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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10

ESPIRAL DO TEMPO

QUINTA-FEIRA 24 DE MAIO DE 2018 • ANO XVII • Nº 4057

EVENTOS

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

CHAN MENG KAM

Torre no centro PÁGINA 7

COMISSARIADO DE AUDITORIA

Bibliotecas à deriva GRANDE PLANO

Um tremendo fotógrafo h ANTÓNIO CABRITA

hojemacau

Pérola sem horizonte O TUI confirmou o retorno do terreno do Pearl Horizon para o domínio público depois de recusar o recurso da concessionária Polytex.A decisão obriga os compradores a adquirirem as fracções novamente. As casas serão construídas de raiz pelo Executivo. Os investidores consideram-se “assaltados” pelo Governo, enquanto que Leonel Alves, advogado da Polytex, critica o atraso na aprovação do projecto. PÁGINAS 4-5

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JÚLIO POMAR (1926-2018)


2 grande plano

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LIVROS DO DESASSOSSEGO INSTITUTO CULTURAL AUDITORIA ARRASA GESTÃO DE REDE DE BIBLIOTECAS PÚBLICAS

Milhares de documentos por catalogar, incluindo livros adquiridos antes de 1999, falhas ao nível da conservação do acervo bibliográfico ou ausência de critérios de selecção dos livros. Estas são as principais

falhas

reveladas por uma auditoria à rede de bibliotecas públicas, gerida pelo Instituto Cultural

O

Comissariado de Auditoria (CA) publicou ontem um relatório que arrasa a gestão da rede de bibliotecas públicas, a cargo do Instituto Cultural (IC), descrevendo um cenário generalizado e persistente de desordem e descuido. As falhas sinalizadas vão desde a catalogação, à conservação do acervo bibliográfico até à falta de critérios na compra de livros. Determinar a eficácia do modelo de gestão dos procedimentos de tratamento documental – que decorrem desde a recepção dos livros adquiridos até à sua disponibilização para requisição – figurou como uma das três frentes da auditoria, realizada entre Março e Dezembro do ano passado. Ora, segundo a auditoria, há precisamente um ano existiam mais de 100 mil documentos “registados mas não catalogados ou em vias de arrumação”, o que significa que “um em cada oito livros do acervo” das 17 bibliotecas públicas, um conjunto que seria, aliás, “suficiente” para criar uma nova biblioteca “de escala considerável”. Além do elevado número, o CA aponta o dedo ao facto de o problema se ter arrastado no tempo, dado que a maioria dos documentos se encontrava à espera de ser catalogada há mais de cinco anos, havendo “alguns” nesse estado há mais de 17. “O número de documentos por processar e o tempo em que permaneceram nesta situação são assombrosos, de tal maneira, que o IC nem sequer tinha capacidade de acompanhar adequadamente o andamento dos procedimentos do tratamento documental”, critica o CA. Neste sentido, aponta, “houve desordem e falta de gestão no processamento dos livros adquiridos pelo IC”, sustentando que “o principal catalisador foi o pessoal

dirigente e a sua passividade – tanto no não aproveitamento do sistema informático, como na sua tolerância perante o facto de haver livros que há 17 anos se encontram por processar”. Uma situação que, “tanto na era analógica como na digital, é “absolutamente inaceitável”. Aquando da auditoria, o IC explicou que, entre o final de 2015 e o início de 2016, foram efetuados trabalhos de alteração ao sistema informático, o que fez com que “os trabalhos de tratamento documental tivessem de ser adiados”. Um argumento que não colheu totalmente junto do CA, dado que ficou demonstrado que os documentos por catalogar “se foram acumulando ao longo de anos”. Contudo, nem esse novo sistema, que dispõe de uma funcio-

EXCERTOS DO RELATÓRIO

nalidade que auxilia na gestão da compra de livros, o IC tem sabido aproveitar, o que “representa um desperdício de erário público e revela incapacidade de acompanhamento dos procedimentos de tratamento de livros recém-adquiridos”. “Pior” – acrescenta – “o IC nunca aproveitou os dados registados no antigo e no novo sis-

“O principal catalisador foi o pessoal dirigente e a sua passividade (...) perante o facto de haver livros que há 17 anos se encontram por processar.”

tema informático para acompanhar e fiscalizar os procedimentos de tratamento documental”. Algo que “levou não só ao aumento drástico do número de livros adquiridos por processar, como também impediu a conclusão célere desses procedimentos”.

COMPRAS SEM SELECÇÃO

Em paralelo, durante a auditoria, o CA constatou que os oito funcionários responsáveis pela selecção de livros adoptaram “diferentes critérios” na selecção de livros. Além de o IC ter demorado oito anos e meio a concluir, aprovar e implementar, a política de desenvolvimento do acervo, “o que demonstra a “falta de eficiência”, o sucesso de tal política estava condenado. Isto porque não foi possível retirar os dados relativos a todo o acervo devido a proble-


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mas com o sistema informático (entretanto substituído), ou seja, não havia dados estatísticos sobre a proporção dos livros relativamente ao tipo e ao idioma. Tal significa que “mesmo que o IC pretendesse alcançar determinados objectivos relativamente ao acervo bibliográfico, perante a falta de conhecimento do seu estado, não tem sido possível aos trabalhadores procederem à selecção de livros em conformidade com as orientações estabelecidas”, sublinha o CA. Por outro lado, há dados do sistema informático incompletos, com campos relativos às informações dos livros em branco. Tal sucedeu com aproximadamente 81 mil livros em língua portuguesa adquiridos ainda no tempo da administração portuguesa, encontrados num dos depósitos. Neste sentido, o CA é peremptório ao afirmar que “o

IC nunca prestou atenção e nem sequer encarou com seriedade o objectivo de criar um acervo de qualidade”. “Se este organismo continuar todos os anos a gastar milhões do erário público na aquisição de novos livros, sem qualquer critério, o que acontecerá é o tempo de processamento dos livros recém-adquiridos e daqueles que estão há anos por processar irá ser cada vez mais prolongado, agravando o desperdício de recursos públicos”, adverte o CA. A maior fatia do acervo das bibliotecas públicas é composta por livros, tendo os gastos em aquisições totalizado perto de 15,7 milhões de patacas ou uma média de 3,14 milhões por ano. Contudo, insiste o CA, “houve falhas na execução e fiscalização dos procedimentos de aquisição de livros, impedindo que houvesse um critério orientador unificado de desenvolvimento dos recursos bibliotecários”.

DEJECTOS E PÓ

Outra frente da auditoria foi a conservação dos livros nos dois depósitos situados em edifícios industriais, onde se encontra armazenada uma parte substancial do acervo das bibliotecas públicas. Em ambos os casos, aponta o CA, o ambiente de inadequada conservação coloca em causa a vida útil dos livros. O pior cenário foi avistado no Depósito Central, localizado no Edifício Industrial Tong Lei, onde foi encontrada “uma grande quantidade de dejectos” de ratos em cima dos livros e nos corredores, além de uma barata morta. Apesar de o CA ter comunicado o ambiente “simplesmente repugnante” com que se deparou após a primeira de três inspecções ao local, “nada

foi feito durante vários meses”. Assim, deduz-se que “nunca houve trabalhos de limpeza”, isto com a agravante de o serviço ter sido pago integralmente à empresa adjudicatária, nota o CA. Em paralelo, no mesmo local, verificaram-se “recorrentes problemas infiltrações de água nas paredes”, com os quais o IC “não foi capaz de lidar convenientemente”, “elevando o risco de danos ao acervo”, indica o relatório de auditoria.

“O IC nunca prestou atenção e nem sequer encarou com seriedade o objectivo de criar um acervo de qualidade.” Já no Depósito do Oceano, situado no centro industrial com o mesmo nome, sobressaiu o “ar pesado e impuro”, “cheiro a mofo” e o pó. “A acumulação de pó era tal, que os livros pareciam estar cobertos com uma manta”, diz o CA, descrevendo uma situação “generalizada” que incluía também “um grande número de livros considerados como importantes pelo IC”. Além disso, foram encontrados “muitos livros – novos e antigos – incluindo oferecidos por utilizadores e personalizados encontravam-se guardados em caixas de cartão e de plástico de forma descuidada, umas em cima das outras”, muitas das quais “danificadas ou deformadas” devido ao excesso de peso. Isto em vez de estarem nas estante, ocupadas parcialmente por computadores e outros equipamentos semelhantes inutilizados que estavam “melhor

acondicionados e tratados do que o acervo”, diz o mesmo documento. “A vida útil do acervo guardado nos depósitos encontra-se prejudicada”, assinala o CA, apontando que o ambiente descoberto nos depósitos “demonstra que o IC não trata condignamente do seu acervo bibliográfico” nem com “o profissionalismo devido os diversos trabalhos relacionados com a sua conservação e gestão”. Um acto que – acrescenta – “não só é prejudicial para o mesmo, como também, tem efeitos negativos na saúde dos trabalhadores do IC e dos utilizadores das redes de bibliotecas públicas”. Durante a auditoria foram ainda detectados outros problemas de gestão. Um deles tem que ver com o facto de, desde a instalação do novo sistema informático, em Março de 2016, o IC nunca ter ordenado ao fornecedor a realização de ‘backups’ em diversos formatos previstos no contrato de aquisição. Diz ainda o CA que, entre 2010 e 2016, o IC levou a cabo “apenas três inventariações, cada uma delas dizendo respeito a apenas uma biblioteca/depósito”, sob o argumento de que o sistema informático anterior era demasiado antigo, desactualizado e apresentava riscos no funcionamento. “Apesar da implementação do novo sistema informático ter ocorrido há mais de meio ano, esse organismo ainda não tinha disponibilizado recursos para se proceder à inventariação do acervo”, um trabalho reiniciado somente após o início da auditoria. “Se o CA não tivesse realizado a presente auditoria, a direcção do IC continuaria sem ter consciência dos problemas que se foram acumulando ao longo dos anos”, observa o organismo, no documento com 86 páginas na versão portuguesa.

“Estamos perante problemas de gestão e inventariação que persistem há mais de dez anos, além disso, existem outras questões que estão por resolver volvidos quase vinte anos”, os quais “não se resolvem apenas com limpezas superficiais ou evitando enfrentar as questões mais importantes como se nada se passasse”, insiste o CA.

ALEXIS TAM EXIGE MELHORIAS

O gabinete do secretário para os Assuntos Sociais e Cultura reagiu, entretanto, exigindo ao IC que reveja e melhore a gestão das bibliotecas públicas. Neste sentido, Alexis Tam deu instruções ao IC para que “sejam adoptadas as medidas de melhoria necessárias e indispensáveis para assegurar a qualidade dos serviços prestados, reforçar a capacidade de gestão do próprio organismo, aumentar a eficácia da gestão, assim como o bom uso do erário público”. Além disso, foi pedido ao IC a apresentação, “com a maior brevidade”, de um “relatório circunstanciado” sobre as medidas de melhoria adoptadas na gestão da rede de bibliotecas públicas. Por seu turno, o IC pede “desculpas pela existência de falta na gestão e no processo dos trabalhos bibliotecários da Biblioteca Pública e pelas possíveis consequências negativas para a sociedade”, manifestando a sua concordância com o relatório. Também em comunicado, assinala ainda que, após receber o documento, “procedeu imediatamente [à adopção] de medidas de melhoria relevantes”. Uma delas prende-se com a catalogação, conforme consta da resposta dada pelo IC ao CA. Segundo o organismo, após ter sido efetuado um inventário completo do acervo, “foi concluído o processo de catalogação de quase 70 mil títulos” – dos 100 mil que estavam à espera –, os quais se encontram já disponíveis para empréstimo e leitura. Já os restantes 30 mil devem ser catalogados e colocados à disposição dos leitores até ao final do ano. “No futuro, o IC irá monitorar rigorosamente os trabalhos relacionados [e] implementar as medidas”, garante o organismo, prometendo “punir severamente”, com a imposição de sanções eventuais violações do cumprimento dos deveres. O IC assumiu, a 1 de Janeiro de 2016, a gestão exclusiva das bibliotecas públicas, uma função que dividia anteriormente com o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM). Actualmente, existem 17 bibliotecas públicas, incluindo uma itinerante. Diana do Mar

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O caso do terreno boomerang PEARL HORIZON INVESTIDORES TERÃO DE ADQUIRIR FRACÇÕES PELA SEGUNDA VEZ

WING-HING-ENGINEERING

É oficial: a Polytex perdeu mesmo a concessão do terreno onde estava a ser construído o empreendimento Pearl Horizon. O Governo apresentou ontem uma solução aos investidores nas fracções, que passa por uma nova compra do apartamento, uma vez que todos os contratos serão anulados. O edifício passa a ser público e serão devolvidos milhões em impostos, uma medida já considerada ilegal por alguns juristas

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tendo apenas direito à devolução de impostos por parte da Direcção dos Serviços de Finanças (DSF). Estão em causa 3480 casos de impostos já pagos no valor de 602 milhões de patacas. A secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, deixou ontem bem claro que cada comprador terá de procurar, junto

dos tribunais, uma forma de indemnização por todos os empréstimos pedidos aos bancos e que continuam por pagar, relativos a uma primeira casa que nunca vão ter. “Os pequenos proprietários não poderão ver cumpridos os contratos com a Polytex mas poderão resolver os litígios através do tribunal para poderem ter acesso

a indemnização. Os proprietários contraíram empréstimos, penso que têm de recolher o empréstimo porque não podem ficar endividados.” De frisar que, num acórdão proferido em Janeiro deste ano, o Tribunal Judicial de Base obrigou a Polytex a devolver o dinheiro já pago a um investidor. Há vários

PORTA-VOZ DOS INVESTIDORES “GOVERNO QUER ASSALTAR-NOS”

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OU Meng Pok mostrou-se surpreendido pelo facto do Executivo ter divulgado ontem a solução para os milhares de investidores do Pearl Horizon que representa: “se soubesse, não teria ido trabalhar para fora de Macau”, confessou. Ao HM, Kou Meng Pok criticou duramente o Executivo. “Estou muito desiludido e zangado. Esperámos três anos para que esta questão fosse resolvidas mas, no final, o

Governo deitou esta proposta para o lixo. Queríamos ter acesso às casas nos termos dos contratos e documentos do registo predial. [Esta proposta] não serve para nada, tanto quanto à devolução do imposto como em relação ao resto. Não é nada baseado nas nossas solicitações e é uma proposta que não faz sentido e que nos engana.” No caso de Kou Meng Pok, foram feitos investimentos para duas fracções,

mas este só terá direito a uma, de acordo com a propostas do Governo. “Já pedimos a compensação pelos prejuízos relativos a um processo que já dura há três anos, e agora o Governo ainda nos quer assaltar. Comprei duas casas e o Governo diz que só posso ter uma. O Governo está a tratar-nos como se fôssemos refugiados, não fizemos nada de mal. Vamos reunir para tomar uma decisão”, concluiu.

SOFIA MARGARIDA MOTA

Tribunal de Última Instância (TUI) rejeitou o recurso apresentado pela Polytex relativo à anulação da concessão do terreno por parte do Executivo, onde estava a ser construído o empreendimento habitacional Pearl Horizon. Depois desta decisão do colectivo de juízes, o Governo apresentou ontem a solução para apoiar as 1100 pessoas que investiram nos apartamentos que estavam em construção. Os contratos com a Polytex ficam automaticamente anulados, o que obriga estas pessoas a comprarem, pela segunda vez, as casas que serão construídas novamente de raiz pelo Executivo,

processos em tribunal neste sentido, mas não há garantias de que todos os que já pagaram à Polytex possam ter o seu dinheiro de volta. Localizado na Areia Preta, o terreno fica agora sob alçada do Executivo e integrado no plano de renovação urbana que a Administração quer levar a cabo, para recuperar edifícios antigos. No


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CONSULTA PÚBLICA EM BREVE

Para que esta solução seja implementada, o Governo terá de elaborar uma nova lei relativa ao alojamento temporário, estando prevista a elaboração de um projecto, por parte da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), para a concepção de um edifício totalmente novo, “a não ser que a empresa [Polytex] nos ofereça gratuitamente o projecto de arquitectura já desenvolvido”, adiantou Li Canfeng. Ainda assim, o director da DSSOPT salienta que “não há interesse na zona dos parques de estacionamento”. Apenas os investidores do caso Pearl Horizon poderão comprar estas casas, pois os residentes do outro grupo ficarão alojados apenas de forma provisória. “Vamos recuperar o lote P e uma parte será destinada para o alojamento provisório [das pessoas que vivem em zonas que serão alvo do plano de renovação urbana]. Os proprietários não vão poder ter de graça uma habitação no âmbito desse plano [de renovação]. O Governo tem agido de boa fé”, frisou Sónia Chan. O processo de consulta pública para este projecto urbanístico deverá arrancar no terceiro trimestre deste ano e o Governo não se compromete, para já, com uma data para que os investidores da Polytex tenham, efectivamente, uma nova casa para morar.

DEVOLUÇÃO ILEGAL DE IMPOSTOS

A secretária para a Administração e Justiça explicou ainda aos jornalistas porque é que se decidiu pela não realização de um novo concur-

SÓNIA CHAN SECRETÁRIA PARA A ADMINISTRAÇÃO E JUSTIÇA

so público depois do regresso do terreno à hasta pública. “Não consideramos que haja uma base legal para estabelecer estes requisitos [de abertura do concurso público]. Contactamos a Polytex mas esta não mostrou vontade de participar num novo concurso público.” Sónia Chan também não respondeu quanto à crítica do advogado da Polytex, Leonel Alves, que referiu que o Governo nunca terá respondido às inúmeras sugestões apresentadas pela concessionária. Recorde-se que em Abril do ano passado vários juristas, incluindo Leonel Alves, afirmaram à Rádio Macau que a devolução do imposto de selo, neste caso, seria ilegal. “O Governo diz que vai restituir o imposto. Isto é ilegal. O imposto de selo cobrado não pode ser restituído. Se o Governo diz que vai restituir é completamente ilegal”, alertou o advogado e ex-deputado. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

SÓNIA CHAN “COMPRADORES DEVERIAM TER AVALIADO RISCOS”

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secretária para a Administração e Justiça lembrou que foi feito um aviso, ainda sem a conclusão das obras quando a Polytex colocou as fracções à venda. “[A empresa] começou a vender as casas antes de estar em vigor o regime jurídico da promessa de transmissão de edifícios em construção. Já na altura a DSSOPT e a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Justiça alertaram as pessoas, mas como não tínhamos a lei em vigor, a Polytex não estava a violar nenhuma lei. Os compradores deveriam ter avaliado os riscos.”

Do amarelo ao branco Leonel Alves considera necessária lei para devolução do imposto

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PESAR dos avisos já proferidos pelos juristas, o Governo decidiu mesmo avançar para a medida da devolução do imposto de selo desembolsado pelos lesados do caso Pearl Horizon, apesar desta ser considerada ilegal. Leonel Alves, advogado da Polytex e ex-deputado da Assembleia Legislativa (AL), defende a criação de uma lei para este fim. “Parece-me que é necessária uma lei própria para a restituição do imposto de selo. Normalmente, quando os contratos são anulados ou revogados, o imposto não é restituído. Havendo uma lei na AL tudo é possível, o amarelo pode passar a branco.” Relativamente à proposta ontem apresentada pelo Executivo, que passa pela construção de um novo edifício de raiz, passando as casas a serem adquiridas por uma segunda vez pelos lesados, Leonel Alves diz nunca ter tido conhecimento da mesma. “Como advogado da Polytex, é a primeira vez que tomo conhecimento deste tipo de sugestão ou proposta. Também creio que nenhum representante a um nível mais elevado da estrutura da sociedade alguma vez ouviu tal proposta, porque é tudo muito inovador.” Ontem, na conferência de imprensa proferida depois do acórdão do Tribunal de Última Instância (TUI), que rejeita o recurso apresentado pela concessionária e que decreta a recuperação do terreno pelo Governo, a secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, afirmou que chegou a ser proposto à Polytex a sua participação num novo concurso público. Algo que a empresa terá recusado. Contudo, Leonel Alves nega que esta proposta alguma vez tenha existido. “Da minha parte, como advogado, não tenho conhecimento de ter havido alguma proposta escrita ou oral nesse sentido. Sendo um assunto tão sério duvido que, a haver tal proposta, ela tivesse de ser por escrito.”

DEMORA DE 60 MESES

Um dos argumentos utilizados pelos juízes do TUI foi o de que a Polytex nunca terá entregue ao Governo a licença de utilização do empreendimento, o que terá fundamentado a caducidade da concessão. “A prova de aproveitamento de terrenos urbanos, ou de interesse urbano, faz-se mediante a apresentação, pelo concessionário, da licença de

SOFIA MARGARIDA MOTA

“Não vamos construir um novo Pearl Horizon e os compradores poderão comprar uma casa com uma área aproximada [à qual já tinham investido].”

GCS

prédio que seria o Pearl Horizon ficam então a viver dois grupos de pessoas: moradores provisórios, que terão de deixar as suas casas alvo de renovação urbana, e aqueles que investiram no projecto da Polytex. De acordo com a secretária, “cada comprador pode adquirir um apartamento. O preço por pé quadrado será decidido de acordo com o registo feito na conservatória do registo predial. Não vamos construir um novo Pearl Horizon e os compradores poderão comprar uma casa com uma área aproximada [à qual já tinham investido].” Um casal equivale a um comprador, e cada investidor não poderá adquirir mais casas do que os contratos que assinou com a Polytex. Um total de 1800 pessoas singulares compraram apartamentos ainda em construção, tendo sido vendidas 1100 fracções. Entre os compradores 134 são empresas, que adquiriram 189 fracções. Porém, “para esta solução não estão abrangidas pessoas colectivas”, frisou a secretária.

“Parece-me que é necessária uma lei própria para a restituição do imposto de selo. Normalmente, quando os contratos são anulados ou revogados, o imposto não é restituído. Havendo uma lei na AL, tudo é possível.” LEONEL ALVES ADVOGADO DA POLYTEX

utilização. O Chefe do Executivo declara a caducidade pelo decurso do prazo, se o concessionário não tiver apresentado a licença de utilização do prédio, não tendo ele que apurar se este incumprimento das cláusulas de aproveitamento se deve ter por motivo não imputável ao concessionário”, lê-se no documento. Leonel Alves tem, contudo, uma explicação para o facto da empresa que representa nunca ter entregue essa licença. “O Governo levou 60 meses para aprovar o projecto de construção, em vez de 60 dias que estavam fixados no contrato. Por esta razão não houve tempo suficiente para se concluir a obra, só se fizeram as fundações. A Polytex pediu que lhe fossem compensados os 60 meses a mais que a Administração levou para aprovar os seus projectos.” Por isso, o advogado considera que “algo terá de acontecer para que a justiça seja feita”. “Na nossa perspectiva há uma impossibilidade de cumprimento do Governo na aprovação dos projectos. Se este

levou muito tempo para aprovar, obviamente que qualquer pessoa pensaria que o tempo levado teria de ser compensado. Parece que a Lei de Terras assim não o permite, conforme o entendimento do TUI. Se não o permite, e se há uma situação injusta e desequilibrada, porque um dos contratantes não cumpriu o seu dever, algo terá de acontecer para que a justiça seja feita.” No recurso apresentado em tribunal a empresa alegou que aproveitou parcialmente o terreno dentro do prazo, mas os argumentos da concessionária não convenceram os juízes. “A concessão do lote P, em que houve aproveitamento do terreno, foi destinada a instalações industriais. Só que, 14 anos depois, foi a concessionária que, prescindindo da sua vocação de empresa industrial, pediu a transformação da finalidade da construção para comércio e habitação, o que viria a ser deferido em 2006, com novas cláusulas sobre o aproveitamento do terreno para esta última finalidade. Assim, a alegação do aproveitamento mínimo do terreno não tem substância.” Leonel Alves criticou ainda a solução apresentada para os milhares de lesados do Pearl Horizon. “De acordo com o que ouvi, não tenho conhecimento de casos semelhantes em qualquer parte do mundo. É extremamente esquisito e escusado, poder-se-ia avançar por outras soluções mais simples e coerentes. De qualquer maneira, é uma proposta e cabe aos visados pronunciarem-se”, rematou o causídico. A.S.S.


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GONÇALO LOBO PINHEIRO

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HATO GOVERNO PONDERA FLEXIBILIZAR ATRIBUIÇÃO DE BENEFÍCIOS FISCAIS

Agora escolha

O Executivo vai estudar a hipótese de dar aos proprietários de veículos danificados pelo tufão Hato a escolha de comprarem um carro ou uma mota de modo a usufruírem de benefícios fiscais. O objectivo é flexibilizar as condições de reembolso do imposto na compra de novo veículo de modo a não sobrecarregar economicamente os proprietários lesados

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A informação foi deixada ontem pelo presidente da 1ª comissão permanente, o deputado Ho Ion Sang, que está a analisar o diploma na especialidade. A medida pretende resolver as preocupações transmitidas pelos deputados no que se refere à rigidez do diploma na aquisição de novos veículos.

De acordo com a proposta de lei, os benefícios fiscais só têm lugar na compra de um novo veículo da mesma categoria do que ficou danificado. “Se o proprietário perdeu um carro, terá que comprar um carro e se perdeu uma mota terá que comprar uma mota”, disse Ho. No entanto, os deputados da 1ª comissão consideram que

esta premissa pode sobrecarregar economicamente os proprietários na medida em que há quem ainda esteja, por exemplo, a pagar a prestações o carro que ficou inutilizado e na compra de um novo fique com “uma pressão económica muito alta”, referiu o presidente. Neste sentido, a comissão sugeriu ao Executivo que ponderasse

A medida pretende resolver as preocupações transmitidas pelos deputados no que se refere à rigidez do diploma na aquisição de novos veículos

uma alteração na proposta de modo a que os proprietários possam, independentemente da categoria do veículo perdido, adquirir o que mais lhe convier. Em resposta, o Governo mostrou-se receptivo à ideia dos deputados. “O Governo mostra-se aberto quanto à sugestão apresentada pela comissão e vai analisar a situação”, afirmou Ho Ion Sang.

REDACÇÃO COMPLICADA

Na primeira reunião de discussão da proposta não foi analisado o articulado sendo os trabalhos se basearam numa abordagem do diploma no geral. No que respeita à demora na apresentação do articulado, Ho Ion Sang refere que o Governo justifica a situação com a necessidade de consulta de vários departamentos para que a redacção do diploma fosse formulada. Adata limite para o cancelamento de matrículas de veículos inutilizados foi a 18 de Setembro. No total, foram canceladas 6521 matriculas, 3240 das quais pertenciam a automóveis e 3281 a motociclos.

A aplicação da proposta de lei relativa aos benefícios fiscais especiais na aquisição de novos veículos vai custar ao Executivo 147.7 milhões de patacas, sendo que 137.6 milhões são destinados aos benefícios na compra de carro e 10.1, aos benefícios daqueles que pretendem voltar a adquirir uma mota. Até à data, o imposto já foi isentado a 96 casos, 75 carros e 21 motociclos. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo

FUNÇÃO PÚBLICA DEPUTADOS PEDEM PLANEAMENTO DE ESPAÇOS PÚBLICOS

O

deputado Leong Sun Iok pretende que o Executivo apresente um planeamento concreto para a coordenação de espaços públicos destinados aos serviços da Função Pública. Em interpelação escrita, Leong recorda que o Governo tem gasto dinheiro dos cofres públicos no arrendamento de imóveis,

sendo que há espaços disponíveis que não estão a ser bem geridos. Para Leong Sun Iok, é necessário que se proceda o mais rapidamente possível à fiscalização das obras que decorrem em edifícios públicos para que estes fiquem operacionais quanto antes. Por outro lado, o Governo deve fazer um planeamento

de terrenos a longo prazo tendo em conta as necessidades que tem para alojar os seus serviços. O deputado aproveita a missiva dirigida ao Executivo para pedir um ponto de situação sobre a construção do centro de serviços da RAEM na Taipa e do imóvel multifuncional no Pak On. O tribuno exige ainda

mais informações sobre o edifício público no lote 6K na ZAPE. Ng Kuok Cheong, por seu lado, referiu ao Jornal do Cidadão que não está de acordo com a criação de um Fundo de Desenvolvimento do Investimento para adquirir imóveis ou construir prédios para arrendar ao Governo. A

ideia que partiu, refere, do presidente da Comissão de Acompanhamento para os Assuntos de Finanças Públicas, Mak Soi Kun, é para Cheong inoportuna. O deputado pró-democrata considera a sugestão viável mas desnecessária. Para Ng Kuok Cheong a medida não é oportuna numa altura em que se sabe

que os serviços públicos vão ser alargados e em que os preços no mercado imobiliário estão a subir. No entender do deputado, o Governo deve aproveitar as zonas destinadas a órgãos administrativos e judiciais já definidas na zona B dos novos aterros, assim como os terrenos recuperados, para os seus serviços.


sociedade 7

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M

A Man Kei, que morreu em Maio de 2014, vai dar nome a uma avenida nos novos aterros. A informação consta de um edital publicado ontem pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) em Boletim Oficial. A Avenida Doutor Ma Man Kei figura como uma via principal na zona A. Além de empresário e de ser considerado o líder da comunidade chinesa de Macau, Ma Man Kei foi deputado e vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês. A decisão foi tomada em 16 de Março, numa reunião em que o Conselho de Administração do IACM deliberou sobre a designação e definição dos novos arruamentos públicos. Segundo o edital, também na zona A dos novos aterros, vão entrar para a toponímia a Avenida de Tun Seng e a Rotunda de Hou Kong. Na mesma reunião, foi ainda ‘baptizada’ uma nova via pública, desta feita na península. Trata-se da Rua de Mong Sin, que começa na Rampa dos Cavaleiros e termina na Avenida de Venceslau de Morais.

Ma Man Kei

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IMOBILIÁRIO EMPRESA GERIDA POR CHAN MENG KAM PLANEIA HOTEL DE 24 ANDARES

Baralha e volta a dar Uma empresa gerida por Chan Meng Kam quer construir um hotel de duas estrelas no coração da cidade. O edifício de 24 andares está projectado para um terreno junto à Escola Portuguesa e abrange duas parcelas que, há sete anos, lhe tinham sido retiradas por falta de aproveitamento GOOGLE STREET VIEW

Toponímia Avenida nos novos aterros com nome de Ma Man Kei

M edifício de 24 pisos destinado a um hotel de duas estrelas e estacionamento. É o que a Sociedade de Investimento Imobiliário Lun Tát planeia construir num terreno na Travessa do Comandante Mata e Oliveira, junto à Escola Portuguesa. A informação consta do contrato de concessão celebrado entre a RAEM e a empresa gerida por Chan Meng Kam, publicado ontem em Boletim Oficial. Segundo um despacho do secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, são concedidas, por arrendamento e com dispensa de concurso público, duas parcelas, com um área total de 168 metros quadrados, a serem anexadas ao terreno de 569 metros quadrados, que a empresa já detinha. Com a anexação nasce único lote com 737 metros quadrados. Segundo o contrato, o terreno tem ser reaproveitado em 48 meses, ou seja, no prazo de quatro anos. Durante esse período, a empresa tem de pagar 11.792 patacas, valor correspondente a 16 patacas por metro quadrado. O arrendamento do terreno é válido até 23 de Setembro de 2027. A empresa gerida pelo ex-deputado e actual membro do Conselho Executivo submeteu à Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), em Abril de 2014, um estudo prévio para reaproveitar o terreno que já detinha com as duas parcelas contíguas. Os serviços emitiram um parecer favorável. Oito meses depois, a empresa solicitou então autorização para modificar o aproveitamento, em linha com o referido estudo prévio, e a consequente revisão do contrato de concessão. Em Março de 2016, o anteprojecto da obra foi “considerado passível de aprovação, condicionada ao cumprimento de alguns requisitos técnicos”. A DSSOPT considerou que, do

ponto de vista urbanístico, o aproveitamento do terreno concedido em conjunto com as parcelas contíguas era “adequado e racional”, pelo que o processo seguiu para a Comissão de Terras que, dois anos depois, ou seja, em Março último, deferiu o pedido.

PARCELAS IOIÔ

Esta não é, contudo, a primeira vez que o Governo concede por arrendamento as referidas duas parcelas com uma área global de 168 metros quadrados à Sociedade de Investimento Imobiliário Lun Tát. Estas haviam sido concedidas para

arrendamento em 1992 mas, sensivelmente duas décadas depois, acabaram por lhes ser retiradas por falta de aproveitamento dentro do prazo. O aproveitamento do terreno tinha uma finalidade semelhante à actual. Segundo informações publicadas em Boletim Oficial, a ideia era anexar os mesmos 168 metros quadrados de modo a formar um lote com uma área global de 737 metros quadrados também para a construção de um hotel num prazo de 30 meses, ou seja, até 23 de Agosto de 1994. A diferença é que, na altura, a ideia inicial era erguer uma

unidade hoteleira de três estrelas num edifício de 27 pisos. Se o primeiro terreno (de 569 metros quadrados) que a empresa detinha se manteve nas suas mãos, por se tratar de uma concessão definitiva,

Empresa gerida por Chan Meng Kam recupera duas parcelas, cuja concessão lhe tinha sido retirada em 2011 por falta de aproveitamento

o mesmo não sucedeu com as referidas duas parcelas que lhe foram retiradas por falta de aproveitamento dentro do prazo. Em 2007, aquando do pedido de renovação do prazo de concessão das duas parcelas, a empresa justificou o incumprimento com “o forte declínio da economia de Macau registado no início dos anos 1990” e com uma “acção judicial em que foi requerida a penhora do direito resultante da concessão”. Sublinhando que o prémio do contrato fora integralmente pago, a empresa aproveita para solicitar a alteração da finalidade para habitação e comércio, argumentando dificuldades face à abertura de diversos hotéis, incluindo nas imediações, na sequência da liberalização do jogo. Justificações que não colheram junto da DSSOPT que considerou que “não obstante a crise económica dos anos 90”, a empresa “mostrou-se completamente indecisa quanto à finalidade do aproveitamento do terreno”. Na sequência disso, em Agosto de 2011, um despacho do então Secretário para os Transportes e Obras Públicas, Lau Si Io, determina a rescisão da concessão, sem qualquer direito de indemnização por parte da empresa que perdeu a totalidade do prémio pago (10,5 milhões). Agora, sete anos depois, as duas parcelas regressam à Sociedade de Investimento Imobiliário Lun Tát. Diana do Mar

dianadomar@hojemacau.com.mo


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24.5.2018 quinta-feira

EDITAL Edital n.º Processo n.º Assunto Local

: 7/E-DC/2018 : 8/DC/2017/F : Ordem de desocupação de terreno e demolição de construção ilegal : Terreno situado na Travessa do Cais s/n (entre o n.º 12-A e o n.º 14-A), em Macau (demarcado a tracejado na planta em anexo). Li Canfeng, Director da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), faz saber que ficam notificados os ocupantes ilegais do terreno indicado em epígrafe, cujas identidades e moradas se desconhecem, do seguinte: 1. A DSSOPT, no exercício dos poderes de fiscalização conferidos pela alínea b) do n.º 3 do artigo 8.º do Decreto-Lei n.º 29/97/M de 7 de Julho, verificou que no terreno indicado em epígrafe foram construídas construções ilegais compostas por paredes em alvenaria de tijolo, janelas de vidro e portões metálicos, sem que tenha sido emitida pela DSSOPT a respectiva licença de obra. 2. De acordo com a certidão da Conservatória do Registo Predial (CRP) extraída em 28 de Fevereiro de 2018, o terreno com a área total de 106 m2 indicado em epígrafe, situado na Travessa do Cais, em Macau, consta da planta cadastral n.º 0498.025 emitida em 11 de Abril de 2017 pela DSCC mas não existe qualquer registo predial do mesmo no CRP. 3. Sobre o terreno indicado em epígrafe não se encontra registado a favor de particular legítimo o direito de propriedade ou qualquer outro direito real, nomeadamente de concessão, aforamento ou arrendamento, nem foi atribuída ao(s) ocupantes a respectiva licença de ocupação temporária, pelo que o mesmo considera-se terreno disponível do Estado, nos termos do artigo 7.º da Lei Básica da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) e do artigo 8.º da Lei de terras. 4. Visto que a ocupação desse terreno que é propriedade do Estado foi efectuada por quem não dispõe de qualquer título sobre o mesmo, a DSSOPT foi instaurou o processo n.º 8/DC/2017/F e deu início ao procedimento administrativo de desocupação e de entrega do terreno ao Estado. 5. Nos termos dos artigos 93.º e 94.º do Código do Procedimento Administrativo (CPA), foram os interessados através de edital notificados em sede de audiência prévia para se pronunciar, no entanto, não apresentaram qualquer resposta. 6. Assim, no exercício das competências delegadas pelo n.º 1 da Ordem Executiva n.º 113/2014 e nos termos do n.º 1 do artigo 208.º da Lei de terras, o Secretário para os Transportes e Obras Públicas, através de despacho de 14 de Maio de 2018, exarado sobre a informação n.º 03766/DURDEP/2018, de 8 de Maio de 2018, constante do processo n.º 8/DC/2017/F, ordena aos ocupantes ilegais, os quais se desconhecem, que procedam no prazo de 30 (trinta) dias a contar a partir da data da publicação do presente edital à desocupação do terreno, ao seu despejo, à demolição da referida construção ilegal, à remoção dos materiais e equipamentos nele depositados e à entrega do terreno ao Governo da RAEM, sem direito a qualquer indemnização. 7. Antes da execução da obra de demolição referida no ponto anterior, os ocupantes deverão apresentar previamente nestes Serviços a declaração de responsabilidade do construtor incumbido da obra de demolição e a apólice de seguro contra acidentes de trabalho e doenças profissionais. A conclusão dos trabalhos deverá ser comunicada por escrito à DSSOPT para efeitos de vistoria. 8. Nos termos do n.º 2 do artigo 208.º da Lei de terras, do artigo 139.º do CPA e do n.º 2 do artigo 144.º do CPA, se findo o prazo referido no ponto 6 não tiverem dado cumprimento à ordem de desocupação, a DSSOPT procederá à execução dos trabalhos de desocupação e de demolição. Nos termos do artigo 211.º da Lei de terras, as despesas realizadas com a desocupação e com a guarda de documentos e bens móveis de valor encontrados no local constituem encargos dos infractores, ao abrigo do disposto no artigo 210.º da mesma lei. 9. Nos termos do artigo 196.º da Lei de terras, quem ocupar ilegalmente terrenos do domínio público ou do domínio privado do Estado é punido com multa. 10. E de acordo com o artigo 193.º da Lei de terras, quem ocupar ilegalmente terrenos do domínio público ou privado do Estado e não cumprir a ordem de desocupação emanada, poderá incorrer em responsabilidade criminal e ser punido pelo crime de desobediência previsto no n.º 1 do artigo 312.º do Código Penal. 11. Informa-se que de acordo com casos similares tratados no passado, caso seja executada a desocupação coerciva do referido terreno pela Administração, a despesa resultante da execução dos trabalhos de desocupação poderá atingir o montante de $300,000.00 (trezentas mil patacas), contudo, este valor varia em função da área ocupada, da complexidade da obra, da quantidade dos materiais depositados na área de ocupação e da inflação, pelo que o referido montante é apenas para referência. 12. Os objectos, materiais e equipamentos eventualmente deixados no terreno indicado serão tratados de acordo com o disposto no artigo 210.º da Lei de terras. 13. Nos termos dos artigos 145.º e 149.º do Código do Procedimento Administrativo, os interessados podem apresentar reclamação ao Secretário para os Transportes e Obras Públicas no prazo de 15 (quinze) dias contados a partir da data da publicação do presente edital. 14. Nos termos da subalínea 2) da alínea 8) do artigo 36.º da Lei n.º 9/1999, republicada integralmente pelo despacho do Chefe do Executivo n.º 265/2004, da decisão de desocupação emanada pelo Secretário para os Transportes e Obras Públicas, cabe recurso contencioso a interpor para o Tribunal de Segunda Instância da RAEM, no prazo indicado no n.º 2 do artigo 25.º do Código do Processo Administrativo Contencioso, a partir da data da publicação do presente edital. RAEM, 15 de Maio de 2018.

O Director dos Serviços Li Canfeng

Processo n.º: 8/DC/2017/F Local : Terreno situado na Travessa do Cais s/n (entre o n.º 12-A e o n.º 14-A), em Macau (demarcado a tracejado na planta em anexo). Planta em anexo:


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Cooperação saudável Macau quer destacar profissionais da saúde para Timor-Leste

O

Governo de Macau afirmou ontem estar a traçar um plano para o destacamento de profissionais de saúde para os países que integram a iniciativa “Uma faixa, uma rota”, em particular Timor-Leste. De acordo com um comunicado, o programa de investimento do PUB

de saúde, Ma Xiaowei, o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura de Macau, Alexis Tam, e a directora dos serviços para a alimentação e saúde de Hong Kong, Sophia Chen. Durante o encontro, Alexis Tam ressalvou a assinatura, no início do ano, de um acordo de cooperação nas áreas da saúde e higiene na Região Metropolitana da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau. Presidente da China, Xi Jinping, prevê a prestação de apoio a esses países na criação de uma rede de cuidados de saúde primários. As políticas de saúde pública em Macau e Hong Kong foram discutidas durante a Assembleia Mundial de Saúde, em Genebra, num encontro entre o director da comissão nacional

FORMAÇÃO PARA O MUNDO

Segundo o secretário, o acordo tem como objectivo a intensificação do intercâmbio e cooperação das três regiões nas áreas da assistência médica e saúde pública. Além de Guangdong, Hong Kong e Macau, a região da Grande Baía abrange nove localidades: Cantão, Shenzhen, Zhuhai, Foshan, Huizhou,

Dongguan, Zhongshan, Jiangmen e Zhaoqing. Ao todo, conta com mais de 110 milhões de habitantes. Alexis Tam sublinhou, ainda, a formação de quadros no âmbito da medicina tradicional chinesa para o mundo. Por sua vez, o director Ma considerou o plano de constituição da Grande Baía favorável ao intercâmbio e à cooperação entre os médicos e enfermeiros da região, disponibilizando a Hong Kong e a Macau um grande espaço em termos de desenvolvimento dos serviços de saúde. Por fim, garantiu que a Comissão Nacional de Saúde apoiará Macau na candidatura da criação de uma Equipa Internacional de Emergência Médica. Caso tenha sucesso, Macau será a quarta equipa de emergência médica a nível nacional.

TIAGO ALCÂNTARA

quinta-feira 24.5.2018

Turismo Visitantes aumentam oito por cento em Abril

Macau recebeu 2.960.879 turistas no mês de Abril, um número que representa um aumento de oito por cento em termos anuais. Os visitantes vindos da China continental subiram um termos homólogos 16,5, para um total de cerca de dois milhões de visitantes, por cento enquanto o número de visitantes de Taiwan subiu 5,6 por cento. Já os visitantes oriundas de Hong Kong e da Coreia do Sul registaram uma descida de 12 e 5.9 por cento, respectivamente. O número de visitantes com visto individual atingiu os 962.704, mais 16,9 por cento em termos homólogos. Nos quatro primeiros meses deste ano entraram no território 11.506.592 visitantes, ou seja, mais 8,4 por cento, face ao período homólogo do ano transacto.

Economia Taxa de inflação de 1,8 por cento em Abril

A taxa de inflação em Macau foi de 1,8 por cento no mês de Abril, indicam dados oficiais divulgados ontem. De acordo com os Serviços de Estatística e Censos (DSEC), o Índice de Preços no Consumidor (IPC) registou as maiores subidas nos preços da educação (+5,26 por cento) e da saúde (+4,90 por cento). Só em Abril, o IPC geral, que permite conhecer a influência da variação de preços na generalidade das famílias de Macau, cresceu 2,88 por cento em termos anuais, sendo este crescimento superior ao de Março passado (+2,66 por cento). Em relação a Março, o IPC geral registou uma ligeira subida de 0,32 por cento, segundo a DSEC. Nos quatro primeiros meses do corrente ano, o IPC geral médio cresceu 2,6 por cento em relação ao mesmo período do ano transacto. Em 2017, a taxa de inflação em Macau foi de 1,23 por cento, uma diminuição relativamente aos 2,37 por cento registados em 2016.


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24.5.2018 quinta-feira

O indomável

O

artista Júlio Pomar faleceu na quarta-feira aos 92 anos. Tanto o homem como a obra deixam um legado de talento e luta pela liberdade. Algumas das sua obras passaram por Macau pelo menos duas vezes. A última

ALMOÇO DO TROLHA

O incontornável Júlio Pomar faleceu ontem aos 92 anos. O artista, por muitos classificado como indomável, deixa um vasto legado. Para Carlos Marreiros, além do génio artístico, a inteligência e a luta por ideais marcaram a sua vida e obra. Rui Rasquinho considera que Pomar é um exemplo de obstinação de um grande artista que viveu totalmente para o seu trabalho

LUSITANIA NO BAIRRO LATINO

ÓBITO O ARTISTA PLÁSTICO JÚLIO POMAR MORREU AOS 92 ANOS EM LISBOA

aconteceu em Setembro de 2015 numa mostra no Albergue SCM - “A jornada de um mestre – Júlio Pomar e amigos”. “Era um artista muito coerente. Um artista indo-

mável e de uma inteligência acutilante” começa por dizer o arquitecto Carlos Marreiros ao HM. Muitas vezes os artistas plásticos expressam-se bem nos seus trabalhos, mas verbalmente encontram

algumas dificuldades. Não era o caso de Pomar. “O artista tinha um discurso poderoso, penetrante e sabia ser muito duro quanto o tinha que ser e ser muito sedutor e doce quando também o queria ser, sem nunca abdicar da sua posição”, refere o também responsável pelo Albergue. Perseguido durante o Estado Novo, o artista fugiu para França. De acordo com Marreiros, esta necessidade de fuga acabou por ser uma mais valia: “Se calhar foi bom, porque desta forma Júlio Pomar pode abrir os seus horizontes de forma acelerada e qualitativa, mais do que se estivesse em Portugal”. Uma das características da sua visão artística é a versatilidade. Homem que passou por várias fases ao longo da carreira, Pomar não deixou que nenhuma das suas facetas retirasse qualidade à globalidade da sua obra. Muito pelo contrário. Em cada mudança revelava a solidez. No entender de Carlos Marreiros, esta é uma afirmação não só de talento, mas também de inteligência. “Além do génio, o artista tem de ser culto, tem de ser inteligente e tem de ser muito trabalhador”. Júlio Pomar, aponta, reunia, pelo menos esta três, sem se ficar por aqui. Juntam-se às virtudes do pintor, o facto de Pomar utilizar a arte para indicar situações de injustiça social e de luta pela liberdade. “O facto de se conseguir reinventar a si próprio é uma das características mais notáveis e brilhantes do Júlio Pomar”, afirma. Também para Rui Rasquinho, a morte de Pomar é

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA GOODBYE, COLUMBUS E CINCO CONTOS • Philip Roth

O primeiro livro de Philip Roth foi premiado e granjeou-lhe imediatamente a reputação de escritor de ironia explosiva, capacidade de observação impiedosa e compaixão pelas suas personagens, mesmo pelas mais desprovidas de sentido da realidade. Goodbye, Columbus é a história de Neil Klugman e da bonita e ousada Brenda Patimkin, ele da pobre Newark, ela do bairro suburbano de Short Hills, que se conhecem numas férias de Verão e mergulham numa relação que diz tanto das classes sociais e da suspeita como do amor. A novela é acompanhada de cinco contos cujo registo vai da iconoclastia à ternura sem reservas.

a perda irreparável. Na visão do artista local o que mais se destacava em Júlio Pomar era o facto do artista viver intensamente a sua prática. “Ele só pensava em trabalhar e já há poucos assim”, refere. Para o futuro, fica a obra que Carlos Marreiros considera que deve agora passar por um cuidadoso processo de catalogação, sendo que, afirma, seria de toda a pertinência criar um museu em sua homenagem. “Este espólio tem que ser organizado e classificado de forma a um dia integrar um museu digno da sua qualidade, ou que seja

mesmo construído um museu dedicado a Júlio Pomar”.

REACÇÕES OFICIAIS

O Presidente da República Portuguesa lembrou Júlio Pomar como um “criativo irreverente” e considerou que a sua morte deixa a cultura portuguesa “muitíssimo mais pobre”, manifestando a certeza de que o Governo proporá “o luto nacional correspondente”. O chefe de Estado descreveu Júlio Pomar como “um inovador e criativo irreverente, profundamente rebelde”, que “esteve sempre à frente do seu tempo” e “marcou boa

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PEQUENOS PRAZERES • Arthur de Pins

Arthur é um rapaz um pouco tímido, mas bem-disposto, desportista ocasional, fumador (também) ocasional, amigo do seu amigo, divertido, girinho, segundo as amigas, e completamente obcecado por mulheres. Mas tudo muda no dia em que conhece Clara, uma miúda respondona e muito dona do seu nariz apanhou-o pelo coração, e outros órgãos. Será que eles conseguem prescindir dos prazeres da vida de solteiros? Um comic irresistivelmente divertido e provocador sobre amor, sexo, relacionamentos, sexo, amizades… e sexo.


eventos 11

quinta-feira 24.5.2018

parte do século XX, marcou a transição para o século XXI” em Portugal, “mantendo-se sempre jovem”. “Nós devemos a Júlio Pomar a abertura de Portugal ao mundo e a entrada do mundo em Portugal, desde logo, durante a ditadura, não apenas como pintor, não apenas como desenhador, mas como grande personalidade da cultura”, afirmou. Para ilustrar a irreverência de Júlio Pomar, Marcelo Rebelo de Sousa recordou “o seu retrato do Presidente Mário Soares que figura na galeria dos retratos no Museu da Presidência da República, e que na altura chocou tantos bem pensantes”, observando: “Porque ele era assim”. O Presidente da República referiu ainda que o seu trabalho artístico “percorreu todas as fases, mais figurativo, menos figurativo, mais abstracto, menos abstracto” e definiu-o como “um desconstrutor” que olhava “para a outra realidade das coisas” e a retratava. Por seu lado, o primeiro-ministro português, António

Costa, afirmou que Portugal perdeu “um dos seus mais icónicos artistas”, numa primeira reacção à morte do artista plástico Júlio Pomar. “Com a morte de Júlio Pomar, Portugal perde um dos seus mais icónicos artistas”, disse Costa, numa mensagem publicada na rede social Twitter. “Ficará para sempre a sua obra, comprometida apenas com a cultura portuguesa e com a liberdade criativa”, acrescentou o chefe do Governo português. Pintor e escultor, nascido em Lisboa em 1926, Júlio Pomar é considerado um dos criadores de referência da arte moderna e contemporânea portuguesa. O artista deixa uma obra multifacetada que percorre

“Era um artista muito coerente. Um artista indomável e de uma inteligência acutilante.” CARLOS MARREIOS ARQUITECTO

mais de sete décadas, influenciada pela literatura, a resistência política, o erotismo e viagens a lugares como a Amazónia, no Brasil.

O HOMEM

Nascido em Lisboa, em 1926, Júlio Pomar, que gostava mais de desenhar do que de jogar à bola quando era criança, vendeu o primeiro quadro a Almada Negreiros por seis escudos, numa época em que era impensável viver da pintura. Tornou-se um dos artistas mais conceituados do século XX português, com uma obra marcada por várias estéticas, do neorrealismo ao expressionismo e abstracionismo, e uma profusão de temáticas abordadas e de suportes artísticos experimentados. A obra foi dedicada, sobretudo, à pintura e ao desenho, mas realizou igualmente trabalhos de gravura, escultura e ‘assemblage’, ilustração, cerâmica e vidro, tapeçaria, cenografia para teatro e decoração mural em azulejo. Desde muito jovem começou a escrever sobre arte,

tem obra poética publicada, alguma musicada e interpretada por cantores como Carlos do Carmo e Cristina Branco. Estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio e nas Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, tendo participado em 1942, em Lisboa, convidado por Almada Negreiros, na VII Exposição de Arte Moderna do Secretariado de Propaganda Nacional/Secretariado Nacional de Informação. Fez parte da Comissão Central do Movimento de Unidade Democrática Juvenil (MUD), e participou activamente nas lutas estudantis, o que lhe custou a expulsão das Belas Artes do Porto. Em 1947, realizou a primeira exposição individual, no Porto, onde apresentou desenhos, e colaborou com os jornais A Tarde, Seara Nova, Vértice, Mundo Literário e Horizonte, participando no movimento artístico “Os Convencidos da Morte”, assim denominado por oposição aos célebres “Os Vencidos da Vida”, grupo marcante na história da literatura portuguesa. A oposição ao regime de Salazar leva-o a passar quatro meses na prisão, a apreensão de um dos seus quadros “Resistência” - pela polícia política, e a ocultação dos frescos com mais de 100 metros quadrados, realizados para o Cinema Batalha, no Porto. Mesmo assim, Júlio Pomar conseguiu desenhar e pintar na prisão - onde circulavam papel, lápis e caneta. Num período inicial, neorrealista, foram marcantes algumas das suas obras, como “O Almoço do Trolha” ou a “Menina com um Gato Morto”. Dos tempos que viveu em Paris, destaca-se a série de quadros a preto e branco para ilustrar a versão de “D. Quixote”, de Aquilino Ribeiro. Em Portugal, a primeira retrospectiva da obra de Pomar foi organizada em 1978 pela Fundação Gulbenkian e exibida na sua sede em Lisboa, também no Museu Soares dos Reis, no Porto e, parcialmente, em Bruxelas. Júlio Pomar também ilustrou várias obras, como “Guerra e Paz”, de Tolstoi, “O Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro, a obra “D. Quixote”, de Cervantes, “A Divina Comédia”, de Dante “Pantagruel”, de Rabelais, “Rose et Bleu”, de Jorge Luís Borges, e “Mensagem”, de Fernando Pessoa. Sofia Margarida Mota com LUSA info@hojemacau.com.mo

JÚLIO POMAR O SUAVE REBELDE António Conceição Júnior

C

OMO que por coincidência, mirei ontem à noite o relógio. Eram 01:57 e, sonolento, coloquei-os auscultadores que estão bem perto, para ouvir as notícias da Antena 1. O noticiário abriu com uma triste notícia: Júlio Pomar tinha falecido aos 92 anos. Olhei para o breu do tecto e ocorreu-me “A Cegueira dos Pintores” e de como me tinha comprazido a ler a escrita de um dos maiores pintores de sempre, de Portugal e, porque não, do mundo. Se Pomar se tornou icónico pelo “Almoço do Trolha” e, consequentemente da sua inscrição no movimento Neorrealista português, será redutor tentar classificá-lo dentro de qualquer movimento. Júlio Pomar foi, igualmente, e como António Arnaut - desaparecido quase no mesmo dia - um cidadão de corpo inteiro, combatente pela liberdade, que foi preso por isso e por ser filiado no Partido Comunista Português, consequências da sua rebeldia perante preceitos e conceitos já fora de prazo. Foi através da grande Amizade criada com outros grandes lutadores pela liberdade, Manuel de Brito e sua Mulher, Arlete Alves da Silva que, nos princípios dos anos 1980, me foi possível trazer a Macau, para a Galeria do Museu Luís de Camões, exposições da Galeria 111, entre as quais figuravam obras gráficas de Júlio Pomar. Foi no aprofundar dessa Amizade e de outras, como o grande Poeta Pedro Tamen e o Arq. José Sommer Ribeiro, respectivamente Administrador para as Belas-Artes e Director do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, todos amigos entre si, que foi possível realizar em 1985 o “Ciclo dos Últimos Cem Anos da Pintura Portuguesa” em Macau, na Galeria do Leal Senado, e na qual, também Júlio Pomar foi um dos cabeças de cartaz. Na sua obra perpassam não apenas o Neorrealismo com obras de referência como o já referido “Almoço do Trolha” e “O Gadanheiro”, e posteriormente “Os Cegos de Madrid”,

uma quase invocação a Goya, de 1957, e sucessivos ciclos como as sínteses nuas que encontram no “Banho Turco” e em “Maio de 68” referências que serão substituídas por outra linguagem radicalmente diferente com a sua série de tigres e macacos do início dos anos 80, que se desenvolve noutra série que aqui se representará com o retrato de Fernando Pessoa e outras personalidades, e touradas e corvos, numa incessante deambulação naquilo que ele próprio consideraria “a sua volubilidade”. Para além da admiração pela sua espectacular versatilidade que aqui se testemunha de modo incompleto, Júlio Pomar foi sempre um daqueles rebeldes suaves incapazes de ser outra coisa que não a sua autenticidade. A atestá-lo fica esta pequena estória: Pomar estava em Macau com sua Mulher Teresa e o casal Arlete Alves da Silva e Manuel de Brito e fomos os três casais ao Forum de Macau para ouvir um concerto onde pontificava um pianista da nossa praça. As cadeiras eram incómodas, eu fazia barulho com o celofane dos meus rebuçados e, pelo canto do olho, reparo num aceno do Pomar; propunha-me irmos fumar. Saímos os dois e fomos para o átrio fumar e conversar placidamente, enquanto ao longe rugia a orquestra. Conversámos e fumamos livremente, até que terminou o concerto e se nos juntaram as respectivas mulheres e os amigos. Dias depois, de um modo extremamente afável, no Arquivo Histórico do Tap Seac, Pomar descerrava um trabalho do jovem Ng Vai Meng, dando-lhe um afável abraço. Para se ser verdadeiramente grande é preciso ser-se autêntico. Para se ser autêntico, é preciso por vezes ser-se rebelde, o que, no caso de Júlio Pomar, foi sempre um suave mas determinado rebelde, a recordar-me uma pintura anagramática: o SG Gentil, de um autor cujo nome teima em não me chegar à memória. Todos estamos mais pobres.


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24.5.2018 quinta-feira

SEGURANÇA XI JINPING PEDE REFORÇO DA COOPERAÇÃO REGIONAL

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Presidente chinês apelou ontem aos países membros da Organização para Cooperação de Xangai para que incrementem a cooperação antiterrorista e contra os crimes transfronteiriços na Ásia, informou

a imprensa oficial. Durante um encontro com responsáveis de Segurança Pública dos países-membros, Xi Jinping pediu um "aumento da capacidade para a organização de operações conjuntas de segurança" e

Vinte companhias áreas passaram a referir-se a Taiwan como parte da República Popular da China, cumprindo com as exigências de Pequim, que Washington classificou de “absurdo orwelliano”, apesar de a ilha funcionar como um Estado soberano

B

RITISH Airways, Lufthansa e Air Canada são algumas das companhias que se referem já a Taiwan como parte da China, quando faltam apenas três dias para dezenas de operadoras decidirem se cumprem com as ordens de Pequim ou enfrentam consequências que podem paralisar os seus negócios no país, incluindo sanções legais. A 25 de Abril, a Administração de Aviação Civil da China enviou

a "construção de uma rede eficiente de colaboração na aplicação da lei". Xi recordou que uma das prioridades da organização, que alguns analistas consideram uma versão asiática da NATO, é a luta contra as "três forças

do mal, o terrorismo, o separatismo e o extremismo", visando "contribuir para a paz, o desenvolvimento e a prosperidade regional". A reunião serviu ainda para preparar a cimeira entre os chefes de Estado dos países-

-membros da organização, que decorre nos próximos dia 9 e 10 de Junho, na cidade chinesa de Qingdao. A Orga-

nização para a Cooperação de Xangai foi fundada, em 1996, pela China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão e Tadjiquistão. Em 2001, foi admitido o Uzbequistão e, no ano passado, a Índia e o Paquistão.

UMA CHINA COMPANHIAS AÉREAS OBEDECEM A PEQUIM EM RELAÇÃO A TAIWAN

Mais que palavras uma carta a 36 companhias aéreas, na qual exige explicitamente que se refiram a Taiwan como parte da China. A Transportadora Aérea Portuguesa (TAP) não inclui Taiwan entre os seus destinos, mas nos casos de Macau e Hong Kong, também alvos de discórdia com outras companhias, a empresa refere-se já aos territórios como parte da República Popular da China. Pesquisando no portal da TAP por destinos na Ásia, Macau surge identificado como 'Macau, República Popular da China'. A adopção de "Taiwan, China" ou "Taiwan, República Popular da China" nos portais electrónicos e mapas das companhias aéreas representa outra vitória nos esforços do Partido Comunista Chinês (PCC) em forçar empresas estrangeiras a aderir à sua visão geopolítica, mesmo em operações fora do país. Críticos afirmam que a crescente pressão exercida pela China, usando o seu poderio económico para forjar novas normas internacionais - neste caso o status de Taiwan - gera preocupações sem precedentes. "O que está aqui em

jogo é que nós estamos a permitir que um regime revisionista, com um historial terrível no que toca a liberdade de expressão, dite o que nós dizemos e escrevemos nos nossos países", afirmou J. Michael Cole, pesquisador do China Policy Institute e do programa de estudos de Taiwan na Universidade de Nottingham, citado pela Associated Press. "Se Pequim não se deparar com limites, vai continuar a pedir mais", acrescentou.

REUNIFICAÇÃO À VISTA

Taiwan, a ilha onde se refugiou o antigo governo chinês depois de o PCC tomar o poder no continente, em 1949, assume-se como República da China, mas Pequim considera-a uma província chinesa e não uma entidade política soberana.

"Nós opomo-nos veementemente aos esforços da China para atingir os seus objectivos políticos através da intimidação, coação e ameaças", reagiu o ministério taiwanês dos Negócios Estrangeiros, num comunicado enviado à AP. "Apelamos a todos os países do mundo que se mantenham unidos na defesa da liberdade de expressão e liberdade para fazer negócios. Apelamos também às empresas privadas que rejeitem colectivamente a exigência insensata da China para que alterem a designação de 'Taiwan' para 'Taiwan, China'", lê-se na mesma nota. O Presidente chinês, Xi Jinping, avisou já Taiwan de que a questão da reunificação não pode ser adiada para sempre, e as forças armadas chinesas têm enviado aviões de combate para a costa taiwanesa.

British Airways, Lufthansa e Air Canada são algumas das companhias que se referem já a Taiwan como parte da China, quando faltam apenas três dias para dezenas de operadoras decidirem se cumprem com as ordens de Pequim ou enfrentam consequências

Várias multinacionais têm cedido à pressão de Pequim para alterarem as referências a Taiwan, apesar de o Governo dos Estados Unidos ter garantido que vai "apoiar os americanos que resistem aos esforços do PCC em impor as suas noções de politicamente correcto às empresas e cidadãos norte-americanos". Na semana passada, o retalhista de vestuário norte-americano Gap pediu desculpa à China por ter vendido t-shirts com um mapa "errado" do país, que exclui Taiwan. Em Janeiro, a marca têxtil espanhola Zara, a companhia aérea norte-americana Delta Air Lines e a fabricante de equipamento médico Medtronic pediram também desculpa por se referirem a Taiwan como um país nos seus 'sites'. "Não é possível dizer não", disse Carly Ramsey, especialista da Control Risks, consultora com sede em Xangai, a "capital" económica da China, citado pela AP. "Cada vez mais, em situações como esta, o incumprimento não é uma opção, se queres fazer negócios na China e com a China", explicou.


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quinta-feira 24.5.2018

AUSTRÁLIA ACUSAÇÃO ENVOLVE MILIONÁRIO CHINÊS EM SUBORNO NA ONU

Políticos em saldos

Um deputado acusou na terça-feira um milionário australiano, nascido na China, de conspiração para subornar um quadro de topo da ONU, na sequência de uma alegada doação de somas generosas de dinheiro a partidos da Austrália

A

NDREW Hastie disse ao Parlamento australiano que o milionário Chau Chac Wing, que beneficia de dupla nacionalidade, era o promotor imobiliário referido numa acusação dos Estados Unidos como "CC-3", uma abreviatura para designar o terceiro co-conspirador. Hastie afirmou ter recebido das autoridades norte-americanas a confirmação da identidade de "CC-3", durante uma visita realizada aos Estados Unidos no mês passado, declarações que podem inflamar ainda mais a tensão diplomática entre a China e a Austrália. A China já havia protestado face ao anúncio do primeiro-ministro Malcolm Turnbull's, em Dezembro, de que a Austrália iria banir as interferências estrangeiras na política, fossem realizadas através de espionagem ou de doações financeiras.

Andrew Hastie, deputado australiano “‘CC-3’ é um cidadão chinês e australiano. Ele foi um financiador significativo para os dois maiores partidos [australianos]. Os australianos merecem a verdade.”

O primeiro-ministro da Austrália afirmou que não tinha sido avisado com antecedência sobre as

declarações do deputado que preside ao Comité Conjunto de Inteligência e Segurança do Parlamento,

mas sublinhou que estas não constituíam uma novidade. Esta terça-feira, a China pediu "acções concre-

tas" por parte da Austrália para que fossem melhoradas as relações entre os dois países. Malcolm Turnbull respondeu ontem: "O Ministro dos Negócios Estrangeiros tem o direito de fazer as declarações que entender, mas nós temos um forte relacionamento, que é franco".

MEXER NOS MEDIA

"Chau Chac Wing tem processados os meios de comunicação social que têm publicado acusações similares, mas Andrew Hastie contornou essa ameaça ao depor no Parlamento australiano, o que lhe confere imunidade, bem como aos 'media' que o citarem. "'CC-3' é um cidadão chinês e australiano. Ele foi um financiador significativo para os dois maiores partidos [australianos]. Os australianos merecem a verdade", sublinhou o deputado. As declarações daquele que preside ao comité parlamentar foram motivadas pelo alegado envolvimento da Rússia nas eleições de 2016 nos Estados Unidos e pela crescente influência da China no cenário político global. "Na Austrália, é claro que o Partido Comunista Chinês está a trabalhar para, dissimuladamente, interferir nos 'media' e universidades, bem como para influenciar o nosso sistema político e debate público", concluiu o Andrew Hastie.

LEILÃO MANUSCRITO DE MARX VALEU 445 MIL EUROS

U

M manuscrito de Karl Marx, filósofo alemão e fundador do comunismo, foi arrebatado num leilão, em Pequim, por 3,34 milhões de yuan (445.000 euros), informou o portal de notícias China.org. O documento, que pertencia ao empresário local Feng Lun, foi vendido por uma quantia dez vezes superior ao preço inicial de licitação, na segunda-feira. O escrito é composto por mais de 1.250 páginas de apontamentos registados pelo filósofo, em Londres, entre Setembro de 1860 e Agosto de 1863, que serviram de preparação para a obra "O Capital", a base da ideologia comunista, que ainda hoje é o dogma oficial do regime chinês. Naqueles apontamentos, Marx analisa o livro da sua época "Tratado Prático da Banca", do britânico James William Gilbart, que é citado mais tarde em "O Capital". No mesmo leilão foi também arrebatado por 1,67 milhões de yuan (223 mil euros) um manuscrito de Friedrich Engels, outro pensador alemão que, em conjunto com Marx, produziu o "Manifesto Comunista". O leilão ocorreu no mesmo mês em que se comemorou o 200.º aniversário do nascimento de Marx, uma efeméride celebrada na China com uma cerimónia no Grande Palácio do Povo, onde o Presidente chinês, Xi Jinping, classificou o filósofo alemão como "o pensador mais brilhante dos tempos modernos".

Região Coreias Kim dá "luz verde" a jornalistas sul-coreanos

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YONGYANG autorizou, à última hora, os jornalistas sul-coreanos a assistirem ao desmantelamento de uma base nuclear, recuando na decisão anunciada na terça-feira, disseram ontem as autoridades sul-coreanas. "O Governo vai tomar rapidamente as medidas necessárias para os jornalistas poderem viajar para a Coreia do Norte, fornecendo-lhes um meio de transporte", anunciou um porta-voz do Ministério da Unificação da Coreia do Sul. A Coreia do Sul está a ponderar fretar um avião

para ir directamente ao local, algo extremamente raro entre os dois países que, na ausência de um tratado de paz após a Guerra da Coreia (1950-53), continuam tecnicamente em guerra. Ao que tudo indica, oito jornalistas sul-coreanos vão poder assistir à destruição dos túneis e desmantelamento dos postos de observação e das instalações de pesquisa de energia nuclear na central, trabalhos que deverão decorrer até sexta-feira. A lista de jornalistas sul-coreanos, que se encontrava já em Pequim, foi rejeitada por

Pyongyang na terça-feira, de acordo com os responsáveis da Coreia do Sul. Foram convidados para assistirem a este desmantelamento inédito um grande número de jornalistas estrangeiros. Na terça-feira, repórteres da China, Rússia e Estados Unidos embarcaram no aeroporto internacional de Pequim para Wonsan, na Coreia do Norte, de onde seguiram de comboio e de autocarro, durante cerca de 20 horas, até à base nuclear. ACoreia do Norte realizou seis testes nucleares subterrâneos em Punggye-ri, tendo o

Tecnologia Samsung produz microprocessadores com sete nanómetros último, em Setembro do ano passado, sido o mais potente. Entretanto, o chefe da diplomacia norte-americana afirmou na terça-feira estar a trabalhar com o objectivo de o encontro se realizar entre Trump e Kim se realizar a 12 de Junho. Mike Pompeo fez estas declarações depois de o Presidente norte-americano ter afirmado existir uma “possibilidade significativa” do encontro com não se realizar na data prevista.

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empresa multinacional Samsung Electronics anunciou que vai começar a produzir microprocessadores com sete nanómetros, o menor no mercado, e que os quer disponibilizar a partir de 2019. A empresa fez este anúncio, na terça-feira, durante um fórum anual da subsidiária Samsung Foundry realizada nos Estados Unidos e revelou ainda estar a tentar desenvolver microprocessadores com cinco, quatro e três nanómetros. Sete nanómetros

são mil vezes menores do que um glóbulo vermelho. A gigante IBM já tinha anunciado em meados de 2015 que tinha começado a desenvolver e a fabricar microprocessadores com sete nanómetros. Agora, os analistas defendem que a entrada da Samsung nesta nova tecnologia visa reforçar o seu domínio contra os seus principais concorrentes: IBM, a Apple, Qualcomm e Taiwan Semiconductor Manufacturing.


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24.5.2018 quinta-feira


quinta-feira 24.5.2018

A felicidade consiste pois numa adaptacão ´ razoavelmente exacta à monotonia da vida diários de próspero António Cabrita

Um tremendo fotógrafo

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NCONTRA-SE ainda no Camões, em Maputo, uma excelente exposição antológica de José Cabral, o primeiro fotógrafo moçambicano a assumir uma postura de “autor”, fugindo do foto-jornalismo e da “epicidade colectiva” que foi apanágio da geração anterior – cujas figuras de proa foram Ricardo Rangel e Kok Nam – para dar o salto “da fotografia testemunhal e de intervenção” e adoptar, no dizer de Alexandre Pomar “uma outra forma expressão de activismo que não está do lado imediato da denúncia, esse lugar tão ocupado e gasto, mas sim do lado sensível da confiança e da convivência, fraterna e íntima ou intimista”. Por isso se tornou José Cabral numa ponte entre a velha geração e a nova geração – Luís Basto, Mauro Pinto, Mauro Macilau e Filipe Branquinho. À entrada da exposição lêem-se duas declarações do fotógrafo. Diz uma delas: “O acto fotográfico? Há dois tipos de potencialidades, as que estão dentro de mim e as que estão fora, e quando estas duas se encontram há a fotografia”. Ora, isto é análogo ao que defendia Cartier-Bresson: “Fotografar, é pôr a cabeça, o olho e o coração no mesmo ponto de mira”. Ambas as frases apontam para uma indivisibilidade entre o corpo e o acto de fotografar, que tornam o observador e o observado um. Quando isto acontece a fotografia capta a essência do momento, isto é, acontece nela uma espécie de dobra pela qual o reconhecimento documental do assunto ou tema fotografado se duplica na organização rigorosa das formas, percebidas visualmente na composição que reitera e ilumina esse facto. Dou três exemplos. A foto do cartaz do Museu Al Capone, onde por “um acaso objectivo da luz” (como diriam os surrealistas) a silhueta da cidade se reflecte na parte de baixo do vidro que protege a foto do gângster, como se a cidade estivesse contida no seu ventre - e assim se transformou a imagem na metáfora do poder que o gângster teve sobre Chicago. Só um olhar muito treinado percebia o valor expressivo dos reflexos no vidro para sustentar o que a figura simbolizava. Na fotografia escolhida para a capa do álbum que a exposição complementa – Moçambique, organizado por Alexandre Pomar -, a força do “dito” é um efeito da com-

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posição da foto: um casal, ela de trouxa na cabeça, passa ao lado de uma montra com uma cortina que lhes esconde o que esteja à venda, como se o direito ao que lhes está lá lhes fosse vedado. As pregas da cortina prolongam a infinito o eixo horizontal. Mas a dignidade com que eles caminham, quase hieráticos, confere-lhes uma verticalidade que os coloca acima das circunstâncias (leia-se sociais) de que padecem. Leitura que só podia dar-se naquele momento de centralidade em que eles se encontram em relação à montra, dois passos antes ou dois passos depois e essa “dimensão oculta” e estrutural da composição da fotografia diluía-se.

Só um olhar muito treinado percebia o valor expressivo dos reflexos no vidro para sustentar o que a figura simbolizava O terceiro exemplo é um caso de pundonor. A foto pertence ao ciclo “Os Americanos” e foi captada em Santa Fé, no Novo México. Um cowboy orgulhoso é fotografado contra uma montra onde, à exacta altura da sua cabeça, se encontram outros chapéus de vaqueiro. O seu olhar, colaborando com a foto, é de orgulho, ou seja, naquele momento ele representa um tipo humano, de bem consigo; naquele momento deixa de ser um cowboy singular para se tornar um ícone. Nos três casos as figuras representadas têm uma enorme “qualidade de presença”, um rasgo imprescindível para detectar uma obra de arte, segundo Walter Benjamin. Contudo, faça-se a ressalva, pois para o ensaísta alemão, uma fotografia, por ser um objecto reproduzido mecanicamente não podia ter uma presença genuína. Entre outras características, esta exposição demonstra-nos que Benjamin nem sempre estava certo. E a qualidade desta exposição torna ainda mais trágico que não haja uma verdadeira circulação de bens culturais entre os rincões do mundo onde se fala o português.


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24.5.2018 quinta-feira

FUTEBOL UNAI EMERY CONFIRMADO COMO NOVO TREINADOR DO ARSENAL

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ANDEBOL FC PORTO E SPORTING DEFRONTAM-SE NA TAÇA DE PORTUGAL

Modalidade em cheque

FC Porto e Sporting disputam o acesso à final da Taça de Portugal de andebol, nas meias-finais da competição, no Peso da Régua, onde Benfica e o ‘outsider’ FC Gaia disputam a outra vaga no jogo decisivo

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encontro entre o recém bicampeão nacional Sporting e o FC Porto, numa reedição do último duelo da fase final, que os portistas venceram no sábado por 31-26, no Pavilhão João Rocha, em Lisboa, é o jogo ‘grande’ das meias-finais da Taça de Portugal. Arredado das grandes conquistas - o campeonato ‘foge’ há três épocas -, depois de ter somado sete consecutivos, o FC Porto tem nesta prova a derradeira oportunidade de não ficar em branco na época de 2017/18 e suceder no historial ao ausente ABC. Para marcar presença nas meias-finais da Taça de Portugal, o FC Porto afastou nos quartos de final o Belenenses (32-18), nos ‘oitavos’aAcadémica de São Mamede (44-21) e nos 16 avos o Marítimo (37-23). O Sporting, que viu abalada a sua estrutura com suspeitas de corrupção na conquista do título de

campeão de 2016/17, tem marcado presença nas principais decisões das últimas épocas e pretende juntar a conquista da Taça ao campeonato. A equipa ‘leonina’ eliminou nos quartos de final o Avanca (40-24), na altura treinado pelo actual treinador do FC Porto, Carlos Martingo, nos ‘oitavos’ afastou o Santo Tirso (36-17) e nos 16 avos de final oAlto do Moinho (41-18). O Sporting procura alcançar pelo terceiro ano consecutivo a final da Taça de Portugal. Em 2016/17 e 2015/16, a formação ‘leonina’ saiu derrotada no prolongamento nas finais disputadas com ABC (35-33) e Benfica (36-35), respectivamente.

Quando FC Porto e Sporting iniciarem sábado o seu jogo, pelas 17h30, no Pavilhão Municipal do Peso da Régua, já terá sido encontrado o primeiro finalista, a sair do encontro que opõe o Benfica ao FC Gaia, a ter início pelas 15h.

A OUTRA METADE

O Benfica, vice-campeão nacional, em igualdade pontual com o FC Porto, terceiro, e a seis pontos do campeão Sporting, parte para o jogo com o secundário FC Gaia com o estatuto de superfavorito. A formação ‘encarnada’ chegou à ‘final four’depois de afastar o São Bernardo (28-25), depois de

O Sporting, que viu abalada a sua estrutura com suspeitas de corrupção na conquista do título de campeão de 2016/17, tem marcado presença nas principais decisões das últimas épocas

ter eliminado Benavente (45-18) e Arsenal Devesa (39-25). O Benfica terá como opositor na meia-final o surpreendente FC Gaia, da segunda divisão, sobrevivente desde a primeira ronda da Taça de Portugal, que foi o ‘tomba-gigantes’ dos quartos de final ao eliminar o Madeira SAD (29-27). O percurso do FC Gaia até à inédita presença na ‘final four’ fez-se ainda às custas da eliminação nos oitavos de final do AC Fafe (32-27), nos 16 avos de final do AA Almeirim (4618), na segunda eliminatória do Estarreja (36-26) e na primeira do CP Natação (30-22). O Sporting, com 15 triunfos, é o clube que por mais vezes ergueu a Taça de Portugal, seguido a curta distância pelo ABC, com 12, do FC Porto, com sete, e do Benfica, com cinco. O FC Gaia procura conquistar a sua primeira taça de Portugal.

espanhol Unai Emery foi confirmado como novo treinador do Arsenal, substituindo no comando da equipa da liga inglesa de futebol o francês Arsène Wenger, que esteve 22 anos nos ‘gunners’. Depois de dois anos à frente do Paris Saint-Germain, Emery, que este ano venceu Liga francesa, Taça de França e Taça da Liga, assina agora pelos ‘gunners’, que não informaram da duração do contrato. “Estou muito entusiasmado por me juntar a um dos grandes clubes. Arsenal é conhecido e amado por todo o mundo graças ao seu estilo de jogo, o seu compromisso com os jogadores jovens, o estádio fantástico”, disse Emery, de 46 anos. O espanhol diz estar animado por lhe ter sido dada “a responsabilidade de começar este novo capítulo na história do Arsenal” e que acredita que pode dar “a todos os que amam o Arsenal algumas memórias e momentos especiais”. Antes de chegar aos parisienses, o treinador espanhol levou o Sevilha à conquista de três Ligas Europa consecutivas. Emery vai substituir Wenger, que esteve 22 anos à frente dos ‘gunners’, conquistando três ligas inglesas, sete Taças de Inglaterra e sete Supertaças inglesas. O director executivo dos ‘gunners’, Ivan Gazidis, lembrou o “fantástico caminho de sucesso” de Emery, que “desenvolveu alguns dos melhores talentos da Europa”, considerando que o espanhol joga “um estilo de jogo entusiasmante, de ataque, que se adapta ao Arsenal”.

Futebol Michel Preud’homme vai treinar o Standard de Liège

O antigo guarda-redes internacional belga Michel Preud’homme vai ser o treinador do Standard de Liège durante os próximos quatro anos e vice-presidente do clube, anunciou ontem o presidente da “Rouches”, Bruno Venanzi. Preud’homme, de 59 anos, sucede ao português Ricardo Sá Pinto, que anunciou a saída no domingo após o empate 0-0 no terreno do Charleroi, no 10.º e último jogo da fase final do campeonato belga. Michel Preud’homme, que foi considerado o melhor guarda-redes do Campeonato do Mundo de 1994, já tinha treinado o Standard que ganhou o título de campeão em 2008. Depois de ter treinado o La Gantoise, o FC Brugge, o FC Twente (Holanda) e o Al Shabab (Arábia Saudita), o antigo Red Devil teve um ano sabático, apesar das negociações com os franceses Girondin de Bordeaux. Na próxima temporada, o Standard de Liège vai jogar a terceira ronda preliminar da Liga dos Campeões.


(f)utilidades 17

quinta-feira 24.5.2018

POUCO

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O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

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CONCERTO | UMA NOITE COM PIANO NA GALERIA Fundação Rui Cunha | 18h00

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CINEMA | CARTAS DA GUERRA, DE IVO FERREIRA Cinemateca Paixão | 21h30

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23 6 2 4 7 9 3 8 7 4 2 9 1 5 8 6 SOLO: A STAR WARS STORY [B] 2 6 1 5 4 7 3 9 2 1 5 4 8 6 3 THE CRIMES THAT BIND [B] 1 5 2 3 7 4 9 3 1 8 8 7 6 9 5 SALA 1

Um filme de: Ron Howard Com: Alden Ehrenreich, Woody Harrelson, Emilia Clarke 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 SALA 2

FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Katsuo Fukuazawa Com: Hiroshi Abe, Nanako Matasushima, Junpei Mizobata 14.30, 16.45, 19.00

AVENGERS: INFINITY WAR [B] Um filme de: Anthony Russo, Joe Russo

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Sexta-feira

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O CARTOON STEPH 20

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5 3 8 1 1SOLO:9A STAR 5 WARS 6 STORY 3 7 4 2 9 8 3 7 8 ONLY5IMAGINE 6 [B]4 I CAN 7 2 1 9 6 4 9 8 DESTINY: THE TALE OF KAMAKURA 2 6 [B] 7 5 4 1 2 3 SALA 3

Um filme de: Jon Erwin & Andrew Erwin Com: Dennis Quaid, J.Michael Finley, Madelline Carroll 14.30, 16.30, 21.45

FALADO EM JAPONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Takashi Yamazaki Com: Masato Sakai,Mitsuki Takahata 19.15

BAHT

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DE

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Com: Robert Downey Jr., Chris Evans, Chris Hemsworth 21.15

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GUIZHOU QUE NOS VALHA

CINEMA | CHUVA PASSAGEIRA Cinemateca Paixão | 19h30 e 21h30

Sábado 19 CONCERTO | SATURDAY NIGHT JAZZ 9 7Rui Cunha 2 3 8 1 4 5 6 Fundação 6 3 8 2 5 4 1 7 9 CINEMA | IRMÃS, DE TRACY CHOI Cinemateca 16h306 9 8 2 3 5 1 Paixão 4 |7 7 8 5 4 3 2 6 9 1 Domingo CINEMA IVO FERREIRA 3 |4CARTAS1DA GUERRA, 5 9 DE 6 2 8 7 Cinemateca Paixão | 16h30 2 6 9 1 7 8 5 3 4 1 2 7 9 4 5 3 6 8 Cineteatro 8 5 3 C 6 1I 7N 9E 4 M2 4 9 6 8 2 3 7 1 5

EURO

VIDA DE CÃO

CONFERÊNCIA | “COOPERAÇÃO NO QUADRO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO OCEANO E DAS ZONAS COSTEIRAS” Fundação Rui Cunha | 18h30

CONCERTO | “LE SYNDICAT DU CHROME” Live Music Association | A partir das 22h

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SOLUÇÃO DO PROBLEMA 20

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22 7 4LIVRO 3 5 8HOJE 2 1 6 UM 5 9 6 4 3 1 8 2 O1 título8deste2livro7foi a9inspiração 6 3para5 o nome da banda The Doors. O clássico 9 7que descreve 1 3 a5experiência 4 2 de8 ensaio Huxley com mescalina, um poderoso 6 2 5 9 1 8 7 4 psicadélico, leva o leitor pelas reflexões do8autor 3enquanto 4 2esteve 6 sobre 7 o9efeito1 da droga. O autor perde-se em raciocí3 sobre 1 a7forma 8 como 4 percepciona 5 6 9 nios os significados da arte e da religião. O 2 baseia-se 5 8 no6registo 7 que 9 um4psi-3 livro quiatra recolheu durante a experiência 4 6 9 1 2 3 5 7 de Aldous Huxley, mas também sobre a forma como se relacionaram nesse dia. A metáfora das portas da percepção surgiu enquanto o autor reflectia na obra de Vermeer. Esta obra deAldous Huxley 3 9 um2clássico 6 5da geração 8 7dos4 tornou-se anos 1960 e uma referência na cultura 1 5 7 4 2 9 8 6 psicadélica. João Luz

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4 8 1 9 3 5 8 6 2 4 7 3 6www. 1

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PROBLEMA 21

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20 Assistimos esta semana a notícias sobre a participação de Macau no 3 de combate à pobreza na província Guizhou, na China. Ponto número um: 3 este apoio 2 pois somos uma nada contra região especial da Chi1 administrativa 2 4 na. Ponto número dois: é importante reconhecer que o boom económico 3 9 7 chinês trouxe enormes desigualdades 3 que permanecem 9 1resolver. sociais por Oxalá mais acções de apoio se façam 5 2 6 para que, no continente, a pobreza diminua o mais 5 possível. 7 9Contudo, seria coerente e até urgente que o 5 Governo 1 nosso resolvesse a pobreza escondida que existe no território com um9Produto Interno Bruto elevadíssi-6 mo. A pobreza dos que trabalham cá e não têm acesso a subsídios ou apoios 22 públicos, aos cheques pecuniários, que vivem em beliches, amontoados, eter7 4condenados a contar tostões.6 namente Olhe para os residentes que sim, vivem 6 porque 3 1a inflação com dificuldades não pára de aumentar, 7 nem os preços das casas. E não, não se pode voltar a falar de um mercado 9 da existência 1 2 livre. O Executivo da RAEM pode 7 4 olhar pela pobreza de Guizhou e ajudar o Governo Central, mas deve olhar 8 6 para a construção de novos hospitais em Macau, para a solução 4 das cheias 6 9 anuais no território, para a construção 8 de esgotos digno no de 2 um sistema centro histórico. Situações típicas de países de terceiro1mundo. Andreia Sofia Silva

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18 opinião

24.5.2018 quinta-feira

RUI TAVARES

In Público

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eis que as esperanças dos euro-apocalípticos se viram agora para a Itália e para o Governo de coligação entre a Liga (antiga Liga Norte, de extrema-direita e ex-separatista) e o Movimento 5 Estrelas (partido do cómico Beppe Grillo e de um eclético populismo anti-sistema). Altura de olhar então para o novo Governo italiano e perguntar: é agora que chega o fim da Europa? Em primeiro lugar, uma palavra para como chegámos aqui. Duas palavras, na verdade: Matteo Renzi. Foi o ex-primeiro-ministro italiano que decidiu apostar tudo num referendo constitucional de grande complexidade, reduzindo-o a uma escolha entre ele e o caos. Os italianos rejeitaram massivamente a chantagem de Renzi, e este não teve outro remédio se não demitir-se. Passado poucos dias já estava arrependido e agarrou-se à liderança do seu Partido Democrático para fazer sombra ao novo primeiro-ministro, Paolo Gentiloni, enquanto este conseguia ir gerindo o governo com discrição e eficácia, e até finalmente apresentar alguns resultados económicos moderadamente favoráveis. Mas as eleições aproximavam-se e Matteo Renzi lá se apresentou como candidato principal, sem dar espaço a Gentiloni. Depois de um novo resultado negativo, Renzi lá apresentou (outra vez) a demissão de secretário-geral mas não, como dizem os seus apoiantes, de “líder”. A partir da sombra continuou a condicionar o seu partido e, em particular, tudo fez para impedir a formação de um governo entre o Partido Democrático e o Movimento 5 Estrelas, hipótese que constituiria um obstáculo para a sua estratégia de regresso ao poder. E assim ele lá ameaçou partir o Partido Democrático ao meio se a nova direção se arriscasse a dialogar com o 5 Estrelas. Como então escrevi, a formação de um Governo apoiado pelo Partido Democrático e o 5 Estrelas seria a melhor solução para a Itália, tendo em conta os resultados. O 5 Estrelas recolheu principalmente votos de esquerda e sobretudo do Sul do país. Por outro lado, à falta de melhor plataforma para a participação política fora dos partidos tradicionais, o 5 Estrelas foi gradualmente agregando alguns candidatos com boa reflexão sobre os problemas de Itália e da Europa. As suas propostas keynesianas para a economia, se combinadas com as políticas sociais mais progressistas do Partido Democrático, poderiam resultar num governo que surpreenderia positivamente os observadores europeus e internacionais. Foi isso que Renzi conseguiu impedir. E o Governo Liga-5 Estrelas, que começou a formar-se quando goradas as possibilidades de diálogo com o Partido De-

LAURENT DE LA HYRE, THE RAPE OF EUROPA

Mamma mia! É agora que acaba a Europa?

mocrático? Comecemos pelo confronto com a União Europeia, que a Liga tinha prometido durante a campanha e que economistas a ela ligados, como Alberto Bagnai e Claudio Borghi, tinham acicatado nas redes sociais. O

O novo Governo italiano é como de costume: caótico, contraditório e provavelmente curto

primeiro destes, oriundo da esquerda e agora rendido ao nacionalismo da Liga por via da eurofobia, começou a recuar sinalizando que a saída do euro “não era uma prioridade” — para dizer o mínimo. Quanto ao segundo, que é aliás pouco mais do que um charlatão que pretendia pagar as pensões e salários dos italianos com denominações reduzidas da dívida pública chamadas “minibots”, já veio desligar-se do novo programa de governo dizendo que pouco tem a ver com ele. Os verdadeiros crentes na saída do euro

ficarão agora desiludidos e irão engrossar as fileiras de partidos fascistas italianos como a Casa Pound. Mas, de resto, o novo governo italiano é como de costume: caótico, contraditório e provavelmente curto. E não, não é por ali que acaba a União Europeia. O que este episódio veio novamente demonstrar é que a política dos euro-apocalípticos é um beco sem saída. A única verdadeira alternativa não é torcer pelo fim do projecto europeu, é explicar o que se quer fazer com ele.


opinião 19

quinta-feira 24.5.2018

bairro do oriente LEOCARDO

Sporting!

Agora que tenho a vossa atenção...

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OJE decidi falar do Sporting, o tema quente do momento. Estava a pensar a guardar a minha costela de pseudo-jornalista desportivo para o mundial de futebol, que arranca no próximo mês na Rússia, mas é impossível ficar indiferente. Até porque o tema não se esgota dentro das quatro linhas. Falar hoje do futebol em Portugal no seu geral, e da situação do Sporting em particular tem muito mais que se lhe diga. Mesmo quem não percebe patavina do desporto-rei, tem certamente uma opinião formada sobre os últimos acontecimentos envolvendo o clube da capital, um dos ditos três grandes em Portugal. Tenho amigos sportinguistas, gente de bem, e tenho a certeza que se estiverem a ler estas linhas, vão ter em conta de que isto se trata de um artigo de opinião. Mais nada. O problema, ou os problemas do Sporting, sobretudo os mais recentes, parecem orbitar todos em volta da mesma pessoa: o seu presidente, Bruno de Carvalho. Respeito a escolha do sportinguistas, que o elegeram por duas vezes, a última delas no ano passado, mas é difícil entender porque é que alguns deles ainda ficam do seu lado. Há um mês e meio Bruno de Carvalho criticou

duramente a equipa de futebol após uma derrota em Madrid numa partida a contar para a Liga Europa, e após uma declaração conjunta de repúdio a essas declarações por parte dos jogadores, ameaçou suspender toda a equipa principal, chegando mesmo a colocar-se a hipótese do clube alinhar com as reservas – isto numa altura em que o Sporting ainda discutia o campeonato nacional. Os ânimos ficaram mais ou menos serenados até à semana passada, quando após uma derrota na última jornada da Liga, que relegou o Sporting para o 3º lugar da classificação final, um grupo de alegados adeptos leoninos invadiu as instalações do centro de estágio da equipa, em Alcochete, agredindo jogadores, equipa técnica e outros funcionários do clube. O caldo estava definitivamente entornado. O caso extravazou para fora do mundo do futebol; afinal tratou-se de um ataque a profissionais, e pouco importa do quê, dentro do seu local de trabalho. É também uma questão de segurança, no fundo. O presidente Bruno de Carvalho começou, e mal, por desvalorizar o sucedido, e suspeita-se que os

Com o estado actual de coisas, nenhum atleta profissional no seu perfeito juízo ponderaria representar um clube que não lhe garantisse desde a primeira hora estabilidade

actos cometidos contra os jogadores e outro património do clube terá ocorrido com a sua anuência, o que é extremamente grave. Os atletas ameaçam agora com rescisões por justa causa, e para piorar a situação a equipa veio a perder na final da Taça de Portugal no último Domingo, frente ao Desp. das Aves. Foi a cereja no topo do bolo daquele que tem sido o “annus horribilis” do clube de Alvalade. Estranhamente, Bruno de Carvalho não se demitiu, e tudo indica que não o fará de ânimo. Se o problema fosse com o treinador ou com um jogador, certamente que este já não estaria no Sporting. O caso, que em tudo se assemelha a uma novela mexicana, ou a um qualquer folhetim de pouca qualidade, tem tido todos os dias novos desenvolvimentos, e entre o tempo que escrevo estas linhas e amanhã, quando sairem nas páginas deste jornal, sabe-se lá o que mais terá acontecido. O Sporting, quer se goste ou não, é uma instituição centenária, e que durante a sua longa história formou milhares de homens e mulheres, que se orgulharam e orgulham de vestir as suas cores. Os adeptos e simpatizantes do clube merecem muito mais do que Bruno de Carvalho lhes pode oferecer, que não é nada que se aproveite. Com o estado actual de coisas, nenhum atleta profissional no seu perfeito juízo ponderaria representar um clube que não lhe garantisse desde a primeira hora estabilidade. Os sportinguistas precisam de virar esta página negra do clube e recomeçar, enquanto é tempo. E com Bruno de Carvalho fora da equação, naturalmente.


O mundo está cheio de gente vazia. Sofocleto

PALAVRA DO DIA

FSS 41 empregadores inscritos no regime de previdência central não obrigatório

DIPLOMACIA WASHINGTON EMITE ALERTA APÓS LESÃO DE FUNCIONÁRIO

Desde a entrada em vigor do regime de previdência central não obrigatório, no início do ano, 41 empresas procederam a respectiva inscrição. De acordo com Chan Pou Wan, vice-presidente do Conselho de Administração do Fundo de Segurança Social (FSS), trata-se de uma adesão satisfatória. De acordo com informação veiculada pelo jornal Ou Mun, até ao dia 21 de Maio, foram contabilizados mais de 7,5 mil participantes nos planos individuais e 41 empregadores nos planos conjuntos, sendo que estes são, na sua maioria, instituições ligadas a serviços sociais. De acordo com a mesma fonte, a Caritas Macau vai integrar o regime brevemente.

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embaixada norte-americana na China emitiu ontem um alerta depois de um funcionário do seu Governo ter sofrido uma lesão cerebral, com sintomas semelhantes aos sofridos por diplomatas dos Estados Unidos em Cuba, que mais tarde adoeceram. As autoridades norte-americanas e chinesas estão actualmente a investigar o caso do funcionário, que trabalhava em Cantão, sul do país, onde os EUA têm um consulado, e que foi diagnosticado com lesão cerebral traumática leve, segundo Jinnie Lee, porta-voz da embaixada. O alerta de saúde foi enviado via correio electrónico para cidadãos norte-americanos residentes na China. A embaixada diz desconhecer o motivo dos sintomas, ou se há outros casos no país. No ano passado, os Estados Unidos anunciaram que 24 diplomatas e respectivos familiares estacionados em Cuba experimentaram misteriosos “ataques acústicos”, que provocaram sintomas como perda auditiva, náuseas, tonturas, dor facial, dor abdominal, problemas cognitivos e danos cerebrais. Também o Canadá reportou dez pessoas com sintomas semelhantes. “Não podemos relacionar (o incidente na China) com o que aconteceu em Havana, mas estamos a estudar todas as possibilidades”, disse um representante da embaixada dos EUA, que pediu anonimato, aos jornalistas em Pequim.

quinta-feira 24.5.2018

China tem o maior mercado cinematográfico do mundo

Ao sabor do improviso Sporting celebra regresso a Macau com alguns imprevistos

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Sporting, o primeiro clube a visitar a China antes do estabelecimento das relações diplomáticas com Portugal, em 1979, regressou a Macau 40 anos depois com a equipa B, num clima de celebrações e algumas situações inesperadas. “Estava previsto que a nossa viagem fosse mais longa, que incluísse o território da China [continental]. Havia a ideia de que podíamos jogar ali alguns jogos e que alguns elementos, nomeadamente o presidente, pudessem cá estar, mas as coisas acabaram por não acontecer”, disse à Lusa o técnico da equipa, Luís Martins. O Sporting tem vivido dias conturbados. Em 15 de Maio, antes do primeiro treino para a final da Taça de Portugal, a equipa de futebol do Sporting

foi atacada na Academia do clube, em Alcochete, por um grupo de cerca de 50 alegados adeptos do clube, que agrediram técnicos e jogadores, tendo a GNR detido 23 dos atacantes. “Temos de nos agarrar ao que temos, ao que fizemos e ao que devemos fazer, e não pensar no que não foi feito”, disse o técnico, relativizando assim os acontecimentos. “O nome do Sporting é de tal maneira importante que acaba por ser um prazer estar aqui, mas também uma responsabilidade. Entendeu a administração que devíamos representar Portugal aqui neste território e assim o fizemos com muito orgulho, com a consciência que tínhamos de ser dignos e responsáveis”, concluiu. Miguel Martins, um dos responsáveis pelo museu do

Sporting, lembrou a “digressão histórica” de 1978, um ano antes do estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e Portugal, em 1979. “Quando a China estava ainda fechada ao mundo, o Sporting conseguiu representar esta visita, que passou por cidades como Macau e Pequim”, disse, acrescentando: “Mais do que pelo desporto, o futebol foi um pretexto para um acto político. Estamos aqui para recordar esse momento, para celebrar e reforçar as relações estabelecidas há 40 anos”. O Sporting B derrotou na segunda-feira a seleção de Macau por 7-0. Marco Túlio, Ronaldo Tavares, Ary Papel, Kenedy, Pedro Marques, Diogo Brás e Guilherme Ramos apontaram os golos da vitória ‘leonina’.

A China ultrapassou os Estados Unidos como o maior mercado cinematográfico do mundo, no primeiro trimestre de 2018, sobretudo devido aos resultados de bilheteira de produções domésticas, segundo dados de ambos os países agora divulgados. Os cinemas chineses registaram receitas no valor de 2,70 mil milhões de euros, entre Janeiro e Março, segundo o China Movie Data Information Network, que recolhe dados do sector. Nos Estados Unidos, as receitas fixaram-se em 2,43 mil milhões de euros, segundo a revista norte-americana Variety. Quase 75 por cento das receitas de bilheteira na China, no trimestre em análise, foram geradas por filmes chineses. No top 10 existem sete produções locais, incluindo os cinco primeiros lugares. A importação de filmes continua a ser monopólio do Estado chinês, que permite apenas a exibição de 34 obras estrangeiras por ano nas salas de cinema do país.

Óbito Morreu o escritor Philip Roth

O escritor norte-americano Philip Roth morreu de insuficiência cardíaca na terça-feira, aos 85 anos, disse o agente literário, Andrew Wilie, à agência noticiosa Associated Press. Natural de Newark, Nova Jérsia, o premiado romancista, habitualmente mencionado como candidato ao Nobel da Literatura, era considerado um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX. Autor de cerca de três dezenas de livros, tinha anunciado a decisão de deixar de escrever a partir de 2012, aos 78 anos. Entre várias distinções, Philip Roth foi premiado com dois National Book Awards, dois National Book Critics Circle e, em 1998, com o Pulitzer a partir da ficção “Pastoral Americana”. Roth foi ainda galardoado com o Prémio Internacional Man Booker em 2011 e, um ano depois, venceu o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura. O livro “O Complexo de Portnoy” teve grande impacto junto do grande público em 1969, devido às cruas descrições sexuais e à maneira de abordar a vivência judaica.

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Hoje Macau 24 MAI 2018 #4057  

N.º 4057 de 24 de MAI de 2018

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