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CHINA

As novas andanças diplomáticas PÁGINA 10

hoje macau Nº 4821

SEXTA-FEIRA 30-7-2021 DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10

Touché

HENAN

UMA PEQUENA AJUDA DE MACAU PÁGINAS 4-5

CORTESIA SJM

O bambu nunca morre

SJM

O GRANDE PALÁCIO LUSITANO PÁGINA 6

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COVID-19

PORTAS ESTREITAS PÁGINA 7

OPINIÃO

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS-VERITAS PUB.

JOÃO ROMÃO

Hong Kong conquistou o ouro na esgrima e Macau acusou o toque. O número de interessados na modalidade disparou. Treinadores e praticantes mostram-se optimistas e acreditam que os atletas da RAEM podem atingir marcas de grande nível no futuro. GRANDE PLANO LUZ E FOGO

GONÇALO M. TAVARES

DEMOCRACIA E DITADURA SARA F. COSTA

A EMEL DEU UM GATO VALÉRIO ROMÃO


2 grande plano

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ESGRIMA

MEDALHA DE OURO DE HONG KONG AUMENTA PROCURA DE AULAS EM MACAU

Em Guarda! Prontos? Começar! O impacto da medalha de ouro na esgrima no Tóquio2020, conquistada pelo floretista de Hong Kong Cheung Ka-long fez-se sentir em Macau. A fundadora do MF Fencing revela que nos últimos dias, o número de interessados em praticar a modalidade cresceu exponencialmente. Treinadores e atletas locais consideram que os esgrimistas do território podem alcançar patamares de excelência. Para o campeão europeu em 2000, Álvaro Monteiro, a medalha “não foi inesperada”

N

UNCA Hong Kong tinha vibrado tanto com um toque de esgrima. Quando Cheung Ka-long conquistou o 15º ponto frente ao, até então campeão olímpico e principal favorito à vitória olímpica, Daniele Garozzo, a explosão de entusiasmo de várias centenas que se reuniram em espaços públicos

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do território vizinho para apoiar o atleta de 24 anos, foi enorme. Afinal de contas, a conquista da medalha de ouro por Cheung Ka-long na categoria de Florete Masculino nos Jogos Olímpicos de Tóquio, além de representar uma conquista inédita na modalidade de esgrima, foi também a primeira desde os Jogos Olímpicos de Atlanta

em 1996, em que Lee Lai Shan conquistou o ouro para Hong Kong na vela. Além disso, a medalha do floretista representa também o primeiro ouro olímpico conquistado por Hong Kong após a transferência de soberania para a República Popular da China em 1997. Os ecos da vitória provenientes do território vizinho não tardaram a fazer-se

sentir em Macau, sobretudo entre atletas, praticantes e outros elementos pertencentes à comunidade esgrimística do território. Mas alargaram-se, desde logo, ao interesse pela esgrima, com efeitos visíveis no número de interessados em praticar a modalidade. Helena Cheang, fundadora e consultora do MF Fencing, clube de esgrima

Álvaro Monteiro, treinador “Um resultado desta dimensão de Cheung Ka-long

nas redondezas da Avenida Ouvidor Arriaga, conta ao HM como após a vitória de Cheung Ka-long, a procura por esgrima em Macau tem sido “muito maior”. Nos dias que se seguiram, o número de pedidos de informação e inscrições foi anormalmente elevado para esta altura do ano, mesmo em período de Jogos Olímpicos. “Esta vitória vai ter um impacto muito bom no nosso clube e ao nível da prática de esgrima em Macau. Depois da vitória do Cheung Ka-long a procura tem sido exponencialmente maior. Nos últimos dois dias tivemos mais de 20 pedidos de crianças ou adultos a perguntar por informações e pela possibilidade de se inscreverem nas aulas de esgrima”, começou por explicar. “Sem dúvida que conseguimos sentir o efeito desta medalha em Macau. Se isto não tivesse acontecido acho que teríamos um ou dois pedidos de informação, apenas devido aos Jogos Olímpicos. Mas depois da vitória do Cheung Ka-long na prova de Florete, os pedidos não param de chegar”, rematou. A responsável perspectiva ainda que, nas próximas semanas, “o número de pedidos vai aumentar ainda mais”, até porque a equipa de Florete de Hong Kong

“O Cheung Ka-long pode servir de referência para os jovens esgrimistas e também para o desenvolvimento da esgrima de Macau.” KIT IU ATLETA E TREINADOR DE MACAU

irá participar numa outra competição no Interior da China e avizinham-se novas conquistas. “Acho que vai haver ainda muito mais pedidos de residentes de Macau interessados na prática de esgrima”, prevê.

Motivação renovada

Também para o atleta e treinador de esgrima, Kit Iu, a vitória de Cheung Ka-long vai contribuir certamente para “encorajar mais pessoas a dar o primeiro passo rumo ao início da prática” da modalidade no território. Além disso, defende, devido à proximidade, o sucesso de Hong Kong deve servir de motivação e referência, não só para os praticantes locais, mas também para o desenvolvimento da esgrima de Macau. “[A medalha de Cheung Ka-long] deve servir de inspiração para os esgri-


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“O Cheung foi campeão Asiático em 2016 quando ainda era Júnior [sub-20] e venceu também a prova de qualificação olímpica para o Rio de Janeiro. Não foi uma medalha inesperada, na minha opinião. O talento e vontade de trabalhar estavam lá e, com o ingresso no HKSI [Hong Kong Sports Institute], criaram-se as condições base para o seu desenvolvimento”, acrescentou.

O que faz um campeão

era uma questão de tempo.”

mistas locais trabalharem arduamente para alcançar os seus objectivos. Mas, mais importante ainda, é que o Cheung Ka-long pode servir de referência para jovens esgrimistas e também para o desenvolvimento da esgrima de Macau”, disse ao HM. Helena Cheang concorda que o modelo de Hong Kong deve servir de referência para Macau e que, através do aumento da cooperação entre as duas regiões e do apoio do Instituto do Desporto (ID), os atletas de Macau podem almejar, um dia, conquistar resultados ao nível do feito de Cheung Ka-long. “Desde o dia em que fundei o clube de esgrima, o meu objectivo passou por seguir os modelos de Hong Kong, pois acho que o desenvolvimento desportivo de Hong Kong deve ser a nossa principal referência. Na minha opinião, acho que se o Instituto do Desporto desse mais apoio, os atletas de Macau poderiam alcançar [resultados] do mesmo patamar que o Cheung Ka-long. Acho que poderíamos aprender com os métodos de treino de Hong Kong e investir na cooperação”, sublinhou. Apontando que na esgrima “tudo pode acontecer” e que o resultado de Cheung foi “surpreendente”, Kit Iu

grande plano 3

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considera que o próximo passo da esgrima de Macau passará, em primeiro lugar, “por chegar a lugares cimeiros a nível asiático”. De acordo com a Associação de Esgrima de Macau, sem contar com os praticantes das competições escolares, onde cada evento conta com a participação de mais de 400 esgrimistas, estão registados em Macau 184 atletas. Quanto aos locais de prática, existem na RAEM quatro salas de armas ou clubes, havendo também entre 10 a 15 escolas onde é possível praticar esgrima.

Aqui tão perto

Quando chegou a Hong Kong para ser treinador de

“Nos últimos dois dias tivemos mais de 20 pedidos a perguntar por informações. Se isto não tivesse acontecido acho que teríamos um ou dois pedidos de informação, apenas devido aos Jogos Olímpicos.” HELENA CHEANG MF FENCING

esgrima do Fencing Sport Academy (FSA), Álvaro Monteiro ficou impressionado com o facto de o clube acolher, por si só, cerca de 700 atletas, distribuídos pelas três armas da esgrima [ver caixa] e uma equipa técnica volumosa com cinco treinadores a tempo inteiro. Actualmente, a treinar a equipa de Florete Masculino do Qatar, na Academia Aspire, em Doha, o floretista português que foi Campeão da Europa em 2000 por equipas, conheceu de perto a realidade da esgrima de Hong Kong e teve a oportunidade de conhecer também Cheung Ka-long quando este pertencia ainda ao escalão de Cadetes (sub-17). Para o ex-atleta da selecção nacional portuguesa, desde cedo foi possível observar que o floretista de Hong Kong era um “fora de série” e, por isso mesmo, defende, a conquista do título de campeão olímpico não foi uma surpresa. “O Cheung Ka long é um talento fora de série. Lembro-me de o ver em 2014, era ele ainda cadete, a ganhar o Hong Kong Open, prova do escalão Seniores. Já nessa altura ele era um elemento seguro da equipa de Hong Kong”, começou por dizer ao HM.

Quanto às características de Cheung Ka long, Álvaro Monteiro destaca tratar-se de um floretista canhoto “alto, rápido e destemido” que tem um “sentido de timing incrível”. “Desde que saí de Hong Kong falo dele a colegas de profissão, dando sempre a opinião de que um resultado desta dimensão de Cheung Ka-long era uma questão de tempo. Nestes Jogos, vi um Cheung mais maduro, mais experiente e habituado a grandes palcos. Estou muito feliz por ele e por Hong Kong”, vincou. Como não poderia deixar de ser, a felicidade na região vizinha foi particularmente sentida por quem dá o corpo ao manifesto da esgrima, como Lau Kam Tan, treinador principal do Fencers Club Hong Kong. Contactado pelo HM, o treinador mostrou-se “honrado” por ter testemunhado a vitória de Cheung Ka-long nos Jogos Olímpicos de Tóquio, acreditando que o segredo da vitória esteve no “trabalho de preparação árduo” feito pelo próprio e pelos seus colegas de equipa. Relativamente a Macau, Álvaro Monteiro considera que “tudo é possível quando se criam as condições necessárias”, mostrando-se optimista quanto ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na região. “Macau terá certamente um longo caminho a percorrer, mas vejo que se está a desenvolver a um bom ritmo. Esta medalha irá certamente motivar e atrair novos talentos para os clubes. Talvez o próximo passo passe pela criação de um centro de alto rendimento e pela contratação de treinadores com experiência em alta performance”.

Olá às armas As três categorias que compõem a esgrima e respectivas regras

O

Florete, categoria na qual Cheung Ka-long se especializou, é uma das três armas que fazem parte da esgrima desportiva, diferindo entre si, não só ao nível das regras, mas também, da própria morfologia das armas e zonas válidas de toque que se traduzem na atribuição dos pontos. Para além do Florete, a esgrima inclui também as modalidades de Espada e de Sabre. Sendo a mais leve das três armas, no Florete o toque tem de ser concretizado com a ponta da arma, apenas no tronco (barriga, peito e costas). Além disso, por ser aquilo a que se chama uma “arma convencional” está condicionada pela regra que dá prioridade ao esgrimista que ataca. Na prática, isto significa que, se os dois atletas conseguem atingir simultaneamente a zona válida do adversário, o ponto será atribuído apenas ao atleta que atacou. Mudando de arma, tal como no Florete, na Espada, para o toque ser válido, deve ser também concretizado com a ponta da arma.Azona válida corresponde a todo o

Espada

Florete

Pedro Arede

Sabre

corpo e não existe qualquer tipo de convenção, sendo o ponto atribuído ao esgrimista que tocar primeiro ou aos dois atletas caso o toque seja dado em simultâneo. Por fim, no Sabre, o toque deve ser concretizado com a ponta ou a lâmina da arma, sendo que este será válido no tronco, cabeça e braços. Tal como no Florete, por ser uma “arma convencional”, no Sabre os atiradores estão condicionados pela regra que dá prioridade ao esgrimista que ataca.

Leis da luta

Na esgrima, independentemente da arma, cada encontro opõe dois adversários, sobre uma pista metálica com 14 metros de comprimento e 1,5 metros de largura. O vencedor de um combate de eliminação directa, como aqueles que podem ser vistos nas competições dos Jogos Olímpicos, será aquele que for capaz de conquistar 15 pontos (15 toques) antes do adversário ou que, chegado ao final do tempo regulamentar (composto por três períodos de três minutos), tiver conquistado mais toques.


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Dar a quem

RÓMULO SANTOS

SOLIDARIEDADE DEPUTADOS APELAM A DONATIVOS PARA AJUDAR NA RECONSTRUÇÃO DE HENAN

Vacinação Agnes Lam pede medidas de incentivo A deputada Agnes Lam está preocupada com o ritmo da vacinação em Macau e sugeriu ao Executivo que aplique medidas de incentivo, como folgas extra pagas para quem se quer vacinar. “Proponho ao Governo da RAEM, que conta com 38 mil funcionários públicos, que estude a possibilidade de os diversos

serviços públicos, se as condições o permitirem, concederem ‘férias de vacinação’, para poderem descansar suficientemente após a vacinação”, sugeriu. A deputada elogiou ainda as medidas dos casinos e disse que as “férias de vacinação” deviam ser estendidas às empresas de autocarros e outros sectores.

Aposentados Song Pek Kei quer subsídio de 4.450 patacas A deputada Song Pek Kei defende que os Funcionários Públicos aposentados com as reformas mais baixas devem receber um subsídio extra de “índice 50”, que equivale a 4.550 patacas. A sugestão foi

deixada ontem no Plenário e tem como objectivo “melhor garantir a sua vida [dos ex-funcionários públicos] na aposentação”. Na sessão de ontem, a deputada ligada à comunidade de Fujian defendeu ainda a necessidade de avançar com a reforma da Função Pública, de forma a melhorar as perspectivas profissionais dos funcionários.

Iao Hon Mak Soi Kun preocupado com pobres Mak Soi Kun está preocupado com o destino das pessoas que vivem no Bairro do Iao Hon e que podem ser obrigadas a deixar a zona, quando os edifícios arrendados forem renovados. O deputado e construtor perguntou ao Executivo se tem um plano para que estas pessoas possam encontrar no

mercado casas a um preço acessível. “Será que a Administração já dispõe de políticas e medidas prospectivas para realojar estes inquilinos da camada de base, cuja capacidade económica é fraca, a fim de evitar o caos resultante da falta de habitação para quem a precisa, após o processo da renovação urbana?”, perguntou.

AL Aprovado Regime Jurídico da Construção Urbana

A Assembleia Legislativa (AL) aprovou ontem praticamente por unanimidade o novo Regime Jurídico da Construção Urbana. Apenas os deputados Song Pek Kei e Si Ka Lon se abstiveram no artigo 15.º, que define a obrigação de os proprietários garantirem a manutenção das construções, quando pedida pela Direcção de Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. Apesar de se ter mostrado contra a medida, por considerar que os proprietários podem não ter capacidade para pagar pela manutenção, Song Pek Kei não votou contra. Por sua vez, Wu Chou Kit, deputado nomeado pelo Governo e engenheiro civil, afirmou que com o novo regime haverá maior segurança, uma vez que a fiscalização sai reforçada.


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Vários membros da Assembleia Legislativa expressaram ontem pesar pelas cheias que causaram pelo menos 73 mortes em Henan e apelaram à sociedade de Macau, “dentro das suas possibilidades”, para abrir os cordões à bolsa

V

ÁRIOS deputados aproveitaram ontem as intervenções antes da ordem do dia para apelar à comunidade de Macau que se mobilize no apoio à Província de Henan, na sequência das cheias de 17 de Junho que causaram a morte de 73 pessoas. O primeiro a abordar o tema foi Ho Io Sang, deputado dos Moradores, mas foi de Iao Teng Pio, Wu Choug Kit e Davis Fong, deputados nomeados pelo Executivo, que surgiram os pedidos mais claros de donativos. O deputado Iao Teng Pio, numa interpelação assinada também por Wu e Fong, apelou à contribuição dos residentes. “Além de esperar que mais residentes acompanhem a situação

O deputado Lam Lon Wai recordou ontem que o Governo prometeu rever este ano o valor de “limite de indemnização para os acidentes de trabalho”, mas que, até ao momento, ainda não cumpriu. A declaração foi feita ontem na Assembleia Legislativa e o deputado dos Operários apontou que o limite actual “desfavorece a protecção dos trabalhadores e dos seus familiares”. O assunto foi abordado depois deste mês Zhuhai ter registado dois acidentes graves em obras, que causaram 16 mortos e 3 desaparecidos. Sobre estes incidentes, Lam apontou que Macau deve aprender com os mesmos. O deputado criticou também o Governo por ter prometido uma lei da segurança e saúde ocupacional na construção civil, promessa que nunca passou de “muita parra”.

Faltam recursos

Quanto a Ho Ion Sang, o deputado dos Moradores, também afirmou a necessidade de esforço da socie-

Aprovado novo Estatuto dos Agentes das Forças e Serviços de Segurança Os deputados aprovaram ontem por unanimidade, entre os 30 votantes, o novo Estatuto dos Agentes das Forças e Serviços de Segurança que deixa cair o conceito de forças militarizadas, entendido pelo Executivo como

uma competência exclusiva do Governo Central. Segundo o Governo local, a nova lei permite implementar uma “gestão moderna” e fazer com que os trabalhadores das Forças de Segurança tenham de trabalhar menos tempo para serem promovidos. Kou Hoi In não votou em nenhum dos artigos e os deputados Vitor Cheung e Pang Chuan estiveram ausentes da sessão.

“O mais importante é que na nação chinesa estão todos no mesmo navio, e toda a gente está unida numa só alma nacional!”

“Os prejuízos foram minimizados graças à ajuda do Governo Central e do Exército de Libertação Popular, ficando assim bem marcado que entre compatriotas o ‘sangue fala mais alto’.” IAO TENG PIO DEPUTADO

Para Ma Chi Seng, deputado nomeado pelo Executivo, a resposta ao desastre de Henan mostrou o desenvolvimento da “grande nação chinesa”. “Esta catástrofe ocorrida em Henan revela uma realidade: o renascimento da grande nação chinesa não se manifesta apenas no desenvolvimento económico e na melhoria das condições de vida da população: o mais importante é que na nação chinesa estão todos no mesmo navio, e toda a gente está unida numa só alma nacional!”, afirmou, em género de balanço, sobre as cheias. “Na nossa China, repete-se, mais uma vez, o espírito de responsabilidade e de dedicação de cada um dos chineses, sob a liderança do Partido Comunista da China, quando enfrentamos grandes acontecimentos”, frisou. João Santos Filipe

MA CHI SENG DEPUTADO

Desporto Sulu Sou lamenta situação olímpica da RAEM O democrata Sulu Sou lamentou que os atletas de Macau não possam competir nos Jogos Olímpicos, apesar de a população vibrar com as vitórias da China e de Hong Kong. Numa altura em que decorre o maior evento desportivo do mundo, Sulu Sou apelou ao Executivo para que tome medidas e desenvolva o desporto local, entre as quais a criação de “um regime de formação sistemática para os jovens atletas”, e “em conjunto com os sectores do desporto e da

educação” a implementação de “um ambiente favorável para a formação específica dos jovens”. O deputado afirmou ainda que os atletas locais devem confiar nas suas capacidades, enviou votos de boa sorte para a comitiva de Macau que vai participar nos Jogos Asiáticos de Hangzhou, e deixou o desejo que os atletas possam estar nos Jogos Olímpicos de Inverno, em 2022, em Pequim, e nos Jogos Olímpicos de 2024, que serão realizados em Paris.

RÓMULO SANTOS

Trabalho Lam Lon Wai recorda promessas do Governo

das inundações em Henan, apelo a todos que façam um contributo, dentro das suas possibilidades, para, de mãos dadas, ultrapassarmos a situação” afirmou. Iao Teng Pio recordou ainda o tufão Hato, que afectou Macau em 2017 e causou 10 mortos, e mencionou que o desastre foi ultrapassado com a solidariedade nacional. “Os prejuízos foram minimizados graças à ajuda do Governo Central e do Exército de Libertação Popular, ficando assim bem marcado que entre compatriotas o ‘sangue fala mais alto’”, lembrou.

RÓMULO SANTOS

precisa

dade. “A situação ainda não está totalmente resolvida, e a falta de recursos persiste na linha da frente. Espero que a sociedade continue a acompanhar a evolução, e quando necessário, preste apoio de diferentes formas à população de Henan”, disse Ho. Por sua vez, Si Ka Lon, deputado ligado à comunidade de Fujian, defendeu que o Governo de Macau se deve inspirar nas palavras do Presidente Xi Jinping, e preparar-se para qualquer desastre natural ligado às condições meteorológicas extremas. Após o desastre de Henan, Xi apelou aos quadros dirigentes para colocarem “sempre em primeiro lugar a garantia da segurança da vida e dos bens da população”. Sobre o desastre que vitimou 73 pessoas, Si Ka Lon argumentou que a “situação catastrófica na província de Henan está intimamente ligada ao coração de toda a população de Macau” e que “os diversos sectores da sociedade de Macau manifestaram, através de diversas formas, o seu carinho e solidariedade, e organizaram donativos”.


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Chegou o dia da SJM GRAND LISBOA PALACE ABRE HOJE PORTAS AO PÚBLICO abertura, parcial, do Grand Lisboa Palace. O mega resort da SJM Holdings, que neoclássico e belle époque e nos custou cerca de 39 elementos tradicionais chineses, o resort honra o lendário património mil milhões dólares multicultural de Macau”. “A nossa visão para o Grand de Hong Kong para Lisboa Palace é que seja um hub gastronómico para amantes da se erguer no Cotai, boa mesa de todos os cantos do vai disponibilizar mundo. Queremos impressionar com experiências gastronómicas para já 300 quartos, inovadoras, criadas por marcas aclamadas e por parceiros de váde um total de 1900, rias partes do mundo”, afirmou Daisy Ho, em comunicado no e abrir parte dos passado dia 15 de Julho. restaurantes CORTESIA SJM

A joia da coroa

A construção do Palácio

A

PÓS sucessivos adiamentos e muita expectativa acumulada, o Grand Lisboa Palace abre portas hoje, ao meio-dia, marcando a aguardada entrada “em grande” da SJM Holding, Lda no Cotai. O mega-resort entrará em funcionamento de forma faseada, com a abertura hoje de 300 quartos e uma parte da oferta de restauração. Apesar da indicação anterior de que a nova aposta do grupo deveria abrir no final do primeiro semestre deste ano, a notícia da abertura caiu de surpresa. À margem da apresentação da mostra “Harmony of East and West – The Exhibition by Famous Local Artists”, a presidente do conselho de administração da SJM, Daisy Ho, revelou que vão ser disponibilizados 300 quartos, na primeira fase, mas que “os restantes serão colocados ao serviço, de acordo com a procura”. A responsável da operadora afirmou também que a segunda fase da abertura do Grand Lisboa Palace depende da evolução da pandemia. Em termos de ofertas para o paladar, um dos destaques será o Grand Buffet, um sucesso do pas-

Daisy Ho, presidente do conselho de administração da SJM “A nossa visão para o Grand Lisboa Palace é que seja um hub gastronómico para amantes da boa mesa de todos os cantos do mundo. Queremos impressionar com experiências gastronómicas inovadoras, criadas por marcas aclamadas e por parceiros de várias partes do mundo.”

sado do Grand Lisboa que será relançado oferecendo mais de 600 iguarias. Para os fãs da gastronomia portuguesa, o restaurante Mesa promete ser um local de referência para os sabores lusos. Haverá ainda uma charmosa e típica casa de chá, com a decoração a cargo do conceituado designer de Hong Kong Alan Chan, e para um restaurante tradicional de hotpot de Taiwan. Para

quem não dispensa a cozinha italiana e japonesa, o resort irá abrir dois restaurantes liderados por chefs reconhecidos com estrelas Michelin. Em comunicado emitido ontem, o grupo refere que o Grand Lisboa Palace “celebra o encontro do melhor de dois mundos - a essência encantadora do Oriente e do Ocidente. Inspirado nos monumentais edifícios europeus dos períodos

Habitação pública Admitidas 11 propostas de construção O Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas (GDI) admitiu 11 das 13 propostas recebidas a concurso público para a construção da habitação pública na avenida Venceslau de Morais, na zona da Areia Preta. Segundo um comunicado, decorreu ontem o acto público de abertura das propostas, sendo que uma delas não foi aceite e uma outra ainda carece da apresentação de documentos adicionais. Os preços das propostas de construção variam entre 1.1 e 1.4 milhões de pa-

tacas e os prazos de execução da obra variam entre os 710 e 755 dias de trabalho. Será construído um empreendimento de habitação social com três torres acima do pódio que poderá fornecer 1590 casas T1 e T2, incluindo um parque de estacionamento com três pisos em cave que vai dispor de 500 a 338 lugares. O prazo máximo de execução da obra é de 800 dias. O GDI determinou que a superestrutura do edifício tem de ser construída, no máximo, em 475 dias.

Como havia sido antecipado por Ambrose So, a SJM conseguiu 150 novas mesas de jogos. Já em 2019, o vice-presidente e director-executivo do grupo disse que iria pedir licença para 300 mesas de jogo para o novo resort, mas que esperava obter apenas 150. Até à hora do fecho desta edição, ainda era incerto o número de mesas disponíveis nesta primeira fase de abertura. No total, o Grand Lisboa Palace irá oferecer 1900 quartos e suites, distribuídos por três torres: O Grand Lisboa Palace Hotel, o Palazzo Versace e o hotel com a marca de “Karl Lagerfeld”, o histórico designer da casa Chanel. O mega-resort da SJM tem um custo estimado de 39 mil milhões de dólares de Hong Kong (HKD) e começou a ser construído em Fevereiro de 2014. No início das obras, o grupo estimava que a construção custasse 30 mil milhões de HKD e abrisse ao público em 2017. Recorde-se que a edificação do resort enfrentou severos contratempos, incluindo a devastação causada pelo tufão “Hato” e vários incêndios que levaram a evacuações do estaleiro e a investigações das autoridades policiais. João Luz

DSSOPT Emitida licença para mais 1.297 fracções habitacionais

Entre Abril e Junho, a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) emitiu a licença de utilização para três empreendimentos habitacionais privados, disponibilizando assim 1.297 fracções. Em comunicado, a DSSOPT revelou ainda que 71 empreendimentos habitacionais, uns em construção (ainda não vistoriados) e outros concluídos (em vistoria), obtiveram também licenças de utilização, que visam proporcionar 3.105 fracções no futuro. Em fase de projecto encontram-se 109 empreendimentos habitacionais, representando mais de 8.900 fracções. Quanto à construção de empreendimentos hoteleiros, a DSSOPT apontou que, no total, estão em construção 17 empreendimentos hoteleiros que vão dispor de 6.620 quartos e que, em fase de projecto, estão de 19 empreendimentos hoteleiros com 1.867 quartos.

TURISMO OCUPAÇÃO MÉDIA HOTELEIRA CAI 16,8% EM JUNHO

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O espaço de um mês, a taxa de ocupação média hoteleira em Macau caiu de 62,1 por cento em Maio para 43,5 por cento em Junho, uma queda de 16,8 pontos percentuais, anunciou ontem a Direção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Através de comunicado, o organismo justifica que o retrocesso ficou a dever-se ao reforço das medidas de prevenção e controlo da pandemia de covid-19 no início de Junho, entre a província de Guangdong e Macau. Por outro lado, em termos anuais, o número de hóspedes nos hotéis e pensões de Macau cresceu 245 por cento (469 mil pessoas) relativamente a Junho de 2020, altura em que as fronteiras estavam praticamente fechadas a visitantes. Os números de hóspedes do Interior da China (357 mil) e o de hóspedes locais (83 mil) cresceram 418,2 e 56,8 por cento, respectivamente. Segundo a DSEC, entre Janeiro e Junho de 2021 a taxa de ocupação média dos quartos de hóspedes dos hotéis e pensões foi de 50,4 por cento, aumentando 23,2 pontos percentuais relativamente ao semestre do ano anterior. Contas feitas, ficaram hospedadas 3,3 milhões de pessoas, um crescimento de 84,5 por cento, quando comparado com os primeiros seis meses de 2020. No mês passado Macau continuou sem receber visitantes integrados em excursões do exterior, sendo que o número de visitantes em excursões locais foi de 6.600. Em sentido contrário, o número de residentes de Macau que viajaram para o exterior com recurso a serviços de agências de viagens correspondeu a 15.000, dos quais 98 por cento rumaram ao Interior da China. P.A.


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COVID-19 MAIS QUARENTENAS E TESTES PARA QUEM VEM DO INTERIOR DA CHINA

Caminho volta a estreitar

“Os lugares considerados de médio e alto risco aumentaram”, enquanto que “os lugares de médio risco passam a incluir toda a cidade e não apenas algumas ruas ou distritos.” ALVIS LO DIRECTOR DOS SSM

serem submetidas a três testes de ácido nucleico.

Mau entendimento

Alvis Lo declarou que actualmente “os lugares considerados de médio e alto risco aumentaram”, enquanto que “os lugares de médio risco passam a incluir toda a cidade e não

TIAGO ALCÂNTARA

A

ocorrência de surtos de covid-19 em vários locais na China está a obrigar as autoridades a apertar as medidas de prevenção. Desde as 19h de ontem que quem viajar das cidades de Zhangjiajie, na província de Hunan, e Chengdu, na província de Sichuan, é obrigado a realizar uma quarentena de 14 dias no território. No entanto, no caso da cidade de Chengdu, apenas estão abrangidos alguns distritos. As medidas, anunciadas ontem em conferência de imprensa do Centro de Coordenação e de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus, incluem ainda a cidade de Ruili e o Condado de Longchua, em Yunnan; um bairro residencial em Shenyang, província de Liaoning e diversas zonas e cidades no distrito de Jiangsu, onde se pensa que terá tido início o surto do aeroporto de Nanjing. Além disso, Alvis Lo, director dos Serviços de Saúde de Macau (SSM), referiu que “todas as pessoas que vierem directamente do Interior da China para Macau, através de voos, têm de apresentar antes um teste de ácido nucleico negativo com 48 horas de validade”. Esta medida entra em vigor à meia noite deste sábado, 31 de Julho. No caso da cidade de Zhangjiajie, o surto de covid-19 está associado ao “Espectáculo Maravilhoso Xiangxi”, que teve lugar no passado dia 22. As autoridades sabem que há três excursões de residentes de Macau nesta cidade e também em Chengdu, mas as pessoas não assistiram ao espectáculo. Além disso, 100 pessoas já fizeram o registo no seu código de saúde em como estiveram em Zhangjiajie desde o dia 17 de Julho. Estas terão de fazer quarentena e

GCS

Desde as 19h de ontem que quem chegar das cidades de Zhangjiajie, em Hunan, e Chengdu, em Sichuan, é obrigado a realizar uma quarentena de 14 dias. Passa também a ser obrigatório, a partir da meia noite de sábado, teste à covid-19 negativo para quem voar das cidades do Interior da China

determinados por Zhuhai não estão em Macau”, frisou. Tai Wa Hou, responsável pelo programa de vacinação, referiu ainda a ocorrência de um “evento adverso grave” associado à vacina da Pfizer/BionTech.  “Um rapaz de 17 anos, no dia 27 de Julho, teve problemas cardíacos e foi à urgência dia 28. Fez os testes, incluindo análises ao sangue. Teve alta, saiu do hospital, mas à tarde as dores no coração agravaram-se e voltou de novo ao Centro Hospitalar Conde de São Januário. Concluímos que tinha miocardite.Após um período de descanso deixou de ter dores e está agora numa situação estável.” O rapaz recebeu a segunda dose da vacina esta segunda-feira. “Consideramos que este é um evento adverso grave após a vacinação”, adiantou Tai Wa Hou. 

apenas algumas ruas ou distritos”. O responsável voltou a apelar à vacinação durante as férias de Verão e pediu que as pessoas evitem deslocações ao exterior. Relativamente ao caso de infecção em Zhuhai, mais de 2600 pessoas de Macau registaram nos seus códigos de saúde terem feito o mesmo

percurso da pessoa infectada, mas Leong Iek Hou admitiu a ocorrência de falhas neste processo. “Muitas pessoas tiveram um mau entendimento sobre o percurso que tiveram. Entende-se por percurso cruzado estar no mesmo local e à mesma hora que o infectado. Os casos de contacto próximo

Na conferência de imprensa de ontem, foi também referida a situação de residentes de Hong Kong que optam por realizar a quarentena em Macau e não em Shenzhen. Em Junho, foram feitos dez pedidos de consulta, e este mês 21. “Há uma tendência de aumento, mas temos quatro hotéis seleccionados para quarentenas e neste momento o número de quartos é suficiente”, adiantou Lam Tong Hou, representante dos Serviços de Turismo. Andreia Sofia Silva

Saúde mental Mulheres pedem mais subsídios A Associação das Mulheres de Macau considera que o Governo deve aumentar os subsídios destinados ao Centro de Consulta para Cuidados Psicológicos integrado no organismo, com o objectivo de aumentar o número de vagas disponíveis. Isto quando, empolado pela pandemia, entre Janeiro e Julho de 2021, o centro de apoio psicológico da associação recebeu 417 novos pedidos de ajuda, registo que representa já 80 por cento do total de pedidos de apoio verificados em 2020. Segundo o canal chinês

da TDM-Rádio Macau, 41 por cento das situações dizem respeito a casos de tentativa de suicídio e automutilação. De acordo com a mesma fonte, o Centro de Consulta para Cuidados Psicológicos da Associação das Mulheres defende que o Governo deve aumentar o número de sessões de apoio subsidiadas, tendo em conta que, tanto o aumento das situações de desemprego, como as mudanças verificadas ao nível da atmosfera social podem impactar o bem-estar social da população.


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ARTE MACAU “INTERTWINE”, O PAVILHÃ

Bambu

É hoje inaugurado, às 18h, o p quitectura da Universidade de da Bienal Internacional de Art construção em bambu, traz tam

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campus da Universidade de São José (USJ), na Ilha Verde, recebe hoje um novo pavilhão inteiramente construído em bambu pelos alunos finalistas do curso de arquitectura.  “Intertwine” celebra não só as técnicas tradicionais de construção de andaimes em bambu no sector da construção civil mas acrescenta-lhe ainda técnicas inovadoras, conforme contou ao HM o arquitecto Nuno Soares, coordenador do projecto.  “Todos os anos, desde 2013, que fazemos um pavilhão de bambu em que são usadas as técnicas tradicionais juntamente com novas técnicas digitais e a criatividade dos nossos alunos. Neste caso, o exterior do pavilhão entrelaça-se com o interior e é usado um material tradicional, mas cria-se uma forma e existência especial muito dinâmicas, fluídas e inovadoras.” O projecto “Intertwine” integra a edição deste ano da Bienal Internacional de Arte de Macau, algo que para Nuno Soares constitui uma boa oportunidade

INSTITUTO CULTURAL CANDIDATURAS PARA APOIOS À PRODUÇÃO DE ÁLBUNS ABREM EM AGOSTO

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Instituto Cultural (IC) recebe, a partir do dia 16 de Agosto, candidaturas para a sexta edição do “Programa de Subsídios à Produção de Álbuns de Canções Originais”, e que podem ser entregues até ao dia 30 de Setembro. O programa deste ano tem duas categorias de apoio financeiro para a produção de um álbum e de um mini álbum. Para cada projecto seleccionado será atribuído um subsídio que varia entre 135 e 270 mil patacas, sendo

concedidos apoios a um máximo de três a seis beneficiários para ambas as categorias. Os critérios de selecção dos projectos passam pela “criatividade da composição, das letras, do arranjo e da produção musical”, bem como pela “qualidade da actuação do intérprete do álbum, racionalidade orçamental do projecto e conceito de álbum”. O júri vai também analisar “as qualificações da equipa e o grau de perfeição do projecto de produção”, bem como a “pro-

posta de promoção do álbum”. Os subsídios prometem cobrir os custos de produção do álbum, o design da capa e a promoção do trabalho discográfico. Os candidatos à categoria de álbum devem assumir a função de produtor discográfico ou intérprete do álbum a título individual. Os candidatos à categoria de mini-álbum devem assumir a função de intérprete do álbum a título individual. Todos os candidatos devem ser residentes permanentes.

Festival Arroz Edição especial este sábado no LMA

É já este sábado que as portas do espaço Live Music Association (LMA) recebem uma edição especial do Festival Arroz, que já levou várias bandas e músicos locais ao palco. Desta vez o evento intitula-se “School Arroz”, estando a música programada para acontecer entre as 18h e as 22h, com destaque para as bandas de Macau. O cartaz é composto pelos grupos Boulevard + Roberto Madan, Brownie + Felix ( Rebel Rabbit ), Corvus + Angus ( Scamper ), Innocence. T + Justin ( Amulets ). Os bilhetes custam entre 50 e 80 patacas.

Nuno Soares considera o “Intertwine” “ no nosso quotidiano e ver que pode se

DANÇA CENTRO CULTURAL D

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pequeno auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) recebe, entre os dias 24 e 25 de Setembro, o espectáculo de dança intitulado “Morfose Latente”, da autoria do coreógrafo local Keith Lao, e que se apresenta como uma “peça de dança avant-garde”, interpretada por um “vibrante grupo de bailarinos”, não apenas de Macau, mas também de Guangdong.  “Morfose Latente” não é mais do que uma visão de Macau a três dimensões, onde a cidade é reconstruída de diversas formas. Segundo um comunicado do Instituto Cultural (IC), este espectáculo “faz parte da fase final do projecto de intercâmbio guiado por Sang Jijia, coreógrafo sediado em Pequim, e pela Companhia Cidade de Dança Contemporânea, de Hong Kong”. 


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ÃO QUE TAMBÉM OLHA PARA O FUTURO

u intemporal

pavilhão de bambu construído pelos finalistas do curso de are São José. O projecto “Intertwine” integra a edição deste ano te de Macau e, além de recorrer a uma técnica tradicional de mbém inovação e um olhar sobre o futuro para os alunos mostrarem aquilo que valem antes de integrarem o mercado de trabalho.  “Este é o último projecto antes de se licenciarem, e queremos que saiam em grande e que acabem o curso com um projecto de excelência. Este tem grandes dimensões, [é feito] com uma técnica construtiva original e é o momento em que os alunos conseguem fazer o projecto do início ao fim num curto período de tempo, uma vez que normalmente os projectos de arquitectura demoram meses a ficarem concluídos.”

Pátio com céu

“aliciante”, uma vez que permite “olhar para uma técnica que todos conhecemos er usada para criar uma arquitectura inovadora ou pode ser levada para o futuro”

“Intertwine” não é mais do que um pátio onde, quando se entra, se vê o céu. Além de já integrar uma exposição, a ideia é que este pavilhão possa também receber outro tipo de eventos. “Temos uma chamada para projectos onde diferentes organismos dentro da USJ e da comunidade à volta podem fazer eventos. Não queremos que seja uma escultura mas sim um espaço usado pela comunidade académica e envolvente.

Estamos a convidar a cidade para entrar no campus da USJ e trocar ideias com a comunidade académica”, explicou o arquitecto. Nuno Soares considera o “Intertwine” “aliciante”, uma vez que permite “olhar para uma técnica que todos conhecemos no nosso quotidiano e ver que pode ser usada para criar uma arquitectura inovadora ou pode ser levada para o futuro”.  Para o arquitecto, construir com bambu é recorrer “a um elemento do passado que tem muito futuro ainda”. Mas há também uma ideia de sustentabilidade em torno deste pavilhão, uma vez que “o bambu vai continuar a ser usado depois”. “Há também uma mensagem de reutilização e de sustentabilidade, e que é uma das marcas do curso de arquitectura”, adiantou.  O pavilhão de bambu “Intertwine” pode ser visitado ou utilizado pela comunidade até ao dia 28 de Setembro de segunda-feira a sábado das 9h às 19h. Andreia Sofia Silva PUB.

DE MACAU RECEBE “MORFOSE LATENTE” EM SETEMBRO “Da linha do horizonte e passeios repletos às ruas estreitas, dos semáforos à singularidade dos odores, ‘Morfose Latente’ mistura a estética do movimento humano com salpicos de tecnologia”, descreve o IC. Keith Lao “adicionou consistência à peça, enquadrando-a numa nova abordagem musical e imagética”, tendo ainda trabalhado em parceria com o engenheiro de som experimental

de Hong Kong, Dickson Dee, e o designer visual local O Chi Wai. O IC conta ainda que Keith Lao “já viveu inúmeras experiências performativas e criativas”, tendo também colaborado em diversos projectos “com aclamados coreógrafos” de outros países. Um dos exemplos é a colaboração do coreógrafo no programa orientado pelos mestres de dança internacionais William Forsythe e Leigh Warren. Além disso, Keith também participou num projecto educacional desenvolvido pela reconhecida companhia de Dança Teatro Cloud Gate de Taiwan. Os bilhetes para assistir a “Morfose Latente” podem ser adquiridos a partir deste domingo, tendo um custo de 180 patacas, além de vários descontos para grupos.

MÚSICA LANÇADO VIDEOCLIPE DE “PRIMAVERA”, QUE INTEGRA ÁLBUM DE MARIA MONTE

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Á pode ser visto no YouTube [https://youtu.be/ WR_QF2sMwVI ] o novo videoclipe da música “Primavera”, que integra o projecto discográfico “Laços”, de Maria Monte. Lançado em diversas plataformas digitais, “Laços” é um EP produzido pelo músico João Caetano, nascido no território e actualmente a residir em Londres. “Primavera” é um tema que “invoca a esperança em tempos de pandemia”, mas “Laços” tem também músicas como “Macau” que invoca, “de forma ardente, a cidade poética” e “Concha”, que vagueia entre “a paixão e o vazio de uma relação de amor”. Segundo uma nota de imprensa, “todos os temas combinam as nuances emocionais que impactam as cidades de Lisboa e Macau com uma densidade rítmica correspondente”. Além da colaboração de João Caetano, este EP conta também com a participação de músicos de jazz a viver em Londres e de Karme Caruso. 

Maria Paula Monteiro, verdadeiro nome de Maria Monte, integrou várias formações musicais no passado, tendo trabalhado com nomes como António Emiliano, Ramon Galarza, Paulo Pedro Gonçalves, Pedro Ayres de Magalhães, e bandas como os Delfins e Sétima Legião. Adoptou o nome Spunky e lançou o single “Latino-Americano” com produção de José Maria Côrte-Real. Maria Paula Monteiro colaborou ainda com o projecto Zanzibar, que incluiu nomes como Tito Paris, Dalu e Fernando António, tendo lançado o álbum “Terra de Ninguém”. Em Agosto de 1987 foi lançado o single “Boys And Girls”, novamente com produção da Nice Tan Productions. A cantora participou no Festival da Canção 1993 mas manteve sempre o seu vínculo a Macau, ao participar em duas colectâneas de música como cantora. Gravou para a Valentim de Carvalho, Polygram (agora Universal) e EMI.  


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HUAWEI TELEMÓVEIS FORA DO ‘TOP 5’

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grupo de telecomunicações Huawei ficou fora do ‘top 5’ nas vendas de telemóveis na China, no segundo trimestre do ano, pela primeira vez em mais de sete anos, segundo dados divulgados ontem pela consultora Canalys. Entre Abril e Junho, foram vendidos 74,9 milhões de ‘smartphones’, uma queda homóloga de 17 por cento. Entre as cinco marcas com maior quota de mercado estão a Vivo (24 por cento), Oppo (21 por cento), Xiaomi (17 por cento), Apple (10 por cento) e Honor (9 por cento). AHonor pertencia à Huawei, mas foi vendida a um conglomerado público, para evitar as sanções impostas à empresa-mãe pelos EUA, no âmbito da guerra comercial e

EUA NOVO EMBAIXADOR CHINÊS NO PAÍS EM PERÍODO VOLÁTIL NAS RELAÇÕES

tecnológica entre Pequim e Washington. De acordo com a Canalys, a Honor vendeu 6,9 milhões de telemóveis na China no segundo trimestre, um crescimento de 40 por cento, em relação ao trimestre anterior. A marca que mais cresceu em termos homólogos foi a Xiaomi, com uma subida de 35 por cento, ficando em terceiro lugar, em parte devido ao aproveitamento do espaço deixado pela Huawei. O novo campo de batalha será os telemóveis Android de última geração, e o terceiro trimestre de 2021 será uma “janela de oportunidade” para a competição entre as grandes marcas, já que, por enquanto, nenhuma conseguiu igualar a força das séries P e Mate, da Huawei, no país asiático. PUB.

AVISO COBRANÇA DA CONTRIBUIÇÃO ESPECIAL 1. Faço saber que, o prazo de concessão por arrendamento dos terrenos da RAEM abaixo indicados, chegou ao seu término, e, que de acordo com o artigo 53.º da Lei n.º 10/2013 <<Lei de Terras>>, de 2 de Setembro, conjugado com os artigos 2.º e 4.º da Portaria n.º 219/93/M, de 2 de Agosto, foi o mesmo automaticamente renovado por um período de dez anos a contar da data do seu termo, pelo que devem os interessados proceder ao pagamento da contribuição especial liquidada pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. Localização dos terrenos: - Estrada Marginal da Areia Preta, n.ºs 9 a 87, Avenida do Almirante Magalhães Correia, n.ºs 86 a 114 e Praceta de Venceslau de Morais, n.ºs 138 a 202, em Macau, (Edifício Centro Industrial Polytex); - Avenida do Dr. Rodrigo Rodrigues, n.ºs 1097A a 1133A, em Macau, (Caltex); - Estrada do Repouso, n.ºs 50 e 50A, em Macau, (Edifício Tak Fai); - Rua Correia da Silva, n.ºs 142 a 150, na Ilha da Taipa, (Edifício Pensão Asia Boutique). 2. Agradece-se aos contribuintes que, no prazo de 30 dias subsequentes à data da notificação, se dirijam à Recebedoria destes serviços, situada no rés-do-chão do Edifício “Finanças”, ao Centro de Serviços da RAEM, ou, ao Centro de Serviços da RAEM das Ilhas, para os efeitos do respectivo pagamento. 3. Na falta de pagamento da contribuição no prazo estipulado, procede-se à cobrança coerciva da dívida, de acordo com o disposto no artigo 6.º da Portaria acima mencionada. Aos, 7 de Julho de 2021. O Director dos Serviços de Finanças Iong Kong Leong

Labirintos diplomáticos O novo embaixador da China nos Estados Unidos descreveu ontem os desafios que ambos países enfrentam numa relação cada vez mais competitiva e contenciosa, após chegar a Washington para assumir o cargo, enfatizando que a “porta” não pode fechar-se. Em comentários difundidos pela embaixada da China, Qin Gang garantiu que a “porta” das relações “não pode mais ser fechada”, e assegurou que os laços entre as duas potências reflectem a “tendência do mundo, o espírito da era actual e a vontade dos povos”. O novo emissário de Pequim enfatizou que as relações China - EUA “progrediram apesar das curvas e obstáculos” ao longo do último meio século. “A China e os Estados Unidos estão a entrar num novo nível de exploração, compreensão e adaptação mútuas, e a tentar encontrar uma maneira de se relacionarem nesta nova era”, disse Qin Gang. A chegada de Qin ocorre após a relação bilateral se ter deteriorado rapidamente para o pior nível em décadas. Os dois lados travam uma prolongada guerra comercial e tecnológica e mantêm diferendos sobre questões de Direitos Humanos e cibersegurança, o estatuto de Hong Kong e Taiwan ou a soberania do Mar do Sul da China. Qin, de 55 anos, ocupou o cargo de vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da China e serviu como porta-voz do ministério por duas vezes, ganhando reputação pelo seu tom agressivo.

as profundas divisões entre os dois países. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Xie Feng, disse à vice-secretária de Estado, Wendy Sherman, que os Estados Unidos são o “inventor e proprietário da patente e da propriedade intelectual” da diplomacia coerciva. Numa reunião separada com Sherman, o ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, disse que Pequim não tolera o que considera a interferência dos EUA nos seus assuntos internos e principais interesses de desenvolvimento.

Ao lado dos líderes

“Os seus comentários públicos para o Ocidente e os EUA são mais duros do que os embaixadores chineses de mandatos anteriores”, disse Shi Yinhong, professor de relações internacionais da Universidade Renmin, em Pequim. Os EUA não têm, actualmente, embaixador em Pe-

quim, embora se espere que o Presidente Joe Biden indique Nicholas Burns, ex-embaixador na NATO [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e porta-voz do Departamento de Estado. As reuniões de alto nível realizadas esta semana na cidade portuária de Tianjin, norte da China, voltaram a revelar

“A China e os Estados Unidos estão a entrar num novo nível de exploração, compreensão e adaptação mútuas, e a tentar encontrar uma maneira de se relacionarem nesta nova era.” QIN GANG NOVO EMBAIXADOR DA CHINA NOS ESTADOS UNIDOS

Qin substitui Cui Tiankai, que foi embaixador nos Estados Unidos durante oito anos, assistindo à constante deterioração nos laços. O novo embaixador chefiou anteriormente o Departamento de Protocolo, mas não ocupou nenhum cargo directamente responsável pelas relações com os EUA, de acordo com seu currículo oficial no portal do ministério. Como chefe de protocolo, trabalhou directamente com o Presidente chinês, Xi Jinping, e tem ampla experiência no acompanhamento de líderes chineses no exterior. Citado pela Associated Press, Shi advertiu que o estado das relações EUA - China limitaria a influência de qualquer embaixador. “Nas actuais circunstâncias de competição e confronto total entre a China e os EUA, não acho que nenhum embaixador possa ter um impacto significativo nas relações”, disse.

AMBIENTE AUTORIDADES ALERTAM PARA “CLIMA EXTREMO” EM AGOSTO

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S autoridades chinesas alertaram ontem que algumas áreas do país vão continuar a ser afectadas por eventos de “clima extremo”, ao longo do mês de Agosto, informou o jornal oficial em língua inglesa China Daily. Na China, as enchentes já afectaram cerca de 35 milhões de pessoas este ano. O saldo de mortos ou desaparecidos fixou-se, até à data, em 146, e cerca de 72.000 casas desabaram, enquanto as perdas económicas ascenderam a 123 mil milhões de yuans.

Em Julho e Agosto a China sofre frequentemente inundações e, embora a precipitação média nacional tenha sido 1,1 por cento menor desde o início desta época, em relação ao ano passado, algumas partes do país foram

fortemente afectadas por chuvas torrenciais nas últimas semanas. Os casos mais graves ocorreram na província central de Henan, onde o número de mortos ascendeu a 73. Entre os dias 17 e 22 deste mês, 39 cidades da região registaram chuvas que ultrapassaram a média anual. Zhou Xuewen, vice-ministro da Gestão de Emergências, disse que o país deve melhorar o seu sistema de previsão do tempo e pediu às autoridades locais que testem os sistemas

de resposta a emergências para “garantir que são eficazes”. Desde 17 de Julho passado, as autoridades realocaram cerca de 1,6 milhão de pessoas afectadas pelo clima. O norte e o sul do país vão registar fortes chuvas antes da chegada de Agosto e, entre meados e o final desse mês, fenómenos semelhantes ocorrerão na região de Pequim e nos seus arredores, e nas províncias da Mongólia Interior (norte) e Heilongjiang, Jilin e Liaoning (nordeste).


sexta-feira 30.7.2021

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FICÇÃO, ENSAIO, POESIA, FRAGMENTO, DIÁRIO

entre oriente e ocidente

GONÇALO M. TAVARES

Luz e fogo (3)

Máquina e identidade

A PARTIR DA EXPOSIÇÃO NATUREZA FANTASMA, DE MARCO MARTINS 1.

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A máquina apoderou-se da memória e a fotografia introduziu uma tristeza técnica que antes não existia. A tristeza a que um quadro tem acesso não é da mesma dimensão da tristeza a que se acede por via de uma fotografia. Na imagem captada pela técnica, há a sensação de um momento que se perde para sempre e que na pintura, no desenho ou na escrita não existe da mesma maneira. O realismo introduzido pela imagem técnica coloca o coração do memorioso em evidentes apuros. É evidente que te podes comover até com a arte abstracta, ponto linha e plano de Kandinsky, o senhor estético que chora uma lágrima qualquer por causa de uma qualquer linha azul. Mas tais sujeitos delicados são raros. Mesmo a pintura figurativa ou a descrição detalhada de um familiar, por via da escrita, jamais chegam a esse punctum em forma de poço ou queda que existe na fotografia de um nosso familiar que já morreu ou na nossa própria fotografia anos atrás – esta nossa fotografia que retrata, digase, um familiar nosso que já morreu. Nunca somos nós na fotografia: na fotografia somos um familiar defunto de nós próprios. Só não choramos sempre que vemos uma fotografia nossa por distracçãoou pudor. Agora e na hora da nossa morte. A nossa fotografia, de há trinta anos é também, então, a fotografia de um familiar que morreu - um familiar bem próximo, o mais próximo que existe, aliás. Mas como designar este familiar que está na fotografia e que sou eu, afinal, anos atrás? Não é o meu irmão mais velho ou mais novo, não é o meu pai nem o meu filho, sou eu, mas claro que não sou eu. Eu já não sou o que fui - e as formas verbais da linguagem ensinam o possível ao portador afectivo dessa linguagem - e tenho aquilo que fui nas minhas mãos quando pego numa fotografia. E sim, é urgente encontrar um nome para este estranho familiar que a fotografia coloca à minha frente. É aquilo que eu já não sou, é o meu não, o meu negativo, o meu antes. ILUSTRAÇÃO ANA JACINTO NUNES


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expectoração

SARA F. COSTA

Era uma menina bem comportada, como as meninas têm tendência a ser. Uma longa tradição de família em terse orgulho na demonstração de competências cognitivas, sobretudo femininas. Menos mal, não me educaram para ser a melhor, apenas para nunca atingir um nível de vergonha própria e alheia. É verdade, por vezes até anexava um bocadinho o meu sentido de valor próprio aos números que iam surgindo. Nada de grave, há casos bem piores. Se fazia mal as contas levava reguada (ainda bem que entretanto nos fomos livrando destas técnicas pedagógicas do paleolítico) e quando levava reguada, sabia que professora não estava a olhar para a aluna dedicada e algo talentosa, estava a olhar para as contas mal feitas. Não é como se doesse menos, mas havia um princípio democrático - o castigo era aplicável a todos devido ao resultado de uma ação. Em democracia, queremos igualdade de tratamento e, acima de tudo, objetividade. Havia razões para o castigo - e não vou entrar aqui na discussão da noção de castigo como método porque esse

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30.7.2021 sexta-feira

A democracia não nos prepara para a ditadura não é o meu objetivo. Se tivesse um bom desempenho nas aulas mas os testes corriam-me mal, a minha nota ia ser uma conta feita através dessa balança. Os critérios de avaliação eram transparentes e isso era importante. Ninguém me dava uma nota com base naquilo que fazia no recreio ou por me vestir toda de preto com pentágonos, nem pela forma como questionava os professores. Eram sempre questões que provinham da lógica argumentativa e, mesmo que alguns professores tivessem um pouco mais de dificuldades em lidar com o confronto, ele

saia do campo da avaliação de minha performance. A forma como me vestia, a forma como confrontava os professores com alguma injustiça na avaliação ou com matérias fora do programa, não interferiam com a minha avaliação que se regia por imparcialidade, racionalidade e não por emotividade. Justiça e democracia em todo o processo. Ninguém me tinha dito que o mundo do trabalho privado seria uma ditadura! Ok, provavelmente alertaram-me para isso constantemente de outras formas como “vais ver quando começares a trabalhar” ou outro tipo de

NINGUÉM ME TINHA DITO QUE O MUNDO DO TRABALHO PRIVADO SERIA UMA DITADURA! OK, PROVAVELMENTE ALERTARAM-ME PARA ISSO CONSTANTEMENTE DE OUTRAS FORMAS COMO “VAIS VER QUANDO COMEÇARES A TRABALHAR” OU OUTRO TIPO DE PREMONIÇÕES DEMONÍACAS. O CERTO É QUE TER COMEÇADO COM UMA CARREIRA ACADÉMICA NÃO ME TINHA PREPARADO PARA TUDO O QUE ME ESPERAVA NO TRABALHO EM EMPRESAS

premonições demoníacas. O certo é que ter começado com uma carreira académica não me tinha preparado para tudo o que me esperava no trabalho em empresas. Se nos formam para acreditar na justiça e no mérito, não nos formam para ter que lidar com estruturas que pouco têm de meritocrático porque a sua atribuição de estatuto depende exclusivamente da relação ao capital e, consequentemente, do poder inquestionável que este lhes confere. Trabalhei em sítios onde me exigiam que andasse de saltos altos. Fui despedida por ter confrontado a minha chefe mesmo que os números do meu trabalho fossem os mais altos entre pares. Fui guiada em áreas do meu domínio por pessoas sem o menor conhecimento da área. Tal como na escola, tinha tarefas para executar e tentava executá-las. Contudo, o desempenho de funções numa empresa nem sempre depende da transparência e da objetividade de critérios como numa escola. “É o mundo real” dizem. Talvez. Mas por vezes gostaria que me deixassem a um canto a sonhar com utopias.


sexta-feira 30.7.2021

ofício dos ossos

VALÉRIO ROMÃO

Quando descobri, em Clermont-Ferrand, que os parquímetros da cidade tinham sido arrombados todos na mesma noite mas que, ainda assim, davam a aparência de estarem fechados e a funcionar, vi-me de repente em tio Patinhas, banheira cheia de moedas para trocar por livrinhos de banda desenhada, gelados de seis andares no Verão e saquetas de cromos para acabar todas as cadernetas a que faltavam apenas meia dúzia em cada uma. Os meus pais davam-me dinheiro, como é óbvio. Uma espécie de mesada que tinha de dividir com cuidado para ir comprando um lanche aqui e ali na escola e umas canetas. Mas pouco sobrava. Ou, na minha opinião, pelo menos, não o suficiente. Pelo que quando me apercebi de que todos os parquímetros da cidade se tinham transformado no meu mealheiro, não só passei a demorar cada vez mais tempo da escola para casa como passei a chegar cada vez mais pesado. Os mealheiros que me tinham oferecido ficaram a abarrotar em menos de nada. Comecei então a depositar o fruto das minhas passeatas pós-lectivas num vaso de plástico a que a minha mãe não tinha ainda atribuído morador. Guardava-o debaixo da cama e, a seguir ao jantar, com os meus pais ainda à mesa, refugiava-me no quarto e contava as moedas, com medo de que entretanto alguém me tivesse surripiado umas quantas (o dinheiro vem de mão dada com uma série de coisas pouco simpáticas que eu, à altura, desconhecia). Certo dia aproveitei o bom humor do meu pai para lhe confessar que preferia gatos a cães. Ele, nascido e criado no campo, na serra algarvia, não percebia porquê. Os animais, para o meu pai, ou tinham uma serventia ou não tinham lugar no círculo doméstico mais alargado. Eralhe absolutamente estranha a ideia de «animal de estimação». Isso era coisa de gente a quem o dinheiro a mais espoletava a adopção de toda a sorte de comportamentos excêntricos pouco desejáveis. «Um gato para quê?», perguntou-me? «O

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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Quando a emel lá no estrangeiro me deu um gato que vais fazer com um gato?» Na verdade, nem eu próprio sabia. Sentia-me sozinho, tinha pouquíssimo amigos e imaginava que um gato pudesse de alguma forma suprir ou pelo menos minorar essa carência. «Para brincar com ele», respondi, timidamente. «Um gato sai caro», asseverou. «Já temos dois cães, já gastamos tudo quanto

podemos gastar em comida para os bichos». Tinha esperança de que ele me tentasse dissuadir sacando do trunfo do dinheiro. «Eu pago», repliquei. «Eu tenho dinheiro». Ele riu-se. «Então mostra lá esse dinheiro», gracejou, «a ver quantos dias consegues dar de comida ao animal, que tu não tens noção do preço das rações». Eu fui buscar

QUANDO DEPOSITEI SOBRE A COLCHA DA CAMA O DINHEIRO EM FALTA, O SORRISO TRANSFORMOU-SE NUM ESGAR DE PERPLEXIDADE. TIVE DE LHE EXPLICAR TUDO, OBVIAMENTE. NEM A MAIS POUPADA FORMIGA DAS HISTÓRIAS INFANTIS ERA CAPAZ DE REUNIR AQUELA MAQUIA

um dos mealheiros, atulhado até à boca de moedas e despejei-o em cima da mesa da cozinha. Ele olhou para as moedas, para mim, para as moedas novamente e logo para mim. Não fez perguntas. Eu mantive-me estrategicamente em silêncio. «Quando aparecer aí nas redondezas uma gata que tenha uma ninhada, a gente conversa». Acabei por ter um gato, um mês e pouco depois. O meu pai, pensando que eu era a criança mais poupada da história das crianças poupadas, não só mo trouxe a casa como me acompanhou orgulhoso ao supermercado para comprar um areão e comida para ele. A senhora da caixa, impermeável à vaidade paterna, reclamava da quantidade de moedas que tinha de contar. O meu pai, impassível, repetia: «algum problema? É dinheiro, não é?». Certa vez, vínhamos para Portugal em Agosto, cumprir a romaria de imigrantes a que estávamos votados na altura, o carro avariou, perto de Bordéus. Tivemos de ficar dois dias num hotel. Eu, o meu pai e a minha mãe num quarto e os dois cães e o gato num anexo no último andar. Na hora de pagar o arranjo e as diárias, o meu pai viu-se curto de massas. Discutiu o assunto com a minha mãe; que ali não havia uma dependência do banco dele, que o melhor seria pedir emprestado a alguém, que pudesse mandar um vale postal, e pagar depois. Mas teríamos de ficar mais dois ou três dias, o que encarecia bastante a situação. Eu ofereci-me para cobrir a parte que faltava. «Afinal, também vou no carro», atirei. «E assim não perdemos tantos dias de férias». O meu pai riuse. Quando depositei sobre a colcha da cama o dinheiro em falta, o sorriso transformouse num esgar de perplexidade. Tive de lhe explicar tudo, obviamente. Nem a mais poupada formiga das histórias infantis era capaz de reunir aquela maquia. Ele riu-se e acho que entredentes resmoeu «filho da puta», mas na altura não percebi bem. Pagámos e passado dia e meio estávamos em Portugal. Nós e os bichos.


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“Ashin of the North” é o episódio 9 com 5 3 de2um especial, a duração filme, 8 da fantástica série coreana 6 “Kingdom”, disponível no Netflix. Enquanto não chega9a aguardada1 terceira1 série de2 época, 5regada 4 a sangue por lutas de poder e es9 7este episódio8 fomeados zombies, especial constrói3a fantástica perso-9 0 nagem Ashin. A história da heroína 0 começa2com a trágica e7 dura3vida de uma menina pertencente a uma 8 2 tribo deslocada geograficamente, envolvida 0 numa8 sanguinária luta política pelo poder, numa Coreia 3 pela 7invasão 8japonesa 6 devastada (final do século XVI). Vítima da tensão entre lealdade e traição, Ashin 24 transforma-se numa máquina de vingança. Extraordinária fotografia, 0 6 2 7 5 visualmente deslumbrante, apesar da violência. João Luz 9 1 3

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THE BOSS BABY: FAMILY BUSINESS [B]

FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS Um filme de: Tom McGrath Com: Alec Baldwin, Jeff Goldblum, Ariana Greenblatt, Jimmy Kimmel 14.30, 16.30, 19.30

BLACK WIDOW [B]

Um filme de: Cate Shortland Com: Scarlett Johansson, Florence Pugh, Rachel Weisz, David Harbour 21.30

SALA 3

LUCA [A] FALADO EM CANTONÊS Um filme de: Enrico Casarosa 14.15

BUTT DETECTIVE THE MOVIE: THE CASE OF THE COURAGEOUS CURRY + MYSTERY OF THE LADYBUG RUINS [B] FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS Um filme de: Hiroki Shibata 16.00

SALA 2

OLD [C]

Um filme de: Jaume Collet-Serra Com: Dwayne Johnson, Emily Blunt, Edgar Ramírez 14.15, 16.45, 19.05, 21.30

Um filme de: M.Night Shyamalan Com: Gael García Bernal, Vicky Krieps, Rufus Sewell 17.30, 19.30, 21.30

JUNGLE CRUISE [B]

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6 0 4 9 7 5 JUNGLE CRUISE 7 3 5 1 2 0 0 9 6 5 Propriedade Fábrica de Notícias, 8 4 Lda Director Carlos Morais José Editores João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Pedro Arede; Salomé Fernandes Colaboradores Anabela Canas; António Cabrita; António de Castro Caeiro; Ana Jacinto Nunes; Amélia Vieira; Duarte Drumond Braga; Emanuel 8 0Gonçalo M.Tavares; Gonçalo Waddington; Inês Oliveira; João Paulo Cotrim; José Simões Morais; Luis Carmelo; Nuno Miguel Guedes; Paulo José Miranda; Cameira; www.0 Paulo Maia e Carmo;4Rosa Coutinho Cabral; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Teresa Sobral; Valério Romão Colunistas André Namora; David Chan; João Romão; Olavo hojemacau. Rasquinho; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; 2 5 7 Xinhua Secretária de 8 redacção 3 9e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia com.mo Welfare Morada Pátio da Sé, n.º22, Edf. Tak Fok, R/C-B, Macau; Telefone 28752401 Fax 28752405; e-mail info@hojemacau.com.mo; Sítio www.hojemacau.com.mo 4 2 9 1


sexta-feira 30.7.2021

opinião 15

www.hojemacau.com.mo

confeitaria

João Romão

CITIUS, ALTIUS, FORTIUS – VERITAS TÊM SIDO os Jogos das atletas: à falta de público nas bancadas, da habitual ostentação de impantes patrocinadores, da procura de visibilidade mediática para dirigentes desportivos e políticos com mais ou menos propósito e dependentes de posicionamentos geo-políticos diversos, estas Olimpíadas têm tido pouco mais do que o exercício dos jogos em si mesmo, a competição desportiva reduzida à sua essência, atletas a disputar vitórias e medalhas perante câmaras que hão-de dar visibilidade a uma solidão improvável para as Olimpíadas. Não é que tenham faltado motivos para, por exemplo, se reacenderem velhas Guerras Frias, mas mesmo a compulsiva exclusão da Rússia havia de ser sabiamente compensada e drasticamente atenuada pela participação da enigmática ROC, sigla inicialmente incompreensível para espectadores com menos dedicação à causa, mas hoje já familiar a quem acompanhe os Jogos, mesmo com alguma reserva e distância. Foi aliás num desses momentos mais propícios à frieza da guerras geopolíticas antigas que a História foi registando em Olimpíadas diversas que as atletas decidiram afinal oferecer um exemplo magnífico e anacrónico de desportivismo, respeito por rivais, solidariedade entre quem dedica esforço máximo e quase toda a vida a dar o melhor de si para se aperfeiçoar no exercício desportivo, na celebração do jogo: a formidável equipa de ginástica dos Estados Unidos tinha perdido a sua melhor atleta em plena competição, teve que disputar a final colectiva com essa inevitável desvantagem, acabaria por ver interrompida uma hegemonia planetária de quase 30 anos, agora conquistada pela Rússia, aliás a ROC, a maior herdeira da magnífica tradição soviética que nas últimas décadas foi sistematicamente derrotada pelas rivais da América do Norte, essas que no momento da derrota atravessam ténues fronteiras implícitas nos territórios do pavilhão, para beijarem e abraçarem as novas campeãs olímpicas, transformando subitamente guerras frias em amizades quentes. Disso certamente pouco se falará, que os tempos mediáticos são mais propícios à exaltação do sangue que possa correr em cada arena competitiva, à glória de quem ganha e à miséria de quem perde, com pouco ou nenhum espaço para eventuais e anacrónicas fraternidades entre quem joga o jogo que tem a jogar e sabe da efemeridade de cada resultado. Foi nessa prova que se assistiu a um dos mais dramáticos momentos dos Jogos até agora: a desistência da ginasta norte-americana Simone Biles, super-favorita a conquistar todas as medalhas em disputa, individuais e por equipas, em qualquer dos aparelhos. Era também candidata a igualar ou melhorar históricos recordes de medalhas conquistadas por ginastas em Olimpíadas anteriores e tinha sobre si todos os olhares de quem aprecia a modalidade. Falharia rotundamente, no entanto, em até em sentido literal: que

Tal como Simone Biles, Naomi Osaka, quer pôr a integridade possível da sua saúde mental à frente da insanidade competitiva das sociedades contemporâneas e da respectiva implacável mediatização permanente. Ficamos com a generosidade da verdade destas fraquezas humanas para agradecer a estas super-atletas

o corpo faça pirueta e meia quando estava preparado, treinado e programado para duas piruetas e meia é suficiente para confundir e desestabilizar um cérebro que ali e naquele momento opera em concentração máxima, quando cada centésimo de segundo é decisivo para a performance que dura alguns minutos, poucos mas que oferecem corolário inevitável a anos de esforço, preparação, mentalização, criatividade, inteligência, superação a cada dia, todos os dias. É essa a vida de qualquer ginasta e nem vale a pena entrar nos detalhes do percurso particular que levou Simone Biles até Tóquio, que também inclui um ambiente familiar violento e casos de abuso sexual por parte de um médico da equipa de ginástica

dos Estados Unidos. Afinal, no tapete é só ela e os seus demónios, assume a super-ginasta, um prodígio atlético, que afinal assume tranquilamente a sua fraqueza perante o mundo, a sua verdade, a importância de preservar a saúde mental neste planeta em que o lema olímpico “mais rápido, mais alto, mais forte” parece ter sido abusivamente adaptado para servir de mote a uma sociedade despojada de solidariedade comunitária e obcecada com vertiginosos processos competitivos onde, na realidade, acabamos sempre por perder qualquer coisa. Simone Biles não foi, no entanto, a única super-estrela do firmamento desportivo a sair sem a espera glória mas com inespe-

rada humildade desta peculiar edição dos Jogos, marcada por esse triste isolamento e distanciamento social que a convivência possível com a pandemia de covid-19 implica. Também Naomi Osaka, tenista de excelência, a jogar no Japão e pelo Japão, o seu país de nacionalidade mas onde nem sempre viveu e onde os filhos de pessoas japonesas com pessoas estrangeiras, como ela, são carinhosamente tratadas por “metade”, acabaria por ter uma participação em competição muito abaixo do que os seus pergaminhos nos rankings internacionais poderiam fazer prever. Neste caso, as fraquezas até já se tinham revelado antes dos Jogos: jogar é bom mas enfrentar a avidez da imprensa é um acto de violência para o qual se assume impreparada, recusando até participar em torneios do chamado “Grand Slam”, naturalmente com muito generosos prémios, para não ter que enfrentar despropositados interrogatórios de jornalistas a seguir ao esforço do jogo. Tal como Simone Biles, Naomi Osaka, quer pôr a integridade possível da sua saúde mental à frente da insanidade competitiva das sociedades contemporâneas e da respectiva implacável mediatização permanente. Ficamos com a generosidade da verdade destas fraquezas humanas para agradecer a estas super-atletas.


‘‘Nada vale tanto para o homem de letras como a independência.’’ PALAVRA DO DIA

Gaspar Melchor de Jovellanos

sexta-feira

30.7.2021 episódio 47

O Jogo das Escondidas

TIAGO ALCÂNTARA

Administração Garantida exigência de honestidade a funcionários públicos

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“O Governo da RAEM tem exigido aos trabalhadores que desempenhem fielmente as funções em que são investidos e sejam honestos e dedicados para com o público”, assim garante Kou Peng Kuan. O director dos Serviços de Administração e Função Pública começou assim por responder a uma interpelação de Ng Kuok Cheong em que o deputado pedia rigor disciplinar a dirigentes e chefias e aperfeiçoamento das normas anticorrupção. Além de garantir que o Governo está a elaborar um regime disciplinar para “crimes funcionais” e para supervisão e gestão do pessoal de direcção e chefia, Kou Peng Kuan afirma que irá ter em referência a Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção. O objectivo do Executivo é tipificar crimes como tráfico de influências.

MYANMAR SISMO DE MAGNITUDE 5,5 NO NOROESTE

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M sismo de magnitude 5,5 atingiu ontem o noroeste de Myanmar (antiga Birmânia), perto da fronteira com a Índia, sem relatos imediatos de danos ou baixas. O sismo ocorreu às 15:09 locais, com epicentro localizado a 47 quilómetros a nordeste da cidade de Shwebo na região de Sagaing, anunciou o Instituto de Geofísica dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), numa zona montanhosa a cerca de 100 quilómetros a noroeste de Mandalay, a segunda cidade mais populosa de Myanmar. O hipocentro foi registado a uma profundidade de 10 quilómetros, segundo os dados do USGS. Os sismos superficiais tendem a causar mais danos às estruturas na superfície. Este sismo foi sentido também no norte da Tailândia, com os edifícios em Chiang Mai, cidade situada a mais de 900 quilómetros, a oscilarem durante cerca de meio minuto, segundo a agência Associated Press. A Birmânia está localizada perto de uma área de alta actividade tectónica devido à pressão entre a placa do subcontinente indiano a sul e a placa eurasiática a norte. Em Maio, um sismo forte e superficial abalou o sudoeste da China perto da fronteira com Mianmar, matando pelo menos três pessoas e ferindo mais de duas dúzias.

Chan Ka Leong, membro do Conselho para os Assuntos de Habitação Pública“Os residentes mais vulneráveis já têm garantias suficientes devido às candidaturas permanentes para as habitações sociais em Mong-Há, Toi San e na zona A dos Novos Aterros, que serão atribuídas gradualmente.”

Vêm aí anos dourados Oferta de casas sociais resolve problemas habitacionais, diz Chan Ka Leong

C

HAN Ka Leong, membro do Conselho para os Assuntos de Habitação Pública, defendeu que a actual oferta de habitações sociais vai fazer com que os próximos dez anos sejam “dourados” no que diz respeito à resolução dos problemas de habitação. O responsável falou aos jornalistas à margem de um fórum organizado pelo Centro de Política da Sabedoria Colectiva sobre habitação económica. “Os residentes mais vulneráveis já têm garantias suficientes devido às candidaturas permanentes para as habitações sociais em Mong-Há, Toi San e na zona A dos Novos Aterros, que serão atribuídas gradualmente”, frisou.  Sobre a habitação económica, Chan Ka Leong disse

que a oferta de fracções está de acordo com a procura, elogiando a acção do Governo, que nos últimos dois anos disponibilizou oito mil casas.

Dez mil sanduíches

O responsável destacou as alterações feitas à lei de habitação económica, que beneficiam agora as famílias mais vulneráveis. “O novo sistema de pontuação tem em conta a estrutura das famílias, tal como a proporção dos residentes permanentes, a duração do período de residência e se há membros vulneráveis na família.” Para Chan Ka Leong, as famílias com três ou quatro pessoas, ou os agregados mais jovens, têm agora uma maior possibilidade de conseguir uma habitação. Quanto às casas para a classe sanduíche, Chan Ka

Leong acredita que serão necessárias dez mil fracções, apontando que o Governo já tem terrenos disponíveis. Quanto às críticas sobre os elevados preços de venda das casas económicas, de cinco mil patacas por metro quadrado, o membro do Conselho defendeu que os valores podem ser discutidos. “O mais importante é olhar para o prémio dos terrenos. Se o Governo cobrar totalmente o valor, o custo deve ser aproximadamente duas mil patacas por metro quadrado, e isso pode ser discutido na sociedade. É semelhante ao preço praticado nos edifícios privados, é um preço razoável”, defendeu. Chan Ka Leong admitiu que o valor é um pouco caro, mas deve-se também ao aumento do preço dos materiais de construção. A.S.S./N.W. 

um folhetim por Fernando

Sobral

ONTINUOU a caminhar para sair do Bazar. Ouviu um sussurro à sua esquerda. E um estronho, seguido de um silvo. Sentiu um impacto forte no ombro esquerdo. Caíu com o embate. Levou a mão ao braço e depois retirou-a cheia e sangue. Procurou a sua pistola, mas antes de o conseguir fazer, levou um pontapé na mão direita. Olhou para cima. Viu o cano de uma pistola apontada a ele e, mais acima, o de um chinês que o olhava fixamente. Ouviu a sua voz: - Zōi gīn! Ia puxar o gatilho. Mas o som do tiro não saíu da sua pistola e o homem que estava defronte de si caíu. O seu sangue jorrou para cima do tenente. Espantado, viu o rosto de Li Bei e de outros dois chineses que empunhavam pistolas. Agarraramno e puxaram-no. Do nada apareceu um riquexó para onde o transportaram. Percebeu que seguiam a caminho da Rua da Felicidade. Antes de chegarem à “Noite Tranquila” pararam numa casa sem luz à porta e levaram-no para dentro. Amoroso deitou-se numa cama e procurou tirar a sua pistola Luger do coldre. Não lhe servira para nada, porque o ataque fora rápido. Alguém começou a tratar-lhe da ferida. - A bala entrou e saíu do seu braço esquerdo. Não vai haver problemas. A voz de Li Bei era reconfortante. A do tenente, um murmúrio: - Como sabiam que estava ali? - Ding Ling estava preocupada consigo. Tem sido seguido, dia e noite, tenente. Para seu bem. Descanse um pouco. Depois levá-lo-ei até ela. Passada quase uma hora, em que dormitou, Bei Li veio acordar o tenente. Depois levou-o até ao “Noite Tranqila”. Ding Ling esperava-o. Agarrou num copo com vodka e deu-lho. - Bebe. Faz-te bem. Ele assim fez. O olhar dela era preocupado, mas doce. Disse, com uma voz aveludada: - Sabes, às vezes sonho que quando estamos na cama, colados um ao outro, há algo no meio. Uma pistola. Perguntome: será sempre uma pistola o que nos junta e nos separa? Ding Ling atravessava a fronteira do silêncio que tinham jurado respeitar. Falava do passado e, também, do presente. Fora uma pistola que os juntara. Aquela Luger que agora não lhe servira para nada. - Queres falar disso, querida Ling? - Não. Mas penso nisso. - Porque me mandaste seguir? - Foi o que fiz de bem, não foi? - Talvez. Neste momento estaria morto, por certo. (continua)

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Hoje Macau 30 JULHO 2021 #4821  

Nº 4821 de 30 JULHO de 2021 - Edição em papel do jornal Hoje Macau

Hoje Macau 30 JULHO 2021 #4821  

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