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COUTINHO QUER REVISÃO URGENTE

CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL | PÁGINA 7

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MISSÕES IMPOSSÍVEIS MIGUEL BALTAZAR

PÁGINA 8

FERNANDO SOBRAL

A OBESIDADE LUSA PUB

ENTREVISTA

PERSONALIDADE DO ANO

ALBANO MARTINS Albano Martins, sem fazer muito barulho, conseguiu acabar com o Canídromo e até arranjar casa para os galgos. Com isto, a imagem de Macau subiu vários pontos no mundo civilizado. ESPECIAL ANO NOVO PUB

MOP$10

SEXTA-FEIRA 29 DE DEZEMBRO DE 2017 • ANO XVII • Nº 3963

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

GONÇALO LOBO PINHEIRO

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ


2 especial

29.12.2017 sexta-feira

PERSONALIDADE DO ANO

REVELAÇÃO GCS

O economista sem papas na língua conseguiu, entre outros feitos, o desiderato civilizacional de fechar o Canídromo. E é mesmo assim, quer queiram quer não. Macau deixa de estar no mapa mundial da crueldade animal, graças aos esforços contínuos, persistentes, carrácicos, de Albano Martins e de outros da sua equipa na ANIMA. Devem os nossos governantes pensar que lhes saiu a sorte grande, na medida em que a solução do problema atraiu a atenção de celebridades, como a inesquecível Brigitte Bardot, proporcionando uma imagem mais positiva de Macau. Contudo, a coisa não se fica por aqui. Fechada a arena dos cães, havia que saber o destino a dar-lhes e Albano Martins, aos poucos, está a conseguir encontrar donos, da Austrália à Inglaterra, para os canídeos libertos da escravidão da pista. Assim se evita que tenham a triste de sorte de virar carne enlatada para consumo de outra bicharada. Além da questão do Canídromo e dos galgos, a ANIMA continua a desenvolver a sua acção preventiva, pedagógica e profilática, poupando uma trabalheira ao IACM e educando as novas gerações no sentido de estenderem aos animais o respeito que não devotam aos humanos. Albano Martins é fonte de orgulho para a RAEM e a comunidade portuguesa residente.

GOVERNANTE DO ANO

GONÇALO LOBO PINHEIRO

A excelente iniciativa do governo de Pequim de proporcionar a Macau o papel de ponte para os países lusófonos teve a sua consubstanciação no Fórum Macau. Só que desde o início até hoje, esta entidade ainda não conseguiu convencer ninguém, sobretudo no que diz respeito às expectativas criadas. A RAEM tem desiludido no papel de aproximar a China dos países lusófonos. De tal modo que o Governo Central, depois de anos a fio sem resultados palpáveis, resolveu agora nomear alguém que não é de Macau para a direcção. Vergonha para o Executivo local que não soube encontrar modo de fazer progredir o Fórum. É que nem sequer parecem ter sido tocados pelo discurso que Li Keqiang aqui proferiu em 2016, no qual indicava 19 (!) medidas para fortalecer a cooperação com a lusofonia. E o que fez Macau?

• HELENA DE SENNA FERNANDES

A directora dos Serviços de Turismo não verga perante as adversidades, nem vacila face a desafios difíceis. E foi assim que deitou as mãos ao trabalho e nos proporcionou um ano tranquilo, sem choques nem polémicas, nas áreas que tutelou. Como se não bastasse a diária responsabilidade de gerir centenas de milhares de turistas, Helena de Senna Fernandes levou a bom porto, este ano, a realização da segunda edição do Festival Internacional de Cinema de Macau. O que, convenhamos, não é para meninas...

EVENTO DO ANO Chegou, soprou e venceu. E, quando se foi embora, deixou descoberta muita careca descoberta neste humilde território à beira-rio plantado. A resposta governamental foi tão tímida, talvez desastrada e a revelar tanta insuficiência, que há quem diga que existe um antes e um depois do Hato, no modo como Pequim olha para este seu fiel filho. Ele há males que vêm por bem e ninguém é capaz de dizer que as coisas não estavam a precisar de um abanão...

• FÓRUM MACAU

VERGONHA DO ANO • ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

A votação de 28 deputados para suspender o mandato de Sulu Sou foi uma página negra na história da Assembleia Legislativa de Macau. O voto secreto ilibou alguns mas não tanto como os mesmos podem pensar. Tratou-se de um tiro no pé, de um disparate legislativo e político que demonstra a impreparação cívica dos deputados. Enfim... uma autêntica desgraça.

GCS

SOFIA MARGARIDA MOTA

Ele começou por hesitar e dizer mesmo que não se candidataria às eleições legislativas. Mas as circunstâncias ditaram que Sulu Sou surgisse como cabeça de lista da Novo Macau, para ser eleito e obter um excelente resultado, quando no passado tal não acontecera, sob a batuta de Jason Chao. Sulu Sou é de outra estirpe: educado, inteligente, bem falante. Além disso, não se conhecem posições “anti-patrióticas”, nem parece ser esse o seu principal combate. Pelo contrário, tem posto o acento tónico na desmontagem de negócios, o que o poderia tornar um elemnto precioso na AL. Talvez por isso, os outros deputados suspenderam o seu mandato argumentando que ele está a ser julgado pelo tenebroso crime de, durante uma manifestação, ter atirado aviões de papel à polícia...

DESILUSÃO DO ANO

GCS

• SULU SOU

• TUFÃO HATO

As eleições deste ano terminaram sob o signo da surpresa, com perda de votos por parte das listas dos “estrangeiros” (Guandong e Fujian) e clara vitória das forças “democráticas”. Claro que o regime político se encarrega que tal não tenha, na prática, a devida importância mas não deixou de ser surpreendente ver mais jovens a votar e alguns dos “institucionalizados” baixar na votação. Até parece que, aos poucos, a população adquire alguma maturidade política e nos arriscamos a ter finalmente um “povo”, capaz de governar uma região como manda o princípio “Macau governado pelas suas gentes”, deixando de lado as origens étnicas e tendo como farol o interesse de toda a população e não apenas de alguns clãs cujos interesses estão bem identificados.

GONÇALO LOBO PINHEIRO

POLÍTICO DO ANO

• ELEITORES

ARTISTA DO ANO • FILIPE DORES

TWEETER

GONÇALO LOBO PINHEIRO

• ALBANO MARTINS

Existe uma certa estranheza na obra deste pintor macaense, que a dota de um subtil poder hipnótico. Talvez o modo como pelas suas telas se fixa a luz ou o permanecer hierático dos prédios ou ainda o silêncio hopperiano que se evola das composições, estejam na origem dessa unheimlich, desse uncanny, certaine étrangeté, de que nos fala Freud e que provoca, para alguns, a emergência do lado mágico da arte.


2017

sexta-feira 29.12.2017

FIGURA INTERNACIONAL DO ANO

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PRÉMIOSESPECIAIS

MIKHAIL SVETLOV/GETTY IMAGES

• XI JINPING

Considerado pela Economist como “o homem mais poderoso do mundo”, o presidente da China teve um ano de glória. Internamente reforçou e de que maneira o seu controlo do aparelho do Partido e do Estado. Mas foi externamente que Xi Jinping mais brilhou, talvez por o mundo não estar habituado a ver a China assumir um papel de liderança nas mais diversas áreas. A iniciativa Uma Faixa, Uma Rota e a criação de conceitos como uma “comunidade global de futuro partilhado” levarão a China a desempenhar um papel no mundo nunca antes almejado.

O ESTOU AQUI, ESTOU ALI DO ANO WONG SIO CHAK

• Parece que já não existem dúvidas de que o actual Secretário para a Segurança é um dos candidatos “silenciosos” ao cargo de Chefe do Executivo. Pelo menos, é o que muitos afirmam pelos bastidores da política local. Independentemente das suas qualidades profissionais e pessoais, há quem tema pela sua postura “legalista” e uma demasiada proximidade às práticas do primeiro sistema.

O IMPORTA-SE DE REPETIR? DO ANO

ALEXIS TAM • O super-secretário defrontou-se este ano com algumas con-

trarioedades, nomeadamente ali para os lados do Instituto Cultural. De tal modo que Alexis Tam, provavelmente cansado de ver a areia fugir-lhe entre os dedos, nomeou alguém que deve ser da sua máxima confiança. A ver vamos no que dá... ou não dá...

PERIGO DO ANO • CIBERSEGURANÇA

A proposta de lei do Governo, que será certamente aprovada, vai permitir uma invasão da privacidade de cada um de forma nunca dantes sequer sonhada. 1984 já lá vai e Macau prepara-se para seguir os passos da Mãe-Pátria no que diz respeito ao controlo da internet, por meios legais. O problema é que ética e legalidade nem sempre (raramente) andam de mãos dadas.

LIVRO DO ANO

O LEVANTA-TE E ANDA, LÁZARO! DO ANO

AU KAM SAN • Quando muitos julgavam que a sua força política se esvaíra

nas lutas intestinas da Novo Macau, Au Kam San regressou com uma inesperada votação nas eleições que o colocou acima do velho compagnon de route Ng Kuok Cheong. Não desprezes que faz o trabalho de casa, diz um rifão. E, neste caso, contam muito os anos de acção sitemática e trabalho silencioso do deputado junto da população de Macau.

cívica, e Agnes Lam lá conseguiu finalmente ser eleita, sem grande estardalhaço, para a Assembleia Legislativa. A sua presença no hemiciclo tem igualmente sido pautada pela prudência. E ainda hoje não se sabe onde estava o seu coração durante uma certa votação.

O A PÁTRIA É DE QUEM A APANHAR DO ANO

MAK SOI KUN • Tanto discurso sobre a Pátria faz desconfiar, pelo exagero.

Há muito que se percebeu que em Macau são todos patriotas e até se trata de uma ofensa está sempre a invocar o patriotismo por este motivo ou por aquele, como fica mal invocar o nome de Deus em vão. Mas Mak não tem makas: não se modera e é a Pátria para isto e a Pátria para aquilo e a Pátria para aqueloutro. É chato e comprido.

SOFIA MARGARIDA MOTA

EXPOSIÇÃO DO ANO

O MERECIDO ATÉ NA CHINA DO ANO

JOÃO GUEDES • O Governo distinguiu o jornalista João Guedes com

a Medalha de Mérito Cultural, um galardão mais que merecido pelo incansável trabalho realizado em prol da Cultura de Macau. Dos livros aos programas de televisão, João Guedes é uma referência incontornável de rigor, credibilidade e capacidade de comunicação.

O TEM-TE NÃO CAIAS DO ANO

AZAR DO ANO

HABITAÇÃO PÚBLICA • As piores expectativas confirmam-se diria-

mente: a qualidade da construção da habitação pública na RAEM prima pela falta dela. O caso é tão grave que três anos depois de concluídas o Governo já vai gastar mais 12 milhões em arranjos. O pior é que dizem que é tipo para “a cova de de um dente”. MOTORSPORT.COM

• MORTE NA GUIA

A morte do motociclista Daniel Hegarty no Circuito da Guia veio ensombrar o Grande Prémio de Macau. E, sobretudo, levantar a discussão sobre se o traçado é passível de albergar corridas em duas rodas. Entretanto, o Circuito da Guia foi considerado o “melhor de sempre” pelo WTTC.

-se das lides políticas e a sua ausência foi bastante notada, nomeadamente no resultado eleitoral que as listas que patrocina obtiveram. É certo que ele nunca disse ter abandonado para sempre a política e será bem capaz de regressar daqui a quatro anos.

AGNES LAM • Pé ante pé, eleição após eleição, acção cívica após acção

Este livro, editado pela Livros do Oriente, de Rogério Beltrão Coelho e Cecília Jorge, recupera uma das figuras mais importantes e fascinantes da cultura de Macau do século XX. Aqui se reúnem textos de Silva Mendes sobre arte e filosofia, e três estudos de António Aresta, Tiago Quadros e Amadeu Gonçalves. Imprescindível. Ficamos à espera do segundo volume.

Uma exposição singular do arquitecto João Palla que, de quando em vez, espraia a sua criatividade pelas artes plásticas. O caso vertente impressionou pela inteligência como denuncia as figuras subjacentes à visão, aqui, ali, em todo o lado a que o humano ousa querer chegar.

CHAN MENG KAM • O homem forte da comunidade de Fujian afastou-

O PEZINHOS DE LÃ DO ANO

• MANUEL SILVA MENDES: MEMÓRIA E PENSAMENTO (I Volume)

• “TRACING LINERS”, DE JOÃO PALLA

O VOU ANDAR POR AÍ DO ANO


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29.12.2017 sexta-feira

AVISO

Aviso

COBRANÇA DA CONTRIBUIÇÃO ESPECIAL 1. Faço saber que, o prazo de concessão por arrendamento dos terrenos da RAEM abaixo indicados, chegou ao seu término, e, que de acordo com o artigo 53.º da Lei n.º 10/2013 «Lei de Terras», de 2 de Setembro, conjugado com os artigos 2.º e 4.º da Portaria n.º 219/93/M, de 2 de Agosto, foi o mesmo automaticamente renovado por um período de dez anos a contar da data do seu termo, pelo que devem os interessados proceder ao pagamento da contribuição especial liquidada pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. Localização dos terrenos: Rua da Pérola Oriental, n.ºs 177 a 267, Rua 1 de Maio, n.ºs 442 a 472C, Rua Central da Areia Preta, n.ºs 975 a 1059 e Avenida da ponte da Amizade, n.ºs 368 a 390, em Macau, (Edifício The Residência).

2. Agradece-se aos contribuintes que, no prazo de 30 dias subsequentes à data da notificação, se dirijam à Recebedoria destes serviços, situado no rés-do-chão do Edifício “Finanças”, ao Centro de Serviços da RAEM, ou, ao Centro de Atendimento Taipa, para os efeitos do respectivo pagamento. 3. Na falta de pagamento da contribuição no prazo estipulado, procede-se à cobrança coerciva da dívida, de acordo com o disposto no artigo 6.º da Portaria acima mencionada. Aos, 29 de Novembro de 2017. O Director dos Serviços de Finanças, Iong Kong Leong

Nos termos da alínea 1) do n.º 1 do artigo 19.º da Lei n.º 4/2016, Lei de protecção dos animais, são obrigados a obter uma licença emitida pelo IACM os proprietários dos cães que tenham completado três meses de idade e que não sejam animais para competição; ao mesmo tempo, o dono de animal deve cumprir a regra prevista na alínea 4) do n.º 1 do artigo 11.º da Lei em causa, cuidar do animal providenciando os meios necessários de modo a prevenir e tratar doenças contagiosas, nomeadamente a vacinação dos cães contra a raiva. Para facilitar o pedido e levantamento da licença para cães e a vacinação antirábica dos cães pelo dono de animal, o IACM instalará os Postos de serviço ambulantes para pedido e levantamento da licença para cães e vacinação anti-rábica nas seguintes datas e locais que se encontram na tabela anexa Macau, aos 07 de Dezembro de 2017

NOTIFICAÇÃO EDITAL

O Presidente do Conselho de Administração José Tavares Horas

Local

06/01/2018 ( Sábado )

14 : 00 – 19 : 00

Jardim da Vitória

13/01/2018 (Sábado )

14 : 00 – 19 : 00

Praça de Luís de Camões

20/01/2018 ( Sábado)

14 : 00 – 19 : 00

Praça de Ponte e Horta

25/01/2018 ( Quinta-feira)

17 : 00 – 19 : 30

Zona de Lazer do Edf. Lok Yeung Fa Yuen, Bairro de Fai Chi Kei

26/01/2018 ( Sexta-feira )

17 : 00 – 19 : 30

Zona de Lazer do Edf. Lok Yeung Fa Yuen, Bairro de Fai Chi Kei

27/01/2018 ( Sábado )

14 : 00 – 19 : 00

Parque Urbano da Areia Preta (Perto do Supermercado Royal)

03/02/2018 ( Sábado )

14 : 00 – 19 : 00

Seac Pai Van, Coloane (Edf. Ip Heng)

10/02/2018 (Sábado )

14 : 00 – 19 : 00

Rotunda do Estádio, Taipa

Península de Macau

Data

Coloane

Considerando que não se revela possível notificar a sociedade “Qoos, Lda.”, sita na Avenida da Amizade, 918-948, Edifício Macau World Trade Center, 13º andar C, Macau, pessoalmente, por ofício, telefone ou qualquer uma das formas previstas no n º1 do artigo 72º do Código de Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-lei n º 57/99/M, de 11 de Outubro, doravante designado, CPA, a signatária vem notificar, nos termos do art.º 58 CPA, a entidade supra mencionada para, no âmbito do processo de revogação da Licença de serviços Internet n º 17/2005- Empresa Qoos, Lda, que tem por base o disposto na alínea 8) do n º 1 do art.º 26 do Regulamento Administrativo 24/2002 (não pagamento das taxas devidas pela licença) exercer o seu direito de audiência no prazo de 10 (dez) dias, a contar do 1º dia útil seguinte ao da publicação do presente edital. Caso o notificado não exerça o seu direito de audiência dentro do prazo acima referido, o processo correrá os seus termos ulteriores. Direcção dos Serviços de Correios e Telecomunicações, aos 18 de Dezembro de 2017. A Directora dos Serviços, Lau Wai Meng

Taipa

Notificação para audiência prévia, no âmbito do processo de Revogação da Licença de serviços Internet n º 17/2005- Empresa Qoos, Lda

Nota: 1. Documentos comprovativos que são necessários entregar quando do pedido e do levantamento da licença para cães: a. Fotocópia do documento de identificação, se for pessoa singular; b. Fotócópia do modelo M/7 ou M/8 para efeitos de Contribuição Industrial emitido pela DSF, se for pessoa colectiva c. O documento comprovativo do local da criação do cão do portador da licença (como factura da água, da electricidade). 2. Taxa de pedido da licença para cães pela primeira vez a. Cães esterilizados:MOP 330,00 (incluído já o imposto de selo de 10%) b. Cães não esterilizados: MOP 990,00 (incluído já o imposto de selo de 10%) c. A taxa para pedido e levantamento de licenças para cães inclui exame veterinário, introdução de microchip, inoculação de vacina anti-rábica e atribuição de chapa de identificação metálica (cada cão). WWW. IACM.GOV.MO


política 5

sexta-feira 29.12.2017

AMCM Maria Luísa Man reforma-se e deixa conselho de administração Maria Luísa Man deixa hoje o cargo de membro do conselho de administração da Autoridade Monetária e Cambial de Macau (AMCM), que ocupava desde

Agosto de 2015. Segundo a Rádio Macau, a responsável vai reformar-se, sendo que o secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, decidiu

atribuir a sua pasta, de supervisão de seguros, a Wilson Vong. Benjamim Chan é, deste Agosto, presidente do conselho de administração da AMCM.

AL Lei da habitação social analisada dia 4 de Janeiro Na próxima quinta-feira os deputados que compõem a 1ª comissão permanente da Assembleia Legislativa

vão reunir para analisar o regime jurídico da habitação social. O diploma foi aprovado na generalidade

em Novembro e uma das novidades é a criação de um concurso permanente para os candidatos.

Para o acompanhamento de familiares doentes, o Governo propõe que, depois de ultrapassados os 15 dias permitidos, o funcionário passa a pode pedir, se necessário, uma licença sem vencimento.

CE ESTATUTO DA FUNÇÃO PÚBLICA ALTERA FÉRIAS E FALTAS

Descanso revisto

O mapa de faltas e a transferência de dias de férias para anos seguintes preenche a primeira parte da alteração ao Estatuto dos Trabalhadores da Administração Pública de Macau apresentada ontem pelo Conselho Executivo. Os trabalhadores passam a ter novas formas de dedução em caso de faltas por doença ou acompanhamento familiar

F

ALTAS justificadas e por motivos de saúde não vão ter descontos salariais quando inferiores ou iguais a 15 dias. A premissa é prevista na alteração ao Estatuto dos Trabalhadores da Administração Pública de Macau (ETAPM) apresentada ontem pelo porta voz do Conselho Executivo (CE), Leong Heng Teng. No caso das faltas serem entre 16 e 30 dias será deduzido, o equivalente a 50 por cento do ordenado, e caso sejam superiores a um mês, a suspensão salarial é total. Mas, para “que seja optimizado o regime de faltas por doença, a

dedução do vencimento (…) é efectuada uma vez por ano, devendo ser apenas processada no ano seguinte após verificada a menção obtida na avaliação de desempenho e se tenha dado ou não falta injustificada”, referiu Leong Heng Teng. Para o acompanhamento de familiares doentes, o Governo propõe que, depois de ultrapassados os 15 dias permitidos, o funcionário passa a pode pedir, se necessário, uma licença sem vencimento, disse o porta voz. “A medida é nova e tem por objectivo permitir uma maior flexibilidade aos funcionários em caso de doença”, sublinhou.

As faltas por frequência de cursos de formação académica profissional ou linguística vão também ser alvo de alteração, sendo que passa a ser exigido aos formandos que apresentem aprovação em pelo menos 80 por cento das disciplinas inscritas ou que passe de ao.

FÉRIAS TRANSFERIDAS

Em caso de transferência de dias de férias de um ano para outros, os 11 dias previstos na lei podem ir até 33 dias, caso o pedido de mudança tenha sido feito pelos serviços. No entanto, se o pedido de transferência dos dias de férias

partir do funcionário que alega razões pessoas, o limite de dias que pode transitar de ano mantem-se nos 11. Por outro lado, a alteração dos estatutos passa a permitir férias antecipadas. “Após o trabalhador ter exercido funções durante seis meses no primeiro ano de serviço, passa a gozar antecipadamente as férias nos seis meses subsequentes”, referiu Leong Heng Teng.

REGIMES E REGIMES

O Governo anuncia ainda, nesta alteração, a criação de mais dois regimes associados aos horários de trabalho. A proposta de alteração que vai seguir para aprovação na generalidade na Assembleia Legislativa propõe um regime de disponibilidade e um regime de horário especifico de trabalho. A ideia é poder garantir as necessidades da função pública. O regime de disponibilidade, diz o Executivo, “é o meio pelo qual os serviços públicos, por necessidade, exigem ao trabalhador, no período além do horário de trabalho e após ter saído do posto de trabalho, a disponibilidade de regressar”. Este regime pode ser aplicado em qualquer carreira. No que diz respeito ao regime de horário especifico de trabalho não há ainda uma definição clara.

“Após o trabalhador ter exercido funções durante seis meses no primeiro ano de serviço, passa a gozar antecipadamente as férias nos seis meses subsequentes.” LEONG HENG TENG PORTA VOZ DO CONSELHO EXECUTIVO

Já o trabalho por turnos também vai sofrer modificações. A alteração ao ETAPM salvaguarda pelo menos dez horas de descanso entre cada turno, sendo que pelo menos uma vez por mês devem ser rotativos. Por outro lado, em cada quatro semanas deve existir um dia de folga que coincida com um sábado ou domingo. Vai ainda ser regulado uniformemente o regime de trabalho flexível e optimizar as condições de prestação de trabalho temporário em que este será calculado em função do dia e pode vir a ser acumulado a cada período que atinja os 30 minutos. Mas, mantem-se o limite mensal de 52 horas de trabalho extraordinário. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo


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29.12.2017 sexta-feira

Anúncio 【N.º 201712-2】

NOTIFICAÇÃO EDITAL (nota de acusação)

No: 104/2017

Considerando que se revela ser impossível notificar, nos termos do n.º 1 do artigo 72.º do Código de Procedimento Administrativo (CPA), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, os indivíduos abaixo mencionados, por ofício, telefone, pessoalmente ou outra forma, Lai Kin Lon Kenny, Chefe do Departamento de Inspecção do Trabalho (DIT), manda que se proceda, nos termos do n.º 2 do artigo 11.º do Decreto-Lei n.º 52/99/M – “Regime geral das infracções administrativas e respectivo procedimento”, conjugado com o n.º 1 do artigo 93.º do CPA, à notificação dos mesmos, para no prazo de 15 (quinze) dias, a contar do dia seguinte ao da publicação da presente notificação edital, entregar nestes Serviços a defesa e as alegações escritas em relação às eventuais infracções: 1. Processo n.º 149/2017: MATEUS MANUELA (titular de Bilhete de Identidade de Residente de Macau), é suspeita de ter aceitado a prestação de trabalho por dois trabalhadores não residentes, não sendo titular de autorização de contratação válida. Nos termos da alínea 1) do n.º 1 do artigo 32.º da Lei n.º 21/2009 – “Lei da Contratação de Trabalhadores Não Residentes”, a eventual infractora pode ser punido com multa de $20 000,00 (vinte mil patacas) a $40 000,00 (quarenta mil patacas), sendo que a multa varia de $10 000,00 (dez mil patacas) a $20 000,00 (vinte mil patacas) por cada trabalhador em relação ao qual se verifique a infracção. Ao mesmo tempo, nos termos da alínea 1) do n.º 1 do artigo 33.º da mesma Lei, a eventual infractora também pode estar sujeito à sanção acessória de revogação de todas ou parte das autorizações de contratação de trabalhadores não residentes concedidas, acompanhada da privação, pelo período de seis meses a dois anos, do direito de pedir novas autorizações. 2. Processo n.º 149/2017: MARTINS DE JESUS, AMÉRICO (titular de Bilhete de Identidade de Residente de Macau), é suspeito de ter autorizado a colocação de dois trabalhadores não residentes ao serviço de outra entidade não autorizada para o efeito, cometendo eventualmente infracção ao n.º 2 do artigo 9.º do “Regulamento sobre a Proibição do Trabalho Ilegal”. Nos termos da alínea 2) do n.º 1 do artigo 9.º do mesmo Regulamento, o eventual infractor pode ser punido com multa de $20 000,00 (vinte mil patacas) a $80 000,00 (oitenta mil patacas), sendo que a multa varia de $10 000,00 (dez mil patacas) a $40 000.00 (quarenta mil patacas) por cada trabalhador em relação ao qual se verifique a infracção. Por outro lado, essa infracção também infringe o princípio estatuído no artigo 2.º da Lei n.º 21/2009 – “Lei da Contratação de Trabalhadores Não Residentes”, no sentido de a contratação de trabalhadores não residentes visar somente suprir provisoriamente a insuficiência de trabalhadores locais, portanto, se for provada a infracção, podem também ser revogadas todas ou parte das autorizações de contratação de trabalhadores não residentes concedidas ao eventual infractor. 3. Processo n.º 2058/2017 XUE DEGUI (titular de Salvo Conduto para Hong Kong e Macau, da República Popular da China), é suspeito de ter prestado trabalho na RAEM sem autorização para aqui permanecer na qualidade de trabalhador. Nos termos da alínea 1) do n.º 5 do artigo 32.º da Lei n.º 21/2009 – “Lei da Contratação de Trabalhadores Não Residentes”, o eventual infractor pode ser punido com multa de $5 000,00 (cinco mil patacas) a $10 000,00 (dez mil patacas). 4. Processo n.º 2058/2017: FANG ZHIGUO (o residente da China Continental titular do “Salvo Conduto duplo para Taiwan”), é suspeito de ter prestado trabalho na RAEM sem autorização para aqui permanecer na qualidade de trabalhador. Nos termos da alínea 1) do n.º 5 do artigo 32.º da Lei n.º 21/2009 –“Lei da Contratação de Trabalhadores Não Residentes”, o eventual infractor pode ser punido com multa de $5 000,00 (cinco mil patacas) a $10 000,00 (dez mil patacas). 5. Processo n.º 1183/2017: 張小燕 (romanizada em ZHANG XIAO YAN) (titular de Bilhete de Identidade de Residente da República Popular da China), é suspeita de ter aceitado a prestação de trabalho por dois trabalhadores não residentes, não sendo titular de autorização de contratação válida. Nos termos da alínea 1) do n.º 1 do artigo 32.º da Lei n.º 21/2009 – “Lei da Contratação de Trabalhadores Não Residentes”, o eventual infractor pode ser punido com multa de $20 000,00 (vinte mil patacas) a $40 000,00 (quarenta mil patacas), sendo que a multa varia de $10 000,00 (dez mil patacas) a $20 000,00 (vinte mil patacas) por cada trabalhador em relação ao qual se verifique a infracção. Ao mesmo tempo, nos termos da alínea 1) do n.º 1 do artigo 33.º da mesma Lei, a eventual infractora também pode estar sujeito à sanção acessória de revogação de todas ou parte das autorizações de contratação de trabalhadores não residentes concedidas, acompanhada da privação, pelo período de seis meses a dois anos, do direito de pedir novas autorizações. Os eventuais infractores acima mencionados poderão, dentro das horas de expediente, levantar a respectiva nota de acusação no Departamento de Inspecção do Trabalho, sita na Avenida do Dr. Francisco Vieira Machado nºs 221-279, Edifício “Advance Plaza”, 1º andar, Macau, sendo-lhes também facultada a consulta dos respectivos processos, mediante requerimento escrito. Findo o prazo acima referido, a falta de apresentação da defesa escrita é considerada como tendo sido efectuada, de facto, a audiência do eventual infractor. Departamento de Inspecção do Trabalho, aos 19 de Dezembro de 2017. O Chefe do D.I.T., Lai Kin Lon Kenny

Torna-se público que, nos termos do artigo 29.º do Regulamento Administrativo n.º 5/2014 (Regulamentação da Lei do planeamento urbanístico), a DSSOPT vai proceder-se à recolha de opiniões dos interessados e da população respeitantes aos projectos de Planta de Condições Urbanísticas (PCU) elaborados para as zonas não abrangidas por plano de pormenor mas inseridas nos lotes abaixo indicados: ─ Processo N.º:89A156, Avenida de Demétrio Cinatti no 7A e Travessa de Lam Mau no 8—Macau; ─ Processo N.º: 2010A019, Travessa dos Mercadores no6—Macau; ─ Processo N.º: 2010A083, Estrada da Areia Preta no 20—Macau; ─ Processo N.º: 2011A090, Rua de Hac Sá Long Chao Kok nos 122 e 660—Coloane; ─ Processo N.º: 2012A076, Rua da Barca no1A e Rua de Manuel de Arriaga no28— Macau; ─ Processo N.º: 2014A023, Rua de Hac Sá Long Chao Kok nos 346 e 450—Coloane; ─ Processo N.º: 2017A051, Rua da Barra no 4— Macau; ─ Processo N.º: 2017A063, Terreno junto ao Pátio dos Cules— Macau. Para efeitos de referência, os projectos de PCU para as zonas dos lotes supracitados que não estão abrangidas por plano de pormenor já estão disponíveis para consulta no Departamento de Planeamento Urbanístico, situado na Estrada de D. Maria II n.º 33, 19º andar, Macau, e encontram-se afixados na Rede de Informação de Planeamento Urbanístico desta Direcção de Serviços (http://urbanplanning.dssopt.gov.mo). O período de recolha de opiniões tem a duração de 15 dias e decorre entre 29 de Dezembro de 2017 e 12 de Janeiro de 2018. Caso os interessados e a população queiram apresentar as opiniões sobre os referidos projectos de PCU de zona do território não abrangida por plano de pormenor, deverão preencher o formulário O011,o qual pode ser descarregado nos websites http:// urbanplanning.dssopt.gov.mo ou www.dssopt.gov.mo, ou levantado nesta Direcção de Serviços (Estrada de D. Maria II n.º 33, Macau), podendo submetê-lo no período de recolha de opiniões através dos seguintes meios: ─ Comparecendo pessoalmente: Estrada de D. Maria II n.º 33, Macau, durante o horário de expediente nos dias úteis ─ Correio: Estrada de D. Maria II n.º 33, Macau (o prazo limite de entrega é contado a partir da data de envio indicada no carimbo do correio) ─ Fax: 2834 0019 ─ Email: pcu@dssopt.gov.mo Serão consideradas as opiniões respeitantes aos projectos de PCU de zona do território não abrangida por plano de pormenor elaborados para os lotes, quando forem apresentadas de acordo com as exigências acima indicadas. Para mais informações podem pesquisar o website http://urbanplanning.dssopt.gov.mo e para qualquer informação adicional queiram contactar o Centro de Contacto desta Direcção de Serviços (8590 3800). Macau, aos 28 de Dezembro de 2017 O Director da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes Li Canfeng


política 7

sexta-feira 29.12.2017

AGÊNCIAS DE EMPREGO COM PROPOSTA DE LEI APROVADA

Metade é para eles E até agora as agências de emprego não tinham referências para regulamentar os honorários, a partir do momento que a proposta de lei referente à sua regulamentação for aprovada na Assembleia Legislativa, as agências passam a poder cobrar até 50 por cento do primeiro ordenado ao empregado a que prestam serviços. O pagamento pode ser feito até dois meses depois do início de funções. A medida faz parte do aperfeiçoamento do regime de cobranças das agências de emprego. “A proposta de lei define claramente que as agências de emprego não gratuitas podem cobrar honorários a empregadores e trabalhadores pela prestação de serviços e que o montante de honorários a cobrar aos trabalhadores não pode exceder os 50 por cento da remuneração de base do primeiro mês de trabalho”, lê-se no documento apresentado ontem pelo porta voz do Conselho Executivo (CE), Leong Heng Teng. Já as cobranças feitas às entidades empregadoras ficam sem valor ou proporção definida. De acordo com o responsável da Direcção para os Assuntos Laborais, Wong Chi Hong, “cada agência de

RESPONSABILIDADES PARTILHADAS

S

TIAGO ALCÂNTARA

Os empregados contratados via agência de emprego já têm o montante relativo aos honorários estipulado. O pagamento pode ir até aos 50 por cento do ordenado do primeiro mês. Quanto às entidades empregadoras, cada agência fixa o montante que entender. As medidas estão previstas na proposta de lei da actividade de agências de emprego divulgada ontem pelo Conselho Executivo

mínimas exigidas para o cargo são o ensino secundário completo, mas nos casos dos trabalhadores que estão em exercício de funções há cinco ou mais anos, o diploma prevê a isenção do cumprimento dos requisitos sobre habilitações académicas.

Wong Chi Hong, director da DSAL “Cada agência de emprego pode definir o que vai cobrar aos empregadores e a partir daí fazer uma tabela que estará afixada à porta”

emprego pode definir o que vai cobrar aos empregadores e a partir daí fazer uma tabela que estará afixada à porta”. No caso de denuncia unilateral do contrato de trabalho durante o período experimental e caso não seja concedida a autorização de permanência ao no território ao trabalhador, a agência tem de

proceder à devolução dos honorários pelo menos em metade da totalidade que auferiu. O regime pretende ser um orientação de funcionamento destas empresas e estabelece algumas directrizes obrigatórias. Depois de aprovado, todas as agências têm de ter pelo menos um orientador no serviço de emprego. As habilitação

TRIBUNAIS COUTINHO PEDE REVISÃO DO CÓDIGO DO PROCESSO CIVIL deputado José Pereira Coutinho entregou uma interpelação escrita ao Governo onde questiona o processo de revisão da Lei de Bases da Organização Judiciária. Esse projecto de lei chega à Assembleia Legislativa no próximo ano. “Que princípios jurídicos e disposições legais do Código do Processo Civil vão ser simultaneamente revistos com a Lei de Bases da Organização Judiciária conforme o prometido pelo Governo?”, questionou o deputado, lembrando uma resposta dada pela Direcção dos Serviços para os Assuntos de Justiça (DSAJ) em 2016. Na altura, a directora substituta da DSAJ adiantou que “tendo em conta a conexão [dos dois diplomas], o Governo da RAEM, durante a revisão do Código, não se pode afastar também da necessidade de uma reflexão simultânea da lei na garantia da harmonização e conexão necessária dos dois diplomas, os quais asseguram o pleno funcionamento das instituições”.

O deputado lembrou que está em causa a necessidade de garantir que os titulares dos principais cargos públicos possam ter direito a recurso em tribunal, algo que actualmente não acontece pois são julgados no Tribunal de Última Instância (TUI). José Pereira Coutinho referiu que já em 2011 o Governo reflectia sobre esta matéria. “Uma das alterações previa alterar as competências do Tribunal de Segunda Instância e do TUI para possibilitar o recurso de decisões em que o TUI julga em primeira instância crimes ou contravenções cometidos no exercício de funções pelo Chefe do Executivo, presidente da Assembleia Legislativa e secretários.” Em declarações recentes, a secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, disse que existia a possibilidade de alterar este ponto na lei. Além desta questão, o deputado quer saber também “quando e quais foram as opiniões complementares que foram recolhidas junto dos órgãos judiciais e do sector jurídico constantes na resposta de 2016”. A.S.S.

TIAGO ALCÂNTARA

O

O Governo deixou ainda um pedido aos patrões. “Se precisarem de contratar pessoas de fora, não o façam a título particular e recorram sempre às agências de emprego licenciadas, disse Wong Chi Hong. A sugestão tem como objectivo evitar a contratação de não residentes que estejam em situação de desemprego e, por isso, ilegais. Também as agências de emprego podem sofrer graves sanções com a contratação de trabalhadores nestas circunstâncias. Foi deixado outro alerta para a tentativa de cobranças acima das legisladas. A situação é “proibida de forma clara”, disse o porta voz do CE. O director da DSAL esclareceu ainda que as denuncias recebidas pelos serviços, um total de 40, não tiveram nada que ver com honorários excessivos, mas sim com situações de emprego a pessoas que estavam ilegais no território. De acordo com Wong Chi Hong, até Outubro deste ano estavam em funcionamento 148 agências de emprego em que quatro tinham serviços gratuitos. Sofia Margarida Mota Sofia.mota@gmail.com

SALÁRIOS PODER DO POVO PEDIU AUMENTOS NA SANDS

A

Associação Poder do Povo apresentou ontem uma carta junto da operadora de jogo Sands China a pedir um aumento salarial para os funcionários entre seis a dez por cento. O vice-presidente da Poder do Povo, Cheong Weng Fat, entende que este ano a economia de Macau voltou a melhorar, tendo-se verificado um aumento das receitas do jogo na ordem dos 20 por cento. Tendo em conta estes dados, o vice-presidente exige que a Sands China distribua ordenados mais elevados aos seus funcionários, assim como um bónus extra para que se possa partilhar o fruto do desenvolvimento de Macau e manter a moral dos trabalhadores. O responsável justifica a ideia do aumento salarial

com a elevada inflação. Além disso, espera que o Governo fiscalize as actividades do sector da restauração, por este sector anunciar todos os anos, depois da passagem do ano, um aumento nos preços dos produtos. Para isso, quer intervenção do Governo para controlar os preços cobrados junto dos consumidores, a fim de atenuar a sua pressão económica. Cheong Weng Fat acrescentou que a ideia de entregar uma carta apenas à Sands China é porque a empresa registou mais lucros comparativamente com as outras operadoras de jogo. No entanto, espera que as outras concessionárias de jogo também atribuam aumentos salariais, para se conseguir partilhar o fruto do desenvolvimento económico. V.N.


8 sociedade

Depois da polémica levantada por uma reportagem de Hong Kong acerca das condições de vida no Bairro das Missões, as opiniões acerca do que fazer com os terrenos divergem. Ng Kuok Cheong apela ao Executivo que recupere a terra, mas o advogado Chio Song Meng argumenta que sendo propriedade privada não será fácil ao Governo ter acesso ao terreno

29.12.2017 sexta-feira

BAIRRO DAS MISSÕES DEVOLUÇÃO DE TERRENO AO GOVERNO É DISCUTIDA

Terreno da discórdia

O

deputado Ng Kuok Cheong sugere que os terrenos onde está situado o Bairro das Missões possam ser recuperados pelo Executivo. Para o tribuno a situação é clara e tem como objectivo proceder ao planeamento daquela zona de modo a que seja reabilitada. A ideia surge após a polémica reportagem feita em Hong Kong que alertava para as condições de vida precárias de quem vive no Bairro das Missões. Em declarações ao Jornal do Cidadão, Ng Kuok Cheong alega que aqueles terrenos têm sido ignorados pelo Executivo. O deputado recorda que quando há anos foi falado o projecto que daria origem às 19 mil fracções de habitação social, o Bairro das Missões tinha sido apontado como uma possibilidade, mas o Governo não considerou os terrenos em causa. A razão apontada na altura tinha que ver com o evitar a polémica na medida em que se tratariam de casas sociais situadas perto de uma prisão. Por outro lado, o deputado está preocupado com a possibilidade de conflitos se o Governo resolver in-

vestir fundos públicos naquela área sem antes reaver os terrenos. Para Ng Kuok Cheong os problemas são inevitáveis porque seria uma acção que iria beneficiar pessoas que, na sua maioria, não são de Macau. Ng Kuok Cheong argumenta ainda que as obras públicas não devem manter-se “escondidas” e devem actuar visto terem poder para reclamar o terreno em causa. Mais, para o deputado, até a organização de cariz religioso que neste momento também ocupa o Bairro das Missões já se mostrou aberta à hipótese. No entanto, admite, só num próximo mandato do

O deputado está preocupado com a possibilidade de conflitos se o Governo resolver investir fundos públicos naquela área sem antes reaver os terrenos. Governo é que a iniciativa pode ser concretizada.

RECUPERAÇÕES IMPOSSÍVEIS?

Já o advogado Chio Song Meng refere que a aquisição do terreno do bairro das Missões pelo Governo não será tarefa fácil por se tratar de um terreno privado. Para Chio Song Meng, os terrenos que albergam o bairro

são fruto de um contrato de longa duração com os proprietários. Por isso, o Executivo não poderá, com facilidade, pedir para que sejam devolvidos. Mas, diz ainda o advogado também ao Jornal do Cidadão, as autoridades podem ter iniciativas para alterar aquelas estruturas, nomeadamente para demolir as instalações ilegais que estão neste

momento a ocupar os terrenos. “Tratam-se de construções ilegais e prédios que podem mesmo considerar-se perigosos e de risco para a segurança pública” argumenta Chio Song Meng. No entanto, se as demolições acontecerem “o terreno continua ser da organização concessionária, a não ser que, pelo interesse público, a concessionária devolva o terreno ao Governo”, lê-se no jornal. Ainda assim, o advogado sugere que o Governo entre em contacto com os proprietários para tentar negociar o futuro do terreno no Bairro das Missões.


sociedade 9

Segurança Videovigilância na Praça de Jorge Álvares entra em funcionamento

O sistema de videovigilância na intersecção da Praça de Jorge Álvares com a Avenida Doutor Mário Soares entrou hoje em funcionamento. O equipamento destinase a fiscalizar estacionamento ilegal de veículos e manter a ordem do trânsito, segundo informação dada pela Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT). No mesmo comunicado, a DSAT recorda que, de acordo com a lei do trânsito rodoviário, os condutores incorram em comportamentos que impeçam a ordem do trânsito como paragem e estacionamento ilegais de veículos nas estradas, podem ser sujeitos à aplicação de multas de valores entre 300 e 600 patacas.

GONÇALO LOBO PINHEIRO

sexta-feira 29.12.2017

Anúncio O Pedido do Projecto de Apoio Financeiro do FDCT para à 1ª vez do ano 2018 (1) Fins

CONSULTADORIA GOVERNO PAGA 40 MILHÕES PARA MOSTRAR O TURISMO DE MACAU

O

Executivo investiu cerca de 40 milhões de patacas em contratos de prestação de serviços assinados com empresas consultoras para tratarem da representação do turismo de Macau em vários países. Segundo vários despachos publicados esta quarta-feira em Boletim Oficial (BO), a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) associou-se a diversas empresas de consultadoria em países

que serão responsáveis por promover o turismo local junto de potenciais visitantes. O investimento foi maior em Hong Kong, território de onde vêm uma grande fatia dos turistas que Macau recebe. A empresa de consultadoria responsável recebe do Governo um total de 7,6 milhões de patacas. Segue-se a Coreia do Sul, outro país de origem da grande parte dos turistas de Macau. A Glocom

Korea Inc vai receber 5,9 milhões de patacas nos próximos dois anos. Segue-se Taiwan, também um importante mercado para Macau, cuja empresa de consultadoria vai receber um total de 3,5 milhões de patacas. Seguem-se investimentos em países como a Rússia, Austrália, Nova Zelândia, Malásia, Japão, Reino Unido, Tailândia e Índia. Todos os montantes serão pagos até 2019.

AUTO-SILOS FORAM ADMITIDAS 8 DAS 9 PROPOSTAS A CONCURSO

F

ORAM recebidas nove propostas para o concurso público para a gestão de cinco auto-silos locais. Os montantes vão das 1.18 e as 3.98 milhões de patacas e as estruturas em causa oAuto-Silo do Edifício da Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego, o Auto-Silo do Edifício Fai Fu, do Auto-Silo do Lido, o Auto-Silo do Terminal Marítimo de Passageiros da Taipa e o Auto-Silo do Edifício do Lago”, da Direcção dos Serviços para osAssuntos de Tráfego (DSAT). No acto público realizado ontem 8 propostas foram

admitidas e uma ficou de fora. O concurso tem como critérios de apreciação, o valor de contrapartida de referência proposto, o compromisso assumido do concorrente pelo cumprimento do programa de gestão e exploração dos parques de estacionamento, o plano de investimento para fornecimento e instalação de equipamentos e instalações (hardware), e a experiência do concorrente no âmbito da gestão e exploração de auto-silos. De acordo com a DSAT, a adjudicação tem um prazo de seis anos.

O FDCT foi estabelecido por Regulamento Administrativo nº14/2004 da RAEM, publicado no B. O. N° 19 de 10 de Maio, e está sujeito a tutela do Chefe do Executivo. O FDCT visa a concessão de apoio financeiro ao ensino, investigação e a realização de projectos no quadro dos objectivos da política das ciências e da tecnologia da RAEM. (2) Alvos de Patrocínio (i)

Universidades, instituições de ensino superior locais, seus institutos e centros de investigação e desenvolvimento (I&D);

(ii) Laboratórios e outras entidades da RAEM vocacionados para actividades de I&D científico e tecnológico; (iii) Instituições privadas locais, sem fins lucrativos; (iv) Empresários e empresas comerciais, registadas na RAEM, com actividades de I&D; (v) Investigadores que desenvolvem actividades de I&D na RAEM. (3) Projecto de Apoio Financeiro (i)

Que contribuam para a generalização e o aprofundamento do conhecimento científico e tecnológico;

(ii) Que contribuam para elevar a produtividade e reforçar a competitividade das empresas; (iii) Que sejam inovadores no âmbito do desenvolvimento industrial; (iv) Que contribuam para fomentar uma cultura e um ambiente propícios à inovação e ao desenvolvimento das ciências e da tecnologia; (v) Que promovam a transferência de ciências e da tecnologia, considerados prioritários para o desenvolvimento social e económico; (vi) Pedidos de patentes. (4) Valor de Apoio Financeiro (1) Igual ou inferior quinhentos mil patacas. (MOP$500.000,00) (2) Superior a quinhentos mil patacas. (MOP$500.000,00) (5) Data do Pedido Alínea (1) do número anterior Todo o ano Alínea (2) do número anterior A partir do dia 2 até 15 de Janeiro de 2018

(O próximo pedido será realizado no dia 2 ao 15 de Maio de 2018)

(6) Forma do Pedido Devolvido o Boletim de Inscrição e os dados de instrução mencionados no Art° 6 do Chefe do Executivo nº 273 /2004,《Regulamento da Concessão de Apoio Financeiro》, publicado no B. O. N° 47 de 22 de Nov., para o FDCT. Endereço do escritória: Avenida do Infante D. Henrique N.º 43-53A, Edf. “The Macau Square ”, 11.º andar K, Macau. Para informações: tel. 28788777; website: www.fdct.gov.mo. (7) Condições de Autorizações Por despacho do Chefe do Executivo nº 273 /2004, processa o «Regulamento da Concessão de Apoio Financeiro».

O Presidente do C. A. do FDCT,

Ma Chi Ngai

2017 / 12 / 29


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29.12.2017 sexta-feira

Máquina de lavar Macau referido como local de lavagem de dinheiro em caso de tráfico de droga

O

jornal espanhol El Progresso refere que Macau foi um dos destinos para lavagem de dinheiro de um cartel de tráfico de droga que operava em Lugo, na Galiza. De acordo com o artigo, a RAEM foi um dos sítios assinalados quando a investigação criminal seguiu o rasto do dinheiro da organização criminosa, assim como Andorra, Suíça, Bahamas e Luxemburgo. Dessa forma, o Tribunal de Instrução dirigido pela juiz Pilar de Lara conseguiu encontrar e congelar várias contas bancárias que era usadas para lavar os lucros do cartel de droga nos territórios mencionados, incluindo Macau. É de salientar que no artigo do El Progresso os locais são designados como paraísos fiscais. No total, foram congeladas cerca de 57.3 milhões de patacas e apreendidos vários veículos, assim como apartamentos e 40 propriedades em Lugo, Astúrias e Marbelha. Com base no artigo do El Progresso, os suspeitos usavam múltiplas contas bancárias para lavar dinheiro através da criação de uma

rede de empresas offshore. Entre os vários suspeitos sob investigação contam-se cúmplices que alegadamente criaram companhias com o propósito de esconder e disseminar os rendimentos do tráfico de droga. As actividades da rede começaram a levantar suspeitas das autoridades depois de bizarros “golpes de sorte” da ex-mulher do chefe da quadrilha. A bem aventurada senhora entre 1996 e 2015 declarou aproximadamente 3,8 milhões de patacas de rendimentos provenientes de vários prémios de lotarias. As autoridades espanholas suspeitaram da elevada improbabilidade destes casos e teceram a hipótese de que por detrás da extrema sorte estar um esquema de compra de bilhetes premiados de lotaria. Fontes citadas no processo frisaram que a investigação começou em 2014, envolvendo escutas telefónicas entre outros métodos de vigilância. Na sequência dos indícios apurados, foram detidos vários suspeitos e confrontados com o que a investigação havia encontrado, nomeadamente as actividade

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A ADM deseja a todos um feliz e próspero Ano Novo

das mais de uma dúzia de empresas sediadas em vários territórios, incluindo em Macau. O artigo do jornal espanhol contextualiza que o alegado cabecilha da organização criminosa tinha antecedentes criminais em tráfico de tabaco desde os anos 1980, mas que com o tempo o foco da organização mudou para a heroína e cocaína. J.L.

ECONOMIA COMÉRCIO EXTERNO CRESCEU NOS PRIMEIROS 11 MESES

O

comércio externo de Macau subiu 6,1 por cento nos primeiros 11 meses do ano, em termos anuais homólogos, atingindo 78,36 mil milhões de patacas, indicam dados oficiais hoje divulgados. Segundo a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), entre Janeiro e Novembro, Macau exportou bens avaliados em 10,38 mil milhões de patacas, mais 11,7 por cento. A Região Administrativa Especial de Macau importou produtos avaliados em 67,98 mil milhões de patacas, ou seja, mais 5,3 por cento em termos anuais homólogos. Por conseguinte, o défice da balança comercial nos primeiros 11 meses do ano atingiu 57,60 mil milhões de patacas, traduzindo um agravamento de 4,2 por cento em termos anuais homólogos. Em termos de mercados, as exportações para a China totalizaram 1,96 mil milhões de patacas, reflectindo uma subida de 21,5 por cento rela-

tivamente a igual período do ano transacto. As vendas para Hong Kong (6,07 mil milhões de patacas), para a União Europeia (175 milhões de patacas) e para os Estados Unidos (174 milhões de patacas) subiram 17,9, 5,9 e 17,8 por cento, respectivamente, em termos anuais homólogos. As exportações para os países de língua portuguesa cifraram-se em 700 mil patacas, traduzindo um tombo de 88,2 por cento em relação ao período homólogo de 2016. Já do lado das importações, Macau comprou à China produtos no valor de 22,74 mil milhões de patacas nos primeiros 11 meses do ano, ou seja, menos 4,1 por cento em termos anuais homólogos. A mesma tendência foi verificada nas importações de mercadorias dos países de língua portuguesa (589 milhões de patacas) que diminuíram 3 por cento. Em sentido inverso, as compras à UE (17,27 mil milhões de patacas) aumentaram 12,9 por cento.


sociedade 11

sexta-feira 29.12.2017

LEI DO TABAGISMO ENTRA EM VIGOR NO INÍCIO DE 2018

A

APOIO SOCIAL ANIMA PRECISA DE UM MILHÃO PARA DESPESAS CORRENTES

Instinto de sobrevivência Albano Martins assegura que o mais recente donativo da Galaxy, no valor de 300 mil patacas, serviu apenas para garantir o pagamento de despesas de funcionamento e tratamento dos animais. A ANIMA precisa de um milhão para as despesas dos dois últimos meses deste ano

A

Sociedade Protectora dos Animais de Macau – ANIMA necessita de um milhão de patacas nos próximos dias para conseguir suportar as despesas do dia-a-dia. A garantia foi dada ao HM pelo seu presidente, Albano Martins, quando questionado sobre os fins de um donativo de 300 mil patacas atribuído pela Galaxy. “Esse dinheiro já foi gasto. No final deste ano, de Outubro a Dezembro, a ANIMA precisa desesperadamente de cerca de um milhão de patacas. Há alguém que está a emprestar dinheiro à ANIMA para conseguir sobreviver nos meses de Novembro e Dezembro.” Albano Martins garante que tratar dos gatos e cães abandonados custa,

por mês, cerca de 600 mil patacas. “Não conseguimos convencer a Fundação Macau a aumentar o nosso subsídio, que se manteve igual ao do ano passado, nas 3,5 milhões de patacas. Chegámos ao final do ano cheio de despesas e com muitos animais abandonados. Temos um défice de tesouraria à volta de um milhão de patacas e teremos de arranjar esse dinheiro rapidamente, pois terá de ser pago no próximo ano.” O presidente da ANIMA lembrou que, apesar da nova lei de protecção dos animais ter entrado em vigor, o número de animais que chegam todos os dias ao abrigo que a associação tem em Coloane não diminuiu. “Todos os anos empurramos com o estômago para a frente a

dívida do ano anterior. No ano seguinte conseguimos pagá-la. O volume de trabalho da ANIMA tem aumentado. Embora a lei possa ter reduzido o número de animais, nós continuamos a ter mais.” O facto da ANIMA ter despesas com os animais faz com que não tenha mais dinheiro para recrutar pessoas, tal como um veterinário. Isso leva a despesas adicionais com clínicas veterinárias. “Tivemos um aumento brutal da nossa actividade. Nós este ano vamos ter quase dez mil cães abandonados, mais de 130 associações e escolas a irem à ANIMA para estarem connosco e isso obriga

“Temos um défice de tesouraria à volta de um milhão de patacas e teremos de arranjar esse dinheiro rapidamente, pois terá de ser pago no próximo ano.”

a que tenhamos pessoas para as receber, e temos de ter cuidado. Neste sentido continuamos com o eterno problema de quereremos mais pessoal para aumentar a segurança do abrigo, embora nunca tenhamos tido nenhum acidente com as escolas.”

OPERADORAS AJUDARAM

A passagem do tufão Hato pelo território levou à destruição de parte dos abrigos onde estão os animais, mas graças ao apoio financeiro da Galaxy e Venetian foi possível à ANIMA chegar ao final do ano com o défice de contas habitual. “Estaríamos muito pior se o Galaxy e o Venetian, mas sobretudo o Venetian, não nos tivessem apoiado na recuperação dos abrigos. Embora o Venetian tenha reduzido o seu apoio financeiro, assumiu mais de um milhão de patacas da recuperação dos dois abrigos. O Galaxy assumiu cerca de 300 mil patacas. Sem isso teríamos um desequilíbrio colossal”, concluiu Albano Martins. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

ALBANO MARTINS PRESIDENTE DA ANIMA

NO novo, lei nova. No próximo dia 1 de Janeiro entra em vigor a nova legislação de controlo do tabagismo. O diploma irá trazer novas restrições para os fumadores aumentando as áreas onde é proibido fumar e a proibição de consumo de tabaco em recintos fechados de todos os estabelecimentos, com as muito discutidas excepções das salas de fumo dos casinos e aeroporto. Em simultâneo foram pintadas marcas nos passeios a 10 metros de distância das praças de táxis e paragens de autocarro para sinalizar áreas onde não se pode fumar. Será também proibida a venda de cigarros electrónicos, enquanto que no campo punitivo a multa para quem infringe estas proibições passar para 1500 patacas. Outra da alteração, que já se regista ainda antes da entrada em vigor da lei é a exposição limitada de produtos de tabaco posto à venda e que se pode já constatar em alguns postos de venda da cidade. A partir de 1 de Janeiro será proibido o comércio de produtos de tabaco em vários locais onde antes era permitido. De forma a preparar a implementação da lei, o director dos Serviços de Saúde, Lei Chin Ion e o coordenador do Gabinete para a Prevenção e Controlo do Tabagismo, Tang Chi Ho visitaram a Associação Geral dos Operários de Macau, a União Geral das Associações dos Moradores de Macau, a Associação Geral das Mulheres de Macau e a Associação dos Merceeiros e Quinquilheiros de Macau. A ideia por detrás da visita foi divulgar as alterações que a nova lei vai trazer ao quotidiano da cidade e sensibilizar os associados. J.L.

IC BIBLIOTECAS ABERTAS AO DOMINGO E COM HORÁRIO ALARGADO

C

ATORZE bibliotecas sob a égide do Instituto Cultural (IC) passam a estar abertas ao Domingo. Entre estas, quatro bibliotecas, nomeadamente a Biblioteca Central, a Biblioteca

do Patane, a Biblioteca de Wong Ieng Kuan no Jardim da Areia Preta e a Biblioteca da Taipa, irão prolongar o seu horário de abertura até à meia-noite, passando a estar abertas à segunda-feira das

14h às 00h, e de terça-feira a domingo das 08h às 00h, passando ainda a estar abertas todo o ano, à excepção da véspera do Ano Novo Chinês a partir das 14:00 horas, e do primeiro, segundo e

terceiros dias do Ano Novo Chinês. Nas dependências que passam a estar abertas até à meia-noite, não haverá funcionários das bibliotecas ao serviço entre as 8h e as 8h30 horas e após as 20h

horas, estando apenas ao serviço neste período o pessoal da segurança e limpeza. Durante este período, estas dependências continuam a prestar serviços de leitura e de auto-empréstimo de

livros, mas algumas zonas estarão encerradas ao público, tais como a zona de leitura infantil, a zona multimédia e a zona de leitura de materiais sobre Macau.


12 ENTREVISTA

FERNANDO SOBRAL AUTOR DE “O SILÊNCIO DOS CÉUS”

“A obesidade da riq Esta não é a primeira vez que se debruça sobre o Oriente. Porque decidiu voltar a escrever um romance passado nesta zona do mundo? O Oriente é a minha estrela polar. Guia-me, há muito. E, talvez por isso, alguns dos meus livros têm a ver directamente com esse mundo, para mim fascinante. Foi o que sucedeu com “O Navio do Ópio”, com “O segredo do Hidroavião” e, agora, com este “O silêncio dos Céus”. Todos estes têm a ver com Macau, mas reflectem a relação dos portugueses com um império flutuante onde estiveram perto de se tornar deuses, como queria adivinhar Camões. Este fascínio tem a ver com o esquecimento a que PUB

Lisboa votou, por exemplo, Macau, mas não só. E que só nos derradeiros anos de administração portuguesa se tentou remediar à velocidade da luz. Mas os séculos, o cansaço da descoberta e a obesidade da riqueza acabaram por trair os portugueses. Perderam as ligações comerciais e culturais com este enorme mundo que vai das margens do Mediterrâneo até aos mares da China. E, sobretudo, desprezaram a curiosidade. O sonho de pertencer à Europa, criada para garantir a paz e que faz tudo depender da existência de uma moeda única, fez perder a noção do Atlântico e do Oriente. Esquecemos Macau. E nos meus livros pretendo, modestamente, lançar pontes para recuperarmos uma ligação memorial. Será uma pena não aproveitarmos este rico património para a nossa ficção. Por isso voltei, com este romance, a Macau. E espero voltar mais vezes. O livro refere-se a um período específico da história de Macau. Porque decidiu abordar a época da Guerra do Ópio? A Guerra do Ópio, a primeira, é apenas um pano de mundo. Para situar a decadência em que vivia Macau, sobretudo depois dos sonhos expansionistas, ligados ao comércio, do Ouvidor Miguel de Arriaga. Com a Guerra do Ópio acaba o tempo do império chinês, o centro do mundo, e estabelece-se o reinado britânico, fruto da Revolução Industrial e da lei da canhoneira. E Portugal, finalmente, percebe, na pele, que é apenas um império para consumo próprio. “O Silêncio dos Céus” nasce disso: face ao poder britânico, ao esquecimento de Lisboa, criei uma ficção onde se sonha com a independência de Macau. Mas que não é mais do que um canto do cisne de quem apenas quer sobreviver. Como sempre fizeram os portugueses na Ásia, na África ou nas Américas. Ou em Portugal. As seitas representam, ainda hoje, uma temática misteriosa e fascinante?

MIGUEL BALTAZAR

No novo romance do jornalista Fernando Sobral, com a chancela da Livros do Oriente, um homem, Diogo Inácio, sonha com a independência de Macau em relação ao reino português, enquanto deambula pelas ruas húmidas em busca da vingança pela mulher portuguesa que o deixou. Por entre histórias de seitas e de homens perdidos, viciados em ópio, o livro é também o retrato da sociedade de Macau no século XIX

As seitas, ou as tríades, são sempre uma fonte de mistério. Até porque nelas encontramos as sementes das sociedades secretas ocidentais. Mas as sociedades secretas chinesas trazem-nos também algo de épico, por causa das suas ligações políticas. E da sua presença constante em momentos determinantes da história chinesa.

“Macau está cheia de histórias por contar. Gostava de poder contar ainda algumas que tenho guardadas à espera de as poder escrever de forma ficcionada.” Como foi o processo de pesquisa histórica para este livro? Não foi muito diferente do que tenho seguido para outros livros cujo epicentro é Macau.

Muita leitura de documentação histórica e a sua utilização num contexto ficcional. Neste caso até há menos utilização de muita memória, ao contrário do que sucedeu no caso de “O Segredo do Hidroavião”, passado após a II Guerra Mundial, e onde era preciso perceber bem os contornos do tráfico de ouro em Macau. Um dos personagens, Diogo Inácio, deseja a independência de Macau em relação ao reino. Esta foi uma tomada de posição da sua parte, uma tentativa de imaginar uma nova versão dos acontecimentos? A ideia da luta pela independência é completamente ficção. Situo-a como um sonho, quase leviano, no meio da cobiça das grandes potências pelo domínio do comércio com a China e onde Macau se arriscava a passar a ser irrelevante. Tem a ver com a necessidade de sobrevivência dos portugueses, como sempre, face a acontecimentos que não podem dominar. E onde se refugiam no destino, como


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queza traiu os portugueses” acontece muitas vezes. Basta ver que a conspiração para a independência é tipicamente portuguesa: fala-se muito, mas no momento da verdade pouco se fez. E aquilo desmorona-se por falta de estratégia e de organização. É um sonho. Bonito. Mas só isso. Ao ler o livro não deixei de notar que certas passagens sobre o comportamento da sociedade e da comunidade portuguesa da altura ainda se mantém actualmente. Concorda? O livro pretende ser esse retrato social de um território peculiar? É impossível falar de Macau sem colocar um espelho defronte da sua face. E dos que aqui têm vivido. Falar PUB

de Macau é falar dos que ali vivem ou viveram. Dos seus sonhos, medos, pesadelos e, sobretudo, formas de sobrevivência. Há muitas referências ao Confucionismo. Identifica-se com esta forma de pensamento? Há muitas referências ao Confucionismo, como não poderia deixar de ser, porque é um pensamento muito hegemónico na China. Mas isso não quer dizer que me retrato nele. Ele faz parte de um mundo cultural que me apaixona, mas que vai de Confúcio a Sun Tzu, de Mozi ao Lao Tzé, ao livro dos ensinamentos do Imperador Amarelo ou ao cinema de Zhang Yimou ou à posia Tang.

“Basta ver que a conspiração para a independência é tipicamente portuguesa: falase muito, mas no momento da verdade pouco se fez. E aquilo desmorona-se por falta de estratégia e de organização.”

No fundo o que para mim é mais relevante culturalmente é a essência do pensamento oriental que nos mostra que

a vida é cíclica, como eu acredito que seja, enquanto o pensamento ocidental é linear, vendo tudo como um início, um meio e um fim. E isso é determinante para a forma como encaramos a vida e o nosso posicionamento nela. Aí sou mais oriental do que ocidental. E talvez seja isso que me leva também a ter um fascínio tão grande pela Ásia e por Macau. Considera que há ainda muitas histórias de Macau ainda por contar? Que projectos para romances tem, a seguir ao lançamento de “O Silêncio dos Céus”? Macau está cheia de histórias por contar. Gostava de poder contar ainda algumas que

tenho guardadas à espera de as poder escrever de forma ficcionada. Mas, para já, a seguir a “O Silêncio dos Céus”, estou a terminar um policial passado nos nossos dias em Lisboa, mas onde uma das personagens vem de Macau. Deve sair no primeiro semestre de 2018. Depois é muito provável que volte aos mistérios e maravilhas de Macau. Como é que a literatura sobre Macau é encarada em Portugal? Há um distanciamento, passa despercebida ou, pelo contrário, há interesse e curiosidade? Acho que há curiosidade. Mas também penso que na pobreza cultural que é hegemónica em Lisboa dá-se mais atenção a

um escritor menor que vem dos Estados Unidos do que a quem escreve em, ou sobre, Macau (ou Goa, ou outra região oriental onde esteve a cultura portuguesa). Lisboa é uma aldeia onde vários Clubes do Bolinha vivem a sua pacata insignificância. E não têm curiosidade por nada que fuja à sua zona de influência. É aqui que acho que Macau poderia ser o centro de uma nova onda da literatura de língua portuguesa. Uma fonte de juventude, de rejuvenescimento. De liderança e de ruptura. Espero que possa ser. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


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CHRYSLER RECOLHE 19.000 VEÍCULOS

NOVA AUTO-ESTRADA JUNTO AO RIO AMARELO

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• Uma auto-estrada recém-inaugurada de 828,5 quilómetros de extensão na província de Shaanxi, no noroeste da China, que atravessa o rio Amarelo, abriu ao tráfego na segunda-feira. A rodovia atravessa de norte a sul a província de Shaanxi e

deverá desempenhar um papel positivo na promoção do turismo local da província e da conservação ecológica. A um custo de 6,9 mil milhões de yuans, a auto-estrada passa por 12 distritos e municípios e beneficiará mais de 2 milhões de pessoas.

fabricante norte-americano Chrysler chamou para revisão 19.572 veículos na China devido a falhas no ‘airbag’, informaram as autoridades de controlo de qualidade do país. Os veículos implicados são dos modelos todo-o-terreno Jeep Wrangler e Chrysler 300c, fabricados entre 2004 e 2012, indicou a Administração Geral de Supervisão

da Qualidade, Inspecção e Quarentena. Alguns destes veículos podem apresentar defeitos no ‘airbag’ do co-piloto, com risco de que o dispositivo de segurança insuflável - produzido pela empresa japonesa Takata – expluda ao abrir e lance objectos pequenos sob a forma de estilhaços contra os ocupantes do carro. Este problema, que poderá

afectar cerca de 20 milhões de veículos na China, onde alguns foram revistos em operações anteriores, esteve relacionado com acidentes mortais ocorridos em vários países, nos últimos anos. A Chrysler comprometeu-se a trocar os ‘airbags’ defeituosos sem encargos para os proprietários dos veículos afectados.

HONG KONG PEQUIM APROVA CONTROLO CHINÊS EM LIGAÇÃO DE ALTA VELOCIDADE

O comboio apitou três vezes

A Assembleia Nacional da China aprovou o controlo de segurança chinês na ligação de alta velocidade em Hong Kong. Esta está a ser vista como mais uma prova da interferência chinesa em Hong Kong.

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A Xinhua informou que o órgão legislativo chinês ratificou o acordo firmado a 18 de Novembro entre o governo de Hong Kong e a vizinha província chinesa de Cantão, pelo que haverá controlo de passaportes e aduaneiros na estação de Kowloon Oeste, de onde vão partir comboios com destino à China. Até agora, a rede ferroviária chinesa chega até à fronteira, de facto, entre a China e Hong Kong, na cidade de Shenzhen, mas a nova linha de comboios de alta velocidade entre Cantão e a antiga colónia britânica, com paragem na referida estação da península de Kowloon, vai mudar esta situação.

Assembleia Nacional Popular da China aprovou a presença de controlos de segurança chineses na primeira estação ferroviária de comboios de alta velocidade em Hong Kong, noticiou esta quinta-feira a agência oficial chinesa Xinhua. Esta decisão esteve rodeada de polémica, já que na ex-colónia britânica é vista como mais uma demonstração da interferência de Pequim no território, que constitui uma das duas regiões administrativas especiais chinesas, a par de Macau.

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comando da polícia armada será transferido do Conselho de Estado para o Comité Central do Partido Comunista da China (PCC) e à Comissão Militar Central a partir de 1 de Janeiro de 2018, de acordo com o Comité Central do PCC nesta quarta-feira. A transferência está de acordo com a Constituição, disse nesta quinta-feira o Diário do Povo em editorial.

Também vão ser efetuadas inspecções de bagagens e aplicadas medidas de prevenção e quarentena, de acordo com o documento aprovado pela Assembleia Nacional para a nova estação, cuja inauguração deverá acontecer no terceiro trimestre de 2018. Os críticos da alteração legal apontam que este é outro exemplo da redução de autonomia sofrida por Hong Kong em relação à China, e que se tornou especialmente palpável com a perseguição a organizações e activistas opositores do regime comunista. O movimento ‘Occuppy’, também conhecido por ‘Revo-

Armas em boas mãos

Polícia armada será comandada pelo Comité Central do Partido e Comissão Militar Central

“A Constituição estipula que a CMC comande as forças armadas no país”, disse o artigo no jornal oficial do PCC, acrescentando que a polícia armada é sempre parte das forças armadas do país. “A medida fortalecerá o comando absoluto do Partido sobre as

forças armadas e é importante para resolver efectivamente as barreiras sistemáticas e os principais problemas que a polícia armada enfrenta”, de acordo com o editorial. Atransferência não mudará as funções fundamentais da polícia armada, que é responsável principalmente

pelos deveres de guarda, resgate de emergências, combate ao terrorismo e alívio de desastre e defesa, segundo o artigo. A polícia armada não será acoplada ao Exército de Libertação Popular da China, assinalou o jornal. De acordo com um documento emitido pelo Comité Central do

lução dos Guarda-Chuvas’ em 2014, em que milhares de pessoas pediram a eleição democrática do líder do governo de Hong Kong, firmou as bases para uma crescente desconfiança entre os dois territórios, assim como o nascimento de movimentos independentistas, ainda que minoritários, na ex-colónia. A ligação da alta velocidade a Hong Kong vai permitir à cidade, que este ano completou 20 anos desde o retorno à soberania chinesa, ligar-se à rede de comboios rápidos da China, que com mais de 20 mil quilómetros em funcionamento e muitos outros em construção é a maior do mundo.

PCC na quarta-feira, a polícia armada não vai ser comandada pelo Conselho de Estado após a transferência a partir de 1 de Janeiro de 2018. O documento disse que mecanismos de coordenação serão estabelecidos entre as autoridades central e locais e a polícia armada. “Isso ajudará a polícia armada a cumprir as missões na nova era e alcançar comando eficiente”, concluiu o editorial.


ARTES, LETRAS E IDEIAS

a memória é capaz de nos abandonar quando dela mais precisamos e de surgir quando não é invocada tonalidades António de Castro Caeiro

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STAMOS conectados com o mundo. A nossa vida estende-se desde sempre já até ao presente e ao futuro. A ideia que temos de privacidade é complexa. Somos invadidos na nossa própria casa. O nosso passado não mora lá atrás. Nunca ficamos imunes ao que aconteceu. Está sempre à nossa espera. Somos assaltados com as lembranças do passado. Kant chamava-lhe auto-afecção nos escritos do espólio. Sem saber bem como, nem quando, nem onde chegam até nós do passado imagens e cenas de memórias antigas, inaugurais. Pode ser uma fragrância. Pode ser um sentimento que nasce de novo em nós não se sabe bem por quê. Não estava a falar da nossa exposição a nós próprios. A nossa vulnerabilidade é tremenda. Desde sempre estamos expostos à fragilidade do tempo. Podemos seguir em frente e ultrapassar amores perdidos, histórias passadas. A vida infeliz é absolutamente interessante e a solidão é o elemento complexo onde há telepatia e canalização para outros mundos, para os mundos dos outros que ficaram no passado, ainda com vidas ou com os mundos dos outros que ficaram vida fora. A trama da nossa existência é feita com as vidas de todas as pessoas que conhecemos, com quem deixamos de falar, mas também com as vidas dos outros que nos deixaram. Sentimos a sua presença. Reagimos às suas vidas interrompidas. Não são meras possibilidades inertes. São realidades. Mas há recantos onde não conseguimos ir. Situo-os no fundo talvez do mar que há em mim. Como quando dizemos “naquela altura” para nos referirmos “àquele tempo”. O acesso ao passado é feito por mergulho, como se nadássemos por cavernas mergulhadas em águas profundas e fossemos como enguias visitar os tesouros que lá se encontram. É sempre escuro e de pouca visibilidade e as memórias são memórias nocturnas de noites de inverno. O que está lá escondido e nunca assoma à superfície são histórias de encontros com pessoas. São épocas de séries de filmes com episódios onde nos encontramos todos nós lá a viver a vida sem saber no que vai dar. Não temos roteiro, não temos itinerário, vivemos hora a hora sem saber como responder à vulnerabilidade e à nossa exposição ao outro. Estou a falar desse único outro que nos fez sair de nós próprios, da nossa redoma, da nossa solidão, da nossa ilha desconectada de tudo. Estou a visar esse outro em nome do qual todas as nossas preces se convertem em súplicas e o seu

10,000 RUNGS OF SOLITUDE, NICO

Um mergulho no abysmo

rosto é o rosto do amor que irradia por toda a nossa vida e transforma metamorfoseando tudo pelo seu olhar. São episódios avulsos em que este outro, o outro, entra. Estão conservados sob um manto gigantesco de água oceânica. O outro está mergulhado no recanto mais recôndito da caverna mais arredada onde ainda chega a água oceânica do tempo. E mergulhamos até lá por vezes. E lá está tudo como se tivesse sido ontem, como a entrega foi tão absoluta que nunca mais nos reavemos. Vivemos devolutos mas nunca inteiramente livres. Nunca ninguém fica livre do amor e tal quer dizer da sua possibilidade seriamente encarada. Não sei se sou eu puxado por águas subterrâneas, correntes subliminares até esses mares escuros onde está mergulhada a minha vida. Não sei se as cenas do passado com todas as suas im-

A vida infeliz é absolutamente interessante e a solidão é o elemento complexo onde há telepatia e canalização para outros mundos

pressões se despregam do local onde estão fechadas a sete chaves e assomam à superfície. Sinto-me sempre embargado e vou sendo puxado para baixo, sem haver nunca senão o precipício sem fundo, o abismo dos abismos. Nunca sei onde fica a superfície porque para onde quer que eu olhe é escuro, não há fundo, nem forma. E vejo um rosto que me olha e um corpo que me toca. Não é já o rosto que encarava próximo do olhar à beira do abraço. É outra coisa. Como aquela tortura de que Aristóteles fala feita pelos piratas etruscos aos seus prisioneiros. Eram unidos rosto como rosto, corpo com corpo, apertados num único abraço com cadáveres. E é assim até ao fim da vida. Os cadáveres são aqueles outros de quem sentimos falta, nunca mais serão substituídos, nunca mais haverá aquele outro. A nossa vida é a solidão descarnada da ferida exposta. Habitualmente aguentamo-nos. Mas, às vezes, vem das profundezas das nossas existências de novo aquele sonho que dormimos acordados. Parece real. Parece possível. E mergulhamos de novo até ao fundo dos tempos.

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António de Castro Caeiro

Somos Contemporâneos do Impossível (Parte III)

Em VASOS DE GUERRA “homens como nós” são descritos como “nascidos do que perdemos/ e ficámos – guardadores de lugares/ calados por dentro”” (55) e em RETRATO PÓSTUMO lê-se “tudo morre, só o nada é/ para sempre” (58). O título MELANCOLIA DA CATÁSTROFE expande o próprio conceito “melancolia”. A ambiguidade da expressão não permite decidir inteiramente se é a catástrofe o objecto da melancolia ou se é o seu sujeito. É o carácter paradoxal da formulação extrema a possibilidade de melancolia. Podíamos, numa primeira aproximação, achar que a melancolia é uma lembrança de bons tempos, de uma doce saudade do que já passou. Mas faz parte da própria melancolia a compreensão de que o pior de tudo por que passamos, com a distância do tempo, fica filtrado de tal maneira que é doce a sua memória. Sentimos saudades do que passamos. Assim também acontece aqui com a catástrofe. A perda da esperança é a perda de “uma cobra esguia o tempo irrelevante para a pedra que cai” (60) A esperança tem vários motivos. Um dos mais poderosos na vida humana é a chegada do outro com quem nos encontramos. Tu que: “representavas a esperança de uma possibilidade de passado o afecto que abre as portas ao comércio na cidade que ainda acredita” (Ibid.) A melancolia é a esperança de uma possibilidade de passado, um passado que é invocável pela memória cognitiva. Podemos até ter documentos e testemunhos desse passado, mas não sabemos regressar a ele sem o esconjurar na vibração modal que nos canaliza para lá, que nos abre o portal de acesso afectivo e emocional para a sua dimensão característica. A possibilidade não havida angustia. Vivemos entre um passado a que não acedemos na sua dimensão modal, vibrante, afectiva, emocional, um presente que é prefigurado por esse haver sido, e um futuro que não admite tal como não admite o passado nem o presente qualquer conteúdo que não o da angústia. “angustiado por essa memória de uma possibilidade de uma só possibilidade, antes de morrer” 60 Em MIMESIS, em face dessa impossibilitação, o outro afinal não apresenta nenhuma abertura, nem representa, na verdade, nada do tudo que primariamente prometia. A esperança do passado é a esperança do presente e a esperança do futuro. O outro dá sentido à vida por representar tudo. Mas o outro, objecto e agente do amor, apenas é visto no que foi, quando já não está connosco, quando é perfil sem conteúdo, horizonte vazio, projectado na, e pela, distância.

“invenção da distância única definição de amor que alguma vez consegui compreender . Uma distância que exprime o tempo irreversível da anulação da própria distância, porquanto a realidade retira todo o carácter onírico ao objecto da falta sentida, do desiderium daquilo mesmo que é a única coisa que quero ter. Quando se aproxima, aproxima-se da realidade e afasta-se da sua impossibilidade onírica, do sonho de amor. A realidade mata todo o amor. e assim te dei por completo e sem forma de desistir” (62) Ou na formulação de DISCRONIA DE UM ENCONTRO: “sentámo-nos na mesa toda iluminada de um só canto acolhidos inesperadamente pela tua silhueta recortada e familiar . mas só te vim a reconhecer muito mais tarde” (63) Só reconhecemos o outro num amor infeliz, perdido, ausente, irrecuperável. Desse amor, não tendo nós a certeza de haver outro, não se recupera, não se fica imune nem incólume a um coração desfeito. Mas simultaneamente há uma diferença entre ter havido esse amor nas nossas vidas e não ter havido esse amor nas nossas vidas, porque não somos os mesmos, apesar de virmos a encontrar-nos na solidão de uma forma mais espessa e com contornos muito mais definidos do que alguma vez conhecemos. A esperança da possibilidade dá um sentido, direcção e orientação, que nos faz ser por aí além. Há futuro escancarado, um futuro que transcende o longo prazo e por maioria de razão o médio e o curto. Este futuro aberto pela esperança é simplesmente possibilitante. A mais completa descrição da melancolia da catástrofe lê-se n’O TERCEIRO PASSO

Uma apresentação

dade é a tangência do fim, a aproximação “inexorável” de quem habita a zona mortal na expectativa iminente de um impacto letal. Agora, não há caminho, quando “havia caminho”, ainda que em tempo discreto, episódico e perecível. O terceiro passo é o passo final, na contagem, o momento do princípio do fim, do desaparecimento. “Só ele tem noção do seu próprio mistério” (68), só ele “tem consciência de nós” (Ibid.). Ou seja, não razão nenhuma para se pensar que só começa a acontecer a partir de determinada altura da vida e não que esteja desde sempre já a acontecer, lá desde o fundo da infância. Ainda que nós não tivéssemos tido noção dele ou não tivéssemos pensado na noção que pudéssemos ter tido dele, é ele que nos tem a nós, que radioscopa e radiografa a nossa vida. Caímos na consciência do fim, porque ela nos é dispensada pelo seu próprio mistério. A configuração deste ser no encaminhamento do desaparecimento não é exclusiva da subjectividade poética, nem é particular ou individual. Constitui o nosso sermos uns com outros. A acção deste ser, a sua particular actividade, que nos implica desde sempre nos outros não é anulável e tem características complexas. Elas estão expostas em SUBROGAÇÃO DAS SOMBRAS: “o predador de sombras é também refém da vida projectada dos outros o estranho que se detém perante a fotografia abandonada que lhe dá e ganha vida enquanto novo sujeito no destino aleatório da contemplação alguns objectos representam a vida no seu sentido adjectivo sendo da mais elementar ciência que a vida é o único absoluto substantivo que não perde a sua qualidade quando tornada objecto perante o homem ilustrador” 72

“dantes não era assim não havia esta proximidade não estávamos lá mas havia caminho um caminho em tempo discreto perecível . o terceiro passo é o que já lá estava do que ficou no fim depois do resto o próprio fim desaparecer não temos consciência dele só ele tem noção do seu próprio mistério e consciência de nós é passo paralelo contínuo impossível nem é possível habitá-lo não é caminho que percorras mas que te percorre a ti como se dele nascesses” (68)

O que temos um do outro dos que são nossos, nos constituem o âmago do nosso ser, sem os quais não seríamos nós, a não ser outros insuspeitados?

A proximidade de que se trata aqui não é o oposto da distância referida há pouco. Esta proximi-

Podemos ser agentes provocadores de fascínio, impressão e encantamento no outro e o outro é

Somos sombras uns para os outros. O que quer dizer que não temos nem relativamente a esses coincidentes connosco acesso à pessoa ou ao si mesmo deles. Temos não apenas a fachada, o rosto e os seus infinitos cambiantes, expressões e jogos faciais, o corpo trabalhado pelo tempo desde a infância até à velhice, os estados de alma, a maneira de ser, o jeito, a forma, a personalidade e tudo isso é ainda sombra perante o abismo do outro quando se converte em mistério. Até quando existe como agente de fascinação e encantamento, o outro é sombra, projecção do exercício do fascinante e do encantamento que se abate sobre mim.

o sujeito metamorfoseado no seu interior. Mas nas possibilidades extremas da fraternidade, da amizade, da filiação e da paternidade, nos mais diversos graus de parentesco, há sempre esta projecção de nós sobre os outros e dos outros sobre nós a maquilhar as personalidades, os protagonistas, destas afecções. Tudo não é senão qualidades, modificações, alterações, transformações da vida em nós. É a vida de que somos portadores quem é o grande protagonista, o destino, a sorte, o sujeito dos sujeitos do próprio e do outro, da intersubjectividade contemporânea e entre gerações. Este mega sujeito produz sujeitos e, neles, a consistência permanente do tempo sequencial, transitório, irreversível da passagem. “talvez a repetição seja a nossa grande criação” 86-87 IV CORPO EM QUEDA, a identificação da dificuldade de ser, quando não se aguenta, não se é capaz e não pode, projecta outras possibilidades ou então somente a possiblidade de não ser impossível. Mas o que une as sombras substitutas é a sua relação recíproca de sub-rogação e cada um é substituto de si próprio e há substitutos dos outros para o próprio. “escapar, apenas para descobrir que a sua verdadeira prisão é a impossibilidade de regressar” 136 Na odisseia que é a descoberta de si, de onde se zarpa e onde ser aporta, como “loci” da poesia dependem da viagem. Uma viagem nunca é uma deslocação no espaço. Podemos também nunca sair de uma mesma localidade e sermos no fim da vida mutantes do que fomos no princípio. “na invenção da distância a morte foi disparada à nascença para se percorrer em várias direcções ao mesmo tempo fio e caminho tenso esticado vibrando toda no rombo do passo” (126) Um dos riscos corridos na odisseia que depende da abertura do próprio horizonte de sentido ou, antes, do origem e fonte do próprio sentido, é a descoberta da totalidade a perder de vista da essência das coisas (DE RERUM NATURA ) “comecei por escrever o que se passava comigo e terminei a escrever o que não se passava uma forma de descobrir a verdade onde ela já não existia (142) Conhecer-se a si próprio é a realização do poema escrito como descrição da antecipação e invenção da possibilidade ou da sobrevivência à impossibilidade. A única vida possível é a acrobacia sobre um arame que está a ser tramado e esticado e ao mesmo tempo percorrido. A vida é assim, sempre, a descrição do fecho, da impossibilidade de regresso à infância onde localizamos temporalmente quem fomos no princípio e com a possibilidade que o princípio oferece. Agora, a vida dá a compreender o fecho ao presente e ao futuro. Neles só nos instalamos extaticamente na dimensão do tempo dimensionado no sonho. O poema é o produto do sentido, da conotação, do significado. Eu convertido em conteúdo de poema sob pena de não obter compreensão para mim. A verdade é produzida pelo sentido e não é um facto, ainda que se faça a experiência da não anulabilidade desta experiência de sentido. A verdade só vibra na melancolia da catástrofe. “não antecipei a tua morte sou eu


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aquele que devia ter desaparecido e não tu” (145) Será sempre a vida abortada por ausência de outrem? O ostracismo é o sentido ao pé da letra da navegação figurada. Não se sai de onde se está, ainda que nos possamos deslocar no espaço. Nunca se regressa, porque somos diferentes e os outros e os sítios distinguem-se pela metamorfose do tempo. E se nunca sairmos do mesmo sítio, a imobilidade transmuta-nos, ainda. A motivação é uma ânsia pela eterna saciedade, uma saciedade indeterminada quanto ao seu conteúdo ou nunca satisfeita com o mesmo conteúdo nem com a sua própria variação. “navego pela eterna saciedade não há lugar no mundo que me chegue apenas a profundidade implacável de um movimento inexistente” (120) O movimento descrito não é uma deslocação espacial. É óbvio. É um ir. Um ir na demanda, em frente. Coincide com movimentos de rotação e translação, o percurso dos astros no cosmos, o cosmos no universo, a passagem das horas e dos dias, a passagem das estações do ano e a transfiguração que operam nas “costas da terra”. O único eixo do movimento certa tudo: “as constelações das coisas”: “tudo anda em frente um único eixo de movimento gera as constelações das coisas e do vento só existe presente só um campo corre pelo rio” (125) A inexorável caminhada em demanda pela saciedade da fome que constitui o humano compreende a possibilidade que a morte traz como sossego ou ainda como a antecipação misteriosa que se projecta além da vida, como espera pela próxima fome: no fim a vida foi só isto: esperar pela próxima fome 121 De nada em nada, de falta que se fez sentir em falta que se faz sentir, projecta-se o ser da ausência. A presença da ausência é o ponto de fuga da existência. Só se sente a substituição da miséria, precariedade, precisão, necessidade. Numa situação de insatisfação, na inquietude complexa da relação de si consigo e de si com outrem, a vida não assenta bem. A ânsia pode ter como objecto outros percursos existenciais, outras biografias, com outros personagens, outras vidas, outros próprios. A vibração que se constitui não é já a de uma hipertrofia que resulta do nosso lance de antemão para uma versão cada vez mais melhorada de nós próprios, uma optimização superlativa do que é já a forma do nosso encaminhamento. Faz parte desta outra ânsia complexa ser outro, porque não somos como gostávamos de ter sido e acabamos por nunca ter vindo a ser como gostaríamos de ter sido. O mesmo é dizer gostaríamos que a vida no seu ser a ser fosse radicalmente diferente daquela que é. Ou na formulação da primeira forma da sabedoria de Sileno: o melhor de tudo era acabar já. Ou, talvez, ainda de forma mais extrema, na segunda forma da sabedoria de Sileno: o melhor era nunca ter vindo a ser (Sófocles, Nietzsche). “queria ser outro o homem do futuro talvez morar nas tuas mãos, tanto que fomos ah, tanto que somos contemporâneos do impossível” 124

José Simões Morais

Bastões de Comando aos pés da Imaculada A O escrever sobre as grandiosas festas com que a Cidade do Nome de Deus solenizou a proclamação da Imaculada Conceição como sua Padroeira, veio-nos à memória que colocado a seus pés se encontrava o Bastão de Comando. Quando o Capitão-geral, ou depois o Governador, chegava a Macau, na tomada de posse às portas da cidadela, apresentava a sua carta-patente ao vereador mais antigo do Senado e em troca era-lhe entregue o bastão de comando e a chave da cidade por entre uma salva de vinte e um tiros. Depois era o bastão de novo depositado no altar da Padroeira Nossa Senhora da Conceição; no início e até 1856, na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos e porque esse templo dos franciscanos ameaçava ruir, desde então na Sé Catedral, colocada no primeiro altar lateral do lado do Evangelho, a contar da entrada. “A esse bastão do comando que se encontrava na Sé Catedral veio-se juntar um outro que a comunidade portuguesa de Xangai ofereceu ao Governador José Rodrigues Coelho do Amaral (1863-1866)”, segundo o Pe. Manuel Teixeira. Luís Gonzaga Gomes refere a data de 10 de Março de 1865, quando o comendador Lourenço Marques, em nome dos cidadãos portugueses residentes em Xangai, ofereceu ao Governador Coelho de Amaral um bastão feito na Inglaterra, para comemorar a sua passagem por essa cidade, em Junho de 1864. O Coronel de Engenharia José Rodrigues Coelho do Amaral, Governador de Macau que a 22 de Junho de 1863 tomara posse e para o qual havia sido nomeado a 7 de Abril desse mesmo ano, como Conselheiro na missão diplomática portuguesa partira a 14 de Maio de 1864 de Xangai para Tientsin (Tianjin). “Acompanha a este (comendador Lourenço Marques) uma caixa contendo um Bastão que a Comunidade Portuguesa de Shanghae ofereceu em 1865 a S. Ex.ª o Conselheiro Joze Rodrigues Coelho do Amaral em demonstração da boa administração de S. Ex.ª como Governador desta Província, e ele o vota a SSma. Virgem perpetuamente; V. Rma. o colocará no altar de Nossa Senhora da Conceição a par do outro Bastão”, de um documento transcrito pelo Padre Benjamim Videira Pires, que refere ter o Governador Coelho do Amaral recebido o bastão em 19 de Janeiro de 1866 e o colocou no “altar, <a par do outro que serve nos actos solenes da posse dos Governadores desta Cidade>, à semelhança do que se fazia para a coroa real, em Vila Viçosa. Desaparecida, hoje, desse altar a estátua e o painel (hoje no Museu) da Imaculada e substituídos por outra estátua da Senhora da Conceição, da Medalha Milagrosa, os antigos bastões da tomada de posse do Governador e de Coelho do Amaral (não do Juiz, como se pensava) encontravam-se, até à última remodelação da Catedral em 1961”, no lado direito da própria estátua de Nossa Senhora de Fátima, no seu altar do transepto. “A cerimónia simbólica da entrega do bastão à Padroeira interrompeu-se com a República, em 1910”, sendo a partir de então apenas entregue a chave da cidade ao novo governador.

O bastão de Comando, símbolo do poder temporal e o báculo da autoridade espiritual, representavam em conjunto a autoridade do saber, que mais tarde se perdeu, esquecida como ficou a autoridade natural, sendo agora apenas de autoridade estatutária De referir que em 1840 na Igreja paroquial de S. António em Macau se principiou também a venerar a Imaculada, sob o título de Nossa Senhora da Conceição da Medalha Milagrosa. Segundo Benjamim Videira Pires “É sabido que a Imaculada, com a forma duma medalha de duas faces, apareceu em 27-11-1830, em Paris, a Santa Catarina Labouré”.

INSÍGNIA DE DIGNIDADE SENHORIAL

Esse Bastão de Comando, ceptro de insígnia real, tinha como paralelo na China o Gui, um objecto de jade usado apenas pelo imperador, ou pelos reis, durante a cerimónia de oferendas de sacrifício ao Céu (Ji Tian). Segundo Ana Maria Amaro, “A bengala, ou bastão, 權 (kun) (权杖, em mandarim quanzhang), é símbolo de honrarias e insígnia de dignidade, sendo homófono de cássia, árvore emblemática dos letrados também, um emblema de Shou Xing Gong (寿星, Shou Xing a divindade estelar da Longevidade) Divindade da Longa Vida, um dos três Puros, uma das Três Estrelas ou Três Augustos Imperadores, uma tríade muito popular também entre os tauistas, o grupo das

Três Supremas Venturas, Fu, Lu, Shou, Felicidade, Prosperidade e Longa Vida.” O bastão dos Governadores da Província era chamado Bastão do Comando e simbolizava o supremo mando, serviu desde os primeiros tempos nos actos solenes da posse dos Capitães-gerais e dos Governadores de Macau até que, com a implantação da República, deixou de ser feita esta cerimónia. Esta vara era outorgada pelo Rei a um seu servidor, para o representar na governação de um território do seu vasto império e por isso denominada Bastão de Comando. Traz ele uma ancestral História, aparecendo sempre associado com os chefes e dirigentes do povo e como cajado ligado à pastorícia, sendo primitivamente usado como arma de defesa contra o ataque dos animais, ou como bengala de suporte ao corpo. Como insígnia, o bastão do comando terá a sua proveniência nesse cajado usado pelos pastores para conduzir os seus rebanhos, ou no ceptro, que era um bastão usado outrora pelos reis e generais. Na entrada <Bastão>, a Enciclopédia Luso Brasileira refere que nas investigações em cavernas e nos túmulos foram encontrados objectos pré-históricos classificados pelos especialistas como bastões do comando. Se há quem pense que estes são insígnia de chefes, outros crêem serem primitivas varas do condão que os feiticeiros usavam. “Os chefes egípcios, árabes e hebreus usaram bastões, assim como pessoas de consideração em Babilónia, como refere Heródoto. No teatro grego os actores, quando mimavam um pedagogo, um camponês ou um velho, usavam um bastão rústico, e uma bengala ou vara direita e adornada quando representavam uma personagem rica ou elegante. Nos primeiros monumentos cristãos aparecem trazendo bastão o arcanjo Gabriel, na Anunciação; Cristo na ressurreição de Lázaro, o Bom Pastor, Cristo descendo ao Limbo; Moisés ferindo o rochedo; S. Pedro entre os Apóstolos, etc. Na liturgia cristã o báculo é símbolo da autoridade espiritual e descende do bastão.” Esse pau grosso com a extremidade superior arqueada era usado pelos bispos. “No cerimonial antigo figura o bastão como insígnia de dignidade senhorial.” Tal ficou registado durante a viagem da primeira Embaixada Japonesa Cristã à Europa, promovida pelo Visitador dos Jesuítas no Oriente, Padre Alexandre Vaglinano. Em Roma, encontrando-se hospedados os quatro jovens embaixadores japoneses na Casa da Companhia de Jesus, aí compareceu no dia 29 de Maio de 1585, o senador mais velho, Horácio de Benedictis, em representação do povo e Senado Romano, com um grande aparato, usado em actos públicos, precedidos de vinte e quatro oficiais com varas douradas na mão, e seguidos de muitos cavaleiros e cidadãos romanos, todos ricamente vestidos. O bastão de Comando, símbolo do poder temporal e o báculo da autoridade espiritual, representavam em conjunto a autoridade do saber, que mais tarde se perdeu, esquecida como ficou a autoridade natural, sendo agora apenas de autoridade estatutária.


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h

29.12.2017 sexta-feira

Amélia Vieira

F

INDO o Ano, recapitulamo-lo. Ano este que foi ateado pelas penas flamejantes do Galo de Fogo que a todos não só aqueceu como abrasou, carbonizou, fazendo jus à labareda. Em todos os palcos lhe sentimos o garbo e não raras vezes a jocosa actividade de manobras ameaçadoras, fustigada por lutas de poder entre dois governantes mundiais que insistem em fulminar o mundo na sua “máquina- brinquedo” de mísseis e nuclear. Nas cinzas do Ano Findo contamos agora com alguma sagacidade de pensamento, lugares seguros que sobram para a razão. Nem sempre somos galvanizados. Camões já nos tinha deixado «A Máquina do Mundo» e agora ela pode ser de novo a grande «Máquina do Mundo Reinventada», o mecanismo impresso numa Esfera Armilar que nos indaga ainda e nos incita ao prazer de a visitar. Camões não perfilava uma concepção mecanicista do mundo, do cosmos. Toda a sua epopeia está repleta de animismo que assenta nos deuses como força interpretativa e se coloca na esfera do Olimpo, uma ideia Renascentista do universo como ser vivo e que está presente também nas epopeias gregas. Ora a descrição desta máquina pensante aponta para o plano da ciência e da inteligência tecnológica não deixando por isso de ser um elo visionário que a sua maravilhosa capacidade enquanto grande poeta lhe dava permissão de ver, imprimindo quase uma tónica de contradição a toda a narrativa. Vejamos então as estrofes 78 e 80 (canto X) do poema: Qual a matéria seja não se enxerga/ mas enxerga-se bem que está composto/ de vários orbes que a divina verga/ compôs/ e um centro a todos só tem posto/volvendo ora se abaixa, ora se erga/......-Vês aqui a grande máquina do mundo/ etérea e elementar, que fabricada/ assim foi do saber alto e profundo/ que é sem princípio e meta limitada. Aqui, na grande «Máquina do Mundo» não estamos estritamente num código Ptolemaico, mas sim muito mais perto da visão de Ezequiel com os querubins das quatro rodas que influenciou o romance de Raymond Abellio «Os olhos de Ezequiel» e ele comenta: o Espírito constrói e destrói, os olhos de Ezequiel são habitados pela luz e perseguidos pelas sombras. Só que na máquina camoniana a ordem e o movimento em vez de se oporem, conjugam-se, dando uma grande harmonia espacial que a globalização presente não tem, não passando por isso de um trenó ou mesmo uma carroça que produz aparentemente efeitos duplos

WILLLIAM BLAKE, URIZEN

Deus ex machina mas está assente numa infindável monotonia de igualização do espaço. O mito reconciliador desta Máquina não tem nada a ver com a massificação dos mecanismos, talvez estejamos num estado de ascese da matéria e que os materiais se iluminem numa luz não gerada por combustão estando finalmente na presença de um Deus ex machina. Nós que no ano transacto atravessámos as fogueiras, tivemos, alguns, resoluções que em muitos casos se nos podem afigurar como acções heróicas e algumas vezes quase sentimos a presença de uma intervenção inesperada que fez descer à cena um qualquer mecanismo: escutámos o primeiro robot e vimos uma realidade para a qual estamos ainda toldados - o calor toldou-nos o entendimento - presos andamos a um mecanismo chamado Geringonça, cujas visões não rasam nenhuma destas esferas e que pela própria constituição torpe dela nos abeiramos à procura de milagres ou de uma outra matéria rarefeita que não engloba tais poderes. O que está configurado nestas duras ferramentas de Vulcano não dá nem para passar a primeira prova de um tempo novo que nos indicaram. Com a usurpação e a necessidade construímos uma gigante Roda Paleolítica cujo resultado testámos desde a condição sem nunca nos abeirarmos da frase derradeira de Goethe «o quê? bebo a luz?». Bebemos vinhos e água – pouca : a seca arrasa e promete calcinar os solos. Há sem dúvida uma plataforma artificial que luta contra o tempo porque neste caminho serão tão artificias os organismos atávicos como estes já mencionados nos parecem. Situados no limiar da modernidade os grandes poetas se encontram, talvez a muito espaço luz da sua filiação temporal, e voltando às rodas: as rodas avançam e recuam, quatro Querubins fazem mover quatro rodas: Quando eles paravam, elas paravam. Quando eles se elevavam, elas elevavam-se juntamente com eles. A Máquina estava unida a um propósito. O que me lembra um poema de Elliot: no ponto imóvel do mundo que gira/ nem carne nem sem carne/ nem de nem para/ no ponto imóvel, lá está a dança/ mas nem parada nem em movimento/. Findo o acto o pano cai, entramos em mais um Ano Novo sem percepcionarmos o labor que foi preciso para que raras vezes no vasto mundo aconteça nascer um poeta. Sim, será sempre aquela “máquina” de efeitos que nos colocam as Naves por onde iremos passar. Alguns. Ninguém entra nas naves a haver sem calcular tamanhos dons. Um Bom Ano.


(f)utilidades 19

sexta-feira 29.12.2017

TEMPO

MUITO

O QUE FAZER ESTA SEMANA Diariamente

EXPOSIÇÃO “AO MEU CORAÇÃO UM PESO DE FERRO” Livraria Portuguesa | Até 08/01

?

NUBLADO

MIN

16

MAX

22

HUM

60-90%

EURO

9.61

BAHT

YUAN

1.23

PÊLO DO CÃO

TRILOGIA LABORAL

EXPOSIÇÃO “O TEMPO MEMORÁVEL” Museu de Macau | Até 25/02/2018 A LINGUAGEM E A ARTE DE XU BING Museu de Arte de Macau | Até 4/3/2018

O CARTOON STEPH

PROBLEMA 188

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 187

UM DISCO HOJE

SUDOKU

DE

Cineteatro

0.24

Como voltar atrás? Como caminhar de regresso para um lugar onde os pés pesam mais e onde o ar são as primeiras letras de árduo? As semanas de quadra festiva trouxeram-nos semanas de trabalho de três dias, essa miragem laboral que as nórdicas sociais democracias ambicionam implementar para a felicidade dos louros. Estas semanas têm sido a prova de algo delicioso que sabemos escasso, finito e altamente viciante. Como saborear este gosto a paraíso, ter tempo para pensar e viver e depois regressar à semana eterna dos dedos da mão? Semanas de três dias de trabalho são o equilíbrio perfeito entre produtividade e felicidade. Somos utopia nestes dias de ócio e prazer, somos heróis de vagar para escrever, para brincar com as outras palavras, para mordiscar lábios de amantes, para ver o mar e sonhar com outras margens. Quatro dias e noites para acumular quilómetros nas solas dos pés, para sorver os sumos do mundo e cantar para fora o que internamente os headphones nos dizem. Quatro dias para ler sonhos de génios sobre coisa nenhuma, em cafés de tagarelice em cantonês, para deambular sem destino, para onde os pés quiserem ir. Quatro dias para tecer paralelismos indizíveis entre as implicações psicológicas da queda do espírito de Hamlet e a táctica de jogo do Rui Vitória. Quatro dias para fazer tudo tarde e sentir que o tempo não conta para absolutamente nada. João Luz

BIRDS OF FIRE | MAHAVISHNU ORCHESTRA

C I N E M A

PADDINGTON 2 SALA 1

PADDINGTON 2 [A]

FALADO EM CANTONENSE Filme de: Lee Unkrich 14.30, 16.45, 19.15

FALADO EM CANTONENSE Filme de: Paul King Com: Hugh Bonneville, Sally Hawkins, Hugh Grant 16.30

STAR WARS EPISODE VIII [B]

PADDINGTON 2 [A]

COCO [A]

Filme de: Rian Johnson Com: Daisy Ridley, John Boyega, Mark Hamill 21.30

Lançado em 1973, “Birds of Fire” é um dos marcos da carreira do super-grupo Mahavishnu Orchestra, um colosso musical que conheceu muitas formações ao longo dos tempos. O disco arranca com o tema homólogo que tem um explosivo solo de guitarra de John McLaughlin, o fio condutor da banda. É um disco que tresanda ao jazz de fusão dos anos 70, cheio de groove e pontuado pelo maravilhoso moog de Jan Hammer, o teclista que viria a ficar conhecido por ter composto o tema de “Miami Vice”. Destaque para o belíssima interpretação de “Miles Beyond”, do genial Miles Davis, com que McLaughlin tocou em discos intemporais como “Bitches Brew”.  João Luz

FALADO EM CANTONENSE Filme de: Paul King Com: Hugh Bonneville, Sally Hawkins, Hugh Grant 14.30

SALA 2

THE GREATEST SHOWMAN [B]

SALA 3

Filme de: Michael Gracey Com: Hugh Jackman, Zac Efron, Michelle Williams, Zendaya 14.30, 19.30, 21.30

Filme de: Jake Kasdan Com: Dwayne Johnson, Jack Black, Karen Gillian 16.30, 19.15, 21.30

JUMANJI: WELCOME TO THE JUNGLE [B]

www. hojemacau. com.mo

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Luz; João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


20 opinião

29.12.2017 sexta-feira

perspectivas

“Jesus wanted them to know that if they intended to live by the law, they couldn’t just pick and choose the parts they liked in order to feel good about themselves. They had to follow all the law or they might as well not follow any of it.”

O

Jesus Is: Find a New Way to Be Human Judah Smith and Bubba Watso

tempo que vivemos – e que se prolonga na tradição católica surgida no século VIII, até ao dia de veneração dos “Reis Magos”, Belchior, Gaspar e Baltazar a 6 de Janeiro de 2018 – é considerado como a quadra natalícia, tornando interessante recuperar a autêntica pessoa do homenageado Jesus, que presumivelmente nasceu a 25 de Dezembro, o essencial da sua mensagem e o melhor do seu impacto histórico, porque apesar de não ter deixado nem uma só palavra escrita, nenhuma figura histórica exerceu uma influência maior ou igual na história da humanidade. Muitas vezes se tem apresentado Jesus como um personagem intemporal, uma alma pacata sem retiro, alegrias, desejos e paixões, como uma peça de museu, como um cordeiro manso que cumpria cabalmente com as suas obrigações, como alguém que nunca desfrutou da ousadia de um jovem, porque sempre encarnou os sonhos da velhice, quase um fetiche. A pessoa de Jesus é mais conhecida todos os dias graças à história, arqueologia e antropologia cultural e social que o colocam em determinada circunstância, numa sociedade de tradição oral que cultivava a memória. É de presumir que tenha aprendido o ofício do seu pai, carpinteiro, mas tudo indica que depressa tomou outro rumo, deixando a família, indo de encontro ao chamado do profeta João Baptista que desencadeou um movimento de conversão, tendo em vista uma rápida e definitiva vinda de Deus, facto que liga a vida de Jesus com a tradição profética do seu tempo. O seu relacionamento com João Baptista, seu primo, foi decisivo para a sua experiência religiosa. Tendo-se separado do seu primo, percorreu os caminhos da Galileia à procura de pessoas para anunciar a proximidade do “Reino dos Céus”. Fazendo a eliminação de todos os aspectos escatológicos e futuristas da sua pregação, alguns autores apresentaram erroneamente, Jesus como um sábio anti-sistema e contra-cultural. Todavia, não é um apocalíptico iluminado que vive debaixo da urgente e eminente catástrofe, como pretenderam demonstrar alguns outros autores. O judeu fiel que foi Jesus cumpriu as leis e radicalizou alguns dos seus aspectos embora, ao mesmo tempo, relativizasse

ANÓNIMO, ECCE HOMMO, SÉCULO XVI

O homem chamado Jesus

As multidões foram atraídas pela sua personalidade extraordinária e pela autoridade de tipo carismático das suas pregações alguns preceitos rituais, especificamente os que se referem ao Sábado, ao afirmar que “o homem é mais importante que o Sábado” e as normas da pureza. O amor ao próximo é a regra de todos os rituais (Marcos 12, 2831). Sem escapar da sociedade, quem aceita as normas do “Reino de Deus” caminha sempre no fio da navalha. “Os últimos serão os primeiros”; “o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir”. O dinheiro não é mais um sinal de bênção divina, como a teologia rabínica considerou, mas pelo contrário, será o maior impedimento para entrar no “Reino dos Céus”. Alguns autores defendem que os milagres narrados nos Evangelhos seriam fruto e invenção da imaginação popular, e outros ampliados e engrandecidos, o que não é de aceitar pelos cristãos, nos quais me incluo. É evidente que uma das características de Jesus, que ajuda a explicar a irresistível atracção que exerceu sobre os que o conheciam era o de curar e apaziguar o povo das suas maleitas físicas, psíquicas e sociais. “Uma grande multidão ao ouvir o que fazia, veio até ele “ (Marcos 3, 10). Muitos estudiosos interpretaram como um desafio para a ordem social estabelecida, a libertação de muitos dos seus concidadãos dos espíritos imundos que conseguia com o seu amor e a sua capacidade de acolhimento. Os estudos antropológicos, actualmente, sobre xamãs e curandeiros podem ajudar os mais duvidosos a entender a literatura sobre os milagres de Jesus. Ainda que, entre as multidões, o conceito do “Reino de Deus” criasse resistência, assim como a esperança, Jesus teve um enorme grupo de seguidores e crentes na Galileia e depois em Jerusalém. As multidões foram atraídas

pela sua personalidade extraordinária e pela autoridade de tipo carismático das suas pregações. Entre todos os seguidores e fazendo eco da restauração das doze tribos de Israel mencionadas no Antigo Testamento, um dos elementos mais constantes da escatologia judaica, escolheu doze discípulos e mais tarde enviou-os a pregar por todo mundo a suas “Boas Novas”. A coerência da sua vida e a nobreza dos seus ensinamentos fazem todos os pesquisadores, crentes ou ateus, excluir a possibilidade de fraude. O cristão deve ser o promotor de uma cultura de caridade, igualdade e dignidade das pessoas. Todas as outras formas de entender Jesus, reforçadas pela cultura pop dos nossos dias, são envenenadas pela condição e expiração efémeras. Muitas dessas imagens de Jesus não são o resultado de estudos conscienciosos, mas de uma fábrica de sonhos como o cinema. Jesus faz parte do universo transbordante de filmes, revistas, vitrinas e exposições, meios com uma enorme capacidade de adaptar-se aos tempos. Quase todos tentam apresentá-lo como um personagem não convencional que veio transformar as condições de vida e mentalidades ao serviço do novo homem. O mundo dos nossos dias, que sente o fascínio com o mágico, teatral e o festivo, multiplica as imagens de Jesus, como de qualquer bem destinado ao consumo comercial e emocional. Para muitas pessoas, Jesus é um sistema estelar mais que o céu das celebridades mais famosas da história. Nesta cultura fragmentada e líquida, multiplicam-se as mestiçagens mais variadas que afectam também a imagem de Jesus, que muda a um ritmo vertiginoso para responder às procuras que chegam de diferentes locais geográficos e culturais.

JORGE RODRIGUES SIMÃO

Existem grupos viciados às mudanças que forjam uma imagem de Jesus para diferentes situações e necessidades. Muitos estão preocupados com a estetização da mensagem de Jesus, como um produto da ética estética hipermoderna que tem pouco a ver com a mensagem de austeridade e pobreza do Nazareno. Trata-se da comercialização por grosso da figura de Jesus. O Jesus, familiar para milhares de pessoas, é um produto da hibridação estética, da moda e da mercadologia. O culto da expressão nova e subjectiva substituiu a revelação antológica. A quadra natalícia, para muitos, é um momento de tristeza porque lembra e faz viver mais intensamente as ausências presentes dos seus entes queridos. O homem que não assimila as ausências dos entes queridos que o tempo lavra será sempre um ser infantil, que está longe de ser uma criança. A ausência é um vazio que só pode preencher a memória. O Natal é um memorial, uma referência temporária que converte em “Kairós”, tempo significativo, o “Kronos”, tempo normal. Além de ser social e lúdico, o ser humano é ritual. Os presentes da quadra natalícia, originalmente, significam a gratuidade do presente que recebemos do céu. Algumas pessoas aborrecem-se pelo facto de outras desejarem felicidade, paz, amor e prosperidade. Mesmo que fosse o único dia do ano em que tal acontecesse, seria melhor do que nada. As crianças vivem esse tempo sem problemas ou falsos pensamentos. É infeliz o que não se permite manifestar, expressar-se à criança que tem dentro. Jesus provoca uma série de perguntas que o antropólogo não pode responder a partir da antropologia ou da história simples, embora ambas possam ver sinais de que, por trás dessa pessoa, há algo mais do que um homem simples. Tal está escondido por trás dessa fascinante humanidade? Para muitas marcas, multinacionais, e instituições, a estrela do Natal não é Jesus, mas as ídolos sociais que transmitem os seus interesses. Os cristãos confessam uma realidade que transcende a História. A teologia moderna diz que a fé é acreditar numa pessoa que se torna o modelo da vida em que os valores artísticos, sociais e filosóficos se fundem mais que uma moral. Tradicionalmente, a fé em Jesus-Homem-Deus estava ligada a uma categoria hereditária, uma herança familiar e comunitária; modernamente é mais o fruto de uma decisão pessoal, da fé individual. A fé em Jesus, segundo os cristãos, deve ser traduzida em um modo de vida. O cristão deve ser o promotor de uma cultura de caridade, justiça e solidariedade, de igualdade e dignidade das pessoas. Os que acreditam na mensagem original da quadra natalícia não se resignam a fugir e a deixar campo livre aos que querem esquecer a origem e o significado do tempo que vivemos. Iremos continuar a comemorar esta quadra do Natal, um memorial do nascimento de Jesus, sem esquecer que o mundo muda e que a maneira de actualizar eventos também deve ser alterada.


opinião 21

sexta-feira 29.12.2017

um grito no deserto

Um Natal muito diferente

CARAVAGGIO, CEIA DE EMAUS

PAUL CHAN WAI CHI

D

URANTE a época natalícia a cidade ficou apinhada de turistas, muitos dos quais chegaram de propósito para assistir ao “Festival de Luz de Macau”. Outros vieram atraídos pelo ambiente particularmente festivo que se vive em Macau nesta altura, muitos deles oriundos da China continental. Será que isto quer dizer que na China não se celebra o Natal? Os leitores que estão mais atentos às notícias saberão certamente que existe no país uma atitude de boicote a todas as “festividades ocidentais”, especialmente depois do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, que colocou um maior enfase na ideologia. No entanto, o Natal, que é uma “festividade ocidental”, não consta da lista negra dos dirigentes. Embora um dos valores mais importantes dos chineses sempre tenha sido a “confiança cultural”, a cultura tradicional foi severamente atingida pela “Campanha Anti-Direitista” (1957) e pela “Revolução Cultural” (1966). A campanha “Esmagar os Quatro Velhos e Cultivar os Quatro Novos”

colocou Confúcio e os seus ensinamentos sob fogo cerrado. Quando o tempo de vida de uma cultura está quase a chegar ao fim, a confiança passa a ser apenas um slogan. Como as autoridades chinesas estão perfeitamente cientes da situação, desenvolvem inúmeras iniciativas para levar a pessoas a interessar-se de novo pelos valores da cultura tradicional. São disso exemplo o trabalho do Instituto Confúcio e a promoção do estudo dos clássicos da literatura. A par destas manifestações, surgiu na China nos últimos anos uma espécie de moda que leva as pessoas a interessar-se pelo Cristianismo. O aumento de importância da “cultura cristã” na China demonstra falta de auto-confiança. Hoje em dia, a informação e as tecnologias de comunicação estão muito avançadas, as pessoas deslocam-se para estudar no estrangeiro e as viagens de negócio são muito frequentes. Como a cortina de ferro já “subiu” `há muito tempo, é contraproducente suprimir à força o que passou a ser moda. Abraçar o que é novo é um dos traços que caracteriza a cultura chinesa erudita, que permitiu à Nação absorver a novidade e a diversidade e tornar-se sistematicamente mais forte. O Budismo, uma religião estrangeira, faz desde há muito parte da vida do povo chinês. Por seu lado, as ideologias comunistas de “ocidentais”, como Marx, Engels, Lenine e Estaline, tornaram-se a estrela guia do Partido Comunista Chinês desde algumas décadas a esta parte. Aparen-

temente as necessidades políticas suplantam as necessidades sociais! A menos que surja uma segunda Revolução Cultural na China, as reformas e as políticas de abertura irão sofrer sérios retrocessos. O Natal, à semelhança de outras festividades religiosas, vai tornar-se parte da cultura chinesa. O Natal é a época de celebrar o nascimento de Jesus Cristo. Os cristãos, para além de observarem os Seus ensinamentos, são nesta época obrigados a cumprir diversos deveres sociais.

Jesus escolheu nascer num estábulo para se identificar com os pobres. Mas hoje em dia as pessoas esqueceram esta mensagem, embriagadas pela procura do prazer imediato Assisti à última sessão pública de consulta da Proposta de Lei sobre o “salário mínimo” organizada pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais, no dia 23 de Dezembro. No documento posto a consulta, o Governo de Macau proponha o salário mínimo de 30 patacas/hora, bastante menos que os 34.50HKD/hora de Hong Kong. Como o nível de vida de Macau é

Ex-Deputado • Membro da Associção Novo Macau

superior ao de Hong Kong, esta quantia é manifestamente insuficiente para suprir as necessidades básicas. Durante a sessão de consulta, um dos oradores, representante dos trabalhadores, defendeu que só 2.800, dos 44.200 empregados que ganham menos de 30 patacas hora, são residentes locais. Assim, não existe necessidade de fixar um salário mínimo, estes trabalhadores “não residentes” estão dispostos a aceitar valores inferiores pelo seu trabalho. Macau importa trabalhadores não residentes desde o tempo da administração portuguesa, sob o pretexto de colmatar a deficiente oferta de serviçais domésticos. Mas é suposto importarmos “trabalhadores não residentes” ou “escravos não residentes”? Seguindo este raciocínio, a questão do salário mínimo não se aplica a trabalhadores domésticos nem a trabalhadores com deficiência. Mas os trabalhadores não residentes, de acordo com a lei de Macau, desfrutam de alguns dos direitos dos residentes. Logo, não existe qualquer motivo para não contemplar os “trabalhadores não residentes” com o salário mínimo. No séc. XXI Macau vai estar apenas focado na eficiência dos mercados e na economia, em detrimento das questões laborais. Deve prestar-se mais atenção à defesa da dignidade do trabalho. Jesus escolheu nascer num estábulo para se identificar com os pobres. Mas hoje em dia as pessoas esqueceram esta mensagem, embriagadas pela procura do prazer imediato.


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sexta-feira 29.12.2017

IRIS IEONG, TATUADORA NO WONDERLAND TATTOO STUDIO

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“O Governo não liga aos tatuadores”

EPOIS de se licenciar em recursos humanos, Iris Ieong viu-se numa encruzilhada profissional entre a estabilidade e a paixão. Desde dos 10 anos de idade que tinha um fascínio pela tatuagem, portanto, não foi de estranhar que a paixão prevalecesse. Como resultado, tornou-se tatuadora profissional e abriu o “Wonderland Tattoo Studio”, em Macau, em Setembro deste ano. Quando terminou o curso, Iris Ieong já trabalhava a tempo inteiro numa empresa, apesar de já tatuar alguns clientes fora do horário de expediente. Colorir peles era algo que fazia nos tempos livres mas, finalmente, decidiu seguir a sua paixão e tornar-se tatuadora profissional. “Passar o dia sentada num gabinete não é algo que eu queria. Na altura não foi uma decisão fácil de tomar porque tinha trabalho estável que me pagava todos os mês e não era preciso administrar tudo sozinha”, recorda a tatuadora. Um dos momentos chave para Iris Ioeng foi a primeira tatuagem que fez, com um tatuador do Interior da China que acabaria por lhe

dar algumas dicas sobre a arte que viria a abraçar. Apesar de ter aberto o estúdio há apenas quatro meses, a tatuadora de 25 anos de idade já tem três anos de experiência a colorir corpos. Questionada sobre quando surgiu o seu interesse por tatuagem, lembrou que havia sido uma criança fortemente influenciada por cultura estrangeira. Como tal, logo aos 10 anos perguntou à mãe quando podia ter uma tatuagem, algo que só viria a acontecer aos 20 anos. “Depois de ter feito a primeira tatuagem, parece que fiquei viciada, foi algo de maravilhoso”, recorda.

TELAS DE PELE

Sem formação artística, Iris Ieong sentiu alguma dificuldade no início da aprendizagem para tatuar. Porém, os maiores obstáculos foram os pais que reagiram muito mal à primeira tatuagem que fez. “A minha mãe nunca pensaria que eu ia fazer uma, mas depois da primeira apercebi-me que não ia conseguir mentir à minha mãe e decidi contar-lhe a realidade”, explica.

A vontade da jovem foi recebida com alguma desilusão por parte dos pais. “Há pessoas das gerações mais velhas que acham que o acto de tatuar é uma forma de violência contra a própria pessoa”, contextualiza. No entanto, depois de estudar a técnicas e de ter conseguido obter alguns resultados positivos, ou seja, tatuagens bem feitas a mãe passaria a aceitar melhor a vocação da filha. Hoje em dia, Iris Ieong acha que a sociedade em geral tem uma atitude mais aberta em relação à tatuagem, e muito mais pessoas entendem que se trata de uma forma de arte. A tatuadora tem algumas dificuldades em caracterizar os clientes que visitam o seu estúdio, uma vez que não são apenas jovens, mas também pessoas de meia idade e mães de família. Quando às características de um bom tatuador, Iris Ieong entende que “é preciso ouvir os clientes, porque são eles que vão ter a tatuagem na pele, por isso é preciso respeitar as suas opiniões”, sublinha jovem. A tatuadora acrescenta que outra virtude fundamental é a paciência.

A jovem de 25 anos acha que o Governo tem muitos aspectos a melhorar no que toca à profissão que escolheu. No momento em que a tatuadora solicitou licença para trabalhar junto das autoridades, descobriu que o Executivo não tinha regulamentos preparados para tatuadores. “Acho que o Governo não presta atenção aos trabalhos de tatuadores, porque se calhar pensa que há poucos serviços desse género em Macau”. De acordo com Iris Ieong, no território não existem regulamentos para fiscalizar o trabalho dos tatuadores que operam em Macau, algo muito lamentável uma vez que a existência de regulamentos seria útil para melhorar este tipo de profissão. A ausência de legislação leva a que “qualquer pessoa que tenha máquinas de tatuagem possa tatuar em Macau”. Face a esta realidade, a tatuadora espera que sejam elaborados regulamentos de forma a que os clientes tenham acesso aos melhores serviços. Vitor Ng (com J.L.)

info@hojemacau.com.mo


O horror sórdido do que, a sós consigo, vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa. Álvaro de Campos

PALAVRA DO DIA

sexta-feira 29.12.2017

CEM MIL PORTUGUESES SAÍRAM DO PAÍS EM 2016

Até ao meu regresso...

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M total de 100 mil portugueses emigraram em 2016, menos 10 mil que no ano anterior, acentuando a tendência de descida da emigração desde 2013, segundo um relatório lançado ontem, em Lisboa. “Em 2016, essa trajectória de descida (da emigração) teve mesmo uma ligeira aceleração, ficando-se o número de saídas por um valor da ordem dos 100 mil indivíduos”, indicou o Relatório da Emigração, referente ao ano passado, elaborado pelo Observatório da Emigração. Em 2015, o número de portugueses que saíram do país foi de 110 mil. De acordo com o estudo, publicado anualmente, “a análise da nova série estatística construída pelo Observatório da Emigração revela que a emigração atingiu o seu valor máximo deste século em 2013, com cerca de 120 mil saídas, tendo desde então iniciado uma trajectória de descida em linha com PUB

a recuperação económica no país, embora a um ritmo mais lento”. Entretanto, o relatório esclareceu que se mantém ainda níveis de emigração que, na história recente, só têm paralelo com os movimentos populacionais dos anos de 1960 e 1970 do século XX. O documento indicou ainda que é improvável, a curto prazo, “a retoma dos níveis mais baixos

de emigração anteriores à crise” económica em Portugal. Portugal continua a ser, em termos acumulados, o país da União Europeia (UE) com mais emigrantes em proporção da população residente (considerando países com mais de um milhão de habitantes). “De acordo com as últimas estimativas das Nações Unidas, para 2015, o número de emigrantes nascidos em Portugal superou os dois milhões e trezentos mil (2,306 milhões), o que significa que cerca de 22% dos portugueses vive fora do país”, sublinhou o relatório. A maioria dos emigrantes vive actualmente na Europa, diferentemente dos anos de 1960 e 70 do século XX, segundo o documento. Segundo o estudo, reflectindo “o efeito acumulado dessa reorientação dos fluxos e a sua intensificação nas últimas décadas, a percentagem de portugueses a viver na Europa passou de 53%, em 1990, para 62%, em 2015, de acordo com

estimativas das Nações Unidas”. No entanto, a aceleração da redução do número de saídas de Portugal ocorrida em 2016 “explica-se mais por alterações no destino do que na origem”, tendo sido fundamental “a interrupção do crescimento da emigração para Angola e Reino Unido”, sublinhou o relatório. De acordo com o documento, em 2016 com a acentuação da crise do petróleo em Angola (quebra de -2,807 nas entradas) e com a aprovação do ‘Brexit’ no Reino Unido (quebra de 5%), a emigração para estes dois países teve a sua primeira queda desde a eclosão da segunda fase da crise económica em Portugal (crise das dívidas soberanas). O Reino Unido continua, apesar de tudo, a ser o país para onde emigram mais portugueses, com 30,5 mil em 2016. Seguem-se, como principais destinos dos fluxos, a França (mais de 18 mil em 2014), a Suíça (10,1 mil em 2016) e a Alemanha (8,8 mil em 2016).

Nicolau Santos chefia Lusa

O Governo vai nomear o jornalista Nicolau Santos presidente do Conselho de Administração da agência Lusa, substituindo Teresa Marques no cargo, disse o gabinete do Ministério da Cultura. A assembleia-geral de accionistas da Lusa, no qual o Estado tem uma participação de 50,14%, seguido pelo Global Media Group (23,36%) e pela Impresa (22,35%), deverá ocorrer no final de Fevereiro, onde Nicolau Santos será nomeado. Teresa Marques chegou à presidência da Lusa em 2015, terminando o mandado em 31 de Dezembro.

Até para o ano! O Hoje Macau deseja a todos os seus leitores um feliz Ano Novo! Voltamos no próximo dia 3 de Janeiro. Esperamos que tenham saudades...

Hoje Macau 29 DEZ 2017 #3963  

N.º 3963 de 29 de DEZ de 2017

Hoje Macau 29 DEZ 2017 #3963  

N.º 3963 de 29 de DEZ de 2017

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