Hoje Macau 30 JUNHO 2022 #5039

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HOJE MACAU

TIAGO ALCÂNTARA

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QUINTA-FEIRA 30-6-2022

Nº 5040

MOP$10

RAEHK

VIAGEM POLÉMICA PÁGINA 6

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

A outra resposta

HK | 25 ANOS

HONG KONG NO CORAÇÃO CENTRAIS

A partir de amanhã, Macau acrescenta uma nova arma no combate à pandemia: a Medicina Tradicional Chinesa. O tratamento é dirigido apenas aos casos leves ou assintomáticos. “A medida será sempre aplicada mediante autorização do doente”, disse o director dos Serviços de Saúde, Alvis Lo. Macau registava ontem 533 casos positivos de covid-19. PÁGINAS-4-5 A IRRELEVÂNCIA DO SOLSTÍCIO CARLOS MORAIS JOSÉ

ANIMA

OSSO DURO DE ROER

JOGO

ACERTAR O PASSO

GRANDE PLANO

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PUB.

PÁGINA 7


2 grande plano

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30.6.2022 quinta-feira

Passagem de testemunho

ANIMA

ZOE TANG ELEITA PRESIDENTE PARA OS PRÓXIMOS DOIS ANOS

Billy Chan está de saída do cargo de presidente não executivo da ANIMA após dois anos de mandato marcados por alguns conflitos internos. Sem conseguir reunir consensos, Billy Chan passou o testemunho a Zoe Tang, que fala da “pior situação” financeira de sempre da ANIMA devido à situação pandémica

“A

ANIMA é a minha segunda casa”. É desta forma que Zoe Tang fala ao HM do novo compromisso que estabeleceu com a associação de defesa dos direitos dos animais que conseguiu manter o seu legado desde a saída de Albano Martins, hoje presidente honorário. As eleições para os novos órgãos dirigentes da ANIMA decorreram no passado domingo e resultaram na eleição de Zoe Tang como presidente não executiva, assinalando a saída de Billy Chan do cargo (ver texto secundário).

“Trabalho na ANIMA há mais de dez anos e espero continuar a dinamizar o objectivo da criação da ANIMA, para que continuemos a providenciar serviços para os animais de rua com a mesma filosofia [do início do projecto]. Não apenas eu, mas os candidatos da lista que estão na minha equipa, sendo que alguns colegas trabalham também na ANIMA há muitos anos”, apontou. Para já, a missão da lista eleita é desenvolver “campanhas específicas e actividades sociais ou culturais, com o compromisso de providenciar tratamentos adequados que preservem a dignidade dos animais

abandonados”. Para os cães e gatos abandonados, a ANIMA quer continuar a disponibilizar serviços de veterinário. Zoe Tang diz-se disposta a continuar o trabalho de muitos anos apesar dos desafios que a esperam. “Nas eleições de 2020/2021, assumi a posição de CEO e vice-presidente, o que não é um trabalho fácil. Por vezes, trabalhei mais de 20 horas diárias a tratar de assuntos relacionados com a ANIMA. Mas, felizmente, esse trabalho sempre teve o apoio da minha equipa”, assumiu.

“O nosso orçamento para 2022 é de cerca de 8.8 milhões de patacas. A nossa situação financeira nunca foi tão má, e estes três anos têm sido difíceis para todos nós porque não paramos de trabalhar para salvar animais.” ZOE TANG RESIDENTE DA ANIMA

A associação depara-se com severas dificuldades financeiras, à semelhança de outras associações de defesa dos direitos dos animais. Encontrar dinheiro para as actividades diárias continua a ser um dos grandes desafios.


quinta-feira 30.6.2022

“O apoio da nossa sociedade e o financiamento das operações, sobretudo para pagar comida para os animais, despesas médicas e manutenção do canil e gatil são os nossos grandes desafios. Com o desenvolvimento da pandemia, não apenas nós, mas todos os negócios enfrentam as mesmas difíceis questões.” O financiamento dos casinos, grande apoio para muitas actividades de cariz social, também diminuiu. “As doações baixaram de 400 ou 300 mil patacas para apenas 80 mil patacas por casino e no ano passado não recebemos qualquer donativo. Felizmente, recebemos 70 por cento das cinco milhões de patacas, ou seja, 3.5 milhões, da Fundação Macau (FM), há duas semanas, o que vai permitir pagar as nossas dívidas de Janeiro que são, aproximadamente, de 1.6 milhões de patacas. São despesas relacionadas com veterinários, salários de dois meses dos funcionários e fornecimento de comida para os animais.” A ocorrência de um novo surto veio piorar a situação, já de si débil. “Os subsídios da FM de cinco milhões de patacas não são suficientes para a ANIMA se manter este ano. O nosso orçamento para 2022 é de cerca de 8.8 milhões de patacas. A nossa situação financeira nunca foi tão má, e estes três anos têm sido difíceis para todos nós porque não paramos de trabalhar para salvar animais.” Zoe Tang recorda que, no início deste ano, chegou a ser anunciado que a ANIMA ia deixar de resgatar animais abandonados na rua

O financiamento dos casinos também diminuiu. As doações baixaram de 400 ou 300 mil patacas para apenas 80 mil patacas por casino e no ano passado não houve qualquer donativo

devido a dificuldades financeiras, mas um mês depois retomaram o trabalho habitual. “Não temos escolha”, confessa.

Terreno à espera

Questionada sobre a concessão do terreno que a ANIMA ocupa na zona do Pac On, um dossier que se arrasta há muito tempo, a presidente não-executiva revela outra situação de difícil resolução. “Estamos à espera da concessão definitiva, mas temos uma área

com cães que deve ser destruída antes que o processo avance. Temos nesse local cerca de 33 cães e, se não encontrarmos um sítio para a sua deslocação, ou se não pudermos pagar por um terceiro abrigo, o processo não irá para a frente. O Governo sabe disso”, frisou Zoe Tang. Para os próximos meses, a ANIMA vai continuar a apostar nos mesmos mecanismos de recolha de fundos, de sócios ou adoptantes. A pandemia originou o cancelamento de muitas actividades. “Acredito que a ANIMA vai ficar numa melhor situação depois da pandemia, mas agora enfrentamos uma situação muito séria. Apelamos a todas as pessoas que nos ajudem com os custos operacionais”, rematou. A aposta de Zoe Tang à frente da associação passa, acima de tudo, por mais acções educativas de consciencialização sobre os direitos dos animais. Além disso, é esperada “uma solução que possa reduzir o número de cães e gatos abatidos pelo Canil Municipal”, tendo em conta que a ANIMA sempre trabalhou de perto com o Instituto para os Assuntos Municipais. “Temos feito vistorias às casas dos candidatos que querem adoptar um animal do Canil Municipal, para garantir que a casa é segura o suficiente para receber um novo animal e para aconselhar o adoptante nos cuidados a ter. A adopção suave é uma das muitas soluções para as quais a ANIMA tem ajudado.” Actualmente, a associação tem à sua guarda cerca de 400

“Acredito que a ANIMA vai ficar numa melhor situação depois da pandemia, mas agora enfrentamos uma situação muito séria. Apelamos a todas as pessoas que nos ajudem com os custos operacionais.” ZOE TANG PRESIDENTE DA ANIMA

Na hora do adeus

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“Reformas eram necessárias”, diz Billy Chan

RÓMULO SANTOS

O fim de um mandato de dois anos, Billy Chan está de saída do cargo de presidente não executivo da ANIMA, sendo substituído por Zoe Tang, que até então liderava a comissão executiva da associação de defesa dos direitos dos animais. Ao HM, Billy Chan fala em alguns problemas internos. “Houve muitos acontecimentos e tempos desafiantes na ANIMA nos últimos dois anos. As reformas eram necessárias para manter a continuação do trabalho e permitir o desenvolvimento sustentável da associação.” Além disso, “ocorreram conflitos entre membros da equipa”. “Diria que não fui bem-sucedido a convencer os membros da direcção mais seniores, incluindo Albano [Martins], destas

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mudanças. Disponibilizei-me como voluntário para a direcção, incluindo outros voluntários, mas não consegui um consenso. Não fui tido em conta para este novo mandato”, adiantou. Ao HM, Albano Martins confirma a existência de problemas internos. “Propus Zoe Tang como presidente. O mandato terminou no final de 2021 e as coisas foram-se arrastando até às novas eleições. O Billy sairia porque era vice-presidente há muitos anos, mas fez questão de ser presidente. Poucas reuniões de direcção foram realizadas, havia uma comissão executiva para

as decisões não serem bloqueadas.” “Esperava que o Billy apresentasse uma lista de consenso, mas pelos vistos ele nem contactou os colegas. Nos últimos meses senti que havia uma espécie de atrito, porque o Billy Chan, que é não executivo, queria começar a interferir na vida da comissão executiva. É ainda meu dever fomentar o aparecimento de uma lista, mas as pessoas não queriam trabalhar com ele. Duas trabalhadoras que eram membros da comissão executiva pediram a demissão em Junho, porque as interferências dele levantaram muitos problemas e as pessoas não

cães e 300 gatos. “Estes números vão manter-se inalterados por muito tempo, pois a seguir a uma adopção há outro animal que precisa ser resgatado. Temos ainda mais de 500 cães e gatos abrangidos pelo Programa Especial de Protecção Animal. São animais que vivem fora do nosso abrigo, na rua ou em estaleiros, mas que estão sob responsabilidade de voluntários.” Mesmo recebendo comida e tratamentos, cabe à ANIMA financiar estes cuidados. Andreia Sofia Silva

se sentiam confortáveis”, acrescentou.

FM dá 5 milhões

Mesmo que a Fundação Macau (FM) tenha atribuído um subsídio para este ano no valor de cinco milhões de patacas, a vida financeira da ANIMA continua a não ser fácil. “A tranche do ano passado, de 500 mil patacas, só foi entregue em Maio [deste ano], ou seja, muito tarde. A ANIMA foi acumulando muitas dívidas e as pessoas sentem muito stress. Uma lista única é importante, mas o Billy não fez contactos. Ele não está a par das questões da ANIMA, que são muito complexas.” Sobre a continuação do trabalho com Zoe Tang, Albano Martins fala de uma “boa solução”, mas lamenta que “no final dos últimos meses [do mandato] hou-

vesse tentativas de controlo da parte executiva por uma pessoa que não era da área executiva”. A associação tem agora na direcção membros que são trabalhadores da ANIMA, o que permite garantir a fiscalização do trabalho feito pela restante equipa. Questionado sobre a situação da ANIMA com o panorama de surto pandémico, Albano Martins mostra-se apreensivo. “A situação vai piorar. Se houver trabalhadores infectados, quem vai tomar conta dos animais? Pela política de zero casos do Governo, as pessoas são enviadas para casa. É o Instituto para os Assuntos Municipais que vai fazer esse trabalho? É preciso bom senso em tudo isto”, rematou. A. S. S.


4 especial covid-19

30.6.2022 quinta-feira

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PANDEMIA PLANO DE TRATAMENTO COM MEDICINA CHINESA ACTIVADO AMANHÃ

Ervas e mezinhas

REUTERS

As autoridades vão activar o plano de tratamento de casos leves e assintomáticos de covid-19 com medicina tradicional chinesa a partir de amanhã. Macau conta agora com 533 casos positivos

A

partir de amanhã, sexta-feira, será possível receber tratamento para a covid-19, com medicina tradicional chinesa (MTC), mas apenas para casos leves ou assintomáticos, e para quem esteja a cumprir o isolamento nos hotéis. A medida, que consta no Plano de Resposta de Emergência para a situação epidémica da covid-19 em grande escala, será sempre aplicada mediante autorização do doente, declarou Alvis Lo, director dos Serviços de Saúde de Macau (SSM). “Quem quiser aceitar a medicação chinesa [pode recorrer ao tratamento] pode ser atendido por médicos através de uma consulta online, que vão prescrever a medicação. Sempre colaborámos com os médicos do sector da MTC para o tratamento e divulgação de informações. Temos feito alguns trabalhos preparativos e será sempre implementado [o tratamento] com o consentimento das pessoas”, adiantou.

TESTES NELSON KOT CRITICA FALTA DE COMUNICAÇÃO ENTRE GOVERNO E CASINOS

O

ex-candidato a deputado Nelson Kot criticou a forma deficiente como o Governo comunicou com os casinos, resultando em horas de espera de funcionários das concessionárias para realizarem teste do ácido nucleico na terça-feira

no Posto Fronteiriço de Qingmao. Esforço que acabou por ser inglório, porque o Governo anunciou mais tarde que a necessidade de apresentar teste de ácido nucleico feito nas últimas 48 horas só entrará em vigor a 1 de Julho.

Em declarações ao jornal Ou Mun, Nelson Kot afirmou que as concessionárias emitiram uma ordem interna na semana passada a exigir que, a partir de hoje, os funcionários apresentem teste de ácido nucleico feito nas últimas 48 horas antes de se apresentarem ao serviço.

O responsável acrescentou que a maioria das empresas do jogo tem postos de testagem nas suas instalações, situação que poderia atenuar a pressão nos locais de testagem espalhados pelo território. O facto de o Governo não ter mandado encerrar

os casinos motivou queixas de trabalhadores, segundo Nelson Kot, que não compreendem porque têm de trabalhar quando não há clientes, ainda para mais face à possibilidade de os funcionários públicos ficarem duas semanas sem trabalhar. N.W.


quinta-feira 30.6.2022

DICJ REÚNE COM CONCESSIONÁRIAS A Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) reuniu ontem com as seis concessionárias de jogo, numa altura em que os casinos continuam a operar com normalidade. Foram analisadas as medidas de controlo da pandemia e as acções de testagem dos trabalhadores do sector. Segundo uma nota de imprensa, as concessionárias vão suportar os custos dos testes, que podem ser feitos no local de trabalho ou nos restantes postos do território. Serão ainda distribuídas máscaras e testes rápidos para os trabalhadores.

Ontem, Macau registava um total de 533 casos de covid-19, existindo apenas um caso grave que se encontra “em situação estável, após tratamento e medicação”. Na conferência de imprensa de actualização da situação, que durou 1h30, Alvis Lo adiantou que “o aumento diário de casos tem a ver com vários factores, incluindo os resultados de testes rápidos e de PCR, o que significa que há um elo de ligação e contaminação na comunidade”. Admitindo que os residentes “estão a colaborar bem” com as medidas, não há, para já, uma nova data para a realização de uma nova testagem em massa. O director dos SSM voltou a apelar à vacinação dos idosos.

JORNALISTAS AVISADOS Na conferência de imprensa de ontem, foram deixados vários recados aos jornalistas presentes. Um deles, prende-se com a ocorrência de “incidentes” aquando da cobertura noticiosa nas zonas vermelhas. “Os jornalistas, por motivo de protecção, devem afastar-se das zonas vermelhas e só podem fazer cobertura noticiosa com locais de menor risco. Penso que não vamos impedir a vossa cobertura e o CPSP também cria conveniências para o vosso trabalho.” Alvis Lo declarou ainda que a conferência de imprensa é um local para anunciar medidas e não para responder a perguntas mais específicas. “De uma forma geral, sobre os casos, temos outros meios para responder, uma plataforma online para a consulta dos casos. Podem consultá-la. Na conferência de imprensa, o importante é dar a conhecer a todos mais informações gerais, queremos focar-nos mais na estratégia e nas medidas aplicadas.”

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“Diferentes regiões aplicam diferentes medidas. Não há medidas boas ou más a 100 por cento. Em Shenzhen, no último surto, as pessoas ficaram em casa durante duas semanas e fizeram nove testes. A aplicação de diferentes medidas terá diferentes efeitos, e tem a ver com a realidade de cada local. Tem de haver um equilíbrio entre diferentes situações”, frisou. Entretanto, há mais uma ala do hotel Sheraton disponível para isolamento de casos positivos, disponibilizando duas mil camas no total.

Ontem, Macau registava um total de 533 casos de covid-19, existindo apenas 1 caso grave que se encontra “em situação estável, após tratamento e medicação”

sionárias que operam no Centro Hospitalar Conde de São Januário, uma enfermeira do Centro Clínico de Saúde Pública de Coloane, uma enfermeira de Serviço de Urgência e um auxiliar. Foram ainda classificados 32 funcionários como contactos próximos, estando em quarentena. Alvis Lo assegurou que não houve contágios com origem no hospital público. “Estas pessoas foram infectadas fora do hospital, mas não o foram dentro do dormitório. Se [o contágio] tivesse

sido dentro do hospital, isso iria causar um aumento significativo de casos.” De salientar que nem todos os profissionais de saúde trabalham em circuito fechado. O director dos SSM prometeu ainda analisar a redução da quarentena de dez para sete dias, tendo em conta as medidas implementadas pela China. “Não excluímos o ajustamento do nosso período de quarentena para quem vem de Hong Kong e de Taiwan.” Andreia Sofia Silva

Casos no lar

Relativamente à situação no lar gerido pela Obras das Mães, na zona da Praia do Manduco, e após ter sido detectado um caso positivo por parte de um funcionário, foram encontrados mais três casos, uma idosa de 94 anos com doença crónica, um enfermeiro e um cuidador. Tratam-se de “pessoas que não saíram de Macau ultimamente” e que testaram negativo aos testes PCR. Desde sábado, que o lar opera em regime de circuito fechado.

“Quem quiser aceitar a medicação chinesa [pode recorrer ao tratamento] pode ser atendido por médicos através de uma consulta online, que vão prescrever a medicação.” ALVIS LO DIRECTOR DOS SSM

Neste momento “a situação é estável”, tendo já sido aplicadas as medidas de desinfecção e isolamento no lar. “O pessoal de gestão e os trabalhadores estão a cumprir os deveres para encarar este desafio. Na vida quotidiana dos idosos não há problemas especiais”, disse o responsável do Instituto de Acção Social. Entretanto, seis trabalhadores dos SSM contraíram covid-19, onde se incluem um examinador de amostragem no posto de teste de ácido nucleico, dois trabalhadores de limpeza da empresa conces-

Táxis Cerca de mil veículos podem parar

O presidente da Associação dos Comerciantes e Operários de Automóveis de Macau, Leng Sai Vai, prevê que cerca de mil táxis vão suspender o serviço, de acordo com declarações prestadas ao canal chinês da Rádio Macau. O dirigente associativo diz que o surto afectou cerca de 2.000 taxistas e que entre 300 a 400 táxis estão em funcionamento. Sobre o transporte de pessoas com código de saúde amarelo, e impedidas de recorrer aos transportes públicos, Leng Sai Vai afirmou que a maior parte declara a situação aos taxistas, e que de uma forma geral o transporte não é recusado. No entanto, pediu ao Governo para tomar medidas mais activas e fornecer máscaras e detergentes aos taxistas, para procederem à desinfecção das viaturas.

A multiplicação da zaragatoa

Utentes e funcionários de lares com dois testes diários por “dias consecutivos”

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S lares de idosos e centros de reabilitação para a terceira idade que tenham implementado gestão preventiva em “circuito fechado” vão submeter utentes e funcionários a “teste de ácido nucleico e teste rápido de antígeno, por vários dias consecutivos”. A medida, que começou a ser aplicada ontem, foi justificada com o caso positivo encontrado no Complexo de Serviços de Apoio ao Cidadão Sénior da Obra das Mães, na Praia do Manduco, confirmado também ontem, depois de Leong Iek Hou ter revelado na terça-feira essa suspeita (ver texto principal). O lar está em gestão em “circuito fechado” desde sábado passado, e a notificação do caso positivo foi dada na passada terça-feira, após o teste em massa, apesar de o funcionário em questão ter testado negativos nos

primeiros dois testes em massa, assim como nos quatro testes rápidos feitos no lar de idosos. Aliás, o Governo acrescenta que todos os funcionários e utentes testaram negativo nos quatro testes rápidos feitos no complexo da Praia do Manduco. É também referido que o assistente reside em Macau e não apresenta histórico de viagem exterior desde 18 de Junho, sem que o Governo especifique o local onde se deslocou.

Descoberta da pólvora

Desde que a infecção foi encontrada, o funcionário foi transferido para quarentena sob vigilância médica, as instalações foram desinfectadas e as autoridades procederam à “rápida separação e isolamento de todos os funcionários e utentes de acordo com o nível de risco”, fizeram um

teste rápido global. Além disso, no dia em que foi detectada a infecção, todos os funcionários e utentes fizeram um teste de ácido nucleico. O Governo refere ainda que “este incidente mostrou que o resultado do teste pode sofrer alterações nos primeiros dias do regime de gestão em ‘circuito fechado’, mesmo que tenha sido negativo nos vários testes de ácido nucleico e testes rápidos de antígeno realizados anteriormente. Por isso, a realização contínua destes tipos de testes, numa frequência regular, é fundamental para identificar precocemente casos de infecção”. O Complexo de Serviços de Apoio ao Cidadão Sénior da Obra das Mães na Praia do Manduco tinha ontem 58 utentes e 76 funcionários, um total de 134 pessoas. J.L.


6 política

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HK CHEFE DO EXECUTIVO VAI À RAEHK E VOLTA SEM CUMPRIR QUARENTENA

Medidas excepcionais O Governo afirma que excepções para Ho Iat Seng e Hoi Lai Fong cumprem as exigências dos Serviços de Saúde. O CE vai à RAEHK participar nas celebrações do 25.º Aniversário da Transferência de Soberania da ex-colónia britânica

O Chefe do Executivo partiu ontem para Hong Kong, onde fica até amanhã, para participar nas celebrações do 25.º Aniversário da Transferência de Soberania

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Chefe do Executivo partiu ontem para Hong Kong, onde fica até amanhã, para participar nas celebrações do 25.º Aniversário da Transferência de Soberania. A informação foi divulgada pelo Gabinete de Comunicação Social. Ho Iat Seng vai circular entre as duas regiões sem ter de cumprir qualquer tipo de quarentena, ao contrário do que é exigido a aos cidadãos. No regresso a Macau, Ho Iat Seng vai poder participar em todos os eventos que entender, desde que a utilização de máscara “não seja incompatível”. Ainda de acordo com a mesma informação, o período de auto-gestão do Chefe do Executivo inclui a obrigação de realizar quatro testes de

ácido nucleico em sete dias, menos um do que quem tem de cumprir a quarentena, e utilização de máscara. “Em cumprimento rigoroso das exigências anti-epidémicas dos Serviços de Saúde, os membros da comitiva, após a participação na mencionada actividade, irão realizar quatro testes de ácido nucleico nos 1.º, 2. º, 4. º e 7. º dias e, durante aquele período, não participarão em actividades quando o uso de máscara seja incompatível com a natureza das mesmas”, pode ler-se no comunicado. Actualmente, para quem chega da antiga colónia britânica a Macau é exigida uma quarentena de 10 dias num hotel designado. Após o cumprimento do isolamento, durante sete dias os cidadãos

têm de realizar cinco testes de ácido nucleico, para manterem o código de saúde verde. No entanto, há grupos profissionais que devido à sua função ser vista como essencial, como acontece no sector da logística, podem ter outras exigências, menos rigorosas.

Circuito-fechado

Na deslocação a Hong Kong, Ho Iat Seng vai acompanhado por Hoi Lai Fong, chefe do seu gabinete, que fica sujeita às mesmas medidas que o líder da RAEM. Na RAEHK, os dois devem integrar um circuito fechado. “Para participar nesta actividade celebrativa tão significativa, a comitiva do Governo da RAEM cumpriu escrupulosamente as exigências de prevenção epidémica da RAEHK,

tendo efectuado, com uma semana de antecedência, antes da partida, a monitorização de saúde e, diariamente, testes de antigénio e de ácido nucleico”, foi revelado. “Durante a estada em Hong Kong, procederá à gestão preventiva de circuito fechado e às devidas testagens”, foi acrescentado. O convite para participar nas cerimónias que vão servir para nomear John Lee como o novo Chefe do Executivo de Hong Kong, e que devem contar com a presença do Presidente Xi Jinping, foi feito por Carrie Lam, actual representante máxima da RAEHK. Durante a ausência do Chefe do Executivo, o secretário para a Administração e Justiça, André Cheong, exercerá, interinamente, as funções de Ho Iat Seng. João Santos Filipe

SURTO SONG PEK KEI QUER MAIOR RAPIDEZ NA DISTRIBUIÇÃO DE APOIOS

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PESAR do anúncio de 10 mil milhões de patacas, Song Pek Kei considera que o Governo tem de dar mais apoios a empresas e residentes, devido ao surto mais recente de covid-19. “Desde o início do surto que os mais afectados são as Pequenas e Médias Empresas e os trabalhadores com ordenados mais baixos, que precisam de receber o salário todos os meses para sobreviverem”, afirmou a deputada ligada à comunidade de Fujian. Song diz assim ser urgente que a distribuição comece a ser feita, no entanto, sublinha que “a procissão ainda vai no adro”, e que as alterações ao orçamento da RAEM ainda terão de passar pela Assembleia Legislativa. Como legisladora, Song Pek Kei promete todo o apoio e

afirma que os deputados estão disponíveis para acelerar ao máximo os procedimentos. Em tempo de crise, o sector da restauração é uma preocupação. Song considerou que as plataformas online de distribuição de comida cobram comissões demasiado elevadas aos restaurantes, e que estes estão a ser prejudicados com as novas formas de consumo. De acordo com os dados apresentados pela deputada, se as comissões se mantiverem entre os actuais níveis de 20 a 40 por cento, até ao final do ano 60 por cento dos restaurantes vão fechar as portas. Por isso, deputada apela ao Governo que aumente a supervisão destas plataformas e pondere controlar o montante cobrado em comissões.

IC Fátima Lau no Arquivo. Un Sio San no Museu de Arte

De acordo com uma nota do Instituto Cultural (IC) publicado ontem em Boletim Oficial (BO), Maria Fátima Lau foi nomeada pelo período de um ano, em comissão de serviço, para o cargo de directora do Arquivo de Macau. Também na mesma nota, é revelada a nomeação de Un Sio San, pelo período de um ano, para o cargo de directora do Museu de Arte de Macau, organismo que estava sem director há cerca de três anos. Sobre esta última, é acrescentado ter concluído a licenciatura em Literatura Chinesa e Artes pela Universidade de Pequim e o mestrado em Literatura pela Universidade de Toronto.

Universidade de Macau Song Yonghua reitor por mais três anos

O reitor da Universidade de Macau (UM), Song Yonghua, viu a sua nomeação para o cargo renovada por mais três anos, ou seja, até Janeiro de 2026. Segundo um despacho do Chefe do Executivo publicado ontem em Boletim Oficial, “a nomeação do Professor Doutor Song Yonghua como reitor da Universidade de Macau” é renovada “pelo período de três anos, a partir de 9 de Janeiro de 2023”. Song Yonghua é reitor da UM desde 9 de Janeiro de 2018.


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sociedade 7

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Comércio Exportações dos países lusófonos para Macau sobem 35% As exportações de mercadorias dos países lusófonos para Macau nos primeiros cinco meses do ano subiram 35 por cento, em comparação com o mesmo período de 2021, segundo dados oficiais divulgados ontem. O valor exportado pelos países de língua portuguesa para a região administrativa especial chinesa entre Janeiro e Maio foi de 372 milhões de

patacas, de acordo com a Direção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC). Em sentido contrário, o montante importado de mercadorias de Macau pelo bloco lusófono cresceu 103,4 por cento em termos anuais, ficando-se pelas 850 mil patacas. Em Maio, o último mês em análise, Macau registou um défice na balança comercial de 10,9 mil milhões de patacas.

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Dias de quarentena pedidos, em vez dos 21

O presidente da Associação de Inovação e Serviços de Turismo de Lazer de Macau, Wong Fai, sugeriu que o Governo ajuste o período das quarentena para sete dias em local designado pelas autoridades mais três dias de auto-gestão. Porém,

em declarações ao jornal Exmoo, o responsável e empresário do sector, afirma compreender que ainda é cedo para falar de alívio de restrições de entrada em Macau, remetendo a diminuição para depois de ultrapassado o actual surto.

JOGO REDUÇÃO DE QUARENTENAS NA CHINA É BOM SINAL PARA MACAU, ANALISTAS

TURISMO AGÊNCIAS DE VIAGEM ANTECIPAM VERÃO PERDIDO

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OM o cancelamento do plano de excursões locais, a reboque do surgimento do novo surto de covid-19 em Macau, agências de viagens ouvidas pelo jornal Ou Mun afirmaram não ter esperança que o negócio melhore com a chegada das férias de Verão e que as expectativas de melhoria estão agora traçadas para o Outono e Inverno. Segundo a responsável de uma agência de viagens que não se identificou, desde que a pandemia começou, o plano de excursões locais é uma “parte importante” do negócio da empresa. No entanto, devido ao novo surto que está a assolar Macau, todas as reservas até 3 de Julho foram canceladas. Sobre a intenção dos residentes viajarem para o estrangeiro, a agência de viagem partilhou que essa vontade é “muito baixa”, devido à necessidade de fazer quarentena no regresso ao território. Segundo a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), em Maio, o número de visitantes que participaram em excursões locais foi de 2.900, existindo uma diminuição de 65 por cento em relação ao ano anterior. Já o número de residentes de Macau que adquiriu viagens para o exterior foi de 3.300, representando uma diminuição de 88 por cento em termos anuais.

Miragem no horizonte

Embora sem impacto directo nas receitas de jogo, analistas da JP Morgan e da Sanford C. Bernstein consideram que a redução das quarentenas de 21 para sete dias para quem chega à China vindo do exterior é “um passo na direcção certa” e mostram-se surpreendidos com o timing da medida. As acções das concessionárias registaram ganhos entre 6 e 10 por cento após o anúncio

O

anúncio da redução do período de quarentena para quem entra na China vindo do estrangeiro foi recebido pelos analistas da JP Morgan Securities (Asia Pacific) e da Sanford C. Bernstein como um “sinal positivo” para o sector do jogo de Macau. Isto, pese embora, não se antecipe qualquer impacto directo, a curto prazo, para as receitas brutas dos casinos do território. Recorde-se que, o período de quarentena para quem entra na China foi reduzido de 21 dias para sete, em instalações designadas pelo Governo, e mais três em casa, informou a Comissão Nacional de Saúde chinesa na terça-feira. A medida, é a mudança mais significativa nas restrições impostas a quem chega do exterior, tendo em conta que, desde Março de 2020, as fronteiras da China estão praticamente fechadas, em sintonia com a estratégia de ‘zero casos’ de covid-19. Frisando esse mesmo facto, os analistas da Sanford C. Bernstein, Vitaly Umansky, Louis Li e Shirley Yang citados pelo portal GGR Asia, consideram a medida “um passo na direcção certa”, mas lembram que continua a não haver novidades sobre o relaxamento das medidas nas fronteiras entre Hong Kong e o Interior da China, nem sobre a emissão de vistos de grupo para Macau e Hong Kong. Alterações essas que, possibilitando a abertura das fronteiras entre Hong Kong e Macau, são consideradas “necessárias” para iniciar a revitalização da economia de Macau. “O que vemos é um passo na direcção certa. É positivo, mas é também um avanço muito curto e com poucos efeitos a curto prazo. Precisamos ver que outras mudan-

ças positivas são feitas e quando. Até agora, é evidente que a China está a aderir à política de ‘zero casos’ de covid-19”, pode ler-se num comunicado divulgado na terça-feira. “Não existe indicação das autoridades do Interior da China sobre alterações à passagem de fronteiras sem quarentena entre a China e Hong Kong (…), nem mudanças no regime de vistos individuais ou de grupo para Hong Kong ou Macau. Estas alterações são necessárias para Macau iniciar a sua recuperação económica”, acrescentam os analistas.

Apanhados de surpresa

Por seu turno, os analistas da JP Morgan, DS Kim e Livy Lyu, consideraram que “por si só, a medida

não irá impactar as receitas de jogo dos casinos de Macau”, mas consideram o momento do anúncio “surpreendente” por acontecer antes do Congresso Nacional do Partido Comunista da China (PCC), agendado para Outubro. “Nós próprios e a maioria dos investidores estávamos à espera que o anúncio de qualquer relaxamento significativo só tivesse

“O que vemos é um passo na direcção certa. É positivo, mas é também um avanço muito curto e com poucos efeitos a curto prazo.” SANFORD C. BERNSTEIN

lugar após o Congresso do PCC, no final do ano. Este é um passo muito necessário, na direcção certa rumo a uma normalização (muito) gradual. Do nosso ponto de vista, é um sinal suficientemente bom”, foi apontado. Após o anúncio da medida, as acções dos grupos detentores de casinos em Macau registaram na terça-feira ganhos significativos na Bolsa de Hong Kong. Segundo o portal Seeking Alpha, no fecho da sessão, as acções registaram aumentos entre os 6,10 e os 9,88 por cento. A maior subida foi registada pela Melco Entertainment (+9,88 por cento), seguindo-se a Las Vegas Sands (+6,75 por cento), Wynn Resorts (+6,10 por cento) e a MGM Resorts International (+4,56 por cento). Pedro Arede


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30.6.2022 quinta-feira

Presidente chinês Xi Jinping estará presente numa reunião na sexta-feira para celebrar o 25º aniversário do regresso à pátria de Hong Kong, cujo desenvolvimento Xi diz ter estado sempre no seu coração. “O desenvolvimento de Hong Kong sempre me tocou no coração”, disse Xi, também secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista da China e presidente da Comissão Militar Central, aquando da sua chegada a Hong Kong há cinco anos para o 20º aniversário da região administrativa especial. Ao longo dos anos, Xi demonstrou repetidamente a sua preocupação com o desenvolvimento de Hong Kong, bem como com o bem-estar dos mais de 7 milhões de habitantes de Hong Kong. Iniciou projectos de integração de Hong Kong no desenvolvimento nacional, interagiu com a juventude de Hong Kong e encorajou os empresários a prosseguir os seus sonhos no continente. Sob a liderança de Xi, as autoridades centrais lançaram uma série de políticas e medidas importantes para ajudar Hong Kong a manter a estabilidade e prosperidade no quadro de “um país, dois sistemas”. Na sexta-feira, o presidente participará também na cerimónia inaugural do sexto mandato do governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK), que Xi espera trazer mudanças refrescantes à governação de Hong Kong. Xi afirmou que Hong Kong se encontra numa fase crucial no seu caminho para uma maior prosperidade.

Desenvolvimento pós-97

Hong Kong tem testemunhado um rápido desenvolvimento desde que o governo chinês retomou o exercício da soberania sobre a mesma a 1 de Julho de 1997. De 1997 a 2021, o PIB de Hong Kong cresceu de 1,37 triliões de dólares de Hong Kong para 2,86 triliões de dólares de Hong Kong. Ultrapassou desafios, incluindo a crise financeira asiática, a epidemia da SARS e a crise financeira internacional, e consolidou o seu estatuto como centro financeiro, marítimo e comercial internacional. Sob a liderança de Xi, as autoridades centrais promoveram a

BOBBY YIP/REUTERS

O desenvolvimento de Hong Kong no coração de Xi Jinping O

conectividade das infra-estruturas e implementaram políticas e medidas para expandir ainda mais o espaço para o desenvolvimento de Hong Kong. Um belo exemplo de conectividade de infra-estruturas é a mega-ponte no estuário do Rio das Pérolas que liga Hong Kong, Macau e o continente chinês. Durante a sua viagem a Hong Kong em 2017, Xi visitou o local de construção da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macao. Em Outubro de 2018, anunciou a abertura da ponte e inspeccionou-a. A abertura da ponte marcou uma nova etapa no desenvolvimento da área da Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau.

A Área da Grande Baía, que pretende tornar-se uma área de classe mundial de baía e aglomerado de cidades, é um projecto nacional significativo concebido e promovido por Xi. Em apenas alguns anos, tornou-se uma das regiões mais abertas e economicamente mais vibrantes da China.

Grande Baía atrai jovens empresários

Um número crescente de jovens de Hong Kong está a virar-se para o continente em busca de perspectivas empresariais, uma vez que o desenvolvimento da área da baía tem trazido novas oportunidades. Mark Mak Hin-yu, co-fundador de

Ao longo dos anos, Xi demonstrou repetidamente a sua preocupação com o desenvolvimento de Hong Kong, bem como com o bem-estar dos mais de 7 milhões de habitantes de Hong Kong uma empresa de robótica, disse que a sua empresa tem a sua sede em Hong Kong, mas transferiu parte das operações, incluindo monta-

gem de hardware e testes técnicos, para o continente, capitalizando as oportunidades trazidas pelo desenvolvimento da área da baía. O 14º Plano Quinquenal da China (2021-2025) dá a Hong Kong apoio na construção de um centro internacional de inovação e tecnologia, um centro na região Ásia-Pacífico para serviços jurídicos e de resolução de litígios internacionais, um centro regional para o comércio de propriedade intelectual, e um centro de intercâmbio cultural e artístico com outros países. Laura Cha Shih May-lung, presidente do Hong Kong Exchanges and Clearing Limited e veterana no sector financeiro de Hong Kong há mais de três décadas, tem plena confiança no


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hong kong

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O Presidente Xi Jinping participará numa reunião na sexta-feira para celebrar o 25º aniversário do regresso à pátria de Hong Kong, cujo desenvolvimento Xi diz ter estado sempre no seu coração. Sob a liderança de Xi, as autoridades centrais lançaram uma série de políticas e medidas importantes para ajudar Hong Kong a manter a estabilidade e prosperidade no quadro de “um país, dois sistemas”. Na sexta-feira, o presidente participará também na cerimónia inaugural do sexto mandato do governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, que Xi espera trazer mudanças estimulantes para a governação de Hong Kong abrangem uma vasta gama de áreas, desde a educação e emprego até aos cuidados de saúde e viagens. Por exemplo, desde Setembro de 2018, as pessoas elegíveis de Hong Kong podem solicitar autorizações de residência no continente, que lhes dão acesso aos direitos de trabalho, segurança social e fundo de previdência habitacional. Quando a pandemia da COVID-19 atingiu Hong Kong, Xi estava muito preocupado com a vida e a saúde da população local e deu instruções em várias ocasiões para dar a Hong Kong todo o apoio na luta contra o vírus.

desenvolvimento futuro do sector. “Sendo uma economia relativamente pequena com uma população de pouco mais de 7 milhões de habitantes, Hong Kong não teria evoluído para o centro financeiro internacional que é agora sem o forte apoio do desenvolvimento contínuo do continente”, disse ela.

Cuidar de todos

Melhorar a subsistência da população de Hong Kong tem sido uma prioridade máxima para Xi. “Os adolescentes querem crescer felizes. Os jovens querem dar a conhecer o melhor do seu talento. As pessoas adultas querem ser bem sucedidas, e os seniores querem desfrutar dos seus anos dourados”, disse Xi quando visitou Hong Kong em 2017, explicando as relações entre desenvolvimento e bem-estar das pessoas. Xi encontrava sempre tempo para interagir com o público durante as suas visitas a Hong Kong. Em 2008, Xi, então vice-presidente chinês, visitou famílias comuns de Hong Kong, sentou-se com elas e conversou sobre a sua vida quotidiana. Na sua viagem de 2017, o Presidente Xi assistiu a um episódio da ópera cantonesa representada por crianças e encorajou-as a herdar a bela cultura tradicional chinesa. Ao longo dos anos, Xi supervisionou a implementação de várias políticas favoráveis aos compatriotas de Hong Kong no continente, que

Sob a liderança de Xi, as autoridades centrais promoveram a conectividade das infra-estruturas e implementaram políticas e medidas para expandir ainda mais o espaço para o desenvolvimento de Hong Kong O continente enviou materiais anti-epidémicos, enviou trabalhadores da saúde, e ajudou a construir instalações de isolamento e tratamento, bem como assegurou o fornecimento constante de necessidades diárias para ajudar na luta de Hong Kong contra a epidemia. “A pátria é sempre o forte apoio de Hong Kong. As dificuldades em mãos podem certamente ser ultrapassadas”, disse Xi. Xi salientou uma compreensão completa e precisa do princípio “um país, dois sistemas” e uma aplicação fiel do mesmo. Como ele disse, “um país” é como as raízes de uma árvore e para uma árvore crescer alta e luxuriante, as suas raízes devem correr profundas e fortes.

Medidas fundamentais

As autoridades centrais adoptaram um conjunto de políticas e medidas num esforço para abordar tanto os sintomas como as causas profundas dos desafios relevantes que Hong Kong enfrentou.

A implementação da lei de segurança nacional em Hong Kong foi uma dessas medidas significativas. Foi seguida de melhorias no sistema eleitoral. Estes proporcionaram a Hong Kong uma garantia institucional sólida para ultrapassar dificuldades imediatas, alcançar uma boa governação e assegurar uma paz e estabilidade duradouras. No âmbito do novo sistema eleitoral, Hong Kong realizou com sucesso eleições para a Comissão Eleitoral, para o Conselho Legislativo do sétimo mandato e para o chefe executivo do sexto mandato. Um número crescente de pessoas competentes e patriotas tem entrado na estrutura governativa. Com estas medidas em vigor, a estabilidade social foi restaurada. Tanto para o povo de Hong Kong como para os residentes estrangeiros, isto significa um ambiente de vida mais seguro e um ambiente de negócios mais previsível. “A chave do sucesso de Hong Kong reside no amor do seu povo pela pátria e por Hong Kong, e na sua perseverança, busca da excelência e adaptabilidade”, disse Xi. Em 2018, Xi conheceu Eric Kuo, um jovem empresário de Hong Kong, numa zona piloto de comércio livre na província de Guangdong. “Fiquei profundamente tocado com o encorajamento do Presidente Xi e fiquei mais determinado a iniciar o meu próprio negócio no continente”, disse Kuo. A sua empresa de alta tecnologia expandiu-se rapidamente, obtendo receitas anuais de mais de 10 milhões de yuan no ano passado. Estão a surgir mais oportunidades para os jovens de Hong Kong no continente, uma vez que estão a receber uma maior assistência desde a procura de emprego até ao estabelecimento de empresas. “Uma pátria cada vez mais próspera serve como fonte de força para Hong Kong ultrapassar dificuldades e desafios; apresenta também um reservatório de oportunidades para Hong Kong desbravar novos caminhos, fomentar novas forças motrizes e criar novo espaço para o desenvolvimento”, disse Xi na sua viagem pelo 20º aniversário da RAEHK há cinco anos.


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Amizade reforçada

G7 GRUPO ACUSADO DE “SEMEAR A DIVISÃO” APÓS CRÍTICAS A PEQUIM

Chanceleres chinês e venezuelano conversam por telefone

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conselheiro de Estado e ministro dos Negócios estrangeiros, Wang Yi, conversou por telefone esta terça-feira com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Venezuela, Carlos Faria, por ocasião do 48.º aniversário do estabelecimento dos laços diplomáticos. Desde que os dois países instituíram esta conexão oficial, as relações bilaterais sempre foram sólidas, independentemente das mudanças na situação internacional, comentou Wang, acrescentando que os líderes de ambos construíram uma forte confiança mútua e amizade sólida, fornecendo importante garantia política e orientação para o desenvolvimento da parceria estratégica abrangente. A China está pronta para trabalhar com a Venezuela para continuar a aprofundar a confiança política mútua, manter a amizade tradicional e promover uma cooperação de benefício mútuo, apontou. Wang expressou gratidão à Venezuela por estar firmemente ao lado da China e defender a justiça em questões relacionadas a Taiwan, Hong Kong, Xinjiang e direitos humanos. A China, como sempre, se oporá firmemente à interferência nos assuntos internos da Venezuela por forças externas sob qualquer pretexto, apoiará firmemente o país na manutenção da soberania nacional e da estabilidade social e defenderá o povo venezuelano na escolha de um caminho de desenvolvimento

adequado às suas condições nacionais, assinalou Wang. Ele acrescentou que a China continuará oferecendo toda a ajuda possível à Venezuela em sua luta contra a pandemia de COVID-19. Wang ressaltou que ambas nações devem continuar a fortalecer a solidariedade e a coordenação em assuntos multilaterais, defender os direitos e interesses legítimos de cada uma, praticar o verdadeiro multilateralismo e salvaguardar o sistema internacional com a ONU no núcleo e a ordem internacional baseada no direito internacional.

Do outro lado

Por sua vez, Faria salientou que, sob a orientação dos dois chefes de Estado, a parceria estratégica abrangente Venezuela-China fez progressos notáveis e tem estado cheia de vitalidade, acrescentando que o seu país aprecia o forte apoio chinês na luta contra a pandemia. A Venezuela defende firmemente o princípio de Uma Só China e a política de “um país, dois sistemas”, apoia o país na protecção da sua soberania nacional, independência e integridade territorial e está pronta para trabalhar com a nação asiática em novas maneiras de aprofundar a cooperação de benefício mútuo, garantiu. Destacando que a China desempenha um papel cada vez mais importante no cenário internacional, Faria elogiou a IDG proposta por Xi e outras iniciativas.

Maus princípios A

PCC Partido com mais de 96,7 milhões de membros O número de membros do Partido Comunista da China (PCC) ultrapassou 96,71 milhões no final de 2021, anunciou o Departamento de Organização

do Comitê Central do PCC nesta quarta-feira. O número de membros aumentou 3,7% em relação a 2020 e 15,9 por cento desde o 18.º Congresso

Nacional do PCC realizado no final de 2012, revelou o departamento num relatório nas vésperas do 101.º aniversário de fundação do PCC em 1 de Julho.

China acusou ontem os países do G7 de “semearem a divisão”, depois de o grupo que reúne as nações mais industrializadas do mundo ter condenado a alegada falta de transparência de Pequim nas suas práticas comerciais. Reunidos no sul da Alemanha, entre domingo e terça-feira, os líderes do G7 (Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Japão e Canadá) usaram uma linguagem particularmente assertiva contra a China, na sua

declaração conjunta, após uma cimeira de três dias. O G7 expressou a sua preocupação com os direitos humanos no país e denunciou as práticas comerciais “não transparentes e que distorcem o mercado” de Pequim. “Enquanto a comunidade internacional luta contra a pandemia e se esforça para reanimar a economia, o G7 não apenas falha em comprometer-se com a unidade e a cooperação, mas, em vez disso, está empenhado em dividir e criar antagonismos, sem

qualquer senso de responsabilidade ou princípio moral”, disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijian, em conferência de imprensa.

Má nova

Washington há muito que aponta críticas às práticas comerciais de Pequim, que acusa de favorecer as empresas chinesas, em detrimento das empresas estrangeiras, ou de transferência forçada de tecnologia. Mas o facto da Alemanha,


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NATO ALIANÇA ATLÂNTICA CRITICADA POR TER “MENTALIDADE DA GUERRA FRIA”

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China acusou ontem a NATO de ter uma “mentalidade da Guerra Fria”, numa altura em que a Aliança Atlântica, reunida numa cimeira em Madrid, se prepara para definir o país asiático como um desafio para a segurança. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijian, disse que a NATO devia “desistir da mentalidade da Guerra Fria, dos jogos de ‘tudo ou nada’e da prática de criar inimigos”. A Aliança “não devia tentar transtornar a Ásia e o mundo inteiro depois de perturbar a Europa”, apontou. Zhao Lijian acusou os membros da NATO de “criar tensão e provocar conflitos” ao enviar navios de guerra e aeronaves para

áreas próximas ao continente asiático e ao Mar do Sul da China. Estas observações de Pequim surgem após uma recente interceção de uma aeronave de vigilância do Canadá, por um caça chinês, no espaço aéreo internacional, que as autoridades canadianas descreveram como imprudente por parte do piloto chinês. A Austrália, aliada dos Estados Unidos, disse também que, em 26 de Maio, a China cometeu um perigoso acto de agressão contra um avião da Força Aérea australiana que realizava operações de vigilância aérea no Mar do Sul da China. O porta-voz da diplomacia chinesa também criticou as sanções impostas contra a Rússia.

OCEANOS PEDIDO MAIS CONHECIMENTO CIENTIFICO E PARCERIAS GLOBAIS

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que é a maior economia da União Europeia (UE) e que tem a China como maior parceiro comercial, criticar directamente as práticas do país asiático é uma novidade.

A Alemanha exerce actualmente a presidência do G7. Na sua declaração final, os líderes do G7 também apontaram que querem “fomentar a diversifi-

“Enquanto a comunidade internacional luta contra a pandemia e se esforça para reanimar a economia, o G7 não apenas falha em comprometer-se com a unidade e a cooperação, mas, em vez disso, está empenhado em dividir e criar antagonismos, sem qualquer senso de responsabilidade ou princípio moral.” ZHAO LIJIAN MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS CHINÊS

cação e a resistência à coerção económica, e reduzir as dependências estratégicas” em relação ao país asiático. Estas críticas surgiram antes do arranque da cimeira da NATO, a decorrer em Madrid. Na capital espanhola, a NATO incluiu as preocupações com a China no seu novo conceito estratégico. No documento aprovado em Madrid e preparado para a próxima década, a NATO afirma que a China “declarou ambições e políticas coercivas”, desafiando os “interesses, segurança e valores” dos aliados. O anterior conceito estratégico, aprovado em Lisboa, em 2010, não continha referências à China.

Governo chinês exortou terça-feira a comunidade internacional a aprofundar o conhecimento científico dos ecossistemas marinhos e costeiros para preservar os oceanos, mostrando-se pronto para construir parcerias com países de todo o mundo e para ações conjuntas. A agenda 2030 “caracteriza o mundo de hoje como interdependente e interligado como nunca antes. Só através do reforço da cooperação e da parceria globais é possível atingir os ODS” (Objectivos de Desenvolvimento Sustentável), defendeu o enviado especial do governo da China na Conferência da ONU sobre os Oceanos, que decorre em Lisboa. Nesse sentido, exortou a comunidade internacional a intensificar acções conjuntas e a assistência e cooperação, sobretudo com os países em desenvolvimento e especialmente os pequenos Estados insulares, “para reforçar a sua capacidade de desenvolvimento sustentável”. A China, anunciou, vai disponibilizar um pacote financeiro para pequenos projectos de tecnologias de informação nesta área e “promete continuar a contribuir para o cumprimento dos objetivos das Nações Unidas com

acções e resultados concretos”. Como exemplo citou o Centro para a Cooperação e Deteção Remota por Satélite China e África e outros projetos através dos quais é dado apoio técnico ao ordenamento do território marítimo e assistência técnica, com acompanhamento, avaliação e o alerta precoce para responder às alterações climáticas e prevenir catástrofes marinhas. O representante do governo chinês aproveitou ainda a ocasião para reafirmar, perante os líderes de mais de 140 países, que “só há uma China” e afirmar que “Taiwan é parte integrante do seu território”. A segunda Conferência da ONU sobre os Oceanos, coorganizada por Portugal e pelo Quénia, começou na segunda-feira e decorre até sexta-feira em Lisboa. Espera-se que da Conferência dos Oceanos das Nações Unidas (UNOC na sigla em inglês) saia a Declaração de Lisboa, que ajude a concretizar o ODS 14, que acelere o combate à poluição e que aumente a preservação da biodiversidade e a sustentabilidade. Assim como que se generalize a noção da importância dos oceanos no combate às alterações climáticas.


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XUNZI

O “Mestre” Songzi1 disse: “Tornar claro que ser insultado não é vergonhoso resulta em que as pessoas não se envolvem em contendas. Toda a gente pensa que ser insultado é vergonhoso e, por isso, se envolve em contendas. Se compreenderem que ser insultado não é vergonhoso, não se envolverão em contendas”. A minha resposta é: pensará ele, então, que a disposição das pessoas é não odiarem ser insultadas? Ao que o “Mestre” responde: “É certo que o odeiam, mas não o consideram vergonhoso”. Ao que replico: se assim for, decerto não obterá deles o que procura. Sempre que as pessoas se envolvem em contendas, devemos tomar por explicação o seu ódio por algo, e não tomar a sua crença em que é vergonhoso como razão. Ora, quando bobos e anões se vilipendiam e insultam entre si, mas não se põem a brigar, como seria isso uma indicação de que compreendem que ser insultado não é vergonhoso? Ao invés, a razão pela qual

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ELEMENTOS DE ÉTICA, VISÕES DO CAMINHO

Dos Juízos Correctos

não se envolvem em contendas é porque não odeiam ser tratados assim. Contudo, se alguém invadisse os seus canais de irrigação e lhes roubasse os porcos, pegariam em espadas e alabardas para o perseguirem, não se preocupando em morrer ou serem feridos. Como seria isso indicação de que não consideram que perder porcos é vergonhoso? Ao invés, a razão pela qual não evitam brigar é porque odeiam ser tratados assim. Mesmo que consideremos vergonhoso ser insultado, quando não odiamos ser tratados assim não nos envolveremos em contendas. E, mesmo se considerarmos que ser insultado não é vergonhoso, se odiarmos ser tratados assim, então é certo que nos envolveremos em contendas. Sendo assim, o facto das pessoas se envolverem, ou não, em contendas não se prende com considerarem algo vergonhoso, mas sim com ou facto de o odiarem ou não. Ora o “Mestre” Songzi é impotente para dissolver o ódio que as pessoas têm a serem insultadas, mas continua a insistir em

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persuadir as pessoas a não o considerarem vergonhoso – quão severamente errado está! Mesmo que tivesse uma língua de metal e com ela gastasse a boca a falar, as suas palavras continuariam a ser inúteis. Se não souber que as suas palavras são inúteis, mas simplesmente as usar para enganar as pessoas, então não tem ren [humanidade]. Não ser inteligente nem ter ren – não há desgraças maiores. Quando se pensa poder ajudar as pessoas, mas de facto não se ajuda de todo, tudo o que se faz é obter grande desgraça antes de sair de cena – não há, simplesmente, doutrina mais errada do que esta. 1 - Pouco se sabe de Songzi (que terá sido mais ou menos coevo de Xunzi). Contudo, o facto de Xunzi o tratar de modo particularmente honorífico (tal como denotam as aspas na tradução) deve ser entendido ironicamente. Para Xunzi, a vergonha não é, por si só, uma virtude moral, mas uma experiência ética.

Xunzi (荀子, Mestre Xun; de seu nome Xun Kuang, 荀況) viveu no século III Antes da Era Comum (circa 310 ACE - 238 ACE). Filósofo confucionista, é considerado, a par do próprio Confúcio e Mencius, como o terceiro expoente mais importante daquela corrente fundadora do pensamento e ética chineses. Todavia, como vários autores assinalam, Xunzi só muito recentemente obteve o devido reconhecimento no contexto do pensamento chinês, o que talvez se deva à sua rejeição da perspectiva de Mencius relativamente aos ensinamentos e doutrina de Mestre Kong. A versão agora apresentada baseia-se na tradução de Eric L. Hutton publicada pela Princeton University Press em 2016.


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Antropofobias

CARLOS MORAIS JOSÉ Retiro o que dissera porque as palavras limitam-se a flutuar rio abaixo, obcecadas por uma deriva de perfeição. “Tu não existes”, dizias enamorada da frase rude como se eu ainda estivesse à tua frente. Certo. O que é isto de grunhir, soletrar ou escrever? Onde nos leva a ribanceira? Quando foi que tudo começou? Une-nos um espírito e um santo tão sacrílegos que Deus ruborizado se escondeu e assim permanecerá até ao fim do nosso tempo. A massa informe das coisas insiste em colar-nos as pálpebras. Dificilmente distingo, na tona da peneira, a farinha dos dias, os grânulos das noites, pedaços de almas e fímbrias de corpos. Vendado prossigo. E antolhado me recordo de ter havido uma existência qualquer. Nela bebia o húmus alcoólico e a seiva esbranquiçada de mil gerações. Então percebi a lição de me tornar poeira e fazer-me aos ventos das infinitas direcções. E nesse estado ínfimo me encontro enquanto sóbrio me disperso. Nessa condição, entrarei em teus olhos ainda que nunca me vejas. A tua mão percorrerá o ar sem me tocar. Serei o mosquito mínimo nos teus ouvidos, o zumbido persistente da matéria, a forma do abismo por atravessar. Nesse campo de mortos serei todos eles, as armas caídas e serei nada. Multidões de sonâmbulos perseguem na noite o seu próprio corpo num eterno afã de encontrar. Mesmo supondo que tal façam sem astúcia ou o uso da razão, ainda assim dormirão algemados a sonhos, dos quais pela aurora não haverá qualquer memória. Um fruto permanece por colher na glabra árvore do amor Retomo a estrada dos sentimentos desasados. É tempo de abrigar os viajantes imprudentes, ao som dos sapos que coaxam na beira dos vulcões. É impossível voar. Passa a banda irmanada, a banda apropriada, soprando a música séria dos funerais. A costumeira cavalgada de valquírias canibais. O som do sangue não respeita os desejos do silêncio, até ao vácuo da mente se sobrepõe. O oceano vomita cadáveres nas areias de um país. Só aos mortos interessa o seu nome, a sua fama, a riqueza disforme das suas gentes. Ninguém sabe o que fazer. Já pouco há de comer e de bebida um resto turvo arde bravo na garganta. Quedamo-nos sem fala, boia a mala onde dantes cabiam as nossas precárias vidas.

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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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A irrelevância do solstício

O vírus separa as montanhas dos vales e as cidades das lezírias. Ali mesmo onde era suposto termos sido felizes. O vírus nada separa que não estivesse já separado, ainda que parecesse enroscado, ataviado de festa. Dei por um homem vestido de sol e uma mulher vestida de lua. Ele tremia gelado. Ela ardia em febre crua. Na transparência das peles, uma veia regurgitava, talvez uma verdade antiga. Tão antiga que ninguém se lembrava da sua língua. Teremos de esperar pela tradução dos tempos. E confinar os lamentos que como coro ecoam. São milhões de vozes, filhas da torre invisível que alcançou o céu. Todas elas lancinantes como espadas, cerradas como punhos, unidas como romãs. “Não entendo a tua língua”, dizias. E nada havia para entender nos gestos que a voz fazia. Serei coxo, serei cego, serei rei e vagabundo. Pintarei o céu do roxo que minha mãe me

APROXIMO-ME DA JANELA, AINDA NU MAS JÁ CANSADO, E RECOLHO NA PELE O PRIMEIRO RAIO DE UM SOLSTÍCIO. O PLANETA RODA E EM BREVE OUTROS DIAS NASCERÃO. EU NÃO FICAREI NA MESMA. TUDO O QUE FIZ OU DESFIZ, O QUE LI OU INVENTEI, HOSPITAL OU FALÉSIA, NÃO CHEGARÁ PARA O ÓBOLO QUANDO SOAR A MINHA HORA

ensinou. De todo este lerdo mundo, foi a cor que me sobrou. Uma cor forte, sabor de acetona, a cobrir um invisível firmamento. Multidões de sonâmbulos perseguem na noite o seu próprio corpo num eterno afã de encontrar. Mesmo supondo que tal façam sem astúcia ou o uso da razão, ainda assim dormirão algemados a sonhos, dos quais pela aurora não haverá qualquer memória. Um fruto permanece por colher na glabra árvore do amor. Hoje o dia primará pela sua excessiva extensão e um acréscimo negativo de sombras. A luz erguerse-á como um vício. Aproximo-me da janela, ainda nu mas já cansado, e recolho na pele o primeiro raio de um solstício. O planeta roda e em breve outros dias nascerão. Eu não ficarei na mesma. Tudo o que fiz ou desfiz, o que li ou inventei, hospital ou falésia, não chegará para o óbolo quando soar a minha hora.


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1 0 8 9 5 3 9 5 3 0 6 4 4 6 5 7 8 2 30.6.2022 quinta-feira 8 3 7 www.hojemacau.com.mo 6 0 1 0 2 6 3 4 8 5 4 1 2 7 9 7 9 0 5 1 6 3 8 2 4 9 5 26 MAX 31 HUM 70-95% UV 8 (MUITO ALTO) • EURO 8.57 BAHT 0.22 YUAN 1.20 6 1 4 8 2 7 2 7 9 1 3 0

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THE OTHER ONE: THE LONG, STRANGE TRIP OF BOB WEIR | MIKE FLEISS

CINETEATRO

C I N E M A

SALA 1

LIGHTYEAR [B]

Lançado em 2015, “The Other One: The Long, Strange Trip of Bob Weir” conta a história de Robert Weir, guitarrista/ vocalista fundador dos Grateful Dead, a lendária banda de rock psicadélico liderada pelo guru dos anos 60 Jerry Garcia. O documentário, disponível no Netflix, mostra o percurso do músico, que deixou a escola para mergulhar fundo na cultura hippie, nas paisagens coloridas do LSD e na guitarra. Este filme é um retrato emotivo de um herói de contracultura que passou grande parte da vida em palco e cujo primeiro disco vai fazer no próximo ano meio século. João Luz

FALADO EM CANTONÊS Um filme de: Angus MacLane 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 2

TOP GUN: MAVERICK [B] Um filme de: Joseph Kosinski Com: Tom Cruise, Jennifer Connely, Val Kilmer, Miles Teller 14.00, 19.15

JURASSIC WORLD: DOMINION [B] Um filme de: Colin Trevorrow

Com: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Laura Dern, Jeff Goldblum 16.30, 21.45

THE LOST CITY [B]

Um filme de: Adam Nee, Aaron Nee Com: Sandra Bullock, Channing Tatum, Daniel Radcliffe, Brad Pitt 14.30, 16.30, 21.45 SALA 3

EVERYTHING EVERYWHERE ALL AT ONCE [C]

Um filme de: Daniel Kwan, Daniel Scheinert Com: Michelle Yeoh, Stephanie Hsu, Ke Huy Quan, James Wong 19.00

2 0 7 5 1 6 3 5 6 0 9 4 4 1 9 7 8 3 8 7 1 6 4 2 LIGHTYEAR 0 4 3 8 7 5 7 2 5 9 0 1 6Propriedade 9 4 Fábrica 2 3de Notícias, 8 Lda Director Carlos Morais José Editores João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Pedro Arede, Nunu Wu Colaboradores Anabela Canas; António Cabrita; Ana Jacinto Nunes; Amélia Vieira; Duarte Drumond Braga; Gonçalo Waddington; José Simões Morais; 9Julie3Oyang; 8 Paulo 4 Maia 5 e7Carmo; Rosa Coutinho Cabral; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Colunistas André Namora; David Chan; João Romão; Olavo Rasquinho; 5Paul6Chan0Wai1Chi; Paula 2 9Bicho; Tânia dos Santos Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare 1Morada 8 Pátio 2 da3 Sé,6n.º22,0Edf. Tak Fok, R/C-B, Macau; Telefone 28752401 Fax 28752405; e-mail info@hojemacau.com.mo; Sítio www.hojemacau.com.mo

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quinta-feira 30.6.2022

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in sapo24

opinião 15

José Couto Nogueira

MAS O QUE era afinal, o Frágil? Uma discoteca (boite, como se dizia antigamente)? Havia várias boites conhecidas e em que era difícil entrar: das frequentadas pelos clientes mais conservadores (como o Stones) às mais fantasticamente contemporâneas (como o Alcântara). O Frágil abriu portas, faz agora 40 anos (motivo desta modesta homenagem). Foi em 1982, sete anos depois da Revolução política que permitiu todas as liberdades, inclusive a dos “costumes”. Contudo, antes do 25 de Abril já existiam “boites”, algumas das quais continuaram a fazer sucesso por mais umas décadas. Assim, numa rápida saída noturna que não pretende ser exaustiva, o conceito de discoteca, isto é, uma sala para se dançar sem orquestra, apenas ao som de discos, entre nós, nasceu em 1962, com o Caixote, atrás do cinema São José, em Cascais. A partir daí espalharam-se pela “linha” de Cascais: a Ronda, por cima da bomba de gasolina no Monte Estoril, e a maior das maiores, o “2001”, no Autódromo do Estoril. Em Lisboa, a movida passava pelo Ad Lib, no topo de um prédio na Rua Barata Salgueiro e o Vão Gogo, cingindo-nos apenas às mais badaladas. Na sociedade do antigamente, com uma vincada separação de classes, quem ia a estes sítios eram os meninos da classe média que estudavam subsidiados pelos pais (os quais iam a boites doutro género, com orquestra, como o Wonder Bar do Casino Estoril ou a Choupana). Fast forward para o pós-25 de Abril. A noite democratizou-se e a distinção de classes foi substituída pelos locais destinados aos mais velhos (os betos e as tias), saudosos das noites de bebedeira e despreocupação, e os sítios frequentados pelos mais novos, menos ralados com nomes de família e mais focados no estilo em voga. Nessa linha, nas décadas de 80-90, havia casas divertidas como o Trumps, o Kremlin e o Plateau. O termo casa de diversão noturna, assenta-lhes na perfeição, se considerado literalmente. Nem todos frequentavam todas as discotecas, a seleção fazia-se gosto musical, mais do que pela clientela. Talvez a mais fantástica dessas casas fosse o Alcantâra-Mar, uma discoteca grande, restaurante e bar, situada em Alcântara (perto de onde está agora a LX-Factory), em Lisboa. Com o aparecimento do rock português, surgiram também os seus lugares de preferência, cujo ícon incontornável era o Rock Rendez-Vous (1980), dos Xutos & Pontapés. Aí, a música celebrava-se ao vivo, como acontecia esporadicamente nas casas “generalistas” com dimensões para uma banda atuar em palco, como o Alcântara-Mar. Em junho de 1982 inaugura o Frágil, numa esquina da Rua da Atalaia, ao Bairro

LUÍSA FERREIRA/LUX

A FORÇA DO FRÁGIL

Dizer que Manuel Reis foi um empresário da noite, é reduzi-lo ao nível dos outros empresários da noite (...) Manuel Reis era o aglutinador e impulsionador de pessoas e atividades que brilharam à luz do dia e que tinham naquele sítio um ponto de encontro

Alto, onde existira uma padaria. Estilo minimalista, sem decoração que se definisse – aproveitando aliás, os azulejos e o forno – com uma porta de entrada discreta e o DJ pendurado num balcão por cima do bar. Porque é que este cochicho se tornou algo de muito diferente e muito maior do que os inúmeros bares, boites, discotecas ou casas noturnas que começaram a despontar na altura? Há quem diga que era pela seleção feita à porta, a cargo de uma figura obesa e arrogante, segundo critérios que nunca se percebiam e nada deviam à coerência, protegida por um latagão barbudo. Mas todos os lugares

noturnos tinham uma “porta” (como se diz) que selecionava quem entrava, geralmente por ser “pessoa conhecida” ou por estar bem apinocada. Mas o critério desta porta, hermético e irritante que fosse, não era igual aos outros. É que a ideia do Manuel Reis, o inventor da casa, era outra. O Frágil, sob a sua aparência inócua de música e drinks, era o que se pode chamar de plataforma logística para a Revolução Cultural em génese numa Lisboa rejuvenescida. Os clientes regulares do Frágil incluem todos os nomes de quem fez contribuiu para essa revolução, fosse na moda, no cinema, teatro, artes visuais, ou nos acontecimentos culturais marcantes que fizeram a época. Querem nomes? A lista é, felizmente, extensa. Alguns exemplos: António Variações, Jorge Palma, João Botelho, Gonçalo Byrne, Ana Salazar, Pedro Cabrita Reis, José Ribeiro da Fonte, Eduarda Abondanza, Manuela Gonçalves, Vicente Jorge Silva, Seixas Santos, Felipe Faísca, Paula Moura Pinheiro, José Pedro Croft, Julião Sarmento... Assim, de repente, vêm tantos nomes à cabeça que é impossível fazer justiça a todos. O que se pode dizer, é que os responsáveis pelas artes, puras e aplicadas, que fizeram o ressurgimento cultural de Lisboa, frequentavam o Frágil. Não combinavam lá ir, reparem; apareciam e tinham conversas casuais que culminaram em muitos projetos marcantes de que todos beneficiámos, e fizeram muitos nomes famosos. Dizer que Manuel Reis foi um empresário da noite, é reduzi-lo ao nível dos outros empresários da noite – pessoas interessantes, empreendedoras e bem-sucedidas, é certo, mas cuja atividade era criar e fazer prosperar lugares noturnos. Manuel Reis era o

aglutinador e impulsionador de pessoas e atividades que brilharam à luz do dia e que tinham naquele sítio um ponto de encontro. Às vezes financiava, outras arranjava financiadores, outras ainda juntava as pessoas que precisavam de se juntar, dava ideias que ele próprio desenvolvia, ou potenciava ideias que eles tinham. Para a maioria das pessoas, o Frágil era apenas um sítio onde era difícil entrar; quando conseguiam passar o críptico crivo da porta, o que viam lá dentro era o mesmo que viam em qualquer outro lugar noturno; gente a conversar, a beber, a dançar e a divertir-se. Conseguiam identificar algumas caras que já tinham chegado ao noticiário e não reconheciam outras figuras que fizeram uma mudança significativa naquilo a que chamamos, muito apropriadamente, uma revolução cultural. O Frágil teve satélites, onde iam algumas dessas pessoas, como Os Três Pastorinhos, o Capitão Kirk e o bar Nova. Era um circuito, dentro da confusão, que, entretanto, o Bairro Alto se tinha tornado. Esse circuito também incluía alguns restaurantes – acima de todos, o Pap’Açorda e logo a seguir outros, como o Casa Nostra e o Fidalgo. Em 1998, Manuel Reis decidiu mudar de escala. A “movida” de Lisboa tornou-se gigantesca e já não podia ser contida num cantinho onde cabiam talvez cem pessoas. Surge assim o Lux (nome completo: Lux Frágil) instalado num edifício industrial frente à estação de Santa Apolónia. Tal como o seu antecessor, não é possível classificar a decoração, mas o ambiente não deixa ninguém indiferente; é uma combinação arrebatadora de luz e som, distribuída por três espaços onde cabem umas centenas de pessoas. As suas dimensões permitem fazer festas superlativas, com decorações faraónicas que ficaram na memória coletiva. Com a internacionalização de Lisboa, a noite, a cidade e o país evoluíram para um mundo mais cosmopolita. Os agentes da revolução reformaram-se, morreram, foram para outros projetos e para o mundo. Não se pode pôr uma data nesta mudança; contudo, simbolicamente, a baliza temporal terá ocorrido em 2018, com a morte de Manuel Reis, aos 71 anos. Deixou o Lux aos empregados. Depois de dois anos difíceis, por causa da pandemia, a casa renasceu com o mesmo estilo e entusiasmo. Agora, tem um público maioritariamente estrangeiro, como tudo em Lisboa. Certamente que não poderá prolongar a criatividade do criador – até os convites das festas eram verdadeiras peças de arte, coleccionáveis. Mas está lá, como herança, numa espécie de monumento vivo às décadas em que os lisboetas fizeram e celebraram o seu alinhamento com a contemporaneidade.


“Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma.” PALAVRA DO DIA

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Associação de Jovens Macaenses (AJM) foi recebida pelo Chefe do Executivo, num encontro que serviu para trocar “impressões sobre a preservação e a divulgação da cultura macaense, a promoção do posicionamento de Macau como plataforma sino-lusófona e o reforço da formação de quadros qualificados plurilíngues locais”. A informação foi divulgada ontem, em comunicado pela AJM. O encontro teve lugar no passado dia 16 de Junho. Na reunião, Ho Iat Seng garantiu a protecção e promoção da comunidade macaense, que elogiou pelo apoio prestado à governação, segundo a versão da AJM. Nesta, é igualmente indicado que o Chefe do Executivo frisou que “a RAEM tem atribuído elevada importância ao estatuto único e à identificação singular da comunidade macaense”. Foi ainda dito pelo líder do território que “o Governo irá também continuar a prestar um forte apoio ao trabalho das associações de matriz macaense, com o intuito de assegurar que a cultura macaense pode passar de geração em geração e desenvolver-se de uma forma sustentável”. Por sua vez, o recém-eleito presidente da comissão directora, António Monteiro, destacou que a “gastronomia macaense e o teatro em Patuá figuram na Lista de Património Cultural Imaterial Nacional” e falou da “especial relevância” da cultura macaense. Além disso, frisou igualmente que a comunidade macaense domina várias línguas e que pode contribuir para maior conhecimento e “promoção do desenvolvimento mais actualizado da RAEM e da Grande Baía”.

30.6.2022

DEPRESSÃO TROPICAL IÇADO SINAL 1. CHUVA FORTE E TROVOADA NOS PRÓXIMOS DIAS

RÓMULO SANTOS

JOVENS MACAENSES ASSOCIAÇÃO FALOU CHEFE DO EXECUTIVO

Fernando Pessoa

quinta-feira

Lam Lon Wai “Os trabalhadores independentes, como os intermediários de seguros, estão a enfrentar desafios e dificuldades sem precedentes, e os seus rendimentos caem a cada dia que passa, o que afecta seriamente a sua vida.”

Segurem os seguradores

área de baixa pressão em formação no Mar do Sul da China evoluiu para uma depressão tropical e entrou na área de vigilância, a menos de 800 km de Macau. Como consequência, o sinal n.º 1 de tempestade tropical entrou em vigor às 19h00 de ontem, prevendo-se que as bandas de chuva associadas ao sistema venham a provocar tempo instável em Macau a partir de hoje. “Devido à circulação relativamente ampla neste sistema, as bandas de chuva associadas vão trazer tempo instável a Macau. A partir do dia 30 [hoje], os ventos na região vão intensificar, com aguaceiros fortes e trovoadas”, pode ler-se numa nota publicada ontem pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG). A tempestade tropical está a deslocar-se para as regiões localizadas entre a costa de Guangdong e a Ilha de Hainan, existindo, contudo, “variáveis na sua trajectória e intensidade”. De acordo com o mapa de previsão da trajectória divulgado pelos SMG, a depressão tropical poderá evoluir para um ciclone tropical entre hoje e amanhã e para um ciclone tropical severo no sábado.

Deputado quer apoios para intermediários de seguros e fala de pânico entre os cidadãos de Macau por causa dos testes rápidos

L

A M Lon Wai, deputado ligado aos Operários de Macau, quer garantias do Governo de que os intermediários de seguros, que trabalham com base em comissões, vão ser abrangidos por um novo “plano de apoio pecuniário aos trabalhadores, aos profissionais liberais e aos operadores de estabelecimentos comerciais”. A exigência faz parte de uma opinião divulgada ontem pelo legislador. O plano de apoio pecuniário aos trabalhadores, aos profissionais liberais e aos operadores de estabelecimentos comerciais teve duas edições. A primeira implicou a distribuição de 10 mil patacas a cada trabalhador, em 2020, mas, segundo o deputado, não incluiu os intermediários de seguros em regime de freelancer. No ano passado, ofereceu 10 mil patacas às pessoas com um rendimento anual

inferior a 144 mil patacas. Os intermediários foram incluídos. “Neste momento, a situação epidémica em Macau está a expandir-se rapidamente, e a sociedade e a economia estão totalmente bloqueadas. Não é uma situação que nos deixe optimistas”, escreveu Lam Lon Wai. “Os trabalhadores independentes, como os intermediários de seguros, estão a enfrentar desafios e dificuldades sem precedentes, e os seus rendimentos caem a cada dia que passa, o que afecta seriamente a sua vida”, alertou.

Em pânico

Em tempos de semi-confinamento, o deputado mostra-se ainda preocupado com as pessoas que têm de se deslocar aos locais de trabalho e a quem é exigido que façam com regularidade testes rápidos, que necessitam de pagar do próprio bolso. Lam aponta

que a situação está a causar “pânico”, entre os residentes, como acontece com os trabalhadores dos casinos que têm de seguir a exigência. “Apesar de o Governo fornecer um certo número de kits de testes rápidos durante os testes em massa, estes servem para satisfazer as necessidades gerais, o que faz com que muitos trabalhadores tenham de comprar mais testes”, justificou. “Actualmente, como o fornecimento no mercado não é estável, os preços têm variações muito grandes. E como para trabalharem precisam de fazer testes, e cumprir as exigências do Governo, os trabalhadores estão em pânico”, revelou. Lam Lon Wai apela assim para que o Governo garanta o fornecimento destes trabalhadores com testes com preços baratos e também de máscaras do tipo N95, tidas como mais seguras face às tradicionais máscaras de cirurgia. J.S.F.

AMCM Reserva financeira cai para 613 mil milhões em Abril

Em Abril, a reserva financeira de Macau fixou-se em 613 mil milhões de patacas, registando um resultado do exercício negativo de 18,44 mil milhões de patacas. Segundo uma nota da Autoridade Monetária de Macau (AMCM) publicada ontem em Boletim Oficial (BO), a reserva básica do acumulado representa 145 mil milhões de patacas, ao passo que a reserva extraordinária representa 486,46 mil milhões de patacas. Em Março, a reserva financeira de Macau fixou-se nos 635 mil milhões de patacas. Desde o início do ano, que a reserva financeira tem vindo a apresentar resultados negativos, mês após mês.