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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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MOP$10

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ • TERÇA-FEIRA 29 DE NOVEMBRO DE 2011 • ANO XI • Nº 2503

Ter para ler

TEMPO POUCO NUBLADO MIN 19 MAX 25 HUMIDADE 55-90% • CÂMBIOS EURO 10.7 BAHT 0.2 YUAN 1.2

hojemacau análise • HELDER FERNANDO

E as LAG, senhores, do que falam elas?

Justiça reconhece que médicos mostram desinteresse em tratar doentes

Quem está mal que se cuide O Tribunal Judicial de Base deu razão ao Hospital Kiang Wu num caso de alegada negligência médica. Mas, se a justiça pendeu por duas vezes - mesmo após recurso - a favor da instituição privada, o acórdão da Segunda Instância não perdoa: é nítida a falta de interesse dos profissionais em tratar os pacientes e são cada vez mais as queixas na Justiça por erros médicos. > PÁGINA 6

Agentes de Segurança

ELEVAR SALÁRIOS PARA EVITAR FUGA PARA O PRIVADO • Página 5

Indústrias Criativas

Cooperação com Shenzhen

• Página 11

• Página 5

GOVERNO TEM DE ABRIR CORDÕES À BOLSA

ACORDOS DE OLHO NOS PAÍSES LUSÓFONOS


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ACTUAL Huang Nubo, poeta milionário que quis comprar parte da Islândia

A desilusão do alpinista António Caeiro

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Agência Lusa

DIRECTOR DA CENTRAL DE FUKUSHIMA DEMITE-SE O director da central nuclear de Fukushima, Masao Yoshida, renunciou ao cargo por motivos de saúde, anunciou ontem a operadora da central, a TepCo, recusando especificar a doença. Masao Yoshida, de 56 anos, que se encontra hospitalizado, manterá um lugar na divisão nuclear da Tepco, mas deixará de ser o “patrão” da central, destruída pelo maremoto de 11 de Março. Masao Yoshida será substituído no cargo, a partir de 1 de Dezembro, por Takeshi Takahashi, de 54 anos, actualmente integrado na equipa de gestão das instalações nucleares. PEQUIM CHOCADA COM ATAQUE DA NATO Pequim afirmou estar “profundamente chocada” com os ataques da NATO no sábado, na fronteira entre o Paquistão, tradicional aliado de Washington, e o Afeganistão. Pelo menos 24 soldados paquistaneses morreram no ataque, de acordo com fontes oficiais paquistanesas. “A China está profundamente chocada com este caso”, declarou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hong Lei, que pediu um “inquérito sincero e sério” sobre o incidente. No sábado, helicópteros da NATO, que mantém uma força de segurança no Afeganistão sob comando norte-americano, bombardearam dois postos militares paquistaneses próximos da fronteira afegã. “Os ataques são totalmente inaceitáveis, demonstram uma indiferença total ao direito internacional e à vida humana”, disse a ministra dos Negócios Estrangeiros paquistanesa, Hina Rabbani Khar, à homóloga norte-americana, Hillary Clinton, em comunicado.

OETA, milionário e alpinista de sucesso, o empresário chinês Huang Nubo já era um personagem invulgar quando se propôs comprar uma pequena parte do território da Islândia. Mas em vez de aumentar a lista de excentricidades dos novos-ricos chineses, o “resort de luxo” que Huang pretendia construir na Islândia reacendeu a desconfiança ocidental acerca das relações entre a iniciativa privada e o poder político na China e acabou por ser inviabilizado. “Não é possível aprovar o pedido da companhia chinesa. Estamos a falar da compra de uma parcela de terra tão grande que, se concordássemos em abrir uma excepção, podia dizer-se que a lei era nula”, anunciou no fim de semana o ministro islandês do Interior, Oegmundur Jonasson. A reacção de Huang Nubo também foi drástica: “Os países ocidentais estão sempre a exortar a China a abrir-se cada vez mais, mas, ao mesmo tempo, criam barreiras comerciais e obstáculos aos investidores e companhias chinesas”, disse o empresário, citado ontem no jornal “Global Times”. O investimento de Huang, no valor de 200 milhões de dólares, envolvia a construção de um hotel, um campo de golfe e outras instalações desportivas num parque de 300 quilómetros quadrados - 0,3% da área do país - na região de Grimsstadir a Fjollum, nordeste da Islândia. Segundo a imprensa chinesa, a proposta era apoiada por vários governantes locais, incluindo o ministro da Economia, Arni Arnason. Há duas semanas, a Embaixadora islandesa na China, Kristin Arnadottir, disse que considerava Huang “um investidor poético” e “um grande amante da natureza”.

Presidente do Zhongkun Investiment Group, consórcio com sede em Pequim e negócios imobiliários na China, Estados Unidos e Japão, Huang gosta de dizer que, “acima de tudo”, é um poeta. “Os poetas não são necessariamente melancólicos. Eles podem ser positivos, apegados à natureza e à vida, e cheios de energia, como eu”, afirmou Huang a propósito do seu livro mais recente, publicado no início de Novembro. Nascido em 1956, Huang é também vice-presidente da Associação Chinesa de Alpinismo, com um currículo que inclui a subida ao Monte Everest e outros altos cumes do planeta. O seu projecto islandês, apresentado no Verão ao Governo de Reikjavik, foi descrito na imprensa internacional como “aparente

MAIS ALTO SALÁRIO MÍNIMO DO PAÍS SUBIRÁ EM 2012

Shenzhen quer atrair mais trabalhadores

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澳門特別行政區政府

Anúncio Plano de comparticipação pecuniária no desenvolvimento económico para o ano de 2008 1. O prazo limite para a apresentação do pedido de atribuição do Plano de comparticipação pecuniária no desenvolvimento económico para o ano de 2008 é fixado em 30 de Dezembro do corrente ano. 2. Os indivíduos que satisfaçam os requisitos de atribuição, mas não tenham ainda formulado o pedido, devem dirigir-se até ao prazo supracitado ao Centro de Serviços do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, sito na Avenida da Praia Grande, n.ºs 762-804, Edifício “China Plaza”, 2.º andar, Macau, para efeitos de tratamento das respectivas formalidades. 3. Por último, solicita-se para que os cheques ainda não sacados sejam apresentados, com a maior brevidade, junto de qualquer instituição bancária de Macau. Macau, aos 28 de Novembro de 2011

manobra do Governo chinês para ganhar um acesso estratégico ao Árctico”. A “suspeita” - indicou, por exemplo, a revista “The Economist” - assenta no passado de Huang. Formado em literatura, Huang trabalhou no Departamento de Propaganda do Partido Comunista Chinês e no ministério da Construção antes de se estabelecer por conta própria, em 1993. Nesse aspecto, o seu percurso não difere muito de outros compatriotas que conseguiram concretizar uma das máximas da política de “Reforma e Abertura” iniciada há 30 anos pela China: “Enriquecer é Glorioso”. A ascensão global da China foi, contudo, mais rápida do que muitos governos previam e, poesia á parte, alguns parecem não saber ainda como se adaptar a isso.

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Governo de Shenzhen, no sul da China, tenciona aumentar o salário mínimo para 1500 yuans, a partir de Janeiro de 2012, disse a agência noticiosa oficial chinesa no fim-de-semana, citando autoridades locais. O aumento, de 15%, coincide com crescentes relatos acerca da agitação laborar, incluindo greves, em varias fábricas do Sul da China, e visa “atrair mais trabalhadores” antes do novo ano lunar, que começa a 23 de Janeiro, disse

uma fonte do departamento de recursos humanos de Shenzhen. Será o segundo aumento em menos de um ano em Shenzhen, um município com cerca de nove milhões de habitantes que já tem o salário mínimo mais alto do país, no valor de 1320 yuans. Situada junto a Hong Kong, Shenzhen é também a mais próspera das zonas económicas especiais criadas no final da década de 1970, quando a China lançou a

política de “Reforma e Abertura”. O salário mínimo na China, cujo valor varia de província para província, foi introduzido em meados da década de 1990, quando o país iniciou o processo de conversão à “economia de mercado socialista”. Em Xangai, a “capital económica da China”, o salário mínimo é 1280 yuans, um pouco menos do que em Cantão, a cidade que ocupa o segundo lugar neste ‘ranking’, e mais 120 yuans do que em Pequim.


Discurso após discurso, de forma pontual e cerimoniosa como manda o velho protocolo, lá se fala de Macau como o tal elo de ligação entre a China continental e os países da CPLP. No tempo dos senhores governadores chamavam-lhe a “placa giratória” e viu-se o que ela girava e como. Neste tempos de RAEM, o que se nota é uma timidez inexplicável, uma dinâmica travada, uma aparente falta de à vontade no relacionamento com esses países. Helder Fernando, P.15

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Crescem críticas às regalias da elite política do Partido Comunista

O mundo privado dos príncipes da China

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MA noite no início deste ano, um Ferrari vermelho parou na porta da residência do embaixador americano em Pequim. Quem saiu do carro foi o filho de um dos principais líderes chineses, trajando um smoking. Bo Guagua, de 23 anos, era esperado. Tinha um jantar marcado com a filha do então embaixador, Jon Huntsman. O carro, porém, foi uma surpresa. O pai do rapaz, Bo Xilai, estava a atravessar uma polémica campanha para reviver o espírito de Mao Tse-tung, fazendo as pessoas cantarem os velhos hinos revolucionários, o chamado “canto vermelho”. Havia ordenado que alunos e funcionários públicos trabalhassem em quintas durante certos períodos, para reconectarem-se à vida no campo. O filho, enquanto isso, estava a conduzir um carro que custa centenas de milhares de yuans, vermelho como a bandeira chinesa, num país onde a renda familiar média anual foi de cerca de 30 mil yuans. O episódio, relatado por várias pessoas familiarizadas com Bo Guagua, é sintomático do desafio que se coloca ao Partido Comunista Chinês, enquanto tenta manter a sua legitimidade numa sociedade cada vez mais diversificada, bem informada e exigente. Os filhos dos líderes do Partido, muitas vezes chamados de “príncipes”, estão a tornar-se mais visíveis, tanto pelos seus crescentes interesses comerciais como pelo seu evidente apetite pelo luxo, num momento em que aumenta a indignação pública devido a denúncias de corrupção das autoridades e abuso de poder. Segundo os meios de comunicação estatais, os líderes chineses vivem de acordo com os austeros valores comunistas que defendem publicamente. Mas à medida que os descendentes da aristocracia política conseguem papéis lucrativos no mundo dos negócios e adoptam as manifestações conspícuas de riqueza, a sua visibilidade crescente levanta questões incómodas para um partido que justifica o seu monopólio sobre o poder apontando para as suas origens como um movimento de operários e camponeses.

ERA DOS PRÍNCIPES

Essa visibilidade tem especial ressonância agora que o país prepara-

-se para uma mudança nos quadros da liderança no próximo ano, algo que só ocorre uma vez a cada década, quando vários “príncipes” mais velhos devem assumir cargos altos do Partido Comunista. Essa perspectiva levou algumas pessoas nos círculos empresariais e políticos chineses a perguntarem-se se o Partido será dominado, durante a próxima década, por um grupo de famílias de elite que já controla grandes segmentos da segunda maior economia mundial e exerce influência considerável sobre as forças armadas. “Não há ambiguidade - a tendência tornou-se muito clara”, disse ao “The Wall Street Journal” Cheng Li, especialista em política da elite chinesa na Brookings Institution. “Os príncipes nunca foram populares, mas agora que se tornaram tão poderosos politicamente, há uma séria preocupação sobre a legitimidade dessa ‘Nobreza Vermelha’. O público chinês ressente-se, especialmente, de que os ‘príncipes’ controlem tanto o poder político como a riqueza económica.” A actual liderança inclui alguns príncipes, mas isso é contrabalançado por um grupo rival não hereditário, que inclui o presidente Hu Jintao, que também é o chefe do partido, e o primeiro-ministro Wen Jiabao. Espera-se, porém, que

o sucessor de Hu seja Xi Jinping, o actual vice-presidente, que é filho de um herói da revolução e seria o primeiro príncipe a assumir o principal cargo do país. Muitos especialistas em política chinesa julgam que ele forjou uma aliança informal com vários outros príncipes que são candidatos a promoções. Entre eles está o pai de Bo, que também é filho de um líder revolucionário. Bo Xilai costuma falar sobre os seus estreitos laços com a família Xi. A filha de Xi actualmente estuda em Harvard, onde o filho de Bo faz pós-graduação na Faculdade de Governo Kennedy. Já participante do Politburo, que tem 25 membros, Bo Xilai é um favorito para a promoção ao órgão decisório superior, o Comité Permanente. Supõe-se que os principais líderes chineses não devam ter riquezas herdadas, nem uma carreira nos negócios para complementar os seus modestos salários, que aparentemente giram em torno de 140 mil por ano para um ministro. Os familiares têm autorização para fazer negócios, desde que não lucrem com as suas conexões políticas. Na prática, a origem da riqueza das famílias é, de modo geral, impossível de rastrear.

ENRIQUECIMENTO

No ano passado, os chineses souberam, através da Internet, que o

filho de um ex-vice presidente do país - e neto de um ex-comandante do Exército Vermelho - tinha comprado uma mansão de 32,4 milhões de dólares na Austrália, de frente para o mar. Ele pediu permissão para demolir o casarão secular e ali construir uma nova residência, com duas piscinas interligadas por uma cascata. Muitos príncipes realizam negócios legítimos, mas há uma percepção generalizada na China de que eles levam uma vantagem injusta num sistema económico que, apesar da adopção do capitalismo, continua dominado pelo Estado e não permite nenhum exame público significativo dos processos de tomada de decisão. O Estado é proprietário de todas as terras urbanas e de todas as indústrias estratégicas, assim como dos bancos, que distribuem empréstimos favorecendo, esmagadoramente, as empresas estatais. Assim, os maiores prémios vão para os que estão dentro dos círculos políticos, que podem utilizar as suas conexões pessoais e o prestígio das suas famílias para garantirem recursos, e então mobilizar as mesmas redes de contactos para protegê-los. O “Diário do Povo”, porta-voz do Partido, reconheceu o problema no ano passado, com uma pesquisa a mostrar que 91% dos entrevis-

tados acreditavam que todas as famílias ricas na China vinham da política. Um ex-auditor geral, Li Jinhua, escreveu num fórum online que a riqueza dos familiares das autoridades “é a principal causa de insatisfação do público”. Uma princesa contesta a ideia de que ela e os seus colegas beneficiam-se das suas origens. “Pertencer a uma família famosa do Governo não me proporciona um aluguer mais barato, nem um empréstimo bancário especial, nem contratos governamentais”, disse Ye Mingzi, de 32 anos, designer de moda e neta de um dos fundadores do Exército Vermelho. “Na realidade, os filhos das famílias importantes do Governo são observados rigorosamente. A maioria toma muito cuidado para evitar até mesmo a aparência de um favoritismo indevido.” Durante as primeiras décadas após a revolução de Mao de 1949, os filhos dos chefes comunistas ficaram, de modo geral, fora das vistas da população, vivendo em residências muradas e frequentando escolas de elite. Nas décadas de 1980 e 90, muitos príncipes foram fazer pós-graduação no estrangeiro, e no regresso entravam em empresas estatais ou agências governamentais chinesas, ou bancos estrangeiros de investimento. Mas, de modo geral, mantinham um estilo de vida discreto. Agora as famílias dos líderes chineses mandam os filhos para o estrangeiro em idade cada vez mais tenra, com frequência para as melhores escolas particulares dos Estados Unidos, Grã-Bretanha ou Suíça, para ter certeza de que mais tarde entrarão nas melhores universidades do Ocidente. Príncipes na casa dos 20, 30 e 40 anos ocupam cada vez mais posições de destaque nos negócios. Os príncipes mais jovens são vistos com frequência com modelos, actores e astros do desporto que se reúnem numa rua cheia de discotecas perto do Estádio dos Trabalhadores, em Pequim, para exibir as suas Ferraris, Lamborghinis e Maseratis. Outros já foram vistos a falar de negócios enquanto fumavam charutos e a beberem vinhos de boa safra, em locais exclusivos como o Clube Maotai, uma casa histórica perto da Cidade Proibida.


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LAG

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Fronteira vai ter mais trabalhadores e sistemas automáticos

Libertar os militarizados Joana Freitas

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joana.freitas@hojemacau.com.mo

REFORÇADOS POLICIAMENTO E COMUNICAÇÃO COM MÉDIA Tendo as contas os dados anuais da criminalidade, que mostram cerca de meio milhar de casos relacionados com os casinos, Cheong Kuok Vá afirma reforçar a segurança nestes locais. Agentes policiais vão ser destacados 24 horas para as zonas circundantes dos casinos e para dentro dos próprios. Na calha está também a troca de informações com Singapura, outro dos locais que tem também salas de jogo. Quanto aos crimes de tráfico e consumo de droga, o secretário afirma que “Macau ainda não pode ser visto como ponto de trânsito” para a passagem de estupefacientes, mas não descura a preocupação. Cheong Kuok Vá explica que os principais factores para que este tipo de crimes ocorram no território são as penas aplicadas aqui e o baixo preço a que a droga pode ser comprada. Cheong Kuok relembra que a detecção de crimes relacionados com droga depende da troca de informações, mas afirma que o combate vai ser reforçado. Depois dos recentes conflitos entre órgãos de comunicação social e polícias, o secretário para a segurança afirma que as técnicas de comunicação com os média vão ser melhor reforçadas. - J.F.

CONTRABANDO DE TABACO DEBAIXO DE OLHO Instado a comentar acerca dos planos relativamente ao contrabando de tabaco por Au Kam San, o secretário para a Segurança afirmou que vai ser reforçada a fiscalização nas fronteira, não só nas malas como nos camiões de carga. Com a entrada em vigor da Lei contra o Tabagismo, o imposto sobre o tabaco irá aumentar, algo que poderá incitar ao contrabando deste produto. - J.F.

HEONG Kuok Vá anunciou ontem o ingresso de mais 108 trabalhadores nos postos fronteiriços que ligam Macau às regiões do Delta do Rio das Pérolas. A preocupação dos deputados com a morosidade na passagem pelas fronteiras, devido à falta de recursos humanos que impedem a abertura de mais canais fora das horas de ponta, foi demonstrada na Assembleia Legislativa (AL) e o secretário para a Segurança assegurou que iriam ser tomadas medidas para resolver esse problema. Mas se as críticas dos deputados se prendem sobretudo com a falta de recursos humanos nos postos de controlo, algo que obriga à formação de grandes filas para atravessar as fronteiras, as actuais medidas que estão a ser tomadas para resolver provisoriamente este problema também incomodam. Agentes militarizados estão a ser “absorvidos” pelos serviços de migração, em vez de existirem civis formados para colmatar essas falhas. “Os agentes têm dias de feriado ou folgas constantemente cancelados devido às necessidades provenientes do fluxo de turistas. Não pode aumentar-se o número de civis para que fiquem nos postos fronteiriços?”, questionou Sio Chi Wai. Angela Leong critica também o facto de muitos dos agentes militarizados serem deslocados para trabalhar nos serviços de fron-

teiras – em balcões ou secretarias -, impedindo a utilização desses agentes noutros tipos de trabalhos, como o combate ao crime ou ao patrulhamento. Cheong Kuok Vá assegurou que vai ser reforçado o número de pessoal. “Estamos a contratar 108 pessoas [civis] para os serviços de migração, para que possamos libertar mais polícias. Neste momento, mais de mil agentes estão

nos serviços de migração”, disse o secretário, que admitiu existirem “muitas unidades [policiais] com falta de pessoal”. Na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) para a sua tutela, ontem na AL, Cheong Kuok Vá frisou a escassez de recursos humanos na área da segurança e afirma existirem ainda cerca de 300 vagas por preencher no serviço de fronteiras.

Inscritos nas passagens automáticas das fronteiras • TERMINAL MARÍTIMO DO PORTO EXTERIOR: Residentes de Hong Kong Não-residentes Estudantes Titulares de vistos comerciais Propósito de visita a familiares

160 mil 76 mil 8200 3100 16 mil

• PORTAS DO CERCO Residentes de Macau Não-residentes Alunos Propósito de visita a familiares

40 mil 50 mil 2000 20 mil

A aposta, diz o secretário, é na contratação gradual de pessoal, na realização de cursos de formação e na abertura de concursos duas vezes por ano. Além do recrutamento de mais 108 funcionários, vão ainda ser implementados mais sistemas de passagem automática. Actualmente, existem um total de 179 acessos deste tipo, algo que “aliviou a pressão sobre os recursos humanos e aumentou a eficiência”, diz Cheong Kuok Vá, mas o secretário prevê alargar o sistema. Para 2012, por exemplo, está previsto a implementação de um sistema de leitura electrónica para os portadores de salvo conduto da China, impedindo que estes tenham de passar pelo balcão manual. Cheong Kuok Vá – que explica que o continente pretende alterar os salvo-condutos para cartões com chip – mostra-se confiante que esta é uma inovação que “resolverá a maioria dos problemas”, já que o maior número de visitantes são provenientes da China.

FALTA DE SEGURANÇA PREOCUPA Cheong Kuok Vá diz que há policiamento nos postos fronteiriços, mas Paul Chan Wai Chi assegura nunca ter visto, por exemplo, militares do pelotão cinotécnico. Ho Ion Sang pediu também mais reforço de segurança nestes locais, não só com agentes deste pelotão, mas também com a implementação de uma máquina de raio-X, semelhante à do Aeroporto, que permite a detecção de droga no corpo humano.

DEPUTADOS PREOCUPADOS COM A CRIMINALIDADE INFORMÁTICA

VIDEOVIGILÂNCIA NOS BAIRROS ANTIGOS DEVIA SER PRIORIDADE

Até Setembro deste ano foram contabilizados 130 mil utilizadores de Internet, o que representa 24% da população de Macau. A criminalidade informática fez, por isso, tema das intervenções dos deputados, ontem na apresentação das Linhas de Acção Governativa (LAG) para a Segurança. Angela Leong estreou a temática e pediu o reforço do controlo da parte das autoridades, “não só porque as pessoas conseguem fácil acesso a informações negativas, como também por serem espalhadas na Internet informações privadas como medida de retaliação”. A deputada diz existir uma “zona melindrosa a nível jurídico” relativamente à criminalidade informática, uma vez que não há lei específica de como prevenir e combater este tipo de ilegalidade. “Muitas vezes os jovens cometem crimes sem saberem que o estão a fazer”, frisa Angela Leong. Cheong Kuok Vá diz que o cibercrime mostra tendência para aumentar e mostra dados: de Janeiro a Setembro 110 processos foram instaurados. O secretário para a Segurança diz que os serviços competentes estão a preparar a legislação necessária e lembra que foi já criada uma divisão própria para combater este tipo de ilegalidade. A aplicação da lei, dizem os responsáveis, é algo difícil mas o pessoal será preparado com formação específica da área. - J.F.

O sistema de videovigilância é necessário nos bairros antigos, defendem os deputados, mas está previsto para ser instalado apenas na última das três fases de implementação. Angela Leong critica a decisão do secretário para a Segurança, que diz “estar a dar mais prioridade aos turistas do que aos residentes”. Recorde-se que estão previstas as instalações de cerca de 400 câmaras de vigilância no território, sendo os postos fronteiriços e as vias com maior trânsito os locais pioneiros a receberem este sistema. O aumento do crime em 5% preocupa, no entanto, os deputados, que lembram que as burlas e furtos (crimes topo na tabela) acontecem principalmente nos bairros antigos. Chui Sai Cheong diz que estes locais carecem de falta de vigilância, não só automática como humana, e Sio Chio Wai questiona se a implementação das câmaras nos bairros antigos não poderá ser feita “o quanto antes”. Cheong Kuok vá recorda que a legislação está neste momento em auscultação pública e que, após se ouvirem as opiniões dos cidadãos, “até pode ser que a implementação das câmaras passe para a segunda fase”. Ainda assim, o secretário não promete nada. - J.F.


GDSE COM LUZ VERDE PARA CONTINUAR

O Gabinete para o Desenvolvimento do Sector Energético (GDSE) vai continuar em actividade durante mais um ano, pelo menos é o previsto para já. A decisão de prolongar o período de funcionamento deste gabinete para o próximo ano foi ontem publicada em Boletim Oficial, por despacho assinado pelo Chefe do Executivo. No documento está explicada a decisão, que se justifica pela liberalização do sector da energia, o desenvolvimento do serviço público de importação e transporte de gás natural, da correspondente rede de distribuição e também devido à utilização racional dos produtos energéticos. Outros motivos devem-se ao acompanhamento e fiscalização das actividades das concessionárias de serviços públicos no âmbito do sector energético.

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Remunerações dos agentes de segurança podem aumentar para atrair trabalhadores

Joana Freitas

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AMOS ponderar elevar os salários e as remunerações s u p l e m e n t a re s das forças de segurança pública, em 2012. E todos os militarizados vão beneficiar-se disso”, frisou ontem Cheong Kuok Vá. O secretário para a Segurança apresentou as Linhas de Acção Governativa (LAG) na Assembleia Legislativa (AL) e avançou que iria apresentar a proposta no próximo ano. O objectivo é não só atrair mais agentes de segurança, mas também conseguir manter os que estão já em idade de aposentação. “Os polícias que possam pedir a reforma, se estiverem aptos fisicamente podem continuar a exercer. Se actualizarmos a remuneração complementar podemos reter esses agentes com experiência”, frisou Cheong Kuok Vá. Perante a afirmação do secretário de que a área da segurança sofria também com a concorrência profissional, Ho Ion Sang criticou o facto de muitos dos agentes trabalharem mais de 60 horas por semana, quando acontecimentos assim o exigem, algo que faz com que haja “uma fuga para o privado”, até porque as remunerações e subsídios não compensam o excesso de trabalho. Cheong Kuok Vá diz mesmo que a Polícia de Segurança Pública (PSP) sofre todos os anos com a fuga de cem agentes, por aposentação, indisciplina e outros ainda “porque preferem os sectores privados devido a poderem ocupar categorias superiores na administração pública”, explica o secretário. Reduzir as horas de trabalho extraordinário estão nos planos de Cheong Kuok Vá, mas o responsável lembra que muito do trabalho da Polícia de Segurança Pública (PSP) é transferido para a Polícia Judiciária (PJ). Cheong Kuok Vá afirma que muitas patrulhas serão assumidas pelos trabalhadores da PSP, de forma a aliviar a pressão sobre os da PJ.

REESTRUTURAÇÃO PRECISA-SE

Cheong Kuok Vá deverá entregar até Junho a proposta de lei para alargar o quadro dos agentes dos Serviços de Alfândega (SA), mas a intenção de reestruturar o quadro de pessoal não passa só por aqui.

ANTÓNIO FALCÃO

Evitar fugas para a concorrência

O secretário para a Segurança disse ontem, sem adiantar muitos pormenores, que vai ser feita mais reestruturação de pessoal. Mas avisa “como as funções de cada serviço são diferentes a reestruturação não é feita em simultâneo”.

Chan Meng Kam acusa o responsável da tutela de gerir mal o pessoal e de dispensar muito do erário público no excesso de recrutamento de trabalhadores, sem que a eficiência seja elevada. Os deputados lembram ainda

que a escassez de recursos humanos vai piorar na abertura do novo Campus da Universidade de Macau e dos novos aterros. Cheong Kuok Vá aceita a necessidade de mais funcionários até porque, diz, a ponte de Hong Kong-

-Macau-Zhuhai vai precisar de agentes alfandegários, de trânsito, serviços de fronteiras e bombeiros. O aumento das despesas, justifica, não será só com a contratação de pessoal, mas também pelo facto de ter de se apostar na tecnologia.

SHENZHEN E MACAU ASSINAM VÁRIOS ACORDOS DE COOPERAÇÃO

Mais amigos com português à mistura Gonçalo Lobo Pinheiro glp@hojemacau.com.mo

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HENZHEN e Macau estão mais próximos. Ontem foram assinados três acordos nas áreas das indústrias culturais e criativas, turismo e investimento. À margem das assinaturas da carta de intenções, o presidente do município de Shenzhen, Xu Oin, revelou ainda que estão a ser criadas condições para o aparecimento de um mecanismo de cooperação com os países lusófonos. “É preciso criar um mecanismo para promover a cooperação com todos os países de língua portuguesa”, assumiu durante a conferência de imprensa no final da reunião de cooperação Macau-Shenzhen. “É importante aproveitar as vantagens de Macau para reforçar a cooperação de Shenzhen com os países de língua portuguesa”, explicou Xu Oin. O secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, mostrou-se satisfeito com a intenção dos vizinhos e demonstrou total disponibilidade em ajudar Shenzhen no cumprimento desse objectivo. No imediato, a cidade será convidada por Macau a participar no encontro comercial que terá lugar em Cabo Verde durante o próximo ano, no âmbito do Fórum para a Cooperação Económica entre a China e os Países de Língua Portuguesa.

Estão assim lançados dos dados e “incentivos à criação de relações de parceria entre empresas de ambos os territórios para exploração do mercado dos países da língua portuguesa”, segundo Tam.

PROMOÇÃO DE DIVERSOS PROJECTOS

Desde 2010 que Shenzhen e Macau se têm aproximado em diversas frentes. Ontem, Francis Tam destacou essa importância e carimbou a sua continuidade. “Vamos intensificar todos os âmbitos, dando continuidade à promoção os de diferentes projectos”, afiançou. Em relação às tão faladas indústrias culturais e criativas, o secretário revelou que está a ser preparada a participação dos artistas de Shenzhen na próxima edição da Feira Internacional de Macau (MIF, na sigla inglesa). “Que Shenzhen faça uma mostra de produtos artísticos e artefactos, para maior eficácia da plataforma da cooperação e intercâmbio bilateral ao nível da indústrias criativas e da exposição e comércio de produtos culturais.” O Chefe do Executivo da RAEM, Fernando Chui Sai On, já defendeu por diversas vezes que a cooperação regional é um dos mais importantes trabalhos das Linhas de Acção Governativa (LAG) do Executivo, sublinhando os avanços registados no ano passado e novos progressos

e oportunidades, tais como o “Acordo-Quadro de Cooperação entre Guangdong e Macau”, assinado em Março, para um maior desenvolvimento da cooperação entre Shenzhen e Macau. A nota de imprensa divulgada pelo Governo é clara. Chui Sai On, assinalou, na reunião de ontem, que a cooperação é para continuar e que existe também uma “boa tendência de desenvolvimento nas áreas comercial, cultural e social”. No sentido da diversificação, e respeitando a bitola assumida por Chui Sai On, o secretário Francis Tam expressou a vontade de Macau em “reforçar o estudo na área da medicina e farmacêutica tradicional chinesas”.

APOSTA NOS DESTINOS CONJUNTOS

O turismo também foi abordado. Macau e Shanzhen querem apostar na promoção de destinos conjuntos e não excluem a participação de Hong Kong. “Tudo num espírito de respeito mútuo para estabelecer em conjunto novas medidas de regulamentação do mercado”, assumiu Xu Oin No futuro, Macau quer ainda estudar formas de potenciar com a cidade chinesa vizinha questões em matéria de reconhecimento de qualificação profissional, inspecção sanitária, protecção ambiental e infra-estruturas de transporte, além do reforço conjunto de mecanismos de contacto e trabalho e de conteúdos.


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6 Os médicos do hospital Kiang Wu foram absolvidos de uma acusação de negligência médica, mesmo depois de não terem conseguido diagnosticar que uma paciente tinha partido uma vértebra. O Tribunal de Segunda Instância (TSI) reconhece que é difícil tomar uma decisão, mas afirma que em Macau há um crescente desinteresse dos profissionais de saúde em tratar os pacientes

SOCIEDADE Tribunal dá razão ao Kiang Wu mas deixa recado violento

“Médicos revelam desinteresse no tratamento dos doentes” Vanessa Amaro

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vanessa.amaro@hojemacau.com.mo

MA mulher que caiu da mota e partiu uma vértebra teve de ir a China para ter o diagnóstico correcto do seu problema. Mas antes gastou mais de 60 mil patacas em exames inconclusivos e consultas com diferentes especialistas no Hospital Kiang Wu, que lhe receitaram medicamentos e encaminharam-na para sessões de fisioterapia sem ter a certeza do problema. A motociclista recorreu à Justiça para provar que houve negligência médica e que, durante mais de dois anos, sofreu de dores que poderiam ter sido antes remediadas. O Tribunal Judicial de Base (TJB) acabou, no entanto, por dar razão aos profissionais do hospital privado, ao considerar que

não era possível avaliar se os danos sofridos resultaram da ausência de tratamento correcto ou se foram consequência de outras lesões. Inconformada, a mulher recorreu à Segunda Instância e viu o seu recurso ser recusado pelas mesmas razões da primeira decisão, segundo um acórdão ontem divulgado. A paciente queria receber cerca de 705 mil patacas de indemnização

por danos não patrimoniais e sai do processo de bolsos vazios, mas com a vértebra já tratada – em Foshan, que fique claro. Contudo, o colectivo de juízes da Segunda Instância não tem dúvidas num ponto: cada vez há mais casos de negligência médica nas barras dos tribunais. “Nem sempre é fácil discernir até que ponto existe efectivamente erro médico, uma actuação

MACAU APROXIMA CHINA DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA NA SAÚDE

Todos desejam a cooperação Nuno G. Pereira

nuno.pereira@hojemacau.com.mo

“E

SPERO que seja tão importante como o Big Bang foi para o Universo, o início de algo muito grande.” Foi com este entusiasmo que o bastonário da Ordem dos Médicos de Portugal, José Manuel Silva, falou sobre a primeira Conferência Internacional de Medicina de Macau-China e Países de Língua Portuguesa. A intervenção aconteceu ontem, em Macau, durante o painel “Cooperação na Saúde: China e Comunidade de Países de Língua Portuguesa”. Houve muitas descrições sobre a saúde em cada país que se fez ouvir, mas acima de tudo sobressaiu uma ideia: todos querem pôr a colaboração a dar frutos.

O tema do painel contou com palestras de outros bastonários e representantes de Ordens dos Médicos, vindos da China, Angola, Brasil, Moçambique e Cabo Verde, além de Portugal. Cada orador fez uma contextualização das vantagens e desafios que os médicos enfrentam no seu país. Por isso, a sessão serviu muito mais como partilha de experiências e estabelecimento de intenções do que propriamente como uma apresentação de soluções concretas de cooperação. Percebeu-se também que a lógica do desenvolvimento tem repercussões naturais no posicionamento de cada país. Angola, Moçambique e Cabo Verde esperam ajuda, Brasil e Portugal querem dá-la do ponto de vista da experiência e a China está, de

forma subentendida, preparada para abrir os cordões à bolsa. Nem tudo, porém, é linear, pois a China também vê com agrado a troca pura de conhecimentos entre a sua medicina mais tradicional e a escola ocidental. E até os países com mais lacunas neste campo têm mais-valias a oferecer. Como explicou Rosa Bessa Campos, os médicos angolanos têm uma experiência única a lidar com a malária.

JOGO DAS DIFERENÇAS

Encontrar diferenças entre os países envolvidos nesta cimeira era fácil, mas o quadro mais extremo ficou desenhado quando Júlio Andrade, de Cabo Verde, apresentou uma conta simples. “Somos um micro-Estado, com cerca de 500 mil habitantes. Ou seja, menos

negligente, ou apenas falta de meios para um correcto diagnóstico”, apontam João Augusto Gil de Oliveira, Ho Wai Neng e José Cândido de Pinho. “No entanto, casos têm surgido em que é nítida a falta de cuidados nos serviços de saúde e o desinteresse revelado pelos profissionais no atendimento e tratamento dos doentes, quer a nível hospitalar público ou privado, quer a nível da própria clínica.”

do que o número de médicos da China.” Bem menos, aliás, pois a ordem chinesa contabiliza no seu site, em letras bem destacadas, a cifra de dois milhões de médicos. A comparação foi encarada com alguma ternura, ao contrário de outros números, muito mais preocupantes. “Na nossa população, 16,3% das pessoas estão infectadas com HIV”, recordou Aurélio Zilhão, de Moçambique. Um caos agravado com o facto de só haver um médico para cada 35 mil habitantes, numa população de 22 milhões. Mais animadores foram os relatos vindos de Portugal e Brasil. Este último, representado por José Bonamigo, deu, entre alguns exemplos, o êxito sólido do turismo médico, que traz muita gente ao Brasil para fazer tratamentos e recobro em clima de férias.

CHINA DE BRAÇOS ABERTOS

Macau, como se sabe, quer crescer no seu papel de plataforma

Os juízes reconhecem que a responsabilização médica não é fácil, já que o diagnóstico de um paciente depende da actividade de toda uma equipa de profissionais. Em caso de erro médico, ou seja, a conduta profissional inadequada com técnica incorrecta e consequentes danos ao paciente, o tribunal entende que se entra no campo da natureza contratual – baseada na ideia de que paciente e médico celebram um contrato em que o incumprimento das obrigações pode originar responsabilidade contratual. Durante a validade do “contrato”, tanto médico como doente têm deveres a cumprir. “O médico não pode nem deve prometer a cura do doente, limitando-se a dispensar-lhe os cuidados julgados necessários. A cura não depende apenas da actuação do médico.”

privilegiada entre países lusófonos e China. Tal como noutras áreas, porém, já existem relações bilaterais entre China e países de língua portuguesa, assim como entre as próprias nações da lusofonia (via, neste caso, a Comunidade Médica de Língua Portuguesa). Um “problema” que aparentemente ninguém sente, a começar pela China. Segundo Yang Jin, “o Governo chinês sempre deu muita importância à colaboração com os países de língua portuguesa”. E adiantou que Macau é o espaço natural para funcionar como plataforma privilegiada de ligação. Um ponto onde todos estão de acordo, permitindo encarar com optimismo os trabalhos da conferencia. Como disse José Manuel Silva sobre a colaboração que se pretende fazer crescer, “há condições, há vontade e, por isso, espero que os resultados surjam”.


ECLIPSE TOTAL DA LUA COM VISIBILIDADE EM MACAU DIA 10

Na noite de10 de Dezembro vai ser possível ver o eclipse total da Lua em Macau. Uma série de actividades de observação estão a ser organizadas pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais e o Centro de Ciência de Macau. Os participantes devem utilizar o serviço de transporte (gratuito) e evitar levar a sua viatura, porque na altura vai ser restrita à circulação de veículos no Jardim da Taipa Grande. Por outro lado, serão oferecidas lembranças aos todos participantes. Os interessados podem informarse no website do IACM ou, na hora de expediente, telefonar para o 2833 7676. A inscrição é gratuita mas com a limitação de 500 pessoas.

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Segunda Instância aceita recurso contra Chefe do Executivo em caso dos retroactivos

Enfermeiros avançam na luta Vanessa Amaro

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Vanessa.amaro@hojemacau.com.mo

ÃO nove enfermeiros a lutar individualmente na Justiça pela mesma causa, mas estão a ter decisões diferentes por parte do Tribunal de Segunda Instância (TSI). Foi revelado ontem um novo acórdão a aceitar o recurso de um enfermeiro, que trabalha para os Serviços de Saúde há mais de 11 anos. Em Julho do ano passado, o colectivo de juízes rejeitou quatro recursos similares e decidiu dar provimento a apenas um deles. Esta semana, um vitorioso entra para a lista. A polémica começou em 2009, quando o Executivo propôs alterações à carreira de enfermagem, que deixariam automaticamente de fora os profissionais com contrato individual de trabalho – como é o caso de nove enfermeiros portugueses do Centro Hospitalar Conde de São Januário. A legislação foi aprovada pela Assembleia Legislativa e não contemplava o pagamento de retroactivos desde 1 de Julho de 2007 para os contratos individuais. Em meados de 2010, o grupo dos excluídos recebeu notificações por parte dos Serviços de Saúde (SS), a informar que o pagamento dos novos índices

Gonçalo Lobo Pinheiro glp@hojemacau.com.mo

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ISCUTIU-SE o estado do trabalho em Macau mas não se chegou a conclusões. Ontem, a reunião da Comissão Executiva do Conselho Permanente de Concertação Social discutiu a Convenção da Organização Internacional de Trabalho, o regime de tempo parcial, o concurso público para trabalhadores das limpezas e segurança e a contratação de trabalhadores não-residentes. Actualmente, a lei prevê que o impedimento de seis meses tenha de ser cumprido quer o empregado seja despedido com justa causa ou o trabalhador se despedir, algo

A batalha começou em Agosto de 2009, quando entrou em vigor o novo regime da carreira de enfermagem, que excluiu da lista de benefícios nove enfermeiros portugueses. Após ter recusado quatro recursos contra o Chefe do Executivo, o Tribunal de Segunda Instância (TSI) acordou este mês em dar andamento a um dos processos salariais aconteceria apenas a contar de Agosto de 2009, altura em que a proposta de lei de revisão do regime da carreira de enfermagem foi aprovada. Inconformados, os profissionais

interpuseram recursos independentes no TSI e têm conhecido decisões diferentes. No último acórdão sobre o tema, os juízes João Augusto Gil de Oliveira e Tam Hio Wa aceita-

ram o recurso, mas Chan Kuong Seng votou contra, emitindo uma declaração de voto em que justifica a sua posição. “Não se pode considerar essa decisão de recusa [do Chefe do Executivo em

considerar os retroactivos desde 2007] como uma determinação que tenha imposto autoridade pública sobre a própria pessoa do recorrente [o enfermeiro]”, aponta Chan, acreditando que o caso não se prende a nenhuma questão do âmbito de matéria administrativa. O juiz considera que o impasse deve ser antes tratado pelo Direito Civil e não pelo Administrativo. Já Gil de Oliveira e Tam Hio Wa entendem que o enfermeiro põe em causa a legalidade de um determinado acto do Chefe do Executivo, que entende ser um acto administrativo. Assim sendo, consideram que “os tribunais administrativos são competentes para apreciar a sua pretensão, mesmo que seja de entender que será de rejeitar o recurso por falta de um pressuposto relativo ao objecto do processo, como seja a existência de um acto administrativo”. A dupla aponta ainda que não cabe ao TSI “ordenar a citação da entidade recorrida” e considera que a decisão cabe aos tribunais administrativos. Três enfermeiros ainda aguardam pelo desfecho do seu processo. Os quatro com os recursos rejeitados também estão à espera de uma posição depois da sua defesa ter apresentado reclamações à conferência de juízes devido à disparidade dos acórdãos.

COMISSÃO DE CONCERTAÇÃO SOCIAL SÓ TERÁ NOVIDADES NO FINAL DE DEZEMBRO

Trabalho sem conserto que as associações que representam os trabalhadores não-residentes consideram injusto. Muitas vezes os trabalhadores despedem-se por serem maltratados ou descriminados e não têm como provar a sua inocência. “Os patrões concordam com a lei actual, mas a parte laboral ainda apresenta diversas reservas. Temos de continuar a discutir esta situação”, referiu aos jornalistas o director dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), Shuen Ka Hung.

Para já, o impedimento de permanência no território por seis meses depois de findo o contrato é o que está a valer. Shuen Ka Hung não quis comentar quando abordado sobre se considera justa essa premissa. “Conforme o que for acordado com as partes é que se verá o que o Governo pode fazer. Existe uma diferença entre patrões e empregados e ainda temos de ouvir a posição do Gabinete para os Recursos Humanos e dos Serviços de Migração do

CPSP”, explicou o director da DSAL. Shuen Ka Hung lembrou ainda que “estamos na primeira fase da discussão”. “Vamos aguardar por 29 de Dezembro, data da nossa próxima reunião.” Seja como for, caso seja aprovada a proposta de alteração à Lei de Contratação de Trabalhadores Não-Residentes, Shuen Ka Hung continua a defender que os trabalhadores poderão mudar de empregador mas não de emprego. “Se entrou em

Macau para ser empregada doméstica tem de continuar a sê-lo. Só assim se pode pensar na não existência do impedimento de seis meses”, esclareceu anteontem no encontro que teve com a associação de migrantes indonésios PEDULI.

TEMPO PARCIAL

Também reservado para o final do ano está a posição do Conselho em relação ao regime de tempo parcial. “Apesar de ter havido alguns consensos” e “este ponto ter sido o

que menos durou a discutir”, Shuen Ka Hung explicou que não existe uma decisão final. “É preciso trabalhar na definição deste regime. A parte patronal exige que o tempo de trabalho de cada semana seja de quatro dias e que a relação de contrato não deva ultrapassar os seis meses. Contudo, as suas intenções esbarram ainda mais com as intenções dos trabalhadores quando se trata de regalias básicas”, afirmou o director da DSAL. Shuen Ka Hung defende que, em última instância, será sempre o Governo a “considerar os requisitos definidos pelas duas partes e decidir quais as exigências que devem ser consideradas”.


vida

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Duas semanas para discutir o estado do ar

Esperança para Durban Maria João Belchior

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BRIU ontem em Durban o encontro das nações para discutir as alterações climáticas. O mundo volta a reunir-se para procurar uma solução urgente que concilie o desenvolvimento económico com a protecção ambiental. Mas enquanto sobem as temperaturas e o nível da água do mar, um consenso entre 194 actores de diferentes países parece difícil de atingir. Do lado chinês Xie Zhenhua, vice-director para Reforma e Planeamento, e Su Wei, a principal figura nas negociações sobre as alterações climáticas, vão representar os interesses de um país que diz estar a meio caminho para o desenvolvimento. Para a China é importante seguir

C

OMO afugentar um elefante inconveniente? A resposta clássica dos filmes de animação é usar um pequeno ratinho. Mas a ciência ultrapassa a ficção: as minúsculas abelhas são a melhor forma de afastar dos terrenos cultivados os enormes elefantes, receosos das suas picadas. A descoberta já deu bons resultados no Quénia e valeu à bióloga britânica Lucy King um prémio do Programa de Ambiente das Nações Unidas. Os elefantes fazem longas migrações e podem tornar-se um problema para as crescentes populações africanas, que surgem cada vez mais no seu caminho. Onde antes encontravam apenas savana, agora são confrontados com barreiras levantadas pelo homem, que os obrigam a passar por áreas

o Protocolo de Quioto com metas estabelecidas para todos. Mas a dúvida persiste sobre as intenções das centenas de representantes que se encontram agora na África do Sul.

O DEPOIS DE QUIOTO

Com o fim do protocolo marcado para 2012, a questão sobre que atitude vão assumir as nações industrializadas deixa muitas dúvidas. Assinado em 1997 para entrar em vigor em 2005, o Protocolo de Quioto serviu como carta de intenção com compromissos sobre a redução da emissão de gases por parte dos países desenvolvidos. Os objectivos estabelecidos de redução do efeito de gases que criam o efeito de estufa foram definidos consoante o país e, na dificuldade de serem atingidos por medidas a nível nacional,

CIÊNCIA CONFIRMA MITO DOS FILMES DE ANIMAÇÃO

Como se afugenta um elefante? Com abelhas, claro cultivadas, onde se podem tornar um perigo para os seres humanos. As abelhas podem ser uma forma de travar a passagem dos elefantes por zonas arriscadas tanto para eles como para as pessoas. Estudos anteriores ao trabalho desta cientista da Universidade de Oxford já tinham indicado que os elefantes da savana africana sabem manter a distância adequada das abelhas. Um estudo mostrou que as acácias com colmeias

Planeta em números

88.495

hectares ocupavam o território da Indonésia em 2008. Desde a década de 90, 25% de floresta virgem já foi destruída no país.

sofrem muito menos danos por manadas de elefantes do que as que não têm nenhuma colónia de abelhas.

O que Lucy King fez foi apurar esta investigação, monitorizando a resposta que 17 famílias de elefantes africanos

Quioto estabeleceu métodos que seriam transversais a todos como, por exemplo, a compra de créditos de carbono e certificados de redução das emissões. A dúvida sobre o que vai acontecer depois de 2012 quando Quioto acaba levanta várias hipóteses. Os países desenvolvidos podem concordar em continuar e alargar as metas do protocolo por um período de anos a definir ou podem simplesmente vetar contra a continuação de Quioto, estabelecendo diferentes metas com acordos mais curtos. O Japão, Canadá e a Rússia deixaram sinais no ano passado no México que poderão não vir a aceitar um novo Quioto. Países em vias de desenvolvimento como a China são hoje um dos principais emissores de gases a nível mundial. Só que por outro lado, a China está também nos primeiros

ao serem confrontadas com a gravação do som das abelhas africanas quando agitadas – produzem um ruído de baixa frequência, que é um verdadeiro sinal de retirada para todos os elefantes. Baseando-se nesta interacção comportamental das duas espécies, Lucy King desenvolveu umas cercas com colmeias a distâncias regulares para afastar os elefantes. Estas começaram a ser testadas desde 2008 no Quénia, num projecto-piloto, em 17 quintas, e foram já adoptadas em três distritos daquele país africano. Desde então, só seis elefantes atravessaram as cercas, diz um comunicado do Programa de Ambiente das Nações Unidas (PNUA), que divulga o trabalho de King. “Ao reduzir os conflitos entre as pessoas e os elefantes, Lucy King concebeu uma solução construtiva que leva em conta as necessidades migratórias dos animais, mas também os benefícios económicos para as comunidades locais, relacionados com a conservação das espécies”, explicou Elizabeth Maruma Mrema, secretária executiva da Convenção para a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Selvagens do PNUA, que premiou King.

DIZER AMOR N • Dois de cen


CRISE LEVA MAIS GENTE PARA AS FLORESTAS EM BUSCA DE COGUMELOS

Todos os anos, por esta altura, as florestas da região de Viseu enchem-se de apanhadores de cogumelos, mas este ano a crise está a levar mais gente para as matas em busca da “carne dos pinhais”. No topo da lista dos mais procurados estão os carnudos míscaros (Tricholoma Equestre) e os suculentos boletos (Boletus Edulis), por serem as espécies mais conhecidas e também as que oferecem mais confiança a quem consome. Poucas são as mercearias tradicionais na cidade de Viseu que, mal chega o Outono, não têm à venda, quase sempre em sacos de meio quilo, cujo preço varia entre os 10 e os 20 euros.

lugares no que toca a investimentos em energias renováveis. Ao grupo dos que não estão no conjunto das nações industrializadas, apesar de terem economias mais saudáveis do que a dos países desenvolvidos, junta-se o Brasil, a África do Sul e a Índia. Para Pequim, o Protocolo de Quioto deve continuar com novas metas definidas para os países desenvolvidos. Para os Estados Unidos que nunca assinaram o protocolo, a China tem de assumir uma responsabilidade maior para a redução das emissões.

BOAS INTENÇÕES CHINESAS

O investimento chinês em energias renováveis fez desta uma indústria chave no país na última década. Para o final de 2011, espera-se que a China tenha instalado mais painéis solares que os Estados Unidos. Embora ainda pequena, a presença dos painéis nos telhados das habitações por toda a China tem-se tornado comum. E mesmo em locais economicamente deprimidos, o sol está a mostrar-se como uma fonte de energia barata para habitações próprias. É um es-

forço ainda pequeno se se tiver em conta que mais de metade da energia continua a vir do carvão. Porém, o poder do lobby na China faz que grandes nomes de empresas públicas de energias renováveis, exemplo da Sinovel na energia eólica, também tenham interesse nas metas a serem estabelecidas para o futuro. Para alguns países industrializados, a China deve cumprir metas iguais mesmo não tenho atingido o estatuto de país industrializado. Mas esta é uma ideia que enfurece Pequim que continua a definir-se como a caminho do desenvolvimento. De Durban espera-se que venha a ser um passo mais. Não um passo gigante para o mundo mas um no caminho certo para a redução dos riscos trazidos pelas alterações climáticas. Políticos, cientistas, empresários e activistas, esperam conseguir um consenso em reuniões durante duas semanas. Mas depois da desilusão que foi a cimeira em Copenhaga há dois anos, o encontro na África do Sul recebe as mesmas pastas mas com expectativas mais baixas. Enquanto as águas vão subindo e descendo um pouco em todo.

Click ecológico

NA LÍNGUA DOS PINGUINS ntenas de pinguins saúdam-se à chegada em Chubut, a província argentina mais ao sul.

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CONSUMIDORES QUEREM SABER QUAL O VEDANTE USADO NAS GARRAFAS DE VINHO

Todos unidos pela cortiça A

petição a apelar que os rótulos das garrafas de vinho passem a informar se o vedante é de cortiça ou sintético já deu entrada no Parlamento português, reunindo quase 12.000 assinaturas de produtores e consumidores

que reclamam o direito a optarem pela cortiça. O objectivo do documento, que aguarda agora discussão pública, é possibilitar ao público uma escolha informada para que os consumidores possam “escolher um produto que seja mais correcto do ponto de vista ambiental e que traga mais-valias socioeconómicas para o país”, numa “discriminação positiva” dos vinhos que assim “defendem a biodiversidade dos montados de sobro e diminuem a pegada de carbono”. Pedro Borges é o autor da petição e, reconhecendo que essa representa uma reivindicação já antiga, declarou à Lusa: “Estamos confiantes de que esta proposta vai passar a lei, porque não envolve qualquer tipo de proteccionismo. Trata-se apenas de prestar uma informação completa ao consumidor, para que ele faça as suas opções de compra como bem entender”. O dinamizador da iniciativa afirma que a maioria dos consumidores portugueses de vinho está consciente das vantagens da rolha natural e terá assim possibilidade de evitar decepções, como acontece de cada vez que “chegam a um supermercado ou restaurante, escolhem uma garrafa e só ao abri-la percebem que tipo de vedante ela usava”. Sobre a receptividade dos produtores quanto às eventuais alterações a implementar nos rótulos das suas marcas, Pedro Borges admite: “Há uns anos a cortiça tinha uma imagem negativa e muitos produtores quiseram demarcar-se dela. Mas hoje já perceberam que ela tem vantagens e que a tendência dos consumidores é para valorizar os produtos com cortiça natural”. Diogo Albino, gestor da marca “Torre do Frade”, que em 2010

desenvolveu uma campanha de marketing valorizando precisamente a rolha de cortiça, reconhece que cada produtor “já tem a opção de referir ou não esses dados no rótulo dos seus vinhos”, mas garante: “Ainda muito pouca gente o faz e claro que há clientes que se sentem defraudados quando chegam a casa e, ao abrirem uma garrafa, descobrem que o vedante era sintético”. Duarte Leal da Costa, director-geral da Herdade da Ervideira, recorda que essa foi “a primeira empresa do mundo a colocar o símbolo ‘CorkMark’ nas suas garrafas” e não tem dúvidas de que, na hora da compra, o consumidor faz distinção “entre uma rolha de cortiça, que é um produto verdadeiramente bom, e outro vedante qualquer, derivado do petróleo”. Já o administrador da Herdade do Esporão, João Roquette, a informação sobre vedantes não deve ser obrigatória no rótulo das garrafas. “A cortiça é um excelente produto e usamo-la em 99 por cento da nossa produção, mas acho que esta petição tem uma segunda agenda que não está tão preocupada com os interesses do consumidor quanto com os interesses da indústria corticeira”. Para o responsável daquela que foi a primeira empresa portuguesa a certificar com a norma FCC as rolhas de cortiça utilizadas nos seus vinhos, “a petição aparece com o argumento de informar o consumidor, mas o que pretende é promover os interesses da indústria corticeira e, nesse caso, esta é a estratégia errada”. “Se a indústria da cortiça se quer promover, que o faça por si própria, sem a desculpa de que está a pensar no interesse dos consumidores de vinho e os quer mais informados”, recomenda João Roquette.


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ANTÓNIO FALCÃO

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Seminário no âmbito do Festlatino abre com patuá

Lia Coelho

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língua portuguesa e o seu papel no mundo estão em debate desde ontem, continuando a conversa hoje no Instituto Internacional de Macau (IIM). O IIM e o Movimento de Culturas, Línguas e Literaturas Neolatinas (Festlatino) promovem dois dias de seminário sob o tema “A língua portuguesa no contexto do diálogo entre a China e o mundo lusófono”. Ontem, a abrir o programa, esteve uma

CULTURA

Um dialecto para o futuro apresentação sobre o patuá, pelo seu grande defensor, Miguel Senna Fernandes. Quando este macaense fala do dialecto que aproximou culturas distintas, pronuncia memórias. “Esta língua diz algo que nos leva para o passado, é uma espécie de saudade”, descreve o advogado. O passar de séculos transformou o

próprio dialecto, que “de língua antiga ou de casa aproxima uma comunidade e agora está mais leve, para poder ser melhor compreendido”. Senna Fernandes, também dramaturgo, continua a ter esperança na perpetuação da língua maquista e espera vê-la um dia integrar o património imaterial

da UNESCO, tal como o fado. Durante a sua intervenção, Senna Fernandes perguntou o que é o patuá e o que é ser macaense. Ele próprio responde que o dialecto narra o caminho e modo de estar dos portugueses no mundo, conta a história dos Descobrimentos e exterioriza a condição de macaísta. Quanto a ser

AUTORES LUSÓFONOS CADA VEZ MAIS TRADUZIDOS PARA CHINÊS

A língua da literatura A

primeira obra traduzida de português para chinês foi publicada em 1984. Chama-se “Amor de Perdição”, a novela portuguesa de Camilo Castelo Branco, escrita em 1862. Do romantismo do autor até aos nossos dias já foram várias as obras de língua portuguesa a serem traduzidas. Da literatura moderna, no top das listas de autores lusófonos traduzidos, temos o brasileiro Paulo Coelho e José Saramago. O Nobel português tem três traduções e uma adaptação para teatro de Ensaio sobre a Cegueira. “Os chineses gostam muito da literatura de Saramago, porque fala da condição humana”, explica Yao Jing Ming, professor, poeta, tradutor e um

dos oradores do programa do Festlatino. O tema apresentado pelo professor foi a tradução de escritores de língua portuguesa para mandarim. Também nas preferências do público da China estão os poetas maiores

Yao Jing Ming

da lusofonia: Fernando Pessoa e Luís de Camões.

PORTUGAL MAIS PERTO

A aproximação à literatura do Ocidente lusófono está a crescer, mas o grande problema apontado pelo professor é a

macaense, é ser despido de tudo, ser um mestiço, abraçar uma cultura de mestiçagem”.

PATUÁ É COOL

Para manter este dialecto ainda há muito trabalho a fazer, a começar por uma gramática – de que há muito se fala e nunca foi feita. Passa ainda por atrair jovens,

falta de tradutores qualificados. Esta dificuldade sempre foi um entrave e parece ainda não estar superada. Vencida já está a permissão de publicar algumas obras, que noutras épocas não eram “bem vistas” na China. Se na tradução se perde a essência da poesia, Yao Jing Ming responde que “a poesia é aquilo que se perde na tradução”. Contudo, entre poetas tudo é mais fácil de entender e de interpretar. “Somos da mesma tribo e conseguimos entender-nos uns aos outros. A poesia é o sentimento humano. É uma luta entre ganhar e perder.” Entretanto, Yao Jin Ming mudou de direcção e está agora a traduzir a antologia de Bei Dao para português. O poeta chinês disputou o Prémio Nobel da Literatura com José Saramago, em 1998. Antes, o académico traduziu uma colectânea de poemas do português António Ramos Rosa para o chinês. – L.C.

envolver académicos e sociedade civil. Fazer o patuá chegar às novas gerações pode criar um movimento e assim dar-lhe continuidade. O futuro depende das gerações vindouras? “Se não houver interesse o patuá deixa de existir.” Senna Fernandes continua a sua luta pela preservação deste crioulo, com a habitual peça dos Dóci Papiaçam e deixou um apelo à “geração cool”. “Porque não criar um núcleo de jovens onde se fale o dialecto? A palavra que resume é ‘cool’, porque o patuá é cómico.”

UM NÃO À REVISÃO DA LEI DE IMPRENSA

A lei de imprensa e da rádiodifusão está há 20 anos em vigor. Os governantes da agora RAEM querem uma revisão. Para já, está agendada para o dia 4 de Dezembro uma sondagem para ouvir a população. Apesar de ter aceite integrar a Comissão Consultiva da sondagem deliberativa, Rocha Dinis, director do jornal Tribuna de Macau, mostrou-se contra a uma alteração da lei. “Sou e serei contra revisão da lei de imprensa. Ninguém me convence que na RAEM haja mais condições de exercício das liberdades do que na fase da administração portuguesa.” A sondagem está integrada no processo que o Governo lançou para ver se avança ou não com a revisão da legislação em vigor. O director deixou ainda um alerta: “chegou o momento para os profissionais do jornalismo de Macau se unirem para avançarem para a auto-regulação”. Para ele, os profissionais ainda têm tempo de fazê-lo, lutando por uma auto-regulação que garanta os estatutos de jornalista e um código deontológico. Rocha Dinis fala ainda de um Conselho de Imprensa que envolva uma maioria de profissionais do sector – tanto proprietários, como jornalistas – mas onde também estejam representados os cidadãos.


DICIONÁRIO SOBRE CAMÕES JÁ ESTÁ À VENDA

O Dicionário Luís de Camões, o primeiro dedicado à vida e obra do poeta, elaborado por especialistas nacionais e estrangeiros sob coordenação de Vítor Aguiar e Silva, já chegou às livrarias numa edição da Caminho. A obra, que resulta de uma maratona editorial de cinco anos, envolveu 69 colaboradores de várias nacionalidades e reúne cerca de 200 artigos sobre aquele que é considerado “o poeta da nacionalidade”, pelo facto de ter escrito a epopeia moderna ‘Os Lusíadas’. A obra inclui ainda informação sobre a recepção da sua obra nas principais literaturas mundiais, da espanhola à brasileira e à norte-americana.

Nuno G. Pereira

“O

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Governo de Macau pode fazer muito mais subsidiando e promovendo as indústrias culturais e criativas (ICC), devido ao excesso de dinheiro que tem agora. Estão reunidas todas as condições para se viver uma idade de ouro nessas áreas.” Assim falou Henry Lei Chun Kwok, professor assistente de Economia e Gestão na Universidade de Macau, durante a sua prelecção “Quando e como devem as indústrias culturais e criativas em Macau ser apoiadas?”. A conferência decorreu ontem no Centro Cultural de Macau, integrada no seminário “Moldura legal para financiar ICC: perspectivas comparadas”, organizado pelo Instituto de Estudos Europeus de Macau. A apresentação de Henry Lei foi essencialmente de contextualização, com um estudo aprofundado sobre as ICC, em geral, noutros países e em Macau. Em relação ao território, abordou vários pontos, com destaque para um conjunto de considerações que respondem à pergunta “deve o Governo da RAEM apoiar as ICC?”. À cabeça das respostas, o maior dos argumentos: sobra dinheiro no orçamento. Embora haja outras condições, esta é sem dúvida a que mais pesa para a conclusão final do professor: as ICC de Macau têm tudo para viver uma idade de ouro.

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Indústrias criativas discutidas por quem as conhece bem

“O Governo de Macau pode fazer muito mais”

O que são as ICC

Henry Lei elegeu também outros factores para justificar o apoio às ICC, como a necessidade da diversificação na economia, o desenvolvimento da economia/sociedade com base no conhecimento e a existência de património mundial na RAEM.

RECRIAR MACAU

“A experiência da Creative Macau – A organização pioneira das ICC em Macau” foi o título da outra palestra da sessão. O orador, José Luís de Sales Marques, é presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau (IEEM) e fundador da Creative Macau. Foi esta experiência que o inspirou para a prelecção trazida a público. Um trabalho complementar ao que a sala ouviu primeiro, já que Sales Marques foi muito mais concreto, concluindo mesmo com a revelação de 12 soluções para que as ICC sejam um êxito na RAEM (ver caixa). Antes, apoiando-se na sua experiência a lidar com as ICC, apontou dois problemas comuns nesta área. O primeiro é que a maioria são microempresas, por isso dependentes de terem clientes. O segundo é “tipo ovo e a galinha”: precisam de uma curva de aprendizagem dependente da interacção com o mercado, mas o acesso ao mercado depende da fiabilidade que só a experiência traz. A análise prosseguiu com outros obstáculos a ultrapassar, mas desta vez, ao contrário do que tantas vezes sucede, em qualquer lado do Mundo, quem identificou o que está mal também sugeriu soluções.

As 12 soluções de Sales Marques para as ICC em Macau

• Artes de performance • Cinema e Televisão • Mercado editorial • Mercado de arte e antiguidades • Música • Arquitectura • Publicidade • Entretenimento digital • Desenvolvimento de software • Animação • Design (inclui moda)

1 - Mapa das ICC O processo deve ser liderado pelo Instituto Cultural de Macau, mas executado por especialistas e com participação alargada da Academia e da Sociedade. 2 - Elaborar estatísticas e estudos económicos adequados: PIB, mercados (negócio e laboral), implicações para outras indústrias.

* Fonte: Henry Lei

3 - Informar o público e dar-lhe directrizes simples para aceder a todos os financiamentos e instrumentos de apoio (em instituições públicas e semipúblicas). Adaptar todos esses instrumentos às ICC e acrescentar novos, em particular para ‘start ups’.

4 - Criar uma incubadora de negócios dedicada às ICC, com disponibilização de espaços para as ‘sartt ups’. 5 - Melhorar a capacidade do Governo na busca de produtos e serviços criativos. 6 -Desenvolver a educação artística e disponibilizar programas formativos de curta duração, que melhorem as capacidades de quem aposta nas ICC, em especial na gestão de negócio. 7 - Melhorar, em geral, as ofertas educativas para quem quer uma carreira na ICC e, eventualmente, criar uma Escola de Artes e Criatividade.

8 - Promover a marca “Criado em Macau” como algo único e conceituado. 9 - Implementar três a quatro ‘clusters’ criativos em Macau e nas Ilhas. 10 - Apoiar as ICC estabelecer uma área de produção e promoção para as ICC na Ilha da Montanha. 11 - Facilitar o registo dos direitos de autor nos mercados de Macau e da China Continental. 12 - Criar uma estrutura sólida para promover as ICC no estrangeiro.


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[f]utilidades Cineteatro | PUB SALA 1

STARRY STARRY NIGHT [B] (Falado em putonghua legendado em chinês e inglês) Um filme de: Tom Lin Shu-Yu Com: Josie Xu, René Liu, Harlem Yu 14.15, 16.15, 18.00, 21.45

YOU ARE THE APPLE OF MY EYE [C] (Falado em putonghua, legendado em chinês e inglês) Um filme de: Giddens Ko Com: Zhendong Ke, Yanxi Chen, Siu-Man Fok 19.45 SALA 2

THE ADVENTURES OF TINTIN 3D [B] (Falado em cantonense)

[ ] Cinema

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Um filme de: Steven Spielberg 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 3

SEEDIQ BALE [C] (Falado em japanês & seediq)(Legendado em chinês) Um filme de: Te-Sheng Wei Com: Qing-tai Lin, Da-qing You, Zhixiang Ma 14.15, 16.45, 21.45

SLEEPWALKER 3D [C] (Falado em cantonense/ putonghua, legendado em chinês/ inglês) Um filme de: Fengbo Lee, Jimmy Wan Com: Jam Hsiao, Chrissie Chow, Eric Tsang 19.15

VERTICAIS: 1-Que não e hábil. Espertalhão, atrevido. 2-Dente molar (Prov.). Poupança. 3-Ajuntem. Em seguida a. 4-Qualquer fruto seco, indeiscente, com uma só semente. Logo que. Empunhei. 5-Protecção. Actínio (s.q.). 6-Interpretas por meio da leitura. Acrescente. 7-Avenida (abrev.). Trajareis. 8-República (abrev.). Margem de rio. Rio da Suiça. 9- O m. q. exile. Sustente uma criança, alimente. 10-Macho da tartaruga (Amazonas). Prata (s.q.) 11-Discursam. Senhora.

SOLUÇÕES DO PROBLEMA

Su doku [ ] Cruzadas

HORIZONTAIS: 1-Atracção, encanto (Fig.). Gato (Prov.). 2-Vestígio que deixa uma substância suja ou gorda. Fazer passar alguém por uma vergonha. 3-Da cor do céu sem nuvens. Grande vasilha de aduela, para vinho. Benefício. Pessoa reles, sem préstimo e sem força (Prov.). Limite (abrev.). 5-Imposto de Circulação (abrev.). Ofício divino. 6-Relativo a lugar certo. Desembrulhem. 7-O m. q. ligara. Rádio (s.q.). 8-Reduza certo. Desembrulhem. 7- O m. q. ligara Rádio (s.q.). 8-Reduza a pó. Composição poética para se cantada. Guerreiro valente. 9-Estaca a que se liga a videira depois da poda. Soltar ais. 10-Desconfiada. Brotem, sobressaiam. 11-O m. q. oasiana. Molha, irriga.

Aqui há gato [Tele]visão TDM 13:00 TDM News - Repetição 13:30 Jornal das 24H RTPi 15:00 Debate das Linhas de Acção Governativa para 2012 - Área da Segurança (Directo) 20:00 Que Loucura de Família 20:30 Telejornal 21:00 TDM Entrevista 21:30 Cougar Town 22:15 Passione 23:00 TDM News 23:30 Magazine Liga dos Campeões 00:00 Grande Entrevista 00:30 Telejornal - Repetição 01:00 RTPi Directo INFORMAÇÃO TDM RTPi 82 14:00 Telejornal Madeira 14:30 Alta Pressão 15:00 Magazine Austrália Contacto 15:30 Mudar de Vida 16:00 Bom Dia Portugal 16:55 Fado Maior 17:00 O Elo Mais Fraco 17:45 Resistirei 18:30 A Alma e a Gente 19:00 Diva: Simplesmente Uma Homenagem 20:00 Jornal Da Tarde 21:15 O Preço Certo 22:00 Magazine Austrália Contacto 22:45 Portugal no Coração ESPN 30 12:30 Maui Invitational Michigan vs. Duke 14:30 Maui Invitational UCLA vs. Kansas 16:30 Ironman South Africa 17:30 Rugby World Cup 2011 Fiji vs. Samoa 19:30 (LIVE) Sportscenter Asia 20:00 Geico PBA Team Shootout 20:30 Emotions - Sports Magazine 21:00 Euro Beach Soccer League Superfinal Turkey vs. France 22:00 Sportscenter Asia 22:30 Rugby World Cup 2011 Ireland vs. Russia

STAR SPORTS 31 13:00 Rebel TV Series 13:30 Engine Block 2011 14:00 Australian PGA Championship 17:00 Intercontinental Rally Challenge 2011 18:00 HSBC FEI Classics 2011 19:00 FA Cup 2011/12 Stourbridge vs. Plymouth Argyle 21:00 FIA Wtcc 2011 - Highlights 21:30 (LIVE) Score Tonight 22:00 Golf Up Close 2011 22:30 Golf Focus 2011 23:00 Australian PGA Championship Highlights Day 4 STAR MOVIES 40 12:55 Shanghai Knights 14:55 Second In Command 16:30 Damage 18:20 13 19:55 Stealth 22:00 The Walking Dead 00:10 Tucker & Dale Vs Evil HBO 41 12:00 13:10 15:00 17:30 19:50 22:00 23:55

True Blood Spaceballs John Grisham’S The Rainmaker Hulk Star Trek (2009) Red Tears Of The Sun

CINEMAX 42 11:00 The Taking Of Pelham 1 2 3 12:45 Fair Game 14:15 Dead Again 16:00 Frankenstein Meets The Wolf Man 17:15 Kaleidoscope 19:00 The Fourth War 20:30 Supernova 22:00 Icarus 23:25 Supershark 00:50 The Experiment

HORIZONTAIS: 1-IMAN. TARECO. 2-NODOA. VEXAR. 3-A. AZUL. PIPA. 4-BEM. XEU. LIM. 5-IC. MISSA. T. 6-LOCAL. ABRAM. 7-N. LIARA. RA. 8-MOA. ODE. CID. 9-EMPA. AIAR. A. 10-CIOSA. SAIAM. 11-OASICA. REGA. VERTICAIS: 1-INABIL. MECO. 2-MO. ECONOMIA. 3-ADAM. C, APOS. 4-NOZ. MAL. ASI. 5-AUXILIO. ACA. 6-T. LES. ADA. 7-AV. USAREIS. 8-REP. ABA. AAR. 9-EXIL. R. CRIE. 10-CAPITARI. AG. 11-ORAM. MADAMA.

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA A CIDADE DE ULISSES • Teolinda Gersão Um homem e uma mulher encontram-se e amam-se em Lisboa. A sua história, que é também uma história de amor por uma cidade, levará o leitor a percorrer múltiplos caminhos, entre os mitos e a História, a realidade e o desejo, a literatura e as artes plásticas, o passado e o presente, as relações entre homens e mulheres, a crise civilizacional e a necessidade de repensar o mundo.

REGRAS |

Insira algarismos nos quadrados de forma a que cada linha, coluna e caixa de 3X3 contenha os dígitos de 1 a 9 sem repetição SOLUÇÃO DO PROBLEMA DO DIA ANTERIOR

OS LINDOS BRAÇOS DA JÚLIA DA FARMÁCIA • José Rentes de Carvalho Uma paixão tórrida em Sevilha; a crueldade de um filantropo inglês; o crime passional de Bebé Almeida; uma fria manhã de Paris de 1955; o afamado bordel de Madame Blanche enquadram algumas das extraordinárias histórias que compõem Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia, o mais recente livro de ficção de de José Rentes de Carvalho.

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MACAU VISTO DE NOVO Criticar sempre fica mal e dá ideia que sou um felino frustrado e infeliz. Mas, não. Como sou um gato feliz, quero dedicar hoje esta coluna à partilha de experiências com o caro leitor. Compartilhar consigo o mundo novo que Macau me trouxe. Sejamos sinceros, nada, ninguém e nenhum lugar deste planeta é perfeito. Macau não é excepção. Mas podemos gritar, sem culpa, que é um cantinho especial do mundo. E sem dúvida que o é, para o bem e para o mal. Já experimentou deambular pelas ruas da cidade, absorvendo a atmosfera que a envolve e tudo o que lhe é oferecido? Chegar a uma terra onde tudo se apresenta diferente dá-nos um querer descobrir cada recanto, cada um dos segredos que a compõem e que escondem por entre os becos. De máquina fotográfica na pata, à medida que calcorreava as ruas da cidade que me acolhia, a minha objectiva ia prendendo pessoas, locais e acima de tudo a vida real. Aquela vida que faz de Macau a terra que recebe, que apaixona e que cria sonhos. Do outro lado do mundo, pediam-me fotografias e relatos. Todos os que tinha deixado para trás “gritavam” a pedir um retrato de Macau e para explicar como é isto neste lado do globo. Mas uma imagem não é suficiente e as palavras são parcas e vagas para explicar uma terra como esta. Aqui tem que se vir viver, nada consegue personificar a cidade. Fui-me perdendo então por ruas e vielas. Quando digo perder, falo em sentido literal. Dias em que me ausentava do real e mergulhava no que Macau me ia murmurando. Estados de alienação de um espaço físico desconhecido, nos quais conquistei momentos e partes de uma história longínqua de conquistadores e mestiçagem. Uma história que Portugal escreveu e que apesar de ter caído no esquecimento, aqui continua presente e faz o encanto da Macau chinesa, que com traços de Ocidente alimenta a paixão e a curiosidade do mundo. Momentos de alienação insertos por entre acessos de uma loucura sadia, que me fez render aos encantos e a uma Macau agora diferente e mais evoluída, pelo que ouvi dizer. É bom e mau. A nós cabe desfrutar e a aprender a morar por estas bandas.

Pu-Yi


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OPINIÃO

SEGUNDA, 21 Esmagadora vitória eleitoral do Partido Popular em Espanha. O Partido Socialista, de José Luis Rodríguez Zapatero, foi inapelavelmente derrotado após sete anos no poder: perdeu mais de quatro milhões de votos, 59 deputados e 40 senadores, obtendo o pior resultado de sempre desde que a democracia foi restaurada após quatro décadas de ditadura franquista. Para Mariano Rajoy, o líder do PP, este é um triunfo da persistência: derrotado nas legislativas de 2004 e 2008, precisamente por Zapatero, soube conservar o poder interno do seu partido que agora lhe permite saborear a vitória. Para o efeito neutralizou habilmente os adversários oriundos das próprias fileiras partidárias, mostrando-se um eficaz discípulo de Maquiavel. Há ilustres precedentes nesta matéria em Espanha: também o socialista Felipe González (primeiro-ministro entre 1982 e 1996) e o conservador José María Aznar (1996-2004) ascenderam ao poder após duas derrotas eleitorais cada. González viu-se derrotado por Adolfo Suárez em 1977 e 1979; Aznar foi debatido nas urnas por González em 1989 e 1993. Nenhum deles se deixou abater pelos maus resultados nas legislativas. Já os clássicos nos ensinavam: um político qualificado procede sempre assim. Estes resultados eleitorais, confirmando a viragem conservadora em Espanha já prenunciada nas eleições regionais e autárquicas de 22 de Maio, acentuam uma tendência política à escala continental: os cinco países mais poderosos da Europa têm neste momento maiorias parlamentares de direita. A democrata-cristã Angela Merkel governa na Alemanha, em coligação com os liberais. O Presidente conservador Nicolas Sarkozy lidera em França. Outro conservador, David Cameron, é o primeiro-ministro do Reino Unido, em coligação com o Partido Liberal Democrata. Mario Monti, um tecnocrata de centro-direita, governa com a maioria parlamentar conservadora que já sustentava anteriormente Silvio Berlusconi. Agora chegou a vez de Zapatero ceder lugar a Rajoy em Espanha. Em 24 dos 27 países que constituem o Conselho Europeu há maiorias de direita. Conclusão: em época de crise, os eleitores afastam-se das forças políticas mais apostadas em engenharias sociais. Adoptando como lema um provérbio secular: o seguro morreu de velho. TERÇA, 22 Dentro de poucos dias, Mariano Rajoy tomará posse como sexto presidente do Governo espanhol desde a restauração da democracia, em 1977. Neste mesmo período, em Portugal, o número de primeiros-ministros foi exactamente o dobro. Do lado de lá, nestes 34 anos, governaram Adolfo Suárez, Leopoldo Calvo-Sotelo, Felipe González, José María Aznar e José Luis Rodríguez Zapatero. Por cá, tivemos como chefes do Executivo Mário Soares,

Não sei se convosco acontece o mesmo. A mim sucede-me com frequência: leio uma notícia num jornal que me sabe a pouco. Apetece-me conhecer mais pormenores, desvendar a face oculta do relato noticioso, frio por excelência, sucinto por óbvia limitação de espaço Nobre da Costa, Carlos Mota Pinto, Maria de Lurdes Pintasilgo, Francisco Sá Carneiro, Francisco Balsemão, Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso, Pedro Santana Lopes, José Sócrates. E temos agora Pedro Passos Coelho. Os espanhóis mantiveram desde então um único chefe do Estado (o Rei Juan Carlos) enquanto os portugueses viam desfilar quatro inquilinos no Palácio de Belém: Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva. Convém reflectir nisto. Para conseguirmos perceber até que ponto o atraso português -- apesar de tudo muito superior ao espanhol - não passará também por esta contínua dança de governantes. A estabilidade política, só por si, não basta que um país progrida. Mas ajuda muito. Sem ela, em regra, tudo piora.

QUARTA, 23 Não sei se convosco acontece o mesmo. A mim sucede-me com frequência: leio uma notícia num jornal que me sabe a pouco. Apetece-me conhecer mais pormenores, desvendar a face oculta do relato noticioso, frio por excelência, sucinto por óbvia limitação de espaço.

ca d er n o d i á r i o Pedro Correia

Aconteceu-me nestes dias por duas vezes. A primeira ocorreu ao saber do falecimento da única neta do mítico milionário William Randolph Hearst, que Orson Welles retratou na sua obra-prima O Mundo a Seus Pés (1941), chamando-lhe Charles Foster Kane. A senhora vivia sozinha numa quinta situada nas imediações de Sevilha e regressara pouco dias antes de Portugal, onde fora submetida a uma operação plástica. A notícia que li era enigmática: calava muito mais do que explicava. Como é que a neta de um magnata americano vai parar a um lugarejo da Andaluzia e lá se radica durante anos? Por que motivo a senhora, dona de tantas posses, vivia tão solitária? Que recordações guardaria do avô? Detestaria Citizen Kane? Que laços a uniam a Portugal, para além de frequentar uma clínica de cirurgia estética? A minha estranheza foi ainda maior por ter visto apenas o tema aflorado na imprensa espanhola, sem qualquer eco em Portugal. A segunda notícia era impressionante. Falava de um senhor com 96 anos que na manhã de domingo votou nas legislativas espanholas. Mal depositou o boletim de voto na urna, situada num centro cultural de Madrid, desfaleceu. Todos os esforços para o reanimar fora inúteis. A peça jornalística nada mais informava senão isto. Restou quase tudo por dizer. Senti vontade de saber quem era aquele homem que morreu segundos depois de exercer o direito de voto -- que durante 40 anos esteve proibido em Espanha. Quais seriam as suas convicções políticas? O que haveria

a destacar no seu percurso biográfico? Terá deixado família? O que diziam dele alguns amigos, uns quantos vizinhos? Com quem falou pela última vez? Que pensamentos povoados de angústia o terão sobressaltado na noite anterior? Tanto vamos sabendo, no contínuo bombardeamento informativo de que somos alvo de manhã à noite. Mas tanto permanece por desvendar nas entrelinhas das notícias. E tantas vezes é precisamente quando as notícias terminam que a vida verdadeira começa, com o seu permanente jogo de sombras e luzes. Razão tinha o Chico Buarque quando cantava: “A dor da gente não sai no jornal.”

SEXTA, 25 A degradação do debate no

espaço público, designadamente nas chamadas redes sociais, está bem patente nos comentários a um anúncio televisivo de um lóbi antitaurino. Pode ser revisto no You Tube, sob o título “O anúncio português censurado” (ao contrário do que o título indica, não houve qualquer censura). Repare-se como o diálogo entre quem pensa de maneira diferente se vai enquistando e obstruindo à medida que se processa a troca de argumentos. Ao ponto de alguns alegados defensores dos direitos do touro chegarem a sustentar a condenação à morte de quem se assume como amante de touradas. Registam-se frases como estas: “Quem apoiasse este tipo de imbecilidade e de crueldade devia ser espetado até à morte”; “amantes desta coisa nojenta deviam ser mortos da mesma maneira que eles”; “sempre que vejo touradas torço pelo touro, sempre na esperança que o touro fure o toureiro”; “gostava de te dar uma facada no pescoço para ver o que dizias a seguir”; “devias era ser espetado, grande animal”. Aparentemente sem repararem até que ponto esta indefensável posição invalida toda a sua lógica argumentativa anterior. Vivemos num mundo de valores erráticos em que se cruzam correntes antagónicas: não falta quem pugne pela humanização dos animais enquanto revela uma tolerância sem limites perante a irreversível bestialização do ser humano. Há quem, ironicamente, aponte a principal responsabilidade por esta inversão de valores sobretudo às produções Walt Disney, organização pioneira na tendência de antropomorfização dos bichos. Mas a questão é mais séria. E deve mesmo levar a interrogar-nos sobre a saúde das democracias liberais num mundo onde toda a divergência de opiniões suscita reacções de brutal intolerância -- desde logo da parte dos se proclamam tolerantes. Nem todos os sistemas se equivalem, nem todos os valores são relativos. A democracia é um bem demasiado frágil e demasiado escasso: não merece ser desbaratada a todo o momento nas novas plataformas digitais. Que deviam estar ao serviço da cidadania e afinal acabam por pervertê-la a todo o passo.


Ciclone

Já repararam que, em Macau, a linha do horizonte fica na vertical. Por Fernando

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E as LAG, senhores, do que falam elas? I As denominadas Linhas de Acção Governativa, que se alinhavaram para o próximo ano financeiro, formam um repositório de intenções resumidas no seu Relatório com idêntico nome. Os observadores dos actos políticos governamentais têm vastíssima matéria para onde olhar analiticamente. E comparar enunciados, projectos, objectivos, reformas, adiamentos e até fraseologias e slogans, com os documentos idênticos de anos transactos. Um pormenor ressalta, pela razão de ter sido oficialmente destacado: atingiu-se o maior orçamento de sempre em Macau. Isto irá significar o quê? Por exemplo, será capaz de significar mais um bocadinho de atenção às relações de Macau-China com os países de língua portuguesa, como Pequim preconiza? Discurso após discurso, de forma pontual e cerimoniosa como manda o velho protocolo, lá se fala de Macau como o tal elo de ligação entre a China continental e os países da CPLP. No tempo dos senhores governadores chamavam-lhe a “placa giratória” e viu-se o que ela girava e como. Neste tempos de RAEM, o que se nota é uma timidez inexplicável, uma dinâmica travada, uma aparente falta de à vontade no relacionamento com esses países. Um discursinho apressado num qualquer evento oficial, uma taça de champanhoca erguida e dois sorrisinhos de circunstância, é o que vê. O Fórum Macau talvez devesse ter mais competências a fim de poder estar mais no terreno, mais interventivo e mais facilmente interactivo e consequente. Provavelmente, em Pequim as coisas funcionam de outra maneira, existindo gente que estuda, que tem experiência no terreno, que fala a língua, que conhece bem toda a História e realidades desses países, bem como o seu antigo e frutuoso relacionalmente com a China: as perspectivas económicas, as empresariais, as sociais, as culturais. Na Macau deste século XXI, nesta matéria, improvisa-se muito, em várias frentes, das culturais às empresariais, incluindo as políticas de verdadeiro e eficaz intercâmbio de comunicação com esses países. Há notória carência de pessoas conhecedoras do que se realiza e projecta nos países e regiões de língua portuguesa, do Brasil a Timor-Leste passando por África. Matéria que, afinal, é actualmente, e por vários motivos, um dos grandes objectivos do Governo Central.

Um dos melhores argumentos e lições que Macau pode facilmente ser exemplo no contexto das relações China-CPLP, é o diário sentimento de afecto entre as comunidades “lusófonas” aqui residentes. Mostramos ao mundo o que isso é, para além dos interesses em negócios. É, não apenas, mas em grande parte, entre as associações aqui erguidas com algum apoio da RAEM, que se vivem as alegrias, esperanças e também as angústias por se desejar realizar muito mais e sobretudo muito melhor, mais pedagógico, mais esclarecedor, mais condizente com o que se acredita ser o espírito do Governo Central neste assunto. Afinal, o outro lado da relação, o lado que a faz consistente, amiga. O lado guardião de valores. E as LAG, senhores, do que nos falam elas sobre este assunto? II São inúmeras as mostras de Macau em imagens. Com fotos, filmes, vídeos, pinturas, etc. Imagens acompanhando ou não umas historias a cores e a preto e branco. Macau é inspiradora permanente de quem a observa e pretende registar os seus tons, os seus sons, as suas sombras e as suas luzes. Devemos regozijar-nos com isso e apoiar o mais possível os artistas que levam a imagem desta terra não apenas aos seus residentes, mas também a muitas partes do mundo. Nos dias de hoje, a imagem é incontornavelmente importante. Estará isso a ser tido verdadeiramente em conta, no meio de toda esta pirotecnia de encher o olho? Vergonhosamente, o dia a dia de Macau não acompanha o carinho com que os seus artistas (e alguns que a visitam) a tratam. Nos novos bares, cafés e restaurantes de muito luxo, a generalidade do pessoal é inacreditavelmente incompetente. Quem viaja um bocadinho pelo continente chinês, facilmente descobre nas novas cidades do interior ou do litoral, uma atendimento muitíssimo mais sabedor, muitíssimo mais esclarecido e competente. Péssima imagem de Macau. Os táxis, muitos deles, são outro cancro na imagem desta terra. É flagrante a falta de formação profissional - que vai das condições de higiene nas viaturas até á higiene dos próprios ditos “profissionais”. Mesmo o nome original dos novos casinos, raramente um taxista sabe, ou se sabe, faz o possível por fingir que não

Discurso após discurso, de forma pontual e cerimoniosa como manda o velho protocolo, lá se fala de Macau como o tal elo de ligação entre a China continental e os países da CPLP sabe para dar mais umas quantas voltas à região. Muitos taxistas não estão ao serviço das pessoas, desobedecem às leis em vigor, plantam-se a poucos metros das paragens a eles destinadas, junto às saídas de hotéis, para se anteciparem aos seus colegas e apanharem primeiro aqueles turistas desprevenidos que nem sequer perguntam se há ou não há um preço na bandeirada e por distância de percurso. Na entrada da chamada nova ala do Hotel Lisboa, a escassos metros da paragem de táxis imediatamente a seguir, é a escandaleira noite e dia e nas barbas de agentes policiais. Quando alguém se aproxima, os abutres dizem “one hundred, one hundred!”, se a potencial vítima tem ar de forasteiro; ou então, se não lhe agrada o cliente, fingem-se distraídos perguntando para que lado queremos ir; não sendo para um casino ou outro local qualquer menos do seu agrado, pura e simplesmente negam-se a efectuar o serviço. Vergonhosa imagem de Macau. Onde estará a vaidade deste novo riquismo macaense, tão despreocupado com estes e outros retratos do quotidiano? Como os pedintes, os que dormem pelas ruas, as suspeitíssimas personagens a compor a “fauna” nas imediações de alguns casinos da cidade? Precisamos de aprender a conviver com isto, ou isto pode ser alterado? III A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) anunciou vários reconhecimentos no âmbito do património imaterial da humanidade. Entre eles, o fado e o teatro de sombras chinês. Qualquer

Helder Fernando

destas expressões artísticas possui profundas raízes populares. O teatro de sombras terá mais de dois mil anos. Existe uma tradição oral a lembrar que no século II a.C. o imperador chinês Wu-Ti, desesperado com o falecimento de sua mulher (ou de sua bailarina favorita) acabou por sentir-se muito consolado ao reparar no recorte de sombra projectada numa tela que alguém do palácio tinha concebido, dando a uma pele seca de peixe, sugestiva forma feminina. Era o chamado jogo de sombras que acabou por ser difundido em várias partes do mundo, desde logo na Índia. Há quem diga que estas sombras podem inserir-se num certo pioneirismo do que viria a ser o princípio do cinema. O teatro de sombras chinês é uma forma sublime de contar histórias. Como residentes neste país, temos motivo para estar felizes e orgulhosos. O fado, essa música com origem em vários portos de chegada e de partida, misturada entre sangues, línguas, paixões e tragédias, terras e mares, que há uns dois séculos atracou em Lisboa, nascendo de novo e sendo a mais portuguesa forma de expressão musical, obteve também a consagração oficial por parte da UNESCO. Já liberto de tanto preconceito, antes e depois da Revolução de Abril, por motivos talvez diferentes e ambos absurdamente tacanhos, o fado é hoje cantado a muitas vozes. Corre o risco de ser banalizado, mal entendido, vulgarizado na televisão por gente que dele nada sabe, nunca o sentiu, mas que quer ser artista à conta da ignorância gritante de muitas equipas de produção. A existência de concursozinhos de fado com criancinhas de 5, 6 e poucos mais anos a debitar letras sem saber, naturalmente, o que estão a fazer, só para que os apresentadores e a família fiquem contentíssimos e com as lagriminhas no olho, é um verdadeiro crime de traição, de lesa-fado! Não será nunca desta forma que se descobrirão novas vozes. Respeite-se o trabalho impecável, culto, sabedor, de todos os que estiveram directamente envolvidos na respectiva candidatura. Ergam-se escolas, estude-se a História do Fado, oiçam-se com a maior das atenções e respeito os seus melhores intérpretes do passado e do presente, cantores e músicos. Conheçam-se os estilos, leiam-se e bebam-se as palavras ditas e cantadas, amem-se também os seus autores. De Artur Ribeiro (letra e música), deixo ao prezado leitor esta definição: Fado é tudo o que acontece quando se ri ou se chora, quando se lembra ou se esquece, quando se odeia ou se adora. É ter um jeito de artista, para moldar o fado à voz O fado de ser fadista e morar dentro de nós.

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor Vanessa Amaro Redacção Gonçalo Lobo Pinheiro; Joana Freitas; Lia Coelho; Nuno G. Pereira; Rodrigo de Matos; Virginia Leung Colaboradores António Falcão; Carlos M. Cordeiro; Carlos Picassinos; José Manuel Simões; Marco Carvalho; Maria João Belchior (Pequim); Rui Cascais; Sérgio Fonseca Colunistas Arnaldo Gonçalves; Boi Luxo; Correia Marques; Gilberto Lopes; Hélder Fernando; Jorge Rodrigues Simão; José I. Duarte, José Pereira Coutinho, Marinho de Bastos; Paul Chan Wai Chi; Pedro Correia Cartoonista Steph Grafismo Catarina Lau; Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia António Falcão, Gonçalo Lobo Pinheiro; António Mil-Homens; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Laurentina Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


c a r t o on

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por Steff CRISE PORTUGAL VAI FICAR AINDA PIOR EM 2012 No próximo ano, a economia portuguesa deverá contrair 3,2%, antecipa a OCDE. Esta é a pior previsão feita por uma organização internacional até à data. A taxa de desemprego vai subir mais do que o previsto e ultrapassar ao 14% em 2013. A taxa de desemprego prevista pela OCDE para 2012 é, também, pior do que estima o Governo e a troika. A organização projecta que o número de pessoas desempregadas atinja, no próximo ano, os 13,8% da população activa, enquanto o Governo aponta para 13,4% e a Comissão Europeia (CE) para 13,6%. ALEMANHA DESEJO DE FUNDO MONETÁRIO EUROPEU A Alemanha quer criar imediatamente uma “união de estabilidade” para resolver a crise da dívida soberana, e complementá-la a médio prazo com uma “união política” destinada a ultrapassar os problemas de funcionamento e de legitimidade democrática da União Europeia (UE). No imediato, Berlim quer convencer os parceiros a prever uma alteração ao Tratado da UE para consagrar novas sanções “verdadeiramente automáticas” contra os países que não cumpram as regras de disciplina orçamental, e um novo Fundo Monetário Europeu (FME) com o poder de impor alterações nos orçamentos de Estado dos países sob programa de ajustamento financeiro, a par de procedimentos precisos para a redução da sua dívida pública. BENFICA ADEPTOS DO SPORTING DETIDOS SÃO MEMBROS DE GRUPO NEONAZI O polémico grupo sportinguista 1143, conhecido pela sua conotação neonazi e por ter sido dirigida pelo skinhead Mário Machado, actualmente detido por vários crimes violentos, voltou a criar problemas no sábado, antes do Benfica-Sporting, da 11.ª jornada da Liga e que terminou com a vitória dos encarnados, por 1-0. Cerca de 20 elementos recusaram-se, ostensiva e agressivamente, a integrar a “caixa de segurança” - estrutura que o clube da Luz estreou e que tem por objectivo isolar os adeptos do clube visitante - e a PSP encaminhou-os para os “calabouços” policiais que existem no estádio, onde ficaram até ao final do jogo. Dois dos membros do 1143 foram alvo de processo-crime por danos no acrílico da bancada e vão hoje a tribunal.

ZULU

FRANÇA GOVERNO NEGA CONSPIRAÇÃO CONTRA STRAUSS-KAHN O Governo francês e os hotéis Sofitel negaram qualquer “complot” contra Dominique Strauss-Kahn, após a publicação de uma investigação jornalística que aponta para a intenção de prejudicar o ex-director geral do FMI na corrida às presidenciais francesas. A questão foi suscitada por uma investigação de um jornalista norte-americano sobre o caso em que Strauss-Kahn foi acusado de violar uma empregada de quarto de um hotel Sofitel em Nova Iorque, em Maio passado, situação que não foi dada como provada.

Aeroporto justifica rescisão de contrato com ANA

Em prol dos quadros locais

A

CAM - Sociedade do Aeroporto Internacional de Macau alega ter entregue a gestão da infra-estrutura a quadros locais para lhes oferecer oportunidades de promoção com a rescisão, este ano, do contrato com a participada da ANA. “Queremos dar mais oportunidades aos locais, oferecer-lhes mais oportunidades de emprego e de promoção, porque o aeroporto é de Macau, portanto queremos que sejam os locais a geri-lo”, afirmou ontem em declarações aos jornalistas a directora executiva da CAM, Suning Liu. Ao constatar que nos últimos 16 anos, em que a gestão do aeroporto foi assegurada pela ADA - Administração de Aeroportos (constituída em 1994 pela ANA e China National Aviation Corporation - CNAC), os “quadros locais aprenderam muito”, a responsável realçou que com o fim da cooperação aqueles “tiveram a oportunidade de serem promovi-

dos, o que favorece a indústria de aviação local”. A ADA foi vendida a 31 de Agosto à CAM, proprietária da infra-estrutura, por cerca de 45 milhões de patacas, deixando de existir uma presença empresarial portuguesa no sector da aviação civil do território, que foi administrado pelos portugueses durante mais de quatro séculos. A nova ADA (CAM com 99% do capital e MAM, criada a 21 de Junho e detida também pela CAM, com 1%) assumiu a gestão do aeroporto local em meados de Setembro. Suning Liu falava à margem da cerimónia de abertura daquele que é o primeiro estágio de quadros superiores do sector da aviação dos países de língua portuguesa em Macau. Na iniciativa, organizada pelo Secretariado Permanente do Fórum Macau e que decorre até sexta-feira, participam 12 quadros de Angola,

Cabo Verde, Timor-Leste e Guiné-Bissau, que terão a oportunidade de participar em diversas palestras e visitar o aeroporto Baiyun, na cidade chinesa de Cantão, e a Administração da Aviação Civil da China. A secretária-geral adjunta do Secretariado Permanente do Fórum de Macau, Rita Santos, explicou que a escolha de Macau para a realização deste estágio surge na sequência de um “pedido dos [próprios] países de língua portuguesa, que sentiram que o aeroporto local, apesar de não ser de grande envergadura, tem uma gestão bastante avançada e por a cidade receber muitos turistas”. Suning Liu garantiu que a equipa de gestão do aeroporto de Macau “é muito internacional, com quadros portugueses, chineses e outros, que têm tido formação ao longo dos anos, sendo hoje mais maduros, mais profissionais”, constatando “um progresso positivo para a indústria local da aviação”.

ARGENTINA PROFESSORA ENTREGA ‘PEN’ COM PORNOGRAFIA A ALUNOS A pen deveria conter apenas material didáctico de biologia. Mas lá dentro estava também uma cena de sexo explícito. O caso gerou uma enorme polémica na cidade argentina de Junín, província de Buenos Aires, e a indignação dos pais dos alunos. A professora terá entregue a ‘pen drive’ sem saber que além do conteúdo didáctico continha uma cena de sexo em que participava. A professora da escola Manuel Dorrego gravou o “filme proibido” dentro de uma pasta chamada férias, mas fê-lo sem intenção. A directora da escola já veio a público lamentar toda esta situação, até porque o vídeo foi colocado a circular na Internet.

DESEMPREGO CAIU PARA NÍVEL MAIS BAIXO DOS ÚLTIMOS 15 ANOS Macau registou entre Agosto e Outubro uma taxa de desemprego de 2,4%, o valor mais baixo desde 1996, e uma taxa de actividade de 73%, a mais elevada desde 1989, segundo dados dos Serviços de Estatística e Censos. Esta foi a taxa de desemprego mais baixa registada desde 1996, ano em que os organismo uniformizou a metodologia aplicada no Inquérito ao Emprego e em que o desemprego se fixou em 4,2% e em 4,3% só entre Agosto e Outubro. A taxa de subemprego foi calculada em 1%, a mesma apurada nos três meses terminados em Setembro. Entre Agosto e Outubro, a população activa de Macau estava estimada em 346,6 mil pessoas num território com cerca de

560 mil habitantes e a taxa de actividade em 73%, o nível mais elevado dos últimos 22 anos. Já a população desempregada foi calculada em 8300 pessoas, menos 600 do que nos três meses precedentes, e o número de desempregados à procura do primeiro emprego totalizava 16,4% do total, menos 0,2 pontos percentuais do que entre Julho e Setembro. Comparativamente ao trimestre entre Agosto e Outubro do ano passado, o desemprego caiu 0,5 pontos percentuais e o subemprego 0,6 pontos percentuais, ao mesmo tempo que a taxa de actividade aumentou 1,3 pontos percentuais. Em 2010, a taxa de desemprego foi de 2,8%, menos 0,8 pontos percentuais do que em 2009.

EGIPTO LONGAS FILAS PARA VOTAR Depois de 30 anos de apatia política, os egípcios acorreram em peso às urnas para votar nas primeiras eleições pósMubarak. Devido a problemas administrativos, em alguns locais a votação começou mais tarde do que estava previsto, o que levou as autoridades a prolongarem até à meia-noite a abertura das urnas.

Hoje Macau 29 NOV 2011 #2503  

Edição do Hoje Macau de 29 de Novembro de 2011 • Ano X • N.º 2503

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