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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

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MOP$10

SEXTA-FEIRA 26 DE JULHO DE 2019 • ANO XVIII • Nº 4339

OUTROS POPULISTAS

CHUVA NO VERÃO

JOSÉ NAVARRO DE ANDRADE

AINDA A VACINAÇÃO

ANTÓNIO DE CASTRO CAEIRO

VALÉRIO ROMÃO

hojemacau

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A dor maior

TEATRO NO CCM

EM CENA COM FREDRIC MAO EVENTOS

Lao Mong Ieng ponderou a eutanásia como saída do sofrimento resultante do bárbaro ataque cometido pelo marido que a queimou com óleo a ferver e ácido sulfúrico. A triste revelação

foi dada pelo pai da própria, que testemunhou ontem em tribunal no processo que senta no banco dos réus o marido da vítima. A próxima audiência está agendada para Setembro.

REINO UNIDO

TRUMP COM SOTAQUE GRANDE PLANO

CONSUMIDORES

CONSELHO COM DENTES PÁGINA 4

PUB

RÓMULO SANTOS

TIAGO ALCÂNTARA

PÁGINA 7

MORADORES

CHEFE DE SONHO PÁGINA 5


2 grande plano

26.7.2019 sexta-feira

CHEGAR,VER E DESTRUIR REINO UNIDO BORIS JOHNSON RODEIA-SE DE EUROCÉPTICOS PARA FORMAR GOVERNO

Boris Johnson está à frente dos desígnios políticos britânicos e já deixou claro que não vai olhar a meios para sair da União Europeia no fim de Outubro. Assim que foi indigitado primeiro-ministro, há dois dias, Johnson restruturou por completo o Governo, rodeou-se da ala mais radical de eurocépticos e anunciou que o Reino Unido não vai ter comissário na União Europeia

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ORIS Johnson foi na passada quarta-feira indigitado primeiro-ministro britânico pela Rainha Isabel II e ontem anunciou mudanças de fundo no Governo que reflectem as suas escolhas quanto à saída da União Europeia e a inevitabilidade do Brexit, sem olhar a meios. O novo primeiro-ministro rodeou-se sobretudo de eurocépticos convictos, a quem distribuiu as pastas mais importantes, dando um sinal de que a prioridade é sair UE a 31 de Outubro, com ou sem acordo. Entre os ministros nomeados, o ex-banqueiro Sajid Javid é ministro das Finanças, uma posição estratégica no contexto do ‘Brexit’, especialmente no caso de uma saída sem acordo que pode gerar turbulência económica significativa contra a qual terão de ser lançadas medidas de estímulo. Sajid Javid foi até agora ministro do Interior, pasta

atribuída a Priti Patel, 47 anos, ultra-eurocéptica e antiga ministra para o Desenvolvimento Internacional que foi despedida por Theresa May em 2017 por ter encontros sem autorização com dirigentes políticos durante umas férias em Israel. Para ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris

“Vamos restaurar a confiança na nossa democracia, cumprir as promessas repetidas do Parlamento às pessoas e sair da União Europeia a 31 de Outubro, sem mas nem meio mas.” BORIS JOHNSON PRIMEIRO-MINISTRO DO REINO UNIDO

Johnson escolheu outro eurocéptico, Dominic Raab, advogado de 45 anos que tem defendido a suspensão do parlamento para conseguir implementar o ‘Brexit’ sem ser bloqueado pelos deputados. Outros membros eurocépticos incluem o ministro para o ‘Brexit’, Stephen Barclay, que se mantem no Governo, sendo um dos poucos que transitam da equipa de Theresa May. O político conservador assumiu funções em Novembro do ano passado, após as demissões de David Davis e Dominic Raab, ambos em divergência com os planos do Governo para o processo de saída do Reino Unido da UE. Deputado desde 2010 pelo círculo de North East Cambridgeshire (leste da Inglaterra), trabalhou anteriormente como advogado para as companhias de seguros e na British Financial Services Authority (FSA). Barclay é eurocéptico, tal como os restantes minis-

tros até agora confirmados e um dos poucos ministros que fez campanha pela permanência na União Europeia foi Ben Wallace, nomeado para a Defesa, em substituição de Penny Mordaunt, uma eurocéptica que apoiou Jeremy Hunt, o adversário de Boris Johnson na eleição para a liderança. Dos eurocépticos mantidos estão ainda a ministra da Economia, Andrea Leadsom, a ministra do Ambiente, Theresa Villiers, e o ministro para a Escócia, Alister Jack. Já o deputado Jacob Rees-Mogg, um eurocéptico que conspirou uma moção de censura interna a Theresa May e se opôs energicamente ao acordo de saída da UE negociado pelo anterior Governo, vai ser Ministro dos Assuntos Parlamentares.

OS EXCLUÍDOS

De fora do Governo estão algumas das figuras mais experientes do partido, como o anterior ministro da

Economia Greg Clark e o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros Jeremy Hunt, o qual terá recusado ficar com a pasta da Defesa, removida a Penny Mordaunt. Mordaunt e o antigo ministro do Comércio Liam Fox foram dois eurocépticos afastados por terem sido leais a Theresa May e

“Quero deixar claro o meu empenho absoluto em garantir que a nossa participação nacional na União Europeia está a chegar ao fim. E essa realidade precisa ser reconhecida por todas as partes.” BORIS JOHNSON PRIMEIRO-MINISTRO DO REINO UNIDO

apoiantes de Hunt na eleição para a liderança do partido Conservador, que Boris Johnson ganhou. Ainda assim, Boris Johnson manteve no Executivo alguns conservadores pró-europeus, mas em pastas consideradas menos críticas para o processo do ‘Brexit’, como a ministra do Trabalho, Amber Rudd, e o ministro da Saúde, Matt Hancock.

A EUROPA JÁ FOI

A confirmar a ausência futura da UE está ainda o anúncio de Boris Johnson de que Reino Unido não vai nomear um comissário europeu para o novo Executivo comunitário, num sinal de que o país vai sair da UE a 31 de Outubro. “Quero deixar claro o meu empenho absoluto em garantir que a nossa participação nacional na União Europeia está a chegar ao fim. E essa realidade precisa ser reconhecida por todas as partes”, afirmou,


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sexta-feira 26.7.2019

do Norte, que qualificou de “antidemocrática”. “É essencial que nos preparemos para a possibilidade remota de Bruxelas se recusar a negociar mais, e sermos forçados a sair sem acordo”, admitiu, defendendo a necessidade de preparar todos os sectores económicos para o choque.

Aos cidadãos europeus que residem no Reino Unido, Boris Johnson prometeu “inequivocamente” que terão o direito de viver e trabalhar no país

numa primeira intervenção perante os deputados desde a indigitação na quarta-feira. Boris Johnson entende que “há muitos funcionários públicos do Reino Unido brilhantes que acompanham reuniões após reuniões em Bruxelas e Luxemburgo, quando poderiam dedicar-se à preparação de novos acordos de comércio livre ou na promoção de um Reino Unido verdadeiramente global”. Como gesto simbólico da “libertação” desses fun-

cionários, Boris Johnson disse que o Governo não vai nomear um comissário “em quaisquer circunstâncias” para o Executivo liderado por Ursula von der Leyen a iniciar funções em Novembro. O Reino Unido tinha previsto sair da UE a 29 de Março, mas o chumbo pelo parlamento do acordo de saída negociado pelo Governo de Theresa May com Bruxelas e a oposição a uma saída sem acordo levou

a um adiamento do processo até 31 de Outubro.

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Carnificina política

S escolhas de Boris Johnson para o novo Executivo britânico não passaram sem mácula na imprensa britânica que define a mudança como uma “carnificina”. O jornal The Times descreve o despedimento de 11 ministros de Theresa May como uma “tarde de carnificina” e “o mais brutal purgatório do Governo na história política moderna”. O

DE OLHO NUM “ACORDO MELHOR”

O novo primeiro-ministro britânico mostrou-se também convicto de que será possível negociar um “novo acordo, um acordo melhor” para o ‘Brexit’, num discurso feito após a indigitação pela rainha Isabel II. O acordo, disse, “vai maximizar as oportunidades do ‘Brexit’”, ao mesmo tempo

que “vai permitir desenvolver uma nova e excitante parceria com o resto da Europa, baseada no livre comércio e no apoio mútuo”. Numas palavras de homenagem à resiliência e paciência da antecessora Theresa May, criticou os pessimistas, dentro e fora do país, que pensam que, “após três anos de indecisão” o país “se tornou prisioneiro” e que é incapaz de sair da UE. “Vamos restaurar a confiança na nossa democracia e

vamos cumprir as promessas repetidas do Parlamento às pessoas e sair da União Europeia a 31 de Outubro, sem, mas nem meio mas”, vincou. Aos cidadãos europeus que residem no Reino Unido, prometeu “inequivocamente” que terão o direito de viver e trabalhar no país depois do ‘Brexit’, mas, aos parceiros europeus, nomeadamente os irlandeses, disse que recusa a solução para a fronteira terrestre na Irlanda

Imprensa britânica contra mudanças de Boris Jonhson

Daily Telegraph qualificou a remodelação governamental de “massacre político” e uma “transição de perder o fôlego”. Por sua vez, o Daily Mail fala de um “massacre” e um “banho de sangue de Boris”, enquanto que o Daily Express

afirma que o primeiro-ministro fez uma “limpeza histórica” e iniciou uma “nova era” no Reino Unido. “Johnson implacável vinga-se” é a manchete do The Guardian, que descreve a saída de alguns dos ministros como uma “limpeza

impiedosa” dos detractores, do novo primeiro-ministro, no gabinete de May. O Financial Times considera que Boris Johnson “rasgou” o Executivo anterior e colocou no seu lugar uma formação “hardcore” de

“Claro que vai haver dificuldades, embora eu acredite que, com energia e determinação, elas serão muito menos graves do que algumas pessoas previram”, acrescentou, prometendo um pacote de impulso económico para depois do Verão. Enumerando algumas das medidas que pretende tomar, como reforçar as forças policiais, melhorar os hospitais e investir nos cuidados sociais e na educação, Boris Johnson manifestou o desejo de ser “o primeiro-ministro de todo o Reino Unido”. “E isso significa unir o nosso país, respondendo finalmente ao apelo do povo esquecido e das vilas deixadas para trás, renovando fisicamente e literalmente os laços que nos unem, para que tenhamos ruas mais seguras e melhor educação e fantásticas novas infra-estruturas rodoviárias e ferroviárias fantásticas, banda larga de fibra”, prometeu. Boris Johnson é o 14.º primeiro-ministro do reinado de Isabel II.

‘brexiteers’, o nome dado aos defensores da saída do Reino Unido da União Europeia. A imprensa britânica refere ainda que para assessores, Boris Johnson recrutou muitos dos operacionais da campanha “Vote Leave” [Vota Sair], que promoveu o ‘Brexit’ no referendo de 2016 que ditou a saída britânica da UE, incluindo o director Dominic Cummings para chefe de gabinete.


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AL DISCUTIDOS MAIS PODERES PARA O CONSELHO DE CONSUMIDORES

Consumo de tempo

RÓMULO SANTOS

26.7.2019 sexta-feira

Novos poderes de fiscalização e sancionamento estão em discussão na AL para dotar o Conselho de Consumidores de mecanismos de defesa mais abrangentes na protecção dos direitos da população. A proposta de lei é vasta em matéria e está a ser passada a pente fino

O

Conselho de Consumidores (CC) vai ter novos poderes, o poder de fiscalização que entendemos que é pertinente, e também o poder de sancionamento que não tem agora. O que o CC pode fazer, por enquanto, é só o acompanhamento dos casos. Claro que os pormenores vão depender depois do respectivo regulamento administrativo”, afirmou ontem Ho Ion Sang em conferência de imprensa, no final de mais uma reunião da 1ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa. A proposta de Lei de Protecção dos Direitos e Interesses do Consumidor continua em discussão no seio da comissão, que pretende rever o actual regime jurídico no sentido de clarificar a relação negocial entre consumidores e operadores comerciais, reduzindo a ocorrência de conflitos e contribuindo para um ambiente de consumo mais justo, imparcial e transparente.

Na ordem do dia estiveram questões relacionadas com o reforço dos mecanismos de intervenção e fiscalização do CC, apesar de na prática as novas atribuições e competências só virem a ser definidas depois por regulamento administrativo. “Ainda não acabámos esta discussão na proposta de lei e vai levar algum tempo para a sua entrada em vigor”, explicou o presidente da comissão, que acrescentou ser um diploma com mais de 70 artigos que “estão a ser discutidos com grande pormenor” para “salvaguardar melhor os interesses dos consumidores”. Quanto à resolução dos conflitos de consumo, a proposta de lei prevê também a criação de um regime de mediação mais estruturado, introduzindo a arbitragem para solucionar, nomeadamente, litígios relacionados com os serviços públicos essenciais. O CC passa ainda a coadjuvar o Governo da RAEM na elaboração, divulgação e

promoção de políticas e medidas referentes à protecção dos consumidores, além de se pronunciar, aceder a relatórios, proceder ao estudo e apresentar sugestões sobre a execução dessas políticas e medidas. A fiscalização de queixas relacionadas com infracções em feiras e exposições foi também abordada pelos deputados, já que as garantias dos consumidores obrigam a um reforço de fiscalização dos comerciantes, geralmente vindos de fora durante o curto período destes eventos. A qualidade da mercadoria terá de ser analisada atempadamente, bem como a sua proveniência, para evitar a venda de produtos contrafeitos ou fraudulentos, segundo Ho Ion Sang, algo que já acontece na prática,

com bons resultados, mas ainda não está inscrito na lei.

DIREITOS RETIRADOS

Outras preocupações foram levantadas na sessão de ontem pelo colectivo de deputados, como o desaparecimento de alguns direitos

Foram eliminados dois direitos da proposta em discussão, que existem na actual lei em vigor: o direito “à formação e à informação” e o direito a “uma justiça acessível”

do consumidor no texto da proposta de lei. “O artigo estipula que há seis direitos, que foram muito discutimos e entendemos que são uma protecção necessária”, indicou Ho Ion Sang, referindo-se à informação, à protecção da saúde e da segurança, à qualidade dos bens e serviços, à protecção dos interesses económicos, à indemnização dos danos e à participação na definição desses direitos e interesses. “Mas talvez seja preciso pedirmos ao Governo que faça uma apresentação detalhada sobre o seu conteúdo, porque foram eliminados dois direitos da proposta em discussão, que existem na actual lei em vigor. Um é o direito “à formação e à informação” e outro é o direito a “uma justiça acessível”.

Esses dois direitos desapareceram do texto”, revelou o presidente da Comissão. “Se entendermos que a proposta de lei não consegue incluir a matéria desses direitos, vamos talvez exigir ao Governo que os reponha no diploma”, avisou Ho Ion Sang. Os deputados vão continuar a agendar novas reuniões para debater esta proposta de lei, que inclui temas tão diversos como os crescentes hábitos de consumo através da internet, a definição clara do que é um consumidor ou um operador comercial, além da “discussão da operacionalidade da lei”, com o objectivo de a tornar “adequada à realidade” e de “colmatar as zonas cinzentas” que ainda existem. Raquel Moz

raquelmoz.hojemacau@gmail.com

SAÚDE CHAN IEK LAP DEFENDE VACINA CONTRA VÍRUS DO PAPILOMA HUMANO PRESCRITA A RAPAZES

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HAN Iek Lap, deputado à Assembleia Legislativa (AL), defende a prescrição da vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV) para rapazes com idades compreendidas entre os 11 e 12 anos. Numa interpelação escrita

dirigida ao Governo, o deputado cita um estudo do Center for Desease Control and Prevention, dos Estados Unidos, que confirma que o HPV não afecta apenas mulheres, mas também homens, sendo que no sexo masculino o

vírus pode desenvolver-se como cancro da garganta, do canal anal ou da próstata. Chan Iek Lap, que além de deputado é também médico pediatra, defende que nos homens o HPV se manifesta de forma diferente e que, uma

vez que não é possível fazer o rastreio, a melhor forma de combater a doença é mesmo através da vacinação. O deputado disse ainda que, na Austrália, depois das autoridades terem expandido o plano de vacinas contra o HPV

a rapazes, houve uma redução do número de casos de pacientes com verrugas genitais cinco anos depois da adopção de uma nova política. O HPV pode afectar a pele e mucosas, tanto de homens como mulheres.


política 5

sexta-feira 26.7.2019

CHEFE DO EXECUTIVO MORADORES ESPERAM MEDIDAS PARA TURISMO, HABITAÇÃO E TRÂNSITO

COMISSÕES SULU SOU “PROVOCA” VONG HIN FAI

À espera do milagreiro

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CAECE Song Man Lei em silêncio sobre juramento de Kou Hoi In

A juíza Song Man Lei recusou ontem comentar se o segundo juramento de Kou Hoi In, para a tomada de posse como presidente da Assembleia Legislativa, pode ser considerado como feito publicamente. Depois de ter feito um primeiro juramento em que Kou se esqueceu de mencionar Macau, foi feito um novo juramento à porta fechada com o Chefe do Executivo. No entanto, a lei exige que o juramento seja feito publicamente. Em relação a este assunto, Song, como presidente da Comissão de Assuntos Eleitorais do Chefe do Executivo (CAECE), recusou fazer comentários por considerar que está fora do âmbito das suas funções.

A União Geral das Associações de Moradores de Macau espera que o próximo Chefe do Executivo resolva os problemas dos elevados preços da habitação, excesso de turistas e trânsito. São estes os assuntos que mais incomodam os cidadãos, de acordo com um inquérito ontem apresentado pela associação

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E acordo com o Jornal do Cidadão, foram apresentados esta quarta-feira os resultados de um inquérito realizado à população por parte da União Geral de Associações de Moradores de Macau, e que versou sobre os problemas que o território atravessa e as expectativas em relação ao próximo Chefe do Executivo. De um total de 1135 entrevistados, foram consideradas válidas mil entrevistas, que mostram que os problemas que mais incomodam os cidadãos estão ligados à habitação, excesso de turistas e transportes. Chan Ka Leong, director da Comissão para os Assuntos So-

ciais da UGAMM, defendeu que o problema do trânsito é o que mais afecta os residentes, principalmente devido à falta de lugares de estacionamento. “Macau deveria ter um sistema de transporte público em grande escala, como o Metro Ligeiro. Contudo, só a linha da taipa não vai surtir grande efeito. Será necessário acelerar o planeamento da construção do metro para que este chegue até à Barra, Seac Pai Van, Portas do Cerco e zona A dos novos aterros”, disse. Para Chan Ka Leong, o excesso de turistas será o principal problema de ordem social que o próximo Chefe do Executivo terá para resolver. É preciso, por isso, desviar turistas

do centro histórico e atrai-los para outros locais do território. No que diz respeito à implementação da taxa turística, o responsável da UGAMM acredita que a maioria dos visitantes opta por não dormir em Macau, o que irá dificultar a cobrança dessa mesma taxa. Nesse sentido, o dirigente associativo espera que o Governo analise os objectivos desta medida.

MAIS T2 E T3 PRECISAM-SE

No que toca aos problemas ao nível da habitação, Chan Ka Leong entende que é necessário promover mais a construção de moradias com a tipologia T2 e T3, uma vez que os apartamentos T1 são pouco vendi-

dos.Abaixa venda deste tipo de casas mostra que o Governo avaliou mal a procura no mercado e a situação social das famílias, devendo fazer ajustes à política habitacional. Além destes três problemas, o responsável da UGAMM defende que é necessário tomar medidas para resolver as inundações que todos os anos provocam estragos nas zonas baixas. O combate à corrupção deve ser outra das prioridades do governante que irá suceder a Chui Sai On. O próximo Chefe do Executivo deve também apostar na melhoria dos serviços de saúde, apontou. Juana Ng Cen com A.S.S. info@hojemacau.com.mo

TIAGO ALCÂNTARA

MA das bandeiras do pró-democrata Sulu Sou é a abertura ao público das reuniões das comissões da Assembleia Legislativa (AL), como acontece com o Plenário. Ontem, o legislador ligado à Novo Macau aproveitou a polémica com o carácter “público” do segundo juramento do presidente da AL, Kou Hoi In, para promover este objectivo. Segundo a lei, os juramentos têm de ser feitos publicamente. No primeiro juramento de tomada de posse como presidente da AL, Kou esqueceu-se de mencionar Macau. Porém, a repetição do juramento foi feita à porta fechada, na presença do Chefe do Executivo e de um fotógrafo. Não se sabe quem mais esteve presente e mesmo os deputados não foram convidados. Face a este cenário, o deputado Vong Hin Fai considerou que desde que houvesse um terceiro presente que o carácter público estava garantido. Foi com esta opinião que Sulu Sou provocou Vong, depois de publicar uma foto da reunião da comissão: “Estamos a celebrar de forma efusiva a abertura das reuniões das comissões ao público! Uma vez que sempre que há uma reunião estão presentes ‘muitos terceiros’, como governantes, assessores jurídicos e tradutores, cumprimos inteiramente a definição de reuniões públicas”, escreveu na sua rede social.

De um total de 1135 entrevistados, foram consideradas válidas mil entrevistas, que mostram que os problemas que mais incomodam os cidadãos estão ligados à habitação, excesso de turistas e transportes

COLÉGIO ELEITORAL HO IAT SENG APOIADO POR MAIS UM MEMBRO

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UANDO entregou a candidatura a Chefe do Executivo, Ho Iat Seng contava com o apoio de 378 membros do Colégio Eleitoral, mas o número aumentou para 379 entre 399 apoios possíveis. A informação foi revelada, ontem, pela presidente da Comissão de Assuntos Eleitorais do Chefe do Execu-

tivo (CAECE), Song Man Lei, após mais uma reunião sobre os procedimentos para a eleição do próximo Chefe do Executivo. “Uma vez que já terminou o período de propositura, que acabou no dia 23 [terça-feira], após a verificação da admissibilidade, anunciamos que o candidato Ho Iat Seng está

admitido”, afirmou Song Man Lei, que é igualmente juíza. “O candidato Ho Iat Seng reuniu 379 assinaturas. No dia 22 obteve 378 assinaturas. Mas depois, no dia seguinte entregou, mais uma assinatura com o apoio de outro membro. No total, obteve 379 assinaturas dos membros do Colégio Eleitoral”, foi acrescentado.

Ainda de acordo com a presidente da CAECE, hoje vai ser afixada a lista com os nomes dos apoiantes de Ho Iat Seng. Caso qualquer outro dos candidatos queira reclamar, tem até segunda-feira para o fazer. Se não houver reclamações a lista dos candidatos admitidos torna-se definitiva. Também ontem a CAECE divulgou o

local para a eleição do Chefe do Executivo, que só tem um candidato. À imagem do que aconteceu em 2014, o lugar escolhido volta a ser a Nave Desportiva dos Jogos da Ásia Oriental, também conhecida como Dome. As eleições estão marcadas para 25 de Agosto e têm um orçamento de 32 milhões de patacas.


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sexta-feira 26.7.2019

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vítima de violência doméstica Lao Mong Ieng pensou escrever uma carta ao Chefe do Executivo de Macau a solicitar a autorização de eutanásia durante o internamento hospitalar. A revelação foi feita pelo pai da vítima, ontem, na segunda sessão de julgamento de Wong Chi Kit, marido e alegado agressor de Lao. “Chegou-me a pedir para ter compaixão dela e para escrever uma carta ao Chefe do Executivo de Macau para poder morrer e perguntou-me se eu consentia”, testemunhou o pai de Lao. “Percebi que estava a sofrer muito”, acrescentou em tribunal. O pedido desesperado foi feito num contexto da dor a que estava sujeita durante o internamento no hospital de Hong Kong, onde fez várias cirúrgias, entre as quais transplantes de pele das pernas para a face e parte superior do corpo onde apresentava queimaduras graves. No entanto, foi a maternidade e o facto de pensar no filho, de sete anos, que lhe devolveu a coragem para não avançar na intenção de morrer, referiu o pai de Lao. A empregadora da vítima também referiu o importante papel do filho para a mudança de ideias. Apesar da relação profissional, a patroa costumava ir à instituição onde o filho de Lao vive há quase um ano, desde o ataque, para fazer gravações e poder mostrar a Lao. Entretanto, a assistente social do Instituto de Acção Social (IAS) que tem acompanhado Lao desde Dezembro de 2018 sublinhou que a vítima tem “medo que o seu rosto assuste o filho e que ele não a aceite”. “Ela sempre quis ser uma boa mãe e isso inclui prestar cuidados, sente-se inquieta por não ver a criança e está preocupada com o estado dela, com a sua nutrição e bem-estar”, mas “tem medo de, para já, assustar a criança” A assistente social sublinhou ainda que a força que Lao tem tido para viver assenta no desejo de voltar a ser mãe. “A esperança está no filho, porque quer ser uma boa mãe”, disse. Agora, ainda é necessária “muita comunicação com o lar porque o filho tem de estar preparado”. No entanto, as entidades estão a trabalhar no sentido de agendar um encontro entre mãe e filho ainda este ano.

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA LAO MONG IENG PONDEROU A EUTANÁSIA

No limite da dor

Lao Mong Ieng chegou a ponderar a eutanásia para se libertar do sofrimento após o ataque cometido pelo marido com óleo a ferver e ácido sulfúrico. O pedido foi feito ao pai. A psicóloga e a assistente social que acompanharam antes do ataque o arguido e o casal, respectivamente, afirmaram em tribunal que nada fazia prever o acto de violência

NADA FAZIA PREVER

Ontem foram também ouvidas a psicóloga que acompanhou o arguido antes do incidente, e a assistente social do IAS que acompanhou o casal na mesma altura. Ambas afir-

Pai de Lao Mong Ieng “Chegou-me a pedir para ter compaixão dela e para escrever uma carta ao Chefe do Executivo de Macau para poder morrer e perguntou-me se eu consentia.”

maram que nada fazia antever o ataque violento que aconteceu a 12 de Julho do ano passado. A psicóloga começou a acompanhar Wong Chi Kit para o ajudar a lidar com o fim do casamento de Setembro de 2017 a Julho de 2018, mês em que se deu o ataque. De acordo com a profissional, o objectivo era ajudar o arguido “na pressão que estava a viver com o divórcio pedido pela mulher”. A última consulta aconteceu já no mês em que o Wong atacou Lao, mas de acordo com a psicóloga “no último encontro ele começou a aceitar o divórcio estando preocupado com a regulação da paternidade”. “Ele estava bem”, rematou. Já a assistente social, que acompanhou o casal desde Janeiro de 2017 tendo em conta o pedido de separação apresentado pela vítima, referiu que o estado emocional do arguido era “estável” e que apenas “queria manter a relação matrimonial e a vida familiar porque tinham um filho”.Até Dezembro de 2017, a assistente social notou que “existiam conflitos e trocas de palavras”, mas sem episódios de violência doméstica. “Não consegui presumir essa situação”, revelou em tribunal. A assistente sugeriu à vítima que saísse de casa, mas Lao recusou.A sugestão surgiu porque “nos últimos encontros estavam numa situação muito conflituosa e já não conseguiam viver em conjunto”. Um ano depois do ataque, Lao ainda não tem qualquer autonomia, não consegue comer porque “não consegue abrir a boca sozinha, levando três horas para fazer uma refeição”, de acordo com o pai da vítima que, juntamente com a mãe assegura o seu cuidado. Lao, está praticamente cega, distinguindo apenas sombras devido às lesões oculares, e não consegue mexer um dos braços. É obrigada a usar roupa e máscaras elásticas na cara e pescoço “o que causa muito desconforto. Dada a falta de pele provocada pelas queimaduras, a vítima também não pode apanhar sol. Wong Chi Kit, marido e alegado agressor de Lao Mong Ieng é acusado de ofensa grave à integridade física, crime pelo qual poderá ser condenado a 13 anos de pena efectiva de prisão. Durante o julgamento de ontem não mostrou qualquer tipo de reacção. Entretanto, a operação no Reino Unido que foi adiada para que a vítima pudesse depor, tem já data marcada para o próximo mês de Agosto. A próxima audiência está agendada para 6 de Setembro. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo


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26.7.2019 sexta-feira

Melco Ganhos cresceram 75 por cento

A Melco Resorts & Entertainment registou lucros líquidos de 100,3 milhões de dólares no segundo trimestre de 2019, mais 75 por cento em termos anuais. De acordo com um comunicado, divulgado na quartafeira, a empresa liderada por Lawrence Ho, filho do magnata do jogo de Macau Stanley Ho, tinha registado no mesmo período de 2018, lucros líquidos de 57,3 milhões de dólares. Entre Abril e Junho passado, a Melco obteve receitas operacionais de 1,44 mil milhões de dólares, o que representa um aumento de 17 por cento em relação a igual período de 2018, que terminou com receitas operacionais de 1,23 mil milhões de dólares. “Todos os ‘resorts’ da Melco em Macau apresentaram um forte crescimento das receitas do mercado de massas”, destacou Lawrence Ho, citado no comunicado da operadora.

Sands Lucros subiram 19,7 por cento

UMA FAIXA, UMA ROTA DENTE PARTIDO ASSUME COMPROMISSO COM INICIATIVA

Amar a pátria à distância O presidente da Associação Mundial de História e Cultura de Hongmen, Dente Partido, pediu desculpa pela polémica com moedas digitais, assumiu responsabilidades e prometeu continuar a contribuir para a iniciativa ‘‘Uma Faixa, Uma Rota’’

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AN Kuok Koi, ex-líder do gangue 14 quilates, gravou um vídeo em que pede desculpa pela actividade mais recente da Associação Mundial de História e Cultura de Hongmen e diz que vai contribuir para o desenvolvimento do País no exterior. A mensagem do presidente da Associação Mundial de História e Cultura de Hongmen começou ontem a circular nas redes sociais, mas não tem data de gravação. No vídeo com duração de 1 minuto e 38 segundos, Wan Kuok Koi, também conhecido como Dente Partido, pede desculpa pelas actividades da associação a que preside, que esteve alegadamente envolvida num esquema com criptomoeda há cerca de um ano no Camboja. Na altura, a Autoridade Monetária de Macau (AMCM) tomou mesmo uma posição sobre o

assunto e alertou o público para os riscos das criptomoedas, que não são reconhecidas como um instrumento legal de investimento no território. “Não posso fugir às minhas responsabilidades em relação aos problemas que ocorreram durante o recente desenvolvimento da Hongmen. O que aconteceu ficou a dever-se à falta de supervisão, da minha parte, à equipa”, admitiu o agora empresário. “Portanto, vou enfrentar de forma activa todos os problemas imprevisíveis neste processo de desenvolvimento. Não se preocupem”, prometeu.

Após ter cumprido uma pena de prisão de 14 anos e sido libertado em 2012, Wan Kuok Koi manteve-se longe dos holofotes, em contraste com a postura adoptada no final dos anos 90. Contudo, Pan Nga Koi (Dente Partido, em cantonês) fez do Amor pela pátria e da participação na iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” as suas bandeiras mais recentes e, segundo a revista East Week, planeou investimentos numa escola para alunos chineses no Camboja e num casino no Palau. Segundo a mensagem, estes são os objectivos que o empresário vai perseguir até à morte, através da

“Não posso fugir às minhas responsabilidades em relação aos problemas que ocorreram durante o recente desenvolvimento da Hongmen. O que aconteceu ficou a dever-se à falta de supervisão.” WAN KUOK KOI

Associação Mundial de História e Cultura de Hongmen. “A história e o processo do desenvolvimento da associação Hongmen é constituído na base do Amor à pátria, que vai ser herdado pelas gerações futuras”, diz no vídeo. “Hoje, como líder de Hongmen – e assumindo o fardo de representar os chineses ultramarinos – vou participar activamente na construção do desenvolvimento económico nacional. E aproveito para agradecer a todos os meus irmãos e irmãs pelo apoio à Hongmen e ao desenvolvimento económico do país”, acrescentou. Dente Partido prometeu ainda continuar a envolver a Associação Mundial de História e Cultura de Hongmen activamente no desenvolvimento do país e manter um contacto mais próximo com os membros, para que todos possam compreender o que está a ser feito. João Santos Filipe e Juana Ng Cen joaof@hojemacau.com.mo

A operadora de jogo Sands China apresentou ontem lucros de 511 milhões de dólares no segundo trimestre de 2019, um aumento de 19,7 por cento comparativamente ao período homólogo de 2018. Em comunicado, a subsidiária do grupo Las Vegas Sands, apresentou receitas de 2,14 mil milhões de dólares, o que representa uma subida de 1,4 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. O principal empreendimento do grupo, o Venetian, voltou a ser o que registou as receitas de jogo mais significativas: 698 milhões de dólares, ou mais 3,1 por cento do que igual período do ano anterior. Ao todo, o grupo Las Vegas Sands registou lucros de 954 milhões de dólares no primeiro trimestre do ano, contra 556 milhões de dólares no segundo trimestre de 2018.

Trabalho Número de TNR bateu recorde em Junho

Macau registou um número recorde de trabalhadores não residentes (TNR), no passado mês de Junho, que corresponderam a 190.367 cidadãos, segundo dados divulgados pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais. Este número representa mais 231 trabalhadores do que em Abril, mês que havia atingido o valor mais elevado de que há registo. Em comparação com o mês de Junho de 2018, o aumento foi de 4,9 por cento, com mais 8.868 TNR. A grande maioria de trabalhadores não residentes, no mês de Junho, são provenientes do interior da China (118.998), das Filipinas (32.149) e do Vietname (14.805). O ramo de actividade económica que mais emprega TNR são os “hotéis, restaurantes e similares”, seguidos da “construção” e das “famílias com empregados domésticos”.


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sexta-feira 26.7.2019

Lições laborais

DSEJ recebeu queixas de sete professores por despedimentos sem justa causa

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Direcção de Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) recebeu cinco processos, entre 2016 e o ano passado, relacionados com despedimentos sem justa causa que envolveram sete professores. Os dados foram avançados em resposta a uma interpelação escrita do deputado Sulu Sou, ligado à Associação Novo Macau. “Entre 2016 e 2018, a DSAL instaurou um total de cinco processos por queixas de docentes de escolas particulares (envolvendo sete docentes), sobre a cessão da relação de trabalho, dos quais um processo (envolvendo um docente) foi considerado precedente” pode ler-se no documento com a data de 19 Junho. “Tendo o docente recebido já o pagamento da indemnização nos termos da lei. Todos os processos foram resolvidos

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com o tratamento da DSAL, não precisaram de passar pelos órgãos judiciais para apreciação”, é acrescentado. A interpelação enviada a 24 de Abril tinha como objectivo definir a situação da prática das escolas privadas que no final do ano lectivo enviam “notificações de continuidade” aos professores, no caso de pretenderem continuar com eles para o futuro. De acordo com Sulu Sou, esta prática acaba por criar muita ansiedade, porque sem receberem as “notificações” os professores temem ser despedidos sem justa causa. Sobre este procedimento no sector do ensino privado, a DSEJ admite que está a acompanhar a situação, mas justifica o mesmo com a necessidade de as instalações de ensino saberem os planos para o futuro dos docentes. “Algumas escolas particulares continuam a enviar cartas

de intenção aos docentes, antes do termo de cada ano lectivo, para se inteirarem das intenções de continuidade dos docentes para o novo ano lectivo. Tendo em conta que as escolas têm de ter tempo suficiente para analisar e planear os seus recursos humanos [...] a referida notificação satisfaz as necessidades reais no que diz respeito à gestão escolar”, é sustentado. Em relação ao perfil dos professores que abandonam as escolas particulares, a DSEJ diz que “a maioria [...] tem uma antiguidade [no posto] inferior a quatro anos”. No entanto, não são avançados números. Já no que diz respeito ao abandono da profissão por parte de docentes, a DSEJ diz que antes do “regresso de Macau à pátria” que era em média de 8 por cento. Agora a média, segundo o ano de 2017/2018, foi de 6 por cento. J.S.F.


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26.7.2019 sexta-feira

Retratos de amor e ódio TEATRO CCM APRESENTA “DO PÓ ÀS CINZAS” EM SETEMBRO

Começam a ser vendidos este domingo bilhetes para a nova produção teatral que sobe ao palco do Centro Cultural de Macau de 20 a 22 de Setembro. “Do Pó às Cinzas” é uma encenação da responsabilidade de Fredric Mao, encenador de Hong Kong

O

Centro Cultural de Macau (CCM) apresenta a peça “Do Pó às Cinzas”, estando programados três espectáculos que estarão em cena no pequeno auditório do CCM de 20 a 22 de Setembro. Os bilhetes começam a ser vendidos este domingo. Encenada pelo icónico mestre do teatro de Hong Kong Fredric Mao e escrita pelo prolífico dramaturgo Nick Yu, “Do Pó às Cinzas”

é uma viagem de amor e ódio criada em jeito de homenagem ao lendário escritor e prémio Nobel da Literatura Harold Pinter. A peça leva ao palco um intenso turbilhão de emoções inspirada em “Cinza às Cinzas”, uma das mais reconhecidas peças de Pinter. Adoptando o tom desconcertante do dramaturgo britânico, o trabalho de Yu funciona enquanto metáfora dos impulsos de luxúria e paixão que incessantemente comandam as vidas das pes-

Instituto Cultural Biblioteca Pública lança nova edição da revista “Os Livros e a Cidade”

A Biblioteca Pública de Macau acaba de lançar a nova edição da revista “Os Livros e a Cidade”, uma publicação gratuita sob responsabilidade do Instituto Cultural (IC). O tema desta edição está ligado aos recursos humanos. “Esta é uma época do ano em que os recém-formados estão à procura de emprego”, aponta o IC em comunicado. Como tal, a publicação contém “entrevistas a profissionais de recursos humanos e instrutores de etiqueta de negócios internacionais”, além de apresentar “várias técnicas de procura de emprego” e “recomendar uma série de livros úteis, a fim de dar dicas aos recém-formados e pessoas que andam à procura de emprego”. A revista “Os Livros e a Cidade” tem uma tiragem de três mil exemplares e está disponível gratuitamente nas bibliotecas dependentes do IC, instituições de ensino superior de Macau, na Galeria Tap Seac e em diversas livrarias e espaços de arte.

soas. Interpretada em Cantonense por seis actores locais, “Do Pó às Cinzas” aborda a crença tradicional chinesa da incarnação para compor personagens em diversas variações existenciais. Uma história de dois casais, cujos caminhos se entrecruzam em quatro situações distintas que se repetem. Esta produção é o epílogo de um projecto de residência artística lançado pelo CCM o ano passado e uma excelente oportunidade para um grupo de actores locais abraçarem

um desafio de longa duração integrando uma equipa profissional sob a direcção de um mestre encenador.

MESTRES CONSAGRADOS

Fredric Mao Chun-fai, o encenador desta peça, está há 40 anos ligado ao mundo da dramaturgia, não só através da encenação mas também através do estudo e do ensino a jovens artistas. Com 72 anos de idade, Fredric Mao tem agora um novo projecto depois de ter levado em cena um espectáculo em Hong Kong, em Fevereiro deste ano, que teve como objectivo

rejuvenescer a antiga ópera cantonense. Harold Pinter nasceu em 1930 em Londres, Reino Unido, e ingressou na vida teatral como actor. Em 1957, Pinter escreveu a primeira peça, “The Room” e ao longo da carreira a sua obra catapultou o britânico como um dos autores fundamentais do teatro contemporâneo.  Ao longo da carreira, Pinter escreveu mais de 30 peças, que foram traduzidas e encenadas em todo o mundo. Além do teatro, o autor também escreveu para rádio, televisão e cinema, onde colaborou com Joseph Losey. A.S.S.

“Do Pó às Cinzas” é uma viagem de amor e ódio criada enquanto homenagem ao lendário escritor e prémio Nobel da Literatura Harold Pinter. A peça leva ao palco um intenso turbilhão de emoções inspirada em “Cinza às Cinzas”, uma das mais reconhecidas peças de Pinter

ÓBITO RUTGER HAUER, ETERNO VILÃ

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actor holandês Rutger Hauer, que ficou célebre sobretudo no filme "Blade Runner", de Ridley Scott, morreu no dia 19, aos 75 anos, revelou esta quarta-feira a revista Variety. A informação foi avançada pelo agente, Steve Kenis, explicando que o actor estava doente, morreu em casa e que o funeral se realizou ontem, na Holanda.

Nascido a 23 de Janeiro de 1944, em Utrecht, Rutger Hauer estreou-se no final dos anos 1960 na série de televisão "Floris", de Paul Verhoeven, realizador com quem iria trabalhar em anos seguintes, nomeadamente em "Delícias Turcas" (1973) e "O Soldado da Rainha" (1975). No entanto, foi com o papel do vilão Roy Batty, líder


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sexta-feira 26.7.2019

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La Bella Itália Filmes de Leonor Teles e Tiago Guedes em competição em Veneza

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filme português “Cães que ladram aos pássaros”, de Leonor Teles, vai estar em competição no 76.º Festival de Cinema de Veneza, que decorre de 28 de Agosto a 7 de Setembro em Itália, foi ontem anunciado. O filme integra a secção competitiva Orizzonti, sub-secção de curtas-metragens, de acordo com a produtora Uma Pedra no Sapato num comunicado. O nome de Leonor Teles, de 27 anos, sobressaiu no cinema português em 2016, quando venceu o Urso de Ouro, o prémio máximo do festival de Berlim, com "Balada de um batráquio". Depois das curtas-metragens "Rhoma Acans" e "Balada de um batráquio", Leonor Teles assinou em 2018 a primeira longa documental, “Terra Franca”, vencedora de uma dezena de prémios, que acompanha a vida de Albertino Lobo, um pescador PUB

ÃO DE “BLADE RUNNER”, MORRE AOS 75 ANOS dos replicantes no filme de culto "Blade Runner - Perigo Iminente", de Ridley Scott, que Rutger Hauer ficou célebre em 1982. Na mesma década, participou em filmes como "A Mulher Falcão" (1985), de Richard Donner, "Morto ou Vivo" (1986), de Gary Sherman, e "A Lenda do Santo Bebedor" (1988), de Ermanno

Olmi. Com "Fuga de Sobibor", telefilme de Jack Gold, de 1987, venceu um Globo de Ouro como ator secundário. Terror, ficção científica, acção, foram vários os géneros cinematográficos em que Rutger Hauer se moveu no cinema, tendo entrado, por exemplo, em "Drácula 3D", "Buffy, caçadora de vampiros", "Batman - O início",

"Sin City - Cidade do pecado" e "Valerian e a cidade dos mil pllanetas". Em 2013 protagonizou "RPG", longa-metragem portuguesa de ficção científica, realizada por David Rebordão e Tino Navarro. Entre as suas últimas aparições no cinema está a participação em "Os Irmãos Sisters", de Jacques Audiard.

de Vila Franca de Xira (onde a realizadora nasceu) ligado desde sempre ao rio Tejo.

“A HERDADE” NA CORRIDA

Outro filme português que também está em competição é “A Herdade”, de Tiago Guedes, e que estreia em Portugal a 19 de Setembro. “A Herdade” tem co-produção da Leopardo Filmes e da Alfama Filmes, e conta a “saga de uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo, […] fazendo o retrato da vida histórica, política, social e

financeira de Portugal, dos anos 40, atravessando a revolução do 25 de Abril e até aos dias de hoje”. Com argumento de Rui Cardoso Martins e Tiago Guedes, com a colaboração de Gilles Taurand, o elenco é composto por Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, Miguel Borges, João Vicente, Ana Bustorff, Beatriz Brás, entre outros. Depois de Veneza, o filme terá a sua estreia norte-americana no Festival Internacional de Cinema de Toronto, cuja 44.ª edição decorre entre 5 e 15 de Setembro.


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26.7.2019 sexta-feira

TRANSPORTES PEQUIM FINANCIA 85% DE PROJECTO FERROVIÁRIO NA MALÁSIA

Guizhou Sobe para 16 o número de mortos em deslizamentos de terras O número de mortos em dois deslizamentos de terra ocorridos esta semana na província de Guizhou, sudeste da China, subiu para 16, enquanto 30 pessoas continuam desaparecidas, informou ontem a imprensa estatal. Um deslizamento de terras na noite de terça-feira enterrou 21 casas e causou pelo menos 15 mortes, no condado de Shuicheng, segundo a emissora estatal CCTV. Onze pessoas foram resgatadas e outras trinta continuam desaparecidas. As autoridades apontaram as fortes chuvas como causa principal do desastre. Mais de 800 pessoas participam nas operações de resgate e têm vasculhado a área, onde chuvas contínuas e encostas íngremes têm dificultado os esforços de busca. Num outro incidente, uma pessoa morreu e outras seis estão desaparecidas depois de um deslizamento de terras atingir uma vila no condado de Hezhang, em Guizhou, na tarde de terça-feira.

Muitíssima terra

Um banco estatal da China vai financiar 85 por cento da construção de uma malha ferroviária na Malásia, que impulsionará o desenvolvimento económico nos estados pobres do leste, informou ontem o ministro dos Transportes, Loke Siew Fook

A

ligação ferroviária da costa leste da Malásia, cujo preço de construção ascende a 10.700 milhões de dólares, foi suspensa há um ano, após a eleição do actual primeiro-ministro, Mahathir Mohamad. O Governo malaio disse, em Abril, que relançaria a obra, depois de o empreiteiro chinês aceitar reduzir os custos de construção em um terço. O projecto vai ligar a costa oeste da Malásia aos estados mais pobres do leste e é parte fundamental do projecto chinês de infra-estruturas "Uma Faixa, Uma Rota". Bancos e outras instituições chinesas estão a conceder enormes empréstimos no quadro da iniciativa, que inclui ainda uma malha ferroviária e autoestradas, a ligar a região oeste da China à Europa e Oceano Índico, cruzando Rússia e Ásia Central, e uma rede de portos em África e no Mediterrâneo, que reforçarão as ligações marítimas do próspero litoral chinês. Numa cerimónia no nordeste do estado de Terengganu, para relançar o projecto, Loke disse que a estatal Malaysia Rail Link finalizou as negociações com o Banco de Exportação e Importação da China e que um acordo vai ser assinado em breve. Loke afirmou que o projecto ferroviário, com uma extensão de 640 quilómetros, reduzirá o tempo de viagem entre Kota Baru, no estado de Kelantan, e a capital administrativa do governo, Putrajaya, para quatro

venture', com participação de 50 por cento para cada parte. O primeiro-ministro malaio, Mahathir Mohamad, disse que o facto de o custo do projecto poder ser reduzido em 5,2 mil milhões de dólares mostra que as projecções iniciais foram inflacionadas, quando o ex-primeiro-ministro Najib Razak concedeu o contrato inicial à CCCC, em 2016. Mahathir decidiu renegociar o acordo, em vez de pagar uma compensação de 5,3 mil milhões de dólares. Desde que assumiu o poder depois de uma histórica vitória eleitoral, no ano passado, o Governo de Mahathir cancelou ou reviu projectos de infra-estrutura em larga escala, após ter descoberto que a dívida nacional disparou, culpando a corrupção no Governo do ex-primeiro-ministro Najib Razak. Mahathir suspendeu então a construção dos dois gasodutos, um na península da Malásia e outro na ilha de Bornéu, e também uma ligação ferroviária que ligaria a costa oeste da Malásia aos estados rurais orientais, tudo contratos assinados pelo Governo anterior, e que se inserem na iniciativa chinesa "Uma Faixa, Uma Rota".

O primeiro-ministro malaio disse que o facto de o custo do projecto poder ser reduzido em 5,2 mil milhões de dólares mostra que as projecções iniciais foram inflacionadas horas. Por estrada, a viagem demora pelo menos oito horas.

DE MÃOS DADAS

Com uma velocidade média de 160 quilómetros por hora, a nova ligação ferroviária vai passar por cinco estados e terá 20 estações, e deve estar concluída em Dezembro de 2026, incluindo entre 30 e 40 túneis e múltiplos viadutos, segundo o ministro. Loke Siew Fook disse que o projecto vai impulsionar o comércio e o turismo e atrair investimento.

O embaixador chinês Bai Tian citou um estudo malaio que prevê que a ligação ferroviária impulsionará em 2,7 por cento o crescimento económico da Malásia. Bai considerou o projecto como um "factor decisivo" que vai revitalizar a economia da costa leste e estreitar os laços entre a Malásia e a China. A Malaysia Rail Link e a China Communications Construction Company Ltd., que estão a desenvolver o projecto, planeiam formar uma ‘joint

O Governo malaio disse que está a investigar se algum do dinheiro destinado a projectos apoiados pela China foi usado pelo governo de Najib para pagar as dívidas do fundo de investimento 1MDB. Um enorme escândalo financeiro no 1MDB levou à derrota da coligação de Najib, em Maio de 2018. O antigo primeiro-ministro está a ser julgado por múltiplas acusações de corrupção ligadas àquele fundo.

Região TECNOLOGIA SAMSUNG LANÇA 'SMARTPHONE' COM ECRÃ DOBRÁVEL EM SETEMBRO

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gigante sul-coreana Samsung Electronics anunciou ontem que o seu novo modelo de 'smartphone' com ecrã dobrável vai estar disponível em Setembro, depois de já ter adiado uma vez o lançamento devido a problemas técnicos. O anúncio surgiu no contexto de uma disputa entre a Coreia do Sul e o Japão que

está, segundo analistas, a ameaçar o mercado global da tecnologia. Tóquio impôs recentemente restrições às exportações para a Coreia do Sul de materiais fotorresistentes e produtos químicos essenciais no fabrico de semicondutores e monitores. A medida do Governo japonês alimentou a ira pú-

blica na Coreia do Sul, onde muitos entendem que o Japão ainda não reconheceu totalmente a responsabilidade pelas atrocidades cometidas durante a ocupação do país entre 1910 e 1945. Especialistas disseram acreditar que a implantação da rede internet móvel de quinta geração (5G) pode ser

afectada por estas medidas, assim como a implantação de ecrãs futuristas dobráveis, como o novo "Galaxy Fold" da Samsung. A Samsung tinha inicialmente planeado lançar o novo modelo em Abril, mas jornalistas responsáveis por testar o equipamento relataram problemas.

Neste anúncio, a Samsung disse que o dispositivo foi "melhorado e que estavam em curso os últimos testes de produto" para que o 'smartphone' seja colocado à venda em Setembro. O gigante sul-coreana passou quase oito anos a desenvolver este modelo, num esforço para impulsionar a procura e reanimar o sector.


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sexta-feira 26.7.2019

As empresas chinesas estão dispostas a importar mais produtos agrícolas oriundos dos Estados Unidos, informou ontem o ministério chinês do Comércio, nas vésperas de delegações dos dois países se reunirem para negociar um acordo comercial

O

anúncio surge depois das acusações do Presidente norte-americano, Donald Trump, de que Pequim estava a faltar à promessa de reduzir o ‘superavit’ comercial com os Estados Unidos através da compra de mais produtos agrícolas americanos. O porta-voz do ministério Gao Feng confirmou, na terça-feira, que as delegações vão conversar, pela primeira vez, frente a frente, desde que Trump e o homólogo chinês, Xi Jinping, acordaram um segundo período de tréguas, numa

O

COMÉRCIO PEQUIM PODE COMPRAR MAIS PRODUTOS AGRÍCOLAS AMERICANOS

Abertos para negócios guerra comercial que espoletou no Verão passado e ameaça a economia mundial. O primeiro período de tréguas colapsou após Trump ter subido as taxas alfandegárias sobre o equivalente a 200 mil milhões de dólares de bens importados da China, acusando Pequim de recuar em compromissos feitos anteriormente. Gao disse que os importadores chineses vão negociar com os fornecedores dos EUA, embora tenha rejeitado uma "relação directa" com as negociações da próxima semana. "As empresas chinesas têm a disposição de continuar a importar alguns produtos agrícolas dos Estados Unidos", disse Gao, em conferência de imprensa. "As empresas vão negociar os contratos com os fornecedores", detalhou. Pequim bloqueou as importações de soja norte-americana e aumentou as taxas alfandegárias sobre produtos agrícolas, em

retaliação pela decisão de Trump de punir com taxas alfandegárias cerca de metade das importações oriundas da China. A China concordou, entretanto, em comprar mais produtos agrícolas americanos, gás natural e outros bens, mas voltou atrás após Trump avançar

“As empresas chinesas têm a disposição de continuar a importar alguns produtos agrícolas dos Estados Unidos e vão negociar contratos com os fornecedores.” MINISTÉRIO CHINÊS DO COMÉRCIO

antigo governador de Xinjiang admitiu ontem em tribunal ter aceitado o equivalente a 10 milhões de euros em subornos, no âmbito da mais persistente campanha anticorrupção na história da China comunista. Nur Bekri, que recentemente foi responsável pela agência de planeamento energético da China, e que é membro da minoria étnica chinesa de origem muçulmana uigur, foi governador de Xinjiang, no extremo noroeste do país, entre 2008 e 2014. Nur Bekri, membro do Partido Comunista Chinês (PCC) desde os 21 anos, também liderou a Administração Nacional de Energia, entre 2014 e 2018, e foi vice-director da poderosa Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China. "Entre 1998 e 2018, ele aproveitou-se do seu poder e estatuto para ajudar empresas e indivíduos a ganhar contratos, promover produtos e beneficiar de medidas preferenciais", disse o Tribunal Popular Intermédio de Shenyang,

Mea culpa

Antigo governador de região chinesa de Xinjiang admite corrupção

no nordeste da China. Nur Bekri aceitou subornos de empresas e indivíduos, num total de 79,1 milhões de yuans, lê-se na mesma nota. Uma estrela em ascensão no Partido Comunista Chinês, Nur Bekri foi um dos mais poderosos políticos oriundos de minorias étnicas. Entre 2012 e 2017 foi membro do Comité Central do PCC. Ontem, "reconheceu a sua culpa" e "arrependeu-se" pelas suas acções, disse o tribunal. O ex-governador terá ainda abusado do seu poder, ao ter organizado passeios em veículos de luxo, com motoristas privados, e outros serviços, para os seus familiares, enquanto levava uma "vida extravagante", segundo a Comis-

com mais taxas. Trump recentemente acusou Pequim de retroceder, afirmando no Twitter que "a China está a decepcionar [os EUA]". A China comprometeu-se a comprar produtos agrícolas norte-americanos e, em troca, os EUA devem retirar o grupo chinês das telecomunicações Huawei de uma lista de entidades a quem as empresas norte-americanas não podem vender tecnologia chave sem autorização prévia. As disputas comerciais entre os dois países continuam a pesar sobre a economia global, e foram um dos

são Central de Inspecção e Disciplina do PCC. A mais ampla e persistente campanha anticorrupção na história da China comunista, lançada pelo Presidente Xi Jinping após ascender ao poder, em 2013, puniu já mais de um milhão e meio de funcionários do Partido Comunista. Os dois casos mais mediáticos envolveram a prisão do antigo chefe da Segurança Zhou Yongkang e do ex-director do Comité Central do PCC e adjunto do antigo Presidente Hu Jintao, Ling Jihua. Antes de 2014, Bekri ocupou ao longo de três décadas vários cargos na região de Xinjiang. Não há indicações de que a investigação esteja relacionada com a campanha repressiva lançada pelas autoridades sobre os uigures, que resultou na detenção de mais de um milhão de pessoas em campos de doutrinamento político.

factores que levou o Fundo Monetário Internacional a reduzir a sua estimativa para o crescimento da economia mundial, este ano, para 3,2 por cento. Os governos das duas maiores economias do

mundo impuseram já taxas alfandegárias sobre centenas de milhares de milhões de dólares das exportações de cada um, numa guerra comercial que ameaça a economia mundial. Em causa está a política de Pequim para o sector tecnológico, que visa transformar as firmas estatais do país em importantes actores globais em sectores de alto valor agregado, como inteligência artificial, energia renovável, robótica e carros elétricos. Os EUA consideraram que aquele plano, impulsionado pelo Estado chinês, viola os compromissos da China em abrir o seu mercado, nomeadamente ao forçar empresas estrangeiras a transferirem tecnologia e ao atribuir subsídios às empresas domésticas, enquanto as protege da competição externa.

PUB HM • 1ª VEZ • 26-7-19

ANÚNCIO Proc. Divisão de Coisa Comum n.º

CV2-17-0056-CPE

2º Juízo Cível

1. HSU TSAI TAO (徐再道), de sexo feminino, maior, de nacionalidade chinesa, residente em Hong Kong 九龍油塘油麗村翠麗樓2118室; e 2. LEUNG MALCOLM JERRY (梁威豪), de sexo masculino, maior, de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Rua Norte do Patane, Edifício Weng Ken, Bloco 4, 17º andar D. Requerida: LI YUN KOW (李恩救), de sexo feminino, maior, de nacionalidade chinesa, residente em Macau, na Avenida do General Castelo Branco, nº 426, Jardim Iat Lai, 6º andar AT. * Nos autos supra identificados, foi designado o dia 10 de Setembro de 2019, pelas 15:00 horas, neste Tribunal, para a venda por meio de propostas em carta fechada, o bem acima identificado. Imóvel Denominação da fracção autónoma: “AT6”, 6º andar AT. Situação: Em Macau, na Avenida do Conselheiro Borja nºs 212 e 250, Rua do Dr. Ricardo de Sousa nº 61, na Avenida do General Castelo Branco nº 426, e na Rua Central de T`oi San nºs 302 e 338. Fim: Para habitação. Número de matriz: n.º 073013. Número de descrição na Conservatória do Registo Predial: nº. 21045, a fls. 198V do Livro B46. Valor a anunciar para a venda: Dois Milhões, Seiscentas e Sessenta e Cinco Mil, Seiscentas Patacas (MOP$2.665.600,00), correspondendo a 70% do valor do bem. O preço das propostas deve ser superior ao valor a anunciar para a venda acima indicado. * Os interessados na compra devem entregar a sua proposta em carta fechada, com indicação nos envelopes das propostas, a seguinte expressão “proposta em carta fechada”, “2º Juízo Cível” e o “Processo Número: CV2-17-0056-CPE”, na Secção Central deste Tribunal, até o dia 09 de Setembro de 2019, até 17:45 horas, podendo os proponentes assistir ao acto da abertura das propostas. Quaisquer titulares de direito de preferência na alienação do imóvel supra referido, podem, querendo, exercerem o seu direito no próprio acto da abertura das propostas, se alguma proposta for aceite, nos termos do artº 787º do C.P.C.M. Aos 14 de Junho de 2019. ***** Requerentes:


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Alucinar o Arkansas e a tragédia à luz de Blake

Folhetim Fernando Sobral

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MA ventoinha, colocada no tecto da casa de chá de Jin Shixin, arrefecia o local, o que era uma bênção depois de se sair da rua escaldante, onde Cândido Vilaça se cruzara com vários soldados portugueses que tinham vindo de Timor. Macau iria ter uma noite muito agitada. “O Jardim Celestial”, na Avenida Almeida Ribeiro, era um templo de aromas, e tornara-se rapidamente a loja de chá favorita para quem vivia na cidade. Entrou e a porta fechou rapidamente atrás dele, tentando não dar tempo para que o calor entrasse naquele espaço que queria ser acolhedor. Só um par de lanternas vermelhas acesas davam alguma luz ao local. Da obscuridade saiu Jin Shixin que, movendo-se silenciosamente, dava ainda mais beleza ao cheongsam verde que vestia. Quando chegou perto de Cândido, o português reparou nos pequenos brincos com incrustações em jade que ela usava nos ouvidos e que lhe davam um ar requintado e distinto. Vender era uma arte. Jin deu-lhe um tímido beijo nos lábios e disse: - Sempre vieste. Depois, encaminhou-se para um pequeno móvel de bambu, onde estava um bule com chávenas de chá. Encheu duas, levou-as para a única mesa que existia na loja e fez sinal para ele se instalar numa das cadeiras disponíveis. Jin sentou-se de forma a ver a porta, enquanto Cândido olhava à volta. A sala da loja parecia um dos últimos redutos

A grande dama do chá

da China antiga. Os móveis de bambu e de madeira de cerejeira acomodavam várias estatuetas de jade e laca. E alguns deles estavam repletos de recipientes de vidro que continham chás das mais diversas proveniências. Não admirava que Jin fosse conhecida como a Grande Dama do Chá de Macau. Era difícil não se encontrar ali o que se desejava. Depois ele desviou a atenção para os olhos sempre atentos de Jin, que a parca luz parecia tornar ainda mais misteriosos. - O que têm os meus olhos, Cândido? São uma surpresa para ti? Há quem se limite a fitar o vácuo. Os meus olhos alcançam para lá do que há para ver. - Eu sei. E também escondem, por vezes, mais do que desejamos. Ela não disse nada e a sua mão direita agarrou na dele e acariciou-a. - Sabes porque te disse para vires aqui? - Imagino. - O perigo ronda-nos. E está na altura de darmos um passo em frente. Suponho que os japoneses e os seus amigos planeiam algo. Temos de lhes dar algo que os leve para o caminho que queremos. - E onde é que eu posso ser útil? - Amanhã vai chegar um grande carregamento de uísque e cognac francês, encomendado por Du Yuesheng. Era um daqueles que ia regularmente para Xangai, num dos negócios dele, como sabes. Agora vão começar a vir para aqui e parte deles irão depois para

Hong Kong e Singapura, onde Du pensa estabelecer parte dos seus negócios. Cândido olhou para ela durante algum tempo. Tentou perceber as intenções dela: - E que queres que faça? Que diga a Toshio Nomura ou ao José Prazeres da Costa que isso vai acontecer? Para quê? Para eles vos emboscarem? - Nomura não fará isso. Seguir-nos-á até a um armazém fictício, onde ele julgará que será o nosso esconderijo. Ao mesmo tempo passará a confiar em ti. E, quando for necessário, dizer-lhe uma mentira ele acreditará que é verdade. Posso confiar em ti? - Não o provei já? A conversa foi cortada pelo ruído da porta. Jin levantou-se. Luc LeFranc entrou. Olhou para ela e disse: - Venho buscar as minhas encomendas. Sem dizer nada, Jin passou por um biombo que escondia o resto da sala dos olhares indiscretos e voltou poucos minutos depois. Trazia um saco e uma grande caixa. O francês abriu a caixa e ficou por momentos a vislumbrar o interior. - C’est magnifique! - Também acho. - Du vai ficar contente. Jin sorriu. Por detrás do biombo surgiu o russo Patapoff, que, em silêncio, agarrou na caixa e a levou para fora da loja. Luc LeFranc, antes de se despedir, disse: - A transferência já foi feita. - Ainda bem. Tudo corre como planeado.

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Sem olhar para Cândido, Luc saiu da loja. Pouco depois ouviu-se o ruído de um motor de automóvel e Potapoff voltou a entrar. Depois voltou a desaparecer por detrás do biombo. Jin sentou-se novamente ao lado de Cândido. - Não percebeste, não foi? - Entendi que era uma encomenda para o teu mestre Du Yuesheng. Como nos velhos tempos de Xangai. - Nunca deixou de ser o meu mestre. E a encomenda era um gramofone vindo de Singapura. Du não nasceu no meio da aristocracia chinesa. Mas aprendeu a gostar de ópera. E precisava de um gramofone para, ao final da tarde, a olhar para o mar, escutar aquilo que o acalma. Não descansei enquanto não consegui arranjar-lhe um. Cândido olhou-a fixamente. Jin tinha o condão de dizer uma verdade, para esconder o que não queria partilhar. - E o saco, era o quê? Chá? Ela deu uma gargalhada. - Luc não é propriamente um apreciador de chá. Prefere outras coisas. - Dinheiro, não é? Lembro-me dele. Era polícia em Xangai, na zona francesa, não? - Tens uma boa memória. Isso é bom. Dá-nos vantagens. Lembrar o que os outros esquecerem é uma arma secreta. Mas, deixa-me que te diga, se falares com ele não mostres que o conheces. Ele veio para Macau para apagar o passado. - Como muita gente. - Não é diferente da Xangai que conheceste. Ali ninguém queria saber de onde vinhas, desde que tivesses dinheiro e fosses estrangeiro. Eu isso não esqueço, Cândido. Xangai era uma cidade colonial. A cidade das concessões. Cada potência ocidental tinha ali o seu pedaço da China. Cada bocadinho do nosso coração. Agora foram substituídos pelos japoneses, mas nada mais mudou. Cândido apeteceu-lhe, naquele momento, ter ali o seu saxofone e tocar uma melodia, para poder suavizar o olhar agreste de Jin. Ela percebeu o que ele estava a pensar e fez um sorriso triste. - A China há-de renascer, pequeno Cat. Vou contar-te uma história que aprendi há muitos anos. Bai Juyi, num poema muito belo, lembra-nos a história dos infinitos amores do imperador Xuanzong pela concubina Guifei. O imperador estava tão apaixonado por ela que começou a não dar atenção aos assuntos do Estado, e por isso, os seus conselheiros, fartos, forçam-no a aceitar a execução da mulher que amava. A tragédia aconteceu. Como consequência disso o imperador acabou por abdicar em favor do filho e acabou a vida na mais completa loucura. A paixão pelo poder dos ocidentais levou à loucura de Xangai. Mas a história não terminará aqui. A voz de Jin era triste, mas sentia-se o orgulho dela. A vontade de vencer. A conversa foi interrompida pela chegada de duas clientes portugueses. Foi um alívio para Jin, que se dirigiu, sorridente, para elas. Queriam apenas chá.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

sexta-feira 26.7.2019

Os outros é que são populistas

Plano de corte José Navarro de Andrade

portuguesa. Se a política é profissão então estabelecer-se como deputado será emprego. É mesmo a colocação mais cobiçada do ofício. Eleito por lista, portanto sem ter que dar muito a cara, sem responsabilidades executivas que possam comprometer, com a responsabilidade individual diluída no grupo parlamentar como carapau no cardume, basta ao sufragado que se alivie em plenário de duas ou três banalidades genéricas, que se mostre enxofrado ou resoluto nas comissões, que proponha umas moções inócuas a favor da região donde proveio, dessas que só vão atulhar ainda mais a legislação em vigor, para que singre comodamente os 4 anos da legislatura e dela aufira todas as regalias, certificadas ou consuetudinárias. Um posto com tantas venturas é evidente que instiga os profissionais da arte a ele concorrem em chusma e a disputarem-no sem quartel. É assim que este período estival de formação das listas a concurso extravasam numa proliferação de zaragatas intestinas de caixão à cova e rixas pessoais de faca na liga, de tal modo acirradas – afinal luta-se pela vidinha – que os beligerantes abdicam de qualquer simulacro de decoro e tino. Nas concelhias partidárias os candidatáveis esgadanham-se entre si por um lugar elegível na lista distrital que depois de árdua e ferozmente cozinhada em guerra aberta entre as ditas concelhias é remexida pelo impante critério da direcção nacional do partido, resolvido a pôr-lhes à cabeça um figurão qualquer que há-de dar com a comarca por GPS. O regime de “democracia representativa” – o nosso e o melhor ou menos mau dos que se foram experimentando – pressupõe um contrato social em que o cidadão, reconhecendo-se sem tempo nem competência para o exercício de alguns dos seus direitos e deveres, delega esses poderes num representante no qual é suposto confiar a defesa dos seus interesses e dos interesses da sua comunidade, assim como a persecução das ideias que defende para o bem geral. Chegado o dia das eleições como pode o cidadão sentir que não está diante de uma impostura? Se nas listas dos partidos constam os nomes de uns fulanos provenientes de um processo de selecção truculento durante o qual o critério da boa representatividade foi de todo posto de lado, como pode o cidadão sentir-se por eles representado? Muitas vozes vêm alertando para os perigos do populismo, ectoplasma ideológico ainda inorgânico mas que vai grassando a olhos vistos. Sobre o que é exactamente o “populismo” é matéria em discussão, sendo que em termos muito latos considera-se “populista” aquele que em nome da “moral” – talvez o mais evasivo, insidioso e capcioso, por isso mesmo perigoso, dos conceitos que esvoaçam por aí – reclama para si uma ligação directa com a vontade autêntica do “povo” – palavra que no fundo não

THE POLITICIANS, FRANCIS NEWTON SOUZA

O

Verão que antecede o Outono das eleições é um dos períodos mais execráveis e penosos da democracia

A acusação de populista é uma tentativa de relegar para a periferia, ou seja para fora do aparelho institucional, se não mesmo para a ilegalidade, todos aqueles que não dançam a música que a orquestra “deve” tocar quer dizer nada – arvorando-se como seu mandatário. Sucede que tal discussão está inquinada pela má-fé e o conceito de populismo redundou numa exclamação insultuosa brandida contra inimigos políticos. As esquerdas apontam para o carácter populista da direita, ou de todas as ideias que não sejam de esquerda, e as direitas, fazendo por disfarçar os seus tiques providencialistas, retrucam que populistas são as esquerdas ditas “populares”. Perante esta troca de recriminações, o observador consciencioso não deixará de reparar que a acusação de populista é uma tentativa de relegar para a periferia, ou seja para fora do aparelho institucio-

nal, se não mesmo para a ilegalidade, todos aqueles que não dançam a música que a orquestra “deve” tocar. Por outro lado, o que é mais grave e cínico, além de assaz ordinário, o alarme em torno do populismo tornou-se um meio de os incumbentes do regime sacudirem a água do capote. Independentemente da essência e das origens do populismo, diligência muito platónica que conduz a ilações tão evanescentes quanto absolutórias, as causas do fenómeno estão bem arreigadas nos comportamentos e processos da corporação política e no sentimento de repulsa por eles provocado. Por exemplo, a maneira como são constituídas as listas eleitorais.


h

tonalidades António de Castro Caeiro

À conversa com o Luís Soveral Varela.

N

A infância e adolescência, as férias na praia obedeciam a um único requisito: ir à praia. O quotidiano girava à volta das horas solares de quando se ia à praia, de manhã e à tarde, só de tarde, para os finórios e de manhã e à tarde para quem era adepto inveterado de praia, do sol, dos banhos de sol. Para quem era gordinho como eu e com alma de peixe, não é difícil de entender que entrávamos dentro de água de manhã, quando éramos levados por pais, pais amigos dos pais, arrastados com outros miúdos que ficariam referências para toda a vida, e só saímos quando nos chamávamos. Acho que desenvolvi barbatanas entre o polegar e o indicador naqueles anos. O meio ambiente era sempre o que esperávamos que fosse, céu azul, temperatura quente, água gelada, mas “mergulhável” e “nadável”. Quando não era dentro de água, o meu meio favorito, onde nadava, remava, mergulhava, era fora dela, claro. Não que fosse dotado para o que quer que fosse de jogos e a moral já despontava em mim. Não achava curial estar à raquetada a bolas que faziam barulho e magoariam as pessoas em quem acertassem, mas também lia, sobretudo, na adolescência. Quando ia para a praia, levava uma parafernália que ia desde o que qualquer pessoa podia considerar dispensável, tal como eu o achei anos mais tarde, mas que para mim era absolutamente necessário e indispensável: chapéu de sol, geleira, o que é básico, mas também cadeira para poder ler e muitos livros. Nem me levantava da cadeira para me deitar. Aliás, tudo me dói quando me deito na areia da praia. De qualquer modo estava sempre acompanhado da “malta”. Uns tinham barcos e iam curar a ressaca para a praia. Nunca ninguém me poderá explicar como é que alguém cura uma ressaca na praia a não ser se também bebesse na manhã seguinte como bebeu de véspera, porque ninguém consegue dormir nem ir para o banho se não tiver dormido bem e se tiver bebido como se não houvesse amanhã. Esses dias eram os dias que não eram perspectivados como dias seguintes, pois de véspera a noite ia prolongar-se para todo o sempre. Não haver amanhã quer dizer não haver ressaca. Não haver ressaca quer dizer não haver realidade. E a realidade não é compatível com a possibilidade de uma véspera sem amanhã. Mas regresso ao ponto. Na infância e adolescência, as férias de verão andavam à volta da praia. O quotidiano girava à volta do tempo diurno quando há sol. Mesmo que fôssemos para a praia acender fogueiras, tocar guitarra e dançar ao luar tudo andava à volta da praia e quando

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Dias de chuva no Verão SUMMER RAIN PAINTING, NORA FRANKO

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não tínhamos pela idade autonomia, era de dia que tudo se passava, quando chegávamos porque a praia fazia bem era de manhã e tínhamos de regressar ao almoço porque pai e mãe assim o determinavam. Se queríamos regressar logo para a praia, engolíamos o almoço, mas era em vão porque a seguir havia sestas à tarde e a seguir uma página de português e de matemática, porque a escola não podia ser esquecida. Era em vão. Lá íamos ao fim da tarde ou quando a praia não faz mal, quando quem lá tinha estado também tinha morrido de tédio, já tinha comido gelados, sanduíches ou bolas de berlim com creme, mas também tinha mergulhado e nadado e secado e cumprido todo o ritual de então. Agora, há barcos para alugar, pranchas que são de surf, mas onde se pode estar de pé,

os cafés de praia oferecem todo o tipo de serviço, famílias inteiras vão para a praia com parafernálias mais completas do que a minha outrora para ler, parece que levam ginásios e cozinhas para a praia. Não vão para a praia para serem trabalhados pelos elementos são tão narcisos que nem percebem o barulho que fazem o cheiro que exala dos seus tachos ou como se apresentam nos seus fatos de banho. Tudo isto pressupõe que há sol, faz calor, que tudo se repete dias sem conta. A indumentária é simples: calções de banho, uma toalha levada ao ombro, uma T-shirt e sandálias nos pés. Depois, era encontrar todos os outros da mesma maneira. Não havia camisas brancas do colégio, nem calções ou para os mais velhos calças, não havia sapatos, muito

E depois vinha a chuva. Interrompia-se o ritual incessante que adora o deus sol. Já não se vai à praia do rio, porque chove e talvez faça frio ou então porque não se vai à praia de Verão, quando não faz sol e não faz calor.

menos cintos e ainda menos camisolas ou casacos. Isso era roupa de inverno. Pior, era roupa do tempo das aulas. Não era a indumentária das férias grandes do mundo, a durar três meses, às vezes quatro meses. A durar desde a inauguração que consagrou as nossas vidas dedicadas ao rio e ao mar, ao oceano Atlântico, e que só quem lá esteve sabe do que se trata, até agora quando a nossa inauguração foi absolutamente consagrada e somos os seres religiosos que unem o nosso eu de então ao eu de agora, o nosso eu isolado ao dos outros de então e de agora, os mortos e os vivos. E depois vinha a chuva. Interrompia-se o ritual incessante que adora o deus sol. Já não se vai à praia do rio, porque chove e talvez faça frio ou então porque não se vai à praia de Verão, quando não faz sol e não faz calor. Quem “faz” o que quer que seja de sol e de calor é também quem faz a chuva cair em Agosto. Ninguém cura ressacas em conjunto na praia. Os pais aproveitam e vai-se à povoação maior para fazer compras, visitar sítios dignos de visita. A praia aparece vazia como nos dias de Inverno, como nos dias frios, não está lá ninguém. Chove copiosamente. As nove da manhã não são as nove da manhã de Verão, são as nove da manhã de Inverno, quando esperávamos a carrinha para ir para o colégio ou já apanhávamos meios de transporte para ir para o liceu. Os amigos já estavam vestidos como para uma cerimónia, mas era só a impressão disso. Porque estar vestido com roupa é sinal da civilização e do sério, quando na praia no Verão regressamos a um estado primordial, expostos aos elementos. Íamos para os cafés, já de calças se tivesse de ser ou calções. Não escaparíamos à camisa ou à T-shirt com pullover. Aquele dia interrompia o ciclo do verão. Havia uma resistência ao ritual de adoração do Deus Sol. A vida séria era antecipada: o primeiro dia de escola ou o primeiro dia de trabalho. O outono e o inverno acotovelavam-se para vir ter connosco. Mas era chuva de pouca dura. E tudo era como se não houvesse amanhã. Talvez ainda hoje prefira o verão sem que outra estação se imiscua. Celebro o sol e comemoro os amigos que estiveram naqueles dias da infância e adolescência, quando vinha a chuva como um dia de inverno e transformava em metamorfose o verão noutra coisa.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

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THE VACCINE, LOUIS LEOPOLD BOILLY

OFício dos ossos

Valério Romão

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M estudo em 2017 com dados de 2011 a 2013 revelou que a incidência de autismo na comunidade somali era de 1 em 32 crianças, enquanto que na comunidade caucasiana era de 1 em 36. Estatisticamente, a diferença é residual. Ainda assim, a comunidade somali, provavelmente sofrendo do defeito de óptica que consiste em ver o infortúnio próprio de forma hipertrofiada, não é convencida pelos números apresentados. Michel Osterholm, ex-epidemiologista do estado de Minnesota, assegura que o medo incutido pelos anti-vaxxers é o grande responsável pela resistência da comunidade à vacinação. O argumento? “Lembrem-se, o sarampo é uma doença que dura entre cinco a dez dias. O Autismo é para sempre.” Embora a taxa de mortalidade do sarampo seja efectivamente muito diminuta, diria que o “para sempre” da morte de uma criança intencionalmente não vacinada é bastante mais cruel do que o “para sempre” do autismo. O grande problema que ocorre quando a comunidade médica diz em uníssono – e com amplos estudos a sustentarem a afirmação – que “as vacinas não causam

Ainda a vacinação autismo” é a sua incapacidade, por outra parte, de determinar com suficiente grau de certeza o que de facto causa o autismo. E é nesse limbo, propício ao crescimento do bolor da desconfiança, que laboram todas as teorias da conspiração. Em 2008 Charlie Sheen foi para tribunal para impedir que a ex-mulher, Denise Richards, vacinasse os dois filhos de ambos. O actor acredita que as vacinas são “um veneno”. Em 2015, Jim Carrey tuitou contra o timerosal e o alumínio presente em algumas vacinas, acusando o Estado da Califórnia de fascismo corporativo e de envenenar crianças. Billy Corgan, dos Smashing Pumpkings, diz não acreditar naqueles que fazem

as vacinas ou no medo que inculcam nas pessoas para os “obrigarem a tomá-las”. Jenny McCharty é provavelmente a grande porta-voz mediática do movimento anti-vacinação americano. Em 2005 anunciou que o seu filho Evan tinha sido diagnosticado com autismo. A condição manifestou inicialmente com ataques epilépticos. Quando estes foram debelados com tratamento apropriado, o estado geral de Evan melhorou substancialmente. Jenny continua a afirmar, com maior ou menor frequência de patacoadas pseudo-científicas, que foram as vacinas que causaram o autismo de Evan e aconselha os pais “a pesarem os prós e contras da vacinação de modo informado” (leia-se nas não tão subtis entreli-

É interessante verificar que o movimento anti-vacinação aparece irmanado a outros movimentos de teor conspirativo. Muitos dos que defendem a terra plana também têm uma posição crítica acerca das vacinas e dos seus supostos malefícios

parte segunda e última

nhas: vacine por sua conta e risco, porque as consequências da não-vacinação são despiciendas – a imunidade de grupo protege até os não vacinados (a chamada protecção indirecta) – e as da vacinação podem ser uma indesejada sorte grande na tômbola do autismo). Resta dizer que Jenny McCarthy foi namorada de Jim Carrey durante cinco anos. É interessante verificar que o movimento anti-vacinação aparece irmanado a outros movimentos de teor conspirativo. Muitos dos que defendem a terra plana também têm uma posição crítica acerca das vacinas e dos seus supostos malefícios. A verdade é que as muitas teorias da conspiração compõem uma espécie de rizoma entrelaçado com múltiplos pontos de contacto e de tangente. E a natureza primordial desse núcleo rizomático é a suspeita de estarmos a ser controlados/enganados/amestrados por forças dissimuladas cujo propósito é destruir-nos/escravizar-nos/roubar-nos (riscar em cada caso o que não interessa). E esta criatura de múltiplas cabeças alimenta-se da ignorância que transforma muito rapidamente em desconfiança. Alimenta-se das sombras.


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AGUACEIROS

O QUE FAZER ESTA SEMANA Diariamente

EXPOSIÇÃO | ”CORES DA ÁSIA” Casas Museu da Taipa | Até 22/09

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26.7.2019 sexta-feira

EXPOSIÇÃO | “ENCONTRO INESPERADOS” City of Dreams | Até 31/08 EXPOSIÇÃO | EXPOSIÇÃO “BELEZA NA NOVA ERA: OBRAS-PRIMAS DA COLECÇÃO DO MUSEU NACIONAL DE ARTE DA CHINA” MAM

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Cineteatro

C I N E M A

PONHA AQUI O SEU PEZINHO 49

Em Ningbo, na província chinesa de Zhejiang, a barragem de Longquan serve de ponto de encontro para quem procura arrefecer com os pés de molho.

3 1 0 8 0 2 6 9 6 4 75 5 9 7 9 8 0 1 2 3 2 64 4 2 4 6 7 9 8 7 8 0 31 3 6 5 1 2 3 7 9 0 48 4 0 3 0 5 1 2 78 7 96 8 7 4 8 4 3 6 5 91 09 20 6 9 7 6 7 54 05 0 32 13 1 9 1 9 65 6 4 73 7 28 02 2 0 2 73 87 48 54 5 96 9 8 0 2 1 9 6 4 5 7

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THE LION KING [A] FALADO EM CANTONENSE Um filme de: Jon Favreau 14.30, 16.45, 19.15

THE LION KING [A] FALADO EM CANTONENSE Um filme de: Jon Favreau 21.30 SALA 2

TOY STORY 4 [A] FALADO EM CANTONENSE Um filme de: Josh Cooley 14.15, 16.05, 19.45

THE WHITE STORM 2 DRUG LORDS [C] FALADO EM CANTONENSE LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Herman Yau Com: Andy Lau, Louis Koo,

FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Ryo Tanaka Com: Masami Nagasawa, Masahiro Higashide, Fumiyo Kohinata 16.30, 21.30

CHILDREN OF THE SEA [B] FALADO EM JAPONÊS Um filme de: Ayumu Watanabe 19.30

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hojemacau. com.mo

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UM FILME HOJE

de Los Angeles, criados por uma corporação de clonagem humana 53 53 para serem usados como escravos 6 4colónias 5 3 4 fora 3 9 7da Terra. 9 81 Um 8 20 THE LION KING 6 5 em desses não-humanos é interpre Michael Miu 2 1 8 0 1 0 6 3 4 3 7 59 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 tado pelo actor Rutger Hauer, SALA 3 0 9 4 3 4 desaparecido, 5 2 6 81 78 0 recentemente CRAYON SCHINCHAN 2019 [B] FALADO EM CANTONENSE que deixou a inesquecível 1 7 1 2 9 2 0 45 64cena, 36 83 Um filme de: Herman Yau conhecida por “tears in rain”, na Com: Masakazu Hashimoto 5 hora 2 final. 6 8 Raquel 9 7 Moz 0 4 1 14.30 5 sua THE CONFIDENCE MAN JP - THE MOVIE- [B]

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7 3 7 4 3 4 6 1 8 0 5 2 0 92 2 2 0 5 0 4 8 9 4 9 7 3 7 16 9 8 7 6 7 2 14 1 35 03 9 8Blade Runner é um filme de 1 5 2científica, 7 06 4e0apo4 9 3 5 3 neo-noir ficção calípitico, realizado por Ridley 0 0 9 1 4 5 2 8 3 67 Scott em 1982, que se tornou de 3 9 6para9 muitas 0 8 gerações. 7 24 12A 1 6culto 5 0 9acontece 2 9 3no6futuro, 1 6 no 8 74 5 história século 21, exactamente no ano 8 1quando 3 um 2 ex-polícia, 6 5 7o jo9 40 8 2019, 4 8Harrison 7 18 1Ford, 9 é2contratado 0 62 6 35 4 vem para perseguir e eliminar quatro 6 4 7em5fuga0 pela 3 cidade 9 1 28 6 andróides

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PROBLEMA 50

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Há um novo capítulo na turbulenta situação política em Hong Kong e desta vez a China quis deixar bem claro que há todo um exército de libertação que pode intervir e ir para as ruas, tendo até feito questão de lembrar à perdida Carrie Lam que ela, na qualidade de Chefe do Executivo, pode chamar os militares se assim o entender. Que belo post-it político de não esquecimento. Mas, mais do que a importante questão da entrada do exército em Hong Kong, é também importante lembrar que houve um erro que os manifestantes cometeram, que foi o de denegrir o símbolo da bandeira chinesa e vandalizar o edifício do Gabinete de Ligação. A coisa já tinha corrido 55 mal há uns anos quando, em plena tomada9de posse 2 8no6LegCo, 0 os 1 depu7 3 tados do campo pró-independência 0 1insultar 4 3a China 7 e8os seus 6 9 resolveram símbolos. 3 7Nessa 9 altura, 2 5 perderam 4 0 1 uma oportunidade de se fazerem 5 6 1 0 3 2 9 7 ouvir em pleno parlamento. É bo4 e5dois6milhões 8 9de 0pessoas 3 2 nito lutar, demonstraram isso nas primeiras 8 4 2 7 1 6 5 0 acções de rua, mas não percam 9 5 4 8 1 6 agora 7 a credibilidade com3acções deste tipo. se desta 1 0Mas3vamos 5 4ver 9 2 8 vez os protestos não chegam a um 2 8 0 9 6 7 4 5 ponto sem retorno, com a entrada 6 do3 exército 7 1 e 2de alegadas 5 8 4 em cena tríades. Andreia Sofia Silva

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SOLUÇÃO DO PROBLEMA 49

7 6 5 4 9 2 8 0 1 3

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S U D O K U

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O ERRO REPETE-SE

EXPOSIÇÃO | “DE HOLLYWOOD AO MÓNACO”” Galaxy Macau | Até 28/08

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YUAN

VIDA DE CÃO

EXPOSIÇÃO | “CABEÇAS FELIZES” Praça Jorge Álvares | Até 15/08

ESPECTÁCULO | FUERZA BRUTA WAYRA MGM Theatre | Até 4 de Agosto

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BLADE RUNNER | RIDLEY SCOTT (1982)

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de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


opinião 19

sexta-feira 26.7.2019

confeitaria

JOÃO ROMÃO

S

Sorrisos fáceis

E há coisa que me surpreende muito agradavelmente sempre que passo uns dias em territórios do sudoeste asiático é a espontaneidade generalizada dos sorrisos que encontro nas pessoas com quem interajo. Uma simpatia profunda e inevitável, leve e fácil, que torna mais suaves e adocicadas as relações, mesmo que sejam as comerciais, as que resultam da prestação dos serviços necessários a viajantes mais ou menos desenquadrados daquelas realidades quotidianas, mas que também se nota para lá desse território do estrito domínio dos afetos necessários à dinâmica do capitalismo moderno, tão feito do consumo de experiências, interações, símbolos e emoções a impregnar produtos - um tráfico sistemático e permanente de sentimentos embebidos em mercadorias várias. Vai para lá dessa traficância de afetos a genuína simpatia e o decorrente caloroso acolhimento que generalizadamente se sente por onde quer que se percorram as ruas, as praças, os mercados, as lojas, as praias ou os templos e monumentos de países como a Tailândia, o Vietname, a Índia ou a Indonésia - os que por sortes várias tive oportunidade de visitar. Encontra-se por esses caminhos uma permanente sensação de descontração e relaxamento, de descanso efetivo e aparentemente definitivo, desprovido de qualquer tensão imanente, ainda que sejam desconhecidos os lugares e incompreensíveis as línguas que se falam ao nosso redor. Há por ali um sentimento de comunidade e fraternidade que as sociedades altamente individualistas e competitivas em que nos habituámos a viver dispensam com a brutalidade inevitável e necessária que lhes caracteriza o quotidiano. Talvez não seja alheia a estas anacrónicas e exóticas vivências comunitárias a persistência aparentemente generalizada de formas de organização social pré-capitalistas (ou “a-capitalistas”, eventualmente), alheias à motivação do lucro e dos benefícios individuais e profundamente enraizadas na defesa e promoção dos valores da coletividade e da comunidade, da prioridade à solidariedade sobre a competição, mesmo quando afinal estas práticas estão relativamente próximas – ou até intimamente ligadas – aos grandes fluxos globais de mercadorias e pessoas, com o decorrente tráfego comercial e turístico. São exemplos disso práticas ainda hoje comuns como o trabalho voluntário na manutenção e preservação de templos religiosos (também utilizados como atração turística) ou a existência de redes locais de solidariedade social (e até de administração da justiça) financiadas com contribuições de todas as pessoas, numa proporção fixa do seu rendimento, à margem

(ou em complemento) dos mecanismos legais das instituições do Estado. Sobrepõe-se esta doce e acolhedora hospitalidade às carências das mais básicas infraestruturas, como as insuficiências no tratamento e na distribuição de água que tornam o cheiro a esgoto frequente, por vezes até no centro das cidades, e relativamente arriscada a ingestão de alimentos não cozinhados, o que naturalmente inclui o gelo necessário e indispensável à preparação de cocktails vários que combatem a sede e aninam o espírito. É só um exemplo do que falta nestas sociedades e do que nos habituámos a tomar como adquirido, mesmo

Se há coisa que me surpreende muito agradavelmente sempre que passo uns dias em territórios do sudoeste asiático é a espontaneidade generalizada dos sorrisos que encontro nas pessoas com quem interajo. Uma simpatia profunda e inevitável, leve e fácil, que torna mais suaves e adocicadas as relações

em Portugal, que continua longe dos níveis de desenvolvimento de outros países: os serviços médicos, os transportes, a qualidade da habitação e da construção em geral, a pobreza ainda generalizada que coexiste com os sorrisos espontâneos que vamos encontrando. Não sei se também é assim nos imensos bairros de lata que circundam as grandes metrópoles de Bangkok, Ho Chi Minh, Jakarta ou Bombaim, em todo o caso. Certo é que a pobreza e as desigualdades profundas que prevalecem nesta zona do planeta não se traduzem num estado de insegurança permanente ou de violência regular para o turista europeu ou americano. Mesmo que não seja rico ou esteja até longe disso, esse viajante transporta inevitavelmente na carteira, só para os ocasionais gastos de férias, montantes despropositados em relação às necessidades quotidianas das pessoas que lá vivem. São esses turistas que vão usar os melhores recursos, as melhores praias, os melhores restaurantes, os melhores hotéis, as melhores lojas, que esses países têm para oferecer – e que são inacessíveis à esmagadora maioria da população local.Ainda assim, nenhuma dessas profundas injustiças inibe a simpatia, a empatia e o acolhimento numa comunidade aparentemente tranquila e protegida da competição quotidiana, intensa e permanente que nos alimenta as ambições e, dizem, o progresso. Com menos sorrisos, certamente, mas mais ricos.


“A liberdade é algo que morre a menos que seja usada.” Hunter S. Thompson

ANGOLA/CHINA ESTABELECIDOS LAÇOS BILATERAIS

EUA EXECUÇÕES A NÍVEL FEDERAL REGRESSAM APÓS QUASE DUAS DÉCADAS

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Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou ontem o restabelecimento das execuções de pessoas condenadas à pena de morte por tribunais federais, após uma suspensão de quase duas décadas. A última vez que uma execução foi realizada a nível federal foi a 18 de Março de 2003, segundo os dados do organismo Death Penalty Information Center, citados pelos ‘media’ norte-americanos. Num comunicado, o Departamento de Justiça (equivalente ao Ministério da Justiça), liderado actualmente pelo procurador-geral William Barr, informou que adoptou um novo protocolo ao nível da injecção letal e que deu instruções à agência federal de prisões para retomar as execuções. William Barr ordenou ainda ao director interino da agência federal de prisões, Hugh Hurwitz, o agendamento das primeiras cinco execuções de condenados que se encontram no corredor da morte numa prisão federal no Estado do Indiana. A agência de notícias norte-americana Associated Press (AP) referiu que os condenados serão executados a partir de Dezembro. Entre 2011 e 2014, o então Presidente norte-americano Barack Obama pediu ao Departamento de Justiça para conduzir revisões aos programas de execução de pena de morte, tanto ao nível federal como em vários estados dos Estados Unidos. Questões relacionadas com as drogas letais utilizadas nas execuções estiveram na origem destes pedidos de revisão. O Departamento de Justiça disse que a agência federal de prisões concluiu a revisão e que as execuções podem ser retomadas. A pena de morte é legal nos Estados Unidos, mas vários Estados declararam tal prática como ilegal ou adoptaram moratórias.

sexta-feira 26.7.2019

PALAVRA DO DIA

Na época da abundância Seca ameaça a vida de mais de 15 milhões de pessoas no Corno de África

A

S vidas de mais de 15 milhões de pessoas estão em perigo devido à seca em várias regiões do Quénia, Etiópia e Somália (Corno de África), alertou ontem a organização humanitária Oxfam. “A contínua escassez de chuvas estragou as plantações e, com elas, os meios de subsistência de muitas pessoas, o que deixou 7,6 milhões de pessoas em risco de fome extrema em três países [Quénia, Etiópia, e Somália]. Devido a secas e conflitos, milhões de pessoas na região foram forçadas a fugir das suas casas”, refere a Oxfam num comunicado ontem divulgado. No mesmo documento, a Oxfam apela aos Governos que apoiem a resposta humanitária, que actualmente tem apenas um terço dos recursos de que necessita, impossibilitando a assistência a todas as pessoas afectadas. “As lições aprendidas com a fome que devastou a região em 2011, que vitimou mais de 260.000 pessoas, ajudaram a evitar outra [crise] em 2017, quando o financiamento em larga escala foi rapidamente fornecido para garantir

uma resposta humanitária eficaz”, acrescenta a organização. A Oxfam salienta que os milhões de pessoas que ainda estão a recuperar dos efeitos da seca de 2017 encontram-se agora numa situação de grande vulnerabilidade aos efeitos da actual seca. Refere, no entanto, que há dois anos, na mesma época, a resposta humanitária já tinha três quartos do financiamento necessário.

INÉRCIA A INSTALAR-SE

A directora regional da Oxfam para o Corno de África, Lydia Zigomo, disse que, com os erros cometidos durante a fome de 2011 as organizações aprenderam a responder rapidamente e de forma decidida para salvar vidas. “Mas o compromisso internacional para garantir que isso não aconteceria novamente está a transformar-se em complacência. Mais uma vez, são as pessoas mais pobres e vulneráveis que são as mais afectadas”, disse. “Não podemos esperar que imagens de pessoas desnutridas e animais mortos encham os nossos ecrãs se televisão. Devemos agir imediatamente para evitar um desastre”, acrescenta Zigomo.

A organização humanitária refere que a grave escassez de ajuda internacional contrasta com a resposta mais proactiva dos Governos dos três países afectados. “O Governo do Quénia lidera a resposta da seca com um financiamento internacional mínima, a Etiópia está a apoiar quase metade dos custos operacionais das operações humanitárias no país e a Somália melhorou de forma significativa a segurança e o acesso das organizações humanitárias. No entanto, cada país deve incrementar os seus esforços, sem mais apoio internacional não poderão evitar outra grande crise”. “A crise climática fora de controle transformou a seca num padrão comum na região [do Quénia, Etiópia e Somália] que reflecte a desigualdade global, já que são as comunidades mais vulneráveis, que menos contribuíram para as mudanças climáticas, que sofrem os efeitos mais devastadores, lamenta a organização. “O apoio à resposta humanitária que está a ser realizada deve ser acompanhado por um compromisso genuíno de abordar as causas subjacentes a esta crise”, refere a Oxfam.

Brasil Lula da Silva absolvido de dois crimes num processo sobre obras em Angola Um juiz brasileiro absolveu o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva de duas acusações num processo em que é réu por alegadamente receber vantagens ilícitas para ajudar a construtora Odebrecht a financiar obras em Angola. A decisão foi anunciada na quarta-feira pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara

Federal de Brasília, que absolveu Lula da Silva de uma das acusações sobre branqueamento de capitais e da acusação de organização criminosa, mas determinou a continuidade do processo. Neste caso, o Ministério Público Federal (MPF) acusou o ex-presidente de usar sua influência para liberar financiamentos do Banco Nacional

de Desenvolvimento Económico e Social (BNDES) para projectos da construtora Odebrecht em Angola. Os investigadores alegaram que Lula da Silva e os outros envolvidos no caso teriam dissimulado o recebimento ilícito de 7,1 milhões de euros da Odebrecht para, em troca, ajudar a empreiteira a realizar obras no país africano.

ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola, Manuel Domingos Augusto, e o conselheiro de Estado chinês e homólogo, Wang Yi, comprometeram-se, em Pequim, a desenvolver os laços bilaterais, informou na quarta-feira a imprensa estatal chinesa. Citado pela agência noticiosa oficial Xinhua, o ministro angolano, que visitou a China como enviado especial do Presidente João Lourenço, enalteceu o apoio a “longo prazo” prestado por Pequim ao desenvolvimento de Angola e expressou vontade de manter a cooperação. Lourenço visitou Pequim em Outubro passado e reuniu-se com o homólogo chinês, Xi Jinping, e o primeiro-ministro, Li Keqiang. Na altura, o chefe de Estado angolano disse ao homólogo chinês que Angola vive uma “nova era”, com “maior abertura ao mundo, maiores direitos e liberdades para os seus cidadãos” e “maior transparência e concorrência nos negócios”, com “menos burocracia e mais combate à corrupção”. E enfatizou ainda a importância do investimento privado chinês em Angola, numa relação que tem sido dominada pela aliança entre os dois Estados. Wang Yi afirmou ontem que a China está pronta a implementar o consenso alcançado pelos líderes dos dois países e fortalecer a comunicação estratégica com Angola. O conselheiro de Estado chinês apelou a que Pequim e Luanda impulsionem a cooperação no âmbito da iniciativa chinesa “Uma Faixa, Uma Rota” e do Fórum de Cooperação China-África. Citado pela Xinhua, Wang afirmou que Pequim vai encorajar as suas instituições a assistirem Luanda e as suas empresas a facilitarem a diversificação da economia angolana. A China é actualmente o maior cliente do petróleo angolano e, depois do fim da guerra civil em Angola, em 2012, tornou-se um dos principais actores da reconstrução do país, nomeadamente estradas, caminhos de ferro e outras infraestruturas.

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Hoje Macau 26 JUL 2019 # 4339  

N.º 4339 de 26 de JUL de 2019

Hoje Macau 26 JUL 2019 # 4339  

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