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INSTITUTO CULTURAL

CASA GARDEN

Das chefias O erro de Uma tela ao canídromo Ung Vai Meng lusófona PÁGINAS 6-7

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EVENTOS

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Querer ser Deus OPINIÃO RUI FLORES

Do obscurantismo h

VALÉRIO ROMÃO

hojemacau

SOFIA MARGARIDA MOTA

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

CHUI SAI ON

JOSÉ PEREIRA COUTINHO DEPUTADO

“CAEAL não tem vontade de enfrentar os problemas” ENTREVISTA

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MOP$10

SEGUNDA-FEIRA 24 DE ABRIL DE 2017 • ANO XVI • Nº 3798

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ


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JOSÉ PEREIRA COUTINHO

ENTREVISTA

José Pereira Coutinho vai manter a composição da lista Nova Esperança para as eleições de Setembro, com uma novidade: Gilberto Camacho. Rita Santos será mandatária da candidatura. O deputado acredita que Sónia Chan será um nome apontado para o cargo de Chefe do Executivo por influência de O Lam, chefe de gabinete de Chui Sai On, mas diz que Ho Iat Seng é o que mais se destaca na corrida

SOFIA MARGARIDA MOTA

DEPUTADO

Ho Iat Seng disse que o trabalho de fiscalização levado a cabo por parte da Assembleia Legislativa (AL) melhorou. Concorda com estas declarações? Não concordo pela simples razão de que se está a passar uma ideia de que a AL tem melhorado nos seus trabalhos. O facto dos dois pedidos de debate sobre questões de interesse público terem obtido votos suficientes [não é suficiente], porque nunca teriam obtido pernas para andar se fossem submetidos há um ou dois anos atrás. Há ainda o facto de ninguém ter pedido a palavra quando o meu colega [Leong Veng Chai] apresentou o pedido de debate. A AL é bastante conivente com o Governo. Fiquei contente que cerca de 20 deputados tenham apoiado a minha proposta relativa ao Pearl Horizon e, pela primeira vez, houve um consenso, porque estamos às portas das eleições.

Gostaria que houvesse eleições todos os anos para a AL, porque assim os problemas de Macau seriam resolvidos e fiscalizados. Não há margem de dúvidas de que o Governo é o porta-aviões e a AL faz parte dos navios de abastecimento que o acompanham. Temos estado a pedir mais transparência ao Governo quando a própria AL é pouco transparente.

primeiros a criar problemas à sociedade. Quando o Governo mete um diploma proibindo fumo em todos os casinos, o diploma é aprovado por uma grande maioria dos deputados, chega à comissão permanente na especialidade, os deputados mudam de posição e o diploma, na sua estrutura, a base da nota justificativa, muda.

Foi tudo alterado. A meu ver, esse diploma deveria ser retirado pelo Governo e nunca teria sido permitido que o mesmo pudesse ser analisado na especialidade. Desvirtuou-se por completo o ponto de partida, que era a proibição de fumo em todos os casinos. Sou contra esta forma de actuação da própria AL. Violaram-se todas as normas procedimentais da AL.

Como é que esse aspecto poderia ser ultrapassado? Deveria perguntar-se ao presidente da AL porque é que esta é tão opaca. Estou bastante desiludido pelo facto das seis comissões de trabalho serem à porta fechada e os meios de comunicação social não terem acesso. Com que legitimidade temos nós, AL, o descaramento de pedir ao Governo mais transparência, quando nós somos tão fechados e opacos. Somos os

“A secretária para a Administração e Justiça é uma forte candidata ao cargo de Chefe do Executivo, com a bênção da actual chefe de gabinete do Chefe do Executivo, O Lam.”

Há uma falta de consciência ou de responsabilização relativamente ao acto de votar no hemiciclo? Vota-se porque sim e não se pensa nas consequências? Vota-se por votar. E há pouca divulgação e sensibilidade, por parte da população, em relação ao sentido de voto dos deputados. É preciso educar e sensibilizar a população em relação ao sentido de votação dos deputados. É preciso responsabilizar os deputados pelo acto da escolha, quer seja


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“Estas eleições serão sempre injustas” “Deveria perguntar-se ao presidente da AL porque é que esta é tão opaca. Estou bastante desiludido pelo facto das seis comissões de trabalho serem à porta fechada e os meios de comunicação social não terem acesso.” jornais, em que o Governo recuperou um terreno na Taipa, junto ao quartel dos bombeiros. Mas não se pergunta porque é que não se incrimina o ocupante ilegal do terreno, durante 20 anos, não se pede o arrendamento, e não se divulga quem ocupou o terreno? Isso é de bradar aos céus. O Governo desocupa e não pede responsabilidades. Se não são negociatas, não sei o que é que será.

contra ou a favor, e também nas abstenções. Os deputados têm de ser responsabilizados pelos meios de comunicação social, têm de encontrar justificações da sua conduta dentro da AL. Não existe um eficiente sistema de verificação para que a AL consiga executar a sua missão nobre de fiscalizar a actividade governativa. Pagamos um elevado preço com os escândalos que vão aparecendo. A Lei de Terras é um exemplo. O primeiro escândalo foi o ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas (Ao Man Long). E o segundo está neste momento a decorrer, que é o julgamento de Ho Chio Meng, e não me cabe a mim pronunciar-me muito para não interferir no julgamento. Mas pelo que se lê nos media dá para perceber que a RAEM não aprendeu a lição. Fico espantado com casos como o que li hoje nos

O antigo secretário Lau Si Io deveria ter tido a iniciativa de vir a público falar sobre os alegados erros do passado? Acercar responsabilidades sobre o caso da Lei de Terras a Lau Si Io não será justo, porque a Lei de Terras passou pelo Conselho Executivo, e estão lá representantes de todos os quadrantes da sociedade. Não é por acaso que na AL temos deputados que têm uma perna no Conselho Executivo. Devemos acercar responsabilidades às instituições em si e ao dirigente máximo da RAEM. Ser o dirigente da RAEM e falar a quatro ventos da predominância do Executivo não deve ser só nos momentos de festa. Deve ser dito nos momentos mais difíceis, em que tem de tomar responsabilidades e tomar decisões. Em relação à responsabilização, ou à falta dela, têm vindo a público muitos relatórios do CCAC e CA. Nunca se verificam grandes mudanças após a sua publicação. Considera que já era tempo de

Macau voltar a ter um tribunal de contas, como teve durante a Administração portuguesa? Concordo, e fui daqueles que sugeri a alteração da lei orgânica do Comissariado de Auditoria (CA) para, de facto, haver mecanismos preventivos e de assumpção das responsabilidades por parte das entidades antes de elaborarem os orçamentos ou de utilizarem as verbas avultadas, que são acções que merecem uma ponderação e supervisão mais adequada, feita por órgãos independentes, tal como um tribunal de contas. Mas não me parece que isto convenha... hoje em dia cada vez menos pessoas têm interesse em ler os relatórios onde se denunciam irregularidades e ilegalidades e depois misturam-se esses dois conceitos. Isto é muito mau, porque afecta o primado da lei e estamos a tratar as pessoas de forma desigual. Não podemos pintar as irregularidades, chamando-as de ilegalidades. Se formos por este caminho estamos a destruir toda a matriz do Direito de Macau. Quando diz que não convém criar um tribunal de contas, refere-se ao Governo. Exacto. Não convém porque assim facilita as manobras de bastidores. Se houvesse o tribunal de contas haveria um travão ao despesismo. Como explica que no seio da Função Pública existam muitos trabalhadores que desconhecem as leis com as quais têm de trabalhar? Não concordo com isso. Os trabalhadores, na sua maioria, são sujeitos a exames rigorosos para entrar na Função Pública, embora muitos entrem pela porta do cavalo, como se vê pela denúncia do ex-procurador da RAEM que recebeu 14 telefonemas. Está por apurar quem foram as outras pessoas que lhe telefonaram para entrar pela porta do cavalo. Desde o estabelecimento da RAEM, e até 2007, ano em que se instituiu o regime de previdência, criou-se uma grande mordaça no seio dos trabalhadores da Função Pública. Trabalham com medo de represálias e dos seus superiores e cumprem porque têm de sustentar a família. É nesse sentido que se compreende que

os mega-escândalos que estão a acontecer e que vão acontecendo no seio da Função Pública não sejam denunciados. Há que criar mecanismos de protecção aos que denunciam ilegalidades dentro da Função Pública, porque sem isso nada feito. Temos muitos casos de pessoas que até têm medo de falar comigo. Nunca lhe tinha acontecido antes. Nunca aconteceu e cada vez mais têm medo, de mostrar que estão comigo em eventos sociais, porque se o superior os vê, passam a ter a vida negra [no emprego]. Já disse que o sistema de queixas que se quer criar será inútil. Como é que se pode ganhar a confiança das pessoas para que estas se queixem, quando, no momento a seguir, podem ser demitidas através da não renovação do contrato, ou então são chamadas para pedir a resignação dos cargos? Parece-nos que a secretária para a Administração e Justiça é uma forte candidata ao cargo de Chefe do Executivo, com a bênção da actual chefe de gabinete do Chefe do Executivo. O Lam? O Lam. E com isso não estou a ver que haja mudanças na Administração pública. É por isso que se compreende que a maioria dos funcionários públicos se querem aposentar o mais depressa possível, mesmo com dez ou quinze anos de actividade.

“Muitas das empresas de turismo estão conotadas com deputados da AL. Os trabalhadores dos casinos vão ser coagidos a entrar nos autocarros dos casinos para irem votar, como aconteceu no passado.”

Falam-se de vários nomes para ocupar o cargo de Chefe do Executivo a partir de 2019. Por quê Sónia Chan? Penso que o presidente da AL [Ho Iat Seng] continua a ser a escolha do Governo Central para o cargo. Quais as razões? Tem menos ligação com o sector empresarial e, embora faça parte, não é da ala estabelecida em Macau desde o primeiro dia da RAEM. Depois é o mais bem posicionado, em termos políticos, em Pequim, porque é vice-presidente do comité permanente da Assembleia Popular Nacional (APN). Lionel Leong (secretário para a Economia e Finanças) está a perder muita da sua influência, porque faz parte do grupo instituído que já mudou politicamente junto do Governo Central, porque estamos na era de Xi Jinping e não na era de Jiang Zemin. É o protegido do ex-Chefe do Executivo (Edmundo Ho), mas é evidente que o actual Chefe do Executivo (Chui Sai On) tende a seguir mais a sua chefe de gabinete, que é a pessoa mais chegada a ele para tomar decisões governativas. O Lam tem a afilhada que é a secretária para a Administração e Justiça (Sónia Chan), e não estranho que esteja a ocupar este cargo com a bênção da chefe de gabinete e do próprio Chefe do Executivo. De onde vem essa ligação? O Lam vem de uma família tradicional, ligada à Nam Kwong. O tio de O Lam teve uma grande influência no desenvolvimento económico de Macau. (Sónia Chan) será indicada ao Governo Central para ser a próxima Chefe do Executivo, está bem posicionada. É evidente que não nos podemos esquecer do bom trabalho do secretário para a Segurança (Wong Sio Chak), que será sempre um cavalo a não esquecer. Ainda assim nenhum desses nomes pertence a outra das famílias tradicionais de Macau, nomeadamente a família Ma, que já tem um deputado nomeado na Continua na página seguinte


ENTREVISTA AL (Ma Chi Seng). Esperava-se um nome daí? Penso que não, porque há um consenso de que já beneficiaram muito ao nível dos maiores projectos, concursos públicos e terrenos, para compensar o défice na área política. São compensados com outras coisas.

JOSÉ PEREIRA COUTINHO SOFIA MARGARIDA MOTA

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“Gostaria que houvesse eleições todos os anos para a AL, porque assim os problemas de Macau seriam resolvidos e fiscalizados.” Estamos em ano de eleições. Questionou, numa sessão de esclarecimento, a questão da liberdade de imprensa. É algo que o preocupa, a possibilidade da Comissão dos Assuntos Eleitorais da AL (CAEAL) vir a controlar o que se notícia? Preocupa-me as difamações que aparecem na internet e que alguns media aproveitam para fazer noticias, como já aconteceu no passado. Mas os jornais chineses pertencem todos a determinados sectores da sociedade, que são muito influentes e com representatividade na AL. Veja-se o jornal Si Man, que pertence a Angela Leong. O jornal Si Si pertence ao deputado Chan Meng Kam. O jornal Va Kio e o jornal Ou Mun Iat Po são conotados com o Governo. E todos os outros jornais estão conotados com outras pessoas, e em todos os actos eleitorais há uma tendência desses jornais de publicarem notícias dos candidatos preferidos. Se queremos eleições justas, a CAEAL tem obrigação de falar nos casos em que uma pessoa tem dupla função, enquanto representante de uma associação e candidata às eleições, e depois sai em primeira página uma actividade associativa no Ou Mun Iat Po. Em Hong Kong mete-se na notícia do jornal de que há outros candidatos para além do visado. Mas nunca conseguiremos contornar a escolha das grandes fotos na primeira página do jornal Ou Mun, que tem um grande impacto na sociedade. Mas não tenhamos ilusões: estas eleições serão sempre injustas. Por quê? Vão continuar a existir autocarros, porque já está tudo reservado. Ainda ontem liguei para algumas empresas para tentar perceber o ponto de situação da reserva de autocarros, e já está tudo reservado. Muitas das empresas de turismo estão conotadas com deputados da AL. Os trabalhadores dos casi-

nos vão ser coagidos a entrar nos autocarros dos casinos para irem votar, como aconteceu no passado. A CAEAL sabe disso? A CAEAL sabe disso e não quer emitir instruções. A CAEAL tem de emitir instruções aos casinos para que sejam impedidos de ajudar certas listas cuja publicidade chega aos cacifos e refeitórios dos casinos. É injusto para com as outras listas que não têm esse acesso. E esse trabalho já está a ser feito. Está a ser feito! Inclusivamente nas salas VIP já foram designadas pessoas para atrair o pessoal, com instruções de que têm de votar

“Os deputados têm de ser responsabilizados pelos meios de comunicação social, têm de encontrar justificações da sua conduta dentro da AL.”

em determinados candidatos. O grupo SunCity vai participar nas eleições, e eles têm muitas salas VIP. A CAEAL tem de actuar. Tem de se dar instruções às escolas, para que os meninos de três ou quatro anos sejam educados de uma forma honesta, e não se deve enfiar panfletos dos Moradores (União Geral das Associações de Moradores de Macau, ou kaifong) e dos Operários (Federação das Associações dos Operários de Macau) nas mochilas. Isso foi o que aconteceu nas últimas eleições, estive à porta das escolas e assisti a isso. O que sinto é que a CAEAL não tem vontade de intervir e enfrentar esses problemas. Talvez porque não queiram afrontar o poder estabelecido. Uma das questões trazidas pela lei eleitoral foi a obrigatoriedade dos candidatos assinarem uma declaração de fidelidade a Macau e à China. Contudo, aquando da votação, ninguém interveio e a proposta acabou por ser aprovada. O Governo continua a ser o porta-aviões. Veja-se a actual composição da AL. Pagamos um preço elevado pelo facto de não haver mais deputados eleitos pela via

“Há que criar mecanismos de protecção aos que denunciam ilegalidades dentro da Função Pública, porque sem isso nada feito. Temos muitos casos de pessoas que até têm medo de falar comigo.” directa. Isto prejudica Macau em termos gerais. O que me pergunta é a consequência de tudo isto, e enquanto não alterarmos o sistema, vamos continuar a pagar caro. Esta cidade está a ser comida pelo jogo, e não tenho fé e confiança na implementação do Plano de Desenvolvimento Quinquenal. É impossível ir contra a maré. Macau vai continuar a ser uma cidade casineira, com alguns satélites à volta, dependentes dessa actividade, como os hotéis e os táxis. E os

próprios salários dos funcionários públicos e o orçamento da RAEM. O Governo acomoda-se. Sobre a sua lista. Rita Santos já disse que não vai ser candidata... Ela vai ser mandatária e eu vou concorrer com o meu colega, Leong Veng Chai. Logo a seguir estará o meu colega Gilberto Camacho, estamos a acertar para que seja o número três ou quatro da lista. É uma pessoa jovem, de Macau, que estamos a tentar formar para assumir [esse lugar]. Embora não seja fácil encontrar pessoas que nos possam substituir na lista Nova Esperança. Já é bastante tempo, são 12 anos. Está cansado de ser deputado? (Risos). Não. Dá-me muita satisfação pessoal poder ajudar as pessoas, e sinto-me realizado todos os dias, quando os cidadãos, por sua iniciativa, nos solicitam apoio. O exercício do cargo de deputado tem de ser em regime de exclusividade, e todos devem fazer uma declaração de interesses. Isso faz muita falta. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


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Errar sem saber

Alexis Tam alega que Ung Vai Meng desconhecia leis de contratação

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LEXIS Tam, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, veio ontem em defesa do ex-presidente do Instituto Cultural (IC), Ung Vai Meng, no caso do relatório do Comissariado contra a Corrupção (CCAC), que detectou irregularidades ao nível da contratação de funcionários. Segundo o canal chinês da Rádio Macau, o secretário disse que Ung Vai Meng não esteve envolvido em casos de corrupção, e acredita que tudo aconteceu por um mau entendimento das leis por parte do ex-presidente, pelo que este não saberia que estava a errar ao contratar pessoas através do regime de aquisição de serviços, sem concurso público. Alexis Tam referiu ainda que, além do IC, outros departamentos públicos não estiveram envolvidos no

GCS

O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura já recebeu o relatório das mãos do Instituto Cultural, no âmbito da última investigação do CCAC. Alexis Tam defende o ex-presidente do organismo e afirma que Ung Vai Meng não conheceria as leis de contratação de funcionários e, por isso, errou sem intenção

Alexis Tam

problema das contratações. Questionado sobre a responsabilização do Executivo, o secretário garantiu que não ti-

nha conhecimento das acções de Ung Vai Meng quanto à contratação de funcionários. “Os trabalhos de recrutamento foram feitos pelo ex-presidente do IC, é algo que não tem a ver com o actual presidente e também não tem nada a ver comigo”, disse Alexis Tam, citado pelo Jornal do Cidadão. Questionado face à possibilidade de Ung Vai Meng vir a ser investigado pelo

O secretário disse que Ung Vai Meng não esteve envolvido em casos de corrupção, e acredita que tudo aconteceu por um mau entendimento das leis por parte do ex-presidente, pelo que este não saberia que estava a errar ao contratar pessoas através do regime de aquisição de serviços, sem concurso público

CCAC, Alexis Tam não quis fazer qualquer comentário.

RELATÓRIO SERÁ PÚBLICO

Após a publicação do relatório do CCAC, o IC ficou encarregue de realizar um relatório de análise sobre o assunto, sendo que este documento já está nas mãos de Alexis Tam. O Jornal do Cidadão escreve que esta semana o conteúdo do relatório deverá ser divulgado, estando prevista a realização de uma conferência de imprensa sobre o assunto, para explicar os detalhes do documento junto do público. Alexis Tam promete ainda encontrar soluções para os funcionários que foram contratados com base no regime de aquisição de bens e serviços, uma vez que o Governo ainda estará a analisar os detalhes e a viabilidade de cada caso. O secretário promete ainda encontrar formas de garantir a responsabilização dos funcionários do IC que terão estado envolvidos na contratação de pessoas. O relatório divulgado pelo CCAC deu conta das viola-

POLÍTICA ções à lei que têm acontecido nos últimos anos ao nível da contratação de funcionários para o IC. A investigação, iniciada há um ano, revelou que o IC “recorreu ao modelo da aquisição de serviços para contornar sistematicamente o regime legal do recrutamento centralizado e do concurso público”. Entre 2010 e 2015, o número de trabalhadores contratados em regime de aquisição de serviços, quase duplicou, passando de 58 para 110, o que o IC justificou com o aumento do volume de trabalho nos últimos anos e com a escassez dos recursos humanos. Além disto, “o IC adoptou só a análise curricular e a entrevista na selecção dos candidatos, sem obter a necessária autorização daquele secretário para a dispensa das provas de conhecimentos, constituindo este facto, sem dúvida, uma usurpação do poder do órgão superior no âmbito da gestão de pessoal”, revelou o CCAC. HM


6 POLÍTICA

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GCS

Tectos para os mais novos

Resultado do estudo sobre a habitação pública é divulgado em Setembro

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CHUI SAI ON NÃO QUER CONTRATAÇÕES DE CHEFIAS SEM GARANTIA DE REQUISITOS

Pôr trancas na porta

O Chefe do Executivo não vai autorizar contratações para cargos de chefia do Governo sem a existência de concurso público e o total preenchimento dos requisitos para o cargo. O governante promete manter a transparência das contratações públicas

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nomeação de pessoas sem experiência ou qualificações para cargos de direcção e chefia no Governo não vai voltar a ser autorizada pelo Chefe do Executivo. A garantia foi dada na sexta-feira por Chui Sai On numa sessão de perguntas e respostas com os deputados, na Assembleia Legislativa. De acordo com a legislação em vigor, os cargos de chefia da Administração têm de ser preenchidos por profissionais que tenham, pelo menos, cinco anos de experiência ou qualificações académicas que habilitem os candidatos a exercer tais funções. No entanto, a lei também prevê que estas exigências possam ser dispensadas pelo Chefe do Executivo, em situações excepcionais. “Em casos excepcionais, o secretário da tutela pode informar o Chefe sobre as condições de selecção de determinado pessoal para determinados cargos e o Chefe pode dispensar concurso”, referiu Chui Sai On. No entanto, a excepção não será adoptada pelo governante que decidiu, no seu mandato, “não exercer o que está no regulamento sobre a dispensa dos requisitos”. “Não vou autorizar nenhum trabalhador sem experiência ou sem habilitações a exercer cargos de chefia”, disse.

FISCALIZAR TUDO

Por outro lado, o Chefe do Executivo sublinhou que o reforço da fiscalização dos

processos de recrutamento é prioritário, sendo que “o Governo também está a pedir para melhorar a transparência do recrutamento, vai reforçar a fiscalização e vai ainda aceitar a fiscalização da opinião pública”, disse. Chui Sai On adiantou ainda que o Governo vai rever tudo o que respeita ao primado da lei. “Os serviços estão sujeitos à fiscalização do Comissariado contra a Corrupção (CCAC) e do Comissariado da Auditoria (CA) e, perante os relatórios, existem situações em que, se houver ilegalidades administrativas, os casos são reportados a mim ou ao Ministério Público. Em termos de actos administrativos, vou reforçar os trabalhos de fiscalização”, sublinhou. Quanto ao CCAC e ao CA, a intenção do Governo é dar seguimento às investigações, de modo a apurar se se trata de uma responsabilidade disciplinar ou adminis-

“Não vou autorizar nenhum trabalhador sem experiência ou sem habilitações a exercer cargos de chefia.” CHUI SAI ON CHEFE DO EXECUTIVO

trativa, para identificar irregularidades e “elevar o nível de governação de acordo com as leis”. As declarações de Chui Sai On surgiram em resposta à deputada Kwan Tsui Hang, que chamou ao hemiciclo casos recentes relativos a irregularidades na contratação de funcionários. Em causa está o relatório do CCAC acerca do modo de recrutamento do Instituto Cultural. O CCAC considerou que foram sido violadas as normas legais relativas ao concurso e ao recrutamento centralizado. “Os problemas que se destacam com esta situação são sobretudo a falta de publicidade de informações sobre o recrutamento, os métodos de selecção menos rigorosos e a suspeita de incumprimento do regime de impedimento”, dizia o relatório. A investigação à entidade, então presidida por Guilherme Ung Vai Meng, teve início em Abril do ano passado. O comissariado constatou que, em 2014, o número de trabalhadores neste regime tinha aumentado substancialmente – eram 112, quando em 2010 eram 58, sendo que o universo total de funcionários também subiu, de 553 para 721. “Mesmo em 2016, o ano em que o CCAC instaurou a investigação em referência, havia ainda 94 trabalhadores recrutados neste regime.” Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com

Chefe do Executivo afirmou na passada sexta-feira, na Assembleia Legislativa, que o resultado do estudo sobre a habitação pública vai ser anunciado em Setembro, estando a ser equacionada a possibilidade de uma tipologia destinada a jovens. “O Governo está a estudar incluir no novo modelo de habitação pública um tipo para jovens. Neste momento, estamos ainda a estudar a matéria. Creio que, em finais de Setembro, poderemos divulgar os resultados do estudo e podem então saber como é que vai ser o novo modelo de habitação pública”, afirmou Chui Sai On, em resposta à deputada Angela Leong. A habitação marcou o plenário dedicado às perguntas dos deputados sobre as Linhas de Acção Governativa e assuntos sociais, que contou com um total de 29 intervenções de um universo de 33 deputados que integram o hemiciclo. Na réplica a Song Pek Kei, que pediu um ponto de situação e um calendário relativamente à promessa de oferta de 28 mil fracções de habitação pública, o líder do Governo fez apenas uma breve apresentação do andamento dos novos aterros, para onde se encontram planeadas essas frações, indicando que “80 por cento das obras já estão concluídas”, após reconhecer que houve atrasos, mas sem avançar com uma data concreta para a construção das habitações.

PROCURA EM ALTA

A procura de habitação pública é visível, como prova o resultado do mais recente concurso em 2014: mais de 42 mil residentes permanentes apresentaram uma candidatura para a compra de apenas 1900 frações de habitação económica disponibilizadas. A ausência de concursos foi precisamente outra das preocupações de deputados, como Au Kam San e Ella Lei, que recordaram que os últimos foram lançados há cerca de três anos e questionaram o Chefe do Executivo sobre a abertura de novas rondas de candidaturas. “Temos confiança de reabrir concursos ainda durante este mandato”, respondeu Chui Sai On, prometendo acelerar a construção. O mercado imobiliário privado também foi abordado, com Chui Sai On a sublinhar que a prioridade passa pela habitação pública.


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O

terreno que neste momento é ocupado pelo Canídromo já tem destino traçado. Estabelecimentos de ensino e zonas recreativas e de desporto vão ocupar aquele espaço quando terminar a concessão da Companhia de Corridas de Galgos, em Julho de 2018. A informação foi dada na sexta-feira pelo Chefe do Executivo, Chui Sai On, numa sessão de perguntas e respostas sobre as Linhas de Acção Governativa e assuntos sociais, na Assembleia Legislativa. “Temos recebido muitas instruções da população e de vários órgãos sobre esta matéria que incluem a construção de escolas e de instalações desportivas naquela zona”, referiu Chui Sai On. O sector da educação, de acordo com o Chefe do Executivo, também se manifestou a favor do aproveitamento do lote em questão para a construção de infra-estruturas de ensino, de lazer e de desporto. Desta forma, “o Canídromo vai ser aproveitado para o interesse

Canídromo TERRENO VAI ALBERGAR INFRA-ESTRUTURAS SOCIAIS

“O terreno pode ser aproveitado para melhorar a qualidade de vida da população, sendo que de parte fica qualquer finalidade associada à exploração hoteleira e comercial. Será apenas aproveitado para fins recreativos, desportivos e educacionais.”

O bom pastor público e não para a construção de edifícios privados”, afirmou o líder do Governo. Para o Executivo, aquela área já é densamente populosa, pelo que não se justificaria criar estruturas que fossem aumentar ainda mais o número de moradores. Por outro lado, e de modo a satisfazer as necessidades daqueles que ali vivem, é necessário renovar algumas instalações. “Há escolas que já têm muitos anos e que se mostram insuficientes para a melhoria da qualidade de vida das pessoas que ali residem”, acrescentou. Assim sendo, Chui Sai On acredita que “o terreno pode ser aproveitado para melhorar a qualidade de vida da população, sendo que de parte fica qualquer finalidade associada à exploração hoteleira e comercial. Será apenas aproveitado para fins recreativos, desportivos e educacionais”, assegurou. O destino do Canídromo foi dado a conhecer em resposta à questão da deputada Angela Leong que, tendo no passado sido forte oponente ao fecho daquele espaço, questionou o Executivo quanto à sua utilização, sugerindo que fosse aplicado na construção de habitações dirigidas aos jovens.

àquela área que não a promoção de corridas de cães tinha sido uma boa notícia para o público, sugerindo ao Executivo que desse início ao planeamento do lote com a maior

brevidade. A ideia da responsável era no sentido de que o terreno pudesse ser um complexo desportivo e parque de estacionamento. Lam Lun Wai, membro do Conselho do

GCS

O Chefe do Executivo está preocupado com o bem-estar das pessoas e a qualidade de vida. Por isso, o Canídromo vai ser substituído por estruturas sociais, entre elas escolas e zonas de lazer e desportivas

POLÍTICA

CHUI SAI ON CHEFE DO EXECUTIVO Planeamento Urbanístico e vice-reitor da escola para os Filhos e Irmãos dos Operários, concordava com a sugestão e pediu também escolas para o local. Uma ordem executiva, publicada a 19 de Dezembro do ano passado em Boletim Oficial, delegava poderes no secretário para a Economia e Finanças “na escritura pública de prorrogação do prazo até 20 de Julho de 2018 e alteração do contrato de concessão celebrado entre a RAEM e a Companhia de Corridas de Galgos Macau (Yat Yuen), S.A., para a exploração, em regime de exclusivo, das corridas de galgos”. A ordem executiva veio formalizar o anúncio do Governo de que, em Julho de 2016, que a Yat Yuen teria de decidir entre terminar a exploração da actividade ou relocalizá-la no prazo de dois anos.

IDEIA AO ENCONTRO DO POVO

Já em Julho do ano passado, Chio Lan Ieng, membro do Conselho Consultivo de Serviço Comunitários da Zona Norte e chefe de gabinete da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), considerou que a decisão do Governo em dar outra utilidade

Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com

TRIBUNAIS INFORMATIZAÇÃO VAI SER ESTUDADA

BILINGUISMO SER O MELHOR CENTRO DA ÁSIA

O

M

S tribunais de Macau podem vir a ter um upgrade. A ideia é poder vir a existir uma revisão legal que preveja o recurso a mecanismos informáticos. De acordo com o Chefe do Executivo, já está

pensado um encontro com a secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, para debater a “revisão da legislação tendo em conta a informatização da relação dos utentes com os tribunais”. De acordo com Chui Sai On, “é uma matéria de que deve ser aceite”, até porque há 17 anos que o regime legal não é revisto e a “tecnologia avançou bastante”. “De facto, merece um estudo. Da nossa parte, é uma matéria que merece o nosso investimento. Se

conseguirmos introduzir as tecnologias mais avançadas, acho que agora é uma boa oportunidade”, disse o Chefe do Executivo. A questão foi levantada pelo deputado Leonel Alves, que denunciou a continuidade de uma relação arcaica entre tribunais e utentes quando comparada com o desenvolvimento tecnológico. Para o deputado, o Governo deveria ponderar “a possibilidade de praticar actos processuais por correio electrónico”. S.M.M.

ACAU pode vir a liderar o ensino bilingue de português e chinês no continente asiático. A promessa foi deixada por Chui Sai On, na Assembleia Legislativa. “No caso de Macau, vamos ser a primeira base de formação de toda a Ásia. Não vamos ser como alguns países da Europa ou mesmo o Brasil, mas vamos ser os primeiros da Ásia”, reforçou Chui Sai On. Na calha está a administração de cursos em que o português e o chinês serão as línguas veiculares. Para Chui Sai On, os esforços

do Executivo no sentido de transformar o território numa plataforma bilingue de comunicação entre a China e os países de língua portuguesa já estão em curso e a prova disso é o aumento dos alunos ao longo dos últimos anos. Actualmente, “três mil estudantes têm a oportunidade de optar em aprender a língua chinesa e portuguesa”. Para levar o objectivo a bom porto, Chui Sai On pretende trabalhar com instituições portuguesas. “Vamos preparar os materiais didácticos, colaborar com

instituições de Portugal e destacar os nossos estudantes para se deslocarem até ao país para aprenderem a língua portuguesa”, disse. Em simultâneo, conta também com a colaboração e instituições de ensino do Continente para a formação e docentes qualificados. A intenção do Chefe do Executivo foi dada a conhecer em resposta ao deputado Tommy Lau. O tribuno pretendia saber o que é que Macau tem feito e tenciona fazer, em concreto, de modo a ser, efectivamente, um centro de formação bilingue. S.M.M.


8 SOCIEDADE

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TIAGO ALCÂNTARA

Lembranças indesejadas

Residentes de Hong Kong contraíram legionella em Macau

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Máquinas invisíveis

RÊS residentes de Hong Kong contraíram legionella em Macau. De acordo com uma nota dos Serviços de Saúde, as autoridades do território receberam na passada sexta-feira a indicação de que, entre os 17 casos de doença dos legionários reportados em 2017 na região vizinha, três pacientes infectados estiveram em Macau durante o período de incubação e aparecimento de sintomas. Tinham todos o mesmo gene de legionella. Segundo as informações transmitidas pelo Centro de Protecção de Saúde do Departamento de Saúde de Hong Kong, as pessoas em causa têm idades compreendidas entre os 66 e os 84 anos. Os sintomas foram apresentados durante quatro meses, ou seja, entre Janeiro e o corrente mês de Abril. Após a análise laboratorial das amostras de urina destes pacientes, foi confirmado o sorotipo I de Legionella pneumophila. Os dados de Hong Kong indicam que, “possivelmente, as três pessoas permaneceram ou estiveram alojadas no Hotel Parisian”, lê-se na nota dos Serviços de Saúde de Macau, que garantem estar a dar importância ao assunto, pelo que estão a levar a cabo “aprofundadas investigações”.

Os contratos estão assinados, mas continua por erguer o parque de estacionamento localizado no complexo de habitação pública de Seac Pai Van. A deputada Ella Lei quer saber porquê

FAOM DESEMPREGO NA CONSTRUÇÃO CIVIL TEM AUMENTADO

Seac Pai Van FALTA DE ESTACIONAMENTO EM QUESTÃO

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UAIS as razões que estão por detrás da ausência de um parque de estacionamento na zona de habitação pública de Seac Pai Van, anos após terem sido assinados contratos com empresas no âmbito de concursos públicos? É esta a questão que a deputada Ella Lei quer ver respondida. Numa interpelação escrita entregue ao Governo, a deputada quer saber mais detalhes sobre o projecto. “Depois de ter adjudicado a empreitada de construção do

auto-silo no parque de Seac Pai Van, em 2012, o Governo suspendeu o respectivo projecto. Porquê? O que é que se vai fazer quanto aos contratos celebrados e ao que já foi pago através do erário público?”, questiona. Ella Lei recorda que o contrato para a empreitada de construção custou aos cofres do Governo 110 milhões de patacas, sendo que o acordo relativo à coordenação e fiscalização da obra custou mais dois milhões de patacas. “As obras nunca tiveram início, e só em Junho do ano

Depois de ter adjudicado a empreitada de construção do auto-silo no parque de Seac Pai Van, em 2012, o Governo suspendeu o respectivo projecto. Porquê? O que é que se vai fazer quanto aos contratos celebrados e ao que já foi pago através do erário público? ELLA LEI DEPUTADA

passado é que o Governo apresentou planos para reiniciar a construção em causa”, apontou. “Quais são os planos do Governo quanto à retoma da empreitada de construção do auto-silo no parque de Seac Pai Van?”, questiona Ella Lei, que lembra ainda que o projecto foi anunciado para “aumentar os lugares de estacionamento legais, em resposta às necessidades dos cidadãos”. A deputada alerta ainda para possíveis consequências em termos de meio ambiente. “O parque de Seac Pai Van é um bom local para passear e desfrutar da natureza, portanto, tem atraído a visita de muitos cidadãos nos feriados. De que medidas dispõe o Governo para minimizar os impactos das obras para o ambiente ecológico à volta do parque de Seac Pai Van?”, inquiriu. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

A doença dos legionários é uma infecção provocada por bactérias do género legionella, que vivem em ambientes aquáticos naturais e podem proliferar rapidamente na água morna e em lugares húmidos, especialmente, quando a temperatura varia entre 20 a 25 oC. A legionella pode ser também encontrada em sistemas aquáticos artificiais, como piscinas, sistemas de água doméstica, quente e fria, jacuzzis, fontes e aparelhos médicos de uso domiciliário.

O ELO MAIS FRACO

Os homens, idosos, fumadores, alcoólicos, pessoas com menor imunidade, especialmente os doentes crónicos, bem como os pacientes que estão sujeitos ao tratamento com esteróides e inibidores de imunidade estão mais sujeitos a contraírem esta doença, explicam os Serviços de Saúde. Entre os sintomas desta doença estão a febre, tosse seca, dificuldade de respiração, fadiga, dores de cabeça, musculares e abdominais, e diarreia. O tratamento faz-se com antibióticos. Em Macau, nos últimos anos, apenas foi registado um caso confirmado da doença dos legionários, em 2010.

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deputada Ella Lei, ligada à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM) alertou para o aumento, nos últimos meses, do desemprego no sector da construção civil, sem esquecer o aumento progressivo da taxa de sub-emprego. Segundo o Jornal do Cidadão, Ella Lei participou num fórum organizado em Seac Pai Van, Coloane, onde a FAOM apresentou os dados recentes do mercado laboral. Foi relatado o exemplo de um residente que foi contratado para trabalhar num hotel, tendo-lhe sido dito posteriormente que não tinha conseguido obter a vaga de emprego. Ainda assim, o hotel estaria a contratar trabalhadores não residentes (TNR). Houve ainda vários participantes no fórum que afirmaram que não só não receberam respostas perante o envio dos currículos como houve outros casos em que ocorreram despedimentos sem justa causa, enquanto TNR continuavam a trabalhar na empresa. Leong Meng Ian, coordenadora da Delegação das Ilhas da FAOM, refere que, de acordo com os inquéri

tos ao emprego feitos pela Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), entre Dezembro de 2016 e Fevereiro de 2017, a população empregada foi de 379,100 pessoas, enquanto o número de residentes empregados foi de 277,100. Na visão da coordenadora, a maioria dos sectores, onde se inclui actividades culturais e recreativas, lotarias, serviços, hotéis e restaurantes, escolhem as zonas turísticas da Taipa e Cotai como destino de desenvolvimento dos seus negócios. Tratam-se de locais onde a população já é superior a 100 mil pessoas, sendo importante garantir a promoção e os benefícios suficientes dos direitos laborais.


9 hoje macau segunda-feira 24.4.2017

MARÇO INFLAÇÃO EM MACAU FIXOU-SE EM 1,69 POR CENTO

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taxa de inflação em Macau subiu 1,69 por cento nos 12 meses terminados em Março em relação ao período homólogo imediatamente anterior. De acordo com os Serviços de Estatística e Censos (DSEC), o Índice de Preços no Consumidor (IPC) subiu devido aos aumentos registados nas secções de bebidas alcoólicas e tabaco (mais 14,62 por cento), educação (mais oito por cento) e transportes (mais 6,92 por cento). Só no mês passado, o IPC geral médio aumentou 0,72 por cento em termos anuais. O crescimento homólogo em Março foi impulsionado principalmente pelo aumento dos preços das refeições adquiridas fora

Um grupo de defesa da política habitacional para os jovens entrega hoje uma carta na sede do Governo a apelar à construção de habitação pública na avenida Wai Long. Ng Sio Hong, porta-voz do grupo, fala do que pode ser feito para colmatar potenciais problemas

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ONSTRUIR ou não construir, eis a questão. O Governo mantém-se firme em relação à decisão de construir um complexo de habitação pública na avenida Wai Long, no terreno que esteve envolvido no caso Ao Man Long. Algumas vozes já se mostraram contra o projecto, mas um grupo de defesa da política habitacional para os jovens entrega hoje uma carta a Chui Sai On, Chefe do Executivo, para mostrar que está a favor da medida anunciada pelo Governo. Ng Sio Hong, porta-voz do grupo, disse ao HM que o objectivo da entrega da carta é exigir que as

SOCIEDADE

CASINOS COMEÇARAM AS AUDITORIAS AOS JUNKETS

de casa e das propinas escolares e da gasolina, informou a DSEC. Nos primeiros três meses, o IPC geral – que permite conhecer a influência da variação de preços na generalidade das famílias de Macau – cresceu 0,95 por cento em relação ao mesmo trimestre do ano passado. Em 2016, a taxa de inflação de Macau foi de 2,37 por cento, a mais baixa desde 2009, ano em que se fixou em 1,17 por cento. Segundo as projecções do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas na semana passada, a taxa de inflação de Macau deve fixar-se em dois por cento este ano, em 2,2 por cento no próximo e em três por cento em 2022.

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Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) começou a auditar as contas dos angariadores de grandes apostadores para os casinos de Macau, noticiou o portal especializado em jogo GGRAsia. Em Novembro, aquando da apresentação do relatório das Linhas de Ação Governativa (LAG) para 2017, o Governo anunciou que ia “desencadear uma auditoria específica aos registos dos depósitos temporários e créditos dos clientes e controlo interno, e analisar o rácio de movimentação financeira de cada promotor de jogo”. Mais de 60 promotores de jogo estão a ser actualmente ava-

liados na primeira ‘tranche’ do programa de auditoria, segundo o portal especializado em jogo que cita a entidade reguladora. Macau conta com 126 promotores de jogo autorizados a exercer actividade em 2017, o número mais baixo da última década. Segundo as LAG, a auditoria, que deverá terminar em Dezembro, realiza-se no âmbito do reforço da regulamentação e fiscalização das contas financeiras dos junkets, peça fundamental no xadrez do sector do jogo de Macau, dada a tradicional elevada dependência dos grandes apostadores. Embora sem o fluxo de outrora, o segmento VIP ainda contribui para mais de metade das receitas totais dos casinos.

Macau tem vindo a apertar o cerco à actividade dos promotores de jogo VIP, com novas instruções a definirem, por exemplo, regras mais apertadas no exercício da profissão ou maiores exigências ao nível do regime contabilístico, surgidas designadamente na sequência de casos de desvios de fundos de salas VIP de casinos.

Wai Long GRUPO ENTREGA CARTA EM DEFESA DE HABITAÇÃO PÚBLICA

Façam o favor de construir obras de construção do complexo habitacional sejam iniciadas o mais depressa possível, de modo a garantir a qualidade da construção e a edificação de instalações completas. Em relação às várias opiniões que têm vindo a surgir sobre o assunto, Ng Sio Hong defende que a avenida Wai Long está localizada perto da Universidade de Ciências e Tecnologia de Macau (MUST) e de outros edifícios habitacionais privados, sendo que, até esta fase, não houve queixas sobre o ruído ou más condições que a zona possa ter. “A MUST e várias pessoas têm estado nesta zona, perto do aeroporto, onde existem também os dormitórios dos estudantes e apartamentos de luxo. No que diz respeito aos problemas que se podem encontrar neste local, devem ser resolvidos em vez de ser suspensa a proposta de construção”, defendeu o porta-voz.

REDUZIR IMPACTOS

Na visão do responsável, o Governo tem capacidade para solucionar os problemas encontrados se recorrer a técnicas actuais, de modo a reduzir o mais possível os impactos causados pela central

de incineração. Esta tem sido uma das maiores preocupações dos que defendem a suspensão do projecto de habitação público no antigo terreno do La Scala.

Ng Sio Hong acrescentou que as centrais de incineração existem em vários lugares e que esse não pode ser um factor que impeça a construção das fracções residenciais no local.

Ng Sio Hong, porta-voz do grupo, disse que o objectivo da entrega da carta é exigir que as obras de construção do complexo habitacional sejam iniciadas o mais depressa possível, de modo a garantir a qualidade da construção e a edificação de instalações completas

Com a expectativa de conseguir um melhor ambiente para as fracções públicas na avenida Wai Long, Ng Sio Hong quer que o Governo tenha como referência os exemplos do edifício do Lago, na Taipa, e o complexo de habitação pública em Seac Pai Van, Coloane. “Percebemos que o edifício do Lago tem muitos problemas como a queda de azulejos e infiltrações de água. Queremos que o Governo não repita os mesmos erros. No caso de Seac Pai Van, as obras da habitação pública já foram concluídas há vários anos, mas ainda há quem se queixe da insuficiência de instalações na área”, aponta Ng Sio Hong. O porta-voz acredita que o Governo deve ter em consideração a edificação de um supermercado e serviço de saúde em Wai Long, uma vez que será inconveniente para as pessoas deslocarem-se para longe da sua residência em caso de necessidade. Face à possibilidade de ruído, Ng Sio Hong defende que o Governo pode utilizar materiais de construção que garantam o isolamento, de modo a garantir a qualidade de vida dos residentes. Vítor Ng (revisto por A.S.S.) info@hojemacau.com.mo


10 Cinema MOSTRA DE CINEMA LUSÓFONO CHEGA EM MAIO

EVENTOS

VISOES DE OUT ˜

25 DE ABRIL MEMORIAL A ZECA AFONSO INAUGURADO EM LISBOA

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M memorial dedicado ao músico Zeca Afonso vai ser inaugurado no dia 25 de Abril no Jardim das Francesinhas, junto à Assembleia da República, em Lisboa, numa cerimónia que vai contar com o presidente da Câmara Municipal da capital portuguesa, Fernando Medina. O Memorial a José Afonso “nasce de uma proposta de Orçamento Participativo e foi desenvolvida em parceria com a Associação José Afonso – AJA”, referiu em comunicado a Câmara Municipal de Lisboa. “Este memorial reúne um conjunto de elementos biográficos patentes na sua construção e na sua localização: o jardim encontra-se junto ao poder político da Assembleia da República, do Ensino e da Juventude (aqui corporizado pelo ISEG) e da própria AJA, entidade que promove o conhecimento e a valorização da vida e obra do cantautor”, destacou a autarquia. O município acrescentou que “a esta simbologia acresce o facto de o me-

morial, propriamente dito, ter sido concebido como parte do trabalho de curso dos alunos de Escultura da Faculdade de Belas-Artes, sob orientação do professor Sérgio Vicente, e a placa em bronze concebida por Luísa Barros Amaral”. Segundo a Câmara, o Memorial a José Afonso, recuado no espaço do jardim, pretende, no futuro, ser ponto de encontro para leituras de poesia e outros momentos de celebração cultural dinamizados pela AJA. José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos nasceu a 2 de Agosto de 1929, em Aveiro. Estudou em Coimbra, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras, foi professor em vários pontos do país e também viveu em Moçambique. Ao longo da sua carreira como cantor e músico interpretou o fado de Coimbra, mas ficou mais conhecido pelas suas canções de intervenção, contra o regime ditatorial. Morreu, aos 57 anos, a 23 de Fevereiro de 1987.

A primeira edição local do Lusophone Film Festival chega à Casa Garden nos dias 13 e 14 de Maio. O público poderá ver de forma gratuita um total de cinco filmes feitos e falados em português. O moçambicano Inusso Jamal conta como começou esta iniciativa

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ideia de mostrar filmes feitos no universo lusófono começou, por ironia, fora desse mundo. Foi em Nairobi, no Quénia, que o moçambicano Inusso Jamal e o amigo, português, Pedro Matos, tiveram a ideia de mostrar filmes portugueses no jardim de uma casa, para a comunidade residente na capital queniana. Mas depressa a ideia saiu desse limite imaginário e chegou a outros locais. “Em 2014 tivemos a ideia de projectar filmes lusófonos num dos jardins da casa, mas achamos que seria uma vez mais muito restrito ao grupo privilegiado de sempre, o da comunidade expatriada. Então optou-se por estender [o projecto] a toda a comunidade local, numa parceria com o Goethe Institute of Nairobi, com a realização de sessões mensais”, explicou Inusso Jamal ao HM. Nascia assim o Lusophone Film Festival (mostra de cinema lusófono), que já conseguiu sair de Nairobi e que actualmente marca presença em Banguecoque, Sidney, Phnom Penh e Zanzibar. Aprimeira edição da mostra em Macau decorre já nos próxi-

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA DEIXEM FALAR AS PEDRAS • David Machado

No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino – e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas. Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel – que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças – com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo –, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.

mos dias 13 e 14 Maio, com os filmes “Feral” de Cabo Verde; “Macau Sã Assim”; “A Ilha dos Espíritos”, realizado em Moçambique; “Dodu, O rapaz de cartão”, feito em Portugal, e ainda “A Guerra de Beatriz”, vindo de Timor-Leste.Ainiciativa tem o apoio da Fundação Oriente e todos os filmes irão passar na Casa Garden entre as 19h00 e as 21h00. Inusso Jamal fala de como Macau surgiu no horizonte

“É nos PALOP que se têm realizado grandes avanços a nível de produções cinematográficas, numa parceria enriquecedora com várias produtoras brasileiras e portuguesas” INUSSO JAMAL ORGANIZADOR DO LUSOPHONE FILM FESTIVAL

desta mostra de cinema. “É uma região que faz parte da nata da lusofonia e possui uma grande comunidade lusófona vinda dos vários cantos do mundo”, contou. “Não podemos descurar o papel que Macau desempenha como o centro de vários interesses do Governo da República Popular da China, de e para os países da CPLP”, acrescentou. Os cinco filmes seleccionados para a exibição no território “são parte da representatividade geográfica dos países lusófonos”, explicou Inusso Jamal. “Obviamente que também buscamos dar a conhecer o que se produz em Macau, com o filme “Macau Sâm Assi”, e a riqueza que é a mestiçagem linguística, como resultado da mistura de povos e culturas no extremo oriente”. O filme “A Guerra de Beatriz” representa a “oportunidade de dar a conhecer e revisitar a história recente do povo irmão timorense, que possui uma grande comunidade de estudantes e residentes em Macau, através da sua primeira longa metragem”. Inusso Jamal assume que este evento não é um festival de grande dimensão mas sim

uma mostra de cinema, e que ele e Pedro Matos apenas querem fazer uma “singela contribuição para dar a conhecer o que se produz no universo cinematográfico lusófono”. “Vários filmes são produzidos anualmente, nos países de expressão portuguesa, e não são conhecidos ou divulgados pelo mundo fora. Há que agradecer a diversas produtoras e instituições, que se predispuseram a abraçar esta ideia, fazendo parcerias num espírito não comercial, para que a mesma seja possível”, apontou.

UMA APROXIMAÇÃO

Para Inusso Jamal, a realização desta mostra de cinema em Macau, na Casa Garden, é apenas um início de uma outra coisa. “Espero que seja um bom início para a construção de pontes e para aproximar ainda mais as diferentes culturas dos diferentes cantos do mundo. [Tudo para] despertar interesses pela rica história que a lusofonia abarca de um modo global, mas em Macau em particular.” Para o moçambicano de 43 anos, a viver em Banguecoque, mostrar filmes lusófonos tem o efeito positivo da “divulgação da língua portuguesa e da cultura dos países

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O FABULOSO TEATRO DO GIGANTE • David Machado

Um dia dois forasteiros chegam à aldeia de Lagares, isolada no meio das serras, lá nos confins do Minho. Um dos forasteiros era de estatura colossal, a quem logo chamam o Gigante, mas que na realidade tem por nome Thomas, o outro era Eunice, uma mulher pequena de cabelos cor de fogo que dentro em breve daria à luz dois gémeos. Ele, originário de um incerto país latino-americano, é um grande contador de histórias tão verdadeiras quanto inesgotáveis e que fazem as delícias dos habitantes de Lagares. Um dia, porém, o Gigante adormece e o seu sono prolonga-se por meses, anos, mas continua a contar as histórias com que vai sonhando. Nessa espera interminável, Eunice decide anotar por escrito tudo o que sonha aquele homem que ama e que tanto a fascina. E será a partir daí que as coisas seguirão um novo e extraordinário curso, mudando para sempre a vida daquela gente. Este é o primeiro romance de David Machado, uma obra inovadora, que abriu caminho a um novo imaginário no espaço da literatura portuguesa.


11 EVENTOS

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TROS MUNDOS da CPLP, através do que se produz ao nível do cinema”. Também aqui Macau tem uma palavra a dizer, segundo o mentor desta mostra de cinema. O cinema feito no território “vem enriquecer ainda mais a comunidade, com a forma peculiar de apresentar e preservar a sua cultura, e elevando a presença da língua na região do extremo oriente”. A presença dos filmes feitos em Macau servem “acima de tudo para mostrar o quão culturalmente ricos e diversificados são os povos da CPLP”.

BRASIL É REI

O Rapaz de Cartão, Portugal

A Guerra da Beatriz, Timor-Leste

Feral, Cabo Verde

Questionado sobre as diversas produções cinematográficas do universo lusófono, Inusso Jamal garante que o Brasil “é o expoente máximo”, enquanto Portugal “tem produzido excelentes animações e curtas-metragens de enorme qualidade”. Ainda assim, “é nos PALOP que se têm realizado grandes avanços a nível de produções cinematográficas, numa parceria enriquecedora com várias produtoras brasileiras e portuguesas”. “Há que potenciar e acarinhar estas equipas que trabalham arduamente, contra muitas adversidades, para que de uma ou outra forma ganhem o reconhecimento merecido”, adiantou Inusso Jamal. Sobre os desafios nesta área, o responsável pede mais acesso “a mais material cinematográfico dos diferentes países de cultura lusófona, não só os da CPLP, mas os de sua influência nas diferentes partes do globo, como Goa, Malaca, Japão e outros, sempre numa perspectiva de maior abrangência possível das culturas e língua que nos une”. “Não diria que há dificuldades, mas sim desafios, que é o facto de estarmos representados em muitos mais países. Queremos ainda que as parcerias criadas resultem numa consolidação, [com a intenção] de mantermos as sessões de forma regular nos países onde decorre a mostra, e também nos futuros países”, concluiu. Andreia Sofia Silva e Sofia Margarida Mota info@hojemacau.com.mo

Altos voos

Avião que faz volta ao mundo aterrou ontem em Macau

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mais antigo avião a realizar uma volta ao mundo aterrou ontem em Macau, procedente das Filipinas, no âmbito de uma digressão iniciada em Março e que inclui paragens em 55 cidades de todo o mundo. O “Breitling DC-3”, que efectuou o primeiro voo inaugural há 77 anos, quando ainda era conhecido por “Douglas DC-3” antes de ser adquirido pela marca de relógios, iniciou a volta ao mundo na Suíça, país ao qual deve regressar em Setembro, depois de cumprir uma série de escalas e de participar em eventos e em espectáculos aéreos. O “Breitling DC-3” pode ser visitado ao longo do dia de hoje num hangar do Aeroporto Internacional de Macau, de onde parte amanhã com destino a Taiwan. O avião de propulsão bimotor realizou o voo inaugural a 9 de Março de 1940 nos Estados Unidos, onde esteve ao serviço de companhias aéreas norte-americanas até ser recrutado pelo exército entre 1942 e 1944 durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo da vida, teve uma série de usos: foi bombardeiro, avião de combate e até

avião hospital e de turismo e utilizado para o transporte de pára-quedistas. Em 2008, o “DC-3” foi adquirido pelo piloto Francisco Agullo e um grupo de amigos, com o apoio da Breitling. Restaurado para poder voltar a voar, o aparelho tem estado, desde então, em várias exibições aéreas da marca de relógios. O fabrico dos “DC-3” terminou em 1945. Actualmente, existem menos de 150 modelos operacionais em todo o mundo, dos quais 15 na Europa. “A escala em Macau está prevista para ser o maior evento da aviação na cidade, atraindo uma série de seguidores que têm acompanhado o início do ‘tour’ desde Março. Além disso, acreditamos que a chegada do ‘Breitling DC-3’ irá trazer inspiração às futuras gerações de Macau”, refere um comunicado da marca de relógios. “A volta ao mundo do ‘DC-3’ vai permitir a muitas pessoas, entusiastas da aviação e crianças, estabelecer laços com a cultura e património aeronáutico, fomentar o interesse pela aviação e levar inspiração à próxima geração de pilotos”, conclui. HM/LUSA


12 CHINA

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PEQUIM ESPERA QUE VENEZUELA CONSIGA MANTER A ESTABILIDADE

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China expressou sexta-feira o seu apoio à Venezuela, nação que considerou “país amigo”, e expressou a sua confiança de que o povo venezuelano consiga “gerir os seus assuntos domésticos, manter a estabilidade e o desenvolvimento social e económico”. Numa reacção aos confrontos entre manifestantes e forças de segurança do país, que resultaram na morte de três pessoas, o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Lu Kang afirmou que a “China está atenta à situação”. “Sabemos que o Governo

da Venezuela expressou a sua confiança de retomar o diálogo com a oposição”, acrescentou. O porta-voz chinês assegurou que Pequim considera essa “a linha a seguir, para bem dos interesses fundamentais” do povo venezuelano. O secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, pediu que sejam tomadas medidas para “reduzir a polarização” no país latino-americano, um apelo repetido pela Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, México, Paraguai, Perú e Uruguai, que condenaram a violência dos últimos dias. Segundo Caracas, três pessoas morreram na quinta-feira durante as manifestações da oposição contra o presidente do país, Nicolás Maduro, e outras 62 ficaram feridas. Foram detidos 312 manifestantes.

CARGUEIRO ESPACIAL ACOPLOU-SE COM SUCESSO A LABORATÓRIO

Uma união de facto

TAXAS PARA MINIMIZAR IMPORTAÇÕES DE FIBRA ÓPTICA DA UE E DOS EUA

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Ministério chinês do Comércio anunciou sexta-feira a renovação das taxas contra as importações de fibra óptica precedentes dos Estados Unidos e União Europeia (UE), um ano depois de medidas similares terem expirado. Em comunicado, o ministério informou que as novas taxas - que impedem a venda por preços abaixo do valor considerado justo para a China - serão aplicadas a partir de sábado e vigorarão durante os próximos cinco anos. Segundo as autoridades chinesas, não é possível levantar estas sanções ou, caso contrário, “as empresas dos EUA e UE seguramente aumentariam as exportações outra vez, o

que prejudicaria o mercado chinês”. As medidas anteriores impunham tarifas entre 4,7% e 29,1%. A China é o maior mercado mundial de fibra óptica, utilizada amplamente no sector das telecomunicações, representando cerca de 60% da procura global. O país asiático adopta frequentemente medidas como represália a políticas similares de grandes economias como as europeias ou a norte-americana. Esta decisão surge um dia depois de Washington ter anunciado uma investigação contra algumas exportações de aço chinesas, o que poderia acarretar um aumento das tarifas impostas a produtos chineses em torno de 8%.

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primeiro cargueiro espacial chinês acoplou-se sábado com sucesso ao laboratório espacial ‘Tiangong 2’, dois dias depois de ter sido lançado sem incidentes, anunciou o centro de controlo aeroespacial de Pequim. Segundo a agência noticiosa francesa AFP, o cargueiro Tianzhou-1 (‘Navio celestial’), terá realizado a acoplagem perto das 5:30, hora de Lisboa, depois de um primeiro contacto estabelecido com o laboratório espacial, cerca de 15 minutos antes. O laboratório deverá abrir caminho ao desenvolvimento de uma estação espacial habitável, prevista para 2022, quando a estação espacial internacional deixar de funcionar. O desenvolvimento de um cargueiro espacial era

imprescindível para a construção da estação espacial, cujo primeiro módulo será colocado no espaço em 2019 (um ano depois do previsto inicialmente) e que se espera esteja concluída três anos depois. Durante a missão, a nave “Tianzhou 1” (navio celestial) ensaiará três tipos diferentes de acoplagem ao laboratório espacial, ao qual estará unida durante dois meses. Também fará o transvase de combustível para que o “Tiangong 2” mantenha a órbita, bem

como equipamentos científicos e técnicos. Após cinco meses numa órbita a 385 quilómetros de altitude, o cargueiro espacial iniciará uma descida controlada para se desintegrar nas camadas mais altas da atmosfera.

TESTE VITAL

O principal objectivo da missão é comprovar o funcionamento da nova nave, que será necessária para o transporte de todo o tipo de elementos para a estação espacial.

O desenvolvimento de um cargueiro espacial era imprescindível para a construção da estação espacial, cujo primeiro módulo será colocado no espaço em 2019 e que se espera esteja concluída três anos depois

A futura estação espacial vai exigir um abastecimento periódico de alimentos, água, oxigénio e materiais, sendo que o programa espacial chinês não pode avançar na construção da estação sem ter antes um sistema fiável de transporte. A “Tianzhou 1” é uma nave de nove metros com uma capacidade de carga de 6,5 toneladas e um peso total de 13 toneladas, cujo desenvolvimento pressupôs “um esforço de seis anos” em desenho e construção, segundo Luo Guqiang, responsável adjunta da missão. O primeiro módulo da estação espacial, chamado “Tianhe 1” (rio celestial), terá um peso de 20 toneladas e um braço robot articulado, pelo que precisa de um foguete propulsor mais potente capaz de por em órbita cargas até 25 toneladas.


13 hoje macau segunda-feira 24.4.2017

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empresário espanhol León Smit, que organiza visitas à Coreia do Norte, diz que o país foi “isolado à força”, sendo “muito difícil” estabelecer relações comerciais com Pyongyang, sob o regime de Kim Jong-un. “É um país que foi isolado à força”, afirma à agência Lusa Smit, que em 2015 concluiu um mestrado em Política Internacional na Universidade de Yanbian, cidade chinesa situada na fronteira com a Rússia e a Coreia do Norte. O espanhol colabora actualmente com a KTG, agência de viagens fundada em 2008 e uma das raras especializadas em organizar visitas à Coreia do Norte. “Os norte-coreanos consideram-se abertos ao mundo, dispostos a estabelecer conversações e negociações com qualquer país”, diz. No entanto, “é muito difícil estabelecer relações comerciais com a Coreia do Norte”, acrescenta Smit. “Mesmo para nós, uma agência de viagens certificada, é por vezes compliPUB

cado realizar transferências bancárias” com Pyongyang, revela, explicando que as companhias que oferecem aquele tipo de serviço bloqueiam qualquer movimento que envolva o país.

TENSÕES ANTIGAS

Tecnicamente, a Coreia do Norte e a Coreia do Sul continuam em guerra e o armistício assinado em 1953, após quase quatro milhões de mortos, ainda não foi substituído por um tratado formal de paz. Desafiando as resoluções das Nações Unidas, o Governo de Pyongyang continua a testar mísseis de médio e longo alcance e a desenvolver um controverso programa nuclear. A própria China, que até há pouco tempo mantinha com a Coreia do Norte uma relação descrita como de “unha com carne”, tem-se progressivamente afastado do país, consciente de que este representa cada vez mais uma fonte de tensão regional e um embaraço para a diplomacia chinesa. Em Novembro passado, a ONU reforçou as mais duras

Um mundo à parte Coreia do Norte foi “isolada à força”, diz empresário espanhol

sanções dos últimos 20 anos contra o regime dos Kim, limitando as exportações norte-coreanas de carvão, que tinham na China praticamente o único importador. O turismo tem assumido uma importância crescente como fonte de receitas para o país. As visitas organizadas pela KTG custam entre 800 e 1.695 euros e incluem o transporte de comboio de ida

e volta a partir de Pequim, deslocações internas, hotéis e três refeições por dia. A estada varia entre 3 e 10 dias e inclui visitas até sete cidades e à montanha de Myohyang. Mas não foi sempre assim: “Nos primeiros anos da KTG, só se podia visitar um par de cidades, mas com o tempo foram abertos mais locais ao turismo, assim como zonas de diversão e desporto,

parques naturais e quintas”, diz Smit. A KTG leva, em média, 500 turistas por ano a visitar a Coreia do Norte, a maioria europeus, mas também norte-americanos e australianos. “Inicialmente, eram sobretudo europeus mais velhos, que viveram durante a época da União Soviética e queriam ver com os seus próprios

REGIÃO olhos um país que continua a ser soviético”, explica. Já os norte-americanos visitam a Coreia do Norte “por curiosidade”. Nos últimos anos, a maratona de Pyongyang passou também a atrair pessoas ligadas ao desporto. “Ao contrário do que muita gente pensa, viajar para a Coreia do Norte não é difícil de todo”, diz Smit. “O visto é feito ‘online’ e em menos de uma semana está pronto”. As visitas têm que ser feitas em grupo e sempre na companhia de um guia turístico. O espanhol lembra que “tecnicamente, o país continua em guerra, por isso, as medidas de segurança são mais fortes do que em outros lugares”. Questionado sobre se os norte-coreanos estão contentes com o regime, León Smit diz que “não é ninguém para englobar o ponto de vista de todo um povo”. “Mas, no geral, existe orgulho por se terem mantido uma nação independente durante todos estes anos, apesar das dificuldades”, conclui.


h ARTES, LETRAS E IDEIAS

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Paulo Maia e Carmo tradução e ilustração

ZHANG YANYUAN «Lidai Ming Hua Ji»

Relação das Pinturas Notáveis Através da História E continuei a minha resposta: «Apesar das suas pinceladas terem um aspecto bastante incompleto os pensamentos de Zhang Sengyou e Wu Daozi ficaram claramente expressos. Deve ser recordado, antes de mais, que há dois tipos de pintura, o shu e o mi (o modo esboçado e o modo acabado) então, a partir daí podemos discutir pintura.»1 O meu interlocutor fez uma vénia e foi-se embora. SECÇÃO II. CAPÍTULO III. Discussão do Uso da Cópia pelos Pintores. Através do Yin e do Yang inumeráveis formas são elaboradas e produzidas2, a ordem é trazida ao caos pela sua influência misteriosa, enquanto somente o indiscritível espírito é ponderado.

1 - A época de Zhang Yanyuan, a dinastia Tang, conhecerá o apogeu da arte poética na China e esta exercerá na pintura, pela relação estreita que existe entre a pintura e a poesia, uma influência decisiva. Assim veremos como a poesia, por exemplo a de Du Fu (712-770), será «realista» e a pintura abstracta, buscando o fragmento. Com o desenvolvimento da teoria estética, daí derivarão conceitos fundamentais como «cru», «primitivo» (sheng, zhuo) que se opõem a «elaborado», «maduro» e por extensão «hábil» (gong, shou). Sendo o objectivo do pintor, muito mais tarde definido nas palavras de Shitao: «através de um estilo grosseiro, procurar uma imagem fragmentária» (Notas sobre a pintura do Monge Abóbora Amarga, capítulo XII, Florestas e árvores). Em termos práticos, desde o fim dos Tang, a pintura começará a desembaraçar-se do uso das cores para encontrar a sua mais alta forma de expressão na pintura de aguada de tinta monocromática onde

a elipse, o não mostrado mas entrevisto joga um papel fundamental. 2 - No microcosmo da pintura, o Yin e o Yang correspondem à tinta e ao pincel. «Na sua alternância de desdobramento e dobramento, o Céu e a Terra dão forma a todas as criaturas, que todas nascem naturalmente sob o impulso do Sopro; o mesmo se passa na criação pictural; na pintura dos Antigos (isto é, na pintura ideal), o pincel com a sua actividade exerce o papel do Yang, a tinta com a sua imobilidade exerce o papel de Yin; transmitir o Espírito por meio do pincel é o trabalho do Yang, produzir aa tonalidades por meio da tinta é o acontecimento do Yin; e é desta incorporação do Yin e do Yang, realizada pelo pincel e pela tinta, que cada pintura está feita (…). O natural do pincel e da tinta corresponde ao natural do Céu e da Terra.» (Tang Dai, in Hualun Congkan, p.253, cit. por Pierre Ryckmans em Les propos sur la peinture du moine citrouilleamère, Plon, France, 2007, p..70)


15 hoje macau segunda-feira 24.4.2017

o ofício dos ossos

Valério Romão

O

recente surto de sarampo em Portugal fez com que a vacinação voltasse a ser discutida, sobretudo nas redes sociais. A vacinação é responsável pela erradicação, por exemplo, da varíola, que só no século XX matou cerca de quinhentos milhões de pessoas. Se somarmos à varíola as restantes doenças que as vacinas contribuíram para erradicar ou diminuir substancialmente, torna-se claro que as vacinas, a par dos antibióticos, foram responsáveis, de forma decisiva, para o maior aumento de população e longevidade de que há memória. Ainda assim, e a despeito das evidências científicas e empíricas, ainda há quem não vacine os seus filhos. No princípio do século XXI, e surgindo sobretudo como hipótese explicativa para a incidência alarmante de autismo em crianças, surgiu uma corrente anti-vacinação relacionada com um preservante à base de mercúrio presente em algumas vacinas compostas, sobretudo nos Estados Unidos. O estudo que fundamentava essa recusa, de 1998, foi refutado em 2011, por apresentar evidências de manipulação de dados, e a licença do médico que conduziu esse estudo, um britânico chamado Andrew Wakefield, foi revogada. Entretanto, e mesmo depois de retirado o timerosal da composição das vacinas nos Estados Unidos, em 2002, os casos de autismo não pararam de aumentar. Ainda assim, seja pela crença de que a indústria farmacêutica – que em abono da verdade, faz por merecer a desconfiança do público – foi de alguma forma responsável pelo silenciamento do Dr. Wakefield ou pela convicção de que as vacinas são responsáveis por mais danos que benefícios, há quem continue a não vacinar as crianças que tem à sua guarda. Na verdade, as correntes anti-vacinação são apenas um sintoma de uma corrente muito mais vasta e de certo modo transversal a todas as áreas do saber e que se caracteriza por uma profunda desconfiança relativamente aos produtos da ciência. Lembro-me de quando íamos todos morrer de cancro porque aquecíamos uma lasanha no micro-ondas, de como os telemóveis nos iam transformar num ápice numa sociedade de dementes precoces que fariam parecer os filmes de zumbis pós-apocalípticos uma matiné da Disney. Lembro-me também, por outra

GRANT WOOD, AMERICAN GOTHIC

Do obscurantismo

As correntes anti-vacinação são apenas um sintoma de uma corrente muito mais vasta e de certo modo transversal a todas as áreas do saber e que se caracteriza por uma profunda desconfiança relativamente aos produtos da ciência

parte, de como o ginseng, a aloé vera, a geleia real de abelha e, mais recentemente, as bagas de goji nos iam prolongar a vida, debelar qualquer maleita e, sobretudo, livrar-nos da obnóxia dependência dos produtos da indústria farmacêutica. Guess what. Never Happened. A gigantesca indústria das crenças alternativas labora na desconfiança que o sujeito tem relativamente à sociedade em que se insere. E nenhum de nós, por mais infra-paranóico que seja, é imune à suspeição de que as pessoas que dão a cara no exercício do poder não são realmente aquelas que mandam. Essa incerteza, muitas vezes justificada pela revelação jornalística dos interesses muito pouco transparentes que movem os políticos e pelas desocultação das relações que estes mantêm com uma espécie de governo paralelo, constituído por homens com dinheiro e poder, é a base da suspeição que os cidadãos têm vis-à-vis a sociedade em que vivem. E, crescendo de forma incontrolável, essa desconfiança alastra para tudo quanto o governo – o oficial e aquele “que efectivamente manda” – legisla, determina e regula. E embora as teorias da conspiração possam abarcar, de facto, qualquer evidência científica, transformando-as em véus destinados a nos cegar perante a verdadeira intenção daqueles que a produzem, as áreas da saúde, regra geral, são as mais propensas a sofrer este efeito de desinformação. E percebe-se porquê. Se os donos-disto-tudo pretendem instaurar uma “nova ordem mundial”, como advoga a maior parte dos teóricos da conspiração, dizimando grande parte da população ou escravizando-a de alguma forma, o meio mais adequado para o conseguir seria manipular as soluções que temos ao nosso dispor para salvar vidas no sentido exactamente inverso. Daí as teorias dos chemtrails, das vacinas incapacitantes, dos muitos e demasiado diversos planos para nos destruir ou amputar mentalmente para serem enumerados fora do âmbito de uma tese de doutoramento. A verdade é que a haver uma ordem oculta, esta não precisa de gastar um tostão em implementar de forma encoberta uma maquinaria sofisticada capaz de administrar-nos químicos cuja finalidade é tornar-nos estúpidos. A forma como nos comportamos, a maior parte das vezes tão rudimentarmente emocional como acrítica, perante a informação que temos ao nosso dispor, é mais que suficiente.


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h

hoje macau segunda-feira 24.4.2017

Amélia Vieira

Os ramos da palmeira O meu amado é alvo e rosado, distingue-se entre dez mil....são cachos de palmeira os seus cabelos .... «Cântico dos Cânticos» Procurar o Amado-ela- capítulo cinco versículo dez.

voz dele:( ...) Esse teu porte é semelhante à palmeira os teus seios são seus cachos- pensei«Vou subir à palmeira, vou colher dos seus frutos» a alegoria final de uma fome que se redime em altura pela subida não deixa de nos impressionar pela vontade de ir sempre mais para além, e que belo se torna se a conquista se der trepando de forma a que uma queda não nos prostre definitivamente num solo duro sem vontade de continuar .... um lugar para cair, é um vasto território para continuar a subir. Aqui o Amor é como trepar à palmeira e sabemos que nem sempre de uma só vez tal movimento é ROBERT MARCHESSAULT, PREMIER MATIN, ÓLEO SOBRE TELA

A

GORA estamos na Páscoa que nos parece a época mais palmilhante de todas e aquela onde tudo se move, movimento de passagem - pessach- desta época tão repleta de aspectos provisórios que pela marcha se anuncia através da magnífica metáfora da entrada e da saída como forma móvel e precária da condição da vida. Desde a festa se Sucot à entrada de Jesus em Jerusalém, fixa, só a ideia de árvore, que nos vem dos ramos da palmeira, ela que nos lembram sempre os oásis, as deleitosas sombras por onde passam os sonhos e os dosséis feitos com a sua madeira onde se deleitam os amantes, e deve ser ela, e não outra, a verdadeira Árvore do Paraíso se tal houver. Mas é claro que esta natureza móvel é apanágio dos desertos, e a altura, a mais veemente miragem das suas naturezas. A visão que temos dela fora destes espaços, não rara, é triste- as decorativas- o seu uso ornamental não resulta em nada a não ser na visão de uma árvore bela, mas bela, só em outros contextos, no seu primitivo local, falta-lhes aquele “ramo” que um inominado insiste em sussurrar pelos desertos aos ouvidos do silêncio... que uma palmeira não é uma sarça, nem em cima dela aparecem coisas que dão nome a fenómenos tais que nos perguntamos: porquê ali? Azinheiras e outras mais... Quem são as criaturas que “aterram” em cima delas? O mundo, um conto vegetal que tem no topo o “brinde” que pode muito bem ser o inexplicável. As árvores são seres prodigiosos e hoje não passo por nenhuma sem o súbito apelo de as abraçar. A ideia ascensional é uma vertente da palmeira, uma espécie de guindaste celeste por onde os sonhos das Páscoas se cumprem sem que nenhuma fique sem seus Ramos aos Sábados e Domingos, é um olhar da verticalidade esse culto transcendente onde na fundura geográfica do Oriente Médio inscreve um código perene, e, se se entra com eles nas cidades, fora delas fazem-se então as cabanas, que a frescura dos ramos ajuda a duras travessias e na Dança do Amor dos mesmos Cânticos, capítulo sete, versículo nove, aí está agora na

bem conseguido. Em redor dela parece que tudo o que é amor se cumpre e não será estranho que toda esta época que agora é o mês onde começa a mágoa, comece a nascer a mais terna das vantagens da nossa antiga natureza vegetal, uma certa frescura que só as sombras dão. Possível nada disto ter a mínima importância num mundo repleto de urgências tais que cada frase é ordem e cada pensamento um registo imperdível de conhecimento automático, mas, ainda não se sabe da forma de desenrolar os ciclos naturais neste lado do mundo que ditou tais emblemas oníricos, es-

tes sim, tão grandes, que nos passaram por cima, em incompreendida forma de tédio perante o esqueleto de um mundo agora todo igual, todo banal, todo floral, todo... Deborah, a profetiza, era debaixo de uma palmeira que falava e julgava, mostrando ao mundo que as suas folhas viradas para o céu eram todo um povo( porém, com raízes tais, pois que de todas as árvores são elas que as possuem com maior força, sendo por isso extremamente difícil a sua extracção) numa quase imponente ideia da vitória: sempre de pé, mesmo que passem tornados, ventos, intempéries bíblicas...e os Salmos avançam: o justo crescerá como a palmeira... 92: 12-15. Talvez seja tudo verdade e a verdade nasça sem precisar de grandes apanágios e nós que somos findos das remotas fontes por onde alongámos pensamentos e cumprimos vitórias, não estejamos agora presos a tais Ramos, e como plantas trepadoras nem chão agora tenhamos para morrer. Vamos para fora... vimos de fora... estamos fora disto tudo. Mas também o Berlusconi é vegan e ninguém achou estranho que andasse com cordeiros pascais na luta contra todos os carnívoros, são eles, por mais que nos custe, os novos Profetas, as nossas Páscoas, os nossos ídolos-que nós não vimos outros- certamente, e temo que possam sobrepor-se ao que um ramo de palmeira deu por milénios. Saturados de igualdade, num mundo sem iguais, nós fomos fazendo tudo igual de modo a não termos que nos incomodar com as desigualdades crescentes que eram comportamentos desviantes... de viandantes.... e para que se saiba, mais vale o Berlusconi com um borrego pascal que um camelo a entrar por uma agulha num qualquer oásis onde sacra e fascinantemente, festejam outros, talvez, penosas salvações. Mas, quando há Cânticos e as Ovelhas são comparadas a uma bela tiara de dentes, tragar é consubstanciar tais coisas, que de tão espantosas e simples a todos parecem confundir. E há palmeiras que se comem, e elas, crescem depois pelas nossas veias ficando nós uma seiva de sangue para as novas plantações. Dos seus ramos, os Domingos, das suas raízes estas lembranças, que as Ceias são bonitas, que o vinho é bom, e a Liberdade, um sonho sempre renovado.


17 hoje macau segunda-feira 24.4.2017

DESPORTO

FUTEBOL VILLAS-BOAS VENCE E MANTÉM-SE EM TERCEIRO NA LIGA CHINESA

O Shangai SIPG, equipa orientada pelo português André Villas-Boas, venceu sexta-feira com relativa facilidade o Hebei por 3-0, mantendo-se assim na terceira posição da liga chinesa de futebol. A jogar em casa, o Shangai SIPG chegou ao intervalo a vencer já por 2-0, com golos de Lu Wenjun, aos 20 minutos, e de Wu Lei, aos 26, tendo o internacional brasileiro Óscar, aos 67, ampliado para 3-0, na conversão de uma grande penalidade. Com esta vitória, a formação de Villas-Boas segue no terceiro posto, agora com 13 pontos, os mesmos do segundo, o Guangzhou Evergrande, campeão em título e orientado pelo brasileiro Luiz Felipe Scolari, e menos três do que o Guangzhou R&F, líder da prova.

Achas e fogueiras Vieira critica conduta incendiária vivida no futebol português

O BENFICA SEGURA LIDERANÇA COM EMPATE NO ‘DÉRBI’

Na rota do título

O

Benfica empatou sábado em casa do Sporting (11), com o resultado do ‘dérbi’ a garantir que os ‘encarnados’ continuam na liderança no final da 30.ª jornada da liga portuguesa de futebol. Num jogo intenso e bem disputado mas com poucas oportunidades de golo, uma grande penalidade do ‘capitão’ leonino Adrien Silva, aos cinco minutos, e um golo de livre directo do sueco Victor Lindelof, aos 66, fizeram mexer o marcador num ‘dérbi’ que era apontado como decisivo para as contas do título. O tricampeão Benfica passa, assim, a somar 72 pontos, mais oito que o Sporting, que interrompeu uma série de cinco vitórias consecutivas. Em Alvalade, os ‘eternos rivais’ disputaram o duelo 300 entre si, numa

partida acesa na qual os homens da casa entraram melhor, aproveitando para chegar à vantagem num erro de Ederson, que cometeu falta sobre Bas Dost. O Benfica reequilibrou, depois, a partida, estando por cima do jogo até ao golo, ainda que o avançado holandês dos ‘leões’ tenha tido, pouco antes do empate, uma oportunidade soberana para fazer o 2-0. Depois do 1-1, os ‘verde e brancos’ procuraram o 2-1 para encurtar distâncias para o rival, que estava em risco de deixar a liderança à mercê dos ‘dragões’, mas o empate acabou por imperar no final do jogo.

A partida ficou ainda marcada pelas homenagens e pelo minuto de silêncio guardado em memória do adepto italiano atropelado mortalmente esta madrugada junto ao estádio da Luz, depois das manifestações de pesar de Sporting, Fiorentina, Benfica e outras entidades, mas também da troca de acusações entre Bruno de Carvalho e Luís Filipe Vieira.

OUTRAS PARTIDAS

No Funchal, o Marítimo venceu o Belenenses por 3-0 e ‘estragou’ a estreia de Domingos Paciência no comando técnico dos lisboetas, com um ‘bis’ do

O tricampeão Benfica passa, assim, a somar 72 pontos, mais oito que o Sporting, que interrompeu uma série de cinco vitórias consecutivas

brasileiro Raúl Silva (09 e 59 minutos) e outro do guineense Keita (76). O resultado deixa os insulares no sexto lugar, com 47 pontos, enquanto o Belenenses somou o sexto desaire consecutivo e continuam no 12.º lugar com 32 pontos. O Estoril-Praia bateu em casa o Vitória de Setúbal por igual resultado, com golos de Kléber, de grande penalidade (12 minutos), Carlinhos (41) e Eduardo (82), passando a somar 31 pontos e provisoriamente no 14.º lugar, enquanto os ‘sadinos’ continuam o campeonato tranquilo no 10.º posto, com 35. No jogo entre os dois últimos classificados, o Tondela venceu o Nacional por 2-0 e deixou a lanterna-vermelha para os insulares, que somam 20 pontos, menos três que o adversário. Os viseenses chegaram ao segundo triunfo consecutivo com golos de Jaílson, de grande penalidade aos 63 minutos, e de Osório, aos 76, passando a somar 23 pontos, a um do Moreirense, primeiro clube acima da ‘linha de água’ no 16.º posto e que na segunda-feira recebe o Desportivo de Chaves (oitavo).

presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, criticou fortemente este sábado a conduta incendiária que é vivida no futebol português nos últimos quatro anos alertando que é necessário para pensar no que está a acontecer. O líder máximo dos ‘encarnados’, que falava à imprensa após a igualdade (1-1) frente ao Sporting, da 30.ª jornada da I Liga, sem nunca dizer o nome do presidente do ‘leões’, limitou a acção, curiosamente, ao tempo de mandato de Bruno de Carvalho, comparando-o, indirectamente, a Vale e Azevedo. “Há 15 anos tivemos dentro da nossa casa um demagogo, populista e mentiroso compulsivo. Que arrastou a nossa instituição para uma situação muito dramática. É fácil hoje continuarem, muitas pessoas que estão no futebol, demagogos, populistas e mentirosos compulsivos. E um dia mais tarde vão dar-me razão”, afirmou. Vieira voltou abordar o e-mail recebido pelo Sporting, que o convidava a assistir ao jogo de sábado à noite na bancada presidencial do Estádio José de Alvalade, sustentando que esperava uma missiva com outro conteúdo. “Tivemos humildade de receber essa carta, esses

senhores foram pedir o meu e-mail a um empresário de futebol, que é das coisas mais caricatas que pode existir, achando que iam retratar-se do que tem acontecido nos últimos quatro anos. Infelizmente, vieram acusar-nos não sei de quê. Não há mais a adiantar a isso”, disse.

PERGUNTAS NO AR

Em relação ao adepto, alegadamente, do Sporting, o italiano Marco Ficini, que terá sido atropelado por um do Benfica, Vieira diz lamentar profundamente o sucedido colocando várias questões no ar. “Entregámos à polícia as imagens, não trabalhadas e com som, onde é fácil identificar quem são as pessoas. Há perguntas que temos de fazer. Sendo adeptos do Sporting, o que estavam a fazer às três da manhã na rotunda Cosme Damião? Seria para tirar fotografias a Cosme Damião? Seria para tirar fotografias a Eusébio? Não sei. Mas sabemos que provocação gera violência. Quem tem contribuído para isso? Quem, ao longo destes quatro anos, incendiou o futebol português? Quem disse publicamente que queria confrontar o Benfica? Não venham culpar os dirigentes do Benfica”, concluiu.


18 (F)UTILIDADES TEMPO

hoje macau segunda-feira 24.4.2017

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AGUACEIROS

O QUE FAZER ESTA SEMANA Diariamente

EXPOSIÇÃO “I AM 038: UMA EXPOSIÇÃO DE UM ARTISTA AUTISTA” Torre de Macau | Até 14/5

MIN

19

MAX

23

HUM

80-95%

EURO

8.59

BAHT

EXPOSIÇÃO “MAORGANIC - WORKS BY ALAN IEON, TKH, JACK WONG, RUSTY FOX” Armazém do Boi | Até 22/4 INSTALAÇÃO “SEARCHING FOR SPIRITUAL HOME II”, DE YEN-HUA LEE Armazém do Boi | Até 7/5

O CARTOON STEPH

EXPOSIÇÃO “VIAGEM SEM TÍTULO” Museu de Arte de Macau | Até 14/5 EXPOSIÇÃO “VELEJAR NO SONHO” DE KWOK WOON Oficinas Navais N.º1 | Até 23/4 EXPOSIÇÃO “AD LIB” DE KONSTANTIN BESSMERTNY Museu de Arte de Macau (Até 05/2017) EXPOSIÇÃO “ILUMINAÇÃO ARTIFICIAL” DE ANABELA CANAS Galeria da Livraria Portuguesa

PROBLEMA 23

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 22

UM LIVRO HOJE

SHOCK WAVE SALA 1

THE BOSS BABY [B] FALADO EM CANTONENSE Fime de: Tom McGrath 14.30, 16.30, 19.30

THE BOSS BABY [3D] [B] FALADO EM CANTONENSE Fime de: Tom McGrath 21.30 SALA 2

SHOCK WAVE [C] Filme de: Herman Yau Com: Andy Lau, Jiang Wu, Philip Keung, Ron

Ng, Song Jia 14.30, 16.45, 19.15, 21.30

SUDOKU

DE

C I N E M A

1.16

VOU ALI E JÁ VENHO

EXPOSIÇÃO “AFTERWARDS – WORKS BY LEE SUET-YING” Armazém do Boi | Até 22/4

Cineteatro

YUAN

AQUI HÁ GATO

EXPOSIÇÃO “OVERLOOK THE MACAU CITY” DE CAI GUO JIE Art Garden | Até 23/4

INSTALAÇÃO “FLUXO DE TONS” DE PAN JIN LING E PAN JIN XIA Pavilhão de Chun Chou Tong | Até 7/5

0.23

Às vezes é preciso ir. Ir para perceber o que há lá fora. Para além deste nosso mundo, que nos vai sufocando a cada passo que damos, a cada dia que é vivido. Sem percebermos, o tempo - esse grande elemento da nossa vida - vai passando. Com percepções mais rápidas ou mais lentas, ele não pára. Quando damos por nós, quando nos olhamos, percebemos que estamos mais velhos, temos menos oportunidades de saber e conhecer. Menos dias para viver. Feliz de mim felino que conta com sete vidas por saborear. E vocês humanos, cheios de si? Cheios de razão revestida de cristal, que ao menor abalo estala, parte e perde-se em mil pedaços. Quanto tempo vos resta para irem ver, sentir e conhecer? Absorver com os sentidos o que há lá fora? E fora nem sempre tem de ser noutro país, cidade ou continente. Fora da nossa bolha, do nosso mundo. Os humanos muito me acham solitário, a viver a minha vida sem interferir com o que lá fora está. Que tolos que sois. Os meus bigodes mentiriam se não vos admitisse que por vezes Macau é sufocante e expulsa-nos daqui, por uns dias, para depois nos chamar, nos atrair. Mas vão, vamos todos, voltaremos um dia, diferentes, com mais, mais daquilo que somos. Pu Yi

“ADMIRÁVEL MUNDO NOVO” (ALDOUS HUXLEY, 1932)

Há livros tão importantes que o seu título, ou alguma frase do seu bojo, ficam para sempre gravados no léxico diário. É o caso deste. Quantas vezes não foi já usado para exprimir os espantos do progresso? Porque é um trabalho fundamental, visionário e que, apesar de escrito há 84 anos, continua assustadoramente actual. O relato de uma sociedade organizada segundo princípios científicos, um mundo de pessoas programadas em laboratório e adestradas para cumprir seu papel numa sociedade de castas biologicamente definidas no nascimento. Um mundo onde a literatura, a música e o cinema têm apenas a função de consolidar o conformismo. Um universo que louva o avanço da técnica, a linha de montagem, a produção em série e a uniformidade. Hoje Macau

SALA 3

FAST & FURIOUS 8 [C] Filme de: F. Gary Gray Com: Vin Diesel, Michelle Rodriguez, Dwayne Johnson 14.15, 16.45, 21.45

FAST & FURIOUS 8 [3D] [C] Filme de: F. Gary Gray Com: Vin Diesel, Michelle Rodriguez, Dwayne Johnson 19.15

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19 hoje macau segunda-feira 24.4.2017

dissonâncias

A tentação de ser Deus

C

OM o bombardeamento da base aérea de Shayrat na Síria justificado por terem sido mortas crianças vítimas de um alegado ataque químico – aparentemente a substância utilizada teria sido o gás sarin –, Donald Trump cedeu à tentação de se fazer passar por Deus. O Deus justiceiro, omnipresente, que pune quando alguém não segue os mandamentos sagrados. A ideia de que Bashar Al-Assad passou uma linha inaceitável, uma linha de não retorno, seria a razão de ser da retaliação dos Estados Unidos da América. A retaliação estaria pois fundamentada. Na narrativa que acompanhou o ataque, repetida quer por Trump quer pela diplomacia norte-americana, estava aberta a porta para um envolvimento mais empenhado de Washington no afastamento de Assad do poder. Seria essa uma espécie de condição sine qua non para a paz. Cedeu à tentação, mas rapidamente lhe passou. A banalização dos eventos e uma certa incapacidade de reagir complica particularmente a actividade de quem pretende executar a justiça, seja ela divina ou dos homens. Responder de uma forma justa a todas as situações injustas é um problema muito complexo a quem se atribui a si próprio as funções de Deus. Mas o problema de Deus Trump (ou de qualquer outro empenhado em vingar o Direito Natural é um problema de coerência. E de consciência, bem entendido. O Deus Trump (ou outro qualquer) não pode deixar de actuar em situações parecidas. Mas, pouco mais de uma semana depois do alegado ataque com gás sarin em Khan Sheikhoun, em território controlado por rebeldes, terão morrido nos arredores de Aleppo, também na Síria, mais outras 126 pessoas, entre as quais estariam pelo menos 68 crianças. Segundo o relato da imprensa internacional, não terá sido utilizado nenhum componente químico contra a população civil. O atentado que levou Donald Trump a intervir terá provocado a morte a 89 pessoas, entre as quais 33 crianças. Num conflito em que as Nações Unidas deixaram de contar o número das vítimas mortais quando terá chegado às 400 mil pessoas – noutro exemplo claro de que a banalização dos acontecimentos leva à saturação de quem tem a obrigação de agir. No entanto, a descrição deste novo atentado, nos arredores de Aleppo, a 15 de Abril, como que passou ao lado da grande imprensa. A narração do que se passou está em sítios como o da BBC, mas não obteve a visibilidade de outros eventos do conflito sírio. Num momento em que se estava a

MARTIN SCORSESE, THE WOLF OF WALL STREET

RUI FLORES

ruiflores.hojemacau@gmail.com

proceder à retirada de pessoas de bairros cercados por rebeldes, um outro autocarro, carregado de explosivos, avançou contra o comboio de deslocados. O facto de que esta facilitação da passagem de habitantes de diferentes bairros ter sido acordada directamente entre o governo e os rebeldes também não merece muitas linhas na imprensa internacional. O ataque não foi reclamado por nenhum dos vários grupos do complexo conflito sírio. E levou a que a evacuação destes bairros fosse interrompida por quase uma semana. O verdadeiro problema destes filhos de um Deus nenhum em que se transformaram os sírios, abandonados à sorte de estarem vivos, é que já ninguém liga. Nem mesmo a chamada imprensa internacional,

O que estes primeiros meses demonstram é que a imprevisibilidade, a incerteza, a errância vão ser a marca de Donald Trump. Um Presidente mais preocupado em aparecer no prime time do que em definir políticas

outra entidade que procura ser imparcial, justa e honesta. Isso é cada vez mais evidente. A imprensa internacional tem dedicado grande atenção aos primeiros 100 dias de Donald Trump na Casa Branca, como que tentando caracterizar o que se pode esperar dos outros três anos e nove meses da sua presidência. Destes três meses iniciais e depois de um ataque massivo a uma base aérea na Síria, que, segundo a narrativa norte-americana, terá destruído 20 por cento da capacidade da força aérea de Assad, e do uso da mãe de todas as bombas no Afeganistão, o que se pode concluir é que Trump não parece ter a vontade de desempenhar o papel de Deus. O discurso, a certeza, é que ele quer um papel cada vez menor para os Estados Unidos no mundo. Isto foi apenas uma distracção. A certeza de que Trump se enganou quando quis representar o papel de Deus veio pelo próprio Presidente norte-americano. O primeiro-ministro italiano foi a Washington sugerir um envolvimento maior dos Estados Unidos na Síria, para contribuir para o fim do conflito, e a resposta que levou foi um rotundo não, alegando que os EUA já desempenham demasiados papéis no mundo. O que estes primeiros meses demonstram é que a imprevisibilidade, a incerteza, a errância vão ser a marca de Donald Trump. Um Presidente mais preocupado em aparecer no prime time do que em definir políticas ou princípios que honrará nas relações internacionais.

OPINIÃO


A

regulamentação da lei da nacionalidade, o registo automático dos portugueses no estrangeiro e o trabalho dos órgãos regionais deverão ser alguns dos temas da reunião do Conselho Permanente do CCP, disse o secretário de Estado das Comunidades. “Entre as matérias que deverão ser abordadas na reunião do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas há algumas que tem uma especial importância, nomeadamente o facto de se avaliar os resultados alcançados até aqui, quer trabalho dos órgãos regionais, quer outros avanços, como a proposta de lei que será submetida à Assembleia da República sobre o recenseamento automático dos portugueses no estrangeiro”, disse José Luís Carneiro à Lusa. A reunião do CP-CCP decorrerá entre quarta e sexta-feira, em Lisboa. Este ano já houve reuniões ordinárias anuais dos conselhos regionais de África, em Joanesburgo, em Fevereiro deste ano; da Europa, em Lisboa, em Março; da PUB

começaram a crescer/cresceram no interior do frio/do passageiro inverno/no frio rolhado dos recantos da casa/nos seus transparentes sinos de mergulho” Rui Cascais Parada

Conselhos de Lisboa Lei da nacionalidade em debate na reunião do CCP

Ásia/Oceânia, em Macau, igualmente em Março, e da América Central e do Sul, em Março e Abril, em Santos, no Brasil. “(Na reunião do CCP) deverá ser abordada ainda a regulamentação da lei da nacionalidade, aprovada na quinta-feira, que permitirá

a aquisição mais ágil da nacionalidade a netos de portugueses, sobretudo no caso do Brasil”, referiu o secretário de Estado. Segundo o governante, deverá na agenda estará também “um balanço da aplicação ‘Registo do Viajante’, outras medidas que

se encontram em curso sobre a modernização da rede consular” e ainda o debate sobre “o reforço dos recursos humanos na rede consular”. “Este órgão máximo do CCP é autónomo do ponto de vista da sua agenda, mas são temas que estão a ser tratados nos órgãos regionais e admi-

to que deverão ser tratados no Conselho Permanente”, disse José Luís Carneiro.

BOAS ENERGIAS

O secretário de Estado referiu ainda que esteve reunido com alguns conselhos regionais entre Fevereiro e Abril, nomeadamente os de África, Europa, Ásia e Oceânia, e América Central e do Sul. “Quero sublinhar o recebimento de uma comunicação dos conselheiros do CCP a congratular-se com estas duas medidas políticas que foram consideradas muito importantes por parte dos conselheiros, a regulamentação da lei da nacionalidade e o registo automático dos portugueses no estrangeiro”, afirmou. Nesta reunião do CCP será apresentado ainda o plano de acção do CCP para 2017/2020 e a eleição da mesa directora do Conselho Permanente, actualmente presidido por Flávio Martins, conselheiro do Brasil. O CP é composto por 12 membros eleitos pelos vários conselhos regionais em que o CCP se decompõe: dois conselheiros de África, um da Ásia/Oceânia, dois da América do Norte, três da

segunda-feira 24.4.2017

“(Na reunião do CCP) deverá ser abordada ainda a regulamentação da lei da nacionalidade, aprovada na quinta-feira, que permitirá a aquisição mais ágil da nacionalidade a netos de portugueses” JOSÉ LUÍS CARNEIRO SECRETÁRIO DE ESTADO DAS COMUNIDADES América Central e do Sul e quatro da Europa. O CCP conta actualmente com 65 conselheiros, que são eleitos por círculos eleitorais correspondentes a países ou grupos de países por mandatos de quatro anos, por sufrágio universal, directo e secreto.

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Hoje Macau 24 ABR 2017 #3798  

N.º 3798 de 24 de ABR de 2017

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