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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

hojemacau

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MOP$10

SEXTA-FEIRA 30 DE JUNHO DE 2017 • ANO XV • Nº 3844

Hong Kong

Song Dong’s Doing Nothing Garden

A pérola baça 20 anos depois da transferência de soberania, muitos contribuíram para que a ex-colónia britânica seja hoje entendida como uma oportunidade perdida.

Comparar Macau com Hong Kong é injusto

MELINDA CHAN

Aposta total nos problemas da habitação PÁGINA 4

YUE MINJUN, LIXEIRA

TRÁFICO HUMANO

ANTÓNIO FALCÃO

DOSSIER ESPECIAL

Uma praça cheia de gente ANTÓNIO DE CASTRO CAEIRO

A curva e o foco ANABELA CANAS

PÁGINA 7

PÁGINA 7

Quando Macau tinha um liceu JOSÉ SIMÕES MORAIS

BOI LUXO

Karadeniz, o fim PAULO JOSÉ MIRANDA

h


2

COMÉRCIO

GRANDE PLANO

MOÇAMBIQUE BANCOS TENTAM GANHAR MERCADO NAS EMPRESAS CHINESAS

A

Economist Intelligence Unit (EIU) considera que o reajustamento do sector financeiro e restrições na política monetária chinesa vão influenciar a actividade das empresas em Moçambique apesar dos esforços dos bancos moçambicanos para atrair estas empresas. “Com a procura interna de serviços financeiros em Moçambique retraída pela iliteracia financeira e pela natureza informal da economia, direccionar os esforços para as empresas chinesas pode dar uma oportunidade de expansão aos bancos nacionais”, escrevem os peritos da unidade de análise económica da revista britânica The Economist. No entanto, acrescentam: “Duvidamos que as empresas chinesas vão confiar fortemente nos bancos nacionais quando operam em Moçambique, principalmente porque conseguem geralmente aceder a melhores negócios e serviços na China”. Numa nota enviada aos investidores sobre os esforços da banca moçambicana para captar mais clientes empresariais chineses, a que a Lusa teve acesso, os analistas notam que apesar destes constrangimentos, “o forte reajustamento em perspectiva no sector financeiro chinês e as condições monetárias mais apertadas a partir de 2018

deverão influenciar o ritmo da expansão das empresas chinesas em Moçambique”. Exemplificando com o Millennium bim, de capitais portugueses e o maior em Moçambique em termos de quota de mercado de activos, que no princípio deste mês anunciou um serviço de troca de moeda externa para as empresas chinesas, a EIU diz que esta é uma tendência do mercado seguida por outros bancos como o Standard Bank e a Société Générale. “Esta tendência do sector bancário de melhorar a sua oferta às empresas chinesas reflecte o facto de a sua presença comercial estar a crescer”, salienta a EIU, lembrando os negócios de 6 mil milhões de dólares no projecto de gás natural liquefeito, no qual a petrolífera estatal chinesa tem uma quota de 20%, e o de 1,4 mil milhões de dólares nos caminhos-de-ferro, um empreendimento no qual a China National Complete Engineering tem 50%. “O sector financeiro de Moçambique é demasiado pequeno para oferecer crédito a estes megaprojetos, mas os bancos estão provavelmente na esperança que estas grandes empreitadas encorajem outras firmas privadas chinesas a expandir a sua presença no país”, nomeadamente no sector dos serviços, conclui a EIU.

FÓRUM MACAU COM NOVO DELEGADO DE CABO VERDE

Nuno Furtado vai substituir Mário Vicente como delegado de Cabo Verde no Fórum de Macau, confirmou fonte oficial. Com 41 anos e formado em Política Internacional pela Universidade do Povo, em Pequim, e fluente em mandarim, o novo delegado de Cabo Verde inicia funções a partir de Julho.

PORTUGAL AINDA NÃO CONSEGUE EXPORTAR PLENAMENTE

ARESTAS P O comércio entre a China e os países lusófonos estão a superar a “crise” do ano passado. Mas ainda há muito por fazer para exponenciar as trocas entre os dois blocos.

O

administrador-executivo da AICEP, António Silva, fez hoje votos para os “entraves ainda existentes” à exportação de “muitos produtos alimentares portugueses” para a China sejam “objecto de negociação entre as autoridades competentes” dos dois países. “Muito gostaríamos que os entraves ainda existentes para a exportação de muitos produtos alimentares portugueses fossem objecto de negociação entre as autoridades competentes dos nossos países”, afirmou o líder da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), em declarações no Fórum Portugal-China, um evento realizado na Assembleia da República, que acolheu uma comitiva de empresários chineses provenientes da província de Guangdong, e aberto à participação de deputados e empresários portugueses. António Silva começou por sublinhar a importância de Guangdong, a província chinesa “mais fortemente orientada para o exterior, para a exportação e internacionalização”, onde se localizam as principais três zonas especiais de comércio e investimento, Shenzhen, Zhuhai e Shantou,

e deu conta do “relacionamento excepcional, a todos os níveis”, entre Portugal e a China. “Portugal e a China têm um relacionamento excepcional a todos os níveis. Estamos talvez no melhor momento deste nosso relacionamento”, disse. O presidente da AICEP manifestou-se “optimista” em relação à participação portuguesa no projecto

“Uma faixa, uma rota”, que a China está a desenvolver e que será o chapéu das relações económicas entre o gigante asiático e a Europa. “O posicionamento estratégico de Portugal transcontinental e transatlântico permite ser optimista em relação à nossa participação no projeto”, afirmou. “No âmbito da iniciativa ‘Uma faixa, uma rota’, destacamos


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PARA A CHINA

POR LIMAR

Secretário Lionel Leong. Poderá a RAEM aplanar as dificuldades que ainda existem nas relações comerciais entre Portugal e a China?

como oportunidades para Portugal as áreas dos Transportes e Logística, Infra-estruturas de transportes portuárias e respectivas zonas logísticas associadas, designadamente, Sines, que neste contexto assume uma importância estratégica para o comércio mundial”, especificou o responsável. Neste contexto, Silva destacou a importância da assinatura do

memorando de entendimento entre o Haitong Bank, o Banco de Desenvolvimento da China e a AICEP visando a identificação de potenciais grupos chineses interessados no estabelecimento da zona industrial e logística de Sines. Na área das energias renováveis, a prioridade dada à utilização de energias não poluentes ao longo da

rota, tendo em conta o conhecimento e a oferta no sector, “Portugal pode ser um parceiro muito interessante”, disse ainda o responsável português, que valorizou ainda o potencial português nos domínios da economia do mar e do know-how das empresas lusas em áreas como as da urbanização inteligente desenvolvimento de “smart cities” -, ou agricultura moderna, etc.

Abril trouxe boas notícias

Trocas entre a China e os países lusófonos subiram 40,41% no primeiro trimestre

D

EPOIS de uma queda em 2016, as trocas comerciais entre a China e os países de língua portuguesa subiram 40,41% até Abril, em termos anuais homólogos, atingindo 34,17 mil milhões de dólares, indicam dados oficiais. Dados dos Serviços de Alfândega da China, publicados ontem no portal do Fórum Macau, indicam que a China comprou aos países de língua portuguesa bens avaliados em 24,41 mil milhões de dólares – mais 50,93% – e vendeu produtos no valor de 9,75 mil milhões de dólares– mais 19,56%. O Brasil manteve-se como o principal parceiro económico da China, com o volume das trocas comerciais bilaterais a cifrar-se em 24,31 mil milhões de dólares entre Janeiro e Abril, um valor que traduz um aumento anual homólogo de 40,50%. As exportações da China para o Brasil atingiram 7,67 mil milhões de dólares, reflectindo uma subida de 29,51%, enquanto as importações chinesas totalizaram 16,63 mil milhões de dólares, mais 46,19% face aos primeiros quatro meses do ano transacto. Com Angola – o segundo parceiro chinês no universo da lusofonia – as trocas comerciais cresceram 61,83%, atingindo 7,60 mil milhões de dólares. Pequim vendeu a Luanda produtos avaliados em 597,05 milhões de dólares – mais 27,71% – e comprou mercadorias avaliadas em 7,0 mil milhões de dólares – reflectindo uma subida de 65,60%. Já com Portugal, terceiro parceiro da China entre os países de língua portuguesa, o comércio bilateral cifrou-se em 1,61 mil milhões de dólares – menos 5,11% –, numa balança comercial favorável a Pequim.

O valor das exportações de bens e serviços portugueses para a China em 2016, de acordo com a AICEP, atingiu os 861 milhões de euros, com uma taxa de cobertura da ordem dos 50%. No entanto, sublinhou António Silva, 2016 foi um ano com resultados ligeiramente inferiores aos de 2015.

A China vendeu a Lisboa bens na ordem de 1,03 mil milhões de dólares – menos 20,34% - e, em contrapartida, comprou produtos avaliados em 583,73 milhões de dólares, mais 43,61% face aos primeiros quatro meses do ano passado. Os dados divulgados incluem – como sempre incluíram – São Tomé e Príncipe, apesar de só ter passado a fazer parte da ‘família’ do Fórum Macau no final de Março, após a China ter anunciado o restabelecimento dos laços diplomáticos com São Tomé e Príncipe, dias depois de o país africano ter cortado relações com Taiwan e reconhecido Pequim. O comércio entre São Tomé e Príncipe e a China é, contudo, insignificante: entre Janeiro e Abril cifrou-se em 1,71 milhões de dólares, valor que corresponde na totalidade às exportações chinesas - que caíram quase um terço -, já que as compras de Pequim ao pequeno arquipélago africano estavam a zero.

“Em contrapartida, no período de Janeiro a Abril de 2017, comparado com o período homólogo de 2016, as exportações de bens e serviços portugueses para a China aumentou 61%, pelo que estamos otimistas em relação aos resultados de 2017, que deverão atingir um recorde histórico nas nossas relações económicas”, disse.


4 POLÍTICA

hoje macau sexta-feira 30.6.2017

Melinda Chan, líder da lista Aliança Pr’á Mudança, apresentou ontem o seu programa político para as eleições legislativas e garante que a habitação é a sua prioridade, defendendo casas só para os residentes que querem adquirir o seu primeiro apartamento

Eleições HABITAÇÃO É PRIORIDADE NO PROGRAMA DE MELINDA CHAN

A balada dos seis pontos

S

ÃO seis pontos, que abrangem várias áreas, mais a mais importante é mesmo a habitação. Um dia depois de a associação a que dá apoio, a Sin Meng, ter divulgado um inquérito que fala das dificuldades de habitação dos mais jovens, Melinda Chan apresentou o seu programa político com a equipa que compõe a Aliança Pr’a Mudança. Deputada à Assembleia Legislativa há oito anos, Melinda Chan concorre novamente tendo a habitação como prioridade. A deputada quer que os novos aterros tenham pedaços de terra destinados a casas que só podem ser compradas por residentes que estão a investir pela primeira vez. “Vamos ter mais terrenos, graças aos novos aterros, e temos de pressionar o Governo a construir mais casas, não apenas para habitação pública, mas para os jovens”, disse ontem à margem da apresentação oficial do programa. Melinda Chan citou o inquérito a que deu a cara. “Mais de 70 por cento dos inquiridos gostaria de comprar a sua casa. É necessário um espaço para habitações que sejam adquiridas por residentes e que não têm casa.” Jorge Valente, número três da lista, deu como exemplo um espaço na zona A dos novos aterros. “Os

residentes de Macau que estão a comprar casa pela primeira vez têm de ter prioridade. O Governo, quando desenvolver essa área, deve incluir essa directiva.”

DESENVOLVER O AEROPORTO

Outro objectivo da Aliança Pr’a Mudança passa pelo desenvolvimento do aeroporto, para que tenha um maior papel no transporte de mercadorias. Melinda Chan defende a criação de um complexo de armazéns no futuro aterro E. Tudo para dar uma maior resposta aquando da conclusão da nova ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai e do projecto da Grande Baía, com a região de Guangdong.

TRÊS ASSENTOS NÃO É IMPOSSÍVEL

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orge Valente será o número três da lista de Melinda Chan, a seguir a Andy Wu, ligado aos sectores do turismo e PME. Ainda assim, o jovem candidato tem confiança na obtenção de um lugar na Assembleia Legislativa. “É difícil, mas não é impossível, e as estatísticas do passado mostram que é possível eleger um terceiro lugar. A participação dos jovens é importante para a democracia e para a manutenção da política ‘Um País, Dois Sistemas’. Se continuo ou não a participar na política, depende do apoio que tiver”, apontou Jorge Valente que, pela primeira vez, se candidata a deputado.

“Temos de pressionar o Governo a construir mais casas, não apenas para habitação pública, mas para os jovens.” MELINDA CHAN CANDIDATA “O Governo tem de desenvolver boas políticas, o aterro E vai estar muito perto do aeroporto e podemos utilizar o espaço para

esse transporte de mercadorias. O aeroporto não está a ser plenamente utilizado, e ainda há espaço nesse sentido, sobretudo na relação com os países de língua portuguesa”, disse Melinda Chan. A lista acredita ser necessária uma flexibilização na contratação de trabalhadores não residentes, para ajudar as pequenas e médias empresas (PME). “Deve existir uma flexibilização da mão-de-obra estrangeira, porque a actual lei precisa de ser actualizada. Foi feita numa altura em que ainda existia indústria fabril e as duas que ainda conseguem tirar proveitos da lei são da construção civil e da restauração. Não

SUFRÁGIO UNIVERSAL? “SOMOS UMA EQUIPA REALISTA”

U

m dos primeiros pontos do programa de Melinda Chan faz referência à necessidade de democratização do sistema político, com a eleição de mais deputados pela via directa. Sobre o sufrágio universal, Jorge Valente diz que há apoio, mas preferem ir devagar. “A longo prazo defendemos. Achamos que, dentro de quatro a oito anos, deveria haver mais deputados eleitos pela via directa. Defendemos o sufrágio universal, mas não podemos dizer se é daqui a quatro a oito anos. A nossa equipa é bastante realista.”

queremos aumentar o número de trabalhadores, queremos apenas flexibilizar”, disse Jorge Valente. A lista Aliança Pr’a Mudança é ainda composta por Kenny Fong, presidente da Associação Comercial Federal Geral das PME, Osborn Lo, presidente da Associação Comercial Federal da Indústria de Convenções e Exposições, Leng Leng Fok, ligada à Associação Budista Geral de Macau, Evans Iu, da Associação de Beneficência Sin Meng, e ainda Brian Wu, vice-presidente da direcção do comité da juventude Sin Meng. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

O PROGRAMA, ALGUNS PONTOS • Cancelar o regime de comissão de serviços para os cargos de chefias de departamento e divisão na Função Pública • Aperfeiçoamento dos procedimentos de avaliação e concessão de subsídios por parte da Fundação Macau e outros fundos • Rever o Código Penal para que a lesão corporal dos menores praticada por não familiares seja qualificada como crime público • Acelerar o desenvolvimento dos recursos de turismo marítimo • Quebrar os monopólios e reforçar a fiscalização sobre as concessionárias exclusivas de utilidade pública


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POLÍTICA

Orçamento INCUMPRIMENTOS PUNIDOS PENAL, CIVIL E DISCIPLINARMENTE

Executar ou ser executado

GRANDE BAÍA IDEIAS COMO CEREJAS

O novo articulado da lei de enquadramento orçamental prevê punição para irregularidades na execução do Orçamento em termos penais, civis e disciplinares. As penas de multa deixam de se aplicar e passa a valer um regime de restituição de valores de dinheiro em falta, com responsabilidade solidária GCS

A consulta pública sobre o que deverá ser a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau foi um sucesso, diz o think tank do Governo da RAEM. O processo de recolha de opiniões terminou ontem. De acordo com dados oficiais, mais de 120 associações ou instituições delegaram representantes para a apresentação de opiniões e sugestões junto do Gabinete de Estudo das Políticas. “Os residentes apresentaram activamente as suas opiniões por diferentes meios, tendo sido recebido um total de 126 opiniões por escrito e através de outras vias”, explica-se numa nota de imprensa. Foram sobretudo feitas sugestões sobre o mecanismo de coordenação dentro da Grande Baía, a circulação de pessoas e bens, a facilitação da passagem alfandegária, o intercâmbio de pessoas e de culturas, a qualidade de vida, a participação das pequenas e médias empresas, o emprego e empreendedorismo dos jovens, e a articulação dos serviços públicos sociais, entre outros.

ELEIÇÕES NOVA ESPERANÇA ALERTA PARA VOTOS À DISTÂNCIA

A

lista Nova Esperança, encabeçada por José Pereira Coutinho e Leong Veng Chai, entregou uma carta à Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa (CAEAL) onde alerta para a existência de casos ilegais de votos à distância. “Fomos informados de que algumas listas candidatas às próximas eleições da Assembleia Legislativa têm estado a sugerir aos seus apoiantes que, no caso de não poderem estar presentes na RAEM na altura do acto eleitoral, por motivos profissionais ou por estarem a frequentar o ensino superior, para cederem os seus documentos de identificação a familiares e irmãos gémeos para votarem em nome deles”, lê-se na carta. Assinada por Rita Santos, mandatária da lista, a carta alerta para a ocorrência de fraude eleitoral e a necessidade de adopção de medidas. “Sugere-se que no momento anterior à entrega do boletim de voto sejam verificadas as impressões digitais do votante consoante o que consta nos registos oficiais para a obtenção do BIR. Tal acontece em muitos actos eleitorais de países democráticos, como é o caso de Singapura.” “Tendo em consideração que, no dia do acto eleitoral, muitas centenas de milhares de pessoas irão deslocar-se às urnas, será possível, na prática, uma pessoa votar por outra tendo em conta as pressões características de um acto eleitoral de tamanha magnitude”, pode ler-se.

À

med id a que a legislatura se aproxima do fim, a legislação que regula o enquadramento orçamental torna-se mais precisa, na opinião de Chan Chak Mo. “No dia 20 de Junho, o Governo entregou-nos um novo texto de trabalho que achamos que tem grandes melhorias, o conteúdo ficou mais concreto, mas ainda há aspectos a rever”, conta Chan Chak Mo. O presidente da 2.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL) adiantou que, para já, o projecto de diploma conta com 73 artigos. Um corpo legal com esta dimensão e detalhe pode resultar na menor dispersão de disposições que regulam o enquadramento orçamental. Uma das inovações mais dignas de nota é referente aos capítulos das responsabilidades. Na versão inicial, as irregularidades à execução orçamental eram punidas apenas com aplicações de multas. Na proposta actual, “o pessoal de direcção e chefia dos serviços, assim como os trabalhadores, são responsáveis criminal, civil e disciplinarmente pela

“O pessoal de direcção e chefia dos serviços, assim como os trabalhadores, são responsáveis criminal, civil e disciplinarmente pela violação das normas de execução orçamental.” CHAN CHAK MO DEPUTADO violação das normas de execução orçamental”, explica o deputado. A pena de multa desaparece para se evitar “duplicação de punição”. Chan Chak Mo explicou ainda que se a infracção envolver perda de dinheiro para os cofres públicos, terá de haver restituição, com responsabilidade solidária. Apesar desta proposta estar mais precisa, na óptica dos deputados,

o presidente da comissão permanente diz ainda ter dúvidas quanto à aplicação da lei em concreto, dúvidas essas que “serão colocadas ao Governo na próxima reunião”. Neste aspecto, é de salientar que a próxima reunião ainda não tem dia marcado, mas deverá ocorrer na próxima semana.

RELATÓRIO ANTECIPADO

Outra das novidades na nova lei de enquadramento prende-se com o facto de a AL passar também a efectuar fiscalização às actividades orçamentais. “Esta regra não existia, na versão anterior a entidade fiscalizadora era apenas a Direcção dos Serviços de Finanças”, revela Chan Chak Mo. Também a data para a apresentação do relatório de execução orçamental é algo que deve mudar, no entender dos deputados da comissão permanente.Anteriormente, o Governo tinha até 30 de Novembro para entregar para apreciação da AL o relatório de execução e a proposta de lei do Orçamento. Chan Chak Mo considera que esta calendarização é muito trabalho para o Governo, o que pode levar à antecipação do trabalho da AL.

Desta forma, propõe-se uma antecipação da data de entrega do relatório de execução para 15 de Outubro e a proposta de Orçamento para o dia 15 de Novembro. O presidente da comissão permanente que acompanha este diploma preferia que o Chefe do Executivo fosse à AL mais cedo; porém, o Governo ainda não expressou a sua opinião nesta matéria. A presente lei de enquadramento será revista passados cinco anos da sua entrada em vigor. Normalmente, os diplomas são revistos decorridos três anos, porém, “como aqui se trata de uma lei de bases, há que deixar passar algum tempo de aplicação prática”, explica Chan Chak Mo. O deputado acrescentou ainda que este tipo de diploma não é de fácil alteração, não se muda “de um dia para o outro”. Foi ainda clarificado que, em caso de dissolução da AL, a proposta de Orçamento deve ser apresentada em período acordado entre o Executivo e a órgão legislativo. João Luz

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hoje macau sexta-feira 30.6.2017

ANÚNCIO CONCURSO PÚBLICO PARA A “OBRAS DE REORDENAMENTO DO BAIRRO SOCIAL DA TAIPA” [104/2017] 1.

Entidade promotora do concurso: Instituto de Habitação (IH).

2.

Modalidade do concurso: Concurso público.

3.

Local de execução da obra: Bairro Social da Taipa.

4.

Objecto da empreitada: Melhoria das instalações, substituição do revestimento do terraço ajardinado do rés-do-chão do Bairro Social da Taipa, do terraço de cobertura e de algumas partes do revestimento das paredes exteriores do Bairro, bem como renovação das guardas das paredes exteriores e das janelas de alumínio, entre outras.

5.

Prazo máximo de execução: 210 dias úteis (duzentos e dez dias úteis). O prazo de execução declarado pelos concorrentes deve seguir o estipulado no ponto 6 do Programa de concurso e nos pontos 5.1.2 e 5.2.2 das cláusulas gerais do Caderno de Encargos.

6.

Prazo de validade das propostas: O prazo de validade das propostas é de noventa dias, a contar da data do encerramento do acto público do concurso, sendo prorrogável nos termos previstos no Programa de Concurso.

7.

Tipo de empreitada: Empreitada por série de preços.

8.

Caução provisória: $480 000,00 (quatrocentas e oitenta mil patacas), a prestar mediante depósito em dinheiro, garantia bancária legal ou seguro-caução.

9.

Caução definitiva: 5% do preço total da adjudicação (das importâncias que o empreiteiro tiver a receber em cada um dos pagamentos parciais são deduzidos 5% para garantia do contrato, em reforço da caução definitiva prestada).

10.

Preço base: Não há.

11.

Condições de admissão: Serão admitidas como concorrentes as entidades inscritas na Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes para execução de obras, bem como as que à data do acto público do concurso tenham requerido a sua inscrição, sendo neste último caso a admissão condicionada ao deferimento do respectivo pedido de inscrição.

12.

Local, data e hora para entrega das propostas: Local: IH, sito na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau. Data e hora limites: 24 de Julho de 2017 (segunda-feira), às 13H00. Em caso de encerramento deste Instituto na hora limite para a entrega das propostas acima mencionada por motivos de tufão ou de força maior, a data e hora limites estabelecidas para a entrega das propostas serão adiadas para a mesma hora do primeiro dia útil seguinte.

13.

Local, data e hora do acto público do concurso: Local: IH, sito na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau. Data e hora: 25 de Julho de 2017 (terça-feira ), pelas 9H30. Em caso de adiamento da data limite para a entrega das propostas de acordo com o n.º 12 ou de encerramento deste Instituto na hora estabelecida para o acto público do concurso acima mencionada por motivos de tufão ou de força maior, a data e hora estabelecidas para o acto público do concurso serão adiadas para a mesma hora do primeiro dia útil seguinte. Os concorrentes ou seus representantes deverão estar presentes ao acto público do concurso para os efeitos previstos no artigo 80.º do Decreto-Lei n.º 74/99/M e para obterem esclarecimentos de eventuais dúvidas relativas aos documentos apresentados no concurso.

14.

Línguas a utilizar na redacção da proposta: Os documentos que instruem a proposta (com excepção dos catálogos de produtos) são obrigatoriamente redigidos numa das línguas oficiais da RAEM; quando noutra língua, devem ser acompanhados de tradução legalizada, a qual prevalece para todos e quaisquer efeitos.

15.

Local e hora para exame do processo e preço para obtenção de cópia: Local: IH, sito na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau. Hora: Horário de expediente (das 9H00 às 12H45 e das 14H30 às 17H00). Neste Instituto pode ser obtida cópia do processo do concurso público pelo preço de $1 000,00 (mil patacas).

16.

Critérios de apreciação das propostas e respectivos factores de ponderação: critérios de apreciação Parte do preço

- preço proposto

ponderação 12

- prazo de execução 1 Parte técnica

- plano de trabalhos

5

- experiência

2

Classificação final= nota da parte do preço X nota da parte técnica 17.

Junção de esclarecimentos: Os concorrentes poderão dirigir-se ao IH, sito na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau, a partir de 28 de Junho de 2017 e até à data limite para a entrega das propostas, para tomar conhecimento de eventuais esclarecimentos adicionais. Instituto de Habitação, Macau, aos 13 de Junho de 2017. O Presidente, Arnaldo Santos


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SOCIEDADE

Tráfico humano RELATÓRIO DOS ESTADOS UNIDOS É INJUSTO PARA MACAU, AFIRMA JULIANA DEVOY

Não estamos no mesmo saco

C

OMPARAR Macau e Hong Kong quando se fala no combate ao tráfico humano não é justo. A ideia é deixada ao HM pela directora do Centro do Bom Pastor, Juliana Devoy, em reacção relatório acerca do tráfico humano divulgado, esta semana, pelos Estados Unidos. Para a responsável, os resultados foram uma surpresa. “Fiquei muito desiludida com o relatório: Hong Kong e Macau estão na lista de vigilância e penso que não é justo para o território”, diz. Em causa, para Devoy, estão duas situações que podem ser equiparadas. “Seria como comparar Macau a países como a Coreia do Norte ou mesmo ao Continente”, refere. Em Hong Kong, o Governo nega a existência de tráfico humano, “nega que exista um problema e, como tal, não há qualquer medida para que seja combatido”, refere. Envolvida no combate a este tipo e criminalidade e na protecção das vítimas, Juliana Devoy justifica: “Tenho contacto com agências do território vizinho, nomeadamente com organizações não governamentais (ONG) que têm tentado, por todos os meios, alertar o Governo da RAEHK para a existência deste problema e para a necessidade de interven-

ção”, diz. Mas a resposta, afirma, repete-se: “Em Hong Kong não há tráfico humano, pelo que não é necessário fazer nada”. Em Macau, a situação é muito diferente. “Dizer que não estão a ser feitos esforços neste sentido, não é verdade.” Para Devoy, o Governo local tem levado a sério a questão do tráfico de pessoas e os resultados apontados por Washington são baseados, “à partida, em critérios que nada revelam acerca da realidade”. A classificação foi dada tendo por fundamento o número de condenações, o que “não é um critério justo”, diz. “Quando se fala de tráfico humano não é possível contabilizar os seus actores e as dificuldades são muitas”, sublinha a directora.

de iniciativas. “O Executivo podia colocar cartazes e informação nos postos fronteiriços, nos terminais marítimos e no aeroporto, visto que muitas das vítimas passam por ali”. Desta informação constariam números e formas de contacto para pedir ajuda. Juliana Devoy apela ainda a uma formação específica dirigida aos juízes que tratam este tipo de casos. A directora do Centro do Bom Pastor recorda também palestras a que assistiu em que as forças de segurança mostraram as suas preocupações. “Quando se fala de tráfico de pessoas, além das dificuldades relativas às provas, os métodos que os criminosos adoptam estão constantemente a ser actualizados para que não sejam apanhados e os magistrados, muitas vezes, não têm sensibilidade e meios”, explica Devoy.

SOUTH CHINA MORNING POST

Macau e Hong Kong estão no nível dois de vigilância no que respeita ao tráfico humano. A comparação não é justa, diz a directora do Centro do Bom Pastor

que envolve várias entidades, além do Governo, seria fundamental o contacto com as ONG que estão em acção. O combate ao tráfico humano existe, no território, desde 2008

NEM TIDOS, NEM ACHADOS

Por outro lado, dada a escala do problema e o número de entidades envolvidas no seu combate, Juliana Devoy considera que, quando se faz uma avaliação deste género, há que ter em conta todos os envolvidos. “Tanto quanto sei, no ano passado, a pessoa que recolhia os dados vinha ao território algumas vezes. No entanto, não quiseram saber de quem trabalha também no terreno, como nós. Nem nos contactaram”, explica, sendo que não deixa de sublinhar que, tratando-se de uma matéria

“Fiquei muito desiludida com o relatório, Hong Kong e Macau estão na lista de vigilância e penso que não é justo para o território.” JULIANA DEVOY DIRECTORA DO CENTRO DO BOM PASTOR

e, de acordo com a directora, o Governo tem dado passos para melhorar a situação. “Não está feito tudo e há muito a fazer, há mais e melhor”, incentiva Juliana Devoy, que considera os resultados do relatório também desmotivantes para quem anda a lutar contra o tráfico de pessoas. A opinião é partilhada pelo secretário-geral da Caritas Macau, Paul Pun. Para o responsável, Macau tem feito esforços efectivos no sentido de combater a criminalidade associada ao tráfico humano. No entanto, a matéria é complicada, é preciso mais, e Paul Pun deixa algumas sugestões. De modo a tornar mais visíveis as acções que pretende implementar e para deixar uma mensagem às possíveis vítimas, seria bom que o Governo avançasse para outro tipo

SALÁRIO A QUEM VEM DE FORA

Um dos recados que também foi deixado por Washington diz respeito à criação de um salário mínimo para não residentes. Paul Pun, que tem trabalho feito junto das populações mais carenciadas, não podia estar mais de acordo. “É fundamental que isso aconteça porque as pessoas têm de viver com dignidade e a imposição de um salário mínimo permitiria não só a subsistência familiar da população migrante que se encontra em Macau, como podia vir a prevenir situações de abuso que têm que ver com a escravatura moderna”, disse. Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@hgmail.com

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MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 399/AI/2017

MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 420/AI/2017

-----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se o infractor CHAN WA TENG, portador do Bilhete de Identidade de Residente Permanente da RAEM n.º 73933xxx, que na sequência do Auto de Notícia n.° 23/DI-AI/2016, levantado pela DST a 21. 02.2016, e por despacho da signatária de 16.06.2017, exarado no Relatório n.° 400/DI/2017, de 26.05.2017, em conformidade com o disposto no n.° 1 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010, lhe foi desencadeado procedimento sancionatório por suspeita de controlar a fracção autónoma situada na Avenida da Amizade n.° 1321, Hung On Center, Bloco 3, 5.° Andar U onde se prestava alojamento ilegal.-----------------------------------------------------------------------------No mesmo despacho foi determinado, que deve, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, apresentar, querendo, a sua defesa por escrito, oferecendo nessa altura todos os meios de prova admitidos em direito não sendo admitida apresentação de defesa ou de provas fora do prazo conforme o disposto no n.° 2 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010. -------------------------------------------------A matéria apurada constitui infracção ao artigo 2.° da Lei n.° 3/2010, punível nos termos do n.° 1 do artigo 10.° do mesmo diploma. -----O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício ‘‘Centro Hotline’’, 18.° andar, Macau.-----------

-----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se o infractor KANG AREN, portador do Passaporte da RPC n.° G25513xxx, que na sequência do Auto de Notícia n.° 17/ DI-AI/2016, levantado pela DST a 16.02.2016, e por despacho da signatária de 16.06.2017, exarado no Relatório n.° 422/DI/2017, de 05.06.2017, em conformidade com o disposto no n.° 1 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010, lhe foi desencadeado procedimento sancionatório por suspeita de controlar a fracção autónoma situada na Rua Francisco H. Fernandes n.° 24, Edf. Pak Tak (China Civil Plaza), 4.° andar Y onde se prestava alojamento ilegal.----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------No mesmo despacho foi determinado, que deve, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, apresentar, querendo, a sua defesa por escrito, oferecendo nessa altura todos os meios de prova admitidos em direito não sendo admitida apresentação de defesa ou de provas fora do prazo conforme o disposto no n.° 2 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010. -----------------------------------------------------A matéria apurada constitui infracção ao artigo 2.° da Lei n.° 3/2010, punível nos termos do n.° 1 do artigo 10.° do mesmo diploma. -----O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício ‘‘Centro Hotline’’, 18.° andar, Macau.------------

-----Direcção dos Serviços de Turismo, aos 16 de Junho de 2017.

-----Direcção dos Serviços de Turismo, aos 16 de Junho de 2017. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes

A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes


8 SOCIEDADE

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Tradução IPM NEGA QUEIXAS DE ALUNOS E ABRE MAIS CURSOS DIURNOS

Aulas dão para todos Alunos locais do curso de tradução do Instituto Politécnico de Macau, que dominam o português, queixam-se de discriminação face aos alunos da China e dizem que são obrigados a frequentar os cursos nocturnos. O IPM refuta as acusações e diz que no próximo ano lectivo vai abrir mais opções diurnas

IPM NEGA TUDO

Em resposta ao HM, Luciano Almeida, director da Escola de Línguas e Tradução (ESLT) do IPM, nega as acusações e diz que “não fazem sentido”. “Os critérios são iguais para todos. Os alunos locais não concorrem com os alunos da China porque têm vagas e o processo de selecção dos alunos é extremamente rigoroso, porque há muitos candidatos”, explicou. “As vagas para os alunos locais nunca são totalmente

O

curso diurno de Português é apenas um sonho para os estudantes residentes de Macau.” É desta forma que começa a carta enviada por alguns alunos do curso de Tradução Português/ Chinês do Instituto Politécnico de Macau (IPM) à Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM). Trata-se de alunos que já dominam o português e que pretendem fazer a sua formação como tradutores ou intérpretes de chinês. Os estudantes dizem ser discriminados em relação aos alunos da China, pelo facto de estes preencherem todas as vagas das turmas diurnas de licenciatura. Afirmam também que os estudantes de Macau têm de frequentar as aulas a partir das 18h30, ainda que não sejam trabalhadores-estudantes. “Nas turmas diurnas do curso de Interpretação e Tradução Chinês/Português e Português/Chinês, 90 por cento dos alunos são do Interior da China. Os alunos locais só frequentam uma turma nocturna. Já há muitos anos que é elevado o número de alunos do Interior da China nas turmas com horário

os locais terão de assinar quando concluem o período de exames e entrevistas de acesso, para que sejam transferidos para as turmas nocturnas. Isso também aconteceu com Ana. “Quando fiz a entrevista, passei no exame escrito. Fiz a entrevista oral e os professores gostaram. Mas antes de sair apresentaram-me um papel e perguntaram-me se me importava de frequentar o curso nocturno, caso a escola não tivesse aulas no período diurno.” “Disseram-me que podia não assinar, mas as minhas colegas disseram-me que quem não assina não entra no curso. Porque não há aulas diurnas e os alunos ficam excluídos”, acrescentou. Os alunos locais queixam-se também das limitações em termos de viagens a Portugal para a aprendizagem da língua. “Os alunos que frequentam o curso de chinês na turma nocturna podem ser transferidos para uma turma diurna e depois ir a Portugal estudar, mas estão sujeitos a uma limitação da quantidade de alunos”, pode ler-se.

diurno, desmotivando os residentes locais na formação de intérpretes-tradutores”, lê-se na missiva. “O IPM afirma que o número de alunos não é suficiente, e que os alunos da turma de Português não são qualificados”, acrescentam na carta a que o HM teve acesso. Apesar disso, os estudantes afirmam que muitos passam nas provas de acesso.

“Há muitos candidatos que passaram no exame para integrar uma turma do ensino diurno de Português. No exame oral, os examinadores fazem umas perguntas simples e exigem a leitura de um texto em chinês e outro em português.” Ana (nome fictício) já concluiu o seu curso e tem conheci-

HÁ VAGAS PARA LOCAIS, MAS NOTAS É QUE MANDAM

P

ara entrar no curso de tradução e interpretação do IPM não bastam as notas. É necessária a realização de entrevistas, que inclui a leitura de alguns textos nas duas línguas. Apesar de, segundo os alunos queixosos, o IPM afirmar que os alunos da China têm melhores notas, a verdade é que há vagas para todos. “No curso de Tradução e Interpretação Chinês/Português, Português/Chinês, no regime diurno, existe uma quota de 46 vagas destinadas a alunos locais [num total de 75] e no regime nocturno as 40 vagas são igualmente destinadas a alunos locais”, explicou Luciano Almeida. O director da ESTL referiu também que a “selecção dos alunos é efectuada de acordo com a legislação aplicável”, ou seja: contam as notas do ensino secundário e do exame unificado de acesso, e a entrevista com os responsáveis do curso.

mento da carta que foi enviada. Também ela frequentou uma turma nocturna e diz que há alunos de Macau, que dominam o português, nas turmas diurnas, mas são poucos. “Que eu saiba, desde 2005 não abrem turmas diurnas”, explicou Ana. “Os alunos de Macau, chineses, só conseguem entrar no nocturno e não no diurno. O que nos dizem é que os estudantes da China têm melhores notas e ocupam as vagas.” Ana acrescentou ainda que lhe foi dito que havia falta de professores para abrir mais turmas diurnas. “Disseram que não havia professores portugueses suficientes. O que me dizem é que a qualidade dos alunos não é boa e não têm alunos suficientes para abrir cursos diurnos.”

A ESTRANHA DECLARAÇÃO

A carta dos alunos faz ainda referência a uma declaração que

“O número de vagas duplicou nestes dois últimos anos.” LUCIANO ALMEIDA DIRECTOR DA ESCOLA DE LÍNGUAS E TRADUÇÃO DO IPM preenchidas, porque há sempre menos candidatos [em relação aos alunos do Continente]. Um aluno local que quiser estudar no período diurno não tem problema nenhum”, acrescentou Luciano Almeida, que referiu ainda que vão existir mais turmas no período diurno. “A questão será saber se a escola tem recursos para abrir mais turmas diurnas, em especial no curso de licenciatura em Tradução e Interpretação Chinês/Português e Português/Chinês. A resposta é afirmativa e no próximo ano lectivo teremos mais uma turma deste curso em regime diurno”, apontou.


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Segundo o director da escola, vão existir, em 2017/2018, três turmas em regime diurno, num total de 75 vagas, e duas turmas em regime nocturno com 40 vagas. “O número de vagas para o ensino da tradução e interpretação chinês/português, para o ensino da língua chinesa e para o ensino da língua portuguesa duplicou nestes dois últimos anos, não só pelo aumento das turmas, como pela criação de dois novos cursos”, referiu Luciano Almeida. Actualmente existem 55 professores na escola, um número que “é suficiente para a actividade lectiva que [o IPM] tem programada”, explicou. O responsável afirma ainda desconhecer a declaração de que os alunos falam. “Como director da ESLT desconheço a existência da exigência de qualquer declaração desse género, que não faria qualquer sentido porque o aluno candidata-se livremente ao regime que prefere. Todos os alunos que pediram mudança do regime viram os seus pedidos deferidos.” Andreia Sofia Silva (com S.M.M.) info@hojemacau.com

SOCIEDADE

SAÚDE REFUTADA POSSIBILIDADE DE ACUMULAR VALES DINHEIRO MAIS DE 600 ATM COM RECONHECIMENTO FACIAL

E

LLA LEI interpelou o Executivo a alterar a política dos serviços no que diz respeito aos vales de saúde. A deputada sugeriu que os beneficiários do programa de comparticipação pudessem acumular vales até determinado tempo e montante. Os Serviços de Saúde de Macau (SSM) responderam negativamente à sugestão da deputada, adiantando que não serão feitas alterações a este regime. O director dos serviços, Lei Chin Ion, explica que a ideia por detrás dos vales de saúde é fomentar o desenvolvimento do sector dos serviços médicos privados e incentivar os cidadãos a fazerem check-ups regulares. Como tal, os SS definiram um prazo de validade de 16 meses. Lei Chin Ion considera

que este período é adequado para alcançar os fins propostos. O director dos SSM salientou ainda que o Fundo de Segurança Social e o Instituto de Acção Social concluíram um estudo relativo à transformação do subsídio provisório de invalidez em permanente, onde foi sugerida uma revisão ao regime de segurança social. Lei Chin Ion revela que a sugestão foi abordada no Conselho Permanente de Concertação Social e na Comissão para os Assuntos de Reabilitação e obteve parecer favorável. O dirigente dos SS prevê que o processo legislativo se inicie na próxima legislatura. Para já, o subsídio provisório de invalidez mantém-se em vigor, até haver uma solução permanente. HM

Entraram em funcionamento esta semana 680 caixas automáticas ATM com tecnologia KYC, o sistema de reconhecimento facial que permite confirmar a identidade do utilizador. Esta tecnologia só se aplica aos portadores de cartões bancários emitidos na China Continental. O gabinete do secretário para a Economia e Finanças recorda que a medida tem como objectivo garantir a segurança do sistema financeiro de Macau e reforçar os direitos e interesses legítimos dos portadores dos cartões. A Autoridade Monetária de Macau pede aos bancos locais que acelerem os trabalhos, para que seja possível concluir, ainda este ano, a introdução da tecnologia nas máquinas ATM instaladas em todo o território de Macau, incluindo as situadas nos casinos e nas áreas em redor.

GUINÉ-BISSAU NETO VALENTE FALOU DO COMBATE À CORRUPÇÃO

EJorge Neto Valente, presidente da Associação dos Advogados de Macau (AAM), esteve na Guiné-Bissau onde participou na cerimónia de abertura do curso de estágio da Ordem dos Advogados da Guiné-Bissau, tendo ainda sido orador na conferência comemorativa da inauguração das novas instalações da Ordem. Neto Valente falou sobre “O Advogado e o combate à corrupção”, tendo estado também presente Guilherme Figueiredo, o actual bastonário da Ordem dos Advogados em Portugal. A AAM ofereceu um conjunto de livros de Direito para a biblioteca da Ordem dos Advogados guineense.

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N.° 65 / 2017 NOTIFICAÇÃO EDITAL (Solicitação de Comparência do Empregador)

Nos termos das alíneas b) e c) do n.° 1 do artigo 6.° do Regulamento da Inspecção do Trabalho, aprovado pelo DecretoLei n.° 60/89/M, de 18 de Setembro, conjugadas com o artigo 58.° e n.° 2 do artigo 72.° do “Código do Procedimento Administrativo”, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 57/99/M, notifica-se o representante legal da sociedade “Companhia de Construção e Prediais GTM Limitada”, sita na Alameda Dr. Carlos d´Assumpção n.ºs 335-341, Edf. Walorly, 15.º andar W, Macau, para no prazo de 15 (quinze) dias, a contar do dia seguinte ao da publicação da presente notificação edital, comparecer no Departamento de Inspecção do Trabalho, sita na Avenida do Dr. Francisco Vieira Machado, n.ºs 221-279, Edifício “Advance Plaza”, 1.° andar, a fim de prestar declarações no processo n.° 1301/2017, proveniente das queixas apresentadas nestes Serviços no dia 01/06/2017 pelo trabalhador Lin Zhi Zhong, relativamente à matéria de salário. Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais - Departamento de Inspecção do Trabalho, aos 26 de Junho de 2017. A Chefe do Departamento substituta, Lei Sio Peng


10 SOCIEDADE

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Aliança do Povo CRITICADOS ATRASOS NA LEI DOS IDOSOS

Velhos são os trapos

A

ausência de políticas efectivas para apoiar os mais velhos esteve ontem em debate num fórum promovido pela Aliança do Povo de Instituição de Macau, que contou com a presença da deputada Song Pek Kei e de uma representante do Instituto de Acção Social (IAS). Song Pek Kei, deputada à Assembleia Legislativa (AL) e candidata às eleições legislativas deste ano, alertou para o agravamento do problema de envelhecimento da população. A deputada

HOJE MACAU

A Associação Aliança do Povo de Instituição de Macau realizou ontem um fórum onde abordou as insuficiências nas políticas de apoio aos reformados. A deputada Song Pek Kei questionou o atraso na implementação da Lei de Bases de Garantias dos Idosos. O IAS diz que cerca de sete mil vivem sozinhos

questionou as razões para o atraso na elaboração da Lei de Bases das Garantias dos Idosos. “O Governo já falou muito sobre o assunto, a lei é falada há quase dez anos e ainda não vimos qualquer

trabalho concreto quanto à sua elaboração”, referiu. Song Pek Kei lembrou que há muitos idosos a viverem sozinhos nas suas casas e que existe, por parte do Executivo, um esforço para a protecção dos idosos, PUB

mas as medidas não são satisfatórias. A deputada alertou ainda para o facto de o envelhecimento da população trazer muita pressão às famílias, uma vez que os casais mais jovens precisam de trabalhar. Na visão de Song Pek Kei, os apoios sociais ajudam a atenuar este problema, mas o número de acções da Administração não chegam para as necessidades actuais.

SETE MIL SOZINHOS

Lo Sok Ha, chefe de divisão dos serviços para idosos do IAS, referiu que há cerca de sete mil idosos que vivem sozinhos. Quanto ao plano de acção actual, contém mais de uma centena de objectivos a cumprir a curto prazo, sendo que um deles já foi cumprido: a abertura do centro de avaliação e tratamento da demência, bem como a inauguração de dois centros de cuidados diurnos para este tipo de doentes. A responsável do IAS adiantou ainda que vão ser contratados consultores para inspeccionar os lares de idosos e centros de dia, tendo sido já criados dez organismos que dão apoio via telefone ou visitas ao domicílio. Song Pek Kei lembrou que, no passado, houve casos de acidentes que se revelaram fatais para os idosos que residiam sozinhos. A deputada defende ainda uma revisão da lei de habitação económica no sentido de permitir que um idoso que viva sozinho na sua casa social possa ter a companhia de alguém que possa tratar dele. Falando do exemplo de Seac Pai Van, a deputada frisou que, nessa zona, os idosos vivem como se estivessem numa ilha isolada, com dificuldades de acesso ao local e com poucos transportes públicos. Vítor Ng (com A.S.S.) info@hojemacau.com.mo

Lote do Pac On não se mantém na empresa de Ho Meng Fai Tribunal dá razão ao Chefe do Executivo

O

Tribunal de Segunda Instância considerou improcedente um recurso contencioso interposto pela concessionária de um terreno no Pac On. O caso, que envolve a Sociedade Imobiliária Belo Horizonte, envolveu um pedido de troca de parcelas, o antigo secretário Ao Man Long e o empresário Ho Meng Fai, ambos condenados por corrupção. A declaração de caducidade da concessão do terreno no Pac On foi feita pelo Chefe do Executivo em Maio de 2015. Inconformada, a empresa apelou para o Tribunal de Segunda Instância (TSI), alegando, entre outros, “a total desrazoabilidade no exercício do poder discricionário, a violação dos princípios da igualdade, da proporcionalidade, da boa-fé e da colaboração entre a Administração e os particulares”. A concessionária defendeu que o prazo de aproveitamento do lote em causa – o PO5d – não era de 12 meses, mas sim de 36. Argumentou também que, ao contrário do que disse o Executivo, requereu a prorrogação do prazo de aproveitamento. A recorrente tinha requerido uma troca de terreno – e a sociedade entende que “não é correcto entender que não tinha intenção de aproveitar” o lote em causa. Por fim, apontou o dedo ao Governo, ao afirmar que a falta de aproveitamento era da “culpa predominante da Administração, porque

tinha decidido, morosamente, sobre o pedido da troca de terreno, e não era a prática habitual da Administração, antes de 2010, declarar a caducidade da concessão por incumprimento dos prazos de aproveitamento”. O TSI reconheceu que é verdade que o prazo de aproveitamento do lote era de 36 meses, mas desvalorizou o facto, ao dizer que se trata de “um erro irrelevante”, visto que no momento da declaração da caducidade da concessão, o prazo de aproveitamento de 36 meses já tinha terminado há cerca de oito anos.

PEQUENO POR GRANDE

Os restantes argumentos da empresa também são rebatidos. Em relação à troca de terrenos, a Segunda Instância considera que “o facto de pedir a troca de terreno em si já evidencia que a recorrente não queria aproveitar o terreno em causa, visto que o valor económico do lote destinado apenas para construir uma vivenda de três pisos é bastante inferior ao valor de um terreno que permite construir centenas de fracções autónomas”. E o colectivo continua: “Caso contrário, o comerciante Ho Meng Fai, que efectivamente tomava decisões sobre a sociedade, não teria tentado oferecer vantagens ilícitas a Ao Man Long, então secretário para os Transportes e Obras Públicas, com vista a obter a troca de terreno”. O TSI também não colhe a ideia da “morosidade da Administração e a prática habitual antes de 2010”, ao dizer que não servem para justificar o incumprimento do prazo de aproveitamento por parte da recorrente. Ho Meng Fai encontra-se em parte incerta. Em 2007, foi condenado à revelia a 25 anos de prisão. HM


11 CHINA

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PEQUIM FORNECE ARMAS ÀS FILIPINAS

Uma nova era

P

EQUIM enviou milhares de armas ao Presidente filipino Rodrigo Duterte para ajudar o país a expulsar fundamentalistas aliados do Daesh que controlam a cidade de Marawi. O envio de espingardas de assalto e de tiro de precisão, além de munições, são o primeiro exemplo de ajuda militar chinesa desde que o Presidente Rodrigo Duterte começou a trocar a tradicional aliança com o EUA por uma maior proximidade a Pequim. O carregamento de armas, no valor de cerca de 50 milhões de yuans, marca segundo o Presidente filipino “o início de uma nova era nas relações filipino-chinesas. As tropas filipinas lutam há mais de um mês para expulsar os extremistas aliados do autodenominado Estado

Islâmico (Daesh) da cidade de Marawi. Mas, apesar dos fortes ataques aéreos e dos pesados bombardeamentos da artilharia filipina, Manila ainda não conseguiu obter o controlo da região. Cerca de 400 pessoas foram mortas, incluindo 290 militantes e 70 tropas, de acordo com oficiais. Dos 200 mil habitantes de Marawi, a maioria fugiu e grande parte da cidade está em ruínas. As Filipinas, que têm um tratado mútuo de defesa com os EUA, há muito que confiam o suporte de armamento fornecido pelos americanos. Mas as críticas norte-americanas à emblemática guerra contra a droga empreendida por Duterte levaram Manila a procurar ajuda na China e na Rússia. Ainda assim, no início deste mês o governo norte-americano enviou armas novas às Filipinas depois de

Rodrigo Duterte reclamar com equipamentos militares de “segunda mão”. O embaixador chinês Zhao Jianhua, que entregou formalmente as armas, disse que um “segundo lote” de armas seria entregue brevemente. “O fornecimento não é grande, mas é grande no sentido em que marca uma nova era nas relações entre os nossos dois exércitos”, disse Jianhua. O cerco militar sem precedentes em Marawi provocou receio de que o grupo do Estado islâmico esteja a implementar o conflito muçulmano no sul das Filipinas para criar um ponto de apoio no Sudeste Asiático. Os militares dos EUAencaminharam um avião de vigilância P3 Orion para Marawi a pedido das forças armadas filipinas. A Austrália também planeia enviar dois aviões militares de vigilância.

MERKEL “PARA PEQUIM, A EUROPA É UMA PENÍNSULA ASIÁTICA”

A

chanceler alemã, Angela Merkel, fez uma advertência nesta quinta-feira sobre o perigo do expansionismo económico da China, e afirmou que é favorável a um veto europeu a alguns investimentos chineses na Europa. “A China tem uma grande tradição de pensar em períodos históricos longos. Do ponto de vista de Pequim, a Europa é uma península asiática”, disse Merkel em uma entrevista à revista económica Wirtschaftswoche.

Ao mesmo tempo, ela reconheceu que “muitos sectores da economia alemã dependem da China”, o que justifica um diálogo para conseguir “um desenvolvimento harmonioso que seja benéfico para todos”. A Alemanha está preocupada com os grandes

investimentos chineses na Europa, como o caso da empresa alemã de equipamentos Kuka, que no ano passado foi comprada pela chinesa Midea por 4,6 mil milhões de euros, o que também implica a transferência de tecnologia alemã para o gigante económico asiático. Neste sentido, Berlim apoia a proposta da França de dar mais poder a Bruxelas para supervisionar as compras de empresas europeias, sobretudo em sectores estratégicos, algo rejeitado por países como Portugal, Grécia ou Espanha, que temem a queda dos investimentos estrangeiros em suas economias.

COORDENAÇÃO GLOBAL É IMPORTANTE, DIZ AUTORIDADE CHINESA A coordenação global é importante uma vez que a economia mundial passa por mudanças, incluindo o mais recente aumento dos juros nos Estados Unidos neste mês, disse o vice-ministro das Finanças da China, Zhu Guangyao, antes da cimeira dos líderes do G20 em Julho. À medida que a economia global estabiliza, os principais países precisam normalizar suas taxas de juros, embora isso esteja a acontecer num ritmo muito lento, disse Zhu nesta quinta-feira. “Precisamos monitorar de perto como a normalização das taxas

de juros nas principais economias impactará os mercados de capital globais”, disse Zhu. O Federal Reserve, banco central dos EUA, elevou os juros quatro vezes como parte da normalização da política monetária que começou em dezembro de 2015. O banco central havia levado os juros para perto de zero em resposta à crise financeira há uma década. Zhu disse que o novo ambiente macroeconómico global torna ainda mais importante a coordenação mundial através de canais como o G20, que se reunirá em Hamburgo no próximo mês.

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“Estou farta desta vida grotesca” Mulher de Liu Xiaobo afirma que marido quer ser tratado no estrangeiro

O

dissidente e prémio Nobel da Paz Liu Xiabo, em liberdade condicional, deseja sair da China e receber tratamento no exterior, afirmaram amigos do escritor. A sua esposa, Liu Xia, enviou um pedido formal ao ministério chinês da Segurança de Estado para que o casal e o irmão dela recebam autorização para viajar para fora do país, afirmou à AFP o escritor dissidente Liao Yiwu, um amigo da família.

Condenado em 2009 a 11 anos de prisão por “subversão”, Liu Xiaobo, de 61 anos, saiu da prisão depois que teve diagnosticado em Maio um cancro de fígado em fase terminal, anunciou no início da semana o advogado do activista, Mo Shaoping. Liu Xia enviou a solicitação antes mesmo de conhecer o diagnóstico, mas vários amigos confirmaram nesta quinta-feira que o próprio Liu Xiaobo deseja ser tratado no exterior. “Fiquei a saber há duas semanas que Liu (Xiaobo) disse claramente que se iria morrer (em consequência do cancro), desejava fazê-lo no Ocidente e não na China”, declarou Liao Yiwu em uma ligação telefónica da Alemanha, onde vive no exílio. Outro amigo do casal confirmou que, sob a condição de anonimato, ter recebido informações de outras pessoas próximas à família no mesmo sentido. Liu Xiaobo está em um hospital de Shenyang desde 31 de Maio, anunciou nesta quarta-feira o escritório de assuntos jurídicos da cidade em um comunicado. Os oncologistas determinaram no dia 7 de junho que Liu sofre de um cancro no fígado com metástases no resto do corpo, de acordo com a nota oficial. Su Yutong, jornalistas chinês no exílio, divulgou na segunda-feira um vídeo no Twitter que mostra Liu Xia afirmando, sem conter as lágrimas, que o marido “não pode ser operado nem receber quimioterapia”. Liao Yiwu disse que recebeu uma carta de Liu Xia, na qual ela desabafa: “Estou farta [...] desta vida grotesca. Estou desejando escapar [...] Mal posso acreditar que Xiaobo aceitou sair da China comigo e (meu irmão)”.

EDITAL Edital nº Processo nº Assunto

: 23/E-OI/2017 : 166/OI/2015/F :Início de audiência pela infracção às disposições do Regulamento Geral da Construção Urbana (RGCU) :Avenida de Venceslau de Morais n.º 202, Edf. Pat Tat Sun Chuen (兆輝樓), fracção 6.º andar AD (CRP: AD6), Macau.

Local

Cheong Ion Man, subdirector da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), no uso das competências delegadas pelo Despacho n.º 12/SOTDIR/2015, publicado no Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) n.º 38, II Série, de 23 de Setembro de 2015, faz saber que ficam notificados Xu Xide e Cai Yusui, do seguinte: 1.

1.2

3.

Local

1.

Nos termos dos artigos 93.º e 94.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, os interessados podem apresentar a sua defesa por escrito e as demais provas para se pronunciar sobre as questões que constituem objecto do procedimento, bem como requerer diligências complementares de acordo com o ponto 4 abaixo indicado, no prazo de 10 (dez) dias contados a partir da data da publicação do presente edital.

4.

Deste modo, os interessados devem demolir as obras acima indicadas por sua iniciativa, no entanto, devem apresentar nesta DSSOPT o respectivo pedido da demolição, cujos trabalhos só podem ser realizados depois da sua aprovação. A conclusão dos referidos trabalhos deverá ser comunicada à DSSOPT para efeitos de vistoria.

5.

O processo pode ser consultado durante as horas de expediente nas instalações da Divisão de Fiscalização do Departamento de Urbanização desta DSSOPT, situadas na Estrada de D. Maria II, n.º 33, 15.º andar, em Macau (telefones n.os 85977154 e 85977227).

Na sequência da fiscalização efectuada pela DSSOPT, apurou-se que no local acima identificado realizaram-se as seguintes obras não autorizadas: Obra Instalação de gaiola metálica 1.1 na parede exterior junto às janelas do pátio da fracção. Construção de um compartimento com cobertura metálica, chapa metálica e 1.2 janelas de vidro na parede exterior junto à varanda da fracção. Instalação de gaiola metálica 1.3 na parede exterior junto às janelas da fracção.

Obra Abertura de um vão de janela na parede exterior junto à fracção. Instalação de uma gaiola metálica na parede exterior junto à fracção.

Nestas circunstâncias e nos termos dos artigos 52.º, 53.º e 65.º do RGCU, ordena aos infractores que procedam à demolição das obras ilegais referidas no ponto 1 e à reposição das partes afectadas de acordo com o projecto aprovado por esta Direcção de Serviços, ou procedam à obra de legalização, e informa que incorrem em infracção sancionável com multa de $1 000,00 a $20 000,00 patacas.

: 68/E-BC/2017 :226/BC/2015/F :Início de audiência pela infracção às disposições do Regulamento de Segurança Contra Incêndios (RSCI) :Avenida de Venceslau de Morais n.º 202, Edf. Pat Tat Sun Chuen (兆輝樓), fracção 6.º andar AD (CRP: AD6), Macau.

Cheong Ion Man, subdirector da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), no uso das competências delegadas pelo Despacho n.º 12/SOTDIR/2015, publicado no Boletim Oficial da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) n.º 38, II Série, de 23 de Setembro de 2015, faz saber que ficam notificados Xu Xide e Cai Yusui, do seguinte:

Na sequência da fiscalização realizada pela DSSOPT, apurouse que no local acima indicado realizaram-se as obras não autorizadas abaixo indicadas, as quais infringiram o disposto no n.º 1 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 79/85/M (RGCU) de 21 de Agosto, alterado pela Lei n.º 6/99/M de 17 de Dezembro e pelo Regulamento Administrativo n.º 24/2009 de 3 de Agosto, pelo que as mesmas são consideradas ilegais:

1.1

2.

EDITAL Edital n.º Processo n.º Assunto

Pelo Director dos Serviços O Subdirector Cheong Ion

Infracção ao n.º 12 do artigo 8.º, obstrução do acesso ao edifício. Infracção ao n.º 12 do artigo 8.º, obstrução do acesso ao edifício.

2.

As janelas e varandas acima referidas são consideradas pontos de penetração para realização de operações de salvamento de pessoas e de combate a incêndios, não podendo ser obstruídos com elementos fixos (gaiolas, gradeamentos, etc.), de acordo com o disposto no n.º 12 do artigo 8.º do RSCI, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 24/95/M, de 9 de Junho. As alterações introduzidas pelos infractores nos referidos espaços, descritas no ponto 1 do presente edital, contrariam a função desses espaços enquanto pontos de penetração no edifício e comprometem a segurança de pessoas e bens em caso de incêndio. Assim, as obras executadas não são susceptíveis de legalização pelo que a DSSOPT terá necessariamente de determinar a sua demolição a fim de ser reintegrada a legalidade urbanística violada.

3.

Nos termos do n.º 7 do artigo 87.º do RSCI, a infracção ao disposto no n.º 12 do artigo 8.º é sancionável com multa de $2 000,00 a $20 000,00 patacas.

4.

Considerando a matéria referida nos pontos 2 e 3 do presente edital, podem os interessados, querendo, pronunciar-se por escrito sobre a mesma e demais questões objecto do procedimento, no prazo de 5 (cinco) dias contados a partir da data da publicação do presente edital, podendo requerer diligências complementares e oferecer os respectivos meios de prova, em conformidade com o disposto no n.º 1 do artigo 95.º do RSCI.

5.

O processo pode ser consultado durante as horas de expediente nas instalações da Divisão de Fiscalização do Departamento de Urbanização desta DSSOPT, situadas na Estrada de D. Maria II, n.º 33, 15.º andar, em Macau (telefones n.os 85977154 e 85977227).

RAEM, 26 de Junho de 2017

RAEM, 26 de Junho de 2017

Infracção ao RSCI e motivo da demolição Infracção ao n.º 12 do artigo 8.º, obstrução do acesso ao edifício.

Pelo Director dos Serviços O Subdirector Cheong Ion Man


12 EVENTOS

Imagens HK URBEX À PROCURA DA MEMÓRIA COLECTIVA DE HONG KONG

Na cidade dos arranha-céus, um grupo de jovens exploradores documenta, em fotos e vídeo, o interior de edifícios abandonados, na tentativa de os inscrever na memória colectiva de Hong Kong

sem que ninguém conheça a sua história. Partilhamos informação sobre eles para que entrem na consciência colectiva”, diz à Lusa Ghost, de 34 anos, um dos fundadores do projecto. Os edifícios com valor histórico – mesmo que não reconhecido oficialmente – são o ‘alvo’ preferido, mas também já entraram em “estações de metro [desactivadas], estaleiros de obras”, já que também “fazem parte da narrativa de Hong Kong” e são locais “que as pessoas não vêem normalmente”. Há também blocos residenciais, sem particular traço arquitectónico, mas que representam uma forma de viver. É o caso do prédio Hoi Hing, em Tai Kok Tsui, onde as 283 fracções estão quase todas abandonadas, mas nem por isso vazias. Além do avançado estado de decadência – janelas partidas, canos soltos, paredes lascadas – os corredores e os apartamentos do Hoi Hing estão repletos de coisas, móveis, roupa, sacos, caixas, papéis, um amontoado de lixo onde se avistam subitamente objectos pessoais: um sapato de bebé, um jornal de 1982, álbuns de fotografias. Num deles uma família à mesa, miúdos e graúdos de pauzinhos em punho, olha para a câmara com um ar desanimado. O edifício de 53 anos – que conta na sua história com um macabro caso de homicídio de um casal pelo filho – aguarda demolição, tendo a propriedade sido adquirida por 2,6 mil milhões de dólares de Hong Kong.

S

E a metrópole é frequentemente associada à modernidade e futurismo – no cinema já foi, por exemplo, a Gotham City de “Batman” e cenário de “Ghost in the Shell” – nos vídeos do grupo “HK Urbex” são os redutos mais antigos, e até decadentes, que estão em destaque. O grupo de oito elementos, que mantém a identidade oculta, já entrou, sem autorização, em mais de 100 edifícios ou estruturas deixadas ao abandono em Hong Kong, desde um centro de detenção para a antiga agência de serviços secretos, a um hospital psiquiátrico, uma antiga mansão, escolas, cinemas, um mosteiro, um antigo matadouro. “Há muito património, mas é difícil de ver. Muitos destes sítios são demolidos

O PATRIMÓNIO QUE MORRE

Os dois fundadores do projecto HK Urbex (2013), Ghost e

CARMO CORREIA / LUSA

FRAGMENTOS DA CID

Echo Delta, estão atentos às notícias sobre demolições e novos projectos imobiliários, e até desenvolveram um “sexto sentido”. “Há sinais. Notamos que há um edifício sem ar condicionado, a parede está partida, começamos a investigar. Muitas vezes somos as últimas pessoas a entrar nestes edifícios.” “Na última década muito património foi demolido ou

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA UMA LÁGRIMA SALVOU-ME • Angèle Lieby, Hervé de Chalendar

Numa véspera de feriado do verão de 2009, Angèle Lieby dá entrada nas urgências do hospital de Estrasburgo com uma enxaqueca muito intensa. Começa a sentir-se cada vez pior e a ter dificuldade em exprimir-se; finalmente, perde os sentidos. Dado o agravamento do seu estado, os médicos decidem induzi-la num coma artificial para a poderem entubar. Os dias sucedem-se e os médicos e enfermeiras que cuidam dela começam rapidamente a tratá-la como se estivesse, de facto, morta; referem-se a Angèle pelo seu número de processo. Os médicos, incapazes de a despertar ou de reconhecer qualquer sinal de esperança, começam a aconselhar a família a «desligar as máquinas»… Depois de mais de uma semana neste sofrimento, dá-se um milagre. No dia 25 de julho, o dia do seu aniversário de casamento, a filha repara que do olho de Angèle surge uma lágrima. Hoje em dia, Angèle está de perfeita saúde e dedica o seu tempo a participar em conferências médicas e a advogar os direitos dos pacientes e um cuidado médico mais atento e centrado nas necessidades de quem sofre.

renovado”, diz Echo Delta, lembrando o caso do Queens Pier, cujo anúncio de demolição gerou forte contestação. “Eu era jornalista na altura e estava a cobrir a história. Muitos jovens ficaram indignados e até se acorrentaram ao cais, fizeram greves de fome. Foi a primeira vez que assisti a isso e marcou-me muito”, conta. Uma combinação de demolições e gentrificação estão

a ter um impacto significativo na cidade, garantem os exploradores. “Está a mudar muito rápido, está sempre tudo em obras, não fazemos ideia de qual será o aspecto da cidade daqui a 20 anos”, diz Echo Delta. “Em cantonês há um termo que quer dizer ‘memória colectiva’ e tem sido muito utilizado nos últimos anos, em que as pessoas se sentem

nostálgicas em relação ao antigamente. O processo de gentrificação está descontrolado. Daqui a dez anos, até os sítios mais tradicionais vão ficar como Singapura, onde tudo tem um aspecto muito genérico”, comenta. Os edifícios “formam a identidade de Hong Kong” e, na opinião dos exploradores, o ímpeto para os proteger insere-se na mesma narrativa

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PÁSSAROS AMARELOS • Kevin Powers

“A guerra tentou matar-nos na primavera.” Assim começa este poderosíssimo relato de amizade e perda. Em Al Tafar, no Iraque, o soldado Bartle, de vinte e um anos, e o soldado Murphy, de dezoito, agarram-se à vida enquanto o seu pelotão inicia uma batalha sangrenta pela cidade. Quando a realidade começa a perder os contornos e se transforma num pesadelo, Murphy torna-se cada vez mais desligado do mundo à sua volta e Bartle faz coisas que nunca imaginara vir a fazer. Com uma profunda carga emocional, Os «Pássaros Amarelos» é um romance inovador, destinado a transformar-se num clássico. A “primeira obra-prima literária americana a ser produzida pela guerra no Iraque”, Segundo o
Los Angeles Times.


HK 20 anos

Oportunidade perdida Os primeiros anos não foram fáceis; os que se seguiram foram ainda piores. Duas décadas depois da transferência de soberania, Hong Kong está politicamente dividida. Os residentes esperavam mais e melhor dos seus governantes. A festa faz-se amanhã com receio do que aí vem


HK 20 anos

Larry So não é saudosista, embora agradeça a educação que teve. Nascido e criado em Hong Kong, o académico conta que a geração a que pertence se sente desiludida com duas décadas que podiam ter sido muito melhores. As expectativas eram grandes e os sucessivos Governos da RAEHK não deram conta do recado. O analista explica ainda porque é que os que nasceram depois também não se conformam

“Há muitas

LARRY SO A C A D É M I C O

Em termos gerais, estes 20 anos de Hong Kong enquanto região administrativa especial da China vão ao encontro do que estava à espera? De uma forma geral, sim. Mas também há muitos aspectos que não correspondem às expectativas. Sou da área dos serviços sociais. Eu e os meus amigos desta área estávamos à espera de que houvesse uma melhoria significativa neste aspecto. Hong Kong era uma colónia britânica e, com esse estatuto, não se esperava que houvesse um grande investimento, pelo que havia a esperança de um desenvolvimento dos serviços sociais. Claro que houve algumas melhorias, mas ficaram aquém das expectativas. Tínhamos, na altura, entre 40 a 50 anos e pensávamos que poderíamos ter uma reforma, por exemplo. Mas em Hong Kong, à semelhança de Macau, o sistema de previdência é terrível. Estamos a falar de um centro financeiro internacional, mas também de

uma cidade onde existem muitas pessoas em situação de pobreza extrema – e os números aumentam nos últimos anos. Estas duas décadas não serviram para se trabalhar para a igualdade social. Os ricos ficaram mais ricos e os pobres passaram a ter cada vez menos, como aliás demonstra o Coeficiente de Gini, que mede a desigualdade. Este coeficiente aumentou quase um ponto desde 1997. É uma medida objectiva. Qual é a explicação para este fenómeno? Quando Hong Kong voltou para a China, a política prioritária da região administrativa especial foi a manutenção da estabilidade económica. Partiu-se da ideia de que se houvesse mais dinheiro no topo, chegaria a todos e que a população sairia beneficiada. Mas parece que houve uma concentração excessiva das políticas na dimensão económica: tentou-se arranjar terras para que houvesse mais construção, mas não se investiu em habitação

PATTEN, LÁGRIMAS, ENTUSIASMO

P

artiu para o Canadá, passou uns anos nos Estados Unidos, mas antes de embarcar garantiu que, a 1 de Julho de 1997, estaria em Hong Kong. A promessa, feita ao seu grupo de amigos, foi cumprida. No momento em que nascia a primeira das duas regiões administrativas especiais da China, Larry So estava em Hong Kong, a assistir às cerimónias pela televisão, em casa de um amigo. “Chovia muito”, recorda.

“Estávamos todos muito entusiasmados. Chris Patten [o ultimo Governador de Hong Kong] estava emocionado, com lágrimas nos olhos”, conta. Foi uma imagem que o marcou. Assim como “ver a polícia a mudar os distintivos, substituir a coroa pelo logótipo da região administrativa especial”. Foi uma noite em que se falou muito. O futuro era uma incerteza. “Havia muita especulação. Entre os meus amigos, alguns tinham

passaporte do Canadá e do Reino Unido. Todos decidiram ficar por algum tempo, para ver o que ia acontecer”, explica Larry So. O que aconteceu não correspondeu às expectativas da generalidade. Nascido e criado em Hong Kong, o académico da área dos Serviços Sociais acabou por partir mais uma vez, em 2002, mas para um destino mais próximo: Macau. É por cá que tem estado desde então, sempre atento ao outro lado do Delta.


“Os jovens ouviram muito e leram muito acerca do passado. Percebem o espírito antigo de Hong Kong, em que muitas pessoas vinham das classes baixas, (...) entreajudavam-se e conseguiam um nível de vida melhor.”

hoje macau sexta-feira 30.6.2017

pessoas a falar dos velhos tempos” pública. Deram mais terrenos aos magnatas, que puderam aumentar os seus investimentos. Este tipo de política funcionou em certa medida, mas foi um erro pensar-se que o dinheiro iria chegar às pessoas comuns. Se olharmos para os níveis de qualidade de vida e os problemas políticos com que Hong Kong se depara, chegamos à conclusão de que a aposta na economia só beneficiou uma pequena parte da população. Podemos falar em falhanço no que toca à qualidade de vida dos residentes de Hong Kong? A cidade é muitas vezes retratada como o local onde milhares de pessoas vivem em cubículos. No tempo em que Hong Kong era uma colónia britânica, a habitação pública tinha muita importância em termos de apoio social. A Administração construiu apartamentos que disponibilizava a preços baixos. Metade da população vivia em habitação pública. Neste momento, temos pouco mais de 40 por cento da população a residir neste tipo de habitação. É um tipo de apoio muito importante porque um terço dos rendimentos das famílias é gasto nas rendas. É muito complicado. A Administração britânica lançou, na altura, medidas que considero muito boas, porque permitiram combater a pobreza. Mas este tipo de políticas não beneficia os magnatas ou os investidores do sector imobiliário, porque quantas mais fracções públicas houver, menos gente irá comprar no mercado privado. Neste momento, falta habitação pública e o preço do imobiliário continua a aumentar. De cada vez que se pensa que não pode subir mais, há um novo pico. Neste momento, o pé quadrado custa em média 20 mil dólares de Hong Kong. O primeiro Chefe do Executivo de Hong Kong, Tung Chee-hwa, não foi propriamente popular.

O Governo Central tinha de escolher alguém em quem pudesse confiar. Essa pessoa tinha de ter uma ligação a Pequim e à Administração britânica. Não digo que fosse a única escolha mas, nessa altura, era a melhor. Eram anos complicados, que foram pouco tempo depois dificultados pela tentativa falhada de legislar o Artigo 23.o da Lei

“[Antes de 1997] o modo e a qualidade de vida, em termos comparativos, eram muito melhores.

“Carrie Lam fez muitas promessas ao regime para poder estar no poder. Tem de pagar todos os favores.” Básica. E aí começámos a ver milhares de pessoas nas ruas. Sim, isso foi um problema. Tung Chee-hwa forçou essa questão demasiado depressa, subestimando o facto de, ao contrário dele, nem toda a gente estar satisfeita com o regresso à China. Muitas pessoas da classe média e da classe baixa-média não pensam dessa forma. Na

altura, não teve sorte, na medida em que a situação económica também não era uma vantagem. Tentou disponibilizar mais habitação pública, mas a resistência dos promotores do mercado imobiliário foi tão forte que se viraram para o Governo Central. Foram directamente a Pequim e o Governo Central, que tinha de arranjar um equilíbrio, decidiu que não ia haver habitação pública. Os magnatas opuseram-se. Tung Chee-hwa estava de mãos atadas? Ambas as mãos, não foi apenas uma. Uma delas com a questão das condições de vida da população e a outra com os magnatas a dizerem ‘não’. Portanto, não teve suficiente força política. Não, na altura não teve. Se nos lembrarmos dessa altura, a economia não era uma vantagem. Tinha rebentado a crise financeira asiática de 1997. Sim. A economia num estado complicado, ele a tentar levar por diante o projecto de habitação pública e os magnatas a dizerem que não. Tentou desviar as atenções com o Artigo 23.o, e foi o que se viu. E ainda houve o surto de pneumonia atípica, em 2002 e 2003. Morreram quase 300 pessoas em Hong Kong. Foi outra coisa terrível. Diria que Hong Kong enquanto região administrativa especial não teve um bom início. Havia muitas pessoas que esperavam uma série de coisas positivas depois do retorno à China, mas toda esta situação não ajudou. Depois Donald Tsang assumiu o poder. Há analistas que consideram que foi o único Chefe do Executivo capaz de congregar diferentes sectores e interesses. Foram anos de alguma acalmia. Teve sorte logo no início, em termos políticos e no contexto económico. Teve pelo

menos dois ou três anos de estabilidade. Era muito diferente de todos os outros. Era um funcionário público, um burocrata. O modo britânico de treinar os funcionários da Administração fazia com que as pessoas não estivessem sempre nos mesmos cargos. Tinham determinadas funções durante um par de anos e depois mudavam de departamento. Donald Tsang beneficiou dessa formação. Sem dúvida alguma. Toda esta geração de funcionários públicos passou por esta experiência e Donald Tsang tinha a vantagem de perceber de finanças. C.Y. Leung, que deixa agora o cargo, foi bastante menos popular. Teve um mandato com dias muito difíceis, com o movimento Occupy. Mais recentemente, surgiu uma nova palavra na política de Hong Kong: independência. Há estudos que apontam para um reforço do sentimento de pertença a Hong Kong, por oposição à China, nos últimos anos. Confirma esta ideia? Sim, isso é um dado adquirido. O movimento Occupy não teve na origem qualquer vontade independentista – as pessoas pediam o sufrágio universal. Era este o pedido da maioria dos jovens. Mas o Governo Central apoiou o pulso forte de C.Y. Leung, o método que ele utiliza. De facto, ele hostilizou os jovens. Quando olhamos para o Occupy e outras manifestações que têm acontecido em Hong Kong, deparamo-nos com líderes que, se já eram nascidos em 1997, eram ainda demasiado novos para perceberem onde estavam. Compreende-se que pessoas de gerações anteriores possam estabelecer paralelismos com os tempos da colónia britânica, mas estes jovens não podem fazê-lo. De onde vem toda esta vontade de oposição? Como é que se

explica que não queiram fazer parte da China? Não estavam em Hong Kong antes de 1997, mas ouviram muito e leram muito acerca do passado. Percebem o espírito antigo de Hong Kong, em que muitas pessoas vinham das classes baixas, lutavam por vidas melhores, entreajudavam-se e conseguiam um nível de vida melhor. As gerações mais novas não viveram isto, mas sabem do que estão a falar. Por outro lado, nas escolas secundárias e universidades leccionam professores que, em 1997, tinham 20 ou 30 anos. São pessoas que nutrem certos sentimentos em relação aos tempos da colónia britânica, sobretudo quando comparam C.Y. Leung com a Administração britânica. Alguns deles dizem: ‘Nos velhos tempos, pelo menos o Governo iria ouvir-vos. Não vos iria dar tudo, mas vinha, sentava-se e falava com vocês. Talvez vos desse um bocadinho do que querem. C.Y. Leung, com o pulso forte que tem, não vos dá nada’. O passado continua demasiado presente em Hong Kong? Diria que sim, há muitas pessoas que voltaram a falar dos velhos tempos. E os velhos tempos não significam necessariamente que a Administração britânica era boa. Mas o modo e a qualidade de vida, em termos comparativos, eram muito melhores. Em termos económicos, no que toca à performance do Governo, encontramos diferenças antes e depois de 1997. As pessoas sentem-se traídas, na medida em que havia expectativas no retorno à pátria que saíram defraudadas? Na minha geração, sim. As pessoas que nasceram depois de 1997 não tiveram essa experiência, mas comparam estes três Chefes do Executivo e encontram diferenças. Dos três, C.Y. Leung foi o pior. Em termos económicos, estes últimos cinco anos foram melhores do que a recta final

de Tung Chee-hwa. Mas não é a economia que interessa. É o modo como o Governo lida com as pessoas e, sobretudo, a forma como defende as políticas que implementa. C.Y. Leung não defende as suas políticas; limita-se a dizer que são as soluções possíveis e que o que está a fazer é o melhor. Há muitas coisas que foi dizendo que levam as pessoas a perguntar ‘mas o que é que ele está a dizer?’. Falando agora do futuro. Carrie Lam toma posse amanhã. Quando foi eleita, vários analistas consideraram que se trata de mais do mesmo. Sim. Carrie Lam tem uma carreira como funcionária pública, o que é uma vantagem em relação a C.Y. Leung, porque conhece a Administração. Mas isto não significa que esteja numa posição tão vantajosa como a que Donald Tsang teve, porque ele não se rodeou do mesmo tipo de pessoas. Todos sabemos que Carrie Lam fez muitas promessas ao regime para poder estar no poder. Tem de pagar todos os favores. Uma das formas passa pela nomeação de pessoas para a sua equipa. A maioria delas não corresponde às preferências da população. Não podemos esperar, então, melhorias no ambiente social e político de Hong Kong. Não. É algo que posso afirmar com certeza. Ela poderá não ter o mesmo pulso forte de C.Y. Leung, pode ser ligeiramente mais diplomática, mas não acredito que consiga dialogar com as diferentes forças políticas. Teremos mais ou menos o mesmo tipo de situação. Tem saudades da Hong Kong anterior à transferência? Não exactamente porque, quando era jovem, era uma espécie de anticolonialista. Mas posso dizer que valorizo muito a educação que Hong Kong me deu. Isabel Castro

isabelcorreiadecastro@gmail.com


HK 20 anos

N

AS CE U no ano da transferência de soberania. Chau Ho-oi tem hoje 20 anos e houve uma altura em que sentia um orgulho imenso em pertencer a um território que faz parte da Grande China. Em entrevista à Reuters, a jovem recorda um desses momentos: os Jogos Olímpicos de Pequim 2008, em que a selecção nacional conquistou 48 medalhas de ouro, mais do que qualquer outro país. Chan tinha 11 anos. “Achava que a China era óptima. Se me perguntassem, na altura, se me sentia chinesa, dizia imediatamente que sim”, conta. Nove anos depois, a forma como lida com o país modificou-se. E não é a única: a primeira geração pós-transferência está, cada vez mais, a virar as costas ao Continente. De acordo com um estudo da Universidade de Hong Kong publicado na semana passada, apenas 3,12 por cento dos 120 jovens entrevistados consideram ser “chineses”. Os inquiridos têm entre 18 e 29 anos. Há duas décadas, quando o estudo começou a ser feito, 31 por cento diziam ter um sentimento de pertença à China. A Reuters conversou com dez jovens nascidos em 1997. Todos

3,12%

Eles são só dali Primeira geração pós-97 não se identifica com a China eles, incluindo um migrante da China Continental a viver na antiga colónia britânica, afirmaram que se identificam como “Hong Kongers”. E acrescentaram que a lealdade que sentem é para com a cidade. Para esta forma de estar contribuíram em muito vários acontecimentos percepcionados pelos residentes como manobras de Pequim para controlar o território. Em 2012, o então adolescente de 15 anos Joshua Wong arrastou milhares de pessoas para as ruas em protesto contra um novo currículo nacional obrigatório, entendido como uma “lavagem cerebral”

aos estudantes, que tinha como objectivo promover o patriotismo. O currículo acabou por ser engavetado. Dois anos depois, aconteceu o movimento “Occupy”, mais uma vez com Joshua Wong ao leme. Foram 79 dias de protestos nas ruas numa tentativa – falhada – de pressionar Pequim a autorizar o sufrágio directo universal para a eleição do Chefe do Executivo. O desaparecimento de vários editores de Hong Kong e os esforços de Pequim para que dois jovens deputados eleitos, ambos pró-independentistas, fossem afastados do Conselho Legislativo também

abalaram a confiança no princípio “Um país, dois sistemas”.

O MEDO INVISÍVEL

Vinte anos depois da transferência de soberania, as perspectivas não são animadoras. A estudante Candy Lau tem receio de que a vida em Hong Kong seja cada vez mais controlada. A jovem teme que “a vigilância massiva da China Continental” chegue a Hong Kong, que deixará de ser “uma cidade segura”. “É um medo invisível”, diz. Há cada vez mais jovens a lutarem pela autonomia do território e, nos últimos anos, surgiu uma palavra nova no léxico político local: a inde-

dos jovens considera

pendência, ideia que é, obviamente, afastada por Pequim com veemência. No mês passado, o número três da hierarquia chinesa, Zhang Dejiang, responsável pelos assuntos de Hong Kong, vincou que é necessário “reforçar a educação nacional junto da juventude de Hong Kong e desenvolver conceitos correctos acerca do país desde tenra idade”, para que a população mais nova possa “amar a pátria”. Carrie Lam, que toma amanhã posse como Chefe do Executivo, não perdeu tempo: em declarações à Agência Xinhua, prometeu que vai cultivar o conceito “Eu sou chinês” desde as creches. A agência oficial chinesa deu conta da participação de 120 mil jovens de Hong Kong em programas de intercâmbio com o Continente, no âmbito do 20.o aniversário da transferência. Para os entrevistados da Reuters, estes esforços podem ser contraproducentes. “Como é que o Governo não percebe que quanto mais obriga as pessoas de Hong Kong a amar a China, mais força dá à oposição?”, pergunta o jovem Jojo Wong.

A IMPORTÂNCIA DA CULTURA

Até mesmo os estudantes mais moderados, que dizem não ter qualquer


hoje macau sexta-feira 30.6.2017

am-se chineses (Fonte: Universidade de Hong Kong)

Medo do que aí vem

Aumentam pedidos de passaportes britânicos

H

posicionamento político – como é o caso de Felix Wu –, preferem identificar-se primeiro como sendo “Hong Kongers” e só depois fazem referência ao facto de serem da etnia Han. “A China é um mercado muito grande e Hong Kong tem necessidade de se integrar neste mercado”, afirma Wu. “Mas politicamente prometeram que nada iria mudar durante 50 anos. Acho que estão a faltar um pouco à palavra.” Ludovic Chan, um estudante de Gestão que quer ser funcionário público, também diz ser um “Hong Konger”, mas não vê como é que o seu sentimento de pertença conflitua com o facto de ser chinês. “As duas culturas diferentes podem coexistir. Não deviam estar sempre a dizer que Hong Kong e a China têm de estar integrados. Mas os dois lados deviam tentar um entendimento mútuo.” Há estudantes do Continente a viverem na antiga colónia britânica que olham para a questão de uma forma mais optimista. “Vinte anos são apenas o início”, lança Yoshi Yue, a viver na RAEHK há três anos. “Irão lentamente desenvolver um sentimento de pertença. Vem da cultura, não da política.”

Á cada vez mais residentes de Hong Kong a tentarem assegurar passaportes estrangeiros como garantia para o futuro, conta a Reuters. São pessoas que temem o aumento dos conflitos sociais ou uma rápida erosão das liberdades. A agência combinou dados oficiais, informações de fontes diplomáticas e testemunhos de vários residentes para fazer aquilo que diz ser “o retrato de uma ansiedade crescente em relação ao futuro”. Sobretudo entre a nova geração, a influência cada vez maior de Pequim é encarada como uma sombra. A procura de passaportes estrangeiros cresceu a partir do momento em que a sociedade se fragmentou, na sequência do movimento Occupy de 2014. O facto de haver quem peça a independência – uma linha vermelha que o Governo Central não deixa pisar – contribuiu para o aumento dos receios, assim como o episódio do desaparecimento de vários editores e livreiros de Hong Kong. “Em 2047, acaba o período da transição e não sabemos o que irá acontecer. Estou a preparar-me para o pior”, conta Dennis Ngan, um jovem de 25 anos. À semelhança de vários amigos, vai renovar o seu BN(O) – o passaporte britânico especial dado aos permanentes residentes antes de 1997. No ano passado, foram emitidos mais de 37.500 documentos deste género, um aumento de

44 por cento em relação a 2015 e o número mais elevado da última década. O BN(O) não dá direito à residência no Reino Unido, mas os seus titulares podem permanecer seis meses e têm garantida protecção consular britânica. As autoridades do Reino Unido não forneceram à Reuters dados sobre os passaportes emitidos este ano, nem o número de pessoas que pediram a cidadania. No entanto, fontes diplomáticas da agência garantiram que houve “uma corrida aos pedidos de cidadania”, um fenómeno que justificam com as preocupações sobre o futuro do território.

A procura de passaportes estrangeiros cresceu a partir do momento em que a sociedade se fragmentou, na sequência do movimento Occupy de 2014 OUTRAS POSSIBILIDADES

Há quem prefira olhar para o Canadá: o número de residentes de Hong Kong com passaporte do país cresceu substancialmente entre 2005 e 2015. Também Taiwan é visto como uma possível saída. Só no ano passado, 1086 pessoas de Hong Kong passaram a ser residentes da ilha, o valor mais elevado da última década. Em 2015, o número de cidadãos da RAEHK que pediu residência permanente na Coreia do Sul foi sete vezes superior ao registado em 2007. Os vistos concedidos pelos Estados Unidos aumentaram 22 por cento de 2015 para 2016.


HK 20 anos O O país dentro da cidade Aproximação à China com impacto no modo de vida

historiador Jason Wordie considera que as maiores mudanças dos últimos 20 anos em Hong Kong estão relacionadas com o aumento de turistas e residentes da China continental. O fluxo de gente vinda do outro lado da fronteira teve um efeito quase transversal: o comércio passou a estar subordinado aos seus interesses, alterando a fisionomia de grandes partes da cidade, e o excesso de gente em quase todos os espaços públicos gerou uma tensão que explica, pelo menos em parte, a contestação política actual. “Há 150 mil pessoas por dia a vir da China. Desde a transferência, mais de um milhão passou a residir em Hong Kong”, salienta o britânico, a viver na cidade há três décadas. Dados oficiais indicam que dos 7,3 milhões de habitantes de Hong Kong 2,2 milhões nasceram na China Continental, em Macau ou em Taiwan. Em 2016, mais de 56 milhões de turistas visitaram a cidade, a maioria da China.

S

Cidade menos internacional Êxodo de expatriados nos sectores bancário e financeiro

AI um, entra outro. Sai um estrangeiro, entra um oriundo da China Continental. É este o fenómeno que se tem vindo a verificar nos sectores bancário e financeiro de Hong Kong, uma movimentação que chamou a atenção das agências internacionais de notícias e que pode resultar na descaracterização de uma das principais praças de negócios do mundo. “Houve um influxo de profissionais da China em Hong Kong, mais visível no sector financeiro”, explica ao HM Diana Pires, uma gestora luso-britânica que trabalha na RAEHK, no sector financeiro. “Olhando para trás, há apenas dois anos os expatriados teriam várias ofertas de emprego a qualquer momento. Isso mudou drasticamente.” De acordo com dados oficiais, o aumento de pessoas oriundas do Continente regista-se sobretudo em bancos de investimento, onde 80 por cento dos funcionários são oriundos do outro lado da fronteira. Um dos gestores do BOCOM International contou

“Há 20 anos não havia o fluxo de turismo da China. Em algumas zonas vemos que o comércio mudou. Locais onde originalmente as pessoas comuns viviam, tornaram-se áreas de comércio para os ‘mainlanders’. Sítios que costumavam ser cafés, bancas de jornais, agora vendem cosméticos ou produtos de leite ou alguma coisa que os chineses querem”, aponta. Isto veio alterar o ambiente de vastas partes da cidade, onde “é preciso andar muito para se encontrar uma papelaria”. Segundo Wordie, há um sentimento de que a cidade foi, de alguma forma, sequestrada. O historiador lembra um protesto numa zona pacata, Yuen Long, que considerou compreensível, perante o cenário de fim-de-semana, em que “as pessoas comuns não conseguem atravessar a rua porque toda aquela gente está lá, com malas de viagem, a comprar coisas”. O mesmo se passa na piscina pública, onde grupos turísticos terminam as visitas, e subitamente “estão lá mais 300 pessoas”.

“Os residentes sentem: Esta é a minha cidade, é o meu dia de folga e não consigo entrar num café, ir ao cinema”, explica. Wordie destaca que o volume chama a atenção para a origem, que noutra situação não seria problemática. “As pessoas sentem-se pressionadas. Além disso, os que vêm de fora têm um nível cultural diferente e há choques. Quando subitamente são 18h e o metro está a abarrotar, há pessoas a empurrar... Isso enfatiza a diferença. Quando as pessoas são fisicamente confrontadas com outras faz com que digam: Nós não somos como eles”, comenta. O número de visitantes da China começou a aumentar em 2003, depois de serem lançadas medidas para facilitar a entrada, após um surto de pneumonia atípica. No entanto, foi a partir de 2008 que “os números aceleraram muito” e isso deu “um grande empurrão à situação política”, de grande contestação. A presença dos chamados ‘mainlanders’aliou-se se a outros factores que fazem com que hoje Hong Kong

à Reuters por que decidiu trocar a capital pela região administrativa especial: “O ambiente é muito melhor do que o de Pequim, onde costumava trabalhar”. Hong Hao vive em Hong Kong há já cinco anos. “A comida é boa e os impostos também.” Diana Pires confirma a impressão transmitida por Hong Hao. “Os profissionais da China são cada vez mais atraídos pelo estilo de vida de Hong Kong”, diz. Esta procura pela região é “impulsionada principalmente pelo sistema fiscal atractivo que aqui temos”. Os impostos na RAEHK variam entre 15 e 17 por cento; no Continente podem chegar aos 45 por cento do valor do vencimento.

nanceiros representam neste momento 18 por cento da economia do território, uma subida significativa quando comparando com os 10,4 por cento de 1997. Evan Zhang, um jovem de 26 anos natural da província de Guangdong, é uma das novas contratações da CITIC Securities International e olha para o aumento do capital chinês em Hong Kong como uma oportunidade pessoal, por poder “desempenhar um papel” nestas transacções. Num mundo de negócios cada vez mais em língua chinesa, os profissionais do Continente têm uma vantagem em relação a muitos expatriados: o domínio do idioma. “Não estamos a ver apenas um aumento significativo nos executivos da China Continental. O conjunto de habilidades também mudou. As línguas tornaram-se um requisito, seja cantonês ou mandarim, ou então ambos os idiomas”, aponta Diana Pires. “É uma habilidade que muitos expatriados não têm.” O aumento dos negócios da China está a ser acompa-

O MERCADO DA LÍNGUA

As ofertas públicas iniciais (IPO, na sigla inglesa) chinesas dominam o mercado de Hong Kong. No ano passado, era o maior do mundo em termos de IPO, com 80 por cento das novas empresas listadas a surgirem da China Continental. Os serviços fi-


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seja “mais como a China”. “Ouve-se mais mandarim, o Governo parece-se mais com o da China, é mais burocrático”, exemplifica.

O VALOR DO ANTIGO

No topo das cidades mais caras do mundo, Hong Kong esticou as pernas nas últimas duas décadas: tem um novo aeroporto, os aterros permitiram-lhe crescer, tem novas pontes, mais linhas de metro, mais construção em altura. Mas este ímpeto de modernização gerou a vontade de proteger as primeiras vítimas do desenvolvimento desenfreado, os edifícios. “Há uma lojinha em processo de ser preservada, tem 130 anos, uma arquitectura interessante, é uma sobrevivente, mas ouvindo alguns dos activistas até parece que é o Coliseu de Roma”, ironiza o autor de três livros sobre a história de Hong Kong, admitindo que esse tipo de movimentação “é sinal que as pessoas sentem que tudo está a mudar e têm de se agarrar a algo”. “As pessoas precisam de alguns edifícios velhos”,

nhado por algum desinvestimento de multinacionais com sede no Ocidente, que procuram deslocar os seus serviços para cidades menos dispendiosas. Numa cidade com um custo de vida elevado, as condições que se oferecem aos expatriados têm vindo a cair. O valor médio dos salários oferecidos a gestores com alguns anos de carreira diminuiu dois por cento nos últimos cinco anos; os benefícios desceram cinco por cento, apontam as consultoras internacionais. “Há uma enorme mudança no panorama de expatriados e naquilo que lhes é oferecido para trabalharem aqui”, constatou à Reuters a gestora Christine Davis, a viver em Hong Kong desde 2011, depois de ter residido na cidade entre 1999 e 2001. Diana Pires destaca que a facilidade em se contratar profissionais na China faz com que as empresas invistam menos no recrutamento de estrangeiros. “É por isso que existe um êxodo de expatriados. Os pacotes não

“Os residentes sentem: Esta é a minha cidade, é o meu dia de folga e não consigo entrar num café, ir ao cinema.” JASON WORDIE HISTORIADOR que carregam a memória e a identidade do espaço. Há 114 edifícios protegidos em Hong Kong (considerados monumentos) e outros mil classificados como tendo algum valor histórico. No entanto, nem todos os imóveis com valor estão nas mãos do Governo

são tão atraentes e a concorrência da China é feroz.” No sector bancário, os jovens chineses ganham entre menos 20 a 30 por cento do que os colegas expatriados. Na lista de benefícios não constam, por exemplo, a habitação e as propinas das escolas dos filhos.

OUTROS IMPACTOS

A Reuters assinala que esta mudança demográfica na indústria financeira tem reflexos na economia local. Os restaurantes de comida

“Há apenas dois anos, os expatriados teriam várias ofertas de emprego a qualquer momento. Isso mudou drasticamente.” DIANA PIRES GESTORA

e os elevadíssimos preços fazem com que não seja viável a aquisição dos que estão na mão de privados. “O promotor imobiliário vai dizer ‘Isto não é histórico, é só velho e posso ganhar dez mil milhões de dólares [de Hong Kong] com ele’”, aponta Wordie. O historiador, que organiza passeios históricos pela cidade orientados para residentes, entende que entre 2003 e 2014 “gerou-se uma verdadeira consciencialização em Hong Kong sobre questões de património, ambientais, de igualdade, por melhores políticas sociais”. “As pessoas sentiam-se com poder”, principalmente depois de meio milhão de ter saído à rua, para rejeitar a adopção da legislação sobre o Artigo 23.o – e ter conseguido. “Nos últimos cinco anos isso acabou.” “As pessoas olham em volta e dizem: ‘Qual é o objectivo? Não está a funcionar, ninguém está a ouvir, estou a perder tempo’. Muitos juntaram as peças e perceberam que vai tudo dar à política”, afirma.

chinesa congratulam-se com os resultados obtidos. O mesmo acontece com as empresas que têm apartamentos prontos a arrendar a executivos sem famílias e os centros que oferecem cursos de Inglês. Há ainda um aumento de Audis nas estradas, uma vez que se trata de uma marca de carros muito popular entre os chineses. Esta alteração na demografia tem impacto junto de restaurantes ocidentais de certas zonas da cidade e, noutra perspectiva, poderá significar uma mudança no modo como Hong Kong tem vivido e se tem apresentado ao mundo. “Sem ocidentais em Hong Kong ou chineses ocidentalizados, os chineses [do Continente] têm pouca visão sobre a condução dos negócios ocidentais”, afirma Diana Pires. “E esse foi essencialmente um dos muitos papéis de Hong Kong.” Isabel Castro (com agências) isabelcorreiadecastro@gmail.com

T

EM menos de sete metros quadrados o espaço a que Wong chama de casa. Localizado num prédio do bairro mais pobre de Hong Kong, reflecte as condições miseráveis em que milhares sobrevivem num dos territórios mais ricos da Ásia. Wong, de 55 anos, subiu as escadas sem perder o fôlego, habituada que está à rotina de viver num quinto andar sem elevador de um prédio antigo de Sham Shui Po. À boa maneira chinesa, deixa o calçado à porta do minúsculo espaço pelo qual paga 3200 dólares de Hong Kong por mês. O beliche ocupa boa parte dos aproximadamente 6,5 metros quadrados da fracção subdividida onde mora. A parte inferior serve para dormir, a superior para guardar os poucos pertences: volumosos sacos pretos quase tapam os lençóis sobre os quais pousam ainda utensílios do dia-a-dia, produtos de higiene ou um rádio. Ao lado do beliche encontra-se um frigorífico, com um microondas por cima, defronte para um móvel de gavetas de plástico onde está uma televisão. Por cima, funciona quase ininterruptamente uma ventoinha fixa na parede que ajuda a suportar o calor. Existe uma pequena janela, mas nunca se abre, porque lá fora há “apenas lixo”, diz Wong à Agência Lusa. Do outro lado, a casa de banho e a cozinha formam uma ‘divisão’, ainda que sem porta, onde cabe uma pessoa. A sanita encontra-se ao lado da bancada e o lava-loiça e o lavatório são uma e a mesma coisa, expondo “problemas de higiene” que Wong reconhece, sem ter como os solucionar. Wong, que é empregada de limpeza, cozinha quase sempre, embora “não seja fácil”, “porque o espaço é muito pequeno”. Diz ser rara a vez em que vai buscar ‘tapau’, optando por regressar a casa nas duas horas que tem de almoço. A refeição é feita sobre uma pequena mesa, sentada numa cadeira, ambas desdobráveis, que quando abertas tomam todo o espaço livre entre o beliche e a parede. Já do tecto brotam peças de roupa penduradas em cruzetas engatadas em pregos,

Uma vida em sete metros quadrados Quase 200 mil pessoas residem em fracções subdivididas depois de terem sido lavadas à mão numa bacia colocada sobre a tampa da sanita, custando “dores de costas” à simpática Wong. O único dia de descanso usa-o principalmente para duas coisas: dormir e ir à rua fazer compras. Também vai uma vez por semana à igreja pentecostal à qual pertence, como denuncia um autocolante na porta. O contrato da chamada unidade subdividida – cujo modelo pode ser adquirido numa papelaria – expira em Fevereiro do próximo ano. Pese embora as condições, Wong não deseja mudar, não só pelo “pesado fardo financeiro” que será pagar um depósito e renda extra, mas porque sabe à partida da dificuldade de encontrar um lugar melhor, compatível com as suas possibilidades. Wong tem um rendimento mensal de 8900 dólares de Hong Kong, pelo que praticamente metade vai para as despesas relacionadas com a habitação, incluindo água e electricidade. A morar há quatro anos em Sham Shui Po, só conhece fracções subdivididas desde então. A anterior, onde foi surpreendida com um despejo, era maior, mas igualmente degradada, descreve. Um elevador faria a “grande diferença” para Wong que se queixa também do “barulho frequente de obras” e “da chatice” de morar no espaço que fica logo à entrada do apartamento subdividido – que tem mais

três espaços idênticos – porque, às vezes, os vizinhos acordam-na.

HABITAÇÃO SOCIAL NÃO CHEGA

A vida de Wong – chinesa nascida na Indonésia que se mudou para Hong Kong em 1989 e casou, no ano seguinte, com um residente da então colónia britânica – nem sempre esteve confinada a um cubículo. A separação levou-a a deixar a habitação pública em Ma On Shan, nos Novos Territórios, onde residia com o marido e três filhos, hoje com idades entre 20 e 28 anos, com os quais não mantém contacto. “Nunca me ajudaram, nunca me deram um único dólar”, lamenta. O seu sonho é voltar a viver numa habitação pública. Contudo, a lista de candidatos é extensa e a espera longa. Além disso, para formalizar o pedido tem de primeiro oficializar o divórcio, um processo em curso graças à ajuda legal que a Society for Community Organization arranjou, explica Gordon Chick, assistente social que a acompanha e que serve como intérprete-tradutor. Wong foi referenciada pela organização não-governamental há aproximadamente um ano, altura em que foi despejada da anterior fracção subdividida e a ajudaram a arranjar dinheiro para suportar os custos inerentes à mudança. Já Wong destaca antes, com especial carinho, quando lhe consertaram a televisão que se avariara. Não obstante as duras condições, as suas expectativas são “muito simples”, à imagem e semelhança da sua vida: “Manter o emprego e ter saúde”. Pelo menos 200 mil pessoas vivem em habitações inadequadas em Hong Kong, em fracções subdivididas de variadas formas, em cubículos ou gaiolas, muitas com condições precárias que constituem um “insulto à dignidade humana”, na descrição da ONU.


HK 20 anos

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Hong Kong no “meu coração”

Xi Jinping já está na ex-colónia britânica. E começou por dizer que espera grande longevidade para princípio “Um país, dois sistemas”

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I Jinping chegou ontem a Hong Kong para a primeira visita como Presidente da China à região administrativa especial, por ocasião das cerimónias do 20.º aniversário da transferência da antiga colónia britânica. O avião presidencial aterrou pouco depois das 12h no aeroporto da cidade, marcando o início de uma visita de três dias que termina amanhã, com a investidura de Carrie Lam, eleita em Março, que vai tornar-se na primeira mulher a desempenhar o cargo de chefe do Executivo de Hong Kong.

“O Governo Central vai apoiar, como sempre, o desenvolvimento de Hong Kong e a melhoria [da qualidade] de vida da população”, afirmou, numa declaração aos jornalistas à chegada ao aeroporto de Chek Lap Kok, acompanhado pela mulher, Peng Liyuan. Xi, que afirmou estar “muito feliz” por visitar pela primeira vez a cidade desde que assumiu a presidência em 2013, afirmou esperar gerar, durante a estada de três dias, “mais confiança no desenvolvimento e na construção de Hong Kong”, onde se deslocou pela última vez há nove anos, pouco antes de Pequim acolher os Jogos Olímpicos de 2008.

“Hong Kong teve sempre um lugar no meu coração”, disse Xi Jinping, que prometeu trabalhar para que o princípio “Um país, dois sistemas”, se mantenha “estável e por um longo período de tempo”. Um forte dispositivo de segurança foi montado em

todo o território, particularmente para evitar qualquer tipo de protesto capaz de “beliscar” a visita do Presidente. Polícias e barricadas alinham-se nas ruas em torno do centro de convenções, onde decorrem as comemorações, e do hotel

onde o líder do país deverá permanecer a maior parte do tempo da estada.

O OUTRO LADO DA FESTA

Paralelamente às celebrações oficiais, há já uma série de protestos agendados. Ontem, três grupos pró-democracia afirmaram que

A VOZ DO ÚLTIMO GOVERNADOR

A

rádio pública de Hong Kong emite amanhã, à meia-noite, uma entrevista ao último Governador de Hong Kong. Há 20 anos, Chris Patten entregava Hong Kong à República Popular da China; duas décadas depois, é bem conhecido o seu discurso interventivo em relação ao modo como a região tem evoluído. O tom crítico mantém-se na entrevista que assinala a transferência de soberania. A RTHK antecipa algumas ideias: Chris Patten diz que Pequim

tem estado a pisar cada vez mais o risco com Hong Kong. Afirma também que têm sido cometidas “violações flagrantes” à Declaração Conjunta e à Lei Básica. O antigo Governador considera ainda que a interferência das autoridades do Continente nos assuntos internos da RAEHK tem perturbado e preocupado a população de Hong Kong. Patten mostra-se igualmente preocupado com o que diz ser o aumento da censura na imprensa local.

26 dos seus membros foram detidos na quarta-feira por distúrbios, na sequência de uma concentração em torno da escultura da flor de bauhinia, o símbolo da região. A escultura foi um presente de Pequim a Hong Kong, em 1997, aquando da transferência do Reino Unido para a China. Entre os detidos contam-se Joshua Wong, rosto do movimento pró-democracia que ocupou as ruas da cidade durante quase três meses em 2014, e Nathan Law, outro líder estudantil, que faz parte do partido a que pertence Joshua Wong, o Demosisto, eleito em Setembro para o Conselho Legislativo.


13 EVENTOS

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DADE PERDIDA

emoções fortes das suas incursões, onde se comovem, assustam, divertem. “Os álbuns de fotografias dizem-me muito. Questiono-me sobre o que é feito daquelas pessoas. Cresceram, morreram, ainda estão em Hong Kong? É um pouco triste por vezes, são sentimentos mistos. O sapato de criança que encontrámos, por exemplo, é um pouco mórbido. Não conseguimos deixar de pensar ‘O que se passou aqui?’”, comenta.

“Está a mudar muito rápido, está sempre tudo em obras, não fazemos ideia de qual será o aspecto da cidade daqui a 20 anos” ECHO DELTA

da luta política por democracia. “Muitos jovens querem diferenciar-se da China, por isso há tantos grupos pró-democracia, o Occupy Central, o ‘localismo’. De certa forma, isto surge em paralelo com isso, estamos a defender a nossa identidade e parte dela são estes edifícios”, salienta. Numa cidade que luta com a falta de espaço e bate recordes nos preços do imobi-

MAM EXPOSIÇÃO NO FEMININO

liário, Ghost considera “uma loucura” que existam tantos edifícios remetidos ao abandono, recordando uma notícia de 2015 que dava conta que cerca de 100 escolas permaneciam abandonadas. Embora longe de ser representativo, um relatório oficial indica que existiam no ano passado 43.660 fracções vagas em propriedades privadas. “É incrível, numa cidade

onde as pessoas têm de viver no espaço de duas mesas, é criminoso, viola mais a lei do que nós ao entrarmos nesses sítios”, destaca.

DE TODA A GENTE

Apesar de saberem que não é permitido, os dois consideram as incursões importantes. “Não conhecemos a história se não entrarmos”, afirma Echo Delta, lembrando as

“Representações da Mulher” é a exposição que tem inauguração marcada para hoje no Museu de Arte de Macau (MAM). A mostra integra 70 trabalhos que pertencem à colecção do museu, datados dos séculos XIX e XX. De acordo com a organização, “a questão do lugar da mulher no mundo da arte tem inspirado os museus em todo o mundo a olhar para as suas colecções procurando entender o assunto”. Os trabalhos apresentados tratam o género feminino “na tradição artística chinesa e ocidental, e na confluência dessas mesmas tradições”, lê-se na nota enviada à comunicação social. A exposição está organizada em torno de quatro secções: “Uma Tradição Ocidental em Macau – Século XIX”, “Visões europeias da China – Final do século XX”, “Cartazes-calendários – Início do século XX” e, por último, “Propaganda – Meados do século XX”.

Estes salteadores dos prédios abandonados, que têm como mote “Não levar nada, não deixar nada, não matar nada”, começaram por usar máscaras para esconder a identidade, tendo em conta a ilicitude dos actos. As máscaras acabaram por se tornar numa forma de “combater a cultura das ‘selfies’ e do ego”, sublinha Echo Delta. “Estes sítios onde vamos não nos pertencem, são de toda a gente”. Inês Santinhos Gonçalves Agência Lusa

Ópera e conversa para pensar Macau Género musical pode ser atracção turística no território

O

ciclo anual de actividades da Fundação Rui Cunha que junta conversa e ópera é dedicado, nesta quarta edição, ao turismo e às cidades com ópera. A razão, apontou Shee Vá, mentor e apresentador do evento, tem que ver com o facto de 2017 ter sido definido pela ONU como o ano do turismo sustentável. De acordo com o responsável, a ideia do ciclo que está a decorrer é também poder proporcionar uma reflexão acerca do território. A questão que se levantou foi “se Macau tem possibilidades de chamar a atenção para o turismo associado à ópera”, disse o apresentador, ao HM. A ideia passa por duas vertentes tendo em conta o que se passa noutras cidades do mundo. “Há aquelas que têm edifícios de ópera capazes de levar os turistas a visitá-las ou que têm peças em cartaz emblemáticas que chamam os turistas, depois há também as cidades que são o cenário de peças emblemáticas e por isso atraem o interesse de quem lá vai”, diz Shee Vá. A pensar em Macau, o objectivo é alargar as opções oferecidas a quem visita o território para que, no futuro, “não tenha só um turismo ligado ao jogo e ao património, mas também a este género musical”. Outro aspecto que levou à abordagem de Macau enquanto cidade de ópera teve ainda que ver com o facto de já existir uma ópera feita e passada no território. É “Sonho de um Aroma” e conta “a história de um intelectual e político chinês que passou por cá e conheceu uma rapariga chamada Maria, portuguesa por quem se apaixona”, explica. Shee Vá dá exemplos: “O Scala de Milão é um edifício que leva à cidade gente para o ver e ver os seus espectáculos. Paris tem pessoas a ir descobrir a cidade da Traviata”. Este mês, a cidade norueguesa de Bergen já foi mote de uma sessão por estar associada ao “Navio Fantasma” e, no próximo

Gioachino Rossini

dia 13, o cenário é Reims. “Vamos andar pela cidade escolhida por Gioachino Rossini por ser o cenário de uma das suas óperas”, refere Shee Vá. As conversas com óperas são, com esta temática, um momento em que os actuais apresentadores, Shee Vá e José Carlos Pereira, abordam “as cidades de que se falam, a sua história, os compositores das óperas e, ao mesmo tempo, se ouve música.”

A ORIGEM

A iniciativa nasceu em 2013 e foi o resultado de uma conversa entre Shee Vá e Frederico Rato. “Queríamos comemorar o bicentenário do nascimento de Verdi e de Wagner. Foi uma actividade em que falámos de ópera e em que eu defendi Wagner e o Frederico Rato defendeu Verdi”, recorda. Por considerar que o género era muito pouco falado no território, Shee Vá e Frederico Rato avançaram, no ano seguinte, para as conversas com ópera. “O primeiro ciclo teve como nome ‘Da literatura para a ópera’, em que fizemos quatro programas acerca de romances que passaram para o palco e em que debatíamos as diferenças na adaptação”, diz. Em 2015, foi abordada a presença do Oriente na ópera ocidental e, “no ano passado, abordámos os sete pecados mortais neste género musical”. A iniciativa vai de vento em popa. “A resposta da audiência tem sido muito boa e os espectadores têm aumentado”, diz, apesar de, este ano, o público chinês ser menor. O decréscimo deve-se ao facto de, ao contrário do ano passado, a iniciativa não ter tradução simultânea, apontou. Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com


h ARTES, LETRAS E IDEIAS

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José Simões Morais

O Seminário-Liceu de Macau

A

instituição de ensino secundário Liceu foi criada em Portugal no reinado de D. Maria II pelo então ministro Passos Manuel, em Novembro de 1836. Resolução para colmatar a lacuna existente nos cursos secundários, anteriormente quase exclusivamente ministrados pelas Ordens e Congregações Religiosas, mas extintas em Portugal por decreto de 28 de Maio de 1834 de Joaquim António de Aguiar e em Macau, só a 19 de Setembro de 1835. Repetia-se o que se passara por ordem do Marquês do Pombal com a expulsão da Companhia de Jesus, efectivada em Macau no ano de 1762 e que veio fechar os estabelecimentos jesuítas como a Universidade, no Colégio de S. Paulo e o Seminário de S. José, fundado em 1728 e onde funcionava o ensino primário e secundário. D. Frei Alexandre de Gouvea, eleito Bispo de Pequim e sagrado em Lisboa a 7 de Fevereiro de 1783, veio para Macau e ao passar por Goa visitou o Seminário de Chorão, então regido pelos lazaristas, onde convidou dois padres da Congregação da Missão para irem dirigir o Seminário de S. José em Macau, ficando este assim restabelecido em 1784 e confiado aos lazaristas como Colégio de S. José. No advento do Liberalismo, os lazaristas aderiram ao constitucionalismo, mas este movimento em 23 de Setembro de 1823 foi substituído pelo conservador Conselho de Governo, presidido pelo Bispo de Macau, Frei Chacim e os lazaristas protestaram, sendo presos em 4 de Outubro três professores do Colégio de S. José. Joaquim Afonso Gonçalves e Luís Álvares Gonzaga fugiram para Manila, regressando poucos anos depois, talvez em 1825, onde continuaram a leccionar como seculares no Real Colégio de S. José (o antigo Seminário), que agora tinha na direcção o Padre Nicolau Rodrigues Borja. O Colégio voltou a funcionar, mas sem a regularidade anterior, contando com novos padres vindos de Portugal. Por aí passou Jerónimo José da Mata, primeiro, em 1826 como aluno, onde terminou os seus estudos e nos anos trinta do século XIX como professor. Eram as “grandes reformas do Liberalismo, com a introdução de órgãos mais especializados de supervisão do ensino. Início do ensino secundário, público e privado, em Macau”, segundo Aureliano Ba-

rata que adita, “O Seminário de S. José foi suspenso em 1845, sendo os seus alunos distribuídos pelos diferentes vicariatos da Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo ou lazaristas, na China. No Colégio apenas ficou o Padre Joaquim Leite, que continuou a ensinar Latim, vindo a falecer em 1854. O Colégio de S. José reabriu em 6 de Janeiro de 1857, existindo também aí a instrução primária, que a 3 de Novembro de 1858 o Governador Isidoro Guimarães propôs reunir com a Escola Principal de Instrução Primária, o que não foi aceite. Já a Nova Escola Macaense, idealizada pelo Barão de Cercal, António Alexandrino de Melo e inaugurada a 5 de Janeiro de 1862, contou com três professores contratados na Metrópole, mas, ao terminarem os contratos feitos por seis anos, fechou em 21 de Outubro de 1867. Já como Bispo de Macau, D. Jerónimo José da Mata ao encontrar no Colégio de S. José apenas um aluno interno e outros oito ou nove externos, em 1862 pediu para voltar este estabelecimento de ensino a receber professores jesuítas, pois em 1814 o Papa Pio VII reabilitara a Companhia de Jesus. Chegaram os padres Francisco Xavier Rôndina e José Joaquim da Fonseca Matos a Macau e em dez anos, com um “escolhido corpo docente” transformaram o Seminário numa das melhores e exemplares escolas de toda a Ásia. Atraídos por bons professores de

diversas nacionalidades, a afluência de alunos era grande, apesar de a maioria não fazer intenção de seguir a vida sacerdotal e assim, quando terminaram o curso, muitos ocuparam lugares de destaque na Administração. Em Macau, o ensino secundário oficial surgiu em 1870, integrado no Seminário de S. José, segundo Aureliano Barata, referindo que no ano seguinte os missionários estrangeiros daqui foram expulsos. Tal criou graves problemas no funcionamento, pois no Seminário “funcionava não só o ensino liceal mas também uma escola comercial, onde estudavam, nomeadamente, os portugueses de Macau. Esta situação despoletou a comunidade macaense a constituir a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM), liderada por homens afazendados de Macau e Hong Kong”.

O SEMINÁRIO-LICEU E A ESCOLA COMERCIAL

Sete anos após a fundação da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (A.P.I.M.), tempo necessário para encontrar professores, em 8 de Janeiro de 1878 foi criada a Escola Comercial, que funcionava no edifício do Seminário de S. José, na Colina de Santo Agostinho. Pedro Nolasco da Silva assumiu o cargo de Director e em 1881 também o de Presidente da Associação. Na Escola Comercial havia a Classe Elementar, onde se ensinava Português, Geografia, Aritmética, Catecismo e In-

glês e a Classe Superior, com Português, História e Geografia, Inglês, Aritmética, Álgebra, Escrituração Comercial, havendo ainda língua chinesa escrita e falada, Caligrafia e duas vezes por semana rudimentos de ciências naturais. Para se perceber a eficácia da Escola Comercial, o jornal O Independente de 13 de Fevereiro de 1886 refere: “Ninguém duvida que a causa da instrução pública em Macau ganhou muito, imenso, com a fundação da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e com a sua Escola Comercial. Preparar a mocidade para a única carreira profissional que a habilitasse a ganhar a vida nos escritórios estrangeiros e nacionais, em Hong Kong, em Xangai, nos diversos portos do tratado do Japão, ou mesmo em Singapura e na Austrália, era sem dúvida uma missão digna de patriotas e de pais de família.” Este grande elogio à importância da Escola Comercial e à APIM aconteceu após formados os primeiros alunos do curso e logo terem conseguido emprego em Macau e nos escritórios no estrangeiro, mas também já se sabia do convénio assinado em Junho de 1885, entre Pedro Nolasco da Silva, como presidente da APIM e o Bispo da Diocese de Macau, José Manuel Carvalho, que estipulava serem as aulas da Escola Comercial dadas nas salas do Seminário de S. José, o que veio a acontecer durante dezasseis anos, até 1901. Por Decreto de 22 de Dezembro de 1881 os estudos do Seminário de S. José foram reorganizados e com o nome de Seminário-Liceu de S. José de Macau passou a ter também o ensino comercial, mantendo-se aí a serem leccionadas a cadeira de Náutica e as aulas da Escola Comercial. Aureliano Barata refere: “Desta forma, passaram a existir em Macau duas escolas comerciais”. A APIM tomou então a iniciativa de fundir a sua Escola Comercial com a já existente no Seminário-Liceu de S. José. O Macaense de 1891 refere existirem quase todas as cadeiras de instrução secundária, mas dispersas, sem nexo entre elas; o que se precisa é reuni-las e formar um curso. Percebe-se ter fracassado a reforma do ensino secundário no Seminário-Liceu de S. José e para colmatar tal falha, por Carta Régia de 27 de Julho de 1893 voltou o Ensino a ser organizado, com a criação do Liceu Nacional de Macau.


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tonalidades

António de Castro Caeiro

H

Á uma desproporção entre a configuração anatómica do ser humano e o que somos. Despertamos sensações uns nos outros pela nossa aparência. Podemos nem sempre percebê-lo. Podemos passar despercebidos uns pelos outros. Mas não me estou a referir a impressões que causamos uns aos outros. Estados em que nos deixamos uns aos outros. Estou a referir-me a uma outra forma de desproporção. Numa praça cheia de gente, a praça é o local onde as pessoas se encontram. É um sítio que alberga todas elas. Mas ali há tantas praças quantas as pessoas que lá se encontram. No mínimo. Mas é muito difícil de perceber porque fazemos caber cada pessoa: bebé, criança, jovem, adulto, velho, homem ou mulher nas fronteiras compactas do seu corpo, no interior da sua anatomia. Há tantos seres humanos quantos os corpos que lá estiverem. Sim. É verdade. É inegável. Mas a lotação pode estar esgotada e tocamos uns nos outros, desviamo-nos uns dos outros, deixamo-nos passar uns aos outros. Estamos a ir à casa de banho ou ao bar, a entrar ou a sair e não apenas de sítios mas vamos às nossas vidas, como viemos das nossas vidas. Como poderíamos nós vir de outro tempo e ir para outro tempo que não os das nossas vidas? Não estamos nas nossas anatomias apenas espacialmente. Estamos sempre fora: de casa para o trabalho, a ir para onde vamos e a regressar. Estamos sempre a ir, como se ser fosse ir e com efeito a ter de ir. Mas estamos sempre distendidos entre o quando saímos de casa para vir até aqui ou ir onde vamos e o quando regressarmos. Sair e chegar, partir e regressar não são fronteiras estanques. Desde sempre estamos a sair: quando foi a primeira vez de todas as primeiras vezes e havermos de ter uma última vez de todas as vezes. E podemos já nem sair, nem partir, podemos só estar. Quando partimos só já estamos, e talvez nem seja assim. Nos sonhos dos moribundos tal como nos sonhos das crianças estão a ser inventadas vidas já vividas ou por viver.

YUE MINJUN, LIXEIRA (DETALHE)

Uma praça cheia de gente

Encontramo-nos no corpo uns dos outros e desencontramo-nos de nós por não nos encontramos no corpo uns dos outros

A vida distende-se e faz-se mesmo no interior estanque de onde não vem já sorriso nem queixume. Às vezes uma lágrima mas que pode ser do sebo da carne no quarto de hospital. Na praça apinhada de gente, estão troços de vidas, uns mais longos do que outros, uns com rumo e tempo outros sem rumo nem tempo. Mas nada do que está ali está ali. O trânsito humano numa praça: um aeroporto, um igreja, uma praia, uma esplanada ou a Praça do Comércio não existem primeiramente geograficamente, mas como encruzilhada onde nada está parado e tudo é escoado e se precipita para não se sabe bem onde. Há uma desproporção entre o que achamos ser uma vida humana e o seu corpo. E sim: o corpo é o órgão do tempo. Mas o corpo não é estanque e aponta também para o tempo. E vibra em nós o tempo no corpo, quando o forma e definha. Mas não é só assim que a vida e o tempo fazem corpo com a sua anatomia. Não somos sem pai nem mãe, nem antepassados nem descendentes, nem sem amigos, namoradas. Encontramo-nos no corpo uns dos outros e desencontramo-nos de nós por não nos encontramos no corpo uns dos outros. E encontramo-nos sem ser só no toque. Pode ser no olhar, no cheiro e quando nos escutamos. É difícil conhecermos o tom de cada pessoa, quando não a conhecemos. Mas cada um forma essa possibilidade. Eu, por exemplo, sou lá uma multidão de gente. Não apenas os meus que até posso esquecer, mas os outros mais ou menos afastados. Pode ser uma nação, quando vivemos nesse país, pode ser uma única pessoa que está a dar o mote à cadência vibrante da chegada ou da partida. Numa praça de gente estão muitos destinos, muitas cadências vibrantes, cada pessoa entroncada com os seus destinos, o tempo que houve e o que há-de haver, com e sem esperança. Não está nunca simplesmente onde está. Não está primariamente onde está. Está onde não está. Coisa estranha.


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h

O

fascínio da geometria – volto a ele - e das suas formas e superfícies regradas. Puras. Os sólidos de revolução, fantasias intelectuais perfeitas e de vida expectável. Como quereria a linguagem. Qualquer linguagem. Mas de abstracções não se tece a vida nem urde a existência. Hiperbólica, metafórica, saturada de figuras, de uma retórica que é paradigma ou pura ilusão. Da hipérbole, dois ramos, numa curvatura que resulta do corte de duas superfícies cónicas por um plano. Sabe-se-lhe a intensão do plano, sabe-se-lhe o foco. Como noutras curvas. Pontos externos e de misterioso domínio sobre a expectativa da curvatura obtida. Como essências que determinam subterraneamente uma forma existencial. Sem deixarem de ser elementares, ínfimos e fundamentais. Invisíveis geradores. E as linhas, geratrizes de revolução. Nas superfícies. Fico extática perante o poder metafórico da geometria. E o quanto de existencial, na geometria possível do ser enquanto tal, se rebela de uma estrutura que é definição e orientação a uma coerência confortável. Mas tão desnorteada. E que não é rígida só porque existe. Existe na sua perfeição utópica. Às vezes, na vida. E depois, essa oscilação pendular entre a corrosiva e imparável teatralização do sentir, que torna cada um tão fingidor como o poeta e tão dorido como ele, e a compulsão da verdade como se ela existisse. E um dia. Um dia de chofre. Uma luz cortante. E o paradigma dissolve-se no ar como um leve bouquet de feromonas em fuga, até não restar senão memória de um perfume. Uma verdade sempre acarinhada como antro de um bem maior e que se revela perversa, inóspita. Traindo a disposição dos focos, dessas curvaturas duplas em ramos estilizados, de uma árvore que deixa de ser construção e vida para ser demolidora. A competir com o ar respirável. Morreu. A verdade morreu. De saturação e excessos existenciais. De precipitação. Dela sobrevive-se com a prescrição dos maiores cuidados de futuro. De presente. Mas como uma doença crónica, como um alcoolismo, fica

latente para sempre e para sempre a requerer cuidados. À espreita, enganosa e divergente como só ela. Emoção, o terror a evitar, o perigo abismal, a selvajaria incontrolada, como curva em crescente, gerada num foco íntimo e distante. Como uma oxidação que corrói para dentro a pureza de um metal. Uma ferrugem a lapidar até á raiz do corpo onde reside a essência mascarada de castanhos ferrosos. Verdades múltiplas e disparadas como armas mortíferas. Químicos de fórmula desadequada. O que não cura, pode matar. Um espelho. Que se segura contra um rosto, como uma lente a ferir de sol uma haste seca. Até incendiar. Eu às vezes sinto a embriaguez enorme e arrepiante de palavras com as vísceras em fogo, de líquidos derramados em páginas como lava fresca de vulcão extinto de imediato ou mesmo antes e são bolas porosas e de cores extravagantes que rolam página abaixo e se esvaem nas margens. Ou para além delas. Tão para além que não voltam. Não adianta perscrutar os outros dias das palavras poéticas, porque em muito se furtam a um retorno a que o tempo invalida a costura. Emoções de um tempo preciso. Ou porque não eram as minhas vísceras, o meu tempo ou a minha ferida que ali se abria. Era. Era a ferida como se ressonância por simpatia. Como se telecomandada a partir de uma origem, como corpo a abrir ao primeiro raio de um poema. De sol, digo. Como flor. Como gineceu túmido na azul glória matinal. Mas são outros tempos do corpo e são outros corpos do sentido tacto. Na fantasia das manchas ensolaradas e das sombras magras e febris dessas palavras texto, tecido de uma urgência outra. Ou de outra urgência minha. Tudo a debandar das páginas folheadas como dedos naquele ponto. Naquele preciso ponto húmido. Onde mesmo os dedos podem ser ásperos. Nenhuma carícia é demais para as flores. Mas por vezes mata de peso e inércia desmedida para a espessura de uma determinada configuração que não condiz com o gesto. Mas não nos incomodemos a chorar se uma estrofe não volta a dizer o que disse. Nunca prender

com âncoras marinhas o destino que é térreo. E nele o balanço ondulado das ondas, de carreiros pedregosos. Ou arar ondas de mar. Cada emoção tem um único tempo. Um compasso e uma melodia irrepetível. E depois, numa daquelas epifanias de trazer a dias sem pretensões, ver todas aquelas frases a cair, misturadas e desarranjadas, desgrenhadas mesmo, amotinadas de fresco das suas linhas seguras, umas para andares abaixo, outras em flick flack destemido a ultrapassar o limite do texto, da folha, do mundo. O delírio mais lírico de um poema. Entornar-se no mundo e misturar-se entre as pessoas. Em bocadinhos, com de pão com manteiga, em interjeições sem destino certo, em negações do que era e do que era para ser se fosse. Tudo a invadir a capa. Partes de texto poético a andar para trás. Há pessoas assim. A confusão de sentidos intercomunicantes pode trovejar-nos na cabeça mesmo no seu lugar. A cabeça. E subitamente esqueci se era a cabeça ou o lugar dos sentidos. O lugar certo. Mas depois nem isto importa. Não devia ser permitido usar pronomes pessoais para abstracções. Como se fossem flores e concretas como tal. Chamar ela a uma hipérbole retorcida em si. Ou a angústia. Como defini-la sem dela se dizer o que a transforme em entidade. E, no entanto, há uma espécie de textura de uma densidade própria e deslizante. Lentamente a entorpecer talvez de cima para baixo. Mas a cor. Tentar entender-lhe a cor, parece fútil face ao abraço entorpecente e espesso. Que anula até a dor. Olhar para aquele lado. São enormes pedras de jazz. De sal, era o que queria dizer. Mas caiu dali outra palavra. Com luz natural de lâmpada no interior. As pedras. Enormes. De sal. E que lhes vem de dentro como é da natureza do que se acende. A partir de um ponto e em expansão. E sem voltar atrás. A luz. Espreito sempre à porta antes de entrar por um livro adentro não vá estar em trajes menores. E surpreendo-o, àquelas horas com as palavras a sair por todos os cantos como numa sandes demasiado cheia e desleixada. A capa com nódoas

ANABELA CANAS

A curva

de pequenas palavras que se soltaram mesmo. Uma coisa do outro mundo. O descrédito quase me faz rir. Mesmo que à custa de um livro desmanchado de poemas. Por isso penso mas porque se escreve ainda quando todas as palavras já foram usadas com todas as temperaturas a expelir fumo de todos os termómetros inaplicáveis. É que o fogo que


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de tudo e de nada

Anabela Canas

e o foco

lavra destemente a qualquer deus e a qualquer balança, é privado de braços e pernas se não atacar outras folhas. Não há descanso. Para a verdade crónica e imperfeita. Escrever, é uma coisa triste. O desvendar da alma a quem só nós conhecemos. O desabafo tão íntimo e tão privado que só nós ouvimos. Filtrado das linhas mesmo se bara-

lhadas como cartas de jogar. Tudo o que se tenha que definir em mais do que duas ou três palavras, a substitui por um gesto. Um sorriso. E chega. Ando há tempo a rondar este ângulo muito específico de estarmos a enlouquecer. Dizer isso como irremediável. E talvez porque muito da vida já o é, dizer. Estamos. Muito de nós está. A enlouquecer de de-

sespero. De sabe-se lá, sabemos nós, não o sabemos, talvez a enlouquecer. Sim. De como as roupas que vestimos dia a dia hora a hora e circunstância a circunstância. E lugar. Hiperbólicas. A esquecer o foco. Talvez se escolha o ângulo concreto da loucura diária, como uma roupa e uma deixa, que nem sempre encaixa na fala global da peça, mas não sabemos fazer

melhor. É talvez um facto que se vive entre paredes, entre as circunstâncias em que queremos ser amados e vistos com um olhar benévolo, e a necessidade de que os outros nos vejam na crua realidade do que se é. E ainda assim. Ser amados. Sofrer de figuras de estilo. Sofrer de lugares geométricos que tendem, ao invés da sua natureza matemática de rigor e abstracção, a deixar-nos num limbo de curvaturas várias num universo de espaço amplo e ilimitado. À mercê de elevações e expansões para as quais o corpo não oferece limite à fuga. Encosto-me a uma amurada, junto daquele mar imenso que é o único a entender-me, e a dizer que se nele mergulho ou nado, sem saber regras e correntes, tudo depende da força que tiver. Para resistir às vagas. O mar que não pune nem castiga, simplesmente segue a natureza desmedida que há que conhecer. Já nos humanos, a natureza é razão que se pode ponderar. Porque há o lugar geométrico do apaziguamento. Encosto-me a essa amurada com vista, só porque me sinto menos só face ao mar e é a este que devo escutar. Encosto-me mais ao olhar. Apuro o ouvido. Vejo-me de costas como quem diz que é de costas que melhor nos vemos e aos outros. Hiperbólicos, sentidos. Muito. Às vezes demais. Para uma única superfície de pele de rosto. De pelos nos braços, insuficientes na expressão de tamanho arrepio. Porque o vento vem forte. E hiperbólicas. Pessoas assim, a quem dói a temperatura do corpo. E para quem a respiração é um risco a sangrar. Quando a sacralização de cada regra pode enfermar de uma ferida que se agrava. A verdade. Não mais que um momento. Os conceitos que amamos, as definições. Outra coisa é a explicação dos anjos. Sem nome. Os anjos não têm nome. Não subjaz à forma o sentido, mas uma realidade motora que conduz a emoção do gesto à sua origem. Ao seu destino. O que liberta e o que contém envolve numa ilusão lúcida. A da realidade feita e perfeita, mas numa camada lírica, como num corpo, uma emoção e um sentido íntimo. Onde se vive mas não se encontra. Como a curva ao foco. Pequeno pirilampo. Ou o beijo da razão. Nem na verdade, nem na emoção.


18

h

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em modo de perguntar

Paulo José Miranda

Karadeniz

6. O filho A vista, do terraço do restaurante do Conrad Hotel, é uma das mais terríveis do planeta Terra. É o lugar onde o que o homem faz e o que a natureza é se encontram esplendorosamente, sem máculas e sem culpas. Fui apenas duas vezes a esse lugar: a primeira por amor de uma mulher; a segunda pela morte de um homem. Karadeniz morreu em sua casa junto à torre de Gálata, numa das muitas noites em que lá ficava, em que não me apetecia apanhar um táxi para a minha casa em Baltalimani, junto a Bebek, no Bósforo. Deve ter tido uma morte santa, sem sofrer. Foi para a morte como se tivesse ido apenas deitar para outro dia. Encontrei-o de manhã com o rosto mais pálido do que o costume, e já só consegui tocarlhe o frio. O homem já não estava ali. Tinha o passado à minha frente, diante do rosto e das mãos e não sabia o que fazer. Fiquei ali parado, sem fazer nada, a saber a morte. A seguir ao funeral de Karadeniz, em Istambul, o seu filho, T., que conheci na cerimónia, pediu-me para jantar com ele. Precisava de falar comigo com urgência, antes de partir para Londres, ainda essa noite. T: Soube pelo porteiro que você passava muito tempo com o meu pai, posso saber porquê? PJM: Porque gostava dele e ele me ensinava muito.   T: Ensinava-lhe o quê? PJM: Tudo! Só não me ensinou a matar.   T: A mim, foi só o que ele me ensinou. PJM: Ensinou-o a matar!?   T: Não propriamente, mas vi-o várias vezes a disparar com a espingarda contra os gatos da rua. PJM: Foi só para saber porque me encontrava com o seu pai, que quis encontrar-se comigo?   T:  Não, não foi só por isso! Queria saber como é que ele morreu, parece que não sofreu, pois não? PJM: Não, não sofreu. Morreu a dormir.   T: Morreu como viveu! PJM: A dormir!?   T: Não, sem sofrer. PJM: Julga que o seu pai não sofreu na vida, é isso que me está a dizer?  

T: Não me leve a mal, mas não quero falar sobre isto consigo, com quem nunca vi e provavelmente nunca mais vou ver. Não me leve a mal, mas não sou muito bom a falar de mim. PJM:  Não tem de que se desculpar! Compreendo perfeitamente. Há mais alguma coisa que queira saber?   T: Gostava de saber o que é que você faz na vida? PJM: Escrevo livros.   T: Que tipo de livros é que escreve? PJM: Romances, poesia e teatro.   T: Romances acerca de quê? PJM: Acerca da vida e da morte, acerca dos homens.   T: E isso dá-lhe para viver? PJM: Às vezes, dá! Outras vezes, não.   T:  Então e quando não dá, o que é que você faz? PJM: Isto é alguma entrevista, que me está a fazer?   T: Se quiser não me responda, não é obrigado a fazê-lo. Mas tenho curiosidade em saber que tipo de pessoa passou os últimos… PJM: Dois anos!   T: Dois anos!? PJM: Sim!   T: Pois, gostava de saber que tipo de pessoa passou os últimos dois anos a visitar o meu pai, a fazer-lhe companhia. PJM: A companhia era mútua. Quanto à sua pergunta anterior, quando os livros não dão para viver, peço dinheiro emprestado, até que volte a dar.   T: O meu pai chegou a emprestar-lhe dinheiro? PJM:  Não! Estou num momento em que não é preciso.   T:  O meu pai chegou a falar-lhe de mim, a dizer-lhe o que faço? PJM: Sim!   T: E o que é que ele disse que eu fazia? PJM: Disse-me que você era um homem de negócios, que importava vegetais da Turquia para Inglaterra.

T: Foi só isso que ele disse, não mencionou mais nada? PJM: Não, só me disse isso. Porquê, há mais alguma coisa que você faça que o seu pai não me tenha contado?   T: Não, não há mais nada. Queria só ter a certeza de que o velho não tinha perdido o juízo, nestes últimos anos de vida. PJM: O seu pai esteve sempre muito lúcido até ao fim, pode ficar descansado. O seu pai era um homem muito bom.   T: Muito bom!? Ele chegou a contar-lhe como era o inferno? PJM: Qual inferno?   T: Qual inferno!? A casa! Crescer naquela casa com dois loucos à volta dos gatos: um aos tiros aos animais e o outro a salvá-los; e eu no meio, sem ser gato. E nem os matava, nem os salvava. Ele não contou isso, pois não? PJM: O seu pai contou-me dos gatos, sim. Também me parece que sempre soube do mal que tudo isso lhe fez. Até ao fim, nunca quis aceitar culpa de nada, mas julgo que ele sempre se sentiu culpado em relação a si.   T: Que mais culpas é que ele poderia ter? PJM: Culpa em relação à sua mãe.   T: Em relação à minha mãe, não teve culpa nenhuma. A minha mãe era lou-

ca. Não se pode fazer nada por um louco, muito menos ser responsável por ele. PJM: O seu pai amava muito a sua mãe.   T: Essa é que é a sua culpa! Nunca lhe perdoei, ter-se sempre esquecido de mim, do que eu precisava, por causa dessa louca. PJM: Se pensa assim da sua mãe, porque foi com ela para Londres, porque não pediu para ficar com o seu pai?   T: Precisamente para magoá-lo. E também, porque não queria ter mais nada que ver com ele. Queria esquecê-lo. Queria ser uma pessoa completamente diferente dele. Queria ser o homem que ele nunca foi. PJM: Não sente culpa, por isso?   T: Na vingança não há culpa.   Depois de um longo silêncio, T. pegou no seu telefone e deu instruções para o piloto do helicóptero que o esperava no heliporto do hotel. Nesse momento pensei que Karadeniz sempre estava certo acerca das actividades do filho, que não é só legumes que ele importa para Inglaterra. Despedimo-nos e eu fiquei ainda ali sentado à espera de ver o ferro a voar para o aeroporto, levando para sempre da minha vida a história desta estranha família. Uma família sem culpa, a vingar-se da vida.


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TEMPO

?

NEBULADO

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

MIN

27

MAX

32

HUM

60-90%

EURO

8.76

BAHT

MÚSICA | UMA NOITE COM PIANO NA GALERIA Fundação Rui Cunha | 18h00 CINEMA | DOCUMENTÁRIO “O CINEMA, MANOEL DE OLIVEIRA E EU”, DE JOÃO BOTELHO Cinemateca Paixão | 19H30

Amanhã

POESIA | LANÇAMENTO DO LIVRO DE CARLOS SANTOS Casa do Povo de Coloane | 16h00

O CARTOON STEPH

Diariamente

EXPOSIÇÃO “25+10” DE RODRIGO DE MATOS Consulado de Portugal | Até 30/06 EXPOSIÇÃO “COLOUR/SHAPE/LOVE” DE JOAQUIM FRANCO Macau Art Garden | Até 16/07 EXPOSIÇÃO “NOCTURNO” DE FILIPE DORES Albergue SCM | Até 09/07

EXPOSIÇÃO “O MAR” DE ANA MARIA PESSANHA Casa Garden | Até 31/08 EXPOSIÇÃO “A ARTE DE ZHANG DAQIAN” Museu de Arte de Macau | Até 5/8 EXPOSIÇÃO “AMOR POR MACAU” DE LEE KUNG KIM Museu de Arte de Macau | Até 9/7 EXPOSIÇÃO “DESTROÇOS” DE VHILS Oficinas Navais, nº. 1 | Até 31/11 EXPOSIÇÃO “AS MUDANÇAS DE HENGQIN” Armazém do Boi | Até 16/07

Cineteatro

C I N E M A

SALA 1

Kyle Li, Mary MA

DISPICABLE ME 3 [2D][A]

19.30

Falado em cantonês Fime de: Pierre Coffin, Kyle Balda, Eric Guillon 14.30, 16.15, 19.45, 21.30

SALA 3

DISPICABLE ME 3 [3D][A] Falado em cantonês Fime de: Pierre Coffin, Kyle Balda, Eric Guillon 18.00 SALA 2

TRANSFORMERS: THE LAST NIGHT [2D][B] Fime de: Michael Bay Com: Mark Wahlberg, Laura Haddock Anhtony Hopkings 14.00, 16.45, 21.30

OUR SEVENTEEN [2D][B] Falado em cantonês legendado em chinês e inglês Fime de: Emily Chan Nga Lei Com: Sean Pang, Angela Yuen, King Wu

THE MUMMY [2D][C] Fime de: Alex Kurtzman Com: Tome Cruise, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Jake Johnson 14.30, 21.45

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 68

PROBLEMA 69

UM FILME HOJE

SUDOKU

DE

CINEMA | PELÍCULAS DO ÍNDIE LISBOA EM MACAU Cinemateca Paixão | A partir das 18H00

EXPOSIÇÃO “CONTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10

YUAN

1.14

POSTER DO CERCO

TEATRO | FESTIVAL BOK “2.0 PICTURESQUE” Edíficio Antigo Tribunal | 20h00 | Até sexta-feira

Domingo

0.22

AQUI HÁ GATO

TEATRO | FESTIVAL BOK “MODERATION” Edíficio Antigo Tribunal | 20h00 | Até sexta-feira

CINEMA | PELÍCULAS DO ÍNDIE LISBOA EM MACAU Cinemateca Paixão | A partir das 18H00

(F)UTILIDADES

Um cartaz de campanha eleitoral colado algures nas Portas do Cerco encheu o estado opinativo de comentários e celeuma. A mim, fez-me pensar em arte de rua, apesar da mensagem de nativismo primário. Ainda assim, imagino Warhol a organizar um evento de campanha em Macau, travestido e acompanhado por um Lou Reed anestesiado por um sortido de narcóticos vários. Imagino uma acção de campanha no Iao Hon com uma explosão de psicadelismo, stencils e pop art com cara de candidatos. Imagino os rudes batons pintados à la Factory nos lábios de uma deputada, uma peruca Marilynica num deputado, uma lata de Campbell de Lotus. Quantas mentes seriam rebentadas pela insolência festiva da pop art? Um gato dá por si a pensar em conceptualismo artístico e política local como digestão natural da realidade que ingere. Este devaneio em qualquer ponto do mundo seria sempre extremo, irreal, só possível na mente de um gato, pois o cinzentismo humano é uma prisão para um espírito livre e felino. Imagino uma estética punk a rasgar o panorama da campanha eleitoral, a espetar alfinetes de dama nos mais veneráveis legisladores e dirigentes políticos. Abano a cauda, feliz, a fantasiar com enormes cristas moicanas e línguas de fora, na destruição da ordem por dentro. Porque já existem “Rottens” e “Vicious”, só que não se chamam Johnny e Sid, estes andam vestidos com fatos de três peças e sapatos de designer. Pu Yi

“AN” | NAOMI KAWASE

Um filme japonês sobre o poder da amizade e da crença na vida, mesmo quando se pensa ter muito pouco. Esta é a história de um homem amargurado que tem uma pequena loja que faz somente dorayakis – um bolo japonês de pequenas panquecas e creme de feijão. O negócio é pequeno, dá pouco lucro, até que uma idosa com as mãos estranhas se oferece para trabalhar ali, porque aquele é o emprego com que sempre sonhou. O negócio floresce a partir do momento em que ela começa a fazer o creme de feijão. Contudo, a idosa guarda um terrível segredo, que vai mudar o rumo das vidas que a rodeiam. Andreia Sofia Silva

RESIDENT EVIL: VENDETTA [2D][C] Falado em inglês legendado em chinês Fime de: Takanori Tsujimoto 16.30

TRANSFORMERS: THE LAST NIGHT [2D][B] Fime de: Michael Bay Com: Mark Wahlberg, Laura Haddock Anhtony Hopkings 19.00

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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores Isabel Castro; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Sofia Margarida Mota Colaboradores António Cabrita; Anabela Canas; Amélia Vieira; António Falcão; António Graça de Abreu; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; João Maria Pegado; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Fernando Eloy; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


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hoje macau sexta-feira 30.6.2017

MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 423/AI/2017

MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 446/AI/2017

-----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se a infractora YANG YAQING, portadora do Salvo-conduto para Deslocação a Hong Kong e Macau da RPC n.° C18189xxx, que na sequência do Auto de Notícia n.° 142.1/DI-AI/2015, levantado pela DST a 06.12.2015, e por despacho da signatária de 19.06.2017, exarado no Relatório n.° 425/DI/2017, de 09.06.2017, em conformidade com o disposto no n.° 1 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010, lhe foi desencadeado procedimento sancionatório por suspeita de prestação de alojamento ilegal na fracção autónoma situada na Rua de Xangai n.° 21-E, Edf. I Keng Fa Un, I Tou Kok, 15.° andar C, Macau. -----No mesmo despacho foi determinado, que deve, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, apresentar, querendo, a sua defesa por escrito, oferecendo nessa altura todos os meios de prova admitidos em direito não sendo admitida apresentação de defesa ou de provas fora do prazo conforme o disposto no n.° 2 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010.-------------------------------------------------A matéria apurada constitui infracção ao artigo 2.° da Lei n.° 3/2010, punível nos termos do n.° 1 do artigo 10.° do mesmo diploma. -----O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício ‘‘Centro Hotline’’, 18.° andar, Macau.-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

-----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se o infractor HAN GUIQUAN, portador do Salvo-conduto de Residente da China continental para deslocação a Taiwan n.° T10653xxx, que na sequência do Auto de Notícia n.° 15/DI-AI/2016 levantado pela DST a 03.02.2016, e por despacho da signatária de 19.06.2017, exarado no Relatório n.° 436/DI/2017, de 09.06.2017, nos termos do n.° 1 do artigo 10.° e do n.° 1 do artigo 15.°, ambos da Lei n.° 3/2010, lhe foi determinada a aplicação de uma multa de $200.000,00 (duzentas mil patacas) por prestação de alojamento ilegal na fracção autónoma situada na Rua de Luis Gonzaga Gomes n.° 136, Edf. Lei San, 10.° andar F.-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------O pagamento voluntário da multa deve ser efectuado no Departamento de Licenciamento e Inspecção destes Serviços, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, de acordo com o disposto no n.° 1 do artigo 16.° da Lei n.° 3/2010, findo o qual será cobrada coercivamente através da Repartição de Execuções Fiscais, nos termos do n.° 2 do artigo 16.° do mesmo diploma.---------------------------------------------------------------------------------Da presente decisão cabe recurso contencioso para o Tribunal Administrativo conforme o disposto no artigo 20.° da Lei n.° 3/2010, a interpor no prazo de 60 dias, conforme o disposto na alínea b) do n.° 2 do artigo 25.° do Código do Processo Administrativo Contencioso, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 110/99/M, de 13 de Dezembro.--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Desta decisão pode o infractor, querendo, reclamar para o autor do acto, no prazo de 15 dias, sem efeito suspensivo, conforme o disposto no n.° 1 do artigo 148.°, artigo 149.° e n.° 2 do artigo 150.°, todos do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 57/99/M, de 11 de Out ubro.-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Há lugar à execução imediata da decisão caso esta não seja impugnada.---------------------------------------------------------------------------------------------------O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício ‘‘Centro Hotline’’, 18.° andar, Macau.-----------------------------------

-----Direcção dos Serviços de Turismo, aos 19 de Junho de 2017. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes

MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 458/AI/2017 -----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se o infractor XU CHANGQIONG, portador do Salvo-conduto para Deslocação a Hong Kong e Macau da RPC n.° W85849xxx, que na sequência do Auto de Notícia n.° 86/DI-AI/2015, levantado pela DST a 23.07.2015, e por despacho da signatária de 18.04.2017, exarado no Relatório n.° 250/DI/2017, de 20.03.2017, em conformidade com o disposto no n.° 1 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010, lhe foi desencadeado procedimento sancionatório por suspeita de prestação de alojamento ilegal na fracção autónoma situada na Praceta de Um de Outubro n.os 119 ─ 131-B, Edf. I Keng, 5.° andar H, Macau.----------------------------------------------------------No mesmo despacho foi determinado, que deve, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, apresentar, querendo, a sua defesa por escrito, oferecendo nessa altura todos os meios de prova admitidos em direito não sendo admitida apresentação de defesa ou de provas fora do prazo conforme o disposto no n.° 2 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010.-------------------------------------------------A matéria apurada constitui infracção ao artigo 2.° da Lei n.° 3/2010, punível nos termos do n.° 1 do artigo 10.° do mesmo diploma.--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício ‘‘Centro Hotline’’, 18.° andar, Macau.---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Direcção dos Serviços de Turismo, aos 16 de Junho de 2017. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes

-----Direcção dos Serviços de Turismo, aos 19 de Junho de 2017. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes


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contramão

ISABEL CASTRO

Com uns trocos no bolso MC ESCHER, RELATIVITY

isabelcorreiadecastro@gmail.com

J

NÃO é difícil perdermos a noção das coisas. Vivemos numa bolha com demasiadas especificidades para conseguirmos espreitar além das paredes. Vivemos a um ritmo que não nos dá tempo para parar, escutar e atravessar para outros lados. Por isso é que andamos em círculos, muitas vezes às escorregadelas, mas sempre a acelerar. Macau é uma terra de ilusões, de sensações, de milhões, de excessos, de excessos excessivos, onde o tempo passa mais depressa do que a nossa capacidade de fazermos contas à vida. No meio deste turbilhão onde toda a gente tem tudo, achamos sempre que ainda não temos aquilo de que precisamos. Os que têm tudo também querem mais, querem o dobro do que têm, como se fosse possível duplicar o infinito. Descobrem fórmulas de multiplicação de fortunas que não vêm nos manuais de economia. Das finanças sentimentais ninguém trata, porque não há tempo e, colocando tudo o que é de relevo em perspectiva, as almas ficam tão longe que mal se vêem. Os zeros é que contam. Não é fácil mantermos os pés nesta terra, nem aterrarmos noutra qualquer. Sobrevoamos a vida sem pousarmos em nada, atarefados que estamos em afazeres que são os mais importantes, os mais decisivos, os mais inúteis também, mal o dia acaba e outro começa, com cinco minutos de intervalo para descanso dos pés cansados. Tudo mudou muito nos últimos tempos, sabemos bem, apesar de não sabermos para

Assim como é normal mudar de roupa, também é normal tirar notas da mala, passar cheques, fazer transferências e comprar imóveis classificados em terras distantes onde vamos nesta centrifugadora de tempo e de energia. Tudo mudou muito e mais vai mudar, sabemos bem também, nós que começamos a olhar com normalidade para tudo aquilo que os outros fazem, todas as extravagâncias, todos os inusitados pedidos, todas as estranhas exigências. Já não nos espantamos com este mundo, como se a ausência de espanto fosse a normalidade. Queiramos ou não, todos nós fomos sugados pelo dinheiro que nos paga a casa, o carro, as jóias, as refeições com estrelas e sem estrelas, os ovos estrelados, o arroz com vegetais, o peixe cru raro e a sardinha na brasa. Só no mundo da normalização da invulgaridade é que é normal comprar casas com três quartos, sem despensa, por dez milhões. Ou palácios por 70. Compram-se coisas aos milhões como quem muda de camisa. Ou de gravata. Assim como é normal mudar de roupa, também é normal tirar notas da mala, passar cheques, fazer transferências e comprar imóveis classificados em terras distantes. É tudo demasiado normal. A Fundação Macau também compreende este espírito de normalidade. E alinha nele sem qualquer problema, sem qualquer desfaçatez, com toda a sinceridade de quem tem bem assimilado este modo de vida abastado, alargado, despreocupado, por ser aos milhões. Outra coisa não conhece.

Porque tem muitos milhões, mandatou um dos seus curadores para que este estudasse a aquisição de um determinado palácio lisboeta que pretendia comprar. Por coincidência, o curador é um empresário com olho para o negócio e com capacidade para cheirar a concorrência a quilómetros de distância. Por coincidência também, o mandatado anda com 65 milhões no bolso e não é pessoa para ficar à espera de convocatórias, reuniões e actas. Porque é um businessman, faz business. Compra o palácio em perspectiva, chega a casa e comunica o facto, os seus pares batem palmas ao feito, fazem-se poucas contas aos trocos, gastam-se mais uns milhões em avaliações e estudos ao que já se pretendia comprar antes de ser comprado, e está feito o negócio. Não se falou dele porque não calhou. Numa terra em que os milhões andam aos pontapés, tanto se lhe dá, como se lhe deu. E depois ninguém tem nada que ver com isso. Também já nos habituámos a que nos normalizem os passos. Como se as tecnologias não bastassem para que se saiba se vos escrevo de Macau, da Taipa ou da Papua Nova Guiné. Todos sabemos onde andam uns e outros. Mas há quem queira ir mais longe e precise de compreender o que se faz entre este passo e o seguinte, o que se lê entre este livro e o próximo, a quem se sussurra, com quem se grita, com quem se viaja, qual é o último pensamento que nos abraça antes de o sono nos apagar. Estranha normalização esta que não nos faz gritar, espernear, fugir a sete pés, agarrar a vida com as duas mãos. Não é difícil perdermos a noção das coisas quando as coisas que nos rodeiam surgem sem pré-aviso para se instalarem no meio da normalidade, disfarçadas de vulgaridades. Mas há que parar. Parar e escutar, para atravessar sempre, porque na travessia é que corre a liberdade.

OPINIÃO


22 OPINIÃO

hoje macau sexta-feira 30.6.2017

o ofício dos ossos

FRANS HALS, OFICIAIS, 1639

E agora, as autárquicas

VALÉRIO ROMÃO

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STE ano teremos eleições autárquicas e, com elas, a multiplicidade infinda de cartazes, porta-chaves, autocolantes e demais brindes de campanha, estradas remendadas com uma pasta muito semelhante a alcatrão mas com um tempo de vida útil substancialmente inferior ao do alcatrão, soluções para tudo menos para a morte, tempos de antena na RTP com pessoas estranhamente parecidas com pessoas, discussões acerca do centralismo e dos seus malefícios, partidos-bebé com siglas de doenças, caixas de correio entupidas de circulares desenhadas pelo primo de um cunhado que tem muito jeito, arraiais e arruadas para todos os gostos menos para o nosso e os habituais comícios enfeitados por figurantes tão entusiasmados como crianças numa leitura de poesia. Lisboa, por exemplo, e a julgar pelas obras que decorrem a um ritmo frenético para estarem concluídas antes das eleições, está em campanha há quase dois anos. A zona do Campo das Cebolas e arredores, se seguirmos o mesmo critério, está em campanha desde o início do século XXI, e não há previsão

para que finalmente deixe de estar e cumpra a função de fazer pender o voto. As eleições têm o condão de precipitar todas as decisões, arranjos e melhorias que podiam ter sido feitos ao longo dos quatro anos que corresponde ao mandato daqueles que foram eleitos para os últimos doze meses do mesmo, porque os políticos, justa ou injustamente, acham que a memória dos eleitores é semelhante à do peixinho de aquário que confunde os dejectos da ida com a comida da volta. Os primeiros três anos do mandato são de “estabilização e renovação”, o que equivale a resolver de forma unilateral todas as avenças do partido deposto do poder e à contratação ou adjudicação das pessoas “da nossa confiança”, no caso de uma mudança de cor política, ou, no caso da continuidade, a um inexplicável mas aparentemente confortável nada mascarado de planeamento. Como a taxa de natalidade em Portugal é ainda mais baixa do que a taxa de crescimento, as campanhas apontam baterias, invariavelmente, aos velhos que, em linguagem política, são ora a população idosa, ora a população sénior, ou qualquer outro jargão pós-moderno e politicamente correcto que cumpra a função de desossar das palavras a realidade que lhes subjaz. E os velhos, como se sabe, têm de ser tratados como crianças acumulando décadas de mau-gosto. Afinfa-se-lhes portanto o cantor pimba da moda, uma excursão a Badajoz

A única coisa boa é que o circo se repete somente de quatro em quatro anos. É o intervalo possível entre estas apneias de sentido em que já ninguém acredita mas que cumprem o propósito higiénico de simular uma alternância trajada de alternativa para evocar a lembrança da fome e das maravilhas que Abril cumpriu e uns arraiais com bifanas à pala que cada um cuida de comer como se não o fizesse há largos dias. Quando o triste espectáculo do disparate continuado finalmente termina, ficam os cartazes, outdoors e mupis desbotando, verão após verão, até da criatura constando neles se assemelhar uma nódoa informe numa toalha velha, ficam as promessas ainda mais desbotadas dos que as criaturas dos cartazes, ainda mais desossadas do que as palavras da moda, as promessas de que não nada resta senão, como escrevia o Eça na Relíquia, a “ousadia de afirmar”. A única coisa boa é que o circo se repete somente de quatro em quatro anos. É o intervalo possível entre estas apneias de sentido em que já ninguém acredita mas que cumprem o propósito higiénico de simular uma alternância trajada de alternativa.


23 PERFIL

FACEBOOK

hoje macau sexta-feira 30.6.2017

KERILL EZZY, INSTRUTORA DE IOGA

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De Brisbane para Macau

vida tem uma dinâmica cada vez menos linear. A australiana Kerill Ezzy é um bom exemplo disso mesmo. Chega a Macau como engenheira de som de espectáculos musicais para a apresentação de “Cats”, há cerca de 10 anos, e torna-se instrutora de ioga. Passados dois anos da primeira visita ao território voltou com a companhia que apresentou “The House of Dancing Water” e acabou por ficar por cá. Com um trabalho com características itinerantes, na altura, a engenheira de som sentiu a estranheza de trabalhar apenas num sítio. Porém, criar, construir um espectáculo e continuá-lo “foi uma experiência linda”, comenta. Além disso, Macau, com o seu charme muito próprio, acabou por seduzir Kerill. Quando chegou, a cidade era muito mais calma do que é actualmente. Vivia-se a época da crise económica. “Quando, vim o City of Dreams tinha sido acabado de construir”, lembra. Também o caldeirão cultural impressionou a australiana originária de Brisbane. Ao princípio, “a mistura de um povo asiático

numa cidade com arquitectura portuguesa foi muito estranha para mim, porque sou australiana e não temos este grau profundo de diversidade”, conta. A herança resultante do cruzamento de culturas criou um grande impacto em Kerill Ezzy. “Foi tão bonito descobrir uma antiga colónia portuguesa com chineses, numa mistura que casa com tanta perfeição”, explica. Entre o dia em que chegou e a actualidade, a australiana sente que uma das maiores diferenças é o evidente aumento do turismo, assim como da actividade ligada à indústria do jogo. Também o número de pessoas cresceu imenso, para dar resposta laboral às novas necessidades económicas. Na opinião de Kerill, a era de confusão e crescimento económico não tiveram repercussão na capacidade dos seus habitantes para pararem e se encontrarem consigo próprios. “Acho que a introspecção e a reflexão aumentaram como resposta ao crescimento de Macau”, analisa. No aspecto cultural, acha que ainda é cedo para medir as repercussões do boom da cidade. Uma coisa é certa, “os portugueses e

os chineses continuam a ser os povos lindos que sempre foram”, conclui.

ZEN NA CIDADE

Hoje em dia, Kerill é instrutora de ioga, uma inversão que aconteceu por um acaso trazido pela sua antiga profissão. O ioga entra na sua vida devido aos problemas de costas provocados pelo trabalho como engenheira de som. O ashtanga foi-lhe recomendado pela sua fisioterapeuta e foi uma surpresa para a australiana. “Era uma pessoa muito activa e a ideia de fazer ioga não era algo que me passasse pela cabeça”, conta. Passados cinco anos de prática e na sequência da falta de professores, a australiana tornou-se instrutora. “Pensei que era a melhor forma de continuar a aprender, nomeadamente através dos meus alunos”, revela a instrutora, que falou ao HM numa pausa de formação que está a tirar na Tailândia. Contrariando a impressão recorrente de que o ioga pode ser uma actividade rotineira, Kerill vê a sua dinâmica tendo em conta a maleabilidade do corpo humano. “Para

quem olha de fora, o ashtanga parece ser sempre a mesma coisa mas, na realidade, o teu corpo muda, comes coisas diferentes, dormes de forma diferente, todos os dias são diferentes”. Esta evolução torna o ioga algo fascinante de se trabalhar, na óptica da australiana. A instrutora encontra sempre algo na cidade locais que merecem atenção. “Há pequenas bolsas em Macau muito giras”, comenta. Por isso gosta de passar tempo nos pequenos cafés. Nesse aspecto, destaca o Macau Soul pelo belíssimo vinho português e fotografias antigas da cidade. Outro dos lugares de eleição da instrutora de ioga é o Jardim Luís de Camões, que “tem uma energia especial”. É um sítio onde gosta de estar, onde se sente bem a partilhar o espaço com os iodos que por lá ficam o dia inteiro a praticar tai chi, a meditar, ou simplesmente a conviver. “Há ali um sentido comunitário muito forte e uma grande tranquilidade apesar de se estar mesmo no coração da cidade”. João Luz

info@.hojemacau.com.mo


A noite inspira-me o degredo / a visita ao medo / à tempestade / recuso ter só metade ou antever a bonança. Fico em casa / cresce-me a pança.”

sexta-feira 30.6.2017

João Corvo

MERKEL ATACA TRUMP ANTES DA CIMEIRA DO G20 TIMOR LOROSAE PRIMEIRO-MINISTRO DEFENDE LGBT

O primeiro-ministro timorense condenou ontem a discriminação e violência de que são alvo os membros da comunidade LGBT, inclusive dentro das suas famílias, destacando o seu importante contributo para o desenvolvimento de Timor-Leste, disse Rui Maria de Araújo. “Alguns dos jovens ainda vivem em situações de violência, muitas vezes de pessoas próximas. A violência é crime. A discriminação é crime. As crianças e os jovens também são uma riqueza de Timor-Leste e a violência afecta o futuro da saúde física e mental do país”, considerou. O chefe do Governo afirmou que “todos têm o potencial de contribuir para o desenvolvimento nacional”. O governante considerou inaceitável que se discrimine ou desrespeite as pessoas “com base na sua orientação sexual ou identidade de género”, considerando que o futuro do país depende das crianças e jovens “viverem num ambiente de protecção e amor”, onde possam desenvolver o seu potencial. “Peço a todos que se aceitem, que se respeitem mutuamente. Os princípios do país democrático é de que todos devem viver em liberdade, com dignidade e respeito mútuo. Podemos, juntos, construir uma nação inclusiva em que todos participem no processo de desenvolvimento”, disse.

ÍNDIA MODI CONDENA LINCHAMENTOS DE MUÇULMANOS

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O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, condenou ontem, depois de vários meses em silêncio, os linchamentos de muçulmanos que estão a ocorrer no país, cometidos alegadamente para a protecção das vacas, um animal sagrado na Índia. Muito rápido a comentar ou reagir no Twitter sobre os temas da actualidade, Narendra Modi não fazia declarações desde 2016 sobre as mortes cometidas por milícias autoproclamadas protectoras das vacas. “Matar pessoas em nome do culto da vaca não é aceitável”, declarou o dirigente hindu durante um discurso em Ahmedabad. O país vive, há cerca de dois anos, um ritmo de linchamentos regulares de muçulmanos e, às vezes, membros da comunidade dalit – antigamente chamados de “intocáveis”.Pelo menos 10 muçulmanos foram linchados ou mortos em público desde Abril na Índia.

O nome que não digo

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NGELAMERKEL at-acou nesta quinta-feira Donald Trump antes de uma cimeira do G20 na Alemanha que se anuncia tempestuosa, criticando sua postura proteccionista e a saída dos Estados Unidos do acordo climático. Numa declaração à Câmara dos deputados sobre esta reunião dos principais líderes mundiais na próxima semana em Hamburgo, a chanceler alemã absteve-se de mencionar o nome do presidente americano. Mas não deixou qualquer dúvida sobre seu alvo. Nenhum dos desafios internacionais “conhece fronteiras e é por isso que hoje, mais do que nunca, aqueles que acreditam que podem resolver os problemas do mundo pelo proteccionismo e isolacionismo estão a cometer um grande erro”, disse. A chanceler definiu como um dos objectivos da reunião, da qual vão participar os chefes de Estado americano e russo, que “os líderes (do G20) mostrem que compreendem a sua responsabilidade” com todo o planeta.

As relações entre Berlim e Washington, óptimas durante o governo de Barack Obama, esfriaram desde que o seu sucessor na Casa Branca anunciou a retirada do seu país do acordo de Paris sobre a luta contra o aquecimento global e mantém uma retórica proteccionista sobre o comércio. Donald Trump visa em especial a Alemanha e suas exporta-

ções de automóveis para os Estados Unidos e chegou a ameaçar com a implementação de tarifas. Sobre o clima, “o desacordo (com os Estados Unidos) é bem conhecido e não seria honesto escondê-lo. Em qualquer caso, eu não vou fazê-lo”, sublinhou Angela Merkel. AEuropa está “mais determinada do que nunca” a combater as mudanças climáticas após a retirada dos Estados Unidos do

acordo de Paris, e este acordo “não é negociável”, reiterou. A cúpula do G20 das principais economias mundiais, que respondem por três quartos do comércio mundial, anuncia-se como um dos encontros internacionais mais polêmicos nos últimos anos. A chanceler alemã reuniu esta quinta-feira em Berlim com vários líderes europeus, incluindo o presidente francês Emmanuel Macron e a primeira-ministra britânica Theresa May, para formar uma frente unida. De acordo com diplomatas, os trabalhos preparatórios do G20 para alcançar uma declaração conjunta têm sido até agora “muito difíceis”. O chefe da diplomacia alemã, Sigmar Gabriel, acusou Washington de querer sabotar o processo. “Não existe uma estratégia anti-americana, e certamente não da parte do governo alemão, mas há estrategas americanos que planeiam uma política anti-Europa e anti-Alemanha”, proclamou na terça-feira.

CASO SOMMER UM PALÁCIO A MAIS, UM PALÁCIO A MENOS

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E a Fundação Macau tivesse abandonado a ideia de adquirir o Palácio Sommer, em Lisboa, a instituição “estaria dispensada de assumir qualquer responsabilidade”, disse Liu Chak Wan. Ou seja, o empresário poderia ficar com o imóvel, que tinha sido identificado como um potencial investimento pela Delegação Económica e Comercial de Macau na capital portuguesa. De acordo com a Rádio Macau, que cita um novo esclarecimento da FM, a instituição explica que Liu Chak Wan – que tinha sido mandatado pela instituição para acompanhar a compra do imóvel, em Julho de 2014 – “resolveu” adquirir o Pa-

lácio Sommer, em nome próprio, por duas razões. Por um lado, a “demora dos procedimentos administrativos para a aquisição” da Fundação Macau e, por outro, o “surgimento de potenciais compradores”. A aquisição acabou por ser feita pelo empresário em Outubro de 2014. O também membro do Conselho Executivo assegurou que, depois, “iria transferir” o palácio “pelo preço original”: 64.946.839 patacas.Ainstituição acabaria por completar a compra em Setembro de 2015, tendo no entanto um custo acrescido de quase sete milhões de patacas, justificado com “impostos, despesas com investigação, despesas com

avaliação de imóvel, taxas de registo, honorários, custos de remessa bancária e custos com segurança, água e electricidade”. A emissora em língua portuguesa explica que a Fundação Macau não respondeu à pergunta sobre a existência de um possível conflito de interesses em todo este processo, tendo insistido, no entanto, que Liu Chak Wan “alegou impedimento nas reuniões do Grupo Consultivo de Investimentos” da instituição que tiveram como ordem de trabalhos a aquisição do imóvel. A FM continua também sem explicar por que razão não tornou público o negócio, revelado pela rádio esta semana.

ANTÁRTIDA ÁREA SEM GELO PODE AUMENTAR 25% EM 2100

Uma investigação publicada ontem revela que as alterações climáticas podem vir a aumentar em 25% a área sem gelo da Antártida no final do século, um cenário que provocaria drásticas mudanças na biodiversidade do continente. A zona sem gelo representa actualmente cerca de 1% da superfície do continente - cuja área total é de aproximadamente 14 milhões de quilómetros quadrados -, figurando como o lugar onde se concentra quase toda a sua fauna e flora. Uma investigação realizada pela Divisão Australiana da Antártida (AAD, na sigla em inglês), a primeira a estudar o impacto das alterações climáticas nas zonas sem gelo na Antártida, prevê que estas se expandam e se unam entre si. (Corrige no título e no texto a interpretação dos números).

SONY VOLTA A FABRICAR DISCOS DE VINIL

A Sony anunciou ontem que vai voltar a fabricar discos de vinil, após ter cancelado a produção em 1989, devido ao aumento da procura global pelo suporte analógico. A Sony Music Entertainment, o braço musical do gigante tecnológico, com sede em Tóquio, decidiu retomar a produção de vinis durante o exercício em curso em duas das suas fábricas localizadas no Japão, confirmou uma porta-voz da empresa, sem adiantar o volume de produção previsto. A empresa japonesa interrompeu o fabrico dos discos de vinil para uso doméstico em 1989, devido à crescente quota do mercado musical conquistada pelos CD, formato físico digital que a própria Sony ajudou a desenvolver e começou a distribuir em 1982. A Sony espera assim adaptarse ao renascimento atual que vive o vinil, graças às vendas de álbuns em segunda mão e ao crescente número de lançamentos no velho suporte analógico. Além disso, a Sony instalou um novo estúdio de gravação no centro de Tóquio especialmente concebido para produzir os ‘masters’ a partir dos quais vão ser geradas as cópias em vinil, e aproveitar melhor a qualidade deste formato, segundo a porta-voz. No ano passado, as vendas de discos de vinil no Japão atingiram as 800 mil unidades, oito vezes mais do que em 2010, indicam dados da indústria musical japonesa. Esta tendência tem sido observada noutros pontos do mundo, como no Reino Unido, onde, no passado, as vendas dos vinis chegaram a superar as da música em formato digital, ou nos Estados Unidos, onde foram vendidos 17,2 milhões de discos em 2016.

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Hoje Macau 30 JUN 2017 #3843  

N.º 3843 de 30 de JUN de 2017

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