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MOP$10

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

hojemacau

Q U I N TA - F E I R A 9 D E J A N E I R O D E 2 0 1 4 • A N O X I I I • N º 3 0 0 7

Gays pretendem saber o que pensa a sociedade

• ENTRE 2004 E 2013

IACM revela que abandono superou adopção

O recado mora ao lado

PROTECÇÃO ANIMAL PÁGINA 7

• SERVIÇOS DE SAÚDE

Acreditação dos profissionais em discussão PÁGINA 5

Uma investigação promovida em Hong Kong mostra que 74% dos entrevistados concorda com igualdade de direitos entre casais homossexuais e heterossexuais. Anthony Lam, presidente da associação Arco-Íris de Macau, aplaude o trabalho feito na região vizinha e pede maiores atenções para a realidade da comunidade LGBT da RAEM. “Não sabemos o que as pessoas pensam. Este tipo de inquérito é mesmo necessário em Macau.”

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Ter para ler • ESTUDO DA MUST

População está com confiança em baixa PÁGINA 6

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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PÁGINA 3

• JOGOS DA LUSOFONIA EM GOA

BASQUETEBOLISTA PORTUGUÊS NUNO GOMES VAI REPRESENTAR A SELECÇÃO DA FLOR DE LÓTUS PÁGINA 16


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POLÍTICA

hoje macau quinta-feira 9.1.2014

TAIPA ANM QUER QUE GOVERNO RETIRE NOVO PLANO URBANO DO NORTE

Os diversos contornos da nova lei cecilia.lin@hojemacau.com.mo

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início. A sociedade acredita que já ocorrem casos semelhantes - como o caso da demolição do antigo edifício na Rua de Barca – que são para evitar ter de cumprir as disposições da nova lei. [Os planos] precisam de ser previamente alvo de consulta pública e discussão no Conselho do Planeamento Urbano.” Lau Si Io já disse que a publicação do plano de ordenamento na Taipa – recentemente anunciado e que tem como objectivo construir mais casas e instalações sociais – serve para demonstrar a transparência da Administração, mas a ausência de uma consulta pública, diz Chao, prova o contrário.

HOJE MACAU

CECÍLIA LIN

Associação Novo Macau (ANM) entregou ontem uma carta na Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) onde se manifesta contra o novo plano de ordenamento urbanístico da zona norte da Taipa. A associação está contra o facto de o Governo querer lançar o plano antes da Lei do Planeamento Urbanístico entrar em vigor, o que acontece a 1 de Março. O presidente da ANM, Jason Chao, considera que o Governo está, “deliberadamente”, a violar o princípio jurídico daquela lei e pede que o Executivo retire o plano. “Segundo o princípio da boa-fé, todos os planos que envolvem planos urbanos deveriam ser lançados depois da lei entrar em vigor, assim evitando que haja quaisquer violações da lei. Tenho medo que este caso seja apenas o

O ESSENCIAL A associação está contra o facto de o Governo querer lançar o plano antes da Lei do Planeamento Urbanístico entrar em vigor, o que acontece a 1 de Março

MUDANÇAS NO CONSELHO PARA AS INDÚSTRIAS CULTURAIS

“Publicar um plano sem consulta não mostra a transparência do Governo. Se o Chefe do Executivo quer mesmo a sua reeleição, não deve lançar um plano que envolve grande interesse pública à pressa. Isto deixa que a sociedade fique preocupada sobre uma eventual transferência de interesses.”

VOZ DIFERENTE

Para o urbanista Lam Iek Chit, o Governo deveria suspender o plano da Taipa, antes da lei entrar em vigor. “Não é só o plano da Taipa, mas também outros planos urbanos.” Mas há quem pense diferente. O deputado Lau Veng Seng, por exemplo, acredita que o Governo já coordenou o plano de ordenamento da zona norte da Taipa com a nova lei, precisamente para não violar a lei. O também presidente da Associação de Construtores Civis e Empresas de Fomento Predial de Macau, e deputado nomeado, considera que publicar o plano é uma acção positiva e indica que se prevê oferecer milhares de novas fracções habitações, o que pode ajudar a aumentar a oferta do mercado imobiliário. Lau Veng Seng diz mesmo que espera também que o plano urbano da Ilha Verde e de Seac Pai Van possam sair o mais cedo possível.

HO ION SANG LEMBRA ENSINO TÉCNICO-PROFISSIONAL

OSÉ Chui Sai Peng é o novo vice-presidente do Conselho para as Indústrias Culturais. O também deputado substitui, assim, Leong Heng Teng, porta-voz do Conselho Executivo, que assumia a função. O anúncio foi feito ontem em Boletim Oficial (BO),

num despacho assinado pelo secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, mas entrou em vigor já no primeiro dia de Janeiro. Mas as nomeações não acabam por aqui. José Luís Sales Marques e António José de Freitas também deixam o Conselho para as Indústrias

Culturais, sendo substituídos por outros membros, entre os quais Miguel Khan, membro da Associação de Jovens Macaenses. Contudo, conforme já tinha sido anunciado em Novembro, Leong Heng Teng não vai deixar de vez a ligação às indústrias culturais. O também porta-voz do Conselho Executivo vai presidir ao Conselho de Administração do Fundo das Indústrias Culturais. A par de Leong Heng Teng, Sales Marques e António José de Freitas vão também integrar este conselho, da qual fazem parte o empresário e membro do Conselho Executivo, Lionel Leong, e Ip Sio Kai, do Banco da China. Em Outubro do ano passado, o Conselho Executivo deu luz verde à criação deste fundo, cujo capital inicial será de 200 milhões. O objectivo do Conselho é conceder apoio financeiro a diferentes projectos que se encaixem no desenvolvimento das indústrias culturais. O Governo tem apostado agora nesta área, como forma de diversificar a economia. - J.F.

TIAGO ALCÂNTARA

Chui Sai Peng entra em cena Pede-se renovação J

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deputado Ho Ion Sang pede uma renovação do ensino técnico-profissional, considerando que o actual sistema tem “desvantagens” e que não existem cursos a corresponder à oferta do ensino superior. “Macau não tem cursos no ensino superior que tenham ligação aos cursos profissionais, e os cursos das escolas secundárias não ajudam os estudantes

a terem certificado. Então os alunos desses cursos têm de concorrer com os alunos do ensino normal”, afirma o deputado em interpelação escrita. “Como os alunos do ensino profissional levam quatro anos para aprender algumas disciplinas, e o restante tempo é gasto na prática da sua técnica profissional, é difícil para eles concorrerem com os alunos que

tiveram seis anos noutro sistema de ensino e que fazem os exames para entrarem na universidade.” “Os cursos oferecem um certificado do ensino secundário e outro de habilitações profissionais, mas o seu conteúdo não tem qualquer ligação com a prática. Considero que o ensino técnico-profissional tem espaço para melhorar, para que possa corresponder ao desenvolvimento das indústrias.” Ho Ion Sang pede que o Governo considere as experiências nas regiões vizinhas e que crie um certificado de ensino superior para este tipo de alunos. Isto para que os alunos com talentos técnicos possam ter mais saída profissional. Ho Ion Sang aponta ainda que neste ano lectivo existiam nove escolas privadas e uma pública com um total de 41 cursos, mas que apenas 1,9 mil alunos os frequentaram. - C.L.


SOCIEDADE

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ANDREIA SOFIA SILVA

andreia.silva@hojemacau.com.mo

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M Hong Kong muitos podem não concordar com o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas aceitam os seus direitos. É o que mostram os resultados de um estudo ontem divulgado, e que foi realizado pelo centro de investigação em ciências sociais (SSRC, na sigla inglesa) da Universidade de Hong Kong. 36% dos entrevistados, de um universo de 410 pessoas inquiridas de forma aleatória, estão totalmente contra o casamento homossexual, enquanto apenas 27% concorda totalmente com o assunto. Contudo, 74% dos entrevistados apoia o facto dos casais homossexuais poderem ter os mesmos direitos dos casais heterossexuais, ou alguns desses direitos. Convidado a comentar os resultados, Anthony Lam, presidente da associação Arco-Íris de Macau, defende que deve haver um inquérito semelhante em Macau. “É necessário conduzir algum tipo de estudo. No primeiro ano de funcionamento da Arco-Íris, só temos informações e dados da comunidade homossexual. Não temos contacto suficiente com a restante população e com o que eles pensam. Este tipo de inquérito é mesmo necessário em Macau”, diz ao HM. Contudo, Anthony Lam acredita que os resultados, a serem uma realidade, não iriam afastar-se muito do estudo em Hong Kong. “Do que sei penso que a população de Macau apoia os direitos dos homossexuais, tal como em Hong kong. Mas não estamos certos até que ponto apoiam

ESTUDO HONG KONG CONCORDA COM DIREITOS DA COMUNIDADE GAY

“Este tipo de inquérito é necessário em Macau”

Uma investigação conduzida pela Universidade de Hong Kong mostra que apenas 27% dos inquiridos apoiam o casamento homossexual, concordando mais com os direitos LGBT. Presidente da Arco-Íris Macau afirma que na RAEM são precisos mais dados sobre esta questão ou não o direito ao casamento. Nunca foi feito nenhum estudo e não há um canal para que expressem a sua opinião em relação ao casamento homossexual.” O HM tentou ainda entrar em contacto com Jason Chao, outro dos activistas dos direitos LGBT,

mas o mesmo mostrou-se incontactável até ao fecho da edição.

38% DEFENDE “ALGUNS” DIREITOS HETEROSSEXUAIS

Os resultados mostram ainda uma comparação entre os direitos que os casais do mesmo sexo deveriam ter

em relação aos que são compostos por um homem e uma mulher. 38% defende que os casais gays poderiam ter “alguns” desses direitos, enquanto que 36% defende que devem ter “todos os direitos”. 26% acredita que não devem ter nenhum dos direitos.

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De acordo com um comunicado ontem divulgado, os responsáveis pelo estudo falam de vários exemplos legais em todo o mundo, em relação às relações LGBT, e que em muitos casos os governos estendem os direitos sem, de facto, permitirem o casamento entre pessoas do mesmo sexo. É ainda referido que não existe um reconhecimento legal dos casais do mesmo sexo em Hong Kong, com uma “excepção notável” para a lei da violência doméstica, que estende a protecção a esses casais. O estudo lembra que o Governo de CY Leung “deveria preocupar-se com uma potencial resposta ao público sobre os casamentos gay”. “As autoridades governamentais afirmam que os casamentos de pessoas do mesmo sexo geram alta controvérsia e apontam uma aparente falta de aprovação pública para a sua legalização.” De frisar que as 410 pessoas entrevistadas têm mais de 18 anos e residem em Hong Kong. A taxa de cooperação é de 78% e de respostas é de 15%. 98% das entrevistas foram feitas em cantonense.

Estilistas portugueses de fora do subsídio do IC

Já são conhecidos os oito finalistas do programa de subsídios à criação de amostras de design de moda 2013, sendo que nenhum nome português consta na lista. Em comunicado, o Instituto Cultural (IC) anuncia os nomes de Tam Chi Kit, Chan Wai Chan, Cheang Chi Tat, Lei Weng Man e Lei Ho Sin Ieng, Wai Chin Seong, Cheang Man Cheng e Tse Ka Wai, Lee Min San e Cheang Oi Leng. Estes nomes vão receber até 150 mil patacas para desenvolver os seus projectos de moda, sendo que serão notificados por telefone. O júri, composto, entre outros nomes, por António Conceição Júnior, macaense ligado à moda e cultura locais, acabou por frisar “a fraca atenção dada pelos candidatos ao plano de comercialização”, tendo sido dado o conselho para que elaborem “estratégias mais completas de orçamentação e comercialização, para que possam ter mais êxito neste tipo de concursos no futuro”. Os finalistas vão apresentar os seus trabalhos finais na Galeria de Moda de Macau, durante este ano.


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hoje macau quinta-feira 9.1.2014

Open Tender Notice Request for Proposal – MIA – Procurement of the Rescue and Fire Fighting Rubber Boats – RFQ-161 1. 2. 3. 4.

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Company: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) Tendering method: Open tendering Objective: To select a qualified contractor to perform the Procurement of the Rescue and Fire Fighting Rubber Boats. Request for tender documents: Tender Notice and Tender Document can be downloaded from the website www.macau-airport.com and www.camacau.com until 7 days prior to the deadline for submission of Bidders’ tenders. Please regularly check the website for any clarification or changes/modification/amendment of the Tender Document. Location and deadline for submission of Bidders’ tenders: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) 4th Floor, CAM Office Building, Av. Wai Long, Taipa, Macau Before 17:00 on 25 March 2014 (Macau Time) The addressee of the tender shall be Mr. Deng Jun – Chairman of the Executive Committee. The tenders received after the stipulated date and time will not be accepted. CAM reserves the right to reject any tender in full or in part without stating any reasons.

Open Tender Notice Request for Proposal – Design and Build of Renovation for Decoration Optimization at PTB Arrival Level and Departure Level at MIA - RFQ-182 1. 2. 3.

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Open Tender Notice Request for Proposal – Design and Build of Aircraft Fire Training Simulator at Macau International Airport - RFQ-178 1. 2. 3. 4.

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Company: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) Tendering method: Open tendering Objective: To select a Contractor/Supplier for the design, purchase, delivery, installation, training, T&C and related maintenance service of the respective aircraft fire training simulator at Macau International Airport. Request for tender documents: Tender Notice and Tender Document can be downloaded from the website www.macau-airport.com and www.camacau.com until 7 days prior to the deadline for submission of Bidders’ tenders. Please regularly check the website for any clarification or changes/ modification/amendment in the Tender Document. Location and deadline for submission of Bidders’ tenders: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) 4th Floor, CAM Office Building, Av. Wai Long, Taipa, Macau Before 17:00 on 25 March 2014 (Macau Time) The addressee of the tender shall be Mr. Deng Jun – Chairman of the Executive Committee. The tenders received after the stipulated date and time will not be accepted. CAM reserves the right to reject any tender in full or in part without stating any reasons. -END-

Company: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) Tendering method: Open tendering Objective: To select a Contractor/Supplier for the design and the renovation works of the floor, wall, false ceiling, lighting and other decorative accessories for the Passenger Terminal Building at Macau International Airport, according to the chosen design concept from “Macau International Airport Environmental Optimization Design Competition”. Request for tender documents: Tender Notice and Tender Document can be downloaded from the website www.macau-airport.com and www.camacau.com until 7 days prior to the deadline for submission of Bidders’ tenders. Please regularly check the website for any clarification or changes/ modification/amendment in the Tender Document. Location and deadline for submission of Bidders’ tenders: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) 4th Floor, CAM Office Building, Av. Wai Long, Taipa, Macau Before 17:00 on 27 March 2014 (Macau Time) The addressee of the tender shall be Mr. Deng Jun – Chairman of the Executive Committee. The tenders received after the stipulated date and time will not be accepted. CAM reserves the right to reject any tender in full or in part without stating any reasons.

Open Tender Notice Request for Proposal – Construction of New Warehouse and Office Building at Main Fire Station at MIA - RFQ-184 1. 2. 3. 4.

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Company: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) Tendering method: Open tendering Objective: To select a Contractor for the construction of a new warehouse and office building at Main Fire Station at Macau International Airport. Request for tender documents: Tender Notice and Tender Document can be downloaded from the website www.macau-airport.com and www.camacau.com until 7 days prior to the deadline for submission of Bidders’ tenders. Please regularly check the website for any clarification or changes/ modification/amendment in the Tender Document. Location and deadline for submission of Bidders’ tenders: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) 4th Floor, CAM Office Building, Av. Wai Long, Taipa, Macau Before 17:00 on 1 Apr 2014 (Macau Time) The addressee of the tender shall be Mr. Deng Jun – Chairman of the Executive Committee. The tenders received after the stipulated date and time will not be accepted. CAM reserves the right to reject any tender in full or in part without stating any reasons. -END-


sociedade 5

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ANDREIA SOFIA SILVA

andreia.silva@hojemacau.com.mo

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Conselho para os Assuntos Médicos (CAM) reuniu ontem para debater os futuros trâmites de acreditação para os profissionais de saúde, a qual será composta por quatro fases diferenciadas. Mas a grande novidade poderá ser a possibilidade de realização do exame além das duas línguas oficiais da RAEM. “O exame será feito nas línguas oficiais, o chinês e o português, mas a língua inglesa pode ser adoptada. No exame geral a maioria dos membros pensam que, se for necessário, poderá ser realizada a prova inglesa”, disse Lei Chi Ion, director dos Serviços de Saúde. Contudo, os membros do CAM falaram em possíveis “problemas na operacionalização”. “Por causa do exame ser feito em inglês é necessário que o júri domine essa língua, e alguns membros sugeriram o convite de especialistas do estrangeiro para a realização de provas.” Depois da primeira aprovação, os candidatos terão de fazer um registo provisório, e só depois de realizado o estágio na sua especialidade poderão ter acesso ao registo de qualificação profissional. Para já, não existe calendário para a conclusão do regime e para a elaboração da proposta de lei, que será

SAÚDE DISCUTIDO FUTURO DA ACREDITAÇÃO PARA PROFISSIONAIS

Médicos poderão submeter-se a exames em inglês Os profissionais de saúde terão de submeter-se a quatro etapas até ter permissão para lidar com os pacientes, sendo que o exame poderá ser feito numa terceira língua

aprovada em Conselho Executivo e submetida à Assembleia Legislativa (AL).

JÚRI NÃO É CONHECIDO

Para o futuro, o CAM promete debater melhor sobre

“PRESSÃO” NA URGÊNCIA COM 900 UTENTES DIÁRIOS Após a realização da CAM houve espaço para perguntas sobre outras áreas da saúde, e o director do hospital Conde de São Januário confirmou que existe “pressão” face às poucas infra-estruturas pública de saúde para tantos doentes. “Já fizemos muitos trabalhos em termos de recursos humanos, mas já temos muitos serviços, como a nova urgência e a consulta externa de 24 horas. De acordo com os números registados nos últimos anos, serviços como a urgência (em Macau e ilhas) e pediatria aumentaram quase para 900 utentes por dia. Isso trouxe alguma pressão mas fazemos o melhor para desenvolver serviços de apoio. Começamos a aumentar os serviços da urgência nas ilhas e as unidades associadas. E também temos a colaboração com algumas instituições privadas para aumentar as camas comunitárias, para reduzir a pressão no número de camas no hospital.” Lei Chio Ion garantiu que existe um plano e ligação ao hospital da Universidade de Ciência e Tecnologia (MUST) no fornecimento de camas hospitalares. E que este ano vão ser recrutados mais médicos e enfermeiros, mas não disse quantos exactamente.

o exercício cumulativo de funções, mas também decidir sobre a composição do júri. Ainda não são conhecidos quaisquer nomes de uma das partes mais importantes na criação deste regime. “Não estamos a discutir ainda a composição, mas o serviço responsável pelos exames vai debater mais tarde. Damos muita atenção aos membros do conselho de acreditação profissional, porque isso vai afectar os procedimentos dos exames e do estágio. O conselho vai coordenar exames, o registo e o estágio, bem como o desenvolvimento profissional contínuo, e o reconhecimento mútuo com outras entidades do exterior”, disse Lei Chi Ion. Para além disso, quem já exerce a profissão vai estar sujeito a um “período

transitório” para o novo regime de qualificações. Quanto aos especialistas com anos de carreira, ainda não está decidido se terão ou não de sujeitar-se a exame e estágio. “Todos os licenciados do exterior têm de fazer o exame e o registo. Mas aqueles que têm uma rica experiência, ou os que são convidados, se é necessário fazer estágio ou exame, ainda estamos a decidir.”

O exame será feito nas línguas oficiais, o chinês e o português, mas a língua inglesa pode ser adoptada. No exame geral a maioria dos membros pensam que, se for necessário, poderá ser realizada a prova inglesa LEI CHI ION Director dos Serviços de Saúde


6 sociedade

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CONSUMIDORES MUST REVELA PIOR CONFIANÇA DOS ÚLTIMOS TRÊS ANOS

CECÍLIA LIN

cecilia.lin@hojemacau.com.mo

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Universidade de Ciências e Tecnologia (MUST) realizou mais uma vez o seu estudo trimestral em relação ao Índice de Confiança dos Consumidores (ICC). Os resultados mostram que, dos cerca de mil residentes entrevistados, o índice de compra de casa foi o mais baixo em seis factores. O ICC de compra de habitação caiu 9,3% em três meses, tendo, de um total de 200 pontos, quase 42 pontos. Este é o valor mais baixo desde os primeiros três meses de 2010. “A oferta de terrenos em Macau não é suficiente e a cooperação com as zonas vizinhas, como a Ilha da Montanha por exemplo, ainda não consegue resolver a escassez de terrenos a curto prazo. A confiança dos consumidores caiu e continua a ser baixa”, disse Liu Chengkun, docente responsável pelo inquérito.

Para além da habitação, o ICC relativo ao preço dos produtos caiu 5,6%, tendo 53,9 pontos. Trata-se do segundo índice mais baixo, o que mostra que a pressão sentida pelos residentes em relação aos preços altos é grande.

TIAGO ALCÂNTARA

Falta de casas, moral em baixa

IPIM Presidente do Conselho de Fiscalização deixa cargo em Abril

Luiz Jacques e Vitória da Conceição vão deixar os cargos que ocupam no Conselho de Fiscalização do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM). De acordo com um despacho ontem em Boletim Oficial, assinado por Francis Tam, os dois responsáveis vão ver “dadas como findas as suas nomeações a partir de 1 de Abril de 2014”. O BO não justifica as razões da saída de Luiz Jacques, que ainda desempenha funções de presidente da Comissão de Fiscalização do instituto, nem de Vitória Maria da Conceição, que é membro da mesma comissão. O Estatuto do IPIM realça que, dos nomeados para esta Comissão de Fiscalização, um tem de estar em representação da Direcção dos Serviços de Finanças. O HM tentou obter esclarecimentos do IPIM, mas não foi possível em tempo útil.

Memoriais do templo Iok San regressam ao lugar

EMPREGO E ECONOMIA COM BONS SINAIS

Pelo contrário, o ICC relativo ao emprego continua a ser o mais alto, ficando com mais de 125 pontos e um aumento de 4,7%. Isso revela o quão os residentes estão confiantes em relação à procura de emprego. O ICC sobre a economia local é o segundo melhor, com 116 pontos e um aumento de 3,4% em relação ao trimestre anterior. Os consumidores com idade compreendida entre os 50 e os 59 anos são os que têm menos confiança, com um ICC de quase 83 pontos, sendo que o índice geral é de 56,32 pontos.

Depois da polémica em torno da mudança de sitio dos memoriais, eis que estes voltaram ao seu lugar de origem no templo Iok San, já no próximo Sábado, aponta a imprensa chinesa. Isto depois de cerca de sete mil memoriais terem sido retirados do sítio. Shi Jiecheng, responsável pelo templo, prometeu a colocação dos memoriais no seu espaço em três meses, o que irá acontecer.

Preços dos produtos aumentam

O presidente da Associação da União dos Fornecedores de Macau, Ip Sio Man, revelou na terça-feira passada que o preço de massa de fitas e do óleo vai subir 5% depois do ano novo chinês, mas o preço do arroz tem espaço para descer. O responsável explicou que as pequenas e médias empresas precisam de aumentar 6% a 9% nos seus preços para compensar as despesas, mas, como a principal oferta de arroz vem da Tailândia e a política do país não está estável, o preço vai descer. Ip Sio Man revelou ainda que a quantidade de importação de produtos de alta qualidade aumentou 50%, comparando com o período de antes da liberalização do jogo, o que mostra que, com o desenvolvimento económico, a necessidade de produtos de alta qualidade aumentou muito.

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Open Tender Notice

Open Tender Notice Request for Proposal – MIA – Design and Modification Works for Optimization of Aircraft Parking Stands in East Apron (RFQ-159)

Request for Proposal – Passenger Terminal Building Renovation for Decoration Optimization – “Design and build” for Curbside Facade at MIA - RFQ-185

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Company: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) Tendering method: Open tendering Objective: To select a qualified contractor to perform the reconfiguration and optimization of aircraft parking stands in east apron of Macau International Airport. Request for tender documents: Tender Notice and Tender Document can be downloaded from the website www.macau-airport.com and www.camacau.com until 7 days prior to the deadline for submission of Bidders’ tenders. Please regularly check the website for any clarification or changes/modification/amendment of the Tender Document. Location and deadline for submission of Bidders’ tenders: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) 4th Floor, CAM Office Building, Av. Wai Long, Taipa, Macau Before 17:00 on 25 March 2014 (Macau Time) The addressee of the tender shall be Mr. Deng Jun – Chairman of the Executive Committee. The tenders received after the stipulated date and time will not be accepted. CAM reserves the right to reject any tender in full or in part without stating any reasons. -END-

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Company: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) Tendering method: Open tendering Objective: To select a Contractor/Supplier for the detail design and construction works of the curbside façade of the Passenger Terminal Building (PTB) at Macau International Airport. Request for tender documents: Tender Notice and Tender Document can be downloaded from the website www.macau-airport.com and www.camacau.com until 7 days prior to the deadline for submission of Bidders’ tenders. Please regularly check the website for any clarification or changes/ modification/amendment in the Tender Document. Location and deadline for submission of Bidders’ tenders: Macau International Airport Co. Ltd. (CAM) 4th Floor, CAM Office Building, Av. Wai Long, Taipa, Macau Before 17:00 on 27 Mar 2014 (Macau Time) The addressee of the tender shall be Mr. Deng Jun – Chairman of the Executive Committee. The tenders received after the stipulated date and time will not be accepted. CAM reserves the right to reject any tender in full or in part without stating any reasons. -END-


sociedade 7

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JOANA FREITAS

joana.freitas@hojemacau.com.mo

E

M nove anos, mais de quatro mil animais de estimação foram abandonados pelos próprios donos nos canis de Macau. Já as adopções de cães e gatos ficaram-se apenas pelas 1680. Os números, apresentados pelo website do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), mostram que as adopções nos canis foram, em 41,4%, menores do que os abandonos de animais, o que levou, consequentemente, a que, em dez anos, os canis de Macau abatessem 7396 animais, entre cães e gatos. Só no ano passado, um total de 657 animais foi abatido, num ano que não é, contudo, o que contabiliza mais actos de eutanásia. Em 2004 morreram 879 animais. A política dos canis municipais de Macau tem sido bastante criticada pelas associações e grupos de protecção animal, pela ausência de um sistema de adopção considerado viável. A razão para os números não se sabe, mas o abandono de animais de estimação merece, inclusive, um destaque especial no website do canil. Na secção das perguntas mais frequentemente feitas está uma que questiona o canil sobre o que fazer “quando não se

MAIS DE QUATRO MIL ANIMAIS ABANDONADOS NOS CANIS ENTRE 2004 E 2013

Quando já não os querem

O abandono de animais domésticos em canis de Macau chega a ultrapassar o número de adopções e quase se equipara às mortes por eutanásia. Este tem sido um dos principais motivos por que lutam as associações de animais, até porque, por cá, os donos podem abandonar os seus animais sem qualquer punição, sem perguntas e as vezes que quiserem puder continuar a manter gatos que acabam abatidos o animal de estimação em são, sobretudo, apanhados casa”. A informação dada é a nas ruas. Só no ano passade que, caso isso aconteça, “e do, por exemplo, o IACM não conseguir encontrar um apanhou 1094 cães e gatos novo proprietário”, o dono – mais de metade foram poderá levar o animal “para submetidos à eutanásia. o Canil Municipal de Macau Estes, juntaram-se ainda a para abandono”. O IACM outros 148 “resgatados” e a diz que, “se o animal for 226 abandonados pelos próprios donos, só manso e sauem 2013 - ano dável”, pode em que houve ser adoptado mais abandopor outros. no de animais Contudo, ao foi o número de adopções de estimação longo de nove do que adopanos, esta não de cães e gatos nos canis ções (210). aparenta ser de Macau Ao longo uma solução de dez anos – escolhida. De 2004 a 2013, 1680 animais de 2003 ao ano passado – os de estimação foram adopta- canis de Macau capturaram dos. No entanto, no mesmo sozinhos 10618 animais. período de tempo, 4051 Destes, mais de sete mil foram mortos. Os números não deixaram de ter dono. A maioria dos cães e contam os que morreram por

1680

doenças, mas 2013 supera 2012: mais 126 animais foram abatidos. Destes, 631 eram cães e 26 eram gatos. O ano passado só fica à frente de 2003, 2004 – ano em que morreram 879 animais -, 2005, 2009 e 2010. Os dados não incluem os galgos do Canídromo.

FALTA DE PUNIÇÃO

Tem sido uma luta constante a criação de uma Lei de Protecção Animal. Além de José Pereira Coutinho – que tentou apresentar esta lei em plenário - Albano Martins, da ANIMA, chegou inclusive a entregar um projecto para um regulamento administrativo a Florinda Chan, secretária para a Administração e Justiça, para que seja regulado todo o tipo de crueldade animal. Isto inclui o abandono.

O documento pede sanções no valor entre 10 mil patacas a 60 mil patacas para crueldade contra os animais e o impedimento de adopção e posse de animais por um período de cinco anos. A razão para este impedimento é a mesma que se pode encontrar para haver tantos abandonos ao longo dos anos – não há punição para os donos que desistem dos seus animais de estimação. As pessoas podem abandonar os animais nos canis “sem pagar nada e sem que lhes seja colocada qualquer questão”, conforme menciona o projecto da ANIMA. O abandono de animais nos canis municipais de Macau não é considerado abandono e o “dono” pode fazê-lo as vezes que quiser, repetidamente e sem qualquer consequência.

Por exemplo, se se arrepender da raça do cão que escolheu ou caso o animal faça barulho, a pessoa pode dá-lo para abater e comprar outro animal no dia a seguir.

FRACASSO DO ABATE

Os dados apresentados dizem respeito a cães e gatos. Apesar de não se apresentarem razões para a morte, deve ter-se em conta de que nem todos os felinos apanhados foram mortos ou adoptados, uma vez que o IACM tem um sistema de devolução de gatos às ruas. O CED (Capturar, Esterilizar e Devolver) é “o único método que tem provado a sua eficácia no controlo do número de gatos vadios.” Os animais são capturados e transportados para o canil municipal para esterilização, vacinação anti-rábica e identificação “sob a forma de corte na orelha”. Os gatos são, em seguida, devolvidos ao local onde foram encontrados. Este não é um programa único no mundo e possibilita menos mortes de felinos nos canis de Macau. Uma justificação dada pelo IACM é precisamente o fracasso do abate. “O abate é ineficaz na redução da sua população e não passa de um desperdício de dinheiros públicos.” Até ao início de 2012, o IACM esterilizou e devolveu aproximadamente mil gatos vadios às ruas.


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CHINA

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CHEN GUANGBIAO, O EXCÊNTRICO MAGNATA QUE QUER COMPRAR O “THE NEW YORK TIMES”

A última “loucura” do filantropo radical

O

milionário chinês Chen Guangbiao, de 45 anos, voltou a ser notícia esta semana após revelar o último dos seus planos, comprar o jornal “The New York Times”, um anúncio que não surpreendeu uma China acostumada às extravagâncias do popular filantropo. A compra de um dos principais jornais americanos - algo que muitos chineses acreditam ser impossível - é a última “loucura” de Chen, que todos os anos protagoniza histórias inusitadas, seja a destruir o seu Mercedes em público para pedir que os chineses usem menos estes carros, até vender ar enlatado. Chen, no entanto, parece bastante convencido que pode

negociar a compra do jornal nova-iorquino, que calcula poder custar cerca de oito mil milhões de patacas, conforme anunciou a 30 de Dezembro, durante uma cerimónia de entrega de prémios de jornalismo na cidade chinesa de Shenzhen. “Vou viajar para os Estados Unidos e fazer três coisas. A primeira é comprar o ‘The New York Times’”, declarou no evento. O magnata insistiu na ideia poucos dias depois de ter sido provocado por muitos cibernautas chineses nas redes sociais, e afirmou ao jornal “Global Times” que a ideia era séria e os que duvidavam dela eram “conservadores”. Chen, que teve uma infância miserável e triste – dois dos seus irmãos morreram quando ainda era

pequeno -, é hoje em dia um dos chineses mais ricos do país, com uma fortuna avaliada em cerca de seis biliões de patacas segundo os números de 2012. O seu império foi construído a partir de uma empresa de reciclagem de materiais, a Jiangsu Huangpu, e a sua fama na imprensa como filantropo excêntrico nasceu no terramoto de Sichuan de 2008 (90 mil mortos), quando doou cerca de 120 milhões de patacas e viajou até à área afectada para ajudar nos trabalhos de resgate. Até esta altura tudo parecia normal, mas quando as doações foram feitas pessoalmente para os moradores que perderam tudo, Chen entregava grandes maços de dinheiro enquanto tirava fo-

tografias com eles, e liderava os trabalhos de resgate montado numa escavadora, a imagem passou a ser outra. Esta forma de realizar actos filantrópicos repetiu-se em Março de 2011 no Japão, quando viajou para a área afectada pelo tsunami e foi também fotografado enquanto entregava dinheiro às vítimas, e meses depois em Taiwan, onde alguns o acusaram de fazer propaganda comunista, exibindo-se como um chinês rico que ajuda os pobres de Taiwan. Chen, que prometeu doar toda a sua fortuna para a caridade quando morrer, denomina os seus métodos como”filantropia violenta” ou “filantropia radical”, e diz que com ela procura dar o exemplo a outros

milionários chineses, com fama de serem mesquinhos. Segundo outra opinião também generalizada, tudo isto é apenas uma estratégia para ser famoso, embora outros considerem que por detrás das suas excentricidades se esconde um verdadeiro coração humanitário. O mesmo radicalismo de Chen foi exibido em campanhas ecologistas, como a de Setembro de 2011, quando para comemorar o “dia sem carros” subiu para uma escavadora e destruiu publicamente o seu luxuoso Mercedes S600. Recorreu também a uma medida para consciencializar a China dos problemas de poluição atmosférica: vender em grandes cidades poluídas centenas de milhares de latas com ar puro do planalto tibetano, no verão de 2012. Chen também é capaz de ser fotografado rodeado por paredes construídas com dinheiro (como fez em Dezembro) ou de contratar como personal trainer um famoso ginasta chinês que comoveu a sociedade por se ver obrigado a mendigar na rua. Para além disto, é um fervoroso nacionalista chinês, que nestes tempos de grandes tensões entre China e Japão por causa das ilhas Diaoyu demonstrou publicamente o seu apoio a Pequim, quando, por exemplo, em 2012 comprou 43 veículos de marcas chinesas e os ofereceu na rua a donos de carros de marcas japonesas. Num destes veículos, com um apelativo fato de cor verde limão e com uma grande bandeira chinesa, Chen voltou a mostrar que é capaz de fazer qualquer coisa. Meses antes, Chen pagou pela publicação de um anúncio na imprensa americana no qual defendia que as ilhas Diaoyu eram japonesas. Numa foto perguntava aos norte-americanos como se sentiriam se Tóquio lhes tirassem o Havaí. O anúncio, aliás, foi publicado no “The New York Times”, o jornal que Chen agora “ameaça” comprar.

Pequim suspende proibição da venda de consolas estrangeiras de jogos

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China declarou que suspendeu temporariamente a proibição das vendas de consolas de jogos estrangeiros, abrindo o caminho para empresas como a Sony, Microsoft e Nintendo entrarem num mercado de cerca de 100 mil milhões de patacas. A suspensão da proibição com quase 14 anos permite que “empresas com in-

vestimento estrangeiro” fabriquem consolas de jogos dentro da zona de livre comércio de Xangai e os vendam na China depois de inspeccionados pelos departamentos culturais, disse o governo em comunicado publicado no seu site esta segunda-feira. A China proibiu as consolas de jogos em 2000, referindo os efeitos adversos

para a saúde mental dos jovens. As consolas, no entanto, podem ser encontradas embora ilegalmente, mas os jogos on-line de PCs são ainda mais populares. Não foi anunciado quanto tempo é que a suspensão irá durar. Também não foram especificados os requisitos para as empresas com investimento estrangeiro.


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D Uma boa fonte de inspiração EUSÉBIO DIPLOMATAS ASSINAM LIVRO DE CONDOLÊNCIAS EM PEQUIM

Confiança pode ajudar economia da Europa

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comissário europeu do Mercado Interno e Serviços, Michel Barnier, agradeceu ao governo chinês o apoio que tem dado ao desenvolvimento da União Europeia e da Zona Euro. Antes de deixar Pequim, o comissário disse aos jornalistas que a UE e a China podem e devem tornar-se parceiros nas reformas. Barnier esteve na China entre 4 e 7 de Janeiro, onde manteve encontros com membros do governo chinês, incluindo o ministro das Finanças, Lou Jiwei. Esta foi a primeira visita de Barnier ao país desde que se realizou o 16.º encontro dos líderes da China e da UE. Barnier afirmou que a confiança da China pode ser favorável ao desenvolvimento sustentável da economia da UE. O comissário europeu deixou ainda elogios às reformas chinesas nos mais diversos sectores. Actualmente, a Europa e a China estão a passar por um período de reformas, o que pode ser uma oportunidade para a cooperação bilateral, concluiu comissário.

IPLOMATAS de mais de uma dezena de países passaram ontem pela Embaixada de Portugal na China para assinar o Livro de Condolências pela morte de Eusébio, ilustrando a projecção internacional do antigo jogador português. Por coincidência, o primeiro da lista, às 10h30, foi um diplomata de Moçambique, terra natal de Eusébio, que descreveu o jogador como “grande patriota” e “uma referência na irmandade entre Moçambique e Portugal”. Eusébio foi “um génio do desporto” e “o rei do futebol português”, escreveu uma diplomata brasileira. Dois representantes da Associação Chinesa de Futebol (CFA) também assinaram o Livro de Condolências, depois de se terem inclinado três vezes diante do retrato de Eusébio, como manda a tradição local.

REGIÃO Coreia do Norte Eleições legislativas este domingo

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Coreia do Norte vai realizar no próximo domingo eleições para designar os novos deputados da Assembleia Popular Suprema, principal órgão legislativo do país, informou ontem a agência estatal KCNA. O Presidium, órgão que rege o hemiciclo, “decidiu realizar as

eleições dos deputados da Assembleia Popular Suprema a 9 de Março”, informou a agência KCNA, a partir de Pyongyang, num breve despacho sem avançar mais detalhes. O acto eleitoral decorre cinco anos depois do último escrutínio, em Março de 2009. AAssembleia Popular

Suprema, dirigida pelo veterano político Kim Yong-nam, é composta por 687 deputados que ocupam funções por um período de cinco anos. O Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte tem actualmente uma esmagadora maioria no Parlamento, com 601 deputados.

Japão Mobilizada polícia para capturar alegado violador

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polícia japonesa colocou em marcha uma operação gigantesca, em que participam cerca de 4.000 agentes, 900 veículos e dois helicópteros, para localizar um jovem suspeito de violação que fugiu durante um interrogatório, informou ontem a estação NHK. Yuta

Sugimoto, de 20 anos, escapou na terça-feira de uma esquadra de Kawasaki, a sul de Tóquio, para onde tinha sido levado para ser interrogado pela violação no dia 2 de Janeiro de uma mulher, a quem foram roubados cerca de 10 mil patacas. No momento da fuga, o jovem estava reunido

com o seu advogado, disse a polícia. O presumível violador, que estava amarrado pela cintura, conseguiu soltar-se e saiu a correr descalço, acrescentou a mesma fonte.Apolícia colocou em marcha uma gigantesca operação de busca e captura na localidade próxima de Tóquio.

Tailândia Corrupção custa mais de 60 mil milhões de patacas

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corrupção custa à Tailândia cerca de 66.000 milhões de patacas por ano ou 2% do seu Produto Interno Bruto (PIB), segundo dados da oposição citados ontem pela imprensa local. O líder do Partido Democrata, na oposição, Abhisit Vejjajiva, afirmou que o montante seria suficiente para construir 30

parlamentos, 201 estações de comboios ou 5.100 escolas secundárias, segundo o diário “The Nation”. Abhisit Vejjajiva, cujo partido decidiu boicotar as próximas eleições de 2 de Fevereiro, apresentou um plano de reformas que inclui a eliminação da prescrição dos delitos de corrupção, assim

como aumentar as investigações e auditorias públicas. O político também apontou a necessidade de analisar de forma retroactiva o historial fiscal dos políticos e altos quadros, controlar o gasto público em publicidade e proibir que os juízes integrem o conselho de administração das empresas estatais.

Numa carta enviada ontem à Federação Portuguesa de Futebol, a CFA manifestou “profundo pesar” pela morte de Eusébio, qualificando o antigo jogador português como “um dos maiores da História” da modalidade, cujo “talento e personalidade marcaram uma época”. “O seu extraordinário desempenho atraiu ao futebol gerações de jovens do mundo inteiro”, diz a carta, assinada pelo secretário-geral e vice-presidente da CFA, Zhang Jian. Um estudante português residente em Tianjin, a cerca de 120 quilómetros de Pequim, escreveu: “Que surjam muitos mais (como Eusébio) que nos inspirem a lutar pelos sonhos”. Foi a primeira vez que um Livro de Condolências foi aberto na Embaixada de Portugal na China, disse um dos mais antigos funcionários da representação diplomática do país em Pequim.


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EVENTOS

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DISSIDENTE AI WEIWEI USA FLORES PARA PROTESTAR CONTRA RESTRIÇÕES DO GOVERNO

Gesto simbólico

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artista e dissidente Ai Weiwei coloca flores na cesta de uma bicicleta em frente ao seu atelier em Pequim, diariamente desde 30 de Novembro, em protesto contra a retenção do seu passaporte pelo governo chinês. Uma exposição programada para Abril em Brooklyn - reprise de uma mostra no Hirshhorn, em Washington, intitulada “Ai Weiwei: According to What?” - e outra em Setembro na antiga prisão de Alcatraz, na Califórnia, beneficiariam se ele pudesse fazer a curadoria nos próprios locais, segundo o artista. Mas, num gesto contra as suas restrições, Ai está a levar por diante os seus planos para abrir um estúdio em Berlim, dizendo que isto será pelo menos um símbolo do seu desejo de um dia voltar a trabalhar fora da China. Detido em Abril de 2011, Ai passou 81 dias na cadeia. Agora,

está autorizado a sair em Pequim, mas, disse, “cada vez que saio, tenho de lhes dizer onde vou”. O artista comenta, em entrevista ao “New York Times” feita no seu atelier, como é viver enjaulado

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA A SOMBRA DO VENTO • Carlos Ruiz Zafón

A Sombra do Vento” é um mistério literário passado na Barcelona da primeira metade do século XX, desde os últimos esplendores do Modernismo até às trevas do pósguerra. Um inesquecível relato sobre os segredos do coração e o feitiço dos livros, num crescendo de suspense que se mantém até à última página. Numa manhã de 1945, um rapaz é conduzido pelo pai a um lugar misterioso, oculto no coração da cidade velha: O Cemitério dos Livros Esquecidos. Aí, Daniel Sempere encontra um livro maldito que muda o rumo da sua vida e o arrasta para um labirinto de intrigas e segredos enterrados na alma obscura de Barcelona. Juntando as técnicas do relato de intriga e suspense, o romance histórico e a comédia de costumes, “A Sombra do Vento” é sobretudo uma trágica história de amor cujo eco se projecta através do tempo.

num país que diz amar, mas do qual não pode sair. Questionado sobre a razão de ser de todos os dias às nove horas da manhã por flores na cesta no exterior do atelier, Ai Weiwei

respondeu que “nove da manhã é quando começo a trabalhar. Ponho as flores na cesta, faço fotos e coloco-as na Internet. Acho que flores são a linguagem mais comum. Para começar, falam da vida. E uso flores frescas. Todos os dias coloco flores novas. Neste tempo frio, podem durar apenas um dia”.

O SIGNIFICADO

Sobre o significado da acção o artista declarou que isto “é uma obra de arte que está intrinsecamente ligada à minha vida. Desde 3 de Abril de 2011, quando fui levado e detido para um local secreto, até hoje, não tenho passaporte. Cada vez que perguntei sobre o meu passaporte, disseram que o iriam devolver. Mas nunca o fizeram, e já se passaram quase três anos. Essa é uma razão, mas não é a razão total. Esta é uma sociedade que afirma obedecer às leis. Quando um governo coloca uma pessoa em detenção forçada, como fez comigo, o que está a fazer não é legal. No

mínimo, vai contra o espírito da lei. Ninguém tem o direito de restringir o local onde uma pessoa vive, de restringir a sua possibilidade de movimentos. Quando desembarco de um comboio, há pessoas para me fotografarem. Se entro num hotel, seguem-me”, afirmou, acrescentando que “a maior preocupação neste país é que só vemos o que acontece, mas nunca sabemos a razão. Aquela bicicleta pertencia a um jovem alemão que foi preso, mas nunca por mais de dez meses, oficialmente, acho. Trabalhava para uma empresa alemã de transporte de obras de arte, e o governo alemão esforçou-se para o tirar da prisão. Agora já saiu, está na Alemanha outra vez. Antes de partir, entregou a bicicleta a um jornalista alemão, dizendo que ma queria oferecer. Não tinha feito nada de errado, mas mantiveram-no confinado. O governo acusou-o de contrabando, mas o motivo real era que as au-

RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

A SALVAÇÃO DE WANG FÔ E OUTROS CONTOS ORIENTAIS • Marguerite Yourcenar

Invulgares, oníricos, com elementos que vão do sobrenatural ao mito e à lenda, estes contos vão beber a inspiração ao Oriente para daí abrirem as suas asas e conseguirem o que apenas a grande literatura consegue: abarcar o mundo, tocar a universalidade. Um pintor assombrado pelas imagens que cria, um herói traído, uma mãe que cuida do filho recém-nascido após a sua própria morte, uma deusa infeliz…Com uma linguagem sublime capaz de desvelar os mais secretos significados, Yourcenar aponta directamente ao âmago da natureza humana e a noções tão fundamentais como a vida e a morte.


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TIAGO ALCÂNTARA

MEMÓRIAS DOS BEATLES EM 1963 EDITADAS EM MARÇO

Gravações inéditas E

toridades queriam abrir uma zona franca de arte e queriam tomar conta do seu negócio. Eu mesmo tinha acabado de sair da detenção. Pensei: “O que posso fazer com esta bicicleta?”. Comprei um travão muito forte e prendi a bicicleta a uma árvore diante da porta de minha casa. É exactamente igual ao tipo de bicicleta que se vê em qualquer lugar do mundo. Às vezes são abandonadas; em Nova Iorque acontece frequentemente. Na China, o dono da bicicleta pode ter sido levado pelo governo, ou algo do género, por isso este objecto é muito simbólico. Esta é a razão porque decidi colocar as flores, e continuarei a fazê-lo até voltar a receber o meu passaporte. Quando fui detido, cobriram a minha cabeça com um capuz e levaram-me para um local secreto. Por que sou tão burro?, pensei. Poderia ter passaporte americano. Vivi 12 anos nos Estados Unidos. Mas, depois de voltar, não estava ansioso por me ir embora. Sinto que tenho muito a fazer aqui. A minha família está cá. Já cheguei a pensar “no dia em que vocês me devolverem o passaporte, talvez eu o rasgue à vossa frente. Vocês não me podem tirar isso. Esta escolha é minha, e não de mais ninguém”. Tenho uma exposição em Brooklyn em Abril, já morei em Nova Iorque, e é claro que gostaria de lá estar. É um lugar muito importante na minha vida. Gostaria que a exposição fosse realmente boa, e gostaria de poder interagir com o público. Mas acho que se alguma vez sair daqui alguém continuará a por flores na bicicleta”, disse.

DIÇÃO inesperada (e apenas disponível em formato digital) ‘Beatles Bootlegs 1963’ arruma gravações de estúdio e sessões gravadas para a BBC que estavam ainda por editar. 22 de Março deste ano assinalaram-se os 50 anos sobre o lançamento de Please Please Me, o primeiro álbum dos Beatles. Mal se imaginava então que o ano não viveria apenas de evocações e que, chegados a finais deste mês, poderíamos ter entre mãos não só novos livros sobre os fab four, mas duas antologias de gravações inéditas que assim arrumam de vez a história do que os Beatles gravaram em 1963. O primeiro dos novos discos não é senão um segundo volume de uma recolha de gravações feitas para a BBC numa altura em que, mais que tocar discos, muitas vezes as emissões de rádio viviam muito da presença em estúdio dos músicos que registavam sessões que assim alimentavam os programas com conteúdos próprios. Agora este segundo volume aprofundou a visão arquivística do conjunto de sessões gravadas para a BBC, sendo que o disco junta às canções inúmeros episódios

de entrevistas que, por um lado, expressam o bom humor (reconhecido) dos elementos do grupo e, por outro, permitem escutar algumas das suas histórias contadas na primeira pessoa. Do arquivo da BBC chegou entretanto também o grosso do volume de 59 temas que constituem Beatles Bootlegs 1963, uma antologia (por enquanto exclusivo do iTunes) que junta takes de estúdio e sessões de rádio efectuadas pelos Beatles em 1963. Lançada discretamente, sem qualquer aviso prévio (salvo uma fuga de informação captada por um blogue de fãs, que entretanto gerou noticiário na imprensa), esta antologia parece ter essencialmente uma função mais centrada na defesa da propriedade sobre os direitos das gravações que propriamente um objectivo antológico. O disco é, mesmo assim, uma preciosidade para os que mais atentamente querem seguir a obra dos Beatles (tal como os que, certamente, procuram o detalhe com que Mark Lewisohn os retrata no recentemente publicado The Beatles - All These Years Vol. 1: Tune in). Os primeiros 15 temas do alinhamento resultam de outtakes de sessões de estúdio e apresentam

o melhor registo áudio de toda a antologia. Aqui dominam as canções de Lennon e McCartney, havendo ainda versões de A Taste of Honey e Money (That”s What I Want), canção que teria também uma leitura pelos Rolling Stones em 1964. Há neste grupo temas provenientes das sessões de gravação dos álbuns Please Please Me e With The Beatles, bem como do single From Me To You, também de 1963. Uma das preciosidades do alinhamento é uma versão em estúdio de One After 909, uma das primeiras composições de Lennon e McCartney mas que surgiria em disco apenas em 1970 em Let it Be. Depois de um lote substancial de sessões para a BBC em 1963, o alinhamento desta antologia termina com duas maquetes. Numa delas escuta-se Bad To Me, que Lennon compôs para Billy J Kramer & The Dakotas. Na outra encontramos I’m in Love, composta para o grupo The Foremost. Não é uma antologia barata. Falta-lhe um acompanhamento escrito detalhado (como o tem o disco de sessões para a BBC). Mas estas preciosidades são mais-valia que a história pública dos Beatles assim ganha. E parece que para o ano pode haver mais...

Macau Festival Internacional em Cúpula Completa arranca em Junho  O Festival Internacional em Cúpula Completa IPSMacau, vai ser realizado no Planetário do Centro de Ciência de Macau, entre 18 de Junho e 31 de Julho de 2014. Co-organizado pela Sociedade Internacional de Planetários, pelo Centro de Ciência de Macau e pelo Planetário de Pequim, este festival selecciona 30 filmes digitais em cúpula completa, em formato 2D e 3D, para serem projectados e competir pelos 12 prémios que o festival atribui. Este será o primeiro Festival em Cúpula Completa a ser realizado no Planetário de Macau com a mais alta definição 3D do Mundo, reconhecido pelo Livro de Recordes do Guiness.

Louvre já reuniu dinheiro de doadores para restauro da Vitória de Samotrácia

Nem um ano depois do anúncio do lançamento da campanha para recolher donativos para o restauro da emblemática escultura Vitória de Samotrácia, residente no Louvre, o museu parisiense anunciou que já foi angariado as cerca de dez milhões de patacas necessárias. E dentro do prazo previsto, que decorreu entre 3 de Setembro e 31 de Dezembro de 2012, cerca de 6700 doadores individuais responderam ao apelo que complementa a verba de trinta milhões já garantidas pelos mecenas institucionais do museu. O Museu do Louvre anunciou esta segunda-feira à AFP que os cerca de 6700 participantes na campanha Todos Mecenas fizeram donativos que foram de cerca de dez patacas até às cerca de 85000, sendo o donativo médio de cerca de 1.340 patacas e o mais frequente de 500, escreve a agência noticiosa francesa, que refere ainda que os doadores individuais são de várias nacionalidades, entre os quais japoneses.

“Gravidade” e “12 Anos Escravo” candidatos a melhor filme nos Bafta

O filme “Gravidade”, do mexicano Alfonso Cuarón, e a película épica do britânico Steve McQueen “12 Anos Escravo” são dois dos candidatos a melhor filme nos prémios Bafta, anunciou ontem a academia britânica de cinema. Na mesma categoria surgem a tragicomédia policial “Golpada Americana”, “Capitão Phillips” e “Filomena”, estes dois últimos inspirados em histórias reais. “Gravidade”, protagonizada por Sandra Bullock, encabeça a lista de nomeações, com um total de 11, seguida de “12 Anos Escravo” e de “Golpada americana”, ambos com 10 nomeações cada, segundo a lista divulgada hoje pela Academia Britânica das Artes Cinematográficas e da Televisão (Bafta). Entre os candidatos a melhor realizador estão Cuarón e McQueen, assim como Martin Scorsese por “O Lobo de Wall Street”, Paul Greengrass (“Capitão Phillips”) e David O. Russell (“Golpada Americana”).


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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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Slavoj Žižek

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AS últimas duas décadas da vida, Nelson Mandela foi festejado como modelo de como libertar um país do jugo colonial sem sucumbir à tentação do poder ditatorial e sem postura anticapitalista. Em resumo, Mandela não foi Robert Mugabe, e a África do Sul permaneceu uma democracia multipartidária com imprensa livre e vibrante economia bem integrada no mercado global e imune a horríveis experiências socialistas. Agora, com a morte dele, a sua estatura de sábio santificado parece confirmada para toda a eternidade: há filmes sobre ele (com Morgan Freeman no papel de Mandela; o mesmo Freeman, aliás, que, noutro filme, encarnou Deus em pessoa). Rock stars e líderes religiosos, desportistas e políticos, de Bill Clinton a Fidel Castro, todos dedicados a beatificar Mandela. Mas será essa a história completa? Dois factos são sistematicamente apagados nesta visão de celebração. Na África do Sul, a maioria pobre continua a viver praticamente como vivia nos tempos do apartheid, e a ‘conquista’ de direitos civis e políticos é contrabalançada por violência, insegurança e crime crescentes. A única mudança é que onde havia só a velha classe governante branca há agora também a nova elite negra. Em segundo lugar, as pessoas já quase nem se lembram que o velho Congresso Nacional Africano não prometera só o fim do apartheid; também prometeu mais justiça social e, até, um tipo de socialismo. Esse ANC muito mais radical do passado está a ser gradualmente varrido da lembrança. Não surpreende que a fúria esteja outra vez a crescer entre os sul-africanos negros e pobres. A África do Sul, quanto a isso, é só a mesma versão repetida da esquerda contemporânea. Um líder ou partido é eleito com entusiasmo universal prometendo “um novo mundo” – mas então, mais cedo ou mais tarde, tropeçam no dilema chave: quem se atreve a tocar nos mecanismos capitalistas? Ou prevalecerá a decisão de “jogar o jogo”? Se alguém perturba esse mecanismo, é rapidamente “punido” com perturbações de mercado, caos económico e o resto todo. Por isso parece tão simples criticar Mandela por ter abandonado a perspectiva socialista depois do fim do apartheid. Mas ele chegou realmente a ter alguma escolha? Andar na direcção do socialismo seria possibilidade real? É fácil ridicularizar Ayn Rand, mas há um grão de verdade no famoso “hino ao dinheiro” do seu romance A revolta de Atlas: “Até que e a não ser que você descubra que o dinheiro é a raiz de todo o bem, você pede por sua própria

O FRACASSO SOCIALISTA DE MANDELA As políticas radicais de emancipação enfrentam o seu maior desafio: como fazer avançar as coisas depois de acabado o primeiro estágio de entusiasmo, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”, em resumo: como avançar além de Mandela, sem se converter num Mugabe destruição. Quando o dinheiro deixa de ser o meio pelo qual os homens lidam uns com os outros, tornam-se os homens ferramentas de outros homens. Sangue, chicotes e armas de fogo ou dólares. Faça a sua escolha – não há outra.” Não disse Marx algo semelhante na sua conhecida fórmula de como, no universo da mercadoria, “as relações entre pessoas assumem o disfarce de relações entre coisas”? (O capital, p.147) Na economia de mercado, acontece relações entre pessoas aparecerem sob disfarces que os dois lados reconhecem como liberdade e igualdade: a dominação já não é directamente exercida e deixa de ser visível como tal. O que é problemático é a premis-

sa subjacente de Rand: de que a única escolha é entre relações directas ou indirectas de dominação e exploração, com qualquer outra alternativa dispensada como utópica. No entanto, deve-se ter em mente que o momento de verdade da (se não por isso, ridiculamente ideológica) alegação de Rand: a grande lição do socialismo de estado foi efectivamente a de que uma abolição directa da propriedade privada e da troca regulada pelo mercado carente de formas concretas de regulação social do processo de produção necessariamente ressuscita relações directas de servidão e dominação. Se apenas extinguirmos o mercado (inclusive a exploração do mercado), sem substituí-lo por uma forma própria de

organização comunista da produção e da troca, a dominação volta como uma vingança, e com a exploração directa pelo mercado. A regra geral é que, quando começa uma revolta contra um regime opressor semi-democrático, como aconteceu no Médio Oriente em 2011, é fácil mobilizar grandes multidões com slogans que só se podem descrever como “formadores de massa”: pela democracia, contra a corrupção, por exemplo. Mas adiante gradualmente vamos deparando-nos com escolhas mais difíceis: quando a nossa revolta é bem sucedida no alcance do seu objectivo directo, passamos a dar-nos conta de que o que realmente nos atormentava (a falta de liberdade pessoal, a humilhação, a corrupção das autoridades, a falta de perspectiva de, algum dia, chegar a ter uma vida decente) perdura sob nova roupagem. A ideologia dominante mobiliza aqui todo o seu arsenal para nos impedir de chegar a essa conclusão radical. Começam a dizer-nos que a liberdade democrática implica responsabilidades; que a liberdade democrática tem o seu preço; que ainda não estamos plenamente amadurecidos, se esperamos demais da democracia. Num plano directamente mais político, a política externa dos EUA elaborou detalhada estratégia para controle de danos: basta converter o levantamento popular em restrições capitalistas-parlamentares aceitáveis. Isso, precisamente, foi feito com sucesso na África do Sul, depois do fim do regime de apartheid; foi feito nas Filipinas depois da queda de Marcos; foi feito na Indonésia depois da queda de Suharto e foi feito também noutros lugares. Nesta precisa conjuntura, as políticas radicais de emancipação enfrentam o seu maior desafio: como fazer avançar as coisas depois de acabado o primeiro estágio de entusiasmo, como dar o passo seguinte sem sucumbir à catástrofe da tentação “totalitária”, em resumo: como avançar além de Mandela, sem se converter num Mugabe. Se quisermos permanecer fiéis ao legado de Mandela, temos de deixar de lado as lágrimas de crocodilo das celebrações e focar-nos em todas as promessas não cumpridas infladas sob a sua liderança e por causa dela. Assim se verá facilmente que, apesar da sua indiscutível grandeza política e moral, Mandela, no fim da vida, era também um velho triste, bem consciente de que o seu triunfo político e a sua consagração como herói universal não passavam de máscara para esconder uma derrota muito amarga. A glória universal de Mandela é também prova de que ele não perturbou a ordem global do poder.


artes, letras e ideias 13

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Francisco Louçã

OS TRANSPARENTES DE ONDJAKI

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livro do escritor angolano Ondjaki,  Os Transparentes, já ia na segunda edição quando recebeu o Prémio Saramago. O livro, ensaiando um estilo de linguagem aguerrido e inovador, descreve a vida quotidiana num prédio de Luanda e os modos de vida dos habitantes, dos musseques às grandes famílias, uns submetidos à penúria, outros aos esquemas, às ameaças, à prepotência, bem como à corrupção, ao autoritarismo e às redes de negócios que dominam o seu país. É um livro sobre a gente que se desenrasca e sobre os medos do dia seguinte. Assim, é um retrato da grandeza e das misérias de um país em transformação, escarnecendo da ideologia auto-justificativa e do discurso do poder. O prédio de sete andares, sem elevador, tem tudo, “respirava como uma entidade viva”. São os transparentes que lá habitam. Um jornalista, um vendedor de conchas, um coronel, um mudo, um assessor, uma secretária, um camarada ministro, um carteiro que escreve cartas e que lê as cartas dos outros mas esquece logo, professores, mulheres, fiscais, uma multidão vive na cidade, e na cidade acontece tudo. Abre-se um cinema “desoficial, porque não precisa de papéis”, no terraço que está disponível. Criam-se igrejas. Preparam-se atentados mortais. Chegam prostitutas suecas. Nesta Luanda há sempre um poder superior, que nem pode ser percebido: “- mas quem manda em tudo isto? - gente muito superior. - superior… como deus? - não. superior mesmo! aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus.” Por isso, a burocracia e o poder são imperscrutáveis, manda mais do que deus. Tem projectos megalómanos, inventa novas riquezas: o governo cria a CIPEL, a comissão instaladora do petróleo encontrável em Luanda, que “instala, só que você não vê a instalação. É uma comissão para alguém se instalar mesmo” e a vida prossegue, com escavações “in shore” ou “under city”. Tudo “com a colaboração de países como os Estados Unidos, a Rússia, a França, a Índia e o Brasil. – então e os tugas não mamam desta vez? Riu alguém”. Só que “mexem na raiz da árvore e pensam que a sombra fica no seu lugar”. A cidade, cheia de novas canalizações nas suas entranhas, agita-se e perturba-se.

Para entreter a população, esses transparentes, o governo anuncia um espectáculo inesquecível, um eclipse deslumbrante. Importam-se óculos de ver o eclipse, chegam excursões de cientistas, as arcas frigoríficas enchem-se de cerveja para a festa, preparam-se os balões, discute-se o aumento do número de feriados para comemorar devidamente os grandes acontecimentos. Luanda estremece. Até que um dia é anunciada uma comunicação solene do presidente: “‘passamos de imediato a transmitir, para o território nacional da RepúblicaDeAngola, uma mensagem, em direto, de sua excelência, o engenheiro, Presidente da RepúblicaDeAngola.’ (...) caros cidadãos da RepúblicaDeAngola, demais representações de outras nações acreditadas no nosso país, entidades religiosas e cívicas: em nome do governo nacional de Angola e segundo um encontro extraordinário do birô político do Partido, cumpro o dever de informar uma decisão que terá implicações na vida social, política e cultural de cada um de nós. analisados os mais recentes acontecimentos nacionais, tendo em conta a relevância da sua estatura moral e dos seu papel político desde os dias da nossa independência,

UM RETRATO DA GRANDEZA E DAS MISÉRIAS DE UM PAÍS EM TRANSFORMAÇÃO, ESCARNECENDO DA IDEOLOGIA AUTOJUSTIFICATIVA E DO DISCURSO DO PODER tendo também em conta o estado de profunda consternação de toda a população da RepúblicaDeAngola, muito se ponderou sobre os acontecimentos e fenómenos que aconteceriam em solo nacional, perpetrando nas nossas vidas alguns eventos de magnitude incomensurável. ainda assim, o Partido no poder entende que, em Angola, não se vive o momento apropriado para as fulminantes celebrações que se avizinham – o Presidente tossiu levemente – assim sendo, e dado o recente passamento da camarada Ideologia, um dos pilares cívicos e morais da nossa nação, o Parti-

do no poder decidiu cancelar quaisquer celebrações coletivas, propondo um período de três dias de luto nacional. nesse quadro, e imbuído dos poderes que me assistem, venho por este comunicado afirmar que Angola anuncia ao país e ao mundo o cancelamento, repito, o cancelamento total do eclipse anunciado para os próximos dias.” Tudo continua igual, mas a festa perdeu-se. O negócio sobrevive: “- vocês conseguem por esse dinheiro lá fora? - aonde? – perguntou o fiscal DaOutra - pode ser em Portugal - podemos, dependendo da quantia - então tá fechado o negócio, vão manter o nome do empreendimento? - sim, é um bom nome, tem resultado bem, as pessoas já se habituaram à IgrejaDaOvelhinhaSagrada” O povo entretém-se e bebe e os balões voam. O apocalipse, afinal, é a vida de todos os dias, mesmo quando Luanda arde, as canalizações explodem e tudo é invadido por um fogo “vermelho devagarinho”. Para conhecer este vermelho devagarinho de alguma da melhor literatura angolana, leia Os Transparentes.


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Ignacio Ramonet

INEVITÁVEL MUNDO NOVO? Cinquenta anos após a morte de Aldous Huxley, a sua obra alerta: o avanço científico pode ser, em sociedades desiguais e mercantilizadas, o caminho para barbárie

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ERIA pertinente reler, hoje, Admirável Mundo Novo? Seria pertinente retomar um livro escrito há aproximadamente 70 anos, numa época tão distante que nem sequer a televisão havia sido inventada? Seria essa obra algo além de uma curiosidade sociológica, um best seller comum e efémero que, no ano da sua publicação, 1932, vendeu mais de um milhão de exemplares? Essas questões parecem ainda mais pertinentes porque o género da obra — a fábula premonitória, a utopia tecno-científica, a ficção científica social — possui um alto grau de obsolescência. Nada envelhece tão rápido quanto o futuro. Ainda mais na literatura. E, entretanto, quem superar essas reticências e novamente mergulhar nas páginas do Admirável Mundo Novo certamente ficará chocado com sua actualidade surpreendente. E irá constatar que o presente alcançou o passado, pelo menos por uma vez. O romance, que se tornou um grande clássico do século 20, narra uma história que se passa num futuro distante, por volta de 2500, ou mais precisamente, “por volta do ano 600 da era fordista”. Satírica homenagem a Henry Ford (1863-1947), pioneiro norte-americano da indústria automobilística (e ainda hoje uma das famosas marcas do ramo), inventor de um método de organização do trabalho para a produção em série e da padronização das peças. Essa técnica, pensada por Ford na década de 20, transformou, por assim dizer, os trabalhadores em autómatos, em robôs repetindo o mesmo gesto o dia inteiro. Apesar de seu carácter desumano, foi uma verdadeira revolução no universo industrial e rapidamente adotada, da Alemanha à União Soviética, por todas as grandes indústrias mecânicas do mundo. No mundo sindical e operário, e também entre os intelectuais, o fordismo suscitou críticas violentas, que artistas e criadores da época muitas vezes abordaram com indiscutível talento cáustico. Pensemos, por exemplo, em Metropolis, de Fritz Lang (1926), ou  Tempos modernos  (1935), de Charles Chaplin. O autor de Admirável Mundo Novo, Aldous Leonard Huxley (1894-1963), era um homem afeiçoado à cultura, particularmente à cultura científica. O tipo do

intelectual omnisciente, sedutor e com opinião sobre quase tudo. Nascido numa família inglesa à qual pertenceram numerosas personalidades célebres, Aldous Huxley era parente, por parte de mãe, do escritor Matthew Arnold (1822-1888), autor dramático, crítico, humanista, viajante e professor de poesia na Universidade de Oxford. O seu avô, Thomas Henry Huxley (1825-1895), era um conhecido naturalista, defensor das teorias evolucionistas de Darwin e autor de uma obra famosa sobre a origem da espécie humana (O lugar do homem na natureza, 1863). Finalmente, seu irmão Julian Huxley (18871975) era biólogo e filósofo, e também partidário das teorias da evolução. Especialista em genética, criticava, com muita pertinência, as teorias fantasistas do geneticista soviético Lyssenko. No período de 1946 a 1948, foi o primeiro director geral da Unesco. Como não poderia deixar de ser, Aldous Huxley estudou em Eton e Oxford, os grandes “centros de condicionamento” das elites britânicas. Também ele havia pensado em estudar ciência, mas foi impedido devido a uma grave doença na visão. Aos vinte anos, quase cego, só conseguia ler com o auxílio de uma grossa lupa e aprendeu braille, como todos os cegos. Apesar da dolorosa deficiência que o acompanhou por toda a vida, Huxley começou a publicar seus primeiros livros de poemas aos vinte e cinco anos e, depois dos horrores da primeira guerra mundial (1914-1918), passou a manifestar uma visão do mundo irónica e desencantada. Ao retornar de uma viagem à Índia, travou grande amizade com o escritor D.H. Lawrence (autor do conhecido romance O Amante de Lady Chatterley, 1928), que, já tuberculoso e às vésperas de sua morte — em 1930, em Veneza — iria exercer sobre si uma importante e duradoura influência. Nos seus primeiros romances (Crome Yellow, 1921; Antic Hay, 1923;  Those Barrens Leaves, 1925;  Point Counter Point,  1928), Aldous Huxley apresenta um universo no qual a cultura e o humanismo são ameaçados por aqueles que mais os deveriam proteger. Escritos com uma sinceridade cruel, esses livros são sátiras de uma inteligência aguçada e exprimem as fraquezas e desilusões da “geração perdida”. Ele mostra um humor

frio, cortante, paradoxal, à moda de Jonathan Swift, ao evocar, com cepticismo, a sociedade da década de 1920. Nesse sentido,  Admirável Mundo Novo, que é o livro mais representativo desse período, seria mais um conto filosófico à maneira de Voltaire, no qual o talento do escritor, ainda sendo grande, é ultrapassado pelo temperamento do moralista.

Essa visão pessimista do futuro e crítica feroz do culto positivista da ciência foi escrita no momento em que as consequências sociais da grande crise de 1929 castigavam as sociedades ocidentais e quando a credibilidade dos regimes democráticos capitalistas parecia vacilar. Antes da subida ao poder de Adolf Hitler, em 1933, o  Admirável Mundo Novo denuncia a perspectiva aterrorizante de uma sociedade totalitária fascinada pelo progresso científico e convencida de poder oferecer uma felicidade obrigatória a seus cidadãos. Apresenta uma visão alucinante de uma humanidade desumanizada pelo acondicionamento à Pavlov e pelo prazer ao alcance da pílula (o “soma”). Num mundo horrivelmente perfeito, a sociedade dissocia a sexualidade da procriação — por motivos eugénicos e produtivistas. Em Admirável Mundo Novo, a americanização do planeta está completa: tudo padronizado e fordizado, tanto a produção de seres humanos, resultantes de manipulações genético-químicas, quanto a identidade das pessoas, produzida por hipnose auditiva, durante o sono — a hipnopedia, qualificada por um per-

sonagem do livro como a “maior força socializadora e moralizadora de todos os tempos”. Os seres humanos são, portanto, “produzidos”, no sentido industrial do termo, em indústrias especializadas — os “centros de incubação e acondicionamento” — segundo modelos variados, de acordo com tarefas bem especializadas atribuídas a cada indivíduo e indispensáveis numa sociedade obcecada pela estabilidade. No momento de sua fabricação num frasco de vidro, graças ao “método Bokanovsky” (que permite produzir até noventa e seis seres humanos quando, no passado, só era possível obter um único), cada óvulo — e depois cada embrião — recebe doses mais ou menos importantes de estímulos físicos e ingredientes químicos. Essas doses irão condicionar, de forma definitiva, a capacidade intelectual, e determinarão a que categoria e casta pertencerão, em ordem decrescente, esses seres humanos: Alfa, Beta, Delta, Gama, Ipsilon… segundo o grau de complexidade da actividade profissional a que estarão destinados. Além do mais, cada ser humano é educado, desde nascença, nesses “Centros de acondicionamento do Estado” em função de valores específicos do seu grupo, recorrendo-se sistematicamente à hipnopedia para manipular seu espírito, para criar nele “reflexos condicionados definitivos” e fazer com que aceite seu destino. “Cem repetições três noites por semana, durante quatro anos, declara um especialista em hipnopedia. Sessenta e duas mil repetições criam a verdade.” Dessa forma Aldous Huxley ilustrava, no livro, os riscos contidos em teses formuladas desde 1924 por John Watson, o pai do “behaviorismo”, “ciência da observação e controle do comportamento”, afirmava friamente que poderia pegar na rua, ao acaso, uma criança saudável, e fazer dela, conforme sua escolha, um médico, um advogado, um artista, um mendigo ou um ladrão, não importando para isso o seu talento, as suas preferências, as suas tendências, as suas capacidades, os seus gostos ou a origem de seus antepassados. Em Admirável Mundo Novo, que é fundamentalmente um manifesto humanista, é possível perceber, e com razão, uma crítica corrosiva à sociedade estalinista, da utopia soviética construída com mão de aço. Mas há também uma sátira clara


artes, letras e ideias 15

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Guido Carelli Lynch

à nova sociedade mecanizada, padronizada, automatizada que se instalava nos Estados Unidos em nome da modernidade tecnicista. Huxley, excessivamente inteligente e admirador da ciência, exprime, nesse romance, no entanto, um profundo cepticismo em relação à ideia do progresso, uma desconfiança em relação à razão. Diante da invasão do materialismo, deixa uma das mais profundas peças de acusação às ameaças do cientificismo, da mecanização e do desprezo pela dignidade individual. No fundo, avalia com um desespero lúcido, a técnica que assegurará aos seres humanos um conforto exterior total, um aperfeiçoamento notável. Qualquer desejo, na medida em que puder ser manifestado e sentido, será satisfeito. Porém os homens terão perdido sua razão de ser. Irão tornar-se, eles mesmos, máquinas. Não será mais possível falar em condição humana, no sentido próprio. O título original — Brave New World — é tomado emprestado de uma das últimas peças de William Shakespeare, The Tempest  (1611). Miranda vê os príncipes de Nápoles desembarcarem de um navio naufragado e exclama: “Esplêndida humanidade, maravilhoso mundo novo, quem pode nutrir seres tão perfeitos!” No espírito de Huxley, esse título é uma antífrase, pois o mundo que descreve nada tem de maravilhoso. É uma sociedade de castas, imutável, perene, onde tudo é programado e não há mais lugar para o acaso. Faz-se tábua rasa do passado, como recomenda  A Internacional, o que, de facto, a cultura de massa realiza. Os monumentos clássicos de todas as civilizações foram derrubados, a literatura foi queimada, os museus destruídos, a história apagada. Excesso de pessimismo ou simples lucidez? Sabemos que Huxley demonstrou, nesse livro, um senso excepcional de antecipação. A história recente demonstrou que as suas profecias mais sombrias estavam em vias de se realizar, assim como, em matéria de manipulação, ele soube prever o surgimento de novas ameaças. Pessimista e sombrio, o futuro visto por Aldous Huxley serve-nos de advertência e incentiva-nos, numa época de manipulações genéticas, de clonagem e da revolução do ser vivo, a acompanhar de perto os actuais progressos científicos e os seus potenciais efeitos destrutivos. Admirável Mundo Novo ajuda a compreender o alcance dos riscos e os perigos com os quais nos deparamos, quando, por todos os lados, novamente, os “avanços científicos e técnicos” nos confrontam com desafios que põem em perigo o futuro de nosso planeta. E o futuro da espécie humana.

ALDOUS HUXLEY E C.S. LEWIS

ESCRITORES DE CAMINHOS CRUZADOS Há 50 anos, no mesmo dia em que Kennedy era assassinado, morriam Aldous Huxley e C.S. Lewis. Um escreveu “Admirável Mundo Novo”; o outro, “As Crónicas de Nárnia”. Ambos procuraram uma verdade por caminhos alternativos

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M 1957, antes de se tornar no mais carismático presidente da história dos Estados Unidos, John Fitzgerald Kennedy foi escritor. E teve êxito: ganhou o Prémio Pulitzer com “Profiles in Courage”. Mas apenas seis anos depois – há meio século – o presidente escritor morreu assassinado. A sombra do magnicídio fez com que a maioria esquecesse que nesse 22 de Novembro de 1963 faleceram Aldous Huxley e Clive Staples Lewis, dois autores verdadeiramente transcendentes no mapa da literatura contemporânea. Os seus obituários, mais pequenos Aldous Huxley

que o do presidente, demoraram a sair. O primeiro, morreu na Califórnia; o segundo, em Oxford. Os dois perderam as suas mães quando eram crianças e os dois tinham uma literatura potente e carregada de alegorias, filosofia e perguntas que parecem respostas. Um era cristão e o outro não. Os dois eram britânicos, ainda que C.S. Lewis tenha crescido em Belfast. As experiências traumáticas também os aparentam. Pouco antes de Lewis ter participado na Primeira Guerra Mundial e carregado essa vivência para o resto da sua vida, Huxley lutou contra uma cegueira que o manteve às escuras durante quase dois anos. Em 1942, escreveria a esse respeito “A Arte de Ver”. Os caminhos de um e do outro continuaram a cruzar-se sempre. Os dois casaram-se com estrangeiras. A enumeração dos factos não é caprichosa. As vidas de ambos reflectem-se nas suas obras e, por momentos, são indivisíveis. Quando Lewis tinha 32 anos, o seu amigo J.R. Tolkien – autor de “O Senhor dos Anéis” – convenceu-o a voltar para o cristianismo, mas não conseguiu arrastá-lo para o catolicismo; decepcionado, viu Lewis tornar-se anglicano. A sua obra mais conhecida são os sete tomos que compõem “As Crónicas de Nárnia”: uma apologia cristã. Lewis acreditava que a sua obra não sobreviveria, mas nunca se tornou tão famosa como nos úlC.S. Lewis

timos anos, depois da sua adaptação cinematográfica. O mesmo acontece com “A Trilogia Cósmica”. Foi ensaísta, escreveu as suas memórias e foi locutor. Mas nem sempre o recordam bem. Philip Pullman, autor de “A Matéria Obscura”, apelidou os seus livros de “reacionários” e “propaganda cristã”, “descaradamente racista”. Apologista cristão, seguramente, mas nem por isso descobriram uma placa em sua honra na Abadia de Westminster. Para falar da vida e obra de Aldous Huxley, basta falar da sua morte, que a sua última esposa – Laura Archero – detalhou numa carta ao irmão do seu esposo, Julian Huxley. “A expressão do seu rosto começava a olhar como fez cada vez que praticava a medicina moksha, quando essa imensa expressão de completa felicidade e o amor o invadia. Deixei que passasse meia hora e logo decidi dar-lhe outros 100 mg”, relata. Huxley decidiu viver essas horas numa viagem de LSD, enquanto a sua mulher recitava “O Livro Tibetano dos Mortos”. Um certo misticismo oriental e a experimentação sensorial – que já tinha provado na sua cegueira precoce – aparecem em boa parte da sua obra. Durante as suas viagens de mescalina prévias às de LSD escreveu “As Portas da Perceção”. Muito anterior é o seu livro mais famoso “Admirável Mundo Novo”, uma distopia futurista sobre o controlo social. Continuou as suas viagens pela América Central e mais tarde pelo Médio Oriente. Visitou Buenos Aires e hospedou-se na casa de Victoria Ocampo. Já se tinha mudado permanentemente para os Estados Unidos, onde cultivou o seu misticismo e amizades com celebridades, tais como Charles Chaplin ou Walt Disney. Menos conhecido é “A Ilha”, a contraface de “Admirável Mundo Novo”. Em “A Ilha”, os nativos abandonam a medicina Moksha para se iluminarem. “O que sucedeu é importante, não só para os seus ente queridos como para a continuação do seu trabalho, pelo que tem importância para as pessoas”, escreve a sua viúva no começo dessa famosa carta. Huxley e Lewis não eram amigos, como muitos pensam. Nem sequer há demasiados registos de que se tenham lido ou convivido. Parecem-se, sem dúvida. Os dois procuravam uma verdade sem o tom professoral de Herman Hesse. Um autor mais oportunista, Peter Kreft, imaginou um encontro entre eles e Kennedy, no Purgatório, na sua novela “Entre o Céu e o Inferno”. Quem sabe?!


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DESPORTO

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JOGOS DA LUSOFONIA NUNO GOMES REPRESENTA MACAU

MAR CO CARVALHO info@hojemacau.com.mo

O

S Jogos são da Lusofonia e o conceito tem a língua como um dos principais sustentáculos mas na comitiva que a RAEM leva a Goa os falantes do idioma de Camões ou os atletas com reverberações lusas – nome ou sangue português – não chegam a encher os dedos de uma mão. Dos 114 desportistas que vão representar as cores do território na antiga colónia portuguesa apenas três reflectem a faceta lusófona do caldo de culturas que é Macau. Nascidos no território e com um percurso sólido nas selecções jovens da RAEM, Iuri Capelo e Eduardo António Tong dão um toque de multiculturalidade o grupo de trabalho que vai disputar o torneio de futebol da 3.ª edição dos Jogos da Lusofonia. Os

dois atletas, que representam respectivamente a Casa do Sport Lisboa e Benfica de Macau e o Chao Pak Kei, dividem o protagonismo com Nuno Gomes, basquetebolista que já vestiu a camisola do Iao Cheng e do Fukien, as duas principais equipas do território. Constituída por 153 elementos e liderada por Chan Weng Kit, a missão da Região Administrativa Especial de Macau aos Jogos de Goa integra ainda Manuel Cunha. Ligado ao futsal do território, o antigo atleta vai estar na antiga capital do Estado da Índia na qualidade de fisioterapeuta da selecção orientada por Leung Sui Wing. Se para Iuri Capelo e para Eduardo António Tong a participação nos Jogos da Lusofonia se prefigura como uma experiência promissora numa carreira ainda incipiente, para Nuno Gomes a inclusão na

comitiva que vai disputar a competição tem tudo para se revelar uma experiência inesquecível, ainda que por outras razões. “A possibilidade de representar Macau nos Jogos da Lusofonia tem para mim, obviamente, um valor simbólico acrescido, tratando-se da competição que é. Os Jogos da Lusofonia tem uma significado muito forte porque os ideais de fraternidade que estão inerentes à prova dizem-me muito. Parece-me que o desporto pode ser uma boa forma de promover a língua portuguesa e a própria ideia de Lusofonia. Tenho 38 anos e estou na fase descendente da carreira e esta é uma oportunidade única também por isso”, salienta Nuno Gomes.

DIFÍCIL

Em Goa, a selecção de basquetebol do território não vai encontrar facilidades. Entre os adversários que o cinco

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GONÇALO LOBO PINHEIRO

Basquetebol sonha com o pódio em Goa

de Macau vai encontrar na antiga colónia portuguesa a selecção de Portugal, a selecção de Cabo Verde ou a actual campeã africana da modalidade, Angola. Com menos projecção internacional, o basquetebol de Macau parte para a Índia ciente dos obstáculos que terá pela frente, mas ainda assim convicto de que o pódio não é de todo impossível. “Vamos encontrar equipas muito fortes, mas temos um grupo de trabalho muito unido e esta pode ser

uma mais valia. Fizemos um encontro de preparação com Hong Kong na semana passada, dominámos durante quase toda a partida e acabamos por perder por perder dois ou três pontos. Temos noção de que não será fácil, mas se pudéssemos regressar a casa com uma medalha seria fabuloso”, arrisca Nuno Gomes.

BRASIL DE FORA

De fora do Torneio de Basquetebol dos Jogos da

Lusofonia fica este ano o Brasil. O verde e amarelo da bandeira brasileira vai-se fazer representar em Goa apenas nas lides do wushu e na semana passada foi a vez da Federação Portuguesa de Futebol anunciar que a selecção lusa não iria marcar presença no certame. Nuno Gomes lamenta as ausências e a falta de empenho das nações que compõem o círculo lusófono. “Os Jogos da Lusofonia são um certame com um potencial absolutamente extraordinário. O desporto é um dos fenómenos que mais pessoas mobiliza e pode ser um bom expediente para aproximar povos e culturas. Parece-me que falta empenho às nações lusófonas para elevar a competição a outro nível. Macau, neste âmbito, é uma excepção. Tem tido um papel exemplar”, aplaude Gomes.

DAKAR SOUSA DÁ VITÓRIA À GREAT WALL MAS ABANDONA

Do céu ao inferno SÉRGIO FONSECA info@hojemacau.com.mo

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edição 2014 do rali Dakar não durou muito para a dupla portuguesa da equipa chinesa Great Wall Motors, Carlos Sousa e Miguel Ramalho. Depois de um início notável, com a vitória surpreendente na primeira etapa e uma liderança histórica para o construtor automóvel chinês no rali Dakar, um enorme atraso averbado na segunda etapa da prova, na sequência da ruptura do turbocompressor do Great Wall SUV HAVAL, ditou a exclusão da dupla portuguesa da prova. “Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance para cumprir integralmente o percurso, só que revelou-se impossível ultrapassar a zona de dunas, nos 30 quilómetros finais. Sem o auxílio do turbo, o carro não tinha potência suficiente para progredir na areia e nem com a ajuda do camião de assistência conseguimos superar este último obstáculo. Por isso, tomámos a única decisão possível, abandonando a pista e seguindo até ao bivouac por um caminho alternativo. Com isso, falhámos vários ‘way points’ e a organização acabou por excluir-nos da prova”, revelou Sousa, que chegou ao final da etapa com mais de doze horas de atraso, e que para a edição de 2014 tinha a esperança de terminar dentro dos dez primeiros classificados. Em quinze participações na prova rai-

nha do todo-o-terreno internacional, esta foi segunda vez que o experiente piloto luso e ex-campeão de Portugal de Todo-o-Terreno foi forçado a desistir. Esta foi também a segunda desistência consecutiva ao serviço do colosso oriental, pois, no final do ano passado, Sousa foi obrigado a abandonar, devido a uma falha mecânica da sua viatura, quando já tinha o triunfo à vista no Grande Rali da China. Com o abandono do piloto luso, o construtor chinês, que aposta forte na prova para melhorar a sua imagem no mercado sul-americano, ficou apenas representado pelo francês Christian Lavieille. Quanto a Sousa e Ramalho, “resta-nos esperar pelo próximo ano e perceber quais vão ser os planos da Great Wall para o futuro. Para já, ficou marcada uma reunião na China no próximo mês de Fevereiro”, concluiu o reputado piloto luso que não estará na chegada da prova a 18 de Janeiro no Chile. Apesar do SUV Haval ter recebido este ano importantes desenvolvimentos tanto ao nível das suspensões como da gestão electrónica do motor, Sousa continua a insistir que a Great Wall tem que investir mais no desenvolvimento da sua viatura se quiser ombrear com os melhores da especialidade a nível internacional. A única verdadeira criação da Great Wall para competição tem ao longo destes anos sido desenvolvida em França pela experiente equipa SMG.


FUTILIDADES

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TEMPO

MUITO

NUBLADO

Cineteatro

CINEMA

MIN

12

MAX

16

HUM

75-95%

EURO

10.8

BAHT

0.2

YUAN

17

1.3

POR MIM FALO Pu Yi

SECRET LIFE OF WALTER MITTY [B]

Um filme de: Ben Stiller Com: Ben Stiller, Sean Penn, Kristen Wiig 19.30 SALA 2

AS THE LIGHT GOES OUT [B] SALA 1

THE LEGEND OF HERCULES [C] Um filme de: Renny Harlin Com: Kellan Lutz, Gaia Weiss 14.15, 16.00, 21.30

THE LEGEND OF HERCULES [3D] [C] Um filme de: Renny Harlin Com: Kellan Lutz, Gaia Weiss 17.45

(FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Derek Kwok Com: Nicholas Tse, Shawn Yue, Simon Yam, Hu Jun, Bai Bing 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 SALA 3

GIRL IN THE SUNNY PLACE [B] (FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Miyazaki Hayao 14.30, 16.45, 19.15, 21.30

Uma verdade inconveniente Sobrevive no mar agarrado a placa de caixão • Um pescador de Taiwan foi arrastado para o mar por uma onda e, sem saber nadar, conseguiu agarrar-se a um pedaço de madeira. Era uma placa de caixão, mas permitiu a Tseng flutuar e, ao fim de 60 horas, chegar a uma praia a 75 quilómetros do local onde estava. O caso começou a 2 de Janeiro, quando Tseng foi pescar e desapareceu. Ao ser apanhado pela onda, o homem agarrou-se a um pedaço de madeira, que mais tarde se apurou ser uma placa de um caixão. Como não sabia nadar, subiu para a placa e deitou-se, deixando-se ir com a corrente.

Suposto OVNI na Alemanha obriga a cancelamento de voos • Um suposto OVNI provocou alguma caos no tráfego aéreo no aeroporto de Bremen, no norte da Alemanha, onde vários vos tiveram que ser cancelados e desviados após o objecto voador desconhecido ter aparecido nos radares. “Não sabíamos o que era, mas havia algo”, disse um porta-voz da policia local. As hipóteses apontam para um drone ou um objecto similar a um globo. O objecto, segundo os controladores aéreos, desapareceu depois de três horas dos radares sem que tivesse sido identificado.

AI, TOMÁS É da República Checa e chama-se Tomas Skoloudik. É a carinha da Emporio Armani, Dolce & Gabbana, Guess e Gas e é considerado um dos mais versáteis novos modelos da indústria. Nós aprovamos.

fonte da inveja

Amália e Eusébio no Panteão. Só faltam a irmã Lúcia e as lontras.

João Corvo

Que os níveis de poluição em Macau estão altíssimos ninguém pode ter dúvidas. Até eu, que sou gato, ando aqui com as vias respiratórias entupidas e os pulmões pesados, como se fumasse aqueles cigarros nojentos que os humanos gostam de meter na boca. O que me espanta é que seja dada tanta importância à poluição em Pequim, Xangai e Hong Kong, quando, em Macau, também estamos a morrer aos poucos. Eu bem sei: continuamos atrasados. Macau continua a usar as suas medições muito próprias, que não parecem tão alarmantes quanto as não-sei-quantas partículas a mais no ar de Pequim, as partículas X e Y em Xangai e as outras em Hong Kong. Dizer que o ar “está insalubre” ou “muito insalubre” e ver os “emoticons” amarelos e vermelhos no site dos Serviços de Meteorologia não é assim tão escandaloso como saber que a poluição está 200 vezes acima do limite de ar respirável. Mas, pensemos nisto. Também sei que, ao ligar para os SMG aqui do território, tudo irá ficar bem. Isto com a chuvinha que há-de vir limpa-se tudo, o céu fica menos feio e nós quase que podemos abrir os pulmões para respirar ar “puro”. Culpar a China é outra das coisas mais fáceis de fazer: Macau está neste cantinho e leva com o lixo todo do mar da China e as nuvens negras que nos impedem de ver a Torre de Macau também vêm de lá. Mas, a verdade, é que tudo entra nos nossos pulmõezinhos. Eu pergunto-me se os níveis de poluição em Macau não são contabilizados porque não há medidas internacionais nesta terra ou porque são “uma verdade inconveniente”.


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OPINIÃO

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FERNANDO VINHAIS GUEDES

desporto e não só

Eusébio. O Pantera Negra morreu!

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ARA muitos portugueses a notícia caiu como uma bomba! Só os mais chegados notaram que o “King “, como muitos lhe chamavam, acusava nos últimos dias do ano de 2013, sinais, que evidenciavam motivos de grande preocupação. Afinal, o seu coração, enorme em bondade, que durante os seus anos de ouro como futebolista, sempre alimentou o seu estilo caracterizado por arranques, dribles e pontapés fortíssimos, temidos pelos melhores guarda-redes do mundo, parou de bater pelas quatro horas e trinta minutos do passado dia 5 de Janeiro, vinte dias antes de completar 72 anos de vida! A notícia da sua morte desencadeou uma torrente de emoções e de reacções no país e no estrangeiro, um sinal inequívoco da sua notoriedade, como figura maior do futebol mundial! Mal foi dada a notícia, multiplicaram-se as manifestações de dor e de pesar pelo seu falecimento. Todos os canais de televisão fizeram programação especial para cobrirem o triste acontecimento. O Presidente da República decretou 3 dias de luto nacional. Os líderes de todos os partidos, bem como dirigentes desportivos de Clubes, Associações e Federações (UEFA e FIFA) incluídas, falaram da perda de um dos maiores embaixadores de Portugal no mundo nas décadas de sessenta e setenta do século passado. Vi jogar Eusébio muitas vezes, principalmente no Estádio da Luz, em jogos para o campeonato, mas também em partidas da então chamada taça dos campeões europeus. Eusébio foi um jogador formidável, no drible, no domínio da bola e nos arranques que só paravam com faltas por parte de quem o marcava. A sua capacidade de remate era impressionante, quer pela potência, quer pelos efeitos nas trajectórias que a bola tomava! Ao longo da sua carreira marcou mais de setecentos e cinquenta golos! Recordo um jogo no estádio da luz em que o Benfica jogou com o Vazas de Budapeste, a contar para a taça dos Clubes Campeões da Europa. Como estudante do antigo Instituto Nacional de Educação Física (INEF) tinha direito a um lugar, que ficava por detrás da baliza. Decorridos poucos minutos, o Benfica beneficiou de um livre directo à entrada da área da equipa visitante, Eusébio encarregou-se de o marcar e nem uma barreira cerrada evitou que a bola fosse parar ao fundo das redes. O guarda-redes da equipa Húngara protestou com os colegas, responsabilizando-os pelo sucedido. Passados pouco mais de dez minutos novos livre sensivelmente na mesma posição. Novamente Eusébio para marcar, mas desta vez o guarda-redes saiu da sua baliza e foi pessoalmente colocar os seus companheiros no sítio certo. Eusébio partiu para

a bola e zás novamente golo! O pobre do guarda-redes ficou incrédulo! A bola tinha voado por cima da barreira, entrando no ângulo supostamente protegido pelos seus companheiros! Ainda antes do intervalo, novo livre agora uns metros mais distantes da baliza. Desta vez o guarda-redes num acto de coragem dispensou a barreira e preparou-se para por fim às humilhações. Novamente o mestre Eusébio para marcar o castigo: apanhou balanço e arrancou um pontapé potente colocando a bola novamente no fundo das redes da baliza contrária, três livres directos três golos. O guarda-redes ficou desolado, mas o bom Eusébio foi consolá-lo com uma palmadinha no ombro, quem sabe dizendo-lhe: desculpa mas hoje estou com o pé quente. Eusébio era um jogador leal, humilde, educado e sensível e com um “ Fair- Play” que causava inveja. Quando um guarda-redes lhe defendia um grande remate com selo de golo, ele aplaudia e muitas vezes ia felicita-lo! No campeonato do mundo de 1966, no jogo com a selecção da U.R.S.S. para o apuramento do segundo e terceiro lugar, Eusébio marcou um golo de grande penalidade ao que era considerado o melhor guarda-redes do mundo, o guarda-redes da selecção da ex U.R.S.S. Lev Yaschin. De imediato dirigiu-se a ele pedindo desculpa, colocando-lhe a mão no ombro. “Um penalty é para mim, quase uma traição a um guarda-redes, por isso vou cumprimentá-los” dizia Eusébio Pessoalmente conheci-o em 1983, para lhe fazer o convite para vir a Macau em Abril desse ano, como figura emblemática,

da Semana da Juventude, numa ação que envolveu alguns milhares de jovens estudantes. Muito embora o acordo fosse somente a sua presença nas cerimónias de abertura e de encerramento, Eusébio participou, não só numa animação prática de futebol com jovens no campo relvado da caixa escolar (Tap-Seak), mas também numa equipa de futebol, num jogo disputado no Canídromo, em que participaram os Drs Jorge Humberto e José Belo. Volto a este tema no dia do funeral de Eusébio, 6 de Janeiro para vos dar conta do impacto deste triste acontecimento. Se a notícia da sua morte causou grande impacto no mundo do futebol, quer a nível nacional, quer em todo mundo, o que se passou hoje dia 6 de janeiro, ultrapassou o inimaginável! Milhares e milhares de pessoas, anónimas, personalidades do mundo da política, das artes e do espectáculo desfilaram, esperando horas em filas, para prestarem o seu último tributo à grande Figura do futebol mundial. Crianças e adultos, homens e mulheres de todas as profissões o fizeram, mesmo faltando ao seu trabalho! Eusébio era sem dúvida uma Figura Nacional, que ultrapassava as cores clubistas. Era um verdadeiro ídolo do Povo! Em Portugal, todos os canais de televisão, cobriram em directo as cerimónias, que decorreram durante todo o dia seis, o dia de Reis, precisamente mais ouvida no dia do seu funeral pela massa humana que não parava entoando a frase.” Eusébio, Eusébio tu és o nosso Rei, tu és o nosso Herói”. Todos os jornais publicados, desporti-

A notícia da sua morte desencadeou uma torrente de emoções e de reacções no país e no estrangeiro, um sinal inequívoco da sua notoriedade, como figura maior do futebol mundial!

vos ou não, tinham como capa uma grande fotografia de Eusébio com frases bem elucidativas tais como: Obrigado Eusébio; O Grande Embaixador; Os Ídolos não Morrem; O Eterno Rei; Eusébio é Imortal; etc., etc. Lá fora também aconteceu o mesmo. Em mais de meia centena de países dos quatro continentes escreveram-se notícias, e comentários ao grande futebolista, que encantou os amantes do futebol, com golos de verdadeira antologia! A CNN dos Estados Unidos e a BBC de Londres fizeram transmissão em directo dos momentos mais emocionantes das cerimónias de homenagem! Talvez a mais rápida e significativa tenha ocorrido, no mítico estádio de Old Trafford, casa do Manchester United, também conhecido por palco dos sonhos, que no jogo disputado contra o Swansea no dia da sua morte, a contar para a taça de Inglaterra, sessenta mil adeptos aplaudiram em pé, gritando durante um minuto o nome Eusébio, com a Bandeira Portuguesa a esvoaçar a meia haste. Também o Real Madrid, no jogo do passado dia seis, com o Celta de Vigo, guardou um minuto de silêncio, em homenagem ao Homem, que nunca respondia às inúmeras faltas que sobre ele eram cometidas, num exemplo de um Fair-Play inquestionável! De todos os momentos das cerimónias a que assisti via televisão, guardo dois, que jamais esquecerei. O primeiro, quando a televisão começou a mostrar o amontoado de cachecóis e de faixas junto à estátua de Eusébio. Chovia copiosamente e da sua face caíam gotas como se ele estivesse a chorar já de saudade. Nesse momento, recordei as lágrimas, que lhe inundaram o rosto ao perder por duas bolas a uma no jogo das meias-finais com os Ingleses, no campeonato do Mundo de 1966. Foram imagens que percorreram o mundo. O segundo momento que guardo, é o da entrada da urna com o seu do corpo no estádio da luz para dar uma volta de despedida, para cumprir um desejo que sempre manifestou publicamente. A reacção dos milhares de admiradores, que enchiam o primeiro anel do estádio, à entrada do carro que transportava o corpo de Eusébio, fez explodir os sentimentos da multidão, entoando cânticos, agitando grandes bandeiras e cartazes e lançando cachecóis para o carro funerário. Era o momento do adeus, não só ao seu estádio, mas a todos os estádios do mundo por onde Eusébio espalhou a sua classe, a sua arte de bem jogar futebol, o seu estilo inimitável, a sua humildade inquestionável e o seu Fair-Play invejável! Foram momentos tristemente bonitos de gratidão, que os amantes do futebol lhe dedicaram na hora da partida. Se no mundo para onde Eusébio partiu, no passado dia cinco de Janeiro, houver futebol, ele terá sempre o seu lugar cativo na selecção dos melhores do mundo, tal como aconteceu neste em que viveu.


opinião 19

hoje macau quinta-feira 9.1.2014

bairro do oriente

CASSIUS MARCELLUS COOLIDGE, CÃES A JOGAR POKER

LEOCARDO

O jogo do mal e o jogador do bem I Macau é a Meca do jogo, dizem. Blasfémia: Macau é a Sodoma e Gomorra do jogo. O jogo é a principal fonte de receitas de Macau, é o que mostram os números. Facto: a economia de Macau está perigosamente dependente do jogo. O jogo é um entretenimento, e é possível jogar “de forma responsável. Puro engano: o jogo vicia, destrói famílias, arruína vidas, e está na origem dos tipos de crime mais violentos, e em números que teimam a aumentar. O problema da criminalidade não tem a ver com o tráfico de droga ou de pessoas, com o trabalho ilegal, crimes passionais e outros de faca e alguidar. Os delitos mais graves, mais chocantes e desumanos vão quase sempre parar ao jogo, e basta abrir os jornais para comprovar isso mesmo. São filhos que roubam dos pais, amigos que se enganam, famílias destruídas, raptos, homicídios, assaltos à mão armada, o drama, a tragédia, o horror, como dizia um conhecido jornalista português. Já alguém se incomodou a contar quantos casos de roubo, burla e abuso de confiança estão directa ou indirectamente relacionados com o vício e com as dívidas ao jogo? As autoridades nada mais podem fazer do que ocorrer onde

Uma amiga macaense disse-me ter ficado surpreendida por ver tanta gente a chorar pela morte de um jogador. Respondilhe que faz todo o sentido, pois afinal não há por aí tanta gente que chora ao ver telenovelas ou filmes? o mal já está feito, e ironia das ironias, até um alto quadro das Forças de Segurança foi apanhado recentemente a jogar no casino, quando o seu estatuto não lhe permite que o faça. É uma realidade que a proliferação de casinos no território foi benéfica para os cofres da RAEM, o que é óptimo para a quem eles tem acesso e ainda melhor para as operadoras e os seus executivos, os de cá e os do outro lado do planeta, os “cowboys” do quase falido faroeste do Nevada. E o que ganhamos nós com isso, a não ser os

subsídios, cheques anuais, vales de saúde e outras papas e bolos com que enganam os tolos, e que nos vão chegando a conta-gotas? Podíamos questionar quem de direito sobre o que pensam fazer quando a brincadeira acabar, e formos apanhados com as calças na mão, com uma geração de mão-de-obra jovem a quem não ensinaram mais nada a não ser que o jogo “é uma perspectiva de carreira interessante” – aliás, é praticamente a única. Mas não, isso dá muito trabalho. O melhor é ficar a olhar para a manada de elefantes a levar tudo pela frente, enquanto tentamos apanhar algumas bananas que vão saltando da selva que vai sendo esmagada. E já agora fazendo figas para não sermos pisados. II Portugal ficou mais pobre no domingo com o desaparecimento de Eusébio da Silva Ferreira, o “Pantera Negra”, um mito que atravessa três gerações de portugueses e de amantes do futebol, e não só. Quando se fala do futebol como arte e evento que arrasta multidões, era Eusébio quem punha o “rei” em “desporto-rei”. O mediatismo que rodeou a sua morte, que fez capa na imprensa dos quatro cantos do mundo, e

foi no dia seguinte a terceira notícia mais lida na página da Yahoo!, faz-nos sentir culpados de não termos valorizado aquele património em forma de atleta e de homem. Por acaso alguém se lembrou dele aquando daquela foleirice que foi a eleição do “Maior Português” aqui há uns anos? Não, ninguém se lembrou. Ganhou Salazar. Temos o que merecemos, e somos pequeninos em tanta coisa, que até na hora de dar o devido valor a quem o merece revelamos a nossa pequenez. Só que Eusébio era maior que tudo isto, e foi embaixador mesmo em nome de quem não quer saber de embaixadas, nem percebe nada de diplomacia. Uma amiga macaense disse-me ter ficado surpreendida por ver tanta gente a chorar pela morte de um jogador. Respondi-lhe que faz todo o sentido, pois afinal não há por aí tanta gente que chora ao ver telenovelas ou filmes? Pelo menos o Eusébio era bem real, e mais que um mero jogador de futebol com uma carreira que durou 15 anos, é como homem um daqueles exemplos que continuamos a recusar imitar. Ele parte com a consciência tranquila de quem fez o que pode, e pode agora descansar no panteão dos deuses, ao lado do restantes imortais.

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor Gonçalo Lobo Pinheiro Redacção Andreia Sofia Silva; Cecilia Lin; Joana de Freitas; José C. Mendes; Rita Marques Ramos Colaboradores Amélia Vieira; Ana Cristina Alves; António Falcão; António Graça de Abreu; Hugo Pinto; José Simões Morais; Marco Carvalho; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Tiago Quadros Colunistas Agnes Lam; Arnaldo Gonçalves; Correia Marques; David Chan; Fernando Eloy ; Fernando Vinhais Guedes; Isabel Castro; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi Cartoonista Steph Grafismo Catarina Lau Pineda; Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Gonçalo Lobo Pinheiro; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


hoje macau quinta-feira 9.1.2014

Kennedy ponderou acção militar no Brasil

Uma intervenção militar dos EUA no Brasil esteve em cima da mesa antes do golpe de Estado de 1964. “Prevê alguma situação em que possamos considerar desejável intervirmos militarmente nós mesmos?” A pergunta é de John F. Kennedy a Lincoln Gordon [embaixador dos EUA em Brasília], numa reunião na Casa Branca a 7 de Outubro de 1963. Os dados foram revelados pelo jornalista Elio Gaspari, que disponibilizou a gravação áudio do encontro no site na Internet Arquivos da Ditadura. A administração Kennedy receava que o Brasil evoluísse para um sistema político semelhante ao do modelo implantado por Fidel Castro em Cuba e admitiu, internamente, a possibilidade de uma intervenção militar no terreno. O avanço do golpe militar brasileiro em Abril de 1964, que depôs Goulart do poder, fez com que a acção militar deixasse de ter justificação, uma vez que a junta militar foi desde logo reconhecida como legitimamente no poder pelos Estados Unidos.

OS AMIGOS por Stephff

Segundo informações prestadas pelo Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INCG) em Nampula, província de Moçambique, o mau tempo que tem assolado esta região já levou à morte de 14 pessoas desde o final de 2013. Citada pelo Jornal de Notícias, a delegada do ING, Virgínia Malawene, acrescentou que três das vítimas são «crianças que encontraram a morte em consequência do desabamento de parede de uma sala de aulas, onde se encontravam a consultar pautas na cidade de Nampula», capital da província com o mesmo nome. As restantes vítimas foram atingidas por raios nos distritos de Eráti, Memba, Mogovolas e Monapo, e uma morreu devido ao desabamento da parede de uma escola. Embora a chuva intensa persista, Virgínia Malawene afirma que a província ainda não se encontra em situação de emergência.

CPLP Alves Moura é o novo representante na Guiné-Bissau

cartoon

Moçambique Mau tempo provoca a morte de 14 pessoas

CHINA, PANAMÁ, NICARÁGUA E O MAIOR CANAL DO MUNDO

Nova porta entre dois oceanos MARIA JOÃO BELCHIOR Em Pequim

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UANDO este ano o canal do Panamá completar cem anos, estaremos perante o aniversário de um dos grandes acontecimentos da primeira metade do século passado com aquela que foi a inauguração de uma das maiores obras de engenharia até então. No próximo ano, em 2015, deve terminar a segunda maior obra do canal e que passou pelo seu alargamento. Quando abriu em Agosto de 1914 tornou-se o canal mais rápido para transporte de mercadorias entre o Oceano Atlântico e o Pacífico. Menos de um século mais tarde, sintoma da globalização e desenvolvimento económico, o canal de 77 quilómetros de comprimento já não conseguia deixar passar todos as grandes embarcações que cruzavam oceanos e estava a trabalhar no máximo da capacidade possível. Iniciado pelos franceses em 1881, foi um projecto que passou para as mãos dos Estados Unidos em 1914. E que desde 1999 é gerido pelo governo do Panamá. Ao marcar o centésimo aniversário em Agosto estar-se-á mais perto da abertura do novo canal aumentado e com maior capacidade. Mas aquela que foi uma das maiores obras de engenharia dos últimos anos, com especialistas de vários países envolvidos, vai ter uma rival. A China quer fazer um canal maior com financiamento privado e que deve atravessar a Nicarágua.

AMBIÇÃO CHINESA

Assinado na segunda metade em 2013, o acordo entre o governo da Nicarágua e a empresa chinesa com sede em Pequim e Hong Kong, ainda deixa alguns espantados. Depois de um primeiro acordo de intenção assinado em 2012, um ano mais tarde a China conseguiu tornar realidade o que muitos outros já tinham imaginado, ao finalizar o acordo para a construção de um novo canal entre oceanos. Serão mais de 40 mil milhões de dólares para abrir um caminho entre as florestas e os rios da Nicarágua e ligar os dois lados de um continente, no que vai ser a primeira vez que tal acontece desde há 100 anos. Wang Jing, o multimilionário à frente da empresa privada que vai gerir a construção e depois espera explorar a infra-estrutura, assinou com Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, um acordo para os próximos 50 anos que dá direitos a esta empresa privada para explorar o canal e o tráfego comercial que por ali vai passar. É um projecto de

gigantes e que tem levantado várias críticas e dúvidas. Só que perante um cepticismo generalizado, o empresário chinês assegurou em conferência de imprensa que este vai ser um dos maiores projectos do mundo e que a capacidade do novo canal será três vezes maior que o agora centenário canal do Panamá. “Desenhar, construir e gerir” são os três objectivos que Wang Jing diz que a sua empresa vai perseguir para fazer este novo canal. Paralelamente desenvolver-se-ão outras infra-estruturas anunciadas pelo multimilionário chinês. Um gasoduto, uma linha ferroviária, dois portos e dois aeroportos, juntam-se à fotografia final que, quando estiver terminada, será a maior estrutura do mundo, nas palavras de Wang Jing.

UMA ROTA FUNDAMENTAL

Mas as dúvidas são quase tão grandes como o projecto que parece estar a ser mantido em segredo. A rota que deve atravessar o Lago Nicarágua ainda não foi tornada pública. Os críticos da ideia apontam para o facto do lago ser a principal fonte de água na Nicarágua e que ficará em risco pela passagem das embarcações. A isto, junta-se o problema de abrir caminho pelo meio das florestas do país e de todas as consequências que isto traz. Para a China será fundamental assegurar uma outra rota que não a do Panamá que, dizem alguns peritos, mesmo depois do alargamento previsto para estar a funcionar no próximo ano, não será suficiente. Mais uma razão para fazer do canal da Nicarágua um projecto ainda maior. Com data para começar a meio de 2014 e acabar em 2019, é um projecto que não preocupa por enquanto a Comissão do Canal do Panamá que não parece assustar-se com o sonho de gigantes do vizinho. Por agora, continua a ser o Panamá que assegura a rota mais funcional para mercadorias entre o Oceano Pacífico e o Atlântico. Os defensores da ideia argumentam que a construção do canal da Nicarágua vai atrair investimentos de todo o mundo e gerar empregos no país. A ideia que à primeira parece mais uma grande ambição chinesa, há muito que era estudada por outros países que nunca conseguiram passar do papel. Antes da China, já a Rússia e os Emirados Árabes Unidos tinham mostrado interesse por apadrinhar uma infra-estrutura como esta. Mas mais além que a intenção, a empresa privada chinesa passou à prática e conseguiu a concessão do espaço para as próximas cinco décadas.

O diplomata brasileiro Carlos Alves Moura é o novo representante especial da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) na Guiné-Bissau. Carlos Alves Moura, que foi representante temporário da CPLP na GuinéBissau entre 2004 e 2006, foi formalmente apresentado em reunião extraordinária do Comité de Concertação Permanente, esta quarta-feira, na sede da organização lusófona, em Lisboa. Em declarações à RDP África, Carlos Moura, que inicia funções no dia 12, lembrou que a sua missão só será bem sucedida se tiver o apoio das autoridades guineenses e da sociedade civil, revelando-se optimista face à realização das eleições gerais guineenses previstas para 16 de Março.

Surf Para McNamara, há melhores ondas que as da Nazaré

Foi em 2011 que Garrett McNamara entrou para o livro de recordes do Guinness depois de surfar a maior onda do Mundo (23,77 metros) que a Praia do Norte lhe proporcionou. Porém, convidado a eleger os locais preferidos, o norte-americano deixa a Nazaré em segundo plano. O big rider de 46 anos não hesitou em escolher Waiamea Bay, no Havai, como destino de eleição para quem procura ondas gigantes. «É, para mim, a número 1. É onde começou a procura por ondas gigantes e tem a onda perfeita para iniciar a carreira: água morna, limpa e muito espírito aloha», disse em declarações à Globosporte. Só depois vêm as famosas ondas da Nazaré: «A Praia do Norte produz algumas das maiores ondas que já vi. É um enorme campo de jogo, muito poderoso, movendose em todas as direcções. As ondas não quebram no mesmo lugar duas vezes. É também o local ideal para assistir às ondas gigantes porque elas quebram para a direita ao longo da falésia. As ondas podem ser loucas mesmo nos dias pequenos.» A praia de Jaws, também no Havai, aparece imediatamente a seguir na ordem de preferências de McNamara, Mavericks, nos Estados Unidos, e Teahupoo, no Taiti, fecham o ‘top 5’ das praias com melhores ondas.


Hoje Macau 9 JAN 2014 #3007  

Edição do jornal Hoje Macau N.º3007 de 9 de Janeiro de 2014

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