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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10

QUINTA-FEIRA 6 DE JULHO DE 2017 • ANO XVI • Nº 3848

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

hojemacau Animais O fosso entre os ricos e os pobres

Enquanto os pandas disfrutam de todas as mordomias, mesmo ao lado há outros bichos que vivem em condições muito menos agradáveis. GRANDE PLANO

São Januário acusado de negligência em morte de paciente

O hospital público nega responsabilidade ou erro médico no caso de um paciente que morreu devido a uma pneumonia. A filha do falecido é que não está pelos ajustes. PÁGINA 9

PROPOSTA PARA A CRISE

Chan Meng Kam admite candidatura a Chefe do Executivo

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TIAGO ALCÂNTARA

Xi Jinping e Putin arranjaram uma solução para a crise coreana. A bola está agora do lado de Trump e de Kim.

Arroz de povo


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PARQUE DE SEAC PAI VAN ANIMAIS EM CONDIÇÕES DESIGUAIS

GRANDE PLANO

FILHOS E ENTEADOS

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No parque de Seac Pai Van, em Coloane, existe o Pavilhão do Panda Gigante, onde os animais que são considerados o tesouro da China repousam com ar condicionado. Cá fora, outras espécies têm um espaço bem mais pequeno. Há associações a alertar para a desigualdade mas que penaliza mais os donos do que quem comete crimes contra os animais, e depois os animais do parque de Seac Pai Van estejam nessas condições”, frisou ainda.

SOFIA MARGARIDA MOTA

“ESPAÇOS MINÚSCULOS”

UM FUNDO COM MILHÕES

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Fundo dos Pandas foi criado em 2010 com o objectivo de desenvolver várias actividades relacionadas com esses animais, que passam pela área da investigação e da promoção. Em 2015, foi noticiado de que este fundo financeiro já tinha recebido mais de cinco milhões de patacas, dinheiro que provém não apenas dos donativos que recebe, como do orçamento atribuído pelo Executivo.

No dia em que o HM visitou as instalações dos animais no parque, estes tinham as jaulas limpas, mas era notório o pouco espaço para se movimentarem. Sara d’Abreu, residente, confessa que há muito tempo que não vai ao parque de Seac Pai Van por ter pena dos animais. “Os espaços são minúsculos, falta zonas verdes”, apontou. Sara fala do exemplo dos animais que estão numa zona interior, onde existem vedações eléctricas. “Faz-me muita confusão a zona onde estão os macacos, e os outros animais, lá dentro, estão sempre a olhar para a vedação eléctrica. Talvez a tenham posto para que não fujam dali. O espaço é horrível”, defendeu. Para Sara d’Abreu, Macau não tem sequer clima para ter estes animais ao ar livre. “Os animais nem deviam estar lá, porque Macau

SOFIA MARGARIDA MOTA

EMUR de cauda anelada, macaco folha de françois, macaca nemestrina. Todas estas espécies habitam há alguns anos no parque de Seac Pai Van, em Coloane, bem ao lado do pavilhão dos pandas que foram oferecidos pela China. Contudo, as condições não são as mesmas para todos os animais. Se os pandas repousam dentro do pavilhão sempre com o ar condicionado ligado, cá fora os restantes animais encontram-se dentro de um espaço limpo, mas de reduzida dimensão. Dois responsáveis de associações com quem o HM falou alertam para as desigualdades existentes. “As condições dos outros animais foram sempre fracas”, lembrou Fátima Galvão, da Associação para os Cães de Rua e Bem-Estar Animal em Macau (MASDAW). “Aquando da construção deste alojamento para os pandas, muita gente da sociedade se revoltou porque, de facto, há dois ou três animais que têm condições luxuosas e os outros continuam a ser negligenciados”, disse ainda, fazendo uma referência ao urso da Flora, que ainda não foi transferido para o parque de Seac Pai Van, como chegou a ser prometido pelo Governo. “Vivia cheio de reumatismo, todo torto, num cubículo miserável. Nunca fui ver o urso da Flora porque me faria imensa impressão”, disse Fátima Galvão. Para a responsável da MASDAW, que há muito defende a protecção dos animais, o que se passa no parque de Seac Pai Van “é uma situação lamentável”. “Mas os pandas são os pandas, foram uma oferta do Governo chinês e está tudo dito”, afirmou. Fátima Galvão não aponta, contudo, o dedo ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM). “O IACM também está sujeito às directivas superiores e o que foi determinado é que os pandas têm direito a um tratamento de imperadores, e os outros animais são os outros animais. Se morrerem não fazem falta alguma”, aponta. “É lamentável que se faça uma lei supostamente para proteger os animais,

não tem espaço nem clima para isso.” Nem mesmo os pandas, com ar condicionado, apontou.

PANDA, UM ANIMAL POLÍTICO

Joe Chan é presidente da União dos Estudantes Ambientalistas de Macau (Macau Green Student Union) e assegura: “Há de facto


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IACM DIZ PRESTAR ATENÇÃO AOS OUTROS ANIMAIS

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“O significado de ter pandas em Macau não é garantir a sua preservação como espécie. Tornaram-se numa espécie de símbolo político.”

“Aquando da construção deste alojamento para os pandas muita gente da sociedade se revoltou porque, de facto, há dois ou três animais que têm condições luxuosas e os outros continuam a ser negligenciados.” FÁTIMA GALVÃO DA MASDAW

JOE CHAN DA UNIÃO DE ESTUDANTES AMBIENTALISTAS DE MACAU

um desigual investimento de recursos nos pandas, se olharmos para os outros animais”. Chan, ligado a questões do ambiente, defende ainda que a existência de pandas é uma questão meramente política. “Manter os pandas em Macau é um investimento elevado, uma

vez que há uma grande exigência, tendo em conta o facto de serem espécies em vias de extinção. Além disso, o significado de ter pandas em Macau não é o de garantir a sua preservação como espécie. Estes tornaram-se numa espécie de símbolo político”, observou.

Questionado sobre a postura que o IACM deve ter neste caso, Joe Chan diz esperar que “haja uma oportunidade para melhorar as condições gerais de habitabilidade no parque”. Para o ambientalista, não é possível transformar o parque de Seac Pai Van num verdadeiro jardim zoológico. “As

pessoas em Macau respeitam o direito a todas as vidas, mas não podemos esperar que se construa um jardim zoológico no local. Apenas pedimos que aquele seja um lugar de harmonia entre os animais que lá habitam e os visitantes”, rematou. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

parque de Seac Pai Van tem um total de 208 animais de 27 espécies diferentes, sendo a maioria espécies de aves. Em resposta ao HM, o IACM garantiu que nunca descurou o tratamento que é dado aos restantes animais. Trabalham actualmente no parque um total de 18 técnicos de tratamento e veterinários, sem esquecer sete trabalhadores auxiliares. “Para satisfazer as necessidades de tratamento dos animais, a equipa trabalha por turnos o dia inteiro e durante o período de férias, garantindo a sua higiene e fiscalização.” O IACM assegura que, desde 2010, tem havido uma melhoria do “ambiente do parque e da gestão dos animais”. “O IACM aproveita ao máximo os terrenos disponíveis para melhorar e coordenar as zonas de actividades dos animais. Além de ter em conta a situação geral do parque, [o organismo] tem também em conta as necessidades de vida dos animais”, lê-se na resposta escrita. A entidade presidida por José Tavares acrescenta que, desde a chegada dos pandas ao território, que “tem prestado atenção aos outros animais”. “Além das obras de renovação dos espaços onde estão instalados, que estão sempre em evolução, foram adicionadas outras instalações de acordo com os hábitos das diferentes espécies.” Na prática, os animais não têm um tratamento

diferente, apesar da dimensão dos lugares a que chamam casa ser bem diferente. “A equipa responsável pelo tratamento dos animais é a mesma que define as refeições que eles fazem e que serviços médicos necessitam. Isso é igual também para os pandas. O IACM espera que todos os animais do parque tenham saúde, através de melhorias constantes.”

RATOS, UM PROBLEMA COMUM

A existência de ratos nas pequenas jaulas foi outro dos problemas relatado ao HM por alguns visitantes, mas o IACM garante que, quanto a este assunto, só pode garantir a manutenção constante. “Esse problema existe em vários jardins zoológicos. A razão para que isso aconteça prende-se com o facto de se tratar de um espaço aberto, onde a comida está exposta. Como a colocação de produtos químicos pode afectar os animais, optamos por outros meios para controlar a situação dos ratos”, explicou o IACM. Renovar constantemente os equipamentos, substituir vedações por vidro ou a instalação de uma rede de drenagens, para impedir o acesso dos ratos, são algumas das soluções encontradas. “Foram também definidas e implementadas instruções rigorosas da limpeza dos locais de alojamento”, rematou o organismo.


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Eleições CHAN MENG KAM DEIXA ASSEMBLEIA PARA OS MAIS NOVOS

tes com o coração”, disse. “Espero que, com base na prosperidade de Macau, fomentem o desenvolvimento da sua diversificação e a partilha dos frutos do desenvolvimento com os cidadãos”, acrescentou.

O grande vencedor das eleições de 2013 não se recandidata às legislativas de Setembro. Chan Meng Kam entende que chegou a hora de deixar o trabalho na Assembleia para os mais novos. Garante que não vai para o hemiciclo por nomeação do Chefe do Executivo. E quer ser o sucessor de Chui Sai On? Isso logo se vê

E AGORA?

O futuro a ele pertence TIAGO ALCÂNTARA

ÃO diz que desta água não beberá quando chegar a altura de se escolher um sucessor de Chui Sai On. Chan Meng Kam tem sido apontado como um possível futuro Chefe do Executivo, por causa do percurso político que tem feito e as ligações que lhe são apontadas ao actual Presidente da China, Xi Jinping. Para já, o ainda deputado à Assembleia Legislativa (AL) não revela quais são as suas intenções políticas. “As pessoas têm várias coisas para fazer na vida. Ser deputado é só uma parte da minha vida”, disse, questionado sobre a possibilidade de se candidatar a líder do Governo, daqui a dois anos. O homem mais influente da comunidade de Fujian confirmou ontem que não se recandidata, deixando a tarefa para os actuais números dois e três da sua bancada. “Não vou concorrer às eleições deste ano.” Como já era do conhecimento público, a estrutura política liderada por Chan Meng Kam dividiu-se em duas listas para as eleições deste ano. Esta separação de equipas tem como único objectivo garantir a eleição de mais deputados, dado o método de conversão de votos em mandatos aplicado em Macau que torna difícil a eleição dos terceiros candidatos das listas. Si Ka Long fica à frente da Associação dos Cidadãos Unidos de Macau, com um total de dez candidatos. A outra lista, a Associação dos Cidadãos para o Desenvolvimento de Macau, é encabeçada pela jovem Song Pek Kei, contando também com uma dezena de aspirantes a deputados. Em conferência de imprensa realizada ontem de manhã, Chan Meng Kam salientou que, ao longo da sua carreira de deputado, tem feito o possível para servir a população. Mas o também membro do Conselho Executivo considera que a AL ficará dotada de uma maior energia se for constituída por um número maior de jovens. “Vou depositar as minhas esperanças em jovens como Si Ka Lon e Song Pek Kei, com a expectativa de que continuem com o espírito de proteger a justiça e tenham vontade de intervir na AL, servindo com os residen-

Apesar de ter decidido deixar a AL, Chan Meng Kam promete continuar a servir os cidadãos e a contribuir para o desenvolvimento da sua equipa, fazendo-o noutra posição. Quanto à possibilidade de ainda voltar ao hemiciclo, mas como deputado nomeado pelo Chefe do Executivo, o empresário nega tal hipótese, recordando o que disse no passado: só gostaria de ser membro da AL se fosse eleito por via directa.

“As pessoas têm várias coisas para fazer na vida. Ser deputado é só uma parte da minha vida.” CHAN MENG KAM DEPUTADO

SONG EM ESTADO DE NEGAÇÃO

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I Ka Lon agradece a oportunidade; Song Pek Kei diz que ainda não aceitou a decisão de Chan Meng Kam. Na conferência de imprensa que serviu para apresentar os dois novos cabeças-de-lista do grupo político de Fujian, as reacções foram diferentes. O actual número dois da bancada prometeu que vai tentar manter o espírito de Chan Meng Kam. O deputado traçou algumas prioridades, dizendo que, nos passados quatro anos, “algumas políticas ligadas à vida dos residentes foram levadas a cabo sem resultados satisfatórios”. Si Ka Lon deu exemplos: a proposta para a renovação urbana, a verificação de infiltrações de água, o sistema

de responsabilização dos funcionários públicos e a habitação pública. O candidato promete continuar a trabalhar para que haja melhorias nestas áreas. Já Song Pek Kei destacou a influência de Chan Meng Kam na sua vida, dizendo que, até ao momento, ainda não conseguiu aceitar a decisão do líder do grupo. As equipas lideradas por Si Ka Lon e Song Pek Kei estiveram na Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa para entregarem as listas de candidatos e os programas políticos. Das ideias de Si Ka Lon fazem parte a criação de um fundo criado com dez por cento das receitas do jogo, que possa ser

usado directamente pela população para a aquisição de seguros médicos, aquisição de imobiliário e aumento das pensões de idosos para cinco mil patacas. Si Ka Lon explicou que os membros da sua lista são jovens oriundos das áreas do turismo, logística, advocacia e engenharia. Há também pessoas ligadas ao mundo empresarial e aos serviços sociais. Quanto ao programa político de Song Pek Kei, destaca-se a responsabilização dos funcionários públicos, a habitação, os serviços médicos, as questões ligadas à administração de condomínios, os jovens e o funcionamento das pequenas e médias empresas.

Recorde-se que Chan Meng Kam teve um percurso surpreendente enquanto político: de empresário desconhecido fora da comunidade de Fujian, de onde é natural, passou a deputado e a membro do órgão que coadjuva o Chefe do Executivo na tomada de decisões. Nas eleições de 2013, a lista liderada pelo homem do Golden Dragon, a Associação dos Cidadãos Unidos de Macau, alcançou um resultado histórico, ao conquistar mais de 26 mil votos, o suficiente para eleger três deputados. Em 2009, tinha conseguido 17 mil votos, ficando garantida a reeleição de uma bancada composta por dois elementos. Nas eleições em que se estreou, em 2005, entrou directamente para o segundo lugar dos mais votados, com 20.701 eleitores a expressarem o apoio, só ultrapassado então pelos pró-democratas Au Kam San e Ng Kuok Cheong. Vítor Ng e Isabel Castro info@hojemacau.com.mo


5 POLÍTICA

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Empregados entregaram lista pelo sufrágio indirecto

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Comissão Conjunta da Candidatura das Associações de Empregados, com ligação à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), entregou ontem a sua lista e programa político com que vai concorrer este ano aos lugares pelo sufrágio indirecto. A comissão entregou 69 assinaturas de um total de 75 eleitores que legalmente podem votar, e que estão ligados ao sector do trabalho. Lam Lon Wai, subdirector da Escola para Filhos e Irmãos dos Operários, lidera a lista, seguindo-se Lei Chan U na segunda posição. Este é coordenador do departamento de estudo das políticas e informação da FAOM. Lam Lon Wai pretende, caso seja eleito para o hemiciclo, defender os direitos dos residentes, sobretudo dos trabalhadores, fomentando a diversificação económica do território. O líder da lista quer ainda impulsionar o desenvolvimento do sistema democrático, sem esquecer a reorganização de toda a Administração. Lam Lon Wai adiantou ainda que os assuntos ligados aos jovens, sobretudo os que dizem respeito à ascensão na carreira, também fazem parte do seu programa político.

A PRIMEIRA VEZ

É a primeira vez Lam Lon Wai se candidata à Assembleia Legislativa pela via indirecta, tendo referido que se sente satisfeito com o apoio dado pela FAOM desde o primeiro momento em que decidiram entregar o programa. O número dois da lista promete prestar atenção aos benefícios sociais dos trabalhadores, tendo prometido lutar por melhores condições de trabalho, incluindo melhores salários, mais formação e dias de férias. O número dois, que é também membro do Conselho Permanente de Concertação Social, acrescentou que tem desempenhado bem a sua função neste órgão, tendo realizado, a partir de 2015, diversos seminários sobre a área laboral. Lei Chan U entende que a sociedade está atenta a assuntos como a sobreposição de férias com dias feriados e a necessidade de atribuir uma compensação aos trabalhadores. Questões como a implementação da licença de paternidade e o aumento dos dias de licença de maternidade são assuntos na ordem do dia, sendo também as áreas a que Lei Chan U vai dar mais atenção caso seja eleito deputado. Na segunda metade deste ano, o responsável garantiu que vai apresentar sugestões para a revisão da lei laboral. V.N.

Eleições CAEAL DIZ QUE QUEIXA DE AU KAM SAN NÃO TEM RELAÇÃO COM SUFRÁGIO

De olhos bem abertos

A Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa diz estar atenta ao caso de suposta difamação alegada pelo candidato Au Kam San, mas não irá investigar por estar fora das suas competências. O deputado pró-democrata diz que não vai apresentar queixa junto das autoridades policiais

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STA semana, o deputado Au Kam San, aquando da apresentação da lista e das ideias políticas junto da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL), fez uma queixa à entidade sobre um caso de alegada difamação. Tong Hio Fong, presidente da CAEAL, confirmou a recepção da queixa do deputado. Porém, “de acordo com o conteúdo concreto da reclamação, parece não haver uma relação directa com eleições”, comentou. Ou seja, a queixa não será investigada pela entidade liderada por Tong Hio Fong. “Um candidato pode dizer que foi difamado por uma certa pessoa, se achar que foi prejudicado nos seus direitos pode participar junto das respectivas autoridades”, esclarece o presidente da CAEAL. Ainda assim, garante que a entidade irá “prestar atenção ao caso”. Em causa está uma notícia veiculada pelo jornal “East Week”, sediado em Hong Kong, que noticiou que a saída de Au Kam San da Novo Macau foi motivada pelo facto de o deputado ter usado as instalações da associação para encontros amorosos com uma mulher. O candidato pró-democrata às eleições de Setembro desmentiu estas alegações.

SEM QUEIXA

Tong Hio Fong fez ainda referência ao facto de a difamação ser um crime de natureza privada, ou seja, que depende da queixa do ofendido às autoridades policiais para se dar início ao processo.

tura totaliza 118. Neste capítulo, o presidente da CAEAL revelou que serão marcados encontros, ainda este mês, com mais de seis dezenas desses eleitores para esclarecer os casos em questão. Foi ainda adiantado que duas pessoas que subscreveram mais que uma constituição de comissão de candidatura disseram à CAEAL nunca terem assinado quaisquer boletins, levantando a suspeita de falsificação de documentos. No seguimento deste caso, o presidente da comissão confirmou que irá entregar o assunto à polícia para que esta proceda à investigação.

TIAGO ALCÂNTARA

A outra via da FAOM

Neste sentido, Au Kam San revelou ao HM não ter intenção de apresentar queixa, uma vez que já cumpriu o objectivo de alertar a sociedade. O deputado adimitiu ainda que este é um caso que não pode ser resolvido pela lei eleitoral, uma vez que a difamação terá sido feita através de uma revista publicada fora do território. Porém, o deputado diz estar satisfeito por “ter chamado a

KAIFONG LISTA DE HO ION SANG APRESENTOU CANDIDATURA

A União Promotora para o Progresso, ligada à União Geral das Associações de Moradores de Macau (Kaifong), apresentou ontem a sua lista de candidatura às eleições legislativas deste ano. Ho Ion Sang, actualmente a desempenhar o cargo de deputado, volta a candidatarse ao lado de Ieng Weng Fat, Chan Ka Leong e Su Kun. Temas como a habitação, a diversificação económica e a fiscalização da acção governativa são alguns dos objectivos da lista. O trânsito e a economia de bairro, com pequenos negócios, são também temas a que a lista promete dar mais atenção.

atenção da CAEAL para o caso”, facto que poderá ser útil e “evitar a repetição de situações dessas no futuro”. Ainda no que concerne a denúncias de corrupção, Tong Hio Fong diz ter recebido 26 queixas até agora, enquanto os pedidos de esclarecimentos quanto ao processo eleitoral ascendem a mais de 20. O número de assinaturas múltiplas de propositura de candida-

Au Kam San diz estar satisfeito por “ter chamado a atenção da CAEAL para o caso”, facto que poderá ser útil e “evitar a repetição de situações dessas no futuro” Tong Hio Fong revelou também que, até à manhã de ontem, a CAEAL tinha recebido 12 candidaturas ao sufrágio directo e duas ao indirecto, sendo que uma é oriunda do sector empresarial e outra do sector cultural e desportivo. João Luz

info@hojemacau.com.mo

MÉDICOS CHAN IEK LAP RECANDIDATA-SE ÀS LEGISLATIVAS

Segundo o canal chinês da Rádio Macau, a União dos Interesses dos Médicos e Saúde de Macau, liderada pelo actual deputado Chan Iek Lap, reuniu 17 apoiantes de entre os eleitores que podem votar pelo sector profissional. Ontem, a lista de membros, bem como o programa político, foram entregues junto da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa. Kuok Cheong Nang e Wong Chon Kit integram a lista de Chan Iek Lap, que se estreou em 2013 no hemiciclo. A lista pretende continuar a lutar pelos interesses do sector médico, sendo que Chan Iek Lap considerou positiva a existência de concorrência nas eleições por sufrágio indirecto.


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comissão de candidatura Poder da Sinergia, liderada por Lam U Tou, apresentou ontem junto da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa a lista de candidatos e o programa político. Lam U Tou, presidente da recém-criadaAssociação Sinergia de Macau, será o número um da lista, sendo que os outros membros são Ian Heng Ut, Vítor da Rocha Vai, Tam Weng Chi e Che I Kei. O líder da lista referiu que todos os membros são de áreas tão diferentes como serviço social, comunicação social, sector financeiro ou Função Pública. O programa político tem como objectivos o aumento da qualidade de vida dos residentes, incluindo a habitação, o trânsito e o funcionamento dos serviços públicos, sem esquecer o desenvolvimento do território. “Compreendemos os problemas existentes na sociedade”, disse Lam

U Tou. “Esperamos que, através das vozes dos residentes, possamos encontrar soluções para as nossas questões. Não parte tudo da nossa imaginação, mas avançamos as nossas ideias com base não só na nossa experiência, como nas opiniões que recolhemos das pessoas”, acrescentou. APoder da Sinergia quer ainda melhorar a transparência dos trabalhos desenvolvidos pelo Governo. “Acredito que isso pode levar a que os problemas sejam descobertos mais cedo, para que possam ser resolvidos também o mais rapidamente possível”, frisou. Lam U Tou espera que a fiscalização dos serviços públicos possa tornar-se periódica e que se aproveite ao máximo as funções da Assembleia Legislativa. O responsável referiu que, apesar de nenhum membro da lista ter um passado político, possuem experiência em áreas diferentes. V.N.

PEARL HORIZON GOVERNO PROMETE ANALISAR PROPOSTA DE DEPUTADOS

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M dia depois de um grupo de nove deputados ter estado reunido com Chui Sai On para avançar com uma proposta concreta em relação ao Pearl Horizon, o gabinete do porta-voz do Governo emitiu uma pequena nota em que anuncia que o Executivo vai analisar a ideia apresentada pelos membros da Assembleia Legislativa. “Relativamente à proposta relativa à solução do caso do Pearl Horizon, apresentada em 4 de Julho por nove deputados, o Governo da RAEM presta muita atenção e vai analisar e estudar a viabilidade da mesma”, indica o comunicado. “Sobre o caso do Pearl Horizon, o Governo vai salvaguardar, como sempre, na medida do possível, os interesses dos compradores do prédio em construção, de acordo com o princípio da legalidade.” Os nove deputados – Kwan Tsui Hang, Chan Meng Kam, Si Ka Lon, Ella Lei, Song Pek Kei, Ho Ion Sang e Wong Kit Cheng – sugeriram ao Governo que

concessione o projecto do Pearl Horizon ao banco que concedeu os empréstimos à Polytec, a empresa promotora, e aos particulares que ficaram lesados. O objectivo é que se avance para a construção do edifício e os compradores possam recuperar o investimento feito. Recorde-se que, na sequência da polémica desencadeada pelo Pearl Horizon, Chui Sai On recebeu também dois pedidos de autorização de iniciativa legislativa. O mais recente é um projecto da autoria dos deputados Leonel Alves e Zheng Anting, que pretendem rever alguns pontos da Lei de Terras. Apesar de se estar já em contagem decrescente para o fim da legislatura – termina em meados deAgosto – o Chefe do Executivo ainda não se pronunciou sobre estes pedidos. Sabe-se apenas que a proposta de Leonel Alves e Zheng Anting estava a ser analisada pelo gabinete da secretária para a Administração e Justiça.

Ensino Superior NOVA LEI SÓ ENTRA EM VIGOR EM 2018/2019

Diploma por um canudo Cerca de dois anos depois, está concluída a análise na especialidade do regime do ensino superior. A nova lei só entra em vigor no ano lectivo de 2018/2019 por ainda faltar a implementação de sete regulamentos administrativos

É

um parecer com uma dimensão tal que a versão chinesa ainda está a ser corrigida e a versão portuguesa só estará disponível daqui a uns dias. As 190 páginas que compõem o parecer do regime do ensino superior ainda não estão disponíveis para leitura, mas os deputados concluíram, ao fim de dois anos, a análise na especialidade do diploma. Segundo adiantou ontem Chan Chak Mo, deputado e presidente da 2.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL), a nova lei só entra em vigor no próximo ano lectivo, 2018/2019, por ainda ser necessária a elaboração e implementação de sete regulamentos administrativos que vão complementar a lei. Chan Chak Mo explicou ainda que figuras do meio académico têm vindo a perguntar ao deputado Gabriel Tong, que integra a comissão permanente, quando é que o diploma estaria pronto. Gabriel Tong é actualmente o director da Faculdade de Direito da Universidade de Macau (UM). O estatuto de personalidade jurídica das universidades públicas vai manter-se. Tal significa que a UM, o Instituto Politécnico de Macau e o Instituto de Formação Turística vão continuar a ser instituições do ensino superior de direito público, ainda que com mais autonomia. “O Governo não vai alterar o quadro jurídico das instituições de ensino. Essa foi uma boa opção do Governo, acatou as nossas opiniões. Em qualquer situação não pode haver alterações do estatuto jurídico”, explicou Chan Chak Mo.

A IMPORTÂNCIA DOS CRÉDITOS Na visão de Chan Chak Mo, a adopção de um sistema de créditos em consonância com as práticas do ensino

TIAGO ALCÂNTARA

ELEIÇÕES PODER DA SINERGIA ENTREGA LISTA E PROGRAMA

POLÍTICA

superior do exterior é uma das partes mais importantes do novo diploma. Tal é importante para que “o ensino superior local fique de acordo com as práticas internacionais”. A nova lei vai ainda legislar sobre os cursos de universidades do exterior ministrados em Macau. Chan Chak Mo adiantou que não há qualquer vazio legal nesta matéria. “Isso acontece há muitos anos”, frisou. “Nessas situações de cooperação com o exterior a nova lei determina as regras, a carga

“O Governo não vai alterar o quadro jurídico das instituições de ensino. Essa foi uma boa opção do Governo, acatou as nossas opiniões.”

horária e o modo de funcionamento dos cursos. Há, por exemplo, instituições do Havai e da Austrália que têm cursos em Macau, e os procedimentos são fiscalizados pelo Gabinete de Apoio ao Ensino Superior. Há na lei uma secção própria para regulamentar esta matéria”, disse o deputado eleito pela via indirecta. A nova lei do ensino superior chegou à AL em 2014, depois de um período de análise de dez anos para a sua implementação.

CHAN CHAK MO DEPUTADO

andreia.silva@hojemacau.com.mo

Andreia Sofia Silva

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ANÚNCIO CONCURSO PÚBLICO N.º 23/P/17 Faz-se saber que, por despacho do Ex.mo Senhor Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, de 22 de Junho de 2017, se encontra aberto o Concurso Público para <<Fornecimento e Instalação de Dois Sistemas de Equipamentos de Ecografia Ultrasónica para o Serviço de Obstetrícia e Ginecologia dos Serviços de Saúde>>, cujo Programa do Concurso e o Caderno de Encargos se encontram à disposição dos interessados desde o dia 5 de Julho de 2017, todos os dias úteis, das 9,00 às 13,00 horas e das 14,30 às 17,30 horas, na Divisão de Aprovisionamento e Economato destes Serviços, sita no 1.º andar, da Estrada de S. Francisco, n.º 5, Macau, onde serão prestados esclarecimentos relativos ao concurso, estando os interessados sujeitos ao pagamento de MOP48,00 (quarenta e oito patacas), a título de custo das respectivas fotocópias (local de pagamento: Secção de Tesouraria dos Serviços de Saúde) ou ainda mediante a transferência gratuita de ficheiros pela internet no website dos S.S. (www.ssm.gov.mo). As propostas serão entregues na Secção de Expediente Geral destes Serviços, situada no r/c do Centro Hospitalar Conde de São Januário e o respectivo prazo de entrega termina às 17,30 horas do dia 4 de Agosto de 2017. O acto público deste concurso terá luar no dia 7 de Agosto de 2017, pelas 10,00 horas, na “Sala Multifuncional”, sita no r/c da Estrada de S. Francisco, n.º 5, Macau. A admissão a concurso depende da prestação de uma caução provisória no valor de MOP60.000,00 (sessenta mil patacas) a favor dos Serviços de Saúde, mediante depósito, em numerário ou em cheque, na Secção de Tesouraria destes Serviços ou através da Garantia Bancária/Seguro-Caução de valor equivalente. Serviços de Saúde, aos 29 de Junho de 2017. O Director dos Serviços Lei Chin Ion


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O São Januário nega a existência de erro médico no caso do doente que faleceu nas suas instalações após ter sido internado com pneumonia. A reacção chega depois da filha do falecido ter afirmado à comunicação social que o hospital não cumpriu as directrizes de prática clínica

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STA semana, o site All About Macau noticiou que um homem morreu de pneumonia na sequência de um tratamento pouco eficaz. A filha do falecido alega incumprimento por parte do pessoal do Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) e prescrição de medicamentos errados. O centro hospitalar nega, em comunicado, qualquer responsabilidade, especi-

Saúde HOSPITAL NEGA RESPONSABILIDADES NA MORTE DE PACIENTE COM PNEUMONIA

Foi negligência, disse ela ficando que o homem em causa, com 74 anos, sofria de doença respiratória crónica e insuficiência cardíaca. Além disso, o paciente apresentava sintomas de infecção do tracto respiratório e urinário, tendo sido avaliado o seu estado de saúde como instável. Os serviços do CHCSJ argumentam que o pessoal médico procedeu com diligência ao tratamento do doente, assim como à aplicação adequada de toda a medicação. O hospital afirma que a administração de antibióticos foi realizada conforme as normas da Comissão de Antibióticos do CHCSJ. Nesse sentido, os serviços do hospital discordam das opiniões dadas pela filha do falecido, considerando que são “acusações injustificadas relativas à decisão clínica do médico especialista” que seguiu o paciente em causa.

CONHECIMENTO DE CAUSA

A filha do defunto mencionou à comunicação social ter conhecimento profissional no que toca a questões pneumológicas. Em entrevista à Rádio Macau, a enlutada disse ser interna complementar em cirurgia torácica

Os serviços do CHCSJ argumentam que o pessoal médico procedeu com diligência ao tratamento do doente, assim como à aplicação adequada de toda a medicação de um serviço de cirurgia num hospital de referência de Taiwan. Credenciais que não convencem os serviços do CHCSJ que dizem, em comunicado, que a médica

em questão não é especialista em pneumologia, ou médica especialista em doenças graves e de emergência. Após a observação e tratamento, o médico res-

GOVERNO ASSEGURA QUE IMPORTAÇÃO DE VEÍCULOS SEGUE REGRAS

A

Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) afirma que o Executivo apenas autoriza a importação de viaturas pesadas de passageiros após um processo rigoroso que inclui a apresentação de um local para estacionamento do veículo. Os serviços de tráfego acrescentam que caso este requisito não se verifique, os pedidos não são deferidos e a viatura

SOCIEDADE

não é autorizada a entrar no território. A garantia foi dada em resposta a uma interpelação de Ella Lei. A deputada pediu ao Governo que resolva a “escassez severa” de espaço para o estacionamento de viaturas pesadas, em especial as que fazem a recolha de lixo. Ella Lei especificou que, em Fevereiro deste ano, existiam em Macau 7819 veículos pesados no território. De acordo com

os dados dos Serviços de Estatística, estão disponíveis no território 527 lugares de estacionamento para viaturas pesadas, das quais 44 são destinados a autocarros para transporte de passageiros. Esta situação, referiu Ella Lei, força as empresas da indústria dos transportes a violar a lei. Nesse sentido, a DSAT lamenta a insuficiência de terrenos que possam ser usados para estacionamen-

to deste tipo de veículos de mercadorias, assim como para os autocarros turísticos. Em resposta à interpelação de Ella Lei, os Serviços de Tráfego acrescentam que vão continuar a receber as opiniões do sector e a cooperar com as autoridades competentes para alargar espaços disponíveis. HM

ponsável pelo paciente em questão explicou à esposa, que estava presente no hospital, que o estado de saúde do Sr. Kou era crítico, apresentando falência múltipla de órgãos, com particular destaque para a insuficiência cardíaca. O comunicado do CHCSJ acrescenta que, de acordo com o registo constante no processo clínico, a família do paciente manifestou compreensão e concordou que o doente não

fosse enviado para a Unidade de Cuidados Intensivos para tratamento adicional. Este é um dos argumentos do hospital para afastar a acusação da Sr.ª Kou que afirma terem ocorrido falhas de conhecimento de técnicas médicas e incumprimento de directrizes da prática clínica. Os serviços hospitalares esclarecem que o Sr. Kou foi “sujeito a observação atenta”, que foi tratado adequadamente, e vigiado por um aparelho de monitorização de vida, durante 24 horas. Em comunicado, o CHCSJ desmente a alegação dos familiares do paciente que dizem ter tocado constantemente na campainha para chamar os profissionais de saúde. O doente viria a morrer devido à falência de múltiplos órgãos, após ter sido sujeito a repetidas manobras de reanimação. Os serviços do CHCSJ adiantam ainda que, caso a família do falecido entenda ter ocorrido erro médico, deve apresentar o respectivo pedido de perícia médica à Comissão de Perícia do Erro Médico. A família pode também recorrer à via judicial para proteger os direitos que entenda terem sido posto postos em causa. HM

LIBERDADE ACADÉMICA SOU CHIO FAI NEGA RELATÓRIOS EM CASO DE VIAGENS PRIVADAS

O coordenador do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES), Sou Chio Fai, afirmou ontem que os docentes das instituições locais só são obrigados a fazer um relatório das deslocações ao exterior quando viajam em serviço. A reacção, noticiada pela Rádio Macau, surge na sequência da denúncia de que a liberdade académica está a diminuir na Universidade de Macau, ao ponto de os professores terem de reportar sobre viagens a Taiwan. “Qualquer entidade com apoios ou fundos públicos, quando organiza missões oficiais, tem de indicar com que entidades ou pessoas se vão se reunir. É uma prática normal. Não tem nada que ver com autonomia pedagógica ou de investigação”, começou por explicar Sou Chio Fai. O responsável do GAES rejeita a ideia de que os docentes têm de fazer relatórios quando viajam a título pessoal. “Não tenho conhecimento destas regras em nenhum serviço público”, afiançou.


10 Kodo CONCEITO JAPONÊS INSPIRA FORTES PAKEONG SEQUEIRA

HONG KONG A HISTÓRIA QUE OS MORTOS CONTAM

É

um passeio dedicado a quem gosta de história. Está marcada para o próximo sábado, em Hong Kong, mais uma iniciativa do historiador Jason Wordie, que organiza com regularidade caminhadas por diferentes pontos da antiga colónia britânica. Os percursos são acompanhados com enquadramentos e explicações sobre o passado do território. Desta feita, a proposta leva os interessados até Happy Valley, uma das zonas da ilha de Hong Kong “com maiores contradições urbanas”, refere a organização do evento. Nas imediações do Hong Kong Jockey Club, vários cemitérios recebem os mortos de diferentes religiões: muçulmanos, católicos romanos e hindus. É ali também que está o Cemitério de Hong Kong – em tempos conhecido como Cemitério Colonial – onde estão sepultados protestantes europeus, ortodoxos russos e seguidores de outras religiões. Várias campas estão ocupadas com os restos mortais de japoneses que viveram em Hong Kong antes da guerra, sendo que muitas delas são de jovens mulheres. Com o passeio pretende-se dar a conhecer, a partir dos cemitérios, as contribuições sociais e económicas das várias comunidades que passaram por Hong Kong durante o último século e meio. Jason Wordie é um historiador que vive em Hong Kong e que organiza este tipo de visitas com regularidade. Tem vários livros publicados sobre a antiga colónia britânica e também sobre Macau.

POPO UP EM M É uma exposição relâmpago. Acontece num stand de automóveis e apresenta sete trabalhos de Fortes Pakeong Sequeira. A ideia é mostrar o que a pintura pode fazer tendo por base o conceito japonês de Kodo, o novo modelo da marca, mas também o ponto de partida para a exploração plástica

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA A DIETA DOS 31 DIAS • Ágata Roquette

Está farta de dietas que não funcionam? Que a obrigam a passar fome? Em que emagrece um quilo e logo recupera dois? Dietas com alimentos que não encontra nos nossos supermercados e restaurantes? Que a proíbem de comer o pão ao pequenoalmoço de que tanto gosta? Não quer tomar medicamentos nem suplementos dispendiosos para emagrecer? Então este livro é para si. Ágata Roquette traz-lhe uma dieta inovadora, adaptada aos hábitos alimentares portugueses, onde o resultado é garantido. No final do mês, a sua balança vai acusar menos 3 a 5 quilos, se for mulher, e 5 a 8 quilos, se for homem.

artista multifacetado local Fortes Pakeong Sequeira alinhou agora num projecto diferente. O convite para a produção de uma exposição individual que tivesse como mote um modelo de carro veio da Mazda. Pakeong não hesitou. Kodo, mais do que uma palavra ou modelo de carro, é um conceito. “A palavra é japonesa e transmite uma ideia para apresentar um carro, mas refere-se sobretudo à ideia de movimento, de andamento fluido”, diz o artista ao HM. Foi esta analogia que deu a Fortes Pakeong Sequeira o mote para começar a produzir os trabalhos que integram a exposição em formato pop up, com data marcada para o próximo sábado. A mostra do artista local reúne sete trabalhos, entre acrílico e marcador sobre tela, sendo que “uns são grandes e outros mais pequenos”, dependendo como sentia o trabalho que ia fazendo. Quando teve conhecimento do convite para a produção da exposição, começou a investigar o conceito que lhe foi dado. “Aca-

SOFIA MARGARIDA MOTA

EVENTOS

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O DIABO E A GEMADA • Sveva Casati Modignani

Em 1943, Milão está sob as bombas dos Aliados, e nas proximidades da via Padova, uma criança extraordinariamente curiosa, inicia a sua aprendizagem de vida. Chama-se Sveva e tem 5 anos. É este o contexto de “O Diabo e a Gemada”, um relato autobiográfico em que a autora percorre os anos da Segunda Guerra Mundial, que se desenrolam entre a casa de família em Milão e uma quinta, nos arrozais de Trezzano sul Naviglio, na Lombardia. A comida é o fio condutor que atravessa os episódios deste relato, em que se entrelaçam memórias e emoções, sabores e receitas e cujos acontecimentos estão sempre ligados à elaboração de um prato ou a uma refeição partilhada.


11

MOVIMENTO

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“Acabei por perceber que para mim era uma área divertida e que Kodo tinha muito por onde pegar.” FORTES PAKEONG SEQUEIRA ARTISTA PLÁSTICO

bei por perceber que para mim era uma área divertida e que Kodo tinha muito por onde pegar”, conta o artista. Simultaneamente, Fortes Pakeong Sequeira, foi notando que o que teria de tratar seria algo que não se pode tocar, mas que se sente. “É relativo a um objecto irreal, é mais como um sentimento que tem que ver com movimento e mesmo com velocidade”, diz. Para o artista é uma espécie de linha invisível, que anda, e é esta a ideia que pretende transmitir principalmente com as peças que utilizam o desenho a marcador.

EM GRANDE FORMATO

Por outro lado, não deixa de fazer referência a uma tela de grande dimensão que estará no stand da Mazda de Macau. “Um dos trabalhos novos que fiz é uma peça em grande escala. O nome é apenas Kodo.” É também este o trabalho que materializa a ideia original, feito em apenas uma semana. “Quando comecei esta

obra de maior dimensão – três metros por quase dois – era para ser uma peça feita apenas com o recurso a marcador sobre tela.” O objectivo, sublinha, era mostrar com a técnica uma abordagem ao mais básico que o conceito poderia ter. Com o andar da produção, as ideias foram crescendo e Fortes quis transmitir mais. “Depois de dois dias de trabalho senti que não era suficiente. Percebi que havia muito mais coisas que queria dizer e transmitir às pessoas, foi quando comecei a usar acrílico e a cor.” Para o artista, apesar de o trabalho estar associado a uma campanha de publicidade, não deixa de ser interessante. “O conceito da própria marca é muito bom, e capaz de ser passado para a pintura, por exemplo, até porque se trata de uma ideia que vai além do carro, da máquina em si, e pode ser explorado de várias formas.” Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com

CINEMA ESCOLHIDOS REPRESENTANTES DE MACAU EM FEIRA REGIONAL

O

Instituto Cultural (IC) escolheu nove projectos cinematográficos para participar na Feira de Investimento na Produção Cinematográfica entre Guangdong – Hong Kong – Macau 2017. O certame realiza-se nos dias 25 e 26 deste mês, e será uma oportunidade para os cineastas locais conhecerem investidores e produtores das três regiões e apresentar-lhes os seus projectos cinematográficos. Os candidatos

seleccionados são: Vong Tin Leong, Long Wai I, Wong Kong Po, Tong Ka Chun, Ieong Lek On, Lou Ka Hou, Fernando Eloy, Vincent Hoi e Wong Teng Teng. O evento, que vai na quarta edição, tem como objectivo proporcionar uma plataforma de qualidade que facilite contactos entre produtores e cineastas de forma a criar oportunidades de investimento e cooperação. Outro dos objectivos será também

estimular os talentos da sétima arte, assim como promover o desenvolvimento da indústria do cinema nas três regiões. O júri teve como critérios de selecção a criatividade do argumento, experiência e capacidade do candidato e do produtor, assim como a racionalidade orçamental do projecto. Os candidatos seleccionados serão notificados pelo IC nos próximos dias.

EVENTOS

LMA MÚSICA DA ROMÉNIA PARA MACAU

Amanhã é dia de concerto internacional no Live Music Association (LMA). Sobe ao palco Stefana Fratila. Nascida na Roménia, a artista vive agora no Canadá, onde tem desenvolvido a sua carreira na música, paralelamente à actividade de estudante. Entre o electrónico e o experimental, Stefana Fratila já é tida como uma voz de intervenção. “Stefana consegue comunicar pensamentos sobre a opressão, a violência e o papel dos media no desenvolvimento da sociedade moderna”, lê-se numa apresentação da artista. O segredo está “numa visão particular das sonoridades que explora e nas letras que compõe”. O concerto tem início às 22h. Os bilhetes custam 100 patacas na compra antecipada e 120 se adquiridos à entrada.

SANDS CONCURSO PARA TALENTOS LOCAIS

Amanhã, pelas 19h30, tem lugar mais um concurso dedicado aos compositores locais. A iniciativa é da Macau Association of Composers, Authors and Publishers (MACA) e decorre no Sands Theater. De acordo com o comunicado enviado à comunicação social. o objectivo do evento que se realiza anualmente é “incentivar o desenvolvimento das indústrias criativas locais, e oferecer aos criadores de Macau a oportunidade de brilhar e obter experiências únicas”. O júri é composto pelos compositores e produtores de Hong Kong Schumann, Chan Wing Him, Adrian Chan e Larry Wong. O papel do painel de avaliação é não só o de seleccionar os vencedores mas, essencialmente, o de dar um feedback construtivo aos participantes “de modo a que possam ter progressos nas respectivas carreiras artísticas”. O evento conta ainda com a participação especial de Jonathan Wong e de Jill Vidal, também de Hong Kong.

ALBERGUE SCM AGENTES DA PSP MOSTRAM TRABALHOS DE PINTURA

Entre os dias 12 e 30 deste mês estará patente ao público a “Exposição de Obras Artísticas dos Agentes do CPSP 2017” no Albergue da Santa Casa da Misericórdia. As obras são da autoria dos alunos da turma de Belas Artes do Corpo da Polícia de Segurança Pública. Os estudantes utilizaram várias técnicas de expressão artística na realização das obras, tais como a aguarela, acrílico, pintura a óleo, caligrafia e colagem de mosaico. A ideia da exposição, de acordo com comunicado, é criar um intercâmbio entre a sociedade, os visitantes que passam pela cidade e a polícia de Macau. A exposição pretende ainda promover a comunicação e confiança entre a população e a autoridade policial. A exposição pode ser visitada de terça-feira a domingo, das 12h às 20h, e à segunda-feira das 15h às 20h, com entrada gratuita.


12 CHINA

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MÉDICOS ESTRANGEIROS CONVIDADOS PARA EXAMINAR SAÚDE DE LIU XIAOBO

A

PEQUIM E MOSCOVO APRESENTAM PLANO CONJUNTO PARA COREIA DO NORTE

Meter água na fervura Pyongyang deve parar com os mísseis e EUA e Coreia do Sul com os exercícios militares. Para já. Depois logo se vê.

R

ÚSSIA e China apresentaram nesta terça-feira um plano para tentar diminuir as tensões causadas pelo programa nuclear da Coreia do Norte. A iniciativa propõe que os norte-coreanos declarem uma moratória dos seus testes de mísseis e demais actividades nucleares e que, ao mesmo tempo, Estados Unidos e Coreia do Sul suspendam os exercícios militares conjuntos. As sugestões foram apresentadas pelos MNE da

Rússia e da China depois de conversações entre os presidentes Vladimir Putin e Xi Jinping, motivadas por um novo teste de míssil pela Coreia do Norte. As duas potências rejeitaram o uso da força e defenderam a coexistência pacífica. Segundo Putin, as duas partes concordaram em levar adiante “uma iniciativa comum, que está baseada no plano russo de resolução do conflito coreano por etapas e a ideia chinesa de congelar paralelamente as actividades nucleares e de mísseis da Coreia do Norte e as manobras militares em larga escala de Estados Unidos e Coreia do Sul”. Rússia e China manifestaram “profunda preocupação com o anúncio da Coreia do Norte, de 4 de Julho, sobre o lançamento de um míssil balístico”, que consideram um facto inadmissível, já que contradiz resoluções do Conselho de Segurança da ONU. “As partes pedem reiteradamente à Coreia do Norte para que cumpra

de maneira estrita as cláusulas incluídas nas citadas resoluções.” Além disso, os dois países frisaram que a instalação do escudo antimísseis Thaad dos Estados Unidos na Coreia do Sul “representa um grave prejuízo para os interesses de segurança estratégica dos países da região, incluindo Rússia e China”. “As preocupações da Coreia do Norte devem ser respeitadas”, afirmaram. Os

países envolvidos devem realizar esforços para a retomada das negociações e para a criação de “uma atmosfera de paz e de confiança mútua”. A Coreia do Norte anunciou nesta terça-feira o lançamento do seu primeiro míssil balístico intercontinental, um marco no programa armamentista do regime coreano, embora a Rússia afirme que se trata de um míssil de médio alcance.

ONU EUA PEDEM REUNIÃO DO CONSELHO DE SEGURANÇA

A

embaixadora dos Estados Unidos na ONU, Nikki Haley, pediu nesta terça-feira uma reunião urgente do Conselho de Segurança para abordar o lançamento de um míssil balístico intercontinental pela Coreia do Norte. O porta-voz da missão dos EUA na ONU, Jonathan Bachtel, informou sobre o pedido no Twitter. Além disso, Haley pediu ao embaixador da China na ONU, Liu Jieyi, que preside o Conselho de Segurança neste mês, que mantenha a sessão de emergência aberta. Os EUA confirmaram que o projéctil lançado ontem pela Coreia do Norte era um míssil balístico intercontinental, o primeiro com essas características que Pyongyang consegue lançar com sucesso. O míssil voou por mais tempo do que todos os outros testados pelo regime de Kim Jong-un até então, um total de 37 minutos, o que significa que agora a Coreia do Norte é capaz de atacar o Alasca.

China convidou médicos estrangeiros para examinar o estado de saúde do Nobel da Paz Liu Xiaobo, recentemente colocado em liberdade condicional e hospitalizado devido a um cancro, anunciaram ontem as autoridades chinesas. “A pedido da família de Liu Xiaobo”, o hospital de Shenyang (nordeste da China), onde está hospitalizado o dissidente, “convidou os principais especialistas mundiais em cancro do fígado, dos Estados Unidos, da Alemanha, e de outros países, para se deslocarem à China” para o examinar, indicou em comunicado o gabinete dos assuntos judiciários de Shenyang. O activista foi condenado em 2009 a 11 anos de prisão por subversão. Vários países tinham pedido a Pequim para autorizar Liu Xiaobo a

viajar para o estrangeiro para tratamento médico, um pedido também manifestado por organizações não-governamentais e de defesa dos direitos humanos. Também em Hong Kong, na semana passada, durante a visita à cidade do Presidente chinês, Xi Jinping, foram realizados vários protestos a pedir a libertação incondicional do activista chinês e da mulher, Liu Xia, colocada em prisão domiciliária em 2010, depois da atribuição do Nobel ao marido, embora nunca tenha sido acusada de qualquer crime.

GÁS RUSSO NA CHINA EM 2019

A entrega de gás russo à China através do gigantesco gasoduto “Força Siberiana” deve começar em Dezembro de 2019, anunciou nesta terça-feira o presidente da Gazprom, Alexei Miller. “Foi fechado um acordo entre a Gazprom e o nosso sócio chinês, a CNPC, sobre a data para começarem as entregas de gás pelo ‘Força Siberiana’. Acordámos o dia 20 de Dezembro de 2019”, declarou Miller à imprensa. Após dez anos de duras negociações, a Gazprom e a CNPC assinaram, em 21 de Maio de 2014, um contrato de fornecimento de gás russo à China pelo gasoduto, estimado em cerca de 400 mil milhões de dólares, num período total de 30 anos. O gasoduto, baptizado de “Força Siberiana”, vai conectar, através de mais de 4 mil km de tubos, os campos de gás da imensa República da Iakútia, na Rússia, e o Mar do Japão, assim como o leste da fronteira chinesa. A Gazprom anunciou em várias ocasiões a sua intenção de aumentar as suas vendas na Ásia, um forte mercado com preços elevados, enquanto preserva as suas relações com os clientes europeus.

PANDAS SOLARES

O grupo chinês CMNE (China Merchants New Energy), um dos principais investidores em energia solar do país, acaba de inaugurar a primeira de uma série de usinas em formato de panda, animal símbolo da China. A central solar Datong, que fica na província Shanxi, já foi conectada à rede. Segundo a CMNE, na sua capacidade total, a central poderá oferecer 3,2 mil milhões de kWh (quilowatt-hora) de energia verde em 25 anos, “o equivalente a economizar 1,056 milhões de toneladas de carvão ou a reduzir 2,74 milhões de toneladas de emissões de dióxido de carbono”, afirma a empresa em nota. O projecto foi lançado em Maio de 2016, como parte de um acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) para construir centrais solares com formato de panda. A empresa diz que a iniciativa “é de grande importância para a implementação global de energia verde, a comunicação do conceito verde e a transformação de energia.” Nos próximos cinco anos, o programa “Panda 100” construirá centrais solares no mesmo estilo em diversas regiões da China.


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O

S EUA tradicionalmente assumem a liderança na procura de abordagens comuns aos grandes problemas mundiais do momento nas cimeiras do G-20. Mas não desta vez. Quando os líderes mundiais se reunirem em Hamburgo na sexta-feira, China e Alemanha vão tentar usurpar esse papel aos EUA. As duas potências industriais da Ásia e da Europa estão a ser incentivadas a formar uma aliança informal para assumir a batuta da liderança que os EUA perderam desde que o presidente Donald Trump tomou posse no começo deste ano, de acordo com diplomatas e autoridades de diversos integrantes do G-20. A situação cristalizou-se antes da reunião anual do G-20 deste ano, que será realizada no mais movimentado porto comercial da Alemanha. Pela primeira vez desde a fundação do grupo, os EUA serão representados por um presidente adepto do proteccionismo, abandonando décadas de uma fervorosa defesa do comércio livre por parte dos EUA.

Que viva Trump!

tuação Trump”, disse Diego Ramiro Guelar, embaixador em Pequim da Argentina, que também integra o G-20. “Os dois líderes mais importantes do mundo no momento são o presidente Xi e a chanceler Merkel.”

China e Alemanha preenchem lacuna de liderança deixada pelos EUA “O carácter estratégico das relações entre China e Alemanha está continuamente a ganhar importância”, disse o presidente chinês, Xi Jinping, num artigo publicado na terça-feira no jornal alemão Die Welt. Os dois países “deveriam intensificar a cooperação para implementar ‘Uma Faixa, uma Rota da China’ e contribuir conjuntamente para a segurança, a estabilidade e a prosperidade dos países vizinhos”. Os EUA também se isolaram em relação ao aquecimento global na cimeira realizada em Maio pelo G-7 em Itália, onde o comunicado final se dividiu em seis contra um nesta questão. Desta vez, Trump corre o risco de ficar sozinho contra uma frente unida de

INTERESSES COMUNS

aliados europeus, vizinhos como o Canadá e o México, e antigos inimigos dos EUA na Guerra Fria nos dois tópicos mais importantes da cimeira. Na condição de anfitriões actual e anterior, a chanceler alemã Angela Merkel e Xi Jinping teriam trabalhado juntos na programação do G-20 de qualquer modo. No entanto, três visitas do primeiro-ministro chinês Li Keqiang à Alemanha até o momento, a mais recente no mês passado, sugerem que os dois países estão alinhados para ocupar um espaço maior que, pelo menos temporariamente, os EUA deixaram vazio na presidência de Trump. “A nova aproximação entre China e Alemanha aconteceu por causa da si-

Os vínculos entre a China e a Alemanha têm se fortalecido há anos, graças a interesses económicos comuns que não enfrentam obstáculos como as rivalidades geopolíticas que complicaram as relações entre Pequim e Washington muito antes da eleição de Trump. A Alemanha precisa de mercados para os seus veículos e máquinas industriais de ponta, e a China deseja-os — tanto que comprou a companhia alemã de robótica Kuka. Os EUA “deixaram uma espécie de lacuna” na região quando abandonaram a proposta do acordo de comércio livre Parceria Transpacífico, disse Michael Clauss, embaixador da Alemanha em Pequim, em entrevista recente com jornalistas. O objectivo do acordo era construir um bloco de livre

comércio centrado nos EUA entre os países do Círculo do Pacífico, do Chile ao Vietname, como alternativa às iniciativas mais dominadas

pela China, como “Uma Faixa, uma Rota”. Trump retirou os EUA dos planos da Parceria Transpacífico um dia depois de tomar posse.

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Arresto (apenso) N.º

HM • 1ª VEZ • 6-7-17

HM • 2ª VEZ • 6-7-17

ANÚNCIO

ANÚNCIO

CV1-17-0002-CPE-A

Requerente: Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, S.A., com sede em Macau na Avenida de Lisboa, n.ºs 2-4, Edifício do Hotel Lisboa, 9.º andar. ------------------------------Requerida: Grupo Long Hai Limitada, com sede em Macau na Calçada do Gaio 14A a 14B, Edf. Lei On, rés-do-chão. ---------------------------------------------------------------------------FAZ-SE SABER que pelo 1º Juízo Cível deste Tribunal, correm éditos de TRINTA DIAS, contados a partir da segunda e última publicação do respectivo anúncio, citando a Requerida, supra identificada, de que por sentença de 09/12/2016, proferida nos autos supracitado, foi ordenado o arresto dos seguintes bens existência no estabelecimento comercial “Restaurante de Cerveja Pou Loi Lap”, sito no Rés-do-chão da Torre de Macau, para garantia o pagamento integral da dívida a Um Milhão, Cento e Trinta e Duas Mil, Quatrocentas e Trinta Patacas e Noventa e Quatro Avos (MOP$1.132.430,94). -------------Bens Arrestados ----1. ----2. ----3. ----4. ----5. ----6. ----7. ----8. ----9. ----10. ----11. ----12. ----13. ----14. ----15. ----16. ----17. ----18. ----19. ----20. ----21. ----22. ----23. ----24. ----25. ----26. ----27. ----28. ----29. ----30. ----31. ----32. ----33. ----34.

Hand wash sink----------------------------------------------------------------------Wall mounted 2-tier shelf-----------------------------------------------------------3-door work top refrigerator w/ marble top--------------------------------------2-door work top refrigerator--------------------------------------------------------Table mounted 2-tier shelf----------------------------------------------------------48” food warmer----------------------------------------------------------------------Table mounted 2-tier shelf----------------------------------------------------------2-door work top refrigerator--------------------------------------------------------Fire rated partition--------------------------------------------------------------------Bain marine---------------------------------------------------------------------------Table mounted 2-tier shelf----------------------------------------------------------Table mounted 2-tier shelf----------------------------------------------------------Sink table w/ grease trap------------------------------------------------------------2-door work top refrigerator--------------------------------------------------------Table mounted 2-tier shelf----------------------------------------------------------5-tier mobile wire shelf (1050x450x1900mmH)--------------------------------Stock post stove-----------------------------------------------------------------------Fire rated partition-------------------------------------------------------------------1- head Chinese wok range---------------------------------------------------------Wall mounted slatted shelf----------------------------------------------------------6-head open burner range-----------------------------------------------------------Electric oven--------------------------------------------------------------------------Fire rated partition--------------------------------------------------------------------Salamander w/ base shelf-----------------------------------------------------------Work top table w/ 2 tier shelf-------------------------------------------------------LPG Griddle w/ open cabinet-------------------------------------------------------Wall mounted slatted shelf----------------------------------------------------------LPG Grooved griddle w/ open cabinet--------------------------------------------Single tank fryer----------------------------------------------------------------------Exhaust hood-------------------------------------------------------------------------Work top cabinet---------------------------------------------------------------------Mobile work top table w/ 2 tier shelf----------------------------------------------Work top table w/ 2 tier shelf-------------------------------------------------------2-door work top refrigerator---------------------------------------------------------

1.º Juízo Cível

----35. Wall mounted display refrigerator-----------------------------------------------------36. Mobile 4-door upright freezer----------------------------------------------------------37. Sink table w/ grease trap----------------------------------------------------------------38. Ice maker----------------------------------------------------------------------------------39. Hand wash sink--------------------------------------------------------------------------40. Speed rail---------------------------------------------------------------------------------41. Cocktail station---------------------------------------------------------------------------42. Sink table w/ grease trap----------------------------------------------------------------43. Work top table----------------------------------------------------------------------------44. Work top table----------------------------------------------------------------------------45. Beer dispenser (By client)---------------------------------------------------------------46. Work top table----------------------------------------------------------------------------47. Work top cabinet--------------------------------------------------------------------------48. 4-door work top refrigerator------------------------------------------------------------49. 4-door work top refrigerator------------------------------------------------------------50. Work top cabinet--------------------------------------------------------------------------51. Work top cabinet (By others)-----------------------------------------------------------52. Coffee machine with grinder (By others)---------------------------------------------53. Undercounter 1-door freezer------------------------------------------------------------54. Mobile 4-door upright freezer----------------------------------------------------------55. Television---------------------------------------------------------------------------------É expressamente advertida à citanda, nos termos do artigo 333.º do Código de Processo Civil, que dispõe do prazo de DEZ DIAS, findo o dos éditos para apresentar o recurso ou oposição contra a sentença que decretou a providência.---------------------------------------------------------Tudo como melhor consta do duplicado do requerimento inicial que se encontra nesta secretaria à disposição da citanda, sob a cominação de, que a falta de recurso ou oposição, em caso de revelia absoluta, não importa o reconhecimento dos factos articulados pela Requerente, ficando a mesma advertida de que é obrigatória a constituição de advogado (art. 74.º do C.P.C.). *** R.A.E.M., aos 21 de Junho de 2017

AUTOS DE INTERDIÇÃO

CV3-17-0025-CPE

3º Juízo Cível

REQUERENTE: O MINISTÉRIO PÚBLICO, JUNTO DO T.J.B. da R.A.E.M. ----------------------------------------------------------------REQUERIDA: CHAO, MOU SUN.------------------------------------***** FAZ-SE SABER que, foi distribuída neste Tribunal, em 06 de Junho de 2017, uma Acção de Interdição, com o número acima indicado, em que é Requerida CHAO, MOU SUN, viúva, titular do BIR nº 5037035(2), nascida a 05/12/1950, internada no Centro Hospitalar Conde de S. Januário, para efeitos de ser decretada a sua interdição por anomalia psíquica. ---------------------------------RAEM, 23 de Junho de 2017


h ARTES, LETRAS E IDEIAS

14

Amélia Vieira

O

manuscrito, que tanto saiu de moda nas lides da escrita, tem ainda pelo mundo alguns amantes que em colecções de muita beleza e criatividade unem não só a arte da caligrafia como expressão visual identitária de cada um, bem como nela inserem a pintura e o desenho numa orquestração de Livro de Horas. Falo de uma criação que há muito galgou o espaço da sua origem e tem unido poetas e pintores pelo mundo « Livre Pauvre-Livre Riche», criado por Daniel Leuwers, professor de literatura na universidade de Tours, crítico literário e especialista de Rimbaud. Um livro que em si resume a natureza principal que o objecto designa, neste caso, um texto, sempre acompanhado de uma composição pictórica que releva para a sua primeira essência : sendo de uma extrema humildade, pois que não passa pelos circuitos editoriais, impressão, distribuição e outros, é no entanto o mais luxuoso objecto livresco dadas a sua raridade e composição e foi por isso assim apelidado por causa da não confrontação com o circuito económico. Por outro lado, a primeira colecção foi apresentada no priorado de Saint-Cosme, situado em La Riche, onde Pierre de Ronsard viveu os seus últimos vinte anos. O poeta, que era dado à botânica e cultivou rosas, não foi esquecido neste emblemático título. É um projecto que começou por volta do ano dois mil com um vasto roteiro de correspondência pelo mundo e onde todos se foram agrupando de forma criativa, consensual, rica, em relação a projectos e aberturas de múltiplas formas. Há colecções belíssimas, desde a Gallimard às autarquias por onde passaram algumas das suas exposições de exemplares únicos em várias línguas e formatos, sem dúvida uma Babel multicultural

repleta de cor e grafismos raros. Foi por aqui que conheci o poeta sírio-libanês, Adonis, outros da Martinica e argelinos, um mundo onde a política não toca, mas onde os poetas têm o dever de se comprometer na luta pelo bem dos povos sem resvalarem na forma agreste dos comentaristas, um mundo quase belo num desastre ambientalista de ideologias e esquemas internacionalmente enfadonhos, esses, sim, pobres, muito pobres. Teve contudo este projecto o chamado projecto-mãe: a colecção « Vice Versa» com os seus delfins e grandes adeptos do livro de artista como Jacques Dupin, Bernard Noel, Jean-Luc Parant e Yves Bonnefoy, que se associou ao pintor Gérard Titus-Carmel, consagrando apaixonantes estudos. Quase que estamos numa emanação desse Livro de Horas na pista do duque de Berry, mas esta colecção galgou as fronteiras da poesia e foi extensível a Michel Tournier, Fernando Arrabal, Jean-Marie Laclavetine e outros, e se nos remetermos à ideia de Jean Cocteau para quem tudo era poesia: poesia do romance, poesia do teatro... poesia da poesia, então, estamos na presença de um grande e imenso tratado poético. E continua a sua marcha com outra das colecções «Les amoureux solaires», a colecção «Pli», em dois mil e três e que vai em definitivo encontrar a simplicidade de uma folha de papel, anotando a expressão de Mallarmé na sua nomeação, é uma colecção da francofonia pelo mundo; colecção « Éventail», com o poeta vietnamita Nguyen Chi Trung, um iminente calígrafo que nesta colecção se apresenta como escriba. Depois, Portugal- Brasil, onde venho com Victor Belém numa Lua-Nova que no dizer do autor é aquela que irradia no mundo, vem o poeta Ernesto Melo e Castro que gen-

PAULO NOZOLINO, UMBIGO

Livre Pauvre - Livre Riche

tilmente convidei via Leuwers num Fractal-Vento , Roberval Pereyr (quatro rotas de solidão), António Brasileiro com pintura de Juraci Dórea. Das Américas vêm também outros nomes como a jovem poeta colombiana Andrea Cote e do Quebéc Rocher des Roches e Jacques Rancourt. Há depois toda uma parte dedicada aos poetas helvéticos e seus pintores, um mundo de imensa perfusão e quase constelar. Em dois mil e quatro aparece « Feuillets entre-bâillés » que tanto entusiasmou os pintores sempre mais sensíveis ao formato da visualidade. Há um lado de «Caligramas» nesta colecção com a arte alfabética como base da expressão. « Feuillet d’album» a mais simples

das colecções que são quase pequenos haikus em folhas minúsculas , poetas tunisinos e belgas numa manifesta noção de economia verbal, Alexandre Voisard, Fernando Arrabal. Segue-se «Billet» que recebe o primeiro livro em língua alemã e o primeiro livro em língua árabe de Moncef Mezghanni. E a aventura continua. Uma bela colecção de dois mil e dezasseis «Entre Alfa e Omega», uma leitura Apocalíptica publicada em Angers do «Livre Pauvre» foi doada à Biblioteca Municipal que dela fez uma exposição com um livro-catálogo de rara beleza. É, sem dúvida, emblemática toda esta natureza da escrita e da sua complementar amiga, a pintura, poetas e pintores fo-

ram sempre próximos, e não raro se estimularam mutuamente para a realização das suas obras, e este imenso lastro de beleza relacional não raro me recorda os tempos em que se estava junto com todos, fazendo-nos mais completos e solidários, onde ainda não havia vedetas, nem cismas, ostracizados, que inundou de modo vário o presente em que vivemos. Parecendo tudo mais fácil, creio que é bem mais difícil formar com os da nossa natureza um mundo melhor. Dispersos os ossos como na «Quarta-feira de cinzas» quem voltará a juntá-los? Por outro lado, falta uma vocação nova ao país para certas coisas que o dinheiro pareceu amordaçar e a soberba contaminou. Estamos esquartejados uns para cada lado fazendo dos dedos a vocação que ainda não findou. Mas, se não fosse o mundo, que estaríamos também nós a fazer aqui tão dentro de casa? Nada. Com o que sabemos e podemos não tinham nada para nós. Mesmo assim, vamos deixando pedaços que o país guardará mais tarde como presentes indispensáveis e para os quais não soube ou mesmo se dignou olhar. O luxo estará hoje naquilo que é essencial e bom. Todos parecemos fatigados do forte entulho descritivo que conseguiu eludir o mundo de falsos saberes. Regressar “à La Pauvreté”. O país e a língua portuguesa continuarão a ter assento aqui se o desejarem e se para tanto o louvor de cada um não achar esta gesta um serviço menor. Nestas coisas devemos ser como os amantes: amar e não fazer perguntas, o resultado da confiança é sempre um alto instante poético. E resulta bem quando o espaço é alargado e cada um ressalva a sua memória e a sua cultura. É muito bom ele existir. É urgente que exista.


15 hoje macau quinta-feira 6.7.2017

diários de próspero

António Cabrita

Do trânsito da lucidez 02/07/2017 Leio uma longa e admirável entrevista de Susan Sontag à Rolling Stone, depois ampliada em livro, e, como sempre, há várias coisas que ela viu antes do tempo. Uma delas esta: «(...) voltando a falar de ciência, acho que um dos seus maiores feitos é o facto de que hoje, pela primeira vez na história do planeta, as pessoas têm a possibilidade de mudar de sexo». E dá como exemplo o caso de Jan Morris, um escritor de viagens britânico que em metade da vida e carreira foi homem e depois mulher, o que o fez escrever sobre Veneza a partir das duas percepções. Provavelmente a última grande aventura ontológica abissal talvez passe por esta mutação voluntária da identidade sexual. Não falo desse reajuste do corpo à representação psíquica duma sexualidade virtual e longamente desejada, como acontece na transsexualidade, mas de uma aventura infrapsíquica que explora o lado oculto de um continente subitamente iluminado. Da mesma forma que imagino que este tipo de experiência não se associa à bissexualidade, mas à dimensão distinta que só pode ocorrer com a imersão da nossa identidade num corpo outro, diverso. Em vez de irmos aos anéis de Saturno mudamos de corpo. Admito que o ser humano possa evoluir em urbanidade e empatia no dia em que, desviado da obsessão falocrática, lhe for comum atravessar ciclos de alternância na identidade sexual. Cresço como homem, sou depois transformado em mulher e volto a ser homem, até me instalar num estranhamento ao mundo que me induza a reparar nas singularidades que só uma outra percepção me propicia. Seria uma educação-para-o-outro radical mas talvez resolvesse insensibilidades profundas, um coeficiente de desatenção à vida, na sua textura plural. Estou prestes a aterrar em Lisboa, onde voltarei a comer caracóis, criatura que pode à vez ser macho e fêmea. Hei-de perguntar-lhes. Brinco, mas eu raramente brinco. Na mesma entrevista, Sontag discreteia sobre a sua viagem a Hanoi, em plena guerra do Vietname, e a sua reportagem, tão controversa, na qual não

lhões de equívocos. É um slogan que nasce ainda como efeito de uma ferida narcísica, sobrevinda duma situação pós-colonial. Precisamos de reinventar os Universais, para que possamos encetar um novo diálogo, mas primeiro teremos de lucidamente aceitar a irredutibilidade do outro e só a sua assimetria em relação a nós e aos nossos valores despertará a necessidade de compreendê-lo, sendo então possível negociar uma fronteira comum, na qual as nossas diferenças não colidam. Mas facto é: as fronteiras existem. Algo muito distinto da ideia que é veiculada pelas indústrias culturais e o seu afã de uniformização global, mas isso é já outra conversa.

iludiu a sua perplexidade face à personalidade colectivista dos vietnamitas. E, numa demonstração de honestidade intelectual, refere: «Senti que era importante reconhecer que os vietnamitas são diferentes de nós. Não gosto dessa ideia liberal de que todos somos iguais, acho que realmente existem diferenças culturais e que é muito importante ficarmos atentos a essas coisas. Então parei de lutar para que, de alguma forma, eles fossem compreendidos e me dessem algo que eu reconheceria como um acto generoso em relação a mim, porque o seu modo de expressar generosidade era diferente do meu. Eles têm o seu modo tradicional de agir e falar e o que entendem por intimidade não é o mesmo que nós entendemos. Era como se aprendesse um tipo de respeito pelo mundo. O mundo é complicado e não pode de modo nenhum ser reduzido ao modo que você acha que deve reduzi-lo». Treze anos depois de aterrar em África subscrevo inteiramente o que ela diz. A cultura africana é-me absolutamente exterior, nele antevejo o rosto da alteridade, e felizmente aterrei demasiado tarde (com 45 anos) para ter a ingenuidade de tentar a fusão. Um dos itens que nos diferencia sustentar-se-ia na circunstância de eu, como europeu, ser filho da Revolução Francesa e do Iluminismo, mas o que nos separa é mais profundo e gramatical, e, como ela diz: o que eles concebem como in-

Precisamos de reinventar os Universais, para que possamos encetar um novo diálogo, mas primeiro teremos de lucidamente aceitar a irredutibilidade do outro timidade, reciprocidade, amizade, responsabilidade social, fidelidade, liberdade, poder e mando, sobre o que seja a curiosidade ou para que serve o conhecimento, está nos antípodas das noções que adquiri e desenvolvi. Foi o que surpreendeu Sontag: os vietnamitas concebiam coisas muito divergentes sobre o uso a fazer da revolução, da sua liberdade e autonomia, das que a escritora americana (imbuída no espírito de uma esquerda que nunca deixa de repensar-se), havia alguma vez imaginado. E percebeu que viviam em mundos paralelos, que podiam ter intersecções, mas nunca poderiam coincidir. Respeitar isso é uma das maiores lições da vida. «Todos diferentes, todos iguais», um slogan que nasceu do multiculturalismo, foi um dos slogans mais enganosos das últimas décadas, que enfermou mi-

04/07/2017 Daqui a três dias o Boeing fará a sua manobra de aproximação a Lisboa e sobrevoarei o Tejo. Que foi para mim um grande foco de atracção porque eu cresci em Almada, na outra margem da capital. O rio representava o trânsito do desejo. E então fantasiava sobre ele, sobre a sua profundidade. Como acontece em certos troços do Nilo, menos de seiscentos metros de profundidade era algo de inconcebível para mim; espessura submarina povoada de criaturas tentaculares, assaz discretas e inenarráveis e que só em alturas de convulsão tectónica assomariam à superfície. Um dia, já nos trintas e muitos, tive acesso a uma carta do rio e foi um choque: no seu máximo de profundidade o Tejo não ultrapassa os 40 metros, e a maior parte do leito, entre o estuário e o Mar da Palha, queda-se a uns míseros 10 metros. Embriaguei-me nesse dia em que o Tejo passou a ser um alguidar. Face a uma tal decepção passou a ser difícil recuperar-lhe a dignidade. Um dia contando isto ao poeta Jorge Fallorca ele desatou numa gargalhada e acrescentou, É incrível como as pessoas alucinam, mas então tu quando chegas de avião nunca reparaste nas escunas e caravelas que se vêem no fundo do Tejo? Evidentemente que ele gozava comigo, mas desde aí sempre que chego a Lisboa arrisco o torcicolo no frenesim de vasculhar as naus do Fallorca.


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hoje macau quinta-feira 6.7.2017

Francisco Louçã

in Tudo Menos Economia

Os últimos dias da humanidade? C

USTA-ME dizer-lhe isto tão à bruta: a Agência do Medicamento é questão de somenos e provavelmente rumará a outras paragens. Mas o que resta desta questão é o retrato de uma caça egoísta aos “despojos” britânicos, como gentilmente escreve um entusiasta europeu, com os governos a promoverem descontos fiscais e mordomias para seduzirem os chefes nómadas, o que diz muito sobre a malandrice numa União que vive disto. Em Portugal, também tudo trivial: é assunto para as eleições autárquicas. Ora, esta banalidade é inócua, será o menos que nos ameaça. É assim e vai continuar a ser assim, a genética europeia manda. A questão que então me importa é outra: por que é que nos embriagamos com estes casos (ou com os mails e as zangas do futebol, sem dúvida ainda mais apaixonantes)? A resposta talvez seja que é assim que se forma o senso comum, o mais poderoso instrumento de poder dos nossos dias, ou que esta é a dominação mais forte, por se reproduzir consensualmente. É eficaz: não gera conflito, o cidadão é um espectador. É universal: não requer presença, aceita a representação etérea da decisão. O senso comum é portanto uma exterioridade que nos invade sem se ver. “George Steiner em The New Yorker” (Relógio d’Água, 2017) é um livro fascinante que selecciona alguns dos artigos de Steiner, judeu franco-americano, crítico literário e ensaísta. No seu labirinto de temas, há um que porventura interessará aos meus leitores de hoje e que responde precisamente a este sentimento de banalização como gramática do quotidiano. Lembra ele o trabalho de Karl Kraus, austríaco, dramaturgo, que interpretava Shakespeare a solo, promoveu centenas de récitas que fascinavam os ouvintes e que, com a sua peça “Os Últimos Dias da Humanidade” (esteve recentemente em representação em Lisboa e Porto, pelo Teatro de S. João), descreveu, numa possessão de lucidez, termo de Steiner, a vul-

A literatura europeia sobre a Europa do século XX tem esta marca: o seu tom é a tragédia, descobrimos com ela que o pior não é vivermos os últimos dias, que não o são, mas antes sabermos que a humanidade está submetida a uma transcendência – a banalidade.

garidade, a ostentação, os discursos do Estado Maior, do governo ou da imprensa para justificarem a Primeira Guerra, ou o mapa das palavras em que se tecia a ordem burguesa que anunciou a catástrofe – e ela veio mesmo. Só que Kraus se enganou, não foram os últimos dias, nem seriam depois com Hitler (numa trágica ambiguidade, Kraus respondeu a Hitler com o silêncio, e morreu em 1936 sem ver o que estava a chegar). Houve o apocalipse e a meia-noite no século, houve o Gulag e a guerra do Vietname, houve napalm em Angola e tortura na Argélia, houve as Torres Gémeas e bombas de fósforo em Falluja, há a vala comum do Mediterrâneo, mas ainda cá andamos. Ou seja, o terror banalizou-se também, são dias como outros quaisquer. Lembra então Steiner: “1984” esteve para se chamar “O Último Homem da Europa”, mas Orwell preferiu por no título uma data sem significado. O livro tornou-se assim um sucesso, narrando precisamente a banalização do poder sob a novilíngua, a sua voz do senso comum. Mas é assim, insiste Steiner, que a Europa se descobriu sempre: antes de “1984”, “As Viagens de Gulliver”, de Swift, que desembarca num Estado de bufos, ou Kafka, com a alucinação dos campos em que a sua Milena e as suas irmãs morreriam, ou Huxley com o “Admirável Mundo Novo”, ou Zamiatine com “Nós”, ou London com “O Tacão de Ferro”, todos descrevem esse mosaico de vozes de poder que domestica a cultura de massas. Ou seja, gritam contra uma época crepuscular que é engendrada pela banalização. A literatura europeia sobre a Europa do século XX tem esta marca: o seu tom é a tragédia, descobrimos com ela que o pior não é vivermos os últimos dias, que não o são, mas antes sabermos que a humanidade está submetida a uma transcendência – a banalidade. Talvez por isso, a crítica ficou sempre à margem, o que tem consequência política, pois ela trata de um mundo que não se reconhece.


17 (F)UTILIDADES

hoje macau quinta-feira 6.7.2017

TEMPO

?

AGUACEIROS

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

CINEMA | “FUGA DE ALCATRAZ”: IV CICLO DE CINEMA CRED-DM Casa Garden | Das 19h30 às 20h30

MIN

25

MAX

30

HUM

80-98%

EURO

8.86

BAHT

FOTOGRAFIA | EXPOSIÇÃO DE LAO IP | ESPAÇO FIND ART MACAU Das 18h30 às 21h30

Sábado

EXPOSIÇÃO | “MAZDA”, DE FORTES PAKEONG SEQUEIRA Das 15h00 às 18h00

O CARTOON STEPH

CINEMA | DOCUMENTÁRIO “VIDA, ANIMADA” DOS EUA Cinemateca Paixão | 14h30 CINEMA | DOCUMENTÁRIO “IRMÃOS”, DA NORUEGA Cinemateca Paixão | 21h30

Diariamente

EXPOSIÇÃO “COLOUR/SHAPE/LOVE” DE JOAQUIM FRANCO Macau Art Garden | Até 16/07

EXPOSIÇÃO “CONTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10 EXPOSIÇÃO “O MAR” DE ANA MARIA PESSANHA Casa Garden | Até 31/08 EXPOSIÇÃO “A ARTE DE ZHANG DAQIAN” Museu de Arte de Macau | Até 5/8 EXPOSIÇÃO “AMOR POR MACAU” DE LEE KUNG KIM Museu de Arte de Macau | Até 9/7 EXPOSIÇÃO “DESTROÇOS” DE VHILS Oficinas Navais, nº. 1 | Até 31/11 EXPOSIÇÃO “AS MUDANÇAS DE HENGQIN” Armazém do Boi | Até 16/07

Cineteatro

C I N E M A

SALA 1

SPIDER MAN: HOMECOMING [2D][B]

Com: Tome Cruise, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Jake Johnson 21.45

Fime de: Jon Watts Com: Tom Holland, Robert Downey Jr., Michael Keaton 14.15, 21.30

TRANSFORMERS: THE LAST NIGHT [2D][B]

DISPICABLE ME 3 [2D][A]

Fime de: Michael Bay Com: Mark Wahlberg, Laura Haddock Anhtony Hopkings 14.00

Falado em cantonês Fime de: Pierre Coffin, Kyle Balda, Eric Guillon 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

SPIDER MAN: HOMECOMING [2D][B]

SALA 2

SALA 3

THE MUMMY [2D][C] Fime de: Alex Kurtzman

Fime de: Jon Watts Com: Tom Holland, Robert Downey Jr., Michael Keaton 16.45, 19.15

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 72

PROBLEMA 73

UM LIVRO HOJE

SUDOKU

DE

CINEMA | DOCUMENTÁRIO “CONVERSA FIADA”, DE TAIWAN Cinemateca Paixão | 20h00

EXPOSIÇÃO “NOCTURNO” DE FILIPE DORES Albergue SCM | Até 09/07

1.14

LEGISLAÇÃO FUMADA

Sexta-feira

Domingo

YUAN

AQUI HÁ GATO

EXPOSIÇÃO | INAUGURAÇÃO DE “RESTLESS NATURE”, COM ESCULTURAS DE MADEIRA DE TONG CHONG Taipa Art Village | Das 18h00 às 21h00

CINEMA | DOCUMENTÁRIO “CONVERSA FIADA”, DE TAIWAN Cinemateca Paixão | 20h00

0.23

Apesar de ser uma actividade exclusivamente humana, fumar é algo que me é extremamente apelativo, que faz sentido no domínio das forças naturais que me escapam. O total domínio de um elemento poderosíssimo como o fogo. Tê-lo na mão, inalar o produto da combustão e expeli-lo com desdém pelo ar puro, indiferente a pulmões alheios. Por cá, a lei do antitabagismo tem feito correr muita tinta, muitas guinadas políticas, tem feito decisões mudarem ao sabor da conveniência do cliente. A indústria que comanda o território tem uma grande capacidade argumentativa para convencer quem está no poder, aliás, o dinheiro tem uma extraordinária capacidade de alegação, é eloquente como tudo. Agora fala-se também em proibir o fumo num raio pouco razoável em torno dos estabelecimentos de ensino superior para não influenciar os maiores de idade que por lá aprofundam conhecimentos. Entre cedências ao raciocínio do capital e sonhos draconianos, todos deviam acender um cigarro e expirar tranquilamente. Legislar sobre pessoas que se aproximam das funções de chaminés, ou vulcões, parece-me perigoso. Da mesma forma que não gostaria de regular quem cospe fogo devido ao excesso de semelhanças com dragões. Seja qual for a versão final do diploma que rege o fumo, o cigarro e o sopro de novelos enfumarados continuará a ser a imagem iconográfica de charme e intrepidez. Se for proibido ainda será mais apetecido, como ditam as leis do desejo. Pu Yi

O ARCO-ÍRIS DA GRAVIDADE | THOMAS PYNCHON

Apesar de ser considerado um pós-modernista, a obra de Pynchon é difícil de categorizar devido à sua originalidade e génio. “o Arco-Íris da Gravidade” é um bom exemplo do fruto bizarro que representa o norte-americano na história da literatura. Totalmente desapegado de conceitos narrativos, Pynchon discorre ao longo de cerca de 1000 páginas numa prosa poética intensa, riquíssima, sem grande contacto com lógica, ou conceitos literários. Este livro, ou ensaio de ficção, desenrola-se num cenário de espionagem sobre os foguetes V-2 da aviação alemã durante a II Grande Guerra Mundial. Um imenso livro para degustar com tempo. João Luz

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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores Isabel Castro; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Sofia Margarida Mota Colaboradores António Cabrita; Anabela Canas; Amélia Vieira; António Falcão; António Graça de Abreu; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; João Maria Pegado; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Fernando Eloy; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


18 hoje macau quinta-feira 6.7.2017

sexanálise

TÂNIA DOS SANTOS

N

INGUÉM gosta muito da ideia de que está a envelhecer. A determinada altura das nossas vidas recusamos aniversários porque são a lembrança de que estamos a contabilizar anos nos nossos ossos, músculos e pele. A meia idade talvez seja dos momentos mais difíceis: lembramo-nos que a melhor metade das nossas vidas já se foi e que a próxima provavelmente será de declínio. Daí que haja um momento de profunda confusão onde o passado e o futuro se encontram, que é como quem diz, a ‘crise de meia idade’. As consequências para a forma como nos vemos sexual e romanticamente, são tremendas. Vemo-nos menos desejáveis e, sexualmente, começamos a encontrar outro tipo de obstáculos ao prazer pleno, inerentes ao envelhecimento do corpo. Estes são normais momentos de transformação física e psicológica que têm que ser trabalhadas de forma individual ou em casal. Muitas vezes os divórcios coincidem com estas alturas - Por alguma razão será, não é? As nossas identidades têm que se ajustar a uma realidade do envelhecimento... numa sociedade que preza o culto da juventude. Ninguém ensina ninguém a envelhecer graciosamente, a sociedade ensina-nos que temos que controlar a corrida do tempo de todas as formas possíveis. Tanto os homens como as mulheres nestas condições de meia-idade, e particularmente, no estatuto de recém-solteiros, começam a perceber que não é tão fácil engatar. As mulheres temem confirmar que a sociedade já não as acha bonitas como antigamente e os homens procuram desesperadamente provar que ainda têm controlo das suas vidas amorosas e sexuais. Eu sugiro que as tentativas de adaptação serão diferentes dependendo do género a que nos referimos. Por uma questão prática, e não factual, vamos pôr uns homens num saco estereotípico e as mulheres noutro. A crise de meia idade masculina vai ter a minha particular atenção. As tentativas de lidar com uma auto-estima estilhaçada passam por comprar carros desportivos e ‘experimentar’ coisas novas. Coisas novas que passam por fazer novos piercings, começar frequentar saídas nocturnas e dançar

Crises CARAVAGGIO, CEIA EM EMAUS, (DETALHE)

OPINIÃO

ao som do novo milénio, com os mesmos passos de dança dos anos 90. E sim, esta é uma fase de vida que já foi gozada vezes sem conta na cultura popular, mas se me permitem o tom pessimista, acho muito triste que a ansiedade e depressão sejam alimentadas pelo simples reconhecimento de que ninguém vai para novo. O envelhecimento é um facto irrefutável da condição humana, que se tentarmos lutar contra ele, o resultado será longe de positivo - vai ser destrutivo. Entretanto aturamos as dificuldades psico-emocionais de alguns homens

Homens com quase 50 anos que procuram jovenzinhas para puderem saciar os desejos de juventude é um cliché daqueles que já me irrita

que não conseguem olhar para os desafios da outra metade da vida de forma saudável. Ora, todos nós passamos por momentos difíceis, mas estas crises mostram-se particularmente relacionais e desenvolvem-se nas expectativas dos papéis de que homens e mulheres desempenham. Se me permitem a queixa, homens com quase 50 anos que procuram jovenzinhas para puderem saciar os desejos de juventude é um cliché daqueles que já me irrita. A semana passada tive a oportunidade de explorar a ideia de que o amor não escolhe idades e acredito genuinamente nisso. Mas também sei que certas dinâmicas relacionais dão espaço para perpetuar estas ‘crises’, particularmente masculinas, que evitam agarrar pelos cornos a ideia de que estão a ficar mais velhos, mais feios e mais flácidos. Mas se há quem consiga viver em negação é o homem que consegue seduzir mulheres mais novas. Não há nada como a fantasia de que o tempo na verdade não passa, e que a continuidade ou descontinuidade desta dimensão, é irrelevante.


19 hoje macau quinta-feira 6.7.2017

OPINIÃO

bairro do oriente LEOCARDO

“Vocês em Macau” têm facilidade em arranjar emprego, sendo portugueses. Já foi assim, mas vai sendo cada vez menos verdade que a nacionalidade portuguesa é meio caminho andado para garantir um emprego em Macau. Antes de 1999 bastava ser cidadão nacional português e obter uma declaração de que residia no território há mais de três meses confirmada por duas testemunhas para se obter o BIR, mas hoje em dia não só os critérios são mais rígidos, mas há também uma demora processual na autorização da residência que ninguém consegue explicar, e nem as autoridades justificam – é um mistério. “Vocês em Macau” não se pode dizer exactamente que “trabalham”, quer dizer, “vão ao emprego”... Essa é talvez uma das maiores diferenças em relação ao período da administração portuguesa. Trabalha-se sim e quem está no sector privado nem pense “encostar-se à sombra da bananeira”. Na hora de distribuir as atribuições, os portugueses não são menos que os outros. “Vocês em Macau” têm como que “um desconto”, ao contrário dos chineses ou de outros estrangeiros. Tal como na presunção anterior a esta, nada disso. Quem está com contrato e “pisa na bola” vai parar ao olho da rua com a mesma facilidade, seja ele português, chinês, italiano ou outro qualquer. Chefes chatinhos como aí também há por estas bandas, com a agravante de ainda precisarmos de atender ao aspecto cultural, e para quem não domina a língua, pior ainda. “Vocês em Macau” ganham bem...em “pataquinhas”. O mito da árvore das patacas é uma coisa do passado. Essa proverbial árvore, se realmente existiu , já há muito que secou; é verdade que

EUGÈNE DELACROIX, A MORTE DE SARDANAPALO

E

XISTEM inúmeros dogmas que foram criados sobre a vida dos portugueses e outros expatriados em Macau e que, para quem não acompanhou a evolução da nova realidade, continuam actuais, e com os quais eu próprio tomo contacto cada vez que vou a Portugal de férias – e vai sendo cada vez menos. Não foram uma, nem duas, nem três as vezes que de repante salta um comentário do tipo “Vocês em Macau...”, seguido de qualquer coisa do género “...têm todos um rolls-royce na garagem”. Não é bem assim, mas não anda muito longe. Assim decidi compilar uma série de ideias feitas que muitos portugueses da metrópole ainda têm sobre nós, os expatriados, às quais convém fazer um “update”.

Vocês em Macau

se ganha melhor que em Portugal em algumas profissões, mas as despesas são muito mais que no passado. A habitação, por exemplo, tem um peso na ordem dos 30-40% da despesa total, ou mais para quem opta por viver sozinho ou dividir a renda por menos pessoas. Quem tem casa própria ou atribuida pela empresa onde trabalha está mais à vontade, mas não deixa de sentir a subida galopante da inflação em muitos dos bens de primeira necessidade. “Vocês em Macau” têm uma vidinha tranquila. É tudo perto. Sim, de facto é possível a muitos (como eu próprio) deslocar-se a pé para o emprego, apesar de já ter sido mais agradável, quando não era inevitável andar aos encontrões e aos empurrões, já para não falar do calor e da humidade. Para quem precisa de apanhar transporte ou conduzir, as distâncias também não são as mesmas do que entre Lisboa e a Margem Sul, por exemplo, mas a qualidade do serviço de transportes deteriorou-se, e o trânsito passou a ser um dos problemas que demoram a resolver. “Vocês em Macau” não precisam de se preocupar com a questão da segurança, dos assaltos... Apesar dos números da criminalidade terem vindo a aumentar, ainda é possível andar a qualquer hora e em qualquer lugar

de Macau sem recear os assaltos, pois aqui não existem bairros “problemáticos”, como em Portugal. No entanto começam a surgir certas preocupações com algumas liberdades que em Portugal são praticamente “intocáveis”. Ah sim, e as penas pelos delitos relacionados com droga são muito mais pesadas que em Portugal - aqui não há lugar a certas “brincadeiras”. “Vocês em Macau” têm os casinos, que resolvem todos os problemas de fundo, enquanto aqui os políticos são uns aldrabões e não mexem um dedo. Os casinos são uma fonte de receitas que muitas economias invejam, sem dúvida, especialmente as micro-economias, como é o caso de Macau. O problema é que não se sabe muito bem por onde andam essas receitas, que em tempos batiam recordes atrás de recordes, e de como não estão a ser usadas para resolver problemas de longa data que têm vindo a agravar-se cada vez mais. “Vocês em Macau” têm uma data de países à volta, praias paradisíacas, ilhas de sonho...é só passear! É verdade e é muito mais fácil a alguém ir passar um fim-de-semana prolongado à Tailândia ou às Filipinas do que a um português fazer o mesmo em Bruxelas ou Amesterdão,

que ficam mais ou menos à mesma distância de um voo. E é muito mais barato, também. Mesmo assim não se queixem, pois se vivem no litoral estão a meia-hora de carro de qualquer praia decente, enquanto para nós é necessário apanhar um avião. “Vocês em Macau” agora queixam-se tanto...então o que estão ainda aí a fazer? Parece uma provocação ou uma pergunta parva, mas é pertinente. Há os que se fartaram e se foram embora, há os que não gostam mas não têm outra escolha porque em Portugal têm as portas fechadas, e há os que mesmo tendo a opção de regressar, criaram aqui raízes, casaram com pessoas de cá, tiveram filhos e fazem aqui a sua vida. E para esses “queixar-se” quando as coisas correm mal é o mesmo que toda a gente faz quando quer o melhor para a si e para os seus. Esclarecidos? Mas melhor que ouvir falar, e ainda por cima confiar em testemunhos que nada têm ver com o Macau do presente, era vir cá ver como isto é. Se não vos dá jeito, se é longe, caro, não vos interessa, ou não conhecem aqui ninguém e portanto acham que não vale a pena, paciência, só que antes de afirmar com essa dose de certeza que aqui é uma espécie de “mundo do faz-de-conta”, o melhor é informarem-se primeiro. Valeu, ó “vocês em Portugal”?


Tenho sonhos cruéis; n’alma doente/ Sinto um vago receio prematuro / Vou a medo na aresta doo futuro / Embebido em saudades do presente...

quinta-feira 6.7.2017

CARRIE LAM ADOPTA TOM CONCILIADOR COREIA DO NORTE TRUMP CRITICA PEQUIM

O presidente americano Donald Trump acusou nesta quarta-feira a China de minar os esforços dos Estados Unidos perante a Coreia do Norte ao reforçar os vínculos comerciais com o regime que acaba de lançar seu primeiro míssil intercontinental (ICBM). “O comércio entre a China e a Coreia do Norte aumentou ao menos 40% no primeiro trimestre. E depois dizem que a China trabalha connosco - mas tivemos que lhes dar uma oportunidade!”, escreveu o magnata no Twitter antes de embarcar para sua segunda viagem oficial ao exterior. A China, principal aliado diplomático e sócio comercial de Pyongyang, anunciou em Fevereiro a suspensão das suas importações de carvão da Coreia do Norte, dentro de uma série de sanções internacionais que visam refrear os programas de mísseis balísticos e nucleares.

PORTUGUÊS MACAU E PEQUIM ORGANIZAM FÓRUM INTERNACIONAL

Realiza-se no próximo fim-de-semana, na capital chinesa, o IV Fórum Internacional do Ensino da Língua Portuguesa na China. A iniciativa é organizada pela Universidade de Comunicação de Pequim e pelo Instituto Pedagógico de Macau, através do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa. De acordo com um comunicado do Instituto Politécnico de Macau (IPM), vão estar presentes cerca de 40 professores que leccionam português no interior da China e 14 de Macau, dos quais dez pertencem ao IPM, bem como alguns professores do Brasil e de Portugal. O programa inclui duas comunicações de base, duas mesas-redondas e 29 comunicações sectoriais, apresentadas em sessões simultâneas.

BESIKTAS CONTRATA PEPE

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O Besiktas, campeão turco de futebol, oficializou ontem a contratação de Pepe (ex-Real Madrid), referindo no seu portal que o defesa internacional português já assinou um contrato válido por duas épocas. Kepler Lima Ferreira, vulgarmente conhecido por Pepe, nascido no Brasil há 34 anos, irá encontrar no Besiktas o seu colega de selecção Ricardo Quaresma, depois de 10 épocas ao serviço do Real Madrid, do qual saiu a custo zero.

Reformas à parte

A

nova líder de Hong Kong, Carrie Lam, adoptou um tom conciliador nesta quarta-feira e prometeu melhorar os laços com o Parlamento, mas sugeriu que novas reformas para levar mais democracia à cidade chinesa não entrarão na agenda tão cedo. A ex-colónia britânica comemorou o 20º aniversário de seu retorno ao controle da China no sábado, e o presidente chinês, Xi Jinping, visitou a metrópole e alertou que esta deveria reprimir iniciativas para uma “independência de Hong Kong”. Em 2014, Lam liderou os esforços do governo para aprovar um pacote de reforma política

polémico apoiado por Pequim, que permitiria uma votação directa para a escolha do novo líder da cidade. Mas a exigência chinesa de que primeiro todos os candidatos sejam pré-seleccionados por um comité maioritariamente pró-Pequim ajudou a desencadear o movimento de desobediência civil e pró-democracia “Occupy” no final do mesmo ano. O pacote de reforma política acabou sendo barrado em 2015 por parlamentares da oposição que o descreveram como “democracia falsa”. “A reforma política sempre foi muito sensível, muito complicada e muito difícil”, disse Lam aos deputados. “Se eu…

reiniciar a reforma política imediatamente, de forma que a sociedade se envolva em conflitos sérios novamente e as questões da economia e da subsistência cheguem a um impasse, então, como a pessoa com a responsabilidade final, eu teria fracassado”, afirmou. Na sua primeira semana no cargo, Lam passou cerca de uma hora a responder a perguntas de deputados numa reunião especialmente arranjada, na qual o clima pareceu menos hostil do que o de sessões com seu antecessor, o impopular Leung Chun-ying. Lam enfatizou seu desejo de melhorar as relações do executivo com o Conselho Legislativo (Legco).

“BRAD PITT IRAQUIANO” MORTO POR FUNDAMENTALISTAS

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M jovem actor e modelo, que era conhecido como o “Brad Pitt iraquiano” pela imprensa local, foi raptado, torturado e brutalmente assassinado devido às roupas coloridas e justas que usava. O corpo do homem foi encontrado abandonado em uma rua movimentada de Bagdad, cidade na qual o fanatismo religioso, seja de matriz sunita ou xiita, está cada vez mais forte. Karar Nushi estudava no Institute of Fine Arts da capital iraquiana e há alguns anos já era conhecido como uma promessa dos teatros e da televisão do país. Segundo seus amigos do Facebook, o jovem estava a preparar-se para participar de um concurso de beleza masculino. Além disso, Nushi havia afirmado nas suas redes sociais recentemente que havia recebido ameaças de morte de grupos reli-

giosos fanáticos, não especificados, pelo seu estilo de vida, o seu modo de se vestir e pelos seus cabelos, loiros, compridos e lisos.

O modelo e actor vinha de uma cidade nas proximidades de Bagdad e era xiita, mas nos seus discursos e publicações negava o uso instrumental da religião

no dia-dia. Nalgumas das sua fotos no Facebook, o jovem aparecia posando em lugares de culto e sagrados para a religião muçulmana. No entanto, as suas roupas eram fortemente criticadas por não serem as que a maioria dos homens do país usa. O corpo do artista foi encontrado no centro de Bagdad com sinais de tortura, mutilação e várias marcas de facadas por todo o corpo. No domingo, os seus amigos e parentes já haviam denunciado o desaparecimento de Nushi, cujo corpo foi recebido com silêncio e muitas lágrimas pela família na sua cidade natal. “Vamo-nos lembrar dele sorridente. Nunca fez nada de mal a ninguém. Mesmo se não aprovássemos como ele se comportava, sempre o respeitámos. E respeitaremos mesmo agora que está morto”, afirma uma publicação de um amigo no Facebook.

PROPAGANDA COM JACKIE CHAN CHEGA AOS CINEMAS

Um vídeo de propaganda que promove os “valores centrais do socialismo”, protagonizado pelo actor Jackie Chan, será exibido antes de cada projecção nos cinemas da China. Outras celebridades locais da sétima arte receberam ofertas para aparecer nestes vídeos projectados desde 1 de Julho, indicou o Diário da Juventude de Pequim. Estes vídeos, encomendados pela Administração do Estado da imprensa, promovem também o “sonho chinês”, conceito de uma China renascente impulsado pelo presidente Xi Jinping. “O objectivo é ajudar o público a compreender melhor e aceitar os princípios e as políticas do Partido”, indicou o jornal. Segundo o jornal Global Times, numa das sequências, um actor declara: “Não importa o que vocês façam. Enquanto respeitarem o país, a sociedade, a nação e a família, estarão a ajudar a realizar o sonho chinês”.Desde sua chegada ao poder, no final de 2012, o presidente Xi Jinping multiplicou as campanhas ideológicas destinadas a mobilizar a população, os meios artísticos e culturais, incentivando-os a colocar sua “energia positiva” a serviço do país.

FILIPINAS REFÉNS VIETNAMITAS DECAPITADOS

O grupo radical Abu Sayyaf decapitou dois marinheiros vietnamitas que mantinha em cativeiro há oito meses, no sul das Filipinas, anunciou ontem o exército em comunicado. Os militares filipinos descobriram esta manhã os restos mortais dos reféns na ilha de Basilan, um dos bastiões daquele grupo, disse a capitã e porta-voz Jo-Ann Petinglay. “É um acto desesperado do Abu Sayyaf, porque eles sabem que não tiram nada dos sequestros”, afirmou. Os dois vietnamitas tinham sido raptados em Novembro com quatro compatriotas a bordo de um barco, ao largo de Mindanao. Um dos seis vietnamitas foi resgatado em Junho e os três restantes continuam em cativeiro, segundo a capitã Petinglay. O Abu Sayyaf tinha em Fevereiro decapitado o septuagenário alemão Jurgen Kantner, raptado no sul do arquipélago. Em 2016, o grupo decapitou dois reféns canadianos.

Hoje Macau 6 JUL 2017 #3847  

N.º 3847 de 6 de JUL de 2017

Hoje Macau 6 JUL 2017 #3847  

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