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A AGÊNCIA COMERCIAL PICO CUMPRE OS HORÁRIOS E PAGA OS HONORÁRIOS

MOP$10

GASTRONOMIA

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ • TERÇA-FEIRA 5 DE NOVEMBRO DE 2013 • ANO XIII • Nº 2967

Ter para ler

O QUE NUNO BERGONSE LEVA DE MACAU E TODOS OS OUTROS SABORES LUSÓFONOS

CENTRAIS

F RUM

Inenarrável

MACAU

Recepção na residência consular. Paulo Portas chegou duas horas atrasado, não se desculpou e fez um discurso equívoco. Metade dos convidados já se tinha ido embora. A comunidade portuguesa perdeu face. Obrigadinho, senhor vice-primeiro-ministro. PÁGINAS 2 E 3 • ENTREVISTA A MURADE MURARGY

“QUEM TEM DE PROMOVER A LÍNGUA PORTUGUESA SOMOS NÓS, QUE A FALAMOS, NÃO OS OUTROS” PÁGINAS 4 E 5

• FUNDO FINANCEIRO

EMPRESÁRIOS ESPERAM MUITO PÁGINA 6

• ANIMAIS ABANDONADOS

IACM não captura em propriedades privadas PÁGINA 13 PUB

• ACIDENTES DE VIAÇÃO EM ALTA

Quase 4000 feridos e 14 mortos nas estradas PÁGINA 8


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F RUM

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MACAU

PORTAS CHEGA QUASE DUAS HORAS ATRASADO À RECEPÇÃO. METADE DOS CONVIDADOS TINHA JÁ PARTIDO

Falta de chá Paulo Portas chegou atrasado. Não se explicou, não pediu desculpas e falou para quem não estava lá

O

vice-primeiro-ministro português, Paulo Portas, chegou quase duas horas atrasado a uma recepção organizada no passado domingo pelo consulado de Portugal em Macau para a comunidade portuguesa local, o que fez com que cerca de metade das pessoas que se encontravam presentes tenham abandonado o evento antes da sua chegada. A recepção estava marcada para as 21 horas, mas o vice-primeiro-ministro português entrou na sala da residência consular (ex-Hotel Bela Vista) quando já eram quase 23 horas. Entretanto, praticamente todos os convidados de etnia chinesa tinham já partido, expressando delicadamente o seu desagrado pela situação. “Todos sabemos como os chineses consideram este tipo de atraso como uma ofensa e uma falta de consideração”, explicou ao HM um empresário português há muito radicado na região. “É incompreensível esta atitude que basicamente tirou face à nossa comunidade. Uma vergonha! Inenarrável!”, concluiu. De facto, de etnia chinesa, permaneceram na sala apenas alguns elementos do Gabinete de Ligação

do Governo da República Popular da China (RPC) e Cao Guangjing, presidente da empresa China Three Gorges que, recentemente, adquiriu uma posição maioritária na EDP. Figuras de destaque da RAEM, como Ambrose So, David Chow ou a sua esposa e deputada Melinda Chan tinham já abandonado o evento. Basicamente, na sala ficaram apenas portugueses residentes de Macau e os que se deslocaram de Portugal no âmbito do Fórum Macau, com o intuito de ouvir o discurso de Portas.

DISCURSO EQUIVOCADO

Certamente que equivocado quanto à audiência para a qual discursava, o vice-primeiro-ministro (que não explicou nem se desculpou pelo seu inusitado atraso) fez um resumo, “breve” nas suas palavras, das

relações económicas recentes entre Portugal e a RPC, na sua vertente exclusivamente económica, como se se estivesse a dirigir unicamente a empresários chineses e não à comunidade portuguesa de Macau como um todo que era, afinal, a destinatária do convite endereçado para a recepção. Paulo Portas, sem novidade, falou de Portugal e do “fim da recessão”, de como é vantajoso investir no nosso país, repetindo o discurso governamental, cujos dados estatísticos são regularmente rejeitados pela oposição em Lisboa, como agora aconteceu quando da discussão do Orçamento de Estado. Entrando numa espécie de discurso de marketing do país, Portas basicamente realçou as vantagens de investir em Portugal. Médicos, arquitectos, advogados, professores, engenheiros, jornalistas, profissionais de turismo e outras profissões, que constituem a estrutura fundamental da presença portuguesa em Macau, foram simplesmente ignorados num discurso que se limitou a citar os números por todos conhecidos das

relações económicas e comerciais entre os dois países [ver caixa] e procurou, uma vez mais, vender as vantagens do investimento externo. “Provavelmente, ele pensa

De facto, de etnia chinesa, permaneceram na sala apenas alguns elementos do Gabinete de Ligação do Governo da República Popular da China (RPC) e Cao Guangjing, presidente da empresa China Three Gorges que, recentemente, adquiriu uma posição maioritária na EDP. Figuras de destaque da RAEM, como Ambrose So, David Chow ou a sua esposa e deputada Melinda Chan tinham já abandonado o evento

O QUE DISSE PORTAS • Os vistos ‘gold’ irão permitir um investimento em Portugal superior a 300 milhões de euros até ao final de 2013. Já foram investidos em Portugal mais de 200 milhões de euros e 80% desse investimento teve lugar no imobiliário. Três quartos do investimento - que originou a emissão de 318 vistos - teve origem na China, “nomeadamente através de Macau”, o que permite que o programa “esteja a ser um sucesso”. • Portugal o que mais se precisa é de “quem invista, crie riqueza e possa dinamizar o comércio, nomeadamente imobiliário que é importante para que a economia portuguesa confirme os seus sinais positivos”. Como exemplo da importância do programa de vistos ‘gold’, Paulo Portas lembrou que em 2012 a AICEP contratualizou 1.300 milhões de euros de investimento em Portugal e que só este ano o visto dourado vai somar “mais 200 milhões

de euros”, acreditando que até ao final do ano somará “mais 300 milhões de euros”. • O desenvolvimento das relações luso-chinesas é “absolutamente espectacular” porque “fora da União Europeia, a China está entre os três principais clientes de Portugal”. “Os resultados da nossa parceria estratégica com a China são absolutamente espectaculares. Na última década, a China subiu 18 lugares na lista dos principais clientes de Portugal”. • O governo “tenciona continuar a abrir a economia portuguesa ao investimento nacional e estrangeiro” e “o investimento vindo da República Popular da China é bem-vindo”. • “O mais antigo país da União Europeia com fronteiras estáveis mostrou que é possível uma

empresa ganhar uma privatização (EDP) desde que apresente a melhor proposta” e “as instituições portuguesas não esquecerão que a China investiu em Portugal num período difícil”. • Com a criação do Fórum Macau, em 2003, “a China reconheceu a importância da lusofonia no concerto das nações do século XXI e os países lusófonos, cada um à sua maneira, reconheceram a importância inelutável da China na construção de uma nova ordem económica e política internacionais”. • A lusofonia é “um bloco cultural em ascensão” e “sobretudo na América Latina e em África, o crescimento demográfico dos povos que falam português é exponencial”. E mais não disse...

que nós não estamos informados sobre o desenvolvimento das relações entre a China e Portugal que não vemos televisão ou não lemos jornais”, comentou um dos presentes, que lamentou também a falta de referência à comunidade portuguesa de Macau. “Infelizmente, a vinda de representantes do Estado português redunda quase sempre nisto: na nossa perda de face e na necessidade de nos desculparmos perante os chineses por uma notória falta de chá. Mais valia que não pusessem cá os pés”, disse outro dos presentes ao HM, que sublinhou também o facto de Portas se apresentar na recepção sem gravata e de camisa aberta. “O vice-primeiro-ministro veio tornar mais difícil a missão do cônsul Vítor Sereno que já é em si mesma uma missão difícil, ao invés de o ajudar a projectar de forma positiva o bom nome de Portugal”, comentou ainda uma personalidade de destaque da comunidade portuguesa ao HM. Até terça-feira à tarde, Paulo Portas vai encontrar-se com um vice-primeiro-ministro e com o ministro do Comércio da China, Wang Yang e Gao Hucheng, respectivamente. Antes de assumir o seu actual posto, Wang Yang foi o responsável máximo pela província de Guangdong, imprimindo um extraordinário mas equilibrado ritmo de desenvolvimento, acção que lhe valeu, segundo fontes bem informadas garantiram ao HM, um dos mais importantes lugares no actual governo da RPC. - HM


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VÍTOR SERENO E A CAPACIDADE DOS PORTUGUESES

Fórum Macau tem “oportunidades adicionais de desenvolvimento e cooperação” com “potencialidades complementares que podem ainda conhecer novas dimensões e amplitudes” disse no domingo o cônsul-geral de Portugal em Macau. Falando na recepção ao vice-primeiro-ministro Paulo Portas, Vítor Sereno sublinhou a importância da cooperação entre Portugal e Macau, das mais-valias que país e território chinês podem conquistar dessa partilha de conhecimentos e de trabalho conjunto. “Saudamos o percurso feito e vemos no Fórum Macau oportunidades adicionais de desenvolvimento e de cooperação entre o que é hoje uma comunidade de países fraternos, com potencialidades complementares que podem ainda conhecer novas dimensões e amplitudes”, assinalou. Para Vítor Sereno, é através da aposta que tem sido feita “no reforço de novos palcos e novas plataformas para a (nossa) tecnologia, os (nossos) produtos e os (nossos) serviços” que se combate a “lógica fatalista do insucesso” até porque Portugal e os portugueses são “muito bons” no que fazem. Nesse sentido, recordou o que as autoridades de Macau têm vincado em diversas ocasiões,

O

vice-primeiro-ministro português justificou hoje em Macau que a nova contribuição das empresas energéticas ocorre “num momento extraordinário” e lembrou que as empresas chinesas a operar em Portugal vão beneficiar da descida do IRC. Numa declaração durante o seminário “No caminho da internacionalização”, hoje em Macau, Paulo Portas referiu-se á contribuição extraordinária do sector energético, que afecta a EDP, dominada pela China Three Gorges, separando os compromissos assinados pelo governo português da “circunstância excepcional” que o país vive. “Portugal nunca aceitaria alterações de natureza contratual ou regulatória porque Portugal gosta de honrar a sua palavra e os seus compromissos”, afirmou o vice-primeiro-ministro. “Outra coisa são alterações de natureza fiscal que se justificam por uma circunstancia excepcional, num momento extraordinário e onde se tem de pedir mais a quem pode mais para se ter autoridade para pedir aos demais – e isso aconteceu”, prosseguiu,

a “importância e o valor” do trabalho da comunidade portuguesa local que querem “ajudar o (nosso) país a ter uma economia mais aberta ao exterior e cada vez mais moderna e competitiva”. “Queremos ajudar Portugal a ter uma sociedade que multiplique as oportunidades para todos” e a “orientar os seus recursos para o fomento da actividade produtiva como agente criador de emprego” porque neste século XXI “reforçámos a firme convicção de que a identidade portuguesa não se esgota nos trilhos europeus”. Salientando que os portugueses olham para tudo o que ocorre nesta região do mundo, Vítor Sereno lembrou que Portugal ganha força se souber “trabalhar em conjunto” porque tal permite uma valorização paralela quer de Portugal quer da China. “Aqui em Macau, particularmente, falamos a mesma língua, de que nenhum de nós é proprietário, e partilhamos os mesmos sonhos de prosperidade para os nossos povos”, disse ao destacar que a história do país já ensinou todos que “só transformando as crises em oportunidades de fazer mais e melhor” é que se pode “conquistar o futuro”. “Só em conjunto, com o esforço de todos, conseguiremos ultrapassar as dificuldades actu-

GONÇALO LOBO PINHEIRO

Contra a lógica fatalista do insucesso O

É através da aposta que tem sido feita “no reforço de novos palcos e novas plataformas para a (nossa) tecnologia, os (nossos) produtos e os (nossos) serviços” que se combate a “lógica fatalista do insucesso” até porque Portugal e os portugueses são “muito bons” no que fazem VÍTOR SERENO cônsul geral de Portugal em Macau

ais e transformá-las em estímulo à nossa capacidade de solucionar os problemas”, acrescentou o cônsul-geral português também ao destacar a importância da deslocação de Paulo Portas e ao vincar a importância política de Portugal estar representado no Fórum Macau ao mais alto nível. É que a China, a actual China, “é um exemplo de sucesso para

EDP IMPOSTO NUM “MOMENTO EXTRAORDINÁRIO”

Arreganha a taxa

Paulo Portas com Cao Guangjing, presidente da empresa China Three Gorges

muitos países que vivem sob a ameaça da estagnação económica”, uma conquista só possível pelo “mérito” do seu povo e dos seus dirigentes “apostados na construção de uma sociedade mais próspera e mais justa”, mas também dos seus empresários “cujo dinamismo é hoje justamente reconhecido à escala internacional”. – Lusa

lembrando que ocorreu também “uma alteração a nível fiscal”, que “é boa para todas as empresas, incluindo para as empresas chinesas que operam em Portugal, que foi a descida do IRC nos próximos quatro anos”. Paulo Portas recordou que a China tem peso no FMI e “sabe a pressão que certas instituições internacionais fazem relativamente àquilo que em Portugal se convencionou chamar as rendas excessivas no sector energético”. A China Three Gorges, accionista de referência da EDP, contestou a aplicação da taxa aos produtores de energia prevista no Orçamento do Estado para 2014, com que o Governo uma receita de 150 milhões de euros. O ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Jorge Moreira da Silva, afirmou em Outubro que tem tido, e terá, discussões com todas as empresas do sector a justificar a contribuição extraordinária, entre as quais uma reunião com o grupo China Three Gorges, garantindo ainda que a medida não terá efeitos no consumidor final. - Lusa

editorial CARLOS MORAIS JOSÉ

Nós por cá todos bem É triste e grande esta sina de ser português. Triste porque somos há séculos governados por manhosos, pelos mais habilidosos de entre nós na arte da intriga, da mentira e do pequeno proveito. E grande porque, fora do pequeno país, houve um povo que se espraiou pelo mundo e nele construiu outros mundos, um Portugal maior e sem fronteiras que não sejam as da nossa maneira real de ser e que se quer sempre ausente, realmente português, sem subordinações que não sejam as da nossa própria vontade. Por vezes somos visitados pela pequenez, a ignorância e a má educação. É nesses momentos que nos lembramos de como vivíamos nessa terra, que é única e bela, mas vendida há longo tempo, para gáudio de meia-dúzia de baronetes para quem o trabalho significa o esforço alheio e para quem a glória se resume a um pequeno título, a uma suave ilusão. Fora de Portugal, por vezes histrionicamente, cometeu-se o milagre de por toda a parte ser, por toda a parte vencer, sem que a História ou os pequenos homens tal tenham previsto ou sequer esboçado um assomo de profecia. Não podemos, com certeza, ignorar de onde vimos. Mas existe uma tristeza que nos é congénita de pertencer ao que não é já sequer seu, ao que foi vendido para usufruto de muito poucos, para a vidinha de alguns. Como diria Leonard Cohen: “I love the country, but I can’t stand the scene”. E, de facto, há um país onde uma classe de líderes representa um conjunto de cenas tristes, insuportáveis, balofas, sem importância nem remédio visível. Existe, contudo, um enorme Portugal, esse país sem outro território que não sejam as pessoas e os seus modos de ser e de viver, modos de se entregar, de rebater o fatalismo de servir quem não merece sequer uma mercê. Um país de conquistadores sem armas, servidos pela poesia de um olhar apaziguador, marítimo, feito da profunda mágoa de a lado nenhum realmente pertencer. E realizada a epopeia, que cada um de nós não reconhece se não como pessoal, vemo-nos na triste figura de precisar de fechar as portas a quem do outro lado vem como se existisse realmente e não passasse de um servente de interesses informais. Como sempre aconteceu, a pequena vaidade encandeia, não deixa ver nem ter sequer uma ideia vaga de onde se está e para quem se fala. Nada de novo neste Leste. Nunca foi realmente diferente. Nós por cá todos bem.


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ENTREVISTA MURADE MURARGY, SECRETÁRIO-EXECUTIVO DA CPLP

“A Língua Portuguesa tem de ser expandida” JOANA FREITAS

joana.freitas@hojemacau.com.mo

Q

UEM promove a Língua Portuguesa em primeiro somos nós, que a falamos, não os outros. Quem o diz é o secretário-executivo da CPLP que, numa entrevista exclusiva ao HM, fala sobre o futuro do português no mundo. À margem de um encontro na Fundação Rui Cunha e acabado de chegar a Macau, Murade Murargy explica que a expansão da língua depende da evolução dos países que a usam, bem como a sua promoção. “A Língua Portuguesa é nossa e nós temos de nos orgulhar de usar a nossa língua e temos que promovê-la”, refere, dando ainda a

sua opinião pessoal sobre o novo acordo ortográfico e a tensão que se vive em Moçambique. Esteve em Portugal na Conferência sobre o Sistema da Língua Portuguesa. O que saiu da lá a nível de objectivos a concretizar para o futuro da Língua Portuguesa? Não posso considerar que saiu algo, porque a conferência teve lugar agora, mas ainda não terminou o seu trabalho. Adaptou-se ao Plano de Acção de Lisboa, que ainda terá de ser submetido ao Conselho de Ministros, portanto ainda está numa fase inacabada. Os ministros poderão alterar, caso não concordem com o que foi aprovado em Lisboa pelos técnicos. De todo o modo, houve avan-

ços. O tema da conferência era “A Língua Portuguesa no Sistema Mundial”. Aí foram aprovados alguns eixos: a Língua Portuguesa na produção artística, na produção industrial, na era digital; a Língua Portuguesa nos negócios. São os aspectos principais em que é possível evidenciar mais esforços para que a Língua Portuguesa seja

mais internacionalizada, mais promovida nas relações internacionais: nas diásporas, em todo o lado onde a nossa comunidade se encontra instalada. A Língua Portuguesa precisa, então, de mais promoção? Claro que precisa. Ainda hoje [ontem], aqui [em Macau] na

A própria China está consciente disso e usa Macau como se fosse a sua ponta de lança para os nossos países. É só ver os números de investimento, são gigantescos... não são milhões, são biliões que a China coloca à disposição

mesa-redonda que tive esta manhã, um responsável do Governo de Macau referiu o défice que havia na Língua Portuguesa, tanto em Macau, como na China. É um défice em muitos aspectos e muitos negócios têm dificuldade em avançar porque há défice de pessoas que falem português. O investimento na Língua Portuguesa devia ser mais incisivo porque, efectivamente, ela é necessária para os negócios. E foram apresentadas algumas soluções nesse sentido? Não, o que é preciso é investimentos na Língua, é preciso criar centros culturais, cursos de curta e longa duração, é preciso que nas escolas o português seja ensinado.


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Sobretudo se estamos a falar de Macau. Os chineses estão a fazer o mesmo [a investir]. Não é só querer que a língua se promova ou se difunda, mas também é preciso que haja instrumentos para isso. Como, por exemplo, fazem os franceses: criar centros culturais ou aquelas ‘Alliances Françaises’; ou os ingleses com os ‘British Councils’. Nós também temos de promover a língua através de instrumentos próprios. O Instituto Camões ainda vai fazendo o seu trabalho.

O PAPEL DE MACAU Considera que ainda falta em Macau a promoção a esse nível? Macau para mim ainda é ponto novo. É a primeira vez que venho cá e Macau ainda não faz parte dos Países de Língua Portuguesa. Estou cá, fui convidado para ver como o Fórum [Macau] funciona. Mas nós temos um estado-membro [na CPLP] que era o colonizador desta parcela da China e por isso tem a responsabilidade de não deixar a língua morrer. Isso está a ser feito, pelo menos o estado-membro tem de o fazer, mas se Macau vier a integrar a CPLP – seja como país, seja como região observadora – naturalmente que haverá programas ou projectos com vista à promoção da língua aqui no território. Falou no investimento na Língua Portuguesa. A China tem-no feito, mas podemos esperar mais investimento da parte da RPC do que de países como Portugal? Não. Quer dizer, há interesse chinês porque a China hoje está envolvida em grandes negócios com os países de Língua Portuguesa e os chineses sentem a necessidade de aprender o português. Não é só do vosso lado aqui, mas também há interesse do lado da China. Eles vão para Portugal, por exemplo, estão envolvidos em negócios imobiliários e outros e precisam de ter juristas, gente que negoceie, mas em Língua Portuguesa, que entenda português. Isso é uma coisa real, é uma necessidade absoluta e que está à vista. Há esse interesse dos chineses em aprender a Língua Portuguesa. Mas haveria uma responsabilidade maior de Portugal, como referiu, por ser estado-membro? É verdade que as embaixadas [portuguesas] na China, em Pequim, também podem contribuir, mas isso exige que haja também do nosso lado, do lado dos outros países de Língua Portuguesa um certo interesse para que isso aconteça... mais cooperação… tem de ser através da cooperação. Entrou como secretário-executivo da CPLP no ano passado. Qual o balanço que faz do uso que tem sido dado à Língua Portuguesa?

Está a progredir bastante. Hoje em dia, a Língua Portuguesa é falada por mais de 250 milhões de pessoas e, muito em breve, pode atingir até números que chegam aos 300 e tal milhões, mas ela tem de ser expandida, sobretudo fora do espaço da CPLP. Na Europa está a expandir-se, está a expandir-se em África, Austrália e aqui na Ásia. Não só na China, noutras regiões também, a língua vai-se expandido, mas é um trabalho que vai levar tempo. Neste momento já é a sexta língua, parece-me, mais falada no mundo. É preciso ter paciência, ter esperança. A língua não começa nem acaba em nós, começou e veio por aí adiante. A sua expansão vai também depender do interesse, da evolução e do desenvolvimento dos países que usam a Língua Portuguesa. Têm de fazer o quê para a promover mais? Todos têm de se envolver cada vez mais. Todos têm a responsabilidade de considerar que a Língua Portuguesa é nossa, temos de nos orgulhar de usar a nossa língua e temos que promovê-la. Quem tem

QUEM É MURARGY? Murade Isaac Miguigy Murargy tem 65 anos e é o Secretário-Executivo da CPLP desde 18 de Setembro do ano passado, sucedendo a Domingos Simões Pereira, da Guiné. Natural de Moçambique, Murade Murargy desempenha ainda o cargo de Embaixador do país, depois de ter sido durante dez anos Secretário-Geral da Presidência. Chefiou a missão diplomática moçambicana em Paris e foi também delegado permanente de Moçambique na UNESCO.

Não é só querer que a língua se promova ou se difunda, mas também é preciso que haja instrumentos para isso. Como, por exemplo, fazem os franceses: criar centros culturais ou aquelas ‘Alliances Françaises’; ou os ingleses com os ‘British Councils’. Nós também temos de promover a língua através de instrumentos próprios. O Instituto Camões ainda vai fazendo o seu trabalho de promover a Língua Portuguesa, em primeiro lugar, somos nós, que a falamos, não os outros. Qual a área em que se foca mais a utilização da Língua Portuguesa? Em todas as áreas, em todas as dimensões. Isto, porque o ensino vai ter a sua consequência nos negócios, portanto uma coisa não invalida a outra. Não sendo membro dos países da CPLP, como se pode avaliar

o papel de Macau como quem está de fora? Macau é uma plataforma, que é extremamente importante para os negócios com a própria China. Parte-se do pressuposto que a China, através de Macau tem uma relação muito mais privilegiada com os PLP. Não é porque a China não tenha directamente, porque tem, mas parte-se do pressuposto que, em Macau, o português está aqui e fica mais fácil, mais equilibrado, penetrar nos nossos países, usando Macau como pla-

taforma para poder cooperar com os Países de Língua Portuguesa. Macau tem esse mérito de ser a alavanca para a porta de entrada para os restantes países de Língua Portuguesa. Ouvimos falar de Macau como plataforma diversas vezes, mas deveria estar mais alguma coisa em cima da mesa ou o território está a cumprir bem esse papel que lhe incubem? Acho que está ser cumprido e a progredir. A própria China está consciente disso e usa Macau como se fosse a sua ponta de lança para os nossos países. É só ver os números de investimento, são gigantescos... não são milhões, são biliões que a China coloca à disposição. Amanhã [hoje] vai ser assinado mais um plano de acção para a cooperação com a China. Ainda não conheço bem o plano, mas é para orientar a cooperação da China nos próximos três anos com os Países de Língua Portuguesa. Sei que a situação do novo acordo ortográfico não foi falada na conferência, mas gostaria de saber a sua opinião pessoal sobre a implementação deste acordo. Não foi debatido, nem é lugar para isso. Não sei qual seria o ponto a discutir, mas neste momento ainda há dois países - Angola e Moçambique - que ainda não o ratificaram, mas que vão ratificar, porque disso fomos informados na conferência. Agora, um acordo, como qualquer outro instrumento jurídico, leva tempo, tem os seus mecanismos para que cada país o possa ratificar, uns já o fizeram, outros ainda não. Os que fizeram, como o Brasil, descobriram aspectos que podem ter implicações na sua introdução no país e ainda está a fazer uma reflexão, apesar do acordo estar em vigor... Mas, enquanto moçambicano, concorda que o seu país ratifique o acordo? Vão ratificar, já está concordado. A mim não me faz diferença, nem falta. A si faz-lhe? Não, não faz falta, pessoalmente, até acho que nos vai confundir muito. Focando-nos precisamente em Moçambique, como é que vê a tensão que se vive no país neste momento? Estou em Lisboa, não no terreno. Está cá o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Moçambique que pode dar uma informação mais detalhada do que a minha, mas vejo que os moçambicanos vão, como sempre, ter a capacidade de ultrapassar a situação que se vive neste momento. Tenho a informação de que está tudo sobre controlo e que não tem tanta dimensão como a que se dá nos meios de comunicação social.


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JANTAR ARRANCOU IV CONFERÊNCIA MINISTERIAL DO FÓRUM MACAU

“Elevadas expectativas” no fundo financeiro Um jantar no “Dome” com cerca de 600 empresários e figuras políticas marcou o arranque da IV Conferência Ministerial do Fórum Macau. Paulo Portas sentou-se ao lado de membros do Governo da RAEM e da China, mas não discursou. Ao HM, empresários dizem esperar muito deste encontro ANDREIA SOFIA SILVA

UC ESTUDA FÓR UM MACAU

andreia.silva@hojemacau.com.mo

O

relógio bateu as 19 horas quando as mesas de jantar se encheram com os membros das delegações dos países de língua portuguesa que participam na IV Conferência Ministerial do Fórum Macau, que decorre até amanhã. Mais do que uma centena de pessoas ouviram Gao Hucheng, Ministro do Comércio da China, falar da “importante plataforma” que constitui o Fórum Macau. Contudo, a tradução do discurso, dito em mandarim, estava apenas destinado aos convidados e não à imprensa. Chui Sai On, o Chefe do Executivo, frisou a importância da ligação aos países falantes de português. Paulo Portas, vice Primeiro-Ministro de Portugal, não falou publicamente. De Portugal chegaram cerca de 25 empresários, muitos deles ligados ao sector da banca. As expectativas são, para muitos, elevadas. Ao HM, José Carlos Mateus, do Montepio, disse estarem presentes para dar apoio às Pequenas e Médias Empresas que querem exportar para a China. “Não se pode só ver o mercado chinês

A Universidade de Coimbra (UC) está a desenvolver um projecto de investigação sobre o balanço dos dez anos do Fórum Macau, por se tratar de “um caso único de cooperação a nível global”, disse Joaquim Ramos de Carvalho, vicereitor. Financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia em Portugal, Joaquim Carvalho não consegue apontar uma data para a finalização do projecto, coordenado por Carmen Amado Mendes. “A UC tem dedicado atenção do ponto de vista científico e de investigação ao Fórum, e mantém-se interessada em acompanhar os trabalhos e ajudar os parceiros envolvidos a terem uma visão mais clara do que se passa.”

mas também a questão da lusofonia, deve-se explorar oportunidades e aproximar empresas e associações.” Jorge Martins, do Millenium BCP, considera que Macau “é uma aposta grande”, porque “joga muitíssimo bem com as geografias em que o Millenium BCP está

integrado, como Angola e Moçambique”.

“NOVO PATAMAR”

Optimista está também Jitendra Tulcidas, representante da Associação Industrial Portuguesa (AIP). Ao HM, Jitendra não duvida de que esta 4ª conferência coloca

o Fórum Macau “num novo patamar”. “Criará expectativas como consequência da efectivação e consolidação do fundo para a cooperação. Este era provavelmente aquele instrumento que fazia mais falta ao Fórum para se tornar mais eficaz e interventivo.” Hoje decorre a conferên-

cia propriamente dita, onde ficarão decididos os objectivos a cumprir até 2016. Amanhã haverá novidades, segundo Jitendra Tulcidas. “Durante o encontro empresarial devem haver novidades em termos de alguns projectos que já poderão estar a ser financiados pelo fundo.”

Echo Chan, directora-executiva do Instituto de Investimento e Promoção ao Comércio (IPIM), não duvida de que esta conferência “é uma boa oportunidade para esta plataforma de Macau”, sendo “uma estratégia do Governo Central e de Macau”.

VICE-REITOR DA UNIVERSIDADE CONFIRMOU CONTACTOS COM INSTITUTO CULTURAL

Coimbra quer colaborar nas indústrias criativas H

Á muito que a Universidade de Coimbra (UC) mantém ligações com a RAEM em áreas comuns como o Direito ou a língua portuguesa. Contudo, o fomento das indústrias culturais e criativas é outro dos objectivos da instituição, segundo confirmou ao HM Joaquim Ramos de Carvalho, vice-reitor. “Estamos a tentar lançar uma nova linha na área das indústrias culturais e criativas. Achamos que há um campo enorme de oportunidades e que existe uma grande dinâmica

Joaquim Ramos

(do sector) em Macau. Temos feito muito trabalho na história e no papel de Coimbra na sua ligação com Macau.” Joaquim Ramos de Carvalho diz que a entidade “tem falado” com a Universidade de Macau, Instituto Politécnico de Macau e Universidade de São José, sem esquecer o Instituto de Estudos Europeus. Mas o Governo da RAEM também entra no jogo. “Temos falado com o Instituto Cultural. Tivemos recentemente uma delegação do Conselho das

Indústrias Culturais e Criativas e estamos a falar com entidades governamentais.”

NEGÓCIO E FORMAÇÃO

O vice-reitor da UC, que falou com o HM à margem do jantar de arranque da IV Conferência Ministerial do Fórum Macau, não quis dizer especificamente quais os projectos que estão em cima da mesa, muito menos quais as datas para os realizar. “Gostaríamos muito de trabalhar em Macau na formação de pessoas e

de quadros e no estímulo ao empreendedorismo de empresas que misturam património, criatividade e tecnologia. Estamos a facilitar encontros com empresas que possam desencadear processos comuns.” Do lado de Portugal, “é evidente que há muita vontade e algumas competências para colaborar com essa área. Queremos dar um estímulo à formação de quadros e partilhar exposições, e capitalizar o património comum”, disse ainda. - A.S.S.


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hoje macau terça-feira 5.11.2013

CENTENAS DE VISITANTES COM O ‘VISTO’ DO FÓRUM

Venha de lá a Lusofonia P ELAS fronteiras de Macau passam, por mês, mais de dois milhões de visitantes - mais do triplo da população. Porém, são raros os dias de intenso fluxo no canal diplomático, cruzado, estes dias, por líderes da China e de países lusófonos. Desde esta sexta-feira, que à ‘boleia’ da IV Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau) - que se realiza na terça e quarta-feira -, Macau tem dado as boas-vindas às cerca de duas centenas de personalidades que compõem as delegações do universo lusófono. Para o evento, que reúne em Macau de três em três anos, vêm governantes da China e de países de língua portuguesa, incluindo um primeiro-ministro, um vice-presidente e três vice-primeiros-ministros, cujos ‘movimentos’vão ser seguidos de perto por 358 profissionais de um total de 62 meios de comunicação social acreditados para a IV Conferência Ministerial. As delegações oficiais dos países lusófonos contam com cerca de 170 personalidades - cada uma com entre 10 e 20 elementos, segundo os dados divulgados pelo Gabinete de Comunicação Social de Macau. Apesar de ser das últimas a chegar - apenas hoje [ontem] -, a comitiva brasileira supera a média: chefiada pelo vice-presidente,

Wang Yang

Michel Temer, é composta por cerca de seis dezenas de elementos. Algo que poder-se-á explicar designadamente com o facto de o programa de Michel Temer, que visita a China a convite do homólogo chinês, Li Yuanchao, incluir, esta terça-feira, a participação na 3.ª ronda da Comissão de Alto Nível Sino-brasileira (COSBAN), a qual co-presidirá com o vice-primeiro-ministro chinês Wang Yang. Aronda da COSBAN vai ser co-presidida por Temer e pelo vice-primeiro-ministro chinês Wang Yang, que também está em Macau para a IV Conferência Ministerial do Fórum Macau. Apesar de não participar directamente no Fórum Macau, São Tomé e Príncipe enviou dois representantes que irão integrar os eventos de terça e quarta-feira na qualidade de convidados especiais. A ‘missão’ são-tomense é chefiada pelo ministro do Plano e Finanças, Hélio Almeida, que participa no Fórum com o estatuto de observador, apesar de não

existirem relações diplomáticas entre São Tomé e Príncipe e a China. São Tomé e China deixaram de ter relações diplomáticas há 15 anos, quando o país africano reconheceu Taiwan. Além das institucionais, a China e os países lusófonos enviaram comitivas empresariais, até porque está agendado, para quarta-feira, um encontro - inclui um seminário e bolsa de contactos - sobre os projectos do Fundo da Cooperação para o Desenvolvimento entre a China e os Países de Língua Portuguesa, anunciado na anterior Conferência Ministerial do Fórum, em 2010, pelo então primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao. Em Setembro chegaram à Região Administrativa Especial um total de 2.332.325 visitantes, dos quais quase dois terços (64%) provenientes do interior da China. Apesar de Macau e Hong Kong integrarem a República Popular da China, visitar as duas regiões administrativas especiais requer, para os cidadãos do interior do país, um visto como se de uma visita ao estrangeiro se tratasse. Nos primeiros nove meses do ano, Macau foi o destino escolhido por um total de 21,9 milhões de pessoas, pelo que, a manter-se este ritmo de crescimento, e dado que falta contabilizar Outubro, mês de “Semana Dourada”, a meta dos 28 milhões de 2012 deverá ser superada.

TDM assina protocolos com agências cabo-verdiana e guineense e televisão de Timor-Leste A Teledifusão de Macau (TDM) assinou ontem com as agências noticiosas de Cabo Verde e Guiné-Bissau e com a Rádio Televisão de Timor-Leste protocolos de cooperação para a partilha de notícias e formação. Os documentos, assinados no âmbito de actividades paralelas à realização em Macau da quarta Conferência Ministerial do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), seguemse a outros já rubricados pela estação de rádio e televisão responsável pelo serviço público de radiodifusão de Macau. Em declarações aos jornalistas no final da cerimónia, Frederico Rosário, da administração da TDM, salientou que a Rádio televisão de Timor-Leste já emite programas da empresa de Macau desde 1 de Novembro. Por parte da Infopress, agência de

Cabo Verde, a formação de quadros junto da TDM é uma “componente indispensável” do acordo de cooperação, salientou José Mário Correia, presidente da empresa, secundado na mesma linha por Salvador Gomes, da agência da Guiné-Bissau que recorda que a sua empresa está em fase de “relançamento” e que a componente formativa é essencial e o ponto principal do acordo assinado. Por parte da TDM, os três acordos foram assinados por Leong Kam Chun, administrador delegado da empresa que já tem vários protocolos com estações de televisão de países de língua portuguesa, o último dos quais rubricado em Agosto com a televisão de São Tomé e Príncipe. De acordo com a TDM, a formação dos quadros das agências noticiosas de Cabo Verde e Guiné-Bissau deverá ter início no primeiro semestre de 2014.

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SOCIEDADE

hoje macau terça-feira 5.11.2013

TRÂNSITO MAIS DE 11.200 ACIDENTES RESULTARAM EM 14 MORTES

A selva na estrada E NTRE Janeiro e Setembro ocorreram em Macau 11.228 acidentes de viação, mais 2% do que no período homólogo do ano passado, os quais resultaram em 3.951 vítimas, 14 das quais mortais, indicam dados oficiais divulgados. De acordo com a Direcção de Serviços de Estatística e Censos (DSEC), só no mês de Setembro foram registadas 475 vítimas, duas das quais mortais. No total

de 2012, contabilizaram-se 18 mortes. No final de Setembro, circulavam nas estradas de Macau 224.146 veículos, mais 5% relativamente a igual período de 2012, dos quais mais de metade (53%) eram motociclos e 41% automóveis particulares. Nos três primeiros trimestres foram atribuídas 13.945 novas matrículas reflectindo um acréscimo de 6% em termos anuais. Entre Janeiro e Setembro,

movimentaram-se 3.446.796 viaturas nas fronteiras terrestres entre Macau e o interior da China, número que traduz um aumento de 5% em relação a igual período de 2012, com o posto fronteiriço das Portas do Cerco a contabilizar 82% do movimento total.

OUTROS TRANSPORTES

Na vertente dos transportes marítimos, os mesmos dados assinalam que, até Setembro, foram realizadas 104.455 viagens de passageiros por barco

ILHA DA MONTANHA PARQUE INDUSTRIAL ATRAI PROJECTOS DE 89 EMPRESAS DE MACAU

O que é local é bom U M total de 89 empresas de Macau submeteu, ao longo dos últimos três meses, projectos de investimento no Parque Industrial de Cooperação Guangdong-Macau, na Ilha da Montanha, uma das áreas estratégicas da China, adjacente ao território. Segundo dados do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), foram recebidos até quinta-feira - data limite para entrega de propostas - 89 projectos de investimento de empresários locais principalmente nas áreas de turismo e lazer, logística e comércio, bem como desenvolvimento tecnológico e educacional e de investigação, cultura e criatividade, alta tecnologia, medicina e saúde ou serviços financeiros. As propostas de investimento das empresas locais vão ser agora submetidas à apreciação da “Comissão de Apreciação dos Projectos de Macau no Âmbito do Desenvolvimento de Hengqin” (Ilha da Montanha). Também na quinta-feira, o secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, indicou que se prevê que a lista preliminar seja concluída no início de Dezembro para ser apresentada, no início do próximo ano, à Ilha da Montanha. Na perspectiva de Francis Tam, o número de pedidos das empresas locais para operarem no Parque Industrial de Cooperação Guangdong-Macau demonstra

“que os empresários de Macau estão muito interessados em investir e em desenvolver negócios na Ilha da Montanha”. Representantes das pequenas e médias empresas de Macau, que representam cerca de 90 por cento do tecido empresarial de Macau, contactados pela agência Lusa em Agosto, altura em que abriu o prazo de apresentação de projectos, mostraram-se divididos relativamente às oportunidades da Ilha da Montanha, terceira área estratégica da China. Na participação no desenvolvimento nesse parque industrial da Ilha da Montanha é exigido um investimento mínimo na ordem de 100 milhões de yuan, havendo outros requisitos nomeadamente ao nível de impostos consoante o sector, um patamar visto por alguns elementos como elevado. Hengqin foi considerada como a terceira área estratégica da China no âmbito da sua política de reforma e abertura, depois de Pudong, em Xangai, e Binhai, em Tianjin. Até 2020, Pequim prevê que a ilha da Montanha, com 106 quilómetros quadrados - o triplo da área de Macau -, tenha uma população de 280 mil pessoas com um Produto Interno Bruto (PIB) per capita de 200 mil yuan face aos actuais 4.000 habitantes e um PIB per capita inferior a 8.000 yuan.

Tiveram alta hospitalar três das seis vítimas de agressões ocorridas na Doca dos Pescadores

Seis indivíduos, cinco homens e uma mulher, com idades compreendidas entre os 21 e 64 anos, foram esfaqueados este fim-de-semana na Doca dos Pescadores. As razões das agressões estão ainda por deslindar mas os Serviços de Saúde (SS) já deram alta a três das pessoas que deram entrada Serviço de Urgência do Centro Hospitalar Conde de São Januário. As que continuam internadas estão em estado considerado estável.

entre Macau e Hong Kong, bem como Macau e o interior da China, ou seja, menos 497 comparativamente a igual período do ano passado. As ligações de barco entre Macau e Hong Kong perfizeram 79% do total. Já os 33.224 voos comerciais no Aeroporto Internacional de Macau nos primeiros nove meses do ano evidenciaram um crescimento de 18% em termos anuais, com a DSEC a destacar que tal se ficou a dever ao “aumento significativo” de ligações entre Macau o interior da China e Taiwan, bem como entre Macau e a Tailândia. No heliporto realizaram-se 12.268 voos entre Macau e Hong Kong, bem como Macau e o interior da China, ou seja, menos 10%, em comparação com o mesmo período do ano passado.

COMUNICAÇÕES

Ao nível das comunicações, Macau contava, no fim de Setembro, com 1.556.994 de utentes de telemóvel, mais 2% em termos anuais, muitos dos quais de cartões pré-pagos, usados frequentemente pelos turistas.

Já os utentes de linhas telefónicas fixas eram 159.245, menos 3% do que em igual período do ano passado. No plano do serviço de Internet, contabilizavam-se

250.743 assinantes - mais 12% -, os quais utilizaram 597 milhões de horas nos nove primeiros meses do ano, ou seja, mais 21% do que no período homólogo de 2012.

Casinos com receitas brutas de 36.477 milhões

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S casinos de Macau fixaram em Outubro um novo recorde mensal de receitas brutas ao apurarem 36.477 milhões de patacas, uma subida de 31,7% face a Outubro de 2012, foi anunciado. Os dados de Outubro divulgados pelos Serviços de Inspecção e Coordenação de Jogos elevam para 297.109 milhões de patacas as receitas brutas nos 10 primeiros meses de 2013, uma subida de 18,4% face ao mesmo período do ano passado. A receita de Outubro é suficiente para “bater” o total apurado no ano de 2003 quando os casinos fecharam as contas com um total de 30.315 milhões de patacas e traduzem 83,8% do total das receitas apuradas em todo o ano de 2004, o primeiro ano em que casinos foram do universo de Stanley Ho estavam em operação de Macau.

O crescimento das receitas do jogo, que em 2013 deverão fixar-se entre os 350.000 e os 355.000 milhões de patacas, tem sido uma constante desde a abertura dos novos espaços de hotel/casino fora do universo de empresas de Stanley Ho, embora o fundador da Sociedade de Jogos de Macau (SJM) continue a ser o líder das receitas. Dados compilados pela agência Lusa indicam que em Outubro a SJM consolidou a sua liderança com cerca de 26% de quota de mercado e marcou um novo recorde de receitas de um operador com quase 9.500 milhões de patacas, relegando os seus mais directos concorrente para uma diferença acima dos 5 pontos percentuais. O segundo lugar do

ranking de operadores foi ocupado pela Galaxy Entertainment Group, de interesses de Hong Kong do magnata Lui Che Woo, com uma quota de quase 21%, seguida pela Sands China, do magnata norte-americano Sheldon Adelson, que registou uma quota ligeiramente acima dos 20%. A segunda metade da tabela foi ocupada pela Melco Crown, que tem como vice-presidente Lawrence Ho, filho de Stanley Ho, seguido pela Wynn Resorts, do norte-americano Steve Wynn, e da MGM China, liderada por Pansy Ho, também filha de Stanley Ho. Todos os operadores, com excepção da MGM China, registaram mais de 10% de quota, embora a receita dos seis operadores tenha sido sempre superior a 3.300 milhões de patacas.


CHINA

hoje macau terça-feira 5.11.2013

PEQUIM EXIGE EXPLICAÇÕES AOS EUA SOBRE ESPIONAGEM

Cinco olhos A China exigiu explicações dos Estados Unidos depois do jornal Sydney Morning Herald ter denunciado a possível colaboração da Austrália com os EUA para reunir informações de inteligência de países asiáticos. Citando documentos de Edward Snowden e de uma ex-autoridade ligada à espionagem australiana, o jornal denunciou que as instalações dentro de embaixadas australianas na Ásia estariam a ser usadas para interceptar ligações telefónicas e de dados, em cooperação com os EUA. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da China incentivou outros governos estrangeiros a não utilizarem as suas instalações diplomáticas a fim de não prejudicar a segurança nacional do país. “A China está extremamente

preocupada com este relatório, já fez representações contra os EUA e exigiu que o país norte-americano esclareça os factos”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Hua Chunying. O porta-voz exigiu ainda que as embaixadas estrangeiras na China respeitem a Convenção de Viena e outros tratados e “não se envolvam em quaisquer actividades que não estejam de acordo com o seu estatuto ou que prejudiquem a segurança e os interesses da China”. Segundo o jornal, as embaixadas da Austrália envolvidas na espionagem estariam em Jacarta, Banguecoque, Hanoi, Pequim e Dili, em Timor Leste, e também em Kuala Lumpur e Port Moresby, na Papua Nova-Guiné. As embaixadas dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália,

Acabaram transplantes de órgãos de prisioneiros executados

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Nova Zelândia e Canadá abrigariam secretamente equipamentos de vigilância para colectar comunicações electrónicas. Estes países teriam um acordo de partilha de informações de segurança conhecido como “Five Eyes” (cinco olhos, em tradução livre). Na Indonésia, o embaixador australiano Greg

XINJIANG CHEFE MILITAR AFASTADO DO PARTIDO

Vítima do atentado O Partido Comunista chinês afastou das suas fileiras o comandante militar de Xinjiang depois de um atentado em Pequim oficialmente atribuído a habitantes desta região de maioria muçulmana do noroeste da China, informou domingo a imprensa local. Peng Yong, que foi nomeado em Julho de 2011 como comandante militar da região do Xinjiang, foi demitido das suas funções de membro do Comité Permanente do Partido Comunista chinês desta região, informou o Diário do Xinjiang. O jornal oficial não precisa a razão do afastamento de Peng, mas ele surge menos de uma semana depois de um atentado ocorrido na praça Tiananmen, em Pequim. Depois de perder a sua posição no Partido Comunista do Xinjiang, o general Peng deverá ser afastado das suas responsabilidades militares na região. Segundo a polícia chinesa, três

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uigures do Xinjiang conduziram na segunda-feira da semana passada um veículo carregado com botijas de gás contra a entrada da Cidade Proibida, num ataque que causou a morte a duas pessoas, bem como aos três ocupantes do veículo, e 40 feridos. Mais de 50 pessoas foram detidas no Xinjiang, segundo um grupo de defesa dos uigures citado pela agência AFP. Xinjiang, que confina com o Afeganistão, Paquistão e três ex-repúblicas muçulmanas da Ásia Central, tem sido palco de confrontos violentos, que causaram dezenas de mortos em Abril, Junho e Agosto e que as autoridades atribuem normalmente a “terroristas” ou “separatistas”. Algumas organizações que advogam a “jihad” no Xinjiang estão ligadas à Al-Qaeda e os seus membros receberam treino militar no vizinho Afeganistão, afirmam as autoridades chinesas.

Explosão em fábrica de pirotecnia causou 11 mortos

A polícia chinesa deteve duas pessoas na sequência de uma explosão ocorrida na sexta-feira numa fábrica de fogo-de-artifício na província chinesa de Guangxi que causou 11 mortos e 17 feridos, informou a agência oficial Xinhua. O gerente e representante legal da fábrica foram detidos, indicou a Xinhua, sem precisar a causa da explosão.

Moriarty disse, numa nota, que tomou conhecimento da situação e vai apresentar um relatório em Camberra, capital da Austrália. O Departamento de Relações Exteriores e Comércio recusou-se a comentar as alegações, enquanto o primeiro-ministro australiano, Tony Abbot, disse que o governo não infringiu nenhuma lei.

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China, o único país que ainda retira sistematicamente órgãos de prisioneiros executados para operações de transplante, planeia acabar com esta prática polémica prática até meio do próximo ano, afirmou este sábado uma autoridade responsável. Até meados de 2014, todos os hospitais licenciados para transplantes terão que interromper a utilização de órgãos de pessoas executadas e utilizar apenas os que forem doados voluntariamente e registados no sistema nacional, afirmou Huang Jiefu, ex-vice-ministro da Saúde, que actualmente coordena a reforma no sistema de transplantes. A oferta de órgãos é escassa na China, em parte por crenças tradicionais de que o corpo deve ser cremado e enterrado intacto. Cerca de 300 mil pacientes entram todos os anos na fila de espera para transplantes, e apenas

um em cada 30 consegue realizar a cirurgia. A escassez alimentou o tráfico de órgãos, e em 2007 o governo proibiu doações de pessoas vivas, excepto cônjuges e parentes de sangue ou integrantes adoptados na família. Huang, um cirurgião de transplantes formado na Austrália, admitiu que o problema do mercado negro de órgãos não será fácil de ser resolvido na China. “O comércio ilegal de órgãos será inevitável na sociedade chinesa ainda durante muitos anos. A grande procura é uma das causas. Enquanto houver uma diferença entre a oferta e a procura, o tráfico ilegal de órgãos não vai desaparecer, mas o governo continuará a combatê-lo”, afirmou.


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GASTRONOMIA LUSÓFONA

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NUNO BERGONSE REPRESENTA PORTUGAL NO FESTIVAL GASTRONÓMICO “SABORES DO MUNDO”

É das suas mãos que partem as iguarias que Portugal apresenta nos “Sabores do Mundo”, no restaurante Feast do hotel Sheraton. O chef Nuno Bergonse foi escolhido pela Casa de Portugal para, até quinta-feira, agarrar pelo paladar luso os visitantes, naquela que é a 5.ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa. No regresso, assegura, não vai de mãos a abanar RITA MARQUES RAMOS rita.ramos@hojemacau.com.mo

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ORTUGAL está a ser representado no hotel Sheraton, no âmbito da 5.ª Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, por um dos seus melhores cartões de visita: a gastronomia. Pretensões à parte, os navegadores da ocidental praia lusitana, ao lado dos outros 10 países e regiões de expressão portuguesa, deixam marca. Quem o diz é o Chef Nuno Bergonse, escolhido pela Casa de Portu-

gal para representar o país no festival gastronómico “Sabores do Mundo”, que decorre até quinta-feira, no restaurante Feast. “Talvez seja presunçoso da minha parte dizer que é o mais apreciado mas é de certeza o mais concorrido. Digo isto porque temos cerca de 200 a 250 refeições para servir e tenho de reforçar sempre [este número].” À mesa do buffet contam-se, sobretudo, os clássicos - o bacalhau com natas, o bacalhau à lagareiro, o polvo, o arroz de pato, os enchidos portugueses - e as sobremesas

HOJE MACAU

“Levo olhos e escamas de peixe, camarões

conventuais do Algarve (doce de ovos, pão de rala), entre outras. Todos eles, diz Bergonse, carimbam o “selo de Portugal” nesta mostra. “Tem sido muito bom confeccionar pratos tipicamente portugueses porque pratico, em Portugal, uma cozinha portuguesa tradicional mas contemporânea, ou seja, dou um toque de sofisticação sem desrespeitar muito os produtos. Aqui a ideia seria inicialmente essa mas depois

apercebi-me que não faria muito sentido. Acho que as pessoas locais e continentais queriam provar as origens e fiz essa alteração”, explicou Bergonse, que em Portugal se dedica ao espaço “Ministerium Cantina”, no Terreiro do Paço. Na sua primeira viagem à Ásia, que sempre pensou obrigatória no seu percurso profissional, vem como observador activo mas, sobretudo, sedento de conhecer mais sobre a cul-

SABORES LUSÓFONOS REVIVIDOS MAIS EM CASA QUE NO RESTAURANTE

Portugueses são a excepção L

ONGE de casa, as comunidades lusófonas de Macau matam saudades dos sabores tradicionais de cada país ou território mais entre amigos do que em restaurantes especializados na cidade, com excepção dos portugueses que vão tendo um leque variado de escolhas. Com pouco mais de 30 quilómetros quadrados distribuídos pela península e duas ilhas - Taipa e Coloane -, Macau sempre foi uma cidade pacata e só depois de 2004, quando começaram a abrir os primeiros casinos fora do universo de empresas de Stanley Ho, é que o ritmo da cidade se tornou verdadeiramente infernal com novos hotéis/casino e grandes espaços comerciais e de lazer a inundarem a paisagem onde, nalguns casos, existia apenas água. Com os novos hotéis vieram novos restaurantes e apesar da legislação defender comida portuguesa e chinesa para que as unidades hoteleiras possam ser consideradas de cinco estrelas, os pratos

lusitanos, ou aproximados, resumem-se, na maioria dos casos, a pouco mais que um caldo-verde. E mesmo quando se anuncia um bom rodízio brasileiro, num grande centro comercial local, a comida é servida lado a lado com a gastronomia de outras paragens, como a mexicana, explica Jane Martins, presidente da Casa do Brasil em Macau. Do Brasil, em Macau, “há o restaurante Brasil’, da Maria, junto às Ruínas de São Paulo, mas também está adaptado à realidade local e não pode servir apenas pratos brasileiros”, acrescenta a mesma responsável ao salientar que além dos restaurantes portugueses “pouco mais existe das comunidades de língua portuguesa”. “Não temos restaurante, mas não deixamos de saborear os nossos pratos com produtos que nos chegam dos nossos países e que vamos confeccionando para juntar os amigos quer seja em casa, quer seja numa tarde bem passada em parques

ou jardins em volta de alguns dos nossos pratos tradicionais”, conta Filomena Barros, da Associação Guineense dos Naturais e Amigos da Guiné-Bissau. É assim, acrescentou, que se passa de geração em geração a cultura de cada país e “quem visita o local de origem tem sempre muito que contar, aproveita para trazer produtos tradicionais que servem depois para juntar o grupo, quase todo de amigos”. Depois, pontualmente, como agora, a Administração de Macau ajuda as associações a promoverem a sua cultura através da Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa proporcionando a vinda a Macau de um chefe de cozinha e de um artesão, momentos sempre bastante concorridos que servem para matar saudades dos pratos tradicionais de cada região, como destacou António Mota da Associação de Amizade Macau-Timor.

tura chinesa, nomeadamente no que toca à culinária. Até porque na cozinha onde pratica as suas artes, trabalham outros cozinheiros chineses que “levam muito a sério o equilíbrio das coisas” e a inclusão de dois elementos essenciais na mesa de trabalho: água e fogo. “As técnicas de confecção são muito diferentes, mais subtis. Nós elaboramos demais e complicamos, eles têm processos muito simples para cozinhar

que exponenciam o sabor das coisas mil vezes. E depois, aproveitam tudo. Todos os animais, e tudo num animal. E agora percebo, é perfeitamente inteligente com as técnicas que utilizam. Eles comem num peixe as espinhas, as escamas, os olhos. Acho que até devem comer o anzol”, ironiza Nuno Bergonse. Apesar de admirador confesso, uma cozinha de fusão da gastronomia chinesa e portuguesa, como a que em parte gerou a culinária macaense, não faz parte dos seus planos futuros. “Há um lema em inglês que a descreve bem: “fusion is confusion” (fusão é confusão). E eu até acredito nisso. Quando é misturado tem de ser com muito conhecimento e delicadeza senão vai tornar-se numa grande confusão”, revela. Ainda assim, não esquece e é mesmo relembrado neste festival da gastronomia, pelos actuais colegas de trabalho do espaço da lusofonia, que a cozinha portuguesa também veio buscar longe muitos ingredientes, como especiarias, para alguns dos seus pratos. “É curioso porque, por exemplo, para uma sobremesa os Chefs de Goa e Macau até trocaram ingredientes numa receita muito parecida. Há muitas parecen-

Parada cultural da China e dos PALOP desfilou pelo centro histórico de Macau

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EZENAS de pessoas desfilaram domingo entre as Ruínas de São Paulo e o Largo do Senado em Macau na “parada cultural” da China e dos países de língua portuguesa que animou o final da tarde no centro histórico de Macau. Além da música e das caras pintadas, das andas e das guitarras de Goa, o percurso entre as Ruínas de São Paulo e o Largo do Senado foi preenchido com muita dança dos países africanos e com os tambores do grupo de capoeira do Brasil, composto essencialmente por residentes em Macau dos vários países de língua portuguesa. Ao longo de cerca de 500 metros, a animação no centro da cidade ganhou nova

vida e o turismo encontrou novos pontos de interesse para uma fotografia pouco comum, num percurso habitualmente lotado de visitantes da China que procuram produtos ‘made in Macau’ para mostrar no continente chinês. No final do percurso, já em pleno Leal Senado e com grande parte dos músicos, como os portugueses da Kumpania Algazarra, que participaram na Festa da Lusofonia que decorreu até domingo nas casas Museu da ilha da Taipa, a animação continuou com ou sem instrumentos, mas numa mescla cultural lusófona do Brasil a Timor-Leste, passando por Portugal, África e Macau.


gastronomia lusófona 11

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e anchovas desidratadas” ças, sobretudo, na presença de especiarias. Há outros países em que as guarnições são muito semelhantes e há uma série de ingredientes-chave que se cruzam. Se dividíssemos a lista de ingredientes que requisitamos, todos podíamos fazer o que procurávamos”, salvaguardou. Por tantos motivos, o balanço é acima de tudo muito positivo, ainda que haja uma certa “barreira linguística” mas, a contrabalançar, há também uma “rotina de trabalho com pessoas de várias personalidades”. No regresso a Portugal leva, por isso, “coisas na memória” mas também na bagagem. “Levo olhos de peixe, escamas, vários tipos de óleos, camarões e anchovas desidratadas. Há tantas coisas que em Portugal não se vêem e como cozinheiro despertam curiosidade”, confessa. PUB

Sobre o evento cultural em que foi inserido, Nuno Bergonse diz que, por exemplo, o 16.º Festival da Lusofonia mostrou-se “bem organizado, num espaço bonito, onde nunca tinha esperado ouvir em Macau um concerto em crioulo e de ver chineses a dançar samba”. Sobre os 10 anos do Fórum Macau, entende que esta plataforma é “culturalmente gratificante para todos”, além do “factor económico”. “Eu não tenho noção do papel dos portugueses na economia local mas acho que é uma porta de entrada muito grande. E acho que os portugueses não têm noção de quão apreciados são aqui em Macau. Aqui somos levados a sério e apreciados. [...] O único problema que vejo é a incapacidade de dar resposta às necessidades de chineses porque o consumo aqui é muito grande por isso a produção e o tipo de serviços teriam de dar

PERFIL Tem apenas 26 anos mas já soma 10 de experiência profissional. Nuno Bergonse é natural do Brasil, de Santa Catarina, onde viveu até aos cinco anos. Depois de assentar em Lisboa, dedicou-se a partir dos 16 anos literalmente à cozinha e fez o seu curso profissional na Escolha de Hotelaria e Turismo de Lisboa, em part-time com trabalhos. Depois de formações em Londres (1 anos) e Barcelona (2 anos) e de contar no seu curriculum com uma passagem pelo Hotel Ritz e pelo restaurante Eleven, abriu o seu próprio espaço “Pedro e o Lobo”, em Lisboa, que entretanto já passou para outras mãos. Trabalha há um ano no “Ministerium Cantina”, na praça Terreiro do Paço, em Lisboa, como responsável da parte gastronómica.

resposta a isto porque o consumo aqui é gigante. Muitas coisas talvez não estejam cá por essa razão, outras naturalmente pelo pouco dinheiro para investir”, enfatiza. Aviagem a Macau de Nuno Bergonse ficará, para já, por aqui mas Macau deverá ouvir falar nele até porque já há ideias de negócio em mente.

Casa de Portugal quer levar Lvsitanvs para as Casas-Museu da Taipa

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ARIA Amélia António, presidente da Casa de Portugal diz estarem a ser “feitos contactos” com o Governo para que o restaurante Lvsitanvs passe a funcionar numa das Casas-Museu da Taipa, depois de em Dezembro deixar o espaço junto das Ruínas de São Paulo, propriedade do deputado Chan Chak Mo. Em declarações à Rádio Macau, a responsável disse que a ideia é dinamizar a Casa de Recepções, a última de cinco casas, junto ao anfiteatro, que se mantém desocupada. E, por outro lado, levar mais visitantes à Zona do Carmo. “É, efectivamente, o sítio de eleição para nós. É sobre uma destas casas que estamos a fazer contactos e a ver se conseguimos conversar com o Governo, porque nós pensamos que será o sítio ideal (...) dentro da expectativa de sermos a tal janela do produto e da cultura, essa janela aqui faz

todo o sentido, até porque pode dar uma vida a este espaço”, afirmou. No fundo, refere, todos ficam a ganhar com esta possível mudança porque “é um enriquecimento para toda a gente”. “Se concretizarmos esta perspectiva, Macau fica mais rica, a RAEM vai ter um espaço de eleição para receber pessoas, para ter eventos com características diferentes, e para ter em permanência a diversificação de que se fala”, acrescentou. Segundo Amélia António, a Secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, que tutela o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), “está sensibilizada” para este facto e lembra que o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Cheong U, é uma pessoa que “está muito ligada à dinamização” do espaço das Casas-Museu até porque foi vice-presidente da Câmara Municipal das Ilhas.


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VIDA

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HOJE NO PRATO Paula Bicho

Naturopata e Fitoterapeuta • obichodabotica@gmail.com

Carqueja Nome botânico: Chamaespartium tridentatum (L.) P. Gibbs = Pterospartum tridentatum (L.) Willk. Família: Fabaceae

IACM NEGA ENTRADA EM PROPRIEDADES PRIVADAS PARA CAPTURA DE ANIMAIS, EXCEPTO EM CASOS ESPECIAIS

Incomodativos e sem licença JOANA FREITAS

joana.freitas@hojemacau.com.mo

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Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) assegura que não apanha animais em propriedades privadas, ainda que possa fazê-lo se estes tiverem a ser “um incómodo” para a população. O IACM disse ainda que os funcionários não recebem bónus por cada animal capturado. As garantias foram deixadas ao HM pelo próprio organismo, que respondeu a questões que surgiram na sequência da denúncia da semana passada, de que estariam a ser cobradas tarifas abusivas para a adopção de cães. As queixas de que o IACM estaria a apanhar animais em propriedades privadas surgiram já no ano passado, tendo voltado a repetir-se este ano. O instituto nega. “De acordo com (...) Código de Posturas Municipais do Concelho de Macau, é necessário

requerer a licença anual para a posse de cães com idade igual ou superior a seis meses.”, começou por dizer o IACM. “A par disso, de acordo com o Regulamento Administrativo (...) da Organização e funcionamento do IACM, o Conselho de Administração do IACM tem o direito de obstar à presença de animais nos espaços públicos ou privados, quando estes representem incómodo para a população, impedindo a sua deambulação pelas ruas.” O organismo explica que sempre que recebe queixas dos cidadãos sobre cães vadios nos estaleiros de obras ou depósitos de lixo, isso prejudica tanto os moradores, como a segurança pública, pelo que “o IACM envia pessoal aos respectivos locais para capturar os cães”. O organismo garante, no entanto, que tudo é feito dentro da lei. “Este Instituto quer salientar que a captura de animais abandonados é uma acção legal e

legítima, não existindo qualquer situação de entrada ilegal em locais privados para capturar os animais. Antes da captura, o pessoal do IACM identifica-se e explica o objectivo do seu trabalho ao respectivo responsável ou trabalhadores presentes no local. Só após a autorização procede à captura dos cães sem licença ou abandonados.” O IACM diz ainda que “exige aos responsáveis das obras que coloquem tapumes em redor dos estaleiros”, de forma a evitar que os animais vadios “ali procurem refúgio”. Sobre o sistema de captura dos animais, o IACM garante que não há benefícios para quem apanha um ou mais animais. “A captura de animais abandonados é uma das funções do pessoal do IACM, não havendo lugar a pagamento de nenhum bónus pela quantidade de animais capturados”, refere a resposta, que surge após denúncias de que isto acontecia.

Planta serrana, a Carqueja cresce no noroeste da Península Ibérica, sendo comum nos matos e charnecas do norte e centro de Portugal e da Galiza. É uma das plantas mais conhecidas e acarinhadas pelo povo, que a utiliza desde sempre. Trata-se de um arbusto resistente, por vezes com mais de um metro de altura, de pequenas flores de cor amarelo vivo e aroma adocicado. Na Primavera, a sua presença oferece um aspeto radioso à paisagem. Não deve ser confundida com a Giesta (Genista) ou o Tojo (Ilex), também de flores amarelas, nem com a Baccharis, uma Carqueja muito utilizada no Brasil, da família das Asteraceae (Compositae). Os seus ramos secos empregavam-se para acender as lareiras ou como lenha nos fornos tradicionais, transmitindo ao pão o seu agradável aroma. Também se usava para esfregar os soalhos e, juntamente com as cinzas da lareira, ajudar a eliminar a gordura e o verdete dos tachos de cobre. Servia ainda para o tratamento dos problemas respiratórios dos animais. Os seus usos medicinais estão ainda pouco investigados, mas, como diz o povo, a Carqueja é boa para tudo! COMPOSIÇÃO Óleo essencial, princípios amargos, resinas e alcaloides; celulose e hemicelulose, substâncias de natureza proteica e vitaminas. A Carqueja é muito rica em compostos fenólicos, sobretudo em flavonoides, que apresenta em elevadas concentrações. AÇÃO TERAPÊUTICA A Carqueja tonifica o estômago auxiliando a digestão, tem uma ação suavemente laxante, estimula a secreção de bílis pelo fígado desintoxicando-o, dissolve os cálculos biliares e favorece o funcionamento da vesícula biliar. É utilizada nos problemas digestivos (azia, digestão difícil, dores de estômago, má disposição), estados inflamatórios do estômago e intestinos, obstipação e diarreia, litíase biliar, inflamação da vesícula, icterícia e congestão hepática. Na ressaca por ingestão abusiva de bebidas alcoólicas proporciona uma rápida desintoxicação do fígado.

Pela sua atividade tónica, estimulante e vitamínica, é empregue na astenia. Como diurética, a Carqueja é útil na inflamação da bexiga e das vias urinárias; depurativa, dissolve os cristais de ácido úrico e auxilia a sua eliminação, sendo indicada na litíase urinária, gota e reumatismo. No emagrecimento, além de diurética e depurativa, confere uma sensação de saciedade, promove a digestão e o funcionamento dos intestinos. OUTRAS PROPRIEDADES Com ação antibiótica e anti-inflamatória, a Carqueja suaviza a mucosas respiratórias acalmando a tosse e as irritações da garganta, facilita a expulsão da expetoração descongestionando as vias respiratórias, e combate a febre. É recomendada na rouquidão, tosse, constipação, gripe, sinusite, amigdalite, faringite, traqueíte, bronquite, asma, pneumonia (como adjuvante) e afeções febris. A Carqueja tem atividade antioxidante, reduz os níveis elevados de colesterol sanguíneo (HDL), baixa a tensão arterial e combate a arteriosclerose; beneficia o funcionamento do pâncreas e do baço, diminuindo o açúcar no sangue dos diabéticos e auxiliando no tratamento da anemia. COMO TOMAR USO INTERNO • Infusão das flores: 30 g por litro de água, 10 minutos de infusão. Tomar uma chávena 3 vezes por dia. Nas afeções respiratórias adoçar com mel • Cozimento das flores: 50 g por litro de água, 15 minutos de fervura. Tomar 3 chávena por dia. Na obstipação, diabetes, gota e reumatismo • Em xarope, cápsulas ou comprimidos. Integra várias misturas de ervas digestivas e para o aparelho respiratório • A infusão de Carqueja ou os seus raminhos floridos são tradicionalmente utilizados em culinária: o Arroz de Carqueja, para acompanhar frango, é um prato muito antigo da região da Serra da Estrela e o Coelho assado com Carqueja é típico da Beira Baixa • As flores são igualmente usadas na confeção de pratos de pato, e podem adicionar-se a saladas, molhos e queijos. PRECAUÇÕES Em caso de dúvida, consulte o seu profissional de saúde.


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CULTURA

hoje macau terça-feira 5.11.2013

PICASSO, MATISSE E CHAGALL ENTRE AS 1500 OBRAS DE ARTE DESCOBERTAS NUM APARTAMENTO ALEMÃO

Arte degenerada

A

S autoridades alemãs descobriram num apartamento de Munique 1500 obras de artistas de renome, num espólio formado durante o período nazi, segundo uma investigação da revista alemã Focus. A publicação diz que as obras valem cerca de dez mil milhões de patacas.

Pelo menos 300 peças fazem parte das que foram consideradas “arte degenerada” durante o regime Nazi, uma classificação para a arte moderna não germânica. O espólio encontrado inclui trabalhos de artistas como Pablo Picasso, Henri Matisse, Marc Chagall, Emil Nolde, Franz Marc, Max Beckmann, Paul Klee, Oskar Kokoschka,

Ernst Ludwig Kirchner e Max Liebermann, segundo a Focus. As obras tinham sido confiscadas durante o regime nazi, sobretudo a coleccionadores judeus. Naquela altura, algumas foram destruídas, outras acabaram vendidas a coleccionadores por preços muito baixos. A apreensão foi feita em 2011, por acaso, quando as autoridades investigavam, por questões fiscais, um homem que é filho de um negociante de arte das décadas de 1930 e 1940. Com uma suspeita de evasão fiscal, a polícia obteve um mandado para fazer uma busca domiciliária e descobriu o vasto espólio artístico. As obras eram guardadas em divisões fechadas e, de acordo com a Focus, o homem, um octogenário que a revista descreve como tendo uma vida solitária, vendia ocasionalmente uma obra, vivendo das receitas. Na altura da apreensão, o homem tinha uma pintura do alemão Max Beckmann a ser leiloada por cerca de 8 milhões de patacas, numa leiloeira na cidade de Colónia. Pelo menos 200 das obras descobertas estavam a ser procuradas a nível internacional. A acção das autoridades não foi divulgada publicamente e o espólio tem estado guardado num armazém nos arredores de Munique.

“Macau Antigo” bate recorde de visitantes No passado mês de Outubro o blogue Macau Antigo registou a sua maior audiência de sempre num só mês. Foram 20.701 visitantes o que dá uma média diária de 667, informa o comunicado de imprensa da organização. Entre os países de origem do maior número de visitantes no mês de Outubro estão Portugal, EUA, Macau, Brasil, Canadá, Hong Kong, Rússia, China, Alemanha e Reino Unido. O blogue Macau Antigo é o maior acervo documental online sobre

a história de Macau acessível de forma gratuita em qualquer parte do mundo. Até agora foram publicados quase 3 mil posts e cerca de 25 mil imagens, acrescenta a nota de imprensa. Desde 2008 o blogue já registou quase 600 mil pageviews. Num inquérito que está a decorrer e em que já votaram 93 pessoas, 86% dos votantes consideram o blogue “excelente”, 11% dá nota “bom” e com apenas 1% estão as classificações de “normal “ e “mau”.

JOANA VASCONCELOS INAUGURA “LUSITANA”, INSPIRADA NA MULHER PORTUGUESA, EM ISRAEL

Série “Valquírias” A

artista Joana Vasconcelos inaugurou ontem, no Museu de Arte de Telavive (TAMA), em Israel, uma peça de grandes dimensões intitulada “Lusitana”, inspirada na mulher portuguesa. De acordo com o ateliê da artista, a intervenção, que ficará em Telavive até 24 de Abril de 2014, foi criada especificamente para um espaço no interior do museu, intitulado “Lightfall”, que tem 30 metros de altura. “Lusitana” é uma obra de grandes dimensões da série “Valquírias”, e vai ficar suspensa naquele espaço do museu, mas com uma configuração

tentacular, que projecta vários “braços”, a partir de um corpo central, para os diferentes níveis do edifício. A peça, que alude à mulher Lusitana, foi produzida com recurso a têxteis industriais variados, de diferentes origens, combinados com técnicas artesanais entre os quais se destacam o croché e os feltros de Nisa, vila do Alto Alentejo, em Portugal. A distribuição desta intervenção artística, que se distribui no espaço, evoca igualmente a expansão marítima e a contribuição dos portugueses para o encontro e intercâmbio de culturas.

EMINEM VENCE PRIMEIRA EDIÇÃO DOS YOUTUBE MUSIC AWARDS

Cerimónia inédita em directo N

UMA cerimónia inédita, transmitida em directo mas sem carpetes vermelhas, e em que da entrega dos prémios resultavam novos vídeos pensados para a Internet, o rapper Eminem foi o grande vencedor na categoria de Artista do Ano na primeira edição dos YouTube Music Awards, ficando à frente de Justin Bieber e de PSY, também nomeados para a mesma categoria. A cerimónia, que teve lugar na noite de domingo em Nova Iorque, foi realizada por Spike Jonze e apresentada pelo actor e músico Jason Schwartzman e pelo comediante e músico Reggie Watts,

tendo sido vista em directo no YouTube por um máximo de 215 mil pessoas. Uma das principais apostas foi precisamente na criatividade do evento, com Spike Jonze a explicar dias antes à Rolling Stone que a ideia era centrar a entrega “na música e nos vídeos, por oposição a ter toda a gente aperaltada”. “Vamos andar de cenário em cenário e, em cada um deles, faremos um vídeo musical ao vivo diferente.” Ou seja, as actuações das bandas e músicos foram, elas mesmas, a gravação de um vídeo musical que alimenta agora os canais de comunicação da Internet que os prémios celebram.


cultura 15

hoje macau terça-feira 5.11.2013

O

escritor moçambicano Mia Couto foi distinguido com o prémio internacional de literatura Neustadt, atribuído de dois em dois anos pela Universidade de Oklahoma desde 1970, no valor de 50 mil dólares (cerca de 370 mil patacas). A lista de nomeados para o prémio da Bienal Internacional de Literatura Neustadt deste ano integrava o escritor argentino César Aira, a vietnamita Duong Thu Huong, o ucraniano Ilya Kaminsky, o japonês Haruki Murakami, o norte-americano Edward P. Jones, o sul-coreano Chang-rae Lee, o palestiniano Ghassan Zaqtan e Edouard Maunick, das Ilhas Maurícias. Mia Couto ficou alegre por ser distinguido com o prémio internacional de literatura Neustadt, alegando tratar-se de uma espécie de “contra-corrente” face à situação no país e às “ameaças à sua família”. A distinção com aquele que é considerado o prémio Nobel norte-americano “coincide com um momento conturbado e de preocupação em Moçambique e, em particular, da minha família, que também foi objecto de ameaças”, informou o escritor à agência Lusa, lembrando a “situação crispada [no país] devido à possibilidade de reacendimento da guerra”. Nas PUB

ENTRE OS NOMEADOS ESTAVAM, O JAPONÊS HARUKI MURAKAMI E O ARGENTINO CÉSAR AIRA

Mia Couto distinguido com prémio internacional de literatura Neustadt

cidades “há uma situação de tensão grande causada pelas ameaças de raptos, sequestros e violência”, referiu Mia Couto, que, por ser uma “espécie de contracorrente”, admitiu a alegria de receber uma distinção.

Em declarações à agência Lusa, Mia Couto quis dedicar, em primeiro lugar, o prémio à sua família, que apelidou de “primeira nação”. “E depois a Moçambique, por todas as razões, mas agora ainda mais, porque temos de

ficar mais juntos nessa busca por opções de paz, por alternativas de desenvolvimento”, disse. O escritor assinalou a importância deste prémio ser entregue a um escritor de língua portuguesa para “despertar interesse e atenção”

para outros idiomas que não o inglês. O galardão já distinguiu, entre outros, o brasileiro João Cabral de Melo Neto, Álvaro Mutis, Octávio Paz e Giuseppe Ungaretti. Além do cheque, Mia Couto vai receber uma reprodução em prata de uma pena de águia. Mia Couto é o pseudónimo de António Emílio Leite Couto, de 58 anos, autor que já recebeu os prémios Camões, Eduardo Lourenço e o da União Latina de Literaturas Românicas. O autor de Terra Sonâmbula e de Estórias Abensonhadas já recebeu o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos, o Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, o Prémio União Latina 2007, de Literaturas Românicas, o Prémio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, do Brasil, e o Prémio Eduardo Lourenço, entre outros. A Confissão da Leoa, editado o ano passado é o seu mais recente livro.


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DESPORTO

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TRAIL HIKER EVENTO ANGARIOU MAIS DE 300 MIL PATACAS

Vitória para Hong Kong MAR CO CARVALHO info@hojemacau.com.mo

A

quarta edição do Macau Trail Hiker saiu no último sábado para a rua nas encostas de Coloane. Com princípio e chegada no Venetian, a prova englobou dois desafios com níveis de exigência muito distintos. O evento propunha aos participantes menos aventureiros uma caminhada de 10 quilómetros pelos trilhos da maior das ilhas do território, ao mesmo tempo que desafiava os mais resistentes a disputar um percurso mais extenso e exigente de 30 mil metros. O certame, que tem por objectivo promover o exercício e o espírito de equipa, tem também como intuito mostrar uma outra face de Macau. Uma face bem menos procurada mas garantidamente mais tranquila: “Um dos objectivos deste evento passa por mostrar que Macau tem mais a oferecer do que o jogo. Tem estes trilhos maravilhosos e este magnífico cenário. O nosso objectivo com este certame passa por promover o lado verde de Macau e as potencialidades de Coloane”, explica Robert Kirby. “Um pequeno troço do percurso foi feito no asfalto, a partir do Venetian, que é onde a prova arranca e termina, mas a maior parte do prova desenrolou-se nos extensos trilhos de Coloane. Diria que oitenta por cento da prova teve Coloane como cenário”, remata o director executivo do Macau Trail Hiker. A edição de 2013 do certame atraiu mais de um milhar e meio de atletas – 1520, mais precisamente – que percorreram os trilhos de Coloane em equipas constituídas por quatro ou mais elementos. O certame contou com a participação de atletas oriundos de Macau e de Hong Kong, mas também de várias outras cidades da região do Delta do Rio das Pérolas.

Entre os participantes houve quem tenha competido apenas pela oportunidade de usufruir dos poucos espaços verdes que Macau ainda tem para oferecer: “Aprecio muito os espaços verdes de Macau e adoro sair da confusão da cidade e refugiar-me na natureza durante algum tempo. O facto de Coloane começar a sofrer com a pressão do imobiliário é algo que me preocupa muito, mas sei ainda assim que existem imperativos económicos de força maior”, reconhece Steve Lauchlan, um dos muitos norte-americanos que se associaram ao evento. Com uma natureza corporativa e com as empresas do território como principal alvo, o Macau Trail Hiker atraiu também representantes de organizações ligadas ao ensino e à educação. A Associação de Estudantes da Universidade de Macau fez-se representar por doze elementos, divididos por três equipas: “A nossa associação esteve este ano representada por doze membros, divididos por três formações. Vínhamos com o objectivo de fazer boa figura e de dar o nosso melhor, mas os 30 quilómetros acabaram por se revelar um obstáculo de monta”, revela Rick Wong, tesoureiro da Associação de Estudantes da UMAC. A exemplo do que sucedeu nas três primeiras edições da competição, o Macau Trail Hiker 2013 teve também uma faceta solidária, angariando mais de trezentas mil patacas. O dinheiro será entregue ainda este mês aos responsáveis pela Sociedade Fu Hong, uma organização de solidariedade que ajuda mais de quatro mil pessoas em Macau e em Hong Kong. A quarta edição do Macau Trail Hiker foi ganha por uma equipa de Hong Kong, que levou a melhor sobre um colectivo de seguranças israelitas da Sands China no percurso de trinta quilómetros.

WTCC Monteiro vence segunda corrida da 11.ª prova

O

piloto português Tiago Monteiro venceu a segunda corrida da 11.ª prova do Campeonato do Mundo de Carros de Turismo (WTCC), no circuito chinês de Xangai, na qual tinha garantido a “pole position”. Esta foi a primeira vitória do português ao volante do Honda Civic, que permite a Tiago Monteiro manter o décimo lugar na classificação de pilotos, agora com 142 pontos, numa tabela liderada

pelo francês Yvan Muller (Chevrolet), com 393. A cumprir a sétima temporada no WTCC, Tiago Monteiro somou a quinta vitória nesta competição. “Já por algumas vezes que podia ter chegado ao lugar mais alto do pódio mas só aconteceu hoje e acho que numa altura muito boa e num circuito que achávamos que seria quase impossível. Foi uma corrida muito dura, apesar de ter mantido a liderança

após o arranque”, afirmou Tiago Monteiro, citado pela assessoria de imprensa. Na primeira corrida, Tiago Monteiro partiu do décimo lugar da grelha, terminando na 11.ª posição. “Arriscámos na estratégia pois fomos para a corrida com pneus ‘slics’. E rodar no meio do pelotão não é fácil. Não havia razão para correr riscos até porque as nossas oportunidades estavam, como aliás se veio a provar, na segunda prova”, disse o português. A 12.ª e última corrida da temporada decorre no mítico Circuito de Macau, entre 15 e 17 de Novembro. “Estamos a chegar ao final da época e esta vitória é muito importante para mim porque mostra realmente o excelente trabalho que temos vindo a fazer e dá motivação extra, quer para a última corrida em Macau, quer para o trabalho para 2014”, finalizou.


FUTILIDADES

hoje macau terça-feira 5.11.2013

TEMPO

MUITO

NUBLADO

[TELE]VISÃO TDM 13:00 13:30 14:30 17:30 18:30 19:30 20:30 21:00 21:30 22:15 23:00 23:30 00:30 01:00

TDM News - Repetição Telejornal + 360° (Diferido) RTPi DIRECTO Caminho das Índias (Repetição) TDM Desporto (Repetição) Vingança Telejornal TDM Entrevista Irmãos e Irmãs Sr.4 Caminho das Índias TDM News Portugal Aqui tão Perto Telejornal (Repetição) RTPi DIRECTO

RTPi 82 15:00 15:30 16:15 16:30 17:00 18:00 18:35 19:20 20:10 20:00 21:00 22:15 23:05 23:30

Telejornal Madeira Programa a designar Iniciativa O Nosso Tempo Bom Dia Portugal Grande Reportagem-Sic 2012 Portugueses pelo Mundo O Teu Olhar (Telenovela) Viva a Música Podium Jornal da Tarde O Preço Certo Profissões Portugal no Coração

MIN

21

MAX

26

HUM

] C I N E M A

[

CAPTAIN PHILLIPS [C]

30 - FOX Sports 13:00 Liga Bbva 2013/14 Sevilla FC vs. Celta de Vigo 14:30 Dutch Eredivisie 2013/14 Cambuur Leeuwarden vs. Feyenoord Rotterdam 16:00 Football Asia 2013/14 16:30 Cev European Volleyball Championships 2013 Semifinal 2 Italy vs. Bulgaria 18:00 Liga Bbva 2013/14 Weekly Review 19:00 (LIVE) FOX SPORTS Central 19:30 Dutch Eredivisie 2013/14 Highlights 20:30 FOX SPORTS Central 21:00 Singha Football Crazy 21:30 Liga Bbva 2013/14 Highlights 22:00 The Ultimate Fighter 23:00 (LIVE) FOX SPORTS Central 31 - STAR Sports 13:00 Planet Speed 2013/14 13:30 Motorsports@ Petronas 14:00 Pgm-Asean Negeri Sembilan Masters 15:00 Rebel TV 20 16:00 International Motorsport News 2013 17:00 Motorsports@ Petronas 17:30 Planet Speed 2013/14 18:00 World Archery Championships 2013 19:00 Pgm-Asean Negeri Sembilan Masters 20:00 MotoGP World Championship 2013 - Highlights Grand Prix of Japan 21:00 Golf Focus 2013 21:30 (LIVE) Score Tonight 2013 22:00 Singha Football Crazy 22:30 Golf Focus 2013 23:00 Liga Bbva 2013/14 Weekly Review 40 - FOX Movies 11:30 Act Of Valor 13:20 Six Days, Seven Nights 15:00 Fantastic Four 16:45 The Karate Kid 19:10 Upside Down 21:00 Terminator 3: Rise Of The Machines 22:50 The Walking Dead 00:30 Sinister 41 - HBO 12:00 Killer Elite 13:55 American Dreamz 15:45 Peter Pan 17:45 Mary And Martha 19:20 Doom 21:00 When In Rome 22:30 Serangoon Road 23:30 House Of Wax 42 - Cinemax 12:30 Thor 14:20 House At The End Of The Street 16:00 Hellfighters 18:00 Force 10 From Navarone 20:35 Bending The Rules 22:00 Strike Back 23:00 Fair Game 00:30 The Detonator

60-95%

Um filme de: Paul Greengrass Com: Tom Hanks 19.15 SALA 1

THOR: THE DARK WORLD [B] Um filme de: Alan Taylor Com: Natalie Portman, Anthony Hopkins 14.30, 16.30, 21.45

THOR: THE DARK WORLD [3D] [B]

Um filme de: Alan Taylor Com: Natalie Portman, Anthony Hopkins 19.30

SALA 2

CAPTAIN PHILLIPS [C] Um filme de: Paul Greengrass Com: Tom Hanks 14.15, 16.45, 21.30

SALA 3

THE SECOND SIGHT [3D] [C] (FALADO EM TAILANDÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS)

EURO

10.7

0.2

YUAN

Cineteatro Com: Nawat Kulratanarak, Rhatha Phongam, Jirawetsuntorakul 14.30, 16.30, 19.30

ABOUT TIME [B]

Um filme de: Richard Curtis Com: Rachel McAdams, Domhnall Gleeson, Bill Nighy 21.30

M A C A U [ S Ã ] A S S A D O SUJIDADE(S)

BAHT

Foto: Facebook

POR MIM FALO

Pu Yi

tempero poético há quem diga que a poesia se deve servir fria outros acharão que deverá ser morna ou talvez quente sem presunção • O “nosso” amigo Quest voltou. Parece que continua numa demanda qualquer. Mas agora aparenta ter companhia no que toca a sujar as paredes de Macau. É o Devil. Mas estes pseudo-grafitters não são os únicos que sujam a RAEM. Há quem continue a ter gosto em largar o seu lixo doméstico pelos cantos da cidade. Enfim...

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA O MONSTRO DE FLORENÇA • Douglas Preston, Mario Spezi

Em 2000, Douglas Preston mudou-se para uma pequena villa nas colinas a sul de Florença. Um amigo apresentou-o a Mario Spezi, um repórter criminal lendário que conhecia a fundo a polícia, e foi a partir desse encontro que Preston soube dos crimes do Monstro de Florença. Profundamente intrigado com esta série de duplos homicídios que se desenrolaram entre os anos 70 e 80 e tiveram como vítimas casais enamorados abatidos em momentos românticos, Preston inicia com Spezi uma investigação por conta própria que os levará aos meandros mais bizarros da mente criminosa e da incompetência policial. “O Monstro de Florença” é um relato verdadeiro e absolutamente fascinante.

O ARGUMENTO CINEMATOGRAFICO • Dominique Parent-Altier

«Como escrever um guião para um filme?», «Quais as regras?», «Por onde começar?» Texto escrito para ser filmado, obra por definição invisível, o argumento presta-se a uma análise rigorosa, aqui conduzida através de cinco grandes eixos: a escrita, o enredo, a personagem, o conflito e a estrutura. Para além das regras formais desta actividade, este manual procura ainda oferecer ao leitor uma compreensão coerente dos fundamentos teóricos e práticos do argumento, apoiando-se em exemplos de filmes que pertencem, na sua maioria, ao cinema popular contemporâneo. RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

todavia aquilo que conta e que fica na memória de todos os enredos é o verso inesquecível o soneto da perfeição a palavra verosímil o poema da inquietação será esse o pleno tempero no enriquecimento de cada escrita poética

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1.3


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OPINIÃO

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FERNANDO VINHAIS GUEDES

desporto e não só

Os dinheiros do futebol

N

UMA fase de penúria, de restrições e de apertar o cinto, com as classes médias condenadas a descer de divisão - baixando para pobres - a indústrias do desporto profissional, em particular o popular futebol, a quem chamam pomposamente uma indústria, parece não ser atingida pela crise financeira, que se abateu sobre as Nações Europeias, principalmente as do sul do velho continente. É verdade, que os ordenados pagos pelos principais clubes Europeus, constituem um insulto a quem trabalha uma vida inteira para sustentar uma família, fazendo os descontos que lhe são pedidos pelo Estado para depois, sem fundamento consistente, lhe ser retirado parte da sua minguada pensão de sobrevivência. É também verdade, que a duração da profissão de atleta de alta competição, tem uma duração curta. Contudo, aquilo que

cartoon por Stephff

muitos arrecadam numa dúzia de anos, chega para comprar automóveis de alta gama e casas sumptuosas, vivendo como príncipes, imunes a crises que afectam o comum dos mortais. Já um dia escrevi, que a indústria do futebol tem algo de paradigmático, já que é a única em que os trabalhadores/atletas fazem fortunas, enquanto a entidade patronal/clubes se endividam chegando alguns à falência. A prova das dificuldades financeiras, está no facto, de grandes clubes passarem a não ser dos sócios, mas de grandes magnates, como são o caso do Chelsea, Manchester City em Inglaterra, Mónaco e P.S.G. em França, Málaga e Valência em Espanha, isto para não falar de outros de menor dimensão. Em Espanha os dois maiores clubes, Real Madrid e Barcelona, fecharam a época de 2012/ 2013 com um passivo de 541 e 330 milhões de euros respectivamente. Nestes dois casos, os grandes credores são a banca espanhola. Auditorias feitas por empresas

É verdade, que os ordenados pagos pelos principais clubes Europeus, constituem um insulto a quem trabalha uma vida inteira para sustentar uma família, fazendo os descontos que lhe são pedidos pelo Estado para depois, sem fundamento consistente, lhe ser retirado parte da sua minguada pensão de sobrevivência

internacionais da especialidade concluíram que, tal como acontece em Portugal, nos casos do Benfica e Sporting, com passivos de 450 e 400 milhões de euros respectivamente, as dividas tem principalmente a ver com os elevados salários pagos aos seus atletas. A título de exemplo ficam aqui alguns números relativos aos jogadores de futebol que mais recebem por darem pontapés na bola: em primeiro lugar está Cristiano Ronaldo que tem arrecado por época 17 milhões, seguem-se Lionel Messi com 16, Neymar com15, Ibrahimovic com 14.5, Falcao com 14, Wayne Rooney com 13, Kun Aguero com13.5, Touré com 13 e Thiago Silva com 12 milhões. Os estudos feitos pelas empresas a que atrás me refiro dão conta que, as maiores receitas são provenientes de patrocínios, direitos televisivos e venda de vestuário desportivo. As receitas de bilheteira/estádios cheios, desde há muito que deixaram de ser o principal proveito para os grandes clubes.

O JULGAMENTO


opinião 19

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João Corvo

fonte da inveja

Quem canta seus males implanta. Sobretudo se for num karaoke...

O protectorado ou o futuro da Europa

N

António Manuel de Paula Saraiva O passado dia 31 de Outubro o vice-primeiro-ministro português Paulo Portas, discursando no Parlamento, comparou a actual intervenção da Troika a uma “humilhação” e a altura em que perdemos a autonomia financeira a 1580 (data da perda da independência), finalizando por afirmar que a saída da Troika seria um “1640” (data em que recuperamos a independência). “Em 2011 vivemos uma espécie de 1580 financeiro. Em Junho de 2014 podemos viver uma espécie de 1640 financeiro”. E Paulo Portas esclarece as razões da humilhação: após a saída da Troika Portugal continuará a honrar os seus compromissos internacionais; mas seremos nós (portugueses) a determinar como (ou seja – as medidas necessárias) para efectuar tais pagamentos. Isto porque a Troika, como se sabe, em “troca” de emprestar dinheiro a Portugal a um juro mais baixo que o dos mercados (1) – não se limitou a fixar os limites do deficit público, e as quantias e prazos de pagamento do dinheiro emprestado - tem vindo a indicar as medidas concretas que o Governo Português deve dar para cumprir essas “metas”. Tais afirmações de Paulo Portas não foram impensadas, pois já três dias antes – aquando da apresentação do Orçamento aos Partidos da maioria que apoia o governo (Partido Social Democrata e Centro Democrático e Social) – o mesmo governante havia afirmado serem as imposições da Troika um “vexame” e uma “humilhação”. Note-se que estas declarações foram públicas – transmitidas na íntegra pela Rádio e Televisão públicas - proferidas não de improviso mas em intervenção preparada, na Assembleia Nacional e aquando da discussão de um instrumento fundamental da gestão do Estado - o Orçamento do Estado para 2014. Note-se que já outras personalidades haviam afirmado estar Portugal na situação de “Protectorado” – como o antigo Ministro Adriano Moreira, a 11 de Janeiro de 2013, tendo acrescentado na altura que os princípios fundadores da União Europeia estavam em risco”, ou o antigo Presidente da República Mário Soares, que a 20 Junho 2012 afirmou: “Como é possível, que haja uns tecnocratas que decidem sobre o nosso

futuro e as pessoas não se sentem, patrioticamente, vexadas por nós estarmos a ser um protectorado da troika “. Também a esse facto se referiu recentemente o “Jornal de Angola” em polémico editorial. Mas nunca, até à data, um vice-primeiro-ministro em cerimónia oficial.

A UNIÃO EUROPEIA E OS DIREITOS DO HOMEM

A União Europeia tem sido, a nível internacional, campeão dos Direitos do Homem – é proibida a tortura, a violência doméstica, o maltratar as crianças (a quem é proibido bater), o incomodar outros (“bullying”), fazer declarações ou troças que atinjam os homossexuais, ou indivíduos de outras raças. E os direitos estenderam-se aos animais: proibiu-se a criação de galinhas de aviário em baterias – pequenas gaiolas em que as galinhas nem sequer se podem voltar ), os animais de circo... (e não se pense que me refiro a estes aspectos por ironia, pois também acho profundamente condenável o bater em crianças ou ter animais presos) mas ... como pode então aceitar-se que países inteiros sejam humilhados ?

A liberdade e a ausência de coação são dois princípios básicos do Direito. Todos sabemos que as nossas acções têm consequências, e devemos ser por elas responsáveis e responsabilizados Do actual comportamento dos dirigentes europeus parece inferir-se que todos os direitos têm de ser respeitados – desde que não se mexa em dinheiro. Se houver dinheiro envolvido aí os antigos direitos vão para o lixo – importa antes de mais receber o dinheiro, seja como for. Sim, porque toda a intervenção da Troika é sobre dinheiro (2). De tal forma que os próprios princípios anti-colonialistas são postos na gaveta (3). Mas há mais

LIBERDADE E COAÇÃO

A liberdade e a ausência de coação são dois princípios básicos do Direito. Todos sabemos

que as nossas acções têm consequências, e devemos ser por elas responsáveis e responsabilizados. Mas a coação e a ameaça são vedados – o homem (mulher) tem direito à livre opção. Ora desde há anos que sinto estar Portugal (e possivelmente outros países) a ser vítima de uma persistência coação : “Temos” de entrar para a União Europeia”, “Temos” de entrar para o Euro” …em tempos recentes as ameaças subiram de tom “se sairmos da União Europeia o teu dinheiro perde o valor”, “o Estado deixa de ter dinheiro para pagar as reformas”, “podemos ficar sem dinheiro para importar alimentos e remédios…”. Ora se o próprio casamento, instituição básica da sociedade e fundadora do futuro é hoje vista pela maior parte das pessoas como um acordo que só se deve manter enquanto for sentimental e economicamente favorável para as duas partes – para não falar na aderência a um Partido politico ou uma sociedade comercial – como se pode admitir que se invoquem pesadas penas pelo afastamento de Portugal a organismos a que aderiu voluntariamente? (4)

O RESPEITO PELO OUTRO

Referem muitos comentadores que a situação actual é fruto do mau governo de Portugal (sobretudo durante o Governo de José Sócrates (2005-2011). A afirmação é discutível por parcialmente verdadeira – o risco de insolvência foi agravado/precipitado pela crise financeira que abalou todo o Mundo a partir de 2008 (5) , - e até, mais remotamente, pela globalização que desviou os investimentos – e assim os empregos e a criação de riqueza - da Europa para a Ásia e para algumas regiões da América Latina e da África. E continuam dizendo que “foi Portugal que chamou a Troika”. Mas ainda que a iminência de risco de insolvência se devesse apenas a más decisões do governo português, tal não justifica uma intervenção vexatória (repito, palavras que não são minhas, mas do vice-primeiro-ministro). Se nos fôr permitida uma imagem – ao emprestarmos dinheiro a um amigo temos o direito de o pedir de volta - mas o empréstimo não justifica que vamos à casa dele dizer que tem de usar margarina em vez de manteiga, ou só pode tomar banho em água morna e dia sim dia não. A aceitar-se que uma posição de fraqueza justificasse da parte dos fortes um tratamento sem considerações morais ou de respeito

pelo outro (o fraco), estaríamos a aceitar que as crianças pudessem ser espancadas, os povos mais fracos colonizados, e os trabalhadores que vendem a sua força de trabalho escarnecidos – isto é, a fraqueza dum indivíduo ou país não pode justificar nunca o seu vexame. Ainda que alguém se queira vender como escravo as leis e a moral tal não permitem. Desavisada anda assim a pobre Europa (6) que parece estar a renegar os seus princípios de Liberdade, Igualdade e Fraternidade (7) para se transformar numa má mercearia. Esquecendo que estas tem pouco futuro – que cabe aos super-mercados. (1) Mas ainda assim, em minha opinião, especulativo, pois superior ao aumento do Produto Interno Bruto Português e Europeu, e superior à taxa de empréstimo do Banco Central Europeu aos Bancos, que como se sabe é de 0,5%. (2) A Resolução 1514 (XV) da Assembleia Geral das Nações Unidas de 14 de Dezembro de 1960 sobre a “Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais” afirma no seu ponto 1 “A sujeição de povos à subjugação, exploração e domínio estrangeiros constitui uma negação dos direitos humanos fundamentais, é contrária à Carta das Nações Unidas e compromete a causa da promoção da paz e cooperação mundiais”. (3) Directamente ou sob a forma indirecta, quando se impõe aos países “intervencionados” que vendam activos que o seu Estado ou os seus Bancos dispunham. (4) Note-se de passagem que as relações de Portugal com a China têm sido muito mais “horizontais”. (5) Ao pôr a tónica nos “governos gastadores” escamoteia-se o facto de o empréstimo de grandes quantias aos Estados também ser do interesse dos grandes emprestadores, dado ser uma das mais rendosas formas de ganhar dinheiro. (6) É verdade que a Troika não é sinónimo de União Europeia…mas – como se sabe é formada pela Comissão, Banco Central Europeu, e Fundo Monetário Internacional. Pelo que, não tendo a União Europeia a totalidade do poder de decisão, tem a maior parte da responsabilidade, pois além da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu tem ainda parte do poder de decisão, através do voto de alguns países europeus, no Fundo Monetário Internacional. (7) Porque razão os revolucionários franceses entenderam dever colocar esta palavra entre os princípios fundamentais que deviam reger os povos?

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Hoje Macau 5 NOV 2013 #2967