Page 1

MOP$10

SEXTA-FEIRA 5 DE JANEIRO DE 2018 • ANO XVII • Nº 3966

hojemacau

SOFIA MARGARIDA MOTA

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

JOGO POBRE TAMBÉM ARRISCA GRANDE PLANO

TUFÕES GOVERNO PROMETE ALARMES

A pedra no sapato

PÁGINA 7

SANDRA NG DA RESPIRAÇÃO

PUB

PUB

RETRATO

As casas acabadas há três anos precisam de obras, metade dos novos candidatos não satisfaz os requisitos, os jovens não têm acesso à habitação pública, etc... etc... E parece que ninguém sabe para onde se vai e quais os caminhos. Um problema que se tornou doloroso para o Governo e a sua face perante Pequim. PÁGINAS 4-5

AGÊNCIA COMERCIAL PICO 28721006

www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau

HABITAÇÃO PÚBLICA


2 grande plano

5.1.2018 sexta-feira

VICIO PARA

A

esperança deposita-se em pequenos quadrados de papel com números e rabiscos. As mãos cansadas de trabalhar seguram-nos enquanto os olhos não saem dos ecrãs com os resultados. É assim a rotina dos que apostam quase diariamente nas lotarias do Pacapio, com gestão da SLOT - Sociedade de Lotarias eApostas Mútuas de Macau. Não há turistas nem multidões e os jogadores são, na sua maioria, reformados. Há, contudo, um outro tipo de jogadores que se destaca: são trabalhadores não residentes (TNR), filipinos ou de outras nacionalidades, que ali jogam nas horas mortas ou nos intervalos do trabalho. Sabem que com apenas cinco a dez patacas podem ter a sorte de ganhar o jackpot. “Claro que quero ganhar dinheiro!”. Freddie Padin, filipino, trabalhador na área do catering no Aeroporto Internacional de Macau, está confiante de que a sorte um dia lhe vai cair no colo. A mulher vive nas Filipinas e visita-o em Macau sempre que pode. Este TNR vive no território há onze anos. Nunca ganhou nada no Pacapio, mas isso não o demove de continuar a tentar, sozinho ou na companhia de amigos. “Se ganhasse o dinheiro iria investi-lo, iria para casa, para as Filipinas. Se ganhasse o jackpot claro que iria para casa, seria um vencedor”, garantiu ao HM. Não vai ao Pacapio todos os dias, mas sempre que ganha um pouco parte para outros voos em busca da riqueza que lhe vai resolver todos os problemas. “Não venho todos os dias, só às vezes. Quero ganhar um jackpot e aqui só gastamos dez patacas. Se ganhar mais algum dinheiro vou aos casinos, mas nunca ganhei”, assegurou. Regressar às Filipinas com dinheiro no bolso é o sonho de muitos e é isso que os faz ir sempre que podem apostar nas lotarias. São homens e mulheres que aguardam nas cadeiras vermelhas à espera que se faça sorte. Muitos deles experimentam jogar uma primeira vez, como é o caso de Dante Canedo. Há dois anos que vive em Macau e trabalha na área da limpeza, no casino Venetian.

TNR COM BAIXOS SALÁRIOS APOSTAM EM LOTARIAS E SLOT-MACHINES

“É fácil jogar aqui, mas não sei se virei mais vezes”, contou. “Quero jogar porque quero ganhar o grande prémio, e se conseguir regresso para as Filipinas.” E o que faria na sua terra natal? Dante Canedo queria montar um negócio, na área da restauração, ou fazer uma grande casa para si e para os seus. Também Renato, filipino, vem com alguma frequência, mas não todos os dias. “Venho nos meus dias de folga, porque é muito barato jogar, são só dez patacas”, adiantou. SOFIA MARGARIDA MOTA

´

Apesar de fazerem parte das comunidades com os salários mais baixos de Macau, os trabalhadores não residentes também jogam. Não o fazem nas mesas dos casinos, muito menos nas salas VIP, mas apostam em lotarias, onde os bilhetes custam no máximo dez patacas, ou em slot-machines. Há vícios escondidos e famílias destruídas. Associações que representam estas comunidades pedem mais serviços de apoio e uma nova base de dados que inclua os trabalhadores migrantes

JOGO

John conversa com um amigo enquanto olha para o ecrã cheio de números. É a sua primeira vez que vem ao Pacapio para jogar, mas caso ganhe o jackpot, já sabe o que vai fazer com o dinheiro: “comprava o meu próprio carro e ia para o Hawai com amigos e raparigas bonitas”.

“JOGO FAZ MAL AOS FILIPINOS”

Enquanto uns apostam e aguardam que a sorte apareça, outros almoçam no restaurante localizado ao lado, com o irónico nome de Estabelecimento de Comidas Boa Fortuna. Choi (nome fictício), bebe um chá

quente enquanto fala com o HM, sem nunca desviar o olhar dos números que estão na sala do lado. Choi começou por frequentar o Pacapio para ali fazer as suas refeições, até que sentiu curiosidade e passou a apostar nas lotarias. Hoje, já reformado, frequenta as lotarias entre três a quatro vezes por mês e chega a ganhar não mais do que 200 patacas. Uma vez ganhou um milhão de patacas, há muito tempo, “uma coisa rara de acontecer”, garante. Choi diz que 80 por cento dos jogadores são pessoas como ele: reformados que ali gastam as suas


grande plano 3

sexta-feira 5.1.2018

TODOS horas mortas, sobretudo no período de férias, quando há mais apostadores. Depois há os trabalhadores migrantes. “Estes jogos são muito baratos e toda a gente tem o objectivo de ganhar dinheiro. Mas acho que este jogo pode fazer mal aos filipinos porque, apesar de custar pouco dinheiro, eles podem gastar o seu salário todo”, defendeu Choi. Este jogador é um dos muitos residentes de Macau que guarda boas memórias de um espaço cheio de história, e que acarreta consigo “memórias inesquecíveis”. “Acho

que este tipo de lotarias deve continuar a existir porque há muita gente que não consegue entrar nos casinos”, apontou. Mio, que veio para Macau com dez anos de idade, vai às lotarias umas dez vezes por mês. Esta é a casa onde gasta os seus tempos livres há quase 20 anos. “Aqui não há coisas para fazer além do jogo. Também não costumo fazer desporto, por isso não tenho mais nenhum sítio onde ir além das lotarias”, contou o residente, que trabalha num casino. Um lugar onde “há muita memória” deve sem dúvida manter-se, acredita Mio. “O Pacapio deve manter-se e não deve ser administrado dentro dos casinos, porque há pessoas que não podem lá entrar”, frisou.

FALTA DE INFORMAÇÃO

O jogo ou o seu vício é uma temática que não se associa aos trabalhadores migrantes dado os baixos salários que estes recebem. Na maioria dos casos, os ordenados ficam abaixo da média salarial de Macau, que ronda as 15 mil patacas. Sabe-se de um caso aqui a ali, mas a maior parte das situações estão escondidas aos olhos de muitos. Rodantes, ligado a duas associações de cariz social ligadas à comunidade filipina, assume já ter ouvido falar de histórias de azar dos que procuraram a sorte. “Sei que há muitas pessoas que vão ao Pacapio e às slot-machines. É um problema porque é muito fácil ir lá, uma vez que esses espaços estão localizados no centro de Macau, e jogam para tentar a tua sorte, mas nós, associações, tentamos alertar essas pessoas para que não joguem.” Rodantes contou que o espaço de slot-machine localizado ao lado do Hotel Sintra é muito frequentado por TNR. “Se formos, por exemplo, às casas-de-banho vemos muitos filipinos e também pessoas de outras nacionalidades, como o Nepal ou o Vietname, que estão lá para jogar. É mais barato [apostar], é muito fácil e podem gastar o tempo livre depois do trabalho, ou mesmo nas folgas. É muito comum.” Embora o azar seja mais comum, há histórias de pessoas que consegui-

“Há alguns anos que ouvimos alguns casos de famílias que entram em falência e que têm de voltar para as Filipinas sem nada, porque perderam o emprego.” RODANTES REPRESENTANTE DE UMA ASSOCIAÇÃO

ram regressar ao seu país de origem com mais umas patacas no bolso. “Há alguns anos que ouvimos alguns casos de famílias que entram em falência e que têm de voltar para as Filipinas sem nada, porque perderam o emprego. Mas conheço muita gente que investiu o dinheiro que ganhou nas Filipinas, na construção de casas, por exemplo. Mas a maioria não consegue guardar dinheiro para o seu futuro”, adiantou. Rodantes diz que há muita falta de informações sobre eventuais riscos, e é aqui que entra o trabalho de associações ou outras organizações não governamentais (ONG). “As pessoas que jogam podem não frequentar a igreja ou não ir ao consulado. Há muita falta de informação e temos vindo a falar dos riscos que o jogo acarreta. Gasta-se todo o salário e, por muito barato que seja, gasta-se sempre dinheiro.” Para Rodantes, os TNR não deveriam ter permissão para jogar. “Penso que o Governo deve fazer mais promoção junto das empresas e dos patrões, para não permitirem os seus empregados de jogar. Os locais podem fazer o que quiserem, mas os TNR não deveriam ter permissão para jogar.”

“[Se ganhasse o jackpot] Comprava o meu próprio carro e ia para o Hawai com amigos e raparigas bonitas.” JOHN, FILIPINO JOGADOR NA LOTARIA

Ana Fivilia, representante de outra associação próxima da comunidade filipina, também “ouviu falar” de histórias semelhantes. “Há casos de filipinos que gastam o seu ordenado em jogo, porque pensam que vão ter sorte naquele dia. É muito arriscado gastar o salário assim à espera da sorte.” A associação da qual Ana faz parte dá sobretudo aconselhamento emocional e psicológico. “Ajudamo-nos uns aos outros e damos conselhos a quem tenta sair do vício do jogo.” Ainda assim, Ana considera que os departamentos públicos devem ajudar os trabalhadores migrantes. “Estes jogadores deveriam ter algum tipo de apoio do Governo porque os portadores de blue card têm salários muito baixos e toda a gente sabe disso. Não falo apenas dos filipinos mas de pessoas de outras nacionalidades. E vão para os casinos tentar a tua sorte.”

TAMBÉM TÊM DIREITO

Paul Pun, secretário-geral da Caritas, tem uma posição menos radical do que Rodantes. Os TNR também têm direito a jogar, caso assim o desejem, defende. O que é necessário é criar programas de apoio especiais para estas comunidades, que devem passar, sobretudo, pela criação de uma nova base de dados. Isto porque Paul Pun acredita que os actuais dados, elaborados pelo Instituto de Acção Social, possam incluir apenas os residentes e deixar de fora os portadores de blue card. “Em Macau deveríamos ter mais programas de apoio a migrantes que estão viciados no jogo. Neste momento há um programa de prevenção do jogo e acredito que não estejam a excluir os TNR”, começou por dizer. De facto, segundo o website do IAS, a Divisão de Prevenção e Tratamento do Jogo Problemático - Casa de Vontade Firme aceita residentes permanentes e não permanentes de Macau, tal como TNR. Ainda assim, “temos de ter mais ONG a trabalhar em conjunto para reduzir este problema e também temos de apostar na investigação, para

que tenhamos uma melhor base de dados”. “Temos de saber a percentagem dos trabalhadores migrantes que têm um problema sério com o jogo”, explicou. Junto das comunidades de trabalhadores migrantes não existem apenas famílias com salários entre duas a quatro mil patacas. Há pessoal que trabalha na área da segurança, ou mesmo na construção civil, com ordenados a rondar as dez mil patacas ou um pouco mais do que isso. “Não podemos proibi-los de jogar, porque não sabemos se trabalham como empregadas domésticas, alguns deles podem até ter salários mais altos. Mas a maior parte deles ganha muito pouco. Mas também têm o direito de ir aos casinos ou à lotaria, apesar de ser muito arriscado”, acredita Paul Pun.

“Temos de saber a percentagem dos trabalhadores migrantes que têm um problema sério com o jogo.” PAUL PUN SECRETÁRIO-GERAL DA CARITAS

Além das apostas existem muitas vezes outros vícios associados. “Conheço alguns casos de pessoas que ganharam muito dinheiro e que contaram aos outros migrantes que ganharam. Então estes também tentaram a sua sorte. Muitos deles também bebem muito, além de jogar”, concluiu o secretário-geral da Caritas. De acordo com os dados recolhidos pelo IAS, relativos ao período entre Janeiro e Dezembro de 2016, mais de 80 por cento dos pedidos de ajuda partem dos portadores de bilhete de identidade de residente, sendo que, em 40 por cento dos casos, os viciados em jogo ganham mais de 17.000 patacas. Andreia Sofia Silva (com V.N.)

andreia.silva@hojemacau.com.mo


4 política

GOOGLE STREET VIEW

5.1.2018 sexta-feira

CONSTRUÇÃO NO TERRENO DA ANTIGA CENTRAL TÉRMICA AVANÇA ESTE ANO O presidente do Instituto de Habitação confirmou que as obras de construção do comissão permanente da Assem- de casas construídas com dinheiros administrativo complementar, ou empreendimento bleia Legislativa (AL) que discute públicos, “qualquer pessoa que seja, a lei deixa de forma alguma de habitação social na especialidade do regime jurídico tenha necessidade e cumpra os normas básicas. Ho Ion Sang, presidente da da habitação social. requisitos pode-se candidatar e na antiga central Raimundo do Rosário, durante não precisa estar à espera de um comissão permanente, revelou o plenário que decorreu ontem, concurso”, explica o presidente que o Governo acatou as recotérmica arrancam especificou que está previsto que do IH que salientou que este é o mendações dos deputados para enriquecer o diploma, de forma a durante o terceiro trimestre de aspecto mais importante. em 2018. As 2018 serão feitas as fundações, Arnaldo Santos referiu ainda “evitar problemas na execução da candidaturas já para que a construção se inicie no que “de momento há cerca de 1300, lei, incertezas durante a resolução final do ano. É de salientar que no 1400 habitações disponíveis”, es- de litígios nos órgãos judiciais e, devem ser feitas Verão passado, o secretário para tando em construção mais 1500, às também, para que os residentes os Transportes e Obras Públicas quais acrescem os fogos que serão percebam o sentido das normas”. ao abrigo do novo Outra das novidades prendeuprevia que as obras se iniciassem construídos no terreno da antiga -se com a celeridade que ambas as em 2019. central térmica. regime jurídico da partes pretendem dar a este proO terreno em questão, sito na habitação social, cesso em termos de frequência de Avenida Venceslau de Morais, tem LEI DE VAZIOS capacidade projectada para acres- O secretário para os Transportes reuniões da comissão permanente que se encontra centar 2500 fogos aos números da e Obras Públicas, Raimundo do habitação social. Rosário, expressou a importância em discussão na Para já, quanto aos fogos dispo- da alteração ao regime jurídico da Raimundo do Rosário, especialidade níveis, o presidente do IH revelou habitação social à saída da reunião durante o plenário

Lar, público lar

“O

terreno já está preparado e, de acordo com informações de quem vai construir, acho que este ano começam as obras”. As palavras são de Arnaldo Santos, presidente do Instituto de Habitação (IH), proferidas à saída de uma reunião da

que “o concurso para habitação social está a decorrer normalmente, neste momento há cerca de 4000 candidaturas e espera-se que até ao final sejam entre 6000 a 8000”. Arnaldo Santos espera que este seja o último concurso para habitação social, uma vez que com a entrada em vigor da nova lei já não será necessário ter este procedimento. Como a nova legislação irá fixar os critérios de atribuição

da comissão permanente da AL que discute o diploma na especialidade. “É a primeira vez que na RAEM se actualiza este regime jurídico, só pelo decurso do tempo já se justifica”, comentou. Uma das questões que mereceu debate entre deputados e membros do Governo prendeu-se com a forma como o projecto de diploma tem muitas matérias onde se remete para regulamento

que decorreu ontem, especificou que está previsto que durante o terceiro trimestre de 2018 serão feitas as fundações, para que a construção se inicie no final do ano

para tratar do diploma da habitação social. Ho Ion Sang anunciou que foi marcada outro encontro de trabalho para o próximo dia 11 de Janeiro. O presidente da 1ª comissão permanente da AL referiu ainda que existem artigos “com redacção muito simples”, algo que “não é aceitável”. O exemplo dado por Ho Ion Sang foi o artigo que regula a tipologia e área das fracções, que por agora apenas diz este elementos “são fixados por diploma complementar”. Neste sentido, o deputado revelou que “o Governo assumiu a promessa de que vai definir as áreas e tipologias de forma a satisfazer as condições mínimas e necessárias de habitação dos residentes”. Na próxima reunião serão discutidos os limites de rendimento de património líquido dos candidatos e o que constitui um agregado familiar para aferição destes critérios, nomeadamente quando existem cônjuges oriundos de fora de Macau. Quanto às disposições relativas aos assuntos de construção e administração, Raimundo do Rosário revelou que ficou decidido “remeter essa matéria para discussão técnica/jurídica”. Trocado por miúdos, será algo tratado entre a assessoria da AL, do IH e da Direcção dos Serviços de Justiça. João Luz

info@hojemacau.com.mo


política 5

sexta-feira 5.1.2018

J

Á foram apreciadas mais de 3000 candidaturas à habitação pública, referentes ao processo de 2013, e apenas 40 por cento reuniam as condições necessárias para serem admitidas. A informação foi dada ontem pelo presidente do Instituto da Habitação, Arnaldo Santos, na reunião plenária da Assembleia Legislativa. “Das mais de 40 mil candidaturas, já temos apreciados mais de 3000 pedidos e cerca de 40 por cento estão aprovados”, referiu o responsável. Na reunião destinada a respostas por parte do Governo às interpelações orais dos deputados, Arnaldo Santos disse que as cerca de 7000 fracções que o Governo afirma ficarem em reserva nos projectos de habitação pública da zona A dos novos aterros significam uma reserva do próprio Governo. De acordo com o presidente do IH, estas fracções podem ainda sofrer alguns ajustamentos e toda a zona vai ser projectada e construída por fases. “Vamos ainda pensar no planeamento de escolas e ensino. O trabalho vai ser feito por fases”, apontou.

HABITAÇÃO PÚBLICA MENOS DE METADE DAS CANDIDATURAS ANALISADAS REÚNEM OS REQUISITOS

Muita gente de fora

Estão ser analisadas as candidaturas a habitação social do processo que decorreu em 2013. Dos mais de três mil pedidos já analisados, menos de metade reúnem os requisitos. Quanto às sete mil fracções da zona A que o Governo anunciou não serem usadas, Arnaldo Santos afirma que vão ser alvo de reajustamento houver problemas depois de dia oito peço para que os dados sejam actualizados para podermos ter um mecanismo que permita saber a procura de habitação e vamos actualizar os conteúdos”.

DE FORA, OS DO COSTUME

“Das mais de 40 mil candidaturas, já temos apreciados mais de 3000 pedidos e cerca de 40 por cento estão aprovados.” ARNALDO SANTOS DIRECTOR DO INSTITUTO DA HABITAÇÃO

A deputada Ella Lei questionava o Executivo acerca da discrepância de números. Para a deputada, o recentemente divulgado relatório relativo à necessidade de habitação pública local não corresponde à realidade porque, segundo afirmou, a procura é muito maior do que a referida pelo Governo e as necessidades não estarão abaixo das 40 mil.

“Não quero avançar com calendarização para depois me dizerem que depois não as consigo concretizar.” RAIMUNDO DO ROSÁRIO SECRETÁRIO PARA OS TRANSPORTES E OBRAS PÚBLICAS

Já o Executivo, que ultimamente tem sido inquirido por diversos deputados acerca da desactualização do referido relatório, avançou que, para que

não restem dúvidas, no próximo dia 8 vai decorrer uma reunião entre a empresa de consultadoria responsável pelo relatório e os

deputados. O objectivo afirmou o secretário para os Transportes e Obras Públicas “é esclarecer todas as questões”.

Mas Raimundo do Rosário foi mais longe. “Este relatório vai dar confiança aos deputados e as pessoas vão saber tudo. Se ainda

Já os jovens e a classe média que não tem condições para alugar casa mas também não reúnem os requisitos para se candidatarem à habitação do Governo, vão ter de esperar que seja criada uma legislação que os integre. A ideia foi deixada por Raimundo do Rosário em resposta às interpelação de Ho Ion Sang. “Quanto aos jovens, tem de ser pensada uma oferta global de habitação. A habitação pública e a social só compreendem as pessoas que têm necessidades”, começou por dizer Arnaldo Santos. Já Raimundo do Rosário mostrou querer resolver a situação. “Passo a passo vamos resolver as questões relacionadas com a habitação económica inclusivamente resolver os problemas desta classe média e dos jovens. Mas para isso temos de ter uma lei que regule. Se não a tiver não posso arrendar fracções económicas aos jovens”, apontou. Quanto a calendarizações, são assunto que o secretário não quer falar. A razão apontou, é não querer não cumprir. “Não quero avançar com calendarização para depois me dizerem que depois não as consigo concretizar”, referiu. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo

DEPUTADOS QUEREM PARECER SIMPLES PARA LEI DE EXECUÇÃO ORÇAMENTAL

“N

ÃO conseguimos assinar o parecer”, revelou Chan Chak Mo, presidente da 2ª comissão permanente da Assembleia Legislativa, acerca do relatório sobre a execução do Orçamento de 2016. O deputado previu que o parecer seja

assinado hoje à tarde. No entender de Chan Chak Mo, o documento tem um “conteúdo muito longo, repetitivo, complexo e também tem algumas gralhas de redacção, posicionamento de gráficos e mapas” que levaram a que o parecer não fosse assi-

nado na terceira reunião da comissão para tratar da execução orçamental de 2016. “O conteúdo do parecer tem muitas matérias de nível técnico e teórico de contabilidade e pedimos à assessoria para eliminar essas partes e introduzir as

respectivas alterações”, comentou Chan Chak Mo. De acordo com deputado, o documento inclui balanços de activos agregados de organismos especiais e, “neste momento, há falta de leis que regulem matérias como os lucros obtidos por parte de instituições e

pessoas colectivas públicas e sobre estruturas de participações sociais. O deputado deu como exemplo a Universidade de Macau e o aeroporto. Nesse sentido, os deputados pediram à assessoria para “não revelar concretamente o nome das empresas” no parecer. J.L.


6 publicidade

5.1.2018 sexta-feira

Assine-o TELEFONE 28752401 | FAX 28752405 E-MAIL info@hojemacau.com.mo

www.hojemacau.com.mo


sociedade 7

sexta-feira 5.1.2018

TUFÕES SISTEMA DE ALERTAS E ALARMES VÃO SER MODIFICADOS

Que não seja por falta de aviso

O

S alertas das marés altas vão ser revistos. A medida insere-se no conjunto de iniciativas que têm como objectivo aumentar a capacidade de resposta do território em caso de catástrofe e anunciada ontem pelo secretário para os transportes e obras públicas, Raimundo do Rosário. “Vamos rever os alertas das marés altas de três para cinco níveis e o nível de altura da água vai passar do metro e meio para valores acima dos 2,5 metros”, referiu o governante em resposta à deputada Ella Lei na sessão plenária de ontem da Assembleia Legislativa (AL). Vai ainda ser revista a classificação dos tufões bem como os intervalos de tempo que medem a intensidade dos ventos. De uma medição horária, vão passar a ser tidos em conta os valores registados a cada dez minutos. Numa sessão marcada por mais perguntas e muito poucas respostas, as políticas e acções que o Governo tenciona implementar de modo a evitar estragos como os registados com a passagem do tufão Hato pelo território preencheram o inicio da reunião plenária e contaram com a resposta conjunta de Raimundo do Rosário e do secretário para a segurança, Wong Sio Chak. Depois do Governo reiterar o que já tinha sido dito ao longo das sessões dedicadas às Linhas de Acção Governativa para 2018, Wong Sio Chak revelou que vão também existir algumas modificações no que respeita aos avisos de tempestades tropicais, garantindo que vão ser dados com maior antecedência. “Quanto às tempestades tropicais que podem atingir o território vamos elaborar avisos com três horas de antecedência para que a população tenha tempo de se preparar”, referiu o responsável pela segurança.

VÍDEOS, ALARMES E MEGAFONES

Ainda em resposta às iniciativas que estão a ser levadas a cabo pelo Governo, Wong Sio Chak adiantou que os Serviços de Polícia Unitários (SPU) já estão a promover a instalação de um sistema de alarme em resposta a situações de emergência que irá entrar em funcionamento até

GCS

Os secretários Raimundo do Rosário e Wong Sio Chak revelaram ontem na Assembleia Legislativa que o sistema de alerta de marés e de tufões vai ser revisto e os alarmes vão estar espalhados pela cidade. Os primeiros vão estar em funcionamento até Junho

meados do próximo ano. Trata-se de um sistema articulado com o que está a ser implementado a nível da videovigilância. “O referido sistema de alarme irá articular-se com a segunda e terceira fase da construção do sistema de videovigilância, instalando-se em 90 candeeiros”, referiu o secretário

“Existirá uma cooperação com as entidades que integram a estrutura de protecção civil, destacando pessoal em viaturas, munidos de altifalantes para difundir informações mais actualizadas sobre o tufão nas vias públicas e junto da população.” WONG SIO CHAK SECRETÁRIO PARA A SEGURANÇA

para a segurança. Caso a rede de comunicação seja afectada e inutilize o sistema em causa, Won Sio Chak também apontou a solução. “Existirá uma cooperação com as entidades que integram a estrutura de protecção civil, destacando pessoal em viaturas, munidos de altifalantes para difundir informações mais actualizadas sobre o tufão nas vias públicas e junto da população”, disse. Ainda na área das comunicações, o secretario revelou que as autoridades já distribuíram 60 walki-talkies a organizações comunitárias. O objectivo é manter uma via de comunicação pronta para “fazer face à falta de electricidade ou se as redes de telecomunicações forem afectadas permitindo o contacto com o Centro de Operações de Protecção Civil”, justificou o governante.

COMUNICAÇÃO TRIPARTIDA

De modo a que a comunicação seja facilitada e tendo em conta a cooperação com Guandong e Hong Kong, o secretário para a segurança apontou que as comunicações vão ter uma banda cerca de 10 vezes

maior do que a actual. “A banda de transmissão de dados vai aumentar de 2 para 20 megabites”, especificou. Tendo ainda em conta a cooperação regional, estão a ser debatidas entre as três regiões formas de melhorar aspectos que facilitem a resposta a situações de emergência. O secretário dá exemplos e aponta a criação de um mecanismo de passagem de fronteira rapidamente ou o aperfeiçoamento do mecanismo de cooperação médica e de socorro entre as partes. As informações foram dadas directamente a Ella Lei. A deputada com ligações à FAOM interpelou o

“Vamos rever os alertas das marés altas de três para cinco níveis e o nível de altura da água vai passar do metro e meio para valores acima dos 2,5 metros.” RAIMUNDO DO ROSÁRIO SECRETÁRIO PARA OS TRANSPORTES E OBRAS PÚBLICAS

Executivo acerca de medidas concretas que estejam a ser tomadas já, antes que “comece a época dos tufões”. Para a deputada têm sido muito divulgadas iniciativas sem, no entanto, serem, especificas e claras, e pior, sem serem materializadas em iniciativas objetivas. Ainda relativamente ao Hato vários foram os deputados que pediram mais responsabilidades por parte do Governo, nomeadamente por parte do Chefe do Executivo. Mas Para Wong Sio Chak, Chui Sai On fez o que tinha de fazer. “O Chefe do Executivo reconheceu as insuficiências e a partir do momento em que deu a conferência de imprensa no dia seguinte à passagem do tufão Hato sempre assumiu um papel protagonista liderando todos os trabalhos de socorro e resgate. Convocou a ajuda por parte do continente, redigiu um dossier e tem vindo a acompanhar todos os trabalhos o que representa a sua coragem nesta situação”, rematou. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo


8 sociedade

5.1.2018 sexta-feira

ALMEIDA RIBEIRO GRAND HOTEL, EM FRENTE AO SOFITEL, ABRE PORTAS EM 2019

Elegância numa esquina A arquitecta Joy Choi é a responsável pela renovação do histórico Grand Hotel e garante que a obra deverá estar concluída em 2019. O edifício obrigou a um estudo de um ano, pois havia o risco de demolição. A obra que obriga os trausentes a circular fora do passeio deverá estar concluída a partir do dia 10

fazer os trabalhos de restauro e reparação de todo o edifício, o que exige mais tempo e dinheiro. Tudo para garantir a segurança das infra-estruturas do hotel no futuro.” O actual proprietário adquiriu o antigo hotel em 2014 e 2015 à família Fok em duas transacções. “Vamos manter a fachada original e vai estar totalmente renovada, com novas janelas, num estilo elegante. Uma parte interessante serão os interiores, pois será um hotel boutique de duas estrelas”, disse Joy Choi.

PASSEIO PRONTO DIA 10

GOOGLE STREET VIEW

Os trabalhos de fundações levaram ao corte de acesso dos trausentes ao passeio, o que faz com que tenham de andar numa parte da estrada na avenida Almeida Ribeiro. Contudo, Joy Choi assegura que os trabalhos deverão ficar prontos no próximo dia 10.

“Vamos manter a fachada original e vai estar totalmente renovada, com novas janelas, num estilo elegante. Uma parte interessante serão os interiores, pois será um hotel boutique de duas estrelas.” JOY CHOI ARQUITECTA

Ao HM, a arquitecta Joy Choi, responsável pelo projecto, adiantou que as obras deverão estar concluídas em 2019 e que chegou a existir o risco de demolição de todo o edifício, o que acabou por não se verificar. “Antes deste trabalho a nossa equipa demorou cerca de um ano a estudar as condições do edifício,

TÁXIS AINDA NÃO HÁ DATA PARA NOVA LEI

O

Governo ainda não consegue avançar com uma data concreta para a alteração ao regulamento do transporte de passageiros em automóveis ligeiros de aluguer ou táxis. Numa resposta à interpelação escrita do deputado Si Ka Lon, a directora substituta da Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça (DSAJ), Leong Pou Ieng, disse que o atraso se deve à existência de diferentes opiniões junto da sociedade, pelo que é necessário continuar a fazer estudos sobre este assunto.

uma vez que tem cerca de 80 anos. Tínhamos de saber quais eram as condições, se necessitava de ser demolido ou se podia haver uma remodelação. Também fizemos alguns estudos e pesquisas sobre o futuro uso da estrutura. Todos nós estamos contentes com o facto de não termos de demolir o edifício”, apontou a arquitecta.

Na mesma resposta, Leong Pou Ieng disse ainda que nos primeiros seis meses deste ano vai ser lançada a consulta pública sobre o regime de aquisição de bens e serviços. Quanto ao processo legislativo sobre este diploma deverá arrancar no terceiro trimestre deste ano. No que diz respeito aos diplomas relacionados com a renovação urbana, a responsável da DSAJ adiantou que o Governo vai adoptar diferentes medidas para, com base nas necessidades, poderem ser revistas e complementadas as leis em vigor nessa área.

TIAGO ALCÂNTARA

S

ERÁ um hotel boutique de duas estrelas, com a antiga fachada renovada e com um estilo clássico. Eis alguns detalhes do histórico Grand Hotel, localizado na zona do Porto Interior, em frente ao empreendimento Ponte 16, e que há anos não passa de um velho edifício abandonado e vazio.

Joy Choi lembrou também que o seu cliente e proprietário do espaço, International Weng Fu Investment Company Ltd, não teve problemas em esperar mais tempo. “Uma parte muito importante é o cliente, que é muito bom e que compreendeu toda a situação. Ele aceitou pagar mais dinheiro para

“O passeio vai voltar a estar operacional no dia 10 deste mês. Claro que compreendemos que o público, que não conhece os detalhes, se vá queixar desta obra, mas sem isto não conseguíamos fazer os trabalhos com as fundações. Trata-se de um trabalho de curto prazo e está quase concluído”, concluiu. Ao jornal Ou Mun, o proprietário garantiu que vai demorar cerca de 20 anos a recuperar o investimento feito neste novo projecto hoteleiro. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


sociedade 9

CHAN MENG KAM COMPRA HOTEL POR 2 MIL MILHÕES

Dinheiro vivo Empresário e político pagou 1,8 mil milhões de dólares de Hong Kong em dinheiro vivo e completou a aquisição do hotel e casino Lan Kwai Fong. Chan Meng Kam passa a controlar quatro casinos no território

C

HAN Meng Kam finalizou ontem por 2 mil milhões de dólares de Hong Kong a aquisição do hotel e casino Lan Kwai Fong ao grupo China Star Entertainment, controlado pelo empresário Charles Heung. A conclusão do negócio foi avançada ontem, em comunicado à Bolsa de Hong Kong, sendo que a identidade do comprador tinha sido revelada anteriormente, pelo portal GGR Asia. Aquisição do hotel e casino foi fechada após um pagamento de 1,8 mil milhões de dólares de Hong Kong. Já em Outubro do ano passado,

altura em que foi revelado o princípio de acordo para o negócio, Chan Meng Kam tinha pago 200 milhões de dólares de Hong Kong como caução a fundo perdido. Segundo o moldes do negócio, o valor final da compra ficou cifrado em 2 mil milhões de dólares de Hong Kong e foi feito através da empresa Golden Dragon Entertainment Holdings. “A direcção está feliz por poder anunciar que a conclusão do negócio ocorreu a 3 de Janeiro. Como consequência do pré-acordo existente, o comprador nomeou a empresa Golden Dragon Entertainment Holdings Limited para receber as acções da venda”, pode ler-se num comunicado da China Star Entertainment. “O restante montante da venda no valor de 1.800 milhões foi pago na totalidade em dinheiro vivo”, é acrescentado. O hotel Lan Kwai Fong tem 209 casinos, restaurantes, lojas entre outras instalações. Segundo o comunicado de Outubro da China Star Entertainment, na altura o casino tinha 84 mesas de jogo, focadas no mercado de massas e VIP, e 65 máquinas de jogo. O casino é gerido como satélite da Sociedade de Jogos de Macau, detentora da concessão.

SEMPRE A SOMAR

A conclusão deste negócio faz com que o número de casinos controlados pelo

A

PESAR dos preços da venda por grosso de porcos vivos terem ficado mais caros com o novo ano, o presidente da Associação dos Comerciantes de Carne Verde Iong Hap Tong de Macau, Che Su Peng, não acredita que o consumidor final vá sentir esse aumento. Em declarações ao Jornal do Cidadão, o presidente defendeu que o facto do aumento não ter sido significativo vai fazer com que os comerciantes de carne mantenham os preços praticados no ano passado. Ainda assim, Che Su Peng considerou o aumento anormal, visto que com base no passado este tipo de aumentos surgia logo a seguir ao Dia Nacional, em Outubro. Porém, desta vez apenas foi registado com o início do novo ano. Por outro lado, o presidente criticou o Governo por ainda não ter feito nada para controlar os preços que chegam ao consumidor final. Face a esta situação, Che Su Peng

Crise na pocilga Preço de porcos vivos voltou a aumentar

sugeriu ao Executivo a aquisição de um espaço para instalações de suinocultura no Interior da China. O objectivo passaria por fazer diminuir os preços da carne de porco que chegam a Macau.

Também o deputado Ho Ion Sang sublinhou a necessidade do Governo implementar medidas para controlar o impacto da inflação na importação de carne de porco junto dos consumidores finais.

HOJE MACAU

sexta-feira 5.1.2018

empresário e político, que tem lugar no Conselho do Executivo, suba para quatro. Ainda na península de Macau, Chan Meng Kam controla os casinos Golden Dragon e Royal Dragon, também através de acordos

A conclusão deste negócio faz com que o número de casinos controlados pelo empresário e político, que tem lugar Conselho do Executivo, suba para quatro O legislador declarou ao Jornal do Cidadão que a sociedade quer ver o mercado da comida fresca liberalizado com a introdução de um mecanismo para implementar concorrência justa, alargamento das fontes de importação dos produtos, garantia de preços razoáveis e redução dos impactos da inflação no Interior da China junto do consumidor final. Apesar de entender que o Executivo prometeu por várias vezes garantir os direitos e interesses dos consumidores no mercado, Ho Ion Sang lamentou que as promessa não estejam a ser cumpridas e que o residentes tenham de continuar a aguentar o alto nível de preços na vida. Ainda assim, o deputado frisou que, com os preços por grosso dos produtos alimentares frescos a aumentarem, que vários cidadãos estão preocupados que tenham de ser eles a pagar esses aumentos. Por essa razão, Ho Ion Sang apelou ao Governo para fazer uma fiscalização mais eficaz. V.G.

com a SJM. Na Taipa, o empresário de Fujian é detentor do Casino Taipa Square, através da licença da Melco Resorts and Entertainment, concessionária controlada por Lawrence Ho. Rumores nos meios da indústria do jogo têm apontado Chan Meng Kam como um eventual candidato a uma licença de jogo, caso o Governo tome a opção de aumentar o número de concessões. Essa licença poderia ser atribuída numa parceria com Alvin Chao, proprietário da empresa de promoção de jogo Suncity. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

AEROPORTO COM MAIOR VOLUME DE PASSAGEIROS DE SEMPRE

O

número de passageiros que passaram pelo Aeroporto Internacional de Macau o ano passado atingiu a fasquia de 7.16 milhões, um aumento de oito por cento em relação a 2016. Segundo um comunicado, trata-se do maior número em 22 anos de operacionalização do aeroporto, ultrapassando 11 vezes o número da população de Macau. Em Dezembro havia um total de 29 linhas aéreas a passar pelo aeroporto, que ligam o território a 46 destinos do sudeste asiático, que representaram 43 por cento do volume de passageiros de todo o aeroporto. Garantindo que os números bem sucedidos se devem a uma boa cooperação com parceiros e o Governo de Macau, a Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau (CAM) assegura que, o ano passado, o Mercado da China e Taiwan se manteve “estável”, enquanto que os mercados do sudeste asiático

e do continente registaram aumentos na ordem dos dez e 15 por cento, respectivamente. Tal representou um aumento de 32 por cento de passageiros nas linhas low cost. Os bons resultados ao nível de rotas e passageiros permitem à CAM “garantir uma base sólida para a expansão das linhas aéreas em 2018”. “Em termos de desenvolvimento de mercado, vamos desenvolver rotas de longo curso, com o objectivo de aumentar e mudar a actual estrutura de mercado em termos passageiros, para que possamos atrair mais viajantes internacionais e locais para o Aeroporto Internacional de Macau”, lê-se no comunicado. A CAM espera ainda este ano concluir várias obras de expansão do aeroporto, tal como o novo terminal norte, que irá permitir uma capacidade de recepção de 7.5 milhões de passageiros por ano.


10 sociedade

U

MA imprensa com coragem para assumir publicamente as suas posições num Território onde as pessoas muitas vezes não o fazem. Foi desta forma que o académico e ex-jornalista José Manuel Simões abordou o Estado dos jornais em língua portuguesa de Macau e a relação com os subsídios públicos. “Curiosamente os jornais em língua portuguesa de Macau, onde PUB

Coragem no papel Académico e ex-jornalista elogia independência da imprensa local

as pessoas não dizem muito abertamente aquilo que pensam, têm essa capacidade e virtude de assumirem posições. Isso é de louvar”, disse, ontem, José Manuel Simões ao HM. “Nota-se nos órgãos de comunicação social em língua portuguesa uma independência face ao poder político por vezes arrojada, uma liberdade de dizer as coisas que podem, à partida, ser surpreendentes, sabendo dessa aparente condicionante”, sublinhou. O académico da Universidade de São José escreveu no ano passado, em conjunto com o também académico Paulo Faustino, um artigo, em inglês, sobre o impacto dos apoios públicos para nos jornais de Macau com o título “Impactos do Apoio Público e do Pluralismo de Vozes nos Jornais de Macau”. Entre as conclusões considera-se que existe uma grande liberdade e pluralidade entre os órgãos de comunicação social em língua portuguesa, apesar do financiamento directo do Governo. “Na prática os subsídios não se reflectem em termos de censura ou controlo editorial. Podemos falar de liberdade de expressão. Isto é em relação à imprensa em língua

STARGIRL SUPERNOVA

José Manuel Simões considera que financiamento público dos jornais não condiciona a liberdade de imprensa nos meios de comunicação social em língua portuguesa de Macau. No entanto, apela a uma maior abertura para as comunidades falantes de português, que não a portuguesa

5.1.2018 sexta-feira

José Manuel Simões “Curiosamente os jornais em língua portuguesa de Macau, onde as pessoas não dizem muito abertamente aquilo que pensam, têm essa capacidade e virtude de assumirem posições.”

portuguesa”, explicou José Manuel Simões, ao HM. “Não me parece, e tendo em conta os trabalhos dos meus alunos na cadeira de jornalismo e no mestrado de comunicação e media, que esta mesma não ingerência do Governo não exista nos órgãos em chinês. Neste caso podemos falar de censura ou, pelo menos, de autocensura”, frisou. Os apoios são encarados como o garante da pluralidade de vozes na comunicação social, sendo escrito no artigo que a leitura da imprensa em língua portuguesa permite ter acesso

a opiniões neutras, contra e a favor das posições do Executivo. “Os apoios à imprensa portuguesa e chinesa mantêm-se desde a Administração Portuguesa, o que também nos mostra que estamos a falar de um mercado reduzido. É um factor que permitem manutenção e continuidade da diversidade dos média em Macau”, apontou José Manuel Simões.

ABERTURA A OUTRAS COMUNIDADES

Por outro lado, o académico considera que sem o financiamento

público seria muito difícil que a imprensa em língua portuguesa se mantivesse em Macau. No entanto, considerou que pelo menos existe espaço para a existência de um jornal. “Num universo em que há três diários e dois semanários, acho que seria possível sobreviver um. Os jornais não sobrevivem nem com as tiragens nem com publicidade, portanto à partida se não houvesse os apoios seria muito difícil. O universo de leitores é muito escasso”, comentou. “Mas se existisse apenas um dos cinco, acho que seria exequível a sobrevivência até na tarefa de angariar publicidade”, completou. José Manuel Simões defendeu ainda que os jornais deveriam centrar-se mais nas comunidades portuguesas, e menos na comunidade portuguesa de Macau: “Por vezes os jornais deveriam ter a preocupação de trazer para as suas páginas as outras comunidades de língua portuguesa, e não só a comunidade portuguesa para quem são mais virados. Era uma tarefa que não seria propriamente complicada”, indicou. O artigo escrito por José Manuel Simões foi publicado em Abril do ano passado na revista Journalism and Mass Communication. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


desporto 11

Responsável pela preparação dos carros do construtor defende que Taça Mundial de GT deve continuar em Macau, apesar de sugestão para mudança para Abu Dhabi

ID

sexta-feira 5.1.2018

A

PESAR dos espectaculares acidentes que têm marcado as edições da Taça Mundial FIA GT no circuito da Guia, o responsável pela preparação dos Audi para clientes privados, Chris Reinke, defende que a prova deve continuar a ser disputada no território. As afirmações surgem numa altura em que existe a possibilidade desta competição ser mudada por outro circuito, como o Yas Marina no Abu Dhabi. Essa foi pelo menos a sugestão de um construtor, segundo o portal Sportscar375, que não identificou o construtor em causa. “Para nós é tudo muito claro. Em Macau há uma forma muita própria de recebermos esta prova, que por não fazer parte de qualquer campeonato se torna num evento radical ao nível da provas de GT3”, disse Chris Reinke, responsável da Audi, ao portal Sportscar365. “Nós consideramos

AUDI QUER CONTINUAÇÃO DA TAÇA GT EM MACAU

Na Guia não se mexe

que Macau tem o circuito indicado para esta prova. É um evento extraordinário”, acrescentou. A questão sobre uma possível realocação da prova que desde a criação foi realizada em Macau, prende-se com os vários acidentes. Em 2016, Laurens Vanthoor

“Nós consideramos que Macau tem o circuito indicado para esta prova. É um evento extraordinário.” CHRIS REINKE

conquistou o troféu, apesar de ter capotado o carro e obrigado á interrupção da corrida. Depois de uma sessão de 90 minutos em que os carros só realizam 5 voltas em ritmo competitivo. No ano passado, a corrida de qualificação teve um acidente que envolveu quase

metade dos concorrentes e que condicionou o resultado final. Chris Reinke considerou estes episódios uma falsa questão, no sentido em que, diz o responsável, as pessoas que se deslocam ao Território sabem o que têm pela frente. “Se falássemos

em incluir esta prova num campeonato poderíamos falar numa aposta com um risco elevado. Mas quando as pessoas vão a Macau sabem o que têm pela frente e se querem arriscou ou não. Para nós não há nenhum problema se a prova continuar a ser realizada em Macau”, explicou. “Quando vamos a Macau temos consciência do tipo de circuito e a natureza das provas. É um conhecimento que já existe antes da prova e que sai reforçado quando regressamos a casa”, frisou. Questionada sobre o facto de poder haver uma mudança de pista para a Taça Mundial FIA GT, Reike admitiu que esse cenário está a ser equacionado: ““Há um grande risco de isso acontecer, e nós estávamos cientes desse aspecto quando nos inscrevemos na prova. Acho que todos os que se vão inscrever têm de compreender que isso pode acontecer”, admitiu. “Os riscos fazem parte desta prova, que também se tornou conhecida por esse risco”, concluiu. A Taça Mundial FIA GT começou a ser realizada em 2015, a partir da competição para GT do Grande Prémio. Apesar de no início o evento ser aberto a pilotos amadores, nos últimos anos tornou-se exclusivo para pilotos profissionais. No ano passado, um total de 20 carros participação na prova, com sete construtores diferentes, o que foi um recorde.

Ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai vai receber maratona

João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

As autoridades do Interior da China vão organizar uma maratona que atravessa a Ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai e os pormenores estão a ser ultimados, de acordo com uma notícia de ontem do jornal Ou Mun. Avança a publicação que a data mais provável par a realização do evento é 18 de Março. De acordo com o Jornal Ou Mun, a autoridade da ponte Hong Kong‑Zhuhai‑Macau respondeu que a informação relativas à maratona que terá lugar na ponte em forma de Y será divulgada em breve. Ainda assim, segundo as informações partilhadas num grupo de conversa da aplicação Wechat, ligado aos organizadores, estima-se que a maratona será agendada para o dia 18 de Março, com as inscrições a abrirem ainda este mês. Segundo a intenção da organização, a maratona não vai exigir aos participantes um documento de acesso à ponte e a taxa de inscrição vai custar cerca de 200 renminbis.


12 especial

5.1.2018 sexta-feira

N

O dia de Natal do ano de 1216, na capela da Porciúncula, o altar estava enfeitado para a festa, todo branco de linho perfumado de alfazema, candelabros dourados de fresco. No frontão brilhava um cordão de grossas campainhas de prata. Elas eram a única riqueza verdadeira que havia no altar, prenda de um mercador de Assis, devoto do santo Francisco. Fora ali posta depois de uma controvérsia entre os irmãos. O irmão Bernardo de Quintavale, que vendera todas as suas riquezas e distribuíra a moeda aos pobres, recusara o presente como se fora uma cilada do Diabo. O Diabo que queria que os irmãos quebrassem a regra da pobreza! Quantos quilos de moeda valia aquela prata? E o pai Francisco sempre dissera que os irmãos não podiam aceitar a mais pequena moeda, nem como esmola, nem em paga de trabalho! Mas o irmão Elias, que trouxera para o colo o precioso embrulho, no regaço, com mil cuidados, como se fosse um bebé, falou com a sua voz poderosa. O pai Francisco, disse ele, queria que o Altíssimo fosse honrado com as mais preciosas coisas do mundo que ele mesmo criara. Como recusar ao Criador aquela prenda de prata pura? Os ecos da discussão chegaram aos ouvidos do irmão Junípero. Mas ele não seguia os meandros das palavras. Sabia que Fr. Elias era sábio e eloquente e obedecia à sua voz. No fim, ajudou os irmãos a colocarem as campainhas no sítio mais vistoso do altar, que ficou confiado à guarda do sacristão. E agora estava ali o irmão Junípero, porque o sacristão se ausentara um momento para almoçar. Estava ali o

ANTÓNIO JOSÉ SARAIVA*

FRA ANGELICO, FRESCO NO CONVENTO DE SÃO MARCOS

Prenda de Natal

irmão Junípero ao lado do altar, em profunda contemplação. Via diante de si o Menino nascido, dentre palhinhas de luz, todo róseo e sorrindo. Sorrindo também, de pura ternura, Junípero inclinava-se e estendia os beiços para beijar o pezinho tenro de Jesus.

Mas uma brusca pressão no braço direito surpreendeu-o. Olhou e viu uma criatura escura e embiocada. Era uma velhinha que lhe pedia esmola pelo amor de Deus. Junípero tinha só o hábito que vestia e deixara a sacola no casebre onde morava, perto da capela. Disse à velhinha:

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA UM GRITO DE AMOR DESDE O CENTRO DO MUNDO • Kyoichi Katayama Sakutarô e Aki conhecem-se na escola. Ele é um jovem engenhoso e sarcástico. Ela é uma rapariga bonita e popular. O que de início é uma amizade cúmplice torna-se numa paixão arrebatadora. Um acontecimento trágico vem pôr à prova a força do amor que os une. Este é o romance japonês mais lido de todos os tempos no Japão, com mais de três milhões de exemplares vendidos.

- Vem e verei se poderei achar neste altar alguma coisa para ti. E, virando-se para o altar, deram-lhe na vista as campainhas de prata. Para que serve isto? - pensou. Aqui são só superfluidade e à pobrezinha sempre lhe matava a fome. E foi com uma faca, cortou o cordão dos dois lados.

- Leva. E a paz do Senhor seja contigo. A velha deslizou como uma sombra entre as colunas. O irmão Junípero já não tornou a vê-la. Entretanto o sacristão acabava de almoçar e começava a pensar no altar que deixara à guarda do irmão Junípero. O irmão Junípero! Um homem

capaz de dar a sua própria roupa! Um dia o superior tivera de o repreender severamente porque ele se despia para dar a capa e a saia. No dia seguinte encontrou um pobre e disse-lhe: Irmão, só tenho esta saia que trago, e por obediência não ta posso dar. Mas se tu ma tirares eu

RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

69 CONTOS URBANOS DE VÍCIOS PRIVADOS • Daniela Oliveira Contadas de forma descontraída, mas vividas com uma intensidade inebriante, as 69 histórias de Daniela Oliveira falam das vivências e devaneios característicos de uma sexualidade livre, sem preconceitos. Com princípio, meio e fim, homens e mulheres cruzam-se, trocam olhares e conversam antes de partilharem o prazer carnal. Um livro para ler com uma atitude positiva, que lhe proporcionará momentos de muito boa disposição ao relembrar um episódio vivido, uma confissão de uma amiga ou, quem sabe, um ímpeto secreto há muito contido.


eventos 13

sexta-feira 5.1.2018

não me defenderei. O pobre despiu-o, e voltando a casa Junípero contou que tinha sido roubado por um homem. Lembrando-se disto o sacristão teve um sobressalto e correu para o altar. O irmão Junípero continuava quieto no seu banco. O frontal estava destruído, as campainhas arrancadas! O sacristão investiu furioso contra Junípero, sacudiu-o com raiva. Mas ele explicou-lhe a situação com naturalidade: - Irmão, porque estás zangado? Dei as campainhas a uma pobrezinha que não tinha que comer. Ali onde estavam não serviam para nada. O sacristão ainda correu à porta da capela, inutilmente. E, não sabendo que fazer, foi

desabafar a ira com o superior da casa, o irmão Elias, que se voltou contra ele: - A culpa é tua, pois bem sabes como é o irmão Junípero! Mas deixa estar que eu o castigarei bem. Elias chamou os irmãos a capítulo, e com gestos espalhafatosos, numa voz que ia enrouquecendo de raiva, repreendeu o culpado. Junípero olhava para os grandes movimentos que o irmão Elias ia fazendo com os braços e com a cabeça, mas não atinava com o que ele queria dizer. Perdeu o fio ao discurso e ouvia só o som da voz rouca que lhe batia nos ouvidos. Pôs-se a pensar que o irmão Elias sofria da garganta e precisava de um remédio. Logo que acabou a reunião foi à vila procurar com que fazer umas papas com manteiga, boas para a rouquidão. Alta noite voltou com a malga cheia e uma candeia para se alumiar. Bateu à porta do irmão Elias, que já estava a dormir e que disse: - Quem bate a esta hora? - Irmão, sou eu. Enquanto falavas no capítulo senti que estavas rouco, e por isso arranjei para ti estas papas com manteiga. Come-as que te fazem bem. Elias queria sacudir o importuno: - Vai-te, besta! Julgas que são horas de comer? Mas Junípero só pensava que o irmão estava rouco. Insistia pacientemente e com voz meiga, como se faz a um doente teimoso. Elias estava exasperado. Elias insistia: - Come, que te faz bem. Vendo que nada conseguia, Junípero fez um gesto desconsolado. Depois estendeu a candeia para o irmão Elias e disse com a voz apagada: - Irmão, visto que não queres comer, segura-me aí na candeia, e comerei eu. Diz a Crónica que ante este dito Elias “foi derretido por dentro por tamanha simpleza de caridade”. E, mudando de tom, respondeu: – Irmão, pois que tu assim queres, comamos ambos de companhia. * conto publicado no jornal Diário de Notícias, de 22 de Dezembro de 1979, gentilmente cedido ao HM pelo seu filho António Saraiva.

M

AIS de 37 anos depois da fundação, os seminais The Chameleons tocam pela primeira vez para o público de Hong Kong. O concerto é hoje no MusicZone@Emax em Kowloon, com as portas abertas às 19h30. A primeira parte estará a cargo dos Sinister Left e dos Ambience Intelligent. A histórica banda de Middleton, nos arredores de Manchester, é um dos marcos do post-punk do início dos anos 1980. Com uma carreira discográfica curta, com apenas quatro álbuns de originais, os The Chameleons foram uma banda à margem das revoluções musicais nascidas em Manchester. Longe de terem alcançado a notoriedade dos Joy Division, The Smiths e The Fall, o grupo liderado pelo Mark Burgess manteve um culto underground que se foi cimentando com o tempo realçando a relevância em termos líricos e musicais dos seus discos. Com um pé no rock psicadélicos, graças aos efeitos de guitarra e às letras escritas sob a influência de cogumelos alucinogénios, nascidas do génio do vocalista e baixista, Mak Burgess, os

Cate Blanchett preside ao júri do festival de Cannes

A actriz australiana Cate Blanchett vai presidir ao júri do 71.º festival de cinema de Cannes, de 8 a 19 de maio próximo, anunciou ontem a organização. Blanchett lançou recentemente com outras atrizes, como Meryl Streep e Natalie Portman, a fundação “Time’s Up” para ajudar vítimas de assédio sexual, na sequência de várias denúncias de agressões sexuais contra o produtor cinematográfico norte-americano Harvey Weinstein. A atriz é a 12.ª mulher a presidir ao júri de Cannes, quatro anos após a realizadora neo-zelandesa Jane Campion, e sucede, aos 48 anos, ao cineasta espanhol Pedro Almodovar. O júri presidido por Almodovar atribuiu a Palma de Ouro ao sueco Ruben Ostlund por “The Square”. Nascida em Melbourne (sudeste da Austrália), Cate Blanchett já conquistou dois Oscares, com “Aviator” de Martin Scorsese (2005) e “Blue Jasmine” de Woody Allen (2014).

Aqui e hoje The Chameleons estreiam-se em Hong Kong hoje no MusicZone@Emax

The Chameleons criaram um som que os separou das correntes que lhes foram contemporâneas. Algo que faz com que a sua música se mantenha actual, motivando tours que, inclusive, passaram por Portugal várias vezes. Os The Chameleons têm o núcleo da sua discografia na década de 1980, onde lançaram três discos até 1986, hibernando de seguida para um hiato que duraria quase 15 anos. O disco final dos 80’s, intitulado “Strange Times” é um monumento musical de inestimável valor, carregado de hinos como “Mad Jack”, “Caution”, “Tears” e “Seriocity”, numa escolha muito difícil de fazer.

PRIMEIRO ACTO

Antes do prato principal subir ao palco, o público que se deslocar a Kowloon será aquecido pelos Sinister Left e os Ambient Intelligence.

Os Sinister Left são uma banda local que combina ritmos hipnóticos e pesados com guitarras. O seu disco mais recente “Soot” recebeu alguma atenção por parte da crítica e imprensa da especialidade. O South China Morning Post escreveu que o álbum tem “um groove hipnótico e ameaçador, músicas complexas que fazem do disco um dos mais dinâmicos a sair da cena de Hong Kong nos últimos anos”. Os Ambient Intelligence são um duo de música electrónica criado no final de 2016 e constituído por Alan Ip e Yanlo Chow. A banda é fortemente influenciada pelos sons de sintetizadores dos movimentos musicais do início dos anos 80, ou seja, apropriado para o início de uma noite que se prevê memorável. O som dos Ambiente Intelligence é experimental e as suas actuações são normalmente marcadas pelo improviso em palco onde tentam demonstrar a química entre humanos, máquinas e o meio ambiente. Bons aperitivos antes da entrada em cena do acto principal, a estreia dos The Chameleons na zona do Delta do Rio das Pérolas. João Luz

info@hojemacau.com.mo

“STAR WARS” NO PRIMEIRO LUGAR DE RECEITAS DE BILHETEIRA NOS EUA

O

último filme da saga “Guerra das Estrelas (Star Wars)” entrou no ano de 2018 à frente das receitas de bilheteira nos Estados Unidos, o que transformou 2017 no segundo melhor ano de sempre dos estúdios Disney. “Os Últimos Jedi”, oitavo filme da saga galáctica de George Lucas, gerou 66,8 milhões de dólares de sexta-feira da semana passada a segunda-feira, de acordo com Exhibitor Relations.

Depois da estreia nas salas de cinema da América do norte, há três semanas, o filme está na primeira posição em receitas de bilheteira e acumulou já 532 milhões de dólares. No mundo, o derradeiro filme da saga - igualmente número um na Europa, de acordo com a Disney, que anunciou que a produção será estreada na China na próxima sexta-feira - acumula mais de mil milhões de dólares no total. Avatar (2009) é o filme que ainda mantém o recorde de receitas de bilheteira mundiais, com 2,7 mil milhões de dólares. Na América do Norte, “A Guerra das Estrelas” ameaça o primeiro lugar das melhores estreias, em 2017, com “A Bela e o Monstro”, segundo a Disney. O estúdio é o único a ultrapassar os 5 mil milhões de receita global, nos últimos três anos, segundo o sítio na internet especialista em cinema Deadline.com.


14 china

5.1.2018 sexta-feira

Cada vez mais a China surge na cena internacional como nova superpotência, colmatando a retirada do trumpismo

QUEM OCUPARÁ O ESPAÇO DOS EUA NA NOVA ORDEM MUNDIAL?

A pergunta de um milhão sobre o comentário do think tank norte-americano Euroasia Group segundo o qual a China “está a tentar preencher a vaga de liderança no planeta deixada pelos EUA perante a recessão geopolítica actual”. Geng Shuang disse que o 19º Congresso Nacional definiu novos objectivos para a diplomacia chinesa na nova era, que são promover o estabelecimento de um novo tipo de relações internacionais e da comunidade de destino comum da humanidade.

A

China saiu em defesa do Paquistão, dizendo que o seu aliado faz “grandes esforços e sacrifícios” para combater o terrorismo. Os comentários chineses vieram em resposta aos do presidente dos Estados Unidos. Trump criticara o Paquistão por recusar-se “a combater jihadistas que estão a matar e mutilar tropas americanas e dos seus aliados no vizinho Afeganistão”. Geng Shuang, porta-voz do regime chinês, acrescentou: “A China e o Paquistão mantêm uma completa parceria estratégica de cooperação. A China está pronta para aprofundar as relações com o Paquistão em vários campos para trazer maiores benefícios aos dois povos. Dias atrás, Trump cortou milhões de dólares do financiamento militar norte-americano ao Paquistão, tendo sido levantada a questão de uma nova ordem internacional em que a China, gradualmente , substituiu os EUA.

CHINA NÃO SUBSTITUI NINGUÉM

Contudo, segundo o porta-voz do MNE chinês, “a China não pretende liderar ou substituir ninguém nos assuntos internacionais e sempre sustenta o conceito de consultas conjuntas na administração global”. Geng Shuang fez a declaração ao responder a uma pergunta

O

Banco Popular da China fará aumentos modestos nas taxas do mercado monetário em 2018, porque pretende manter a pressão sobre a desalavancagem e evitar uma divergência excessiva com a política dos EUA, de acordo com uma pesquisa da Bloomberg. Projecta-se que o Banco Popular da China aumentará as taxas de juros em acordos de recompra reversa em cinco pontos-base três vezes neste ano, a partir do primeiro trimestre, mostra a pesquisa. Isso aumentaria a taxa - agora em 2,5 por cento - mais lentamente do que no ano passado, quando as autoridades a elevaram em cinco pontos-base em Dezembro,

UMA POSSÍVEL RETALIAÇÃO

INCENTIVO TRIBUTÁRIO PARA INVESTIR NO ESTRANGEIRO

O

Ministério das Finanças da China divulgou uma série de incentivos fiscais para encorajar as companhias do país a investir no exterior. Segundo um comunicado, várias divisões de uma empresa doméstica terão isenção de um aumento no imposto sobre lucro corporativo, nesse caso. A medida busca evitar a dupla tributação e também reduzir os encargos tributários para as empresas domésticas, informou o Ministério das Finanças. As regras valem apenas para negócios no exterior que sejam pelo menos 20% propriedade de companhias chinesas. As empresas domésticas

poderão também usar um método diferente para calcular seu imposto, caso tenham investimentos em vários países, segundo o governo. Com isso, elas poderão alocar os seus créditos tributários em diferentes países, o que ajudaria a reduzir a pressão sobre o fluxo de caixa, explica o comunicado. O anúncio dos mais recentes incentivos são feitos uma semana após a China dizer que isentaria companhias estrangeiras de pagar imposto sobre o seu lucro caso ele seja reinvestido nos sectores especificados por Pequim, um esforço para atrair investidores estrangeiros.

O ano de alguns perigos

Taxas do mercado monetário devem crescer três vezes em 2018

após dois aumentos de 10 pontos-base no primeiro trimestre. Os economistas não prevêem nenhuma alteração na taxa de referência, que estabelece os custos de empréstimos em toda a economia, até o início de 2020, de acordo com outra pesquisa realizada pela Bloomberg. O banco central manteve a taxa de empréstimo de um ano inalterada desde Outubro de 2015. Com essa trajectória, a China manteria um ritmo parecido com o do Federal Reserve dos EUA, que projecta três aumentos pró-

prios neste ano, e Pequim conservaria a estabilidade financeira, mantendo a liquidez apertada e evitando saídas de capital. O BPC surpreendeu os investidores no mês passado quando, depois do aumento de 0,25 ponto do Fed, realizou o seu próprio movimento menor. O BPC tem maior probabilidade de aumentar as taxas de juros do mercado aberto no primeiro semestre, porque provavelmente haverá mais forças contrárias para a economia nos últimos seis meses do ano, de acordo com Wang

Yifeng, analista do instituto de pesquisa da China Minsheng Banking em Pequim. “Uma tendência de ajuste na prática será a principal orientação política, o que ajuda a equilibrar a redução da alavancagem e estabilizar o crescimento”, disse ele. “Vai ser difícil ver a flexibilização da política monetária durante bastante tempo.” Uma reunião cimeira das autoridades encarregues das políticas económicas da China, conduzida pelo presidente Xi Jinping no mês passado,

Por outro lado, os chineses também criticaram os americanos por adoptarem “uma abordagem cada vez mais proteccionista e isolacionista.” A agência estatal Xinhua pediu aos Estados Unidos para adoptarem medidas de controlo das tensões comerciais entre a China e os Estados Unidos e pediu mais cooperação bilateral. Mas também advertiu num comentário que Pequim adoptará “medidas retaliatórias” em 2018, caso os EUA continuem a adoptar uma mentalidade de soma zero. A Xinhua também criticou os EUA por terem “uma abordagem cada vez mais proteccionista e isolacionista”. A agência argumenta que a China tem feito esforços para promover a cooperação com Washington.

estabeleceu que a prevenção de risco será a principal “batalha crítica” para os próximos três anos. A Conferência de Trabalho Económico Central, realizada todos os anos, adoptou um tom mais forte do que no ano anterior ao declarar que as comportas da oferta monetária deveriam ser “controladas”, em comparação com o anúncio do ano anterior, que pedia “ajuste”. Os analistas também projectam uma redução generalizada do coeficiente de reservas obrigatórias no quarto trimestre, de 17 por cento para 16,5 por cento, de acordo com diferentes pesquisas. Isso se somaria à redução projectada para ajudar as pequenas

empresas, que havia sido anunciada no ano passado e entrou em vigor no dia 1 de Janeiro. Ainda assim, o BPC talvez não acompanhe completamente os aumentos da taxa de juros do Fed neste ano, disse Liu Ligang, economista-chefe para a China do Citigroup em Hong Kong, em entrevista à Bloomberg Television na quarta-feira. É provável que o banco central faça no máximo dois aumentos em sua Facilidade Permanente de Crédito overnight, que estabelece um tecto para as taxas do BPC, mas “se o ajuste financeiro for excessivo, não podemos desconsiderar um corte dos requisitos de reserva”, disse Liu.


china 15

sexta-feira 5.1.2018

“Uber” chinesa compra participação em firma brasileira

A principal aplicação de transporte chinesa, Didi Chuxing, anunciou ter comprado parte da brasileira 99Taxis, na primeira aquisição além-fronteiras, informou ontem um portal chinês de informação económica. A empresa chinesa não indicou a participação adquirida, nem o valor pago, mas o portal yicai.com estimou o investimento em cerca de 294 milhões de dólares. Em 2016, a firma Didi Chuxing comprou as operações da Uber na China, assumindo controlo total do mercado do país, o primeiro a aprovar uma lei para regular este modelo de negócio. A entrada na firma brasileira vai criar um potencial rival para a Uber no Brasil. Fundada em 2012, a 99Taxis fornece serviços de táxi tradicional e em aplicação de transporte privado. Opera em 550 cidades do Brasil e é líder do mercado em São Paulo e Rio de Janeiro.

PCC SUBLINHADA A NECESSIDADE DE ESTUDAR PENSAMENTO DE XI JINPING

O núcleo e o guia

W

ANG Huning, membro do Comité Permanente do Bureau Político do Comité Central do PCC e do Secretariado do Comité Central do PCC, pediu na quarta-feira que os funcionários de comunicação do país desenvolvam uma ideologia socialista que tenha a capacidade de unir e o poder de inspirar. Wang sublinhou a importância de fortalecer a liderança geral do PCC em comunicação, teoria e cultura, e disse que qualquer desenvolvimento ideológico deve seguir as regras do PCC sobre a construção do Partido. O burocrata também indicou que a formação de equipas mais fortes de oficiais com mais talento é importante para o trabalho de comunicação do Partido. Além disso Wang quer uma melhor divulgação do pensamento de Xi Jinping

A

China é destino de aposta do Super Bock Group e da Sociedade Central de Cervejas e Bebidas (Sagres), ocupando o primeiro e segundo mercado de exportação, respectivamente, disseram à Lusa os responsáveis das duas empresas cervejeiras. “A actividade comercial do Super Bock Group na China começou em Janeiro de 2009, quando enviámos o primeiro contentor para comercialização da marca Super Bock em hotéis e restaurantes através de parcerias que estabelecemos com distribuidores locais”, afirmou Rui Lopes Ferreira, presidente executivo da empresa. Por sua vez, a Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, que tem a Sagres, iniciou a comercialização na China, embora

sobre o Socialismo com Características Chinesas na Nova Era. “Tomem o pensamento de Xi Jinping como orientação de seu trabalho e concentrem-se no estudo, promoção e implementação do espírito do 19º Congresso Nacional do PCC”, disse aos funcionários que o escutavam na quarta-feira. Wang atribuiu as “realizações históricas” feitas no sector de comunicação do Partido desde o 18º Congresso Nacional

Wang atribuiu as “realizações históricas” à “forte liderança” do Comité Central, com “Xi como o núcleo e o seu pensamento como guia”

do PCC à “forte liderança” do Comité Central do PCC com Xi como o núcleo e o seu pensamento como guia. Assim, “o trabalho de comunicação deve orientar as pessoas para proteger o estatuto central de Xi e defender a autoridade e a liderança centralizada e unificada do Comité Central do PCC de forma mais comprometida”, acrescentou. A conferência foi presidida por Huang Kunming, chefe do Departamento de Comunicação do Comité Central do PCC. Huang pediu que os funcionários intensifiquem sua confiança e consciência em seu trabalho na nova era e usem o pensamento de Xi Jinping para armar o Partido, educar o povo e aumentar a coesão na sociedade. “O trabalho de comunicação e publicidade deve promover a cultura socialista, impulsionar as conquistas das pessoas e criar uma sociedade civilizada”, concluiu.

Um sonho chinês Sagres e Super Bock vendem como nunca

de forma “residual, em 2013”, adiantou Nuno Pinto Magalhães, director de comunicação e relações institucionais da empresa. “Em 2016 foi quando começámos a acelerar o nosso crescimento” naquele mercado, acrescentou. Para o Super Bock Group, “hoje a China é o maior destino internacional da empresa, registando resultados bastante promissores ao representar 40% das exportações, sobretudo da cerveja Super Bock, o que significa já mais de 10% da receita global (451 milhões de euros em 2016)”, referiu Rui Lopes Ferreira.

No caso da cervejeira que detém a marca Sagres, em 2016 foram exportados quatro milhões de litros para a China, prevendo-se para 2017 “um crescimento superior a 50%”, acrescentou Nuno Pinto Magalhães. “A China, neste momento, é o segundo mercado de exportação da Sagres, a seguir à Suíça, não considerando Angola, que já não é exportação”, salientou o mesmo responsável, apontando que a região onde o grupo mais vende cerveja é na província de Fujian, embora também comercializem para Zhejiang e Guangdong.

Já a Super Bock “está a ser comercializada em cinco mil pontos de venda distribuídos por 50 cidades, localizadas em três províncias com 200 milhões de pessoas. Mantém-se a presença em hotéis e restaurantes seleccionados, tendo a empresa já alargado a comercialização desta marca também ao canal alimentar”, concluiu o presidente executivo do grupo. Relativamente a Angola, a Sociedade Central de Cervejas e Bebidas adiantou que a Sodiba - Sociedade de Distribuição de Bebidas de Angola, fábrica da empresária angolana Isabel dos Santos, “iniciou a produção em meados de Março [de 2017], em regime de ‘trademark license agreement”, sendo que só divulgarão dados “passado sensivelmente um ano”.

Paquistão Banco central aceita yuan O Banco Estatal do Paquistão anunciou ontem que vai permitir o uso do yuan nas trocas comerciais e investimentos da China, indicou o portal chinês de informação económica yicai.com. A decisão do banco central paquistanês representa mais um passo para a internacionalização da moeda chinesa, uma prioridade de Pequim, que pretende contrariar a hegemonia do dólar norte-americano. A China quer também negociar na sua moeda recursos, como petróleo e ferro, dos quais é o maior mercado mundial, e facilitar os investimentos chineses além-fronteiras. Com Angola, por exemplo, a China tem também um acordo monetário para aceitação das respetivas moedas em ambos os países, prescindindo do uso do dólar nas trocas comerciais. E em Setembro passado, Portugal recebeu autorização do banco central da China para a realização da primeira emissão de dívida no mercado chinês com obrigações denominadas em yuan. Em 2016, o yuan aderiu formalmente ao cabaz de moedas do Fundo Monetário Internacional (FMI), um instrumento criado pela instituição para permitir liquidez aos países membros. Segunda maior economia do mundo, a seguir aos Estados Unidos, a China é também detentora das maiores reservas cambiais do planeta.

Gás natural China ultrapassará Japão como maior importador

O combate de Pequim à poluição colocou a China a caminho de ultrapassar o Japão este ano como o maior importador mundial de gás natural, usado em substituição ao carvão, mais poluente. A China é o terceiro maior consumidor mundial de gás natural, atrás dos Estados Unidos e da Rússia, mas ainda precisa importar cerca de 40% para complementar o fornecimento. Os dados compilados a partir do terminal Eikon, da Thomson Reuters, indicam que as importações chinesas de gás encanado e de “liquefied natural gas” (LNG) cresceram em 2017 em mais de um quarto sobre 2016, para 67 milhões de toneladas. Somente as importações de LNG aumentaram 50%. Os dados, incluem as chegadas de navios carregados com LNG na China e as estimativas mensais do fluxo de importação de gasodutos, os números de Dezembro ainda não estão disponíveis. A China ainda está atrás do Japão, com importações anuais de gás de cerca de 83,5 milhões de toneladas, mas superou o Japão em Setembro e novamente em Novembro. “Nós esperamos que a China ultrapasse o Japão como maior importador de gás do mundo em 2018”, disse a gerente Miaoru Huang. Mas o Japão deve continuar sendo o maior importador global de LNG, pelo menos até 2028, adicionou.


16

h

5.1.2018 sexta-feira

ai do que não foge para o seu próprio deserto e nele instala a sua tenda. Amélia Vieira

Arcas

S

ÃO um simulacro recente as paredes com orifícios para arrumação que define o nosso «modi operandi» logístico; nada que nos faça já recordar qualquer modalidade de emparedamento: as paredes não ouvem mas muitas falam quando existem demolições e sismos, isto para não abarcar ainda os tectos falsos, os soalhos tapados, toda uma arquitectura de construção acumuladora de coisas que deviam pela sua natureza não ser reveladas. Por isso e ao longo do tempo usámo-las para agrupar elementos, sempre com ferrolhos, fechaduras, como de um cofre se tratasse. Elas eram uma espécie de condomínio fechado tanto pela magnitude das suas proporções como pela sigilosa presença dos seus conteúdos, não havendo habitação que não as tivesse para usos vários que ninguém obviamente ousava indagar. A sua remoção era difícil mas tinha a particularidade de não serem anexos e não estarem escondidas. Esta forma de “arcar” era para os antigos escravos que as moviam com o peso dos seus interiores constituindo assim uma particularidade móvel. E, voltando a algumas, a mais recente e impressionável será mesmo a Arca de Fernando Pessoa, cujas dimensões reduzidas conseguiu englobar a mais vasta obra da poesia portuguesa e páginas inteiras do mais soberbo ensaio. As Arcas têm fundos, não são objectos que simulem apenas uma aparência, e quem anda de um local para outro leva a sua Arca de forma inteira, nem que tenha de deixar as outras peças soltas nos exíguos lugares por onde passa. Uma espécie de outra Arca, a da Aliança, pois ambas continham apenas palavras: uma, o decálogo, a outra - muitas outras - de versos, eram depósitos de palavras de Deus dado que os poetas são receptáculos também dessa voz e não raro vejo-o a acompanhar a sua Arca como o rei David num contentamento estonteante que no nosso poeta era coisa rara. David dançava enquanto ela se movia; Pessoa pensava enquanto ela se mudava mas a beleza era mesmo por que não estavam fixas. E se uma era constantemente preenchida já a outra transportando em pedra a palavra, preenchia os requisitos imutáveis de uma Arca que não se expande. Pessoa deixou bem clara a definição entre Mala e Arca ao analisar Nossa Senhora no seu «Guardador de Rebanhos»,

que pastores eram estas gentes todas. Claro que em ambos os casos estamos distantes das belas ânforas de bondade uterina. Aqui, entre o que se traz e o que guarda, vai uma longa fila de sucessivos revezes femininos. O feminino tende a juntar muita coisa em espaços fechados - coisas de natureza vária - o que faz que se podendo ser apenas uma mala, não haja tal incómodo, mesmo assim vociferam as línguas que lá também cabe tudo. Mas a Arca onde coube mesmo quase tudo e não era de todo uma Mala, foi a Arca de Noé! Todos sabemos que as diversas alterações climáticas do planeta deram movimentos às águas sem-

David dançava enquanto ela se movia; Pessoa pensava enquanto ela se mudava

pre que a Terra mudava ligeiramente de eixo. Falam-nos disso todas as Civilizações e uma das mais belas constatações é sem dúvida o poema épico da Mesopotâmia «Gilgamesh», a primeira das obras literárias mundiais e que nos dá conta exactamente de um dilúvio, obra esta que tanto influenciou o Gênesis. Hoje esta Arca está no monte Ararat, a de Fernando Pessoa foi vendida e está no Brasil, e a da Aliança crê-se que se encontra debaixo do que é agora o Domo da Rocha o edifício mais sagrado do Islão. Há salteadores para as «Arcas Perdidas», há iniciativas prestes a saírem do seu conforto para as contemplar, fazem-se réplicas, pergunta-se pelas madeiras, mas só as Arcas reencontradas saberão transmitir-nos o segredo das suas funções. A do poeta saiu da sua terra, a da Aliança, está por assim dizer em terreiro inimigo, a outra descansa em ruína entre o Irão e a Turquia. Para réplica temos a «Nau Catrineta», que devia ser um sinal à “navegação” para não fazer esquecer a

importância das Arcas. Tal era a semelhança entre a tripulação, que ambas soletravam para mim, algures, a mesma história. – Uma história de encantar! Hoje ouvimos falar em Arcas, mas só as frigoríficas, que é uma adjetivação que tem como fim conservar: mas conservar o quê? Coisas que se estragam. Ora nas Arcas não há decomposição, elas serviam mesmo de grandes salgadeiras, mas o interior delas desvaneceu-se para o frio glacial onde a leitura está rutelada, indicando apenas a espécie dos elementos. E são feias, abrasivas, temíveis, quem se adentra numa dessas industriais pode ficar morto e hirto. Funcionam por electricidade, se ela faltar, uma Arca destas é um depósito de coisas que apodrece, é uma barriga de aluguer para o monstro voraz insaciado que é o consumo, são enfim, a mais degenerativa forma de as nomearmos. Não nos lembramos destas coisas porque “arcamos” com as forças temíveis do grande entulho mundial, nem nos fixamos na desmesura destes imensos objectos, nem consta que tenhamos já Arcas em nossas casas, mas elas foram as componentes mais respeitáveis não só do mobiliário como dos grandes arquétipos Humanos. Hoje guardamos o seu imenso fascínio no nosso imaginário e se as tivermos sabemos como são singulares as suas presenças e como elas contam todas uma história, que começou por um sonho como os antigos enxovais, ao proteger folhas e folhas de papel, de pedras, e de caravanas de animais de várias espécies. As Arcas são ainda uma aliança e todas são sem dúvida - Arcas da Aliança - entre o fazedor e a sua obra, arcar sempre com o peso da responsabilidade movida quando nelas depositamos tantos sonhos. E alguma coisa ficou da mobilidade deste trajecto no «Papamobile» que é uma espécie de trono andante muito semelhante à velha Arca. Arcas, também foi algures um deus que governou a Arcádia, emocionamo-nos perante os «Pastores da Arcádia», a bela obra de Poussin que reflecte tanta coisa... a decifração das palavras tumulares... o prodigioso momento de reflexão das personagens... Esta era ainda a cidade da Idade do Ouro, o mais emblemático mito utópico. «Arcas Encoiradas», um grande romance de Aquilino Ribeiro. «Ouvi contar que outrora», de Ricardo Reis, ardiam casas, saqueadas eram as arcas/ e as paredes/. Caminhemos nestas coisas.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

sexta-feira 5.1.2018

BANSKY

tonalidades António de Castro Caeiro

“Profunda é a fonte do passado. Devemos chamar-lhe insondável?” Thomas Mann

O

passado atravessa-se-nos. Já não é como dantes. Outrora, as memórias rebentavam como bolhas de água Castelo. Podiam ser muitas de uma só vez, mas depressa se acalmava a efervescência. O presente acabava por se impor no seu caudal. Nem a frescura ficava na cara. Agora, por vezes, é o contrário. Parece que uma memória assome o horizonte e nos expulsa do presente ou lava o presente para fora da sua eficácia. A memória não é só uma impressão fixa do passado com que ficamos. É afectiva. Vem não se sabe por que motivo. Ou sabe. São histórias passadas, mal concluídas. Não concluídas. Histórias abortadas de desencontros que levam à abominação da desolação. Atiram-nos para o facto bruto, puro e duro de a vida ainda ser e nós temos de continuar, sempre em frente. A afectividade destas memórias fixam-nos numa zona de impacto, numa terra de ninguém. Não estamos já no princípio. Longe disso. E estamos próximos do fim, mas há ainda tempo. Atiram-nos para um terra de ninguém. Este baldio é uma zona de guerra, como vemos nos filmes

Party Girl sobre os conflitos do Médio Oriente. Não percebemos como é que os soldados estão, pelo menos, na sua primeira comissão, muito menos quando cumprem mais comissões do que a segunda. Estamos num cenário de guerra que nada tem que ver com casa. Reconhecemos que os civis, mulheres e crianças, pobres todos eles, estão no meio do conflito e não podem sair dali. O que sucede de extremo com estas aberturas de zonas apocalípticas é que estamos em casa. Nós somos os locais. É aí a nossa casa. Não temos para onde regressar, porque geograficamente, estamos no sítio onde nascemos, vivemos e, em derradeira análise queremos ficar. Só que não podemos ficar num sítio completamente alagado por uma zona de guerra. A guerra é uma metáfora da abominação da desolação. Estamos num sítio inteiramente determinado pelo tempo. Vive-se em condições extremas. Entre picos de adrenalina, eufóricos, e voos precipitados em direcção ao despenhamento. Em nenhum lado é

casa. Por todo o lado só há o inóspito. Todos os amigos estão expostos a essa situação radical e extrema. O futuro só traz um único alívio: a inconsciência ou a alteração radical dela. Ou, então, a morte. As memórias afectivas surgem das disposições mais antigas dos tempos. A origem e proveniência dessas memórias é a afectividade. Por isso, não importa bem qual é o seu conteúdo “cénico”, de quem é que nós nos lembramos, que histórias do passado é que vêm até nós. Os conteúdos são sempre totais. Implicam-nos numa relação com os outros, com o meio em que nos encontramos, com a nossa vida na sua totalidade. É a afectividade, o seu carácter emocional que é decisivo. A sua forma é sempre a mesma. É apocalíptica, porque nos revela qualquer coisa de nós na nossa relação com os outros especiais da nossa vida, com o sítio que é casa e deixa de ser, com a vida que é nossa, mas parece que somos expulsos dela. O seu conteúdo é vezes sem conta o das pessoas sagradas das nossas vidas. As pes-

A saudade é permanente. Não podemos dizer exactamente que “temos” saudades. Deveríamos dizer que as saudades nos têm a nós

soas sagradas são as que nos abençoam com as suas presenças, mas são também aquelas que nos danam. O sagrado está em tensão com o profano. Mas o profano, do ponto de vista do sagrado, é um horizonte integrado. “A teologia é séria, o inferno é certamente lá em baixo e o céu é lá em cima” (Rimbaud). E as memórias vêm do passado como tsunamis. Configuram-nos um presente. São saudades do passado. Saudades de um passado perdido, mas não esquecido. Não nos deixam esquecer de si. Ficamos presos delas. O presente é configurado por estas saudades que não sabemos matar. Melhor, a saudade é a falta que se sente. A falta, porém, é permanente. A saudade é permanente. Não podemos dizer exactamente que “temos” saudades. Deveríamos dizer que as saudades nos têm a nós. Nessas alturas a falta é tão constitutiva que não sabemos como podemos sobreviver num outro horizonte afectivo, como podemos ter tempo, sem regressar a outro local. Como pode ser reversível se tudo é irreversível? Como pode ser ultrapassável a vida inteira se é agora e agora é impossível? Como pode haver repetição, se tudo parece ser irrepetível? Hoje, vi-te. E eu como era. Não vejo bem como és. Sei, contudo, bem como sou.


18 publicidade

5.1.2018 sexta-feira


h

sexta-feira 5.1.2018

19

José Simões Morais

Bastão nas mãos do Santo

A

existência em Portugal do Bastão do Comando dado a um Governador fica-se a saber pelas palavras de D. Pedro de Meneses, na altura em que foi empossado como primeiro Governador da Praça de Ceuta, ainda em Agosto de 1415. Dizia ele perante D. João I: “ ‘Majestade, com este bastão é-me suficiente para defender Ceuta de todos os seus inimigos’; desde aquele instante, um bastão para jogar (Aleo) transformou-se no Bastão de Mando da Cidade, estando actualmente em mãos da Nossa Senhora de África, como Governadora Perpétua da urbe”, informa Gabriel Fernandez Ahumada. “No acto da posse dos governadores da Índia havia a cerimónia da troca do bastão pelo que se guarda no túmulo de S. Francisco Xavier. Esta cerimónia teve origem no facto de ter o Vice-Rei Conde de Alvor depositado ali o seu bastão, entregando ao santo a defesa do Estado quando esteve iminente a invasão pelo Savagy”, segundo se lê na Enciclopédia Luso Brasileira. Tal episódio ocorreu em 1683, após Sambaji (filho e sucessor de Shivaji, fundador do Império Maharathi) a 24 de Novembro desse ano, com um exército de vinte mil soldados, cavalos e elefantes, tomar às portas da cidade o forte da Ilha de Jua (St. Estêvão) e matado toda a guarnição. O Vice-Rei Francisco de Távora (16811686), já com o título de Conde de Alvor, atacou-o com quatrocentos homens, mas foi desbaratado. Desesperado, o Vice-Rei, vendo estar Goa perdida devido à supremacia dos maratas (denominação portuguesa para os maharatas), foi à Igreja do Bom Jesus e abrindo o túmulo de S. Francisco Xavier colocou-lhe nas mãos o bastão (símbolo do poder), assim como as patentes (símbolo de tomada de posse) e um papel nomeando-o defensor e protector de Goa e dos portugueses. Com isso esperava a sua ajuda milagrosa, entregando-lhe a responsabilidade da defesa de Goa. E não é que Sambaji inesperadamente retirou, apesar da sua supremacia. Para a crença popular foi um milagre realizado por S. Francisco Xavier, mas o que ocorreu para o súbito abandono da mais que provável conquista de Goa por parte de Sambaji foi este ter de ir defender as suas terras do ataque dos mongóis. A partir de então, muitos dos Governadores e Vice-reis da Índia tomaram posse junto ao túmulo do Santo.

BASTÕES DAS DIFERENTES AUTORIDADES

Por alvará de 26 de Abril de 1626, Dom Francisco da Gama, que pela segunda vez ocupava o cargo de Vice-Rei da Índia (1622-28), concedeu à Câmara de Macau o privilégio de prover a vara de Alcaide

desta cidade, em homem branco. Alvará mais tarde confirmado pelo Vice-Rei D. Francisco de Távora (1681-1686) e a 30 de Abril de 1689 pelo então Governador da Índia, D. Rodrigo da Costa, sendo a 30 de Dezembro de 1709 pelo próprio Rei D. João V. Uma história em que este bastão é referenciado ocorreu em Macau em 1710. Na altura, 13 de Fevereiro, os vereadores do Senado revoltaram-se contra o Capitão-Geral Pinho Teixeira e essa desobediência levou o Governador a mandar eleger um novo Senado. Os homens bons demitidos pelo Capitão refugiaram-se no Colégio de S. Paulo e o Governador enviou soldados para aí os prender. Os jesuítas reuniram-se com o Ouvidor e os notários na escadaria de São Paulo e aí atestaram os seus privilégios, ficando provado que a entrada forçada de soldados nas suas instalações era inadmissível do ponto de vista legal. O Capitão Geral mandou vir um canhão para despedaçar a porta maciça do seminário, mas como o tiro não conseguiu tal efeito, deu ordens para os ca-

nhões do Monte o arrasar, sendo tal evitado pela intercessão do bispo. O conflito continuou e três cidadãos foram consecutivamente eleitos para o lugar vago de juiz mas, assim que eram eleitos, reuniam-se aos seus predecessores, no Colégio, onde também procuravam abrigo muitos cidadãos. Os apelos do clérigo e da classe média resultaram na retirada das sentinelas. No aniversário da invasão holandesa, os senadores, bastão na mão, saíram do seu refúgio e, escoltados por muitos partidários armados de mosquetes, foram a um conselho-geral no Senado, celebrado com o fim de restaurar a tranquilidade pública. No entanto, o conflito só ficou sanado a 28 de Julho desse ano com a posse de um novo Governador, Francisco de Melo e Castro.

ASCENDÊNCIA DO SENADO

“Os decretos reais de 1709 determinaram que o Capitão-geral não interferiria na administração política e financeira que, por direito, pertencia ao Senado, e que, em vez de convocar os senadores em qual-

quer emergência, ele deveria deslocar-se à casa do Senado, onde lhe seria concedido o lugar principal na mesa do conselho que, habitualmente era atribuída ao vereador mais antigo”, segundo Montalto de Jesus, que refere, a “escritura constitucional datada de 1712, definiu a jurisdição política do Senado como abrangendo todos os casos que se relacionassem com o bem-estar e a tranquilidade de Macau, enquanto financeiramente confiava ao Senado o controlo exclusivo dos rendimentos e despesas da colónia [até que pelo Decreto de 20.9.1844 foi instituída uma Junta de Fazenda, tirando da Câmara a administração financeira]. O Capitão-geral, geralmente o orgulhoso filho de alguma família patrícia e histórica, tolerava mal esta ascendência do Senado. Mais a mais, a própria pompa da sua tomada de posse contradizia a sua posição de subalterno. Quando, às portas da cidadela, apresentava a sua carta-patente ao vereador mais antigo eram-lhe em troca entregues um bastão de comando e a chave da cidadela por entre uma salva de vinte e um tiros. Para seu desgosto, contudo, em breve veria a sua autoridade estritamente limitada ao comando de uma pequena guarnição”. Refere Armando A. A. Cação, em “1721, o Governador era investido na posse, na porta principal da Fortaleza do Monte, entregando-lhe o conselho do Governo e chave da dita fortaleza e o bastão e com eles a posse do Governo desta cidade com todas as artilharias e armas, apetrechos e munições de todas as fortalezas da guarnição”. No Senado “às nomeações anuais era anexada uma lista de sucessão. Na circunstância do falecimento de um senador a vaga era preenchida numa tocante cerimónia, na catedral. Os senadores reuniam-se à volta do caixão, o vereador na presidência pronunciava três vezes o nome do falecido, um médico atestava formalmente o óbito, a lista de sucessão era aberta e um substituto nomeado pelo vereador, que lhe entregava solenemente uma vara tirada da mão do falecido, pois cada senador possuía uma fina vara de madeira, insígnia de autoridade”, segundo Montalto de Jesus. Já a carta de 22 de Setembro de 1714, dirigida por Albuquerque Coelho ao Ouvidor Vicente Rosa, que o tinha colocado na prisão, refere a vara de Ouvidor desta Cidade. Como se percebe, para além do Bastão de Comando do Governador, havia também os bastões dos vereadores, do juiz... O que será feito desses bastões de Justiça e Comando? Se ainda existem, por onde andam? Relíquias importantes para serem expostas no Museu de Macau, ou pelo menos réplicas deles.


20 opinião

5.1.2018 sexta-feira

A medicina

A

Handbook of Personalized Medicine: Advances in Nanotechnology, Drug Delivery, and Therapy Ioannis S. Vizirianakis

medicina moderna, para além de todas as suas maravilhas, apresenta uma grande nódoa. Ainda que, os avanços científicos e os novos tratamentos milagrosos sejam anunciados diariamente, os médicos sabem que mesmo as drogas mais eficazes do seu arsenal não funcionam para grandes sectores da população. As drogas comummente prescritas, por exemplo, para tratar transtornos como a depressão, asma e diabetes são ineficazes para cerca de 30 a 40 por cento das pessoas a quem são prescritas e a doenças difíceis de tratar, como a artrite, a doença de Alzheimer e o cancro. A proporção da população que não vê benefício de um tratamento específico aumenta de 50 a 75 por cento. O problema decorre de como os tratamentos são desenvolvidos. Tradicionalmente, uma droga é aprovada para uso se funcionar para um bom número de pessoas com sintomas semelhantes em um teste de drogas, e não são feitas perguntas nem dadas respostas sobre as pessoas no teste, e que não responderam positivamente ao tratamento. Quando a droga é então autorizada e prescrita massivamente à população, sem qualquer surpresa, existem muitas pessoas, como as do teste, que descobrem que a mais recente cura milagrosa não lhes resolve a situação. Este sistema de descoberta de drogas que abarca todos, embora tenha ajudado a descobrir os medicamentos mais importantes do século XX, é cada vez mais sentido como ineficaz, desactualizado e perigoso. Tal significa que os medicamentos são desenvolvidos para fazerem efeito na pessoa média, quando de facto todos, incluindo as nossas doenças e respostas às drogas são únicos. Muitas drogas são ineficazes para grandes sectores da população, mas tem de se considerar que também podem causar reacções adversas graves a outras pessoas. Felizmente, uma abordagem completamente nova da medicina está a ganhar cada vez mais adesões. À medida que se aprende mais sobre como as pessoas diferem geneticamente, os médicos estão a adaptar conselhos de saúde e

tratamentos para pessoas individualizadas ao invés de ser massivamente para populações. A medicina personalizada, também conhecida como medicina de precisão usa os dados genéticos de um paciente, e outros dados sobre a sua saúde a nível molecular, para obter o melhor tratamento para as pessoas com um perfil genético similar. Somos tentados a pensar que os nossos genes determinam a nossa altura, cor dos olhos ou se temos um distúrbio genético. A combinação dos nossos genes aquando do nascimento afecta segundo as revelações científicas, o nosso desenvolvimento e saúde de muitas formas subtis, ao longo das nossas vidas. A probabilidade de termos recebido certas doenças à medida que envelhecemos, a forma como metabolizamos os alimentos e a nossa reacção a certos medicamentos, são influenciados pelos genes que temos. Tendo em conta o que se sabe sobre os genes, tomar tal questionamento, pode parecer um pouco óbvio, mas só foi possível na última década, graças ao incrível progresso que foi feito na tecnologia de sequenciação de ADN. Quando o genoma humano foi primeiro descodificado em 2003, foi necessário uma década de esforços de cooperação internacional e custou cerca de três triliões de dólares. Após quinze anos, o sequenciamento do genoma de uma pessoa pode ser conhecido em menos de cinquenta horas, ao invés de anos, e pode custar menos de mil dólares. Tal significa que informações genéticas, estão mais disponíveis aos médicos e pesquisadores que desenvolvem tratamentos do que alguma vez se imaginou. A área onde a nova abordagem personalizada à medicina tem tido o maior impacto, é a oncologia, ou o tratamento do cancro. O tratamento do cancro do pulmão, especialmente, é visto como uma grande história de sucesso da medicina de precisão. Os médicos, durante anos, ficaram intrigados com o motivo de apenas cerca de 10 por cento dos pacientes com cancro do pulmão responderem a uma droga comum ao tratamento, conhecida como “TKIs (inibidores da tirosina-quinase)” que interrompe o crescimento de um tumor. No final da primeira década do nosso século, quando os pesquisadores conseguiram analisar o ADN de tumores de pacientes, descobriram que a droga só funcionava em pessoas cujas células cancerosas tinham uma mutação particular em um gene conhecido como “Receptor do Factor de Crescimento Epidérmico (EGFR na sigla inglesa).” A mutação faz que as células cresçam de forma incontrolável e os TKIs bloqueiam esse efeito, diminuindo o tumor. Mas, em pacientes cujos tumores têm origens genéticas diferentes, o tratamento com TKIs resultará em uma barreira com efeitos colaterais prejudiciais sem possibilidades de sucesso. Eventualmente, os diferentes genes no centro de diferentes cancros do pulmão foram revelados, e todo o processo para diagnosticar o cancro do pulmão mudou. Os cancros segundo os cientistas não

são simplesmente classificados por onde e como crescem e o que parecem ao exame do microscópio. Em vez disso, são testados por mutações genéticas, e as opções de tratamento são escolhidas em conformidade. ROBERT THOM, A CONSULTA

“Personalized medicine is the next evolutionary stage of development for traditional health care, building upon the strong foundations of evidence-based observation, symptomatic analysis, and pathologic expression/presentation . Scientific advances in several emerging fields, such as bioinformatics, systems biology, and nanomedicine, are providing scientists and clinicians with extraordinary Access to a wealth of information with tremendous clinical value.”

Mesmo quando os tumores mutam durante o tratamento e desenvolvem resistência a medicamentos específicos de genes, os médicos podem acompanhar a mudança genética e escolher outro alvo. Os


opinião 21

sexta-feira 5.1.2018

perspectivas

JORGE RODRIGUES SIMÃO

personalizada tratamentos de cancro personalizados ainda mais sofisticados estão no horizonte, como a imunoterapia, que toma as células imunes do paciente e as reprograma para atacar as células cancerosas. As células imunes, co-

nhecidas como células T CAR, são extraídas do paciente e geneticamente modificadas no laboratório, para que reconheçam os marcadores moleculares exactos que crescem nas células cancerosas do paciente e, em seguida, são injectadas de volta ao corpo para atacar o tumor. A “Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA na sigla inglesa)”, aprovou uma forma desse tratamento, em Agosto de 2017, após resultados impressionantes em ensaios clínicos. A medicina personalizada também está a contribuir de forma importante para a segurança das drogas. A possibilidade de uma reacção adversa grave a um medicamento pode parecer raro, mas é, incrivelmente, a quarta principal causa de morte nos Estados Unidos e representa cerca de 7 por cento de todas as admissões hospitalares. Mais uma vez, o problema é causado pela tendência de tentar tratar grandes grupos de pessoas muito distintas entre si, da mesma forma. Um teste genético simples pode mostrar os genes-chave que tornam algumas pessoas hipersensíveis a certos medicamentos, ou se alguém metaboliza medicamentos tão rapidamente que necessitam de uma dose mais elevada. A abordagem, conhecida como farmacogenómica, ainda está longe de ser comum em hospitais e cirurgias de clínica geral, mas um novo suporte lógico está em desenvolvimento, que ajudará os médicos a tomar decisões de prescrição e dosagem com base no perfil genético específico de um paciente. É possível um dia ver os farmacêuticos verificarem os genes na farmácia antes de entregar os medicamentos. A medicina personalizada não é apenas sobre genética. O medicamento do futuro será dirigido pela geração e interpretação de muitos tipos de dados de nível molecular sobre indivíduos, capturados com um nível de precisão nunca antes possível. Existe tecnologia que pode descrever o genoma, análise proteómica (níveis de proteína), perfil metabólico e o microbioma de cada pessoa, em detalhes, a um custo cada vez mais acessível. A análise de genes é informativa, mas os genes não mudam ao longo do tempo e, portanto, não podem dizer se a pessoa realmente possui uma determinada doença ou se o seu tratamento está a funcionar. As proteínas ou metabólitos no sangue proporcionam uma imagem em tempo real de que o corpo está a lutar, ou se as drogas que recebeu estão a fazer o que deveriam. A partir de uma simples amostra de sangue, os cientistas podem detectar as primeiras pistas químicas de uma enorme variedade de doenças comuns, conhecidas como biomarcadores, muito antes de se tornarem evidentes quaisquer sintomas físicos. No cancro do pâncreas, por exemplo, muitos pacientes só são diagnosticados quando os sintomas começam a mostrar-se e a doença se encontra em estado avançado. O cancro pode, de facto, ter crescido de

forma assintomática até há quinze anos, libertando biomarcadores reveladores que poderiam ser detectados com testes moleculares. A combinação de computação poderosa, vasta base de dados de dados genéticos e biomédicos e um maior número de geneticistas qualificados que trabalham em ambientes de saúde, tem o poder de revolucionar verdadeiramente a medicina. A prevenção de precisão é passar dos cuidados de saúde baseados em doença para medidas preventivas, estudando as doenças antes de acontecerem ou enquanto se encontram em um estado inicial. Trata-se de uma monitorização e triagem mais regulares, para pessoas com alta susceptibilidade para certas doenças. Em casos extremos, descobriram-se que as pessoas apresentam distúrbios que aumentam a taxa de mutação do ADN, ou causam mecanismos defeituosos de reparação do ADN, tornando-os susceptíveis de desenvolver múltiplos tipos de cancro ao longo da vida, e são colocados em uma terapia que pode impedir o aparecimento do cancro. Os tratamentos similares conhecidos como vacinas contra o cancro, terapias feitas sob medida que ajudam as pessoas a desenvolver imunidade específica ao cancro, estão actualmente em progresso para um conjunto de diferentes doenças, incluindo o cancro do rim, oral e dos ovários, demonstrando ser a oncologia de precisão no seu melhor desempenho. A medicina personalizada começa a ter um impacto em muitas outras áreas das doenças. Os cientistas revelaram em 2017, que a forma mais comum e perigosa de leucemia, são onze doenças distintas que respondem de forma muito diferente ao tratamento. Nos pacientes com HIV e hepatite C, os dados genómicos retirados do doente e dos seus vírus, podem ajudar os médicos a decidir sobre uma combinação de medicamentos que atinja a raiz específica da doença e é menos provável que cause efeitos colaterais na pessoa, tornando-se importante, porque os efeitos colaterais prejudiciais podem levar alguns pacientes a parar a toma dos medicamentos. A abordagem das duas vertentes reduziu as taxas de mortalidade do HIV, em até 90 por cento no Canadá, e na doença de Alzheimer, que é notoriamente difícil de tratar, a análise genética é um subtipo revelador de que é mais provável que responda a certos tratamentos. Além disso, os médicos podem iniciar o tratamento mais cedo, graças às subtis pistas químicas que confirmam a doença antes que os sintomas sejam evidentes. Mas, apesar de toda essa pesquisa emocionante e alguns sucessos notáveis, o facto é que poucos pacientes que entram nos sistemas de saúde dos países desenvolvidos terão acesso à análise biomolecular especializada necessária para personalizar o seu tratamento. Afora dos departamentos de oncologia, os grandes sistemas de saúde não estão configurados para colectar e analisar ainda, dados biomoleculares para cada paciente.

A medicina personalizada é frequentemente usada como último recurso, ou para as poucas pessoas com sorte seleccionadas para ensaios clínicos. A proporção da população que teve o seu genoma sequenciado é pequena, mas está a começar a mudar. É significativo no Reino Unido, o “Projecto dos 100.000 Genomas”. O projecto começou a sequenciar genomas de cerca de setenta mil pessoas com cancro ou uma doença rara, além das suas famílias, e em 2017, o “Sistema Nacional de Saúde” inglês, publicou a “Estratégia de Medicina Personalizada” para ajudar a impulsionar a adopção de abordagens de precisão em mais áreas do serviço de saúde. Nos Estados Unidos a maior unidade de dados de medicina de precisão do mundo foi anunciada pelo ex-presidente Americano, Barack Obama, em 2015, e que pretende inscrever e sequenciar dados genéticos de um milhão de voluntários até 2020. É de considerar que cerca de 40 por cento das drogas aprovadas em 2002, os Estados Unidos, personalizaram de alguma forma, em 2017, o que significa que o tratamento vem com um teste genético complementar para garantir que seja precisamente orientado. No cancro, a mudança está a acontecer, pois as empresas irão sequenciar o genoma de um tumor e decidir o melhor tratamento. No entanto, a adopção de medicamentos personalizados em todas as áreas dos cuidados de saúde, exigirá grandes reformas na forma como os serviços são contratados e estruturados. A grande ênfase na medicina personalizada é a medicina preventiva e o tratamento, tendo em conta que os sistemas de saúde nunca custearam essa área antes. Será uma grande mudança e exigirá muitas pessoas que não são apenas médicos, mas treinadas em análises biomoleculares. Os usuários iniciais, serão pessoas que terão de pagar as despesas. É de prever que nas próximas décadas as visitas ao médico possam ser substituídas por actualizações frequentes de conselheiros moleculares, que acompanham os níveis de saúde através de análises periódicas dos biomarcadores no sangue, sugerindo tratamentos adequados aos genes, com os pacientes a enviar as suas amostras de sangue pela internet para análise (como acontece com o Hilab no Brasil) e consulta pelo “Skype”. “A análise molecular será tão perturbadora para os médicos, pois assumirá o processo de diagnóstico e prescrição. O médico será o treinador de saúde, uma pessoa cujo trabalho é manter as pessoas saudáveis e procurar sinais do que necessita para caminhar com mais frequência ou mudar a dieta. As infra-estruturas nos sistemas de saúde centram-se em torno da bioinformática e da medicina genética, mas parece inevitável que o remédio do futuro se baseie em torno dos genes. O sequenciamento do genoma está a ficar cada vez mais barato e só é necessário fazer uma vez. Quando os sistemas estiverem a funcionar, fornecerão informações importantes sempre que as pessoas tiverem de visitar o médico e para o resto da vida.


22 (f)utilidades TEMPO

MUITO

5.1.2018 sexta-feira

O QUE FAZER ESTA SEMANA Diariamente

EXPOSIÇÃO “AO MEU CORAÇÃO UM PESO DE FERRO” Livraria Portuguesa | Até 08/01

?

NUBLADO

MIN

16

MAX

20

HUM

75-95%

EURO

9.71

BAHT

O CARTOON STEPH

PROBLEMA 191

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 190

UM LIVRO HOJE

COCO COCO [A] FALADO EM CANTONENSE Filme de: Lee Unkrich 14.30, 16.45, 19.15

SUDOKU

DE

SALA 1

1.23

UMA MANHÃ

A LINGUAGEM E A ARTE DE XU BING Museu de Arte de Macau | Até 4/3/2018

C I N E M A

YUAN

PÊLO DO CÃO

EXPOSIÇÃO “O TEMPO MEMORÁVEL” Museu de Macau | Até 25/02/2018

Cineteatro

0.24

Nada como acordar e começar o dia nas comissões permanentes da Assembleia Legislativa. Chego à sala de imprensa, apinhada como um ovo, e ocorre-me o Tenente Kilgore do Apocalipse Now, interpretado magistralmente por Robert Duvall. Adoro o aroma a conflito de interesses pela manha. De repente, os bocejos são interrompidos pela entrada em cena da assessora que impele o obediente rebanho de amigos da comunicação social para dez minutos de nada, de vazio absoluto. Fica na boca um sabor a insatisfação e voltamos a descer impelidos por desalento, agarrados a uma réstia de esperança de que para a próxima seja melhor, que se conclua algo, que se avance para além dos esforços obviamente envidados. Porque é que nunca se emprega afinco, ou se concentram vontades, ou se aplicam recursos? Enfim, angústias linguísticas menores enquanto se espera pelo fim da segunda reunião de comissão permanente da manhã. Reunião essa que se quer fecunda, mioluda, com carne agarrado ao osso. Que nos dê a proteína que as nossas famélicas penas anseiam. E depois o cheiro do costume no final da manhã que se esgota. A obesidade mórbida a discutir quantas migalhas os subnutridos devem ter. Sem qualquer espanto de ninguém, sem pudores. Como uma natural e madrugadora chuvada de napalm em cima de um campo de arroz. João Luz

KUSO KAGAKU DOKUHON | YANAGITA RIKAO, 1999

Kuso Kagaku Dokuhon é uma colectânea de livros do autor japonês Yanagita Rikao, tendo a maioria dos quais sido traduzida para a língua chinesa. O mais interessante desta colecção de livros é que o autor, que tem uma paixão pela ciência desde criança, tenta provar a viabilidade dos cenários que aparecem em bandas desenhadas e desenhos animados japoneses através de perspectivas científicas. Apesar de as explicações de Yanagita Rikao atraírem algumas vozes contrárias às suas ideias, a série tem sido uma das mais populares do Japão. Vítor Ng

SALA 2

INSIDIOUS: CHAPTER 4 [C] Filme de: Adam Robitel Com: Lyn Shaye, Angus Sampson, Leigh Whannell 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

JUMANJI: WELCOME TO THE JUNGLE [B]

SALA 3

Filme de: Jake Kasdan Com: Dwayne Johnson, Jack Black, Karen Gillian, Kevin Hart 21.30

FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Katsuyuki Motohi Com: Takeru Satoh, Go Ayano, 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

AJIN [C]

www. hojemacau. com.mo

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Luz; João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


retrato 23

sexta-feira 5.1.2018

SANDRA NG, RELAÇÕES PÚBLICAS NA UNIVERSIDADE DE SÃO JOSÉ

O

“Em Macau consigo respirar”

Delta do Rio das Pérolas separa as duas regiões administrativas especiais e as duas casas de Sandra Ng. Depois de casarem, os pais da jovem de 24 anos mudaram-se de Macau para Hong Kong para construir família e um lar. Passado algum tempo nascia Sandra Ng, que sempre esteve entre uma cidade e a outra, entre visitas a Macau para ver a família. Com muitas travessias no ferry pelo meio, a jovem acabou por se fixar em Macau há uma década para estudar e preparar-se para entrar na ensino superior. Antes de vir morar para a cidade da deusa A-Má, Sandra Ng tenha uma visão difusa da cidade. “Não tinha uma memória muito clara de Macau, tinha apenas a ideia de que era uma cidade radiante, quente e com luz amarela a banhar as ruas, algo que provocava um efeito em mim”, conta.Ajovem encontrou deste lado do Rio das Pérolas um brilho diferente, que contrastava com as cores luminosas de Hong Kong. Durante a adolescência, a futura profissional de relações públicas era, ironicamente,

uma jovem algo fechada, sem muito tempo para se dedicar aos amigos uma vez que os estudos lhe tomavam grande parte do dia. Depois de estudar ciências no ensino secundário, Sandra Ng enveredou pela carreira universitária da comunicação e media na Universidade de São José. Nunca chegou a fazer jornalismo por achar que a sua escrita não era boa o suficiente. A vida académica foi recheada de bons momentos, amizade e, obviamente, muito estudo. “Foi bastante interessante, tinha muitos colegas internacionais e a vida era muito divertida, com muitas festas”, conta.

VOLTA AO LAGO

Com uma intensa vida profissional que não lhe deixa muito tempo livre, Sandra Ng gosta de andar a pé para se afastar um pouco do rebuliço do trabalho. Um dos seus sítios de eleição fica “algures entre o Lago Sai Van e o Templo de A-Má”, uma zona que a acalma e que lhe permite relaxar longe do stress do quotidiano. “Tenho uma vida muito ocupada e ao andar a

pé não preciso de pensar muito e faço algum exercício, além disso é um sítio muito bonito onde só vemos pessoas a descansar, a fazer exercício e a namorar”, comenta. Hoje em dia, passou da sala de aula para trabalhar no departamento de relações públicas da Universidade de São José. Um emprego que lhe dá realização profissional. “Nos próximos 10 anos não me vejo a mudar de emprego, porque acho que caminho em que estou é bastante apropriado para mim”, conta. A profissão permitiu-lhe ainda crescer como pessoa. “Quando era mais nova não tinha muito à vontade para falar com pessoas e este trabalho deu-me a oportunidade para evoluir”, explica. Em relação à sua antiga cidade, Sandra Ng diz não ter saudades de Hong Kong. “Sinto-me stressada quando lá vou, em Macau consigo relaxar um pouco mais, é uma cidade muito mais tranquila, excepto durante as épocas festivas quando a zona centro da cidade fica cheia de turistas”, completa a relações públicas.

Durante os poucos tempos livres que tem, Sandra Ng gosta de se aventurar na área do design gráfico e numa arte de pintura corporal indiana chamada Mehndi. A jovem gosta de usar as mãos dos amigos como tela, usando para pintar uma pasta feita a partir do pó feito de folhas secas da henna. Esta arte de origem ancestral ainda é bastante popular entre as mulheres da Índia, África, Médio Oriente e entre o círculo de amigas de Sandra Ng. O mundo longe do Delta do Rio das Pérolas exerce um grande fascínio sobre a jovem, que visitou há pouco tempo Portugal. Na sua lista de viagens a realizar num futuro próximo estão destinos como a Finlândia e a Alemanha. Entretanto, por cá, Sandra Ng continua a encontrar paz e realização. João Luz

info@hojemacau.com.mo


O oitavo da criação do mundo nasce continuamente do génio e do sonho dos poetas. António Patrício

PALAVRA DO DIA

China fechou 6000 portais por “conteúdo indecente”

CHINA CORTA A LUZ A ‘MINEIROS’ DE MOEDAS VIRTUAIS

A

PUB

S autoridades chinesas planeiam reduzir o fornecimento de electricidade às empresas que produzem moedas criptografadas, sobretudo a Bitcoin, informou a imprensa local, num primeiro passo para reduzir a actividade do sector. O Banco do Povo Chinês (banco central do país) pediu às autoridades provinciais e locais que controlem o fornecimento de electricidade para as empresas, designadas de “mineiras”, na gíria da indústria. A decisão foi tomada após uma reunião na sede do banco central, realizada na quarta-feira, segundo o jornal digital thepaper.cn. O banco chinês não pode regular o consumo de electricidade das empresas, mas pode pedir às autoridades locais que o façam. A produção de moedas virtuais requer o uso de grandes quantidades de equipamento informático, visando realizar os complexos cálculos necessários para a geração de divisas, o que supõe um grande consumo de electricidade. As autoridades chinesas planeiam eliminar gradualmente as políticas que favoreceram as empresas que produzem moedas virtuais, incluindo medidas fiscais, avançou o portal de informação financeira Caixin. Estas empresas instalaram-se perto de grandes centrais de produção de electricidade, para assegurar o acesso a energia barata, mas o seu alto consumo está a suscitar preocupações. A China é o maior consumidor e produtor mundial de bitcoins. As novas medidas de Pequim contra a bitcoin surgem depois de em Setembro passado ter ordenado as empresas que comercializam aquela moeda que não registem novos utilizadores. As autoridades proibiram ainda os bancos e empresas de pagamentos que realizem transacções de grandes valores com moedas virtuais.

sexta-feira 5.1.2018

Marfim Japão compromete esforços chineses

A

ausência de regulamentação no Japão contra o comércio do marfim poderá tornar menos efectiva a proibição da compra e venda do material na China, em vigor desde segunda-feira, advertiu uma organização não-governamental (ONG). “A ausência de regulamentação efectiva no Japão contra o comércio do marfim permite que produtos derivados do marfim sejam sistematicamente adquiridos por visitantes e intermediários chineses”, indicou um relatório da Traffic, ONG de conservação da vida selvagem, divulgado no final de Dezembro. Entre 2011 e 2016, as alfândegas chinesas apreenderam 2,42 toneladas de marfim importado ilegalmente do Japão, segundo dados citados pela imprensa chinesa. “Se esta situação continuar, irá minar o cumprimento da nova interdição aprovada pela China”, apontou a TRAFFIC. O relatório, intitulado “Ivory Towers: An Assessment of Japan’s Ivory Trade and Domestic Market”, tem como base entrevistas com vendedores de marfim nas cidades japonesas de Tóquio, Osaca e Quioto, rea-

lizadas entre Maio e Setembro de 2017. Vários entrevistados afirmaram que os chineses são os principais clientes e que muitos destes são intermediários, à procura de produtos de marfim para outros clientes na China.

Em Moçambique, entre 2011 e 2015, a caça furtiva custou à reserva do Niassa (norte) sete mil elefantes Um dos vendedores citados no relatório afirmou que o marfim pode ser facilmente contrabandeado para a China continental através da fronteira em Hong Kong ou do porto de Xangai, onde o controlo aduaneiro é alegadamente menos restrito. Uma pesquisa por produtos de marfim na página de compras da versão japonesa do portal Yahoo gera 58.300 resultados, a maioria selos de marfim ou símbolos budistas. Antes da entrada em vigor da nova lei, o Governo chinês

lançou várias campanhas de sensibilização, e o preço de pressas de elefante caiu 80% no país. A agência oficial chinesa Xinhua indicou que, ao longo de 2017, fecharam 67 lojas e oficinas envolvidas no comércio de marfim. A decisão pode ter impacto significativo em Angola e Moçambique, que nos últimos anos se tornaram destinos de referência na caça ao elefante. Em Moçambique, entre 2011 e 2015, a caça furtiva custou à reserva do Niassa (norte) sete mil elefantes. A caça furtiva ameaça de extinção o elefante e o rinoceronte em Moçambique, de onde são traficados pontas de marfim e cornos de rinocerontes para a Ásia. Em Angola, as autoridades queimaram cerca de 1,5 toneladas de marfim, bruto e trabalhado, em Junho passado. A quantidade, apreendida em diferentes pontos do país entre 2016 e 2017, podia valer no “mercado negro” perto de um milhão de euros. Existem actualmente cerca de 450.000 elefantes no continente africano, calculando-se em mais de 35.000 os que são mortos anualmente.

As autoridades chinesas encerraram, em 2017, mais de 6.000 portais electrónicos ou contas nas redes sociais, devido a conteúdo “indecente ou erótico”, informou hoje o Gabinete Nacional Contra Publicações Pornográficas e Ilegais da China. O organismo oficial apagou 4,5 milhões de entradas na Internet, enquanto outras 20 milhões foram eliminadas pelos próprios fornecedores de rede. Vários portais de notícias foram também encerrados por emitir conteúdo proibido, refere o organismo no seu relatório anual, citado pela agência oficial Xinhua. A agência do Governo chinês desmantelou ainda uma rede que oferecia conteúdo pornográfico que era consumido através de dispositivos de realidade virtual. Trinta pessoas foram detidas. A pornografia e o conteúdo erótico estão proibidos na China. Algumas estrelas japonesas da indústria pornográfica têm, no entanto, contas nas redes sociais chinesas.

Coreias Trump reclama créditos por diálogo O presidente norte-americano, Donald Trump, reclamou os créditos por a Coreia do Norte e do Sul terem encetado diálogo em torno dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano. Para Trump, as ameaças nucleares norte-americanas foram o factor desbloqueador para que o diálogo começasse. “Alguém realmente acredita que as negociações e o diálogo estariam a acontecer entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul se eu não tivesse sido firme, forte e disposto a comprometer o nosso ‘poder’ total contra o Norte?”, escreveu Trump no Twitter. A reclamação de créditos do presidente norte-americano contrasta com a posição que a embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley, assumiu no início desta semana. “Achamos que não precisamos de um band-aid e não pensamos que precisamos de sorrir e de tirar fotos. Pensamos que precisamos de armas nucleares para os deter, e eles precisam de parar agora”, disse. Também o Departamento de Estado norte-americano alertou para o risco do diálogo entre as duas Coreias “levar a um fosso” entre Seul e Washington.

Hoje Macau 5 JAN 2018 #3966  

N.º 3966 de 5 de JAN de 2018

Hoje Macau 5 JAN 2018 #3966  

N.º 3966 de 5 de JAN de 2018

Advertisement