

A série documental “Fear City: New York vs The Mafia”, disponível na Netflix, relata a forma como o FBI encostou às cordas as cinco grandes famílias mafiosas (Gambino, Colombo, Bonanno, Lucchese e Genovese) que dominaram ao longo de décadas todos os sectores da vida nova iorquina. Além dos tradicionais negócios do submundo (jogo, droga, prostituição, etc), os tentáculos da máfia cobriam sindicatos de vários sectores de actividade, com particular incidência sobre a construção civil, numa altura em que o imobiliário 56 explodia em Nova Iorque, resultando em lucros 2 bilionários. 6 3 7Três9episódios 1 5 que passam num instante, bebidos de 1 5João8Luz 6 3 4 7 penalty.

YUAN

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THE HITMAN´S WIFE´S BODYGUARD [C]

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FEAR CITY: NEW YORK VS THE MAFIA | SAM HOBKINSON

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A QUITE PLACE PARTII [C]

Um filme de: John Krasinski Com: Emily Blunt, Noah Jupe, Millicent Simmonds 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

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SHADOW IN THE CLOUD [C]

Um filme de: Roseanne Liang Com: Chloe Grace Moretz, Nick Robinson Beulah Koale 14.30, 16.30, 21.30

CRUELLA [B]

FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Craig Gillespie Com: Emma Stone, Emma Thompson 19.00

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perspectivas

17.6.2021 quinta-feira

Jorge Rodrigues Simão

O CLIMA COMO QUESTÃO POLÍTICA “Political action and intervention, on local, national and international levels, is going to have a decisive effect on whether or not we can limit global warming, as well as how we adapt to that already occurring.” Anthony Giddens The Politics of Climate Change

O CLIMA na Terra é o produto de uma enorme variedade de fenómenos físicos como a irradiação do Sol, o ciclo da mancha solar, o reflexo imediato em espaço sideral de parte da energia solar, a formação de nuvens, a evaporação do vapor de água da superfície dos oceanos, o transporte de energia da faixa tropical em direcção aos pólos devido às grandes correntes oceânicas e à complexa circulação dos ventos, a acumulação de calor nos oceanos, a emissão de radiação infravermelha da superfície terrestre e a interacção desta radiação com moléculas de gás na atmosfera, o ciclo do dióxido de carbono, aerossóis, vulcanismo e a energia irradiada da Terra para o espaço sideral. Embora a maioria destes fenómenos sejam cientificamente bem caracterizados nas condições simplificadas do laboratório, a sua correcta representação em situações climáticas reais é extremamente difícil. O grau de ligação entre entradas e saídas dos vários subsistemas é demasiado elevado, os numerosos “feedbacks negativos” e positivos são demasiado relevantes, e a diferença nas escalas espaciais e temporais dos fenómenos a ter em comum é enorme. A dinâmica do clima ainda é, portanto, afectada por incertezas consideráveis. Historicamente, a questão do clima tem sido sempre uma questão científica. Mas no final da década de 1980 tornou-se rapidamente uma questão política. O aumento da temperatura média global da Terra que ocorreu nesses anos levou os políticos e diplomatas ocidentais, particularmente os que gravitam no ambiente da ONU, a preocuparem-se e a suporem que a causa do aquecimento global era antropogénica. A primeira iniciativa da ONU sobre o problema foi a criação em 1988 do “Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC)”, um órgão encarregado de elaborar relatórios apropriados que resumem as investigações climáticas em curso em todo o mundo, a fim de melhor compreender os efeitos das actividades humanas sobre o clima e prever as consequências a longo prazo. As outras iniciativas da ONU foram a organização da importante “Conferência do Clima do Rio”, em 1992 (que endossou em particular a necessidade de desenvolvimento sustentável) e a proposta de um tratado internacional para minimizar as alterações climáticas induzidas pelo homem, a “Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC na sigla inglesa)”, que entrou em vigor em 1994 e foi assinado por quase todos os Estados-membros da ONU em 1997, o “Protocolo de Quioto” e o “Acordo Internacional de Paris”, em 2015.

Acerca da questão do clima desde o início dos anos de 1990, importantes instituições políticas ocidentais (a ONU, a União Europeia, a Presidência dos Estados Unidos com o Vice-Presidente Al Gore) tomaram uma posição totalmente alinhada com o IPCC que foi a não hesitação em atribuir às actividades humanas (e em particular à combustão de combustíveis fósseis) o aquecimento global em curso desde o início da revolução industrial; partilha das previsões catastróficas do IPCC sobre o aumento da temperatura que ocorrerá até 2100 (previsões obtidas com modelos de dinâmica climática totalmente carentes de validação); convicção da urgência de intervenções de mitigação radicais; nenhuma dúvida científica sobre a correcção destas decisões. Estas foram (e são) as principais características da ideologia do “Aquecimento Global Antropogénico (AGW na sigla inglesa)”, que nasceu no início dos anos de 1990 no contexto político elitista mas limitado da ONU e de importantes governos ocidentais, e nos anos seguintes espalhou-se por todo o mundo com uma rapidez impressionante. Vários factores contribuíram para este extraordinário sucesso que foram o colapso da União Soviética em 1989, a consequente difusão geral e partilha do objectivo do desenvolvimento sustentável, a pressão das ONGs verdes, a adopção de posições verdes pelos partidos políticos progressistas nos governos dos países ocidentais, a aspiração da ONU de exercer uma “governação” global (particularmente na gestão da atmosfera), o apoio dos produtores de gás natural visando a marginalização do carvão, o apoio dos países em desenvolvimento atraídos pela promessa de financiamento dos países desenvolvidos até cem mil milhões de dólares por ano em compensação, e sobretudo a excepcional fortuna mediática da poderosa mensagem alarmista contida na AGW. AAGW tem conseguido nos últimos vinte e cinco anos tornar a questão climática talvez a mais importante questão política partilhada pelos governos de todo o mundo. O facto de ser substancialmente compartilhado pela opinião pública mundial permitiu aos governos de países desenvolvidos importantes (especialmente os da União Europeia) embarcar em onerosos programas plurianuais destinados a conseguir uma rápida descarbonização da economia, ou seja, a revolucionar a estrutura energética da nossa sociedade. Neste contexto altamente politizado, o aspecto científico da questão climática perdeu quase toda a relevância. Alguns cientistas até insistem que a questão científica foi resolvida, mas este não é de modo algum o caso. Na complexa ligação de causas e efeitos do sistema climático, há uma série de aspectos científicos importantes que ainda têm de ser esclarecidos. Além disso, as previsões das tendências climáticas a médio e longo prazo continuam a ser completamente duvidosas. Um indicador seguro da fraqueza da base científica da AGW

é a falta de divulgação científica séria. Por exemplo, num dos aspectos fundamentais da AGW, a atribuição ao CO2 antropogénico do aquecimento global em curso, as pessoas com preparação mas não especializadas não encontram na literatura mundial qualquer apresentação científica convincente do mecanismo físico de tal acção do CO2. Pelo contrário, a literatura está cheia de revelações superficiais, pouco claras, omissivas, ou evidentemente catastróficas sobre os processos climáticos. Toda a história da humanidade mostra que a energia é um factor chave no seu desenvolvimento. Todas as melhorias socioeconómicas mais significativas foram sempre associadas à disponibilidade de energia fiável e à capacidade de a utilizar da melhor forma. A forte melhoria das condições de bem-estar desde o início da revolução industrial está intimamente ligada à disponibilidade de energia segura e barata. A este respeito, foram introduzidos dois parâmetros para cada país que é o “Índice de Desenvolvimento Humano”, que é composto tendo em conta a esperança de vida, o nível de educação e o rendimento per capita e o “Índice de Desenvolvimento Energético”, que tem em conta o consumo de energia per capita e a mistura de fontes utilizadas. Os índices estão bem correlacionados entre si, especialmente em valores baixos, mostrando que a disponibilidade de energia é crucial especialmente na fase inicial do desenvolvimento de um povo. Os valores elevados do Índice de Desenvolvimento Humano podem ser acompanhados por valores bastante diferentes do “Índice de Desenvolvimento Energético”, devido à multiplicidade de factores envolvidos, incluindo condições climáticas, densidade populacional e disponibilidade de fontes de energia. Até há três ou quatro séculos atrás, as fontes de energia predominantes eram fontes renováveis que diferiam de acordo com a

Não há dúvida de que a utilização de combustíveis fósseis deve visar a redução da emissão dos poluentes primários reais (não queimados, óxidos de enxofre, óxidos de azoto e partículas) tanto quanto possível, de forma compatível com as tecnologias disponíveis

localização geográfica, mas durante os últimos dois séculos os combustíveis fósseis têm vindo progressivamente a assumir e cobrem agora cerca de 80 por cento das necessidades energéticas mundiais. Não se pode esperar que os combustíveis fósseis sejam facilmente substituídos a curto prazo. No século XX surgiu também a fonte nuclear, que, entre momentos de expansão e outros de abrandamento, cobre agora cerca de 4 por cento das necessidades mundiais. A utilização de combustíveis fósseis implica a emissão de CO2 adicional para a atmosfera em comparação com os fluxos naturais, sendo um gás com efeito de estufa, que tem sido responsabilizado pelo aquecimento que ocorreu no século XX, em particular o registado na segunda metade do mesmo século, em conjunção com o forte desenvolvimento de países que até então tinham sido subdesenvolvidos. A este respeito, é de salientar que o CO2 produzido por fontes fósseis representa agora menos de 5 por cento do total de CO2 libertado na atmosfera, as maiores contribuições provenientes da desgaseificação dos oceanos e da degradação de todos os compostos biológicos. Além disso, a concentração de CO2 na atmosfera varia consideravelmente de local para local, de modo que as medições de referência são geralmente efectuadas em locais localizados fora da “camada limite planetária “ em áreas não particularmente antropizadas e sem vegetação intensa. O ponto de referência para o hemisfério norte é a medição a cerca de quatro mil e duzentos metros acima do nível do mar no vulcão Mauna Loa no Havai. O CO2, com os níveis actuais de concentração na atmosfera (400 ppm igual a quatro moléculas a cada dez mil) está longe de ser um poluente; de facto, o homem vive sem problemas em ambientes com concentrações muito mais elevadas. O CO2 não é tóxico, o perigo é de roubar espaço ao oxigénio, mas este é um caso extremo dada a desproporção entre a concentração dos dois gases na atmosfera (400ppm correspondendo às ditas quatro moléculas em dez mil para o CO2 e 210.000ppm correspondendo a vinte e uma moléculas em cem para o O2). O ar exalado por um ser humano em condições normais tem um teor de CO2 da ordem de 40.000 ppm. O CO2 é também a molécula chave no processo de fotossíntese e, portanto, revela-se um poderoso fertilizante de toda a biosfera. Assistimos a um processo de ecologização de quase todo o globo, provavelmente resultante do aumento da sua concentração na atmosfera e de 1958 até Março de 2019 aumentou de 315 ppm para 410 ppm. Em geral, na presença de um maior teor de CO2, a vegetação pode crescer bem mesmo em áreas mais secas porque, por um lado, pode permitir um menor número de estomas, limitando assim as perdas de água, enquanto por outro lado pode investir mais biomassa no desenvolvimento dos sistemas radiculares, que podem assim explorar melhor os recursos hídricos do solo e armazenar mais


quinta-feira 17.6.2021

carbono orgânico no próprio solo. Para um determinado local geográfico ou para um território mais ou menos alargado, o clima é uma abstracção estatística obtida através do cálculo dos valores médios e extremos das variáveis meteorológicas medidas em várias escalas espaciais e durante um período de trinta anos. Neste contexto, o clima actual deve ser entendido como referindo-se aos últimos trinta anos. O sistema climático, de acordo com uma definição da Organização Meteorológica Mundial, é um sistema composto por atmosfera, hidrosfera, criosfera, litosfera e biosfera. Na sua essência, todo o planeta participa no sistema climático. O clima local está relacionado com uma determinada área da superfície da terra que pode ser mais ou menos extensa. O clima global diz respeito a todo o planeta e é obviamente a soma de muitos climas locais. A principal variável que a caracteriza é a “Temperatura Global Média da superfície (TGM)” que influencia duas variáveis globais essenciais que são a

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cobertura glaciar e o nível do mar. À medida que a TGM aumenta, a cobertura glaciar diminui e o nível do mar aumenta devido ao derretimento da neve e do gelo e, em menor grau, à expansão térmica da água líquida. Se as primeiras medições instrumentais da TGM datam de 1650 e se devem à Academia do Cimento fundada por Galileu, aproximando-se dos tempos recentes, a rede de detecção da TGM tornou-se cada vez mais fiável, cobrindo uma boa parte do planeta por volta de 1850. Esta rede é de facto ainda deficiente em muitos aspectos, porque algumas áreas são mal controladas e outras estão sujeitas a influências negativas ligadas a actividades antrópicas, em particular as chamadas “ilhas de calor”, cujo efeito de distorção é corrigido por ajustamentos que, em vários casos, podem contudo ser problemáticos. Deve-se ter em conta que grandes complexos urbanos com uma alta concentração populacional podem levar a aumentos de temperatura local de até alguns graus Celsius. Estas medidas

têm sido progressivamente aperfeiçoadas e considerando o nível tecnológico actual, são uma boa referência. Desde 1956 que existem levantamentos atmosféricos com balões de sondagem e desde 1979 com satélites que também nos permitem rastrear a TGM. No passado, antes de 1850, existem algumas séries de dados a nível local úteis para conhecer o clima em áreas limitadas, em geral na Europa, enquanto vários sinais de tipo físico ou biológico deixados pelas alterações climáticas são utilizados para reconstruir aproximadamente a TGM. A opinião pública está muito condicionada pelo clima do lugar onde vive e tende a generalizá-lo a um clima global. Só raramente nos lembramos que mais de 70 por cento da superfície terrestre é coberta pelo mar e que apenas 30 por cento é constituída por terra seca, da qual apenas uma fracção, não superior a 10 por cento, é antropizada com uma densidade populacional significativa. É de recordar que uma grande parte da superfície terrestre é coberta por desertos, florestas tropicais,

opinião 15

tundra, zonas montanhosas ou coberturas glaciares. Assim, menos de 3 por cento da superfície terrestre total é significativamente antropizada. O clima local depende principalmente do clima em maior escala e do clima global, mas em áreas antropizadas é também significativamente influenciado pelas actividades humanas. Em particular, a utilização maciça de energia, produzida principalmente com combustíveis fósseis com a consequente emissão de poluentes (não queimados, óxidos de enxofre, óxidos de azoto e partículas em suspensão) é certamente corresponsável pela mudança do clima local. Um exemplo clássico pode ser o clima local como o do Delta do Rio das Pérolas que é influenciado por actividades antrópicas. É também óbvio que, uma vez que o clima global é a composição de muitos climas locais, os das zonas fortemente antropizadas intervêm para caracterizar o clima global, mas como ocupam uma pequena fracção da superfície total do planeta a sua contribuição é modesta. A situação muda se, como resultado de actividades antrópicas, algo que possa influenciar o clima global for introduzido na atmosfera, que é rapidamente remisturada ao nível de um único hemisfério. É o caso do CO2 com a sua função como gás com efeito de estufa. Não há dúvida de que a utilização de combustíveis fósseis deve visar a redução da emissão dos poluentes primários reais (não queimados, óxidos de enxofre, óxidos de azoto e partículas) tanto quanto possível, de forma compatível com as tecnologias disponíveis. Produzir energia reduzindo os poluentes é mais amigo do ambiente, mas mais dispendioso. Por conseguinte, é evidente que a forma como os combustíveis fósseis são utilizados está ligada ao nível de desenvolvimento tecnológico do país e não se pode esperar que os países subdesenvolvidos utilizem os combustíveis como fazem na Suécia, mas progressivamente todos os países tenderão a utilizá-los cada vez mais para reduzir as emissões poluentes. Na história do clima da Terra sempre houve fenómenos extremos como as “ondas de calor”, secas e precipitação intensa (chuvas torrenciais indevidamente chamadas “bombas de água”), aumento da pluviosidade e falta de precipitação, ciclones, furacões, tornados e outros. O termo “eventos extremos” foi recentemente introduzido para estes fenómenos. Apenas uma série relevante e bem documentada de eventos extremos durante um período de tempo significativo poderia ter significado climático e possivelmente estar ligado às alterações climáticas. O próprio IPCC no relatório “AR5 Climate Change 2013 - The Physical Science Basis SPM” salienta que tais eventos na segunda metade do século passado provavelmente se intensificaram em algumas áreas, mas não à escala global; relativamente a estes eventos é muito difícil comparar, mesmo a nível local, com o que aconteceu no passado por falta de dados estatísticos cientificamente fiáveis.


“A felicidade do homem depende de si mesmo.” PALAVRA DO DIA

Marco Aurélio

quinta-feira

17.6.2021 episódio 19

INSTITUTO DO DESPORTO

O Jogo das Escondidas um folhetim por Fernando

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UM momento em que a sua carreira enquanto piloto se encontra em “banho-maria”, o vencedor do Grande Prémio de Macau de Fórmula 4, Charles Leong Hon Chio, iniciou um projecto que pretende trazer “novo sangue” ao automobilismo de Macau, usando para isso os simuladores e o entusiasmo em redor do “sim racing”, a modalidade electrónica que replica os desportos motorizados. Mesmo após ter triunfado na corrida de Fórmula 4 do Grande Prémio de Macau do ano transacto, Charles Leong estava ciente que este resultado poucas possibilidades lhe poderia abrir no desporto motorizado. A pandemia veio afectar fortemente o ecossistema do automobilismo no continente asiático e as oportunidades de um jovem da RAEM evoluir nestas circunstâncias fora de portas são diminutas. Não querendo desperdiçar a sua experiência e conhecimento do desporto, Charles Leong co-fundou a G Racing Simulation, uma empresa que dá instrução de condução em simuladores. Durante muitos anos, o karting era a escola única para a formação de pilotos para o automobilismo, mas cada vez há mais jovens a usarem os simuladores - pelo seu menor custo e conveniência - como ferramenta de aprendizagem. Charles Leong não hesitou em afirmar ao HM que “acredita em ambas, pois para o ex-praticante

Abrir a porta pelo virtual Vencedor do Grande Prémio aposta nos simuladores “tanto o karting, como os simuladores, são muito importantes. O karting é insubstituível. Porém, o simulador é uma ferramenta muito boa para testes e para ajustar hábitos de condução”. Por outro lado, e apesar de ter no Kartódromo de Coloane a mais sofisticada infra-estrutura para a prática de karting no sudeste asiático, a regulamentação local é bastante desfavorável à iniciação na modalidade. A idade mínima para alugar um karting no Kartódromo de Coloane é de dezoito anos. Em Portugal, por exemplo, a idade de iniciação em competição no karting é aos cinco anos. Por isso mesmo, “o simulador pode ajudar muitos pais a compreenderem o que realmente são as corridas e assim permitirem que os seus filhos possam experimentar o que se sente nas corridas”, explicou Charles Leong, que co-dirige a empresa localizada nas imediações da

Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau.

Perceber o real valor

Existe sempre a dúvida se um bom piloto no mundo virtual pode demonstrar o mesmo talento na vida real. O ex-campeão chinês de Fórmula 4 acredita que “tudo depende da pessoa”, mas “com um treino adequado”, o salto dos simuladores para os carros da vida real pode ser mais fácil e não há nada que o impeça de se “tornar num bom piloto". Esta transição de um mundo para o outro é passo muito exigente, até porque se uma realidade praticamente não requer investimento, a outra, reclama fundos que não estão disponíveis a todas as bolsas. “Primeiro de tudo, tenho que construir este mercado em Macau e permitir que as pessoas compreendam o que são as corridas e o ‘sim racing’”, admite Charles Leong. “Tenho que construir a comu-

“O karting é insubstituível. Porém, o simulador é uma ferramenta muito boa para testes e para ajustar hábitos de condução.” CHARLES LEONG PILOTO

nidade e fazer parcerias com as pessoas certas”. Depois, no que ao financiamento diz respeito, “precisamos da ajuda do mercado chinês de ‘sim racing’. Isto poderá ajudar-nos a promover e a criar uma boa proposta para diferentes pessoas”, explica o piloto-empresário de apenas 19 anos. “O financiamento poderá vir da Federação de União de Desportos Electrónicos de Macau ou do governo. Contudo, a única forma de encontrar patrocínios será construir uma boa reputação, criar valor e permitir que as pessoas compreendam melhor o que são as corridas em Macau”.

GP por pensar

O primeiro piloto chinês de Macau a vencer a prova rainha do Grande Prémio ainda não sabe se voltará a competir na prova do mês de Novembro. Depois de ter competido na prova de Fórmula 3 por duas ocasiões e ter sido o vencedor na estreia da Fórmula 4 no Circuito da Guia, Charles Leong ainda não tem nada alinhavado para o maior cartaz automobilístico da RAEM. “Para ser honesto, ainda não estou certo”, confirmou, salientando o facto do programa das corridas do evento estarem por definir, lembrando também que para além dos seus projectos empresariais, onde se incluí também o Pátio Café na Taipa, tem ainda compromissos universitários. “Provavelmente irei ao Reino Unido no mês de Setembro…” e talvez nessa altura tome uma decisão. Sérgio Fonseca

Sobral

- Também penso assim, tenente. O que acha do assunto? - Os alemães têm interesses coloniais. E os ingleses não têm já interesse nisto. Dominam Hong Kong e parte de Xangai. Têm a Índia. Os alemães sim, cobiçam um império. Conhece a cerveja Tsingtao, senhor Governador? Está à venda em Macau e a história começa aí. No final do século XIX as forças navais alemãs tomaram conta da Baía de Jiaozhou, de um porto que conhecemos como Tsingtao, como concessão colonial. Os alemães estabeleceram-se lá e construíram a sua pequena Baviera. E criaram mesmo essa cerveja, que lhes lembrava as suas raízes. Mas, no início da Primeira Guerra Mundial, os alemães foram afastados dali pelo Exército Imperial Japonês, aliado dos europeus e americanos na Ásia. Não surpreendeu que a cervejaria alemã passasse a ser japonesa. No ano passado foi acordado que o porto voltasse à posse da China, mas a situação ainda é confusa. Desde que perderam a concessão Berlim quer ter um entreposto comercial nesta zona. Macau era um pitéu para eles degustarem com salsichas. O Governador deu uma risada e voltou a agarrar no jornal. - Pelos vistos este foi um debate interessante, à nossa maneira, é claro. Veja o que o deputado Leote do Rego, verdadeiro herói republicano que muito prezo, disse sobre a notícia: “Esse jornal pode ser lido por 60 milhões. Tem 22 edições por dia. É um jornal importante, não há dúvida visto que os jornais se fizeram eco dele. Eu entendi que devia chamar a atenção de S. Excelência para o jornal, não para provocar um desmentido, porque não era preciso que das cadeiras do Poder se viesse dizer que o Governo não pensava em alienar qualquer porção do território português, mas se poder afirmar aqui que o coração português se tinha amargurado, como de facto se amargurou, com a notícia que veio nesse jornal. Essa afirmativa já foi feita por um estadista espanhol por outra forma. Que Portugal é igual à colónia inglesa de maior importância. E até já se foi mais longe, dizendose que uma grande nação tinha aqui encravada uma feitoria britânica”. (continua)

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Hoje Macau 17 JUNHO 2021 #4790  

Nº 4790 de 17 JUNHO de 2021 - Edição em papel do jornal Hoje Macau

Hoje Macau 17 JUNHO 2021 #4790  

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