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MOP$10

SEXTA-FEIRA 20 DE JULHO DE 2018 • ANO XVII • Nº 4097

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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

JUSTIÇA

OS PODERES DO CONSELHO

NA SOMBRA DA MEDICINA

DESPERDÍCIO DE BEIRA-MAR PÁGINA 6

PÁGINA 9

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hojemacau

Abalada dos cães É oficial! O IACM vai ficar com os galgos do Canídromo ao abrigo da Lei de Protecção dos Animais. Em comunicado, o IACM acusa ainda a Yat Yuen de tratamento irresponsável dos cães. Parece terminada assim uma novela cruel no dia em que acaba o prazo para a Yat Yuen abandonar o espaço do Canídromo. ÚLTIMA

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

TIAGO ALCÂNTARA

GRANDE PLANO

SAÚDE

ORLA COSTEIRA


2 grande plano

20.7.2018 sexta-feira

JUSTIÇA

A proposta de lei que revê a organização judiciária reforça os poderes do Conselho dos Magistrados Judiciais. Contudo, o deputado José Pereira Coutinho e especialistas do Direito local mostram-se preocupados com a falta de informação e a opacidade dos artigos, que temem poder colocar o conselho numa posição de controlo das decisões dos juízes

AS ARVORES DO

C

GOVERNO QUER REFORÇAR O PODER DO CONSELHO DOS MAGISTRADOS JUDICIAIS

OM a proposta do Governo de alteração à lei de Bases da Organização Judiciária, o Conselho dos Magistrados Judiciais (CMJ) fica com poderes reforçados. Passa a redistribuir processos, escolher os juízes que vão acumular casos e transferir os magistrados para diferentes juízos. O diploma abre também a porta ao Conselho dos Magistrados do Ministério Público (CMMP) para poder ter acesso a processos que estão em fase de inquérito, com a justificação de que é necessário definir a remuneração de um magistrado que acumule diferentes funções. Estas são algumas das questões que estão a ser abordadas pela 3.ª comissão permanente da Assembleia Legislativa e que mal esclarecidas podem alterar o funcionamento do sistema judicial. Além do mais, existe ainda a possibilidade das personalidades presentes nos dois órgãos, que não são agentes da justiça, terem acesso a informação sensível ou mesmo participarem nas decisões com impacto na independência dos magistrados. “A presente proposta de lei tem em vista melhorar a prestação de serviços judiciários. Contudo, subsistem dúvidas e preocupações quanto à violação efectiva do princípio fundamental do juiz natural pelo Conselho de Magistrados Judiciais”, afirmou ao HM José Pereira Coutinho, deputado da comissão. O princípio do juiz natural é aplicado para evitar que haja qualquer espécie de manipulação do julgamento e colocar todos os eventuais arguidos em pé de igualdade face à Justiça. Uma das suas aplicações passa por colocar os magistrados da mesma instância a um nível igual e distribuir os processos através de sorteio. “É necessária mais informação sobre o funcionamento deste e de outros conselhos que intervêm na escolha, colocação, transferência, requisição e outras formas de transferência de juízes, juízos e tribunais inferiores para superiores”, acrescentou ainda o deputado. Segundo o actual regime de acumulação de funções nos

´

tribunais em vigor, o Conselho dos Magistrados Judiciais já tem poderes para designar juízes a exercerem funções em outros tribunais da primeira instância “quando as necessidades [...] o justifiquem”. No entanto, a nova lei vai mais longe, além de poder colocar juízes de primeira instância em outros juízos ou tribunais da primeira instância, o Conselho de Magistrados Judiciais passa também a poder destacar juízes de categoria inferior para exercer funções de categoria superior.

DISTRIBUIÇÃO DA POLÉMICA

“A redistribuição referida no número anterior obedece a critérios prévia e objectivamente fixados pelo Conselho dos Magistrados Judiciais, em deliberação fundamentada, ouvidos pelo presidente do tribunal e os juízes em causa e respeitando o princípio da aleato-

“É necessária mais informação sobre o funcionamento deste e de outros conselhos que intervêm na escolha, colocação, transferência, requisição e outras formas de transferência de juízes, juízos e tribunais inferiores para superiores.” JOSÉ PEREIRA COUTINHO DEPUTADO

riedade da distribuição” consta no artigo da lei. O problema para os legisladores que se mostraram desconfortáveis com esta parte do diploma passa

pelo facto de não terem acesso aos critérios do CMJ, nem haver, nesta altura, garantias sobre como vai ser respeitado o sorteio dos magistrados. “Têm de ser divulgadas mais informação sobre este aspecto”, sublinhou José Pereira Coutinho. “O Conselho Superior de Magistratura vai passar a ter poderes excepcionais porque vai conseguir transferir, colocar juízes a seu belo gosto para outros juízos. Não podemos ignorar o que está previsto no Estatuto dos Magistrados, no artigo 4.º, sobre a independência dos juízes e, no artigo 5.º, sobre a inamovibilidade dos juízes”, alertou. Os artigos da lei mencionados por José Pereira Coutinho definem que os juízes da RAEM “exercem o poder judicial” e “não estão sujeitos a quaisquer ordens ou instruções”. Sobre a imobilidade dos magistrados, a lei define que

CONSELHO DOS MAGISTRADOS JUDICIAIS

PRESIDENTE: SAM HOU FAI (PRESIDENTE DO TUI)

MEMBROS

TONG HIO FONG (ELEITO PELOS MAGISTRADOS)

IO WENG SAN (ELEITO PELOS MAGISTRADOS)

PHILIP XAVIER (NOMEADO PELO CHEFE DO EXECUTIVO)

IO HONG MENG (NOMEADO PELO CHEFE DO EXECUTIVO)


grande plano 3

sexta-feira 20.7.2018

PODER JUDICIARIO ´

os magistrados “não podem ser transferidos, suspensos, aposentados, exonerados, demitidos ou por qualquer outra forma afastados das suas funções”. Porém, o artigo admite que a lei autorize casos de excepção. Também um especialista em direito local, que pediu para manter o anonimato, considerou que a lei é pouco clara: “A ideia, ao olhar para este artigo, é que a primeira parte e a segunda parte são um pouco contraditórias. Por um lado diz que se vai respeitar a aleatoriedade, por outro falam em critérios objectivos e previamente fixados, que colidem com a distribuição. Isto pode colocar em causa o princípio do juiz natural”, apontou a fonte. “Por exemplo, se disserem que o juiz que foi mudado de uma instância para outra, por acumulação de funções, não pode receber processos que envolvam determinados assuntos é um critério objectivo, mas colide com o princípio da distribuição”, explicou. Para este especialista em Direito, o facto do CMJ não ter os critérios de escolha definidos nesta proposta de lei também lhes concede poderes que vão além do que o diploma define. “Nada os impede [CMJ] que adoptem um critério que não respeitam o princípio do juiz natural”, sustentou. Também outro especialista em direito, que pediu igualmente para não ser identificado, se mostrou preocupado com o aumento de poderes do CMJ. “Era um órgão praticamente marginal, mas agora vai passar a ter um grande controlo e poder sobre matérias que estavam sobre o controlo dos juízes”, apontou. “Com muitas destas propostas, esse papel marginal vai acabar mesmo por se transformar num poder de decisão”, explicou, ao HM.

REMUNERAÇÃO SEM CRITÉRIO

Por outro lado, o diploma define que quando acumula funções, o juiz pode ter um acréscimo da remuneração entre 5 e 30 por cento do seu vencimento. No entanto, é o CMJ que vai fixar a percentagem, com base na “quantidade e a com-

“Era um órgão praticamente marginal [CMJ], mas agora vai passar a ter um grande controlo e poder sobre matérias que estavam sobre o controlo dos juízes.” ESPECIALISTA EM DIREITO

plexidade do trabalho efectuado”. O mesmo modelo é adoptado para remuneração dos magistrados do Ministério Público. Porém, nestas situações vai ser o Conselho dos Magistrados do MP a definir a percentagem da remuneração, que também está balizada num intervalo entre 5 e 30 por cento do salário dos magistrados.

Neste momento, a comissão da AL que tem o diploma em mãos, e que é presidida por Vong Hin Fai, já admitiu que vai pedir ao Governo para esclarecer a questão da definição remuneração extra. A forma como lei está escrita coloca em cima da mesa a possibilidade de os membros dos conselhos terem acesso aos processos judiciais, mesmo quando estes estão em segredo de justiça, para averiguar o grau de “complexidade”. Se os acesso for concedido aos conselhos, os membros ficam obrigados a manter o silêncio, uma vez que ficam também abrangidos pelo segredo de justiça. Porém, a questão não é unânime: “Quando se abre este tipo de conselhos a personalidades que não fazem parte dos tribunais, o segredo de Justiça pode ficar sempre enfraquecido, principalmente numa

“Tudo o que não seja criar um valor fixo na remunerações gera situações dúbias. Cria sempre espaço para questionar se o montante é definido porque o conselho gosta, ou não gosta, de um juiz.” ESPECIALISTA EM DIREITO

região como Macau”, defendeu ao HM, um dos especialistas ouvidos. Por sua vez, o também advogado Frederico Rato não quis entrar nas questões mencionadas anteriormente, por não conhecer as alterações propostas em detalhe,

CONSELHO DOS MAGISTRADOS DO MP

mas explicou que o problema do acesso a processos em segredo de Justiça pode ser facilmente ultrapassado. “Não tem de haver obrigatoriamente acesso à informação que esteja sob o segredo de Justiça porque os conselhos poderão pronunciar-se sobre as remunerações apenas quando os processos já forem públicos”, apontou. Outra pessoa da área do Direito disse ao HM que o CMJ pode utilizar as remunerações para compensar juízes que tomem decisões mais alinhadas com os seus desejos. “Esta forma de definir as remunerações deixa uma margem muito grande de manobra, se pensarmos na diferença entre 5 e 30 por cento é muito significativa. Se um juiz ganhar 100 mil patacas, estamos a falar entre a diferença de 5 mil a 30 mil patacas por mês”, começou por explicar. “Tudo o que não seja criar um valor fixo na remunerações gera situações dúbias. Cria sempre espaço para questionar se o montante é definido porque o conselho gosta, ou não gosta, de um juiz”, frisou.

CONSULTA PÚBLICA DA AL PRESIDENTE: IP SON SANG (PROCURADOR DO MP)

MEMBROS

CHAN TSZ KING (PROCURADOR-ADJUNTO)

MEI FAN CHAN DA COSTA ROQUE (DELEGADA DO PROCURADOR)

EDDIE YUE KAI WONG (NOMEADO PELO CHEFE DO EXECUTIVO)

CHUI SAI CHEONG (NOMEADO PELO CHEFE DO EXECUTIVO)

Muitas destas questões foram colocadas pelos deputados durante as reuniões já realizadas da comissão, que está a analisar o documento. Por esse motivo, foram pedidos mais esclarecimentos ao Governo e foram pedidos os documentos de consulta de opiniões, por parte do Executivo, junto do Conselho dos Magistrados Judiciais, o Conselho dos Magistrados do Ministério Público e a Associação dos Advogados de Macau. Também está a decorrer uma consulta de opinião da própria comissão para ouvir a população, que tem como prazo limite o dia 9 de Agosto. A lei foi aprovada a 2 de Julho da AL, com os votos a favor de 27 deputados. Coutinho foi o único presente a abster-se, Sulu Sou (suspenso), Ho Iat Seng, Chui Sai Cheong, Chan Chak Mo e Angela Leong não votaram. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


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ELEIÇÕES LEI PORTUGUESA RESTRINGE CANDIDATOS COM SEGUNDA NACIONALIDADE

Rédea curta Se José Pereira Coutinho quiser candidatar-se novamente à Assembleia da República terá de renunciar ao hemiciclo de Macau antes de oficializar a sua candidatura. É o que consta na nova lei eleitoral, aprovada esta quarta-feira em Lisboa, que elimina os candidatos que tenham “cargos de alta responsabilidade” no país da sua segunda nacionalidade

A

aventura política de José Pereira Coutinho nas últimas eleições legislativas portuguesas seria muito mais complicada, legalmente, se o deputado se candidatasse à próxima corrida eleitoral que elege o Executivo português. As alterações à lei eleitoral e lei do recenseamento eleitoral para os portugueses residentes no estrangeiro, aprovadas esta quarta-feira na Assembleia da República (AR), coloca limites aos possíveis candidatos a deputados que tenham uma segunda nacionalidade. Os novos diplomas eliminam o limite de duas pessoas que se candidatem pelo círculo onde têm a segunda nacionalidade, desde que os candidatos não desempenhem cargos de alta responsabilidades nos países ou regiões onde vivem. Quando se candidatou pelo partido português “Nós! Cidadãos”, em 2015, Coutinho fez campanha política no mesmo período que desempenhava funções de deputado na Assembleia Legislativa (AL), alho que agora não seria permitido com a alteração legislativa. Ao HM, José Pereira Coutinho esclareceu que, de facto, à luz da lei portuguesa, só poderá candidatar-se à AR se antes da oficialização

da candidatura renunciar ao lugar de deputado na AL. Contudo, a nova lei eleitoral de Macau não o deixa ser candidato a parlamentos estrangeiros. Ainda assim, a nova lei eleitoral “não define quais são os cargos importantes de uma forma concreta”, lembrou. Essa definição “fica para discricionariedade da Comissão de Ética da AR”, adiantou Coutinho, que garantiu que não tem planos de participar nas próximas eleições legislativas portuguesas. Em 2015 a candidatura de Coutinho gerou alguma controvérsia e levou Ho Iat Seng, presidente da AL, a referir-se a ele como sendo “uma questão diplomática”. “Na qualidade de deputado de Macau ele deve observar as leis de Macau, porque foi jurado para prestar fidelidade à República Popular da China”, disse, respondendo à pergunta de um eventual

conflito de interesses. A revisão da lei eleitoral em Macau, concluída o ano passado, veio clarificar esta questão, uma vez que não se

José Pereira Coutinho esclareceu que, de facto, à luz da lei portuguesa, só poderá candidatar-se à AR se antes da oficialização da candidatura renunciar ao lugar de deputado na AL. Contudo, a nova lei eleitoral de Macau não o deixa ser candidato a parlamentos estrangeiros

O Chefe do Executivo, Chui Sai On, vai à Assembleia Legislativa (AL) no próximo dia 9 de Agosto, quarta-feira, para responder a perguntas dos deputados “sobre diversos temas, incluindo a acção governativa e assuntos ligados à vida da população”, aponta um comunicado oficial. Antes da apresentação do relatório das Linhas de Acção Governativa, Chui Sai On vai ao hemiciclo duas vezes por ano “para responder aos deputados”, tendo por objectivo de “incentivar o diálogo e a interacção entre o Chefe do Executivo e os representantes da população na AL. Tal “aumenta a transparência da governação e promove um melhor entendimento, por parte do público, sobre o andamento dos trabalhos do Governo”, explica o mesmo comunicado.

RECENSEAMENTO AUTOMÁTICO

GCS

AL Chefe do Executivo responde a deputados no dia 9

permitem candidaturas a cargos semelhantes no estrangeiro. Para Tiago Pereira, antigo secretário-coordenador da secção do Partido Socialista (PS) em Macau, “é positiva” que tenha sido feita “esta clarificação”. A principal mudança ocorrida com a revisão das leis portuguesas prende-se com a introdução do recenseamento automático para todos os que são portadores do cartão de cidadão, além de que o voto postal passa a ser gratuito. Há ainda a possibilidade de os eleitores optarem pelo voto postal ou presencial para as eleições legislativas. José Pereira Coutinho, que é também conselheiro do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), mostra-se satisfeito com esta aprovação da AR. “Os conselheiros sempre lutaram muito para melhorar o recenseamento automático dos eleitores e facilitar a vida das pessoas na sua participação cívica e política.”

Tiago Pereira lembra ainda que estas alterações vão permitir que mais pessoas votem, contrariando os elevados níveis de abstenção que se têm registado nos últimos anos. “[Esta alteração] vai permitir que muitos emigrantes portugueses que querem votar para os círculos nacionais, e que não querem votar para os círculos da emigração, o façam.” Para o antigo secretário coordenador da secção do PS, “há muitos cidadãos residentes no estrangeiro que não querem votar para os círculos da emigração”, uma vez que “no círculo fora da Europa, onde Macau se insere, não se revêm na representatividade conferida por dois deputados para um universo tão grande. Isso permite que exerçam o seu direito de voto para o círculo nacional”. Tiago Pereira espera ainda que se resolvam os problemas relacionados com a falta de envio dos boletins de voto e a não actualização das moradas dos emigrantes, algo que aconteceu em 2015. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


política 5

sexta-feira 20.7.2018

AL GOVERNO PONDERA MANUTENÇÃO DE LISTAS DE ESPERA PARA HABITAÇÃO ECONÓMICA

O

TIAGO ALCÂNTARA

secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, admitiu ontem que proposta de revisão da lei da habitação económica pode vir a manter as listas de espera. Neste âmbito, Sulu Sou referiu que a introdução do sistema de sorteio é contrária ao método científico para a atribuição de fracções económicas e que, “se houver lista de espera, há uma força que pressiona o Governo para a construção de habitações”. Raimundo do Rosário admitiu que pode “ponderar a manutenção e uma lista de espera”. No que respeita à introdução de um mecanismo permanente de candidaturas já disponível para a habitação social, o secretário referiu que é uma questão de prioridades. “Não sou tão ambicioso para introduzir um mecanismo permanente de candidatura à habitação económica. Vamos primeiro resolver as habitações sociais”, referiu. No entanto, e tendo como base a experiência nas fracções sociais, “daqui a uns anos, vamos ver”, disse. O secretário adiantou ainda que o Governo prevê abrir concurso para atribuição de casas económicas em 2019. As informações foram dadas na sessão plenária de ontem de respostas a interpelações orais. Durante a sessão, Ella Lei mostrou-se preocupada com o facto de a atribuição de casas económicas estar neste momento parada, numa altura em que os preços do imobiliário continuam a subir. “Os preços loucos dos imóveis continuam em Macau (...), mas o fornecimento de habitações económicas voltou novamente a zero, o que não permite dar resposta às necessidades da população”, acusou a deputada. S.M.M.

AL SECRETÁRIO DIZ QUE MACAU NÃO TEM ESPAÇO PARA BICICLETAS

Sem pedalada

Andar de bicicleta é algo que está praticamente reservado às ciclovias da Taipa. Na península não há espaço nem para a circulação nem para estacionamento. A ideia foi deixada ontem por Raimundo do Rosário em resposta a Sulu Sou que alertou para a inexistência de uma ciclovia que ligue a península às ilhas

A

península de Macau não tem espaço para bicicletas. A informação foi avançada na reunião plenária de ontem da Assembleia Legislativa (AL) dedicada a interpelações orais. “Neste momento, não vejo condições para a circulação de bicicletas [na península]” revelou o responsável pela Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), Lam Hin San. A afirmação foi dirigida ao deputado Sulu Sou que questionava o Governo acerca da inexistência de uma ciclovia entre Macau e as ilhas. “Em Macau não existe qualquer ligação de bicicleta que ligue as ilhas e a península e a bicicleta é um meio de transporte amigo do ambiente”, apontou. Para Sulu Sou é importante que Macau se torne um território em que a bicicleta, à semelhança do que acontece em muitos países, possa ser um meio de transporte

a adoptar para a deslocação de residentes. “Como é que o Governo pode tornar Macau numa cidade onde se possa utilizar mais a bicicleta?”, questionou. De acordo com o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, a questão ligada à utilização da bicicletas é “difícil”. O secretário justificou: “todos sabem que as ruas são estreitas e tenho que reservar espaço para a circulação de veículos e motociclos”, disse. Além disso, Raimundo referiu ainda que tem

de ter em conta o espaço para estacionamentos, para passagens para peões e “os autocarros também querem corredores exclusivos”. O secretário admitiu que não sabe o que fazer perante este tipo de questões e que o problema é sempre o mesmo. “Não sei o que fazer porque temos espaço limitado, não há espaço”, sublinhou.

OUTRAS PRIORIDADES

Já o responsável pela DSAT, avançou com números para justificar que dar melhores condições para

ESGOTOS DESCONHECIDOS O

s maus cheiros que se sentem junto à ciclovia e à área de lazer na Taipa são devido a águas residuais de origem desconhecida, revelou ontem o director dos serviços de solos, obras públicas e transportes na Assembleia Legislativa. A informação foi dada em resposta à interpelação oral do deputado Mak Soi Kun que denunciava a falta de higiéne daquela área e em concreto, o “cheiro a esgoto”. “Há alguma poluição e na maré baixa dada a exposição ao sol há mau cheiro e temos que fazer um plano para resolver essa situação”, disse Li. No entanto, o problema tem de ser resolvido na sua fonte e “ninguém sabe de onde veem, ao certo, essas águas residuais”, apontou o responsável.

a circulação de bicicletas seria um assunto a pensar no futuro. Para já, “temos cerca de 500 veículos por quilómetro quadrado”, sendo que se forem acrescentadas as bicicletas “a preocupação é muito grande”. Por outro lado, em Macau muitas das vias só têm um sentido pelo que a inclusão de bicicletas é questionável, argumentou o dirigente da DSAT. De acordo com Lam Hin San, o importante neste momento não são as estruturas que permitam esta opção, mas sim “controlar os veículos e manter a fluidez para que não haja congestionamento”. Já o responsável pelo Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais presente na reunião plenária de ontem recordou que “há uma ciclovia na Taipa” e que “se calhar, esta estrutura, não é tão conveniente para os residentes da península”. O deputado Ip Siu Kai, por sua vez questionou se a bicicleta poderia ser tida em conta como um meio de transporte a considerar num território como Macau. “Compreende-se em cidades grandes, mas aqui tenho dúvidas porque Macau, se calhar, não consegue o que os outros conseguem”. A questão surgiu na sequência da interpelação oral do deputado MaK Soi Kun que apelava ao Governo por mais espaços de lazer ao ar livre. Ao deputado, o IACM respondeu com os dados actuais. “Neste momento, há 11 trilhos em Coloane e já temos a via pedonal. A ciclovia em direcção a Coloane vai ser estendida mais 600 metros”, referiu, atingindo um total de 1700 metros. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo


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20.7.2018 sexta-feira

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Notificação n.° 18/DLA/SAL/2018 Notificação sobre a instauração de processos para remoção de publicidade ou de suportes publicitários abandonados e sem licença Verificando-se a existência, em vários locais de Macau, de publicidade ou de suportes publicitários abandonados e sem licença e que causam prejuízo à segurança pública, e considerando no entanto que não se revela possível notificar os interessados, por ofício ou outras formas, notifico, pela presente, nos termos do artigo 10.º, artigo 58.º, n.° 2 do artigo 72.º e artigo 93.° do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 57/99/M, de 11 de Outubro, os interessados da publicidade ou suportes publicitários dos locais abaixo mencionados, do seguinte:

Conteúdo de publicidade AVISO COBRANÇA DA CONTRIBUIÇÃO ESPECIAL 1. Faço saber que, o prazo de concessão por arrendamento dos terrenos da RAEM abaixo indicados, chegou ao seu término, e, que de acordo com o artigo 53.º da Lei n.º 10/2013 <<Lei de Terras>>, de 2 de Setembro, conjugado com os artigos 2.º e 4.º da Portaria n.º 219/93/M, de 2 de Agosto, foi o mesmo automaticamente renovado por um período de dez anos a contar da data do seu termo, pelo que devem os interessados proceder ao pagamento da contribuição especial liquidada pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes. Localização dos terrenos: - Rua de Pequim, n.ºs 66A a 102L e Rua de Xangai, n.ºs 21D a 75I, em Macau, (Edifício I Pou Kok / I Tou Kok); - Estrada de Cacilhas, n.ºs 39 a 49, em Macau, (Edifício Ching Bic Kok – Bloco II); - Estrada Marginal do Hipódromo, n.ºs 1 a 7A e Estrada da Areia Preta, n.º 38B, em Macau, (Edifício Novo Macau Centro). 2. Agradece-se aos contribuintes que, no prazo de 30 dias subsequentes à data da notificação, se dirijam à Recebedoria destes serviços, situado no rés-do-chão do Edifício “Finanças”, ao Centro de Serviços da RAEM, ou, ao Centro de Atendimento Taipa, para os efeitos do respectivo pagamento. 3. Na falta de pagamento da contribuição no prazo estipulado, procede-se à cobrança coerciva da dívida, de acordo com o disposto no artigo 6.º da Portaria acima mencionada.

Aos, 4 de Julho de 2018. O Director dos Serviços de Finanças, Iong Kong Leong

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Rua Central da Areia Preta, Edf. Jardim Kong Fok On, Bl. VII, poste em frente da loja R Rua do Almirante Sérgio, n.o 280, Edf. Fong Son San Chun, 招牌牛肉粉 Bl. III, r/c e poste Avenida 1.º de Maio, n.o 358, Edf. Kam Hoi San, Bl. VIII, Desconhecido parede exterior em frente da loja C Rua de Pequim, n.o 55H, Edf. I San, r/c, poste em frente da 刷卡最平 loja P 泰國佛飾專 Rua 1.º de Maio, n.o 227, Edf. Jardim Kong Fok On, Bl. IX, 門店 r/c, poste junto da loja AH 星星伙督導 Travessa dos Curtidores, n.o 16A, Macau 中心 麵

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Verificando-se a existência de instalações de publicidade sem as licenças válidas, emitidas pelo IACM, este Instituto tem o direito de, nos termos do n.° 1 do artigo 19.º e n.° 2 do artigo 21.º da Lei n.º 7/89/M, notificar os interessados, para que cada qual remova o material e suporte publicitário ilegal, dentro do prazo fixado. Nos termos do artigo 136.º e n.° 2 do artigo 144.º do Código do Procedimento Administrativo, se os materiais ou suportes publicitários não forem removidos no prazo fixado, este Instituto pode executar a remoção directamente ou por intermédio de terceiros, assumindo os responsáveis a obrigação de saldarem as respectivas despesas de remoção. De acordo com a alínea 1) do n.° 1 e a alínea 1) do n.° 2 do artigo 33.º e o n.° 1 do artigo 37.º do Regulamento Geral dos Espaços Públicos, conjugados com o n.° 6 do artigo 3.º do Catálogo das Infracções, aprovado pelo Despacho do Chefe do Executivo n.º 106/2005, os interessados que não procedam à remoção dos materiais ou suportes publicitários no prazo fixado podem ser sancionados por este Instituto com uma multa que varia entre as 700,00 (setecentas) patacas e as 5.000,00 (cinco mil) patacas. Os interessados supramencionados poderão apresentar a sua audiência por escrito, no prazo de 10 dias, contados a partir do dia seguinte ao da publicação da presente notificação, no Centro de Serviços do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, sito na Avenida da Praia Grande, n.os 762-804, Edifício China Plaza, 2.o andar. Para qualquer informação ou consulta dos processos, podem dirigir-se à Divisão de Licenciamento Administrativo do IACM, sita na Avenida da Praia Grande, n.os 762-804, Edifício China Plaza, 2.º andar, zona F, Macau (Telefone para consulta n.o: 8795 2649). Aos 10 de Julho de 2018.

O Vice-Presidente do Conselho de Administração Lei Wai Nong WWW. IACM.GOV.MO


política 7

sexta-feira 20.7.2018

De costas viradas para a costa

S

E M contar com os novos aterros, a RAEM tem 56 quilómetros de costa. Deste total, apenas sete estão a ser aproveitados como zonas de lazer. “Temos cerca de 18 km de orla na península, mas o espaço que reúne requisitos para zona de lazer é de apenas seis por cento”, disse ontem o responsável pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, Li Canfeng na Assembleia Legislativa em resposta à deputada Song Pek Kei. Já nas ilhas, a orla é maior, 38 quilómetros. No entanto, desta área total, apenas seis são adequados ao lazer da população. A deputada questionava o Governo acerca do aproveitamento da orla marítima do território em beneficio da população. Li acrescentou ainda que, com os novos aterros, a orla costeira será aumentada em cerca de 20 quilómetros, destes “80 por cento vão ser aproveitados como corredor de lazer”. Também Sulu Sou se mostrou preocupado com o pouco aproveitamento da costa do território. “A maior parte da área litoral não PUB

RÓMULO SANTOS

Dos 56 quilómetros da costa de Macau, apenas sete são aproveitados para lazer

está a ser usada, o que é um desperdício”, apontou. O deputado referiu também na sua intervenção no hemiciclo que a maior parte da zona costeira está cercada, ou a ser usada para a construção de prédios. Sulu Sou denunciou ainda

os maus cheiros que invadem as zonas costeiras e pediu soluções para tal situação.

À ESPERA DE PEQUIM

De acordo com o coordenador do Gabinete de Estudo das Políticas

do Governo, Mi Jian, estudos recentes mostram que, incluindo os novos aterros , Macau tem 76,7 quilómetros de costa disponível e que está concluído um plano para a sua utilização. “O Governo de Macau concluiu um plano para

o uso das suas áreas costeiras e apresentou-o ao Governo Central para ser aprovado”, disse. A retorno de Pequim poderá chegar brevemente. “Acreditamos que uma resposta será fornecida pelo Gabinete de Ligação local daqui a dois meses ”,revelou Mi. O responsável apontou também que a poluição da água era um problema “difícil de resolver, uma vez que a maioria das águas residuais ou poluentes provinha do continente. “A qualidade da água é muito má e, em muitos casos, não é mesmo potável. Estamos tentando encontrar algumas soluções ”, disse Mi. Mi Jian fez ainda referencia a áreas em que é especialmente difícil intervir e melhorar. O responsável deu como exemplo do Porto Interior, uma área da península de Macau cronicamente afectada por inundações. “Em relação ao Porto Interior, é muito complicado, até porque, devido ao Hato, tivemos de fazer algumas obras que têm algum impacto no nosso plano”, referiu. O coordenador do Gabinete de Estudo das Políticas do Governo sublinhou ainda que as obras que visam controlar as inundações são mais complicadas de concretizar. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo


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20.7.2018 sexta-feira

HATO PROPRIETÁRIOS PODEM ADQUIRIR VEÍCULOS DE DIFERENTES CATEGORIAS

Poder de escolha

Pearl Horizon Lesados querem devolução do dinheiro ainda este mês

Nobre de Carvalho Obras na ponte obrigam a fecho num sentido

As obras de melhoramento dos passeios junto à Estrada Governador Nobre de Carvalho, na Taipa, vão obrigar ao encerramento ao trânsito da ponte com o mesmo nome, aponta um comunicado, que explica que “o troço entre o ‘The Greenville’ e o Armazém da CEM passará a ser de sentido único”, permitindo-se apenas a circulação entre a Rotunda Ouvidor Arriaga e a Rotunda do Istmo. Algumas paragens de autocarro ficarão desactivadas temporariamente, tais como “Largo Ouvidor Arriaga / Edifício Chun Yuet” e “Estrada Governador Nobre de Carvalho”. Além disso, 14 carreiras de autocarros públicos terão o seu percurso alterado. As referidas medidas provisórias de trânsito terão efeito a partir das 10h de amanhã e têm uma duração de 45 dias.

Táxis PSP cria aplicação para receber queixas de passageiros Chama-se “CPSP ePolice” e é a nova aplicação de telemóvel criada pela PSP para receber queixas relacionadas com as infracções cometidas pelos taxistas. De acordo com um comunicado, a PSP explica que tem estado atenta a esta situação e resolveu criar este serviço além da linha aberta já criada para a recepção de queixas.

Os donos dos veículos danificados durante o tufão Hato já não estão obrigados a adquirir uma nova mota ou viatura com a mesma categoria que tinham anteriormente. O Governo fez alterações à lei para que o benefício fiscal seja efectivo mesmo em casos de divórcio ou morte

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proposta relativa ao “Benefício fiscal especial para aquisição de veículos motorizados” foi alterada pelo Executivo no sentido de proporcionar uma maior liberdade aos donos de veículos que foram afectados durante a

passagem do tufão Hato, a 23 de Agosto do ano passado. O diploma ainda está a ser discutido na Assembleia Legislativa (AL) mas, de acordo com o deputado Ho Ion Sang, quem antes tinha uma mota pode agora comprar um carro, caso a situação financeira seja diferente.

“Os proprietários podem agora optar por adquirir uma nova mota ou veículo. Também introduzimos ajustamentos que permitem aos proprietários ter mais escolha”, disse. Um total de 6521 veículos ficaram danificados, o que implicou gastos na ordem das 147

RÓMULO SANTOS

Um grupo de lesados do caso Pearl Horizon assinou uma declaração publicada ontem no Jornal do Cidadão onde pede a devolução, ainda este mês, do montante investido nos apartamentos. A declaração revela que os lesados não estão satisfeitos com as propostas de resolução avançadas pela Polytex e afirmam que, desde que a empresa perdeu a acção em tribunal, não mais assumiu as suas responsabilidades. Além disso, os lesados argumentam ainda que o Governo também tem de assumir responsabilidade na devolução do dinheiro, tal como foi prometido pelos governantes.

Ho Ion Sang, deputado “Os proprietários podem agora optar por adquirir uma nova mota ou veículo. Também introduzimos ajustamentos que permitem aos proprietários ter mais escolha.”

milhões de patacas. Só os carros representaram custos de cerca de 130 milhões de patacas. Esta mudança obrigou a mexidas nos artigos da proposta de lei. “Estamos atentos aos requisitos para a obtenção do benefício fiscal. Antes existiam quatro, um dos quais obrigava à compra do novo veículo com a categoria semelhante ao do anterior”, frisou Ho Ion Sang.

MAIS CASOS PREVISTOS

Outra mudança no diploma, que deverá ser votado ainda antes do fim desta sessão legislativa, passa pela inclusão de situações de divórcio, morte ou separação de bens, para que todos possam continuar a ter acesso ao benefício fiscal. Na prática, os requerentes devem apresentar os documentos comprovativos na Direcção dos Serviços de Finanças. “Reparamos que, no prazo de um ano, se houver alteração da propriedade dos veículos novos, não era permitido na primeira versão da lei [ter acesso ao benefício fiscal], mas essas alterações permitem a continuação desse acesso. É uma solução melhor para os cidadãos”, frisou Ho Ion Sang. De frisar que o número de carros ou motas adquiridos no âmbito deste diploma não podem ultrapassar aquele que foi registado durante o tufão. Esta é uma lei que visa apenas as famílias que ficaram prejudicadas pelo tufão Hato, não estando prevista a inclusão de outros casos ocorridos por outras tempestades tropicais. No caso da ocorrência de novos estragos semelhantes, o Governo promete agir de acordo com a situação e disponibilizar apoio. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

TRABALHO SANDS CHINA GARANTE DAR RESPOSTA A QUEIXAS DE FUNCIONÁRIOS

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S deputados Ella Lei e Leong Sun Iok têm recebido queixas de funcionários da operadora de jogo Sands China relacionados com marcação de férias anuais, trabalho por turnos e o funcionamento do sistema GFL, ligado ao cálculo de velocidade dos cartões que são distribuídos nas mesas, escreveu o jornal Ou Mun. Este sistema permite ainda avaliar o

trabalho desempenhado pelos croupiers. Alguns trabalhadores queixam-se de terem sido repreendidos pelos seus chefes por não responderem às exigências da Sands em termos de velocidade de distribuição de cartões, algo que tem gerado stress no trabalho e dificuldades no controlo do tempo devido aos pedidos dos jogadores. Os funcio-

nários também se queixam que a empresa raramente disponibiliza o período do fim-de-semana, entre sexta-feira e domingo, para tirarem férias, o que causa confusão na organização do trabalho por turnos. Os deputados reuniram com Amy Lee, presidente do departamento de recursos humanos da Sands China, que garantiu que a concessionária tem dado ouvidos

às queixas dos funcionários. Amy Lee explicou que o sistema GFL serve para a recolha de dados e que não são feitas quaisquer punições a trabalhadores neste âmbito. A responsável pelos recursos humanos referiu ainda que a empresa tem disponibilizado o fim-de-semana para a marcação de férias e prometeu uma melhoria no sistema de trabalho por turnos. V.N.


sociedade 9

sexta-feira 20.7.2018

SAÚDE MORTE DE HOMEM CONDUZ AUTORIDADES A CLÍNICA ILEGAL NA AREIA PRETA

Medicina sem fronteiras Um imigrante ilegal que se encontrava em Macau há dois anos morreu dias depois de ter sido atendido numa clínica sem licença. O caso foi revelado, ontem, pelas autoridades e permitiu encontrar o espaço que operava sem licença. A autópsia revelou que a morte não esteve relacionada com o tratamento recebido

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morte de um homem de 44 anos, no Hospital Conde São Januário, conduziu as autoridades a uma clínica ilegal, situada no Edifício Kin Wa, na Areia Preta. O caso foi revelado, ontem, pelos Serviços de Saúde, em conferência de imprensa e confirmado horas mais tarde pela Polícia Judiciária. De acordo com as informações disponibilizadas pelas autoridades, a 15 de Junho o indivíduo que se encontrava há dois anos de forma ilegal no território foi a uma clínica, também ela ilegal, que ficava numa fracção residencial do tipo T2. Perante o suposto médico de 71 anos, que não tem licença nem certificados de formação profissional, o doente queixou-se de dores de garganta e febre. Após uma análise foi-lhe recomendada medicação que o homem de 44 anos tomou. Contudo, no dia seguinte a ser atendido na clínica privada, o homem deu entrada num hospital local, onde acabaria por morrer, já na manhã de 17 de Junho. “O homem tinha como sintomas febre e dores de garganta no dia

15 de Junho, quando foi à clínica ilegal. Na manhã de 16 de Junho desmaiou e foi enviado para o hospital do Governo, onde acabaria por morrer a 17 de Junho”, informou a PJ, em comunicado. “Era um imigrante ilegal e estava no território há mais de dois anos”, acrescentou fonte da polícia, ao HM. Segundo a informação da PJ, a autópsia realizada não permite relacionar a morte com os medicamentos recomendados pelo médico ilegal. Contudo, devido à privacidade do morto, as autoridades não quiseram revelar a causa da morte.

BUSCAS DE UM MÊS

Apesar da morte do trabalhador ilegal de 44 anos ter ocorrido a 17 de Junho, apenas ontem a PJ conseguiu entrar em contacto com o médico ilegal de 71 anos. “Fomos várias vezes à clínica ilegal, mas nunca conseguimos entrar em contacto com o médico. Ontem, finalmente, conseguimos contactá-lo e ele foi interrogado. À PJ admitiu que não tem licença para exercer a profissão, nem licença para operar uma clínica”, revelaram as autoridades O homem é originário do Continente, mas tem residência de Macau. Segundo as declarações que prestou às autoridades, operava a clínica num edifício habitacional desde 2014. Por esta razão, é suspeita de prática de um crime de usurpação de funções, punido com pena de prisão até 2 anos ou multa até 240 dias. No local da clínica ilegal, a equipa de inspecção dos Serviços de Saúde encontrou antibióticos, analgésicos e anti-histamínicos, alguns fora de prazo, e outros equipamentos utilizados para clínica geral. Fonte da Polícia Judiciária “O homem tinha como sintomas febre e dores de garganta no dia 15 de Junho, quando foi à clínica ilegal. Na manhã de 16 de Junho desmaiou e foi enviado para o hospital do Governo, onde acabaria por morrer a 17 de Junho.”

João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

MEDIA PORTADORES DE PASSAPORTE DE MACAU ISENTOS DE VISTO DE TRABALHO PARA A CHINA

ENSINO SUPERIOR REITOR E VICE-REITOR DA UM VISITARAM ANGOLA

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jornal Liberty Times, citado pela Macau News Agency, revela que os jornalistas que sejam portadores de passaporte de Macau, Hong Kong e Taiwan vão ficar isentos de visto de trabalho passado pelas autoridades do continente sempre que quiserem fazer trabalho de reportagem na China. O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, durante um encontro do Conselho de Estado esta quarta-feira. Foi dito pelo governante que as autoridades chinesas vão remover um total de 17 regulamentos administrativos ligados

ao sector empresarial, onde se incluem os vistos de trabalho, ligados aos naturais de Macau, Hong Kong e Taiwan. Tudo para garantir uma maior integração económica a nível regional. Outro exemplo da eliminação de regulamentos é o fim da necessidade de aprovação de investimento estrangeiro na área dos transportes. A ideia defendida por Li Keqiang é que existe a necessidade de diminuir os processos de aprovação para diversos investimentos no país, para que haja um maior desenvolvimento do mercado interno entre os “compatriotas

chineses”, escreveu a Macau News Agency. A vontade das autoridades chinesas passa também por criar novas licenças de negócio para cidadãos norte-americanos que tenham concorrido para investir na China, isto numa altura em que o país enfrenta uma guerra comercial com os Estados Unidos. O jornal Liberty Times escreveu ainda que o processo de candidaturas para fusão ou aquisição de empresas será suspenso de forma temporária e que o Governo Central está a ponderar suspender também os pedidos já existentes.

ONGHUA Song, reitor da Universidade de Macau (UM) e Rui Martins, vice-reitor para a área da investigação da mesma instituição do ensino superior, realizaram uma visita oficial a Angola no âmbito da realização do encontro anual da Associação de Universidades de Língua Portuguesa (AULP). De acordo com um comunicado, o objectivo desta visita relaciona-se com a intenção de fortalecer “a colaboração entre a UM e as universidades de língua portuguesa”, tendo sido assinado um acordo de colaboração com a Universidade Mandume Ya Ndemufayo, cujo reitor, Orlando da Mata, é o actual presidente da AULP.

Num encontro com o embaixador da China em Angola, Cui Aimin, o reitor da UM destacou “a mudança da UM para o novo campus e os esforços na disseminação da história e cultura chinesas, bem como a capacitação de profissionais bilíngues em chinês e português”. O embaixador chinês terá mostrado “muita satisfação com os sucessos da UM na educação da língua portuguesa”. Da reunião com a ministra angolana Maria do Rosário Sambo saiu a ideia de que “as universidades em Angola e a UM devem explorar as áreas de interesse mútuo para uma melhor cooperação, e trabalhar em conjunto para enfrentar os desafios prementes no mundo do ensino superior”.


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20.7.2018 sexta-feira

Ecrã anim CINEMATECA PAIXÃO FILMES DE ANIMAÇÃO CHEGAM À TELA EM AGOSTO

Um total de 14 filmes de animação compõem o cartaz do “Festival de Animação Mundial de Verão”, que estará em exibição na Cinemateca Paixão. A curadoria está a cargo de Jonathan Hung, de Hong Kong

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EPOIS dos filmes portugueses e dos documentários, a Cinemateca Paixão prepara-se para apresentar um novo cartaz a pensar nas férias de Verão dos mais pequenos. O “Festival de Animação Mundial de Verão” acontece entre os dias 11 e 26 de Agosto e apresenta 14 filmes de animação, num trabalho de curadoria de Jonathan Hung, de Hong Kong. De acordo com um comunicado, este festival “traz 14 notáveis animações com uma grande variedade de temas e estilos, que nos garantirá uma maravilhosa viagem ao mundo da fantasia”. Além disso, “pais e filhos poderão aprender a realizar animações simples no ‘Workshop de Animação para a Família’”, que terá a duração de duas horas e que é destinado a crianças e jovens. O workshop, apenas em língua chinesa, decorre no dia 4 de Agosto entre as 15h e 17h. Uma vez que o cartaz é composto por películas que receberam nomeações ou que “ganharam prémios importantes em diversos festivais de cinema de relevo”, a Cinemateca Paixão encarregou-se de dar ao festival “quatro destaques diferentes”. O festival irá realçar ainda um realizador, na categoria “Realizador em Foco”. Nesse âmbito será recordado Satoshi Kon, falecido em 2010, através de quatro filmes

de animação: “Azul Perfeito”, “Actriz do Milénio”, “Padrinhos de Tóquio” e “Paprika”. De acordo com os organizadores do festival, a selecção “permitirá um olhar retrospectivo e exaustivo do imaginário deste autor”.

QUATRO SÉRIES, DIFERENTES FILMES

A primeira parte do festival intitula-se “Série Luminosa” e mostra ao público o filme “A Ganha Pão”, que foi nomeado para um Óscar. Este filme conta “a história de uma menina de 11 anos que tem de tomar conta da família e aprender a ser independente depois do pai ser preso”. Será também exibido o filme de Taiwan “Na Estrada da Felicidade”, que mostra “a mudança social em Taiwan através da viagem de crescimento de uma jovem rapariga”.

O “Festival de Animação Mundial de Verão” acontece entre os dias 11 e 26 de Agosto e apresenta 14 filmes de animação Ainda nesta categoria, o filme “A Ilha dos Cães”, de Wes Anderson, também faz parte da selecção, tal como “A Rapariga sem Mãos”, “um perturbador olhar sobre o mundo dos Irmãos Grimm, [onde]

o realizador recorre a linhas de tinta claras para definir a suavidade e dureza da heroína”. Na Cinemateca podem ainda ser vistas “duas animações cheias e humor negro para desfrutar, ‘Uma Cidade Chamada Pânico’ e ‘A Minha Escola Inteira a Afundar-se no Mar’”. Segue-se a categoria “Série Negra”, com duas animações que são “verdadeiramente surreais e surpreendentes”. No filme “A Noite É Curta, Não Pares de Andar” revela-se a história de uma jovem que se lança “numa viagem pela noite de Tóquio cheia de gente embriagada e eventos misteriosos”. Por sua vez, “Anomalisa” versa sobre os estranhos encontros nocturnos de um escritor. Este filme, de Charlie Kaufman, esteve nomeado para um Óscar e venceu o Grande Prémio do Júri no Festival de Cinema de Veneza. Na série “Sucessos da China” entra o filmes “Tenha um bom dia”, de Lou Jian, que está cheio de “ridículo, imprevisibilidade, humor negro e um poderoso estilo de animação raramente visto em filmes de animação chineses”. Outra película de animação incluída nesta categoria intitula-se “Dahufa” que conta uma história “onde a amizade permite aos personagens repensarem as suas identidades e posições, liberdade e escravatura, mas também as suas ideias feitas”. Os bilhetes começam a ser vendidos este sábado, ao balcão da Cinemateca ou online.


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sexta-feira 20.7.2018

mado

Prémios livres

Gulbenkian distingue organização de defesa da liberdade de expressão

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organização britânica Article 19, de defesa da liberdade de expressão, a associação cultural O Espaço do Tempo, o projecto É Uma Casa e a cooperativa Coopérnico foram distinguidas com os prémios Gulbenkian 2018, anunciou ontem a fundação. O prémio internacional, no valor de 100 mil euros e subordinado a questões sobre Direitos Humanos, foi atribuído à Article 19, organização não-governamental que desenvolve, desde 1987, "uma acesa luta contra a censura e apoia vozes dissidentes um pouco por todo o mundo", afirma a fundação. A propósito da atribuição do prémio, o júri, presidido pelo antigo Presidente da República Jorge Sampaio, sublinhou a "firme resposta" da Article 19 aos "desafios e ameaças à liberdade de expressão e informação que minam os direitos humanos, a democracia e o Estado de Direito". No âmbito dos prémios Gulbenkian, a fundação atribui ainda galardões nacionais que distinguem projetos de relevo nas áreas do Conhecimento, Coesão e Sustentabilidade, com um valor monetário de 50 mil euros cada. Na área do Conhecimento, é reconhecida a associação cultural O Espaço do Tempo, fundada pelo coreógrafo e programador Rui Horta em Montemor-o-Novo, pelo "impacto indiscutível" e "a forte ligação à comunidade local, nomeadamente às escolas". O prémio de Coesão será entregue ao projecto "É Uma Casa, Lisboa Housing First", da associação Crescer Na Maior, que disponibiliza casas para "pessoas em situação de exclusão e vulnerabilidade social". O júri elogia "a capacidade deste projecto para inspirar políticas públicas em Portugal, onde se estima existirem cerca de 3.500 sem-abrigo". Na categoria de Sustentabilidade, o prémio Gulbenkian é atribuído à Coopérnico, "a única cooperativa de energias renováveis existente em Portugal". "A sua gestão democrática e sem fins lucrativos nas áreas da produção, comercialização e eficiência energética mereceu o aplauso do júri", lê-se na nota de imprensa. Os Prémios Gulbenkian serão entregues na sexta-feira, às 18h30, em Lisboa, pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, coincidindo com o dia da morte do empresário arménio Calouste Gulbenkian (20 de Julho de 1955).

ARQUITECTURA OPEN HOUSE MACAU É HOJE OFICIALMENTE APRESENTADO

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espaço criativo “Ponte 9”, no Porto Interior, uniu-se à iniciativa “Open House Worldwide” que acontece em Macau nos dias 10 e 11 Novembro, sendo esta a primeira vez que o evento, ligado à história e arquitectura, acontece na Ásia. A apresentação oficial acontece hoje e o objectivo é “democratizar o acesso à arquitectura, através de visitas gratuitas aos bastidores de 50 edifícios que contam a história de quase 500 anos de coabitação entre o Oriente e Ocidente”, aponta um comunicado. As submissões de edifícios a visitar devem ser feitas até ao dia 17 de Agosto para que haja “dezenas de oportunidades para falar, pensar e celebrar a cidade”. “O programa de visitas baseia-se num critério de selecção que avalia o contributo único dos edifícios para a cultura e tecido urbano da cidade, tendo em vista oferecer uma perspectiva ecléctica do panorama construído de Macau”, apontam os organizadores, sendo vão existir nos percursos “exemplos de arquitectura vernacular (tradicional chinesa), a propostas de estilo neoclássico, art déco, modernista e contemporâneo”. Macau é importante para este evento porque é considerado como “o território mais densamente povoado do mundo, uma cidade vibrante e em constante mudança, detentora de uma história única de intercâmbio cultural”. Além disso, “o crescimento da indústria do jogo e consequente desenvolvimento de casinos dos últimos anos justapõe-se a um tecido compacto e texturado, no qual edifícios idiossincráticos contam uma história de quase 500 anos de coabitação entre o Oriente e o Ocidente”. O “Open House Worldwide” foi criado em 1992 em Londres, tratando-se de uma iniciativa que se estrutura “a partir de um conceito simples, mas poderoso: convidar todos a explorar e a debater sobre a importância da boa concepção arquitectónica nas cidades, de forma inteiramente gratuita”. “O sucesso do evento junto do público, justificou a criação da rede mundial Open House Worldwide - da qual o Open House Macau é membro -, uma das mais relevantes instituições internacionais para a promoção da arquitectura, incluindo 40 iniciativas em quatro continentes, que congregam a participação anual de mais de 1 milhão de visitantes”, explica um comunicado. A curadoria da Open House Macau está a cargo do CURB - Centro de Arquitectura e Urbanismo, dirigido pelo arquitecto Nuno Soares, em parceria com diversas outras instituições.


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20.7.2018 sexta-feira

TRÁFICO APREENSÃO RECORDE DE PRESAS DE MAMUTE

Marfim e sangue As autoridades chinesas confiscaram 156 presas de mamute num camião oriundo da Rússia, uma apreensão recorde que ocorre depois de a China proibir o comércio de marfim, no início deste ano, informou ontem a imprensa estatal

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operação, que ocorreu no final de Abril passado, resultou ainda na apreensão de duas presas de elefante, 1.276 chifres de antílope, 406 presas de morsa, 226 presas de narval, vesículas biliares e dentes de urso, e 320 quilos de pepino do mar. No total, a carga apreendida, no posto fronteiriço de Hulin, nordeste da China, tem um valor estimado de 106 milhões de yuan (13,5 milhões de euros). As presas estavam escondidas sob uma carga de soja. Os oito suspeitos, russos e chineses, foram presos, segundo o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista Chinês. A apreensão é uma das maiores do género dos últimos anos na China e ocorre depois de o país, o maior consumidor mundial de marfim, ter banido desde o início do ano todo o comércio e transformação de marfim. Produtos de marfim são vistos no país asiático como símbolos de estatuto, enquanto esculturas naquele material são parte importante da cultura

e arte tradicionais da China Antiga. A proibição, que havia já sido anunciada em 2016, abrange também o comércio electrónico e as recordações adquiridas no estrangeiro.

COMÉRCIO FURTIVO

O Governo chinês lançou várias campanhas de sensibilização antes da entrada em vigor da nova lei, e o preço de pressas de elefante caiu 80 por cento no país. A Xinhua indicou que,

A apreensão é uma das maiores do género dos últimos anos na China e ocorre depois de o país, o maior consumidor mundial de marfim, ter banido desde o início do ano todo o comércio e transformação de marfim

ao longo de 2017, fecharam 67 lojas envolvidas no comércio de marfim. A decisão pode ter impacto significativo em Angola e Moçambique, que nos últimos anos se tornaram destinos de referência na caça ao elefante. Em Moçambique, entre 2011 e 2015, a caça furtiva custou à reserva do Niassa (norte) sete mil elefantes. A caça furtiva ameaça de extinção o elefante e o rinoceronte no país, de onde são traficados pontas de marfim e cornos de rinocerontes para a Ásia. Em Angola, as autoridades queimaram cerca de 1,5 toneladas de marfim, bruto e trabalhado, em Junho passado. A quantidade, apreendida em diferentes pontos do país entre 2016 e 2017, podia valer no “mercado negro” perto de um milhão de euros. Existem actualmente cerca de 450.000 elefantes no continente africano, calculando-se em mais de 35.000 os que são mortos anualmente.

CIÊNCIA LANÇADO CENTRO DE INVESTIGAÇÃO PARA CLONAR PRIMATAS

INTERNET WIKIPÉDIA NÃO CEDERÁ NOS SEUS PRINCÍPIOS PARA ENTRAR NA CHINA

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China lançou um centro de investigação para clonar primatas, na cidade de Xangai, que permitirá avançar no diagnóstico e tratamento de doenças celebrais, informou ontem a imprensa local. O centro, que faz parte de um projecto conjunto entre o Instituto de Neurociência da Academia Chinesa de Ciências e o Governo de Xangai, também se dedicará à investigação de modelos de doenças não humanas, tecnologias de inteligência neurológica e desenvolvimento de medicamentos. Citado pelo jornal oficial Global Times, o director do instituto, Poo Mu-ming, afirmou que a investigação permitirá diagnosticar e tratar doenças como tumores. Em Janeiro passado, uma equipa de cientistas chineses clonou pela primeira

vez dois primatas geneticamente idênticos, com o mesmo método usado na criação da ovelha Dolly em 1996, segundo informou a revista especializada Cell. Os primatas foram criados a partir de células de tecido de um primata macaco adulto, um procedimento levado a cabo pelo Instituto de Neurociência da Academia Chinesa de Ciências de Xangai. O processo suscitou críticas por parte de organizações de defesa dos animais, que o classificaram como um “espectáculo de terror” e exigiram o fim deste tipo de experiências com animais. Poo insistiu que os padrões aplicados foram ainda “mais restritos do que os usados na Europa ou Estados Unidos” e que os dois macacos vivem agora como macacos “normais”.

fundador do Wikipédia, Jimmy Wales, advertiu ontem, em Taiwan, que a enciclopédia electrónica “não cederá nos seus princípios” para entrar na China, mas que continuará a “colaborar com o Governo chinês para terminar o bloqueio”. Lançada em Maio de 2001, a versão em chinês do Wikipédia está bloqueada na China desde 3 de Junho de 2004, um dia antes do 15.º aniversário da sangrenta repressão do movimento pró-democracia de Tiananmen. Segundo Wales, muitas empresas cederam perante exigências de Pequim para acederem ao mercado chinês, mas o Wikipédia “nunca o fará”,

apesar de reconhecer que esta é uma decisão “complicada” e difícil de classificar como “correcta ou incorrecta”. O fundador do Wikipédia destaca que a sua empresa pode contribuir para um entendimento maior entre a China e o mundo, incluindo para uma melhoria dos laços entre Pequim e Taipé, já que o “conhecimento ajuda a resolver mal-entendidos”. “O conhecimento e a aceitação dos factos históricos e a compreensão dos desacordos são incrivelmente poderosos para gerar soluções”, afirmou. Wales participa em Taiwan do Fórum de Inovação Digital, que se celebra até sexta-feira e aborda a inteligência artificial, tecnologia científica e financeira e a inovação digital.


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sexta-feira 20.7.2018

Região

Hwang, James Hwang Desertor norte-coreano detido por vender segredos da Coreia do Sul

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ECONOMIA EMPRESAS ‘ALUGAM’ ESTRANGEIROS

Aura ocidental

Aluno de mestrado numa universidade de Pequim, o europeu Oliver é “poeta famoso” a tempo parcial, fenómeno único no país asiático, onde há empresas a contratar estrangeiros apenas para parecerem internacionais

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OR vezes, a organização convida poetas de fora realmente prestigiados, mas quando o orçamento não chega recorrem a estudantes estrangeiros e apresentam-nos simplesmente como sendo poetas famosos”, descreve Oliver, de 26 anos, à agência Lusa. “Não interessa qual a tua idade, se escreves poesia, ou o teu nome. O que importa é que o evento ganha uma aura internacional devido à minha presença, e isso para a organização basta”, diz. Durante décadas, as marcas chinesas têm apostado em nomes estrangeiros ou publicidade com modelos caucasianos - famosos ou não -, sugerindo assim que os seus produtos são internacionais e, portanto, superiores aos domésticos. Essa percepção criou um fenómeno ímpar na China: estrangeiros contratados para desempenhar todo o tipo de papéis

- músicos, atletas, arquitectos ou advogados -, unicamente com base na sua aparência. Um anúncio de emprego para treinador de futebol a que a Lusa teve acesso, difundido por uma escola primária de Pequim após a França ganhar o Mundial, descreve assim as “competências” preferenciais do candidato: “Tem de ser preto, forte, e parecido com o jogador francês [Kylian] Mbappé”. O salário oferecido ascende a 30.000 yuan (quase 4.000 euros) - quinze vezes o salário mínimo na capital chinesa. Para Oliver, passar ocasionalmente por ser um “poe-

ta famoso” garante dinheiro fácil e viagens por toda a China com alguns dos maiores nomes da poesia chinesa, sempre hospedado em hotéis de cinco estrelas. “Uma vez, para um festival de dois dias pagaram-me 5.000 yuan (640 euros) e tive a honra de colocar flores no túmulo de um poeta da dinastia Tang”, conta. Durante a abertura de um outro festival, o europeu caminhou na passadeira vermelha ao lado de um vice-primeiro-ministro chinês. Num evento em Nanjing, no leste do país, havia retratos dele com dois

Durante décadas, as marcas chinesas têm apostado em nomes estrangeiros ou publicidade com modelos caucasianos famosos ou não -, sugerindo assim que os seus produtos são internacionais e, portanto, superiores aos domésticos

metros espalhados pelo recinto. “É surreal”, admite. O fenómeno, conhecido entre os expatriados na China como ‘white face job’ (trabalho para brancos), está a “crescer”, garante Oliver, apesar de o número de estrangeiros a residir no país ter superado os 900.000, no ano passado. “A audiência admira-te pela cor da tua pele, não por aquilo que estás a fazer. É como se fosses um macaco no zoológico”, conta o realizador norte-americano David Borenstein, que retrata a indústria no documentário Dream Empire. Durante os dois anos em que viveu na China, Borenstein conheceu estrangeiros que fizeram do fenómeno carreira, como um falso teclista que há cinco anos dava concertos em eventos, em ‘playback’, sem sequer saber tocar o instrumento, ou um falso arquiteto que era apresentado como parceiro de promotores imobiliários. “Havia muita gente a fazê-lo e um dia de trabalho chegava para pagar a renda”, disse, citado pelo jornal de Hong Kong South China Morning Post. Para Oliver, no entanto, ser “poeta famoso” a tempo parcial não é só facilidades. “O pior é que envolve trabalho de casa”, diz. “Logo após o festival terminar, temos que escrever um poema sobre a cidade, ou o festival, ou sobre o poeta a quem o festival é dedicado”. João Pimenta agência Lusa

M desertor norte-coreano foi detido em Seul, acusado de vender informações militares secretas da Coreia do Sul para um país da Ásia Oriental, informaram ontem as autoridades. O suspeito, identificado apenas pelo sobrenome Lee, terá vendido informações de antigos altos quadros do Comando de Inteligência de Defesa da Coreia (KDIC), afirmou um representante do Gabinete da Procuradoria do Distrito Central de Seul durante uma conferência de imprensa. Lee terá obtido as informações de um ex-funcionário do KDIC, de 58 anos, identificado pelo sobrenome Hwang, que foi preso no mês passado juntamente com outro ex-oficial do mesmo ramo dos serviços de informação militar, mas por outro caso de espionagem. Os interrogatórios aos quais os dois indivíduos foram submetidos permitiram que os investigadores descobrissem a suposta fuga, embora a relação exacta entre o desertor e Hwang não tenha sido revelada. Lee vendeu as informações obtidas a um agente integrado numa missão diplomática de um país “da Ásia Oriental”, explicou o representante da Procuradoria, sem acrescentar mais detalhes sobre este terceiro Estado, informou a agência de notícias Yonhap.

MÚLTIPLOS CÚMPLICES

Suspeita-se que Lee foi o responsável pela fuga de 109 informações classificadas como secretas, incluindo dados pessoais de agentes dos serviços de informação sul-coreanos que trabalhavam em missões estrangeiras e que foram obrigados a abandonar os seus postos e regressarem ao país. A investigação admite existirem mais pessoas envolvidas. Recentemente, foi igualmente divulgado que os serviços secretos sul-coreanos orquestraram a deserção de vários norte-coreanos, que trabalhavam num restaurante na China, e que viajaram para a Coreia do Sul. Fontes conhecedoras de detalhes do caso revelaram que agentes da KDIC estiveram envolvidos nas fases iniciais do processo, assim como um gestor e doze empregadas do restaurante norte-coreano Ryugyong, situado em Ningbo na China, que partiram para a Coreia do Sul em Abril de 2016. A comitiva de desertores passaram primeiro por Xangai e depois pela Malásia, antes de chegarem a solo sul-coreano. Numa conferência de imprensa realizada na passada terça-feira, a porta-voz do Ministro da Defesa Nacional disse que o ministro “não tinha comentários a fase nesta fase” e acrescentou que mais questões sobre esta matéria deviam ser dirigidas ao Ministério da Unificação, o organismo do Executivo de Seul responsável pelos casos de desertores norte-coreanos.


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20.7.2018 sexta-feira

Não acredito em nada. As minhas crencas ´ Voaram como voa a pomba mansa José Simões Morais

Festejos de 1897 e o cônsul de Hong Kong

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RESIDENTE da Direcção do Club Lusitano de Hong Kong em 1893, o conselheiro Agostinho Guilherme Romano em 1897 acumula já essa função com a de Cônsul. Da inicial proposta de se fazerem as celebrações da partida de Vasco da Gama para a Índia nada encontramos em Macau registado nos jornais e em Hong Kong, só no Club Vasco da Gama é festejado. Este Club, situado na Peel Street em Hong Kong, envia um folheto ao jornal de Macau, O Independente que o publica a 21 de Novembro de 1897 com o título, “Memória dos festejos celebrados no Club de Recreio, hoje Vasco da Gama, por ocasião do IV Centenário da Índia, na noite de 8 de Julho de 1897, e onde, com precedência da fotografia do quadro alegórico existente na sala do referido Club em Hong Kong, se faz desenvolvida narração da maneira briosa e patriótica como a festa correu.” Este o único registo que encontrei da comemoração do IV Centenário da partida de Lisboa da primeira armada para a Índia comandada por Vasco da Gama. No estrangeiro, o IV Centenário é comemorado em Munique no dia 14 de Fevereiro de 1898, na grande sala do Instituto das Artes e Indústrias da Sociedade Geográfica daquela capital com uma sessão solene e festival em honra de Vasco da Gama, que obteve um êxito brilhantíssimo. “Na presença dos presidentes de honra, suas altezas o príncipe Luiz e a princesa Thereza, do presidente da câmara alta, conde de Lercheufeld e de um selecto concurso de damas e cavalheiros fez o professor Eugénio Oberhummed uma descrição viva e interessantíssima dos conhecimentos geográficos na Idade Média, auxiliando-se de uma grande quantidade de mapas e cartas soberbamente coloridas pertencentes ao rico tesouro da Universidade. O Sr. Dr. Haunnerich, conferente da sessão, apresentou em fases eloquentes uma fiel e pitoresca imagem das navegações do grande descobridor e herói marítimo português e dos tempos que o precederam e lhe sucederam, comunicação científica e eloquente, principalmente baseada em novos documentos e estudos dos arquivos de Lisboa. Causou viva sensação no auditório a apresentação feita pelo pintor Adolpho Schmidt Celle, de uma cópia em tamanho natural do retrato original de Vasco da Gama existente no Museu de Lisboa.

O painel ficará em exposição na Liga Artística”, notícia do Echo Macaense de 6 de Março de 1898.

TRICAS COM O CÔNSUL PORTUGUÊS

Em 1898 publicam-se em Hong Kong dois jornais em língua portuguesa, O Provir, editado por Lisbello Jesus Xavier, presidente do Clube Vasco da Gama, com constantes reparos ao Sr. Conselheiro Agostinho Guilherme Romano, cônsul português desta cidade e presidente do Club Lusitano, que tem a seu favor o jornal Extremo Oriente. É numa rivalidade entre clubes portugueses com os seus jornais que o ambiente da preparação em Hong Kong do IV Centenário se desenrola. Ambos apenas estão de acordo ao pedir para Macau adiar por dois dias as datas dos festejos, para assim calhar no fim-de-semana de 21 e 22 de Maio, a permitir aos sócios aí se deslocarem. Não houve resposta de Lisboa. De Macau, o Echo Macaense de 13 de Março de 1898 envia um recado na primeira página do jornal, “Aos nossos compatriotas em Hongkong. É deveras penoso

É numa rivalidade entre clubes portugueses com os seus jornais que o ambiente da preparação em Hong Kong do IV Centenário se desenrola

ler o que estão publicando os nossos dois colegas de Hongkong, o Extremo Oriente e O Porvir, a propósito da dissidência originada da formação da comissão executiva do centenário da Índia. Como de ambos os lados vieram à imprensa liquidar as suas responsabilidades, diremos francamente o nosso parecer, que, pelo que nos consta, se ajusta com o sentir geral das pessoas imparciais. Em vista de factos e documentos que vieram à luz da publicidade, se infere que de ambos os lados houve precipitação e falta de savoir faire. Em primeiro lugar é evidente que a comissão directora do Club de Recreio, tendo conhecimento de que havia sido convocada pelo Sr. Cônsul Romano uma reunião magna da comunidade portuguesa, para o dia 20 de Setembro [de 1897], no Club Lusitano, afim de a assembleia eleger uma grande comissão para elaborar o respectivo programa dos festejos do centenário, não devia de modo algum expedir na véspera, isto é, no dia 19 de Setembro, um expresso, convidando todos os sócios do Club, os seus amigos, e a comunidade em geral para uma reunião no mesmo dia 19 de Setembro, a fim de tratar dos festejos do centenário da Índia. Uma tal reunião, na véspera da outra, não podia deixar de ser considerada uma provocação, como realmente o foi. D’ outro lado, é também certo que, tendo o Sr. cônsul Romano convocado uma reunião magna da comunidade portuguesa no Club Lusitano, para eleger uma comissão executiva, devia ter deixado completamente ao alvedrio da assembleia eleger a comissão por meio

do escrutínio secreto, o que evitaria toda a discussão acrimoniosa, e daria óptimo resultado, porque o bom senso da maioria teria pronunciado com acerto o seu veredictum. Mas longe de seguir esta orientação, o Sr. Cônsul Romano apresentou uma lista de 32 cavalheiros que propunha para compor a grande comissão. Esta proposta tirou à assembleia a liberdade de eleição, e inutilizou a reunião”. Não havia nada a censurar se o cônsul “desde o princípio tivesse agregado a si alguns dos nossos compatriotas mais conspícuos, constituindo entre si uma comissão, que levasse a efeito os festejos”. “Quis, porém, que a comissão fosse da sua escolha, e, ao mesmo tempo, fosse eleita, ou nomeada por aclamação, pela comunidade, sobre proposta dele. Não conseguiu o que desejava, e teve de dissolver a assembleia, dando lugar às tristes dissensões que aí vemos. Deu-se um passo falso, que trouxe consequências lamentáveis. Nas actuais circunstâncias, afigura-se-nos dificílima uma reconciliação; mas o que é fácil, e muito digno de todos, é a abstenção de mútuas hostilidades”. Está levantada “uma polémica desabrida em que de ambos os lados se procuram deprimir e rebaixar uns aos outros! É altamente triste tal situação!” “Ao Sr. Romano, que pela sua idade, posição social, e bom conceito de que goza, deve dar bom exemplo em tudo, pedimos que dê mais uma prova de patriotismo, de conduta, e de bom senso, e seja o primeiro a apresentar o ramo de oliveira, mandando cessar desde já essa triste polémica, e esses longos e fastidiosos artigos, que sob o pretexto de o defender, tendem a cavar mais funda a sizunia entre os nossos, e a acumular sobre o Sr. Romano mais ódio e mais rancor, falando dos seus meios de fortuna, que toda a gente conhece, e não é preciso assoalhar ao público com o fim de deprimir os outros. Que os nossos compatriotas de Hongkong façam as festas como cada grupo quiser e puder, mas que se abstenham de mútuas hostilidades, é o que pedimos em nome de bom senso, de cavalheirismo, e de patriotismo”, apelo do Echo Macaense de 13/3/1898. Faltam nove semanas para a realização das comemorações e dois diferentes planos de festejos vão sendo tratados em Hong Kong, ainda com a esperança do adiamento das datas em Macau para em fim-de-semana aí ir celebrar.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

(GARY WATERS/GETTY IMAGES/IKON IMAGES)

sexta-feira 20.7.2018

tonalidades António de Castro Caeiro

A hipótese de Alan Shore

Para o José de Freitas

J

AMES Spader, como Paul Shore, diz à personagem de William Shatner, Denny Cane - n’ A série Boston Legal - que existiremos no Céu como nos dias mais felizes da nossas vidas. Mas nós não sabemos se haverá vida no além. Não se pode provar que não há nem provar que há. Tal como na “Aposta” de Pascal - sobre se Deus existe ou não existe - também não se podem provar nenhuma das teses. A fé faz depender de si a existência de Deus. Mas a fé é a fé, uma determinação modal que depende da crença, e a crença depende da mente, mesmo quando resulta da Graça. Ora isso faz que a tese: “Deus existe”, “há vida eterna”, conteúdos de um acto mental. Actos mentais são actos mentais e não podem extrapolar o seu conteúdo para nenhuma realidade. Ainda assim, é sabido que podem ser eficazes. Por outro lado, pelo contrário, a tese de que Deus não existe, pior, de que Deus não pode existir, depende também de um acto mental. Não querer que Deus exista tem consequências, porque se anula toda e qualquer religiosidade, toda e qualquer epifania ou revelação. Todo o ateu tem um trabalho árduo em destruir o sentido de Deus, mas a sua tese também resulta de um acto mental. Na “aposta” de Pascal, o laboratório é o jogador a fazer a sua aposta num

jogo de possibilidades repartidas, 50%50%. Agora, o jogador está com os seus olhos nos dados, mas a sua mente está completamente virada para o futuro. O jogador vive da antecipação. O jogador está como o pescador se encontra a olhar para a linha, mas a ver se ela mexe e as boias se afundam. O jogador está lançado para um momento futuro. Todo ele é antecipação. Ele não está à espera apenas de saber se ganhou ou perdeu. Tal como o pescador não está à espera de saber se pescou muito, pouco ou nada. Nenhum está à espera do desfecho, porque na verdade não querem nenhum desfecho. A Realidade deles depende da antecipação. Nenhum espera o desfecho da situação de prospecto, de antecipação. Quando o peixe é apanhado ou o jogo acaba, suspende-se a antecipação. Qualquer que seja o resultado, a vida deixa de depender do momento da antecipação

e passa a requerer acção, uma reacção pragmática. Por isso, mesmo quando se ganha, ao desfazer-se a antecipação, perde-se a riqueza da transcendência, a forma excessiva que ultrapassa o dado na percepção. Na antecipação, não há sincronização entre percepção e conteúdo. O conteúdo está projectado para mais tarde. Ao mesmo tempo, o conteúdo do momento que se tornará realidade - mas ainda não aconteceu - exerce o seu efeito sobre o presente. É retroactivo como é prospectivo. Existiremos numa outra vida a reviver os dias mais felizes das nossas vida? E como existiremos? Teremos o corpo na nossa melhor forma? Estaremos com todas as pessoas que amámos em simultâneo, quando as amámos umas a seguir às outras? Os nossos melhores amigos serão quais? Teremos os amigos de infância que morreram violentamente por acidente ou não sobreviveram? Teremos os amigos

Tal como na “Aposta” de Pascal - sobre se Deus existe ou não existe - também não se podem provar nenhuma das teses. A fé faz depender de si a existência de Deus. Mas a fé é a fé, uma determinação modal que depende da crença, e a crença depende da mente, mesmo quando resulta da Graça

desavindos tal como os amámos e eles a nós? Seremos uma comunidade de pessoas no seu melhor sem o cuidado e a aflição de acompanhar os seus na via da cruz que é a antecipação da morte? Como resolver a equação? Vivemos nós já a antecipar esse momento, como quando revisitamos vésperas de férias na infância? Será a vida futura caucionada pela antecipação de que dias melhores virão? Ou anteciparemos o sossego da paz eterna, em que nada se passa, quando apenas há a grande noite? A grande noite é como nos tempos anteriores ao nosso nascimento, quando não se sabe de nada, na era eterna que nos é pré-natal. Ou será que fazemos a aposta de Alan Shore e vaticinamos para os Denny Cane das nossas vidas? Existiremos então para todo o sempre, desmultiplicados por todos aqueles que nós somos nas relações intrínsecas que temos com os outros que amamos? Existiremos como nos nossos melhores momentos, os momentos mais felizes das nossas vidas? A aposta dá-nos a antecipação do momento. A antecipação pode trazer a realidade pragmática do não. Tudo será como a abominação da desolação. A antecipação, contudo, pode dar-nos um pouco de esperança. A esperança é uma velha decrépita com olhar de menina. É também o que nos poderá trazer um pouco de fé. O pior de tudo é não poder ser enganado.


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sexta-feira 20.7.2018

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

CONCERTO “UMA NOITE COM PIANO NA GALERIA ASSOCIAÇÃO ELITE” Fundação Rui Cunha | 18h00

Amanhã

RHYS LAI - WORKSHOP DE PINTURA PARA PAIS E FILHOS Fundação Rui Cunha | 15h00 CONCERTO “CHAMBER EVENING WITH BEETHOVEN” Fundação Rui Cunha | 20h00 “MOWAVE PARACUSIA CONCERT” Macau Art Garden | 20h00

Diariamente

EXPOSIÇÃO “ART IS PLAY” Grande Praça – MGM | Até 9/9

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O CARTOON STEPH 17

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EXPOSIÇÃO “UNIVERSO” Armazém do Boi | Até 9/9 EXPOSIÇÃO “APROFUNDAR” Art Garden | Até 9/9 EXPOSIÇÃO “CHAPAS SÍNICAS” Museu das Ofertas sobre a Transferência de Soberania de Macau | Até 7/8 “MARC CHAGALL – LUZ E COR NO SUL DE FRANÇA” MAM | Até 26/8

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SOLUÇÃO DO PROBLEMA 17

C I N E M A

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UM LIVRO HOJE

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VAZIOS

Quase numa base diária assistimos a deputados que fazem a incrível ginástica mental de criticar leis que votaram favoravelmente. Tirando uma pequena minoria que parece votar de acordo com a sua consciência, o hemiciclo aprova sempre instintivamente qualquer proposta de lei que o Governo lhe ponha à frente. Tão natural como respirar. Mesmo que não concordem, mesmo que apontem deficiências na redacção, passam legislação como um carimbo automático, sem critério objectivo além de satisfazer as vontades do Executivo, o verdadeiro legislador. Este é o corolário preguiçoso da ausência de separação de poderes. No fundo, o Governo é aAssembleia Legislativa e o poder económico, formam uma bela oligarquia tricéfala. No meio disto tudo, o cidadão fica sem representação. É por isso que cresce um estado policial numa cidade completamente pacífica, é por isso que nunca há verdadeiro interesse em apetrechar Macau com um sistema de canalização digno do primeiro-mundo, é por isso que a cada manifestação de conflito de interesses é entoado o mantra “prestamos grande atenção às preocupações da sociedade”. É por isso que quando se sai do Terminal do Porto Exterior os autocarros mais próximos são os shuttles dos casinos, é por isso que se olha para a recordista especulação imobiliária de Hong Kong como exemplo a seguir e se categorizam os arrendatários como trapaceiros. É por isso que o Porto Interior será sempre um aquário, enquanto um casino faraónico brota, num ápice, de terra que não existia há anos. É por isso que se multiplicam os atropelos individuais impossíveis de enumerar numa pequena coluna de opinião. João Luz

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“O SPLEEN DE PARIS” | CHARLES BAUDELAIRE

INCREDIBLES 2 INCREDIBLES 2 [A] FALADO EM CANTONENSE Um filme de: Brad Bird 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 SALA 2

SKYSCRAPER [B] Um filme de: Rawson Marshall Thurbe Com: Dwayne Johnson, Neve Campbell, Chin Han 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

SALA 3

ANT-MAN AND THE WASP [B] Um filme de: Peyton Reed Com: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas 14.15, 19.00

CODE GEASS LELOUCH OF THE REBELLION III [B] FALADO EM JAPONÊS LEGENDADOEM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Goro Taniguchi 16.30, 21.15

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Editado dois anos após a morte do autor, “O Spleen de Paris” foi pensado como um punhado de textos complementares da obra-prima “As Flores do Mal”. Neste livro, Baudelaire idealiza qual o papel do poeta na sociedade e qual a importância do prazer para a compreensão dos tempos em que o criador vive. É uma colectânea de textos vibrante mesmo nos dias de hoje, que busca a modernidade e testemunha a genialidade do escritor francês. Os textos de prosa poética retratam um homem perdido na cidade, submerso em melancolia, tédio e angústia, lançando sementes para o existencialismo do século seguinte. João Luz

SALA 1

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EXPOSIÇÃO “AYIA” Casa Garden | Até 9/9

Cineteatro

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AGUACEIROS

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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Diana do Mar, João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Manuel Afonso Costa; Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; David Chan; Fa Seong; Jorge Morbey; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


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“We’re moving to this integration of biomedicine, information technology, wireless and mobile now - an era of digital medicine. Even my stethoscope is now digital. And of course, there’s an app for that.” The Future of Medicine, Where Can Technology Take Us? Daniel Kraft

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M uma cena famosa do filme de 1967, “A Primeira Noite”, um amigo da família deixa de lado o personagem de Dustin Hoffman, Benjamin Braddock, e sussurra em tom conspiratório que existe um grande futuro nos plásticos. Se o filme tivesse sido realizado em outra época, o conselho ao jovem Braddock poderia ser diferente, e ter sido aconselhado a envolver-se em caminhos-de-ferro, negócios com electrónica ou simplesmente a ir para o Oeste, pois todas as idades têm situações que parecem novas e maravilhosas na época, mas frouxas e banais para as gerações futuras. A tecnologia digital é a última moda porque, depois de décadas de desenvolvimento, tornou-se incrivelmente útil. Ainda assim, quem observe melhor, poderá ver os contornos da sua inevitável descida ao mundano. As pessoas precisam de começar a preparar-se para uma nova era de inovação em que diferentes tecnologias, como a genómica, ciência dos materiais e a robótica, se destacam e para entender o que está a acontecer, é necessário observar as tecnologias anteriores. A ascensão da electricidade, por exemplo, começou no início da década de 1830, quando Michael Faraday inventou o dínamo eléctrico e o motor. Ainda assim, só cinquenta anos depois, Edison abriu a sua primeira fábrica e quarenta anos passados, durante a década de 1920, a electricidade começou a ter um impacto mensurável na produtividade. Toda a tecnologia segue um caminho semelhante de descoberta, engenharia e transformação. No caso da electricidade, Faraday descobriu novos princípios, mas ninguém realmente sabia como torná-los úteis, dado que primeiro tinham que ser entendidos suficientemente bem, para que pessoas como Edison, Westinghouse e Tesla, pudessem descobrir como fazer produtos que as pessoas estariam dispostas a comprar. Todavia, realizar uma verdadeira transformação exige mais do que uma única tecnologia, pois as pessoas precisam de mudar os seus hábitos, e então as inovações secundárias necessitam de entrar em jogo. É de considerar que para a electricidade, as fábricas precisavam de ser redesenhadas e o trabalho tinha que ser re-imaginado, antes de começar a ter um impacto económico real, e os electrodomésticos, radiocomunicações e outros produtos mudaram a vida conforme a conhecíamos, o que levou algumas décadas.

O nosso mundo foi completamente transformado pela tecnologia digital. Seria difícil explicar a alguém que olhava para um computador de grande porte da IBM nos anos 1960, que algum dia máquinas semelhantes substituiriam livros e jornais, nos dariam recomendações sobre onde comer e instruções sobre como lá chegar, e até mesmo falar connosco, mas actualmente tais aplicações fazem parte dos nossos hábitos quotidianos. É de considerar que ainda hoje existem várias razões para acreditar que o crepúsculo da era digital paira sobre nós, o que não significa qualquer tipo de argumentação de que deixaremos de usar a tecnologia digital, pois afinal, ainda usamos a indústria pesada, não significando que ainda estamos na “Era Industrial”. Existem três razões principais para mencionar que a era digital está a terminar, sendo a primeira a tecnologia em si. O que impulsionou todo o entusiasmo com os computadores foi a nossa capacidade de colocar cada vez mais transístores em uma placa de silício, um fenómeno que conhecemos como Lei de Moore, e que permitiu tornar a nossa tecnologia exponencialmente mais poderosa, anualmente. A Lei de Moore está a terminar a sua aplicação. As empresas como a “Microsoft” e a “Google” estão a projectar circuitos integrados personalizados para executar os seus algoritmos, porque não é mais possível esperar por uma nova geração de circuitos integrados e para maximizar o desempenho. É preciso cada vez mais optimizar a tecnologia para uma tarefa específica. Deve-se considerar, em segundo lugar, que a habilidade técnica necessária para criar tecnologia digital diminuiu drasticamente, marcada pela crescente popularidade das chamadas plataformas sem código. Assim como os mecânicos e electricistas, a capacidade de trabalhar com a tecnologia digital está a tornar-se cada vez mais uma habilidade de nível médio e com a democratização, vem a comoditização que é o processo de transformação de bens e serviços (ou coisas que podem não ser normalmente percebidos como bens e serviços) em uma mercadoria. Os aplicativos digitais, finalmente, estão a tornar-se bastante evoluídos. Se comprarmos um computador portátil ou um telemóvel praticamente faz as mesmas coisas que o comprado há cinco anos. As novas tecnologias, como os alto-falantes inteligentes sem fios com comando de voz, como o “Amazon Echo” e o “Google Home”, que adicionaram a conveniência das “interfaces” de voz, mas pouco mais. Ainda que haja um valor novo limitado a ser aproveitado em objectos como processadores de texto e aplicativos de telemóvel, existe um extraordinário valor a ser libertado na aplicação de tecnologia digital a campos como a genómica e ciência dos materiais, para alimentar indústrias tradicionais como a fabricação, energia e medicina. O desafio essencial é aprender como usar “bits” para direccionar átomos. É fácil entender o seu funcionamento observando

ROBERTO PARADA

A era

no “Atlas do Genoma do Cancro (TCGA na sigla na língua inglesa)”, que é um projecto iniciado em 2005 e supervisionado pelo “National Institute of Health (NIH)” e o “National Human Genome Research Institute (NHGRI)”, ambos dos Estados Unidos, que visam a catalogação de alterações moleculares responsáveis pelo aparecimento da importância biológica do cancro utilizando a sequenciação do genoma e a geoinformática. A sua missão era simplesmente sequenciar genomas de tumores e colocá-los “online” e até ao momento, catalogou mais de dez mil genomas em mais de trinta tipos de cancro e libertou um dilúvio de inovações na ciência do cancro e também, ajudou a inspirar um programa similar para materiais chamado de “Iniciativa do Genoma Material (GMI na sigla em língua inglesa)” que vem na sequência do “Projecto Genoma Humano (HGP na sigla em língua inglesa)”, que é um programa internacional de pesquisa colaborativa para sequenciar e entender todos os genes dos seres humanos. A HPG foi declarada completa em Abril de 2003 e deu-nos a incrível capacidade de ler o mapa genético completo do ser humano, tendo iniciado uma nova era da medicina molecular. O GMI é uma iniciativa relativamente nova destinada a desenvolver políticas, recursos e infra-estrutura para apoiar a descoberta e o fabrico de materiais funcionais a um ritmo acelerado, e com custos substancialmente reduzidos. Qual a razão de se referir à iniciativa como um projecto "genoma"? É mais como uma metáfora do que uma analogia directa com o mapa do ADN humano, e deve ser interpretado como sendo um componente crítico da descoberta, desenho e manufactura moderna de materiais que envolvem a integração de uma grande quantidade de dados com origens diversas,

desde caracterizações experimentais e análise computacional até experiências em condições realistas. A forma de recolher, organizar, distribuir e usar esses dados com eficiência é um desafio significativo, semelhante ao enfrentado pelo HPG no seu esforço que durou quinze anos. Além disso, os pesquisadores esperam que o impacto a longo prazo do GMI nas investigações de materiais, seja igual ao impacto do HPG na pesquisa biomédica. O GMI foi lançado em 2011 pelo governo americano e envolve várias agências federais, como os Departamentos de Defesa e de Energia, Fundação Nacional de Ciência, Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA na sigla em língua inglesa), Instituto Nacional de Normas e Tecnologia (NIST na sigla em língua inglesa), e muito outros. Quanto ao GMI, os esforços estão a aumentar muito a capacidade de inovar, sendo de considerar o esforço para desenvolver químicas avançadas de baterias para impulsionar a economia de energia limpa, o que requer a descoberta de materiais que ainda não existem. É de entender, que historicamente, tal envolveria o teste de centenas ou milhares de moléculas, mas os pesquisadores puderam aplicar super computadores de alto desempenho, para executar simulações em genomas de materiais e reduzir muito as possibilidades. É de acreditar que durante a próxima década, essas técnicas incorporarão cada vez mais algoritmos de aprendizagem da máquina, bem como novas arquitecturas de computação, como a quântica e os “chips” neuromórficos, que funcionam de forma muito diferente dos computadores digitais. As possibilidades desta nova era de inovação são profundamente impressionantes. A


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perspectivas

JORGE RODRIGUES SIMÃO

digital

revolução digital, apesar de todos os seus encantos, teve um impacto económico bastante limitado, em comparação com tecnologias anteriores, como a electricidade e o motor de combustão interna. As tecnologias da informação, mesmo actualmente, representam apenas cerca de 6 por cento do PIB nas economias avançadas. Se compararmos com a manufactura, saúde e energias, que compõem 17 por cento, 10 por cento e 8 por cento do PIB global, respectivamente, pode-se ver como existe muito mais potencial para causar impacto além do mundo digital. Todavia, para capturar esse valor, é preciso repensar a inovação para o nosso século. A tecnologia digital, velocidade e agilidade são os principais atributos competitivos. As técnicas como prototipagem rápida e interacção, aceleraram o desenvolvimento e muitas vezes melhoraram a qualidade, porque se deve entender muito bem as tecnologias subjacentes. As três grandes tecnologias para a próxima década serão a genómica, nanotecnologia e robótica. A tecnologia está a mudar o mundo e o economista americano, Robert Gordon, no seu último livro “The Rise and Fall of American Growth: The U.S. Standard of Living since the Civil War”, afirma o oposto e aponta com precisão que a produtividade, que surgiu entre 1920 e 1970, parou desde então, e é provável que assim continue e argumenta, que as tecnologias anteriores, como a electricidade, motor de combustão interna e os antibióticos, tiveram efeitos muito variados, enquanto a tecnologia digital é relativamente diminuta em comparação. É um argumento sério e que pode estar certo, mas não leva em conta outros efeitos importantes. O cientista americano da computação e inventor, Ray Kurzweil, no seu livro “The Singularity Is Near : When Humans Trans-

cend Biology”, declara que o ponto final da tecnologia digital não são os melhores dispositivos e aplicativos, mas as novas tecnologias, como a genómica, nanotecnologia e robótica que estão apenas a começar a ter um impacto, mas na próxima década vão determinar se Robert Gordon está certo ou não. Os engenheiros de “Sillicon Valley” são famosos pelas suas habilidades com códigos de computador. Todavia, o avanço exponencial do poder de computação permitiu que os cientistas começassem a desvendar os mistérios de um enigma ainda mais importante, o código genético e o novo campo da genómica. A primeira área em que está a causar impacto é o cancro. O mapeamento do genoma do cancro está a possibilitar novas terapias, mais direccionadas, que tratam pacientes com base na composição genética do cancro, e não apenas na localização do tumor, como na próstata ou na mama, que combinado com novas imunoterapias, está a dar esperança de que a cura para o cancro pode em breve ser uma realidade. A nova técnica denominada de “Repetições Palindrómicas Curtas Agrupadas e

O nosso mundo foi completamente transformado pela tecnologia digital. Seria difícil explicar a alguém que olhava para um computador de grande porte da IBM nos anos 1960, que algum dia máquinas semelhantes substituiriam livros e jornais...

Regularmente Interespaçada (CRISPR na sigla em língua inglesa)”, permite que os cientistas editem sequências de ADN para, por exemplo, desabilitar genes-chave de um vírus HIV, desactivar outras doenças auto-imunes como a “Esclerose Múltipla” ou reprogramar o ADN de levedura para criar petroquímicos como plásticos. A genómica ainda é uma ciência muito jovem, com pouco mais de uma década de existência, e está apenas a começar a arranhar a superfície, mas as primeiras indicações são de que mudará as concepções sobre o que é possível. Os antibióticos foram verdadeiramente transformadores, mas o seu efeito limitou-se a doenças infecciosas. A genómica tem o potencial de ir muito além. Apenas alguns dias após o Natal de 1959, Richard Feynman subiu ao pódio na reunião anual da “American Physical Society” para dar uma palestra intitulada “Há muito espaço no fundo" e em uma hora falando ao nível do ensino médio, criou uma nova ciência, denominada de nanotecnologia que está a trazer uma ampla gama de novos materiais físicos, como os “pontos quânticos (QD na sigla em língua inglesa)”, que estão a revolucionar os dispositivos electrónicos, de computadores mais eficientes a televisões mais baratas e nítidas. O grafeno, é outro material de nanotecnologia, que pode ser usado para fazer uma ampla variedade de produtos, desde próteses super-fortes, mas incrivelmente leves, até fios supercondutores. A fim de entender o incrível impacto da nanotecnologia, é preciso analisar apenas uma área, a das células solares. Enquanto a energia solar está a lutar para ser viável, no futuro a nossa energia pode custar cerca de metade do preço actual em dez anos, e apenas um quinto em vinte anos. Devemos considerar que a energia representa cerca de 8 por cento do PIB, e que tem o potencial de causar um grande impacto na produtividade. Durante a maior parte da história, tivemos que nos conformar com os materiais que a natureza nos deu, mas estamos prestes a projectar materiais com as propriedades que desejamos. A genómica, nanotecnologias como pontos quânticos e grafeno só se tornaram viáveis​​ recentemente, não sendo possível prever o que o futuro reserva. Os primeiros robôs industriais atingiram a linha de montagem em uma fábrica da General Motors, em 1961, realizando tarefas como soldagem de corpos e nas décadas que se seguiram, os robôs fizeram uma parte crescente do trabalho de fábrica, mas sempre sós, sendo muito perigosos para rodear as pessoas. As primeiras ATMs foram instalados, em 1969, e os robôs começaram a substituir trabalhadores administrativos em vez de operários e estamos a ver cada vez mais robôs ao nosso redor. O “Da Baxter”, é um robô barato para as pequenas empresas comprarem e seguro para colaborar com trabalhadores. Os robôs “Roomba” podem aspirar de forma inteligente os pisos das

casas e os robôs de software que automatizam o planeamento de viagens tornaram-se essenciais à vida. O campo militar é o local privilegiado para entender o futuro da robótica, na qual os Estados Unidos investiram milhares de milhões de dólares, usando onze mil drones e doze mil robôs terrestres para realizar trabalhos como a remoção de bombas e o transporte de equipamentos. Os militares estão a estabelecer vínculos emocionais com os robôs, dando-lhes nomes e arriscando as suas vidas para os salvar, mas também vemos robôs a tornarem-se cada vez mais integrados na vida civil. Os drones estão a ser implantados comercialmente para pesquisar cultivos e a “Amazon” está a planear lançar um serviço de entrega por drones . O “Watson” da IBM está a ajudar médicos a diagnosticar pacientes. À medida que a tecnologia avança, os robôs substituirão cada vez mais os seres humanos como conduzir camiões. Robert Gordon teve um pensamento correcto e excepto por um período relativamente breve no final da década de 1990, vimos pouco benefício mensurável da tecnologia digital. O impacto, certamente nada tem a ver com inovações anteriores, como a electricidade, antibióticos ou motor de combustão interna. Todavia, talvez esteja a ser um pouco rápido para julgar. Faraday inventou o dínamo eléctrico e o motor de combustão interna foi desenvolvido na década de 1870. Ainda assim, o maior impacto ocorreu entre 1920 e 1970. Nesse intervalo de tempo, outras tecnologias, como a direcção, freios, estradas, electrodomésticos e computadores precisavam de ser desenvolvidos. A inovação nunca é um evento único pois requer a descoberta de novos “insights”, engenharia de soluções à volta deles e, em seguida, a transformação de uma indústria. A tecnologia não produz progresso por si, sendo preciso encontrar problemas importantes para resolver e, então, mudar a forma como se trabalha para retirar vantagens. Assim, enquanto os aplicativos de telemóveis adicionam conveniência às nossas vidas, o real impacto da tecnologia digital está à nossa frente, quando tecnologias de segunda ordem são aplicadas a problemas completamente novos. As tecnologias emergentes que estão a surgir, não se criam com a frequência desejada, não sendo possível prototipar rapidamente um computador quântico, uma cura para o cancro ou um material não descoberto. É de atender que existem sérios problemas éticos que envolvem tecnologias como a genómica e inteligência artificial, pois passámos as últimas décadas a aprender e a andar rápido, mas nas próximas décadas, teremos que reaprender a caminhar novamente devagar. Assim, enquanto os “mantras” para a era digital foram a agilidade e ruptura, para esta nova era de exploração e descoberta de inovação, mais uma vez se tornarão proeminentes. É hora de pensar menos sobre “hackaton” e mais sobre como enfrentar os grandes desafios.


A guerra é a saída cobarde para os problemas da paz. Thomas Mann

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Conselho dos Direitos Humanos afirmou ontem que o fluxo migratório dos rohingyas para o Bangladesh no último ano devido a perseguições militares é uma prova das persistentes violações dos direitos humanos na Birmânia (Myanmar). “A chegada até hoje de novos refugiados reflecte a gravidade das violações dos direitos humanos em Myanmar”, declarou em comunicado o Conselho dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), cuja Missão Independente sobre a Birmânia, iniciada em Março de 2017, terminou ontem uma visita ao Bangladesh. Segundo o Conselho, os rohingyas recém-chegados ao Bangladesh encontravam-se em melhores condições financeiras que os que tinham chegado anteriormente, cerca de 11.500 desde Janeiro. Os cerca de 722.000 rohingyas que foram obrigados a deslocar-se para o Bangladesh desde o início da crise, em Agosto de 2017, fugiram devido ao “ambiente geral ameaçador” na Birmânia, segundo relatos de alguns dos deslocados. “Referem-se às evidentes ameaças de violência e perseguição que enfrentam, que prejudicaram os seus meios de subsistência”, indicou também o comunicado. A missão, que já se deslocara ao Bangladesh em Outubro de 2017, entrevistou entre os dias 16 e 19 de Julho uma série de autoridades do país e representantes de várias organizações não-governamentais (ONG), tendo também visitado os acampamentos de refugiados no sudeste.

Fim da novela Governo fica com os galgos e acusa Yat Yuen de irresponsabilidade

Angela Leong, directora-geral da Yat Yuen, garantiu que os funcionários do Canídromo iriam permanecer nas instalações para garantir o bom tratamento dos animais. “Amanhã (hoje) é o dia do despejo. Depois do dia de hoje vou dizer aos meus trabalhadores para continuarem a trabalhar e a cuidar dos galgos. Já lhes mandei cartas. A nossa equipa de gestão e advogados estão a comunicar com o Governo, e espero que haja um equilíbrio e bons resultados para que os trabalhadores mantenham o seu emprego e os galgos possam continuar a vida depois das corridas. Estou à espera de respostas”, afirmou aos jornalistas.

TIAGO ALCÂNTARA

ONU DENÚNCIA DE VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS NA BIRMÂNIA

PALAVRA DO DIA

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ERMINA hoje o prazo que o Governo decretou para a Companhia de Corridas de Galgos Yat Yuen ocupar o terreno do Canídromo. Uma vez que ainda restam cerca de 500 galgos para dar para adopção, o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) emitiu ontem um comunicado (que à hora de fecho deste jornal ainda não tinha sido traduzido para português) onde assume que vai ficar com a propriedade dos cães, ao abrigo da lei de protecção dos animais. Além disso, a Companhia de Corridas de Galgos Yat Yuen é ainda acusada de “tratamento irresponsável” para com os animais, uma vez que detinha a total

propriedade sobre os animais. O IACM apenas pôde fiscalizar os animais nos processos de adopção que ocorreram. A lei de protecção dos animais determina que, “em caso de impossibilidade de criação de animais”, o proprietário “pode entregá-lo no IACM, mediante pagamento de um montante fixo correspondente às despesas de alimentação e alojamento”. Com esta acção, a Yat Yuen deixa de ser a proprietária dos galgos, coincidindo com o fim do prazo de ocupação do terreno. A partir de sábado, o Governo passa a deter os totais direitos de propriedade sobre o terreno do Canídromo. Ontem à margem do plenário da Assembleia Legislativa,

“NUNCA IGNOREI O FUTURO”

Na comunicação que fez à imprensa, Angela Leong adiantou ainda que “desde sempre tem protegido os galgos” e que “nunca ignorou o seu futuro”. Além disso, “é importante proteger os nossos trabalhadores no sentido de terem um emprego para que possam garantir a sua vida, é importante garantir os seus direitos e interesses porque trabalham lá há muitos anos”. O prazo para a Yat Yuen sair do terreno do Canídromo foi decretado em 2016, mas a empresa tem vindo a adiar os planos. Até ontem foram apresentados três planos para o futuro dos galgos, todos rejeitados pelo IACM e pela Direcção dos Serviços de Inspecção e Coordenação de Jogos. A.S.S.

Japão Excedente comercial de mais de cinco mil milhões de euros em Junho

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O Japão registou um excedente comercial de 721,408 mil milhões de ienes (5,491 mil milhões de euros) em Junho, anunciou ontem o Ministério das Finanças nipónico. Este resultado representa um aumento de 66,5 por cento em relação ao período homólogo. Em comparação com Junho de 2017, as exportações cresceram 6,7 por cento, para 53,6 mil milhões de euros, enquanto que as importações

cresceram 2,5 por cento para 48,1 mil milhões de euros. Com a China, o maior parceiro comercial, o Japão registou um défice de 514 milhões de euros, uma melhoria de 68,4 por cento em relação ao mesmo período do ano passado, em que a balança comercial era ainda mais desvantajosa para os nipónicos. Já em relação aos Estados Unidos, segundo maior parceiro comercial, os responsáveis nipónicos anunciaram

um aumento de 0,5 por cento do excedente comercial em relação a junho de 2017, a que corresponde um valor de 590,3 mil milhões de euros. Com a União Europeia, o Japão conseguiu uma balança comercial positiva de 221 milhões de euros, mais 68,8 por cento em comparação com o período em análise. Em Junho de 2017 o Japão tinha registado um défice de 3,6 milhões de euros com a União Europeia.

sexta-feira 20.7.2018

DIPLOMACIA TRUMP ANUNCIA INTENÇÃO DE NOVO ENCONTRO COM PUTIN

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Presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou ontem a intenção de manter uma segunda reunião com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, após o “grande êxito” da cimeira que mantiveram esta semana em Helsínquia. “A cimeira com a Rússia foi um grande êxito, excepto para o verdadeiro inimigo do povo, os Media de Notícias Falsas. Estou desejoso [de realizar] o nosso segundo encontro para que possamos começar a aplicar algumas das muitas coisas discutidas”, referiu Trump numa mensagem na sua do Twitter, sem concretizar as possíveis data e local. Entre os temas abordados, o Presidente norte-americano referiu-se à luta contra o terrorismo, à segurança de Israel, à proliferação nuclear, à Ucrânia, aos ciber-ataques e à Coreia do Norte. “Há muitas respostas a estes problemas, algumas fáceis e outras difíceis, mas todos podem ser solucionados”, acrescentou. No seu encontro com Putin, na passada segunda-feira, Trump desencadeou a polémica ao desautorizar os relatórios dos seus serviços de informações sobre a interferência de Moscovo nas eleições presidenciais de 2016, que venceu. No entanto, o Presidente dos EUA, que foi sujeito a numerosas críticas, corrigiu no dia seguinte as suas declarações ao assegurar que se tinha exprimido de forma incorrecta e que considerava ter existido uma interferência da Rússia, como têm indicado os serviços de informações norte-americanos.

Hoje Macau 20 JUL 2018 #4096  

N.º 4096 de 20 de JUL de 2018

Hoje Macau 20 JUL 2018 #4096  

N.º 4096 de 20 de JUL de 2018

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