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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10

TERÇA-FEIRA 23 DE FEVEREIRO DE 2016 • ANO XV • Nº 3517

HIU KOK

O mundo é um palco

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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EVENTOS

hojemacau

EXTRADIÇÃO

As voltas do oculto GRANDE PLANO

USJ RECRUTAMENTO DE ALUNOS CONTINENTAIS NEGADO

Chumbo à Pequim Apesar das crescentes dificuldades da Universidade de São José face à redução de estudantes locais, Pequim continua sem autorizar o recrutamento de alunos

do interior da China. A informação chega do Ministério da Educação chinês que, contudo, não avança explicações para a recusa ao pedido da USJ.

COLOANE

Dúvidas ambientais PÁGINA 6

h

Viena Mar

PEDRO LYSTMANN

YAO FENG

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PÁGINA 7


2 GRANDE PLANO

O Secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, garantiu ontem que não houve entrega ilegal de fugitivos de Macau para a China, tendo frisado que o território se limitou a responder a mandatos da Interpol e a um despacho do Ministério Público

CRIMINALIDADE

WONG SIO CHAK NEGA ILEGALIDADES NA ENTREGA DE FUGITIVOS

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ÃO houve “acções ocultas” na entrega de três pessoas à China, duas delas de Hong Kong. Foi desta forma que o Secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, reagiu à notícia do South China Morning Post sobre extradições de fugitivos para a China que terão sido feitas de forma ilegal e de forma extrajudicial. No âmbito da conferência de imprensa sobre o balanço da criminalidade do ano de 2015, Wong Sio Chak negou qualquer ilegalidade. “Macau faz parte da Interpol e deve obedecer aos deveres internacionais. Segundo o Código do Processo Penal (CPP), os acordos internacionais prevalecem sobre a lei interna. Caso haja pedidos de entrega de infractores, devem ser regulados por acordos internacionais ou cooperação judiciária. Caso não haja estes acordos, temos de aplicar o CPP. Não se pode dizer que não existe uma lei para regular a entrega de infractores”, explicou. O jornal de Hong Kong dá conta de dois casos ocorridos em 2007 e 2008, sem esquecer a entrega de Wu Quanshen ao continente o ano passado. Já o Secretário para a Segurança garantiu tratarem-se de situações diferentes, uma vez que em 2007 e 2008 a Interpol emitiu dois mandatos, ao que se

seguiu um despacho do Ministério Público (MP) de Macau a autorizar a extradição de “uma pessoa”. Já no caso de Wu Quanshen, entregue à China no ano passado, tudo se tratou de um “caso de excesso de permanência no território”, que levou o Executivo a cancelar a sua autorização de residência.

OUTROS ENTENDIMENTOS

NG KUOK CHEONG EXIGE MAIS DADOS

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deputado Ng Kuok Cheong entregou uma carta ao Governo onde pede que sejam divulgadas mais informações sobre os casos dos três indivíduos, dois deles de Hong Kong, que foram enviados para a China pelas autoridades locais. O deputado deseja saber a legalidade e autenticidade dos casos, frisando que não respeitam o princípio de “Um país, dois sistemas”. “O Governo deve esclarecer os detalhes dos casos, para que possa manter a reputação da RAEM”, referiu Ng Kuok Cheong.

Contudo, e segundo o acórdão do Tribunal de Última Instância (TUI), referente a 2007, os juízes consideraram a extradição ilegal por não terem ainda sido assinados acordos de cooperação neste sentido. Wong Sio Chak explicou que este indivíduo acabou por ser libertado. Neste caso, “o advogado de um dos detidos apresentou um habeas corpus ao TUI e, na apreciação, o tribunal entendeu que por falta de acordo de cooperação não deveria haver detenção e entrega de pessoas. Mas o MP, no despacho que proferiu, deu um entendimento diferente. Temos de respeitar a decisão judicial e nesta questão não está em causa uma aplicação ilegal da lei. As decisões do tribunal não são vinculativas e aplicámos os acordos internacionais e executámos um despacho do MP. Aqui reside a questão da interpretação da lei e, havendo um dever internacional, temos de o cumprir”, concluiu o Secretário.

“Macau faz parte da Interpol e deve obedecer aos deveres internacionais. Segundo o Código do Processo Penal (CPP), os acordos internacionais prevalecem sobre a lei interna” “Quando a Interpol emitiu esse mandato, tomámos as acções necessárias e entregámos os dois detidos à China, mas recebemos o despacho (do MP) a confirmar a legalidade da nossa acção”

JUÍZOS DISTINTOS WONG SIO CHAK SECRETÁRIO PARA A SEGURANÇA


3 hoje macau terça-feira 23.2.2016 www.hojemacau.com.mo

“Nos dois casos ocorridos em 2007 e 2008, a Interpol recebeu da autoridade de segurança da China um mandato vermelho e, ao abrigo do CPP, nada diz que Macau não pode entregar residentes de Hong Kong para a China. Quando a Interpol emitiu esse mandato, tomámos as acções necessárias e entregámos os dois detidos à China, mas recebemos o despacho (do MP) a confirmar a legalidade da nossa acção”, rematou ainda o Secretário. Wong Sio Chak confirmou ainda que desde 2008 não voltou a haver a extradição de pessoas para o continente, sendo que nunca houve qualquer residente de Macau envolvido neste processo. Sobre a assinatura dos acordos de extradição entre Macau, China e Hong Kong, Wong Sio Chak apenas espera que a sua conclusão “seja feita com a maior brevidade possível”. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

O crescente sequestro Crimes ligados aos casinos dominaram 2015

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ACAU registou no ano passado um aumento de crimes relacionados com o mundo do Jogo, conforme a Polícia Judiciária (PJ) já tinha referido no último balanço efectuado há semanas. O crime de sequestro, ou “crime de cárcere privado”, aumentou 86,4% face a 2014, sendo que o crime de usura aumentou 48,1%. A PJ instaurou um total de 1553 processos relacionados com crimes de Jogo, um aumento de 38%. Contudo, e segundo a apresentação ontem feita por Wong Sio Chak, não há motivo para

alarme, até porque as autoridades confirmam “uma tendência de descida da criminalidade grave e violenta”. “Apolícia ainda não recebeu, até ao presente, informações sobre qualquer anormalidade no comportamento de associações secretas devido ao ajustamento das receitas do Jogo”, sendo que esse ajustamento “ainda não trouxe quaisquer consequências para a situação da segurança em Macau”. Com uma quebra nos crimes de tráfico de droga ou passagem de moeda falsa, o Governo confirma que não há “indícios óbvios que demonstrem que o período de ajustamento das receitas do Jogo traga consequências negativas para a segurança de Macau”, sendo que as autoridades prometem “continuar a empenhar-se na execução da lei e a avaliar sistematicamente as situações de ajustamento no sector do Jogo para evitar que factores instáveis apareçam”.

86,4% 1553 aumento de crimes relacionados com o Jogo em 2015

processos instaurados pela Polícia Judiciária

UBER JÁ LEVOU À ABERTURA DE 17 CASOS

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ESDE que começou a operar no território que a Uber já levou à abertura de 17 processos junto das autoridades, sendo que oito deles surgiram este ano. O Secretário para a Segurança garantiu, contudo, que o Governo ainda não chegou a nenhuma conclusão sobre a melhor forma de legislar este tipo de serviços. “A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Justiça está a rever o regulamento administrativo [dos táxis] e está a chegar à etapa final. Estamos a ver o estatuto destas aplicações de telemóvel na área do trânsito, mas só depois de termos uma decisão final é que poderemos trabalhar com a Assembleia Legislativa”, apontou. Sobre o funcionamento dos táxis, o Secretário referiu que o número de ilegalidades não diminuiu. “No ano passado registámos uma grande subida, o que significa que os números mostram que ainda existem muitas irregularidades. Temos de encontrar outros meios [de combate] e tenho referido que precisamos de alterar a lei. Sei que o processo de trabalho está a chegar ao fim e precisamos de cooperar com outros serviços”, rematou.


4 POLÍTICA

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Violência Doméstica MAIS TRÊS REUNIÕES PARA FIM DE ANÁLISE DA LEI

ALFÂNDEGA ALEX VONG TOMA POSSE E GARANTE DEDICAÇÃO

Só falta um bocadinho Faltam três reuniões para terminar a análise na especialidade da proposta de Lei de Prevenção e Combate à Violência Doméstica, segundo Kwan Tsui Hang. A presidente da Comissão indicou ainda que todos os membros estão de acordo com a nova versão da proposta

T

ODOS os membros da 1.ª Comissão Permanente da Assembleia Legislativa (AL) concordam com as novas alterações definidas pelo Governo na proposta de Lei de Prevenção e Controlo da Violência Doméstica, agora Lei de Prevenção e Combate à Violência Doméstica. “Este texto propõe também a alteração do nome da lei. Em vez de Lei de Prevenção e Controlo, passa para Lei de Prevenção e Combate à Violência Doméstica. Isto quer dizer que o Governo vai colocar um grande peso na vertente da prevenção para evitar a ocorrência de casos de violência doméstica, bem como oferecer uma maior protecção às vítimas”, indicou Kwan Tsui Hang, presidente da Comissão. Depois da primeira reunião com a nova proposta, o presidente explicou que a Comissão conta terminar a análise em três reuniões futuras. “Vamos ter uma nova reunião antes do início de Março, depois retornaremos na segunda metade. Já dissemos ao Governo para ter os trabalhos todos prontos até Maio”, explicou.

TUDO OK

Tal como avançou o HM, a proposta mantém o crime público

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“O Governo vai colocar um grande peso na vertente da prevenção para evitar a ocorrência de casos de violência doméstica, bem como oferecer uma maior protecção às vítimas” KWAN TSUI HANG PRESIDENTE DA 1.ª COMISSÃO PERMANENTE DA AL como base legislativa, tornando a violência doméstica em crime. Kwan Tsui Hang explicou que os assessores jurídicos ouvidos pela Comissão garantiram que apesar de não existir o conceito de maus tratos no Código Penal, existindo apenas um conceito generalizado, as autoridades estão preparadas para saber actuar. Uma das novas alterações é atribuição de maior autonomia e poder às associações que se

dedicam a este fenómeno social, permitindo que possa denunciar e intervir para a prevenção de casos. “Esta proposta reflecte uma grande parte das aspirações da população, sobretudo das associações que manifestaram a sua exigência de ter um crime de violência doméstica como crime público, de forma a promover a harmonia familiar”, argumentou a presidente. Filipa Araújo

filipa.araujo@hojemacau.com.mo

Pela boca morre o peixe

Associação Novo Macau quer criminalização de assédio sexual verbal

ANM

é aplaudida pela Associação, que pede, contudo, a alteração da idade: dos 14 para 16, ao invés do sugerido, que vai até aos 18 anos.

FLIRTS PORNOGRÁFICOS

A Novo Macau considera que criminalizar apenas o assédio físico não pode ser a única resposta e pede mais. “Além da revisão do Código Penal, mais mecanismos

deveriam ser estabelecidos para lidar com outras formas de assédio sexual.” Também a introdução do crime público para a prostituição infantil

Apesar de concordar com a criminalização de pornografia de menores, a Novo Macau explica que é necessário seguir o Código Penal Português. Isto, porque a definição atribuída pelo Governo a pornografia de menores é demasiado abrangente. “É certo que todos aqueles que exploram menores para a produção de pornografia deveriam ser sancionados (...), mas a definição de pornografia infantil proposta é demasiado abrangente e poderá vir a criminalizar actos dos adolescentes nas relações românticas actuais”, remata a Associação. Joana Freitas

joana.freitas@hojemacau.com.mo

novo director-geral dos Serviços de Alfândega, Alex Vong, tomou posse ontem, numa cerimónia que contou com a presença do Chefe do Executivo, Chui Sai On, todos os Secretários em funções e os deputados do território. Sem grandes novidades, Alex Vong reforçou que o “mais importante” é a integração na equipa e “coordenar com os trabalhos das Linhas de Acção Governativa da RAEM”. Um dos primeiros trabalhos será a gestão dos 85 quilómetros quadrados de águas marítimas, tal como Alex Vong referiu no sábado passado. O novo director-geral reforçou uma vez mais um plano de trabalho com “calma”. Quando questionado sobre a sua falta de experiência na área da Segurança, Vong desvalorizou o assunto. “Independentemente do meu posto, vou assumir escrupulosamente as minhas funções. Tenho muitos resultados dos meus antecessores, vou continuar a levar os trabalhos a cabo e progredir nessa missão, para melhor servir a população”, apontou. Depois da cerimónia, Chui Sai On, indica um comunicado à imprensa, reuniu com o Secretário para a Segurança, Wong Sio Chak, e o novo director-geral “dando instruções de trabalho aos mesmos responsáveis”. O líder do Governo diz que as suas tarefas serão cada “vez mais árduas e complexas, confrontando-se cada vez com mais desafios”. Não obstante, deixou “clara a convicção de que com o apoio e coordenação do Secretário para a Segurança e os serviços subordinados, a liderança de Alex Vong proporcionará aos SA as sinergias necessárias para a prestação de serviços de alta eficácia e qualidade úteis ao desenvolvimento e prosperidade da RAEM”. F.A. GCS

Associação Novo Macau concorda com o que tem vindo a ser defendido por alguns deputados, de fazer com que o crime de assédio sexual verbal também possa ser punido. Num comunicado onde apresenta as sugestões face à consulta pública que decorre sobre a revisão dos crimes sexuais no Código Penal, a Associação diz também estar satisfeita que tenha sido retirado da lei a diferenciação de género das vítimas de violação. “É um progresso”, começa por apontar a Associação face a esta decisão. “A criminalização do contacto físico de teor sexual aparenta ser a resposta do Governo para a actual inexistência de medidas legais contra o assédio sexual em Macau. Mas o assédio sexual não se limita a contactos corporais, sendo que também pode ser feito de forma verbal”, nota a Associação. “[Esses casos] são mais frequentes nos locais de trabalho ou nas instituições educativas, onde as relações de poder acontecem.”

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CRIADA COMISSÃO PARA MACAU SER PLATAFORMA ENTRE CHINA E PLP

O grupo que faltava GONÇALO LOBO PINHEIRO

Estudos e análises em grupo. É a ideia de Chui Sai On com a criação de uma Comissão especifica para fazer de Macau a plataforma entre a China e os PLP

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IONEL Leong desvaloriza os recentes anúncios de atrasos na abertura de empreendimentos de jogo no Cotai e descarta que estes estejam relacionados com a quebra das receitas. Apesar dos números recentes das contas tanto da Administração, como das receitas dos casinos e das compras dos turistas mostrarem quebras, o Secretário para a Economia e Finanças assegura estar confiante na economia de Macau. Num comunicado, o responsável afirma que o

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HUI Sai On criou um novo grupo dedicado aos negócios entre Macau e os Países de Língua Portuguesa. Chama-se Comissão para o Desenvolvimento da Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e tem o próprio Chefe do Executivo como presidente. O anúncio foi ontem publicado num despacho em Boletim Oficial, que indica ainda que a Comissão tem como missões “realizar estudos sobre a construção da RAEM” como uma plataforma de serviços entre estes países – algo que tem vindo a ser defendido há pelo menos três anos -, “elaborar as medidas e políticas necessárias” para tal, “coordenar a elaboração do plano para o futuro desenvolvimento de Macau, que tem por base a construção dessa plataforma” e “pronunciar-se sobre demais assuntos relacionados e emitir as directivas necessárias”. Além do Chefe do Executivo, a Comissão é composta por Lionel Leong, Secretário para a Economia e Finanças, como vice-presidente e pela Chefe do Gabinete do Chefe do Executivo e Chefe do Gabinete do Secretário para a Economia e Finanças. Integram também o grupo um representante do Gabinete da Secretária para a Administração e Justiça, um do Gabinete do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, um dos Serviços de Alfândega e dois do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau. O Coordenador do Gabinete de Apoio ao Secretariado Permanente do Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa é outro dos intervenientes, a quem se junta

O Secretário sem medo Economia Lionel Leong diz que sociedade está “confiante”

Governo “estará atento ao impacto que as alterações na economia do exterior terão em Macau” e está até preparado para “avaliar a situação económica local de forma cautelosa”. Lionel Leong assegura: estão a ser feitos estudos para que haja mudanças. “As pequenas e médias empresas têm um papel preponderante para manter o dinamismo da economia

local. Assim, o Governo irá estar mais atento à situação de exploração dos negócios e, através de recolha de dados, irá também tentar perceber o modelo de consumo dos visitantes e dos residentes”, começa por apontar o comunicado.

SOB CONTROLO

Lionel Leong rejeita ainda que o valor das receitas do jogo assuste o Governo.

Macau, recorde-se, obteve no ano passado menos 2,6% face a 2014. “A previsão de 200 mil milhões de patacas é adequada para o valor total das receitas do jogo em 2016”, adianta Lionel Leong, que diz mesmo que os recentes anúncios de descida das receitas e adiamento de abertura de novos empreendimentos no Cotai podem não estar relacionados.

“As operadoras de jogo têm o plano de investimento definido e o prolongar dos prazos pode dever-se a muitos outros factores. As ope-

POLÍTICA

Apesar de ter vindo a desempenhar o papel de “plataforma” entre a China e os PLP desde há anos, esta Comissão chega com a ideia de “juntar os vários serviços e entidades da Administração Pública envolvidos” um representante do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, um da Direcção dos Serviços de Economia, da Direcção dos Serviços de Turismo, Instituto Cultural, Autoridade Monetária de Macau, Direcção dos Serviços de Finanças e um representante do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior. Todos estes são nomeados por despacho do Chefe do Executivo, que fixa também a duração do mandato.

TODOS JUNTOS

Apesar de ter vindo a desempenhar o papel de “plataforma” entre a China e os PLP desde há anos, esta Comissão chega com a ideia de “juntar os vários serviços e entidades da Administração Pública envolvidos”, de forma a que, pode ler-se no despacho assinado por Chui Sai On, “avançar em [conjunto] em direcção aos objectivos traçados no âmbito da construção da plataforma” em questão. Joana Freitas

joana.freitas@hojemacau.com.mo

radoras de jogo, ao lançarem muitos planos promocionais para atrair e expandir os mercados, reflectem a confiança no desenvolvimento económico de Macau”, atirou, assegurando ainda que a sociedade está confiante. “Tanto os jovens como as empresas mostram-se confiantes no desenvolvimento económico de Macau, a longo prazo, e procuram constantemente formas de adquirir mais-valias, de modo a estarem preparados para agarrar a próxima oportunidade de desenvolvimento.” J.F.


6 SOCIEDADE

hoje macau terça-feira 23.2.2016

Coloane PEDIDO RELATÓRIO DE IMPACTO AMBIENTAL DE CONSTRUÇÃO DE LUXO

Coloane não deve ser decidido só por uma direcção”, frisa. Apesar de o novo projecto reduzir a volumetria do empreendimento, incluindo a eliminação de uma das torres, o presidente considera que continua a haver destruição da vista da montanha e dos recursos públicos em nome do interesse do sector imobiliário.

A cor da responsabilidade

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União Macau Green Student entregou uma carta à Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) em conjunto com vários residentes, criticando a avaliação do impacto ambiental que foi feita ao projecto de luxo que pode nascer na montanha de Coloane. Os residentes dizem estar preocupados com a preservação de Coloane e dizem não perceber porque é que a construção foi aprovada sem consulta pública, num caso que, afirmam, diz respeito à sociedade. Como avançou o HM na segunda-feira, o Governo aprovou o anteprojecto de um edifício com mais de 30 andares que vai ser construído perto da Casamata no Alto de Coloane. Este esteve parado em 2013 devido a polémicas com o local, mas o último relatório de impacto ambiental corresponde aos requisitos da DSPA, o que pode dar autorização para a construção. A Green Student quer que o Governo mostre ao público o relatório do impacto ambiental entregue pela construtora – que tem Sio Tak Hong como um dos investidores e Joe Chan, presidente da União, mostrou preocupação face à possibilidade do projecto destruir “ainda mais” o único pulmão de Macau. “O projecto recebeu aprovação da DSPA e chegou à Direcção

“Receio que o organismo também emita a licença da obra sem o público saber, o que vai ser um passo irreparável. Este acto é de uma enorme irresponsabilidade face às próximas gerações” JOE CHAN PRESIDENTE DA UNIÃO MACAU GREEN STUDENT

dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT). Caso não peçamos para saber mais, receio que o organismo também emita a licença da obra sem o público saber, o que vai ser um passo irreparável. Este acto é de uma enorme irresponsabilidade face às próximas gerações”, disse, lembrando que o Governo prometeu em 2013 que ia tratar o caso de forma “especial” precisamente devido ao local.

Agora, diz Chan, a DSPA deu luz verde ao avanço do projecto “em segredo”. Joe Chan espera que a DSPA torne o relatório sobre o impacto ambiental transparente ao público, criticou que este não foi apreciado pelo Conselho Consultivo do Ambiente, nem foram ouvidas opiniões de residentes através de consulta pública. A construção do projecto na única zona mais verde de Macau leva

Joe Chan a dizer que não se está a pensar na saúde de todos os cidadãos.

E O CPU ?

Para o presidente da União, há ainda outra dúvida: quando o projecto surgiu, em 2013, Macau ainda não tinha o Conselho de Planeamento Urbanístico (CPU). Agora este já existe, mas Joe Chan diz ter dúvidas sobre se o projecto foi debatido no CPU. “O desenvolvimento de

Além disso, a União Macau Green Student quer ainda saber qual o calendário para a implementação de legislação sobre a avaliação do impacto ambiental – apresentado pela DSPAem 2012. O mesmo organismo afirmou em 2014 que ia fazer consultas públicas sobre o regime no final do ano e depois entrava em processo legislativo. No entanto, a DSPAvoltou a dizer neste mês de Fevereiro que vai avançar com a consulta pública este ano. Flora Fong

Flora.fong@hojemacau.com.mo

Ninguém sabe do que falas Pedida outra consulta sobre Plano Quinquenal

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Federação de Juventude de Macau lançou um relatório, no último domingo, sobre os conhecimentos dos residentes sobre o Plano de Desenvolvimento Quinquenal, sendo que este indica que 65% dos entrevistados nunca ouviu, nem recebeu qualquer informação sobre o plano. Segundo o Jornal Ou Mun, a Fundação organizou um inquérito, entre 28 de Dezembro a 2 de Janeiro, via telefone, para perceber os conhecimentos dos cidadãos sobre o plano. Os resultados, agora divulgados mostram que 65% dos 502 inquiridos, maiores de idade, nunca ouviram falar, nem receberam qualquer informação sobre o plano. Um total de 30 pessoas, de 169 entrevistados, disse conhecer o plano e saber

que o Governo está a receber opiniões dos residentes.

SOU O ÚNICO

Apenas um, do total de inquiridos, afirmou ter apresentado opinião sobre o assunto. Neste caso o residente não entregou directamente a sugestão ao Governo mas sim a um deputado. Os resultados mostram ainda que 21% dos inquiridos sabiam da criação da Comissão para a Construção do Centro Mundial de Turismo e Lazer. De acordo com os dados da Federação, a participação e o conhecimento dos cidadãos para o plano são “sinceramente insuficientes”. A Federação considera que o Governo não está a fazer uma boa promoção do plano, estando em falta informações ao público. É importante, defende, que o

Governo realize uma segunda fase de consulta pública para que os residentes, especialmente os jovens, conheçam mais sobre o plano, aproveitando para recolher ainda mais opiniões. É ainda tornado público que as maiores preocupações dos residentes fixam-se no aumento da qualidade de vida e na melhoria do nível educativo. Por fim, questionados sobre a conclusão de projectos avançados, os inquiridos indicaram que esperam que dentro dos próximos cinco anos o metro ligeiro (40%), o Centro Hospitalar das Ilhas (30%), a construção e o Plano dos Novos Aterros Urbanos (25%) e para a Estação de Tratamento de Águas Residuais da Península de Macau (23%) estejam concluídos. Tomás Chio

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UM PROFESSOR RECEBE PRÉMIO DE ASSOCIAÇÃO AMERICANA

Brian Hall, do Departamento de Psicologia da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Macau, recebeu o prémio “Theodore Blau Early Career for Outstanding Contribution to Professional Clinical Psychology”, da Associação Americana de Psicologia. O galardão é entregue a psicólogos clínicos pelo seu sucesso profissional durante os primeiros dez anos após o Doutoramento, bem como pelo seu contributo para educação, investigação, entre outros. Brian Hall vai receber o prémio em Agosto, depois de ter publicado quase 30 artigos. Como epidemologista, Hall está actualmente envolvido num projecto de investigação para melhorar a saúde das pessoas da Grande China e de Macau, em especial, incluindo as comunidades migrantes.


7 hoje macau terça-feira 23.2.2016

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A

USJ PEQUIM REJEITA RECRUTAMENTO DE ALUNOS DO CONTINENTE

Nega que vem de cima O Ministério da Educação da China não deu autorização à Universidade de São José para recrutar alunos do interior da China, prática recorrente em universidades locais. Peter Stilwell não comenta anteriores e reflectem uma crescente competição no mercado local do ensino superior, agravado no nosso caso por não estarmos autorizados a recrutar estudantes do continente”, pode ler-se.

TIAGO ALCÂNTARA

Universidade de São José (USJ) vai continuar a não ter autorização para recrutar alunos do interior da China. A informação foi feita à reitoria da instituição de ensino superior privado na passada quinta-feira e confirmada ao HM pelo Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES). “O GAES ajudou, recentemente, a USJ a transmitir o seu desejo de recrutamento de estudantes do interior da China, ao Ministério da Educação da República Popular da China. Posteriormente, sobre este caso, o Gabinete recebeu uma notificação, do mesmo Ministério, na qual é referido que, provisoriamente, não é aceite o pedido desta universidade”, pode ler-se numa resposta escrita. Contactado pelo HM, Peter Stilwell, reitor da instituição, não quis fazer qualquer comentário ou explicar quais as alternativas que podem ser adoptadas para responder a esta situação. As dificuldades de recrutamento sentidas pela USJ constam no último relatório anual da instituição de ensino superior privado, referente ao ano lectivo de 2013/2014. No documento, a USJ explica que teve nesse ano 236 alunos, uma quebra face a 2012/2013. “Os números são mais baixos do que nos anos

Associação de Mútuo-Auxílio de Trabalhadores enviou uma carta ao Governo onde denúncia a existência de fraude no pagamento de horas extra aos funcionários da limpeza e segurança dos edifícios. A carta enviada às redacções acusa uma empresa ligada à gestão de prédios de ter obrigado os seus empregados a assinar um acordo que determina uma diminuição do valor das horas extra, devido à implementação do salário mínimo obrigatório para estes funcionários. A carta fala do caso protagonizado pela empresa Yi Fat – ligada à gestão de prédios em Macau e na Taipa - que terá garantido serviços de 24 horas para os edifícios que trabalham consigo, tendo os em-

OUTRAS QUEBRAS

A universidade falou ainda de uma quebra de cem alunos nos programas de

“O GAES recebeu uma notificação, do mesmo Ministério, [da Educação da RPC] na qual é referido que, provisoriamente, não é aceite o pedido desta universidade” GABINETE DE APOIO AO ENSINO SUPERIOR

Horas extras a menos Salário mínimo Carta de associação denúncia fraude

pregados na área da segurança de trabalhar dois turnos seguidos, o que significa que cada trabalhador terá de cumprir 12 horas de trabalho, incluindo quatro horas extras. A Associação afirma ainda que “a empresa aproveitou as zonas cinzentas da lei para praticar uma acção fraudulenta aos proprietários dos apartamentos e aos funcionários dos edifícios”.

ABAIXO DA LEI

A Yi Fat, diz ainda a carta, terá forçado os trabalhadores a assinar um

acordo que obriga os funcionários a trabalhar dez horas por dia, incluindo duas horas extra, sendo que o salário pago para cada hora extra é inferior ao que a nova lei determina. A empresa terá referido que as 26 patacas por hora extra é um valor que consta nos regulamentos da Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL), tendo-os forçado a assinar o documento. Enquanto isso outros trabalhadores terão sido despedidos, tendo sido substituídos por trabalhadores não residentes.

A Associação pede que o Governo dê mais atenção a estes casos, tendo acusado o Executivo de falta de fiscalização na área da gestão predial e de aplicar a Lei do Salário Mínimo “sem sinceridade”. O HM tentou contactar a empresa, mas sem sucesso. Também a DSAL foi contactada para saber se o organismo teria recebido alguma queixa, mas não foi possível obter resposta. Tomás Chio

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SOCIEDADE licenciatura. “Não temos dúvidas quanto à pressão que a USJ enfrenta com a redução dos estudantes locais. Estes factores agravam-se com a nossa situação particular, já que somos talvez a única universidade de Macau que não está autorizada a recrutar estudantes do continente”, aponta ainda o relatório. Na última entrevista concedida ao HM, em Abril do ano passado, Peter Stilwell dizia estar à espera de boas notícias quanto à possibilidade de recrutamento de alunos do continente. “Sei que o Secretário Alexis Tam tem tomado isso a peito. Não me quero antecipar mas julgo que ele terá notícias positivas para dar. Julgo que está desbloqueado o processo por iniciativa dele próprio, que na sua última deslocação a Pequim se encarregou de tomar isso em mãos. Podemos prestar um serviço aos alunos da China continental, que nos permite completar aquilo que nos falta para sermos rentáveis em termos de propinas e fazer o que é o objectivo da universidade, que é um espaço de culturas. Creio que temos condições para isso”, acrescentou. O Ministério não deu uma razão para que o pedido fosse negado. Andreia Sofia Silva

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8 EVENTOS

Billy Hoi, mais conhecido por Tai Lio, ou Big Bird, (Pássaro Grande) é o director artístico do teatro Hiu Kok desde 2010. Hoje vê-o mais como uma plataforma para desenvolvimento do teatro em Macau do que propriamente uma simples companhia. O teatro pode mudar o mundo, diz. Escrever de forma honesta em Macau é difícil e Billy Hoi sonha com um fundo de apoio às artes no território Está à frente da companhia de teatro Hiu Kok desde quando? Entrei no Hiu Kok em 1986 e tornei-me o seu director artístico em 2010, até hoje. Quantas pessoas constituem o grupo? O núcleo duro são 62. Mas temos mais de 700 membros. Que está a companhia a fazer agora? Tivemos duas performances grandes no Centro Cultural e quatro mais pequenas durante o ano passado. Também estamos focados na formação de encenadores e guionistas. O Hiu Kok dá mesmo muita força à produção de textos novos. Além disso, nestes últimos anos, a tendência tem sido para transformar o Hiu Kok numa plataforma para a promoção do teatro de Macau. Iniciámos alguns projectos e colaborações com diferentes artistas locais e do estrangeiro. São os casos da série “Long Run”, realizados numa “caixa preta” onde

COMPANHIA DE TEATRO HIU KOK CELEBROU 41 ANOS

“Nascemos todos para ser artistas” possamos sentar cem – 200 pessoas, onde um guião é seleccionado e um actor convidado a produzir a peça. Queremos com isto dar mais experiência aos artistas para que não estejam sempre dependentes dos subsídios do Governo. Participamos ainda no projecto Macau – Zhuhai, uma ideia de intercâmbio entre as duas cidades, e promovemos activamente a escrita de guiões, pelo que costumamos enviar representantes ao Festival de Leitura de Guiões do Teatro Pequeno de Taiwan, na perspectiva, claro, de desenvolvermos talentos locais. Além disso, agora o Hiu Kok gere duas instalações: a mesma “caixa preta” que temos desde 1998 num prédio fabril da Areia Preta e um mini centro de artes junto ao Mercado Vermelho especialmente destinado a ensaios, treinos e outras actividades artísticas simples.

relaciona-se com questões sociais e problemas do quotidiano. Produzem os vossos próprios guiões ou usam mais peças já escritas? Eu diria que são 80% são originais e 20% já escritas. Mas o projecto “Long Run” é produzido com peças estrangeiras já escritas. Qual a vossa missão como grupo de teatro? Temos a visão de inspirar as pessoas e temos por missão promover e encorajar as artes performativas, trazer novas ideias às artes de Macau e para toda a população de uma forma englobante. Depois do Hiu Kok há muitos actores a seguirem uma carreira profissional? O Hiu Kok é uma boa base para um actor começar e foram muitos os actores profissionais que passaram por aqui no início das suas carreiras. São os casos de Kaman Yip, Jacky Lee ou Maria Au.

Fazem muitas tournées? Há uns anos fazíamos mais, agora estamos mais focados no público de Macau. Mas já actuámos em Xangai, Shenzhen, Cantão, Hangzhou, Hong Kong, na China e em Taiwan, Singapura, Lisboa, Almada e Coimbra. Qual foi a vossa peça mais bem sucedida e porquê? Hum... “Sucesso” é um bocado difícil de medir. A força do Hiu Kok reside na mudança. Fazer novos projectos, ter novas ideias é sempre a nossa preocupação. Por isso, ao longo destes 41 anos temos vindo a fazer muita coisa significativa... podemos fala de “sucesso” e de “insucesso”. Ganhámos vários prémios em competições em Hong Kong nos últimos dez anos, produzimos o único drama em Macau de artes marciais, a tragédia grega de Édipo nas Ruínas de São Paulo e apresentámo-nos em vários países e cidades. Em boa verdade não consigo dizer qual foi a nossa peça mais bem sucedida. Porque é que as pessoas devem fazer teatro?

“A força do Hiu Kok reside na mudança. Fazer novos projectos, ter novas ideias é sempre a nossa preocupação”

Acho que nascemos todos para ser artistas, é da natureza humana. Algumas pessoas fazem teatro para se divertirem, outras para fazerem amigos, outras para satisfazerem o seu sonho e a sua ânsia de palco, algumas para preencherem o vazio do talento escondido, outras pela ilusão da fama. Eu acho que o teatro pode mudar o mundo. Porque é que as pessoas devem ver teatro? O teatro é a arte mais viva e interactiva que existe. O público não é apenas um espectador passivo como quando assiste a um filme. Ele é parte do teatro, a sua própria respiração afecta a peça. O encontro entre o actor e o público é algo de

precioso e depois o momento mágico anuncia-se. Vocês têm um género favorito de temas? Quais? Somos muito livres em relação às escolhas dos guionistas e dos encenadores, por isso não definimos temas. Todavia, a maioria das nossas peças

“O teatro é a arte mais viva e interactiva que existe. (...) O encontro entre o actor e o público é algo de precioso”

Apesar dos anos todos que está dedicado ao teatro ainda mantém um emprego. Acha que um dia vai ser possível para si, ou para os outros que venham a estar no seu lugar, a dedicação a tempo inteiro? Que faz falta para que isso aconteça? Acho que sim, que vai ser possível. Mas cada caso é um caso. É preciso um coração forte e pioneiro para uma decisão dessas. E depois cada um tem os seus problemas. Penso mesmo que “dinheiro” nem é o maior problema. Como lidar com a família é mais difícil. Quais são as vossas maiores dificuldades? Sem dúvida acompanhar as rápidas mudanças do mundo e conseguir correr na frente. Em Macau, escrever uma ideia de uma forma honesta é um desafio. Mas, na realidade, não acho que sejam tudo dificuldades e as que existem só servem para fazer crescer como grupo e tornam-nos mais fortes. Tem grandes planos para o futuro? Ligarmo-nos e unir-nos no grande Delta do Rio das Pérolas, constituir um fundo para as artes e desenvolver um sistema poderoso de marketing para promover os grupos de Macau lá fora. Manuel Nunes

info@hojemacau.com.mo


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10 CHINA

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UE EXCESSO DE PRODUÇÃO PREJUDICA ECONOMIA MUNDIAL

Rebentar pelas costuras

TAIWANÊS MORRE DEPOIS DE 24 HORAS A JOGAR

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O

excesso de produção das indústrias pesadas na China tem “profundas” consequências na economia mundial, com a produção de aço “completamente” descoordenada da procura do mercado, apontou ontem a Câmara do Comércio da União Europeia. A indústria siderúrgica do país asiático produz mais do que os outros quatro gigantes do sector - Japão, Índia, Estados Unidos e Rússia - combinados, sublinha o organismo em comunicado. E alerta ainda que mais de 60% da produção de alumínio na China apresenta resultados financeiros negativos e que, em apenas dois anos, a produção de cimento no país igualou a quantidade total produzida pelos Estados Unidos durante todo o século XX. “A China não deu continuidade aos esforços feitos na década passada para pôr termo ao excesso de capacidade”, afirmou o presidente da Câmara do

Comércio, Joerg Wuttke, em comunicado. A Comissão Europeia colocou já em marcha investigações sobre três produtos siderúrgicos importados do país asiático, para determinar se foram introduzidos no mercado comunitário recorrendo a concorrência desleal. “O excesso de produção tem sido um flagelo no panorama industrial chinês ao longo de muitos anos, afectando dezenas de indústrias e com implicações profundas na economia global e, particularmente, no crescimento da economia chinesa”, lê-se no comunicado.

que mantém o preço abaixo do custo de fabrico). A China contribui com metade da produção de aço em todo o planeta, mas a quebra acentuada da procura interna levou os fabricantes a voltarem-se para os mercados além-fronteiras. De acordo com dados das alfândegas chinesas, em 2015, as exportações de aço do país dispararam 20%. Este mês, o grupo com sede no Luxemburgo e líder

SUBSÍDIOS NA BERLINDA

O problema tem estado na base de tensões entre a segunda maior economia do mundo e os países desenvolvidos, que a acusam de concorrência desleal. Representantes do sector siderúrgico na Europa saíram na semana passada às ruas em Bruxelas para protestar contra a prática de ‘dumping’ pela China (produção subsidiada

HARBIN RESTAURANTE BURLÃO CONDENADO POR COBRAR A MAIS

“A China não deu continuidade aos esforços feitos na década passada para pôr termo ao excesso de capacidade” JOERG WUTTKE PRESIDENTE DA CÂMARA DO COMÉRCIO

mundial de produção de aço, ArcelorMittal, culpou a China por perdas de oito mil milhões de dólares no ano passado, numa altura em que o sector despediu milhares de trabalhadores. Pequim anunciou, entretanto, planos para reduzir o excesso de produção na indústria do aço chinesa, ao longo dos próximos cinco anos, com um corte anual de entre 100 a 150 milhões de toneladas - 12,5% do total produzido pelo país. Por outro lado, planeia escoar parte da sua produção para os países da Ásia Central e Médio Oriente, através da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, um gigantesco plano de infra-estruturas que pretende reactivar a antiga Rota da Seda entre a China e a Europa. Para Joerg Wuttke, aqueles mercados não são suficientemente grandes para absorver o excesso de capacidade da China. “Não irá contribuir nem um pouco para resolver o problema”, afirmou. Lusa

Um restaurante em Harbin, no nordeste da China, foi multado em 500.000 yuan após ter cobrado mais de 1.400 euros a um cliente por uma refeição de marisco, durante as férias do Ano Novo Lunar. O caso, relatado pela agência oficial chinesa Xinhua, resultou ainda na revogação da licença do estabelecimento por violação dos direitos do cliente. O caso terá ganho dimensão nas redes sociais do país, utilizada por quase 700 milhões de pessoas, depois da vítima, Chen Yan, ter comentado o incidente na sua conta no Sina Weibo (o Twitter chinês). Uma fotografia do recibo, postada junto com o relato de Chen, mostra um prato de peixe a marcar 5.731 yuan (790 euros). Após ter protestado pelo preço, a vítima diz ter sido agredida pelos funcionários. Um vídeo colocado a circular inicialmente na internet mostra ainda agentes da polícia a fumar e a utilizar linguagem “inapropriada”, enquanto discutiam a conta com Chen.

M taiwanês de 58 anos, morreu num cibercafé após passar mais de 24 horas a jogar ininterruptamente um famoso jogo de combate, provavelmente devido a uma paragem cardíaca, informaram ontem fontes da empresa à agência Efe. O homem, de apelido Chen, costumava jogar 24 horas seguidas no cibercafé, quase sempre um jogo de combate, foi encontrado morto há dois dias, explicou um funcionário à agência noticiosa espanhola. “Vinte e quatro horas depois de ter começado a jogar notámos que estava a dormir e pensámos que estava a descansar e não o quisemos acordar, apesar de já terem passado as horas pelas quais pagou”, disse o funcionário, indicando que na manhã do dia seguinte, quando já havia passado 36 horas no cibercafé, os empregados aproximaram-se para o acordar, reparando então que o seu corpo estava rígido e frio, tendo chamado uma ambulância. “Ao seu lado havia outros clientes e todos pensaram que estava a dormir, porque é o costume de muitas pessoas que passam dias inteiros em cibercafés”, acrescentou o mesmo funcionário. Esta foi a segunda morte num cibercafé da ilha Formosa no último ano. Uma mulher de 37 anos, de apelido Chu, morreu a 23 de Agosto de 2015 na cidade de Hsinchu, no norte de Taiwan, também num espaço de videojogos. Os cibercafés taiwaneses têm muitas vezes pequenos cubículos para se poder dormir, chuveiros e outros serviços, incluindo encomendas de comida, de modo a que os clientes possam praticamente viver no seu interior.

DIRECTRIZES PARA CONTROLAR EXPANSÃO DE CIDADES

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EGUNDO a agência Xinhua, as autoridades centrais da China divulgaram no domingo directrizes sobre o desenvolvimento urbano, dois meses depois da Conferência Central de Trabalho Urbano na qual os líderes do país se comprometeram a que as cidades em plena extensão da China sejam mais habitáveis e ecológicas. O documento, emitido pelo Comité Central do Partido Comunista da China e o Conselho de Estado indicou que a China restringirá que as cidades cresçam além dos meios de seus recursos naturais. Também pediu que os planeadores do urbanismo diferenciassem as cidades com um âmbito urbano com base nas características locais. A última ocasião em que a China organizou uma reunião como a Conferência Central de Trabalho Urbano foi em 1978, quando apenas 18% da população residia em cidades, número que saltou para 50% no fim de 2015 e espera-se que em breve, ao ritmo actual chegue aos 75%. A urbanização que caracterizou as últimas duas décadas trouxe mudanças significativas na China, tanto nos aspectos sociais como nos económicos, gerando engarrafamentos, poluição e problemas na segurança pública. Esse tipo de problemas urbanos tem provocado a ira da população, aumentando a pressão sobre o planeamento urbano para procurar soluções.


11 CHINA

hoje macau terça-feira 23.2.2016

Pequim MEDIDAS MAIS RÍGIDAS CONTRA POLUIÇÃO

Vizinhos à mesa

O ar que nos dão O

China e Japão planeiam debater Coreia do Norte

Jining, numa conferência de imprensa realizada na quinta-feira. Segundo Chen, os alertas de poluição do ar serão emitidos de acordo com a previsão do nível máximo de PM2,5, partícula perigosa muito pequena transportada pelo ar. Chen também afirmou que o MPA estão a considerar aplicar multas de poluição baseadas em diferentes estações para encorajar empresas a aumentar a produção no Verão e diminuir no Inverno.

LIGEIRAS MELHORAS

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Ministério da Protecção Ambiental (MPA) revelou, na última quinta-feira, segundo a Xhinhua, medidas focadas e mais rígidas para lidar com a poluição severa do ar na região Pequim-Tianjin-Hebei durante o período de Inverno. Padrões unificados para a emissão de alertas de poluição do ar em Pequim e em outras cinco cidades vizinhas incluindo o município de Tianjin, assim como Baoding, Langfang, Tangshan e Cangzhou na Província de Hebei, no norte da China, serão estabelecidos antes de 15 de Março, conforme anunciou o ministro da Protecção Ambiental, Chen

Um recente documento do MPA mostrou que, embora a qualidade do ar tenha melhorado continuamente em toda a China em 2015, a região Pequim-Tianjin-Hebei ainda sofre com pesada poluição de PM2,5. O MPA informou que a região Pequim-Tianjin-Hebei registou a poluição do ar mais pesada neste Inverno devido às emissões de poluentes durante a temporada de aquecimento de Inverno alimentada pelo carvão, assim como ao forte efeito do El Niño, fenómeno climático estático que dificulta a dispersão de poluentes atmosféricos. Esforços como partilha de informação, supervisão mais rígida sobre empresas poluentes, sanções severas sobre veículos poluentes e substituição de carvão com electricidade ou gás nos sistemas de aquecimento serão realizados para lidar com o smog do Inverno, disse Chen.

Japão e a China planeiam manter nos próximos dias em Tóquio, conversações diplomáticas de alto nível centradas nos recentes testes de armamento da Coreia do Norte e na aplicação de futuras sanções, informou ontem o diário Nikkei. Este será o primeiro encontro bilateral desta natureza desde que o regime de Pyongyang realizou, a 6 de Janeiro, o quarto teste nuclear, e desde que lançou, há duas semanas, um satélite a bordo de um foguetão, uma acção que a comunidade internacional considera ter-se tratado de um teste encoberto de mísseis balísticos. Segundo a informação obtida pelo económico Nikkei junto de fontes próximas, o assessor do ministro dos Negócios Estrangeiros responsável pelos assuntos asiáticos, Kong Xuanyou, e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, Shinsuke Sugiyama, encabeçam o encontro, que se vai realizar antes do final do mês e cujos detalhes estão a ser ultimados. O Japão abordou as recentes acções do regime de

Pyongyang com a Coreia do Sul, Estados Unidos e Rússia, e deseja fazê-lo com a China dada a influência que exerce sobre a Coreia do Norte. Durante o encontro deste mês, Tóquio também pretende pedir o apoio de Pequim na hora da aplicação de sanções mais duras por parte do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A China, que como membro permanente do Conselho de Segurança ostenta o direito de veto, tem-se manifestado, contudo, contrária ao endurecimento de sanções contra a Coreia do Norte sob o argumento de que tal pode destabilizar o regime dos Kim e desencadear um problema nas suas fronteiras.

Região ÍNDIA CONFRONTOS FAZEM 19 VITIMAS

FIJI CICLONE WINSTON PROVOCA 20 MORTES

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EZANOVE pessoas morreram e mais de 200 ficaram feridas”, afirmou P. K. Das, alto funcionário do Ministério do Interior do estado indiano de Haryana, indicando que a violência parece estar a diminuir e que o recolher obrigatório foi levantado em alguns distritos. Os manifestantes indianos pediam melhores condições para a sua casta e afirmaram ontem terem aceitado uma oferta do Governo do estado, depois de dias de confrontos. “Aceitámos a oferta do Governo e estamos em processo de consulta com outros líderes Jat para alcançar um consenso antes de tomar uma decisão relativamente ao fim da agitação”, disse Yashpal Malik, chefe do grupo de organizações que representa a Jat, uma casta relativamente influente. Milhares de soldados foram deslocados este sábado para o estado de Haryana, no norte da Índia, na sequência da violência que irrompeu depois de uma semana de protestos.

Os manifestantes pertencentes à casta Jat exigiam quotas de postos de trabalho no serviço público, bem como lugares nas universidades para os seus filhos. Num esforço para melhorar as vidas das vítimas da discriminação mais grave no país, a Índia estabeleceu quotas para as castas mais baixas.

ELO menos 20 pessoas morreram nas Fiji à passagem do ciclone Winston, que arrasou, este fim de semana, aquele arquipélago do Pacífico Sul, informou ontem uma organização de ajuda humanitária. O mais recente balanço foi facultado através de uma mensagem publicada na rede social Twitter pela divisão australiana da organização não-governamental CARE, que cita como fonte o Governo das Fiji. Considerado o mais forte ciclone naquela região, o Winston chegou sábado às Fiji com ventos de 230 quilómetros por hora e rajadas de 325. As agências humanitárias das Nações Unidas estimam que mais de 800 casas tenham sido destruídas à passagem do ciclone Winston pelas Fiji, com uma população estimada em 881.000 habitantes.

“Vai ser preciso um dia ou dois para termos uma imagem real da destruição”, afirmou Anna Cowley, representante nas Fiji da australiana CARE, num comunicado enviado aos meios de comunicação social. Viti Levu, a principal ilha da nação e onde vive 75% da população, encontra-se sem abas-

tecimento de energia eléctrica e sem água. “Este tipo de emergência é uma corrida contra o tempo para ajudar as pessoas que perderam tudo e garantir que as famílias se possam manter a salvo”, sublinhou a mesma responsável. O restabelecimento do serviço de água vai demorar “pelo menos uma semana” em Suva, capital das Fiji, numa altura em que existem inúmeras povoações em que se desconhecem os estragos causados pelo ciclone, informou a Autoridade de Água ao jornal The Fiji Times. O Governo das Fiji decretou o recolher obrigatório e o estado de desastre natural em todo o país antes da entrada do ciclone Winston no país. O arquipélago das Fiji encontra-se numa região do Pacífico Sul atingida anualmente por diversos ciclones.


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a revolta do emir

ARTES, LETRAS E IDEIAS

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exposição que se mostra no Museu de Arte de Macau, com pintura e desenho austríacos do século XIX e XX, vem chamar a atenção para uma cidade com características peculiares - Viena. Quase oriental, quase engolida pelo império otomano, cujos avanços teve de recusar várias vezes, capital de um país de um protagonismo envergonhado é, como poucas, o que se pode chamar uma cidade de cultura. Tem mais de 100 museus, 70 teatros e 4 casas de ópera, um gigantesco orçamento dedicado às artes e uma tradição musical riquíssima a que se associa Mozart, Haydn e Beethoven, mais tarde Mahler, e os compositores da excitante Segunda Escola de Viena. Escuso-me ao elogio da frivolidade famosa do complexo da opereta e da valsa, mas convido o leitor a procurar o gigantesco programa da temporada de 2015/2016 da Wiener Staatsoper para se entender o que é uma verdadeira cidade - de dimensão média - de cultura. Muitos outros nomes aparecem associados a Viena, como os de Klimt, Max Oppenheimer, Kokoschka, Hundertwasser ou Egon Schiele, assim como Sigmund Freud e Joseph Breuer, Wittgenstein, Kurt Gödel, Karl Krauss, Stefan Zweig ou Hermann Broch. Da música à literatura, da pintura e da arte performativa à matemática, da filosofia à psicanálise, não há campo do saber e das artes em que os seus habitantes se não tenham distinguido. Mas é do hipnótico livro de Claude Magris, Danúbio, que extraio uma nostalgia erudita, utilíssima para o conhecimento da zona europeia interior que este rio atravessa, uma zona de contacto entre o mundo germânico e eslavo, sítio de impérios ocidentais e orientais e zona de intenso cruzamento de povos de proveniências muito diversas. O livro de Magris, cujo original em italiano se publicou em 1986, apresenta-se da seguinte forma: uma viagem de 400 páginas ao longo do Rio Danúbio, desde a sua fonte (fonte de incertezas) até à foz no Mar Negro. Pelos sítios onde passa, Magris seduz-nos com histórias sobre figuras que por lá viveram e histórias que por lá se deram. Referir com justo pormenor a enorme diversidade de assuntos de que se trata no livro do erudito italiano seria fastidioso. Baste notar que das suas reflexões se extrai uma sensual e melancólica imagem do interior da Europa e uma exaltação da monotonia que encontramos em alguma literatura alemã (área de especialização de Magris) do século XIX, por exemplo em Fontane. Não é apenas a política, as guerras, os amores, a geografia, a poesia ou os cafés, mas também uma intensa nostalgia. O Danúbio, por oposição à ligação que o Reno mantém com a figura germânica de Siegfried, símbolo solar da pure-

Viena

za e da virtude, é o símbolo do Reino de Átila, do reino europeu oriental e internacional, germânico, magiar, eslavo, judeu, mas também grego e otomano. A data da sua primeira edição precede de 3 anos a da queda do muro de Berlim e as transformações que marcaram desde então a Europa de Leste. Se não contém essa actualização, o livro oferece uma útil última visão da vida na Eslováquia, Bulgária, Roménia ou Hungria durante o fim do período de influência Soviética directa. Magris dedica muitas páginas a Viena, a primeira das quais a propósito do poeta sem casa que gostava de quartos de hotel e de postais – Peter Altenberg, frequentador das mesas do Café Central (o título do quarto dos nove capítulos do livro) que recebiam, por esta altura também a visita de Trostski, nos anos 80 certamente menos afligido pela insensibilidade do turismo de massas que vitima hoje a capital da Áustria, entre muitas outras cidades. Nestes espaços barrocos o vienense cumpriria o destino de se saber figurante da grande representação que é a vida e lembrar que “as coisas acontecem do modo que acontecem em parte e principalmente por acaso, e que poderiam perfeitamente acontecer de modo diverso” (uma ideia repetida mais à frente a propósito do economista Schumpeter). Uma das constantes do livro em questão é a visita a moradas famosas. 19

Kundmanngasse é a da casa construída por Paul Engelmann para Wittgenstein. Outro lugar de visita privilegiada são os cemitérios, como aquele em que está enterrado Schoenberg e onde o autor do livro acompanha, durante uma noite, Herr Baumgartner, uma das três pessoas cuja missão é a de abater, no cemitério, faisões, lebres e coelhos que perturbem a sua apresentação ao público. Não faltam histórias de valor passional, como a que ligou amorosamente Maria Vetsera ao Príncipe Rudolfo da Áustria e que terminou tragicamente em Mayerling em 1889, uma história que continua a causar interesse e teve versões no cinema. Magris debruça-se especialmente sobre o livro que a mãe da infeliz apaixonada escreveu depois da sua morte, pleno de pormenores macabros e de um desejo férreo de manter o pundonor da família. Uma história passional a que Magris também dedica umas páginas para o fim do capítulo em que se detém em Viena, é a de Elisabeth da Áustria, prima de Ludwig da Baviera, mais conhecida por Sissi ou Sisi (mãe do Príncipe Rudolfo a que se alude em cima). Mulher de Franz Joseph, morreu também violentamente em 1898, assassinada por um anarquista italiano, depois de uma existência ansiosa e avessa à sexualidade e às crueldades e inconveniências das obrigações de corte. Magris fala da sua poesia e da solidão, nostalgia e reacção contra a corte que desta se desprende. A dada altura, refere-se que o poeta Wolfgang Schmeltzl compara Viena a Babel porque nela se ouve falar hebraico, grego, latim, alemão, francês, turco, espanhol, boémio, esloveno, italiano, húngaro, holandês, sírio, sérvio, polaco e caldeu. Difícil seria escapar à menção da ameaça otomana. O autor italiano fá-lo a propósito de uma exposição comemorativa do cerco otomano e batalha de 1683, em sua opinião um dos grandes encontros frontais entre o Oeste e o Este, onde figura menção às tropas otomanas e ao seu gosto pelo fausto em geral mas também às tendas opulentas que albergavam as 1500 concubinas do Grão-Vizir, cuja cabeça, perdida em Belgrado mas posteriormente resgatada, permanece no Museu de História de Viena. As histórias de Magris são muitas delas histórias de guerra, e a propósito da do cerco muçulmano o autor não deixa de chegar à situação dos gastarbeiter turcos e da sua condição na sociedade alemã dos anos 80, considerações que têm hoje, passados quase 30 anos, uma desconfortável actualidade. Fala de escolas em que praticamente só existem alunos turcos e nenhuns alemães e das fricções que esta situação cria. O parágrafo relevante termina assim: “Our future will depend in part on our ability to prevent the priming of this time-bomb of hatred, and the possibility that new Battles of

Pedro Lystmann

Vienna will transform brothers into foreigners and enemies”. O desejo turco por Viena é um desejo que incorpora a ideia de um império que una a componente romana e muçulmana, um desejo não de conquista mas de complementaridade, uma discussão que volta a ter pertinência nos dias correntes. No Café Landtmann, um intelectual vienense intento em iluminar as relações entre o mundo ocidental e os países de leste chama a atenção para uma palestra que Lukács deu na cave do mesmo café por volta de 1952. Exilado em Viena, cidade por que não nutria particular estima, via-a como a cidade de uma Angst contemporânea, um lugar de falhanços. Os judeus são uma presença constante na história da capital austríaca* e no livro de Magris, seja através da noção de um povo de extrema adaptabilidade a qualquer lugar, um povo da Lei e do Livro que renasce após a destruição; quer na visita que faz à 7 Gentzgasse onde o historiador, crítico e poeta Egon Friedel se suicidou, atirando-se da janela, antes da chegada da Gestapo; na visita que faz ao velho cemitério judaico, na 9 Seegasse; ou na que dedica à 35 Rembrandstrasse, a casa onde Joseph Roth viveu em 1913, e a propósito de quem aproveita para lembrar uma nota dominante que define Viena e a Mitteleuropa, assim como a obra novelística de Roth - a melancolia. Nas suas palavras a propósito da morada deste refere: “a tristeza dos internatos e dos quartéis, a tristeza da simetria, da efemeridade e do desencanto.” Também manifestações artísticas contemporâneas de Magris o seduziram o suficiente para sobre elas se debruçar, como a actividade vanguardista do Wiener Gruppe a que, no entanto, não parece estender grande simpatia, ou a história de Anna Augustin, uma criadinha de 14 anos torturada durante um ano e morta pela sua patroa, Josefine Luner, cujos retratos se exibem no Museu do Crime. 19 Berggasse. Noto em Magris um fascínio por moradas. Esta é a de uma casa onde Sigmund Freud viveu e manteve consultório. Nela encontramos de novo a melancolia, a melancolia paternal da existência de um homem gentil assim como o seu amor pela ordem e pela simplicidade. 15 Schwarzpanierstrasse, o local onde até 1904 se erguia a casa onde morreu Beethoven, a mesma onde, na noite de 3 para 4 de Outubro de 1903, Weininger se suicidou com um tiro no coração, o mesmo Otto Weininger de que já aqui se falara nestas páginas a propósito de Geschlecht und Charakter (Sex and Character). * Freud, Otto Weininger, Mahler, Schoenberg, Karl Krauss, Max Oppenheimer, Hundertwasser, Joseph Breuer, Joseph Roth, Stefan Zweig e Hermann Broch são de origem judaica. Wittgenstein tinha também um ramo judaico na família.


13 hoje macau terça-feira 23.2.2016

Yao Feng Poema e foto

O Mar e o Mar O mar alargou o caminho e faz tão preciso o navegar Mas no meio do caminho vi muitas pedras,  ondas  duras Então o mar conjuga-se como um verbo transitivo com a tua ausência sem nenhum recurso  ao conjuntivo Nem sempre vemos o horizonte,  e ignoramos o destino onde o mar nos prepara o esquecimento com o naufrágio O mar nunca chorou por nós, embora tão parecido com uma lágrima, chuva salgada que pode estragar o jardim de Maio Nem voltou as costas e foi-se embora, tal como neste momento, está sentado junto ao piano de rocha a tocar uma música que nos conhece


14 (F)UTILIDADES TEMPO

C H U VA

hoje macau terça-feira 23.2.2016

?

FRACA

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje EXIBIÇÃO 3D DE VÍDEO-MAPPING Casas-Museu da Taipa, 19h00 Entrada livre

MIN

11

MAX

14

HUM

75-98%

EURO

8.82

BAHT

Sábado EVENTO DE CARIDADE (MASDAW) Centro de Design de Macau, 18h00 Bilhetes a 250 patacas

O CARTOON STEPH

SUDOKU

DE

EXPOSIÇÃO “MA-BOA, LIS-CAU”, DE CLAUDE CHAUDERLOT (ATÉ 19/03) Museu de Arte de Macau Entrada livre ESPECTÁCULO DE LUZES (ATÉ 29/02) Casas-Museu da Taipa, 18h00 às 22h00 EXPOSIÇÃO “UM SÉCULO DE ARTE AUSTRÍACA” (ATÉ 3/04) Museu de Arte de Macau Entrada livre SOLUÇÃO DO PROBLEMA 33 EXPOSIÇÃO “MANUEL CARGALEIRO” (ATÉ 3/03) Casa Garden Entrada livre

EXPOSIÇÃO “CAIXA DE MÚSICA” (ATÉ 3/04) Museu da Transferência Entrada a cinco patacas

Cineteatro

C I N E M A

MERMAID SALA 1

MERMAID [B]

FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Filme de: Stephen Chow Com: Deng Chao, Show Lo, Zhang Yu Qi Jelly Lin 14.15, 16.00, 17.45, 21.30

ALVIN AND THE CHIPMUNKS: ROAD CHIP [A] FALADO EM CANTONÊS Filme de: Walt Becker 19.30 SALA 2

FROM VEGAS TO MACAU III [B] FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Filme de: Andrew Lau, Wong Jing

PROBLEMA 34

UM FILME HOJE

HISTÓRIA NAVAL (ATÉ 9/04) Arquivo Histórico de Macau Entrada livre

1.22

RESÍDUOS BALNEARES (OU QUASE!)

ESPECTÁCULO DE COMÉDIA COM RUSSELL PETERS Studio City, 20h00 Bilhetes entre as 680 e as 1580 patacas

EXPOSIÇÃO [X] DE RHYS LAY Fundação Rui Cunha (até 13/03) Entrada livre

YUAN

AQUI HÁ GATO

Sexta-feira

Diariamente

0.22

Macau é uma cidade limpa. Toda a gente sabe disso. A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) implementa políticas a tempo e horas, há medidas a favor da reciclagem... enfim, viver neste território é uma maravilha. Ironias à parte, há locais em Macau onde podemos estar melhor do que noutros. Falo dos trilhos de Coloane, o espaço ao pé do Centro de Ciência, a zona da Taipa velha e do mangal... espaços onde até se pode respirar oxigénio a sério. Contudo, há sítios que, sendo perto da natureza, acabam por ser alvo de poluição ou vítimas do desleixo das autoridades. Os pedaços de areia junto ao percurso pedonal da marginal da Taipa são disso exemplo. Cheios de lixo diverso a bater nas pequeninas ondas do Delta do Rio das Pérolas. São resíduos que estão ali há anos e nos quais ainda ninguém se lembrou de mexer. Aqueles que passam no autocarro deparam-se com aquele espectáculo e, decerto, sentem pena. Eu senti. Podemos dizer que estes pedaços de areia cheios de lixo são como aquelas ruelas da Macau antiga que emanam cheiros podres e cacos espalhados por todos os cantos. Têm o mesmo valor. São o símbolo de uma cidade onde ainda há muito a fazer em matéria de protecção ambiental, onde as pessoas deitam uma mobília semi-nova para o lixo e onde ainda não se faz uma coisa elementar como separar o cartão do vidro. Pu Yi

“THE NIGHT BEFORE” (JONATHAN LEVINE, 2015)

Uma noite tradicionalmente junto da família transforma-se numa que passa a ser vivida ao lado dos melhores amigos, quando os pais de Ethan (Joseph Gordon-Levitt) morrem num acidente. Mas, anos depois, Isaac (Seth Rogen) e Chris Roberts (Anthony Mackie) começam a ter a sua própria vida e passar a noite de Natal com o amigo não encaixa muito bem. Os três juntam-se por uma última vez... Um filme engraçado, ideal para ver com amigos. Joana Freitas

Com: Chow Yun Fat, Andy Lau, Nick Cheung, Jacky Cheung 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 3

CROUCHING TIGER, HIDDEN DRAGON: SWORD OF DESTINY[B] FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Filme de: Yuen Woo-Peng Com: Donnie Yen, Michelle Yeoh 14.15,16.00, 17.45, 21.45

THE MONKEY KING 2 [B][B]

FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Filme de: Pou-Soi Cheang Com: Li Gong, Aaron Kwok, Shaofeng Feng 19.30

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15 hoje macau terça-feira 23.2.2016

sexanálise

STEPHEN FREARS, DANGEROUS LIAISONS

TÂNIA DOS SANTOS

I

MAGINEM aqueles momentos mágicos. Momentos de um romantismo desproporcional à vida real. Coisas que só se vêm em filmes, mas que acontecem, todos nós já ouvimos histórias destas. O destino fez com que se encontrassem de novo, depois de uma breve troca de palavras no metro. Ela não tinha dinheiro trocado para pagar o bilhete, ele dá-lhe o que ela precisa, tudo será melhor do que ser apanhada sem bilhete por revisores. Exactamente uma semana depois ela vê-o a passear pela baixa da cidade. A consciência fez com que ela pagasse o dinheiro de volta, e, aí, falaram. A partir desse momento o mais semelhante será pensar no enredo do filme Before Sunrise. Ele ia-se embora em breve e ela também, aquela foi a cidade de encontro como poderia ter sido outra qualquer. Falaram imenso e rapidamente perceberam que tinham tudo que ver um com o outro. Há quem chame destino. Um ano depois ela está na mesma cidade exactamente no mesmo período e decide contactá-lo. Porque esta era uma cidade que ele regularmente visitava, ele estava lá. Tudo que fazia esperar um reencontro carinhoso mostrou-se surpreendentemente desconfortável. Não foi romântico, não foi excitante, não foi nada do que ela estava a espera. Foi aborrecido de uma atracção forçada, por ele. Ela já não aguentava mais. Só queria sair dali, a desilusão era demasiado grande. Um ano

Vício de fantasias românticas onde objecto de desejo fora sempre ele, e, agora, cara-a-cara, a incompatibilidade era demasiado óbvia. O romantismo foi com os porcos. - Sou viciado em sexo. - Ok... - Não podemos sair daqui sem ir para a cama. Ela pensou que este era um exagero de um argumento. Como já seria de esperar, ele perdeu qualquer hipótese de envolvimento sexual, porque, no fim de contas, a excitação dela vinha de todo romantismo que o encontro tinha despertado. A intriga para um encontro racional tão estúpido como aquele fê-la ficar para falar sobre isso, em vez de lhe dar um estalo e sair dali.

A sensibilidade para casos de hipersexualidade ainda é mais necessária se considerarmos quão difícil é definir normalidade sexual. E foi isso que moveu a rapariga a explorar aquele discurso sem sentido, especialmente porque ela viu o seu conto de fadas ser destruído por completo

Um hipersexual ou um viciado em sexo é alguém que tem uma vida sexual exageradamente activa. Define-se, por isso, pela prática excessiva de qualquer actividade que envolva excitação sexual: pornografia, masturbação ou sexo (muito frequente e com muitos parceiros diferentes). Como se tratam de actividades normais por si só, tabelar uma frequência patológica não é fácil. Contudo, quando o sexo é utilizado como um regulador emocional e, acima de tudo, pela sua constante prática, torna-se num obstáculo à vida normal, torna-se num problema. Ninfomania nas mulheres e satiríase nos homens. Porque é que a criatura masculina nesta história quis sugerir uma patologia para convencer a rapariga a ter o que queria, parece absurdo. Será que estava à espera que a piedade funcionasse como excitador sexual? ‘És doente do sexo, coitadinho, deixa-me compensar-te com... mais sexo’. Ou talvez ele estivesse à espera de um cenário ‘enfermeira sexy’ pronto para o ajudar. Ou talvez procurasse justificar-se, esta poderia ser a explicação do forçar de química inter-pessoal e a causa para o desastre do segundo encontro. A sensibilidade para casos de hipersexualidade ainda é mais necessária se considerarmos quão difícil é definir normalidade sexual. E foi isso que moveu a rapariga a explorar aquele discurso sem sentido, especialmente porque ela viu o seu conto de fadas ser destruído por completo. Mas ele mentiu. Ele só queria despertar a atenção de alguma forma. Se o vício era real ou não, ele definitivamente não pensava em outra coisa.

OPINIÃO


Num lance se renasce, / num lance se arruína / a face do acaso, / a febre que culmina / no número dourando / a fímbria do destino” José Augusto Seabra

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Síria CRESCE NÚMERO DE MORTOS

Domingo sangrento

P

ELO menos 150 pessoas morreram ontem, na Síria, numa série de atentados reivindicados pelos ‘jihadistas’ do grupo Estado Islâmico (EI), em zonas controladas pelo regime do Presidente Assad, enquanto Washington e Moscovo insistem na instauração de um cessar-fogo. Homs, a terceira cidade do país, foi atingida pelo mais sangrento atentado ali ocorrido desde 2011, com 59 mortos, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma organização não-governamental. No sul de Damasco, 83 pessoas foram mortas perto de um santuário xiita, num duplo ataque jihadista, noticiou a agência síria de notícias, enquanto o observatório contabilizou 96 mortos.

O enviado das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, emitiu um comunicado de condenação aos atentados. Foi neste contexto, e apesar do fracasso das anteriores tentativas de decretar um cessar-fogo no país devastado pela guerra, que o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, anunciou, no domingo, em Amã, “um acordo de princípio provisório” com a Rússia, sobre as condições para uma trégua, que “poderá começar nos próximos dias”. A multiplicação dos protagonistas, as divisões internacionais e o aumento do poderio do grupo extremista EI e da Frente Al-Nusra minaram os esforços para uma solução do conflito que fez, em quase cinco anos, mais de 260.000 mortos e obrigou à fuga de mais de metade da população do país.

PEQUIM QUER “MAIOR PAPEL” DO REINO UNIDO NA UE

O Governo chinês espera que o Reino Unido desempenhe um “maior papel” na União Europeia (UE), num momento em que o país prepara um referende para decidir a sua permanência no “grupo dos 28”. “A China apoia a integração da UE e espera que o Reino Unido desempenhe um maior rol no bloco”, assinalou uma porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hua Chunying, acerca do referendo marcado para o próximo dia 23 de Junho. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, explicou ontem no parlamento os detalhes do acordo feito em Bruxelas e defendeu o seu apoio à permanência do Reino Unido no bloco europeu. O referido acordo permite ao Governo britânico limitar as ajudas públicas aos trabalhadores comunitários no Reino Unido durante um período de quatro anos. Prevê também que o país seja excluído de qualquer medida destinada a forjar uma maior integração política com a Europa e cria mecanismos para que os países externos à zona euro forcem um debate sobre leis que considerem contrárias aos seus interesses.

GOVERNO RAYMOND TAM VOLTA AO ACTIVO

Raymond Tam vai ter uma nova posição na Função Pública e poderá voltar a ingressar num cargo de dirigente. Quem o diz é Chui Sai On, Chefe do Executivo. “O pessoal absolvido no caso das ‘sepulturas perpétuas’ já regressou à Função Pública, incluindo o ex-presidente do Conselho de Administração do Instituto dos Assuntos Cívicos e Municipais, Raymond Tam. Tam é bem-vindo de volta à equipa e com o seu esforço, experiência e habilitações poderá continuar a assumir cargos de dirigente”, começou por dizer. “O Governo já entrou em contacto com Raymond Tam, prevendose que a sua nova posição seja divulgada antes do dia 1 de Março.” 

terça-feira 23.2.2016

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Hoje Macau 23 FEV 2016 #3517  

N.º3517 de 23 de Fevereiro de 2016

Hoje Macau 23 FEV 2016 #3517  

N.º3517 de 23 de Fevereiro de 2016

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