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MOP$10

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

SÁBADO 21 DE DEZEMBRO DE 2013 • ANO XIII • Nº

3000

hojemacau

14 anos depois Uns lembram-se perfeitamente, outros desconhecem simplesmente. Uns tinham dúvidas sobre o futuro, outros nem cá estavam. Macau passou de mãos há 14 anos e a efeméride foi comemorada de diversas formas.

PÁGINAS 2 A 8

• Chui vai “ponderar” sobre o imobiliário • Bill Chou lembra portugueses “flexíveis” • Parada defende multiculturalidade • Manifestações sem novidades

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EDITORIAL CARLOS MORAIS JOSÉ

THOMAS LIM “UM SONHO TORNADO REALIDADE”

3000 dias e 3000 noites

‘Roulette City’ estreia em Macau

OPINIÃO PÁGINA 19

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ENTREVISTA CENTRAIS

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006


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1 4 ANOS

hoje macau sábado 21.12.2013

TRANSFERÊNCIADESOBERANIA

ANDREIA SOFIA SILVA

andreia.silva@hojemacau.com.mo

CECÍLIA LIN

cecília.lin@hojemacau.com.mo

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bandeira vermelha e verde saiu do lugar que ocupou durante anos e foi cuidadosamente dobrada por dois oficiais. Depois, foi entregue ao general Vasco Rocha Vieira, que a colocou ao peito, enquanto a multidão aplaudia. Enquanto a RAEM nascia, Amy Lou estava contente. Nem sequer dormiu, tal era o turbilhão de emoções causadas pela mudança na terra onde nasceu. “Fiquei muito feliz no dia da transição, mas também tinha dúvidas do que ia acontecer com o Governo da RAEM”, conta a professora de inglês na escola primária Kao Ip. Do que mais recorda é o exército chinês a entrar no território, pela manhã. Mais contente ficou a professora de chinês Wong Man Kam, que chegou a Macau em 1988, vinda de Xangai. “Sendo chinesa claro que fiquei contente no dia da transição. Já antes do dia 20 ia contando os dias até chegar a 1999. Nesse dia, vi as cerimónias na televisão. O regresso de Macau à China foi uma coisa boa para os chineses, porque a atitude nos serviços do Governo era má”, recorda. Pelo contrário, Anthony Lau, também professor, mas na escola secundária Pui Tou, não participou em nenhuma actividade porque esteve doente. Mas, para ele, a transferência de soberania não representou nada de especial. “Fiquei tranquilo, não fiquei nem triste nem muito excitado.” Não são precisas muitas palavras para perceber que Wong Man Kam gosta mais de viver na Macau de hoje, sob administração chinesa. “Não tinha muito contacto com a Administração Portuguesa, e sentia que os portugueses eram orgulhosos, porque ocupavam os altos cargos. Achava que muitos funcionários eram antipáticos para com os chineses, e nos correios às vezes os funcionários sabiam falar chinês e não falavam”, recorda a docente, que veio para Macau porque já tinha cá familiares a residir. Mesmo sendo natural de Macau, Amy Lou partilha do mesmo sentimento da sua colega de trabalho. “Os dirigentes do Governo eram portugueses e os benefícios iam todos para os portugueses também.

Fiquei muito feliz no dia da transição, mas também tinha dúvidas do que ia acontecer com o Governo da RAEM AMY LOU

TRÊS PROFESSORES CHINESES CONTAM COMO VIVERAM O DIA DA TRANSIÇÃO

“Chamávamos aos portugueses os fantasmas de cabelo vermelho” Há 14 anos viveram o dia 20 de Dezembro com alegria, mas também com expectativas sobre o futuro. Dizem que a vida melhorou na RAEM, com excepção do problema da habitação e da corrupção, com mais “coisas feitas debaixo da mesa”. Três professores chineses lembram o tempo em que os portugueses eram “menos simpáticos”, tinham mais benefícios e eram “mais orgulhosos” Mas não era apenas para os portugueses que a incerteza do futuro pairava no ar. Em 1999, ninguém sabia como Macau ia ficar daí em diante. “Os chineses tinham algumas dúvidas sobre se a transição iria trazer coisas melhores e muitos preferiram emigrar para outros países. Mas essa preocupação já não existe”, conta Anthony Lau. A emigração era palavra de ordem no vocabulário de ambas as comunidades, mas Amy Lou ficou sempre na sua terra. “Havia muitos atentados e a maioria das pessoas emigrou. Mas eu fiquei em Macau porque não tinha dinheiro para emigrar, e além disso achei que não era necessário, porque os mortos estavam sempre ligados aos casinos. As seitas precisavam de marcar uma posição.”

“O QUE É MAU É A CORRUPÇÃO”

Depois da transição os chineses começaram a lutar pelos seus direitos. No inicio da transição os portugueses começaram a voltar para Portugal, mas agora estão a regressar. São mais simpáticos para os chineses hoje, porque antes os portugueses eram orgulhosos e tinham sempre posições mais altas do que os chineses. Os professores portugueses que eram recrutados para ensinar o português tinham direito a residência, carro, tinham tudo. Os chineses não tinham nada.” Amy conta que era comum na comunidade chinesa chamar-se aos portugueses os “fantasmas do cabelo vermelho”, símbolo da diferença de culturas e de postura. Quando era miúda, a professora de inglês até tinha medo dos portugueses, por representarem uma postura altiva. Mas hoje já não é assim. “Para os chineses os estrangeiros e os portugueses são simpáticos e bem educados, já não são tão orgulhosos. Pelo contrário é mais chato

conviver com os chineses do continente, porque são mal educados.”

QUANDO O FUTURO ERA INCERTO

Wong Man Kam defende que o processo de transição trouxe insegurança aos portugueses que

viviam cá, pois também eles não sabiam o que ia acontecer. “Sentiam-se um pouco perdidos, porque a situação deles era muito boa e tinham medo de perder as suas vantagens. Governaram tantos anos e, de repente, tudo ia mudar.”

14 anos depois vive-se melhor na RAEM? Amy Lou considera que hoje a segurança deixou de ser um problema, e que os benefícios são para quase todos. “Temos mais benefícios no ensino e com a saúde gratuita. Antes os idosos não recebiam nada, e hoje até temos cheques!”. Anthony Lau diz que hoje não se vive mal, mas recorda os tempos em que a população não era tanta e onde se respirava um ar menos poluído. A habitação é o grande problema apontado por quem conseguiu comprar um ou duas casas há dez ou vinte anos. “O preço está demasiado alto. Conse-

Os chineses tinham algumas dúvidas sobre se a transição iria trazer coisas melhores e muitos preferiram emigrar para outros países ANTHONY LAU


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GOVERNO CRIA COMISSÃO DE TALENTOS JÁ EM JANEIRO. HABITAÇÃO TAMBÉM PREOCUPA

Chui Sai On promete “ponderar” ANDREIA SOFIA SILVA

andreia.silva@hojemacau.com.mo

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RAEM nasceu há 14 anos e ontem foram cerca de 800 as pessoas que estiveram na Torre de Macau para celebrar o dia em que a administração portuguesa se despediu da população. Perante uma plateia cheia de personalidades do meio político e social, Chui Sai On, Chefe do Executivo, admitiu que “nas diversas áreas governativas existem certas insuficiências e que há espaço para melhoria”. Mas cá fora, em declarações aos jornalistas, reagiu aos últimos estudos que mostram o descontentamento da população. Aí admitiu

Não tinha muito contacto com a Administração Portuguesa, e sentia que os portugueses eram orgulhosos WONG MAN KAM

gui comprar duas casas, mas agora parece impossível para os jovens comprarem até uma casa pequena. A inflação está elevada e sinto que a qualidade de vida é pior hoje do que era no tempo da transição. A economia desenvolveu-se, é mais fácil para os jovens encontrarem um emprego, e isso é por causa dos casinos.” E acusa as falhas da máquina governativa de Chui Sai On. “O que é mau é a situação de corrupção e as coisas que são feitas debaixo da mesa. Isso ficou pior e acontece cada vez mais”, aponta o professor que dá o exemplo do último relatório do Comissariado contra a Corrupção (CCAC), sobre ilegalidades nos contratos dos autocarros. “O Governo violou a lei e isso é inaceitável. Os secretários trabalham dez anos e não mudam. Isso não é racional.” Chen Huai Lin, coordenador do programa de mestrado em comunicação da Universidade de Macau, concorda com Anthony. “A maior parte das pessoas aceitaram (a transição), tanto locais como chineses. Mas ainda há dificuldades. A diferença entre ricos e pobres tem vindo a aumentar e a capacidade administrativa do Governo tem muito para melhorar.”

que vai dar atenção à situação actual do mercado imobiliário. “Vi vários inquéritos feitos por várias entidades em relação ao trabalho do Governo e da minha pessoa. Desde 1999 que essa popularidade ora sobe ora desce, e eu estou satisfeito que o Governo tenha

ZONAS DE FUMO EM ANÁLISE Também na Torre de Macau o secretário Cheong U, dos Assuntos Sociais e Cultura, revelou que está a planear criar um grupo interdepartamental para analisar as propostas de criação de zonas de fumo nos casinos sem mesas de jogo. Segundo o canal chinês da Rádio Macau, Cheong U disse que todos esperam que se faça um bom trabalho no controlo do tabagismo, e que, quando houver uma nova proposta, “vale a pena implementar”, se for no sentido da lei.

uma percentagem na ordem dos 60%. Temos de aceitar as criticas e fazer uma auto-critica, para que para a próxima possamos fazer um bom trabalho.” “Percebo essas críticas e em relação a algumas políticas vamos ponderar, como a questão da habitação. Vamos ter sempre em consideração os inquéritos, para melhorar a economia e a qualidade de vida da população e o seu bem-estar, criando mecanismos de longo prazo.” Em relação às recentes manifestações, Chui Sai On aceita. “Nos últimos anos temos visto manifestações de diferentes formas e o Governo da RAEM respeita. Fazemos um balanço depois das manifestações, mas a minha questão é sempre a segurança, para que não haja acidentes. É uma questão da liberdade de cada um.”

MAIS TALENTOS EM JANEIRO

Depois de ter dado grande destaque à necessidade da formação de talentos nas Linhas de Acção Governativa (LAG) para 2014, Chui Sai On garantiu ontem que

em Janeiro vão arrancar com novidades. “Queremos constituir uma comissão para os talentos, profissionais e elites, e acho que em Janeiro vamos já constituir o programa. Só queremos criar oportunidades e condições para que mais pessoas possam usufruir.” Em relação às políticas demográficas, o Chefe do Executivo disse que o estudo “vai ser concluído para referência” do Governo e que “dentro deste ano vão ser concluídos todos os procedimentos”. No seu discurso, para além de ter abordado a criação de “mecanismos de longo prazo” para garantir que a população obtenha frutos do sucesso económico. Mas não deixou de fazer advertências, ainda que o PIB de Macau seja invejável. “Embora a economia internacional tenha registado melhorias, o facto é que essa recuperação avança a passos lentos. Devemo-nos manter alerta e estar conscientes do sentido de risco, preparando-nos para responder atempadamente a eventuais mutações conjunturais.

ACADÉMICO BILL CHOU JÁ ENTREGOU ESTUDO PARA AVALIAÇÃO NA UMAC

“Portugueses foram mais flexíveis”

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S formas de negociação adoptadas entre o Governo português e chinês fizeram com que, 14 anos depois, Macau tenha uma Administração e Função Públicas diferentes face a Hong Kong. Esta é uma das conclusões de um estudo desenvolvido por Bill Chou, docente de Ciência Política na Universidade de Macau (UMAC). O trabalho, focado no estudo das políticas públicas de Macau, foi recentemente entregue e está a ser alvo de uma avaliação, disse o próprio ao HM. Convidado a comentar alguns resultados, no contexto do aniversário da transferência de soberania, Bill Chou não tem dúvidas de que “o caso de Macau sempre foi diferente face à britânica Hong Kong, tendo em conta as ligações com a China”. Isto porque “os portugueses foram muito flexíveis em relação ao Governo chinês, principalmente na concepção dos futuros sistemas políticos. As opiniões do Governo

chinês foram mais tidas em conta. No caso de Hong Kong os governos chegaram a um modelo, mas no final houve algumas cedências”. A grande razão para esta diferença prende-se com o facto dos britânicos acreditarem que tinham, de facto, a soberania do território até 1997, enquanto os portugueses consideravam-se meros administradores de um território chinês. “Os portugueses foram mais tolerantes em relação a tudo o que lhes era diferente, neste caso os chineses. Durante o período de transição, a Administração portuguesa deu as boas vindas a todas as pessoas que conseguiam escrever em português e que poderiam estar na Função Pública, independentemente de terem nascido na China, Macau ou Portugal.”

número de chineses do continente “poderá subir” e até chegar a lugares de topo, mas não sabe precisar dados. “A Função Pública sofre hoje de falta de quadros bilingues e especialistas. Na área do Direito a maioria ainda são portugueses. A língua portuguesa é oficial e o Governo tem de usar a língua. Para isso precisamos de pessoas que a conheçam e estabelecer a educação em português. A questão é haver incentivos para os pais e alunos para se estabelecer esse tipo de política, e depois os responsáveis do Governo têm de investir mais na educação bilingue. Estou pessimista, porque há muitos que hoje estão a candidatar-se e a entrar na Função Pública que não falam português.” – A.S.S.

“PESSIMISTA” EM RELAÇÃO AO BILINGUISMO

Bill Chou adianta que a Função Pública em Macau é diferente devido à política de localização de quadros adoptada na altura, e das leis apontadas como mais flexíveis. “No caso de Hong Kong, os que tinham nascido na China mas que ainda não tinham conseguido a residência permanente, não podiam trabalhar na Função Pública. Muitos podiam fazê-lo por causa da educação inglesa que tiveram, mas em Macau a maioria da população não falava português. Mesmo um chinês que falasse português e não tinha ainda a residência permanente poderia candidatar-se.” Para o futuro, Bill Chou acredita que o

CHEONG U COMENTA AUDIÊNCIA DISCIPLINAR O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura disse ontem que a UMAC tem o “poder decisório” face ao caso da audiência disciplinar imputada a Bill Chou, e que não pretende fazer mais comentários por não conhecer os pormenores do caso. Este adiantou ao HM que o seu contrato de trabalho expira em Agosto e que não vai renovar, mas que teme ser despedido antes disso.


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RITA MARQUES RAMOS* rita.ramos@hojemacau.com.mo

• ERICA YU, 24 ANOS, NATURAL DE TAIWAN, VEIO PARA MACAU AOS 12 COM OS PAIS

• PEDRO LAU, 26 ANOS, NATURAL DE MACAU, TEM PASSAPORTE PORTUGUÊS

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ATURAIS de Macau. Criados na China. Macaenses. Portugueses, hoje recém-imigrados. Todos eles apresentam um denominador comum: a vivência na cidade, antes ou pós-transferência de soberania de Macau para a China. O grupo de pessoas que o HM escolheu entrevistar, sem aviso ou preparação, sobre a data que mudou Macau há 14 anos espelha diferentes raízes e gerações, para compreender afinal o que sabem os residentes sobre o dia 20 de Dezembro de 1999? “É o dia de Macau”, aponta com hesitação Dinizio Silva, nascido na cidade um ano antes da transferência de poderes. Este filho de macaense e chinês formou-se numa escola luso-chinesa e hoje frequenta o segundo ano da Escola Portuguesa de Macau (EPM). Num português ainda debilitado explica que “nas escolas não há ensino da história local, apenas da China antiga”, por isso, nunca lhe foi ensinado este capítulo da história contemporânea da cidade, por outro lado, ressalva, há quem já lhe tenha transmitido esta narrativa, mas a “memória” teima em falhar. João Araújo, nascido no ano da transição, não tem ideia do que significa o dia 20 de Dezembro de 1999. Há ano e meio na cidade vindo directamente de Portugal, o episódio de que “Macau passou a ser chinesa e não portuguesa” não lhe é estranho, mas a data parece-lhe muito distante. Em tiro pouco certeiro, o jovem aponta cinco décadas sobre a transição. Na EPM, onde concluiu o 7.º e integrou o 8.º ano no início deste ano lectivo - depois de acompanhar a família nesta aventura para Macau - acredita que o “assunto tivesse até sido abordado”, mas assume que “não deu muita atenção à matéria desse dia”. Até porque, salienta, a história de Macau não é conteúdo curricular de peso nem de avaliação, prevalecendo o passado de Portugal e um pouco do império milenar chinês. No antigo liceu de Macau, Margarida (nome fictício), 33 anos, perdeu a cerimónia da transferência de poderes por poucos meses. “Fui-me embora em Maio com 19 anos e a transferência foi em Dezembro e não tive a par do que se passou. Sei que houve uma cerimónia. Lembro-me já só de ver na capa do Jornal de Notícias uma referência ao acto”, frisa a professora de uma instituição de ensino superior local, que lecciona conteúdos de ciências sociais e humanas. Antes de abandonar Macau para dar entrada numa universidade em Portugal, Margarida não se lembra de professores e alunos

Houve uma grande mudança nos salários, mas Sou também cidadão português e acho importante saber também no poder de compra. Noto que, sobretudo a língua, sobretudo, quando as pessoas acham estranho a juventude, tornou-se mais materialista não saber falar tendo nome e passaporte português ERICA YU

PEDRO LAU

20 DE DEZEMBRO DE 1999 NÃO ENTRA NA “MEMÓRIA” DE RESIDENTES

Transição desconhecida Ao fim de 14 anos, a data que celebra a transferência de soberania de Macau para a China não cabe na bagagem de conhecimentos de muitas pessoas. O “feriado” passa despercebido no ensino que, antes e após a transição, desvaloriza a história local e não deixa que se acompanhe os anos de vida da cidade. Chineses de Macau e do continente, portugueses a viver na RAEM e macaenses passam à margem do dia que mudou o rumo político, social e económico de Macau trocarem impressões sobre o que viria a acontecer no ano de 1999. E, lembra, não era sequer parte da matéria a história antiga ou contemporânea da cidade, já que o currículo seguia as matrizes do ensino tutelado pelo Ministério da Educação em Portugal. As dúvidas parecem poucas para o jornalista Pedro Lau, 26 anos, natural de Macau. Defeito de profissão ou memória pródiga talvez sejam as justificações que servem para que, na ponta da língua, conte ao HM que os dois Chefes de Estado - Jiang Zemin e Jorge Sampaio - “assistiram logo à meia-noite desse dia à troca da

bandeira de Portugal pela da RPC, num local junto ao Centro Cultural ”, recorda em inglês Lau, que sem quaisquer raízes portuguesas é titular de passaporte luso pelo facto de “o avô ter servido a um general português”. De facto, o “Edifício da Lanterna” foi construído propositadamente, e a título provisório, pelo arquitecto Vicente Bravo – perto de onde ficou sediada, mais tarde, a “cápsula do tempo”, “enterrada” por Sampaio e pelo último Governador Rocha Vieira com o “processo de transição” - para albergar a cerimónia oficial da transferência de soberania, que contou com

uma audiência de 2500 pessoas. Edmund Ho viria a ser empossado, cerca de uma hora depois, como o primeiro Chefe do Executivo que Macau conhecia, depois de mais de três séculos sob comando de governadores. Apesar do Exército Popular de Libertação ter entrado em Macau na manhã de 20 de Dezembro, estando desde então aquartelado no centro da cidade, nunca esteve programado nenhum golpe militar. Induzido a adivinhar o que se terá passado nesse dia, João Araújo não acredita numa transição pacífica. “Acho que foi uma guerra. Os dois países queriam

governar e ambos decidiram o domínio e a soberania por meio de conflito.” O pai, também recém-chegado a Macau, pouco mais sabe além da data que não esqueceu por ser o ano de nascimento do filho mais velho, mas não guarda imagens transmitidas ou publicadas em Portugal sobre o dia em que nasceria a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). “Não tenho ideia nenhuma se foi negociado, mas comparativamente com Hong Kong [cuja transferência de poderes teve lugar em 1997] houve menos tempo para preparar esta transição, que viria a dar a Macau


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aprendeu português porque ainda pensou em tirar Direito.

• GIL E JOÃO ARAÚJO, PAI E FILHO, MUDARAM-SE DE PORTUGAL PARA MACAU HÁ MAIS DE UM ANO

PORTUGUÊS DEVE CONTINUAR?

Esta característica própria da RAEM [de ter o português como língua oficial] acaba por ser boa para os portugueses porque cria aqui um nicho de mercado. Foi decisivo o português para me mudar para cá, nunca a transição dos meus filhos seria tão fácil GIL ARAÚJO

uma legislação própria e independente da RPC”, sentenciou Gil Araújo, 39 anos, director artístico.

UM DATA “ALEATÓRIA” OU TRAÇADA?

Erica Yu, 24 anos, tem ideia que houve um acordo, que ditava o “fim do controlo de Macau por parte da Administração Portuguesa”, mas a data em que foi celebrado tem-na longe da ideia. “Há 100 anos?”, questiona a jovem, que veio a desembocar em Macau com 12 anos, um ano após a transição, vinda da terra natal Taiwan. “Não estudei nada disto na escola, não sei o que acontece na primária, mas no Colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não me ensinaram [a Questão de Macau].” Ainda assim, lembra, foi nesse primeiro “tratado” – a Declaração Conjunta Luso-Chinesa, assinada em 1987, pelo então primeiro-ministro da República Portuguesa Cavaco Silva e por Zhao Ziyang, na qualidade de primeiro-ministro da RPC – que ficou consagrada a garantia de um alto grau de autonomia, sob o princípio “um país, dois sistemas”. “Macau é parte integrante da China mas eles têm o direito de tomar decisões no campo económico e legislativo. Claro que decisões maiores estão subordinadas a Pequim, por exemplo, no caso de decidir sobre os deputados e Chefes do Executivo, em que a decisão tem de ser aprovada pelo Governo Central e não é feita, em

grande percentagem, por decisão da população”, afirma assertivamente. Pedro Lau sabe que, em 1999, “se pôs em prática a Lei Básica”, que vinha a ser preparada desde 1993, consagrando os princípios fundamentais da RAEM, vista e aceite comummente como uma “mini-constituição”. E mais, segundo este acordo bilateral, a conservação das especificidades da RAEM “manter-se-ia por 50 anos”. Não foi, no entanto, no Instituto Salesiano que ganhou estes conhecimentos porque, a respeito dos portugueses, nesses oito anos de ensino, só se recorda de ter havido “uma data para assinalar as descobertas dos navegadores lusitanos” e, à data, descobriu que “os portugueses se estabeleceram aqui há mais de 400 anos. A memória falha-lhe quando recorda o calendário e aponta a “declaração conjunta” dois anos depois de ocorrida. Sobre o “acordo”, chegou-lhe aos ouvidos um boato de que “os portugueses estavam a tentar manter Macau até 2000”, mas em jeito de “decisão à última da hora, a China tomou posse de Macau antes da entrada no milénio”. Em Portugal, Gil Araújo, tal como muitos outros portugueses, “pouco” ouviram falar de Macau. O director artístico enquadrou o enclave no mapa por força das artes marciais que praticava, mas sempre antevendo uma “aproximação forte à cultura da China, mais do que a de

Hong Kong”, embora soubesse que havia uma “governação própria”. Anabela (nome fictício), macaense, 60 anos, lembra que a “debandada de portugueses e macaenses” foi tudo menos calma. “Muitas amigas com bons cargos na função pública foram para Portugal com medo de ficarem sem receber a reforma; iam com a possibilidade de serem integradas em cargos semelhantes.” Anabela, fluente em cantonês e português, não teve problemas em permanecer, até porque em Portugal não tem raízes nem contactos.

ECONOMIA E MENTALIDADE EM MUDANÇA

No entanto, Anabela recorda que a mudança foi difícil para a comunidade. “Trabalhar com os portugueses era melhor porque os chineses não gostam dos macaenses”, generaliza. “Os chineses do continente vieram para categorias mais altas e os macaenses mantiveram-se nas mesmas, mas os primeiros têm medo de assinar ou de se comprometer com qualquer coisa. Pensam três e quatro vezes antes.” Por outro lado, se o factor dinheiro é hoje mais visível em Macau, com a erosão de uma economia efervescente na última década, já antes era apelativo e tratado com “usura e interesses”, havendo muitos “pagamentos por baixo da burra”. Hoje, por outro lado, nota que um dos casos mais flagrantes diz respeito ao imobiliário, em que

os preços das casas e das rendas não baixam porque “muitos chineses trabalham no Governo e são promotores imobiliários”, acusa. Este crescimento da economia, por força da liberalização do jogo, sector que ocupa quase a totalidade PIB de Macau, não afectou muito a geração abaixo dos que hoje estão na casa dos 20. “Acho que foi um dos grupos que teve menos impacto porque ainda não trabalhava”, explica Pedro Lau. Mas o desenvolvimento desenfreado “veio mudar a forma como a sociedade pensa”, assume Erica Yu. “Na adolescência não notámos um ambiente muito diferente. O que mais notei quando regressei como trabalhadora e observadora de Macau foi a forma como abriram as fronteiras, ver tantas pessoas no Leal Senado. O emprego também está muito centralizado nos casinos e mesmo os jovens, quando se pergunta o que querem fazer está relacionado com os casinos”, explica Margarida, académica, que regressou a Macau em Agosto de 2011, depois de passar na cidade uma temporada da juventude entre 1994 e 1999. “Houve uma grande mudança nos salários, mas também no poder de compra. Noto que, sobretudo a juventude, tornou-se mais materialista. E também que antigamente passear e relaxar era mais fácil, embora hoje haja mais variedade de entretenimento”, acrescenta Yu, licenciada em Marketing, que

A língua portuguesa foi uma das especificidades que os dois governos decidiram conservar em Macau até 2049, sendo consagrada no artigo 9.º da Lei Básica “também” como “língua oficial”, que “pode usar-se também nos órgãos executivo, legislativo e judiciais” da RAEM, além do chinês. A “mini-constituição” diz ainda que “os interesses dos residentes de ascendência portuguesa em Macau são protegidos, nos termos da lei, pela RAEM. Os seus costumes e tradições culturais devem ser respeitados” (artigo 42.º). Mas como é vista esta “segunda” língua oficial pelos seus residentes? “Só soube há uns 10 anos que havia duas línguas oficiais em Macau, pensei que o chinês seria a única”, confessa Pedro Lau, que diz também nunca ter lido “o documento oficial”, razão pela qual desconhece “que a língua tivesse uma data de expiração”. “Tenho lido que vai continuar porque a China tem o olho virado para os negócios com os países de língua portuguesa, felizmente, porque Macau era um interposto comercial na Ásia e terá de apostar nisso novamente porque o sector do jogo não vai permanecer com tão bons resultados.” A regra começa já a ser aplicada, entende Gil Araújo. “Só interessa à China como veículo de aproximação dos países de língua portuguesa. A continuidade do português no ensino é apenas uma forma de facilitar esse caminho, mas acaba por ser apenas uma imposição governamental porque ninguém fala”. “Esta característica própria da RAEM acaba por ser boa para os portugueses porque cria aqui um nicho de mercado. Foi decisivo o português para me mudar para cá, nunca a transição dos meus filhos seria tão fácil.” Se Erica começou a aprender o português há cinco anos, com interregnos, no Instituto Português do Oriente (IPOR) e numa estadia de um ano em Lisboa, Pedro começou este ano a aprender com uma colega de trabalho. “Ajudar-me-á na minha carreira. Toda a gente sabe inglês, já não é uma mais-valia no currículo, mas com o português posso pensar em trabalhar em diversos países”, acredita. “Sou também cidadão português e acho importante saber a língua, sobretudo, quando as pessoas acham estranho não saber falar tendo nome e passaporte português. A minha ida à Austrália foi um momento decisivo para aprender porque quando passei na zona de imigração no aeroporto acenderam a luz vermelha como se fosse um indivíduo suspeito, tive de explicar durante algum tempo porque tinha aquele documento, a sorte foi que um segurança conhecia Macau e o facto de ter sido uma ‘colónia’ portuguesa. Senti-me tão envergonhado.” - *com Cecília Lin


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PARADA LATINA NAS RUAS PARA CELEBRAR A RAEM

Uma questão de multiculturalidade C

Macau serve de ponte entre a China e os países de língua portuguesa e, daí para a frente, também para os países latinos e para além de trazer a Macau diferentes culturas e ser um excelente intercâmbio, podemos aproveitar este tipo de actividades para promover a cidade no exterior HELENA DE SENNA FERNANDES Directora dos Serviços de Turismo

ENTENAS de figurantes desfilaram ontem pelas ruas de Macau integrados no “ Desfile por Macau, Cidade Latina” que celebrou os 14 anos da transferência de poderes de Portugal para a China. O desfile, com partida nas ruínas de São Paulo, o ‘ex-libris’ do turismo local, e a praça do Tap Seac, um local amplo com calçada à portuguesa e edifícios históricos, contou com a participação de grupos locais e do exterior, principalmente de países de língua portuguesa como Portugal e Brasil, e de países latinos como a Colômbia, Peru, Argentina, Cuba ou Bolívia, numa organização do Instituto Cultural e do Instituto dos Assuntos Cívicos e Municipais. Transmitida em directo pela televisão, a “Parada Latina”, como também é denominado o desfile que junta milhares de turistas e residentes nas ruas para assistir às performances dos

participantes, animou parte do centro histórico de Macau e vincou à cidade o seu papel de ponte entre culturas, como salientou à agência Lusa a directora dos Serviços de Turismo, Helena de Senna Fernandes. “Macau serve de ponte entre a China e os países de língua portuguesa e, daí para a frente, também para os países latinos e para além de trazer a Macau diferentes culturas e ser um excelente intercâmbio, podemos aproveitar este tipo de actividades para promover a cidade no exterior”, disse a mesma responsável, salientando que no futuro este será um dos eventos mais importantes da cidade. Já o Secretário dos Assuntos Sociais e Cultural, Cheong U, considerou a Parada uma das actividades mais significativas para comemorar o aniversário de Macau como Região Administrativa Especial da China. “Ter actividades de grande dimensão é sempre bom

para o significado do dia, para o turismo e para a população e este desfile produz este efeito de a animação e alegria, além de mostrar a harmonia e a história e o património de Macau quer na cultura chinesa, quer portuguesa, quer ocidental e isso é muito significativo”, disse Cheong U. Ao longo de cerca de três horas, os participantes animaram a cidade com os grupos a desfilarem de forma intercalada. A recepção aos convidados principais da cerimónia, como os cônsules dos países participantes, organizadores e até membros do Governo decorreu no restaurante Lvsitanvs, o “espaço montra” da cultura portuguesa junto às ruínas de São Paulo gerido pela Casa de Portugal e que encerra no final do mês depois do proprietário do edifício ter exigido aos Serviços de Turismo - titular do arrendamento para a promoção cultural - um forte aumento da renda que não foi aceite.


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Ter actividades de grande dimensão é sempre bom para o significado do dia, para o turismo e para a população e este desfile produz este efeito de a animação e alegria, além de mostrar a harmonia e a história e o património de Macau quer na cultura chinesa, quer portuguesa, quer ocidental e isso é muito significativo CHEONG U Secretário para os Assuntos Sociais e Cultural

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MANIFESTAÇÃO SETE CARTAS ENTREGUES AO CHEFE DO EXECUTIVO

Pedem mais do mesmo CECÍLIA LIN

cecilia.lin@hojemacau.com.mo

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OI dia de festa, mas não só. Cinco associações e duas pessoas individuais participaram em manifestações, ontem, e entregaram petições na sede do Governo. Segundo a PSP, participaram 530 manifestantes, mas Jason Chao, presidente da Associação Novo Macau (ANM), disse que eram 750. Os problemas e queixas são sempre os mesmos. A ANM empunhava cartazes com caracteres que mostravam “conluio entre empresários e Governo”. Jason Chao pediu novamente o sufrágio universal do Chefe do Executivo em 2019, porque, diz, todos os problemas acontecem porque o Chefe do Executivo não precisa de ser responsabilizado. “Esperava que pelo menos mil pessoas pudessem participar

nas manifestações, contudo, acho que ainda falta o reconhecimento de um sistema democrata entre a sociedade.” Também a Forefront of the Macao Gaming voltou a atacar. Para eles, a manifestação serviu para contestar o aumento das mesas de jogo e a importação dos trabalhadores não residentes para o sector do jogo, apesar de Chui Sai On já ter dito mais que uma vez que não serão importados croupiers estrangeiros. “Depois das manifestações de Outubro, o Governo prometeu que ia estudar a legislação, mas agora na Assembleia Legislativa já mudou de atitude. O pior é que, recentemente, o secretário Francis Tam disse que não vai limitar o número de mesas e isso é vai fazer com que se importem croupiers não-residentes, porque a população de Macau não pode oferecer tantos croupier.” O Conselho de Preparação do

Partido dos Operários, liderado pelo activista Lei Kin Ion e Cheong Weng Fa, também entregaram a sua petição ao Chefe do Executivo. O tema? Contra o conluio de empresários, o alto preço da habitação e o facto de o Governo não ajudar os jovens a comprar casas. Outro assunto da petição é ainda contra a eliminação das gaiolas nos prédios. Cerca de cem pais do grupo dos “filhos maiores do continente” partiu do Parque Iao Hon, para pedir ao Governo que os ajude a reunir-se com os seus filhos em Macau. Disseram ainda que os seus filhos podem ajudar resolver o problema de falta de recursos humanos em Macau. O pai da jovem em estado vegetativo, que ficou assim por um alegado erro médico, também esteve ontem nas manifestações, para recordar o assunto, apesar de o tribunal já lhe ter negado razão.


SOCIEDADE

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PANSY HO QUER AVANÇAR COM PROJECTO EM HENGQIN

A ilha do tesouro A Shun Tak Holdings prevê iniciar a construção do projecto na Ilha da Montanha no próximo Verão e tê-lo concluído em 2017, disse ontem Pansy Ho, directora da empresa, fundada pelo pai, o magnata do jogo Stanley Ho. A empresária falou à imprensa sobre o complexo integrado com hotel, escritórios e área comercial a desenvolver em território adjacente a Macau, no interior da China, à margem da inauguração de uma galeria de arte - “Art Space” - no MGM Macau, empreendimento da MGM China Holdings de que também é directora executiva. Pansy Ho explicou que a Shun Tak Holdings formalizou recentemente a compra do terreno, e que já começou a discutir o projecto com o governo da Ilha da Montanha, mas que ainda “há muitos procedimentos administra-

tivos e logísticos a tratar”. “Vamos começar a construção em breve. (…) Vamos precisar possivelmente de mais seis meses para submeter projectos e obter as licenças e aprovações, mas pensamos que vamos conseguir concluir o projecto até 2017”, afirmou a empresária. Pansy Ho não precisou o montante do investimento a fazer pela Shun Tak nem avançou detalhes sobre o empreendimento. “Actualmente ainda estamos a trabalhar no plano: podem ser dois, três ou quatro edifícios, mas vamos definitivamente ter um hotel, apartamentos com serviços e escritórios”, referiu. Quanto à tipologia hoteleira, Pansy Ho não confirmou tratar-se de um cinco estrelas e indicou que uma das hipóteses “é começar o projecto com um hotel de negócios de quatro estrelas”. O projecto da ‘Shun Tak Holdings’ para a Ilha

A Universidade de Hong Kong lançou, na quinta-feira, um relatório sobre um inquérito feito à população de Macau, um dia antes da transição. Foram 511 os residentes entrevistados, que mostram que a satisfação com o trabalho do Governo diminuiu 15%. Para cada área de trabalho, a relação com o Governo Central ganha o ponto mais alto, de 60%, a economia está contabilizada com 47%, mas a protecção dos direitos humanos é de apenas 20% e a promoção da democracia diminuiu até -3%.

Lei Sio Peng reforma-se em Fevereiro de 2014

O comandante do Corpo de Política de Segurança Pública (PSP) Lei Sio Peng afirmou que o seu mandato vai chegar ao fim em Janeiro de 2014. Como já trabalhou para o Governo durante 40 anos, admitiu que se vai reformar em Fevereiro. Lei Sio Peng referiu ainda que já não tira férias há muito tempo e, após a aposentadoria, irá descansar um pouco. O director da PSP frisou que o seu trabalho só poderá ser comentado e apreciado pela população, mas disse que sempre fez tudo de um modo profissional.

DIVERSIFICAR A ECONOMIA

A galeria de arte do MGM Macau foi ontem inaugurada com uma exposição com réplicas das obras do pintor italiano Sandro Botticelli, incluindo a pintura a óleo “Venus”. A exposição ficará patente até 16 de Fevereiro e, durante a inauguração do espaço, Pansy Ho sublinhou que “Macau precisa de diversificar a sua economia e desempenhar um papel diferente no todo do turismo chinês”. “A arte é importante porque é um bom meio para se ter um diálogo com os nossos turistas que chegam de diferentes partes do mundo. Eu acredito especialmente

TIAGO ALCÂNTARA

Nota negativa para promoção da democracia

da Montanha foi anunciado no final de Julho, quando a empresa com sede em Hong Kong anunciou ter ganhado a licitação de um terreno “estratégico” de 23.834 metros quadrados pelo valor de 721 milhões de yuan.

no grande potencial do mercado chinês”, disse. “Os cidadãos chineses estão agora muito interessados em explorar e serem expostos a diferentes formas de arte”, sustentou a PUB

empresária, observando que através da arte é possível diversificar a base de clientes. Além do MGM Macau, a MGM China tem em construção, desde Fevereiro, um segundo empreendimento

de jogo no COTAI - zona de aterros entre as ilhas da Taipa e Coloane onde estão concentrados os empreendimentos de maior dimensão -, que deverá abrir portas em 2016. - Lusa


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ENTREVISTA

JOANA FREITAS

joana.freitas@hojemacau.com.mo

Escolheu Macau para filmar o ‘Roulette City’ e, agora, para o seu novo filme ‘The Last Room’. O que é que Macau tem que o inspira? Primeiro, Macau é deslumbrante. Especialmente à noite, quando as luzes aparecem, Macau torna-se um cenário pronto a ser filmado. As luzes nas ruas dão a textura ideal aos meus filmes e mesmo os becos com mau aspecto me parecem muito atractivos. Filmar num sítio como Macau dá aos meus filmes um tom verdadeiramente emocional. E digo isto, porque Macau faz-me sentir coisas muito diferentes. A cidade permite-me ver perda, romance, tristeza e até horror, conjugados com outras emoções. Resumindo: Macau é inspirador quando se cria histórias.

THOMAS LIM, DIRECTOR CINEMATOGRÁFICO, VÊ PRIMEIRA LONGA-METRAGEM ESTREAR NO CINEMA A

“Um sonho tornado realidad

É um apaixonado por Macau e isso nota-se. Thomas Lim é um director cinematográfico que fez filme, ‘Roulette City’, em Macau, onde viveu dois anos. Agora o território retribuiu: a primeira metragem de Lim estará no Cinema Alegria já em Janeiro de 2014. Um sonho que se tornou rea que já prepara as próximas filmagens em Macau. Tenham medo, muito medo, porque vem aí ‘T uma história de horror bem perto de nós Fringe e conheci a comunidade de actores locais. Aprendi muito sobre a vida em Macau pelas conversas que mantive com eles, que se mantêm meus amigos até hoje. Essas informações ajudaram-me na fase de escrever o meu guião e durante as filmagens. Acho que todos concordam comigo se disser que o sector dos filmes em Macau é pequeno e muito diferente de outros territórios, como Hong Kong ou Índia. A desvantagem disso é ter poucas pessoas com experiência, em termos de equipa de filmagem e actores. São muito poucos.

É só a paisagem da cidade que o faz sentir assim ou há mais além disso? Também tenho muita curiosidade e interesse nas histórias que existem entre as pessoas com ‘backgrounds’ tão diferentes... os locais, os chineses do continente, os portugueses e os estrangeiros que vivem em Macau. A interacção entre estas pessoas num lugar tão pequeno como esse intriga-me muito, especialmente pelo facto de a China ser tão diferente e ser a um passo de Macau. A vida em Macau é muito diferente da do continente e até mesmo de Hong Kong. É tão interessante ter um ponto de vista de alguém que vem de fora, é excelente ver as relações entre tanta gente tão diferente num local tão pequeno. Viveu cá por dois anos. Esse tempo permiti-lhe analisar o mercado cinematográfico cá? É possível comparar Macau com outros locais conhecidos pela sua indústria, como Índia e Hong Kong? Não há muita gente a fazer filmes em Macau e vi isto como uma oportunidade, porque acreditei que o mundo estaria curioso com filmes feitos em Macau. E estava certo, porque quando mostrei o ‘Roulette City’ no Japão muita gente foi ver por causa de ter sido feito em Macau. E muita gente me disse que estava curiosa para ver mais filmes ‘made in’ Macau. A cidade é pequena e já tinha muitos amigos locais mesmo antes de viver aí. Antes de ir para Macau, fui director de duas peças de teatro para o Festival

hoje macau sába

Isso traz dificuldades. Quais são os maiores obstáculos de filmar em Macau? É precisamente isso de não ter uma equipa experiente, o que é importante porque poupa tempo na produção. Quando filmamos, tempo é dinheiro e precisar de mais tempo para filmar, significa gastar mais dinheiro. Mas, à semelhança de qualquer outra habilidade, experiência cinematográfica não vem da noite para o dia. Só vem com prática e, se mais cineastas fizerem filmes em Macau, vai haver pessoas mais experientes e a produtividade aumenta.

“O ‘Roulette City’ foi inicialmente escrito para acontecer em locais fechados, mas depois mudei tudo para o exterior, porque as ruas de Macau são demasiado deslumbrantes para não serem usadas”

Será que Macau poderá competir com locais como Hong Kong? Como local para filmar, Macau já é bestial. Só por ser Macau e por ter aquela mistura única das culturas portuguesa e chinesa. Mas acho que muitas audiências internacionais ainda não reconhecem a beleza de Macau através de filmes. A maioria dos turistas não se aventuram além do Leal Senado ou de outras ruas turísticas na Taipa. Ou dos casinos. Quando vemos Macau em fotografias, de fora, são apenas os locais turísticos que aparecem. Por isso, acredito que, para que Macau se estabeleça em

filmes têm de ser os realizadores de Macau a mostrarem a beleza da cidade ao mundo. Quando este se aperceber da beleza de Macau, acredito que mais filmes poderão chegar a ser produzidos aí. Quais são as vantagens de filmar por cá? Imensas. Locais que nunca foram usados em filmes. Histórias que nunca foram contadas. É por isso que acredito que se mais pessoas fizerem filmes em Macau, isso ajudaria a que fosse estabelecido como um local de filmagens. Além disso, Macau é pequeno, o que poupa muito tempo no transporte do material. Durante o tempo que cá esteve teve oportunidade de contactar com muitos realizadores de Macau. Há potencial por cá? Sim. Penso que Macau precisa de tanto de produtores locais, como estrangeiros como eu, para representar a cidade. Por um lado, os locais podem contar histórias sobre a sua vida... as suas famílias, como cresceram, as mudanças na cidade. Histórias que não posso contar. Mas, por outro lado, podem ser contadas histórias sobre Macau de uma perspectiva de quem está de fora, o que é muito importante porque consegue-se ver situações que acontecem de forma mais clara, com menos emoções por não estar tão ligado à cidade. Daí que acredite que posso contar histórias de Macau de forma mais acessível para audiências internacionais. Mas, sim, há imenso potencial e muito talento. Em termos de apoios governamentais há ainda muito a fazer ou isto já existe? Honestamente, não tenho bem certeza sobre quanto apoio está a ser dado aos produtores locais, mas já ouvi que é mais do que o que era dado antes. Isso é muito bom sinal, porque


entrevista 11

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ALEGRIA

de”

z o seu primeiro a longaal, para alguém The Lost Room’, acredito que temos que começar com passos pequenos para chegar a algum lado e qualquer apoio é bem-vindo. Mas o próximo passo é que esses realizadores usem o apoio que lhes é dado para fazerem bons filmes, para que o Governo fique convencido e lhes dê ainda mais apoio no futuro. Quando fez o ‘Roulette City’ em 2008, 90% da sua equipa era local. Foi complicado encontrar pessoas com formação? Foi um pouco, porque nessa altura não havia nem muitos actores, nem muitos assistentes de filmagem. Mas acredito que as pessoas que escolhemos para fazer um determinado trabalho dão o melhor de si. Confiei muito numa equipa actores estreantes para fazer o meu filme e diria que todos estiveram bem. Ouvi dizer que muitos

“Macau tem me tratado muito bem e espero que possa dar a minha contribuição à cidade”

gostaram tanto de trabalhar comigo, que procuraram outras produções depois do ‘Roulette City’ e isso dá-me grande satisfação, porque é uma pequena contribuição para a indústria local.

as suas economias de uma vida para jogar nos casinos, esperando por uma probabilidade de riqueza do dia para a noite. Essas histórias intrigam-me e isso foi a base para o ‘Roulette City’.

É melhor ter pessoas locais numa equipa, quando se filma cá? Para já, ainda acredito que é bom ter locais e estrangeiros para filmar em Macau. Tive Sam Voutas no meu filme, australiano, e dois dos meus actores eram de Hong Kong. Acredito que a química entre locais e estrangeiros foi o que fez o meu filme tão interessante. Os resultados que tivemos foram os que teríamos apenas com uma equipa mista. Mas, gostaria de trabalhar com mais pessoas locais no futuro porque acredito que têm mais capacidades do que antes.

Voltou agora em Dezembro a Macau, para mostrar o filme de novo. Como surgiu o convite? O filme foi exibido comercialmente no Japão e em Singapura em 2012 e é amplamente considerado como sendo muito bem sucedido para um primeiro filme feito com um orçamento tão baixo em Macau. Por isso, a Universidade de Macau convidou-me para um seminário para os estudantes de cinema. O que é preciso para fazer um filme em Macau, por exemplo, porque acredito que a minha experiência em primeira mão é valiosa para quem está a aprender e o sucesso do ‘Roulette City’poderá inspirar os alunos a fazer filmes. Ser capaz de inspirar a próxima geração de cineastas é um sonho tornado realidade para mim e fiquei muito feliz em ver uma participação entusiasta naquela noite no seminário da UMAC.

No ‘Roulette City’ fez um retrato do jogo em Macau, mas não apenas isso. Considera chocantes as diferenças entre a China continental e o território? Esse filme significa Macau para mim. E depois o tema é a diferença que os casinos em Macau têm para quem é daí e para quem é da China. Da minha perspectiva, os casinos têm dado aos habitantes de Macau uma vida muito confortável. No entanto, a menos de uma hora, passando a fronteira, chineses do continente vêm para Macau e os rumores são de que trazem

E agora o filme vai estar no Cinema Alegria em Macau, em Janeiro de 2014. Como vê isto? É um sonho tornado realidade. Durante um ano inteiro tenho vindo a lutar para conseguir ter o filme em cinemas em Macau, porque foi feito em Macau. Apesar de ter sido exibido com sucesso em mercados maiores, como Japão e Singapura, sempre quis que regressasse a “casa”. Em Macau, o público pode relacionar-se com o filme de uma forma diferente do que o público internacional. Estou curioso para ver o que o público de Macau vai pensar e sentir. É um alívio que esta tarefa esteja finalmente completa. O ‘Roulette City’ será distribuído em DVD e várias plataformas on-line no início do próximo ano e aí o “círculo” estará completo. Honestamente, as conquistas do filme superaram as expectativas de todos e sinto-me verdadeiramente abençoado. Isso prova mais uma vez que, se dermos o nosso melhor para fazer um filme, ele encontra o seu próprio caminho. O próximo filme, ‘The Last Room’, vai ser filmado também em Macau. Porquê escolher a cidade para um filme de terror? Já queria fazer um filme de terror. Em Macau, as ruas, as

casas e as luzes naturais evocam imensas emoções. Desde o início, sempre senti que, devido à vibração que Macau tem e a atmosfera cultural, entre a sorte e o azar do jogo, seria um óptimo local para fazer um filme de terror. E acredito que os cineastas locais não sentem dessa forma. Querem contar histórias sobre a cultura da vida local em Macau e é justo que o façam... Mais uma vez, isto é a minha perspectiva como residente temporário. Nos meses em que estava a editar o ‘Roulette City’ foram tempos muito escuros para mim, muito difíceis. Houve momentos em que pensei que estava a ver fantasmas à minha volta, quando estava a lutar para terminar a pós-produção do filme. Desde então, prometi a mim mesmo que o próximo filme que seria um filme de terror em Macau. Pode revelar-nos um pouco da história? A história está a ser alterada agora, enquanto falamos. Estou apenas na segunda versão e mesmo o nome do filme pode vir a mudar. Por enquanto, posso dizer-lhe que é sobre “um último quarto” assombrado num hotel onde a personagem principal do filme vai viver. Depois, descobre-se um monte de histórias negras sobre o lugar. Há mais histórias para contar sobre Macau? Podemos esperar novos filmes seus cá? Há um monte de histórias para serem contadas em Macau. A história da cidade é rica e tem experimentado uma série de mudanças na última década. Sim, podem definitivamente esperar mais filmes meus em Macau. Na verdade, espero que consiga filmar pelo menos parte de todos os meus filmes em Macau. PUB


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CHINA

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PEQUIM VAI INAUGURAR NOVAS BASES DE INVESTIGAÇÃO NA ANTÁRCTIDA

Poluição Governo chinês vai investir mais de dois biliões de patacas no combate

A China vai investir cerca 2.3 biliões de patacas para combater a poluição que afecta grande parte do país nos próximos três anos. O número foi estimado por Wang Jinnan, vice-presidente da Academia de Planeamento do Meio Ambiental chinesa, durante uma cimeira económica realizada esta quinta-feira em Pequim, e na qual também se assegurou que o plano contra a poluição criará mais de dois milhões de postos de trabalho, segundo a agência oficial Xinhua. De acordo com Wang, 36,7% do investimento será destinado à indústria de “limpeza do ar”, e 28,2% para o incentivo das fontes de energia renováveis. O resto será usado para temas como a melhoria da qualidade dos motores dos veículos, entre outros assuntos. O governo chinês lançou há meses um plano quinquenal para incorporar novas políticas ambientais que combatam os altos índices de poluição com que o país se debate, excessivamente dependente do carvão como a sua principal fonte de energia.

Aposta na exploração científica A China vai ampliar a presença na Antárctida com a construção de uma quarta base de investigação, e está à procura de um local para a quinta, disse um jornal estatal esta quinta-feira, num momento em que o país intensifica os esforços científicos em lugares remotos. Os esforços chineses incluem o lançamento de veículos submarinos para explorar o leito oceânico e a aterragem, na semana passada, de uma sonda na Lua. Segundo o Diário da China, os operários irão construir um acampamento para ser ocupado durante o verão, com o nome de Taishan, para além de procurarem o local para uma instalação adicional. Qu Tanzhou, director da Administração Árctica e Antárctica Chinesa, disse que o país “chegou tarde à investigação científica, mas está a aproximar-se dos rivais”. A China já mantêm três estações de pesquisa na Antárctida: Grande Muralha, Zhongshan e

Kunlun. “A construção do acampamento de Taishan e a procura de locais para outra estação pode garantir adicionalmente que os cientistas chineses realizem

MERCADO DE HONG KONG ENFRENTARÁ VOLATILIDADE

Autoridade Monetária atenta

O

executivo chefe interino da Autoridade Monetária de Hong Kong, Eddie Yue, afirmou esta quinta-feira que a decisão do banco central dos Estados Unidos de diminuir as medidas de estímulo monetário a partir do mês que vem provocará

a curto prazo volatilidade no mercado. A Reserva Federal dos EUA anunciou na quarta-feira que irá reduzir as compras mensais de títulos a partir de Janeiro de 2014, devido à recuperação do mercado de trabalho no país. Falando aos meios de comu-

nicação, Yue disse que os bancos locais devem controlar de perto as taxas de juros e não emitir empréstimos excessivos. Apesar da decisão de reduzir as medidas de estímulo económico reflectir uma perspectiva mais brilhante para a economia norte-americana, o que deverá ter um impacto positivo sobre a economia global, Yue advertiu que volatilidade do mercado e os refluxos de capital podem ocorrer pois o passo e a escala das futuras medidas da Reserva Federal não são claras. O secretário de Finanças de Hong Kong, John Tsang, também indicou que a volatilidade continuará por um período depois de seus indícios na bolsa de valores local na manhã de quinta-feira. Tsang sugeriu que os investidores e as empresas sejam cautelosos com a volatilidade e adoptem perspectivas de longo prazo em relação aos seus investimentos. “Não encontramos qualquer saída de fluxo de liquidez até o momento, por isso devemos monitorar a situação de perto”, apontou Tsang.

pesquisas científicas de maior amplitude e de forma mais segura”, disse Qu. O acampamento de Taishan será usado no verão austral, entre

Dezembro e Março, fornecendo apoio logístico e permitindo estudos de geologia, glaciares, geomagnetismo e atmosfera, segundo o jornal. Os cientistas também se dedicarão a estudar as mudanças climáticas, acrescentou o jornal. A base de Taishan ficará perto de estações dos EUA, da Itália e da Coreia do Sul, esta recém-inaugurada. “Ao mesmo tempo que a nação está a ampliar a sua presença na Antárctida, está também a reforçar a sua capacidade científica, com um novo quebra-gelo a ser fabricado e um avião de asa fixa a ser levado para futuras expedições polares”, acrescentou o jornal. Ao contrário de outros países –como a Grã-Bretanha, Noruega, Austrália, Chile e Argentina--, a China não reivindica território antárctico, mas está a reforçar a sua presença no continente gelado, e em Junho o Presidente Xi Jinping disse que a exploração polar é um passo importante a ser desenvolvido.

PRODUTOR DE ANIMAÇÃO CONDENADO

Brincar com o fogo U M tribunal chinês decidiu que o produtor da série de animação “Xi Yangyang & Hui Tailang” (“Pleasant Goat and Big Big Wolf”, em inglês) foi declarado culpado pelas lesões sofridas por duas crianças. Segundo a agência Associated Press, um amigo amarrou as crianças a uma árvore e ateou-lhes fogo imitando uma cena da série.

Os dois irmãos, com sete e quatro anos, da província chinesa de Jiangsu, ficaram gravemente queimados, em Abril deste ano, pelas acções de um colega de dez anos, que confessou ter copiado uma cena da série, afirmou a agência oficial de notícias Xinhua. O garoto de sete anos sofreu queimaduras em mais de 80% do corpo, enquanto o irmão ficou com 40% do corpo queimado. O tribunal decidiu que os responsáveis pelo menino que ateou fogo nos amigos terão que indemnizar a família em 60% e o produtor da empresa Creative Power Entertaining terá que pagar 15% do valor total. A agência Xinhua não revelou quem pagará o restante. O valor da indemnização também não foi divulgado, mas a agência afirmou que a produtora pagará cerca de 50 mil patacas. Em 2010, a Creative Power Entertaining assinou um acordo com a Buena Vista International para exibir a série “Pleasant Goat and Big Big Wolf” nos canais da Disney na região da Ásia-Pacífico em mais de dez idiomas, incluindo inglês.


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REGIÃO Tailândia Centenas nas ruas contra o Governo Centenas de pessoas manifestaram-se ontem na capital tailandesa, Banguecoque, para pedir a demissão do Governo e o adiamento das eleições de 2 de Fevereiro antes de um grande protesto convocado para o fim de semana. Grupos antigovernamentais retomaram esta semana as manifestações contra a primeira-ministra tailandesa, Yingluck Shinawatra, que depois de dissolver na semana passada o parlamento recusou renunciar ao cargo até à formação de um novo executivo. O líder da oposição, Suthep Thaugsuban, encabeçou pelo segundo dia a manifestação que teve ontem lugar no centro de Banguecoque.

Japão Líder de sindicato morto a tiro

WASHINGTON ACUSA PEQUIM DE “IRRESPONSABILIDADE” EM INCIDENTE COM NAVIO DE GUERRA

Situação incendiária A China actuou de forma “irresponsável” num incidente com um navio da marinha dos Estados Unidos no sul do Mar da China, disse esta quinta-feira o secretário da Defesa dos EUA, Chuck Hagel. “Foi desnecessário, foi irresponsável”, referiu Hagel em conferência de imprensa, acrescentando que o incidente reafirmou a necessidade de protocolos entre os dois países para evitar uma potencial “má avaliação” e o risco de uma confrontação no Pacífico. “Esta é uma situação que é muito incendiária (…) os dois lados precisam de um mecanismo para atenuar alguns destes incidentes, quando ocorrerem”, acrescentou. O general Martin Dempsey, chefe do estado-maior

das Forças Armadas dos EUA, afirmou na mesma conferência de imprensa que delegações oficiais norte-americanas e chinesas se reuniram para definir regras que serão aplicadas nos futuros contactos entre militares dos dois países. A China desvalorizou o incidente, que ocorreu no dia 5 Dezembro, e disse que o navio norte-americano “colocou uma ameaça”. Responsáveis do Pentágono anunciaram na sexta-feira que o navio da marinha chinesa aproximou-se perigosamente de um navio de guerra dos EUA no mar da China e um incidente foi evitado por pouco. O USS Cowpens, um cruzador lança-mísseis, foi forçado a manobrar para evitar uma colisão com o navio chinês, que lhe tinha

cortado a rota antes de se imobilizar, segundo oficiais da marinha e responsáveis da Defesa norte-americana. O navio chinês aproximou-se a menos de 500 metros do norte-americano, indicou um dirigente do Pentágono, sob anonimato. “Este episódio desenrolou-se em águas internacionais do Mar do Sul da China, em 05 de Dezembro”, especificou. “Por fim, foi estabelecida uma comunicação eficaz entre as tripulações norte-americana e chinesa e os dois navios puderam manobrar para obterem uma passagem em toda a segurança”, sublinhou. O USS Cowpens encontrava-se “nas proximidades” do novo porta-aviões chinês, o Liaoning, quando o incidente ocorreu.

O líder de um sindicato de pescadores japonês foi ontem morto a tiro numa cidade do sul do Japão, no segundo assassínio a tiro registado em dois dias num país onde este tipo de casos é raro. Tadayoshi Ueno, de 70 anos, foi descoberto morto numa rua de Kitakyushu, pouco depois dos residentes locais terem ouvido tiros. A polícia confirmou a morte de Ueno num hospital local. Ueno, cuja família é dona de uma empresa de construção, já tinha sido alvo de um tiroteio contra a sua casa em 1997, segundo a agência noticiosa japonesa Jiji, e o irmão foi morto no ano seguinte. Este assassínio surge um dia depois da morte a tiro do proprietário de uma conhecida cadeia de restaurantes japonesa em Quioto. Estes casos são raros no Japão, onde a legislação de posse de armas é rigorosa, sendo normalmente atribuídos à máfia.

Malásia Diário suspenso por informar gastos do primeiro-ministro

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sindicato de jornalistas da Malásia condenou ontem a suspensão indefinida imposta pelo Governo malaio a um jornal que publicou informações sobre os gastos do primeiro-ministro e da sua mulher. O Ministério do Interior malaio ordenou o encerramento do semanário The Heat depois de este ter publicado uma notícia com o título “Todos os olhos sobre os gastos do primeiro-ministro Najib”, que refere denúncias da oposição contra a mulher do governante que terá utilizado um avião do executivo para participar numa cimeira de mulheres no Qatar. A medida surge depois de o jornal ter recebido, na semana passada, uma ordem para comparecer

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perante um tribunal e de o seu director ter sido exortado pelo próprio ministério a “baixar o tom” das suas informações, segundo o portal Malaysia Insider. O presidente do Sindicato Nacional de Jornalistas, Chin Sung Chew, defendeu que a Malásia como país democrático deveria proteger a liberdade de imprensa. “O Ministério do Interior, com a suspensão do The Heat, contradiz o que um verdadeiro governo democrático deveria defender”, disse. O fundador da organização de defesa dos direitos humanos Advogados para a Liberdade, Eric Paulson, observou que o Ministério do Interior malaio “continua a sujeitar de forma autoritária a imprensa”.


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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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S

ÃO cento e cinquenta quilómetros desde Xining, sempre a subir por uma boa estrada que serpenteia por vales largos e pradarias, no meio de uma sucessão de montes e montanhas que se perdem entre céu e terra. Na ascensão para o grande planalto tibetano paramos no passo do Sol e da Lua. Estamos a 3.750 metros de altitude. Venho numa carrinha com um pequeno grupo de turistas chineses, sou o único estrangeiro, sou, como de costume, o raro e exótico ocidental, solitário pelas quebras recônditas do império. Um vento agreste, frio varre, rasga as pessoas que se cruzam na passagem do Sol e da Lua situada no meio de cumes com neves eternas, aqui ao lado, que ascendem aos 6.000 metros. Dois pequenos torreões coroam estes montes e nos declives, mais abaixo, há erva fina e verdejante, com flores amarelas e vermelhas a despontar aqui e acolá. As duas construções redondas representam exactamente o Sol e Lua. Logo acima do grande parque cimentado onde estacionam os autocarros, há mercadores tibetanos e chineses a vender artesanato e quinquilharia de

António Graça de Abreu

SORTILÉGIOS E MAGIAS NO LAGO QINGHAI ocasião, aparecem iaques (os pequenos bisontes do Tibete!) brancos para o turista eventualmente montar e tirar uma fotografia. Bandeirolas de cinco cores, brancas, azuis, verdes, vermelhas e amarelas pintalgam as encostas – cada cor está associada à terra, água, fogo, vento e céu. As bandeiras, às vezes suspensas em estacas ou em armações circulares, têm escritas máximas budistas ou votos de bom augúrio e correspondem a uma espécie de recitação de cânticos lamaístas, a flutuar ao vento. As cores assumem também algum simbolismo: o branco é a pureza e a bondade, o vermelho, o vigor e a prosperidade, o verde corresponde à

ternura e à paz, o amarelo significa piedade e inteligência, o azul representa a sabedoria e a bravura. A paisagem deslumbra, esmaga. O ar leve, puríssimo, o respirar da terra, as nuvens sobre a nossa cabeça. Apetece agarrá-las, beliscá-las no vazio, depois o céu magoa de tão azul, um imenso azul acariciante de emoção e tranquilidade. Entendo melhor porque é que para os tibetanos as montanhas, os lagos, as florestas são divindades, têm alma e coração como os homens, são lugar de recolhimento dos deuses e porque é que, ao circundá-las -- como se caminhassem em volta do sol --, os

homens apaziguam os demónios, reconciliam-se entre si e pedem dias mais felizes para as suas gentes. Começamos a descer pela lonjura de infindáveis espaços. Agora, com menos montanhas em redor, adivinha-se o lago Qinghai. Vou buscar a soberba descrição do lugar, da pena do padre Évariste Huc, escrita em 1845: “Conforme avançávamos, o país tornava-se mais fértil e menos montanhoso. Chegámos por fim às vastas e magníficas pastagens do Koukou-Noor.1 A vegetação aqui era tão vigorosa que as ervas subiam até à barriga dos nossos camelos. Depois, descobrimos ao longe, diante de nós, na linha do horizonte, uma extensa fita de prata sobre a qual flutuavam leves vapores brancos que se iam misturar ao azul do céu. Era o lago Azul, (o Qinghai). Estas palavras fizeram-nos vibrar de alegria; apressámos a marcha, o sol ainda não se tinha posto e já tínhamos levantado a nossa tenda a uma centena de passos da margem do lago”.2 Chego a Er Langjian, uma aldeia de construção recente, encostada ao lago


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Qinghai, com algumas infra-estruturas para acolher o turista chinês. Tenho quatro horas livres para caminhar por onde me apetecer. Uma rua principal com casas baixas em estilo tibetano, algumas lojas, dois ou três restaurantes. Por detrás, bungalows e uma imitação de tendas do Tibete em tijolo pintadas a branco, com decorações tibetanas, tudo para entreter e alojar viajantes, mas desoladamente vazio. Estamos em Maio, os turistas chineses só chegarão em grandes revoadas com o Verão, lá para Julho ou Agosto. Afasto-me da aldeia, vou até ao lago. É enorme, um mar sereníssimo de águas azuis. Tem 360 quilómetros de perímetro, 4.300 km 2 de superfície, 25 metros de profundidade média. Passeio ao longo da margem. Uma grande stupa acabada de construir, tipo campânula branca, também decorada com motivos co-

AS ÁGUAS DO LAGO OLHAM PARA O MEU CORAÇÃO.

loridos alusivos a Buda e aos mestres lamaístas, guarda no interior relíquias, orações, pequenas estátuas oferecidas pelo crentes. As stupas espalham a paz à sua volta. Mais adiante, uma estátua de西王母Xi Wangmu, Rainha Mãe do Ocidente, uma divindade do taoismo chinês, em mármore, colocada numa ilhota na margem do lago abre os braços para acolher e abençoar todos os que se aproximam das águas. Xi Wangmu -- que vive há trinta séculos entre céu e terra, nas montanhas昆仑Kunlun que se estendem pelo Tibete e pelo Xinjiang --, concede longa vida, prosperidade, todas as bem-aventuranças a quem se aproxima dela e a reverencia. Depois, mais cem quilómetros de viagem para oeste, sempre em terreno plano bordejando o lago e chego à ilha dos Pássaros, mais rigorosamente a uma península a que os chineses chama “ilha”. O lago Qinghai é salgado e tem imenso peixe, por isso, com alimentação garantida, vivem aqui, dizem-me, cem mil aves, muitas delas migratórias. Vêm-se sobretudo gaivotas (tão longe do mar!), garças, grous de cabeça negra, gansos carecas, narcejas, cisnes

gigantes, cotovias, diferentes tipos de pardais e mais pássaros que não consigo identificar. Bonito de ver este paraíso para ornitólogos de todos os quadrantes. O lago fica a 3.300 metros de altitude. Conforme subimos, os chineses vão rareando, os tibetanos constituem quase 90% da população. Para as gentes do Tibete, esta província de Qinghai – uma vez e meia maior do que a França –, chama-se Amdo. As outras duas grandes regiões tibetanas são U Tsang, onde fica Lhasa e Kham, actualmente no norte da província chinesa de Sichuan. Acima dos 4.000 metros aqui nascem os rios Amarelo, o Yangtsé e o Mekong. Dizem-me que em volta do glaciar por onde as águas do rio Amarelo começam a descer das montanhas existem 108 lagos, um número bom dado que Buda teve 108 discípulos. Apetece-me partir disparado pelo Tibete adentro. Há circuitos feitos em jipes, para chineses (mas onde pode entrar sempre um estrangeiro), de oito ou dez dias de terra em terra, de lago em lago, de mosteiro em mosteiro, de montanha em montanha. É só integrar-me num pequeno grupo de aventureiros, amantes das intensidades

do silêncio, e avançar nesta espantosa comunhão com as gentes tibetanas e com os tectos do mundo. Mas o coração vacila, bate mais depressa, pode estourar de emoção e cansaço. Quanto mais subimos mais o ar é rarefeito, falta oxigénio e isto pode abalar de vez um coração gasto pelo correr dos anos, agora deslumbrado pelo faiscar de mil montanhas. Pela segunda vez na vida, lanço-me pelas alturas do Tibete, diluo por estas terras o tempo dos meus dias e o coração abana e chia, como os eixos de uma carroça cansada. Fico-me pelas margens do lago Qinghai. Às portas do mosteiro de Baimi Beisha, oiço à distância os cânticos dos monges suspensos em pedaços de brisa. A magnificência, a vastidão do céu e da terra, a solidão, a fragilidade, a pequenez do homem. Sento-me em silêncio diante do lago. Embebebo, inebrio os meus olhos no cristal das águas intensamente azuis. As águas do lago olham para o meu coração. 1 - Koko-Nor é nome mongol do lago Qinghai. 2- R. P. Évariste Huc, Dans le Thibet, Paris, Librairie Plon, 1926, pag. 85.


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Alfredo Aquino

É MOMENTO DE VOLTAR A FAZER E VER ARTE, SIMPLESMENTE

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Arte deixou de ser feita há algum tempo, assediada pela frivolização e superficialidade da decoração, da redundância e da resignação de seus artífices. Deixou igualmente de existir pelo naufrágio da arte conceitual, pelo suicídio da não-arte, pelo autoritarismo da falsa arte da academia, da palavra de erudição estéril e do diploma, que, passando ao largo do talento e da sensibilidade artística embrenhou-se no labirinto hermético da verborragia para o nada, para a volatilidade das ideias destituídas de valores artísticos. Em nome da representação de um tempo de caos e de violência, optou-se pela ausência do saber fazer, pelo repúdio à beleza ou a qualquer reflexão mais aprofundada sobre o objecto artístico. Em nome da espectacularização imediata e fugaz, em apoio ao uso de imagens reconhecíveis de recorrentes apropriações (que é essencialmente o outro sinónimo do simples plágio), decidiu-se pela opção pelo entretenimento, pelo divertimento, pelo anedótico, pelo bizarro e pela formação de redes colectivas do aplauso sem reflexão e sem senso crítico. Isso está presente nas propostas das bienais, dos museus de arte contemporânea, dos vídeos sobre ou de arte contemporânea que propõem uma arte invisível com bula explicativa. Um monte de carvão jogado no chão, ou um terreiro de barro espalhado ou várias caixas de papelão empilhadas transformam-se, no olhar predador, impositivo e arrogante da academia em pintura e escultura. São as instalações da perplexidade e do estupor. E apesar dos textos mirabolantes (e anedóticos) ninguém entende nem se sensibiliza com essas propostas bizarras e sem nexo. Há ainda a falácia da obra colectiva, uma estupidez que alia a ausência da arte com a improbabilidade da autoria (apesar de que, nestes tempos de fama e imodéstia, sempre aparecerá o retrato de alguém ou a assinatura de um curador, em letras monumentais). A arte dos im-

pressionistas no final do século XIX foi um confronto com as regras rígidas e o autoritarismo dos Salões da Academia (num lado estavam Manet e Monet e no outro, Ingres); as trajectórias de Picasso e de Tarsila do Amaral foram de enfrentamento ao aceito estabelecido e orientado como recomendável; Karel Appel e grupo COBRA vieram contestar padrões estilísticos que por sua vez já tinham superado as provocações dadaístas de Marcel Duchamp, datadas do início do século XX. O mundo e os comportamentos das sociedades modificaram-se pela incorporação das tecnologias da imagem e da comunicação, com maior dinâmica a partir última terceira parte do século XX. Ainda ali tínhamos o frescor criativo de Alberto Giacometti, de Louise Bourgeois, de Siron Franco, de Luiz Gonzaga de Mello Gomes, de Alfredo Volpi e de Arcangelo Ianelli. Todas essas obras de artistas, sérios, talentosos, produtivos, que sabiam bem (e sabem) o que faziam, em pontos e contrapontos, e deixaram (e deixam) seus legados sólidos, que podem ser vistos, admirados e discutidos por todos, nos grandes museus de Arte do mundo. Hoje, no entanto, existem dúvidas e perplexidade generalizada frente ao que se vê proposto como “obras de arte”. Serão Arte verdadeira ou não-arte, um tubarão fatiado, apodrecido e mergulhado em formol, num aquário selado e sarcofágico? Ou excrementos ensacados em sacos plásticos transparentes, numerados e assinados pelo auto-denominado artista? Ou uma instalação de centenas de fraldas descartáveis dispostas como uma horta de alfaces brancas sobre o piso do museu? O já citado monte de carvão ou a fragilíssima “escultura” de caixas de papelão, empilhadas na sala expositiva de um respeitável Museu de Arte? Isso não é Arte e é apenas um embuste que engana e confunde as pessoas de boa fé que buscam compreender a comunicação proposta pelos “artistas” e acabam afastando-se decepciona-

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA O TREINO DO FUTEBOLISTA VOL. 1 • José Soares

Este é um livro excepcional que permite conhecer uma visão experimentada e fundamentada da metodologia do treino no futebol. Com base no seu percurso profissional - integrou a equipa técnica da Selecção Nacional de Futebol e de clubes profissionais de topo - e na sua actividade académica - é, actualmente, professor na Faculdade de Ciências de Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto - o autor partilha de forma objectiva e acessível as suas opções para o treino do futebolista, aliando o indispensável rigor científico à ilustração dos assuntos expostos.

das pelo quem vêem, sem compreender nada e sem os desejados enriquecimentos culturais. É uma falsa “arte”, sem legado possível, uma ausência e uma nulidade. Tampouco existe arte possível no cenário medíocre, redundante, mal-feito e enfadonho da chamada “street-art”. É algo repetitivo e copiado de maneira colonizada, em todo o mundo, produzindo uma

paisagem aborrecida e previsível, que enfeia e polui visualmente a aparência já complexa das cidades. A feiúra (e este é um dos valores artísticos, na verdade) que se torna efémera pelos garranchos negros ininteligíveis que logo as cobrem e pelo esmaecimento instantâneo das cores de química precária dos sprays ali utilizados. As imagens (sempre as mesmas ) apenas

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O TREINO DO FUTEBOLISTA – VOL. 2 • José Soares

O Futebol, atualmente, é não só a modalidade mais popular e com maior número de praticantes, como é também a atividade desportiva mais estudada. De entre os vários tópicos que têm vindo a merecer uma atenção crescente por parte dos cientistas ligados ao desporto e à atividade física, a prevenção de Lesões e a Nutrição assumem um papel especialmente relevante. Neste segundo volume de O treino do Futebolista, o autor continua a apresentação da sua experiência profissional conciliando a teoria com a prática.


artes, letras e ideias 17

hoje macau sábado 21.12.2013

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se mantém glamourosas e brilhantes por breves instantes e permanecem falsamente vivas nas fotografias e vídeos, tão logo sejam realizadas. No dia seguinte já serão outra coisa. Portanto não há legado, não há troca de saberes, não haverá comunicação e sedimentação cultural. (Existe em São Paulo, uma espantosa rua de contornos angulosos, quase um beco, coberta de grafitis, na Vila Madalena – é bonita, decorativa, interessante e resulta numa curiosa excepção à regra, pois o local está bastante adequado e os trabalhos foram realizados com critérios e estão bem acabados, funcionando como uma contribuição à cidade e não como uma agressão pela feiúra e sujeira gratuita. É uma espécie de Sistina dos grafitis, o paraíso artificial dos fotógrafos. Porém, infelizmente, a sua adequação e justificativa não se espalha necessariamente pelo restante da cidade, significando menos um argumento de defesa à actividade artesanal e sim uma curiosidade turística e pontual de um simpático bairro da cidade. Nos outros locais da metrópole as imagens carregam a carga habitual e tediosa de redundância e previsibilidade que mais poluem e confundem a paisagem urbana, incrementando o sofrimento de quem habita a capital paulistana.) O surrado discurso da inclusão social ao atribuir valores artísticos aos grafitis de maneira generalizada transita mais pelos labirintos imbricados da demagogia e da antropologia do que pelos caminhos mais subtis da Arte. Gerações

ISSO NÃO É ARTE: É APENAS UM EMBUSTE QUE ENGANA E CONFUNDE AS PESSOAS DE BOA FÉ QUE BUSCAM COMPREENDER A COMUNICAÇÃO PROPOSTA PELOS “ARTISTAS” procuraram transmitir legado e comunicação, portanto linguagem, desde os touros pintados nas parede e tecto da gruta de Lascaux e outros ricos sítios arqueológicos que tornaram a Arte transcendental, contínua e perene. E respeitada e adorada por muitas gerações que puderam compreender um pouco mais de si mesmas. É hora de voltar a fazer e ver Arte verdadeira, de comunicação, de originalidade e de legado cultural. Talvez a resposta para o caos, para o niilismo e para os equívocos, seja que, na realidade, existem poucos, muito poucos e raros artistas que sabem fazer e desenvolver com mestria o seu ofício. Artistas capazes de produzir Arte profunda, bem pensada, bem feita e bem acabada, que despertarão prazer genuíno, interesse e legado frutífero entre as pessoas e as comunidades.

Carlos Morais José

Culto/oculto P

ARA além de ser bom para beber em pequenino, o chá é uma bebida sui generis. Está em todo lado e ninguém dá por ela. Escorre por milhões de gargantas em todo o mundo, só que o faz de forma discreta e, na maior parte dos casos, ordenada. Já vimos todo o tipo de gente a beber chá. Por chávenas de várias formas e de receitas que espelham uma diversidade de feitios. O chá adapta-se ao bebedor, é silencioso, conforta, invade a privacidade mas sem desassossegar, ao contrário do seu primo, o café. Todos nós – salvem-se as poucas mas honrosas excepções – gostamos de chá. Sabemos até, talvez, apreciar as delicadas variações de sabor, na intrincada gama a que, generosamente, a China nos permite aceder. O chá surge-nos já como algo de próximo, pouco exótico, quotidiano, cultivado. É isso: o culto do chá, celebrado por

Wenceslau de Moraes, referenciado ao Japão, é certo, mas nem por isso menos próximo da influência chinesa. O culto do chá que a Ásia celebra permanentemente, sem alarido, pelas ruas, pelas casas, nos restaurantes, nos hotéis, nas empresas, nos mercados. O culto do chá como repetição, intensa em significados, mas sem o dramatismo de um ritual. Um culto brando, leve, como um odor, um rumor… Beber por beber e beber por mil e uma razões, eis o lugar ao culto, do chá. Beberragem milagrosa, iluminante, para uns; mero digestivo, excitante ou calmante, para outros; o chá marca presença, da mesa do karaoke à reunião de políticos. É pois claro que existe um culto do chá. E já agora uma pergunta: considerando que os dez mil seres foram criados de intersecções de Yin e Yang, não será que o culto implica a existência do oculto? E existirá então um oculto do chá?


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FUTILIDADES

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HUM

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Cineteatro

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CINEMA THE HOBBIT: THE DESOLATION OF SMAUG [C] Um filme de: Peter Jackson Com: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage 16.00, 21.45

SALA 1

WALKING WITH DINOSSAURS [A] (FALADO EM CANTONÊS) Um filme de: Huang Chia-Chun 14.00

FIRE STORM [C]

(LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Alan Yuen Com: Andy Lau, Yao Chen, Lam Ka Tung 15.45, 21.45, 23.45

FROZEN [A]

(FALADO EM CANTONÊS) 17.45

FIRE STORM [3D] [C]

(LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Alan Yuen Com: Andy Lau, Yao Chen, Lam Ka Tung 19.45 SALA 2

FROZEN [3D] [A]

(FALADO EM CANTONÊS) 14.00

THE HOBBIT: THE DESOLATION OF SMAUG [3D] [C] Um filme de: Peter Jackson Com: I. McKellen, M. Freeman, R. Armitage 18.50 SALA 3

THE WIND RISES [A]

(FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Miyazaki Hayao 14.00, 18.00

WALKING WITH DINOSSAURS [3D] [A] (FALADO EM CANTONÊS) Um filme de: Huang Chia-Chun 16.15

FROZEN [A]

(FALADO EM CANTONÊS) 20.15

SECRET LIFE OF WALTER MITTY [A]

Um filme de: Ben Stiller Com: Ben Stiller, Sean Penn, Kristen Wing 22.15

Comandante atrasa voo à espera de sandes • O comandante de um avião da Pakistan International Airlines, que deveria partir de Lahore (Paquistão) e viajar até Nova Iorque (EUA), decidiu atrasar por duas horas e meia a descolagem após descobrir que não seriam servidas sandes a bordo. A empresa responsável pelos alimentos do serviço de bordo levara almoço, amendoins, batatas fritas e biscoitos. Mas o comandante Noushad queria sandes. Um representante da empresa que fornece a alimentação disse que o menu havia sido aprovado pela empresa sem a inclusão de sanduíches. Para obter o que Noushad desejava, a companhia teria que fazer um pedido especial a um hotel cinco estrelas de Lahore, o que demoraria mais de duas horas, informou o “Indian Times”. O comandante disse que não importava o quanto demorasse, ele queria ter sandes a bordo. E assim foi feito. As sandes foram trazidos do hotel. Com atraso de duas horas e meia, o avião descolou.

Ameaça de bomba em Harvard foi feita por aluno NATAL PARA TODOS

O Hoje Macau deseja aos seus leitores um Feliz Natal e um Óptimo 2014. E como não queremos que ninguém fique aborrecido nesta quadra festiva, contemple estas duas figuras e seja feliz...

fonte da inveja

Marco Aurélio sonhava ser um rouxinol

mas os deuses apenas o deixaram ser imperador.

João Corvo

• Jovem de 20 anos enviou e-mails para a polícia ameaçando que iria explodir a universidade. Pouco depois, centenas de pessoas eram evacuadas do campus. A ameaça de bomba na Universidade de Harvard que colocou em sobressalto os Estados Unidos na passada segunda-feira foi, afinal, uma forma de um aluno conseguir escapar aos exames finais do seu curso. Eldo Kim, de origem sul-coreana mas já naturalizado cidadão norte-americano, enviou e-mails para a polícia informando que pretendia fazer explodir alguns edifícios da universidade. Fruto da história de massacres ocorridos em universidades norte-americanas nos últimos anos, as forças de segurança agiram rapidamente e evacuaram centenas de pessoas dos edifícios do campus universitário. O jovem de 20 anos foi detido e confessou, esta quarta-feira, que o seu objectivo era apenas evitar os exames de final do curso de psicologia, que frequenta.


OPINIÃO

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CARLOS MORAIS JOSÉ

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editorial

3000 dias e 3000 noites

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STA é a edição 3000 do Hoje Macau. Desde que iniciámos o nosso trabalho em 2001, muito tem mudado no mundo, em Macau e também neste jornal. Numa palavra, tentamos fazer sempre melhor de modo a mantermos o nosso lugar no panorama da imprensa local. Porque somos humanos, sabemo-nos imperfeitos e isso deixa-nos satisfeitos: dá-nos margem para melhorar, melhorar sempre. Por respeito aos nossos leitores e também por respeito a nós próprios, enquanto profissionais de uma ocupação geralmente mal entendida pela maioria das pessoas. É conhecida a vontade irreprimível de matar o mensageiro. Mas, 3000 edições depois, os cães bem que ladraram, mas o Hoje Macau passou e passará. Se no meu primeiro editorial defini este jornal como lusófilo ou mesmo lusómano, hoje reafirmo a convicção de que escrevo numa das mais belas línguas que ecoaram no planeta Terra e de que essa língua faz parte integrante da identidade de Macau. Aliás, só o Português é capaz de realmente exprimir certos aspectos dessa identidade e de uma sensibilidade difusa que permeia estas ruas, atafulha estas praças, saltita de travessa em travessa e se anicha infantil em certos becos da cidade. A língua portuguesa faz parte da História de Macau e é parte essencial do seu futuro. Daí que continuemos a prestar-lhe diariamente homenagem, a mantê-la viva e renovada nestas páginas, com a consciência de estarmos a cumprir um dever histórico que o futuro certamente reconhecerá. Contudo, não esquecemos também que, para aqui estarmos, neste final de ano de 2013,

percorremos um caminho traçado por outros há cinco séculos. A eles devemos tudo e, no entanto, tão pouca homenagem lhes prestamos. Quando um português chega a Macau não deve esquecer que, se aqui encontra um porto de abrigo, é graças a um esforço secular de outros portugueses que aqui verteram sangue, suor e lágrimas, sedimentos do terreno que hoje temos, por isso mesmo, ainda o privilégio de pisar. Paralelamente a estas 3000 edições, criámos uma página na Internet (a mais visitada dos jornais em português de Macau) e estamos no Facebook (a que tem mais seguidores dos jornais em português de Macau) – passe a gabarolice. Aos poucos estas novas técnicas de comunicação foram ganhando mais e mais importância: hoje sabemos que somos diariamente lidos um pouco por todo o mundo: dos EUA à Europa, de África à Austrália.

Estamos satisfeitos?, perguntará o amável leitor. Nunca porque entendemos que os satisfeitinhos da silva são, geralmente, impotentes e desleixados Somos, bastas vezes, mal compreendidos e isso agrada-nos. Somos, doutras vezes, bafejados com insultos e recriminações que usamos ao peito como medalhas. Somos, ainda de outras, elogiados e isso preocupa-nos. Este é o nosso feitio, faz parte do nosso ADN ter esta pose inquieta, blasé e imperturbável.

Uns amam-nos, outros odeiam-nos, a poucos somos indiferentes. Estamos satisfeitos?, perguntará o amável leitor. Nunca porque entendemos que os satisfeitinhos da silva são, geralmente, impotentes e desleixados. Na verdade, com um enorme esforço de todos, continuamos a impor-nos novas metas, novas linguagens, novas ideias e novas concepções de jornalismo. Criamos todos os dias (ou quase) um produto novo para servir os nossos embasbacados leitores a quem queremos proporcionar, se souberem ler, sempre novos motivos de surpresa e de deleite. Visualmente, existe um alargado consenso de que somos os mais jovens, os mais belos e os mais atrevidos. Fazer o Hoje Macau é, tal como ler o Hoje Macau, uma aventura constante, nem sempre fácil, geralmente consequente, amiúde uma genuína recompensa. Finalmente, gostaria de lançar um desafio aos meus já entediados leitores (sim, a si mesmo, que está a ler estas linhas): ponham-nos à prova, desafiem-nos com as vossas ideias e sugestões, soprem-nos notícias, relatem-nos factos, estimulem as nossas investigações e, sobretudo e por favor, não se portem como passivos carneiros: façam jus ao jornal que têm nas mãos. O Hoje Macau é vosso. Porque, melhor ou pior, é também um reflexo da sociedade que o produz, da comunidade que o ostenta. Quando este jornal vos envergonhar, olhem com atenção para vós mesmos e perguntem-se, com sinceridade, qual é a vossa postura cívica nesta cidade. E não se assustem com a resposta: afinal, melhorar é humano e essa deve ser a primeira e última aventura das nossas vidas. 3000 dias e 3000 noites depois, obviamente, valeu a pena. A pena... e a espada...

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor Gonçalo Lobo Pinheiro Redacção Andreia Sofia Silva; Cecilia Lin; Joana de Freitas; José C. Mendes; Rita Marques Ramos Colaboradores Amélia Vieira; Ana Cristina Alves; António Falcão; António Graça de Abreu; Hugo Pinto; José Simões Morais; Marco Carvalho; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Tiago Quadros Colunistas Agnes Lam; Arnaldo Gonçalves; Correia Marques; David Chan; Fernando Eloy ; Fernando Vinhais Guedes; Isabel Castro; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi Cartoonista Steph Grafismo Catarina Lau Pineda; Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Gonçalo Lobo Pinheiro; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


hoje macau sábado 21.12.2013

cartoon

PUTIN PERDOA

por Stephff

China Matemático brasileiro eleito para a Academia das Ciências

O matemático Jacob Palis, presidente da Académica Brasileira de Ciências, foi eleito para a instituição homóloga da China, juntamente com mais oito cientistas de cinco países, anunciou a Academia das Ciências da China na quinta-feira. Jacob Palis, 73 anos, é o primeiro brasileiro a entrar para a Academia das Ciências da China, organismo com 750 membros, 72 dos quais estrangeiros, que tutela mais de 200 institutos e centros de investigação. Além de Jacob Palis, foram eleitos esta semana quatro cientistas dos Estados Unidos e mais quatro da França, Dinamarca, Israel e Índia. Presidente da Académica Brasileira de Ciências desde 2007, Palis recebeu há três anos o “Prémio Balzan”, atribuído a investigadores e artistas por uma fundação ítalo-suíça, que já distinguiu, entre outros, o escritor Jorge Luís Borges e o compositor Gyorgy Ligeti.

Índia Cinco polícias detidos por violação

Cinco polícias foram detidos há dois meses por terem raptado e violado repetidamente uma jovem de 17 anos durante várias semanas na cidade de Chandigarh, no norte da Índia, informou ontem uma fonte policial citada pela agência Efe. “Cinco agentes foram detidos pela repetida violação de uma jovem de 17 anos há dois meses”, disse o comissário de Polícia, Ashish Kapoor, à agência Efe. A menor de idade denunciou que os agentes de segurança a abordaram no seu caminho do colégio e obrigaram-na a entrar num veículo policial, onde a violaram repetidamente durante várias semanas, de acordo com a mesma fonte. A família descobriu quando a jovem tentou suicidar-se, disse o canal de televisão NDTV. A notícia da violação gerou uma onda de protestos em Chandigarh, onde manifestantes atacaram os polícias quando eles foram levados para um hospital para se submeterem a um exame físico, de acordo com as imagens da televisão NDTV, que mostra os acusados com o rosto coberto e rodeados de forma violenta pelos habitantes locais.

Devido à celebração do Solstício de Inverno, o HM volta às bancas no próximo dia 30. A todos umas excelentes festas!

PORTUGAL CHUMBO DO TRIBUNAL CONSTITUCIONAL CONTRA CORTES NAS PENSÕES

Plano B e efeito retoma

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Á já algumas semanas que o Governo vem coleccionando fontes de poupança orçamental em 2014 que, sabe-se agora, poderão ser usadas para compensar o buraco de 710 milhões de euros (valor bruto) aberto pelo chumbo do Tribunal Constitucional, que ontem chumbou de forma “unânime” a convergência das pensões da Caixa Geral de Aposentações (CGA). Cerca de 302 mil pensionistas por aposentação e 34 mil por sobrevivência (os que ganhavam mais de 600 euros) ficam livres deste “sacrifício”, como lhe chamou o TC. Politicamente, o Governo vai querer dramatizar ao máximo este chumbo, sublinhando que continua a ser incontornável fazer a reforma do sistema de pensões dos funcionários públicos. Ontem, no rescaldo da decisão do TC, Marco António Costa disse, citado pela Lusa, que o PSD “empenhar-se-á em encontrar outros caminhos jurídicos que tornem possível a concretização” da reforma que “introduz equidade entre pensionistas do sector público e privado”.

Já financeiramente, a situação não é apertada como era há uns meses. Nem de longe. Primeiro, porque o diploma vetado já inclui uma norma que dá um encaixe automático de 340 milhões de euros através da aplicação da contribuição extraordinária (CES) aos pensionistas da CGA. Este corte não aconteceria caso a convergência fosse adiante; como foi inviabilizada, a CES foi reactivada. Em segundo lugar, existe hoje a noção clara e dados objectivos amplamente citados pelo Governo – primeiro-ministro, vice-primeiro-ministro, ministra das Finanças, ministro da Economia têm-no repetido nas últimas semanas – de que a retoma está a acontecer e que as perspectivas são melhores. Este novo quadro permite desde logo um desanuviamento do cenário orçamental, apesar dos riscos e da incerteza no horizonte. São os chamados estabilizadores automáticos: melhor economia, menores gastos com subsídio de desemprego e maior colecta fiscal, por exemplo. Só pela via dos impostos, noticiou há dias a TSF, pode haver um ganho na ordem dos 300 milhões (0,2% do PIB) a 500 milhões de euros (0,3%) este ano, o que libertaria esforço em 2014 (efeito de arrastamento ou ‘carry over’ positivo). Somando os efeitos CES

e fiscal está-se a falar 700 milhões de euros (média) além do orçamentado, tapando o desvio deste chumbo do TC. Somando as poupanças com subsídios de desemprego, as reduções de despesa corrente à medida que as privatizações vão sendo feitas ou eventuais renegociações dos encargos com juros nas PPP, é natural que haja margem. Claro que tudo isto é frágil pois a retoma tem de ser consistente e duradoura, não podem existir novos chumbos a normas, nem acidentes graves nos mercados financeiros ou nos parceiros económicos de Portugal. Ou novos encargos com bancos, risco ainda presente no Banif (onde o Estado já gastou 700 milhões de euros em 2013), alertou a Fitch. Mas, claro, uma inviabilização pelo TC dos cortes salariais na função pública (643 milhões) ou na CES (total de 400 milhões sobre pensionistas do público e privado) tornaria tudo muito mais complicado. Há normas do OE/2014 que deverão ser enviadas aos juízes, senão pelo Presidente, pelos partidos da oposição. Aí, o plano B poderia passar por um novo aumento de impostos, cenário que ainda esta semana foi aflorado por Pedro Passos Coelho. Mas bastaria uma calibragem nos escalões de IVA, sem aumento de taxas, para obter milhões adicionais em receita.

Timor-Leste Deputados num protesto contra a Austrália

Um grupo de deputados do parlamento de Timor-Leste juntouse ontem a mais uma manifestação feita por jovens do país em frente à embaixada da Austrália em Díli contra a ocupação “ilegal” do mar de Timor. “Como representantes do povo achamos que era nosso dever vir também, não só dizer ao governo da Austrália que o condenamos, mas também dizer à nossa população que temos orgulho por ter tomado a iniciativa de defender um direito que é de todos nós e, portanto, estamos com ela, como representantes dela no parlamento também”, disse à agência Lusa a deputada do Partido Democrático (PD), Lurdes Bessa. No local, reuniramse dezenas de jovens, que mais uma vez gritaram em protesto pelo que consideram ser uma ocupação ilegal do mar de Timor pelas autoridades australianas. O protesto, em que falaram vários deputados timorenses, foi seguido de perto por alguns elementos da Polícia Nacional de TimorLeste. Nas declarações à Lusa, a deputada Lurdes Bessa salientou que os colegas deixaram “bastante claro” que aquela acção não é contra o povo da Austrália.

Filipinas Quatro mortos em tiroteio no aeroporto da capital

Um autarca, a sua mulher e outras duas pessoas morreram ontem na sequência de um tiroteio registado no aeroporto internacional Ninoy Aquino de Manila, capital das Filipinas, que causou ainda quatro feridos, informou a imprensa local. O director-geral da Autoridade de Aviação Internacional de Manila, Jose Angel Honrado, confirmou que Ukol Tulumpa, autarca de Labangan, no município de Zamboanga do sul, morreu após ser atingido a tiro por um grupo de homens armados no terminal 3 do aeroporto. De acordo com o diário The Star, Tulumpa foi alvo de uma emboscada quando saía do terminal de chegadas com a sua família, tendo sido atingido a tiro por homens que se aproximaram de si vestidos com uniformes da polícia numa moto, com a qual fugiram depois. A polícia suspeita de um grupo político rival. Tulumpa já tinha sido atacado em Manila em 2010, quando era vice-presidente da Câmara.


Hoje Macau 21 DEZ 2013 #3000