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TERÇA-FEIRA 27 DE FEVEREIRO DE 2018 • ANO XVII • Nº

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

TNR SUJEITOS A EXAME PÁGINA 5

hojemacau

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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Um passo à frente, dois atrás A alteração constitucional que pode romper com o passado recente do exercício de poder na China GRANDE PLANO GRANDE PLANO, ESPECIAL, INCLUINDO PREVISÕES PARA O ANO DO CÃO, E EDITORIAL

NATACHA PISARENKO/AP

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EVENTOS


2 grande plano

A CAIXA DE PANDORA CHINA

GETTY IMAGES

Xi Jinping quer acabar com o limite de dois mandatos da presidência da China. Para o efeito, vai ser discutida na próxima sessão da APN a devida alteração à constituição. Se para uns é uma medida necessária que visa a estabilidade política, para outros trata-se de um exercício de poder, um retorno aos tempos de Mao e o fim de uma Era iniciada por Deng Xiaoping

27.2.2018 terça-feira

ALTERAÇÃO CONSTITUCIONAL QUE ACABA COM O LIMITE DE MANDATOS DO PRESIDENTE DIVIDE OPINIÕES


grande plano 3

terça-feira 27.2.2018

PROPOSTA NECESSÁRIA “D

e acordo com a situação, o desenvolvimento da China e as alterações recentes que o país enfrenta, a revisão constitucional que foi proposta é um reflexo do que é necessário”, disse Chui Sai Peng ao HM. No entanto, a proposta ainda vai a discussão, sendo que o deputado considera que vão estar na mesa várias opiniões. Mesmo que a alteração na Constituição vá para a frente, Chui Sai Peng ressalva que a medida não quer dizer que “o presidente Xi Jinping continue no cargo”. Já o deputado Vong Hin Fai opta por não se pronunciar para já. “Neste momento, ainda vou ter de estudar as alterações. É um tema que preciso de tempo para estudar primeiro, antes de emitir uma opinião”, disse ao HM. S.M.M com J.S.F.

WANG JIANWEI PROFESSOR DA UM

tem esperança de que os governantes chineses estejam a pensar num mecanismo para o efeito. A mudança à Constituição proposta por Xi Jinping pode ainda ser vista como uma medida pertinente no momento histórico actual do país. “A China está num momento crítico de desenvolvimento nacional em que precisa de uma liderança forte”, refere.

“A China agora está num momento crítico de desenvolvimento nacional em que precisa de uma liderança forte.”

aparecem certas personalidades de difícil substituição, no sentido em que a sua alteração pode ter um impacto significativo (positivo ou negativo) no país, no regime, no Governo ou nas suas políticas”. No entanto, para o académico, não será o caso de Xi Jinping. “Poderá ter sido o caso de Mao Tse Tung, mas não me parece, de todo, que seja o caso de Xi Jinping”. Já Jorge Morbey ainda não tem opinião definida quanto aos benefícios ou malefícios da medida mas não tem dúvidas de que se trata de um retrocesso no que respeita ao sistema político. “Isto vai contra o rumo do mundo, das democracias e das políticas actuais que são praticadas”, começa por dizer. No entanto, Morbey coloca desde já de lado a ideia de que a mudança constitucional tenha como objectivo a garantia de estabilidade. “Não me parece que seja para manter alguma estabilidade política. Quem conheça a história da China, desde Deng Xiaoping, sabe que o país não tem sofrido problemas de instabilidade nem problemas de quebra de crescimento”, aponta ao HM. De acordo com o comentador, poder-se-á tratar mais de “um exercício de poder”. O fim de uma Era e de uma transição pacífica de poder é a consequência real da intenção de Xi. A ideia é deixada por Eric Sautedé. O académico defende que o anúncio de Domingo já era esperado desde 2003, ano em que Xi Jinping assumiu a presidência da República Popular da China.

WANG JIANWEI PROFESSOR DA UM

Xi já anunciou que vai levar a cabo mais pacotes de reformas, nomeadamente no que respeita à abertura externa nos próximos anos. Para o académico trata-se de um momento fulcral em que é necessário ter uma “mão firme a liderar o país”. É por isso que, considera, “há muitas pessoa na China que vêm a mudança de acordo com esta perspectiva e não como negação da democracia ou da liberdade”, refere.

NINGUÉM É INSUBSTITUÍVEL

A opinião não é partilhada pelo jurista António Katchi. O professor do Instituto Politécnico de Macau é claro. “Alguém acreditará sinceramente que, se em 2023 o Xi Jinping fosse substituído, por exemplo, pelo Li Keqiang (actual Primeiro-Ministro), isso levaria, por si só, a uma mudança significativa de políticas internas e externas? Eu não acredito. Alguma mudança de estilo poderia haver, mas não uma mudança significativa de políticas”, sublinha ao HM. Sendo certo que ninguém é absolutamente insubstituível, afirma Katchi, é verdade que, “em determinadas circunstâncias históricas,

“Socialmente, os únicos verdadeiros inimigos do regime chinês são as classes trabalhadoras do mundo inteiro, incluindo as da própria China; ideologicamente, sãono os verdadeiros socialistas, comunistas e anarquistas e, admitamo-lo também, os verdadeiros democratas-liberais.” ANTÓNIO KATCHI PROFESSOR DO INSTITUTO POLITÉCNICO DE MACAU

VISÃO INTERIOR

“P

enso que a curto prazo não haverá repercussões para Macau e Hong Kong”, aponta Wang Jianwei. “Os Chefes do Executivo das RAE têm mandatos limitados e esta mudança não vai levar a que as circunstâncias se transformem nem que se recorra ao exemplo da China como argumento para isso”, sublinha. O académico admite, porém, que o efeito se pode eventualmente sentir nos governos locais do continente. Mas Macau e Hong Kong não têm de seguir o exemplo, até porque “isso só levaria a mais discussões na área da política local”. De referir que os dois mandatos do Chefe do Executivo local tiveram como referência a situação no continente. S.M.M.

potência imperialista, exportando, já não só mercadorias, mas também capitais, e aumentando correspondentemente o seu peso político-militar (e a sua vontade de domínio político e militar) na arena internacional. “Os outros dois grandes pólos do imperialismo – Estados Unidos e União Europeia - estão ligados à China por uma relação que inclui dependência mútua, colaboração (cumplicidade na pilhagem global) e competição”, sublinha. “Já os países situados na periferia da ordem capitalista global estão ligados à China por uma relação que é basicamente de sujeição. Socialmente, os únicos verdadeiros inimigos do regime chinês são as classes trabalhadoras do mundo inteiro, incluindo as da própria China; ideologicamente, são-no os verdadeiros socialistas, comunistas e anarquistas e, admitamo-lo também, os verdadeiros democratas-liberais. Ora, é este o quadro geral que determina as políticas do PCC, e não qualquer pretenso «pensamento de Xi Jinping», remata o professor do Instituto Politécnico de Macau.

Formalizada agora a intenção de alterar a Constituição e atribuir mandatos por tempo indeterminado ao Presidente, representa o “abandono de uma zona segura para voltar ao triunfo da ideologia”, lamenta.

“Isto vai contra o rumo do mundo, das democracias e das politicas actuais que são praticadas.”

DE VENDAS NOS OLHOS

JORGE MORBEY HISTORIADOR

“A nível internacional não terá consequências”, começa por dizer Jorge Morbey. A razão é simples e pouco feliz. “No ocidente sempre viram a China com lentes bastante coloridas.”, explica. “Aquilo que é objecto de análise crítica no ocidente não o é quando se fala de China”, lamenta o historiador. Consequentemente, sendo a mudança aprovada no próximo mês, “o ocidente não vai fazer nada, mas se isto acontecesse num país ocidental caía o Carmo e a Trindade”. António Katchi é mais radical e faz um apanhado do que considera as relações entre o ocidente e a China. “A partir de finais dos anos 70, a classe dirigente do Partido Comunista Chinês - toda ela comprometida com as atrocidades cometidas sob o comando supremo de Mao Tse Tung, ao longo das três décadas anteriores, em nome de um pretenso “socialismo” - passou-se de armas e bagagens para o lado do grande capital, procurando encontrar para si própria, e para o seu país, um lugar ao sol dentro dessa ordem capitalista mundial. Que lugar foi esse? Primeiro, o de fábrica do mundo; depois, o de grande mercado de consumo e de grande investidor à escala global”, comenta. Para o jurista, neste processo, a China transformou-se numa

GONÇALO LOBO PINHEIRO

“A motivação que levou Deng Xiaoping a impor um limite de mandatos à presidência tinha como objectivo abolir os cargos vitalícios, de que Mao era um exemplo. Deng considerava que estas situações não eram benéficas para o desenvolvimento do país.”

SOFIA MARGARIDA MOTA

O

Partido Comunista Chinês (PCC) anunciou neste Domingo a intenção de pôr fim ao limite de dois mandatos na presidência e vice-presidência, inscrito na Constituição. Na prática, a medida abre caminho a um terceiro mandato de Xi Jinping e mesmo a um Governo por tempo indeterminado. A mudança é votada a partir de 5 de Março na sessão anual da Assembleia Nacional Popular (ANP) Apesar das vozes que já se levantam contra e a favor da mudança à constituição, para o académico Jianwei Wang “a situação ainda não está muito clara para que possamos falar de implicações e consequências no que toca a esta decisão”, afirmou ao HM. Mas, admite, trata-se de uma estratégia que visa a estabilidade do país. Se para Deng Xiaoping era essencial a limitação de mandatos para o desenvolvimento da China, parece que agora, na inversão da situação, o argumento pode ser o mesmo. “A motivação que levou Deng Xiaoping a impor um limite de mandatos à presidência foi a abolição dos cargos vitalícios, de que Mao era um exemplo. Deng considerava que estas situações não eram benéficas para o desenvolvimento do país”, refere o Wang Jianwei. No entanto, “o limite de dois mandatos também não é necessariamente bom se pensarmos em políticas a longo termo. Não é bom para a estabilidade política”, defende o professor da Universidade de Macau. Contra a possibilidade de uma mudança para mandatos indeterminados passarem a vitalícios, Wang

O acento num discurso dicotómico por parte dos Estados Unidos pode ser um dos efeitos do fim do limite de mandatos proposto por Xi. Para Wang Jianwei, “de um ponto de vista ocidental, a maioria das pessoas pensa que este não é um passo no sentido de seguir em frente mas antes um retrocesso à Era de Mao, o que também dá jeito, por exemplo, aos Estados Unidos”, refere. De acordo com o académico, o país liderado por Trump “pode aproveitar e acentuar a dualidade de políticas entre a democracia do ocidente e autoritarismo do oriente e esta mudança”. Sofia Margarida Mota

sofia.mota@hojemacau.com.mo


4 grande plano ANÁLISE

27.2.2018 terça-feira

Carlos Morais José

A

proposta de alteração da constituição chinesa, nomeadamente a remoção do limite de dois mandatos para presidente e vice-presidente, feita pelo Partido Comunista Chinês e ainda não aprovada, constitui um passo atrás na História, de um golpe profundo nas aspirações “científicas” do regime e de um abrir de uma caixa de Pandora de onde poderão sair malefícios dispostos a afectar o mundo. Não foi por acaso que Deng Xiaoping introduziu esta norma, até aí e ainda hoje inexistente no dito “mundo socialista”. A China acordava do pesadelo da Revolução Cultural, na certeza de que seguir a vontade de um só homem podia conduzir o país ao descalabro. Sabiamente, Deng compreendera que a libertação das forças produtivas implicava também uma mudança significativa na estrutura do poder, de modo a que não se criassem as condições para uma repetição da História que, sabemos desde Marx, acontece primeiro como tragédia e depois como farsa. Ora se a Revolução Cultural representa uma trágica repetição da História, nomeadamente da violenta ascensão da dinastia Qin e da destruição cultural subsequente, o regresso da China a um tenaz comando centralista e providencialista provavelmente desenrolar-se-á como farsa, sob a luz dos holofotes mediáticos, numa teatralidade já obsoleta, que não seduzirá o mundo esclarecido. Isto porque confiar na existência de homens providenciais é tique de um mundo antigo, enraizado na superstição e no alívio da submissão, distante da pretensão de cientificidade que o PCC gosta de utilizar no seu discurso e na definição dos seus objectivos. Na verdade, trata-se de uma desgraça, velha como o mundo, áspera como balas e de consequências funestas. Existe aqui algo de religioso neste pensamento que, no século XXI, deveria estar totalmente afastado, erradicado, sanitizado, dos meandros do poder. Até porque o culto da personalidade, por muito que agrade às informes massas, deve ser mantido nos limiares das revistas de famosos, na medida em que roça o ridículo numa mente esclarecida, contemporânea e, sobretudo, escaldada pelo “carisma” de alguns personagens do século XX. Trata-se, no limite, de algo exorcizado por Deng Xiaoping, cuja sabedoria proporcionou à China o lugar que hoje ocupa no plano internacional e proporcionou o crescimento interno que espanta o mundo. Infelizmente, agora prevê-se o regresso de um certo infantilismo de cariz popular, insuportável a olhos lúcidos e a ouvidos educados, na medida em que desvenda o aspecto teatral do relacionamento do poder com as massas populares. Xi Jinping, que se apressou a classificar de “nihilismo histórico” o

pensamento filosófico finissecular europeu (pós-moderno), não deveria precisar de importar os valores escatológicos do Ocidente (judaico-cristãos) para justificar um Mandato do Céu. A China implementava o discurso do “governo científico”, mais assente na máquina do Partido do que na benevolência e sapiência de um só homem. E com esta postura distinguia-se de outros países ditos comunistas ou pós-comunistas. Inaugurava, para gáudio de alguma esquerda, um novo sistema de transferência de poder em ambiente autoritário, que garantia alguma alternância, luta política, portanto, satisfação. Sem perder mão das rédeas, nem deixar de picar o cavalo na direcção pretendida e apresentando tremendos resultados económico-sociais. Tudo isto sem recorrer ao abstruso culto da personalidade ou mesmo evitando-o como Maomé evitava o toicinho, pois lembrava-se ainda na pele dos efeitos maléficos de tal sorte. Resta equacionar, sobretudo pelos actuais líderes chineses, se esse extraordinário desenvolvimento económico-social não foi precisamente consequência do novo ordenamento político e motivado pela constitucional e inevitável sucessão: do mesmo modo que as forças produtivas se libertavam no mercado e na sociedade, também as forças políticas prosperavam no interior do PCC e o horizonte certo de mudança não só motivava a criatividade como pacificava a mecânica dos desejos. Ao impor a alternância, a constituição pacificava as facções excluídas dos lugares cimeiros, porque instituía a possibilidade de ascensão. Neste sentido, a alteração constitucional parece um passo pouco inteligente, pelo qual o PCC se extirpa dessa dinâmica que o manteve a flutuar à tona da sociedade chinesa, sem contestações de maior, durante os anos rebeldes da transformação. Xi Jinping, seguindo um famoso texto de 1937 de Mao Zedong (“Sobre a contradição”, no qual o fundador da RPC recusa a síntese hegeliana e funda o materialismo histórico sínico), identificou a actual contradição do socialismo com características chinesas: o fosso aberto entre ricos e pobres, alimentado pela crescente corrupção. E, de forma brilhante, entendendo que aí residia a salvação do Partido face ao crescente descontentamento popular, iniciou uma gigantesca campanha anti-corrupção, ganhando num golpe a aprovação das massas e a capacidade de eliminar indesejáveis. Por outro lado, implementou uma internacionalização estruturada da China, através da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota (que representa a primeira medida de carácter planetário até hoje concebida e implementada) e da modernização ra-

REUTERS/PETAR KUJUNDZIC

O grande passo atrás

dical do Exército de Libertação Popular, que manteve sob o controlo estrito do Partido, agora capaz de defender as aspirações chinesas no Mar do Sul. Assim, a China surgiu no planeta como a única superpotência com capacidade e vontade para desenvolver uma cooperação mundial de benefício comum, preocupada com o meio ambiente (apesar de ser o segundo maior poluidor) e criadora de conceitos globais, como a “comunidade de futuro comum”, algo que os americanos não se preocuparam em fazer e do qual se distanciam, num exercício de arrogância que deixa descalço o ocidente perante a investida oriental, armada de dinheiro e de valores globais. Mas, ao entrar no que o PCC define como “nova era”, com esta alteração constitucional, a China arrisca-se a dar um passo atrás, ainda que simbólico, ao deificar um governante. Deng previra este perigo e exorcizara-o constitucionalmente. Deste modo, a China arrisca-se a reproduzir, pelo menos para o mundo, uma nova dinastia semelhante à que governa a Coreia do Norte, hoje alvo da chacota de muitos chineses, que a classificam de “monarquia absoluta”. Tal não abonará a favor da sua imagem global como constituirá um rude golpe nos que viam nas alterações introduzidas no PCC um eventual modelo de para outros regimes de partido único. Pensamos, por exemplo, nalgumas ditaduras africanas e na influência benéfica que a comparação com a China poderia, eventualmente, produzir. Contudo, tudo indica que o passo está dado e a constituição será alertada, abrindo caminho à eternização de Xi e dos seus aliados na cadeira do comando. O futuro dirá se não se trata de um tiro no pé, mais motivado pela uma arrogância infantil de quem sente um extremo poder antes sonegado, porque, sejamos francos, só uma mentalidade de criança aceita a existência de homens providenciais. Ao negar a extensão do poder além de dois mandatos, a constituição chinesa sabiamente evitava o infantilismo político, cujas trágicas consequências estão bem documentadas pela História. Um grande político deve ter a consciência da necessidade de se retirar da cena pública, sob pena de se transformar (a si e, sobretudo, aos que gravitam à sua volta) naquilo que procurava combater. Já sem falar das maleitas sociais provocados pela inércia que decorre de tal situação, entre as quais a corrupção desempenhará papel preponderante. De facto, podemos imaginar que, à imagem do presidente, outros postos do PCC nas províncias ganharão um estatuto idêntico, eternizando os mesmos no poder, com as consequências conhecidas. Esperemos que, em 2023, independentemente das mudanças constitucionais, Xi Jinping mostre que é um grande líder e tenha a sabedoria de escolher reformar-se, dando a outros o seu lugar. Para bem da China e do mundo.


política 5

GCS

terça-feira 27.2.2018

O

S deputados querem que o Governo clarifique as condições em que os patrões exigem a realização de exames médicos, durante o processo para a contratação de Trabalhadores Não-Residentes (TNR). O desejo foi expresso, ontem, por Vong Hin Fai, presidente da 3.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, que se encontra a discutir a lei da actividade de agência de emprego. “É uma prática real, mas não há uma norma que exija que o processo tenha de envolver um exame médico. Não há uma lei sobre estes exames. Queremos saber se o Governo tem a intenção de regular este aspecto algo que, talvez, possa ser feito através da lei de contratação de TNR”, disse Vong Hin Fai, ontem. “Trata-se de um exame que pode ser feito em qualquer clínica médica”, clarificou. Actualmente é comum que os patrões que contratam trabalhadores não-residentes exijam

O

Chefe do Executivo, Chui Sai On, esteve presente no almoço do Ano Novo Chinês promovido pela Associação Comercial de Macau, uma das entidades mais tradicionais do território. No seu discurso, Chui Sai On referiu que, este ano, “pese embora o facto de desenvolvimento geral de Macau ter melhorado, prevê-se que o desenvolvimento da economia continue a enfrentar múltiplas dificuldades e desafios”.

EMPREGO DEPUTADOS QUEREM EXPLICAÇÕES SOBRE EXIGÊNCIA DE EXAMES MÉDICOS A TNR

Prática real

Os legisladores que analisam a lei das agências de emprego vão perguntar ao Governo se existe intenção de regular a prática de exigir aos TNR a realização de exames médicos, apesar das leis serem omissas em relação a esse aspecto

a realização de testes médicos. Porém, a lei de contratação não estipula as condições em que tal pode ser feito. A lei das agências de emprego também é omissa em relação a este o assunto.

Os deputados da comissão terminaram ontem a análise do documento sobre as agências de emprego. Agora, aguardam mais duas semanas até ao final da consulta pública, para ouvirem as opiniões

HONORÁRIOS E HABITAÇÃO

Em relação à análise da proposta da lei das agências de emprego, a comissão está preocupada com a cobrança de honorários. Segundo a proposta, as agências só podem cobrar pelos serviços de recrutamento e do tratamento das formalidades. Porém, não é claro o que acontece, quando são as próprias agências a fornecerem a habitação. Os deputados querem saber se esse serviço pode ser pago. “O artigo que define a cobrança é muito restrito. Será que as empresas podem cobrar pelo alojamento dos trabalhadores? Vamos perguntar isso ao Governo”, explicou, Vong Hin Fai.

Nuvens no horizonte

Chui Sai On: Em 2018, economia vai “enfrentar múltiplas dificuldades”

Nesse sentido, Chui Sai On promete “continuar a cumprir rigorosamente o princípio da gestão prudente das finanças consagrado na Lei Básica”, apesar de existir “uma robusta reserva financeira”. Relativamente a 2017, o Chefe do Executivo frisou que o território “enfrentou

diversas dificuldades mas, graças ao apoio total do Governo Central, com a colaboração de toda a população, e em conjugação de esforços, temos conseguido ultrapassá-las”. “Encontramo-nos, actualmente, a implementar o nosso primeiro Plano de Desenvolvimento Quinquenal e

“É uma prática real, mas não há uma norma que exija que o processo tenha de envolver um exame médico.”

das empresas do sector. Contudo, as reuniões para discutir o documento com os membros do Governo só vão acontecer no final do próximo mês. Isto porque nos inícios de Março decorrem as reuniões da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês e da Assembleia Popular Nacional, que contam com a participação de vários deputados de Macau.

a concretizar o desenvolvimento estável e diversificado da economia. Nesta fase, em que vivemos uma situação de estabilidade e de robustez das finanças públicas, o Governo irá dar prioridade aos projectos relacionados com a vida da população, envidando esforços para manter uma sociedade estável”, frisou.

VONG HIN FAI DEPUTADO

Por outro lado, os deputados estão preocupados com o facto dos trabalhadores não-residentes em Macau com vistos turísticos poderem encontrar emprego por vias alternativas, quando as agências estão proibidas de o fazer: “os trabalhadores não-residentes que ficam em Macau podem encontrar emprego através de outros meios que não as agências de emprego. Se assim for, na perspectiva da comissão, há uma área que merece aperfeiçoamento”, apontou.

Para o futuro, o Chefe do Executivo promete “melhorar constantemente as diversas políticas e medidas”. Em relação aos projectos de cooperação com o continente, o Governo promete fazer o “aperfeiçoamento de políticas e respectivos diplomas legais, assim como incentivar a integração das empresas locais e dos cidadãos na Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. Relativamente à Associação Comercial de Ma-

João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

cau, Chui Sai On acredita que esta terá um papel importante na união do “sector industrial e comercial, congregando os maiores esforços para desenvolver projectos inovadores em prol do desenvolvimento contínuo e saudável da economia a longo prazo, bem como do progresso harmonioso e estável da sociedade de Macau”.


6 política

27.2.2018 terça-feira

O

BANCO DA CHINA CHEFE DO EXECUTIVO DESTACOU BOM POSICIONAMENTO

Melhores amigos para sempre

No lugar de presidente da sucursal do Banco da China em Macau há seis meses, Li Guang reuniu ontem com o Chefe do Executivo, Chui Sai On. No encontro foi destacado o posicionamento estável da instituição bancária e a necessidade de aposta na formação de quadros qualificados na área GCS

C h e f e do Executivo, Chui Sai On, esteve ontem reunido com Li Guang, presidente da sucursal do Banco da China em Macau, um cargo que ocupa há cerca de seis meses. De acordo com um comunicado oficial, a boa situação financeira da instituição foi um dos pontos abordados no encontro. “O Chefe do Executivo referiu que a sucursal de Macau alcançou um lugar bastante importante no sector financeiro local, onde, ao longo dos anos, conseguiu ganhar a confiança da população do território.” Chui Sai On adiantou também que o Banco da China “tem sido, ao longo dos anos, um parceiro importante do Governo, apoiando-se mutuamente e contribuindo para o desenvolvimento económico e estabilidade financeira”, tal como “o equilíbrio e segurança do sistema financeiro”. Na reunião, que contou também com a presença do deputado Ip Sio Kai, na qualidade de vice-presidente da sucursal, foi também referido aquilo que se espera do trabalho de Li Guang à frente dos destinos da sucursal. “Espera-se que, sob a liderança de Li Guang, ambas as partes continuem a esforçar-se em prol do desenvolvimento da economia e do aperfeiçoamento das condições de vida da população”, aponta o mesmo comunicado. Li Guang destacou ainda o bom desempenho do banco. Foi realçado “o crescimento e os negócios da sucursal durante o ano de 2017 e as perspectivas para o ano de 2018”. O responsável “sublinhou o desenvolvimento estável dos negócios ao longo do ano passado, referindo o crescimento dos depósitos e o total dos activos do banco, tratando-se de um resultado bastante satisfatório”.

Para este ano, é esperado que o Banco da China “se possa articular activamente com as Linhas de Acção Governativa da RAEM,

procurando promover mais o desenvolvimento do sector financeiro com características próprias e a construção da cidade inteligente”.

É de frisar que a necessidade de apostar no desenvolvimento do sector financeiro virado para os países de língua portuguesa tem

O

deputado José Pereira Coutinho entregou uma interpelação escrita ao Governo onde refere que existem abusos cometidos nas avaliações dos funcionários públicos, tendo em conta o regime geral de avaliação do desempenho dos trabalhadores da Administração Pública. “Quais as razões que têm levado com que alguns serviços públicos, por sua própria iniciativa e na ausência de quaisquer reclamações dos notados, façam com que os processos de homologação das qualificações de satisfaz muito e excelente sejam abusivamente escrutinadas pelas comissões paritárias?”, questionou o deputado. O também presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM)

SOFIA MARGARIDA MOTA

FUNÇÃO PÚBLICA COUTINHO FALA DE ABUSOS NAS AVALIAÇÕES DE TRABALHADORES pede que sejam criadas medidas para “eliminar as orientações verbais de alguns dirigentes de serviços públicos que, abusivamente, têm implementado internamente um sistema de ‘quotas’ na atribuição de menções qualitativas, constantes [no regime geral de avaliação do desempenho dos trabalhadores da Administração pública]”. José Pereira Coutinho exige também uma simplificação de todo o processo. “Vai o Governo simplificar o actual sistema de classificação de trabalhadores da Função Pública, considerado pela maioria dos notados e notadores como um sistema penoso, complexo e que pouco espelha o trabalho desenvolvido pelo notado?”, inquiriu. A.S.S.

vindo a ser reforçado, sobretudo desde que foi anunciado o projecto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau e também de “Uma Faixa, Uma Rota”.

QUALIFICAR, QUALIFICAR

Li Guang destacou a necessidade do Banco da China apostar na formação de quadros qualificados para dar resposta ao desenvolvimento de um sector financeiro “com características próprias”. “A formação de jovens quadros qualificados nas empresas é também muito importante para esta sucursal, incluindo a selecção de formandos que participam nas acções de formação na China interior, permitindo-lhes integrar no desenvolvimento da região.” O presidente referiu ainda acreditar que “tudo isto irá impulsionar o cultivo de quadros qualificados do sector financeiro local”. Chui Sai On frisou que o Banco da China tem dado importância à formação dos jovens, “seguindo a mesma linha de pensamento do Governo no que diz respeito aos trabalhos destinados aos jovens”. “O mesmo responsável reiterou que a formação de nova geração e a reserva de quadros qualificados são de grande importância para a continuação do princípio Um País, Dois Sistemas, e que o Governo da RAEM irá dar o máximo para desempenhar bem os seus trabalhos nas diversas áreas, incluindo proporcionar oportunidades no ensino básico, ensino superior, empreendedorismo e emprego, permitindo que os jovens locais possam tirar proveito das suas vantagens e contribuir para o desenvolvimento de Macau”, aponta o comunicado, citando palavras do Chefe do Executivo. Andreia Sofia Silva

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Função Pública Song Pek Kei quer avaliação de tarefas específicas

A deputada Song Pek Kei pede ao Governo que introduza a avaliação a itens específicos no sistema de avaliação de trabalhadores da função pública. “Há queixas da população relativamente ao sistema de avaliação, nomeadamente no que diz respeito aos padrões rígidos que a regem. Por outro lado, fica de fora a atribuição de pontuação ao desempenho de tarefas específicas”, refere a deputada em interpelação escrita. Desta forma, considera, a avaliação é incapaz de promover a qualidade dos serviços prestados. Também não há justificações por parte do Executivo no que respeita aos critérios utilizados para limitar as classificações de excelente e muito bom. Song Pek Kei quer saber porquê.


sociedade 7

terça-feira 27.2.2018

GRIPE GOVERNO ATENTO À SITUAÇÃO DEPOIS DO REGRESSO ÀS AULAS

O

S Serviços de Saúde (SS) emitiram ontem um comunicado onde afirmam estar atentos à situação da gripe, uma vez que ontem a maior parte das escolas iniciou as aulas depois das férias do Ano Novo Chinês. Ainda assim, a situação parece estar controlada. “Os dados da monitorização efectuada pelos SS à situação da gripe em Macau revelam que a mesma tem registado uma diminuição ligeira, mas ainda se mantém num nível alto.” Além disso, está prometida uma estreita cooperação com a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) no que diz respeito às orientações emitidas aos estabelecimentos de ensino. Ontem não foi registado qualquer caso de gripe grave ou mortal. Nos últimos três dias, ou seja, entre 23 e 25 de Fevereiro, 5,8 por cento dos doentes atendidos no São Januário tinham gripe, contabilizando um total de 38 pessoas. Foram atendidas 44 crianças, o que representa uma proporção de 24,7 por cento dos pacientes que recorreram às unidades hospitalares. “Estes resultados confirmam a existência de um pico de gripe, mas com diminuição de casos comparativamente com os dias anteriores. O tempo de espera do Serviço de Urgência do Centro Hospitalar Conde de São Januário e do Hospital Kiang Wu reduziu para cerca de uma hora, sendo que a taxa de ocupação de camas é de 90 por cento. Por sua vez, a taxa de ocupação de camas registada no Hospital Kiang Wu é de 70 por cento, aproximando-se de um nível normal”, revela o mesmo comunicado. Até ao momento já faleceram três pessoas vítimas da gripe, tendo sido registados seis casos críticos.

TNR Macau com mais de 180 mil não residentes

Em finais de Janeiro, Macau contava com 180.482 trabalhadores não residentes segundo os dados dos Serviços para os Assuntos Laborais. De acordo com a Rádio Macau, o valor representa um aumento de 2820 pessoas face a Janeiro de 2017. Relativamente a Dezembro do ano passado, esse crescimento ronda os mil trabalhadores. A maioria dos trabalhadores não residentes é da China (113.632). A comunidade das Filipinas conta com 28.947 pessoas sendo assim a segunda mais significativa em termos demográficos. Contam-se ainda cerca de 15 mil trabalhadores não residentes do Vietname. O sector dos hotéis, restaurantes e similares é o que mais emprega (51.413). O sector da construção emprega 30.133 trabalhadores não residentes.

SAÚDE NÚMERO DE CADÁVERES POR RECLAMAR CRESCE NOVE VEZES NUM ANO

Esquecidos no frio No ano passado, não foram reclamados 18 corpos, um número que representa um aumento de nove vezes o valor de 2016, quando apenas tinham ficado por reclamar dois corpos. A maior parte são de residentes de Macau e do Interior da China

O

número de cadáveres por reclamar junto dos Serviços de Saúde de Macau cresceu nove vezes de 2 cadáveres, em 2016, para 18, no ano passado. Este é um número que ganha especial relevo, devido ao facto do número para o ano de 2015 ter sido igual ao de 2016, ou seja, apenas dois corpos em cada um dos anos ficaram por reclamar. “No Centro Hospitalar Conde São Januário [CHCSJ] ficaram por reclamar: dois cadáveres em 2015, dois cadáveres em 2016 e 18 cadáveres em 2017”, responderam os SSM, ao HM, após terem sido questionados sobre o assunto. Em relação aos dados sobre os corpos não reclamados, o Governo diz que são “principalmente residentes de Macau e do Interior da China”, com uma

média de idades de “43 anos”. No entanto, a proporção de corpos de pessoas com o passaporte de Macau e do Interior da China não é especificada. De acordo com a resposta do Governo, não houve assim cadáveres de cidadãos com nacionalidade portuguesa por reclamar. Este é um aumento que se regista, apesar do número de

Em relação aos dados sobre os corpos não reclamados, o Governo diz que são “principalmente residentes de Macau e Interior da China”, com uma média de idades de “43 anos”

mortos ter sofrido uma quebra entre 2016 e 2017, do total de 2.248 mortos para 2.120, no ano passado. Mesmo em 2015, o número de mortos tinha sido mais reduzido, tendo ficado nos 2.002 mortos. Os números agora avançados, ajudam a explicar o aumento recente dos avisos, por parte do Governo, a apelar para que determinados cadáveres de mortos sejam reclamados.

PRAZO DE SETE DIAS

Quando um corpo fica por reclamar o Instituto de Acção Social encarrega-se de tratar das questões ligadas ao enterro ou cremação do corpo. “Se o cadáver não for levantado pela sua família no prazo de 7 dias [após um anúncio do Gabinete de Comunicação Social], considera-se a situação como cadáver não reclamado. A Conservatória do

Registo Civil é notificada e é solicitado o apoio do Instituto de Acção Social (IAS) para as exéquias de morte”, explicaram os SSM, ao HM. No entanto, quando há suspeitas de ter havido a prática de um crime, existe primeiro uma investigação. Nestes casos após o apuramento dos factos, quando a família não reclama o corpo, é o órgão judicial que pede ao CHCSJ que dê início aos procedimentos necessários, que depois passam pela notificação da Conservatória do Registo Civil e pelo IAS. Além destas situações, acontece ainda haver cadáveres não reclamados originados por mortes fetais. Neste casos, na maior parte das situações, as famílias recebem o certificado médico do óbito do feto, mas não registam a morte na conservatória, o que impede um futuro contacto. “De um modo geral, são casos de não residentes que saíram de Macau após o parto”, explicaram os SSM, ao HM. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


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27.2.2018 terça-feira

DOCA DOS PESCADORES MACAU LEGEND ACEITA REDUZIR ALTURA DE FUTURO HOTEL

A Macau Legend aceitou diminuir o limite da altura do hotel que o grupo pretende construir na Doca dos Pescadores em um terço, de 90 para 60 metros

SOFIA MARGARIDA MOTA

Com um terço a menos

A

P ÓS uma série de críticas de que colocaria em causa a visibilidade do Farol da Guia, património mundial da UNESCO, o grupo Macau Legend Development, presidido por David Chow, aceitou reduzir a altura máxima do hotel que planeia construir na Doca dos Pescadores de 90 para 60 metros. O anúncio foi feito ontem por Melinda Chan, mulher do empresário e presidente da Doca dos Pescadores, subsidiária do grupo. “No passado houve notícias e debate público por causa da altura – se deveria ser limitada a 60 ou a 90 metros (...). Agora, que presido a esta empresa, vou apontar para que o hotel seja construído até 60 metros quando voltarmos a submeter a proposta”, afirmou a ex-deputada que, assim, pretende “aliviar as preocupações relativamente à forma como o projecto afecta a vista da cidade”.

Melinda Chan “Fixar a altura em 60 metros deve ser adequado.”

“A minha opinião é a de que fixar a altura em 60 metros deve ser adequado”, afirmou, à margem de um almoço com jornalistas, citada pelo portal GGRAsia, adiantando que o novo projecto deve ser apresentado ao Governo em breve. A altura inicialmente projectada para o Legendale Hotel

encontrou oposição de deputados, activistas e de grande parte dos vogais do Conselho do Planeamento Urbanístico (CPU). No ano passado, por exemplo, foi a vez do Comité do Património Mundial da UNESCO levantar preocupações, num relatório em que advertiu para as consequências do “possível impacto de empreendimentos

de grande altura nas paisagens do Farol da Guia e da Colina da Penha”. Aposta no jogo A Macau Legend concluiu até ao momento dois dos três novos hotéis projectados no âmbito do plano de remodelação da Doca dos Pescadores: o Harbourview, sem casino, que abriu em Fevereiro de 2015 e o Legend Palace, dois anos depois. Ter jogo no Legendale Hotel figura entre as expectativas de Melinda Chan: “Claro que esperamos que ter jogo lá”. “Afinal de contas, o jogo é o pilar da Doca dos Pescadores”, sublinhou, fazendo referência ao Casino Babylon e ao Legend Palace. Neste momento, a empresa procura novas formas de atrair mais visitantes para a Doca dos Pescadores, nomeadamente através do aumento da frequência dos eventos que ali têm lugar e de melhorias na oferta de lojas. “Começámos uma espécie de mercado nocturno e nos próximos 12 meses esperamos poder acolher, pelo menos, um evento de dois em dois meses, de modo a que possamos ver um aumento do ritmo”, afirmou Melinda Chan. A ex-deputada indicou ainda que foram recuperadas algumas lojas que vão ser entregues a novos inquilinos na esperança de que venham a oferecer “novos conceitos” no comércio a retalho. Diana do Mar

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HOTEL THE 13 EMPRESA DIZ QUE CASINO PODERÁ ABRIR A 31 DE MARÇO DE 2019

O

casino no Hotel The 13 poderá abrir portas ao público a 31 de Março do próximo ano, a par com alguns espaços comerciais, anunciou a empresa proprietária num comunicado enviado no domingo à Bolsa de Valores de Hong Kong. A The 13 Holdings espera ter um total de 66 mesas, das quais quase um quarto

destinadas ao segmento VIP, ficando as restantes para o chamado “premium mass”, mercado intermédio entre o de grandes apostadores e o de massas. Também prevê ter, aproximadamente, 50 ‘slot machines’ com “as apostas mínimas fixadas a um nível relativamente alto”. Contudo, ressalvou no comunicado, “pode haver

mudanças significativas nestes planos de modo a responder às exigências do Governo de Macau”. A abertura do casino a 31 de Março de 2019 também se encontra dependente, entre outros aspectos, da assinatura de um acordo formal com uma das seis concessionárias de jogo e do aval

do Executivo de Macau, reiterou a empresa. A inauguração do luxuoso hotel, que fica localizado às portas de Coloane, tem sofrido uma série de adiamentos, com a mais recente previsão a apontar para o próximo dia 30 de Abril, segundo dados da empresa que tem estado a braços com uma série de

problemas, como atrasos nas obras e dificuldades de financiamento. Em finais de Janeiro, Stephen Hung, que era visto como um dos mentores do projecto, demitiu-se do cargo de co-presidente e director executivo da The 13 Holdings, tendo sido substituído no cargo por Peter Coker. .D.M.

TURISMO VISITANTES DESCERAM EM JANEIRO DEVIDO AO ANO NOVO LUNAR

E

M Janeiro deste ano chegaram a Macau 2.741.465 visitantes, o que corresponde a uma queda anual de 4,7 por cento, justificada pelo facto de o Ano Novo Lunar de 2017 ter calhado em Janeiro, ao passo que em 2018 se celebra em Fevereiro. Em termos mensais, a quebra foi de 10,2 por cento. Registaram-se 1.258.358 excursionistas e 1.483.107 turistas. Os visitantes permaneceram no território por um período médio de 1,3 dias, isto é, mais 0,2 dias em termos anuais. Mantiveram-se os períodos médios de permanência dos turistas e dos excursionistas, em 2,1 dias e 0,2 dias, respectivamente, informam os serviços. Em Janeiro entraram 1.927.642 visitantes oriundos da China Continental, -3,5 por cento, em termos anuais. Entretanto registou-se um aumento de 20,2 por cento de visitantes da República da Coreia (97.861), ultrapassando pela primeira vez Taiwan (83.591) e tornando-se o terceiro principal mercado de visitantes. Já os visitantes provenientes dos Estados Unidos da América (14.474), do Canadá (6.011) e do Reino Unido (3.812) diminuíram em termos homólogos, ao passo que aumentaram os turistas oriundos da Austrália (9.924).

Turismo Alerta de Viagem baixa para nível 1

O Gabinete de Gestão de Crises do Turismo (GGCT) decidiu baixar o alerta de viagem relativo ao vulcão Agung, na ilha de Bali na Indonésia, para nível 1, dada a “atenuação da crise”. Ainda assim, o organismo “alerta aos residentes de Macau que planeiem viajar, ou que se encontrem em Bali, para estarem em alerta e acompanharem o desenvolvimento dos acontecimentos que poderão afectar a sua segurança pessoal naquele local”. O mesmo comunicado aponta que “o Sistema de Alerta de Viagens não tem carácter proibitivo, cabendo a cada indivíduo a decisão de viajar ou de ajustar o seu plano de viagem de acordo com as informações disponibilizadas”.


sociedade 9

A

Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) voltou a perder mais uma guerra no Tribunal de Segunda Instância (TSI), devido a um processo de reversão de um terreno. Em causa está um lote com 1.420 metros quadrados na ZAPE, na Rua de Pequim. Segundo a decisão do TSI, a partir do momento em que uma concessão provisória chega ao fim, sem ter sido tornada definitiva, deixa de interessar de quem é a culpa. A única solução do Governo passa sempre por recuperar os terrenos. “Uma vez decorrido o prazo da concessão provisória do terreno sem esta ter sido convertida em definitiva, independentemente de haver ou não culpa do concessionário, ou prévia declaração da caducidade com fundamento na falta de aproveitamento do terreno dentro do prazo fixado, verifica-se sempre a caducidade da concessão provisória”, pode ler-se

TIAGO ALCÂNTARA

terça-feira 27.2.2018

Terra vem, terra vai

Tribunal de Segunda Instância contra a STDM

na decisão assinada pelos juízes Ho Wai Neng, José Cândido de Pinho, Mai Man Ieng e Tong Hio Fong.

“Nesta conformidade, existir ou não culpa no incumprimento do contrato de concessão por parte da

PUB

Aviso Considerando que não se revela possível notificar directamente os interessados, por ofício, telefone ou outros meios, para efeitos de prosseguimento das respectivas decisões administrativas, nos termos dos artigos 68° e 72° do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei nº 57/99/M, de 11 de Outubro. Nos termos da alínea 10) do artigo 10º do Regulamento Administrativo nº 32/2001 e no uso das competências conferidas pelo Conselho de Administração e constantes da Proposta de Deliberação nº 01/PDCA/2017, de 17 de Fevereiro, publicada no B.O. nº 9, II série, de 01 de Março de 2017, o Presidente do Conselho de Administração, José Tavares proferiu, em 29 de Janeiro de2018,o despacho no sentido de notificar os interessados que ocupam ilegalmente o terreno, sito na Rua da CAL porta, no 83, de que devem proceder à remoção da referida construção ilegal, no prazo de 30 (trinta) dias, a contar da data da publicação deste aviso, nos termos do artigo 6º do Regulamento Geral dos Espaços Públicos, aprovado pelo Regulamento Administrativo nº 28/2004 e do nº 1 do artigo 144º do Código do Procedimento Administrativo, caso contrário, o IACM procederá à sua remoção. Caso os interessados não cumpram as suas obrigações no prazo determinado, o IACM procederá, nos termos e para os efeitos do nº 2 do artigo 144º do Código do Procedimento Administrativo, à execução directa de tal tarefa, ficando neste caso todas as despesas por conta dos interessados. Segundo as disposições do artigo 149º e do nº 2 do artigo 155º do Código do Procedimento Administrativo, os interessados poderão apresentar, a partir do dia seguinte ao da publicação deste aviso, reclamação junto do Presidente do Conselho de Administração dentro do prazo de 15 (quinze) dias e/ou recurso hierárquico facultativo junto do Conselho de Administração, no prazo de 30 (trinta) dias. Por último, os interessados poderão ainda apresentar recurso contencioso junto do Tribunal Administrativo, dentro do prazo de 30 (trinta) dias, definido pelo artigo 25º do Código do Processo Administrativo Contencioso, aprovado pelo Decreto-Lei nº 110/99/M, de 13 de Dezembro. Macau, aos 27 de Fevereiro de 2018 O Administrador do Conselho de Administração Mak Kim Meng WWW. IACM.GOV.MO

Recorrente deixa de ser relevante para o caso concreto”, é acrescentado.

SEM ALTERNATIVAS

No recurso, a STDM defendia ainda que teria havido uma “violação dos princípio da imparcialidade” e “da boa-fé”, por parte do Governo. Porém, este foi um cenário negado pelo tribunal. A razão é simples:

a lei não impõe alternativas à decisão da administração. Também na parte em que esta se queixava de não ter sido ouvida, antes de ser tomada uma decisão por parte do Chefe do Executivo, o TSI considerou o facto irrelevante: “a audiência da Recorrente [STDM] deixa de ter qualquer efeito útil, uma vez que nada pode influenciar a decisão a tomar pela Entidade Recorrida”, é considerado. O terreno em causa foi cedido à empresa ligada a Stanley Ho, em 1989, mas como a escritura não foi assinada até 1991, só nessa altura é que o prazo da concessão começou a contar. Inicialmente, o terreno estava destinado à construção de um hotel, mas a finalidade acabou por ser alterada para o desenvolvimento de escritórios, que também nunca foram construídos. Anteriormente, o TSI já tinha validado a decisão do Chefe do Executivo de recuperar à STDM o terreno com a área de 968 metros quadrados, no gaveto formado pela Estrada de D. João Paulino, Estrada de Santa Sancha e Calçada das Chácaras. J.S.F.

Inflacção Taxa sobe em Janeiro

A taxa de inflação em Macau subiu 1,23 por cento nos 12 meses terminados em Janeiro, relativamente ao mesmo período imediatamente anterior, indicam dados oficiais divulgados ontem. De acordo com os Serviços de Estatística e Censos (DSEC), o Índice de Preços no Consumidor (IPC) registou as maiores subidas nos preços da educação (+6,06 por cento) e da saúde (+4,53 por cento). Só em Janeiro, o IPC geral, que permite conhecer a influência da variação de preços na generalidade das famílias de Macau, cresceu 1,74 por cento em termos anuais, sendo este crescimento inferior ao Dezembro passado (+2,04 por cento). Em relação a Dezembro, o IPC geral registou uma ligeira subida de 0,06 por cento, segundo a DSEC. Em 2017, a taxa de inflação em Macau foi de 1,23 por cento, uma diminuição relativamente aos 2,37 por cento registados em 2016.


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HOJE MACAU

27.2.2018 terça-feira

Há dois anos Window Lei, proprietário do centro comercial Broadway Center, na Rua do Campo, teve um sonho: dar um espaço aos negócios de Macau na área das indústrias criativas e criar o projecto Village Mall, com rendas apetecíveis. Contudo, há muitas lojas fechadas, poucos clientes durante a semana e vários negócios por um fio

Centro assom VILLAGE MALL ESPAÇO DE INDÚSTRIAS CRIATIVAS COM NEGÓCIOS POR UM FIO

O

Broadway Center, no coração da Rua do Campo, é aquilo que todos os centros comerciais de Macau gostariam de ser: renovado, com uma grande aposta em produtos locais feitos por jovens empreendedores e cheio de vida cultural. Criado há dois anos por Window Lei, o projecto Village Mall ocupa apenas três pisos, dois deles destinados a lojas e um destinado à restauração. Todos os fins-de-semana organizam-se acti-

vidades para pais e filhos, alguns concertos e feiras onde o que de melhor se faz em Macau é exposto ao público. Se aos sábados e domingos o velho centro comercial de cara lavada ganha uma nova vida, com vários clientes e visitantes, durante a semana a dura realidade instala-se: é difícil fazer negócio e os clientes são poucos. Durante a semana, o Village Mall transforma-se num qualquer centro comercial antigo, dos muitos que existem na penín-

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA ROSTO PRECÁRIO • Eugénio de Andrade Para Eugénio, antibiografista e fingidor, o poeta “nega onde outros afirmam, desoculta o que outros escondem”, e é nesta medida que a escrita representa “uma forma de encontro com o próprio rosto”. Ecce Poeta, parece dizer cada texto. Eis o Poeta: fiel ao Homem, à Terra, à Palavra e ao seu Rosto. Nada efémero, nada precário.» Joana Matos Frias.

sula, e que há muito deixaram de atrair visitantes. À hora em que esta reportagem é feita são poucos aqueles que circulam pelos corredores e há muitas lojas fechadas no primeiro andar. É aqui que conversamos com Vivian, proprietária do espaço “PaperCrafters”. A “PaperCrafts” vende material de papelaria e de decoração feito na Coreia do Sul e no Japão, e que são bastante populares em Macau. Apesar de Vivian, a proprietária, ter

seguido a moda que explodiu nos últimos anos, o negócio não corre de feição. “Podemos conversar à vontade. Afinal de contas, não tenho nada para fazer, não há ninguém a passar aqui”, começa por confessar ao HM. “Não temos muitos clientes e quem está no rés-do-chão está melhor. Durante a semana temos poucas pessoas, mas ao fim-de-semana temos mais.” A “PaperCrafts” nasceu há dois anos, tendo a mesma idade que o projecto Village Mall. “Tinha

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DIÁLOGOS COM JOSÉ SARAMAGO• Carlos Reis José Saramago entrevistado por Carlos Reis. Um registo de testemunhos realizado durante cerca de sete horas em que o professor universitário questiona o criador de Blimunda sobre a formação, a aprendizagem, a profissão e a condição de escritor. Sobre a História como experiência.


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terça-feira 27.2.2018

principal razão pela qual as pessoas vêm aqui”, contou o funcionário da Fortitude. A Fortitude vende sobretudo t-shirts e malas de tecido personalizadas, cheias de mensagens, e também está aberta há dois anos. Bengie confessa que é difícil fazer deste um negócio rentável, apesar de trabalhar ali apenas há um ano. “Tudo depende do contrato de arrendamento que se assina. Em termos de clientes, é 50/50”, defendeu. “Todos os sábados e domingos há eventos de música, para famílias, há também actividades para caridade e isso atrai as pessoas que acabam por comprar alguma coisa.”

ONLINE SALVA LOJAS

mbrado mais expectativas quando aqui cheguei, porque havia mais lojas, mas acabaram por mudar todas lá para cima. Há muito poucas estabelecimentos e isso não é muito atractivo para chamar para cá os clientes”, apontou. Vivian não tem dúvidas. A continuar assim, o seu negócio não deve durar muito nos moldes em que existe actualmente. “Acho que a loja vai fechar ainda este ano. Lá em baixo as rendas são mais altas. Tudo vai depender do valor da renda [se muda para uma outra loja no Village Mall ou se abandona o projecto].”

CONQUISTAR PELO PALADAR

“Lá em cima”, como diz Vivian, existe um espaço de restauração, esse sim com mais pessoas e cheio de comidas que são de vários lugares da Ásia, desde o Japão a Taiwan. É este o espaço que acaba por atrair mais pessoas, conforme contou ao HM Bengie, funcionário da loja “Fortitude – Urban Art and Culture”.

Até chegarem ao terceiro andar, os clientes acabam por passar por algumas lojas e, eventualmente, comprar alguma coisa. Contudo, as lojas parecem não constituir o principal motivo para uma visita. “Aqui no primeiro andar só existem três lojas. No segundo andar não é tão mau, porque há uma maior diversidade de espaços. Há muitas lojas de acessórios e produtos feitos à mão, por exemplo. O mais importante é mesmo o terceiro andar, e é a

No segundo andar não se trata apenas de negócio. Num dos espaços funciona uma pequena biblioteca que é, ao mesmo tempo, um lugar de lazer. Um homem dorme num dos sofás. Há um piano à espera de ser tocado e estantes cheias de livros que podem ser lidos e partilhados. No mesmo andar há muitas lojas vazias. Passam das 16 horas quando Dada vem abrir a sua loja, “Midnight”. Cartazes de filmes, um deles do cineasta Wong Kar-wai, povoam a porta, mas a “Midnight” não vende filmes, mas sim produtos decorativos vindos de Hong Kong e acessórios femininos feitos à mão. Dada convida-nos a sentar e confessa que a loja só é rentável porque também vende os mesmos produtos online. “Até agora o negócio tem corrido bem porque também vendemos na internet, e isso faz com que esta loja seja rentável.” “Tenho entre cinco a dez clientes por dia, mas não tenho muito mais escolhas em termos de locais para manter uma loja. O valor da renda é ok. Antes tinha a loja num espaço mais escondido e decidi mudar-me para aqui, para ter mais clientes. A oportunidade surgiu através de um amigo”, acrescentou Dada. No Village Mall, a proprietária da “Midnight” confessa já ter visto muitas lojas como a sua a fecharem portas, mas, no seu caso, prefere não desistir, pelo menos por enquanto. “Para já vou manter-me aqui até arranjar um lugar melhor. Aqui, o proprietário dá-nos a oportunidade de expor de forma gratuita nos mercados que são organizados aos fins-de-semana, e isso é bom para mostrarmos os nossos produtos. Só assim é que nos conseguimos manter, é muito difícil é ter lucros”, frisou. Dada reconhece a aposta que o Governo tem vindo a dar à área das indústrias criativas, e destaca também o investimento feito por Window Lei. Contudo, apostar naquilo que é feito em Macau ainda não chega. “Se abrirem lojas deste género é muito diferente do que se importarem algumas marcas para Macau. Assim pode correr bem, porque de outra

“Acho que a loja vai fechar ainda este ano. Lá em baixo as rendas são mais altas. Tudo vai depender do valor da renda [se muda para uma outra loja no Village Mall ou se abandona o projecto].” VIVIAN PROPRIETÁRIA DA “PAPERCRAFTS”

forma é difícil apostar em produtos locais”, defendeu. A artesã adiantou ainda que o mentor do projecto Village Mall poderia fazer uma maior promoção ao espaço, apesar da realização de actividades criativas e lúdicas ao fim-de-semana. “Sem essas actividades é difícil fazer com que os clientes venham aqui.” Também Vivian, da “PaperCrafts”, partilha da mesma opinião. “O proprietário não faz muita publicidade a este espaço e muitas

das pessoas não fazem ideia de que este espaço existe e é difícil procurar produtos aqui, porque as lojas têm horários de abertura e de fecho diferentes.” Percorremos mais corredores, vazios a meio da tarde. Há várias máquinas de jogos espalhadas, a fazerem lembrar hábitos bem japoneses, mas ali não há ninguém a gastar tempo livre a tentar a sua sorte. Bem perto das máquinas de jogo funciona a SDA Dance Complex, uma empresa de dança urbana que atrai muitos jovens, conforme contou Miva ao HM. Uma das responsáveis por um dos projectos que mais agita o dia-a-dia do Village Mall confirma que, de facto, o burburinho só se nota aos fins-de-semana. “Há muitos jovens que vêm ao nosso estúdio, porque temos um projecto ligado à dança de rua, e é um projecto apropriado para os jovens. O terceiro andar oferece um espaço de restauração com diferentes comidas, e durante os fins-de-semana há mais pessoas a visitar, porque realizam-se actividades no Village Mall, para bebés e há várias competições para crianças.”

UM CENTRO EDUCATIVO NA CALHA

“Para já vou manter-me aqui até arranjar um lugar melhor. Aqui o proprietário dá-nos a oportunidade de expor de forma gratuita nos mercados que são organizados aos fins-de-semana, e isso é bom para mostrarmos os nossos produtos. Só assim é que nos conseguimos manter, é muito difícil é ter lucros.” DADA PROPRIETÁRIA DA “MIDNIGHT”

O HM tentou, até ao fecho da edição, chegar à fala com Window Lei, mas não foi possível estabelecer contacto. No Village Mall, a sua secretária, Ruby, avançou com mais informações. Desde a abertura do espaço, há dois anos, que ali se estabeleceram cerca de 30 lojas. Muitas delas já fecharam, mas Ruby não conseguiu precisar um número. “Talvez precisem de mais clientes”, apontou apenas. Apesar disso, Ruby assegura que o Village Mall tem vindo a receber pessoas de vários lugares. “Há pessoas que vêm cá oriundas de lugares diferentes, até da China, e muitos turistas também. Temos vindo a fazer alguma publicidade e promovemos vários eventos. Temos também uma cooperação com a Wynn.” Os lojistas com quem o HM falou queixaram-se das rendas de um projecto que, em 2016, pedia candidatos que pagassem cerca de oito mil patacas mensais. Os lojistas confessam, no entanto, que os valores divergem consoante o andar em que estão localizados. “Tentamos ser flexíveis ao nível das rendas, penso que este é um bom lugar para estas empresas estarem”, frisou. “Também temos eventos em que os lojistas podem participar de forma gratuita.” Para este ano está prevista a abertura de um centro educativo. Depois da dança, da música e das artes, o Village Mall está pronto para abrir um espaço dedicado à área da educação. Resta esperar que as pessoas apareçam. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


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27.2.2018 terça-feira

ENERGIA SUPERESTRADA SOLAR COM CARGA AUTOMÁTICA DE CARROS ATÉ 2022

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REACÇÃO PEQUIM CENSURA CRÍTICAS ONLINE À PROPOSTA PARA REMOVER LIMITE DE MANDATOS

O grande apagão

A censura chinesa está a eliminar comentários sobre a proposta do Partido Comunista de remover da Constituição o limite de mandatos para o cargo de Presidente, enquanto analistas preveem que o país regresse ao absolutismo

U

M dia depois da proposta do Partido Comunista Chinês (PCC), uma busca nas redes sociais chinesas pelas palavras “Xi Jinping servir outro mandato” não dava nenhum resultado. No entanto, utilizadores do Weibo partilharam imagens do desenho animado do Ursinho Pooh a abraçar um jarro com mel, com a legenda “Agarra-te àquilo que amas”. A imagem não é inocente, uma vez que o cartoon tem, nos últimos anos, comparado o Presidente chinês ao urso da Disney. Outros internautas escreveram “Atenção, o veículo está a fazer marcha atrás”, - um aviso automático usado pelos veículos de entregas na China -, numa alusão ao regresso do país a um sistema absolutista semelhante ao do ‘reinado’ de Mao. Outro comentário aludia à pressão familiar em torno do casamento. “A minha mãe disse-me que eu tinha de casar enquanto o Grande Tio Xi fosse Presidente”, lê-se num outro

comentário, entretanto eliminado. “Agora, posso finalmente respirar de alívio”, acrescenta. As propostas à alteração da Constituição serão votadas na Assembleia Nacional Popular (ANP) e cuja sessão anual decorre no próximo mês. Segundo a emenda constitucional de 1982, o exercício do cargo de Presidente está limitado a dois mandatos. “É muito provável que se torne num posto vitalício”, afirma Zhang Ming, um antigo professor de ciência política na Universidade Renmin, em Pequim, citado pela Associated Press.

CADEIRA DO PODER

A nível interno, Xi afastou já os principais rivais políticos, enquanto

legitimou a sua liderança aos olhos da população, através da mais ampla e persistente campanha anticorrupção de que há memória na China, que puniu já mais de 1,5 milhões de membros do PCC, incluindo 400 altos quadros do regime. Em termos de política externa, Xi adoptou uma postura mais assertiva no Mar do Sul da China, reclamando a totalidade do território, apesar dos protestos dos países vizinhos. O professor e comentador chinês Hu Xingdou diz duvidar que Xi queira ser Presidente vitalício, mas que há preocupações de que a China “possa deslizar para um tipo de fascismo ou ditadura pessoal com graves consequências”. Além de secretário-geral do PCC e Presidente da Chi-

Um dia depois da proposta do Partido Comunista Chinês (PCC), uma busca nas redes sociais chinesas pelas palavras “Xi Jinping servir outro mandato” não dava nenhum resultado

na, Xi é também presidente da Comissão Militar Central, Comandante-Chefe do exército chinês e chefia a Comissão Central de Segurança Nacional e o “grupo dirigente” encarregue de supervisionar o programa de “aprofundamento geral das reformas”. Um outro organismo novo, responsável pela “segurança do ciberespaço”, é também dirigido por Xi. Xi terá já dado sinais de querer prolongar a sua estadia no poder quando durante o congresso do PCC, no ano passado, quebrou com o protocolo de elevar um possível sucessor ao comité permanente do Politburo, a cúpula do poder na China. No mesmo congresso, o mais importante evento da agenda política chinesa, o nome e teoria de Xi foram incluídos na constituição do partido, elevando-o ao estatuto de Deng Xiaoping, o arquiteto-chefe das reformas económicas que transformaram a China, e do fundador da República Popular, Mao Zedong.

China terá, até 2022, sua primeira superestrada solar, que permitirá carregar de forma automática os veículos eléctricos que circulem pelos 161 quilómetros que irão unir as cidades de Hangzhou e Ningbo, no leste so país. A estrada, com seis faixas de rodagem, estará equipada com painéis solares ao longo de todo o percurso que carregarão automaticamente os veículos eléctricos e permitirá a condução autónoma. A construção da inovadora via visa acrescentar uma alternativa rodoviária e descongestionar o tráfego de outra estrada paralela, segundo informação do jornal oficial “Global Times”. Outra novidade é que os automóveis não terão que parar para pagar as portagens, já que o valor será descontado de forma automática através de um chip, à semelhança da Via Verde. Com este projecto, as autoridades querem potencializar o desenvolvimento dos veículos eléctricos no país, o maior mercado mundial automóvel, que planeia proibir num futuro não determinado a produção e venda de veículos impulsionados por combustíveis fósseis. De facto, algumas das principais estradas, inclusive a que une Pequim e Xangai, já contam com milhares de pontos de recarga para veículos eléctricos. A primeira tentativa de construção deste tipo de estrada na China aconteceu em Dezembro do ano passado na cidade de Jinan, no leste, embora só tivesse um quilómetro de extensão e tenha sofrido actos de vandalismo poucos dias depois da sua inauguração, quando foram roubadas peças das placas solares.


região 13

terça-feira 27.2.2018

Ivanka Trump, filha e assessora do Presidente norte-americano, terminou a sua viagem à Coreia do Sul sem se reunir com a delegação nortecoreana que se deslocou ao encerramento dos Jogos Olímpicos de PyeongChang

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VANKA disse que se tratou de uma “primeira visita fantástica” à Coreia do Sul e agradeceu o “simpático acolhimento” do país asiático, numas breves declarações à imprensa antes de regressar a Washington, PUB

A aprendiz Filha de Trump deixa a Coreia do Sul sem se reunir com Pyongyang

no aeroporto internacional de Incheon, na capital, Seul. A filha mais velha e assessora do Presidente dos EUA, Donald Trump, não respondeu, quando questionada sobre a aparente vontade de diálogo expressa pela delegação norte-coreana este fim-de-semana. A viagem de Ivanka Trump à Coreia do Sul tinha gerado expectativas de um possível encontro com a representação norte-coreana que também se deslocou a este país para o encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno, liderada pelo general Kim Yong-chol. Este Domingo, o general norte-coreano disse ao Presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, que Pyongyang tem “vontade de dialogar com os Estados Unidos”, indicou, em comunicado, a casa presidencial de Seul. Durante o encontro, Moon insistiu na necessi-

dade de diálogo entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, que servirá também para melhorar as relações entre Pyongyang e Seul. No entanto, Washington confirmou ao final da noite de Domingo que Ivanka não manteve “qualquer interação com a delegação norte-coreana”. A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, assegurou também num comunicado que a administração norte-americana espera que a oferta de diálogo que a Coreia do Norte mostrou signifique “os primeiros passos na direção da desnuclearização” da península da Coreia.

DIPLOMCIA DESPORTIVA

Seul acredita que o “descongelamento olímpico” entre as duas Coreias, que tecnicamente continuam em guerra, pode servir para que a Coreia do Norte e os

A filha mais velha e assessora do Presidente dos EUA, Donald Trump, não respondeu, quando questionada sobre a aparente vontade de diálogo expressa pela delegação norte-coreana este fim-de-semana Estados Unidos da América retomem o diálogo, após um 2017 marcado por repetidos testes de armamento norte-coreano e ameaças de ambas as partes. Também este Domingo, a Coreia do Norte classificou

as mais recentes sanções unilaterais dos Estados Unidos como um “acto de guerra”. Na passada Sexta-feira, Trump anunciou novas medidas para isolar a Coreia do Norte, definindo-as como “as mais pesadas sanções

já impostas contra um país”. Em causa estão limites a 27 empresas marítimas registadas ou sediadas em países que mantêm relações com a Coreia do Norte. “Consideramos qualquer tipo de restrição contra nós como um acto de guerra”, disse o ministro das Relações Externas da Coreia do Norte, Ri Yong Ho. O Ministério dos Negócios Estrangeiros prometeu ainda “subjugar” os Estados Unidos, caso sejam alvo de “provocações”.


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27.2.2018 terça-feira

progride sempre quem ganha ou perde poesia • Georg Trakl Tradução de António de Castro Caeiro

Dia de Todos os Santos A KARL HAUER

BIOGRAFIA

Triste aliança, homenzinhos, mulherinhas, Espalham hoje flores azuis e encarnadas Sobre as suas sepulturas, que timidamente se aclararam. Agem como pobres marionetas perante a morte. Oh! Como parecem existir aqui cheios de angústia e humildade, Como sombras de pé atrás de negros arbustos. No vento de outono, lamenta-se o choro das crianças não nascidas, Também se vêem luzes perderem-se na loucura. Os suspiros dos amantes sopram nos ramos E lá apodrece a mãe com a sua criança. Irreal parece a dança dos seres vivos E admiravelmente espalha-se no vento nocturno.

Georg Trakl nasceu a 3 de Fevereiro de 1887 em Salzburgo, cidade no noroeste da Áustria. O estranho comportamento da sua mãe e a morte prematura do pai quando ainda era muito jovem acabou por lhe causar grandes problemas emocionais, além de ter que sustentar a família (mãe / irmã) com seus esforços após o falecimento do pai. Sabe-se que desde a adolescência o poeta consumia ópio, veronal e cocaína. Teve uma relação incestuosa com a irmã, e pelo que se sabe sobre a vida de Trakl, talvez tenha sido o seu grande amor. A suas cartas foram destruídas, sendo impossível saber algo mais. Apenas nos seus poemas teve um certo alívio, refazendo-os por diversas vezes, porém tendo sempre em mente as suas definições. Durante a Primeira Guerra Mundial foi oficial farmacêutico, o que abalou profundamente o seu já debilitado espírito. Suicidou-se a 3 de Novembro de 1914, na Cracóvia, com uma overdose de cocaína. Trakl tinha apenas 27 anos. In Wikipedia

Tão confusa a vida deles, tão cheia de lúgubres tormentos. Tem piedade, Deus, do inferno e do martírio das mulheres, E do seu lamento mortal, desesperançado. Sozinhas, em silêncio, vagueiam na sala das estrelas.

1 Allerseelen AN KARL HAUER

Os camponeses À frente da janela, ressoam o verde e vermelho. E na sala baixa enegrecida pelo fumo, Sentam-se os criados e as criadas à refeição; Servem o vinho e partem o pão. No silêncio profundo do meio-dia, Uma escassa palavra, por vezes, cai. Os campos, sem cessar, cintilam E o céu é de chumbo e vasto.

Die Männlein, Weiblein, traurige Gesellen,  Sie streuen heute Blumen blau und rot  Auf ihre Grüfte, die sich zag erhellen.  Sie tun wie arme Puppen vor dem Tod.    O! wie sie hier voll Angst und Demut scheinen,  Wie Schatten hinter schwarzen Büschen stehn.  Im Herbstwind klagt der Ungebornen Weinen,  Auch sieht man Lichter in der Irre gehn.    Das Seufzen Liebender haucht in Gezweigen  Und dort verwest die Mutter mit dem Kind.  Unwirklich scheinet der Lebendigen Reigen  Und wunderlich zerstreut im Abendwind.    Ihr Leben ist so wirr, voll trüber Plagen.  Erbarm‘ dich Gott der Frauen Höll‘ und Qual,  Und dieser hoffnungslosen Todesklagen.  Einsame wandeln still im Sternensaal.

Grotesca a brasa cintila no fogão, E um enxame de moscas zumbe. As criadas estão à escuta, tontas e caladas, E o sangue martela as suas frontes. E às vezes cruzam-se olhares cobiçosos, Quando um odor animal enche todo o quarto. Monocórdico um criado faz as suas orações, E debaixo da porta, um galo canta. E de novo no campo. Um horror frequente apodera-se Deles no fragor das espigas frementes, E, tinindo, baloiçam, indo e vindo, Numa cadência fantasmagórica, as foices.

Die Bauern1 Ao anoitecer meu coração Ao anoitecer ouvem-se os morcegos trissar. Dois cavalos pretos saltam sobre o prado O ácer vermelho rumoreja. Ao viandante aparece a pequena taberna à beira da estrada. Delícia saborear vinho novo e nozes. Delícia vacilar bêbedo na floresta ao crepúsculo. Através da ramagem negra tinem aflitos os sinos. Sobre o rosto goteja o orvalho.

Zu Abend mein Herz1 Am Abend hört man den Schrei der Fledermäuse. Zwei Rappen springen auf der Wiese.  Der rote Ahorn rauscht.  Dem Wanderer erscheint die kleine Schenke am Weg.  Herrlich schmecken junger Wein und Nüsse.  Herrlich: betrunken zu taumeln in dämmernden Wald.  Durch schwarzes Geäst tönen schmerzliche Glocken.  Auf das Gesicht tropft Tau.

Vorm Fenster tönendes Grün und Rot. Im schwarzverräucherten, niederen Saal Sitzen die Knechte und Mägde beim Mahl; Und sie schenken den Wein und sie brechen das Brot. Im tiefen Schweigen der Mittagszeit Fällt bisweilen ein karges Wort. Die Äcker flimmern in einem fort Und der Himmel bleiern und weit. Fratzenhaft flackert im Herd die Glut Und ein Schwarm von Fliegen summt. Die Mägde lauschen blöd und verstummt Und ihre Schläfen hämmert das Blut. Und manchmal treffen sich Blicke voll Gier, Wenn tierischer Dunst die Stube durchweht. Eintönig spricht ein Knecht das Gebet Und ein Hahn kräht unter der Tür. Und wieder ins Feld. Ein Grauen packt Sie oft im tosenden Ährengebraus Und klirrend schwingen ein und aus Die Sensen geisterhaft im Takt. 1 - TRAKL, GEORG. (2008). Das dichterische Werk: Auf Grund der historisch-kritischen Ausgabe. Editores: Walther Killy e Hans Szklenar. Munique. Deutscher Taschenbuch Verlag


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

terça-feira 27.2.2018

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máquina Lírica Paulo José Miranda

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LATÃO, em Teeteto, escreve que o início da filosofia dá-se com o espanto ou a admiração (thaumazein, em grego). É esse sentimento (pathos) que espoleta o filosofar. Nesse diálogo, Platão descreve uma cena em que o jovem Teeteto fica admirado ou espantado quando compreende um dos argumentos apresentado por Sócrates sobre a sensibilidade, isto é, sobre a apreensão que fazemos de nós e do mundo através dos sentidos. A fim de explicar o sentimento de Teeteto, Sócrates diz que o princípio da filosofia é a experiência do espanto, de se ficar espantado. E, concordando com isto, Aristóteles escreve na Metafísica, A, II, 9-15: “É através do espanto que, tanto hoje como no passado, os homens começam a filosofar; o espanto é o primeiro patamar de acesso às perplexidades, posteriormente vão-se erguendo paulatinamente as grandes questões (...)” Mas o espanto a que tanto Platão quanto Aristóteles se referem não é um espanto qualquer, mas aquele que advém de uma perplexidade, de um ficar face a face com uma aporia. De repente, damo-nos conta de que algo não é como deveria ser ou julgávamos ser. E em o Sofista, Platão fala desse espanto máximo que é darmo-nos conta de que as palavras, que dizem a verdade, também dizem a mentira. Dar-nos conta de, não é o mesmo que “saber” que é assim. Aliás, este “saber” é o contrário de espantar-se, de admirar-se. Dar-me conta da minha finitude não é o mesmo que saber que vou morrer. Dar-me conta da minha finitude implica um arrepio existencial. Em O Olho e o Espírito, de Merleau-Ponty, há uma passagem que nos deixa espantados: “Se os nossos olhos fossem feitos de tal maneira que nenhuma parte do nosso corpo fosse abrangida pelo nosso olhar, ou se qualquer dispositivo maligno, deixando-nos livres de passear as mãos sobre as coisas, nos impedisse de tocar o nosso corpo – ou simplesmente se, como certos animais, nós tivéssemos olhos laterais, sem cortes dos campos visuais –, esse corpo que não se reflectiria, não se sentiria, esse corpo quase adamantino, que não seria já carne, não seria tão-pouco um corpo de homem, e não haveria humanidade.” O espanto advém de nos fazer ver que sem visão do próprio corpo, não seríamos humanos. É o corpo a ver-se a si mesmo que nos confere humanidade. Escândalo, porque a humanidade não vem do corpo, mas da auto-visão do corpo. Ou seja, a humanidade começa em cada um de nós como objecto de nós mesmos ou, melhor, como outro de nós mesmos.

WOMAN N FRONT OF A MIRROR, MOSE BIANCH

O espanto do corpo

E isto é-nos dado a ver por redução ao absurdo. Merleau-Ponty leva-nos a imaginar o que seria ser de um modo completamente radical daquele que

O espanto advém de nos fazer ver que sem visão do próprio corpo, não seríamos humanos. É o corpo a ver-se a si mesmo que nos confere humanidade

somos. Leva-nos a imaginar o que não somos de todo em todo, corpos sem consciência de si, para depois nos dizer que sem esta consciência do corpo, esta visão do corpo por parte de cada um de nós, não existiria humanidade. A humanidade está assente sobre o olhar que lançamos ao nosso próprio corpo. A consciência de que eu sou algo como aquilo ali diante de mim. Pois um olhar sem consciência do seu corpo, só teria a consciência das coisas, sendo que ele não seria essa coisa, mas “apenas” aquilo ou aquele que via. Não seria sequer um olho, mas um ver, um acto de ver puro, como uma câmara. Sem consciência do corpo, nesse exemplo radical de Merlau-Ponty, nunca seríamos parte do mundo, parte do lá fora, parte

das coisas. Para ele, a humanidade tem, por conseguinte, raiz na identificação que fazemos com as coisas, com o que se vê fora de nós ou fora do olhar, mais do que uma identificação com o espírito. Não se trata de um qualquer primado do real sobre o ideal, nem o seu contrário, evidentemente, mas darmo-nos conta de que sem consciência do corpo, qualquer consciência fica fora da ideia de humanidade. Esta consciência do corpo ganha uma dimensão particular e especial através do ver, do ver-se a si mesmo. E é espantoso este darmo-nos conta, ainda que possa não ser assim, de que a humanidade não é uma ideia, não é um fruto do espírito, mas do corpo tendo consciência de si. Pensar esta possibilidade é espantoso. Curiosamente, esta reflexão vai ao encontro de uma outra, ainda mais estranha, ainda mais espantosa, feita pelo escritor japonês Yukio Mishima, em Sol e Aço: “Coisa curiosa, minha teimosa recusa em me dar conta do corpo, devia-se a um belo equívoco, latente na minha concepção de corpo. Eu não sabia [no tempo da infância] que o corpo de um homem nunca se apresenta como ‘existência’. Para mim, ele tinha de se tornar visível, claro e certo, como existência. Natural que quando ele se mostrou, claramente, como um apavorante paradoxo da existência – como uma forma de existência que rejeitava a existência – eu tenha entrado em pânico como se tivesse encontrado algum monstro. [tradução de Paulo Leminski, Editora Brasiliense, 1985]” Esta estranha noção de Mishima acerca do corpo como paradoxo da existência não entra em contradição com a passagem de Merlau-Ponty, pelo contrário. Este paradoxo da existência, que é o corpo em Mishima, acontece numa existência que se relaciona consigo apenas através da palavra, colocando um fosso entre ele mesmo e a realidade, quer seja o corpo quer seja a acção. Escreve Mishima, nesse livro: “Num primeiro estágio, óbvio que eu estava identificando, a mim mesmo, com as palavras, e estabelecendo a realidade, a carne e a ação do outro lado. Nenhuma dúvida que meu preconceito em relação às palavras era alimentado por este contraste criado de propósito, e que a minha profunda incompreensão da natureza da realidade, da carne e da ação também nasciam da mesma fonte.” O que impressiona nestas palavras de Mishima é o quanto a descrição que ele faz se assemelha ao exemplo dado por Merlau-Ponty, na sua redução ao absurdo, como vimos anteriormente.


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desporto 17

terça-feira 27.2.2018

LIGA DE ELITE SAM KEI ASSUME INTERINAMENTE ORIENTAÇÃO DA EQUIPA MONTE CARLO

Aposta na continuidade CIC PHOTOGRAPHY FACEBOOK

Os Canarinhos escolheram Sam Kei como o novo treinador que vai, assim, suceder a Cláudio Roberto. No entanto, segundo Firmino Mendonça, ainda existe a possibilidade do brasileiro regressar ao Monte Carlo, num futuro muito próximo

Além de treinador da equipa principal, Cláudio Roberto era igualmente o homem à frente do projecto de formação do Monte Carlo. Também nesta parte do projecto do clube não se esperam grandes alterações. “Foram deixadas orientações para o clube ao nível da formação de atletas e vamos segui-las. Mas não estou à espera de um grande impacto”, afirmou o presidente da formação.

VITÓRIA POR 4-0

No Domingo, já depois da hora do fecho do HM, o Monte Carlo venceu o Lai Chi por 4-0, um resultou que permitiu aos canarinhos subir ao 6.º posto da classificação, com sete pontos e a oito do líder Benfica de Macau. Por sua vez, o Lai Chi continua a ocupar o último lugar da Liga de Elite, com zero pontos. No Estádio de Macau, os marcadores de serviço foram Jorge Sin, aos 38 minutos, Miguel Noronha, aos 45, Cheang Yui, aos 78, e Cheang Hoi San, aos 85.

“Não ficámos tristes. Houve um acordo com ele [Cláudio Roberto]. Existe a possibilidade dele só estar ausente de Macau durante quatro meses. Ele pode voltar ao Monte Carlo, conforme um convite que lhe foi feito.” FIRMINO MENDONÇA PRESIDENTE DO MONTE CARLO

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AM Kei é o nome escolhido para suceder nos comandos do Monte Carlo depois do treinador Cláudio Roberto ter anunciado no Domingo de manhã, a saída do clube. A informação foi avançada, ontem, pelo presidente, Firmino Mendonça, ao HM, que

COM PROJECTO NA CHINA

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pesar de ter estado incontactável desde domingo, Cláudio Roberto Silveira deixou o Monte Carlo para se dedicar a um projecto de futebol no Interior da China. Nesta altura, os pormenores ainda são escassos, mas durante quatro meses o treinador vai estar envolvido num projecto que, segundo o HM apurou, está ligado de forma indirecta à Confederação Brasileira de Futebol.

explicou que solução encontrada é interina. O novo treinador, que já orientou a formação na vitória por 4-0 diante do Lai Chi, no Domingo à noite, foi escolhido entre a equipa técnica que trabalhava com Cláudio Roberto. Também por essa razão, Firmino Mendonça espera que a transição seja feita sem problemas de maior. “Não são alterações que tenham consequências graves para os objectivos do Monte Carlo. A equipa técnica já estava a trabalhar com o treinador há mais de dois anos e há uma filosofia de treino implementada, que a equipa técnica conhece bem. Também os jogadores estão cada vez mais habituados aos métodos de treino, a nível táctico e técnico”, disse o presidente do Monte Carlo, ao HM. “Considerámos que a equipa técnica tem todas as condições para tomar conta da equipa e Sam Kei

vai ser o responsável máximo”, acrescentou. O treinador interino está há mais de 30 anos no Monte Carlo e já assumiu algumas vezes, ao longo deste período, o controlo da equipa principal. No entanto, tem-se dedicado na maior parte do tempo a ser o responsável pela formação. Sobre a saída de Cláudio Roberto, o presidente canarinho desdramatizou o cenário e reve-

lou que existe a possibilidade do brasileiro regressar a Macau e ao Monte Carlo, após quatro meses. “Não ficámos tristes. Houve um acordo com ele. Existe a possibilidade dele só estar ausente de Macau durante quatro meses. Ele pode voltar ao Monte Carlo, conforme um convite que lhe foi feito. Vai depender dessa situação. É uma questão que se vai resolver no futuro”, sublinhou.

Olli Caldwell reforça Prema Theodore

Olli Caldwell, britânico de 15 anos, é o novo reforço da formação Prema Theodore Racing para atacar os campeonatos italiano e alemão de Fórmula 4. A notícia foi divulgada, ontem, pela formação apoiada por Teddy Yip Jr., em comunicado. “Estou muito entusiasmado por ter esta oportunidade de trabalhar com a Prema para a época de 2018. Estou muito ansioso para ver o que posso alcançar com uma equipa com esta dimensão”, afirmou o piloto. “Esta é a oportunidade que estava à procura para me afirmar a nível internacional”, acrescentou. Na temporada passada, o piloto de 15 anos correu no campeonato dos Emirados Árabes Unidos, conseguindo três vitórias.

Apesar do resultado, Firmino Mendonça admite que começa a ser difícil a equipa lutar pelos quatro primeiros lugares: “Estamos satisfeitos com a prestação do plantel. Neste momento, parece que é difícil ficar entre os primeiros quatro classificados. Portanto, o mais importante é manter-nos na Liga de Elite. Neste momento, o Monte Carlo está quatro pontos acima da linha de água e a três pontos do quarto lugar, ocupado pelo Ka I, com 10 pontos. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


1 1 6 4 5 3 4 7 2 1 4 6 3 5 4 3 7 1 1 2 3 5 7 4 6 1 7 2 5 3 T E M P O M U I T O N U B L A D O3 M I N 1 6 M A X 1 4 3 6 5 7 2 6 4 2 7 6 7 2 1 3 5 4 3 1 6 4 5 6 FAZER 2 1 4 7 2 5 1 6 O3 QUE ESTA 5 1 SEMANA 4 3 7 2 216 5 7 3 2 Sexta-feira 7 5 CONCERTO | TERTÚLIA À PORTUGUESA 16 21 Pousada de Coloane Boutique Hotel | Das 19h00 às 22h00 2 1 Sábado 3 6 5 1 4 2 7 7 5 6 1 7 2 EXPOSIÇÃO | POPARCADE BY LOUISE LEONG Fundação Rui Cunha | 19h00 4 5 1 6 3 7 2 2 7 13 66 Domingo 6 COMMUNITY 2 7RUN 5 3 MACAU – MANA1 VIDA 4 1 37 4 5 1 Ocean Gardens | Das 7h00 às 08h30 2 3 4 7 6 1 5 3 2 64 5 HOLI FESTIVAL 2018 Pousada 1 de4Coloane 2 Boutique 3 Hotel 7 | Das514h006às 17h003 41 6 2 3 Diariamente 5 7“IMAGINARY 6 BEINGS” 4 2 3 1 4 5 1 7 EXPOSIÇÃO Taipa Village Art Space | Até 21/02 7 1 3 2 5 6 4 5 3 6 4

18 4 (f)utilidades 6 7 5 2 1 3

2

3 19

?

EXPOSIÇÃO “O TEMPO MEMORÁVEL” Museu de Macau | Até 25/02

3 7 2 6 2 5 1 6 4 52 1 3H U1M 2 5 7 7 4 3 4 1 6 5 1 6 7 4 3 2

3 4 2 1 5 6 7

23NOTES 18 EXPOSIÇÃO “A REBOURS: CASE X 8 – THE ARTISTS

O CARTOON STEPH 23

Museu de Arte de Macau (MAM) | Até 31/3

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 23

IN 2010 FROM MACAO/PEQUIM” Casa Garden | Até 28/02

DE

17 4 7 1 3 5 6 2 4 EXPOSIÇÃO “TWENTY HOURS – AN EXHIBITION OF ABSTRACT 1 BY3DENIS5MURRELL 4 AND7HIS STUDENTS” 2 6 3 1 PAINTING Café IFT – espaço Anim’Arte Nam Van | Até 2/03 3 2 6 5 1 4 7 2 EXPOSIÇÃO “FICÇÃO E DERIVA” Galeria | Até 4/03 6 4 6 Tap1Seac 2 7 4 3 5 EXPOSIÇÃO “A LINGUAGEM E A ARTE DE XU BING” 5 de4Arte de3Macau 6 2 7 3 1 7 3 Museu | Até 4/03 7 5“ TEN 4 2 6 1 3 6 EXPOSIÇÃO FOR PERFECTION” Macau Art Garden 65 2 6 7 1 3 5 4 11ª BIENAL DE DESIGN DE MACAU PARADA DE OURO - ARMAMENTO IMPERIAL DO MUSEU DO PALÁCIO MAM | Até 11/3

Cineteatro

4 3 6 51 7 45 12

3 2 5 6 1 27 4

1 65 74 7 42 3 6

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UM DISCO HOJE

C I N E M A

4 5 3 6 7 2 1 5 6 7 2 4 1 3

7

20 7

1 5 4 6 7 5 - 9 83 % 7 3 4 22 2

1 22 3 1 34 5 2 7 6 2 24 24

4 74 5 7 17 1 2 6 63

PROBLEMA 24

1 7

4 6 6 2 • 5 1 7 3 7

5 2 3 1 7 4 5U R O E 1 3 6 7 2 6 4 5

4 47 55 1 3 2 6 7 2 1 5 54 3 16

3

6 6 3 2 7 4 1 5 1 29 . 964 4 2 3 5 1 7

27.2.2018 terça-feira 7 2 3 BAHT 0.25 YUAN 1.27 4 5 VIDA DE CÃO 1 A VIDA TODA 6

NUM COLAR

7 62 6 4 45 3 1

6 5 73 2 6 1 7 4

1 6 3 57 2 4 5

72 4 1 13 6 5 7

6 5 7 2 4 1 3

2 6 3 7 15 24 51

6 47 4 3 1 12 5

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SUDOKU

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6 2 5

Em toda a nossa vida acreditamos em superstições. Cremos que algo que não conseguimos ver ou tocar nos possa dar respostas para grandes projectos, grandes paixões, receios ou dúvidas. As superstições existem em todas as sociedades, mas têm um papel diferente em cada um de nós. No caso da China, as superstições assumem um papel ainda mais importante nas vidas de todos, sejam novos ou velhos. Materializam-se nas consultas de Feng Shui, nas limpezas anuais das casas, nas visitas aos adivinhos, nas contas que são feitas às datas de nascimento. Tudo é feito após uma tentativa de premeditação, para que aqueles números e aquelas informações que um estranho nos diz nos confirmem se não estamos a dar um passo maior que a perna. Num casamento chinês as superstições são a parte mais importante da cerimónia. O jantar, após o casamento propriamente dito, está cheio de rituais que têm de ser cumpridos. Num deles, a noiva deve envergar grossas pulseiras de ouro e um colar, também de ouro, com a feia figura de um porco. Este representa fertilidade e sorte no casamento, pelo que não interessa o lado estético da jóia. E é com aquele ouro que a noiva espera concretizar um próximo passo da sua feliz união, é através daquele ouro que lhe enfeita o corpo que ela deposita a sua vida futura. Andreia Sofia Silva

HOUSE OF THE BLUES | JOHN LEE HOOKER

É blues e podia estar tudo dito. Mas House Of The Blues é mais, é um disco de John Lee Hooker. São doze temas entre acordes e solos de guitarra contrapostos à voz do intérprete. Canções de dor que põe qualquer pé a bater e são mais do mesmo, que no caso, é sempre muito bom. Disco obrigatório e para todas as ocasiões. Sofia Mota

MONSTER HUNT 2 SALA 1

MONSTER HUNT 2 [B] FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Raman Hui Com: Tony Leung Chiu-Wai, Bai Baihe, Jing Boran, Yo Yang 14.00

OZZY [A] FALADO EM CANTONENSE Filme de: Alberto Rodriguez 16.00

AGENT MR. CHAN [C] FALADO EM CANTONENSE LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Filme de: Cheung Ka Kit Com: Dayo Wong, Tze Wah, Charmaine Sheh, Sze Man 17.45, 19.45, 21.45

SALA 2

BLACK PANTHER [B] Filme de: Ryan Coogler Com: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o 14.15, 16.45, 19.15, 21.45 SALA 3

FERDINAND [A] FALADO EM CANTONÊS Filme de: Carlos Saldanha 14.30, 18.00, 20.00

MONSTER HUNT 2 [B] FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Raman Hui Com: Tony Leung Chiu-Wai, Bai Baihe, Jing Boran, Yo Yang 16.00, 22.00

www. hojemacau. com.mo

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Diana do Mar, João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Manuel Afonso Costa; Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; David Chan; Fa Seong; Jorge Morbey; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


opinião 19

terça-feira 27.2.2018

macau visto de hong kong

DAVID CHAN

A

O autocarro da tragédia

NTES do mais, Feliz Ano Novo a todos os meus leitores. Desejo-vos tudo de bom no Ano do Cão. Esperava-se que nesta época todos os chineses estivessem felizes, a celebrar na companhia das suas famílias. No entanto, isso não foi verdade para todos, porque no dia 10 de Fevereiro houve um terrível acidente com um autocarro que provocou 19 vítimas mortais e 67 feridos. Por volta das 6:15h da manhã, um autocarro da KMB, da carreira 872, vinha de Sha Tin com destino a Tai Po. Alegadamente o condutor perdeu o controlo do veículo numa curva perto de Tai Po Mei, o autocarro despistou-se e capotou sobre um dos lados. Os passageiros afirmaram que o condutor vinha a descer a rua a toda a velocidade. Aparentemente o motorista tinha sido informado que estava a circular com atraso. “Você está 10 minutos atrasado” terá dito um passageiro ao condutor. “Ele estava irritado porque algumas pessoas reclamaram do atraso e nessa altura começou a conduzir como se fosse a pilotar um avião.” Outro passageiro afirmou: “Ele estava a conduzir muito depressa, demasiado depressa para quem vem numa descida.” O motorista foi detido por condução perigosa, causadora da morte de vários passageiros e de ferimentos graves em muitos outros e aguarda o desenrolar das investigações. Após a ocorrência deste acidente, o mais mortal dos últimos 15 anos envolvendo um autocarro, a Chefe do Executivo de Hong Kong, Carrie Lam Cheng Yuet-ngor, cancelou a agenda que tinha programada para o segundo dia do Novo Ano Lunar. O gerente da KMB, Godwin So Wai-kei, declarou que o motorista, de 30 anos de idade, tinha ingressado na companhia em 2014. Em Setembro passou a trabalhar a tempo parcial. O condutor conhecia bem esta carreira, que só se efectua em dias feriados, e tinha realizado este percurso há três semanas atrás. O condutor tinha efectuado turnos de sete horas nos últimos quatro dias e, no Sábado, tinha um turno de quatro horas. O administrador da KMB, Roger Lee Chak-cheong, declarou que 560 dos 8300 motoristas ao serviço da companhia trabalham a tempo parcial. Destes, 80 por cento têm mais de 60 anos e foram readmitidos após a reforma. “Os motoristas a tempo parcial, desempenham um papel importante nas companhias

rodoviárias, especialmente durante as horas de ponta, porque ajudam a colmatar as necessidades extra.” “[Mas] aos olhos da opinião pública … os motoristas a tempo parcial podem causar alguma desconfiança. Nesta altura, esperamos poder proporcionar aos passageiros condições que os façam sentir-se mais confiantes.” Estas declarações levantam outra questão. Nos dias que se seguiram ao acidente, vários representantes do sindicato dos motoristas criticaram a KMB por não monitorizar mais de perto o trabalho dos funcionários temporários. Estas declarações dão resposta às causas do acidente, às preocupações dos funcionários e do público? Ninguém sabe ao certo, mas a KMB suspendeu temporariamente as escalas de 209 motoristas temporários, bem como a contratação de novos condutores a tempo parcial, para atenuar as inquietações do público. No entanto, este caso não termina aqui. Neste momento, existe um movimento que reclama melhores salários e melhores con-

Ao contrário de Macau, em Hong Kong os horários nocturnos não são mais bem remunerados. Quem trabalha à noite recebe o mesmo do que quem trabalha de dia

dições para os motoristas. As negociações com a administração da KMB não deram bom resultado e ficou marcada uma greve para os dias 24 e 25 deste mês. Mas será que existe uma relação directa entre a greve e o acidente? Por enquanto, ninguém sabe. Seja como for, as declarações dos motoristas efectivos sobre a necessidade de monitorizar mais de perto o trabalho dos seus colegas temporários, indicam que se deverá dar mais atenção a este aspecto. Existem vantagens óbvias no recrutamento de pessoal a tempo parcial em Hong Kong. A Lei do Trabalho estabelece claramente que os trabalhadores a tempo parcial usufruirão apenas dos benefícios definidos no contrato. Ou seja, os benefícios estatutários estabelecidos na lei não se aplicam a estes trabalhadores. Desde que o empregador pague o salário mínimo e faça as contribuições para o fundo social não se levantam mais questões. A empresa não terá de garantir férias, nem licenças de maternidade, nem outros benefícios, ao contrário do que é obrigada a fazer com os trabalhadores efectivos. Os custos operacionais com os trabalhadores efectivos são muito superiores àqueles que a empresa suporta com os trabalhadores temporários. Mas, se por um lado os trabalhadores a tempo parcial ajudam a empresa a reduzir custos, por outro lado levantam alguns problemas. A falta de compromisso da empresa para com o trabalhador gera necessariamente falta de empenho, não existe incentivo para

uma dedicação ao trabalho. No final acabam sempre no desemprego. Além disso, é natural que os trabalhadores temporários tenham prioridade na escolha dos horários. Se não houver horários disponíveis os temporários não trabalham. Mas como a empresa não quer que isso aconteça, a maior parte das vezes é dada aos temporários a prioridade na escolha das escalas de serviço. Numa empresa em que o trabalho tem de ser escalonado, os efectivos devem dar prioridade aos temporários na escolha dos horários. Mas será que a escala preferencial é a melhor escala? A resposta fica em aberto. Ao contrário de Macau, em Hong Kong os horários nocturnos não são mais bem remunerados. Quem trabalha à noite recebe o mesmo do que quem trabalha de dia. Agora imagine que é um trabalhador efectivo. Nestas condições, permitia que o trabalhador temporário trabalhasse de dia e deixasse a noite para si? Estes problemas existem em todas as empresas com trabalho escalonado e trabalhadores efectivos e temporários. Não são exclusivos da KMB. De qualquer forma vale a pena discutir estas questões, até porque, recentemente, o Governo de Macau anunciou que pretende criar uma nova legislação para regular as relações entre empregadores e trabalhadores a tempo parcial. Segue-se a transcrição do parágrafo 2.2 da proposta: “2.2. Breve apresentação do regime de trabalho a tempo parcial Assim como foi referido atrás, quando foi elaborada a Lei n.º 7/2008 (Lei das relações de trabalho), a 3ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, após discussão, concordou que, dada a natureza das relações de trabalho a tempo parcial e a modalidade da sua prestação de trabalho, seria necessário regulamentar esse tipo de relações de trabalho segundo um regime diferente, por isso a “Lei das relações de trabalho” estipula que o trabalho a tempo parcial é regulado por legislação especial. Nessa altura, a 3ª Comissão expressou que o trabalho a tempo parcial só era diferente em termos da duração de trabalho, e que essa diferença deveria ser contemplada por lei, através do princípio da proporcionalidade e da equiparação de conteúdos funcionais.” Este parágrafo demonstra claramente que o trabalho a tempo parcial só se deverá diferenciar pela duração e que todos os benefícios deverão ser proporcionais a quem trabalha a tempo inteiro. A ideia é boa. Mas será que pode vir a resolver todos os problemas levantados pelo trabalho tempo parcial, necessariamente mais precário? Além disso se os trabalhadores efectivos fizerem horas extraordinárias, como é que serão reguladas? As “horas extraordinárias” equivalerão a trabalho “a tempo parcial”? Esperemos que a nova legislação venha dar resposta a estas dúvidas.

Professor Associado do IPM • Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau • legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk • http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog


Quando se navega sem destino, nenhum vento é favorável.

Lucius Annaeus Seneca

PALAVRA DO DIA

terça-feira 27.2.2018

ONG REPRESSÃO DO GOVERNO CHINÊS NÃO SILENCIOU ACTIVISTAS

A

campanha repressiva lançada pelo Governo chinês contra activistas dos Direitos Humanos no país não conseguiu abalar a sua resistência, afirmou em comunicado a organização Defensores Chineses dos Direitos Humanos (CHRD). No seu relatório anual, intitulado “Repressão e Resistência”, a CHRD considera que os activistas chineses “demonstraram uma notável capacidade de resistência na promoção e protecção dos direitos humanos, face à repressão governamental». Em 2017, o regime comunista chinês cometeu “graves” violações dos direitos humanos, segundo a organização, à medida que o Presidente chinês, Xi Jinping, “consolidou o seu poder e promoveu a sua visão totalitária”. No entanto, os activistas do país conseguiram mobilizar-se, divulgando informação ‘online’ e manifestando-se em prol dos direitos humanos, aponta a CHRD. A organização lembra que, apesar das restrições ao direito ao protesto pacífico, que incluiu penas de prisão, ocorreram no ano passado importantes protestos espontâneos contra a poluição, despejos forçados ou salários injustos. A resposta das autoridades face à resistência dos activistas consistiu na perseguição penal, desaparecimentos forçados, tortura ou privação de tratamento médico adequado, destacou a organização. “Os abusos relacionados com os direitos económicos, sociais e culturais, assim como com os direitos políticos e civis, continuam a ser generalizados na China”, recordou a CHRD, que considera que as organizações de defesa dos direitos humanos no país “lutam pela sua sobrevivência”.

A

S multas renderam, no ano passado, menos 15,16 por cento do que em 2016, caindo pela primeira vez desde 2012, em termos anuais homólogos, revelam dados publicados pela PSP e compilados pelo HM. Este número, que totalizou 175,5 milhões de patacas, surge em linha com a diminuição das infracções à Lei do Trânsito Rodoviário e ao Regulamento do Código da Estrada detectadas (diminuíram 18,9 por cento para 868.805). O estacionamento ilegal (em vias públicas ou em lugares de estacionamento

14.715 Acidentes de viação

TRÂNSITO VALOR ARRECADADO NO ANO PASSADO COM MULTAS CAIU PELA PRIMEIRA VEZ DESDE 2012

Sinal verde

com parquímetros), que representou a maioria, também recuou em termos anuais homólogos, a par com o bloqueamento e remoção de veículos em vias públicas. Idêntica tendência verificou-se no excesso de velocidade com as ocorrências a caírem em toda a linha. A título de exemplo, na Ponte Governador Nobre de Carvalho, onde apenas circulam autocarros e táxis, foram registadas 75 – contra 618 no cômputo de 2016. Segundo as estatísticas do trânsito, houve menos casos de transporte ilegal de passageiros, bem como

9 rtes

Mo

Audiovisual Pequim combate conteúdos da internet sem licença O órgão de supervisão de televisão e filmes de Pequim reuniu-se com seis sites de notícias, redes sociais e transmissão ao vivo com o intuito de lançar um diálogo para combater programas de áudio e vídeo sem licença. O Departamento Municipal da Imprensa e Publicação, Rádio, Cinema e Televisão acusou os órgãos em questão de não ter as licenças exigidas para transmissão online. O departamento também disse que as páginas transmi-

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de teste positivo a álcool durante operações STOP ou de condução sob o efeito de estupefacientes. Em sentido inverso, em 2017, foram detectados mais casos de uso de telemóvel e de falta de cinto de segurança durante a condução.

Já as infracções praticadas por taxistas, incluindo cobrança excessiva, recusa de transporte e outras irregularidades, dispararam, um terço para 5.490 em 2017. Este número tinha sido avançado já no início do ano num plenário da Assembleia Legislativa em que o Secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, revelou que a proposta de revisão do Regulamento dos Táxis, diploma em vigor há 18 anos, ia ser apresentada “dentro de meses” ao hemiciclo. No total, foram registados 14.715 acidentes de via-

tiam programas de áudio e vídeo que tinham conteúdos “vulgares”. Entre os sites estão o microblog líder Sina Weibo, o noticioso iFeng e o Miaopai.com, de vídeos. Os conteúdos de vídeo foram removidos das contas sem licença e os órgãos admoestrados comprometeu-se a aumentar o controlo do conteúdo. O Órgão Integrado da Aplicação da Lei do Mercado Cultural de Pequim abriu investigações em todos os seis sites.

4.706 Feridos

ção, menos 4,09 por cento face a 2016, os quais resultaram em nove mortes – tantas quantas as contabilizadas no ano anterior. O número de feridos subiu ligeiramente para 4.706, a esmagadora maioria ligeiros. A PSP actualizou, entretanto, os dados referentes ao Janeiro, mês que fechou com o balanço de 1.247 acidentes que provocaram 429 feridos, incluindo um grave, e uma vítima mortal. Diana do Mar

info@hojemacau.com.mo

Hoje Macau 27 FEV 2018 #4000  

N.º 4000 de 27 de FEV de 2018

Hoje Macau 27 FEV 2018 #4000  

N.º 4000 de 27 de FEV de 2018

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