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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10 AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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QUARTA-FEIRA 4 DE MAIO DE 2016 • ANO XV • Nº 3564

FILIPA QUEIROZ | JORNALISTA E REALIZADORA

O cinema de Macau tem muito de fado ENTREVISTA

C-SHOP

Pelo made in Macau

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GRANDE PLANO

Fassbinder amanhã BOI LUXO

SOFIA MOTA

Shakespeare na China HABITAÇÃO

hojemacau

Onde meter os TNR PÁGINA 4

HOJE MACAU

RENDAS INFLAÇÃO OU USURA?

A última cartada

Quando a maioria dos deputados se inclina para definir o aumento das rendas a partir da inflação, surgiu uma corrente misteriosa que propõe um limite de 30% (!). O presidente da Comissão Cheang Chi Keong parece ser

o paladino da “usura”. Ontem, quando questionado pelos jornalistas, mostrou um grande incómodo e mandou-os, desabridamente, falar com a deputada Song Pek Kei, uma das subscritoras do projecto de lei.

PÁGINA 5

CONSUMIDORES

VÃO DEITAR FORA A LEI PÁGINA 6

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JULIE O’YANG


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C-SHOP ESPECIALISTAS DEFENDEM ABERTURA DE MAIS LOJAS

Prestes a receber um novo inquilino, a C-Shop ou Pavilhão Criativo de Macau é um projecto que parece estar a responder aos objectivos para a qual foi criado, há cerca de seis anos. Carlos Marreiros, autor do edifício, e James Chu só têm mais um pedido: mais C-Shops espalhadas pela cidade e uma estratégia de marketing forte para vender o que é made in Macau

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Á seis anos o Instituto Cultural (IC) pediu ao arquitecto Carlos Marreiros para conceber um pequeno edifício que iria servir para mostrar roupas e produtos de design exclusivamente feitos em Macau. Escondida no meio de árvores junto à praça Jorge Álvares, a C-Shop terá brevemente um novo inquilino, depois do IC ter aberto recentemente um concurso público para o arrendamento do espaço. Anos depois, o balanço do projecto parece ser positivo. Um dos empregados do espaço, actualmente gerido pela Associação dos Embaixadores do Património de Macau, garantiu que a C-Shop recebe muitos clientes aos fins-de-semana e feriados. Os clientes vêm, claro, da China, mas também da Europa. Os montantes gastos vão variando conforme as nacionalidades. “Os clientes de Taiwan gastam muito, porque temos roupas no primeiro andar de marcas locais. Chegam a gastar duas a três mil patacas

por visita, mas geralmente um cliente não gasta mais de cem patacas”, disse o funcionário ao HM. Carlos Marreiros defende que a C-Shop tem desempenhado bem o seu papel. “Tem cumprido de forma cabal as suas funções, que é servir de montra aos produtos locais. Dada a necessidade de revitalizar mais o espaço, puseram-se outros produtos não só de Macau mas representados por agentes aqui de Macau. A C-Shop desempenha perfeitamente as funções para a qual foi projectada, mas tem um problema: os produtos de Macau é que não existem em qualidade nem em quantidade”, assumiu ao HM. James Chu, director do Centro de Design de Macau, um espaço onde funcionam empresas criativas locais, acredita que a C-Shop tem respondido às necessidades do sector. “A localização é boa e o projecto tem corrido bem, porque permitiu mostrar o trabalho dos designers locais. É bom existir um concurso público para a C-Shop,

CASA NOSTRA porque aí as pessoas podem ser mais competitivas e conseguir inovar”, disse ao HM.

APOSTAR NO ENSINO

Será que o futuro inquilino poderá dar resposta à necessidade de mais produtos criativos? “Não é fácil”, considera Marreiros. “O problema dos produtos criativos de Macau é outro. O Governo tem apostado bastante na divulgação, tem gasto bastante dinheiro na questão das indústrias culturais, mas os resultados não estão aí à vista. Ainda falta fazer muita coisa. Se conseguirmos um mercado internacional teríamos de conquistar primeiro o mercado de Macau, que não está conquistado, e depois o mercado do Delta do Rio dos Pérolas e só esse mercado daria boa vazão aos produtos de Macau, mas ainda não conseguimos.”

James Chu acredita que tudo depende das expectativas. “Já visitou o Centro de Design de Macau? Acha que temos falta de produtos de Macau? Penso que há produtos suficientes, claro que nunca serão suficientes, porque precisamos sempre de coisas novas”, exemplificou. Carlos Marreiros apresenta duas soluções, que passam pela aposta por parte do ensino superior e na criação de uma forte estratégia de marketing. “As nossas instituições do ensino superior têm de investir mais na formação artístico-intelectual dos jovens. Depois temos de ter gestores de negócios para o lançamento desses produtos criativos, não podem ser só alguns criativos que criam os produtos, alguns com qualidade, mas que não conseguem sair da estante”, frisa. “Para que possamos

FOTOS HOJE MACAU

GRANDE PLANO

ter alguns nossos produtos e criativos com reconhecimento internacional o Governo tem de apostar claramente em meia dúzia de criativos de primeira categoria, em várias áreas, e apostar no marketing, levando estes produtos aos melhores palcos do mundo, de Milão a Tóquio.” O arquitecto alerta, contudo, para a dificuldade de pôr em prática essa ideia. “O Governo dificilmente o faz porque receia de ser acusado de beneficiar meia dúzia, mas a questão é mesmo essa: há mesmo que ‘beneficiar’ meia dúzia.”

MAIS C-SHOPS PRECISAM-SE

A C-Shop é, para já, dos poucos espaços existentes exclusivamente para este fim, mas Carlos Marreiros defende a criação de mais lojas como esta, até porque “ficámos sem a Casa Amarela”, o espaço arrendado

pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST) à Future Bright Holdings e onde hoje funciona uma loja de roupa. Também James Chu alerta para essa necessidade


3 hoje macau quarta-feira 4.5.2016 www.hojemacau.com.mo PUB

ANNOUNCEMENT 1. Objective:

Open invitation to one tender.

2. Procuring entity:

Macao Science Center Limited.

3. Address of procuring entity:

Avenida Dr. Sun Yat-Sen

4. Works, goods and services to be procured:

Reconstruction of the external cladding system and waterproofing system at the top of Macao Science Center PA-16-016

5. Location of service provision:

Macao Science Center.

6. Conditions of entry:

Registered supplier under relevant categories of Macao Science Center Limited.

7. Method for obtaining tender documentation:

Registered suppliers can send in your request through email to tender@msc.org.mo. For suppliers not yet registered, please attach with commercial registration documents & contact details.

8. Tender submission location and deadline:

Location: Deadline:

Avenida Dr. Sun Yat-Sen, Macao Science Center. The 21th day starting from the date of announcement or 25th May, 2016 (Wednesday) at 5:00pm (Macao time).

9. Tender opening location and time:

Location:

Avenida Dr. Sun Yat-Sen, Macao Science Center.

Time:

The first working day after the deadline or 26th May, 2016 (Thursday) at 3:00 pm (Macao time).

Bidder or its representative shall be present at the Tender Opening for clarification of possible questions arisen from submitted tenders.

e apresenta até a sugestão para um espaço: o antigo edifício do Gabinete de Comunicação Social (GCS), actualmente vazio e localizado no Leal Senado. “Claro que o Governo deveria abrir mais espaços como este. Há muitas boas localizações que estão a ser ocupadas pelo Governo e há espaços que estão vazios”, rematou. Wilson Lam, responsável pela marca Soda Panda, cujos produtos são vendidos na C-Shop, fala da existência de algumas limitações. “A localização é muito boa, contudo, penso que a loja, por si só, não é de fácil acesso aos visitantes porque quando as pessoas passam por lá nem percebem que a loja existe, na

O Governo tem apostado bastante na divulgação, tem gasto bastante dinheiro na questão das indústrias culturais, mas os resultados não estão aí à vista. maioria das vezes. A ideia é boa porque o Governo quer promover mais as indústrias criativas e o trabalho dos jovens, mas deveria haver mais publicidade à loja. Deveriam focar-se mais na parte comercial do projecto. E o espaço é muito pequeno, há algumas limitações”, defendeu. Wilson Lam defende também a abertura de mais espaços do género. “Se abrissem mais C-Shop, sobretudo na zona do Leal

Senado, junto aos Correios, seria óptimo”, referiu. Até ao fecho desta edição, o HM tentou contactar com representantes da empresa Mo-Design, que foi a primeira a gerir o espaço, em 2012, e da Associação dos Embaixadores do Património de Macau, mas não foi possível estabelecer contacto. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

10. Validity period of the tender:

90 days starting from the date of tender opening (the validity period may be extended according to the Tender Procedures).

11. Provisional guarantee:

MOP500,000.00(Macao Patacas Five Hundred Thousand), by bank guarantee.

12. Definitive guarantee:

5% of total contract value of works and an additional 5% from each payment will be deducted to guarantee fulfillment of the contract.

13. Selection Criteria:

After fulfilling the requirement in Chapter IV of the tender document, the awarded tender will be selected based on the following criteria: Pr ice

50%

Exper ience of sim ilar pr oject s 10% Design and Dr awings

10%

Q ualit y ( M at er ial Engineer declaration Construction plans, Construction progress, etc.)

30%

14. Additional information:

All related information will be uploaded to the Macao Science Center website (http:// www.msc.org.mo/) from the day following the publication of this announcement until the tender closing date. Bidders are responsible to visit the website for additional information.

15. Base price:

No base price.

Macao Science Center Limited 04 May, 2016


4 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

Processo descongelado

TIAGO ALCÂNTARA

POLÍTICA

Comissão conclui processo de análise de congelamento de bens

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1.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL) deu ontem por concluído o processo de discussão da proposta de lei do Regime de Execução de Congelamento de Bens e prevê que o processo esteja concluído até Agosto. “Ainda tínhamos algumas reuniões agendadas mas vão ser canceladas”, disse à imprensa Kwan Tsui Hang, deputada e presidente da Comissão, para explicar que o processo foi concluído. A bola está agora do lado do Governo que levou como trabalho de casa a revisão de algum articulado que “suscitou algumas questões técnicas aos deputados já que se trata de uma matéria muito complexa”, como frisou a deputada. O processo é vital para a imagem da RAEM no exterior já que esta iniciativa legislativa do Governo parte de sucessivas resoluções adoptadas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas no âmbito do combate ao financiamento ao terrorismo e à proliferação de armas de destruição maciça e que o Governo Central tem vindo a ordenar que seja aplicado em Macau. As Nações Unidas vão avaliar no próximo mês de Agosto se Macau tem, ou não, legislação apropriada para o efeito. Questionada sobre se a RAEM poderá ter a lei até lá, Kwan Tsui Hang começou por dizer que esperava ainda este ano, mas que tudo dependeria da celeridade do Governo na produção da nova redacção do articulado. Contudo, após insistência do HM, Kwan Tsui Hang acabou por confessar que, apesar do Governo não ter dado prazo para o novo texto, tudo deverá estar pronto antes de Agosto, para que a proposta possa subir a plenário da AL e ser aprovada a tempo.

LISTA DE CÁ E LISTA DE LÁ

Não existindo discrepâncias entre a AL e o Governo, a principal preocupação manifestada pelos deputados foi a da salvaguarda dos direitos dos futuros “congelados”, o que se espera que seja resolvido com a nova redacção de alguns dos artigos. Existem dois tipos de listas: a específica, emitida pela ONU e que não tem direito a recurso junto do Governo, e a que for elaborada pelo Executivo fruto de investigação das Forças de Segurança locais. Neste caso, a lei de Macau será aplicada e o visado tem direito a recurso. No caso da lista específica emitida pela ONU, o recurso é apenas passível junto daquela organização e caberá apenas ao Governo a confirmação de identidade dos suspeitos. Em caso afirmativo, os bens serão congelados por um período máximo de dois anos podendo a medida ser renovada por mais um. No caso de os visados surgirem na lista por indicação de investigações efectuadas pela própria RAEM, serão anunciados ao Governo Central que, por sua vez, os apresentará à Assembleia Geral da ONU. Manuel Nunes

info@hojemacau.com.mo

TNR HO ION SANG QUESTIONA-SE SOBRE ALOJAMENTO PROVIDENCIADO POR OPERADORAS

Onde vamos viver todos?

A promessa já tinha sido feita nas LAG do ano passado e agora Ho Ion Sang volta à carga: quando vão ser implementadas as medidas para a atribuição de alojamento aos TNR pelas empresas que os empregam?

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deputado Ho Ion Sang quer saber se já há medidas concretas para obrigar as operadoras de Jogo e as grandes empresas a assumir a responsabilidade de fornecerem alojamento aos seus trabalhadores não-residentes (TNR). Ho diz ser urgente que o Governo avalie o número de procura de habitação por residentes de Macau e as tipologias das casas, devido à escassez destas. Numa interpelação escrita, o deputado relembra que o número da população em Macau aumentou em 184 mil pessoas nos últimos dez anos - até o 4º trimestre de 2015 as estimativas da população eram de 646 mil pessoas – mas foram concluídas apenas 26 mil fracções habitacionais de 2004 ao ano passado.

A nova população é nove vezes superior à oferta de habitação, algo que o deputado considera ser um problema. Ho Ion Sang, que representa a União Geral das Associações dos Moradores de Macau (Kaifong), preocupa-se também com o aumento do número dos TNR e a consequente necessidade de alojamento. Segundo as projecções da população de 2011 a 2036, neste ano existirão em Macau 759 mil pessoas, incluindo 83.200 TNR a viver no território. Conforme o Enquadramento da Política De-

mográfica da RAEM, até final de 2014, 60% dos TNR estava a viver no território e, por isso, Ho Ion Sang prevê que a pressão da oferta de fracções habitacionais vai ainda agravar-se. Sendo um dos pontos principais das Linhas de Acção Governativa (LAG) para o ano passado, Ho Ion Sang recordou que o Chefe do Executivo prometeu também estudar formas de impulsionar as operadoras de Jogo e as grandes empresas a assumir a responsabilidade de arranjo de alojamento dos seus TNR. O deputado quer saber

A nova população é nove vezes superior à a oferta de habitação, algo que o deputado considera ser um problema

quais são as medidas concretas para avançar com esta ideia e se a assunção desta responsabilidade será uma condição na apreciação e renovação das vagas de TNR. “Análises incertas sobre a necessidade de habitação dificulta previsões para um mercado estável e não melhora as políticas imobiliárias. O Governo vai fazer um estudo completo e estimativas sobre a necessidade da habitação dos residentes e os tipos de oferta, como base para elaborar políticas?”, questionou. O HM tentou saber quais as empresas que já oferecem alojamento aos TNR, mas até ao fecho da edição não conseguiu obter resposta. Flora Fong (revisto por J.F) flora.fong@hojemacau.com.mo


5 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

Arrendamento MAIORIA DEFENDE LIMITE DA LEI COM BASE NA INFLAÇÃO

COMENTÁRIO

Um deputado incomodado

Usura misteriosa

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A deputada Song Pek Kei garante que a maioria dos autores da lei das rendas defende a criação de um limite com base na inflação, sendo que o limite de 29,25% com base na usura foi defendido “por alguns deputados”. Cheang Chi Keong, que falou em “consenso”, não deu explicações Na reunião da semana passada, o deputado Cheang Chi Keong garantiu que já tinha sido atingido o consenso e que a percentagem de 29,25% deveria ser o caminho a seguir. Alguns dos proponentes da lei, como foi o caso de Leonel Alves ou Kwan Tsui Hang, negaram que tenha sido discutida qualquer proposta nesse sentido. Ontem, Cheang Chi Keong não quis prestar esclarecimentos. “Deviam colocar essa questão à deputada Song Pek Kei. O que disseram os proponentes não tem nada a ver com a Comissão. A questão deve ser colocada aos proponentes, porque é que me coloca essa questão a mim? Hoje só vou responder a questões sobre o mecanismo de arbitragem. Se eles refutam isso então peçam a eles para responder”, frisou. O também presidente da 3.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa garantiu que a criação do mecanismo de arbitragem para as rendas é para continuar, prometendo um centro isento em termos de constituição de membros para que a população possa confiar neste serviço.

HOJE MACAU

FINAL a maioria dos deputados que colocou no hemiciclo o projecto de Lei de Alteração do Regime Jurídico de Arrendamento previsto no Código Civil parece inclinar-se mais para a fixação de limites na renda com base na inflação e no Índice de Preços do Consumidor (IPC) do que na usura, prevista no Código Civil. A garantia foi dada pela deputada Song Pek Kei ao HM, quando questionada sobre a origem da ideia de fixar esse limite em 29,25%, calculado com base na cobrança de juros legais. Song Pek Kei referiu que a “maioria” dos deputados, não só os autores da proposta como os membros da Comissão que a analisam na especialidade, prefere utilizar a fórmula que consta na proposta de lei, que determina que será o Chefe do Executivo a definir por despacho o limite máximo do aumento de uma renda, com base no IPC, inflação e situação do mercado imobiliário. A deputada admitiu contudo ter sugerido o aumento com base na usura, tal como Gabriel Tong e mais “alguns dos nove deputados”. “Só sugerimos à Comissão que poderíamos basear-nos no mecanismo da usura, mas nunca foi nossa intenção avançar com esta ideia, nem foi uma discussão com um resultado. Nunca dissemos que o limite da renda deveria ter como base a cobrança dos juros legais três vezes, nem que 30% deveria ser o limite”, explicou. Song Pek Kei referiu que pode ser incluída uma outra percentagem com a qual a população concorde.

Song Pek Kei

POLÍTICA

Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

N

A política haverá coisas mais incómodas do que outras, mas ditam as regras da boa educação e do bom senso que não se devem dizer más palavras, gritos ou terminar entrevistas de forma abrupta, práticas que muitos dos entrevistados por esse mundo fora gostam de fazer. O entrevistado é, por norma, uma pessoa com funções públicas que deve responder a perguntas. Um jornalista é formado e pago para fazê-las, em nome do interesse público. Os temas incómodos podem ser muitos, mas o que verdadeiramente parece incomodar o deputado Cheang Chi Keong é a usura. Os 29,25%. Uma ideia que ele afirmou ser algo para inscrever numa lei e que afinal já não é e que ninguém sabe porquê. Ontem eu e duas colegas dos meios de comunicação social de Língua Portuguesa queríamos esclarecer este ponto da proposta de lei de rendas e a resposta mostrou uma tremenda falta de educação. “Hoje só discutimos o mecanismo de arbitragem. Não vou responder às questões que não abordem o mecanismo”, disse o deputado. Quando confrontado, não escondeu a irritação: “Estou a dar a palavra a esta colega que está à minha frente, não a si”. Cheang Chi Keong é um deputado que preside a uma Comissão que reúne para analisar leis à porta fechada e que tem de responder a perguntas dos jornalistas no final. Já na semana passada decidiu terminar a reunião quando ainda havia duas perguntas para fazer. O motivo? A usura. “Estou cansado”, referiu. Se houve alguém que propôs um limite de aumento de rendas superior à inflação e aos valores do mercado, isso deve ser revelado. Não me choca a falta de educação mostrada pelo deputado, choca-me o facto de faltar às suas responsabilidades enquanto membro do hemiciclo de Macau. É pelas pessoas que está sentado aí, senhor deputado. A.S.S.

CCP CONSELHEIROS REUNIRAM COM PS

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ITASantos e José Pereira Coutinho estiveram ontem na sede do Partido Socialista, em Lisboa, para uma reunião com a secretária-geral adjunta do partido,Ana Catarina Mendes, e Francisco André, director do departamento de Relações Internacionais. Segundo um comunicado, foram “trocadas opiniões sobre as comunidades portuguesas residentes em Macau e Hong Kong”, tendo Ana Catarina Mendes referido que há um “elevado interesse no estreitamento de laços de amizade entre as comunidades portuguesas do Círculo da Ásia”, existindo “total disponibilidade em apoiar as iniciativas das comunidades portuguesas”. Pereira Coutinho fez questão de frisar as “óptimas relações de amizade pessoal e pro-

fissional com os vários secretários-gerais do partido, antes de 1999”, que “contribuíram para uma suave transição da soberania da Administração portuguesa para a RPC”. Já Rita Santos destacou “o constante estreitamento de relações entre o PS e as comunidades portuguesas de Macau, Hong Kong e interior da China”. Estão previstos futuros encontros relacionados com a participação associativa, o ensino e divulgação da Língua Portuguesa e ainda sobre as relações económicas entre Portugal e a China, “utilizando Macau como plataforma de serviços”, frisam os conselheiros, que dão como foco importante a experiência no domínio da qualidade de vida e a reabilitação urbana.

DANILO CATELA ANTUNES Agradecimento e Missa do 30º Dia

A Família de Danilo Catela Antunes agradece reconhecida e profundamente sensibilizada a todas as pessoas que tiveram a amabilidade de endereçar condolências e acompanharam o falecido até à sua última morada e ofereceram flores, grinaldas, orações e missas pelo eterno descanso da sua alma.

Mais se comunica que amanhã, dia 5 de Maio, pelas 18:00 horas, será celebrada na Sé Catedral de Macau a missa do 30º dia em sufrágio da sua alma. A todos quantos se queiram associar a este piedoso acto a família enlutada agradece antecipadamente.


6 POLÍTICA

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GCS

Consumidores WONG KIT CHENG TEME QUE LEI SEJA INUTILIZADA

O tempo, esse ditador

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UASE dois anos depois de ter sido prometida, a Lei de Protecção dos Direitos dos Consumidores continua atrasada e Wong Kit Cheng teme que se venha a tornar inutilizada. O diploma, apresentado pelo Governo, deveria ser apreciado dentro desta sessão legislativa, diz a deputada. Anteriormente, o Governo tinha-se comprometido com a entrega da lei no final no ano passado, depois de em 2014 ter sido feita uma consulta pública sobre o assunto. Depois, Sónia Chan,

HOJE MACAU

Se não for apresentada nesta sessão legislativa, a proposta de Lei de Protecção dos Direitos dos Consumidores poderá ter de ser deitada fora. É o que teme Wong Kit Cheng, que diz preferir uma lei que inclua combate ao monopólio, mas também não quer que este diploma já feito seja descartado

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Secretária para a Administração e Justiça, especificou que a lei ia ser separada de uma legislação de combate ao monopólio, pelo que iria ser concluída apenas no primeiro trimestre deste ano. Agora, Wong Kit Cheng pede que a Lei de Protecção dos Direitos dos Consumidores seja apreciada dentro desta sessão legislativa, que termina em Agosto, de forma a que a proposta não seja inutilizada: passado o prazo e iniciando uma nova sessão na Assembleia Legislativa, a proposta não pode ser novamente apresentada e o processo tem de começar novamente do zero. “Estamos em Maio e ainda não há novidades sobre isso”, frisa a deputada que considera que foi a separação entre a protecção dos consumidores e o combate ao monopólio que fez atrasar o diploma. Wong admite que o anúncio desta alteração mostra mais transparência do Governo, mas por outro lado permite que o público continue sem nada poder fazer face ao comércio desleal. A deputada não acredita que uma lei de combate ao monopólio possa surgir nesta sessão da AL, mas também não quer que esta proposta seja deitada ao lixo dado “todos os trabalhos que já envolveu no ano passado, até ao nível de consultas públicas”. Tomás Chio (revisto por J.F.) info@hojemacau.com.mo

Por preços “racionais”

Chui Sai On avisa CEM e SAAM

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Chefe do Executivo, Chui Sai On, manteve ontem, na Sede do Governo, um encontro com representantes da nova direcção da Associação dos Empregados da CEM e SAAM, para “trocar impressões sobre a segurança de abastecimento de água e electricidade, assim como o desenvolvimento técnico e profissional”, refere um comunicado do Governo. Chui sublinhou que “a estabilidade no abastecimento de água e electricidade e manter os preços a um nível racional são muito importantes para a vida da população”, sendo por isso que existe uma “atenção das autoridades ao funcionamento da CEM e da SAAM, bem como ao desenvolvimento dos quadros qualificados do sector.” A Sociedade de Abastecimento de Águas de Macau (SAAM) e a Companhia de Electricidade de Macau (CAM) também manifestaram reconheci-

mento e apoio ao papel desempenhado pela associação destacando a boa relação de cooperação entre ambos. Um dos presidentes, Leong Pou U, disse que o nível das habilitações da maioria dos trabalhadores da CEM e na SAAM tem vindo a aumentar, ou seja, a maioria já possui o grau de licenciatura ou superior. O mesmo responsável referiu que têm mantido uma cooperação com a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), onde vários membros são docentes em vários cursos de formação, na obtenção de certificados, nas áreas de água e electricidade, e destacou a afluência dos participantes. O secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, igualmente presente no encontro, manifestou reconhecimento pela boa relação entre a Associação e a CEM e a SAAM, e também pelo modelo de cooperação com o governo.

DSEJ CONTINUA A PAGAR ENTREVISTAS DE ACESSO AO INFANTIL A Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) vai continuar a pagar as entrevistas feitas aos alunos e encarregados de educação para acesso ao ensino infantil. O organismo está a estudar uma forma de integrar o pagamento que já faz – de cem patacas por entrevista – no subsídio de escolaridade gratuita atribuído às escolas. Lou Pak Sang, vice-director da DSEJ, disse ao canal chinês da Rádio Macau que já foram feitas mais de 30 mil entrevistas com crianças que pretendem entrar no ensino infantil no ano lectivo de 2016/2017, tendo sido gastas 300 mil patacas. Lou Pak Sang diz que a necessidade de ajudar a pagar estes custos se deve ao facto de serem precisos mais recursos para fazer as entrevistas. O Governo vai ainda “estudar se o valor de cem patacas” é adequado, mas deverá avançar com a ideia.


7 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

GOVERNO VAI RENOVAR CONCESSÃO DE TERRENO A LIU CHAK WAN

Nem que a morte os separe O lote junto ao Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM passou mesmo a ter concessão definitiva e o Executivo prepara-se para renovar mais uma vez essa concessão

O

Governo vai renovar a concessão do terreno onde Liu Chak Wan quer construir um prédio, ao lado do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM, e do outro lote a ele anexo. Isso mesmo garante Li Canfeng numa resposta ao deputado

Ng Kuok Cheong. A autorização pode, assim, abrir caminho para a construção do edifício de – agora – 90 metros que o empresário quer construir. “A Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) vai dar seguimento ao processo de renovação da concessão dos terrenos a pedido da concessionária”, afirma Li Canfeng, director do organismo. A DSSOPT volta a afirmar que “a concessão passou a definitiva” e diz que esta transformação “não depende se o terreno foi ou não aproveitado em conformidade com o contrato de concessão”. Isto porque, assegura ainda Li Canfeng, nas escrituras públicas de 1951, 1957, 1967 e 1974 “estava claramente indicado que devem ser mantidas as construções dos terrenos, ou seja os terrenos foram considerados aproveitados naquela altura”. Os lotes 133 e 134 na ZAPE têm gerado polémica por ter sido posto em causa se foi cumprido o prazo de

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renovavam sempre que necessário. A questão suscitou dúvidas a Ng Kuok Cheong, mas a DSSOPT diz que não há nada de alarmante e que está apenas a renovar a concessão de “acordo com a legislação aplicável na altura”.

DATAS SEM CONFLITO

O deputado democrata tinha questionado a DSSOPT sobre a decisão de transformar a concessão por arrendamento em definitiva e quis ainda saber a razão para que uma nota do Governo anunciasse que a data de concessão dos dois lotes ti-

O projecto foi suspenso em 2007, devido à pressão da UNESCO face à construção de edifícios altos à volta do Farol da Guia, mas Liu Chak Wan sempre assegurou que pagou o montante do prémio de concessão em 2006, quando as autoridades aprovaram o projecto, então com 135 metros

Construir sem receber

nha expirado em 1990 e 1998 e, uma segunda, rectificasse essas datas para 2020 e 2018. Mais uma vez, Li Canfeng explica: “não existem conflitos no que diz respeito às datas do termo de concessão dos lotes, a segunda data apresentada indica as datas do termo da última renovação da concessão.” Na resposta, datada de 15 de Abril, a DSSOPT admite que a Lei de Terras estipula que uma concessão provisória e com data para acabar se pode transformar em definitiva, sendo que para isso as concessionárias “têm de reunir as condições necessárias” e ser posteriormente “avaliadas individualmente pela RAEM para perceber se as satisfazem”. A DSSOPT não indica essas condições e a lei não é clara, parecendo descartar a situação para os contratos entre as empresas e a RAEM. “A concessão por arrendamento é inicialmente dada a título provisório e só se converterá em definitiva se, no decurso do prazo fixado, fo-

Subempreiteiro queixa-se à DSSOPT por falta de pagamento de obras na prisão

OU MUN TIN TOI

M subempreiteiro que colaborou na primeira fase do projecto de construção do novo Estabelecimento Prisional de Macau (EPM) manifestou-se ontem em frente às instalações da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), queixando-se da falta de pagamento por parte da empresa construtora à qual foi adjudicado o projecto, noticiou o canal chinês da Rádio Macau. O queixoso colocou cartazes em frente ao organismo, onde se lêem frases como “obras [por debaixo da mesa]”, “obrigação de saída sem pagamento” e “falha administrativa da DSSOPT”. Alguns cartazes falam ainda na “violação do decreto-lei nº 74/99/M”, fazendo uma referência ao Regime Jurídico do Contrato das Empreitadas de Obras Públicas. A DSSOPT confirmou ao canal chinês da Rádio Macau que está a acompanhar o caso e que vai analisar a situação junto da empresa concessionária. O organismo defendeu, no entanto, que o “adjudicatário e os subempreiteiros devem encontrar uma resolução com base nos contratos”. Informações da

aproveitamento do terreno. O caso complicou quando Liu Chak Wan, empresário e membro do Conselho Executivo, admitiu que um dos lotes – o 134 – era seu e que pretendia construir um prédio de 135 metros de altura no local. Não é claro a quem pertence o terreno 133 na Avenida Rodrigo Rodrigues e até ao fecho desta edição não foi possível à DSSOPT responder ao HM. O organismo veio a público, no início deste ano, dizer que os lotes tinham sido concedidos por escritura pública e que as suas concessões se

SOCIEDADE rem cumpridas as cláusulas de aproveitamento mínimo previamente estabelecidas e o terreno estiver demarcado definitivamente”. Por sua vez, estas concessões definitivas são renováveis por períodos de dez anos a pedido da concessionária. Liu Chak Wan já viu o Governo dar-lhe autorização para a construção no lote 134 sendo que, recentemente, o empresário afirmou mesmo que o Executivo iria pagar-lhe uma indemnização por ter obrigado à diminuição do prédio para 90 metros. O projecto foi suspenso em 2007 devido à pressão da UNESCO face à construção de edifícios altos à volta do Farol da Guia, mas Liu Chak Wan sempre assegurou aos média que pagou o montante do prémio de concessão em 2006, quando as autoridades aprovaram o projecto, então com 135 metros. Assegurou ainda que o projecto poderá arrancar até porque “só falta a licença de obras”. O deputado quis ainda saber se haverá mais terrenos cujos prazos de concessão terminaram e que poderão ser transformados em concessões definitivas, mas a DSSOPT não responde, dizendo apenas que “está a dar andamento aos processos”. Joana Freitas

Joana.freitas@hojemacau.com.mo

DSSOPT mostram que a empresa em causa é a companhia de construção de obras portuárias Zhen Hwa, que recebeu 113 milhões de patacas pela adjudicação. Esta empresa já esteve envolvida num caso de atraso de pagamento de salários a 24 trabalhadores não residentes aquando da construção do casino Ponte 16, em 2007. A empresa está ainda ligada a outros projectos de grande envergadura, como a construção do centro modal da Barra do metro ligeiro e a construção das fundações do edifício da administração do Complexo Hospitalar das Ilhas. A construção da nova prisão está dividida em quatro fases, sendo que em Fevereiro deste ano a primeira fase da obra terá sido concluída, segundo a DSSOPT, apesar do atraso sofrido devido à queda da encosta. A segunda fase da obra deverá começar na segunda metade deste ano, sendo a empresa do deputado Mak Soi Kun a adjudicatária desta fase do projecto. Flora Fong

flora.fong@hojemacau.com.mo


8 SOCIEDADE

hoje macau quarta-feira 4.5.2016

Ambiente ASSOCIAÇÃO CRITICA PLANO QUINQUENAL POR SÓ CONTER “SLOGANS”

Muito barulho para nada

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S medidas na área ambiental contidas no Plano de Desenvolvimento Quinquenal da RAEM são alvo de críticas de Joe Chan, presidente da Associação União Macau Green Student. Em declarações ao Jornal do Cidadão, Joe Chan alerta para o facto do plano conter apenas “slogans” e de referir trabalhos que não vão poder ser concluídos este ano e que já deveriam ter sido alcançados. O ambientalista alertou ainda para a necessidade de regular a produção de resíduos sólidos e de construção civil no prazo de cinco anos, caso contrário prevê “a saturação” da central de incineração. Joe Chan referiu que muitas metas a médio prazo, como 20% de taxa de reciclagem de resíduos electrónicos, não foram cumpridas, já que actualmente é de apenas 10%. “O Governo apresentou muitas coisas, mas onde estão as medidas de supervisão, acompanhamento e avaliação? O planeamento para os próximos cinco anos não podem ser apenas um slogan, o futuro do nosso ambiente é algo preocupante”, apontou. Joe Chan falou de um aumento de 10% o ano pas-

sado em termos de resíduos, alertando para perigos para a saúde pública caso não sejam tomadas medidas. Há outros planos do Plano Quinquenal que também não agradam a Joe Chan, tais como as políticas de promoção do uso de veículos eléctricos. O ambientalista considera que faltam medidas para resolver a questão dos carros abandonados, nem a diminuição dos resíduos. “O Plano deveria explicar a diminuição do lixo na sua origem, mas o documento não só não menciona isso como não define metas. Será que se vai promover isso através da educação? Se este Plano for mostrado noutros países vão achar uma piada”, referiu. Joe Chan disse mesmo que o Plano Quinquenal “não foi escrito por um governante de alto nível”. A ausência de medidas para a preservação de espaços verdes também preocupa Joe Chan, que espera vir a ter uma reunião com a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) em Maio ou Junho para abordar o futuro do ambiente em Macau.

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Sociedade de Jogos de Macau (SJM) anunciou ontem uma queda de 44,1% dos seus lucros no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2015. As receitas dos casinos da SJM caíram, nos mesmos meses, 22,8%, revelou a empresa num comunicado. No primeiro trimestre, as receitas do jogo em Macau caíram, no conjunto de todas as operadoras, 13,3%, em comparação com os mesmos meses do ano passado. No comunicado ontem divulgado, a SJM anuncia que no primeiro trimestre teve lucros de 561 milhões de dólares de Hong Kong e que as receitas

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MUDAR AGORA

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do jogo ascenderam a 11.016 milhões de dólares de Hong Kong. O EBITDA ajustado (resultados antes de impostos, juros, depreciações e amortizações) situou-se nos 838 milhões de dólares de Hong Kong (menos 32,5% do que no ano passado). O grupo diz que as receitas do jogo VIP caíram 29,2% e que as do jogo de massas desceram 14,9% nos primeiros três meses do ano. Citado no comunicado, o director-executivo da SJM, Ambrose So, garante que “apesar de persistir um ambiente desafiador” no mercado do jogo em Macau, “há sinais de estabilização, particularmente no segmento do mercado de massas”. LUSA/HM

Criadas normas para concepção sem barreiras para deficientes. Pun desconfia

Governo está a criar normas para a construção sem barreiras, de forma a tornar mais fácil a movimentação dos deficientes físicos pela cidade, mas a ideia – apesar de agradar – não convence Paul Pun. Numa resposta a uma interpelação da deputada Ella Lei, o Instituto de Acção Social (IAS) assegurou que vai rever as “normas de supressão de barreiras arquitectónicas”, sendo que está neste momento a “elaborar normas para a Concepção de Design Universal e Livre de Barreiras”. Vong Yim Mui, presidente do IAS, assegurou que o Governo está a preparar as normas e, quando isso for concluído, será utilizado nas obras públicas e nas construções subsidiadas pelo Governo.Ao mesmo tempo, o IAS frisa ainda uma revisão do conteúdo das normas de supressão de barreiras arquitectónicas - publicadas em 1983 - com “base da realidade social”. A responsável defendeu ainda que o Governo já “introduziu muitas instalações de acesso” sem barreiras em prédios onde estão serviços públicos, além de instalações pedonais, mas promete continuar rever o design das instalações públicas onde ainda falta esse acesso.

Flora Fong (revisto por A.S.S.)

SJM ANUNCIA QUEDA DE 44,1% NAS RECEITAS

Um passo em frente

SALÁRIOS DESCEM POR FALTA DE OBRAS

O salário diário médio dos trabalhadores da construção desceu 1,8%, com um valor nominal de 779 patacas, devido ao abrandamento do ritmo de trabalho das obras de construção de grande envergadura no Cotai face ao trimestre antecedente. A informação é divulgada pela Direcção de Estatística e Censos (DSEC). O salário diário médio dos trabalhadores da construção residentes correspondeu a 990 patacas, menos 1% em termos trimestrais, enquanto o dos trabalhadores da construção não residentes atingiu as 653 patacas, menos 2,2%. O preço dos materiais de construção, por seu lado, subiu com o preço médio do betão pronto a chegar às 827 patacas por metro cúbico, mais 2,9% em termos trimestrais. Esta tendência de subida regista-se desde há nove trimestres consecutivos.

Apesar da ideia agradar, o Secretário-geral da Cáritas não olha de forma positiva para a situação: diz que os problemas actuais têm a ver com as leis e que estas não vão permitir mudar ou adicionar instalações acessíveis em edifícios antigos e privados. Ao canal chinês da TDM, Paul Pun frisou que as actuais leis não têm condições para exigir essa mudança e dá como exemplo o caso de prédios de propriedade privada, onde há sempre necessidade de que todos os proprietários concordem com alterações no edifício. “Há regulamentos que exigem o estabelecimento de casas-de-banho e passagens exclusivas para os portadores de deficiência, no entanto, como as antigas instalações não têm e existem outras leis que entram em conflito com a montagem de instalações acessíveis, não se consegue mudar nada, sobretudo em edifícios privados”, apontou. F.F.


9 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

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ANIMA – Sociedade Protectora dos Animais ainda não conseguiu uma resposta por parte do Canídromo sobre a realização de um debate para analisar a situação dos galgos. Albano Martins, presidente da organização, assegurou ontem que a Associação de Protecção dos Animais Abandonados de Macau (APAAM) já disse que não estará presente mas “adiantou que estará ao lado da ANIMA nas posições a tomar”. O debate foi proposto pela ANIMA, para passar na TDM, de forma a que a Yat Yuen – Companhia de Corridas respondesse às acusações

298,8

“Falta de coragem” ANIMA critica inacção do Governo no caso dos galgos

de que é alvo de maus tratos aos galgos e morte destes animais. O Canídromo nunca respondeu ao convite da ANIMA. A gestão do Canídromo, no seu silêncio permanente, “é um sinal de que se acham tão bons que nem precisam de responder”, atirou ontem o responsável, que disse ainda à Rádio Macau que também a inacção do Governo é sinónimo de que o contrato poderá ser renovado em Dezembro deste ano, quando termina depois de ter sido renovado provisoriamente por um ano em 2015. Albano Martins alerta ainda para a “falta de coragem do Governo da RAEM” na tomada de atitudes concretas nesta questão.

MORTES QUE VALEM MILHÕES

A organização relembra ainda os impostos sobre o Jogo que o Canídromo não paga, comparativamente às restantes operadoras. Albano Martins salienta as perdas que o Governo tem registado nos últimos anos por não aplicar a taxa de 40% à qual o jogo é sujeito, estando a Yat Yuen sujeita apenas

TIAGO ALCÂNTARA

A ANIMA continua sem saber se vai poder debater a situação do Canídromo com a empresa. Sem resposta sobre o assunto, a organização aponta “falta de coragem” da parte do Governo para encerrar o espaço

a 25%. Mas, além das perdas nos impostos, é o comércio milionário em torno da compra e venda de cães que será “escandalosa”, na medida

em que é um negócio de milhões sem qualquer imposto. A título ilustrativo, Albano Martins adianta números: os cães são normalmente comprados por cerca de duas mil a três mil patacas aquando da importação do exterior, podendo ser vendidos a 80 mil patacas nos leilões efectuados no território. Este comércio isento de impostos constitui um lucro fundamental para o Canídromo, diz a ANIMA, sendo que o mesmo - não detentor de nenhum dos animais que alberga e de modo a “perpetuar os lucros” abate os animais quando estes já não servem. Esta medida vai contra todos os pedidos até à

ESPERANÇA NA IRLANDA

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SOCIEDADE

esde Dezembro último que a Austrália proibiu a exportação de galgos para Macau e o mesmo processo está agora em curso na Irlanda. A particularidade da Irlanda prende-se ao facto de ter uma lei que não permite a exportação de cães para a China e, de momento, estar a fazê-lo para Macau. Está já em marcha uma aliança global para que a lei volte a estar em vigor na sua totalidade, mas Albano Martins já congratula o facto de nos últimos três meses apenas nove animais terem dado entrada no território provindos daquele país. Já acerca da mesma medida pelo Reino Unido, as esperanças são nulas dadas as particularidades da indústria.

milhões de patacas foi quanto Macau perdeu ao longo de dez anos com o desconto dos impostos a que o Canídromo está sujeito

data feitos pela ANIMA, que tem em vista o estabelecimento de uma política de adopção para a reforma “atletas de alta competição”. Albano Martins alerta ainda para a impossibilidade de se poder viver na zona do Canídromo com alguma qualidade, dado o barulho dos cães. Após dar a ouvir aos jornalistas presentes uma gravação realizada nas redondezas das instalações do espaço, o presidente da ANIMA relembrou ainda as cartas já entregues ao Governo com queixas. Ainda no que se refere à comunidade, nesta que é uma das zonas mais densamente populosas do mundo, é “lamentável [os cidadãos] não terem um espaço de lazer por perto”, diz a ANIMA. “Está na hora do Governo devolver o direito àquele espaço àquelas pessoas.” Hoje Macau

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AUTOS DE INTERDIÇÃO CV3-16-0015-CPE 3º Juízo Cível

AUTOS DE INTERDIÇÃO CV3-16-0017-CPE 3º Juízo Cível

REQUERENTE: MINISTÉRIO PÚBLICO.-------------REQUERIDO: CHEONG MAN KONG. -----------------

REQUERENTE: O MINISTÉRIO PÚBLICO.------------REQUERIDO: NG CHAN NAM, masculino, residente em Macau, no Bairro Toi San, Rua 2 do Complexo Habitacional San Seng Si, bloco 7, 6º andar C.--------*** FAZ-SE SABER que, foi distribuída neste Tribunal, em 11 de Março de 2016, uma Acção de Interdição, com o número acima indicado, em que é Requerido, NG CHAN NAM, masculino, acima referido, para efeito de ser decretada a sua interdição por anomalia psíquica.-----------------------------------------

***** FAZ-SE SABER que, foi distribuído neste Tribunal, em 9 de Março de 2016, um Processo de Interdição, com o número acima indicado, em que é Requerido, CHEONG MAN KONG, casado, residente em Macau, na Rua de Aveiro, no. 115, Edifício Kam Lei Tat, Fok Un, 9º andar Y, Taipa, para efeito de ser decretada a sua interdição por anomalia psíquica.---------------------------------------------------------Macau, 1 de Abril de 2016

Macau, 29 de Março de 2016 ***

訴訟費用執行案 第 CV3-10-0010-CAO-A PROCESSO: Execução por Custas

號 第三民事法庭 3º Juízo Cível

EXEQUENTE: MINISTÉRIO PÚBLICO.--------------------------EXECUTADO/A: Companhia de Televisão por Satélite China (Grupo), Limitada, com sede em Macau, na Rotunda de s. João Bosco, nºs 45 a 85, 12º andar N.---------------------*** FAZ-SE SABER que, nos autos acima indicados, são citados os credores desconhecidos dos executados para, no prazo de QUINZE DIAS, que começa a correr depois de finda a dilação de VINTE DIAS, contada da data da segunda e última publicação do anúncio, reclamarem o pagamento dos seus créditos pelo produto dos bens penhorados sobre que tenham garantia real, e que são os seguintes.----------------------------------------------------------------BENS PENHORADOS Depósitos bancários titulado pela Executada, no “Bank of China Limited- Macau Branch” -------------------------*** Macau, 18 de Abril de 2016 ***


10 ENTREVISTA

FILIPA QUEIROZ JORNALISTA E REALIZADORA DE “BOAT PEOPLE”

SOFIA MOTA

“Uma mensagem de esperanç “Boat People” dá nome ao filme que será exibido a 10 de Maio, pelas 19h30, dentro da programação do Festival Internacional de Cinema e Vídeo. A história dos refugiados vietnamitas que a região acolheu, numa produção de Lina Ferreira, com realização de Filipa Queiroz. Entre histórias mais ou menos escondidas, a realizadora fala do seu percurso entre o jornalismo e o cinema e das vidas que por cá passaram fugazmente por entre guerras e esperanças

O documentário, no seu caso que também é jornalista, pode ser tido como outra forma de fazer jornalismo? Na minha vida, apareceu primeiro o documentário. Até fui para o Audiovisual na universidade por causa do documentário e de alguns registos televisivos nomeadamente ligados ao National Geographic ou canais como o “História”. Foi isso que primeiro me atraiu, porque, na verdade ia fazer rádio, que não tinha nada a ver. Por outro lado desde que me conheço que também gosto de jornalismo, mas já era apaixonada pelo género documental. Entretanto comecei a trabalhar no jornalismo, estagiei em televisão e continuei a trabalhar nessa área, mas o documentário sempre esteve na minha mira e continua a estar. Posso dizer até que gostava de acabar a fazer mais documentários do que propriamente jornalismo diário.

É uma maneira de aprofundar temas, de fazer o verdadeiro jornalismo, a investigação, descobrir histórias através das próprias histórias, o que é uma coisa que o jornalismo diário não nos permite. Também tem os seus encantos mas não nos permite. Considera que há um imediatismo no jornalismo que não há no documentário? O documentário também pode ser construído no imediato, mas ganha toda uma dimensão cinematográfica que é diferente. Pode-se potenciar a questão da imagem, pode-se elaborar, condimentar de outras maneiras. Daí o deslumbre, para mim. Como surgiu o primeiro trabalho nesta área? Já tinha feito uma pequena experiência em Portugal. Foi uma pequena curta num festival para amadores

em Braga, onde estudei. Depois, aqui, surgiu a oportunidade de fazer “Era uma vez em Ká Ho”. Esse sim, foi efectivamente o primeiro documentário em que participei. Dessa vez tivemos o subsídio do Centro Cultural, o que permitiu que fosse feito de outra forma. Acho que é importante haver este tipo de eventos para puxar pelas pessoas. Se calhar, se isso não tivesse acontecido, não

O cinema em Macau tem muito de fado. Acho que até é uma herança que nem eles, jovens que estão a fazer cinema, têm noção

teria pensado tão cedo em fazer um documentário, ainda tão verde. Só tenho dez anos de jornalismo, o que não é nada por aí além. Se não fosse realmente o desafio do Centro Cultural... Acabou por correr bem. O Hélder Beja foi o realizador e eu acabei por fazer de tudo um pouco. Gosto de trabalhar na parte da filmagem, do argumento, da fotografia. Foi uma primeira experiência que correu muito bem. Eu, pelo menos, gosto imenso daquele trabalho. Não que ache que seja genial, mas pela experiência e pelo contacto com aquelas pessoas. Em Ká Ho falamos da comunidade leprosa em Macau, um tema não muito abordado... Foi um trabalho com a comunidade de leprosos a viver em Macau, num isolamento total. Foi graças ao nosso interesse por esta história


11 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

ENTREVISTA

ça, coragem e gratidão” engraçado tendo valido um pequeno prémio. Estas coisas ajudam-nos a acreditar que, se calhar, fazemos alguma coisa de jeito. “Boat People” aborda os refugiados do Vietname. Actualmente os refugiados são tema constante. Neste caso, a temática foi coincidência, ou apanhou “boleia” das notícias do ocidente? Desta vez, tinha realmente uma ideia do que queria fazer. Essa questão é realmente interessante até porque em Macau muitas histórias estão postas debaixo dos buracos, nos recantos empoeirados do Governo, etc. Há muitas histórias que não são contadas. Mas foi uma história gira. Até porque foi o documentário que veio ter comigo e não eu a ir ter com o documentário. A ideia de fazer algo sobre refugiados em Macau já existia e partia da Lina Ferreira, minha colega e produtora deste filme. Ambas gostaríamos de fazer uma história à parte do nosso trabalho na TDM. Ela tinha muito interesse nos refugiados de Xangai. Como tínhamos lido alguns artigos, ela tinha tido conhecimento de um doutoramento sobre isso, [sobre] as pessoas que estiveram em Xangai [sendo que] muitas teriam vindo para Macau e outras até mesmo para Portugal. Andámos atrás disso. Ela perguntou-me se achava que poderia dar alguma coisa e achei que sim. Sou a parte mais visual do documentário. E precisamente por isso disse logo à Lina que isso seria muito complicado porque precisávamos das pessoas e dos locais, o que seria um grande problema. Não só as pessoas como também os locais desapareceram. que a viemos a descobrir e até a desenvolver algumas amizades. Continuei a ter contacto com um dos protagonistas, visto o outro já ter falecido. Mas a protagonista que até é a mais visível, no que respeita à doença, viveu cerca de 80 anos ali encarcerada, completamente isolada da família. Voltei a visitá-la com a Stephanie que foi a nossa tradutora (sem ela seria impossível) e ela fica muito contente. Falámos um pouco, levamos uns doces. Só isso já vale a pena. O sucesso com o público, se tiver, tanto melhor. Na altura teve. Para mim foi muito importante ouvir pessoas de Macau, principalmente mais velhas, e não tinha a mínima ideia de que isto existia aqui. Foi um sentimento de missão cumprida. Esta foi a minha primeira experiência realmente. Depois veio a segunda: o desafio de 48h em Macau, promovido pelo Centro Cultural e que foi

Ir buscar histórias que já “morreram” acarretará dificuldades específicas. No vosso caso, quais foram? Essa ideia estava em banho-maria porque realmente não conseguíamos encontrar ninguém vivo, ou que nos quisesse contar a história ou que nos pudesse acompanhar a Xangai. De repente, por mera coincidência, um rapaz do Canadá contactou-me. Andava à procura e tropeçou no nosso documentário sobre Ká Ho. Gostou imenso e mandou-me um email. Apresentou-se, agradeceu o trabalho, disse que estava uma história muito muito interessante e depois contou a história dele. A história dele é de uma pessoa refugiada de Macau que, mais do que isso, iria regressar a Macau 30 anos depois de ter deixado o território e gostava de conhecer gente de cá. Perguntou-me se eu estaria disponível. É uma

“win win situation aqui”: através de mim ele conheceria pessoas daqui e se quisesse registar o momento também eu ficaria a ganhar com isso. Foi quando disse “Lina temos a nossa história”. Mas depois foi tudo em tempo recorde. Ele falou connosco em Setembro e em Outubro já cá estava. Ele e a pessoa que o acompanha, que agora prefiro não revelar porque isso é a parte gira para se descobrir no filme. Essas duas pessoas vieram cá, estivemos com elas durante nove dias, andámos pela cidade. Foi tudo de improviso. Não tinha muitos meios, contei com a ajuda preciosa do Pedro Lemos com a câmara e do meu marido a fazer o som, o Francesco. E trabalhámos nisto de uma forma inicialmente muito rudimentar, mas foi sobretudo uma coisa feita com muito amor e muito interesse e improviso. Uma experiência fantástica que agora já me parece muito distante mas que resultou também numa bela amizade. Ficámos muito próximos.

ponto de partida. É impossível fugir a isso e é uma questão à qual somos sensíveis. Até porque somos emigrantes, pessoas que se movem no mundo por impulsos e necessidades diferentes. As outras personagens surgiram para contar melhor a história. Mesmo assim não está totalmente contada. Acho que ficou espaço para muito mais. Nós é que simplesmente tínhamos uma “deadline” e poucos recursos. Queríamos fazer uma coisa completamente independente e não tínhamos apoios. Depois conseguimos ir buscar outras pessoas. Uma que na altura trabalhou na polícia marítima e que assistia à chegada dos vietnamitas a Macau e que na altura trabalhava com o padre Lancelote e o padre Ruiz, que eram as pessoas que recebiam cá os refugiados. Fomos também buscar dois jornalistas que, mais do que historiadores, são pessoas que estiveram no terreno. Fomos à procura de outros elementos para compor o ramalhete. Mas muito fica ainda por dizer.

E como é que, a partir de um só relato, as histórias se foram desenvolvendo? Tínhamos inicialmente só esta história. Depois percebemos que a história era muito mais interessante do que parecia à superfície. Eram refugiados. O tema está na ordem do dia, sim. Mas de facto não foi o

Enquanto histórias também escondidas, que entraves ou “escavações” tiveram que fazer? Curiosamente o Governo foi muito acessível. Sabemos que as coisas às vezes não são muito claras, mas neste caso tivemos que contactar o Governo para algumas situações. Foi a Lina que o fez e recordo que ela disse que tinham sido muito prestáveis. Filmámos, por exemplo, dentro dos Serviços de Identificação e tivemos algumas explicações da parte deles. Mas por exemplo no Centro de Formação Juvenil Dom Bosco, que era o antigo campo de refugiados aqui, não nos deixaram entrar. Desconfiaram muito quando só queríamos saber o que tinha acontecido com as pessoas que viveram lá. Ficámos à porta. Essa foi a maior dificuldade. E a barreira cultural que é inevitável porque as pessoas não falam da mesma maneira. Foi por isso também que recorremos a outros entrevistados. As pessoas chinesas não desenvolviam algumas questões. Os protagonistas falavam bastante mas as outras pessoas que tentamos procurar – existe também uma enfermeira que na altura trabalhou no campo - não dão detalhes, não são descritivos, não dão datas ou nomes. Era tudo um bocadinho complicado. Essa barreira existiu e ou se contorna se se tiver mesmo muito tempo para ganhar confiança ou então tenta-se de outras formas. Foram essas essencialmente as nossas barreiras. Entretanto do nosso bolso também conseguimos melhorar o filme. Procurámos a ajuda de técnicos profissionais que

Para mim foi muito importante ouvir pessoas de Macau, principalmente mais velhas, e não tinha a mínima ideia de que isto existia aqui

em Macau já se encontra muito. Macau já desenvolveu muito pessoal especializado. Faz cinema em Macau. Como vê a situação da industria na região? Qual o estado do cinema aqui? Acho que está óptimo. Da parte da comunidade chinesa ainda acho que é um pouco monotemático. Costumo assistir a vários filmes e vou a festivais e anda tudo muito à volta do mesmo tipo de temas - o amor, o drama. Por acaso até é curioso porque isso vai ao encontro da tradição portuguesa que também é muito dramática. O cinema em Macau tem muito de fado. Acho que até é uma herança que nem eles, jovens que estão a fazer cinema, têm noção. Mas o momento actual do cinema em Macau é óptimo, não só por causa dos apoios que o Governo tem, de facto, dado com estas iniciativas e festivais, não só para os filmes serem feitos como na recuperação de espaços. Por exemplo, a Cinemateca Paixão. Acho que o Capitol também deveria ser recuperado. Macau já teve muitos cinemas e tem uma história de cinema incrível, mais como cenário para o cinema e não a ser Macau a fazê-lo. Acho que está no bom caminho. Público também tem. Já vi filas no Cineteatro como nunca vi em Portugal, exceptuando as grandes estreias. “Boat People” não é uma mensagem de tragédia, é um filme de esperança? Sim, é uma mensagem de esperança, de coragem e de gratidão. As pessoas que aqui vieram não vieram só visitar Macau, vieram agradecer. Sobretudo gratidão. Senti isso e elas também o disseram. Isto ainda não o tinha dito antes. Mas sim, existe não só a coragem de ter apanhado o barco para vir parar a Macau, ficar aqui uns anos sem saber o que lhes iria acontecer e depois serem enviados para um outro país que não conheciam de lado nenhum e terem uma vida nova outra vez. Uma das personagens lamenta muito o facto de ter saudades de algo que já não existe, as lembranças que tinha de Macau, dos lugares que tinha conhecido, que já não existem. É quase estar a procura de uma memória, de uma identidade que se perdeu. Por exemplo um elemento muito importante na altura e que já faleceu [foi] o padre Lancelote e eles queriam muito estar com ele também. Estiveram através de outras pessoas. Mais uma vez o papel do jornalista vem a tona, no deixar os relatos. Sem isso não há nada. Sofia Mota

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12 CHINA

hoje macau quarta-feira 4.5.2016

ACTIVIDADE INDUSTRIAL CONTRAIU EM ABRIL

A actividade da indústria manufactureira (PMI, na sigla em inglês) da China contraiu em Abril, após ter crescido em Março pela primeira vez em nove meses, segundo uma pesquisa citada pela agência oficial chinesa Xinhua. O índice que mede a actividade nas fábricas, oficinas e minas da China recuou para 49,4 pontos no mês passado, revelou o levantamento levado a cabo pelas unidades de análise privadas Caixin e Markit. Quando se encontra acima dos 50 pontos, o PMI sugere uma expansão do sector, pelo que abaixo dessa barreira pressupõe uma contracção de actividade. O resultado contraria os dados oficiais sobre o PMI, recentemente divulgados pelo Gabinete Nacional de Estatísticas (GNE) chinês, e que apontam para uma expansão de 50,1 pontos. Os números oficiais são extraídos a partir do registo da actividade de 3.000 empresas “relativamente grandes”, enquanto a analise da Caixin/Markit parte de amostras de 420 pequenas e médias empresas.

Tiananmen ÚLTIMO PRESO DOS PROTESTOS SERÁ LIBERTADO EM OUTUBRO

Uma porta por fechar

HK INDEPENDÊNCIA É “INEVITÁVEL”

O líder do movimento pró-independência de Hong Kong, Andy Chan, acredita que a região vai separar-se da China, tendo em conta o crescente receio de que Pequim ‘aperte o cerco’ à cidade. “Hong Kong vai ser um país independente, não sei quando, mas vai acontecer”, disse Chan, de 25 anos, à AFP. Os críticos acusam jovens activistas como Chan, que estabeleceu o Partido Nacional de Hong Kong em Março, de serem novatos e ingénuos, sem uma estratégia política realista e com objectivos inatingíveis. No entanto, apesar de muitos considerarem a luta pela independência uma missão fútil, a discussão sobre um tema considerado tabu entrou na narrativa política. “O Partido Comunista Chinês nunca nos vai dar democracia, por isso decidi cortar com eles (…) É por isso que desejo a independência. Porque é que podem decidir o nosso destino, mesmo sendo nós dois grupos diferentes [de pessoas]?”, questionou. Segundo Chan, o seu partido tem 30 membros, todos com menos de 30 anos. As posições do recém-formado partido geraram fúria em Pequim e entre as autoridades de Hong Kong, que alertaram que a luta por uma separação irá prejudicar o futuro da cidade e avisaram que a persistência na campanha pode resultar em “acções [não especificadas] de acordo com a lei”.

TAIWAN FRAGATA DEFENDE PESCADORES DO JAPÃO

Taiwan enviou uma fragata para águas junto a um recife japonês no Pacífico para proteger os seus pescadores que operavam numa zona que o Japão considera exclusiva, segundo informou o Ministério da Defesa. O envio da fragata segue-se ao de dois barcos de patrulha no domingo e acontece após a detenção de um barco de pesca taiwanês a 25 de Abril, a 150 milhas náuticas do atol Okinotori, em águas que o Japão considera da sua zona económica exclusiva. “O navio militar não vai estar na primeira linha, mas aproximou-se para poder acudir com rapidez caso algo aconteça”, disse o porta-voz militar Luo Shou-he, em conferência de imprensa. A fragata taiwanesa deve permanecer no local cerca de uma semana, altura em que será substituída por outra, até ao final de maio, disse Luo Shou-he. O barco de pesca detido foi libertado no dia 26 de Abril após o pagamento de 6 milhões de ienes como depósito enquanto se aguarda o procedimento judicial. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Taiwan apresentou uma reclamação junto da representação japonesa em Taipé e também em Tóquio, e pediu ao Japão que devolva a fiança. Segundo a diplomacia taiwanesa, Okinotori, que não tem mais de nove metros quadrados em maré alta, não é uma ilha e deve ser considerado um atol ou um rochedo, sem direito a uma zona económica exclusiva.

O

último preso relacionado com os protestos pró-democracia na praça de Tiananmen, em 1989, será libertado em Outubro deste ano, depois de as autoridades chinesas terem reduzido a pena aplicada em onze meses, divulgou ontem uma organização sediada nos Estados Unidos. Num comunicado, a organização Dui Hua, que defende

os direitos dos presos na China, confirmou que Miao Deshun, de 51 anos, será libertado da prisão de Yanqing, em Pequim, a 15 de Outubro, após mais de 27 anos na prisão. “Recebemos esta notícia com alegria e esperamos que [Miao] receba os cuidados que necessita para voltar à sua vida normal, depois de ter passado mais de metade desta atrás das grades”, frisou a organização.

Em 1989, Miao Deshun, um operário fabril, foi detido com outros quatro amigos na noite de 4 de Junho, pouco depois de o exército chinês ter irrompido com tanques nas ruas de Pequim e de ter acabado, com recurso à força, com quase sete semanas de protestos pró-democracia. A detenção aconteceu depois de “centenas ou milhares”, segundo algumas fontes, de

estudantes e de trabalhadores em greve terem morrido no massacre de Tiananmen, onde protestavam a favor de reformas democráticas no regime e contra a corrupção. Após participar de confrontos com o exército, o jovem foi acusado de “fogo posto”, por ter alegadamente arremessado um contentor em chamas contra um blindado. Com base nesta acusação, o regime chinês condenou Miao Deshun à pena de morte, mais tarde comutada em prisão perpétua. Desde então, os tribunais reduziram a pena por três ocasiões. Na altura, muitos acusados foram condenados à pena capital ou à prisão perpétua, mas as autoridades chinesas acabaram por substituir algumas destas sentenças com penas menores. Ao longo dos anos, milhares de presos acabaram por ser libertados, de acordo com os dados das organizações de defesa dos direitos humanos. No conjunto, menos de 100 pessoas acabaram por ser executadas, segundo diversas fontes. O estado de saúde de Miao pode ser uma das razões que motivou a redução da pena. Segundo a Dui Hua, o homem terá contraído Hepatite B na prisão e sofre agora de esquizofrenia.

Cliques perigosos

Motor de pesquisa Baidu acusado de induzir doente oncológico em erro

A

China anunciou uma investigação ao motor de pesquisa chinês Baidu, líder no país, após um doente oncológico, que entretanto morreu, ter acusado a empresa de fornecer informação enganosa sobre assistência médica. Wei Zexi recorreu alegadamente a um tratamento, que se revelou ineficaz, induzido por uma pesquisa no Baidu, que colocou a terapia no segundo lugar da lista de resultados. O paciente tinha um cancro raro e encontrava-se em estado terminal. De acordo com um comunicado difundido anteriormente por Wei, o tratamento, uma imunoterapia, que utiliza agen-

tes biológicos que estimulam o sistema imunitário, custou à sua família 200.000 yuan. Os hospitais públicos, por outro lado, terão dito a Wei que tinha os dias contados. O homem morreu a 12 de Abril após ter sido submetido por quatro vezes àquele tratamento que, segundo fontes citadas pelo jornal oficial China Daily, é utilizado apenas em investigação médica. O tráfego pago é um modelo de publicidade na Internet em que o motor de pesquisa recebe dinheiro por cada vez que um usuário acede aos portais que surgem em destaque. Aquele esquema, que se distingue do tráfico orgânico,

que define a ordem unicamente através do número de visitas, é a principal fonte de receitas do Baidu, segundo a imprensa chinesa. No entanto, ao contrário do Google, líder mundial, e outros motores de pesquisa, o Baidu não assinala os resultados pagos. Em comunicado, o Baidu disse ter pedido às autoridades para investigar um alegado esquema de subcontratação na prática daquela terapia. De acordo com informações divulgadas na segunda-feira pelos jornais chineses, o tratamento terá sido aplicado num centro gerido por uma empresa privada, dentro das instalações do hospital, em

violação das normas. A equipa encarregada da investigação é composta por funcionários da Administração do Ciberespaço da China, da Comissão Nacional da Saúde e Planeamento Familiar e da Administração Estatal para a Indústria e Comércio. O centro em causa foi, entretanto, encerrado. Em Novembro de 2008, a televisão estatal CCTV noticiou que o Baidu vendeu posições no topo da sua lista de resultados, na pesquisa por termos médicos-chave a hospitais falsos e a fornecedores de medicamentos não licenciados.


13 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

Olhar para dentro

POLÍCIAS CHINESES EM ITÁLIA PARA PROTEGER OS TURISTAS

Crescimento da China e Japão vai diminuir de forma acentuada, diz FMI

DONALD TRUMP CHINA “VIOLA” EUA

O pré-candidato republicano, que lidera a corrida eleitoral nos Estados Unidos, Donald Trump, disse que Washington não pode “continuar a permitir que a China viole o nosso país”, pois “é exactamente isso que eles estão a fazer”. Em comício realizado em Fort Wayne, em Indiana, o empresário afirmou que “a China foi responsável pelo maior roubo da história do mundo” e “tem danificado as nossas empresas e os nossos trabalhadores”. “Nós somos como um porquinho que foi roubado, mas vamos dar a volta por cima. Nós temos as cartas. Temos muito poder na China”, acrescentou o magnata.

A

S economias da China e do Japão devem desacelerar de forma acentuada nos próximos dois anos mas o crescimento da Ásia vai continuar forte, com a procura doméstica a compensar o fraco comércio global, disse ontem o FMI. Medidas de estímulo governamentais, a descida do preço das matérias-primas e desemprego reduzido vão ajudar à expansão regional, disse o Fundo Monetário Internacional (FMI), incentivando os líderes nacionais a avançarem com reformas. No entanto, o FMI alertou também para vários desafios externos, como o enfraquecimento das economias desenvolvidas e do comércio global e o aumento da volatilidade dos mercados financeiros globais. Desde a última análise à região em Outubro, os mercados globais revelaram-se mais voláteis, com as preocupações em relação à economia da China e a queda dos preços do petróleo a terem impacto nas acções em Janeiro

CHINA

C

e Fevereiro, que desvalorizaram em biliões de dólares. Apesar de uma ligeira recuperação desde Março, os investidores continuam reticentes. “A Ásia continua a ser a parte mais dinâmica da economia global mas enfrenta severas adversidades devido à lenta recuperação global, ao fraco comércio global, e ao impacto a curto prazo da transição de crescimento da China”, disse o FMI. “Para fortalecer a sua resiliência aos riscos globais e

continuar a ser uma fonte de dinamismo, os dirigentes da região devem avançar com reformas estruturais para aumentar a produtividade e criar espaço fiscal, ao mesmo tempo que apoiam a procura”, indica o Fundo. O FMI previu que o crescimento da Ásia fosse de 5,3% este ano e no próximo, menos que a estimativa anterior de 5,4%. A economia da China, a segunda maior do mundo e impulsionadora do crescimento global, deve expandir 6,5% este ano e 6,2% em 2017.

OM mais de 3 milhões de chineses a visitar a Itália todo ano, a China está a enviar polícias para ajudar a orientar e proteger os seus cidadãos em Roma e Milão. O inusitado anúncio de cooperação foi feito pelo ministro do Interior italiano, Angelino Alfano. Numa primeira parte do treino, inédito na Europa, polícias italianos foram a Pequim treinar os colegas. Quatro agentes que começaram a fazer testes in loco usarão os mesmos uniformes para facilitar que sejam identificados pelos turistas chineses. “O serviço foi planeado com os turistas chineses em mente. Se funcionar, poderemos considerar outras formas de colaboração, dada a presença da comunidade chinesa no nosso país”, disse Alfano. Entre atribuições dos polícias chineses está a troca de informações com agentes nas duas cidades e o auxílio a turistas para contactar autoridades em caso de necessidade. A primeira fase vai até o meio de Maio. “Este é um momento histórico”, regozijou-se Liao Jinrong, director geral do Gabinete de Cooperação Internacional chinês, fazendo referência às viagens de Marco Polo à China, 700 anos antes.

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AVISO Plano de financiamento para a frequência de cursos de educação por alunos excelentes no ano lectivo 2016/2017 No ano lectivo 2012/2013, a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) criou o Plano de financiamento para a frequência de cursos de educação por alunos excelentes, destinado a encorajar os alunos excelentes de Macau a frequentarem cursos de licenciatura que incluam a componente de formação pedagógica, de modo a formar docentes de alta qualidade e quadros qualificados, para o desenvolvimento da sociedade no futuro. A fase de candidatura a este plano, para o ano lectivo 2016/2017, realiza-se entre os dias 3 e 20 de Maio de 2016. Os destinatários e as vagas a financiar incluem: 1. Finalistas, deste ano, do ensino secundário complementar de Macau – a candidatura deve ser recomendada pelas escolas que frequentaram, durante o prazo da mesma. Existem 95 vagas disponíveis. 2. Graduados do ensino secundário complementar de anos anteriores – entregar os documentos para a candidatura, durante o prazo da mesma, na DSEJ (Av. D. João IV, n.os 7-9, 1.° andar, Macau). Existem 25 vagas disponíveis. Os alunos seleccionados, de acordo com os locais de frequência dos cursos, receberão um financiamento de montante fixo, comprometendo-se a trabalhar nas escolas oficiais ou particulares de Macau, após a conclusão do curso, sendo o período de serviço igual àquele durante o qual os beneficiários receberam o financiamento. O estatuto e o boletim de candidatura podem ser obtidos na DSEJ, ou descarregados através do website: http://www.dsej.gov.mo. Para mais informações queira ligar, por favor, para o telefone 83972512, ou contactar os serviços através do e-mail: dase@dsej.gov.mo. Aos 25 de Abril de 2016 O Director, Substo Lou Pak Sang


h ARTES, LETRAS E IDEIAS

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luz de inverno

Boi Luxo

Welt am Draht (World on a Wire), 1973, Fassbinder

“(...) o homem é um ser que suporta tão mal a suspeita como o papel de seda a chuva.” Musil. O Homem sem Qualidades.

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TÉ que ponto o estimado leitor, que manuseia o jornal com tanto carinho, está certo da sua real existência? Certamente seria um choque vir a saber que este, o jornal, não existe verdadeiramente porque não passa de um conjunto de impulsos electrónicos. Ou, não como choque, a suspeita de que este não existe pode transformar a sua visão do mundo à medida que esta se estende para uma desconfiança sobre os que o e o que o rodeia e sobre si próprio. Stephen Hawking já nos avisou de que poderemos não estar a viver na realidade: how do we know if we are living in our dreams or reality – well, we just don’t and perhaps can’t. Estas considerações de Hawkins, muito recentes, surgiram a público a propósito da leitura de textos do filósofo chinês antigo Zhuangzi. Depois de um sonho em que se tornara uma borboleta, o pensador sínico perguntou-se se ele seria um homem que sonhou em tornar-se uma borboleta ou uma borboleta que sonhara ser um homem. Pelo sim pelo não, enquanto não nos chegam certezas, ver uns filmes é uma maneira como outra qualquer do leitor passar o tempo até morrer e ir pensando na sua condição – se é que a morte, ou o próprio leitor, existe verdadeiramente. Estas linhas servem como aviso. Welt am Draht, de 1973, é um filme de ficção científica de Fassbinder que permaneceu pouco

conhecido até há pouco. É um filme feito para televisão, como muitos outros que Fassbinder compôs. Melhor, é uma série de duas partes, uma de apenas duas que ele fez. A outra, de 1972-1973, é Acht Stunden sind kein Tag (Eight Hours are Not a Day), uma série de 8 episódios que se viu cortada para 5 por razões políticas. Ambas foram feitas para a WDR. É um ponto que por vezes é descurado nas exegeses de Fassbinder, um de que me culpo também. Se bem que Nora Hellmer seja um dos meus filmes preferidos de sempre, nos vários textos que já aqui se fizeram sobre este autor não se tem chamado atenção suficiente para a colaboração intensa que manteve com a televisão. Berlin Alexanderplatz é uma das suas criações mais ambiciosas. Welt am Draht serve muitos gostos. O de ficção científica; o de filmes em que uma personagem inocente se vê perseguida pela injustiça do mundo; o da revisitação da estética dos anos 70; o de filmes sobre a substituição de humanos por máquinas; o de filmes sobre o imenso poder do dinheiro e das grandes corporações; ou, para quem encontra satisfação nisso, uma série onde se mostra um número elevado de actores alemães famosos da época, uma verdadeira caderneta onde se incluem 3 ou 4 planos com a presença de Werner Schroeter e da sua enigmática musa Magdalena Montezuma. Também nesta série, onde se coloca a questão da existência do nosso mundo, Fassbinder continua a sua propensão para a utilização de planos com superfícies vidradas e espelhos (em Nora Hellmer esta é quase nauseante, em Effi Briest muito pre-

sente) que deformam os rostos ou nos dão a ver apenas a sua imagem reflectida e não o verdadeiro rosto ou corpo. Transformam a nossa percepção não apenas da imagem física mas psicológica das personagens. O espelho é um caminho para a desconfiança e o vidro interposto um caminho para a distorsão (aquários, por exemplo). É fácil de perceber que em Welt am Draht estes sejam um adereço em uso permanente. Christian Braad Thomsen pergunta, no livro Fassbinder The Life and Work of a Provocative Genius, a propósito desta série de sci-fi: “Are we nothing but projections on a screen, produced by a sick society, computer-generated figures which, incapable of reflection, confuse artificial existence with real life?” (pág.28).* O leitor pode neste momento escolher largar o jornal e ir dar um mergulho numa piscina. Vollmer é um cientista que trabalha num projecto de grande dimensão, o Simulacron, um programa de computador que cria unidades aparentemente humanas (unidades identitárias) num mundo paralelo. Vollmer descobrira algo que ninguém sabia mas antes que o segredo deixasse de o ser morre em circunstâncias pouco claras. Stiller, o seu sucessor – e a personagem central de toda a história, tirada de um livro de ficcção científica americano de Daniel Galouye chamado Simulacron-3 (1964) – assume a sua posição e começa a ganhar as mesmas desconfianças. As questões filosóficas da interrogação da existência do mundo de Stiller fundem-se com as questões muito actuais dos perigos da criação da inteligência artificial e com as preocupações da utilização co-

mercial por parte de uma grande empresa de um programa cujos frutos deveriam ser apenas científicos. A United Steel, uma companhia de aço, pretende usar o Simulacron para proveito próprio, fazendo projecções sobre o uso do aço no ano 2000. Desta feita a WDR autorizou um texto que se mostra contrário às ambições de uma grande empresa alemã. Welt am Draht é uma história policial e política. Um jornal investiga as ligações pouco claras dos responsáveis administrativos pelo Simulacron com a United Steel, uma associação a que Stiller se opõe. A primeira parte da série termina com a suspeita de que o seu mundo não passe de um mundo artificial composto por sistemas de simulação electrónicos – incluindo o próprio Stiller, o nosso ponto de contacto narrativo e afectuoso com o mundo. Há muitos filmes sobre a criação de inteligência artificial e mesmo alguns sobre o desejo de ser verdadeiramente humano, o mais sedutor e mais conhecido dos quais será Blade Runner (1982). É também alemão um dos que primeiro chama a atenção para a ambição e o poder da máquina: Metropolis (Fritz Lang, 1927). Chamo apenas a atenção para um filme recente que não vi mas que parece reunir vários pontos de interesse estético e filosófico: Ex Machina, de Alex Garland. * seria interessante saber qual a reacção fílmica de Fassbinder à estupidificante obsessão actual com a constante reprodução fotográfica, a facilidade da sua manipulação e a exposição pessoal através dos novos meios de comunicação.


15 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

na ordem do dia 热风

Shakespearena China “Oh tempos desacertados – Oh, amaldiçoado rancor, que eu tenha visto a luz do dia p’ra vos acertar outra vez!” Hamlet “这是一个礼崩乐坏的时代,唉!倒霉的我却要负起重整乾坤的责任.”《哈姆雷特》

莎翁的命运

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M Abril deste ano um escritor chinês, um tal de Zhang, deu alegadamente entrada na sala de operações de um cirurgião plástico. Quando saiu, parecia-se com... William Shakespeare. Para proceder a este tratamento Zhang gastou as poupanças que tinha feito durante mais de 10 anos, num total de 1,4 milhão de RMB. E reparem que não é uma piada do dia das mentiras! E mais: os cibernautas chineses acham que, nesta versão “Zhanguiana”, Shakespeare fica ainda “mais bem-parecido” do que no original. Este escritor de “best-sellers” afirmou identificar-se com Shakespeare por ambos terem tido infâncias trágicas e experienciado muitas desilusões e, sendo escritor, sentia-se na obrigação de impressionar os seus leitores, mas de uma “maneira fixe”!!! O desejo de ser belo é actualmente uma prioridade na China e as selfies abriram caminho a uma epidemia de cirurgias plásticas no País mais populoso do mundo. Segundo um relatório recente, na China, as redes sociais e a obsessão das selfies estão a criar uma nova mania, a vaidade, e também um novo mercado para os cirurgiões plásticos, com facturações que duplicarão para 800 biliões de yuans (122 biliões de USD) em 2019, a partir dos 400 biliões de yuans registados em 2014. “Ter a aparência certa é a chave para uma vida melhor”, deixou de ser uma mania de adolescentes e passou a ser uma filosofia de vida deplorável.

Mas regressemos às Ilhas Britânicas renascentistas, que viram nascer Shaweng莎 翁 (Shakespeare em chinês, que significa Senhor Sha) há quatrocentos anos atrás. As obras de Shakespeare tiveram desde sempre um grande impacto na China. Os chineses ouviram inicialmente falar do dramaturgo britânico em meados do séc. XIX, através de missionários Europeus. Yan Fu, um filósofo e reformista chinês, referiu-se-lhe pela primeira vez em 1894 e, posteriormente em 1907, o grande escritor modernista Lu Xun escreveu

sobre ele, num ensaio traduzido. No entanto, o trabalho de Shakespeare foi apresentado ao público chinês através dos seus sonetos. A antiga Dinastia Qing considerou de alguma forma importante fazer um esforço “imperial” para realçar a tragédia como um género, pelo que as peças de Shakespeare, recheadas de desgostos de amor e de catástrofes de ordem vária, pareciam perfeitas para o efeito. Em 1921 Hamlet foi traduzido para chinês. Até 1949, ano da fundação da República Popular da China, tinham-se passado quase 30 anos. Cao Yu, um famoso dramaturgo chinês, não conseguiu traduzir as Obras Completas de Shakespeare antes de morrer. Um outro tradutor do mesmo período, Zhu Shenghao, transpôs para chinês 27 peças, em circunstâncias muito difíceis. Apesar de tudo a popularidade de Shakespeare foi sempre crescendo a partir de 1949. As suas peças têm sido estudadas em instituições académicas de todo o País. As suas palavras líricas e expressões românticas não são desconhecidas dos estudantes universitários chineses. Na realidade, o homem de Stratfordupon-Avon é frequentemente citado em parceria com Guan Hanqing (c. 1241– 1320), um célebre poeta e dramaturgo chinês da Dinastia Yuan. O Mercador de Veneza, Romeu e Julieta, Hamlet, O Rei Lear e Otelo tornaram-se peças de referência e são apreciadas por audiências com notáveis níveis de conhecimento da obra de Shakespeare. Durante uma visita ao Reino Unido em Outubro de 2015, o Presidente Xi Jinping citou A Tempestade, no discurso que proferiu no Parlamento: 凡是過去,皆為序章 O passado é prólogo.

Julie O’yang


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hoje macau quarta-feira 4.5.2016

WANG CHONG

王充

OS DISCURSOS PONDERADOS DE WANG CHONG

Aquele que não se abre ao saber é como um morto... Da erudição – 3

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LGUNS são da opinião de que devemos dedicar-nos ao estudo de um só Clássico, não sendo necessário possuir um saber mais vasto. Mas os discípulos de Confúcio estudavam os Cinco Clássicos e só quando os dominavam a todos eram suas competências consideradas suficientes. Yan Hui disse: “O Mestre abriu-me o espírito com as letras”. Ter o espírito aberto é a marca do homem inteligente e dotado: Yan Hui não teria utilizado a palavra “aberto” se tivesse dominado um só Clássico. Quem não domina os Cinco Clássicos, vegeta no obscurantismo mais estúpido e mostra-se incapaz de compreender os inúmeros aspectos deste mundo, tal como aquele que adere a uma só doutrina, repugnando-lhe ler extensivamente, ou aquele cujo espírito jamais se ilumina com o saber novo que resulta da assimilação dos textos antigos. Contudo, entendemos bem por que tais pessoas possam considerar suficiente o estudo de um só Clássico... Abrem-se portas para que a luz do sol possa penetrar, mas se não adicionarmos diferentes janelas, essa luz não atingirá os cantos mais recuados da casa. Podemos comparar a compreensão de um Clássico a uma poderosa luz que entre pela porta e a ajuda de outros textos àquela que passa pela janela, mas a luz que emitem as obras dos Cem Pensadores é coisa diferente da luz que entra pelas janelas de uma casa...As explicações e os métodos dessas obras iluminam o espírito como o sol ilumina o interior da casa. Abrir as portas ao dia, habitar divisões arejadas, subir a um terraço para contemplar do alto as casas vizinhas, eis algo que todos apreciam. Ninguém gosta de estar de portas fechadas, no canto mais obscuro de uma casa, ou de escavar um buraco para lá se meter, com as Fontes Amarelas por vizinhança [NT – Fontes Amarelas, ou seja, a morada dos mortos]...Fechar o espírito, obstruir os pensamentos, não querer ver as coias de um ponto de vista mais elevado é fazer como os mortos...Aquele que não se abre ao saber é como um morto... Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Wang Chong (王充), nasceu em Shangyu (actual Shaoxing, província de Zhejiang) no ano 27 da Era Comum e terá falecido por volta do ano 100, tendo vivido no período correspondente à Dinastia Han do Leste. A sua obra principal, Lùnhéng (論衡), ou Discursos Ponderados, oferece uma visão racional, secular e naturalista do mundo e do homem, constituindo uma reacção crítica àquilo que Wang entendia ser uma época dominada pela superstição e ritualismo. Segundo a sinóloga Anne Cheng, Wang terá sido “um espírito crítico particularmente audacioso”, um pensador independente situado nas margens do poder central. A versão portuguesa aqui apresentada baseia-se na tradução francesa em Wang Chong, Discussions Critiques, Gallimard: Paris, 1997.


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(F)UTILIDADES

TEMPO AGUACEIROS OCASIONAIS MIN 22 MAX 28 HUM 75-98% • EURO 9.20 BAHT 0.22 YUAN 1.23

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

DEBATE “CONVERSAS SOBRE O LIVRO” COM VERA BORGES Fundação Rui Cunha, 18h30

Quinta-feira

AQUI HÁ GATO

SOLIDARIEDADE ANIMAL

“MONTAGEM DE ANIMAIS” (FAM) Antigo tribunal, 20h00

Sexta-feira

“MONTAGEM DE ANIMAIS” (FAM) Antigo tribunal, 20h00 “CONTOS DE FADAS DO MUNDO DO CAOS” (FAM) Teatro D. Pedro V, 20h00

Sábado

“LENDA DO GANCHO DE CABELO PÚRPURA” (FAM) Cinema Alegria, 19h30

O CARTOON STEPH DE

“MONTAGEM DE ANIMAIS” (FAM) Antigo tribunal, 15h00 e 17h00 “DESLIZAR” PELA LE PATIN LIBRE (FAM) Ringue de Patinagem Future Bright, 13h00 e 20h00

Domingo

“MONTAGEM DE ANIMAIS” (FAM) Antigo tribunal, 15h00 e 17h00 “UM CHÁ DE SONHO”, DOS DÓCI PAPIAÇAM (FAM) Centro Cultural de Macau, 20h00 “LENDA DO GANCHO DE CABELO PÚRPURA” (FAM) Cinema Alegria, 19h30 “DESLIZAR” PELA LE PATIN LIBRE (FAM) Ringue de Patinagem Future Bright, 13h00 e 20h00

Diariamente

EXPOSIÇÃO “LA VIE EN MACAU”, DE ANTONIO LEONG Albergue SCM (até 12/06) EXPOSIÇÃO “O SONHO DO PAVILHÃO VERMELHO”, DE ZHANG BIN Casa Garden (até 19/05) EXPOSIÇÃO DE TIPOGRAFIA “WEINGART” Galeria Tap Seac (até 12/06) EXPOSIÇÃO “AGUADAS DA CIDADE PROIBIDA”, DE CHARLES CHAUDERLOT Museu de Arte de Macau (até 12/06) EXPOSIÇÃO “TIBET REVEALED” Galeria Iao Hin EXPOSIÇÃO “AS DIMENSÕES DO SONHO E ARTE” Fundação Rui Cunha (até 12/05)

Cineteatro SALA 1

SALA 2

BUDDY COPS [C]

FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Filme de: Peter Chik Com: Bosco Wong,

PROBLEMA 81

UM FILME HOJE

“THE READER” (STEPHEN DALDRY, 2008)

Um rapaz encontra uma mulher e com ela tem um romance que acaba por perdurar na memória de ambos, apesar de se revelar fugaz. Anos mais tarde, esse mesmo rapaz é já um advogado acabado de formar que reencontra a antiga amada no banco dos réus, por ligações ao nazismo. Um filme belo mas perturbador, que retrata de forma original um dos períodos mais negros da história europeia do século XX. Andreia Sofia Silva

C I N E M A

CAPTAIN AMERICA: CIVIL WAR [B] Filme de: Anthony & Joe Russo Com: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson 14.30, 18.30, 21.15

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 80

SUDOKU

CONCERTO COM “MACAU INFINITE TRIO” Fundação Rui Cunha, 20h00 “UM CHÁ DE SONHO”, DOS DÓCI PAPIAÇAM (FAM) Centro Cultural de Macau, 20h00

Muitos têm por certa a inimizade entre cães e gatos. Acontece, de facto, mas não é um dado adquirido. Já tive amigos cães e sei de histórias na minha família de grandes amizades caninas. Muitas vezes, eu sei, somos nós quem começa a guerra, pois há para aí muito cão pateta que pensa poder fazer, literalmente, gato-sapato da gente. Depois amofinam-se quando lhes aterra uma unha no nariz. Muitas guerras começam assim. Enfim... mas em face de um inimigo comum, não tenho a mínima dúvida de qual o meu lado na refrega. É o caso do canídromo. Evito ao máximo passar por aquela zona. Como sabem, nós animais temos uma percepção mais apurada e detectamos coisas que vocês humanos nem com um microscópio assestado nos cornos conseguem. Nem preciso chegar ao Fai Chi Kei para sentir o sofrimento dos meus irmãos. Sinto as vibrações do sofrimento milhas ao redor. Um verdadeiro laboratório do Dr. Jekyll. Felizmente, nem todos os humanos são como os que ali pululam, nem todos são como os do Governo que tapam os olhos ao horror como se apenas de um mero odor inconveniente e passageiro se tratasse. Fiquei feliz por saber da manifestação na Irlanda contra a vinda dos meus irmãos galgos para Macau como fiquei feliz, quase ao ponto de beber uma cerveja, quando os australianos baniram o comércio. Tal como fico de bigodes às avessas quando oiço o Governo dizer que aquele antro de degradação não se pode fechar de uma dia para o outro. Fsss!... Aí interrogo-me: perante uma ilegalidade, um abuso de direitos dos mais básicos, perante uma cena medieval, cruza-se os braços e espera-se que a coisa se desvaneça ou actua-se de imediato como se actua quando se apanha um criminoso em flagrante? Se tiverem resposta a esta minha interrogação existencial agradeço que me enviem um email.. Pu Yi

King Kong Li, Charmaine Fong 14.15, 21.45

CAPTAIN AMERICA: CIVIL WAR [3D] [B]

Filme de: Anthony & Joe Russo Com: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson 16.15, 19.00

THE BOY [C]

Filme de: William Brent Bell Com: Laura Cohan, Rupert Evans 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores Joana Freitas; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Filipa Araújo; Flora Fong; Manuel Nunes; Tomás Chio Colaboradores António Falcão; António Graça de Abreu; Gonçalo Lobo Pinheiro; José Drummond; José Simões Morais; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Rui Cascais; Sérgio Fonseca Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fernando Eloy; Isabel Castro; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


18 ÓCIOSNEGÓCIOS

hoje macau quarta-feira 4.5.2016

MISS M, CAFÉ MAGGIE LEE, PROPRIETÁRIA

“Este é o meu sonho” “Este não é o meu mercado, é só uma coisa que gosto muito de fazer”, explica, afirmando que qualquer cliente pode pedir um bolo, mas é um serviço paralelo ao objectivo do “Miss M Food”. Bolos de casamento, aniversários ou por qualquer outro motivo já fazem parte da história de Maggie. “É preciso muito tempo para esta área. Para decorar um bolo inteiro são precisas muitas horas, existem muitos pormenores”, conta. Mas há outro ponto de destaque neste negócio: os preços. “Apesar de estarmos perto de algumas escolas, os estudantes não mostravam interesse em entrar no nosso café. Nós não percebíamos porquê. Um dia entraram aqui alguns estudantes e eu perguntei se eles gostavam do espaço e da comida, eles disseram que sim, mas explicaram que não tinham entrado mais cedo porque, pelo aspecto do espaço, pensavam que era muito caro”, partilha a proprietária.

HOJE MACAU

“Miss M Food” é um espaço que cheira a algo delicioso. Quem entra não se arrepende. Pastelaria fina, um aspecto agradável, refeições saudáveis e um sorriso atrás do balcão são os ingredientes perfeitos para conquistar qualquer cliente

“É um espaço que pretende ser um bom sítio para se comer qualquer coisa e conversar um bocadinho”

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EM ali, metido entre as ruas do Mercado de São Lourenço e a Igreja, nasceu, e vai ganhando vida, o sonho de Maggie Lee. É o “Miss M Food”, um café com linhas modernas e dedicado à pastelaria fina. O conceito é simples. “Se olharem para os nossos menus eles não têm muita variedade”, começa logo por explicar Maggie, a proprietária do espaço. A ideia é comer bem e saudável, com refeições práticas. Mas não foi assim que começou. “Abrimos o espaço em Julho do ano passado. Estamos quase de parabéns. Começámos por ter disponíveis alguns bolos e pastelaria fina que nós próprios confeccionamos”, indica. Depois, com o passar do tempo e com “o feedback e reacções” dos clientes, a gerência decidiu introduzir o conceito de massa e arroz nos seus menus. Quem procura muita variedade não bate na porta certa, mas “quem quer qualidade” sim. “A verdade é que estamos inseridos na cultura de Macau e eu sei que as pessoas de cá gostam muito de massa e arroz, isso estava a faltar. Os nossos menus viviam muito na base do

A verdade é essa, lá de fora, quem olha para o café parece “algo muito chique”. “Eu faço preços baratos, sei que sim, porque não tenho necessidade de os fazer mais caros e com isso mexer com o mercado de negócios. Não acho que as pessoas precisem de pagar mais, mas a verdade é que também não tenho muita variedade nos menus”, esclarece, indicando que assim é possível existir um equilíbrio. pão e saladas. Agora temos para todos os gostos”, explica.

MUITO TRABALHO

Reforçando a ideia de “sonho concretizado”, o “Miss M Food” nasceu de muito trabalho e dedicação. “É preciso trabalhar muito, estarmos muito atentos ao mercado, saber o que ele quer, o que procura, o que mais gosta. É preciso ouvirmos o que os nossos clientes gostariam de ver e adaptarmos, gradualmente, o nosso negócio ao movimento da sociedade”, adiantou. Desengane-se quem considera ser um mercado fácil. “Abrir um negócio em Macau não é coisa fácil, temos de estar sempre a trabalhar, sempre a evoluir, sempre atentos ao mundo dos negócios”, acrescentou Maggie, exemplificando que não pode ter

sempre o mesmo menu. “Seria um erro. Tenho que adaptar o menu consoante as épocas e os gostos dos clientes”, reforçou.

DA DECORAÇÃO AO PREÇO

Entre saladas saudáveis, refeições de qualidade e uns bolinhos na montra, Maggie tem ainda uma paixão à qual, sempre que o tempo lhe permite, se dedica. Decoração de bolos.

AGRADAR A TODOS

São Lourenço é o bairro escolhido por Maggie. A escolha parece óbvia visto a proprietária residir por perto, mas a verdade é que “estar ao lado da Igreja de São Lourenço” era um ponto a favor para o negócio. “Há muitos turistas por aqui e entram muitas vezes no nosso café”, aponta. “Este é um espaço para todos, sejam chineses, portugueses, turistas ou não. É um espaço que pretende ser um bom sítio para se comer qualquer coisa e conversar um bocadinho”, frisa, admitindo que no mundo das refeições o negócio aposta muito no serviço de take-away. “Grande parte das refeições que vendemos os clientes vêm aqui buscar. Basta ligar para aqui, pedir e vir buscar”, remata. Filipa Araújo

Filipa.araujo@hojemacau.com.mo


19 hoje macau quarta-feira 4.5.2016

OPINIÃO

chá (muito) verde

FERNANDO ELOY | 义來

O

pato é amarelo. O pato é grande. O pato não passa despercebido. O pato está ali na água. O pato não está ali na mesa, nem é Pato à Milanesa. Não há como fugir ao pato, se bem que o pato não corra atrás de nós. O pato é um pato e todos nós sabemos o que é ser pato. Coitados dos patos que não têm culpa de nós acharmos que ser pato é ser parvo, tal como os ursos não têm a culpa que os ursos entre nós pouco tenham a ver com eles, tal como as cabras e os cabrões, os porcos, as lesmas, as preguiças ou os camelos, os burros e os fuinhas não têm culpa da nossa remota incompatibilidade com o reino animal, da nossa tendência de apelidar de bicho tudo aquilo que não gostamos de ser, mesmo que os bichos não sejam aquilo que pensamos serem. A questão deste pato não é o seu potencial artístico nem as suas qualidades estéticas. O mal deste pato não é se é se não se equivale a Degas, como disse Carlos Marreiros. O mal deste pato nem sequer é a sua evidente falta de penas mas sim a pena que faz a evidência de vivermos numa cidade de patos, ou melhor, numa cidade em que gostam de nos fazer de patos, partindo do princípio que os patos são parvos. Neste sentido, este pato é um grande pato e não é nada parvo. Se a arte, entre outros méritos, tem a faculdade de obrigar a pensar, a quantidade de tinta que este amarelo pato tem feito correr e a enormidade de electrõesespalhados pelas redes sociais em forma de crítica, sarcasmo, apoio, veneração ou mesmo “selfies”, este pato é um pato de sucesso. Se a arte, entre outros méritos, tem a faculdade de desnudar questões, de apontar o dedo para a ignomínia, para a insensatez ou até para a cupidez e, seguramente, para a estupidez, este pato é um pato de sucesso. Ninguém como este singelo cochicho teve ainda o condão de trazer de forma tão vigorosa para a macia opinião pública local a evidência de que os que cá estão não gostam dos que cá estão. Ou seja, parafraseando José Drummond na sua entrevista esta semana ao HM, “Macau é um embaraço para os artistas” justificando assim a impraticabilidade de aqui se viver como artista em função dos preços de habitação e até da comida, mas o que podia ser feito com os milhões gastos no borrachinha, este pato é um pato fundamental. A questão dos milhões leva-nos do mundo animal para o mundo vegetal e até aos proverbiais tomates, ou à falta deles, pois é precisamente isso que este enorme pato revela apesar do seu ar bonacheirão e inocente.

Pato sem tomate(s)

Talvez depois deste pato, os patos que agora o pagaram venham a descobrir os tomates necessários para alimentar o molho dos artistas locais, ganhando coragem para encomendarem coisas extravagantes. Provavelmente não, mas o pato abriu a discussão.

O que este patarrão torna por demais evidente é não faltar dinheiro no burgo apesar da pretensa crise anunciada, tal como esparrama nas fuças de qualquer um como os milhões nele empregues nunca seriam entregues a um artista local que tal ousasse

“O mal...” diz o pato sem falar “... é os locais estarem manietados pela incapacidade de olharem de frente aqueles que não apoiam preferindo por isso distribuir migalhas a todos em vez de um pão decente a quem tem os tomates, e a capacidade, para fazer uma salada decente”. Nesta quase alucinação colectiva em que se tornou a febre das indústrias criativas locais, não há tomates para se perceber que uma cidade de meia dúzia não pode gerar milhares de artistas. O que este patarrão torna por demais evidente é não faltar dinheiro no burgo apesar da pretensa crise anunciada, tal como esparrama nas fuças de qualquer um como os milhões nele empregues nunca seriam entregues a um artista local que tal ousasse. Como não são entregues a um realizador local com tomates para fazer um filme decente, a um qualquer artista local com a ousadia de pensar grande, a quem quer que seja a pretender fazer obra que leve Macau para o mundo. A preferência é, ao invés, apostar na produção consistente de merda, e aos quilos,

destinada a encher arquivos e estatísticas no delírio de mostrar como os criativos locais são geniais e aos molhos. Em Macau, a ordem é para pensar pequeno, para não dar nas vistas, porque se for para dar espectáculo é melhor importar. Como diz o adágio local, “em tábua com pregos, o saliente deve ser martelado”. A aposta tem de ser segura porque os tomates são caros e ninguém os tem para arriscar, nem a clarividência (o mais grave) para o perceber. Por isso, talvez utilizando um adágio importado a mensagem passe melhor, fique-se a saber que “quem não arrisca, não petisca”.

MÚSICA DA SEMANA

“Come and Buy My Toys” David Bowie (1967) “You shall own a cambric shirt You shall work your father’s land But now you shall play in the market square Till you’ll be a man Smiling girls and rosy boys Come and buy my little toys Monkeys made of gingerbread And sugar horses painted red”


“ OLHÓ MONÓXIDO!

Três membros de uma família, dois do sexo masculino e um do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 17 e 53 anos, manifestaram sintomas de má disposição como náuseas e tonturas, causadas por excesso de monóxido de carbono. Os três afectados foram transportados de ambulância para o Centro Hospitalar Conde de São Januário onde chegaram conscientes, apesar de dois deles necessitarem de ajuda na locomoção. Após análises, foi confirmada uma intoxicação por monóxido de carbono, de nível moderado. Os três doentes, apesar de apresentarem melhorias, ainda se encontram em tratamento no hospital. Após investigação, verificouse que a intoxicação foi provocada por gás residual num ambiente com má ventilação. Todas as janelas e portas da casa estavam fechadas devido ao uso do ar condicionado. Os três membros ao tomarem o banho utilizaram o esquentador que se encontra instalado na cozinha e que não possui ligação de exaustão. O caso ocorreu no Edifício Fu Pou, situado na Estrada Marginal do Hipódromo.

JUVENTUDE COMUNISTA MEMBROS DIMINUEM

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quarta-feira 4.5.2016

Beatriz Basto da Silva

PROPRIETÁRIOS TAILANDESES DO LEICESTER QUEREM MAIS

Ambição da Raposa

O

S proprietários tailandeses do Leicester, que se sagrou na segunda-feira campeão inglês de futebol pela primeira vez, garantiram que querem manter os principais jogadores para a próxima época. “O Leicester não é um clube que vá vender os seus jogadores. Como tenho dito desde o primeiro dia, queremos criar as bases de uma grande equipa”, disse o vice-presidente dos ‘foxes’ Aiyawatt Srivaddhanaprabha a um canal televisivo tailandês. Segundo o dirigente, “todos os jogadores querem permanecer” no Leicester, que na próxima época vai disputar pela primeira vez a fase de grupos da Liga dos Campeões, para verem “até onde podem ir”. O Leicester, adquirido em 2010 por Vichai Srivaddhanaprabha, o ‘rei do duty-free’ na Tailândia, tornou-se o campeão mais improvável da história do futebol inglês e o ‘vice’ do clube promete reforçar a equipa, para juntar a ‘craques’ como Riyad Mahrez ou Jamie Vardy. “Temos mais planos para os próximos seis meses”, revelou o dirigente do clube, que há sete anos militava no terceiro escalão e, na época passada, foi apenas 14.º classificado.

“S

ILÊNCIOS e diálogos em torno de vozes e figuras da literatura portuguesa do séc. XX” é o tema do segundo debate da série “Conversas sobre o Livro”, promovida pelaAssociaçãoAmigos do Livro em Macau e que terá lugar na Fundação Rui Cunha, amanha às

ARÁBIA MULHERES COM CÓPIA DO CONTRATO DE CASAMENTO

As mulheres sauditas obtiveram o direito de ficar com uma cópia do contrato de casamento, até agora um direito exclusivo dos maridos, anunciou ontem o Ministério da Justiça da Arábia Saudita. Segundo uma directiva publicada pelo ministro da Justiça, Walid al-Samaani, os religiosos que registam os contratos de casamento devem dar uma cópia à mulher «para lhe permitir tomar conhecimento dos seus direitos e dos termos do contrato». A decisão destina-se a «proteger os direitos da mulher», indicou o ministério, num comunicado divulgado pela agência oficial SPA.

PLANO QUINQUENAL REPRESENTANTES DE MACAU NA CHINA PRESTARAM APOIO

Na segunda-feira, o Leicester fez história no futebol mundial, depois de beneficiar do empate cedido pelo ‘perseguidor’Tottenham no reduto do Chelsea (2-2), na 36.ª jornada da Primeira Liga inglesa. A duas jornadas do fim, o ‘onze’ do italiano Claudio Ranieri soma 77 pontos, contra 70 dos ‘spurs’, pelo que é matematicamente o 24.º campeão do futebol inglês e o

primeiro estreante no palmarés da prova desde o Nottingham Forest, em 1977/78. Fundado em 1884, o Leicester tinha no segundo lugar de 1928/29 o melhor registo nas anteriores 47 participações na divisão principal, sendo que já havia conquistado a Taça da Liga inglesa (1963/64, 1996/97 e 1999/2000) e a Supertaça inglesa (1971).

FRC CONVERSA COM LIVROS CONTINUA

POR

A Liga da Juventude Comunista da China, um “viveiro” de líderes chineses, incluindo o primeiroministro Li Keqiang, tinha cerca de 87,46 milhões de membros no final de 2015, informou ontem a agência oficial chinesa Xinhua. Trata-se de uma ligeira queda face aos 88,2 milhões de membros que se encontravam registados no ano anterior. Segundo a Xinhua, a Liga, que tem como missão promover a ideologia comunista entre os adolescentes e jovens adultos chineses, conta com 3,87 milhões de organizações em todo o país. Os dados foram anunciados na véspera do “Dia da Juventude Chinesa”, uma celebração fundada no “movimento do 4 de Maio”, em 1919, considerado o primeiro protesto de massas da China, contra o Acordo de Versalhes, que depois da I Guerra Mundial cedeu ao Japão as concessões alemãs em território chinês. Para aquele movimento, o Acordo de Versalhes era “uma humilhação” e confirmava o estatuto “semicolonial” da China. Mao Zedong, o primeiro Presidente da República Popular da China, trabalhava então na biblioteca da Universidade de Pequim (?Beida’), onde conheceu Li Dazhao e Chen Duxiu, dois influentes intelectuais marxistas e cofundadores do Partido Comunista Chinês, em 1921.

Lou-Lim-Ioc / Cheira a terra molhada / e das flores o perfume/ cai em gotas da chuva recente / Num banco de jardim / fico esquecida a ouvir / nos longes da distância / os sinos pascais / da minha infância”

18h30. Dirigida por Vera Borges, professora assistente e coordenadora do Departamento de Português na Universidade de S. José em Macau, levará a cabo nesta iniciativa, o panorama da literatura portuguesa do séc. XX, com um breve olhar sobre acontecimentos marcantes,

AS RENDAS QUINTUPLICARAM EM 6 ANOS...

ASSIM ÉO MERCADO ...

celebradas figuras, persistentes fantasmas, e ainda imprevisíveis e renitentes mestres; uma revisitação de algumas obras e autores, a partir do silêncio ou dos diálogos em que o nosso tempo presente os envolve. A entrada é livre e a palestra conta com tradução simultânea em cantonês.

MAS AGORA O PREÇO ESTÁ A CAIR...

NUNCA! EM MACAU O MERCADO...

...C’EST MOI!!!

Ho Iat Seng, membro do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, Eric Yeung Tsun Man, membro da Comissão Permanente do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Lei Pui Lam, Paula Lin, Hong Meng, Kou Hoi In, Iong Weng Ian, Leong Iok Wa, Leong Vai Tac, deputados à Assembleia Popular Nacional, e Ho Teng Iat, Peter Lam Kam Seng, Lai Chan Keong, membros do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, reuniram com Lao Pun Lap, o Coordenador do Gabinete de Estudo das Políticas, Lei Ngan Leng, assessora do Gabinete do Chefe do Executivo e Ng Hoi Ian, coordenadoradjunto do Gabinete de Estudo das Políticas, para revelarem as suas opiniões sobre o Plano Quinquenal de Desenvolvimento. Durante a reunião, expressaram o seu apoio, referindo da importância da definição de um plano a médio prazo para o futuro desenvolvimento da RAEM. Terão igualmente apresentado várias opiniões sobre “o projecto, a capacidade de execução do Governo, a cooperação interdepartamental, a utilização dos recursos, a definição de objectivos e a formação de talentos, entre outros”, mas o que disseram não foi divulgado. O projecto do Plano Quinquenal tem diferentes vias e formas para a recolha de opiniões: a população e as associações podem, até finais de Junho, apresentar as opiniões e sugestões através do endereço electrónico do Gabinete de Estudo das Políticas (message@gep.gov.mo), por exemplo.

Hoje Macau 4 MAI 2016 #3564  

N.º3564 de 4 de Maio de 2016

Hoje Macau 4 MAI 2016 #3564  

N.º3564 de 4 de Maio de 2016

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