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TERÇA-FEIRA 7 DE NOVEMBRO DE 2017 • ANO XVII • Nº 3929

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

GCS

hojemacau

ÓRGÃOS MUNICIPAIS

As vozes lá de cima PÁGINA 7

ESTAÇÃO DAS ARTES

DROGAS

Criminalizar não compensa João Goulão, director do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências de Portugal ENTREVISTA

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POLÉMICO CONSELHO

ASSISTENTES SOCIAIS | P. 4

EVENTOS

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SOFIA MARGARIDA MOTA

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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ


2 ENTREVISTA

JOÃO GOULÃO

É o director do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD) de Portugal. João Goulão está em Macau para participar na 27ª conferência da Federação Internacional de Organizações Não-Governamentais para a Prevenção de Drogas e Abuso de Substâncias (IFNGO). Crítico da legalização das drogas, é, contudo, apoiante da despenalização. Portugal é pioneiro neste tipo de políticas e os resultados são animadores

“Criminalizar vítimas é pouco eficaz e pouco inteligente”

Há 15 anos Portugal iniciou o processo de descriminalização das drogas. Macau está a andar no sentido oposto ao ter em vigor há um ano uma lei que aumentou as penas para os consumidores. Está no caminho errado? Não me atrevo a dizer isso. De acordo com  a minha sensibilidade e a minha experiência, está. É o caminho errado porque é o oposto de uma abordagem humanista das pessoas afectadas por problemas de dependências de drogas. Mas, nós estamos do outro lado do mundo e as culturas, as tradições e as formas de pensar são francamente distintas. É difícil apresentar receitas infalíveis e que sejam aplicáveis em qualquer lado do mundo. Aquilo que me proponho fazer aqui é a partilhar a experiência que nós próprios temos de uma escolha que foi feita há cerca de 16 anos em Portugal e que foi ir pela via da descriminalização do consumo, mantendo um sinal claro de desaprovação social do uso de drogas. Consumir drogas, em Portugal, continua a ser priobido embora seja apenas na esfera do direito administrativo. Qualquer coisa que podemos comparar com o facto de usar ou não usar o cinto de segurança, por exemplo. Alguma coisa que é destinada a proteger a minha própria integridade física mas que não é deixada ao mero livre arbítrio. Um consumidor de drogas que seja interceptado pela polícia não incorre em sanções penais, não vai para a cadeia, não fica com um registo criminal o que contribui para diminuir o estigma, mas pode incorrer em sanções que podem ser multas ou outro tipo, como o desempenho de serviço cívico ou proibição de frequentar determinados locais.  Que resultados tem tido Portugal com a despenalização?

Este regime tem dado muito bons resultados na nossa sociedade mas obviamente associado a uma série de outras intervenções ao nível da prevenção do tratamento, da redução de danos e da reinserção social. É o pacote completo que tem dado bons resultados. No meu ponto de vista não é legítimo, nem é sério do ponto de vista intelectual, estabelecer uma relação de causa-efeito entre a descriminalização apenas e os resultados que temos obtido.

“Fiquei completamente esmagado por esta Las Vegas que encontrei. Sabia que havia uns casinos mas isto tem uma dimensão que não estava à espera. E, obviamente que olhar para isto, faz-me pensar nos enormes volumes de dinheiro que aqui se movimentam e nas organizações que se movem em seu torno.” Seria complicado replicar esse modelo em Macau? Eventualmente, sim. Só é possível aplicar um modelo deste tipo se houver respostas na área da saúde e na área social capazes de lidar com o problema. Não estamos a falar de tráfico, essa é uma outra questão. Não estamos a falar dos enormes interesses económicos que se movimentam em torno disto, estamos a falar das vítimas desses interesses. Criminalizar estas

SOFIA MARGARIDA MOTA

DIRECTOR DO SERVIÇO DE INTERVENÇÃO NOS COMPORTAMENTOS ADITIVOS E NAS DEPENDÊNCIAS

vítimas, seja em que latitude for, parece-me pouco eficaz e pouco inteligente. Macau está a atravessar um período de maior integração regional. Como é que as autoridades podem responder às consequências dessa integração, nomeadamente se vierem a ter resultados no aumento do tráfico e de consumo? Essa não é propriamente  minha área de expertise. É a minha primeira visita a Macau e estou francamente impressionado. No meu imaginário, Macau corresponderia ao que vi na zona central da cidade, com o casino Lisboa que era o que conhecia dos filmes. Fiquei completamente esmagado por esta Las Vegas que encontrei. Sabia que havia uns casinos mas isto tem uma dimensão que não estava à espera. E, obviamente que olhar para isto, faz-me pensar nos enormes volumes de dinheiro que aqui se movimentam e nas organizações que se movimentam em seu torno. Seguramente estarão implicadas organizações ligadas ao tráfico. Tudo isto exige uma atenção muito especial das autoridades e não é fácil lidar com isso. O meu lado da questão, aquele que conheço, é o daqueles que alimentam toda essa indústria. Em Portugal alargámos, há cerca de cinco anos, o scope da nossa intervenção a todos os comportamentos aditivos. Lidamos não apenas com as substâncias ilícitas, mas também com o álcool, e com comportamentos aditivos sem substância como é o caso do jogo ou do ecrã. Do que vejo aqui, as coisas entrecruzam-se com uma enorme intensidade. Do lado da saúde, é importante existirem respostas para todos os tipos de adições, ou seja para as substâncias ilícitas e lícitas, e todos estes comportamentos sem substância que geram muito sofrimento ao próprio e às famílias.

É algo céptico em relação à legalização das drogas leves. Não sou propriamente céptico, mas é preciso pensarmos bem no que é que estamos a falar. Quando, em Portugal, foi descriminalizado o consumo de drogas, foi para todas as substâncias. Amedida foi baseada num princípio: a relação que o indivíduo estabelece com a substância e não a substância em si. Faz pouco sentido falar em legalizar um determinado grupo de substâncias e deixar todas as outras no mesmo regime. Neste momento diria que Portugal foi ao limite do paradigma proibicionista. Mantemos a proibição de usar drogas, todas elas, mas deixaram de ser objecto de procedimento criminal. Fomos pioneiros a ensaiar este modelo e em regra geral, todos os indicadores relacionados com substâncias têm vindo a baixar o que é uma situação que, não sendo resolvida como não o é em nenhuma sociedade, tem registado progressos importantes. Abrimos um determinado caminho e estamos a ser imitados, diria, por vários países. Fomos um laboratório social: fizemos uma experiência e temos resultados para mostrar. Neste momento, não enfrentamos como enfrentávamos há 15 ou 16 anos, uma situação dramática. Por outro lado, há outros países que estão a ensaiar novos caminhos. Acho que


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com pessoas de 50 e 60 anos. O grande objectivo agora é acompanhar estas pessoas que se mantiveram vivas e acompanhá-las no processo de um envelhecimento com dignidade. As prioridades em relação a esta população mais envelhecida são diferentes do que aquelas que se colocam a jovens consumidores. Em relação ao vício do jogo. Enquanto director do SICAD, que perfis podemos traçar? Não tenho nenhuma experiência profissional em lidar com esta questão. Estamos ainda numa fase de cruzamento de experiências com quem está mais adiantado nestas matérias, com centros internacionais que lidam com esta questão. Há perfis diversificados em relação aos quais eu não consigo discorrer grande coisa. 

não perdemos nada em esperar o resultado dessas experiências. Não temos a pressão que tínhamos há 20 anos, para mudar a todo o custo. Portanto, vamos esperar para ver o que é que sai do que está a ser feito e depois pensar o que fazer. Não se trata de cepticismo, mas sim de ter alguma cautela. É importante olhar para o uso da canábis na medicina? Sim, é importante e em relação a isso não tenho nenhuma resistência. Só que isso não é um “negócio” meu. Isso é o “negócio” das organizações médicas e para o Infarmed que é a agência reguladora de medicamentos. Se os produtos de canábis responderem às exigências de que são sujeitos os novos medicamentos que são introduzidos no mercado, se o balanço custo-benefício - e estou a falar de custos que impliquem o risco da dependência - for francamente positivo, não tenho nenhuma resistência. O que francamente me desagrada é a mistura mais ou menos intencional que tem havido na discussão entre a questão do uso terapêutico da canábis e o seu uso recreativo, como se o seu uso medicinal fosse como um cavalo de tróia para fazer passar o uso recreativo, dizendo assim: “isto é tão bom que até cura doenças”. Não é disso que

“Neste momento diria que Portugal foi ao limite do paradigma proibicionista. Mantemos a proibição de usar drogas, todas elas, mas deixaram de ser objecto de procedimento criminal.” se trata e também não gostava de ver os médicos a prescreverem a pedido, para circunstâncias que não têm justificação clínica. Uma coisa é a regulação do uso terapêutico em circuitos estritamente médicos, uma outra conversa é a do uso recreativo. Estamos na era das drogas sintéticas, que são muitas vezes vendidas online. Há ainda um grande desconhecimento acerca desta matéria e ausência de regulação? Nós tentámos reagir a este mercado e às novas substâncias piscoactivas, no florescer das chamadas smartshops que, de um momento para o outro,

apareceram em todos os cantos de Portugal. Produzimos legislação, numa altura em que estávamos a ser confrontados com emergências hospitalares relacionadas com essas novas substâncias e mesmo algumas mortes, que, na prática, levou ao encerramento destas smartshops. Embora estejamos cientes que continua haver consumos dessas substâncias, o que é um facto é que o número de emergências hospitalares baixou drasticamente. Elas circulam, são consumidas em Portugal mas diria que é um mercado relativamente residual. E, acrescento, ainda temos de estar preparados para que haja algum recrudescimento desse mercado. Normalmente, somos um bocado tradicionais e as coisas chegam a Portugal um bocadinho mais tarde do que noutros países e quando vemos a realidade em alguns países europeus temos de nos preparar para que o fenómeno alastre largamente. Como é que está a ser o acompanhamento do aumento de consumidores de heroína com a recente crise? Depois da crise económica, houve realmente um certo regressos do consumo de heroína por via injectada que era uma realidade que já não se via há muito. Este regresso é sobretudo à custa de antigos utili-

zadores que recaíram em sequência da crise, pessoas confrontadas com dificuldades acrescidas e que recaíram. São também consumidores de idade mais avançada, que tiveram os seus episódios de consumo aos 20, 30 anos, depois pararam durante uns 10 ou 20 anos, e depois recaem. Somos confrontados agora com uma população diferente. Aquilo que era o investimento no sentido de uma completa inserção social, para devolver esta pessoa completamente e integralmente à sociedade, já não é o mais adequado. Não temos o mesmo tipo de veleidades quando estamos

“O que francamente me desagrada é a mistura mais ou menos intencional que tem havido na discussão entre a questão do uso terapêutico da canábis e o seu uso recreativo, como se o seu uso medicinal fosse como um cavalo de tróia para fazer passar o uso recreativo.”

O ecrã é um vício sem substâncias que começa a ter algum relevo na sociedade actual. Em que ponto é que está a abordagem desta adição? Os mecanismos de todos estes comportamentos têm que ver com o tornarem-se no centro da vida da pessoa, seja o jogo, seja o ecrã, seja a acumulação dos dois. Aqui o que tentamos partilhar com experiências de outros países é o debate destas questões e as abordagens possíveis de serem feitas utilizando a internet inclusivamente. Podemos utilizar Pop Ups que aparecem num determinado momento a alertar para o número de horas que o utilizador está a ter. É impressionante, um pouco por todo o mundo, mas aqui em Macau ainda mais, o número de pessoas que passa o tempo a olhar para o telefone. Vemos aqui centenas de pessoas e não vemos uma que não esteja a olhar para o ecrã. Mas tudo tem de ser pensado de forma adequada às culturas das pessoas às quais se dirige . Não podemos pensar num pronto a vestir de intervenções, temos de nos adaptar às realidades culturais de cada país ou região. Ainda sobre o vício do jogo, estão ser pensadas alguma parcerias com Macau para intervir nesta problemática?  Isto não é fácil.Além de partilharmos experiências através de momentos como esta conferência ou a partilha de conhecimentos de outros encontros, a distância e os custos envolvidos não nos permitem uma partilha técnica tão intensa quanto seria desejável. Gostaria muito de mandar uma equipa de profissionais do meu serviço. Mas é desejável que este intercâmbio se mantenha e se aprofunde.   Andreia Sofia Silva e Sofia Margarida Mota info@hojemacau.com.mo


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ASSISTENTES SOCIAIS DEPUTADOS QUESTIONAM COMPOSIÇÃO DO CONSELHO PROFISSIONAL

Arestas por limar GCS

O Governo propõe que os assistentes sociais do sector privado venham a obter a sua credenciação através do Conselho Profissional dos Assistentes Sociais. Vários deputados questionaram o facto deste órgão só ter três membros “integrados na área do serviço social” e da ausência de uma eleição. Foi ainda exigida uma maior clarificação quanto aos nomes dos cursos, para evitar que profissionais qualificados não estejam abrangidos pela lei

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ORRIA o ano de 2011 quando o Governo anunciou que iria criar um regime de credenciação para os assistentes sociais do sector privado. Seis anos depois, o “regime de acreditação profissional e inscrição para assistente social” foi ontem aprovado na generalidade pela Assembleia Legislativa (AL), com apenas um voto contra do deputado Sou Ka Hou. Apesar da aprovação por uma larga maioria, o diploma foi alvo de diversas criticas. Tudo começou com a composição do futuro Conselho Profissional dos Assistentes Sociais (CPAS), cujos membros serão escolhidos pelo secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Este órgão terá um presidente e cinco vogais propostos pelo Governo, incluindo “três [membros] que são obrigatoriamente integrados na área do serviço social”. Há também cinco vogais “em representação dos assistentes sociais, das instituições do ensino superior, das associações profissionais ou das instituições dos serviços sociais”. “Fiquei um pouco decepcionado com a composição do CPAS”, começou por dizer o deputado Sulu

Sou. “Num relatório tudo apontava para que mais de metade dos membros do CPAS seriam assistentes sociais, mas não verificamos isto na proposta de lei e esta é uma questão crucial. O que quero é que haja uma composição justa do CPAS. Se não se consegue mostrar que há uma autonomia profissional há que alterar a lei posteriormente. Onde está o compromisso feito na altura? Espero que o secretário adopte uma forma de eleição mais democrática”, acrescentou o deputado ligado ao campo pró-democrata. Também Ng Kuok Cheong lembrou que “se permitirmos que os vogais sejam eleitos, o CPAS vai ter mais credibilidade junto da população. Em Hong Kong há eleições e metade dos assentos são ocupados por membros do sector”. Na visão do secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, está garantida a

representatividade dos assistentes sociais. “Queremos elevar o estatuto social e profissional dos assistentes sociais. Damos uma grande importância a autonomia dos assistentes sociais. A maior dificuldade com que nos temos deparado tem sido o CPAS que tem de ser acompanhado com a implementação de regulamentos administrativos e aí tudo vai ser claro. Vamos falar com o sector para que recomendem colegas a participar no CPAS, serão os assistentes sociais inscritos a eleger, no futuro, os seus representantes.”

O deputado José Chui Sai Peng baseou-se no actual sistema de credenciação existente na sua área (engenharia civil) para pedir ao Governo a definição de vogais suplentes. Tudo para evitar “conflitos de interesses”

VÁRIOS CURSOS, UM SÓ NOME

A proposta de lei apresentada pelo Governo prevê que “os titulares das habilitações académicas em serviço social” sejam sujeitos a exames de admissão, para que depois obtenham o certificado de qualificação profissional, que deve

“Há assistentes sociais que já estão a estudar ou que querem entrar para esta área mas as suas habilitações não têm o nome de Serviço Social. A proposta de lei tem de ser clara.” ELLA LEI DEPUTADA

ser renovado a cada três anos. Cabe depois ao Instituto de Acção Social proceder à inscrição do assistente social. Estas medidas são apenas aplicadas a quem trabalha no sector privado, pois os assistentes sociais do sector público regem-se pelas suas próprias regras. Vários deputados afirmaram temer que profissionais que tenham frequentado cursos superiores com nomes diferentes, mas na mesma área, não possam obter a credenciação, pelo facto da lei ser muito específica. Foram ainda referidos casos de pessoas que exercem a profissão há muitos anos, mesmo sem licenciatura. Ella Lei foi uma das deputadas que levantou esta questão. “Há assistentes sociais que já estão a estudar ou que querem entrar para esta área mas as suas habilitações não têm o nome de Serviço Social. A proposta de lei tem de ser clara. Algumas pessoas que estão a estudar no exterior não frequentam formações em serviço social [mas sim cursos com outra designação]. As pessoas podem ter experiência, mas como o regime não é claro as pessoas não conseguem entrar”, alertou a deputada ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau. Vários membros da AL deram mesmo o exemplo do regime de qualificações nos domínios da construção urbana e do urbanismo, que deixaram sem credenciação alguns profissionais qualificados. “Muitos engenheiros não conseguem exercer a profissão por causa do sistema de credenciação, porque a lei está muito pormenorizada”, alertou Wu Chou Kit, deputado nomeado e presidente da Associação dos Engenheiros de Macau. Também Agnes Lam lembrou que são necessárias mais clarificações “para evitar que as pessoas que estudam fora de Macau depois não vejam as suas formações reconhecidas”. Alexis Tam garantiu apenas que o Governo vai dar “apoio” a este tipo de casos. Outra das questões levantadas no debate de ontem prende-se com a necessidade de acelerar a implementação do código de ética e deontologia dos assistentes sociais do sector privado. Muitos deputados temem que esse documento fique concluído muito tempo depois da implementação da lei. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


política 5

O reconhecimento mútuo das cartas de condução entre o continente e o território tem sido alvo de várias críticas. Sulu Sou não é excepção e apresentou ao Governo a sua preocupação com a medida. Para o deputado, a acção pode mesmo ser perigosa para a segurança rodoviária PUB

Má ideia Sulu Sou alerta para perigos de reconhecimento de cartas de condução

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reconhecimento das cartas de condução da China continental pode ser preocupante. A ideia é deixada pelo deputado pró-democrata, Sulu Sou, em interpelação escrita. Segundo o recém eleito elemento do hemiciclo, em causa está a pressão nos transportes locais e a própria segurança rodoviária. Sulu Sou recorda que já em 2003 o Governo tentou avançar com o reconhecimento mútuo das cartas de Guangdong e de Macau. Foi encomendada uma investigação à Universidade de Macau para garantir a viabilidade da ideia, no entanto, a pesquisa “revelou que o projecto não alcançava o consenso da sociedade”. Como tal, acabou por ser suspenso. O tema volta a estar em cima da mesa com o resultado das opiniões consensuais do Conselho Consultivo de

Trânsito e com a proposta da Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) em avançar agora, não só para o reconhecimento da carta de condução da província de Guangdong, mas com o reconhecimento de todas as licenças emitidas pela China Continental. O resultado tem sido tumultuoso e para Sulu Sou “é inevitável que se agravem as dúvidas e contestações da população quanto ao impacto no trânsito e na segurança rodoviária”. A ideia avançada pela DSAT é, no entanto, bem vista pela Direcção dos Serviços de Turismo. Para esta entidade, “caso a proposta venha a ser posta em prática vai atrair turistas mais independentes, maduros e exigentes (…). Assim, será mais uma alternativa, e ajudará os visitantes a conhecer e a desencantar locais com menos acessibili-

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dade”. Para Sulu Sou, este tipo de vantagens apresentadas têm um efeito contrário junto dos habitantes do território. “Estas palavras acabam por comprovar que as dúvidas e as críticas da sociedade não são infundadas, nem alarmistas”, diz.

FALTA ASSINAR

Por outro lado, a China Continental ainda não aderiu à Convenção de Viena sobre trânsito rodoviário, documento que “visa reforçar a consciencialização sobre a segurança rodoviária no trânsito internacional”. Para Sulu Sou o problema da segurança rodoviária local é assim fundamentado, sendo que no próprio continente a população já começa a questionar a maneira de conduzir. Aideia de reconhecimento mútuo das cartas de condução é uma questão de “conveniência” para o Governo, revela o deputado, e não se pode sequer comparar a influência que a vinda de mais carros do continente para o território com aqueles que vão de Macau para Guangdong. Sofia Margarida Mota

sofia.mota@hojemacau.com.mo


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7.11.2017 terça-feira

Aviso Candidatura dos Prémios de Ciências e da Tecnologia da RAEM para 2018

NOTIFICAÇÃO EDITAL

N.° 93 / 2017 (Solicitação de comparência de empregador) Nos termos das alíneas b) e c) do n.° 1 do artigo 6.° do Regulamento da Inspecção do Trabalho, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 60/89/M, de 18 de Setembro, conjugadas com o artigo 58.° e o n.° 2 do artigo 72.° do “Código do Procedimento Administrativo”, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 57/99/M, fica o empregador Chao Fan, notificada para no prazo de 15 (quinze) dias a contar do dia seguinte ao da publicação da presente notificação edital, comparecer no Departamento de Inspecção do Trabalho (DIT) da Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais, sito na Avenida do Dr. Francisco Vieira Machado, n.ºs 221-279, Edifício “Advance Plaza”, 1.° andar, a fim de prestar declarações relativas ao processo n.° 1963/2017, que foi instaurado devido à queixa apresentada nestes Serviços pelos trabalhadores Leong Weng Kuai e Cheong Meng Chu, em 15 de Agosto de 2017, relativa às matérias de salários e compensação do trabalho extraordinário. O Chefe do Departamento de Inspecção do Trabalho, substituto Lai Kin Lon 1 de Novembro de 2017

Assine-o TELEFONE 28752401 | FAX 28752405 E-MAIL info@hojemacau.com.mo

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Nos termo do Regulamento Administrativo n.º 6/2011 que aprova o Regulamento dos Prémios para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia, ficando assim, notificados os candidatos de que poderão candidatarse através da seguinte forma: (1.) Objectivo Premiar as personalidades que contribuam para as actividades no âmbito da ciência e tecnologia em Macau, no sentido de estimular o espírito de iniciativa e criatividade dos investigadores científicos e tecnológicos locais, em benefício de um desenvolvimento científico e tecnológico mais acelerado em Macau. (2.) Categoria São criados na RAEM os seguintes prémios: (i) Prémios de ciência e tecnologia, que compreendem: Prémio de Ciências da Natureza, Prémio de Invenção Tecnológica, Prémio de Progresso Científico e Tecnológico; (ii) Prémio de Investigação Científica e Desenvolvimento Tecnológico para Pós-Graduados; (iii) Prémio Especial. (3.) Montante dos Prémios (Unidade: Dez milhares de patacas) Montante a atribuir pela recepção do Prémio Montante a atribuir pela recepção dos prémios de ciência e de Investigação Científica e Desenvolvimento tecnologia e prémios especiais Tecnológico para Pós-Graduados Primeiro Segundo Terceiro Doutorandos Mestrandos lugar lugar lugar Prémio de Ciências da 100 60 40 Natureza Prémio de Invenção 100 60 40 8 6 Tecnológica Prémio de Progresso 50 30 20 Científico e Tecnológico 4.) Qualificação da candidatura (I) Prémios de ciência e tecnologia; Os residentes de Macau ou aqueles que obtenham autorização de trabalho ou que estejam a frequentar cursos em Macau podem candidatar-se aos prémios de ciência e tecnologia, desde que estejam preenchidas as seguintes condições: (i) Tenham prestado serviço a tempo inteiro ou frequentado cursos em instituição local por período igual ou superior a um ano; (ii) Parte essencial do projecto de investigação científica ou desenvolvimento tecnológico tenha tido lugar e sido concluído na RAEM, com resultados relevantes; e (iii) Caso se trate de projectos de investigação científica ou desenvolvimento tecnológico realizados em conjunto com académicos do exterior da RAEM, o candidato deve ser o agente principal do projecto em causa. (II) Os mestrandos ou doutorandos que estejam a frequentar as instituições locais de ensino superior ou os que obtenham o seu grau académico no período de um ano até à data da publicação do aviso do concurso para os prémios podem, sob recomendação da instituição de ensino superior a que pertencem, candidatar-se ao Prémio de Investigação Científica e Desenvolvimento Tecnológico para Pós-Graduados, desde que durante a frequência de cursos, tenham participado continuamente em actividades de investigação científica no âmbito das ciências da Natureza, tecnologia ou engenharia por período igual ou superior a um ano. (III) A atribuir pela RAEM a personalidades ou instituições locais que recebam o Prémio Nacional de Ciências da Natureza, o Prémio Nacional de Invenção Tecnológica ou o Prémio Nacional de Progresso Científico e Tecnológico. As condições específicas de cada prémio podem ser consultadas no website do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia. (http://www.fdct.gov.mo/tc/award.asp) (5.) Forma da candidatura Os interessados deverão registrar uma conta do FDCT, enviar o pedido pela via electrónica após o devido preenchimento conforme o definido nas instruções e ainda entregar o pedido, após imprimido, ao FDCT para efeitos de confirmação. (6.) Critérios de Avaliação Por Regulamento Administrativo n.º 6/2011, processa o Regulamento dos Prémios para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia. (7.) Data do requerimento Entrega o pedido através da via electrónica do FDCT: De 6/Nov./2017 até 31/Jan./2018; Todos os documentos papeis do pedido devem ser entregar ao FDCT antes do dia de 9/Fev./2018. (8.) Consulta Endereço: Av. do Infante D. Henrique, Nº 43-53A, Edf. “The Macau Square” 11º K. Telefone: 28788777; Fax: 28722681 Correio electrónico: sedc@fdct.gov.mo O Presidente do Conselho de Administração do Fundo para o Desenvolvimento das Ciências e da Tecnologia Ma Chi Ngai, Frederico 27 de 10 de 2017


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terça-feira 7.11.2017

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EQUIM não autoriza o Governo de Macau a implementar eleições por sufrágio directo para constituição dos órgãos municipais sem poder político. A revelação foi feita, ontem, pelo número dois do Gabinete Jurídico do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, Zhang Rongshun, ao canal chinês da Rádio Macau. De acordo com a lógica do governante do Interior da China, caso os órgãos municipais fossem eleitos por sufrágio directo, passariam a deter um poder executivo, à semelhança do que aconteceu durante o tempo da Administração Portuguesa. Zhang disse ainda que se houvesse sufrágio directo, estava a ser ultrapassado o grau de autonomia autorizado pelo Governo Central para a criação do futuro órgão municipal. Em declarações à Ou Mun Tin Toi, o dirigente chinês admitiu também que a criação dos órgãos municipais em Macau foi sucessivamente adiada, uma vez que houve várias visões em cima da mesa. Zhang frisou que o Governo de Macau avançou com a proposta actual, depois de uma “profunda análise”.

Zhang disse ainda que se houvesse sufrágio directo, estava a ser ultrapassado o grau de autonomia autorizado pelo Governo Central para a criação do futuro órgão municipal

ÓRGÃOS MUNICIAIS GOVERNO CENTRAL NÃO AUTORIZA SUFRÁGIO DIRECTO

Ventos do norte

A nomeação pelo Chefe do Executivo dos membros dos órgãos municipais e a consulta pública foi ontem alvo de críticas na AL, mas o número dois do Gabinete Jurídico do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional veio a público explicar que o Governo Central não autoriza eleições por sufrágio directo

POLÉMICA NO HEMICICLO

No entanto, a proposta actual, que coloca o Chefe do Executivo a nomear os responsáveis pelos futuros órgãos municipais, está longe de gerar consenso. Na sessão de ontem na Assembleia Legislativa foram vários os deputados que abordaram os diferentes assuntos relacionados com a proposta. Agnes Lam foi a primeira a apontar ao método escolhido para a selecção dos membros dos órgãos: “O Governo pretende nomear, através da designação do Chefe do Exe-

cutivo, todos os membros deste órgão, com a razão de ser ‘sem poder político’, e esta decisão derivou numa intensa oposição no seio da sociedade”, começou por dizer a deputada. A académica sublinhou que há vozes na sociedade que sentem que com este método a “participação dos

cidadãos” vai ser colocada em causa e as nomeações vão ser vistas como uma “recompensa política”. Agnes pediu também ao Executivo liderado por Chui Sai On que esclareça do ponto de visto jurídico os cidadãos e que inicie uma segunda consulta sobre este tema.

Ao contrário do que é habitual, também Ma Chi Seng, deputado nomeado pelo Chefe do Executivo, alertou para a forma como a consulta pública está a ser realizada: “o Governo deve disponibilizar mais informações e um melhor esclarecimento, para haver consenso e alcançar o reconhecimento

TEMPO PARCIAL MAIS HORAS PARA TRABALHO PRECÁRIO

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deputado Chan Chak Mo quer que o limite de horas que define o trabalho a tempo parcial seja mais alargado. Para o também presidente da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau, as 72 horas que figuram no documento em consulta pública, relativo ao regime de trabalho a tempo par-

cial, não é suficiente. Para Chan Chak Mo, o part-time que em quatro semanas preencha até às 72 horas “não é suficiente para alguns sectores”. As restantes diposições previstas pelo diploma são positivas, referiu o deputado ao canal chinês da rádio Macau. O documento sugere que os funcionários não tenham direito a férias anuais

nem paguem contribuições para a segurança social. Para o também empresário na área da restauração, tratam-se de condições justas até porque, “os trabalhadores a tempo parcial do sector têm um ordenado por hora mais elevado do que os que trabalham a tempo inteiro”, pelo que, considera, têm dinheiro para compensar a falta de benefícios.

da população”, afirmou o membro da família Ma.

DEFESA ACADÉMICA

Se por um lado houve críticas à actuação do Governo, por outro, houve quem tentasse explicar a visão do Executivo, à base de uma comparação entre Macau e Hong Kong. O deputado

em causa foi Iau Teng Pio, nomeado por Chui Sai On, e especialista em Direito. “Existem diferenças relativamente grandes no âmbito da natureza jurídica e do estatuto entre as organizações distritais de Hong Kong e os órgãos municipais de Macau; bem como diferenças quanto à relação jurídica entre as organizações distritais e o Governo de Hong Kong e entre a dos órgãos municipais e o Governo de Macau”, apontou o académico. “Verificam-se diferenças, especialmente, entre o que está definido no artigo 95.º da Lei Básica de Macau, quanto à natureza da relação jurídica e da incumbência [ndr. nomeação] pelo Governo dos órgãos municipais de Macau, e o artigo 97.º da Lei Básica de Hong Kong”, acrescentou. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

Hino nacional Mak Soi Kun declara guerra aos telemóveis O deputado Mak Soi Kun está preocupado com os jovens que diz estarem muitas vezes a olhar para o telemóvel ou a rir quando está a ser ouvido o hino nacional e propõe que o Executivo reforce a educação cívica. “Pode verificar-se que, durante a sua execução [do hino], muitos participantes estão só atentos aos telemóveis, a tirar fotos, a conversar e a rir, descurando a solenidade”, disse o deputado, ontem no Assembleia Legislativa. “Proponho então ao Governo que, para além de envidar esforços para se articular com o Estado, ao nível da revisão da Lei do hino nacional, que reforce a educação cívica”, frisou. Segundo o membro da Assembleia Legislativa, esta alteração vai permitir criar um ambiente em Macau “favorável à promoção do patriotismo e do amor pelo Estado”.


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7.11.2017 terça-feira

GRANDE PRÉMIO EX-CANDIDATO ÀS ELEIÇÕES DEIXA ALERTAS DE SEGURANÇA

O perigo mora aqui

Num comunicado publicado na imprensa chinesa, Kot Man Kam, ex-candidato às eleições legislativas e presidente da Associação Estudos Sintético Social de Macau, apresentou algumas sugestões sobre o trânsito, alertando para os perigos de segurança na zona do Porto Interior a lista Poderes do Pensamento Político, sugere que os autocarros de turismo possam estacionar na zona destinada aos autocarros de turismo localizada junto ao Reservatório, ao lado do casino Oceanus.

Ainda assim, Kot Man Kam acredita que são necessários agentes da Polícia de Segurança Pública para garantir a segurança e uma circulação fluída do trânsito. O responsável espera que os responsáveis da Direcção dos

Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) possam dar atenção às referidas sugestões, para que exista uma maior área para a tomada e largada de passageiros, além de uma melhor circulação dos autocarros. HM

DSAT

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presidente da Associação de Estudos Sintético Social de Macau, Kot Man Kam, apresentou, ontem, um estudo que aponta sugestões capazes de resolver os problemas ligados ao trânsito na zona do Terminal Marítimo de Passageiros do Porto Exterior, área que se encontra com a circulação condicionada devido à realização de mais uma edição do Grande Prémio. Devido aos estragos provocados pela passagem do tufão Hato, o parque de estacionamento do Terminal Marítimo de Passageiros do Porto Exterior ficou fechado ao público. O ex-candidato às eleições legislativas entende, por isso, que a realização do Grande Prémio de Macau traz alguns inconvenientes sobre a circulação do trânsito, uma vez que a colocação de vedações vai condicionar não só o trânsito como o estacionamento dos autocarros turísticos. Após uma visita in loco ao local, Kot Man Kam alerta para a existência de uma área diminuta para a tomada e largada de passageiros dos autocarros, gerando-se longas filas no local. O presidente da Associação de Estudos Sintético Social de Macau considera ainda que a segurança das pessoas também está em causa, porque estas vêem-se obrigados a circular na estrada.

Lao Ngai Leong continua a ser o presidente da Associação Geral dos Chineses Ultramarinos de Macau, Wong Pan Seng e Lao Nga Wong foram também eleitos para os lugares dirigentes. As eleições para a associação tiveram lugar ontem e elegeram a 17ª direcção. O presidente, no discurso de reeleição, aproveitou a ocasião para recordar o trabalho que a entidade tem vindo a fazer desde a sua constituição há 50 anos, sendo que, actualmente, “a associação tem como prioridade os trabalhos ligados à política “Uma Faixa, Uma Rota” e à Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. O presidente revelou ainda que a nova equipa da direcção da associação tem em conta as várias faixas etárias, e orgulha-se de ver “a entrada de jovens chineses para a associação”.

Na carta publicada na imprensa chinesa, Kot Man Kam, que concorreu às eleições legislativas com

Óbito Morreu o Padre Gaetano Nicosia

FM UNIVERSIDADE DA CIDADE DE MACAU NO TOPO DA LISTA DE APOIOS publicação dos apoios prestados pela Fundação Macau revela que a Fundação da Universidade da Cidade de Macau recebeu 45 milhões de patacas, para custear estudos e publicações académicas, assim como financiar equipamentos e subsídios a estudantes. Esta verba representa mais de 10 por cento do bolo total que ascende a mais de 337 milhões de patacas. O montante atribuído à Universidade da Cidade de Macau é referente à

Entre Julho e Setembro de 2017 foram dissolvidas 160 sociedades, com um capital social de 33 milhões de patacas, de acordo com informação dos Serviços de Estatística e Censos. Em contrapartida foram constituídas 1250 sociedades, ou seja, mais 163 em comparação com mesmo trimestre do ano transacto. Esta subida foi empurrada pelo dinamismo do sector do comércio por grosso e retalho que subiram 122. O capital social das sociedades formadas cifrou-se em 116 milhões de patacas, tendo diminuído 6,4 por cento em termos anuais, realçando-se que o capital social das sociedades constituídas no ramo dos serviços prestados às empresas (17 milhões de patacas) desceu 5,3 por cento. Em termos de ramos de actividade económica, salienta-se que se constituíram 486 sociedades de comércio por grosso e a retalho, 257 sociedades de serviços prestados às empresas e 179 sociedades de construção.

Eleição Associação de Chineses Ultramarinos mantém direcção

JUNTO AO RESERVATÓRIO

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Economia Mais de mil sociedades criadas até Setembro

segunda prestação do ano lectivo 2016/2017 e à última prestação do ano lectivo de 2014/2015. Outro dos habituais grandes contemplado pelos apoios da Fundação Macau é a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, que conseguiu uma verba de 11 milhões de patacas para aquisição de equipamentos clínicos e informáticos e obras de remodelação do hospital. O Centro de Estudos Permanentes Pós-laboral foi financiado em

4,8 milhões de patacas para pagar o plano anual de 2017 do iCentre. No capítulo das associações, a FAOM recebeu uma verba de 20 milhões de patacas referente ao plano anual deste ano para financiar as 26 instituições e 47 filiais dos operários. Aos Kaifong foram atribuídas 16 milhões patacas, enquanto a Aliança de Povo de Instituição de Macau recebeu 21 milhões de patacas. À Associação Geral dos Conterrâneos de Fukien de Macau

foram atribuídas 10 milhões de patacas para custear as despesas do plano de actividades deste ano. Enquanto que à Associação Geral das Mulheres de Macau foram entregues 12 milhões de patacas. A Fundação da Escola Portuguesa de Macau recebeu 10 milhões de patacas para financiar o presente ano lectivo. Já a ANIMA recebeu 1,75 milhões de patacas. À APOMAC foram atribuídos 2,025 milhões de patacas. J.L.

O Padre Gaetano Nicosia morreu ontem, por volta das cinco da tarde, com 102 anos, de acordo com um comunicado do Instituto Salesiano. Apesar de ter nascido na Catânia, em Itália, a 3 de Abril de 1915, Nicosia marcou o território, onde chegou, em 1963, à vila de Ká-hó, para cuidar dos pacientes que sofriam de lepra. Esta foi uma tarefa que Nicosia desempenhou até 1980, sem nunca ter sido afectado pela doença. Foi também em Coloane, já no ano de 1984, que o mesmo padre foi responsável pela fundação da Escola Dom Luis Versiglia. Gaetano Nicosia acabaria por ficar em Macau até 2011, altura em que se mudou para Hong Kong.


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terça-feira 7.11.2017

INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL KIANG WU AGUARDA AUTORIZAÇÃO OFICIAL

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Hospital Kiang Wu está a aguardar autorização do Governo para que possa dar início ao serviço de procriação medicamente assistida. De acordo com as declarações do Jornal do Cidadão o director da instituição, Ma Hok Cheung, já deu seguimento ao pedido e espera agora a devido deferimento. Ma Hok Cheung disse ainda que a intenção é ter em conta a legislação local de modo a satisfazer todos os requisitos exigidos por parte do Executivo. As obras para a construção do centro de serviços da procriação medicamente assistida situado no edifício dos especializados de Kiang Wu já estão em andamento e a entidade já tem especialistas na área da embriologia para que o serviço possa ser assegurado. De acordo com a mesma fonte, Chan Tai Ip, vice-director do Kiang Wu, adiantou que o centro especializado pode mesmo estar concluído no próximo mês de Maio. Apesar do desconhecimento, por ora, da resposta oficial, Chan Tai Ip está confiante na nova valência do hospital e na sua eficácia tanto no que respeita aos profissionais que nele vão trabalhar como aos equipamentos a serem utilizados. Relativamente aos serviços no futuro centro da procriação medicamente assistida, que são destinados principalmente aos residentes de Macau, vão englobar a inseminação artificial de bebés-proveta, não considerando para já o serviço de maternidade de substituição.

LAG Wong Sio Chak visitou associações tradicionais

O secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, visitou ontem as associações tradicionais Aliança de Povo de Instituição de Macau, a Associação Geral dos Chineses Ultramarinos de Macau, a União Geral das Associações dos Moradores de Macau e a Federação das Associações dos Operários de Macau. O objectivo das visitas passou pela recolha de opiniões no âmbito das Linhas de Acção Governativa. Às diferentes associações, Wong Sio Chak explicou que já foram tomadas medidas de curto prazo para lidar com situações de catástrofe, semelhantes às do tufão Hato.

PME GOVERNO APONTA GESTÃO MODERNA PARA ULTRAPASSAR DESAFIOS

Mais produção, menos rendas

O director da Direcção de Serviços de Economia diz que o Executivo está atento ao possível aumento das rendas e promete um Governo a trabalhar para ajudar as pequenas e médias empresas a ultrapassarem esses obstáculos

A cerimónia de lançamento do grupo de trabalho decorreu ontem com a assinatura do protocolo entre a Direcção de Serviços de Economia e a Associação Macau Chain Stores and Franchise. “O nosso objectivo nesta primeira fase passa por fazer um inventário das lojas antigas que podem e pretendem ser classificadas. Depois vamos lançar uma série de medidas de apoio a estes estabelecimentos comerciais. No entanto, as medidas de apoio ainda estão a ser estudadas”, afirmou Tai Kin Ip. Por agora, o Governo ainda está a trabalhar para definir os critérios que vão ser utilizados na classificação. Esta é uma tarefa em que a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (MUST) também vai auxiliar.

ORÇAMENTO DE 800 MIL

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Governo aposta em criar condições para que as pequenas e médias empresas possam ser mais competitivas e, dessa forma, ultrapassar a questão dos elevados custos das rendas. A estratégia foi apontada, ontem, pelo director da Direcção de Serviços de Economia (DSE), Tai Kin Ip, quando questionado sobre os efeitos do crescimento do jogo. “O Governo está atento e acompanha de perto o andamento da economia e os efeitos que podem recair sobre as pequenas e médias empresas. Os custos com as rendas também acontecem em outros locais e zonas com elevado nível de vida. Mas as empresas desses locais conseguem sobreviver porque apostam

no aumento da produtividade”, disse Tai Kin Ip. “Temos a responsabilidade como Governo de criar as condições e apoiar as pequenas e médias empresas para que

Estas parcerias vão ter um custo de 800 mil patacas, na primeira fase, sendo que cerca de 500 mil patacas são para o Centro de Serviços, montado em cooperação com a federação presidida por Si Ka Lon

possam aperfeiçoar as respectivas técnicas de produção ou as estratégias de marketing e gestão da empresa”, acrescentou. O director da DSE sublinhou igualmente que mesmo entre os negócios familiares existe uma maior tendência para que haja uma gestão mais moderna e corporativa, ao invés da gestão tradicional familiar. No que diz respeito aos negócios tradicionais de Macau, o Executivo lançou ontem o “Grupo de Apoio a Lojas Antigas Típicas” com o objectivo de ajudar este tipo de negócios a modernizar-se e expandir as operações. No futuro, os estabelecimentos comerciais que forem classificados “lojas antigas típicas” vão receber apoios do Executivo.

Na mesma cerimónia, a DSE assinou com Federação da Indústria de Comércio de Guangdong e Macau, presidida pelo deputado Si Ka Lon, uma parceria para a criação de um “Centro de Serviços de Orientação para o registo dos Assuntos Comerciais no Interior da China”. Estas são políticas que fazem parte do Plano Quinquenal definido pelo Executivo para o desenvolvimento da região e têm como objectivo aprofundar a integração de Macau no Interior do Continente e facilitar a entrada das empresas locais na Ilha da Montanha. O centro em questão está situado no edifício China Civil Plaza e entrou em funcionamento ontem. “Queremos que as empresas de Macau acompanhem o desenvolvimento e também sejam beneficiadas com a criação da Grande Baía. Com estes serviços poupa-se muito trabalho em burocracias para a entrada no mercado da Ilha da Montanha”, explicou Si Ka Lon, na condição de presidente da Federação da Indústria de Comércio de Guangdong e Macau. De acordo com a informação avançada por Tai Kin Ip estas parcerias vão ter um custo de 800 mil patacas, na primeira fase, sendo que cerca de 500 mil patacas são para o Centro de Serviços, montado em cooperação com a federação presidida por Si Ka Lon. João Santos Filipe

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7.11.2017 terça-feira

COMÉDIA EDUARDO MADEIRA NO D. PEDRO V ESTE SÁBADO

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O próximo dia 11 de Novembro, sábado, pelas 20h, o humorista Eduardo Madeira apresenta ao público de Macau um espectáculo onde alia stand-up comedy e música. O comediante chega ao território no âmbito de uma série de espectáculos de comédia organizada pelo IPOR e que contará com outros nomes como Pedro Tochas, Jorge Serafim e João Seabra. Eduardo Madeira é uma cara sobejamente conhecida da televisão portuguesa. Começou a sua carreira como argumentista nas Produções Fictícias, tendo sido autor e co-autor de programas como “Herman Enciclopédia”, “Contra Informação”, “Conversa da Treta” e “Notícias em Segunda Mão”. Ainda no campo da escrita, Eduardo Madeira escreveu

o argumento dos filmes “O Lampião da Estrela”, “Filme da Treta”, e protagonizou a comédia “Mau Mau Maria”, ao lado de Marco Horácio e Marta Gomes. Eduardo Madeira foi um dos pioneiros de stand-up comedy em Portugal, fez parte do grupo da Casa da Comédia, participou no programa Levanta-te e Ri e foi membro da bem humorada banda Cebola Mol, juntamente com Filipe Homem Fonseca. Os apreciadores da comédia em português que não queiram perder o espectáculo de Eduardo Madeira devem apressar-se a adquirir os bilhetes no IPOR. O evento conta com o apoio do Instituto Cultural, o Consulado-Geral de Portugal e a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau. J.L

O espírito dos t EXPOSIÇÃO SALÃO DE OUTONO MARCA A ESTAÇÃO ARTÍSTICA NA CASA GARDEN

Todos os anos, o Salão de Outono apresenta trabalhos de artistas locais e a jovem. O HM falou com a curadora e criadora Alice Kok que desvendou o da época e o que distingue a exposição deste ano

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A estação das folhas caídas, e seguindo uma tradição parisiense, a Casa Garden é anfitriã, mais uma vez, do Salão de Outono. A oitava edição da mostra que promove as mais

recentes tendências artísticas dos criadores de Macau está patente ao público com cerca de seis dezenas de trabalhos de 30 artistas. Após a inauguração, que ocorreu no passado fim-de-semana, foi entregue o

Prémio de Artes da Fundação Oriente que distingue jovens artistas, dos 18 aos 35 anos. Este ano a distinção foi para Tang Kuok Ho, com a fotografia “Scenery of Night”, um trabalho que se debruça sobre manifestações culturais

em torno do consumo e do comportamento humano. Tang Kuok Ho terá como prémio a oportunidade de visitar e expor em Portugal, além de receber 50 mil patacas. Foram também distinguidos com menções honrosas Chan

LAGINHA E BURMESTER NA AMÉRICA LATINA

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S pianistas Mário Laginha e Pedro Burmester rumam esta semana àAmérica Latina, para actuarem no Uruguai, na Argentina e no Brasil, foi ontem anunciado. Na quarta-feira, os dois músicos estarão no Festival de Jazz de Montevideo, no Uruguai, e no sábado na Usina del Arte, em Buenos Aires, Argentina. Na próxima segunda-feira tocam no Teatro Bradesco, em Belo Horizonte, no Brasil. Nestes concertos, os pianistas recuperam um repertório que têm interpretado em conjunto, com obras de Aaron Copland, Astor Piazolla, Fréderic Chopin, Claude Debussy, Maurice Ravel e do próprio Laginha. Para 2018, os dois pianistas prometem um novo

espectáculo conjunto, com repertório renovado. Pedro Burmester, 54 anos, e Mário Laginha, 57 anos, têm formação musical clássica, mas fizeram caminhos diferentes ao piano, com Burmester virado para o repertório clássico e Laginha focado no jazz. Em 1994, editaram o álbum “Duetos”, com o qual fizeram uma digressão nacional e internacional, e mais de uma década depois voltaram a juntar-se para o projecto 3Pianos, juntamente com o pianista Bernardo Sassetti. A 14 de Janeiro Mário Laginha e Pedro Burmester apresentam-se no Grande Auditório da Gulbenkian, em Lisboa, e a 4 de Fevereiro na Casa da Música, no Porto.

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA QUEM FOI / QUEM É JESUS CRISTO? • Anselmo Borges Nesta obra é investigada a possibilidade de uma biografia de Jesus, reflecte-se sobre a relação deste com o dinheiro, a política, a Igreja, as religiões, as mulheres. Pela abrangência de temas abordados, a competência científica dos autores, a actualidade e honestidade da investigação, a força do confronto entre a fé e o mundo contemporâneo em crise global, esta é seguramente a obra mais importante sobre Jesus publicada em Portugal.

RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

O NÚMERO DE OURO - A HISTÓRIA DE FI, O NÚMERO MAIS ASSOMBROSO DO MUNDO • Mario Livio Neste livro fascinante, Mario Livio conta a história do número fi. A curiosa relação matemática, geralmente conhecida como «número de ouro», foi definida por Euclides há mais de dois mil anos devido ao papel crucial que desempenha na construção do pentagrama, a que se atribuíam propriedades mágicas. Desde então, surgiu nos sítios mais espantosos: em conchas de moluscos, girassóis, cristais de certos materiais e formas de galáxias. Há quem diga que os criadores das Pirâmides e do Parténon a empregaram e crê-se que esteja presente nos quadros Mona Lisa de Leonardo da Vinci e O Sacramento da Última Ceia de Salvador Dalí, além de estar supostamente relacionada com o comportamento das bolsas.


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tempos

atribui um prémio ao melhor criador os mais apetecíveis frutos artísticos On Kei, com um trabalho de cerâmica intitulado “Bite”, assim como para Season Lao com a trabalho fotográfico “Yubari, Hokkaido, Japan”. A curadora e artista Alice Kok entende que as novidades do 8º Salão de Outono “são as próprias obras”, algo que decorre das regras de selecção que prevêem a entrega de trabalhos com menos de dois anos. Em relação aos meios utilizados, a curadora destaca que além dos meios artísticos mais clássicos, como a pintura, PUB

fotografia, escultura, o Salão de Outono deste ano contará com elementos de vídeo, instalações de luz e electrónicas. “Esta exposição é um pouco diferente das outras que fazemos na AFA, quisemos ser o mais abertos possíveis, uma vez que o espírito do salão é apresentar ao público aquilo que está realmente a acontecer na cena artística de Macau”, conta.

CRIAR MERCADO

Com uma década feita, a AFA tem acompanhado o percurso

de muitos artistas locais. “Temos sempre em consideração o progresso dos criadores, mas também queremos estimular os estudantes de arte que ainda não tenham atingindo o grau de maturidade dos artistas já estabelecidos”, explica Alice Kok. Durante a montagem da exposição, a curadora foi surpreendida pelo trabalho de Ieng Man Hin. As obras submetidas pelo jovem, que se encontra a tirar um mestrado em artes em Taiwan, tiveram impacto em Alice Kok, que até à montagem da exposição só ainda tinha visto fotografias dos quadros. As obras de Ieng Man Hin têm como base a pesquisa que faz sobre minerais naturais que usa para se expressar em tela. Um dos quadros que expôs na Casa Garden, e que vendeu de imediato, foi um “retrato de um rinoceronte pintado com minerais contra um fundo negro, muito colorido mas também subtil”, conta a curadora. Aideia para exposição partiu do “Salon de Paris”, um marco artístico da capital francesa que apresentava os trabalhos das Belas Artes parisienses desde o século XVII. Por cá, o Salão

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terça-feira 7.11.2017

“Esta exposição é um pouco diferente das outras que fazemos na AFA, quisemos ser o mais abertos possíveis, uma vez que o espírito do salão é apresentar ao público aquilo que está realmente a acontecer na cena artística de Macau.” ALICE KOK CURADORA

de Outono pretende “mostrar ao público a cena artística actual de Macau e os seus trabalhos mais recentes”. Noutro aspecto, a exposição pretende também promover um mercado cultural com pouca vivacidade. “O salão tem também como objectivo fazer com que

os artistas cheguem ao público e que vendam, que possam viver da arte, algo que ainda não foi conseguido mesmo no panorama mundial”, explica Alice Kok. A curadora explica que ao longo de uma década desde a fundação da AFA que testemunhou uma grande mudança na forma como as pessoas encaram a arte contemporânea em Macau. “Há dez anos não havia um mercado de arte estabelecido”, recorda. Para já, a curadora espera que a possibilidade de comprar uma obra de arte saia da esfera das elites económicas, tornando o trabalho artístico como mais um artigo de luxo. Para Alice Kok, estes eventos oferecem a oportunidade de comprar uma peça a um preço razoável, de forma a que sejam apreciadas como objectos que elevam o espírito, em vez de instrumentos de elevação de estatuto. A exposição do Salão de Outono está patente ao público na Casa Garden, entre as 10 e as 17 horas, excepto à segunda-feira e feriados. João Luz

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MAM “A Linguagem e a Arte de Xu Bing” em exposição

O Museu de Arte de Macau (MAM) recebe amanhã a inauguração da exposição “A Linguagem e a Arte de Xu Bing”, que marca os trinta anos da carreira do artista. Com um percurso marcado pela hibridização, multiplicidade e investigação, a expressão escrita tem sido um fio condutor da criação de Xu Bing. A exposição mostra o caminho do artista, as suas experiências de produção e esboços revelando a lógica e o raciocínio com que aborda a criação das suas obras. Esta exposição é considerada a “magnum opus” do artista e é a materialização de mais de três décadas de actividade criativa. Um dos destaques é a “Viola Chinesa”, uma obra comissionada pelo Museu de Arte de Macau. A inauguração está marcada para amanhã, às 18h30, no 2º andar do MAM.


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7.11.2017 terça-feira

PYONGYANG PEQUIM ENTRE INTERESSES ECONÓMICOS E IDEOLÓGICOS

ESPAÇO MAIS DOIS SATÉLITES NO SISTEMA DE NAVEGAÇÃO

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China acrescentou dois satélites à sua rede global de navegação e localização, que visa reduzir a dependência no sistema norte-americano GPS (Global Positioning System), informou ontem a imprensa estatal. Os satélites Beidou-3 foram lançados no domingo, a bordo do mesmo foguete, o Longa Marcha-3B, do centro de lançamentos Xichang, na província de Sichuan, segundo a imprensa local. A China planeia completar, até 2020, uma rede a ligar mais de 30 satélites para proporcionar um sistema global de informação geo-espacial em tempo real. O sistema começou a funcionar na China continental, em 2000, e passou a cobrir a região da Ásia Pacifico, em 2012. Os satélites Beidou-3 representam uma actualização, com mais precisão e maior capacidade de comunicar com outros sistemas de navegação por satélite. A rede servirá eventualmente para monitorar e fornecer informação sobre segurança ao longo da Nova Rota da Seda, o gigantesco projecto de infra-estruturas lançado por Pequim para ligar a China à Ásia Central, Europa e África. Para além dos Estados Unidos, também a Rússia e a União Europeia têm já sistemas de navegação com alcance global, através do GLONASS e o Galileo, respectivamente.

O grande “dilema”

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professor chinês de Relações Internacionais Wang Li considera que a questão nuclear norte-coreana coloca a China perante um “dilema”, apontando as divergências entre os interesses económicos, ideológicos e de segurança de Pequim. “Da nossa perspectiva geopolítica, não seria inteligente abandonar um país vizinho, cuja economia e segurança dependem da China, e que se opõe aos Estados Unidos”, diz Wang à agência Lusa. Formado em Ciência Política pela universidade inglesa de Aberdeen, Wang Li dá aulas na Universidade de Jilin, província chinesa situada junto à fronteira com a Coreia do Norte. Apesar do distanciamento dos últimos anos, Pequim continua a ser o principal aliado diplomático e maior parceiro comercial do regime de Kim Jong-un. Nos anos 1950, os dois países lutaram juntos contra os EUA. No entanto, volvidas quase três décadas, o Partido Comunista Chinês desistiu de “aprofundar a luta de classes” e escolheu o desenvolvimento económico como “tarefa central”. “A China quer desenvolver-se, precisa do mundo exterior, de estar envolvida na globalização. Não se pode isolar por razões ideológicas. Por isso, a China é o maior parceiro comercial da Coreia do Sul e ao mesmo tempo um dos poucos grandes países que apoia a Coreia do Norte”, afirma Wang. No caso norte-coreano, o “dilema” chinês parece reflectir os contrastes internos do país. A China é hoje a segunda maior economia mundial e

ma o professor, que cresceu durante o reinado de Mao, o fundador da República Popular.

NÃO HÁ MISTURAS

Na Universidade de Jilin, estudam 26 estudantes norte-coreanos, cujos hábitos parecem ilustrar o carácter hermético do seu país de origem. “Os estudantes norte-coreanos têm a sua própria comunidade, o seu próprio líder da organização estudantil. Não se envolvem nas actividades dos outros estudantes estrangeiros. São muito bem organizados e sujeitos a um controlo rigoroso”, descreve Wang Li.

“A China quer desenvolver-se, precisa do mundo exterior, de estar envolvida na globalização. Não se pode isolar por razões ideológicas. Por isso, a China é o maior parceiro comercial da Coreia do Sul e ao mesmo tempo um dos poucos grandes países que apoia a Coreia do Norte.” WANG LI PROFESSOR DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

principal potência comercial do planeta, mas o “papel dirigente” do Partido Comunista continua a ser um “princípio cardinal” e, em teoria, o país é governado sob a égide da doutrina marxista-leninista, tornando Pyongyang no seu único aliado ideológico no nordeste asiático.

Trump Comércio com China deve ser “justo” e “recíproco”

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ontem que o comércio entre o seu país e a China deve ser “justo” e “recíproco”, depois de “durante décadas as relações comerciais terem sido muito injustas. Trump falava numa conferência de imprensa, em Tóquio, ao lado do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, na sua primeira paragem de um périplo pela Ásia que inclui a China. “O nosso défice comercial é massivo, de centenas de milhões de dólares por ano. Isto deve reduzir-se”, afirmou Trump.

E apesar de, em muitos aspectos, as economias chinesa e norte-americana serem complementares, historicamente Washington sempre foi antagónico a regimes comunistas, lembra Wang Li. “Por isso, China e Coreia do Norte são próximas:

partilham questões de segurança”, afirma. Sob a direcção de Kim Jong-un, Pyongyang efectuou três testes nucleares. O último, realizado em Setembro passado, foi o mais poderoso até à data, e levou o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a ameaçar, perante a Assembleia Geral da ONU, “destruir totalmente” o país. Wang Li, lembra, porém, que “a Coreia do Norte não é a Líbia nem o Iraque”. “Apesar de estes países serem bem mais ricos, os regimes comunistas são muito determinados e sabem mobilizar a população”, afir-

“Vivem no edifício para estudantes estrangeiros, mas têm um piso só para eles. Não se misturam e não falam com outras pessoas sem autorização”, acrescenta. O académico chinês diz que “o povo e o Governo norte-coreano consideram o mundo exterior uma ameaça”, um sentimento de insegurança que os leva a insistir no desenvolvimento de armamento nuclear e mísseis balísticos. “Se os EUA e a Coreia do Sul, e mesmo o Japão, dialogarem com a Coreia do Norte e garantirem a sua segurança, caso abandone o programa nuclear, acho que é possível chegar a um acordo”, defende Wang. “A questão é que, neste momento, os norte-coreanos não confiam em ninguém, nem mesmo na a China”, conclui. Lusa


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terça-feira 7.11.2017

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piloto de Macau, Leong Hon Chio, mais conhecido no meio automobilístico por Charles Leong, de apenas 15 anos, sagrou-se este ano o mais jovem campeão da história do asiático de Fórmula Renault 2.0 e como prémio teve a oportunidade de viajar até à Europa para um primeiro contacto com o automobilismo do velho continente, aquele que é mundialmente reconhecido como o mais exigente. O campeão asiático participou no teste colectivo organizado pela Renault Sport a semana passada no circuito de Barcelona. Em Espanha, Leong foi colocado num dos monolugares da equipa inglesa Mark Burdett Motorsport e fez o 31º tempo entre os trinta e seis participantes convidado pela marca francesa. O actualmente único representante de Macau em provas de fórmulas de formação admitiu que esta experiência não foi fácil dado o desconhecimento que tinha da pista catalã e da presença em pista de vários monolugares. “O Fórmula Renault é um verdadeiro carro de corridas, onde se conseguem atingir velocidades de ponta elevadas. É um excelente carro, mas esta pista foi difícil de aprender por

AUTOMOBILISMO JOVEM PILOTO DE MACAU FOI TESTAR A ESPANHA

Experiência europeia

“O Fórmula Renault é um verdadeiro carro de corridas, onde se conseguem atingir velocidades de ponta elevadas. É um excelente carro, mas esta pista foi difícil de aprender por causa do tráfego.” CHARLES LEONG PILOTO DE MACAU

causa do tráfego”, disse o jovem piloto da RAEM. Sobre os planos da próxima época, Charles mantém o discurso contido, até porque tudo dependerá dos apoios que consiga reunir. “Vamos ver como corre este Inverno, mas espero conseguir competir na Eurocup (Fórmula Renault 2.0) no próximo ano”.

Leong aproveitou a estadia na Europa para visitar as fábricas de Fórmula 1 da Renault e Force India e estabelecer contactos a pensar no futuro.

CAMPEÃO CHINÊS DE F4

Antes do périplo europeu, o aluno da Escola Internacional de Macau festejou mais outro

Iury Sousa redentor

Selecção de futebol sub-19 vence Laos e volta a sonhar com apuramento

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M golo do avançado Iury Sousa, na segunda parte, permitiu à selecção de sub-19 de Macau derrotar o Laos por 1-0. No Estádio de Hsinchu, no norte de Taiwan, o avançado local aproveitou uma distracção da defesa contrário, castigou os desperdícios laocianos, e voltou a colocar Macau na luta pelo apuramento. Com esta vitória, a selecção do território conseguiu o primeiro triunfo no Grupo H de apuramento para o Campeonato da Confederação Asiática de Futebol, após ter perdido no sábado com o Vietname por 2-0. Antes do apito inicial, o Laos era a formação teoricamente favorita por fazer parte do pote número dois no sorteio para os grupos de qualificação, enquanto Macau estava apenas no quarto pote. Por essa razão, a selecção local deixou que o Laos assumisse o controlo dos

acontecimentos, limitando-se a defender e a correr atrás da bola. No entanto, a equipa do Sudeste Asiático não conseguiu, durante a primeira parte, colocar-se em vantagem. Mesmo quando o Laos teve ocasiões em que deixou o guarda-redes U Wai Chon e a defesa em apuros, os laocianos não consegui-

ram concretizar, somando alguns desperdícios. Por outro lado, a selecção do território, sempre que conseguia, tentava sair em ataque organizado ou contra-ataque.

O CASTIGO

Foi na segunda parte que o golo de Iury Sousa surgiu. Após uma falta ofensiva no

sucesso. Para além do Campeonato Asiático de Fórmula Renault 2.0, Leong também alcançou o título de campeão da China de Fórmula 4 naquela que foi a sua participação a tempo inteiro na categoria. O piloto do território dominou a competição apoiada pelo construtor automóvel chinês Geely de fio a pavio. Com esta

conquista somou pontos para a Super-Licença da FIA, ganhou o almejado prémio monetário de 150,000 yuan e um convite para estar presente na tradicional cerimónia de entrega de prémios da Federação Internacional do Automóvel no final do ano. Sérgio Fonseca

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meio campo de Macau, aos 54 minutos, o defesa Kong Wai Fong bombeou a bola para a área do Laos. O lance não aparentava grande perigo, mas a bola passou por cima de todos os defesas, bateu no chão e sobrou para Iury Sousa, que ficou isolado. Perante o guarda-redes, o número sete de Macau encostou para o 1-0. Em vantagem, os comandados por Iong Cho Ieng mostraram grande maturidade e conseguiram aguentar o resultado até ao apito final. Com este resultado, Macau volta a entrar na luta pelo apuramento para a próxima fase, somando três pontos no grupo H, os mesmos que Taiwan. No primeiro lugar está o Vietname que ganhou à equipa da casa por 2-1. No último lugar está o Laos com duas derrotas e zero pontos. Amanhã, Macau tem encontro agendado com Taiwan às 19h00. O jogo pode ser visto na internet, através do canal do youtube da federação local, Chinese Taipei FA. J.S.F.

HM • 1ª VEZ • 7-11-17

ANÚNCIO Execução Por Indemnizações n.º

LB1-16-0071-LCT-A

Juízo Laboral

Exequente : Ministério Público da RAEM. Executada : CALI PROMOÇÃO DE JOGOS – SOCIEDADE LIMITADA, registada na Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Móveis sob o nº 39399 SO, com sede em 澳門羅理基博士大馬路 600E 號第一國際商業中心 12 樓 05 室. *** FAZ-SE SABER, que no dia 30 de Novembro de 2017, pelas 16:30, no local de Arrematação deste Tribunal e no processo acima indicado, se procederá à venda por meio de propostas em carta fechada, do seguinte bem penhorado: Automóvel Ligeiro Veículo automóvel de matrícula MM-13-56, marca TOYOTA, modelo VELLFIRE 3.5 Z-G 2 WD A/T. Valor base da venda: MOP210,000 (DUZENTAS E DEZ MIL PATACAS). *** São convidados todos os interessados na compra daquele bem a entregar à Secção Central deste Tribunal, as suas propostas, até ao dia 29 de Novembro de 2017, pelas 17:45 horas, e o preço das propostas devem ser superior ao valor acima indicado devendo o envelope da proposta, conter, a indicação de “PROPOSTA EM CARTA FECHADA” bem como o “NÚMERO DO PROCESSO LB1-16-0071-LCT-A”. No dia da abertura das propostas, podendo os proponentes assistir ao acto. Para proteger os seus interesses, antes da proposta, pode dirigir-se ao depositário para examinar o bem. É fiel depositário SR. VICTOR MANUEL AMADA UNG (Secretário JudicialAdjunto, subst.o do Serviço do Ministério Público junto do Tribunal Judicial de Base , Número de telefone de contato: 89887121), que está obrigado, durante o prazo do Edital e Anúncio, a mostrar o bem a quem pretenda examiná-lo, podendo fixar as horas em que, durante o dia, facultará a inspecção. Quaisquer titulares do direito de preferência na alienação do bem supra referido, podem, querendo, exercer o seu direito no próprio acto da abertura das propostas, se alguma for aceite, nos termos do art. 787º do C.P.C.. Tribunal Judicial de Base de R.A.E.M., aos 24 de Outubro de 2017. ***


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h

7.11.2017 terça-feira

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem

António Graça de Abreu

A Peregrinação

O

filme é mauzinho. O João Botelho tinha pepitas de ouro entre as mãos, desbaratou-as em diálogos e flashbacks inventados, fantasiosos, redundantes, tanta vez metidos a martelo. Claro que cinema é ficção mas vejam como neste filme o mais puro, simples e excelente (tão ricamente complexo!) são as falas directas tiradas do esplendor do texto da Peregrinação. Depois, todas as figuras dos companheiros de Fernão Mendes, são, deliberadamente, feias, gente nossa, títeres fedorentos e andrajosos a entoar uma bem aproveitada música do Fausto Bordalo Dias. O filme é pesado, não há alegria, uma gargalhada, o prazer de viver que existe mesmo entre ladrões e piratas, exceptuando-se uns copos de aguardente que bebem todos juntos logo a seguir a sobreviverem a um naufrágio. No entendimento de João Botelho, os piratas infelizes (era porém verdade o sofrimento a morte, quase dia a dia!) somos todos nós, antónios de Faria, miserável gente lusa de quinhentos, a roubar, a matar, a violar. Uma visão obtusa, radical, esquerdizante da nossa expansão, da nossa História. E, no entanto Fernão Mendes Pinto, no seu espantoso e admirável texto, leva-nos também pela mão a descobrir , a avançar pelo Extremo-Oriente, com o lufa-lufa dos mercadores e a azáfama das cidades, os quotidianos, a veniaga e o pícaro das situações. No que à China diz respeito, vejam-se as suas descrições de Pequim

ou da Grande Muralha, quase tudo ausente no filme. Aparece um português com uma prostituta chinesa, e Fernão Mendes Pinto a violar uma noiva chinesa, notáveis invenções de João Botelho, ou de quem o ajudou, com a originalidade de meter umas meninas chinesas, nada esbeltas mas bem despidas, no filme. Contudo, um momento brilhante desta Peregrinação cinematográfica são as palavras sábias de uma mulher chinesa endereçadas a Fernão Mendes Pinto. A recordar, a registar, a louvar. Mas repare-se, a chinesa violada é a mesma que aparece depois a dar uma lição de sabedoria ao Fernão Mendes Pinto. Isto faz algum sentido? Imagine-se a história ao contrário, uns chineses corsários de quinhentos, chegam a Setúbal. Em terra, o capitão do navio viola uma jovem e bonita noiva por-

Um filme segundo João Botelho

tuguesa. A rapariga aparece depois, meio apaixonada pelo corsário chinês, a dar uma lição de bons costumes e de cristianismo ao capitão chinês. Isto faz algum sentido? Será bom não nos cobrirmos de ridículo. O João Botelho alguma pensou que a sua Peregrinação em cinema pode passar na China, traduzida para chinês? Será vista com que olhos? O prof. Jin Guoping andou vinte anos aflito no trabalho de tradução para chinês do texto original da Peregrinação. Teve mil dificuldades. Porquê? Também porque sabia que, sem um devido enquadramento da gesta lusitana na descoberta da Ásia, era assustadora a receptividade dos textos de Fernão Mendes Pinto no mundo chinês. Prevalecia a ignorância e a xenofobia chinesa em relação aos portugueses de quinhentos. Será bom recordar o provérbio chinês: “Muitas as

O filme é pesado, não há alegria, uma gargalhada, o prazer de viver que existe mesmo entre ladrões e piratas, exceptuando-se uns copos de aguardente que bebem todos juntos logo a seguir a sobreviverem a um naufrágio. No entendimento de João Botelho, os piratas infelizes (era porém verdade o sofrimento a morte, quase dia a dia!) somos todos nós, antónios de Faria, miserável gente lusa de quinhentos, a roubar, a matar, a violar

ervas, cada uma com a sua sua gota de orvalho.” Ora as ervas também podem estar acastanhadas por pedaços de lama. E que ideia estranha, essa de levar de barco os portugueses que assaltavam os túmulos dos imperadores China, na enseada de Nanquim, para as terras de Leshan, com o seu Buda gigante na província de Sichuan, a dois mil quilómetros de Nanquim, entre montanhas, bem no interior do Império do Meio... Nem rio, nem mar existiam para se chegar ao buda de Leshan. Curioso também o intérprete de Fernão Mendes Pinto. Fala mandarim (no século XVI na China falavam-se sobretudo os muitos dialectos locais, só no início do século XX o mandarim é institucionalizado a nível império!) e chegado ao Japão o extraordinário intérprete já fala fluentemente japonês. Coisas que só acontecem no cinema feito em Portugal... E a pequena caravela quatrocentista, de vela latina, a aparecer como junco chimês e o junco chinês a aparecer como caravela de duas velas latinas... E que final do filme tão eivado de sensaboria! Entendem-se as dificuldades da produção, mas concluir a gesta pela Ásia de um dos maiores e excelentes aventureiros de toda a nossa História com umas simples imagens da calmaria do mar, algures no Japão, de certeza em Sesimbra… Mas vejam o filme, vale sempre a pena e, apesar de tudo, apesar de muitos tropeções, João Botelho consegue levar-nos até às paragens extremo-orientais.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

terça-feira 7.11.2017

ALUVIÃO Miguel Martins

H

Á certas pessoas a quem, por algum dom natural ou por mérito próprio, os demais têm dificuldade em dizer não. Sendo objectivo, devo afirmar que há muito me apercebi de que faço parte desse número. Quando tinha 15 anos, fascinado por um par de cachimbos por estrear que havia lá em casa e motivado, certamente, por uma imagética retirada ao cinema, resolvi que queria fumar cachimbo, e disse-o aos meus pais. Faltavam poucos dias para, pela primeira vez, sair de Portugal sem a família. Iria uma semana a Londres, com um colega de Liceu. No dia seguinte à minha declaração, minha mãe acompanhou-me a um depósito de tabacos que havia na Rua de São José e, aí, adquirimos uma calcadeira, escovilhões e, recordo-me, uma onça de Skandinavic Aromatic. E lá fui eu para Londres, orgulhoso e deliciado, com o meu cachimbo entre os dentes. No “Moby Dick”, a dado passo, Ahab afirma: “Oh, cachimbo meu, as coisas correm-me mal se os teus encantos se perderam!”. E assim é, de facto! – o cachimbo é bom companheiro em quase todas as ocasiões. Na Ilha da Madeira, contudo, onde já estive perto de dez vezes, sabe Deus por que sortilégios (a humidade do ar?, o fantasma de Winston Churchill pairando sobre Câmara de Lobos?), apetece-me sempre fumar charutos. Gosto de caminhar pela cidade do Funchal, contemplando-lhe a flora e a arquitectura, enquanto aspiro o odor do charuto. Gosto de ir do Museu de Fotografia “Vicentes” ao Museu da Quinta das Cruzes, da Casa-Museu Frederico de Freitas ao Aquário Municipal, do Mercado dos Lavradores ao Museu Henrique e Francisco Franco, aspirando sempre aqueles aromas vindos do Brasil, das Caraíbas, das Filipinas ou de outras paragens do mar, remotas e tropicais. Mais uma vez, ao gosto que tenho pela Madeira não serão, certamente, alheios os muitos traços da presença inglesa na ilha, traços esses, regra geral, bem conservados e postos em evidência, pelas autoridades locais ou pelos próprios britânicos. Ora, isto faz-me pensar em cemitérios, outro tipo de locais que tendo a apreciar, e, nomeadamente, em cemitérios britânicos espalhados pelo mundo, que tive oportunidade de visitar: um no Lumbo, defronte da Ilha de Moçambique, datando da Primeira Guerra Mundial, em que repousam setenta e cinco almas e que, no meio de muita desolação, é mantido em impecável estado de conservação por um guarda para isso remunerado; o de Lisboa, onde, entre muita gente, prestigiada ou anónima, jaz o romancista Henry Fielding, o bem-humorado autor de “Tom Jones”; e o de Elvas, pequeníssimo talhão contendo, apenas, cinco sepulturas, datando de entre 1811 e 1863. Contudo, os mais interessantes que conheço encontram-se, naturalmente, em solo britânico: são o Trafalgar Cemetery,

Marcas do desejo

em Gibraltar, e, sobretudo, o de St. Ives, na Cornualha, implantado numa colina verdejante, a beleza de cuja vista sobre o mar nos convida a demorarmo-nos. No primeiro, uma placa presa ao gradeamento explica-nos: “Trafalgar Cemetery — Here Lie The Remains Of Some Who Died Of Wounds At Gibraltar After Nelson’s Great Victory In October, 1805, Those Killed During The Battle Having Been Buried At Sea. Other Graves Date From 1798.” Falando de cruzes: Antoni Tàpies, o meu pintor preferido, em cujos quadros a cruz, sob diversas formas, está presente, diz, numa entrevista datada de 1987: “Uso símbolos espontânea e intuitivamente, o que me dá uma grande dose de prazer imediato. Isto parece terrivelmente simples e, hoje em dia, está talvez um pouco fora de moda falar da diversão como uma razão para produzir arte. Mas quando estou a trabalhar não analiso as razões porque escolho esta ou aquela forma, embora o pudesse fazer à posteriori. Durante mui-

tos anos, trabalhei de um modo quase automático, inconsciente. Só quando os críticos começaram a questionar-me, como está a fazer agora, é que fiz um esforço para compreender o meu próprio trabalho em termos intelectuais, para entender por que é que tinha usado uma forma ou uma cor particulares num quadro. Quando ponho um símbolo num quadro, um x ou uma cruz ou uma espiral, sinto um certo tipo de prazer. Vejo que o símbolo dá ao quadro um poder particular, e não tento explicar por que é que isto acontece.” Do mesmo modo, diria eu, não é preciso ser cristão ou fatalista para estabelecer uma empatia forte ou, até, muito forte com as cruzes dos cemitérios. Não é preciso pensar. “Não pensar é o impulso mais íntimo do poeta”, afirmou o muito poeta António Maria Lisboa. Creio que não escrever seria outro dos desejos desses homens e mulheres tão intimamente magoados pela realidade. Sen-

do-lhes ambas essas coisas impossíveis, escrever pouco, ou escrever com pouco, são, muitas vezes, as opções que lhes restam. Para proveito de todos nós. O mesmo acontece com alguns dos actores que mais aprecio, praticantes do underacting, da economia expressiva: Robert Mitchum ou Lino Ventura, por exemplo, ou, no actual cinema norte-americano, Gene Hackman e Tommy Lee Jones. Já quanto ao overacting a minha posição varia muito, consoante a sua qualidade e a adequação, ou não, ao propósito em causa. Peter O’Toole ou Peter Lorre, sempre. Marlon Brando ou Mário Viegas, às vezes. James Dean? Que irritação que aquilo tudo, invariavelmente, me causa! Há uns anos, aprendi, com um especialista, a avaliar a lisura de uma tela com as costas da mão. Lisura desejável quando a textura não seja voluntária. Creio que, com a representação, é o mesmo: que seja lisa, a não ser que haja bons motivos para texturá-la.


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7.11.2017 terรงa-feira


(f)utilidades 17

terça-feira 7.11.2017

TEMPO

C H U VA

O QUE FAZER ESTA SEMANA Quarta-feira

SPEEDY COLOR, A VISUAL EXPERIENCE BY ANTÓNIO MIL-HOMENS Fundação Rui Cunha | 18h30 às 20h30

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FRACA

MIN

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MAX

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65-90%

EURO

9.31

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Sábado

CINEMA | HIROKAZU KOREEDA HEART AND BLOOD OF A CHILD Cinemateca Paixão | 14:30 - 16:00

DIARIAMENTE SALÃO DE OUTONO Casa Garden

O CARTOON STEPH

A LINGUAGEM E A ARTE DE XU BING MAM | Até 4/3/2018

PROBLEMA 153

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 152

UM DISCO HOJE

FLATLINERS SALA 1

19.30

Fime de: Taika Waititi Com: Chris Hemsworth, Cate Blanchett, Tom Hiddleston 14.15, 16.45, 19.15, 21.45

SALA 3

THOR: RAGNAROK [B]

SALA 2

FLATLINERS [C] Fime de: Niels Arden Oplev Com: Ellen Page, Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton 14.30, 16.30, 21.30

GEOSTORM [B] Fime de: Dean Devlin Com: Gerard Butler, Jim Sturgess, Abbie Cornish, Daniel Wu

SUDOKU

DE

REPRESENTAÇÕES DA MULHER COLECÇÃO DO MUSEU DE ARTE DE MACAU NOS SÉCULOS XIX E XX MAM | Até 10/12

C I N E M A

1.21

MASSACRE DO TEXAS

PALESTRA “O LEGADO ARTÍSTICO DE SILVA MENDES” POR ANTÓNIO CONCEIÇÃO JÚNIOR Clube Militar | 18h30

Cineteatro

YUAN

PÊLO DO CÃO

Quinta-feira

EXPOSIÇÃO | MACAU NA 57ª EXPOSIÇÃO INTERNACIONAL DE ARTE DA BIENAL DE VENEZA 2017 MAM | Até 12/11

0.24

Mais um dia, mais um tiroteio em massa nos Estados Unidos, desta vez na pequena comunidade rural de Sutherland Springs, no Texas. Apesar das balas terem voado dentro de uma igreja, a única acção prescrita pelas autoridades será rezar, algo que não tem tido resultados. O inteiro Partido Republicano (e parte substancial dos democratas) está na mão da National Riffle Association (NRA), que por sua vez está na mão dos fabricantes e vendedores de armas. Mesmo entre associados do NRA a maioria defende a aprovação de leis de controlo de armas. Porém, nada é feito e a normalidade destes acontecimentos torna-os no equivalente a um acidente de viação na Ponte daAmizade. Fala-se brevemente de doenças mentais, como se fossem um exclusivo norte-americano, mas o primeiro chavão espalhado aos quatro ventos políticos é sempre: “ainda é demasiado cedo para se falar em controlar o acesso a armas de fogo”. Devido à frequência diária dos tiroteios, nunca será tarde ou oportuno fazê-lo. Como é possível que não se restrinja a compra de armas a indivíduos com suspeitas de ligações terroristas? Ou mesmo pessoas com doenças mentais? Qual o raciocínio por detrás da permissão porte de armas em bares? Só há uma parte a ganhar com o sangue derramado: quem produz e vende armas. O medo gera mais medo e isso é bom para o negócio, enquanto os tiroteios prosseguem com a naturalidade de mais um nascer do sol. João Luz

FOUR TET | NEW ENERGY

Ainda fresco e acabado de sair, “New Energy” é o nono disco do compositor e produtor Four Tet, um dos nomes cimeiros da música electrónica de cariz mais paisagístico. Não é propriamente um disco para dançar, muito mais para ouvir com headphones de olhos fechados enquanto se desvendam várias camadas de sons. Four Tet é um dos colaboradores e amigos do genial Burial, com quem tem colaborado e que se junta a uma vasta gama de artistas como Thom Yorke, Laurie Anderson e o baterista Steve Reid. Apesar de não ser o seu mais inspirado disco, “New Energy” é uma excelente banda sonora para um dia preenchido de trabalho.

João Luz

LET ME EAT YOUR PANCREAS [B] FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Fime de: Sho Tsukikawa Com: Minami Hamabe, Takumi Kitamura, Shun Oguri 14.30, 16.30, 19.30

ALWAYS BE WITH YOU [C] FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Fime de: Herman Yau Com: Louis Koo, Julian Cheung, Lam Ka Tung, Charlene Choi 21.30

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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Luz; João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


18 opinião

7.11.2017 terça-feira

macau visto de hong kong

Selecção do júri (I)

antigo Chefe do Executivo de Hong Kong, Donald Tsang Yam-kuen, foi acusado de ter recebido da Wave Media, uma penthouse localizada na China continental e avaliada em 3,8 milhões de Hong Kong dólares (487.000 USD). Em contrapartida, Donald Tsang tinha-se manifestado “favorável” à concessão da licença de difusão, requerida pela Wave Media, proprietária de uma rádio local, durante a sua chefia do Governo. Bill Wong Cho-bau, o maior accionista da Wave Media, tinha a casa em seu nome e pagou do seu bolso as obras de renovação. O caso vai ser ouvido no Supremo Tribunal de Hong Kong. O julgamento será presidido pelo juiz Andrew Chan Hing-wai e contará com a presença de um júri. Segundo o sistema legal de Hong Kong, sempre que esteja em causa o julgamento de um caso de maior gravidade, será necessária a presença de júri no Tribunal. Esta é a principal diferença para o sistema jurídico de Macau, que não contempla a existência de júri. Consoante a gravidade do caso, assim serão requeridos sete, oito ou nove jurados. Os jurados são escolhidos entre os residentes de Hong Kong. O júri terá apenas de decidir se o réu é culpado ou inocente da acusação. Deverá ser constituído por pessoas comuns. Não devem ser especialistas em assuntos jurídicos, nem personalidades de destaque. Os jurados deverão ser maiores de 21anos e terão de ter o ensino secundário completo. A partir do momento em que um cidadão é seleccionado como jurado, tem obrigação de respeitar a convocatória. É um dever cívico. Os jurados estão dispensados de comparecer nos seus locais de trabalho, enquanto o julgamento estiver a decorrer. Neste período, cada jurado recebe do Governo uma diária de 830 Hong Kong dólares. Actualmente, em Hong Kong, o réu tem o direito de escolher a língua que será usada durante o julgamento. Pode escolher entre o chinês e o inglês. Neste caso, como o advogado de acusação é originário do Reino Unido, será utilizado o inglês. Segundo os noticiários, a selecção do júri para este julgamento tem sido muito criteriosa, embora já tenha havido alguns casos a salientar. Em primeiro lugar houve um homem que apelou ao direito de excepção. O homem justificou o apelo, afirmando: “Não gosto de Donald Tsang.” O juiz começou por rejeitar o apelo, alegando que o motivo não era suficientemente forte. Mas, depois de o advogado de defesa

THE CULPRIT BEFORE COURT, ADAM HOELBING

O

DAVID CHAN

se ter oposto à inclusão do homem no júri, o juiz acabou por anuir. O segundo caso assinalado envolveu uma mulher, rejeitada pelo juiz porque não conseguia pronunciar em inglês as palavras, “afirmo, solenemente e veredicto”. A rejeição baseada no mau inglês da potencial jurada, acaba por ser um motivo injusto para o réu. A terceira pessoa a ser rejeitada foi uma jornalista. A bem da isenção noticiosa, o juiz considerou que a sua profissão era incompatível com esta função. A quarta, e última rejeição, foi também baseada na má pronunciação do inglês. Desta feita, a senhora em questão, não conseguia pronunciar “almighty” (todo poderoso). O juiz voltou a manifestar a sua apreensão em relação às exclusões baseadas no mau

Num sistema legal bilíngue, os juízes e os advogados dominam as duas línguas. Contudo, esse pode não ser o caso das testemunhas e do réu. Nesses casos, poder-se-á recorrer à tradução para solucionar o problema? A sociedade deverá considerar todas estas questões

domínio da língua inglesa. Teme que este factor possa afectar o resultado final. Como se pode ver, o juiz tem sido muito cuidadoso no tratamento dos assuntos relacionados com este caso. Devido à proeminência social do réu, qualquer erro pode resultar numa anulação do julgamento e conduzir a críticas severas ao Tribunal. No primeiro caso de exclusão, o juiz insistiu na permanência do convocado, e, inicialmente, não aceitou a “antipatia pelo réu” como motivo suficiente para o isentar das suas obrigações. Se qualquer pessoa pudesse alegar esse motivo para ser isentada destas funções, o sistema de jurados deixava de funcionar em Hong Kong. Só motivos muito mais fortes costumam ser aceites. Mas a recusa do advogado de defesa em aceitar esta pessoa, deu motivo suficiente ao juiz para aceitar o apelo. Deve fazer-se tudo para evitar recursos e aumento das despesas de Tribunal. No entanto, esta posição pode ser questionável. Será que existe uma boa razão para obrigar alguém a ser jurado, mesmo que o advogado de defesa insista que a “antipatia pelo réu” é motivo para que não possa ser aceite? Imagine-se que num caso futuro o advogado de defesa alega o mesmo que alegou o de Donald Tsang. A decisão vai ser a mesma. O círculo vicioso mantém-se e o problema nunca terá solução. Outra questão que merece ser discutida é a adopção da língua usada em tribunal. Neste caso dois jurados foram excluídos

por não falarem bem inglês. O juiz não tinha confiança do seu domínio da língua. Se os jurados não compreenderem bem inglês, não podem acompanhar o julgamento e não terão bases para tomar uma decisão justa. Por aqui se pode ver como a escolha da língua do julgamento pode ser problemática. Os advogados e o juiz são obrigados a dominar o inglês, mas os jurados não são. Será que o Governo deve acrescentar uma emenda à Ordenança dos Júris, a requer que os jurados falem inglês fluentemente? Se essa condição for exigida por lei, acabará por perder a utilidade se o julgamento for em chinês. A questão parece ser complicada. Aplica-se o mesmo princípio a qualquer região ou país com um sistema legal bilíngue. Em que circunstâncias se deverá adoptar uma ou outra língua, é a primeira questão, se ambas as partes em confronto dominam a língua escolhida, é a outra. Num sistema legal bilíngue, os juízes e os advogados dominam as duas línguas. Contudo, esse pode não ser o caso das testemunhas e do réu. Nesses casos, poder-se-á recorrer à tradução para solucionar o problema? A sociedade deverá considerar todas estas questões. Se todos os documentos tiverem duas versões, será um desperdício de tempo e de dinheiro e, além disso, implicará mais demoras no julgamento. Será isso que todos nós queremos? Como o caso de Donald Tsang é complicado, continuaremos a nossa análise na próxima semana. Até lá, despeço-me dos meus leitores.

Professor Associado do IPM • Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau • legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk • http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog


opinião 19

terça-feira 7.11.2017

sexanálise

O

romance de Margaret Atwood, História de uma Serva, em inglês The Handmaid’s Tale, de repente lançou-se para fama porque alguém se lembrou de fazer uma adaptação televisiva. A autora diz-se encaixar no género de ficção especulativa, projectando futuros distópicos que podiam muito bem acontecer, e não discordo. Esta história soa à actualidade de alguma forma, mesmo que tenha sido escrita nos anos 80. O actual interesse por ideologias mais conservadoras no mundo ocidental parece encaixar que nem uma luva em alguns dos processos que levaram ao contexto político e social desta narrativa. Vi a série e li o livro, e não pretendo de modo algum revelar spoilers. Esta é só uma reflexão a partir da ideia base em que esta história se desenvolve: no poder encontra-se um governo conservador altamente patriarcal. A narrativa gira à volta de uma mulher que é feita serva do sexo – para colmatar a necessidade de procriação. É uma espécie de concubina para trazer ao mundo os bebés que já são difíceis de produzir. Como toda a ficção transporta-nos para futuros mais ou menos plausíveis, os nossos pobres neurónios são quase que obrigados a reflectir sobre as condições sociais, culturais e sexuais das nossas vidas. Remeteu-me para a existência particularmente feminina porque aborda o sexo e a maternidade de forma sufocante e urgente. Entrei nas realidades psicológicas das personagens e na de mim própria. A sexualidade feminina como conquista contrasta com a reinterpretação fictícia do sexo como objecto económico. Não é descabido – assustou-me – a fertilidade como bem estatal. Se algum dia virmos o mundo a padecer de uma taxa de natalidade decrescente, ao ponto dos humanos entrarem em vias de extinção, não serão absurdos os movimentos que instigam a mulheres a serem única e exclusivamente parideiras. Como os pandas em cativeiro.

Sexo na distopia Nesta história o sexo é atirado para o plano religioso e utilizado somente para procriar – com aquelas que ainda podem, com as mulheres que ainda são férteis. A ‘cerimónia’ acontece uma vez por mês de forma mecânica, impessoal, dolorosa ou não dolorosa, nem interessa. A gestação é uma formalidade para trazer alguém ao mundo. Sabemos como é a mente humana, a dor é silenciosa mas sabemos que a engenharia social magoa estas servas que não escolheram estar ali. Vê-se materializada a imposição ideológica que cobre formas de vida, e de sexo, sem grande reflexão. Já viram um mundo que em vez de entendê-lo, massacra-o?

Reflectir sobre os significados do The Handmaid’s Tale é ter medo também – não necessariamente do possível tom profético – mas do extremismo ou autoritarismo que regem muitas vidas por esse mundo fora, no presente A história é marcada pelo exagero patriarcal que se mascara na necessidade demográfica. O sexo carrega pudor social mas são permitidas manifestações clandestinas e violentas. Quem é que vive sem sexo? Quem é que vive sem carinho, ou amor? Quem é que vive sem sedução? Quem vive sem que lhe toquem? A história da Offred, personagem principal e narradora, torna saliente o desespero de não ter aquilo que o nosso corpo e mente precisa. Quando somos contrariados e tornamo-nos marionetas de uma ideia que não é nossa, e da qual não temos controlo algum. E o sexo assim torna-se, sem formas saudáveis e livres de expressão, num fruto envenenado que ninguém quer experimentar. A maternidade revela-se instrumental e sem espaço para afectos. A emoção que reina (e controla) é o medo, e assim se mantém a ordem social. Reflectir sobre os significados do The Handmaid’s Tale é ter medo também – não necessariamente do possível tom profético – mas do extremismo ou autoritarismo que regem muitas vidas por esse mundo fora, no presente.

GUSTAV KLIMT, HOPE II (PORMENOR)

TÂNIA DOS SANTOS


O uísque é o melhor amigo do homem: é um cachorro engarrafado. Vinicius de Moraes

“Vamos decidir amanhã o congelamento de bens de 35 organizações e personalidades norte-coreanas”, uma medida adicional para tentar resolver o problema dos japoneses sequestrados pelos serviços secretos norte-coreanos e face ao programa nuclear e de mísseis de Pyongyang, declarou. Abe disse ainda que apoia a política de Trump de manter todas as opções em cima da mesa, face às provocações da Coreia do Norte. “Apoiamos a política de Trump segundo a qual todas as opções estão em cima da mesa” para conter o rápido desenvolvimento do programa nuclear e de mísseis de Pyongyang, disse.

FUTEBOL PAULO SOUSA ASSINA PELO TIANJIN QUANJIAN

O

treinador português de futebol Paulo Sousa foi hoje apresentado como técnico principal dos chineses do Tianjin Quanjian, terceiros classificados da Superliga chinesa, substituindo o italiano Fabio Cannavaro. Paulo Sousa, 47 anos, estava sem clube desde que deixou os italianos da Fiorentina no final da época passada. O Quanjian subiu no último ano à primeira divisão chinesa e terminou a competição em terceiro lugar esta época, a apenas dez pontos do campeão, o Guangzhou Evergrande. A superliga chinesa é disputada por dezasseis equipas e decorre entre Março e Outubro. No conjunto chinês, jogam o antigo médio belga do Benfica Axel Witsel, o internacional brasileiro Alexandre Pato e o francês Anthony Modeste. “Todos sabem que o presidente do clube investiu apaixonadamen-

te no futebol. Ele quer continuar a desenvolver o clube e por isso procurou a minha ajuda”, afirmou Paulo Sousa durante a apresentação, citado pela imprensa chinesa. O técnico português disse ter “algum conhecimento” sobre o clube, revelando que assistiu a 12 jogos do Tianjin Quanjian antes de rumar à China. Antigo internacional português, Paulo Sousa jogou no Benfica, Sporting, Juventus, Borussia Dortmund, Inter Milão, entre outros clubes. Como técnico, o português passou, entre outros, pela Fiorentina, pelos ingleses do Queens Park Rangers, Swansea City e Leicester City, os suíços do Basileia, pelos quais se sagrou campeão, além de ter orientado a selecção portuguesa de sub-16. André Villas-Boas é o outro técnico português a treinar na primeira divisão chinesa, no vice-campeão Shanghai SIPG.

Trump diz que acesso livre a armas não causou tiroteio no Texas

na Força Aérea, não sendo divulgadas mais informações.

NICK WAGNER/AUSTIN AMERICAN-STATESMAN/AP

Japão vai abater os mísseis norte-coreanos “se for necessário”, declarou ontem o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, durante uma conferência de imprensa conjunta com o Presidente norte-americano, Donald Trump. “Vamos abatê-los se necessário e, nesses casos, o Japão e os Estados Unidos vão cooperar de forma estreita”, declarou Abe. Nos últimos meses dois mísseis norte-coreanos sobrevoaram a ilha japonesa de Hokkaido. O líder japonês anunciou também que vai congelar os bens de 35 organizações e pessoas norte-coreanas, impondo uma sanção suplementar a Pyongyang.

terça-feira 7.11.2017

Tem problema mental

JAPÃO VAI ABATER MÍSSEIS DE PYONGYANG “SE NECESSÁRIO”

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PALAVRA DO DIA

PARA A HISTÓRIA

Donald Trump, Presidente dos EUA “A saúde mental é o problema aqui (…) Não se trata de uma questão ligada às armas.”

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Presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou ontem que o tiroteio no Texas, que matou 26 pessoas, não evidencia problemas relacionados com o acesso a armas de fogo, mas sim que o autor do ataque tinha problemas mentais. “A saúde mental é o problema aqui (…) Não se trata de uma questão ligada às armas”, declarou numa conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, em Tóquio. No domingo um homem armado de 26 anos matou a tiro 26 pessoas e feriu dezenas de outras numa igreja baptista no estado do Texas, tendo sido depois abatido. O ataque a tiro ocorreu na ‘First Baptist Church’, em Sutherland Springs, 45 quilómetros a sudeste de San Antonio (Texas), perto das 11:30. No momento dos disparos decorria uma missa. “Os nossos corações estão partidos. Unimo-nos, damos as mãos (…) e apesar das lágrimas e da tristeza, mantemo-nos fortes”, tinha já dito Trump, em Tóquio, onde se encontra em viagem. “Este acto diabólico ocorreu quando as vítimas e as suas famílias estavam num local sagrado”, sublinhou.

Futsal Selecção de Macau foi goleado pela Mongólia

A selecção de Macau falhou ontem a qualificação para o Campeonato Asiático de Fustal, após perder com a Mongólia, por 6-2. O encontro era fundamental para as aspirações das duas equipas, que ainda sonhavam com uma vaga no play-off. Porém Macau sofreu seis golos na primeira parte e, no segundo tempo, já não conseguiu recuperar da desvantagem. Os golos locais foram apontados pelo defesa Kwok Siu Tin, na primeira parte, e pelo avançado Cheong Loi, no segundo tempo. A selecção do território acabou a fase de apuramento com três derrotas em outros tantos encontros.

Vários órgãos de comunicação social norte-americanos identificaram o atirador como sendo Devin Kelley, um homem branco de 26 anos. Kelley - que estava armado com uma espingarda de assalto e vestia um colete à prova de bala - foi depois abatido pelas autoridades. Num comunicado, o Pentágono afirmou que Devin Kelley esteve “a certa altura” PUB

O governador Greg Abbott disse que este foi o pior massacre resultante de um ataque a tiro na história do estado do Texas. O director regional de Saúde Pública do Texas, Freeman Martin, informou que 23 das vítimas foram encontradas mortas dentro do edifício da igreja baptista, duas outras no exterior do edifício e uma pessoa foi levada pelos serviços médicos, mas acabou por sucumbir. Martin também disse que as vítimas mortais tinham entre os 5 e os 72 anos. O comissário do condado, Wilson Albert Gomez, disse à estação televisiva MSNBC que há pelo menos 24 feridos. Outra testemunha, um funcionário de uma bomba de gasolina próxima do templo baptista, relatou à estação CNN que ouviu cerca de 20

tiros “em rápida sucessão enquanto se realizava um serviço religioso”. Pouco depois, o governador do Texas, Greg Abbott, escreveu uma mensagem na sua conta da rede social Twitter condenando o ataque. “As nossas preces vão para todos os que foram vítimas deste acto de maldade. O nosso agradecimento às autoridades pela sua resposta”, expressou o governador. Um responsável norte-americano que falou à agência Associated Press sob anonimato disse que Kelley não parece ter ligações a grupos de terrorismo organizado. As autoridades estão a analisar as mensagens de Kelley nas redes sociais feitos nos dias antes do ataque, incluindo uma em que o homem aparece com uma espingarda de assalto semi-automática AR15.

Hoje Macau 7 NOV 2017 #3929  

N.º 3929 de 7 de NOV de 2017

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