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hojemacau Mop$10

Director carlos morais josé • sexta-feira 21 de janeiro de 2011 • ANO X • Nº 2294

Depois da pandamia, o que fazer ao velho urso da Flora?

Um retrato da população de macau que já não sabe viver sem McDonald’s

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página 6

Lei de Terras

ex-membros de tríades trabalham agora no sector do jogo

Paz ameaçada

Planeamento urbano em primeiro lugar • P.4

Protecção de dados

Governo não anda a investigar vidas

Os membros das tríades sentenciados a prisão ainda durante a administração portuguesa estão pouco a pouco a ser libertados. Inserem-se rapidamente na indústria do jogo e conseguem ganhar dinheiro de forma legítima, o que tem dificultado a acção da Polícia Judiciária (PJ), que garante que têm mantido os olhos bem abertos para o novo problema. As autoridades admitem que a paz no território pode ter os dias contados. Ontem, foram divulgados os dados de 2010 da criminalidade apurada pela PJ. Os crimes de forma geral sofreram uma redução de mais de 9%, mas, em compensação, os delitos cometidos na indústria do jogo aumentaram – tendência contínua desde 2007. No ano passado, contaram-se 1655 crimes cometidos com ligação ao jogo. >página 7

• P.5

Caso Pedro Chiang

Defesa fala em falta de provas • P.9

entrevista | novo livro de frank dikötter arrasa com a china

Um castelo de cartas

Centrais

António Falcão | bloomland.cn

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página 8

os nossos contactos mudaram

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Liga de Elite

Arranca hoje a 2.ª Jornada • P.10

Metro Ligeiro

Mitshubishi nega acusações Última pub


sexta-feira 21.1.2011 www.hojemacau.com.mo

2 Americanos apoiam yuan

Os Estados Unidos “apoiam os esforços da China” para fazer do yuan uma moeda de reserva internacional. “Os Estados Unidos apoiam os esforços da China destinados a fazer com que, ao longo do tempo, o yuan seja integrado na cabaz de moedas que determinam o valor dos direitos especiais de saque [DES]”, refere um comunicado conjunto. Unidade de conta do Fundo Monetário Internacional, o DES é um activo de reserva internacional, criado em 1969 para completar as reservas de câmbio oficiais dos Estados. O seu valor é determinado por um cabaz de quatro moedas: o dólar, o euro, a libra esterlina e o iene, nomeados assim pela ordem decrescente da sua importância relativa. “Os Estados Unidos e a China estão de acordo quanto ao facto de que as moedas no cabaz dos DES devem ser as que são mais utilizadas nas transacções financeiras e nas trocas comerciais internacionais”, acrescenta o comunicado.

Acordos de bens e aviões

O governo dos Estados Unidos anunciou que a China concordou em comprar bens norte-americanos no valor de 25 mil milhões de dólares. A China deu ainda a aprovação final à compra de 200 aviões da Boeing, um negócio no valor de 19 mil milhões de dólares. Os acordos podem aliviar alguma preocupação entre os políticos de Washington e os empresários norte-americanos, que acusam a China de prejudicar as exportações dos EUA ao manter a sua moeda artificialmente desvalorizada, o que embaratece os produtos chineses nos EUA e encarece os produtos norteamericanos na China. As exportações de bens e serviços dos EUA para a China rondam os 100 mil milhões de dólares por ano e suportam cerca de meio milhão de empregos nos Estados Unidos. Peritos envolvidos nas negociações disseram que os novos acordos com a China apoiarão 235 mil empregos nos EUA. Entre as empresas norte-americanas envolvidas estão a General Electric, a Honeywell e a Navistar.

Unidos contra alterações climáticas

O presidente dos Estados Unidos afirmou que o seu homólogo chinês está de acordo quanto à necessidade de lutar contra as alterações climáticas no quadro das negociações internacionais. Durante um encontro na Casa Branca entre Hu Jintao e Barack Obama, o líder norte-americano evocou o acordo sobre o clima alcançado em Dezembro, em Cancún, no México, e o conseguido em 2010, em Copenhaga, na Dinamarca. “Os dois maiores consumidores e emissores de gases com efeito de serra, os EUA e a China, têm a responsabilidade de lutar contra a subida da temperatura, a partir dos progressos conseguidos em Copenhaga e Cancún, e mostrando a via que conduz às energias limpas do futuro”, afirmou Obama. “E o presidente Hu indicou que está de acordo comigo sobre este assunto”, acrescentou.

actual Obama pede respeito por direitos humanos, Hu Jintao diz que “há muito a fazer”

A importância de Pequim

Nunca um líder chinês foi recebido com tamanha pompa e circunstância em Washington. O presidente da China, Hu Jintao, em visita oficial aos Estados Unidos, teve direito a passadeira vermelha à entrada da Casa Branca, parada militar e jantar de Estado com centenas de convidados. “Queremos fortalecer os laços. As nossas nações serão mais prósperas e seguras se trabalharmos juntos”, declarou o Presidente norte-americano, Barack Obama “A relação entre os nossos países tem um grande significado estratégico e influência global”, prosseguiu no mesmo tom Hu Jintao. A cooperação nos mais variados campos “deu frutos”, admitiu o presidente chinês, mas não deixou de assinalar que Estados Unidos e a China têm “caminhos de desenvolvimento” e “interesses vitais” distintos – e que essas diferenças devem ser “mutuamente respeitadas”. Hi Jintao não as enumerou, mas a lista é extensa. Algumas foram abordadas pelas delegações dos dois países reunidas durante horas na Casa Branca: o desequilíbrio cambial e o défice da balança comercial (ver texto abaixo), a denúncia do programa nuclear da Coreia do Norte e do Irão, a venda de armas a Taiwan, a resposta ao problema do aquecimento global. Significativamente, aquela que é uma das principais fontes de tensão entre os dois governos foi chamada para o topo da agenda. O anfitrião Obama ignorou o formalismo e referiu-se candidamente à questão dos “direitos universais”, o “elefante na sala” que por conveniência é sempre ignorado nos encontros de políticos dos dois países. “A História prova que as sociedades são mais harmoniosas, os países mais bem sucedidos e o mundo mais justo se forem respeitados os

deveres e responsabilidades das pessoas e das nações – incluindo os direitos universais de cada ser humano”, sublinhou o Presidente americano. Hu Jintao ouviu, mas como Obama bem sabe, essa é matéria inegociável para o regime. Aliás,

em mais uma demonstração de autoridade, as cadeias de televisão na China foram impedidas de transmitir imagens das manifestações à porta da Casa Branca, exigindo a libertação do Prémio Nobel da Paz Liu Xiaobo ou a independência do Tibete.

Questionado pelos jornalistas, o líder americano reconheceu que o seu país tem “uma visão muito diferente” e “nunca deixará de defender a liberdade de expressão, de associação e de imprensa. Mas isso não nos impedirá de cooperar com a China”, observou. Algo surpreendentemente, Hu completou depois que o seu país “continuará a esforçar-se para promover a democracia e melhorar a vida da população. Ainda há muito a fazer”, concedeu. Noutras áreas, ambos os Presidentes revelaram haver mais margem para compromissos. E se em termos políticos não se espera que a visita produza resultados imediatos, no que diz respeito à economia foi imediatamente anunciada a assinatura de dezenas de contratos comerciais com companhias americanas, no valor de 45 mil milhões de dólares (cerca de 400 mil milhões de patacas). Entre eles, está um acordo para a compra de 200 aviões à Boeing até 2013. Obama saudou os acordos de exportação que, segundo avançou a Casa Branca, asseguram 235 mil postos de trabalho nos Estados Unidos. “Ao encararmos o futuro, acredito que a receita passa por manter um espírito de cooperação e também de concorrência saudável”, declarou.

“Um novo capítulo” nas relações bilaterais, dizem jornais chineses sobre visita de Hu Jintao

Abençoados pela imprensa oficial A visita do presidente chinês, Hu Jintao, aos Estados Unidos está a ser noticiada na China como “um novo capítulo” nas relações bilaterais, fazendo quase esquecer as acesas polémicas registadas no ano passado entre os dois governos. “Líderes aclamam laços simbióticos”, dizia a manchete de ontem do Global Times, um jornal que há duas semanas publicou um editorial advertindo os Estados Unidos de que a China poderá um dia “competir com a máquina de guerra” norte-americana.

O mesmo jornal, uma publicação em língua inglesa do Partido Comunista Chinês, associada ao chamado “novo nacionalismo chinês”, considera o encontro de quarta-feira entre Hu Jintao e Obama “um dos grandes acontecimentos diplomáticos do ano”. O Global Times destaca também os 45 mil milhões de dólares em contratos comerciais anunciados na quarta-feira em Washington, que incluem a exportação para a China de 200 aviões Boeing.

“Novo capítulo nas relações. Presidente recebido na Casa Branca com cerimónia espectacular”, afirma o China Daily a toda a largura da primeira página. Amanchete daquele jornal é acompanhada por uma fotografia a sete colunas de Hu Jintao a discursar no jardim da Casa Branca, com o seu homólogo norte-americano a ouvir. Um comentário da agência noticiosa oficial chinesa afirma que “os dois países acordaram estabelecer uma parceria de cooperação baseada no respeito e benefício mútuos”.


Quando um deputado levanta a sua voz e estabelece um terreno onde fervilham dúvidas, como fez Pereira Coutinho esta semana, é talvez caso para começar a lamentar o desfecho de toda esta situação. O governo dificilmente poderá ficar indiferente e assobiar para o lado. Os interesses da população exigem uma transparência total e absoluta. Exigiriam que este processo de adjudicação deslizasse sobre rodas. Mas este metro ligeiro está a demorar demasiado tempo a “encarrilar”. Carlos Morais José, P.22

As autoridades chinesas admitem que a meta de três por cento definida pelo Governo foi ultrapassada, com os preços a subirem 3,3% no ano passado, mas salientaram ontem que estão determinadas a controlar a inflação. O preço dos alimentos, o factor que mais pesa na inflação, registou por seu turno uma subida de 7,2% ao longo do ano passado. Em causa está a estabilidade social dentro do país.Ainflação continua a ser um motivo de preocupações para o regime de Pequim, apesar de em Dezembro se ter registado uma desaceleração da subida de preços para 4,6% em termos homólogos, face a 5,1% no mês anterior. Neste momento, o regime liderado por Hun Jintao admite aliás recorrer ao controlo administrativo de preços, se tal se mostrar necessário. O governo já anunciou que pretende aplicar uma política monetária “prudente” em 2011. “Temos absoluta confiança de que iremos controlar os níveis de preços em 2011”, disse ontem o comissário do gabinete nacional de estatísticas, Ma Jiantang, pub

Economia chinesa cresceu 10,3 por cento em 2010

Acima de todas as expectativas citado pelo Financial Times. O mesmo responsável acrescentou que sete anos seguidos de boas colheitas significam que os preços dos alimentos irão manter-se controlados. Na expectativa de uma nova subida das taxas de juro ou das taxas de reservas obrigatórias dos bancos na China, as bolsas asiáticas ontem ao final do dia estavam em quebra, com Tóquio a descer 1,13% e Hong Kong 1,7%, enquanto Xangai descia 2,92%. Ao longo do último ano, o rácio de reservas que os bancos controlados pelo Estado chinês são obrigados a manter face aos empréstimos aumentou sete vezes, a última das quais no passado dia 14. Nos últimos meses, o banco central aumentou também por duas vezes as taxas de juro, recorda o The New York Times. AChina não registava um crescimento económico tão elevado desde

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3 “2010 foi certamente o ano em que a China ultrapassou o Japão para se transformar na segunda economia mundial”, declarou um analista do Bank of América – Merril Lynch, numa nota citada pela AFP. Petróleo em queda

há três anos, em 2007, quando o PIB teve um aumento de 14,2%. Em 2010, o crescimento do PIB acelerou ligeiramente no quarto trimestre, de 9,6% no terceiro para 9,8% no final do ano, indicou o gabinete nacional de estatísticas chinês. No segundo e terceiro trimestres do ano passado, o país já tinha ultra-

passado o crescimento japonês e os dados avançados quanto ao quarto trimestre deverão confirmar que o mesmo sucedeu, o que permite à China afirmar-se como a segunda maior economia mundial, a seguir aos EUA. Em 2010, o PIB totalizou 39.798 mil milhões de yuans, segundo os dados preliminares hoje publicados.

Os preços do petróleo estão a cair mais de 0,5%, num deslizamento que ia ontem no terceiro dia consecutivo, depois de serem conhecidos os valores da inflação da China. A taxa elevada aumenta a especulação de que aquele que é o maior consumidor de energia venha a tomar medidas para acalmar a economia e conter, assim, a valorização dos preços dos produtos. “Os dados económicos fortes vindos da China podem ser considerados más notícias se o país começar a combater a inflação através de menor oferta de moeda”, referiu Victor Shum à Bloomberg. Enfrentar a inflação pode levar a que o país comece a utilizar menos energia, o que torna a matéria-prima menos atractiva para os investidores, com a ideia de que a procura poderá diminuir.


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4 Mudam-se os tempos mas não as vontades, no auditório comparam-se diferentes formas de direito com a reforma jurídica da RAEM na calha Filipa Queiroz

filipa.queiroz@hojemacau.com.mo

Foi com espírito de “renovação” e sede de “progresso” que o presidente da Assembleia Legislativa (AL), Lau Cheok Va, abriu a terceira edição das Jornadas de Direito e Cidadania, ontem de manhã. Com a investigação teórico-jurídica como foco do evento, Lau Cheok Va salientou a importância da recolha de “material de referência em quantidade considerável e de conteúdo enriquecedor” com vista ao impulsionamento da reforma jurídica da RAEM. O presidente da AL frisou ainda que foram 150 os diplomas legais produzidos pelo órgão legislativo nos últimos 11 anos de Lei Básica vigente. Mas Lau Cheok Va fez a ressalva: “subsiste muito trabalho por fazer”. Para isso, o presidente da AL diz que a recensão de leis existente, colmatação de lacunas legais da legislação

política

Justiça | Terceiras Jornadas de Direito e Cidadania

Direito em discussão e reformulação de leis que se apresentem desactualizadas ou deficientes. “É inquestionável que os estudos de investigação teórico-jurídica em Macau ainda se encontram num estágio inicial de arranque”, disse o presidente da AL, reiterando a aposta do organismo em apostar na realização de seminários, bem como melhorar as Jornadas a cada ano. Comparativamente às edições anteriores, Lau Cheok Va destacou que na terceira edição que termina hoje foi atribuída uma maior atenção ao debate em torno de doutrinas jurídicas concernentes a domínios diversificados, sob diferentes perspectivas e com a participação de especialistas e académicos da China continental, Hong Kong, Portugal e Macau. Parecidos com a China

O professor Wan Zehnmin, director da Faculdade de Direito da Universidade de Tsinghua e membro da Comissão da lei Básica da RAEM do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, foi o primeiro orador do dia.

Duarte Santos foi um dos oradores no painel da tarde sobre o Direito de Propriedade Privada, nas Jornadas de Direito e Cidadania. O advogado e assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Macau dissertou sobre a Lei de Terras e os respectivos problemas e perspectivas de evolução do diploma vigente há 30 anos na RAEM. Em declarações aos jornalistas, o advogado explicou que “é importante neste momento sabermos que as terras são do Estado e por isso indisponíveis e, por isso, há que fazer uma série de alterações à Lei de terras que determinem precisamente essa indisponibilidade”. Duarte Santos refere-se à impossibilidade de vender parcelas de terreno, por mais pequenas que sejam; à impossibilidade de fazer troca de terrenos e de proceder ao aforamento de terras. “Fundamentalmente, do ponto de vista constitucional, são essas as medidas ser tomadas, com todas as consequências que daí decorrem - designadamente ao nível das escrituras em papel de seda, da posse dos terrenos, que não são reconhecidos como é sabido”, disse Duarte

Wan Zehnmin abriu o painel de abertura, falando sobre a aplicação do princípio “um país, dois sistemas” no contexto da Common Law, no caso de Hong Kong, e da Lei Civil, no caso de Macau; e sobre a “revolução de soberania” que a implementação do princípio simbolizou para a China. O académico defendeu que a forma como cada região, e respectivos sistemas legais, interpretam e reagem à referida revolução e ao novo modelo á diferente. Tudo porque “são diferentes os sistemas jurídicos vigentes em Hong Kong e Macau, porém, os seus regimes consti-

tucionais, ou seja, o princípio ‘um país, dois sistemas’ e a Lei Básica são praticamente idênticos”, sustentou. É que, tendo a fonte no Sistema da Lei Civil do Continente Europeu, “o sistema jurídico socialista vigente no Interior da China é parecido com o de Macau” sendo, portanto, relativamente fácil a ligação das leis existentes no território com a nova lei constitucional. Já no que toca a Hong Kong, Wan Zehnmin frisou que a ligação é mais difícil com a Common Law, mas acrescentou que “o círculo jurisprudente de Hong Kong tem prestado grande

esforço na procura da solução adequada dos problemas relacionados com esta matéria e têm sido acumuladas algumas experiências”. O académico defendeu que as leis de Macau devem tornarse mais semelhantes às da China, mas que continua a ser importante “aprender com as outras regiões”. Também frisou que os sistemas legais não são alterados pela interpretação do Congresso. “Se a interpretação das leis pelo ‘poder central’ europeu não prejudica a Common Law e o estado de direito de Inglaterra, da mesma maneira a interpretação das leis pelo Congresso Popular Nacional também não vai prejudicar o estado de direito e o sistema jurídico de Hong Kong e Macau”, acrescentou. “A intervenção do professor Zehnmin foi muito útil, claro que a nossa forma de ver o Direito pode ser parecida porque a China tem um sistema jurídico mais ou menos parecido com Portugal, mas a aproximação é sempre diferente”, comentou Diogo Alvim, 30 anos, no intervalo dos painéis. Há três anos no

Académico sustenta planeamento urbanístico

(Lei de) Terras à vista Santos que defende que a revisão da Lei de Terras devia ser aprovada depois de ter sido feito um plano urbanístico. “A Lei de Terras é um instrumento de concretização do plano urbanístico. É essa a intenção que vem legislada, logo deveria ser o plano urbanístico primeiramente aprovado para depois ser aprovada a Lei de Terras e não vice-versa”, explicou. “É isso que pelos vistos vai acontecer e do ponto de vista técnico é errado, na minha óptica”, previu. O jurista defendeu também que na atribuição de terrenos o concurso público deve ser regra, e não excepção. “O problema não é da lei, porque a lei actualmente vigente declara o concurso público como a regra. O problema é que na prática tem acontecido exactamente o inverso”, justificou. Duarte Santos disse acreditar na necessidade de acautelar as questões

relacionadas com a alteração da finalidade e do aproveitamento dos terrenos, como está previsto que a nova proposta em discussão venha a concretizar. “Por outro lado é importante também que haja alguma inovação técnica, como a necessidade de estudos económicos, com parecer obrigatório, actualizar o critério de compensação por expropriações com uma justa indemnização e recorrer aos meios electrónicos para conduzir o processo de concessão”, sugeriu. Em relação às Jornadas de Direito e Cidadania, que terminam esta tarde, o advogado é peremptório: “É pena não haver mais, por mim era todos os meses.” Duarte Santos considerou que a iniciativa “é muito importante e ajuda a compreender o próprio direito de Macau, sabendo que ele resulta da confluência de duas culturas distintas”. “Acho absolutamente fundamental e que enriquece quem participa”, conclui. - F.Q.

território, o tempo de ‘vida’ das Jornadas, o professor de Direito Internacional na Universidade de Macau disse que “é muito importante para o desenvolvimento do Direito de qualquer jurisdição fazer uma comparação com outros sistemas”, frisando a utilidade da iniciativa da AL. “É muito saudável, é bom comparar para desenvolver.” Como um dos mais jovens na assistência, Diogo aproveita os intervalos para trocar impressões com outros docentes chineses e até rever caras conhecidas. “O Jorge Bacelar foi meu professor, mas as impressões que posso trocar com ele hoje, já me tendo licenciado há oito anos, são bastante diferentes do que aquelas que podia trocar quando era aluno dele”, confessou entre sorrisos. O académico acrescentou que fez questão de assistir também à sessão do professor Zehnmin “porque queria ouvir versões da doutrina chinesa sobre a Constituição e a Lei Básica”, às quais muitas vezes não tem acesso por falta de tradução para português. Quanto à intervenção de Jorge Bacelar Gouveia, que dissertou sobre o lugar de Macau no Direito Constitucional de língua portuguesa, Diogo concordou com a conclusão do académico: “O Direito Constitucional em Macau está a funcionar bem. Não tem havido grandes problemas ou necessidade de maiores alterações e, portanto, aquelas semelhanças que partilha com Portugal é bom que continue a partilhar.” “Entretanto”, continua, “é ver se, ao serem necessárias alterações, que até ao momento não foram, se é possível que se inspirem na Constituição da República Portuguesa”. Bacelar Gouveia elogiou a estabilidade da Lei Básica e o facto de esta nunca ter sido alterada, correspondendo bem às necessidades do território. As conferências prosseguiram ao longo da tarde e continuam hoje até às 17h30, altura em o coordenador geral das Jornadas de Direito e Cidadania, Leonel Alves, profere a síntese de encerramento, seguida do discurso do vice-presidente da Assembleia Legislativa, Ho Iat Seng.


DSAL apoia jovens formados na procura de emprego O ano de 2009 levou 34 estagiários a completar o “Plano de Estágio no Interior da China para alunos graduados no ensino superior”. Apesar de só terem regressado ao território 30 dos formados, 27 deles já se encontram a trabalhar. Dez foram imediatamente contratados pela sucursal de Macau da empresa que concedeu o estágio. Divididos por diferentes sectores - comércio, jogo, segurança, transportes, e serviços jurídicos, tendo o sector bancário ficado no topo das preferências -, quase todos optaram por estagiar em zonas próximas ao território. Com um aumento de 24% relativamente a 2009, o ano passado teve 130 inscritos neste plano, mas apenas 53 terminaram o plano. A DSAL acompanhou os alunos na procura de emprego e realizou workshops de forma a prepará-los para as entrevistas de emprego.

As queixas de violação de dados pessoais crescem de ano para ano. Em 2010, 63 casos foram investigados pelo Gabinete de Protecção de Dados Pessoais. Responsáveis alertam a população para os cuidados a ter com a protecção das suas informações pessoais. Em Macau, o Facebook ainda não “ajuda” nos recrutamentos das empresas e o Governo descarta qualquer tipo de invasão da vida privada dos habitantes do território Gonçalo Lobo Pinheiro glp@hojemacau.com.mo

“O nosso ordenamento jurídico não permite que façamos isso. Com o Governo tudo é feito aos olhos da lei. Se houver algum caso concreto, as autoridades [CPSP e PJ], e apenas mediante passagem pelos tribunais, é que podem exercer esse poder”, reagiu assim o porta-voz adjunto do Governo, Victor Chan, quando questionado sobre se o Executivo acompanharia com regularidade a vida privada de cada um dos cidadãos, em particular dos jornalistas, por intermédio do uso de escutas ou outros veículos. Num dia em que se discutiram pressupostos da Lei da Protecção de Dados Pessoais, nomeadamente com recurso à Internet, o responsável, mostrando-se incrédulo e revelando algum desconforto com a questão, repetiu que “os actos do Governo estão conforme a lei” e que essas situações são “casos de polícia” apenas. O Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais

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Executivo garante que não anda a investigar a vida dos cidadãos

De olhos fechados

Trabalho do Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais (2007-2010)

Tipo Total de casos

Conteúdo da queixa

Investigações

167

Queixas e denúncias apresentadas por entidades e cidadãos, e casos tratados por iniciativa do Gabinete

Pedidos de parecer

121

Pedidos de parecer sobre tratamento de dados pessoais

Notificações

Autorizações

1004 220

Consultas 1556

(GPDP) realizou, durante o ano passado, 63 investigações relacionadas com a protecção de dados pessoais. As queixas foram maioritariamente apresentadas por entidades, privadas ou públicas, e por cidadãos, mas houve também casos tratados por iniciativa do GPDP. Em 2009 ocorreram 47 investigações e no intervalo de tempo de 2007 a 2010, o acumulado de investigações chegou aos 167 casos. “Há denúncias que passam muito por questões de marketing directo ou por pedidos de fotocópia de BIR. As pessoas, desinformadas, chegam ao nosso contacto com este tipo de dúvidas. Quando se tratam de suspeitas de crime, encaminhamos logo o processo para a polícia e aí perdemos o rasto do processo”, afirmou a coordenadora do GPDP, Sónia Chan. Na maioria das vezes, as denúncias consideradas como

Notificações de transferência de dados pessoais para locais situados fora da RAEM ou de outra natureza Pedidos de autorização de interconexão ou de outra natureza

Consultas relativas à Lei da Protecção de Dados Pessoais (não incluindo consultas relativas a procedimentos diários de trabalho)

“caso de polícia” referem-se a problemas relacionados com a “utilização da identidade alheia ou consulta ilegal da informação de outrem”. O GPDP pretende, com esta divulgação, entre vários pontos, definir o conceito de responsável bem como a legitimidade ou não do uso dos dados das pessoas. Facebook vs. recrutamento

Confrontado com uma pergunta se as empresas e organismos de Macau usariam o Facebook como ferramenta para ajudar no recrutamento de recursos humanos, o coordenador-adjunto do GPDP, Ken Yang, foi elucidativo. “Sabemos que há casos desses que ocorreram noutros países ou regiões mas em Macau, daquilo que nós temos conhecimento, não é comum esse tipo de atitudes”, respondeu Ken que, em seguida, acrescentou: “Temos que ver qual

a natureza da empresa que está a recrutar e onde está sediada. Só assim se consegue aferir se é ou não legal a recolha de dados feita nas redes sociais”. Cuidados com a Internet

A Lei da Protecção de Dados Pessoais entrou em vigor em pub

2005 e aplica-se ao tratamento de dados pessoais por meios total ou parcialmente automatizados, bem como ao tratamento por meios não automatizados contidos em ficheiros manuais ou a estes destinados. Para o GPDP, a Internet, apesar de ser um veículo que aproxima as pessoas, pode também trazer

alguns pontos negativos às suas vidas. “A utilização da Internet é um hábito moderno e abrange todo o mundo. Todavia, são frequentemente praticados actos ilegais por esta via. As pessoas têm de ter presente que antes de carregar ou partilhar os seus dados pessoais devem ter em consideração que essa informação poderá ser largamente disseminada através da rede”, afirmou a coordenadora do GPDP. Para Sónia Chan, a população de Macau tem de estar alerta para esta realidade e deixa considerações. “O tratamento de dados pessoais de forma imprópria é cada vez mais comum e pode resultar em prejuízos imprevisíveis. Antes de fornecer os seus dados a terceiros, as pessoas devem consultar as políticas de privacidade dos sites para aferir se é mesmo necessário fornecer tais informações.”


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sociedade

Restaurantes McDonald’s servem para estudar, namorar, jogar e até dormir

Região Administrativa Especial de McCau

Jovens e cada vez mais idosos do território elegem os restaurantes da cadeia norte-americana de ‘fast food’ para diversos fins além de comer filipa queiroz

Filipa Queiroz

filipa.queiroz@hojemacau.com.mo

Dorris, Jackie e Ray estão sentados numa das mesas do primeiro andar do McDonald’s da Rua do Campo, um dos mais frequentados dos 21 que existem no território. Os três conversam baixo diante do computador portátil, em forma de ‘pochette’, de Jackie. Larry suga um pouco de Coca-Cola enquanto Dorris assinala qualquer coisa nas folhas espalhadas em cima da mesa onde se distingue o carimbo da Universidade de Macau. Interrompemos a discussão dos estudantes de Comunicação e perguntamos o que os levou ao estabelecimento de ‘fast food’. “Estamos a fazer um trabalho para a universidade e viemos para aqui porque não queríamos ir para a biblioteca”, responde Jackie, a mais expedita. Insistimos: Porquê no McDonald’s? “O ambiente é mais conveniente, é mais livre e temos lanche a acompanhar”, justifica. E acrescenta: ”É bom para a criatividade e para o ‘brainstorming’ ter esta gente toda à nossa volta”. Gente de várias idades, desde idosos, que lêem o jornal ou conversam como se de um banco de jardim se tratasse, a alunos da escola primária e secundária, reconhecíveis pelas pequenas fardas. Com e sem hambúrgueres e batatas fritas em cima da mesa. “Nem sempre como, geralmente tomo uma Coca-Cola que é boa, tem cafeína”, atira a estudante, na

casa dos 20 anos. Pelo menos uma vez por semana, Jackie e os colegas reúnem-se naquele ou noutro McDonald’s para trabalhar. Também vão para comer. Jackie pede sempre o mesmo: McNuggets. “O McDonald’s faz-me sentir em casa. Desde pequena que me habituei a frequentá-lo e, por exemplo, lembro-me de que quando estive em Londres [a estudar], sempre que entrava num McDonald’s sentiame mais perto de Macau.” Ray é mais céptico. Também frequenta os estabelecimentos de comida rápida mas admite que

McPessoas McRefugiado – pessoa que passa a noite no McDonald’s McJogador – pessoa que joga Playstation e Nintendo McDonald’s McAgente – pessoa que vende seguros no McDonald’s McEstudante – pessoa que estuda e faz os trabalhos de casa no McDonald’s McIntelectual – pessoa que faz teses no McDonald’s McAmante – pessoa que tem encontros amorosos no McDonald’s McSentado - pessoa que lê jornais, revistas e descansa no McDonald’s McXiXi – pessoa que apenas vai ao McDonald’s para usar a casa de banho

“não é saudável” - apesar de não resistir à tentação. “Sou contra a ‘invasão’ dos McDonald’s em Macau mas ao mesmo tempo gosto de cá vir, dá para variar”, conclui. McEstudo

Disposta a também fazer parte da conversa, Dorris atira o trunfo para cima da mesa. “Eu fiz um trabalho para a faculdade sobre as pessoas que frequentam o McDonald’s.” Jackpot, pensamos nós. “Tínhamos de fazer um estudo sobre a cultura de Macau e já me tinham chamado a atenção aqueles

rapazes que ficam horas a jogar nas Playstation portátil nos restaurantes”, explica a estudante, que fez do assunto tema do trabalho final da disciplina de “Mudanças Sociais”, em Junho de 2010. Dorris fala de uma tal de ‘McPessoas’ e ‘McDonaldização’ (ver caixa). “É a invasão daquele símbolo do capitalismo americano na Ásia”, explica. A estudante recorreu a trabalho de campo e alguns estudos para sustentar a sua tese de que as pessoas usam “criativamente o McDonald’s”, nomeadamente do académico Michel Certeau.

A partir daquela proposição, a estudante expõe uma série de rótulos criados para distinguir os tipos de ‘McPessoas’ que existem: ‘McRefugiado’, a designar o indivíduo que dorme nos estabelecimentos de comida rápida, o ‘McJogador’, ‘McAgente’, ‘McAmante’, ‘McSentado’, ‘McEstudante’, ‘McIntelectual’ e até o ‘McXiXi’ – para aquela pessoa que vai aos McDonald’s apenas para usar a casa de banho. Em Macau, “o fenómeno tornase mais visível a cada dia que passa e começa a alastrar para os idosos”, defende a estudante. Os casos mais verificados serão os dos jovens que frequentam o McDonald’s para estudar e fazer os trabalhos de casa, ou para jogar videojogos portáteis. “Há muitos a passar horas na jogatana. Um entrevistado disse-me que estava farto de estar em casa e que preferia ir para ali porque não tinha dinheiro para ir para os salões de jogos”, exemplifica. O estudo de Dorris conclui que a maioria das ‘McPessoas’ ainda é jovem e usa como justificação principal a falta de espaços públicos em Macau. “Há menos de 20 bibliotecas públicas e nem todas têm salas de leitura para os estudantes utilizarem, inclusive para fazerem as reuniões de grupo”, explica Dorris. A estudante de Comunicação frisa ainda que os funcionários dificilmente expulsam dos restaurantes estas pessoas que muitas vezes frequentam-nos para tudo, menos para comer. “Eles [os funcionários] são pacientes, desde que as pessoas não perturbem o ambiente”, explica. Já os estudantes, é fácil: “Ficam enquanto o portátil tiver bateria”. Até agora os McDonald’s não disponibilizam interruptores eléctricos para alimentar os aparelhos nem têm Internet. “O que seria se tivessem!”, comenta Dorris. Em relação às pessoas que passam a noite nos restaurantes, a estudante dá como exemplos casos em Hong Kong e na China, inclusive ilustrando com fotografias publicadas nos meios de


Reagrupamento familiar é da responsabilidade do Governo Central, diz DSI A Direcção dos Serviços de Identificação (DSI) reuniu-se ontem com os manifestantes da semana passada que se queixavam sobre os critérios do reagrupamento familiar. Em comunicado, a DSI reiterou que o Governo entende que a solução encontrada para resolver a questão dos “filhos maiores” é satisfatória e clarificou, uma vez mais, que a autorização da entrada dos residentes do Interior da China em Macau para aqui fixar residência é da competência do Governo Central. Em Dezembro de 2009, as autoridades chinesas activaram “um único arranjo para solucionar a questão de fixação de residência em Macau dos filhos maiores, nada mudou nem vai haver qualquer mudança do arranjo”.

McChina

No ano passado, a cadeia de ‘fast food’ norte-americana anunciou que iria dobrar a sua presença no território chinês nos próximos anos, ao mesmo tempo que lançava a primeira Universidade do McDonald’s na China, em Xangai. Um investimento de 250 milhões de yuans que, surpreenda-se quem não conhecia o conceito, já foi a sétima a ser construída no mundo. O objectivo das instituições é ensinar e treinar os estudantes nas áreas de gestão, de forma a trabalharem especificamente nos estabelecimentos de comida rápida. Há cerca de 1100 restaurantes McDonald’s na China e a cadeia norte-americana espera que esse número atinja os 2000 até ao final de 2013. “O mercado com o crescimento mais rápido”, garantem os representantes da marca. No mundo, são mais de 32 mil espalhados por 117 países. O primeiro McDonald’s da China abriu em 1990, em Shenzhen. No ano passado, a cadeia já empregava cerca de 60 mil pessoas no país, segundo a Associated Press. Até ao fecho deste jornal, e depois de várias tentativas, não foi possível obter qualquer declaração ou dados relativos ao território por parte dos responsáveis pela gestão dos restaurantes McDonald’s em Macau, que justificaram o silêncio por estarem “muito ocupados no momento”.

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crime organizado está a assumir novas funções com o ‘boom’ do jogo

A nova versão das tríades Kahon Chan

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Os principais membros das tríades foram sendo libertados um seguir ao outro desde a transferência de soberania e a maior parte deles entrou para a indústria do jogo. A constatação foi ontem divulgada pela Polícia Judiciária (PJ), que frisou estar mais alerta do que nunca, apesar de grupos organizados estarem a fazer muito dinheiro a partir dos negócios dos casinos, estando, entretanto, fora deles. No geral, a tendência criminosa em Macau tem vindo a cair nos últimos anos, como demonstrou ontem a PJ através de números durante uma conferência de imprensa. No entanto, a excepção está justamente na indústria do jogo, com os crimes a sofrerem um ligeiro aumento ano após ano – em 2010, a PJ registou um total de 1655 casos de crimes relacionados com o jogo, mais 54 do que em 2009, a maioria envolvendo indivíduos originários da China continental. O director da PJ, Wong Sio Chak, considera que ainda assim a acção das autoridades dentro dos casinos está a ser proporcional ao crescimento do sector no território. Os meios de comunicação locais anunciaram, recentemente, que o antigo líder de uma das tríades antigamente activas no território Wan Kuok-koi está prestes a cumprir a sua pena de prisão – sentenciada ainda na altura da administração portuguesa. No entanto, os seus “comparsas” há muito que estão em liberdade e inseridos na indústria do jogo. A ligação entre o sector das apostas e o crime organizado acabou por ser admitida e definida como um “problema profundo”, que se pode transformar numa ameaça real à estabilidade da segurança no território. “Os grupos do crime organizado reduzem as suas ofensas quando existe uma forma legítima de fazer dinheiro. Com o ‘boom’ da indústria de jogo de Macau, a actividade do crime organizado tornou-se menos óbvia, porque todos estão a comer bem e a se divertir”, apontou o responsável da PJ. Ainda assim, Wong garante que não está de olhos fechados ao que se passa. “É claro que estamos a prestar grande atenção à alteração das actividades criminosas no novo contexto

Boca fechada em relação a Luís Amorim Wong Sio Chak foi novamente questionado sobre o estado da investigação do caso da morte do jovem Luís Amorim e, novamente, recusou-se a tecer quaisquer tipos de comentários, alegando que o caso está a ser acompanhado pelo Ministério Público. “Entendo os sentimentos da família e da comunidade portuguesa dentro e fora de Macau, mas a situação está a ser tratada pelo MP e, de momento, não podemos fazer qualquer comentário”, afirmou. Um suposto assassino foi recentemente eliminado da “lista negra” da Interpol.

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comunicação social que mostram as pessoas a dormir em cima das mesas. O fenómeno terá aumentado substancialmente desde que os estabelecimentos passaram a ficar abertos 24 horas por dia, em 2006. “Muitos [dos McRefugiados] surgiram nas cidades mais prósperas, como Xangai e Cantão. As motivações são a pobreza, o facto de não terem dinheiro para alugar casa ou simplesmente porque quiseram poupar o dinheiro dos transportes, no caso daqueles que trabalham longe do local de trabalho”, explica Dorris. Em Macau, a estudante verificou que o fenómeno não é tão óbvio. Dorris observou vários adolescentes a passar a noite no McDonald’s mas nenhum dormia. “Entrevistei um jovem de 16 anos que tinha discutido com a mãe e decidido não voltar para casa”. O truque? “Usam copos de bebida vazios, ou pedem apenas bebidas, para não serem expulsos dos estabelecimentos.” Os turistas, grande fatia da população transeunte da RAEM, cabem, na sua maioria, na classe dos ‘McXiXi’ e ‘McSentados’.

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Crimes à lupa em 2010

• Processos criminais instruídos pela PJ

9898 (-9,4%)

• Encaminhamento para o Ministério Público

1888 indivíduos

• Conclusão de processos

10.047 (-12,7%)

• Casinos

1655

casos, mais 54 que em 2009

243

apropriações ilegítimas

255 238 176 111 91 13 1

507

furtos

achados usuras burlas

ofensas à integridade física sequestros

crime organizado

detidos (248 da China continental, 154 de Macau e 80 de Hong Kong)

económico. Além de fazer cumprir as leis, é também importante para a PJ resolver o problema do crime organizado e evitar a sua profunda revitalização. A nossa preocupação tem sido consistente ao longo dos últimos anos.” Enquanto a paz ainda reina, uma série de relatórios estão a ser compilados por mais do que um departamento da PJ, de forma a detectar sinais de organizações criminosas e mantê-las debaixo de olho. Encapuzados em foco

Durante o almoço de Primavera com a imprensa, os jornalistas questionaram a PJ se realmente era necessário exibir os suspeitos encapuzados em conferências. Wong Sio Chak disse que esse sempre foi o desejo dos média. “Se eu simplesmente limito-me a falar de um caso, os nossos porta-vozes serão questionados no sentido de exibirem provas do que encontramos. Mas vou ponderar sobre a presença dos suspeitos. Provavelmente os amigos da imprensa acham que ter um suspeito real num sala eleva a credibilidade do caso”, explicou. Não existe nenhuma legislação que impeça

a exibição dos suspeitos encapuzados, mas o director da PJ garantiu que nada é feito sem o consentimento dos próprios. Ainda assim, o responsável reconhece que é muito provável que o suspeito, apesar de ter a cabeça tapada, seja reconhecida nos meios de comunicação. Outras questões levantadas pelos jornalistas prenderam-se ao caso de um sul-coreano encontrado enforcado na Ponte Governador Nobre de Carvalho na semana passada e quanto a outro conterrâneo pendurado numa árvore no Cotai em Janeiro de 2009. A dúvida foi: “por que não pudemos fotografar esta última vítima?” Recorde-se que no caso do sul-coreano amarrado numa árvore as fotos do insólito percorreram a imprensa de Macau, Hong Kong e China. Mudança

A PJ confirmou que o seu gabinete irá mudarse, daqui a três anos, para um novo edifício no Nape e as suas actuais instalações serão aproveitadas para a futura Biblioteca Central, juntamente com o antigo Tribunal. Wong não sabia, contudo, dizer com exactidão onde vai passar a sentar-se no Nape.


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sociedade

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Continua internada e em estado crítico a mulher infectada com vírus H1N1 Está internada com ventilação assistida e continua em estado crítico desde que passou para os cuidados intensivos na madrugada de quartafeira, depois de lhe ter tido uma reacção positiva ao vírus da gripe das aves. A mulher, de 47 anos, começou a ter sintomas da doença no dia 14 de Janeiro. Com febre alta dirigiu-se quatro dias depois ao Hospital Kiang Wu, onde lhe foi descoberta uma pneumonia e onde ficou internada. A vacina contra a gripe foi disponibilizada gratuitamente aos residentes e paga aos residentes pelos Serviços de Saúde, mas a doente não foi vacinada. O filho e a irmã mais também têm manifestado sintomas de gripe e foram submetidos a tratamento.

Urso da Flora continua sozinho sem esperança de nova sorte

Uma questão de classes António Falcão | bloomland.cn

António Falcão

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A maior alegria de Bobo, o famoso “urso da Flora”, foi ter recebido em 2000 uma companheira. Mas foi sol de pouca dura. A fêmea, oferecida pelo Governo Central para de algum modo colmatar a solidão de Bobo, nunca se adaptou às condições climatéricas subtropicais de Macau. Na época, ainda sem o fervilhar do jogo e sem receitas milionários nos impostos, o Executivo não quis despender nenhuma verba adicional, nem tão pouco mais tempo da sua atenção. Nessas condições a nova inquilina da Flora, quase sempre dentro de água para se refrescar, acabaria por padecer de graves problemas cardíacos, vindo a morrer quatro anos mais tarde. Desde aí, a vida do mais famoso urso do território antes do advento dos pandas, esmoreceu e hoje Bobo arrasta-se demoradamente à espera do seu inevitável fim. A figura deste urso-negroasiático, caracterizado pela sua estatura média, garras afiadas e uma marca clara em forma de V no peito, não muito visível no caso deste espécime, cedo foi transportado para a mitologia urbana de Macau, tornando-se regularmente o exemplo concreto e o estandarte dos movimentos locais de protecção dos direitos dos animais. Bobo, agora com 30 anos, chegou a Macau em 1984, através de uma trupe circense, ocupando desde logo um lugar confinado numa jaula do Jardim da Flora. Aí se tornou uma das principais atracções, como um dos primeiros habitantes de uma pequena área dedicada à zoologia, da qual hoje em dia fazem parte animais de pequeno porte e algumas aves raras. Hemisfério panda

Quando a onda de Hoi Hoi e Sam Sam se começou a avistar no horizonte, de novo o rumor do urso da Flora surgiu nos escaparates, quer na boca de residentes preocupados com o destino do animal, quer como peso para contra-balançar os 90 milhões de patacas gastos nos gigantes pandas, que logo foram recolocados no frontispício da imprensa. O mamífero pertence a uma espécie igualmente ameaçada, principalmente devido à destruição do seu habitat natural,

alocado às densas florestas, com empresas florestais de serração de madeiras em grande expansão nas últimas décadas, que reduziram a área de distribuição do urso preto para apenas um quinto da área que existia antes de 1940. A caça furtiva para o comércio de peles e o uso de partes do animal para fins medicinais na tradição asiática têm sido outra das ameaças enfrentadas por estes animais. O urso-negro-asiático é listado como um animal protegido na Lei Nacional de Protecção da Vida Selvagem da China, que estipula que a caça ou captura de algum destes animais, ou de outros igualmente ao abrigo desta lei, sem autorização estará sujeito a punições severas. Mais, no Livro Vermelho Apêndice I da CITES (a sigla em inglês da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção) esta espécie está inscrita como “vulnerável”, um ponto acima da família dos

pandas gigantes. Motivos que vêm adendar a noção de que, durante os 27 anos da presença de Bobo no território de Macau, a esta vida se pudesse ter dado uma outra glória. Sendo lógico pensar-se que apenas uma pequena fracção do pacote dos 90 milhões de patacas fosse suficiente para mudar o rumo dos acontecimentos, criando uma outra estrutura para este animal. Secretária desassossegada?

No dia da inauguração do Pavilhão dos Pandas, em Coloane, a secretária para a Administração e Justiça, Florinda Chan, acolhida

pelas câmaras de televisão, revelava a sua alegada preocupação relativa a este assunto, afirmando que o Governo vai estudar o caso. Esta é, contudo, a sequela de um momento que já veio ao lume meses antes. Em Junho passado, aquando da apresentação do projecto para o Parque Natural de Seac Pai Van, o assunto veio à baila, com os responsáveis governamentais a admitirem o conhecimento da causa. O caso esfriou rapidamente e não se espera daí grande novidade, isto apesar das autoridades municipais terem vindo a público para falar sobre o urso da Flora. Depois de alguns sectores da sociedade aludirem à possibilidade de Bobo ser transferido para o mesmo parque onde se encontram os pandas, ou ter um destino mais diversificado, sobretudo com alguma vegetação que lhe fizesse recordar o seu habitat natural, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM), entidade responsável pelos jardins e parques da RAEM, acabaria por ditar as regras do jogo, negando essa via. Confirmado pelo veterinário que acompanha o animal, a instrução surgiu através de um parecer que não aprovou a mudança de instalações. Tudo porque supostamente este “Ursus thibetanus”

precisa de tempo de adaptação a um possível novo habitat, fosse ele qual fosse. E tempo é coisa que o urso da Flora não possui, já que se encontra no último patamar da sua existência. Anos antes, outro veterinário do mesmo organismo propôs à direcção do IACM a transferência de Bobo para um parque natural na China, dedicado a estes animais, para aí terminar os seus dias. Proposta que seria igualmente negada. E assim Bobo ficará com o destino irremediavelmente cravado ao seu cognome de quase três décadas: uma vez urso da Flora, para sempre urso da Flora.


AICEP com projectos focados em Portugal Mariana Oom está “determinada a contribuir para o aumento dos negócios entre Portugal e China”. Segundo um comunicado enviado ontem, a nova directora da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) pretende vincar a qualidade dos produtos tradicionais portugueses e reforçar a imagem de um “Portugal inovador, líder em energias renováveis, tecnologias modernas e sustentáveis”. Mariana Oom, a responsável por Macau e Hong Kong, pretende desempenhar um papel de missão no apoio à exportação de produtos e serviços portugueses e à captação de investimento chinês para Portugal. 

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sociedade

Caso Pedro Chiang | Mais um longo dia para as alegações finais

Joana Freitas

2010 que quase nada mudou nas alegações da defesa.

“Alegações sem provas confirmadas” continua a ser a teses defendida pelos advogados dos arguidos do terceiro processo conexo ao escândalo de corrupção Ao Man Long. Depois das alegações finais da defesa de Pedro Chiang na quartafeira, primeiro arguido deste processo, o Tribunal Judicial de Base (TJB) voltou a receber os procuradores do Ministério Público e os advogados de mais três dos indiciados por crimes de corrupção e branqueamento de capitais. Durante os nove meses em que se arrasta este terceiro processo não foi ainda provada a validade das provas recolhidas pelo Comissariado Contra a Corrupção (CCAC), como apontam os defensores. Os advogados da defesa fizeram, assim, uso das palavras de João Miguel Barros, advogado de Pedro Chiang, na audiência de quarta-feira, pedindo absolvição dos acusados por nulidade ou falta de provas. Na defesa do empresário, neste momento em Portugal, João Miguel Barros condenou a “incompetência dos investigadores do CCAC”, que terão efectuado buscas à residência do ex-secretário das Obras Públicas sem a devida autorização e sem presença de alguém da confiança de Ao Man Long, detido no CCAC no momento das buscas. As provas daí retiradas, os famosos Cadernos da Amizade (onde Ao Man Long apontava dados relativos a terrenos e valores que alegadamente terá recebido pelos acusados) e as agendas dos encontros, são constantes do processo como meios de acusação. No entanto, todos os advogados de defesa contestam a sua utilização por poderem ter sido alvo de manipulação ou implantadas, como defende João Miguel Barros, e pedem a sua nulidade. Desde Abril de

Uma “fortuna” de 350 mil patacas

joana.freitas@hojemacau.com.mo

Lam Yim, de 84 anos, está acusado de um crime de corrupção activa pelo Ministério Público devido ao seu nome constar em dois documentos que provam ilegalidades. Para o advogado de Lam Yim, o pai de Pedro Chiang, o arguido não está em nada relacionado com os projectos de construção das chamadas “17 vivendas”, junto ao túnel da Guia, que alegadamente terão sido entregues directamente ao gabinete de Ao Man Long, e da assinatura de um termo que concede uma dessas vivendas à empresa Ecoline, da qual faz parte o ex-secretário das Obras Públicas. No entanto, apesar de confirmar as assinaturas, o arguido declarou não conhecer nem as empresas envolvidas, nem os administradores e nem mesmo o próprio conteúdo dos documentos, alegando que o fez “a pedido do filho”, no qual deposita confiança. Como explica David Gomes nas declarações de defesa, Lam Yim foi um dos nomeados para ser sócio-administrador de uma das empresas de Pedro Chiang, uma vez que pelo sucesso e “o alto volume de negócios” do empresário este teve necessidade de constituir sociedades com “testas-de-ferro”. David Gomes salienta que “o arguido nada tinha a haver com os procedimentos administrativos” e que é um mero sócio, que não sustenta “lucros,

RUI RASQUINHO

Acusações “sem provas legais”

perdas ou investimentos”. “O trabalho dele [Lam In] resumia-se a assinar escrituras”, menciona o advogado. “As formalidades eram com a secretária e os negócios com o filho”, enquanto o arguido, diz David Gomes, servia como mero intermediário para entregar as propostas para serem assinadas “pelas pessoas indicadas” e para assinar nos locais destinados pelo filho. O advogado de Lam Yim salienta a falta de escolaridade do arguido e a sua escassa experiência nos negócios, que se reduz à gerência de uma mercearia no Cambodja, para onde foi em criança, para pedir ao MP que absolva Lam Yim. Já anteriormente, Jaime Carion, director das Obras Públicas, tinha confirmado nunca ter visto o arguido nas instalações da direcção ou mesmo envolvido “nos [alegados] negócios de Pedro Chiang”. David Gomes declara que a acusação de suborno a Ao Man Long é infundamentada, já que não existe “um único apontamento” e se falam de projectos de milhões no caso de uma pessoa que tem “uma fortuna de 350 mil patacas na conta”. O arguido vive dependente de uma pensão mensal de 13 mil patacas atribuída pelo filho,

desde que ficou incapacitado de trabalhar. David Gomes diz ser impossível que Lam Yim pudesse desconfiar no alegado envolvimento de Chiang em negócios ilícitos dado à confiança depositada no filho. A alegada culpa dos outros

O terceiro arguido no processo é Wu Ka I, sócio de Pedro Chiang. O indivíduo é acusado de dois crimes de corrupção activa, os quais assentam nos mesmos motivos dos do pai de Chiang. Segundo a defesa, Wu Ka I terá sido chamado para uma

reunião “normal” e assinou um documento a pedido de Pedro Chiang, crendo na justificação que o empresário confirmou que lhe daria mais tarde. Sendo sócio de Pedro Chiang há mais de dez anos, Wu Ka I diz ter-se tornado menos rigoroso na análise dos documentos dado a confiança que tinha pelo amigo e sócio maioritário. “Durante anos correu tudo bem”, alega em sua defesa mencionando os documentos redigidos por Pedro Chiang e dados, posteriormente, a assinar, “e por isso não havia suspeição do alegado acto ilícito”. Chao Kok Keong diz que todas as provas foram “inventadas sem fundamento” e sem estarem relacionadas com Ao Man Long, familiares ou empresas a ele ligadas. “Se é verdade a acusação de Carion [testemunha no processo] de que terá havido um encontro com Ao Man Long, este apenas faz referência ao exsecretário e a Chiang”, pondo de fora Wu Ka I. Para a defesa, além da ausência de um motivo plausível para que o arguido tenha vindo a praticar os crimes de que está indiciado, “ele deu autorização por escrito para o CCAC fazer o levantamento dos dados das contas bancárias e dos registos telefónicos e eles não encontraram nada”.

Já Ana Fonseca, a advogada responsável por defender o quarto arguido, Chan Lin Ian, indiciado pela prática de oito crimes de corrupção activa, um de corrupção passiva e um de branqueamento de capitais, fez questão de detalhar cada uma das obras pertencentes às empresas do arguido. Chan Lin Ian é dado como envolvido em processos relativos a empreitadas – a construção do polidesportivo do edifício da Escola Sir Robert Ho Tung, do edifício de Serviços de Alfândega na Taipa, do auto-silo do Jardim Vasco da Gama e da requalificação da zona do Tap Seac - e cuja adjudicação foi entregue às empresas da qual era administrador. Segundo a acusação estas adjudicações terão sido beneficiadas e o arguido terá favorecido Ao Man Long com promessas de contrapartidas. No entanto, Ana Fonseca defende Chan Lin Ian alegando, primeiro, que não ficou provado que nem o arguido nem as empresas pagaram ao ex-secretário e, segundo, se “Ao Man Long interferiu ou não na grelha de pontuação para as obras terem sido adjudicadas ao arguido, tal não resultou de nenhum acordo prévio directa ou indirectamente”.

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1.

AVISO COBRANÇA DA CONTRIBUIÇÃO ESPECIAL

Faço saber que, o prazo de concessão por arrendamento dos terrenos da RAEM abaixo indicados, encontra-se terminado, e, que de acordo com o artigo 3.º da Lei nº. 8/91/M de 29 de Julho, conjugado com o artigo 2.º e o artigo 4.º da Portaria n.º 219/93/M, de 2 de Agosto, foi o mesmo automaticamente renovado por um período de dez anos a contar da data do seu termo, pelo que, deverão os interessados proceder ao pagamento da contribuição especial liquidada pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. Localização dos terrenos: - Rua Nova da Areia Preta, n.os 253 a 359, Avenida do Nordeste, n.os 315 a 411, Avenida 1 de Maio, n.os 306 a 410 e Rua do Canal Novo, n.os 168 a 264 (Edifício Kam Hoi San); - Avenida 1 de Maio, n.os 162 a 266, Rua 1 de Maio, n.os 12 a 108, Rua Nova da Areia Preta, n.os 111 a 213 e Rua do Canal Novo, n.os 167 a 263 (Edifício U Wa); - Avenida do Almirante Magalhães Correia, n.os 152 a 246 e Rua Nova da Areia Preta, n.os 52 a 92 (Edifício Centro Comercial San Kin Wa);

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3.

- Estrada Marginal da Areia Preta, n.os 24 a 124, Rua do Canal Novo, n.os 23 a 121, Rua Nova da Areia Preta, n.os 112 a 206, Avenida do Almirante Magalhães Correia, n.os 156 a 252 (Edifício Kin Wa). Agradecemos aos contribuintes que, no prazo de 30 dias após a recepção da notificação do pagamento, ou, até 17/02/2011, se dirijam ao Núcleo da Contribuição Predial e Renda, situado no rés-do-chão do Edifício Finanças, ao Centro de Serviços da RAEM, ou, ao Centro deAtendimento Taipa, para o levantamento da guia de pagamento M/B, destinada ao respectivo pagamento nas Recebedorias dos referidos locais. Na falta de pagamento da contribuição no prazo estipulado, proceder-se-á à cobrança coerciva da dívida, de acordo com o disposto no artigo 6.º da Portaria acima mencionada. Aos, 12 de Janeiro de 2011. A Directora dos Serviços de Finanças, Vitória da Conceição


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desporto

Futebol | Segunda jornada da Liga de Elite arranca esta noite

A falta que o treino faz Marco Carvalho

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Cinco jogos, 23 golos, uma média de 4,6 tentos por partida. Se as estatísticas dissessem tudo o que há a dizer sobre o futebol de Macau, o principal escalão do desportorei do território mereceria com certeza honras internacionais por ser um dos mais prolíficos do mundo. Disputada no fim-de-semana passado, a primeira jornada da Liga de Elite rendeu um espantoso e invejável total de 23 golos, mas o que a matemática não mostra é o aparente desequilíbrio entre as formações que disputam a edição de 2011 da principal competição de futebol do território.

É certo que a procissão ainda vai no adro e o Campeonato no seu início, mas os números – quando vistos de

Errata O anúncio do Tribunal Judicial de Base, Juízo de Pequenas Causas Cíveis, referente ao processo PC1-09-0851-COP, publicado na página 6 deste jornal no passado dia 19 de Janeiro não tem validade, estando em vigor o anúncio publicado no dia anterior sob o mesmo número de processo.

Pelo facto o Hoje Macau apresenta o seu pedido de desculpas aos envolvidos.

outro prisma – não enganam: as formações do Windsor Arch Ka I e do Grupo Desportivo Lam Pak, tidas como as principais candidatas ao triunfo na competição, marcaram nada mais nada menos que 14 dos 23 golos apontados no último fimde-semana, sendo responsáveis por mais de sessenta por cento dos golos que se festejaram nos relvados do território. Campeão em título, o Ka I entrou na nova temporada com o pé direito, goleando o Hoi Fan por oito bolas a uma, mas o resultado, apesar de inequívoco, pode ser enganador. Quem o diz é Rui Cardoso. O técnico que conduziu a formação patrocinada pelo empreendimento Windsor Arch ao triunfo na derradeira edição da principal competição futebolística de Macau considera que o plantel por si orientado acabou por tirar proveito da desorganização relativa que grassa entre grande parte das equipas que disputam a Liga de Elite. Para uma boa parte das formações que disputam o primeiro escalão, os primeiros encontros são os mais difíceis, dada a falta de preparação das equipas. Para muitos dos emblemas que alinham na Liga de Elite, a preparação da nova época coincide com o arranque do Campeonato e uma tal incidência reflecte-se depois no futebol praticado dentro das quatro linhas. “O Hoi Fan, parece-me,

tem bons elementos e pelo que percebi, terá também capacidade para fazer bem melhor do que fez contra o Ka I. Pelo futebol que praticou dentro de campo, é evidente que é uma equipa que ainda se está a organizar, a que falta ritmo e entrosamento, mas com o decorrer do Campeonato estou certo que estes desequilíbrios vão ser superados”, sustenta o técnico. Apesar do Ka I ter entrado na nova temporada com uma goleada, Rui Cardoso não espera facilidades. O técnico português louva a preparação de equipas como o Lam Pak ou a Selecção de Sub-23 (que goleou o Pau Peng por quatro bolas a zero) por demonstrarem em campo a organização que falta a outras formações. Cardoso diz que ambas as equipas poderão ser rivais à altura do Ka I se conseguirem manter o nível competitivo que mostraram no primeiro encontro da época, mas sustenta ainda assim que o grupo de trabalho que lidera lhe oferece garantias de uma temporada ao mais alto nível. “Quem assistiu ao jogo com alguma atenção no fim-de-semana passado terá percebido que houve uma primeira parte e uma segunda parte completamente distintas. Na segunda parte procurei fazer com que os meus jogadores circulassem mais a bola e praticassem o

FC Porto O novo Messi

futebol que eu gosto de ver praticado. De certa forma tivemos a felicidade de ter um novo jogador, o Kwok Siu Tin, a assimilar bastante bem a linha de jogo da equipa e a reforçar a agressividade do lado direito do ataque do Ka I”, remata Rui Cardoso. Depois de na semana passada ter encerrado a jornada de estreia do Campeonato, o Ka I volta este fim-de-semana a ser uma das últimas formações a entrar em cena. Os campeões do território esgrimem argumentos ao final da tarde de domingo com o Hong Ngai, equipa que foi copiosamente derrotada pelo Lam Pak por seis bolas a uma. A segunda ronda da Liga de Elite arranca ao fim da tarde de hoje, com o Monte Carlo a enfrentar o Grupo Desportivo da Polícia, depois de não ter ido além de um empate com o Futebol Clube de Porto no desafio que pautou o arranque da nova temporada. Os dragões do território jogam ao final da tarde de amanhã com o Grupo DesportivoArtilheiros, depois de Hoi Fan e Selecção de Sub-23 terem esgrimido argumentos. A jornada fica completa com o embate entre o Lam Pak e o Lam Ieng, duas equipas que têm a particularidade de pertencer a um mesmo dono. Todos os cinco encontros serão realizados no Campo da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, situado paredes meias com o complexo hoteleiro City of Dreams.

Liga de Elite

2.ª Jornada

• Sexta-feira, 19h Polícia – Monte Carlo • Sábado, 14h Sub-23 – Hoi Fan • Sábado, 16h FC Porto – Artilheiros • Domingo,14h Lam Ieng – Lam Pak • Domingo, 16h Hong Ngai – Ka I

O FC Porto estará muito perto de assegurar os serviços de Juan Manuel Iturbe, avançado argentino de apenas 17 anos e que goza do cognome de 'novo Messi', ou 'Messi guarani', já que apesar de ter nascido e vivido em Buenos Aires até aos quatro anos, é filho de paraguaios guaranis. Os portistas terão já conseguido encontrar e satisfazer as condições básicas para assegurar o jovem atacante internacional indígena. Segundo boas fontes, o acordo está bem encaminhado ou mesmo concluído, embora, por razões estratégicas, o dragão não assuma para já a paternidade do negócio discutido desde domingo em Lisboa.

Selecção Bento sem novidades

Embora tenham surgido nos últimos dias alguns contratempos, com Tiago a renunciar e Ruben Amorim lesionado, o seleccionador Paulo Bento esclareceu que não vão existir muitas novidades na convocatória para o particular diante a Argentina, no dia 9 de Fevereiro, em Genebra. “De vez quando temos necessidades que nos obrigam a tomar outras opções, mas grandes novidades não acredito que vão existir. Temos alguns problemas, com jogadores que não estão a jogar com a assiduidade que queríamos. Depois, questão do Tiago que deixou a Selecção, de Ruben Amorim que foi operado e por isso existem vários contratempos que temos de superar”, esclareceu Paulo Bento. Outra situação prende-se com o regresso de Ricardo à equipa das quinas, embora admita que não é opção para a próxima convocatória. “Nós temos de nos focalizar nos jogadores que neste momento podem ser úteis à Selecção Nacional. Agora, não temos o direito de descartar quem quer que seja e ainda para mais a um jogador que tem um passado na Selecção e que teve sempre grande vontade de regressar à Selecção”, afirmou Paulo Bento, durante uma acção de promoção de futebol.


Adidas põe Ronaldo em anúncio de Messi A marca alemã fez um spot animado para celebrar a Bola de Ouro ganha por Messi. E pelo meio há umas indirectas ao jogador português do Real Madrid. Cristiano Ronaldo, embora de forma pouco explícita, aparece no novo anúncio da Adidas dedicado a Lionel Messi, integralmente feito de imagens animadas. Um boneco que pode ser identificado com o jogador português, que como se sabe é patrocinado pela rival Nike, surge em dois momentos do anúncio. Num primeiro com um comentário jocoso à faceta de modelo de Cristiano Ronaldo. E mais à frente, num lance também animado, em que Messi passa por Ronaldo e ouve-se uma voz a dizer: “Demonstra que és o número 1”.

A notícia foi avançada pela edição online do jornal espanhol “AS” e é justificada com o facto de a direcção não querer contratar um avançado. De acordo com o diário desportivo espanhol, o treinador português está a ponderar deixar o clube magoado com o comportamento dos dirigentes nos últimos meses. Mourinho está em desacordo com a política de contratações neste mercado de Inverno, sobretudo com a ausência de um avançado. Este episódio, aliás, terá sido a gota de água para Mourinho. O técnico português, que já há alguns meses tem mostrado o seu desagrado com algumas situações, conpub

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Futebol | Mourinho ameaça abandonar Real Madrid no final da época

As birras do melhor do mundo sidera que o Real Madrid não tem a estrutura adequada e que nem todos remam para o mesmo lado. Mourinho ficou muito desapontado com os comentários feitos pelo director Jorge Valdano, no final do empate com o Almeria, quando este disse que o clube já tinha um avançado (Benzema) e que o francês tinha ficado no banco de suplentes. A não contratação de Hugo Almeida, a demora na renovação do contrato de Pepe e a desistência no negócio da aquisição de Fernando Llorente são outras queixas do treinador português, segundo o “AS”. Casillas desmente

Perante os rumores, o guarda-redes Iker Casillas ga-

e com o clube”, explicou ainda o guarda-redes. Farpas com Valdano

rante que o treinador português quer ficar no clube. “A intenção de Mourinho é continuar, assim como o clube quer que ele continue por muito tempo. Garantoo porque sou o capitão de equipa”, disse Casillas, em

entrevista ao programa “Al Primer Toque” da rádio Onda Cero. “Temos uma equipa jovem e Mourinho sabe que isso vai dar frutos a longo prazo. Além disso, sei que está encantado com a cidade

José Mourinho respondeu ontem a Jorge Valdano, diretor geral dos “merengues”, afirmando que já é “crescido para recados pela imprensa”, em alusão às palavras do dirigente após o jogo com o Almeria (1-1). Jorge Valdano disse então, quando questionado em relação à possibilidade de contratar um avançado, num momento em que o clube tem Hinguain lesionado, que o clube tinha um número 9 (Benzema) e este estava no banco. “Não sou eu que tenho que falar do 9, porque não disse nada agora. Fi-lo na pré-temporada e em No-

vembro, quando sabíamos que não teríamos Higuain por muito tempo. Depois disso não falei mais. Quem falou nos últimos dias do 9 não fui eu”, disse Mourinho. O treinador português disse que se sente apoiado pela sua equipa técnica, a quem pedirá ajuda quando precisar e deixou claro que quem escolhe a equipa é exclusivamente ele”, mostrando-se aborrecido com as referências de Valdano à não titularidade de Benzema. “Cheguei onde cheguei a pensar pela minha cabeça. Já sou crescido para recadinhos pela imprensa. Quem faz a equipa sou eu, as decisões são minhas e se, em algum momento, tenho dúvidas, são os meus adjuntos que me ajudam. É normal, como treinador, ter dúvidas em algumas ocasiões, mas estou demasiado crescido para recados na imprensa. Não me atingem”, concluiu.


Comparações:

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Foi no renovado auditório da Universidade de São José que o historiador Frank Dikötter apresentou o seu último livro, “Mao’s Great Famine: a History of China’s Most Devasting Catastrophe”, que aborda um dos períodos mais críticos da história contemporânea chinesa. Partindo de uma oportunidade de abertura durante os Jogos Olímpicos de Pequim, com a desclassificação de alguns documentos históricos, Dikötter pegou mãos à obra e complementou com precisão o que já se sabia: Mao Tsé-Tung engendrou um dos maiores actos criminosos contra a Humanidade no século XX, em que perecerão, segundo dados actualizados pelo autor, cerca de 45 milhões de pessoas. Os que sobreviveram não tiveram uma existência menos perturbada, recorrendo aos actos mais imorais para poderem sobreviver. Esta foi uma época de terror onde tudo foi permitido para abrilhantar a grande China, como nação primordial à face do mundo. Um período de quatro anos (1958-62) que nasceu do Grande Salto em Frente em

O realizador iraniano Jafar Pan vai ser homenageado na próx Fevereiro, Dia da Revolução Ira Em sinal de protesto pela proib júri internacional, que será pre

Entrevista | Frank Dikötter, historiador e professor em Hong Kong e Inglaterra

O grande salto para o abis que a China, além genocídio, bateu todos os recordes: a maior destruição de propriedade, o maior desperdício de recursos humanos e materiais, a maior fome no mundo, a maior destruição de florestas, o maior número de mentiras flagrantes em tão curto espaço de tempo. Sessenta anos depois, a República Popular, que partiu do esteiro de Mao, aí está como uma das grandes potências mundiais. O que se pergunta à partida é como foi possível que o regime de Mao Tsé-Tung conseguisse sobreviver tantos anos, acabando por se prolongar até aos dias de hoje com tanta fome, tanta gente liquidada, e anos depois ainda aparece a Revolução Cultural, em que a idolatria do Grande Líder se encontrava no ponto mais elevado. Que resposta há para tudo isto? Há uma linha directa entre pub

“Depois de 1949 é uma história que leva ao gradual mas sistémico fecho de qualquer tipo de liberdade. A liberdade de movimento, a liberdade religiosa, a liberdade associativa, a liberdade de imprensa, a liberdade de posse, tudo isso foi sistematicamente terminado ao longo de um período de dez anos” a Grande Fome, a que o meu livro se refere, que aconteceu entre 1959 e 1962, e a Revolução Cultural. Ela não pode ser compreendida sem perceber que Mao Tsé-Tung estava a tentar ver-se livre de todos aqueles que procuravam criticá-lo por tudo o que aconteceu durante o sinistro desastre do Grande Salto em Frente. A Revolução Cultural foi a tentativa de Mao limpar o seu caminho, retirando da sua frente todos aqueles que o enfrentaram anteriormente. Estava apenas a garantir a sua sobrevivência, infelizmente sem olhar a nenhum outro membro do seu partido, que foram eliminados implacavelmente. Foi uma espécie de selecção natural? Não sobreviveram os mais fortes, mas sim os mais cruéis. Esses foram os únicos que se mantiveram à tona da água. Essa foi uma política contínua durante o regime de Mao? Sim, até à sua morte, até com Zhou Enlai, uma peça fundamental no seu regime. No final, Mao não deixou de ficar satisfeito com a sua morte. Era assim, ele eliminava sem piedade uma pessoa atrás da outra. Todos os elementos que se chegaram demasiado perto do poder tiveram essa sorte, o que é extraordinário. Mao era realmente um homem astuto. Tendo estudado

especialmente a história do último século na China, que relação existe entre os períodos que vão da China imperial à China comunista, em que Mao reinou? O facto é que o que se toma em conta é de que a revolução de 1949 pôs um fim a toda a miséria na China. Foi exactamente ao contrário. Em 1949, após o curso de 56 anos, em particular na era republicana, a China foi acumulando algumas sérias inovações. Começou por abrir a sua economia, abrir as suas fronteiras, abrindo até o seu círculo político a um governo com uma constituição. As pessoas podiam circular livremente e as ideias entravam e saiam. Este é todo um período aberto. Depois de 1949 é uma história que leva ao gradual mas sistémico fecho de qualquer tipo de liberdade. A liberdade de movimento, a liberdade religiosa, a liberdade associativa, a liberdade de imprensa, a liberdade de posse, tudo isso foi sistematicamente terminado ao longo de um período de dez anos. E depois disso temos o Grande Salto em Frente. Um desastre massivo. Assim é sob os 30 anos do regime auto-destrutivo de Mao que chegamos à actualidade. E quando oiço hoje em dia que a China teve um extraordinário crescimento económico, fico

António Falcão | bloomland.cn

António Falcão

cultura

Iraniano Jafar P

bastante intrigado. Como é que depois de 30 anos a destruir uma coisa e a cavar um buraco negro tudo isso acontece? Quando se começa a sair desse buraco não é preciso muito para dizer que começamos do zero e não com resultados imediatos exultantes. Além do facto de que não acredito de modo nenhum em todos estes valores de crescimento. Faz-me lembrar precisamente o Grande Salto em Frente: “Taxa de crescimento magnífica”, “Realizações maravilhosas”, “Colheitas milagrosas”... Estamos então num novo Grande Salto em Frente? É certamente similar, já que estamos perante um partido que aprendeu como manipular as pessoas. Como manipular as estatísticas, como manipular a sua

própria imagem e a maneira como se apresenta ao exterior. A retirar do caminho todos aqueles que criticam o regime? Sim, e manipulando aqueles que possam ser contra. Não é que existam dezenas de milhões de pessoas a acreditar nisso. Mas pergunta-se: será este crescimento real? Ou será uma economia de bolha baseada num gigante baralho de cartas que pode cair de repente? Há uma certa benevolência por parte do Ocidente? O Ocidente não deixa de estar aí para apostar. Esse acaba por ser um novo dado. Em 1958, no Grande Salto em Frente, toda a gente comprava mas ninguém tinha uma estaca na China. Hoje a história é diferente.


Panahi vai ser homenageado em Berlim

nahi, condenado no seu país a seis anos de prisão por causa de um filme que estava a rodar e ainda não tinha terminado, xima edição do Festival de Cinema de Berlim com a exibição do seu anterior filme, “Offside” (“Fora de Jogo”, 2006), a 11 de aniana. Este é um gesto de solidariedade para com o realizador, que tinha sido convidado para fazer parte do júri do festival. bição da sua deslocação à capital alemã, a sua cadeira vai ser deixada simbolicamente vazia no momento da apresentação do esidido pela actriz italo-americana Isabelle Rossellini.

ismo Crê que a China está a dominar o mundo? Nunca o fará, nunca enquanto dentro do seu país continuar a existir apenas um partido. Não é possível, precisamente pelo facto de ser ineficiente, apresentando uma imagem de grande crescimento mas mantendose como um país pobre. E um país que se mantém menos eficaz do que qualquer outra economia aberta. Não vejo que consiga manter-se assim durante muito tempo. Como vê o facto de a China estar a comprar a dívida externa de um país como Portugal ou outros países europeus? De novo me traz à memória o Grande Salto em Frente. O mesmo acontecia com aquela China, com o seu país faminto, a dar e a apoiar países no exterior com largas somas de dinheiro. Tudo para adquirir uma boa imagem, de opulência e prestígio no estrangeiro. Parece que continuam a fazer o mesmo hoje... O que poderá então acontecer depois de todo este fulgor? Haverá um momento em que será preciso fazer uma verificação da realidade. Quando a conta chegar, quando for a altura de pagar a factura, não acho que os valores de que se fala sejam muito impressionantes. O próprio governo recentemente, por investigação sua, averiguou que os custos para o ambiente de toda este empurrão no seu crescimento são actualmente mais elevados do que o próprio desenvolvimento. Ou seja, tudo aquilo que produziu é cerca de seis a sete por cento do PIB, revelado nos custos do meio ambiente, o que notifica em pleno todo este processo. Isso faz recordar a famosa frase de Mao “é preciso

retirar metade da população para alimentar a outra metade”. Não sou perito em economia, mas a experiência diz-nos que este partido aprendeu a manipular números e pessoas muito bem. Por isso, eu não confiaria em nenhum dos valores estatísticos vindos da China. Quais são os pontos novos nesta sua investigação? A profunda ênfase da extensão da violência que recaiu na colectivização; a noção partilhada de que a população não estava a morrer à fome, mas estava deliberadamente a ser morta à fome – a proibição do uso das cantinas é uma forma desse castigo, e isso foi extraordinário; a destruição em geral da sociedade e a forma como afectou as pessoas em geral, que tinham de suportar tudo o melhor que sabiam. Não é apenas uma questão de preto ou branco, mas todo um período cinzento em que toda a gente numa altura ou noutra teve de tomar decisões com um compromisso moral para sobreviver. O que levou à degradação da rotina social. Crê que o povo chinês sabe o que aconteceu? Claro, o livro de maneira bem clara apresenta provas de que Mao Tsé-Tung sabia exactamente o que se estava a passar. Hoje em dia os chineses têm a noção exacta do que aconteceu? Eles sabem de certo modo o que aconteceu, não com grande detalhe, mas detêm uma grande consciência

“Eu não sou perito em economia, mas a experiência diz-nos que este partido aprendeu a manipular números e pessoas muito bem. Por isso, eu não confiaria em nenhum dos valores estatísticos vindos da China”

Perfil Frank Dikötter lecciona a cadeira de Humanidades na Universidade de Hong Kong e é professor de História Moderna da China na Universidade de Londres. Publicou nove livros sobre a China contemporânea. “Mao’s Great Famine” foi publicado pela editora Bloomsbury em Setembro de 2010 e foi considerado o Livro do Ano por diversas publicações internacionais, entre elas o The Economist, The Independent, BBC History Magazine, no Reino Unido; o The Globe no Canadá; e o Taipei Times em Taiwan.

sobre o assunto, que é falado privadamente no seio das famílias. Mas não há um verdadeiro debate público, não há um debate sobre a república, não existe uma memória colectiva, o museu público, um dia de recordação pública. Olhar para o passado não é algo que se encoraje. Mao é, de certo modo, glorificado em certos sectores da sociedade. Em certos sectores ainda é. Sempre foi assim, até na altura em que as pessoas estavam a morrer de fome escreviam cartas a Mao Tsé-Tung pensando que ele iria aparecer para os salvar. Isso reporta a uma tradição bem antiga. Culpam-se as autoridades locais, mas o imperador é perfeito. O imperador é virtuoso. Porque está num lugar longínquo. Depois de todos estes acontecimentos e do que se sabia como se explica a grande componente maoísta que assolou a Europa nos finais dos anos 60? Quer seja o maoísmo ou o que é a China hoje em dia haverá sempre aqueles no Ocidente, em regimes democráticos, que de certo modo não estão satisfeitos com a sua democracia, e pensam que há um modelo mais avançado algures noutro sítio qualquer. Esse melhor modelo normalmente reside mitologicamente disfarçado na grande China. Assim há aqueles que justificam o maoísmo e olham para Mao Tsé-Tung como um grande homem. Tanto há 40 anos como agora, há aqueles que vêem no autoritário modelo

da República Popular um grande modelo e uma alternativa à democracia. Como define o termo maoísmo? Não acredito que exista alguma coisa chamada maoísmo. Nunca ouvi falar de “hitlerianismo”. Ele era apenas uma pessoa, era um líder e era implacável. Não acho que tivesse uma filosofia ou que tivesse algum profundo discernimento dos factos, baseado em grandes pensamentos. Era bastante flexível na maneira como estava disposto a fazer qualquer coisa para se manter no poder. Mudava de ideias a toda a hora, contradizia-se constantemente e estava disposto a cometer gafes só para se safar de situações de que era muito difícil escapar, como o Grande Salto em Frente. Era sobretudo um político muito pragmático e impiedoso. pub

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13 DJs precursores da música electrónica juntam-se amanhã no Blue Frog Juntaram-se, produziram, gravaram, lançaram um álbum e seguiram por caminhos próprios. Amanhã juntam-se para a primeira performance em público em sete anos e a estreia absoluta como uma “Companhia de DJs”. Ficaram conhecidos pelo nome de DR, são quatro e são considerados os precursores da “dance music” em Macau. Quando se lançaram, dois deles faziam trabalho de promoção (Zuju e Lobo), os outros dois (Sayian e Shortgun) tocavam como DJs. Hoje são todos DJs nas horas livres e têm nomes e seguidores fiéis no género musical “jungle” e “drum n’ base”. Há sete anos que não tocam juntos para uma mesma plateia. Amanhã, reúne a classe de 2004 no que será a estreia absoluta dos quatro a tocar na pele de DJs, num mesmo evento. A reunião dos DR é promovida pela produtora local Healthy Macao, lançada a 28 de Agosto no Blue Frog. A produtora partiu de um conceito original do DJ N1D, com o nome próprio de Bean Leong. “DJ Zuju é considerado o pai da música jungle no território tendo sido o primeiro junglist em Macau. Aliás, os DR, no seu conjunto, inspiraram-me e estão na âmago da alma da Healthy”, reconhece Bean. Esta será a quarta festa da Healthy nos últimos quatro meses, uma productividade que surpreende o próprio Bean Leong: “Quando começámos tinha em mente fazer uma festa mês sim, mês não. Tivémos a possibilidade, graças ao apoio financeiro do Blue Frog de trazer um artista internacional, DJ Krust, de Inglaterra, e temos ido ao sabor da popularidade”, diz o carismático músico local. “O que se passar este ano vai ser muito importante, talvez até determinante, para os planos que temos para 2012. Nesse sentido vamos manter-nos fiéis ao nossos princípios, um culto saudável (and Healthy Culture) para tentar introduzir algo de diferente nas vibrações da nossa cidade, cada vez mais ‘estereotipada’ pela cultura de casino”, conclui Bean Leong AKA N1D. • Healthy apresenta: the Original Macao Junglists night • Local: Blue Frog Bar & Grill, Macau, situado no Complexo Venetian, a partir das 23:00


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ideias l u z de i n ver n o Boi Luxo

Ainda a propósito de 2010

O seu último filme, The Little White Cloud that Cried, é divertido além disso: uma homenagem ao realizador underground Jack Smith filmado na casa de campo do realizador durante uma orgiástica festa com transexuais alimentada também drogas Estas serão as últimas linhas, que se não pretendem exaustivas, em que se faz uma pequena apresentação de um conjunto de filmes, estreados em 2010, que suscitaram uma apreciação particular por parte de um muito distinto grupo de cinco personalidades ligadas ao cinema. Concluiu-se anteriormente que estes filmes nos oferecem um panorama extremamente diverso de propostas, não só no que respeita às suas preocupações temáticas mas igualmente no que se prende com as suas opções estéticas. Correndo o risco da repetição, sublinhe-se que a facilidade com que hoje em dia se fazem filmes excêntricos ao gosto mais prevalente tem trazido ao cinema uma imensa riqueza. Numa altura em que se regista em alguns países um regresso às salas de cinema (e em alguns um aumento significativo no número de salas, como é o exemplo explosivo da China), e numa altura em que se testemunha, com um aplauso que não poderia ser maior, o retorno a um gosto pelos cinemas nacionais (como acontece em vários países da Ásia Extrema) por oposição às imposições monopolistas de uns poucos, é com um delicioso alarido que podemos pensar que vivemos uma época luminosa de criação. Como já foi referido, no entanto, a diversidade de propostas estéticas e temáticas não vem de par com a diversidade das suas origens – a grande parte dos filmes aqui mencionados são filmes de matriz ocidental, de África nem um nos chega e da Ásia Extrema apenas três. Um filme, La bocca del lupo, de Pietro Marcello, que conta estórias de marginais que habitam o centro histórico da cidade de Géno-

va, ilustra uma tendência contemporânea do cinema que é a da mistura de géneros – neste caso o documentário e o drama, a poesia e o brutalismo do real, como acontece no cinema de Pasolini (aqui nestas linhas tantas vezes objecto de admiração, tantas vezes referido porque é isso mesmo – uma sólida referência de um certo tipo de cinema poético e viril). Vagamente documental (o que é vagamente documental ?) é um filme sobre uma arte do contra, sobre uma arte invasora e violadora - o graffiti – Exit Through the Gift Shop, de Bansky (sim, o Bansky) e um filme sobre uma viagem à Jamaica em que o seu protagonista se vê arrastado para o seu centro verdadeiro contra a sua vontade, Wah Do Dem (de Ben Chace e Sam Fleischner). Estes três exemplos ilustram bem como é hoje difícil reconhecer uma “autoridade de género”, inclinação que, contudo, teve exemplos brilhantes desde os inícios da história do cinema (lembro-me especialmente de Buñuel), como se nesta era actual de maturidade se fossem reencontrar alguns traços da sua infância libertária. Também tributários do documentário são Make it New John, de Duncan Campbell, um filme sobre a vertiginosa carreira de John DeLorean, o engenheiro criador do carro com o mesmo nome, e a queda que lhe está associada e Alamar, do jovem mexicano Pedro González Rubio em que este filma o último encontro de um jovem com o seu pai pescador. Do artista britânico Steve McQueen (recipiente do Turner Prize em 1999, o prémio mais importante no Reino Unido dedicado às artes, autor do filme Hunger, de 2008, mas também de outras metragens mais curtas e

menos conhecidas como Drumroll, de 1998 ou Bear, de 1993 e da famosa exposição Queen and Country em que exibiu uma colecção de selos com a efígie de soldados britânicos mortos no Iraque - um projecto ainda em curso) um dos críticos que contribuiu para esta listagem, James Quandt, aponta o seu mais recente filme, Static, como um dos melhores de 2010. É mais um exemplo do poder da fixação e do estatismo, um poder que nasce da obrigatoriedade que a visão da repetição impõe ao espectador em criar um universo própio em redor das imagens. Neste caso mesmo em redor – o filme mostra imagens da estátua da liberdade (neste caso a construção em redor do filme muito facilitada pela carga histórica da peça filmada) tiradas de um helicóptero que a circunda. Outro filme sobre um símbolo da América é Get Out of the Car, de Thom Andersen, sobre a incapacidade de insinuar no gosto geral uma das cidades mais filmadas do planeta (talvez a cidade mais filmada do planeta) – Los Angeles. Pense-se em Nova Iorque ou Tóquio, Roma ou Londres para percebemos quanto Los Angeles está afastada do nosso arquivo pessoal de imagens enquanto cidade. Que muitos dos filmes que vimos lá se passem e haja um sunshine noir californiano estabelecido enquanto género, não parece contribuir suficientemente para que esta mais filmada de todas as cidades estabeleça sem equívocos a sua identidade nas nossas memórias. Recorde-se Enter the Void, the Gaspar Noé, e a maneira como este filme se inscreveu instantaneamente na história do modo de olhar e filmar Tóquio.

A propósito, se o filme de Noé se instituiu também rapidamente como um paradigma do filme psicodélico a série Trypps #7, de Ben Russell, pode ajudar a formar um quadro muito mais vasto deste tipo de imagética. Russell descreve este conjunto de curtos filmes como “um estudo em curso sobre o trance, a viagem e a etnografia psicodélica” e neles explora campos tão diversos como a standup comedy, o capitalismo global, a action painting ou o cinema avant-garde. No último dos filmes, o sétimo, segue-se a viagem de uma mulher alterada pela LSD no Badlands National Park. Um filme de Guy Maddin, mesmo uma curta metragem, é sempre um acontecimento. O seu último filme, The Little White Cloud that Cried, é divertido além disso: uma homenagem ao realizador underground Jack Smith filmado na casa de campo do realizador durante uma orgiástica festa com transexuais alimentada também drogas. Termino com uma referência a um pequeno filme que não referi no primeiro destes textos e que interessará particularmente aos leitores portugueses – Visionary Iraq, de Benjamin Crotty e Daniel Abrantes, vermelho e explosivo, 17 minutos. Um rapaz português e a sua irmã adoptiva angolana, com quem aquele mantém uma relação incestuosa, partem para o Iraque para participar na operação Iraqi Freedom enquanto o pai de ambos se aproveita da guerra para seu proveito financeiro. Ao mesmo tempo lírico e político ilustra uma outra tendência contemporânea que é a da junção do registo íntimo com o da preocupação social.


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15 É melhor limar as arestas, resolver as complicações, harmonizar a consciência e deixar-se absorver pelo mundo.

Capítulo 133 Lao Tzu disse: aqueles que são hábeis no governo de nações não mudam seus costumes ou normas. A ira é perversidade, as armas são instrumentos de mau agoiro, contendas são desordem social. O urdir planos em segredo, a perversidade e o gosto pelo uso de instrumentos de mau agoiro são disfunções do governo, a epítome da vileza. Sem homens calamitosos é impossível criar calamidade. É melhor limar as arestas, resolver as complicações, harmonizar a consciência e deixar-se absorver pelo mundo.

A natureza e sentimentos humanos são tais que toda a gente pretende considerar-se sábia e odeia ser inferior a outros. Se pretendes considerar-te sábio, a contenda surgirá; se odiares ser inferior a outros, surgirão ressentimento e conflito. Quando o ressentimento e o conflito surgem, a mente perturba-se e a atitude se torna rancorosa. Por isso, os reis-sábios de tempos longínquos se afastavam da contenda e do ressentimento. Quando a contenda e o ressentimento não surgem, a mente encontra-se em ordem e a atitude é harmoniosa. Como tal, diz-se que o efeito de não valorizar a sagacidade é que ninguém se envolverá em contendas.

Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho O texto conhecido por Wen Tzu, ou Wen Zi, tem por subtítulo a expressão “A Compreensão dos Mistérios”. Este subtítulo honorífico teve origem na renascença taoista da Dinastia Tang, embora o texto fosse conhecido e estudado desde pelo menos quatro a três séculos antes da era comum. O Wen Tzu terá sido compilado por um discípulo de Lao Tzu, sendo muito do seu conteúdo atribuído ao próprio Lao Tzu. O historiador Su Ma Qian (145-90 a.C.) dá nota destes factos nos seus “Registos do Grande Historiador” compostos durante a predominantemente confucionista Dinastia Han. A obra parece consistir de um destilar do corpus central da sabedoria Taoista constituído pelo Tao Te Qing, pelo Chuang Tzu e pelo Huainan-zi. Para esta versão portuguesa foi utilizada a primeira e, até à data, única tradução inglesa do texto, da autoria do Professor Thomas Cleary, publicada em Taoist Classics, Volume I, Shambala, Boston 2003. Foi ainda utilizada uma versão do texto chinês editada por Shiung Duen Sheng e publicada online em www.gutenberg.org.


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Ideias

16 per s pecti va s Jorge Rodrigues Simão

“We need to love and respect the Earth with same intensity that we give to our families and our tribe. It is not a political matter of them and us or some adversarial affair with lawyer involved; our contract with Earth is fundamental, for we a part of it and cannot survive without a healthy planet as our home.” Gaia – A New Look at Life on Earth James Lovelock

v

ladimir Ivanovich Vernadsky foi um dos maiores cientistas russos. Célebre na Rússia, mas praticamente desconhecido no resto do mundo. Foi o fundador da geoquímica, biogeoquímica e radiogeologia, considerado como o pioneiro da mineralogia genética e um dos maiores cristalógrafos mundiais. Detentor de um conhecimento quase enciclopédico, pode ser considerado um dos maiores pensadores da ciência moderna. No entanto, a contribuição mais valiosa do professor Vernadsky para a ciência moderna é sua magnífica teoria acerca da biosfera e da matéria viva, e eminentemente descrita no seu livro “The Biosphere: CompleteAnnotated Edition”, publicado em 1926, traduzido e publicado em inglês, em 1998, pela editora “Springer”. O seu contributo para a ciências da Terra é muitas vezes comparada com a importância de Charles Darwin para a biologia, a tal ponto do famoso microbiologista Lynn Margulis, ter dito, que “Vernadsky fez para o espaço, o que Charles Darwin tinha feito para o tempo. O primeiro mostrou que toda a vida ocupa um lugar habitado, materialmente unificado, que é a biosfera, e o segundo demonstrou que toda a vida descende de um antepassado longínquo”. O professor Vernadsky defendeu que a vida era um mineral orgânico complexo, a água dotada de animação. Substituía o termo vida por matéria viva. A gravidade puxa as coisas para baixo, mas a matéria viva empurra as coisas pela Terra além. A biosfera era uma manifestação do Sol, na mesma medida em que o é das propriedades terrestres. Em 1944, escreveu que “As antigas instituições religiosas que consideravam que os seres existentes na Terra, em especial os seres humanos, eram filhos do Sol, estavam muito mais próximas da realidade do que aqueles que os encaravam como uma mera criação efémera, um produto cego e acidental da matéria e das forças terrestres”. Apesar de tudo, na grande maioria do mundo científico continua a ser pomposamente ignorado. Simplesmente, porque as suas conclusões contrariam as nossas indignas hipóteses culturais. O professor Vernadsky estava à beira de criar um sistema universal teórico que representava a totalidade dos processos naturais, intelectual e social na Terra, como um método regular único planetário. As principais teorias da biosfera que com ela concorreram, são as teorias de James Lovelock e de Pierre Teilhard de Chardin. Ahipótese de “Gaia” ou “Geia” do professor James Lovelock, um dos mais categorizados

Hipótese de Gaia ambientalistas mundiais, defende que a temperatura da superfície da Terra, a química dos gases reactivos, o estado de redução-oxidação e o pH da atmosfera terrestre são mantidos pelo metabolismo, comportamento, crescimento e reprodução dos organismos vivos. A homeostasia é um ajustamento fisiológico em torno de um ponto fixo, assim como o controlo da temperatura do corpo nos mamíferos adultos é de cerca de 37º C, enquanto que a homeorrese, que é um conceito paralelo, diz respeito a um ajustamento à volta de um determinado ponto mutável, como a regulação na temperatura do embrião de um mamífero em desenvolvimento. O termo “Gaia” ou “Geia” é o nome de uma aterradora deusa, considerada pelo professor Lovelock simplesmente, como uma bela palavra com quatro letras para denominar a Terra. É também “Ge” ou “Geu”, como no continente “Pangeu”, no satélite “Geos”, em geologia, ou geografia. A adaptação ambiental de “Gaia” consegue-se em larga medida, devido à origem, ao crescimento exponencial e à extinção dos organismos. Toda a vida se explica pelos antepassados e se relaciona, em termos físicos, pela proximidade com as fases dos fluidos como a água e o ar à superfície da Terra. Os organismos que existem em comunidades, formam ecossistemas mutáveis que existiram desde o períodoArqueozóico, entre 3900 a 2500 milhões de anos. As interacções dos organismos, estimuladas pela energia solar, produzem e removem gases, de tal forma que a química dos gases não nobres, a temperatura e a alcalinidade são activamente mantidos dentro dos limites toleráveis à vida. No seio desta estrutura conceptual, quer as ciências biológicas, quer as ciências físicas adaptam-se à análise da atmosfera e da história geológica da Terra. Particularmente pertinente é o papel desempenhado pelos microbiotas, bactérias, protistas e fungos na troca gasosa que se regista à superfície da Terra, e que envolve a reciclagem daqueles elementos químicos que são absolutamente necessários à vida. A noção de “Gaia”, é o produto da imaginação viva de um químico inglês da atmosfera e do programa espacial internacional, que vem de longe. A composição da atmosfera terrestre assinala, sem margem para dúvidas, que o terceiro planeta está vivo, acompanhado pelos mundos quase secos de Marte (calotes polares de gelo seco – dióxido de carbono gelado) e Vénus, onde abunda o dióxido de carbono (CO2). Invoca-se a ciência fisiológica ou a magia para explicar a troposfera terrestre, bastante improvável, combustível e totalmente liquida quando comparada com Marte e Vénus. A

As interacções dos organismos, estimuladas pela energia solar, produzem e removem gases, de tal forma que a química dos gases não nobres, a temperatura e a alcalinidade são activamente mantidos dentro dos limites toleráveis à vida hipótese de “Gaia” ao reconhecer este desequilíbrio atmosférico, optou pela fisiologia e não pelos milagres. Muitos académicos continuam a desconhecer que o valor dos textos científicos sérios sobre a hipótese de “Gaia”, publicados ao longo de quase meio século, e a possível contribuição da noção de “Gaia” para a integração de dados evolutivos, meteorológicos, sedimentológicos e climatológicos. Infelizmente, outros textos sobre o mesmo tema, e os comentários histéricos do tipo “Nova Vaga”, que os acompanham, receberam da imprensa tamanha atenção e foram alvo de críticas tão controversas, que uma grande parte da ciência primitiva permanece desconhecida. Apesar de uma visão da ciência dos sistemas do planeta ser fortemente aconselhável para as ciências da Terra no estado sólido, as referências ao nome de “Gaia” continuam a causar apoplexias em certos círculos científicos. É curioso e intrigante, se tivermos em consideração o amplo paralelismo destas duas perspectivas, no que diz respeito à compreensão dos processos terrestres. Curiosamente, e apesar de não usar o termo “Gaia”, a Academia de Ciências dos Estados Unidos defende a mesma perspectiva, quando afirma que “é necessária uma nova forma de abordar o estudo dos processos terrestres, na qual a Terra seja considerada um sistema integrado e dinâmico, e não um conjunto de componentes isolados”. A hipótese de “Gaia”, rejeitada por alguns que a consideram uma fantasia da “Nova Vaga”,

foi mal interpretada pela comunidade científica, mas demonstra como as ciências da vida são essenciais para compreender o planeta. Uma parte do seu insucesso advém do facto de revelar que a teoria evolucionista, desenvolvida na falta de um conhecimento climatológico e geológico que está a avançar, é inadequada. Ahipótese de “Gaia” não é popular, porque muitos cientistas, desejosos de manter a sua actividade nos termos tradicionais, não gostam de se aventurar além das respectivas disciplinas, num mundo que na prática é multidisciplinar. Talvez seja necessário mais uma ou duas gerações, se o mundo ainda existir em condições habitáveis para o ser humano, para que a compreensão da hipótese de “Gaia” conduza a uma investigação séria e adequada. A “Gaia” ou “Geia” é chamada de deusa da Terra, ou esta como único ser vivo. Tratamse de expressões enganosas. É de rejeitar liminarmente a analogia de que “Gaia” é um organismo único, sobretudo porque nenhum ser se alimenta dos seus próprios resíduos nem recicla só, o seu próprio alimento, por muitas e diversificadas tecnologias que inventem. Muito mais apropriado será o argumento, segundo o qual “Gaia” é um amplo ecossistema, um sistema interactivo, cujos componentes essenciais são organismos. “Gaia” é ruidosa. Se lhe déssemos a devida atenção, ouviríamos os 30 a 50 milhões de espécies diferentes dos nossos companheiros no planeta cantarem para nós. A afirmação feita por muitos políticos de que, ao preservarmos a biodiversidade, podemos de certo modo preservar toda a vida do planeta, é apenas mais um exemplo da inabalável arrogância humana. A conservação das espécies é como afirma o professor Niles Eldrege, eminente paleontologista americano, sobretudo uma questão de estética. É essencial para a nossa sobrevivência que conservemos o ecossistema global, o que significa que devemos conservar o melhor possível, os ecossistemas naturais do planeta. Não se trata de uma questão de sobrevivência da espécie (excepto no nosso caso). É verdade que só os seres humanos que gostem da natureza é que sairão magoados, se o mocho das antigas florestas do Noroeste do Pacífico se extinguir devido à destruição do seu “habitat”. Seleccionar espécies individualmente e lutar pela sua sobrevivência é, em parte, um acto que advém mais da estética do que da economia. Mas os grupos económicos interessados no derrube de árvores têm razão, quando acusam os defensores da conservação da natureza de não pretenderem salvar o mocho nem a própria floresta.Afloresta, magníficas manchas de abetos e de outras espécies de árvores é responsável pelo “habitat”, pelo próprio ecossistema. Embora a estética dos mamíferos fosse destruída, a verdade é que a sobrevivência estaria em perigo se grandes formas de vida se extinguissem para sempre. “Gaia” continuaria a prosperar, tal como acontecia antes de nos conhecer.


joana freitas

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João Gomes | Advogado

“Macau foi o sonho que nunca tive” Joana Freitas

joana.freitas@hojemacau.com.mo

É aproximadamente pelas 20h00

que podemos encontrá-lo no ginásio. Costuma ir já equipado, como hoje. Calças de treino, sapatilhas e uma t-shirt justa que mostra um corpo definido, apesar da idade. “Ei!” Pela expressão este não é um assunto que seja dos preferidos do nosso entrevistado. Mas imediatamente a seguir faz o reparo: “Falemos em meio século. Mas sinto-me bem.” Nota-se. Já vai no décimo terceiro abdominal e nem sinal de fraqueza. Três vezes por semana despe a farda de advogado. Tira a gravata e o fato e troca-o pela adrenalina dos desportos. De combate. São as artes marciais que fazem a delícia do João. Foi precisamente neste ambiente que o encontramos. A conversa vai-se desviando entre os socos e pontapés do boxe chinês que pratica. “Macau foi uma nova forma de estar na vida”, diz a sorrir, “nunca pensei vir para cá”. Chegou há mais de 20 anos, para visitar o território a convite de uns amigos. Acabou por ficar. Porquê? O gosto pela cultura chinesa e o fascínio pela Ásia são dois dos motivos que apresenta. Habitualmente, quando alguém responde desta forma chamamos de cliché. Neste caso, a expres-

são viva na cara de João contorna essa denominação. Mostra que é verdade. Mas ele continua: “Sou muito simples. Se me sinto bem, gosto e fico. Não tenho necessidade de perceber exactamente o que me fascinou”. “João, bate em cima, descontraído” - é o professor que nos interrompe. Estamos a meio de um treino de sanshou, ou boxe chinês como explica João. “Tive a sorte de encontrar um treinador português”. Fala do desporto como complemento ao trabalho. “É um equilíbrio. O trabalho cansame cerebralmente. O desporto, a nível físico”. Além deste, começou a praticar karaté em Portugal. Aqui faz parte da Associação de Karaté Do Rocky Ryu de Macau. “É outra das coisas de que gosto aqui. As artes da luta”. Pois. Era aí que estávamos. Em gostar de Macau. Primeiras etapas cá: conhecer o território e arranjar trabalho. Não foi difícil com os dois cursos que traz no diploma - gestão e direito. A ideia principal era “integrar-me na sociedade chinesa, não na portuguesa, senão teria ficado em Portugal”. Aprender cantonês foi o primeiro passo. Agora fala-o como um natural, pelo menos aos ouvidos daqueles que são inertes à língua de Macau. Quase

poeticamente diz que Macau foi o sonho que nunca teve. “Concretizei-me quando fiquei cá”. Foi numa das empresas das três que trabalhou que conheceu a Cláudia. Ou a Leong Sok Han, a mulher chinesa com quem casou no território. “Não fui eu que lhe dei o nome”, brinca. Nos entretantos da conversa vai saltitando, ora num pé, ora noutro. Está atento ao treino, que hoje é uma excepção com a nossa presença. Para trás ficou Lisboa. Sente saudades de Portugal, mas “sair daqui? Nem pensar”, afirma convencido enquanto abana a cabeça. Mesmo antes de assentar em Macau, viajou sempre pelos cantos do mundo asiático. Malásia, Tailândia, Vietname. E a Índia, que percorreu sozinho de comboio, a pé, de autocarro… Onde sonhou na fronteira antes de se evadir pelo Nepal. Ainda novo. “Nem sei bem há quantos anos foi”, aponta enquanto coça a cabeça tentando lembrar-se. Estamos na parte da flexibilidade, que assinala o fim do treino. Mas nós ainda vamos a meio. E partimos embalados na aventura musical do João. (Ou pensavam que ficávamos por aqui?) Foi em Macau que cresceu a nível musical, com projectos mais sérios. Integrou mais do

que uma banda, aproveita os “talentos locais”. Cita alguns nomes. As cordas da sua guitarra sofrem influências de estilos diferentes. Blues, pop-rock. Na harmónica carrega as notas da Orquestra Chinesa de Macau com quem já tocou. Misturou-a com música portuguesa. “Foi engraçado, porque nunca ninguém tinha feito em Macau”. João e o Grupo de Ligação é uma das bandas com quem tocou na Lusofonia. Tem três discos editados, à venda na Livraria Portuguesa. As letras? Essencialmente português e chinês. A mistura das culturas de João – a que pertence e a que ama. Quanto à guitarra? Agarra nela e toca, sem qualquer musa. “Um solo de guitarra é uma aventura”. “Não fiz nem metade do que quero fazer”, afirma. Espreitamos para a “manga” da camisola do João. Tem lá projectos… são, no mínimo, diferentes. Mas temos que esperar. O João continua... Havia muito mais para dizer. Mas ele já pôs a mochila às costas. Amanhã é mais um dia agitado, que começa com o pão com queijo num “maravilhoso café chinês”. E este acaba aqui. E para quem ainda aí está… Ainda se lembra qual era a profissão do João?


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entrevista

CRISTINA MIO U KIT, PINTORA

“A vida tem todas as cores, é como “Muitas dessas obras de restauro têm sido feitas sobre peças antigas, algumas com dois ou três séculos. Gosto muito de desenvolver este tipo de trabalhos, ocupei oito anos com o restauro, conservação e recuperação principalmente de pinturas em fresco, tanto em igrejas cristãs como em templos chineses aqui em Macau, bem como em mais de 40 quadros no Seminário de São José”

A pintora continua a tradição familiar. A mãe é a pintora Un Chi Iam, o pai é o impressionista Mio Pang Fei, considerado um pintor neo-Orientalista. Cristina, a filha, voa por outros caminhos da pintura, outros sonhos, com diferentes influências, novas técnicas, outros abstraccionismos, mensagens de vida em cada gesto desenhado e pintado. Há exemplos, mais de duas dezenas, em exposição individual até dia 28 no Centro de Indústrias Criativas. Nascida em

Xangai, conheceu Macau, juntamente com a família mais próxima, em 1982. Era uma adolescente que desde criança se apaixonara pela pintura, a ela dedicando horas e horas em cada dia. As influências ocidentais terão começado na colina do Castelo de São Jorge, em Lisboa, no Ar.Co (Centro de Arte e Comunicação Visual), onde estudou alguns anos. Os caminhos da arte levaram Cristina Mio U Kit a estudar também restauro em Florença, depois passou por Paris, Ma-

drid, Londres e outras cidades. O apetite cultural imparável faz dela, reconhecidamente, uma pintora a caminho de um amadurecimento rico de influências diferentes que ela abraça e complementa. Esta mostra individual, é apresentada apenas com o seu nome, como é hábito nas suas exposições. Sim, para não ficar demasiado presa a um tema. Quem vem ver esta exposição apercebe-se que existe aqui vários temas, várias séries: sonhos, danças, esperança, amor, alegria. Diferentes diálogos com quem observa os seus trabalhos? Um pouco isso. São mensagens que tenho prazer em transmitir, mas não pretendo que cada mensagem que dou seja entendida da mesma maneira por todos, nem que as interpretações correspondam ao que realmente eu quis transmitir. Cada pessoa tem a sua própria sensibilidade e entende como quiser. Gosto assim. Quando e onde aconteceu a sua primeira exposição? Foi em 1991, em Portugal, na

então Missão de Macau, no ano seguinte a eu ter chegado a Lisboa para estudar no Ar.Co durante três anos. Gostou dessa primeira experiência europeia? Gostei muito. Estudei pintura, design, cerâmica, fotografia, história de arte. Na sua pintura há marcantes influências dos seus pais? Posso dizer que sim, mas acho que influenciando mais o meu pensamento, a minha forma de

olhar a vida, não propriamente o meu estilo de pintura. Quando eu era ainda criança, os pais me incentivaram dando-me a conhecer as bases de como desenhar, de como pintar. Então, isso foi e tem sido muito importante na minha vida. Um pouco mais tarde foram falando comigo sobre a importância das artes, ajudando-me a conhecer muitos pormenores sobre a história da arte e dos artistas. Essa base foi muito boa para mim.


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com Helder Fernando

uma pintura” Sei que alguns museus e galerias de arte em Paris, Madrid, Londres, a entusiasmam e lhe transmitem muito, desde a primeira vez que começou a viajar pela Europa. É verdade, mas também em Espanha, o Museu Rainha Sofia, por exemplo, tal como o Louvre em Paris e os fantásticos museus em Itália, como em Florença e noutras cidades. Também estudou em Itália... Sim, estudei restauro em Florença. E tem trabalhado bastante na área do restauro aqui em Macau em igrejas e templos listados no património mundial. Tenho trabalhado nessa área do restauro e na conservação de frescos. A determinada altura, já casada com cidadão português, regressa a Portugal onde reside e expõe com alguma frequência... Exactamente, nessa etapa em Portugal a minha actividade profissional foi exclusivamente pintar e expor publicamente os meus trabalhos. Nos últimos tempos residimos permanentemente em Macau onde, claro, continuo a pintar e a expor, como é o caso desta mostra no Centro de Indústrias Criativas. Além de trabalhar no

templos chineses aqui em Macau, bem como em mais de 40 quadros no Seminário de São José. Também trabalhei em restauro de esculturas. Muito desse património onde actuei pertence à lista da Unesco como património mundial. Por certo que tem artistas cujas obras a impressionam muito e sejam uma referência para si. A pintura de Matisse no aspecto da cor, o desenho de Michelangelo, mais modernamente, o catalão Tapiès. Naturalmente, sem esquecer Picasso ou, mais recente, Robert Motherwell. Também devo fazer referência a um extraordinário pintor, Liu Hai Shu que foi o professor de meu pai e de minha mãe, o mais importante ou pelo menos um dos mais importantes pintores da China, com uma enorme obra, ele foi o primeiro a abrir uma Escola de Arte em Xangai. Liu Hai Shu foi muito amigo de Picasso em Paris, onde estudou e donde recebeu influência da pintura ocidental trazendo-a para a China, embora nos últimos 20 ou 30 anos antes de falecer se tenha dedicado maioritariamente à pintura de tradição chinesa. Foi um artista de grande importância para a China pois divulgou a pintura

“Gosto de trabalhar sozinha, sem interrupções, de porta fechada, mas não me importo de mostrar os trabalhos ainda não terminados a alguma visita de amigos que tenham curiosidade em ver. Claro que o meu filho, como tem apenas 12 anos, de vez em quando interrompe, por isso prefiro trabalhar em pintura quando ele adormece” Instituto Cultural como editora na Macau Art Net. Fale sobre o seu trabalho no campo do restauro. Muitas dessas obras de restauro têm sido feitas sobre peças antigas, algumas com dois ou três séculos. Gosto muito de desenvolver este tipo de trabalhos, ocupei oito anos com o restauro, conservação e recuperação principalmente de pinturas em fresco, tanto em igrejas cristãs como em

chinesa e abriu esta a outras formas de pintar. Por reflexo, também a mim a pintura deste grande mestre trouxe influências. Quando pinta, em que espaço o faz e em que momentos? Em casa tenho uma sala para o meu trabalho. Por norma pinto pela noite dentro, há mais silêncio, embora goste de ouvir música quando pinto. Música de géneros diferentes conforme o meu humor. Gosto de trabalhar sozinha, sem interrupções, de

porta fechada, mas não me importo de mostrar os trabalhos ainda não terminados a alguma visita de amigos que tenham curiosidade em ver. Claro que o meu filho, como tem apenas 12 anos, de vez em quando interrompe, por isso prefiro trabalhar em pintura quando ele adormece. Nota que o seu filho tem inclinação para a pintura? Ainda não sei bem, mas observo que ele é muito bom no

desenho, faz histórias tipo banda desenhada, algumas vezes faz desenhos lindos. A Cristina pinta de cavalete numa mesa? Pinto no chão, coloco o papel no chão, sento-me, olho para ele, vou conversando mentalmente com o papel ainda em branco até imaginar e concluir o que vou levar à prática. Às vezes acontece que demoro vários dias a iniciar ou a completar uma pintura. Não lhe doem as costas?

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(risos) Doem! Mas tem de ser! Já expôs, em mostra colectiva, com sua mãe. Sim e aprecio muito a pintura dela. Fundamentalmente, tem profundas raízes da pintura chinesa mas também sai desses caminhos em várias obras. Gosto dos desenhos dela, das mulheres chinesas que desenha e pinta. Falam de pintura entre vocês? Falamos muitas vezes, mas não apenas de pintura. Há alguns anos, falávamos mais sobre técnicas de pintura, hoje já não é tão necessário. Falamos das coisas da vida, do que nos rodeia, como observamos o mundo. Peço-lhe que fale, numa frase, sobre a pintura de seu pai, Mio Pang Fei. Uma pintura muito forte com muitas histórias. Cada trabalho de pintura de meu pai é para ser observado longamente. O que é a pintura para si? A pintura é o meu “feeling”, faz parte das minhas grandes emoções. Lembra-se dos primeiros tempos quando a família veio para Macau? Lembro-me muito bem. Não foram tempos muito fáceis, pois não conhecíamos o ambiente, a língua, as pessoas. O meu pai trabalhava muito para que a família pudesse viver sem muitas dificuldades. Poucos xangainenses residiam em Macau, lembro-me de um amigo da família, Lok Hong, caligrafista, especialista em selos e carimbos e também autor de livros. Ele soube da nossa chegada e ajudou-nos muito a entender a vida em Macau. Além de pintura, aprecia muito reflectir sobre experiências vividas. O que é para si a vida? Para mim a vida é uma pintura. Tal como um quadro, tem tons, cores, ambientes diferentes, histórias diferentes. Quando a vida nos coloca perante problemas, dificuldades, as cores são mais escuras. Ao contrário dos bons tempos vividos, com sucesso, alegrias, aí existe outro colorido. Complementarmente, a vida também é memória, fechamos os olhos e recordamos. Sendo a recordação mais bonita ou menos bonita, ela tem cores, isso já é uma pintura na nossa mente.


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o Hoje [r]ecomenda

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[f]utilidades Su doku [ ] Cruzadas

HORIZONTAIS: 1-Tirar o lismo a. Ave-do-paraíso. 2-Pedra-ume. Profissão de fé. 3-Turbilhor, redemoinhar. 4-Símbolo de argo. Belga, coirela. Leite, em alquimia. 5-Qualquer carne. Cada ma das partes ou panos que constituem um lençol. 6-Duas vezes a. Substância formada de sílica e alumina. Tipo emotivo segundo a classificação de Heymans-Le Senne. 7-Elemento de origem grega que significa tempo. Variedade de pano, ingrês. 8-Sujeição de bens imóveis ao pagamento de uma dívida. Prefixo, em vez de in. 9-Acto de ir. Desditoso. 10-Tildar. Geração. 11-Magnetizar, comunicar propriedades magnéticas a. Contr. De senhora. VERTICAIS: 1-Título de arrendamento, em Goa. 2-Planta caparídea do Brasil. Um dos noventa graus do rito maçónico egípcio de Misraim. 3-Cordame que se fixa nas antenas do navio. Pedra quartzosa que exposta á luz apresenta cores vivas e variadas. 4-Aquele que tem mitomania. Prefixo de origem grega que designa privação ou negação. 5-Símbolo de argo. Produzir ira em Antiga moeda de prata, na Índia meridional. 6-Espécie de rã, que vive nas moitas. Idioma da Etiopía. Abrev. de reprovado, usado nos registos da frequência. Escolar ou dos exames. 7- Choramigas e choricas. 8-Suf. indicativo, em química, de um sal formado pela reacção de um ácido. Serra de Portugal. 9-Diz-se da pérola que tem pouco lustre. Dono da casa. 10-Acostumado. Espécie de pato. 11-Elemento de origem latina que significa soro. Aquilo que se dá aos pobres, para os beneficiar.

Soluções do problema HORIZONTAIS: 1-LISMAR. APUS. 2-ACAI. ECTESE. 3-VORTILHONAR. 4-A. TORAO. ADO. 5-NHAMA. RAMO. 6-AA. ARGILA. E. 7-CRON. ENGRES. 8-HIPOTECA. IM. 9-IDA. AZARADO. 10-TILMAR. SEMEL. 11-IMANAR. SORA. VERTICAIS: 1-LAVANACHITI. 2-ICO. HARIDIM. 3-SARTA. OPALA. 4-MITOMANO. AN. 5-A. IRAR. TARA. 6-RELA. GEEZ. R. 7-CHORINCAS. 8-ATO. ALGARES. 9-PENAMAR. AMO. 10-USADO. EIDER. 11-SERO. ESMOLA.

REGRAS |

Insira algarismos nos quadrados de forma a que cada linha, coluna e caixa de 3X3 contenha os dígitos de 1 a 9 sem repetição solução do problema do dia anterior

«T(h)ree», Macau, HK e Portugal

Da aliança entre Portugal, Macau e Hong Kong nasce um disco próprio da era digital em que o conceito é inatacável. O número três é o denominador comum de um disco de intercâmbio entre músicos portugueses e asiáticos que na maioria dos casos nunca contactaram visualmente. A comunicação digital gerou um disco quente nas relações. Como é natural num processo de intercâmbio cultural, o resultado é irregular, mas muito bom.

[ Te l e ] v i s ã o TDM 13:00 TDM News - Repetição 13:30 Jornal das 24h 14:30 RTPi DIRECTO 19:00 Ásia Global (Repetição) 19:30 Ganância 20:25 Acontecimentos Históricos 20:35 Telejornal 21:00 Jornal da Tarde da RTPi 22:00 Novela: O Clone 22:58 Acontecimentos Históricos 23:00 TDM News 23:30 Rushmore 01:00 Telejornal (Repetição) 01:30 RTPi DIRECTO INFORMAÇÃO TDM RTPi 82 14:00 Telejornal 14:30 Nobre Povo 15:00 Magazine Timor Contacto 15:30 Com Ciência 16:00 Bom Dia Portugal 17:00 Camané No Coliseu - Musicais 18:00 Operação Triunfo IV 20:00 Jornal Da Tarde 21:15 O Preço Certo 21:45 Magazine Timor Contacto 22:15 Portugal No Coração TVB PEARL 83 06:00 Taking Stocks and Bloomberg First Up 07:30 NBC Nightly News 08:00 Putonghua E-News 08:30 ETV 10:30 Inside the Stock Exchange 11:00 Market Update 11:30 Inside the Stock Exchange 11:32 Market Update 12:00 Inside the Stock Exchange 12:02 Market Update 12:30 Inside the Stock Exchange 12:35 Market Update 13:00 CCTV News - LIVE 14:00 Market Update 14:40 Inside the Stock Exchange 14:43 Market Update 15:58 Inside the Stock Exchange 16:00 Guess What? Timothy & Annabel 16:30 ZingZillas 17:00 Olivia 17:30 Ben 10 Alien Force 18:00 Putonghua News 18:10 Putonghua Financial Bulletin 18:15 Putonghua Weather Report 18:20 Financial Report 18:30 Transworld Sport 19:00 Football Asia 19:30 News At Seven-Thirty 19:50 Weather Report 19:55 Earth Live 20:00 Money Magazine 20:30 Placido Domingo My Greatest Roles 21:20 6 billion Others 21:30 Weekend Blockbuster: Norbit 22:30 Marketplace 22:35 Weekend Blockbuster: Norbit 23:40 World Market Update 23:45 News Roundup 00:00 Earth Live 00:05 Dolce Vita 00:30 Late Late Show: Thank You For Smoking 02:10 The Pulse 02:35 European Art At The MET 03:00 Bloomberg Television 05:00 TVBS News 05:30 CCTV News ESPN 30 11:30 (LIVE) Pac 10 Men’s Basketball Arizona vs. Washington 13:30 ABL game 14:00 2010 World Cup Of Trick Shots 15:00 US Open 9-Ball C’ship 2010 18:00 Football Asia 18:30 Castrol Football Crazy 19:00 Players Lives 19:30 (LIVE) Sportscenter Asia 20:00 ABL game 20:30 Football Asia 21:00 (LIVE) AFC Asian Cup 2011 Quarterfinal 23:30 (Delay) Tour Down Under Daily Highlights

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STAR SPORTS 31 08:00 (LIVE) Australian Open 2011, Mens / Womens 3rd Round 20:00 Full Throttle 2010/2011 20:30 Hot Water 2010/11 21:30 (Delay) Score Tonight 22:00 (Delay) Australian Open 2011, Day #5 Highlights 23:00 Sport Express 23:30 Football Asia 00:00 (LIVE) AFC Asian Cup 2011 Quarterfinal

MGM CHANNEL 43 12:15 Mission of the Shark 14:00 The Tenth Man 15:45 Ruby Jean and Joe 17:30 Love Bites 19:15 Igby Goes Down 21:00 Real Men 22:30 Chains of Gold 00:15 Goodbye Supermom

STAR MOVIES 40 12:15 Soul Men 13:55 The Brothers Bloom 15:55 Gamer 17:30 Battle In Seattle 19:15 Lies & Illusions 21:00 The 6Th Day 23:10 When In Rome 00:50 Drag Me To Hell

DISCOVERY CHANNEL 50 13:00 Mythbusters - Coffin Punch 14:00 River Monsters - Alaskan Horror 15:00 Culinary Asia - Malaysia 16:00 Ghost Lab 17:00 Dirty Jobs - Bug Breeder 18:00 Factory Made 19:00 Construction Intervention - Al Di La 20:00 Mythbusters - Dirty Vs. Clean Car 21:00 Inside 22:00 On The Case - Hit Or Miss 23:00 Most Evil - Jealously 00:00 Ghost Lab 2

HBO 41 13:00 Once Upon A Time In Mexico 14:40 New York Minute 16:10 Gold Diggers: The Secret Of Bear Mountain 17:40 A Memory In My Heart 19:10 A Walk To Remember 21:00 Nights In Rodanthe 22:45 Ninja Assassin 00:35 Sin Nombre CINEMAX 42 12:00 Lois & Clark: The New Adventures Of Superman 14:00 Evil Never Dies 16:00 Sheena 18:00 Faith Of My Fathers: The John Mccain Story 19:45 Men Of Respect 22:00 Freejack 00:15 Journey To The Center Of The Earth

NATIONAL GEOGRAPHIC CHANNEL 51 13:00 Megacities: Jakarta 14:00 Nazi Death Squads 15:00 Lockdown - Inside A Mexican Prison 16:00 Britain’s Underworld - Manchester 17:00 Nat Geo’s Amazing Moment - Close Encounters 18:00 China’s Lost Pyramids 19:00 True Stories - Crash 20:00 Megacities: Jakarta 21:00 Nat Geo’s Amazing Moment - Most Dangerous Moments 22:00 Mystery of The Silver Pharaoh 23:00 Murder Dolls - Murder Dolls 00:00 True Stories - Crash ANIMAL PLANET 52 13:00 Giant Python Invader 14:00 Saba And The Rhino’s Secret 15:00 Season Of The Spirit Bear 16:00 Growing Up...Baboon 17:00 Animal Cops Phoenix - Breeding Trouble 18:00 Animal Cops South Africa 19:00 Animal Planet’s Most Outrageous - Busch Gardens 20:00 Australia’s Lost Eden 21:00 Animals Of The Chinese Zodiac 22:00 Growing Up...Lynx 23:00 Animal Cops Phoenix - Trailer Park Tragedy 00:00 Australia’s Lost Eden HISTORY CHANNEL 54 13:00 Evolve - Speed 14:00 Food Tech - Chinese Take Out 15:00 Monster Quest - Piranha Invasion 16:00 Mysteryquest - Alien Cover-Up 17:00 Pawn Stars 18:00 Shockwave 19:00 Mega Disasters - Oil Apocalypse 20:00 Heroes Under Fire - Jungle Ambush 21:00 Baghdad Diary 23:00 Christmas Cargo 00:00 UFO Hunters - The NASA Files STAR WORLD 63 13:00 Junior MasterChef Australia 13:50 Australia’s Next Top Model 14:40 How I Met Your Mother 15:00 Rules Of Engagement 15:30 Castle 16:20 Private Practice 17:05 The Bachelorette 18:00 AMERICAN IDOL 19:00 Masterchef US 20:00 AMERICAN IDOL 20:30 True Beauty 21:20 AMERICAN IDOL 21:50 The Bachelorette 22:45 Australia’s Next Top Model 23:40 Grey’s Anatomy 00:35 AMERICAN IDOL

(MCTV 50) Discovery Channel 20:00 Mythbusters - Dirty Vs. Clean Car

Informação Macau Cable TV


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[O]bjectiva Gonçalo Lobo Pinheiro

21 Raio [X]

Arrítmico / Erótika mar

Ela queria espantar a solidão Ele não sabia o que queria Estava sentado, quieto. Parado, aconchegado em si, com frio. De costas, no vão de escada. (Enquanto isso, ela trepava para a cama em posição de gato. Frenética. Quente e nua)

As gigantescas Torres Petronas de Kuala Lumpur (Malásia, 2010)

Para[ ]comer • Pérola 3/F, Sands, Largo de Monte Carlo, no.203 8983 82222888 3352 http://www.sands.com.mo • VINHA Alm Dr. Carlos d' Assumpção 393 r/c AC 2875 2599vinha@macau.ctm.net http://www.vinha.com.mo • FAT SIU LAU (SINCE 1903) Av.Dr.Sun Yat-Sen,Edf.Vista Magnifica Court Rua de Felicidade No.64, R/C Macau 2857 3585fsl1903@macau.ctm.net http://www.fatsiulau.com.mo

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the tourist Cineteatro | PUB

Sala 1 the tourist [b] Um filme de: F. Henckel von Donnersmarck Com: Angelina Jolie, Johnny Depp 14.30 shaolin [c] (Falado em putonghua/cantonense, legendado em chinês e inglês) Preço: Mop50.00 Um filme de: Benny Chan Com: Andy Lau, Nicholas Tse, Jackie Chan 16.45, 19.15, 21.45

• Fogo Samba VENETIAN-Grand Canal Shoppes Apt 2412 2882 8499

[ ] Cinema

SALA 2 let the bullets fly [C] (Falado em putonghua, legendado em chinês e inglês) Um filme de: Wen Jiang Com: Yun-fat Chow, Wen Jianf, You Ge 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 Sala 3 karigurashi no arietty [a] (Falado em cantonense) Um filme de: Hiromasa Yonebayashi 14.30, 16.30, 19.30

if you are the one 2 [b] (Falado em putonghua, legendado em chinês e inglês) Um filme de: Xiang Feng Com: You Ge, Hsu Chi 21.30

De olhos vazios tentava suster a respiração. Não tinha sentimentos. Estava podre por dentro. (E ela cheia de lume, escaldava. O suor escorria-lhe pelo rosto em gotas sensuais) Levantou-se e olhou para cima como se à procura de alguém com quem pudesse gritar. Ou de respostas. (Nela, a água fazia um caminho excitado aos zig-zags pelo corpo, abusava dos seus contornos) Ele continuava sentado nas escadas. (Ela deitou-se. Húmida) Estava escuro. Ele bêbado, discutia sozinho proliferando em tons de ira. O ruído aumentou no vão da escada. (Ela levava a mão ao meio das pernas, agitava-a. Gemia. Aumentou o ruído na cama) E o coração dele batia rápido ao sabor da exaltação nervosa. Dentes e punhos cerrados. Olhos semifechados. Rugas furiosas em redor da boca franzida da fúria. Perdiam-se na noite os berros sem destinatário. (E a ela caía-lhe a cabeça para trás, reviravam-se-lhe os olhos. Lambuzava a boca e trincava os lábios por entre momentos boquiabertos. Suava mais e mais sem parar a mão e as ancas) A mão no peito. Falta de ar. Arritmias. (E a ela o coração a bater tremido pelo prazer) E de repente parou. O álcool espraiou-se no sangue e casou com a fúria. A solidão. O nervosismo. (E o dela também. Misturado num cocktail de cocaína com prazer, suor e tentativa de matança à solidão) Ambos morreram. Ele arrítmico. Ela erótika.

[Dizem que há Mar e mar...]


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opinião edi tor i a l Carlos Morais José

A conversa e os surdos

As presidenciais em Portugal dão o retrato do país: uma miséria. Sobre Cavaco Silva, tenho expressado ao longo dos anos a minha opinião, de tal modo negativa que estou cansado de o fazer. Representa o que os portugueses devem esquecer. Manuel Alegre entristece-me. A sua candidatura cheira a bafio, a livro velho, a uma cartilha abusada e desusada. Fernando Nobre faz figuras ao nível do famoso bolo-rei de Boliqueime. Francisco Lopes navega no limiar do drama estafado. Defensor Moura partiu tarde e sem bagagem. José Manuel Coelho devia ter um programa de comédia política na televisão. Todos eles representam um Portugal com o qual não há identificação possível. Se estes são os nossos “melhores”, então não é difícil perceber porque razão o país está em crise. Para a comunidade portuguesa de Macau, as eleições presidenciais só não igual ao litro porque vamos ser representados pelo senhor que for eleito, em diversos fóruns internacionais. Recomendamos o voto em branco, em sinal de asco pelas alternativas que nos propõem. Neste ponto, nunca o delírio eleitoral de José Saramago teve tanta razão de ser. Em Portugal, todos falam e todos são surdos. * Quando estive na Índia li um artigo no Mumbay Times ou coisa que o valha sobre um tema interessante: os super-heróis. Garantia o autor do texto, nacional indiano, que os seus conterrâneos, ao contrário dos americanos, não precisavam desses personagens de banda desenhada porque a mitologia indiana é tão rica em personagens com poderes sobrenaturais que o problema está resolvido. Assim, os Estados Unidos teriam tido a necessidade de criar os superheróis para compensar a falta de um corpus mitológico. Verdadeira ou não, esta teoria

não deixa de colocar uma questão interessante: terão os americanos prescindido das suas referências culturais europeias e/ou outras, sentindo a necessidade de criar uma nova mitologia, adaptada ao mundo novo que construíram? Repare-se que uma das características mais “terríveis” dos superheróis é a sua solidão… Ao contrário do herói mítico tradicional, que existe em rede, o da banda desenhada é, quase sempre, um indivíduo solitário que não pode partilhar o seu “segredo”… Vem isto a propósito da viagem do presidente chinês, Hu Jintao, aos EUA, considerada uma das visitas mais importantes de sempre de um líder do País do Meio ao país mais poderoso do mundo. Se considerarmos quem vai estar em confronto – a civilização mais antiga do mundo e um modelo de sociedade radicalmente capitalista –, temese que, em aspectos essenciais, estejamos perante um diálogo de surdos. Não nos referimos, obviamente, ao carácter económico e financeiro das conversações, nem se quer à questão dos direitos humanos. Pelo contrário, situamo-nos noutra área, talvez mais subtil, directamente relacionada com as respectivas concepções do espaço, do tempo e do mundo. A guerra da cultura está por travar. A China nunca entrou nela. Talvez os chineses não acreditem na possibilidade de difusão dos seus valores éticos e estéticos

c arto o n por Steff

Os chineses usam uma táctica conhecida por quem leu a “Arte da Guerra”. Como sabem estar ainda em desvantagem, pouco se mexem, deixam o inimigo voltejar e confundir-se. Esperam pelo seu desgaste. Isto enquanto vão, pouco a pouco, colocando as suas peças no sítio certo e por isso não tenham realmente investido. Pelo contrário, no mundo contemporâneo, os Estados Unidos ganharam há muito esta guerra, nomeadamente através de produtos culturais globalizados, como música e filmes, afinal os grandes veículos do inglês no planeta. Hollywood tem sido mais importante para difundir os valores americanos e ocidentais, um pouco por todo o lado, do que qualquer outro instrumento conhecido. Recentemente, o filme “Avatar”, uma chuchadeira passada num

cimeira china-eua

planeta inventado, bateu nas bilheteiras da China “A Fundação da República Popular”, um filme sobre a guerra de libertação, com Mao Zedong como personagem principal. Este facto, diz-se, constituiu um rude golpe no orgulho da indústria cinematográfica chinesa. Os chineses usam uma táctica conhecida por quem leu a “Arte da Guerra”. Como sabem estar ainda em desvantagem, pouco se mexem, deixam o inimigo voltejar e confundir-se. Esperam pelo seu desgaste. Isto enquanto vão, pouco a pouco, colocando as suas peças no sítio certo. Enquanto os EUA têm tropas em vários cenários de guerras que iniciaram, a China pode calmamente sentar-se no desrespeito por alguns dos direitos humanos, nomeadamente os que se encontram mais relacionados com a participação política. Quem está na origem de uma guerra contra a opinião da ONU, não tem depois estatuto moral para acusar outrem. Obama encontrou assim o seu país: nunca a América teve uma reputação tão baixa no plano internacional, foi tão odiada e incompreendida no resto do mundo. Conversa de surdos, portanto. Mas que, no entanto, não têm outro remédio senão entenderem-se. Mas que vai custar, vai... * O folhetim do metro ligeiro vem provar uma coisa: é muito difícil ao governo da RAEM apadrinhar um projecto desta dimensão sem que incorra em problemas, questiúnculas, desconfianças, dúvidas, incertezas. Claro que todos sabemos que os altos valores na mesa aguçam variadíssimos apetites, mas é pena que o executivo não seja capaz, de forma normal, manobra a carruagem com menos percalços. Uma vez mais – desta vez sem a presença do inefável Ao Man Long – as grandes obras em Macau revelam-se problemáticas, desta vez certamente que não por causa de “corrupções” mas de razões que a razão leva tempo a entender. Quando um deputado levanta a sua voz e estabelece um terreno onde fervilham dúvidas, como fez Pereira Coutinho esta semana, é talvez caso para começar a lamentar o desfecho de toda esta situação. O governo dificilmente poderá ficar indiferente e assobiar para o lado. Os interesses da população exigem uma transparência total e absoluta. Exigiriam que este processo de adjudicação deslizasse sobre rodas. Mas este metro ligeiro está a demorar demasiado tempo a “encarrilar”. Em Macau, o governo ouve muito mas escuta pouco.


Ter muito é o mesmo que não ter nada, se esse muito para Padre Manuel teixeira [1912-2003]

nada serve na vida.

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u m gr i to n o des er to Paul Chan Wai Chi*

h

José Mourinho é o melhor treinador

á quatro grandes ligas europeias de futebol, com os jogos da Premier League a serem os mais emocionantes e difíceis entre todas elas. Quanto aos espanhóis de La Liga, há apenas dois possíveis vencedores, desde que a temporada teve início. Em termos de resistência, o Barcelona é o mais poderoso. A razão pela qual o Real Madrid é capaz de competir com o Barcelona é José Mourinho, melhor treinador do mundo seleccionado pela FIFA recentemente. Depois de José Mourinho ter treinado o FC Porto e vencido a Taça UEFA e a Liga dos Campeões, comecei a prestar atenção ao trabalho dele. Seguiu-se o Chelsea, de Inglaterra, e o Inter de Milão, de Itália, onde José Mourinho foi capaz de levar as duas equipas numa caminhada de sucesso. Pelo contrário, quando o Chelsea foi treinado por Avram Grant e o Inter de Milão estava sob a batuta de Rafa Benitez, estes dois treinadores acabaram por ser demitidos. Por exemplo, durante esta temporada, o Inter de Milão não tinha um desempenho tão bom comparando com o tempo em que José Mourinho foi seu treinador. Este caso mostra que o treinador de uma equipa de futebol é a pessoa mais importante de todas. José Mourinho sabe como ninguém como explorar os pontos fortes da sua equipa e os pontos fracos do adversário. É um estudioso do futebol e dos jogadores, seleccionando sempre aqueles que estão realmente em boas condições para jogar e não tendo qualquer receio de deixar de fora as estrelas da companhia. O treinador português também faz um esforço para juntar o máximo de informações sobre os jogadores de outras equipas e, em seguida, entregar essas informações aos jogadores da sua própria equipa, com o intuito de chegar a estratégias específicas de implantação. Na última Liga dos Campeões, o Inter de Milão derrotou o Barcelona sob sua orientação. Na primeira volta de La Liga, o Real Madrid derrotou o Barcelona. Segundo a minha opinião, o resultado é um planeamento deliberado. José Mourinho quer o orgulho do Real Madrid para aprender uma lição a cada jogo. Um bom treinador é capaz de transformar um pedaço de pedra em ouro. Pelo contrário, um treinador de raciocínio lento levaria a

A vitória ou a derrota de uma equipa de futebol está intimamente ligada com o desempenho do seu treinador, enquanto que a capacidade de liderança de um governo determina a eficácia da sua administração. Macau não tem uma pessoa como José Mourinho. Para o Chefe do Executivo, que substituiu Edmundo Ho, como foi o seu desempenho durante os últimos 12 meses? Se as pessoas virem bem a última auscultação pública acerca do trabalho do Governo e os membros que o compõem, vão saber a verdade equipa de futebol à desgraça. Durante os primeiros dias da temporada, o Inter de Milão contratou Rafa Benitez como treinador. Eu já sabia que era uma decisão errada ao olhar para o desempenho do Liverpool sob sua orientação. Rafa Benitez não tem qualificações para ser treinador do Inter de Milão. A vitória ou a derrota de uma equipa de futebol está intimamente ligada com o desempenho do seu treinador, enquanto que a capacidade de liderança de um governo determina a eficácia da sua administração. Macau não tem uma pessoa como José Mourinho. Para o Chefe do Executivo, que substituiu Edmundo Ho, como foi o seu

desempenho durante os últimos 12 meses? Se as pessoas virem bem a última auscultação pública acerca do trabalho do Governo e os membros que o compõem, vão saber a verdade. Um levantamento público indicou que o prestígio do Chefe do Executivo caiu poucos pontos percentuais, o que não é nada comparável ao resultado obtido pela secretária da Administração e Justiça, que obteve um prestígio muito menor do Chefe do Executivo. No entanto, o Governo da RAEM não consegue pensar e ver os seus erros, nem tão pouco é capaz de corrigi-los. O Governo não sabe como substituir os funcionários existentes por outros mais competente. Limita a

criar mais e mais departamentos, bem como mais e mais comissões para compensar o que os serviços existentes não conseguem alcançar. Por exemplo, o culto dos porta-vozes em conferências de imprensa que foi instituído ou as funções da Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça que nunca atingiram o pleno funcionamento, fizeram com que o Governo acrescentasse outro novo órgão, a Direcção dos Serviços de Reforma Jurídica e do Direito Internacional para reforço. Quando o Conselho Executivo e todos os seus conselheiros seniores são incapazes de lidar com as políticas, o Centro de Estudos Estratégicos para o Desenvolvimento Sustentável acaba por ser criado para suprir a falta de novas políticas. Os responsáveis deste organismo são os amigos de confiança do Governo e, portanto, a sua mentalidade permanece assim inalterada. A maneira como o Governo lida com estes casos é comparado a 11 jogadores de futebol que são incapazes de desempenhar o melhor possível durante um partida de futebol. Em vez disso, o treinador chama mais e mais jogadores e substitui um jogador por outro continuamente. No final, há um excesso de jogadores no campo, enquanto que as despesas do clube de futebol disparam para níveis elevados sem que haja uma melhora no desempenho de seus jogadores não melhorar. A razão é que os novos jogadores já estiveram nessa equipa no passado. É inútil para as pessoas recrutar sem parar. Quando o Governo não pára para maximizar a experiência e a capacidade daqueles que já estão como funcionários públicos, o resultado da contratação de pessoas pelo favoritismo é que os incompetentes de qualquer forma sabem que mais tarde ou mais cedo acabam promovidos, enquanto outros mais capazes são deixados para trás. Basta ver o caso de cessação de funções dos dois ex-adjuntos do Comissário Contra a Corrupção. A decisão oficial foi mantida em segredo e de alguma forma desconhecida do público. Todos os tipos de incidentes que aconteceram serviram para ilustrar que o actual líder a assumir a liderança da administração não é definitivamente uma pessoa como o José Mourinho. *Deputado e presidente da Associação Novo Macau Democrático

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José editor Vanessa Amaro Redacção António Falcão; Filipa Queiroz; Gonçalo Lobo Pinheiro; Kahon Chan; Joana Freitas; Rodrigo de Matos Colaboradores Carlos Picassinos; José Manuel Simões; Marco Carvalho; Maria João Belchior (Pequim); Rui Cascais; Sérgio Fonseca Colunistas Arnaldo Gonçalves; Boi Luxo; Correia Marques; Gilberto Lopes; Hélder Fernando; João Miguel Barros; Jorge Rodrigues Simão; José I. Duarte; Marinho de Bastos; Paul Chan Wai Chi; Pedro Correia Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges; Catarina Lau Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia António Falcão; António Mil-Homens; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Laurentina Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Av. Dr. Rodrigo Rodrigues nº 600 E, Centro Comercial First Nacional, 14º andar, Sala 1407 – Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


Julião, cuidado com a net.

Lixo burocrático

A importação de uma máquina que converte lixos domésticos orgânicos em fertilizantes está a ser entravada pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), alegadamente por falta de uma avaliação do impacte ambiental do equipamento e de quaisquer normas oficiais para referência. Além de milhões de dólares destinados à investigação e fundos de poupança de energia, o deputado da Assembleia Legislativa (AL) Chan Meng Kam questionou se o organismo governamental tinha verdadeiros padrões ambientais a serem seguidos pela indústria. Chan Meng Kam recebeu recentemente uma queixa de um residente acerca de problemas em lidar com o Governo. Desta vez, a reclamação era sobre a importação de um equipamento que recicla resíduos orgânicos de cozinha em fertilizantes. O importador enviou cartas à DSPA e ao Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) acerca das preocupações com o tratamento de lixos, mas nenhuma das perguntas foi respondida e, quando o importador comprou o equipamento e o candidatou a licenças comerciais junto da Direcção dos Serviços de Economia (DSE), a DSPA exigiu o recrutamento de uma empresa de consultoria para realizar uma avaliação de impacte ambiental “para referência”, mas o organismo não foi capaz de apresentar quaisquer normas para o importador levar em conta. O importador acusa os serviços governamentais de tomar decisões anti-científicas, o que desestimula o sector privado de adoptar tecnologias verdes. Na sua interpelação escrita, o deputado disse que não iria comentar este caso particular, mas levantou dúvidas quanto à eficácia das vastas despesas da DSPA em campanhas promocionais, investigações e seminários. Chan exigiu que a DSPA explicasse e ilustrasse com exemplos como é que fundos de 51 milhões de patacas destinados a “investigação” têm beneficiado o desenvolvimento das indústrias ambientais em Macau. Não havendo lei em vigor sobre as normas e autoridade das avaliações de impacte ambiental, o deputado inquiriu como é que essas avaliações eram realizadas no momento actual. - K.C.

a fechar Wikileaks Banqueiro detido na Suíça

A polícia suíça deteve o banqueiro Rudolf Elmer que, na segunda-feira, entregou ao site WikiLeaks informações confidenciais de importantes clientes do banco em que trabalhou, o Julius Baer. Em comunicado a procuradoria-geral da Suíça informa que a detenção se deve a suspeitas de que Elmer terá violado a lei de sigilo bancário vigente no país que obriga a manter em segredo tais informações. Elmer, entretanto despedido, foi responsável por várias operações da instituição nas ilhas Caimão e entregou ao Wikileaks alegas provas de negócios offshore ilegais de vários clientes.

Presidenciais 2010 Nobre com discurso inflamado

Fernando Nobre dramatizou o seu discurso como nunca. Em Coimbra, voltou a citar Martin Luther King, mostrando que fala a sério quando diz que não desiste. “Não é possível demover-me da minha intenção. Só há uma maneira, nessa altura ousem fazê-lo e verão o que o povo português fará. Dêem-me um tiro na cabeça, porque sem tiro na cabeça eu vou para Belém!”, exclamou. Num discurso inflamado, o candidato falou directamente para Cavaco: “O povo quando olha para si vê crise, medo, angústia e um passado que não quer mais. A partir de agora é entre o senhor e eu que se vai decidir a segunda volta”, frisou Nobre, que voltou a perguntar a Manuel Alegre se vai desistir a seu favor.

Não te preocupes, a minha vida é uma...

... devassa

!!!

sexta-feira 21.1.2011 www.hojemacau.com.mo

Vencedor do concurso do metro nega que parceria chinesa se deva a razões políticas

Mitsubisho de sete cabeças Kahon Chan

kahon.chan@hojemacau.com.mo

O fornecedor de sistemas para o metro ligeiro de superfície de Macau – a japonesa Mitsubishi – que enfrenta um desafio judicial das concorrentes alemã (Siemens) e canadiana (Bombardier), garantiu que a empresa estatal chinesa de construção com quem estabeleceu parceria a meio do processo de concurso foi escolhida para “optimizar” o design e as obras, não tendo a ver com a modificação da Ponte Sai Van, nem com jogadas políticas. A Mitsubishi organizou uma comunicação à imprensa ontem – cinco dias depois de uma manchete do jornal “Ou Mun” ter defendido a experiência e capacidade do gigante industrial japonês para construir um sistema automático de transporte de passageiros – com a presença de representantes do Gabinete para as Infra-estruturas de Transportes (GIT). Adornada com panfletos ilustrados com comboios, aeronaves regionais, navios de cruzeiro e naves espa-

ciais, a comunicação da empresa nipónica reiterou que tinha a experiência e o “know-how” para construir um sistema automatizado fiável de transporte de pessoas sobre pneus de borracha, acrescentando que quatro dos principais aeroportos dos Estados Unidos tinham optado pelo seu sistema na última década, em detrimento dos oferecidos pela Bombardier. A respeito das modificações na Ponte Sai Van, a Mitsubishi esclareceu que tinha a sua própria equipa de especialistas em engenharia e construção de pontes suspensas, assim como já tinha também construído

um sistema automatizado de transporte de passageiros com pneus de borracha chamado “Yurikamome”, através da Ponte Arco-Íris, na Baía de Tóquio, no início dos anos 90, um desafio semelhante ao da Ponte Sai Van. Embora seja de destacar que, não apenas o tabuleiro inferior da ponte da capital japonesa é constituído de armações de aço, em vez dos tubos de betão da ponte Sai Van que fazem da ventilação um obstáculo, como a Ponte Arco-Íris foi já construída com os carris de Tóquio. Um relatório de viabilidade realizado pela conceituada empresa de engenharia de origem britânica

Arup atesta que as modificações para emergência e evacuação são essenciais no projecto de tubos de betão. Seja como for, a Mitsubishi continuou a defender que os estudos para o seu “Crystal Mover” já provaram dispensar qualquer reforço estrutural e manteve que iria levar a cabo as alterações sem necessidade de ajuda externa – nem mesmo o grupo China Railway, que assinou um acordo de cooperação com a Mitsubishi em Junho de 2010, com o concurso a decorrer. Takayuki Hishinuma, directorgeral do Departamento de Negócios de Sistemas de Transporte, apressou-se a desmentir que tivesse havido qualquer intenção política por trás da escolha de parceiro. “O nosso parceiro não é um especialista em pontes. Tem a capacidade, mas o nosso principal interesse em trabalhar com eles não tem a ver com tecnologia de pontes nem com política. Esta foi uma competição muito apertada e o design óptimo e o trabalho de construção para este projecto são muito importantes.”

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Consulado português em Marselha

Unidos através de casamento, ou não “Instruções superiores” foi a justificação dada pelo Consulado Português de Marselha, depois de ter impedido a realização de um casamento homossexual entre dois cidadãos portugueses. A Assembleia da República pediu uma explicação de carácter urgente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, exigindo saber quais as leis aplicados nos consulados portugueses. A questão voltou ontem a ser levantada na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias por um deputado do PCP. Osvaldo Castro, presidente da Comissão, disse ter conhecimento do assunto e salientou a impossibilidade da celebração de casamentos homossexuais nos consulados

baseados nos países cuja lei não o permite. Em Macau, para um eventual pedido de casamento entre cidadãos portugueses do mesmo sexo “teria que ser aplicada a lei”, defende Manuel Cansado de Carvalho, cônsul português no território. Apesar de deixar claro que não gosta de responder a questões hipotéticas, e uma vez que não houve intenção deste tipo de celebração na RAEM, Manuel Cansado de Carvalho salienta ainda que “teria que ser analisado dependendo do caso, porque há questões que impedem o casamento homossexual tanto quanto há questões que impedem o heterossexual”. Em Portugal, a lei do casamento homossexual entrou em vigor em Junho do ano passado.


Hoje Macau • 2011.01.21 #2294  

Edição do jornal Hoje Macau de Sexta-feira • 21 de Janeiro de 2010 • ANO IX • Nº 2293

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