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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10

TERÇA-FEIRA 18 DE JULHO DE 2017 • ANO XV • Nº 3856

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

hojemacau Táxis Subida de tarifas não agrada a ninguém Tanto taxistas como utentes não estão satisfeitos com o aumento previsto da bandeirada. Os primeiros dizem que é curto, os segundos que é demais. E, sobretudo, além do dinheiro, o que se pede aos profissionais da praça é que elevem a qualidade do serviço. PÁGINA 8

SOFIA MARGARIDA MOTA

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“O MAM é para as pessoas” Chan Kai Chon, director do Museu de Arte, entende que a instituição deve ser para todos e ter as portas abertas a diversas sensibilidades. E promete que, para o ano, a divulgação de arte portuguesa vai ser muito maior.

QUEM QUER UM GALGO?

ASSEMBLEIA QUER PROIBIR CARTAZES

Motor de regras

A ANIMA não sabe o que fazer a tanto cão, agora que o Canídromo vai fechar. Procuram-se donos de bom coração. PÁGINA 9

TIAGO ALCÂNTARA

TIAGO ALCÂNTARA

ENTREVISTA

Um grupo de deputados está preocupado com a solenidade do hemiciclo. E por isso propõem novas regras. PÁGINAS 4-5


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CHAN KAI CHON DIRECTOR DO MUSEU DE ARTE DE MACAU

Chan Kai Chong tem um objectivo: quem entrar no museu que dirige deve conseguir encontrar aquilo que procura. Por isso, quer uma instituição diversificada, capaz de comunicar com as várias comunidades que vivem na cidade. Para o novo responsável pelo MAM, o espaço museológico não tem razões para temer a concorrência regional. Basta que continue a afirmar-se como o local onde cabem diferentes culturas Assumiu o cargo de director do Museu de Arte de Macau (MAM) há dois meses. Como é que está a ser este desafio? Em primeiro lugar, devo dizer que, apesar de ter feito investigação sobre história de Macau, e estudos de história de arte chinesa e acerca do intercâmbio artístico entre Oriente e Ocidente, gerir um museu é algo completamente diferente. Tenho de conhecer o funcionamento normal de cada parte administrativa e as que lidam com os assuntos ligados à museologia. Por isso, para mim, é um desafio. Simultaneamente, fiquei muito contente por ter uma

“O MAM deve ser para todos” oportunidade para aprender. Creio que toda a gente precisa de aprender ao longo da vida. Vem da área da educação artística, que foi uma das apostas visíveis do MAM. É uma das áreas que quer desenvolver no museu? Para que o MAM tenha público, é preciso fazer formação de públicos. Quais são os seus planos nessa matéria? O museu tem organizado muitos cursos, destinados a adultos, adolescentes e crianças. Por exemplo, no piso 0 temos acções de formação destinadas aos miúdos. É uma forma de educar e de aumentar o conhecimento artístico das crianças. É também um modo de os miúdos conhecerem o conceito de museu. Neste momento, também temos alguns trabalhos destinados aos Amigos do MAM, pelo que organizamos visitas guiadas, acções de formação e visitas fora do território. Além disso, o museu tem colaborado com a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude. Em conjunto, são organizadas visitas para que todos os alunos do sexto ano venham ao museu. Através das visitas guiadas, explica-se como se deve visitar um museu e como é que se apreciam obras de arte num espaço destes. É uma parte da disciplina de Artes Visuais na escola. Os museus têm mais recursos artísticos para responderem a estas necessidades. Estive a falar com os nossos colegas sobre a possibilidade de, no futuro, se prepararem mais materiais didácticos e de apoio destinados a cada grupo etário, para que os miúdos percebam melhor, através de alguns textos e jogos, e se possam aproximar mais das obras de arte. Em termos gerais, como é que olha para o desenvolvimento do MAM? Que caminho é que este museu deve seguir? Acredito que o museu deve ser para toda a gente. Na semana passada inaugurámos uma exposição: quase todos os artistas são jovens. Mas, no quarto andar, temos um grande mestre de pintura chinesa. E temos também uma exposição sobre as mulheres, constituída a partir do

“Queria que as pessoas, quando entrassem aqui, pudessem encontrar o que querem ver, o que querem aprender.” nosso espólio. Como temos quatro pisos, gostava que as pessoas, quando entrassem aqui, pudessem encontrar o que querem ver, o que querem aprender. É esse o meu objectivo. Por outro lado, vamos aumentar os recursos humanos para que possam ser melhoradas as visitas guiadas. A ideia é fazer com que os visitantes tenham uma maior facilidade em saber o que ver e qual é o conceito original, para saber como ver as obras. Macau é um território pequeno e muito associado ao jogo – não à arte. Que imagem é que o MAM pode ajudar a projectar? É possível que o MAM possa fazer parte da imagem de Macau? O MAM tem 18 anos. Este museu tem representado um papel importante na divulgação da cultura chinesa no território. Macau não é só uma cidade de casinos, tem uma história diferente e muito rica. Um museu serve, em primeiro lugar, como um sítio onde os visitantes podem ter uma sensibilização estética. Em segundo lugar, uma visita a um museu pode servir para aumentar os conhecimentos através dos quadros. Acredito que,

aquando da criação dos quadros pelos artistas, existem intenções, ideias e sentimentos – isto é conhecimento. Se quisermos atingir estes dois objectivos, as nossas exposições e actividades têm de ser muito diversificadas. Macau tem as comunidades chinesa, portuguesa e de língua materna inglesa. Por isso, precisamos de diversificar os temas dos nossos trabalhos. Nos últimos meses, temos ouvido falar muito da integração regional, com a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau a ser estudada. Na perspectiva da futura grande área metropolitana, em termos artísticos vamos ter muita concorrência das cidades em redor. Como é que o MAM pode ser diferente? Que lugar é que pode ocupar neste contexto? Antes de mais, gostava de dizer o seguinte: a comunidade chinesa de Macau é constituída por muitas pessoas com diferentes proveniências. Cada uma tem o seu background cultural, assim como eu tenho origem na Província de Guangdong. Quando se fala na Grande Baía, este conceito engloba as diferentes cidades da zona do Delta do Rio das Pérolas. A maioria tem a mesma raiz cultural. Qual é o papel que precisamos de ter neste contexto? O MAM tem uma história de 18 anos e a experiência de mostrar os diferentes grandes mestres ocidentais e orientais neste território. Em comparação com museus de cidades vizinhas, temos

NAS MÃOS DO HISTORIADOR

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SOFIA MARGARIDA MOTA

ENTREVISTA

atural de Zhongshan, província de Guangdong, Chan Kai Chon fez o ensino secundário em Macau, na escola Hou Kong. A arte não foi a primeira opção académica do director do MAM: quando chegou a altura de frequentar a universidade, foi para Jinan, onde estudou Economia. Com a licenciatura concluída, Portugal apareceu no seu percurso, com dois anos passados em Coimbra, onde frequentou o curso de Língua e Cultura Portuguesa. De regresso a Macau, começou a trabalhar na Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ). Mas, uma vez mais, surgiu a necessidade de estudar: em Nanjing fez o mestrado de Pintura Chinesa. Seguiu-se Pequim e a Academia Central de Belas-Artes, para estudar História de Arte. Trabalhou na DSEJ durante 20 anos, “sempre em áreas relacionadas com a educação artística”, nota. Chan Kai Chong tem várias obras publicadas no domínio da história de arte em Macau, na China Continental, em Hong Kong e em Singapura. Além disso, dedica-se ao desenho e à pintura.

o nosso espaço para continuarmos a ter o privilégio de representar um papel que, em primeiro lugar, deve mostrar a cultura chinesa de Macau – através das relíquias e pinturas chinesas –, para transmitirmos a herança da cultura chinesa. Temos colaborado com o Museu de Orsay e o Victoria & Albert de Inglaterra, temos esta ligação. Acho que podemos continuar a ter um papel relevante na divulgação das culturas chinesa e ocidental. Também estou convencido de que, para o ano, o nosso papel na divulgação da arte e da cultura portuguesa vai ser maior do que no passado recente. Há alguma novidade que possa adiantar em relação a essa presença portuguesa no MAM? Neste momento, estamos em preparativos. Desde que assumi o cargo de director, fui a Itália, para


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ver a Bienal de Veneza, e depois fui a Portugal. Lá estive em alguns museus e nalgumas galerias, bem como em estúdios de artistas de Lisboa. Já temos algumas ideias para avançar com projectos. Neste momento estamos a trabalhar para isso. Como é que olha para o desenvolvimento da arte em Macau? A cidade é pequena, não existe uma Faculdade de Belas-Artes. O Instituto Politécnico de Macau tem, há já muito tempo, uma Escola

Superior de Artes. Também tomei conhecimento de outra universidade que também tem o curso de Artes. Por isso, penso que, neste momento, Macau tem cada vez um espaço maior para a formação profissional e académica nesta área. Para mim, é um pouco difícil descrever o cenário das artes em Macau. Há muitas formas de arte. Quando falamos de artes plásticas, vemos que a arte contemporânea é mais viva do que a de outros grupos de artistas. Os artistas na vertente contemporânea são mais visíveis.

“Para o ano, o nosso papel na divulgação da arte e da cultura portuguesa vai ser maior do que no passado recente.”

Isso significa que há um maior dinamismo nos artistas mais jovens? Macau é diferente da China e do estrangeiro. Nem todos os artistas são profissionais. Mas alguns jovens em Macau, neste momento, já começaram a ter a sua imagem como artistas profissionais. Isto é

uma mudança muito significativa ao longo da história da arte de Macau. Estudo a história do território há 20 anos e nota-se que isto está a acontecer. É um bom sinal na evolução da arte de Macau. Mas é difícil fazer uma avaliação global – há quem trabalhe em pintura chinesa, outros trabalham em arte contemporânea. Quando me refiro à arte contemporânea, falo apenas da arte ocidental. Na pintura chinesa, embora haja

pessoas que estão a alterar o seu gosto estético e a criar novos estilos, geralmente os artistas gostam mais das técnicas tradicionais. Qual é o seu maior desejo para o MAM? O meu maior desejo é que os nossos trabalhos – quer na parte administrativa, quer na componente académica – possam aumentar e chegar a um nível razoável em

termos de museologia. Depois, queremos publicar mais materiais em termos de investigações e aumentar a velocidade da publicação dos catálogos de exposições. No futuro, gostava que o MAM fosse parte da vida dos nossos cidadãos. Isabel Castro

isabelcorreiadecastro@gmail.com

MARC CHAGALL PARA O ANO

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Museu de Arte de Macau recebe, no próximo ano, uma exposição de obras do pintor Marc Chagall, adiantou ao HM o director da instituição. Para já, ainda não há detalhes sobre o que será mostrado no território da autoria do multifacetado artista, fortemente influenciado pelo fauvismo e pelo surrealismo. “Os nossos colegas do Instituto Cultural foram a Paris em Maio”, explicou Chan Kai Chon. “Estamos a trabalhar neste projecto.” Dos planos para 2018 do MAM faz ainda parte uma exposição de pinturas a óleo de artistas russos. Além disso, a colaboração que tem vindo a ser desenvolvida com o Museu do Palácio de Pequim deve conhecer novos desenvolvimentos, com mais um projecto.


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PLENÁRIOS COMISSÃO DE REGIMENTO E MANDATOS QUER FIM DOS CARTAZES

DERIVAS ICONOCLASTAS F

OI a única alteração proposta que não foi aprovada por unanimidade, na votação interna da Comissão de Regimento e Mandatos. O grupo de deputados, liderado por Vong Hin Fai, está a terminar uma série de modificações ao funcionamento da Assembleia Legislativa, mudanças que terão de ser ainda apreciadas em plenário. Uma das novidades – a mais problemática – tem que ver com a exibição de cartazes, durante as sessões plenárias, nas bancadas reservadas aos deputados. “O objectivo é assegurar a solenidade das reuniões e o prestígio do plenário”, vincou Vong Hi Fai. “Nos lugares dos deputados não se poderão utilizar cartazes e esse tipo de objectos de apoio. Não serão permitidos

acessórios para transmitir mensagens políticas”, afirmou. Esta sugestão da Comissão de Regimento e Mandatos “contou com a concordância da maioria dos membros da comissão”. O presidente admitiu que não houve unanimidade, mas recusou-se a dizer quantos foram os deputados que discordaram da ideia. “Não posso dizer. Foi mais do que um. Mas mais de metade concordou, só por isso é que se avançou com esta solução.” O recurso a cartazes tem sido uma opção dos deputados da chamada ala pró-democrata, Au Kam San e Ng Kuok Cheong, mas não só. Entre outros, e apesar de o fazer com menos frequência, também José Pereira Coutinho usa este tipo de objectos na AL. Da Comissão de Regimento e Mandatos faz

parte Au Kam San, pelo que não será arriscado dizer que se trata de uma voz contra esta proibição. Resta agora adivinhar que será o “mais do que um” a que Vong Hin Fai se referia: o grupo é também constituído por Kou Hoi In, Chui Sai Cheong, Leonel Alves, Au Kam San, Angela Leong e Gabriel Tong. Ontem, em conferência de imprensa e perante a insistência dos jornalistas, Vong Hi Fai assegurou que esta nova limitação, se for aprovada, “não impede o uso da palavra”. “Respeitamos a liber-

dade individual dos deputados”, disse o deputado nomeado por Chui Sai On. O também advogado acrescentou, em resposta a uma questão colocada, que não será proibida a colocação de mensagens na roupa dos deputados que optem por esta via para se expressarem de forma diferente.

VOTOS COM TEMPO

Em termos gerais, as alterações que se pretende fazer ao Regimento da AL e às resoluções conexas têm como grade objectivo “assegurar

“O objectivo é assegurar a solenidade das reuniões (...). Nos lugares dos deputados não se poderão utilizar cartazes e esse tipo de objectos de apoio.” VONG HIN FAI PRESIDENTE DA COMISSÃO DE REGIMENTO E MANDATOS

a participação dos deputados na fiscalização da acção governativa e elevar a eficiência” da Assembleia. No início deste ano, precisou Vong Hin Fai, foi enviada uma carta a todos os membros do órgão legislativo em que foram solicitadas opiniões sobre o funcionamento da estrutura. O documento que amanhã deverá estar pronto para ser levado a plenário resulta deste trabalho interno de auscultação. Uma das novidades tem que ver com a emissão de votos, que podem ser de congratulação, pesar, saudação, louvor ou censura. Além de uma alteração à redacção, passará a haver uma antecedência mínima de 24 horas para a apresentação do texto relativo à proposta de emissão de votos. “Neste momento, não existe uma antecedência mínima. Isto


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É bem provável que, a partir de Outubro, seja impossível aos futuros deputados levarem cartazes para as bancadas durante as intervenções nos plenários. A Assembleia Legislativa está a preparar alterações às regras internas. Esta mudança está longe de ser consensual serve para assegurar que o texto da proposta é traduzido e distribuído aos deputados. Em termos procedimentais, há necessidade de fazer esta alteração”, defendeu Vong Hi Fai. Recorde-se que, em Janeiro deste ano, um voto de pesar pela morte do antigo Presidente da República Portuguesa Mário Soares, apresentado por Pereira Coutinho, teve um desfecho inesperado, ao receber vários votos contra, apesar de ter sido aprovado. Alguns deputados justificaram o sentido de voto com o desconhecimento do teor da proposta do colega. Também as reuniões urgentes do plenário vão ter novas regras para serem convocadas: as actuais 48 horas vão ser reduzidas para 24. A norma para o conhecimento prévio dos textos vai ser adaptada para este tipo de

reuniões: o prazo é actualmente de cinco dias, mas passa a não se observado nestes casos. Deverão ser aprovadas novidades para o processo de urgência. “A nossa sugestão é que, tendo em conta a solenidade do processo legislativo, deve depender de mais de metade do número total de deputados”, disse Vong Hin Fai.

TEMPO E AOS GRUPOS

De resto, os proponentes de projectos de lei poderão fazer marcha-

-atrás e desistir dos seus diplomas até ao início da fase de discussão na especialidade em plenário. “A norma não era clara”, esclareceu o presidente da Comissão de Regimento e Mandatos. Nestas mexidas às regras internas daAL, aproveita-se ainda para acabar com a “certa discrepância” entre as versões chinesa e portuguesa do artigo que dispõe sobre a admissibilidade de um projecto de lei. Para as propostas de debate levadas por deputados ao plenário,

“É o resultado do consumar de actos conduzidos por um pequeno grupinho muito influente dentro da Assembleia Legislativa, que está a limitar a liberdade de expressão.” PEREIRA COUTINHO DEPUTADO

está neste momento fixado um período de 30 minutos, que vai ser eliminado. “Os deputados podem manifestar-se se concordam ou não com o debate. Por não haver esta restrição de tempo, eliminamos o período reservado às declarações de voto.” Existe ainda a intenção de optimizar o processo de interpelação oral. “As interpelações semelhantes devem ser agrupadas para efeitos de procedimento”, defendeu Vong Hin Fai. As regras em vigor ditam que se deve seguir a ordem de apresentação dos requerimentos. “Quando disserem respeito à mesma área de governação, para tornar o trabalho mais eficaz, sugerimos que se agrupem essas interpelações, mesmo que sejam de assuntos diferentes, mas desde que digam respeito à mesma tutela”, explicou. A Comissão de Regimento e Mandatos pretende fazer aprovar estas alterações ainda durante a corrente legislatura, ou seja, antes de 15 de Agosto. As novas regras só serão, contudo, aplicadas depois das eleições de Setembro. Isabel Castro

isabelcorreiadecastro@gmail.com

“É MAU PARA O SEGUNDO SISTEMA”

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osé Pereira Coutinho arrasa por completo a intenção ontem manifestada por Vong Hin Fai, na qualidade de presidente da Comissão de Regimento e Mandatos, em relação à proibição de cartazes e de outros objectos pelos deputados nas suas bancadas, durante os plenários. “É muito mau”, reagiu Coutinho ao HM. “É muito mau para Macau, é muito mau para o segundo sistema. É o resultado do consumar de actos conduzidos por um pequeno grupinho muito influente dentro da Assembleia Legislativa, que está a limitar a liberdade de expressão, o que é muito grave por parte dos deputados”, atira o tribuno. Pereira Coutinho teme as consequências deste tipo de interdições. “A acontecer assim, estamos a caminhar para um sistema em que dificilmente os cidadãos de Macau poderão, de facto, confiar nos deputados”, alerta. “Espero que seja um erro de interpretação ou um acaso que possa ser resolvido da melhor forma, porque é muito grave proibir que os deputados, dentro da sua própria bancada, se possam exprimir por qualquer forma que seja”, rematou.


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ADMINISTRAÇÃO SAFP AFASTAM FUSÃO DE FUNDOS

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Governo não está a ponderar avançar com a fusão de vários fundos num só. A possibilidade foi levantada por Chan Meng Kam numa interpelação ao Executivo, mas é afastada, para já, pelos Serviços de Administração e Função Pública (SAFP). O deputado perguntava se haveria hipótese de integrar os vários fundos existentes para criar um único que atribuísse apoios financeiros a projectos de natureza distinta. Numa resposta assinada pelo director dos SAPF, Eddie Kou, salienta-se que o Governo criou diversos fundos em diferentes áreas com objectivos distintos. A Administração acredita que “a existência de diferentes fundos tem importância em relação ao desenvolvimento e à oferta de financiamento de diferentes projectos”. Chan Meng Kam queria ainda saber se

há intenção de juntar o Fundo das Indústrias Culturais, o Conselho para as Indústrias Culturais e o Instituto Cultural. Na resposta, Eddie Kou diz que não há planos para a integração desses três serviços, mas as funções do secretariado do Conselho para as Indústrias Culturais vão ser assumidas pelo Departamento de Promoção das Indústrias Culturais e Criativas do Instituto Cultural. Já está a ser preparado o respectivo regulamento administrativo. Os SAPF pronunciam-se também sobre a segunda fase da reorganização da Função Pública, em que estão envolvidos serviços das tutelas das Finanças e Economia, da Segurança e dos Transportes e Obras Públicas. Os trabalhos de reorganização estão a ser planeados e vão ser efectuados até 2019. V.N.

ELEIÇÕES NOVA IDEAIS DE MACAU APRESENTA LISTA

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candidatura liderada por Carl Ching, líder da Associação Sonho Macau, entregou ontem junto da Comissão de Assuntos Eleitorais da Assembleia Legislativa uma nova lista de aspirantes a deputados, depois de terem sido detectadas irregularidades no rol inicialmente submetido. De acordo com o cabeça-de-lista da Nova Ideais de Macau, a lista continua a ser constituída por seis pessoas, sendo que o sexto candidato, Wong Tin Iao, foi substituído porque havia documentos em falta, não tendo sido possível chegar à fala com esse elemento da candidatura. Assim sendo, Wong Tin Iao foi substituído por Lei Lai Ieng, uma troca que não deixa descontente o líder do movimento. Carl Ching garante que a candidata deveria fazer já parte do conjunto original

da Nova Ideais mas, por falta de tempo para tirar fotos a Lei, acabou por ficar fora da lista, situação que agora foi alterada. Houve ainda uma modificação nos lugares que ocupam os diferentes candidatos. José Pedro Sales, que estava em número três, passou a ser o segundo, por falar português e ter mais tempo disponível para as eleições do que o outro membro da candidatura, Hong Hok Sam. Após estas mudanças, Carl Ching candidata-se ao lado de José Pedro Sales, Hong Hok Sam, Lam Mok Lei, Ip Seng Hong e Lei Lai Ieng. O presidente da Associação Sonho Macau garantiu ainda que o caso da sua candidatura não é uma das situações apontadas pela CAEAL sobre a existência de candidatos desqualificados por não estarem inscritos como eleitores. V.N.

MAIS UM DEPUTADO DE HONG KONG BARRADO À ENTRADA DE MACAU

Soma e não segue

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Á mais um membro do Conselho Legislativo de Hong Kong a queixar-se das autoridades de Macau. Kwok Ka-ki, membro do pró-democrata Partido Cívico, foi impedido de entrar no sábado passado, relatava ontem a imprensa da região vizinha, que explicava que o deputado vinha ao território comemorar o aniversário de casamento. Kwok Ka-ki vem engrossar uma lista crescente de activistas da antiga colónia britânica que são obrigados a apanhar um ferry de volta a casa sem terem entrado em Macau. Só este ano, aconteceu o mesmo aos deputados

Kenneth Leung, Andrew Wan e Ray Chan. No caso de Kenneth Leung, tinha estado na China Continental alguns dias antes da tentativa frustrada de visitar a RAEM. Ainda segundo os jornais de Hong Kong, Kwok apanhou o barco para Macau depois de ter participado numa marcha de homenagem ao dissidente Liu Xiaobo, que morreu na semana passada. De acordo com o deputado, pretendia comemorar por cá o 30.o aniversário do seu casamento. À chegada ao Terminal Marítimo do Porto Exterior, as autoridades não o deixaram entrar. A justificação dada, explica, foi o facto de constituir uma ameaça à segurança

interna da RAEM, argumento usado também nos incidentes que envolveram os seus colegas do Conselho Legislativo. Kwok Ka-ki afiança que as suas viagens a Macau têm sempre fins recreativos, jamais tendo participado em eventos oficiais ou de outra índole. “Isto é extremamente ridículo”, considerou.

ACEITAM-SE EXPLICAÇÕES

“Trata-se de uma acusação muito séria. Sou deputado eleito de forma democrática. Tenho uma certa posição constitucional conforme o que está estipulado na Lei Básica. O que Macau tem estado a fazer aos deputados de Hong Kong é intolerável”, afirmou o deputado.

Kwok já pediu à Chefe do Executivo da RAEHK, Carrie Lam, que peça explicações a Macau, e que o Governo de Chui Sai On prove como é que ele e os restantes deputados barrados constituem uma ameaça interna. Perguntou ainda se o Executivo de Hong Kong tinha conhecimento de que poderia ser barrado e se o Governo de Macau tem uma “lista negra”. O deputado é do entendimento de que Carrie Lam deve levar este incidente de forma séria e defender a posição constitucional de Hong Kong. “isto não é só acerca de mim, é uma estalada na face de Hong Kong”, vincou. “Se Carrie Lam não quiser ser vista como um C.Y. Leung 2.0, deve exigir uma resposta de Macau.” O deputado estende os reparos a Chui Sai On, perguntando se foi Pequim que lhe pediu para impedir a entrada em Macau por causa do seu posicionamento político. Em Maio passado, vários activistas pró-democracia tiveram de dar meia volta e regressar a Hong Kong, aquando da visita a Macau do presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional. Alguns deles tinham estado dias antes no território, sem que tivesse sido levantado qualquer problema. O fenómeno inverso começou já a verificar-se: no final do mês passado, nas vésperas da visita do Presidente Xi Jinping, chegou a vez de activistas da Associação Novo Macau não passarem do Terminal em Sheung Wan.

ENSINO NG KUOK CHEONG QUER GENTE A PENSAR

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G Kuok Cheong considera que chegou a hora de mudar o tipo de ensino em Macau, com vista à formação de diferentes talentos locais. Numa interpelação escrita, o deputado à Assembleia Legislativa, que se recandidata às eleições de Setembro próximo, defende que o próximo passo a dar no sistema escolar deve passar pelo ensino inteligente. Para o pró-democrata, já estão cumpridas algumas metas importantes, como a escolaridade gratuita, e o Governo dispõe de condições financeiras sufi-

cientes para que possa ser impulsionado o ensino inteligente. Além disso, o deputado frisa que “os bons exemplos de países que seguem este método com sucesso demonstram que o desenvolvimento do sistema educativo inteligente diversificado do ensino não superior está relacionado com os resultados ao nível universitário”. Ng Kuok Cheong defende uma abordagem a dois níveis, a começar nas escolas básicas e secundárias, um trabalho que deve ser feito através da

definição de políticas que permitam ajustar os recursos das universidades e institutos locais para o desenvolvimento e aperfeiçoamento do ensino inteligente diversificado no âmbito do ensino não superior. O deputado pergunta ainda ao Governo se existe a possibilidade de “proporcionar mais elementos sobre o ensino inteligente nos cursos de Educação das instituições de ensino superior locais, com vista à melhoria do conhecimento dos professores”. V.N.


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A Uber anunciou ontem a sua saída do mercado para pensar “num novo modelo de negócio”. Andrew Scott lembra que a Uber não teve a melhor estratégia quando chegou a Macau. Tong Ka Io exige ao Governo uma modernização do sistema, que permita novos meios de transporte

UBER EMPRESA TERMINA OPERAÇÕES TEMPORARIAMENTE

A ver se vai e volta

MODERNIZAÇÃO PRECISA-SE

Quando a Uber anunciou, no ano passado, que ia sair do mercado, a associação Iniciativa de Desenvolvimento Comunitário organizou um protesto de apoio que juntou cerca de 300 pessoas nas ruas. Hoje, Tong Ka Io, o seu presidente, diz que mantém a sua posição e pede que as operações da Uber sejam integradas na nova lei dos táxis, que o Executivo continua a preparar.

“Macau nunca reagiu bem a empresas vindas do estrangeiro que pretendem dizer o que deve ser feito.”

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EMPRE foi ilegal, já esteve para sair do mercado uma vez, mas não saiu. Agora é a sério, mas não para sempre. Este tem sido o percurso da Uber desde que começou a operar em Macau, sempre de forma irregular. Ontem, a empresa de transporte que funciona através de uma aplicação de telemóvel anunciou a saída temporária do mercado para pensar em novas maneiras de operar. “Ao fazermos uma pausa, esperamos poder abrir portas a um diálogo construtivo com todos os accionistas em Macau e termos a capacidade de criar um ambiente de negócio que traga benefícios para todos”, aponta um comunicado da empresa. “Estamos a explorar novas formas de servir a cidade novamente, e temos tido alguns contactos com parceiros de negócios, incluindo operadores de transportes e hotéis”, escreve ainda a Uber. Para a empresa, “a decisão de parar não foi fácil, e foi feita tendo em conta os melhores interesses para Macau”. O HM tentou saber junto da empresa quantas multas foram aplicadas aos condutores da Uber neste período de operações, mas a empresa recusou prestar mais informações além das que foram divulgadas no comunicado. Macau não é um mercado significativo para a empresa norte-americana, mas o território engrossa a lista de países onde os serviços da Uber se depararam com problemas de regulamentação, como a Coreia do Sul e o Japão. Também em Hong Kong os motoristas continuam a enfrentar uma batalha legal. Em Taiwan, a Uber suspendeu os serviços durante dois meses, mas retomou a actividade

confrontação com que chegam a todos os mercados”. “Macau nunca reagiu bem a empresas vindas do estrangeiro que pretendem dizer o que deve ser feito. É uma vergonha porque o conceito de ter acesso a um meio de transporte através de uma aplicação de telemóvel é uma tendência de futuro, e não tenho dúvidas de que veremos isso em Macau, de uma forma ou de outra”, acrescentou.

ANDREW SCOTT PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE PASSAGEIROS DE TÁXI DE MACAU

DSAT DIZ QUE É NECESSÁRIO OPERAR DE ACORDO COM A LEI

L

am Hin Sang, director dos Serviços para os Assuntos de Tráfego, disse ontem à margem da conferência de actualização das tarifas dos táxis que todos os serviços de transporte semelhantes à Uber têm de respeitar a lei em vigor. “Este serviço online tem de ser regularizado. Por

em Abril, depois de negociações com as autoridades.

UM INÍCIO COMPLICADO

Andrew Scott, presidente da Associação de Passageiros de Táxi

exemplo, o serviço de rádio táxis funciona através de uma aplicação de telemóvel. Desde que satisfaça os regulamentos em vigor, achamos bem [que existam]. Todos os serviços que não se encontrem numa situação regularizada iremos seguir a lei”, apontou.

de Macau, lembra que a estratégia inicial da Uber de entrada no mercado local não foi a mais correcta. “É triste esta notícia e reconheço o facto de a Uber saber que tem espaço de melhoria em

termos de regularização das suas operações em Macau”, apontou ao HM. Contudo, Andrew Scott lamenta que a empresa “tenha chegado a Macau com a mesma postura e

“O Governo deveria rever a lei para introduzir novos meios de transportes em Macau. A preocupação não reside apenas numa só empresa, mas pedimos novos meios de transporte. Lamentamos a decisão da saída da Uber do mercado. São necessárias novas regulações que facilitem a entrada de novos serviços de transporte no mercado”, defende. “Gostaríamos de ver implementados novos tipos de meios de transporte público, para que Macau tenha uma melhoria no sistema de transportes. O serviço de táxis continua a não ser satisfatório e há muitos problemas”, referiu o responsável. Tong Ka Io considera que o sistema de transportes em Macau continua o mesmo de há décadas, sem que o Executivo mostre sinais de uma mudança profunda. “A sociedade mudou, mas o nosso Governo continua a ter o mesmo sistema de há décadas, e continua a querer manter as mesmas formas de funcionamento do sistema. Se a empresa quiser implementar um novo modelo, decerto não se incluirá no sistema tradicional que actualmente existe e na lei em vigor”, concluiu. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


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vo não pode acatar todas as propostas da classe. Nesse sentido, o dirigente acha que os taxistas tiveram de aceitar este aumento, porque se não o fizessem “a negociação poderia demorar mais um ano”, ou seja, foi um mal menor.

CAUSA E EFEITO

AUMENTO DAS TARIFAS DOS TÁXIS GERA DISCÓRDIA EM VÁRIOS SECTORES

Nem gregos, nem troianos A anunciada actualização dos preços das viagens de táxis promete agitar a sociedade. A DSAT tentou chegar a um equilíbrio que fosse razoável tanto para a classe profissional, como para os utentes. Perspectivam--se manifestações no horizonte numa decisão que não agrada nem a taxistas, nem a cidadãos

P

ARAa actualização das tarifas consideramos o índice de preços no consumidor, a inflação e os preços da gasolina para veículos ligeiros, tentámos equilibrar para todos”, explica Lam Hin San, director da Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT). O dirigente do Executivo para os assuntos do trânsito apresentou os novos preços que entram em vigor à meia-noite do próximo domingo, dia 23. Segundo as estimativas apresentadas pelo homem forte da DSAT, o aumento das tarifas será de cerca de 10 patacas por percurso, “um

valor razoável”, de acordo com Lam Hin San. A solução encontrada pelos serviços promete gerar controvérsia tanto entre utentes como taxistas. “Eles precisam de ter um rendimento razoável e a população quer ter um bom serviço”, explica o director da DSAT. Lam Hin San acrescenta ainda que “é difícil satisfazer todas as pessoas” e que os valores resultam de um ponto de equilíbrio. No entanto, esta solução parece não agradar a gregos, nem a troianos. A Associação Poder do Povo planeia já uma manifestação para a próxima semana para protestar a actualização das tarifas. Cheong Weng Fat,

vice-presidente da associação considera que “as tarifas só deveriam ser aumentadas após a melhoria dos serviços”. O dirigente associativo explicou ao HM que em Shenzhen e Zhuhai as tarifas dos táxis não são actualizadas há uma década, período durante o qual Macau já teve três aumentos. Fenómeno que não se verifica em Hong Kong, o preço da bandeirada subiu recentemente.

Andrew Scott, presidente da Associação de Passageiros de Táxi acha que este aumento é “mais do mesmo”. O dirigente associativo entende que as “as tarifas deviam ser aumentadas substancialmente, mas apenas com a melhoria dos serviços prestados” Após meses de negociações, a proposta final foi discutida no Conselho Consultivo do Trânsito e as

A solução encontrada pelos serviços promete gerar controvérsia tanto entre utentes como taxistas. “Eles precisam de ter um rendimento razoável e a população quer ter um bom serviço”, explica o director da DSAT

associações que representam os taxistas lá tiveram de aceitar o que o Governo ofereceu. Do outro lado do campo, Tony Kuok, presidente da Associação de Mútuo Auxílio dos Condutores de Táxi, é da opinião de que a proposta final “é um bocado diferente daquela que os taxistas esperavam”. O representante dos taxistas enalteceu a rapidez com que o Governo resolveu esta matéria, demorando apenas cinco meses. Em situações passadas, a proposta final chega numa altura em que a inflação já anulou os efeitos de um aumento de tarifa. Nesse sentido, Tony Kuok mostrou-se compreensivo, comentando que o Executi-

Até se chegar ao valor de 17 patacas para os primeiros 1600 metros, foram rejeitadas propostas de dois sectores. Uma que pretendia 20 patacas na mesma distância e outra que pedia o mesmo valor para os primeiros 1500 metros de corrida. O equivalente respectivo de 17,65 e 25,49 por cento de aumento. Com a actualização feita, o crescimento da tarifa é de 11,76 por cento. Outro distinção é ao nível da forma como o taxímetro aumenta. As associações do sector pediam um acrescento de duas patacas a cada 220 metros, em contraposição aos anteriores 260 metros. A DSAT ficou-se pela metade, ou seja, o salto de duas patacas verificar-se-á a cada 240 metros. Quanto a taxas adicionais, a tomada de táxis no Terminal Marítimo de Passageiros da Taipa e no campus da Universidade de Macau vão custar mais cinco patacas. Nesse sentido, foram rejeitadas as propostas das associações do sector que propunham taxas adicionais durante o Ano Novo Chinês e nos feriados obrigatórios. Outras reivindicações que ficaram pelo caminho foram a taxa adicional de bagagem de três patacas no percurso da Taipa para Coloane, a taxa de cinco patacas de Macau para Coloane e de início de viagem no aeroporto. Lam Hin San reconhece que existe na sociedade um desagrado grande com os serviços prestados pelos taxistas, nomeadamente no que toca às tarifas abusivas, à recusa de passageiros e às viagens com voltas intermináveis. O director da DSAT não tem dúvidas de que um factor a ser revisto é o valor da multa de 1000 patacas, por não ter efeito dissuasor. No plano regulamentar, o director da DSAT acredita que o regulamento de táxis será aprovado na próxima legislatura da Assembleia Legislativa. João Luz (com Vítor Ng) info@hojemacau.com.mo


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terça-feira 18.7.2017

A Anima lançou campanha mundial para salvamento dos galgos do Canídromo e pede para ficar um ano na infra--estrutura para poder transferir os animais. A associação só aceita enviar os galgos para países onde estes estejam protegidos legalmente

ANIMAIS GALGOS DO CANÍDROMO PODEM SER ADOPTADOS FORA DE MACAU

Adopção internacional dação da Anima, em final de 2003, até ao fim do ano passado, foram resgatados 3424 animais. No final de 2016, o número de cães supervisionados pela Anima era 961, dos quais 392 se encontravam em abrigo. Os gatos totalizaram 2092, sendo que 192 se encontram em instalações da associação.Até agora, este ano foram resgatados 476 animais.

“Não se pode deixar morrer os galgos, não só por uma questão moral mas também para se projectar uma boa imagem de Macau.”

O

Canídromo de Macau está quase a fechar as portas. Para antecipar o encerramento, há muito aguardado pela Anima, a associação pediu ao Governo para ocupar o espaço durante um ano a fim de poder enviar os galgos para adopção. Albano Martins explica que esta questão ganhou contornos internacionais, uma vez que se juntaram ao apelo associações de Itália e Estados Unidos, França, etc. “Temos de ser práticos, não temos mais espaço para animais. Se não temos, como podemos salvá-los?”, interroga-se o presidente da Anima, que vai mais longe e confessa que sozinhos não conseguem. Albano Martins realçou que não se pode deixar morrer os galgos, não só por uma questão moral mas também para se projectar uma boa imagem de Macau. “Não podemos receber mais animais, mas também não podemos fechar o nosso coração”, explica.

ALBANO MARTINS PRESIDENTE DA ANIMA

Para tal, a Anima precisa encontrar quem adopte os 650 cães do Canídromo de Macau. Antes do início da campanha “Rescue the Greyhounds”, já haviam sido encontrados 250 candidatos para receber galgos. Quanto ao destino dos cães, Albano Martins adianta que associações francesas prestam-se a receber uma centena, de Itália recebeu 60 possíveis donos, assim como do Reino Unido. Aliás, o país para onde os galgos serão enviados têm de preencher uma condição essencial: ter leis de protecção animal.

Ou seja, não serão remetidos cães para a China, Vietname, Paquistão ou Indonésia.

ANIMA EM NÚMEROS

Um dos empecilhos para o salvamento dos galgos é a questão da propriedade dos animais. Angela Leong, directora-executiva da empresa que detém os direitos de exploração do Canídromo, justificou a não entrega dos galgos à Anima com o facto de muitos animais serem propriedade de privados. Albano Martins discorda desta posição, lembrando que o

Canídromo é dono de 120 cães e que estes podiam ser entregues imediatamente. Por outro lado, na eventualidade dos donos não quererem os galgos, o Canídromo fica com eles. O assunto foi debatido quando da apresentação do relatório anual de 2016 da associação. Desde a fun-

1,13M patacas foi o prejuízo registado pela ANIMA no ano de 2016

No ano passado foram adoptados 216 animais, mais 32 do que em 2015. No entanto, também o número de resgatados subiu em 2016, de 397 para 476, facto que contribuiu para a sobrelotação dos abrigos da Anima. Noutra acepção, a Anima fechou o ano de 2016 com um prejuízo de 1,13 milhão de patacas, uma dívida “que torna mais complicado o ano de 2017”, mas Albano Martins está esperançado na capacidade da associação para angariar fundos. O presidente da associação sublinha neste ponto que até agora a Anima pagou todas as dívidas que contraiu. João Luz

info@hojemacau.com.mo

SAÚDE AUMENTO DE INFECÇÕES NO MÊS DE JUNHO

O

mês passado registou um aumento do número de casos de infecções no território, comparativamente aos registados no mês anterior e no período homólogo do ano passado. De acordo com os dados divulgados, ontem, pelos Serviços de Saúde foram declarados, em Junho, 528 casos de influenza e 736 casos de infecção por enterovírus. Os dados mostram ainda o registo de oito

casos de intoxicação bacteriana, sete de parotidite e 79 de varicela. Foram ainda registados 15 casos de salmonelose. Os 47 casos de escarlatina representam uma redução de casos quando comparado com o período homólogo do ano anterior e com o mês de Maio. Por outro lado, foram ainda registados, em Junho, 40 casos de tuberculose pulmonar, representando uma redução do valor quando comparado

com o período homólogo do ano anterior; cinco casos de infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), representando um número similar ao período homólogo do ano anterior e um caso de SIDA, representando uma diminuição comparativamente ao período homólogo do ano anterior. No total, os Serviços de Saúde registaram 1475 situações em que foi efectuada a declaração obrigatória.


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PODER DO POVO DIZ QUE FINALISTAS NÃO TÊM EMPREGO

A mesma carga

O

argumento é o do costume: os residentes de Macau não têm emprego porque os postos de trabalho estão ocupados por gente que vem de fora. Ontem, este raciocínio foi usado pela Associação Poder do Povo, que entregou uma carta à Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais em que alerta para as dificuldades com que os finalistas de cursos se deparam na procura de emprego. Na missiva, são ainda pedidas medidas para garantir trabalho aos da terra. Em comunicado, a Poder do Povo queixa-se da insuficiência de requisitos para a importação de mão-de-obra e também da falta de um mecanismo eficaz para a substituição dos não residentes que vão deixando Macau no final dos contratos de trabalho.

“Apesar de o território estar num período de ajustamento profundo da economia, existe um número elevado de trabalhadores não residentes em Macau, e isso prejudica as

oportunidades e condições de empregos dos locais”, assinala a associação em comunicado. A Poder do Povo aponta também que, não obstante o Governo ter vindo a asse-

Cheong Weng Fat

gurar que os não residentes se destinam a trabalhar em áreas onde não existem recursos humanos locais, conhece vários casos de despedimento em que as vagas foram ocupadas por mão-de-obra importada. “Os locais servem para preencher a falta de trabalhadores não residentes”, lamenta a associação. Cheong Weng Fat, vice-presidente da Poder do Povo, explicou ao HM que recebeu queixas de finalistas que dizem ter dificuldade em arranjar emprego. Neste contexto, a Poder do Povo pretende que sejam introduzidas medidas de apoio aos finalistas que pretendem entrar no mundo do trabalho. A associação faz ainda referência a um caso de um trabalhador não residente que foi surpreendido a conduzir ilegalmente na Ilha Verde, criticando os trabalhos das autoridades nesta matéria. Cheong Weng Fat sugere um aumento das multas e uma revisão do regime que permite aos não locais aprenderem a conduzir. V.N./I.C.

PUB HM • 2ª VEZ • 18-7-17

HOMEM ACUSADO DE PROMOVER ASSASSÍNIO DE CHUI SAI ON

ANÚNCIO Execução ordinária n.º

CV1-16-0224-CEO

Tribunal Judicial de Base – 1.º Juízo Cível

Exequente VENETIAN MACAU S.A., com sede em Macau na Estrada da Baía de Nossa Senhora da Esperança, The Venetian Macao Resort-Hotel, Executive Offices – L2, Taipa LIU HONGMIN, de sexo masculino, titular do Passaporte da República Popular da China n.º E6XX5X2X4, com última residência conhecida na República Popular da Executado China em 1302, Office Building A, Wanda Plaza, Cidade de Jinjiang na Província de Fujian *** Correm éditos de trinta (30) dias, a contar da segunda e última publicação do anúncio, citando o Executado LIU HONGMIN, para no prazo de vinte (20) dias, decorrido que seja o dos éditos, pagar ao exequente a quantia de HKD9,837,600.00 (nove milhões oitocentas e trinta e sete mil, seiscentas Hong Kong Dólares) equivalente a MOP$10,132,728.00 (dez milhões cento e trinta e duas mil setecentas e vinte e oito Pataca), acrescida de juros vencidos no valor de HKD$1,547,602.72 (um milhão quinhentas e quarenta e sete mil seiscentas e duas Hong Kong Dólares e setenta e dois avos), equivalente a MOP$1,594,030.80 (um milhão quinhentas e noventa e quatro mil trinta Patacas e oitenta avos), a que acrescem, os juros vincendos, à taxa anual de 18%, as demais despesas despendidas com a presente cobrança coerciva, até à efectiva liquidação da dívida, ou no mesmo prazo, deduzir oposição por embargos ou nomear bens à penhora, sob pena de, não o fazendo, ser devolvido ao exequente o direito de nomeação de bens à penhora, seguindo o processo os ulteriores termos até final à sua revelia. Tudo conforme melhor consta do duplicado da petição inicial que neste 1.º Juízo Cível se encontra à sua disposição e que poderá ser levantado nesta Secretaria Judicial nas horas normais de expediente. E ainda que é obrigatória a constituição de advogado caso seja deduzido oposição – art.º 74.º do C.P.C. de Macau. Caso o citado pretenda beneficiar do regime geral de apoio judiciário, deverá dirigir-se ao balcão de atendimento da Comissão de Apoio Judiciário, sito na Alameda Dr. Carlos d´Assumpção, n.º 398, 6.º andar, Macau, para apresentar o seu pedido, sendo que poderá pedir esclarecimentos através do telefone n.º 2853 3540 ou correio electrónico info@caj.gov.mo. Para o efeito, terá de comunicar ao processo a apresentação do pedido àquela Comissão, para beneficiar da interrupção do prazo processual que estiver em curso, nos termos do n.º 1, do art.º 20.º, da Lei n.º 13/2012, de 10 de Setembro. Tribunal Judicial de Base da R.A.EM., aos 7 de Julho de 2017.

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STÁ em curso uma investigação criminal por suspeita de prática de crime de incitamento à alteração violenta do sistema. Alegadamente, de acordo com comunicado do Gabinete do Procurador, um cidadão local terá divulgado vídeos onde incita à subversão do Governo e ao assassínio do Chefe do Executivo. Após a apreciação de provas preliminares apresentadas pela polícia, o Ministério Público procedeu à autuação, indiciando o indivíduo do crime de incitamento à

alteração violenta do sistema estabelecido. Na sequência da abertura de inquérito, foi aplicado ao suspeito a medida de coacção de apresentação periódica às autoridades. De acordo com o comunicado, o arguido violou imediatamente estas medidas e voltou a divulgar mensagens do mesmo teor que motivaram o processo. No seguimento desta actuação, o juiz de instrução criminal, além de manter a existente medida de coacção, aplicou ao arguido a proibição de ausência do território.

UMA FAIXA... INVESTIMENTO EM PORTOS ESTRANGEIROS MAIS QUE DUPLICOU

A

China faz crescer cada vez mais a sua presença em portos no estrangeiro. Só em 2016, o país duplicou os seus investimentos em projetos portuários que alcançaram a marca do US$ 20 mil milhões. O número confere à nação o título de potência marítima. O objectivo é abrir novas rotas de transporte através do círculo ártico. Os portos estabelecidos para os investimentos chineses agrupam-se à volta de três “passagens económicas azuis”, que Pequim nomeou em Junho como cruciais para o sucesso de “Uma Faixa, Uma Rota”. Um estudo do Grisons Peak — um banco de investimento sediado em Londres — revelou que as empresas chinesas anunciaram planos para comprar ou investir em nove portos no exterior até Junho de 2018, em

projetos com valor total de US$ 20,1 mil milhões. Além disso, estão em curso discussões para investimentos em vários outros portos, para os quais nenhum valor foi divulgado. Este nível de actividade representa uma forte aceleração dos US$ 9,97 mil milhões em projetos chineses no exterior no ano anterior, segundo estimativas do Financial Times. “Este ano, a China anunciou todas as suas três passagens económicas azuis, por isso, não é nenhuma surpresa ver esse nível significativo de aumento do investimento em portos e transporte marítimo”, disse Henry Tillman, presidente-executivo da Grisons Peak. A importância de uma das três rotas marítimas, que vai da China para o Oceano Índico e depois para o Mediterrâneo, aparece claramente nos investimentos recém-anunciados.

Documentário político sobre reformas na CCTV

Um documentário sobre a actual reforma da China está a ser transmitido desde segunda-feira na Televisão Central da China (CCTV). O documentário “Jiang Gaige Jinxing Daodi” (“Levar a Reforma até o Fim”, em português), tem dez episódios e resume o progresso e avanços das reforma abrangentes iniciadas depois do 18º Congresso Nacional do Partido Comunista da China (PCC) em 2012. O documentário dedica-se às discussão teóricas sobre a reforma, bem como exemplos de reformas de base. Os tópicos dos episódios incluem economia, política, gestão social, cultura chinesa, meio ambiente, forças armadas e auto-governação do Partido. Com o 19º Congresso Nacional do PCC marcado para o segundo semestre de 2017, o documentário “espera inspirar membros do PCC e o povo chinês”, diz a Xinhua. O filme estará também disponível na plataforma da CCTV.


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Ataque com machado faz dois mortos

Um ataque com um machado numa loja da cadeia de distribuição Walmart, no domingo, em Shenzhen, no sul da China, resultou em dois mortos e nove feridos, avançaram ontem as autoridades chinesas. Um homem desempregado, de 30 anos, foi detido pela polícia, suspeito de ter perpetuado o ataque. O comunicado das autoridades não detalha o motivo do ataque. A China exerce apertado controlo sobre armas de fogo e a maioria dos atacantes recorre a facas, machados ou explosivos feitos em casa. A venda de facas passou a estar sujeita a regulamentação mais rigorosa, depois de vários ataques, alguns contra crianças ou junto a infantários e escolas de ensino básico. Em 2010, quase 20 crianças foram mortas em ataques a escolas na China. No caso mais recente, oito pessoas morreram quando um homem de 22 anos detonou um explosivo à porta de um infantário no leste da China. Apenas o apelido do suspeito, Xu, foi difundido pela imprensa local, enquanto o motivo do ataque continua por detalhar.

Incêndio Autoridades suspeitam de mão criminosa

As autoridades chinesas suspeitam que um incêndio que deflagrou numa casa de dois andares, no sábado, e que causou 22 mortos, foi provocado por uma ou mais pessoas, avançou ontem a televisão estatal CCTV. O fogo deflagrou na madrugada de sábado numa casa de dois andares na localidade de Changshu, província de Jiangsu, onde viviam trabalhadores migrantes. A polícia disse que as portas da casa estavam trancadas por fora, impedindo que os residentes pudessem escapar, e que foram encontrados restos de gasolina no local, indicou o jornal South China Morning Post. As autoridades encontraram os cadáveres de 22 pessoas dentro da habitação. Três pessoas conseguiram fugir com ferimentos ligeiros. Os residentes, com uma média de idade de 25 anos, eram empregados num restaurante próximo, onde trabalhavam há mais de dois anos, e procediam de diversos pontos do país. As autoridades já detiveram um suspeito e estão à procura de outras pessoas que também poderão estar implicadas no caso. Na China, é habitual que o empregador ofereça alojamento aos trabalhadores migrantes. Na maioria dos casos, estes vivem em dormitórios lotados e com pouca segurança.

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China, segunda maior economia do mundo, cresceu 6,9%, no segundo trimestre do ano, mais duas décimas do que no mesmo período de 2016, anunciou ontem o Gabinete Nacional de Estatísticas (GNE) chinês. O Produto Interno Bruto (PIB) do país mantém assim o ritmo de crescimento, face ao primeiro trimestre do ano, e supera em uma décima a previsão dos analistas. A liderança do país pretende manter a economia estável, a poucos meses de se realizar o congresso do Partido Comunista Chinês, o mais importante acontecimento da agenda política do país, que se realiza de cinco em cinco anos. No próximo congresso, o Presidente chinês, Xi Jinping, deverá coordenar a remodelação do Comité Central do Politburo, a cúpula do poder na China, numa altura em que analistas ocidentais admitem que este ficará no poder além do período previsto de dez anos.

ECONOMIA CRESCE 6,9% NO SEGUNDO TRIMESTRE

A teima de crescer

Nos últimos meses, os principais índices da economia chinesa têm apresentado resultados positivos. Analistas previram, no entanto, um abrandamento, à medida que Pequim torna mais difícil o crédito, visando travar o aumento do endividamento das empresas. O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu

JOVENS DOS BRICS REUNIDOS EM PEQUIM

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OVENS líderes e representantes dos governos dos países do BRICS reúnem-se entre os dias 25 e 27 de Julho no Fórum da Juventude do BRICS Pequim 2017, na capital chinesa. O encontro tem como objetivo procurar soluções e discutir temas relacionados a inovação, empreendedorismo e governanção global, sob a perspectiva dos jovens dos países do bloco: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A conferência é parte de uma série de reuniões que têm acontecido na China como preparação

para a 9.ª Cúpula do BRICS, que será realizada na cidade de Xiamen, na província de Fujian, em Stembro. Já se reuniram os ministros das Finanças, da Agricultura e da Educação. Em cada um desses encontros são preparados documentos que prevêem acordos de cooperação nas respectivas áreas. No final do fórum, um Plano de Ação assinado por todas as partes dará as directrizes da cooperação entre os membros com destaque para o papel da juventude para o futuro do bloco. Além da participação no evento, os jovens expandirão a sua experiência na China fazendo atividades culturais paralelas organizadas em parceria com a All-China Youth Federation, como parte do intercâmbio que a China quer promover com outros países do BRICS.

que a economia chinesa mantenha, em 2017, o ritmo de crescimento atingido no ano passado, de 6,7%, estimulado pelo investimento público. No segundo trimestre do ano, o consumo interno e as exportações aceleraram, compensando o abrandamento do crescimento no sector secundário, imobiliário e outros ativos fixos.

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O sector retalhista cresceu 10,4%, na primeira metade do ano. As exportações e importações aceleraram entre maio e junho. O investimento, que continua a ser o principal motor da economia chinesa, cresceu 8,6%, entre janeiro e junho. Desde a crise financeira global de 2008, a China tem recorrido ao crédito para estimular o crescimento económico. No total, a dívida não-governamental cresceu do equivalente a 170% do PIB, em 2007, para 260%, no ano passado, um valor considerado bastante alto para um país em desenvolvimento. Em Maio passado, a agência de notação financeira Moody’s baixou a classificação da dívida chinesa a longo prazo e o FMI

urgiu Pequim a controlar o crescimento da dívida. Os reguladores chineses apontaram a redução dos riscos no sistema financeiro do país como uma prioridade para este ano. Os bancos foram incitados a controlar de perto várias empresas que fazem investimentos além-fronteiras, para ter a certeza de que conseguem respeitar os seus compromissos. No relatório do Governo apresentado este ano à Assembleia Nacional Popular, o legislativo chinês, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, defendeu que um crescimento económico de 6,5% para este ano “é alcançável”, confiando que os vários riscos para a economia podem ser atenuados.


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ORQUESTRA DE MACAU PROGRAMA DE CONCERTOS JÁ É CONHECIDO

Uma temporada a

Kyung Wha Chung, Stefan Vladare e Henning Kraggerud são apenas algu de Macau na próxima temporada de concertos. O programa foi divulgad clássica para todos os gostos e idades

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Na categoria das produções especiais, o Instituto Cultural continua a chegar aos mais jovens. A 30 de Junho a organização promete levar o público numa “jornada heróica, diferente de qualquer coisa que já ouviu ou, na verdade, viu”. A organização refere-se à peça “Heróis: uma sinfonia de jogos electrónicos” que apresenta a música de alguns dos jogos electrónicos mais populares incluindo “ The elder scrolls”, “BioShock” e o “Halo”, entre outros. O concerto é acompanhado de imagens projectadas de modo a ser “uma apresentação imersiva”. Para os bebés que ainda não nasceram, tem lugar, a 17 de Março, um concerto em que são interpretadas obras de Mozart, Haydn e Prokofiev

Nam Van Abertas inscrições para oficinas de Verão

Os sábados e domingos são dias de feira de artesanato no Lago Nam Van e, no mês de Agosto, também são momentos de aprendizagem artística através da realização de workshops. De acordo com a organização, a cargo do Instituto Cultural (IC), a iniciativa é dirigida a todos os residentes, incluindo famílias, e os temas a abordar são os mais diversos. “Bolsas de armação bordada feitas à mão”, “workshop de candeeiros nocturnos com flores prensadas”, “caixas de madeira com flores de vime em papel”, “árvores com flores coloridas”, “candeeiros lunares românticos”, “sapatinhos de bebé cosidos à mão”, “workshop de contos infantis e montagem de chapéus” e “bolsas bordadas ao estilo japonês retro, para telemóvel”, são alguns dos exemplos dados pelo IC em comunicado. As inscrições estão abertas até ao próximo dia 25 e têm um custo de 50 patacas.

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íngremes, os belos fiordes e os misteriosos glaciares daquela zona do norte da europa”. A ideia de trazer a Macau o “autêntico som da Noruega” com obras como a “Suite de Holberg”, de Grieg, a “Suite em Lá menor”, de Christian August Sinding, e “Danças Norueguesas”, de Johan Halvorsen. O concerto reserva ainda uma peça do próprio Henning Kraggerud: “O Equinócio”. Tratando-se do centésimo aniversário do nascimento do maestro e compositor americano, Leonard Bernstein, o maestro local Lio Kuokman é o convidado para assinalar a efeméride com um concerto a seu cargo. A organização destaca ainda o espectáculo que conta com a violinista nascida na Alemanha, de origem sul coreana, Clara Jumi Kang, e o concerto de final de temporada com a OM a interpretar a “Sinfonia nº 9”, de Beethoven.

PARA OS MIÚDOS

K

lado, a apresentação dos esforços que têm sido envidados pelas indústrias de jogo e diversão para dinamizar o sector do turismo e lazer de Macau e, por outro, a apresentação das transformações que advieram do impulso destas indústrias na economia, e que contribuíram para a mudança do panorama da cidade outrora simples, sossegada e com um ritmo lento”, escreve a organização. “Pelo percurso das ruas e bairros, o autor sente-se um estranho face às novas alterações da cidade, modificada pelo desenvolvimento e pela construção acelerada”, prossegue a FM. “O contraste entre os edifícios modernos e antigos e a presença de turistas provenientes de todo o mundo, que enchem as ruas de Macau, suscitaram-lhe a ideia de ‘reconstrução’’ de Macau.” Foi este conceito que esteve na origem dos “momentos” que captou na cidade. A mostra pode ser vista até ao próximo dia 26. A entrada é gratuita.

KANG

inaugurada hoje uma exposição de fotografia de Che Peng Ion. “Reconstrução” é uma iniciativa integrada no projecto de promoção de artistas locais, da responsabilidade da Fundação Macau (FM), e pode ser vista no Centro UNESCO. A mostra reúne mais de 80 fotografias de Che Peng Ion, um artista de Macau. Na cerimónia de inauguração vai ser apresentado o álbum de fotografias com o mesmo título da exposição. Em comunicado, a FM explica que Che Peng Ion, cujo gosto pela fotografia teve início nos anos 1980, pertenceu a júris de avaliação em concursos internacionais de fotografia em vários países, e presidiu a palestras e workshops no território. As suas obras já foram expostas na China Continental, Taiwan, Roménia, Hong Kong e Macau, tendo sido publicadas em sites de fotografia do Continente. “Reconstrução” desdobra-se em sete unidades. “O objectivo desta mostra fotográfica é, por um

rainha do violino”, assim é designada pela organização, traz ao palco do grande auditório do Centro Cultural de Macau (CCM) o Concerto para Violino em Ré Maior, Op. 61, de Beethoven, e de Brahms a Sinfonia nº 4 em Mi menor, Op. 98. Na mesma categoria, a temporada segue a 20 de Janeiro com “três gigantes da música alemã e austríaca – Beethoven, Brahms e Bruckner”, num espectáculo que conta com o pianista Stefan Vladar. A 10 de Março o palco do CCM vai acolher três peças de Dvorak. O intérprete convidado é o violoncelista Mario Brunello, vencedor do concurso internacional Tchaikovsky. A categoria fecha a 22 de Maio com o concerto que junta o compositor, maestro e violinista escandinavo Henning Kraggerud à OM. De acordo com a organização, o concerto mistura “as montanhas

OO

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ÃO mais de 25 os espectáculos que vão preencher a próxima temporada de concertos da Orquestra de Macau (OM). A apresentação do programa aconteceu ontem e hoje os bilhetes já estão à venda, sendo que até dia 31 de Agosto, os interessados podem usufruir de um desconto de 40 por cento. A iniciativa tem como tema, nesta edição, “Confraternizando com a alegria musical” e conta com actividades distribuídas por cinco categorias: “virtuosos extraordinários”, “maestros com carisma”, “produções especiais”, “viagem de câmara” e “gala de ópera”. São quatro os espectáculos inseridos na categoria “virtuosos extraordinários”, que têm início com o concerto de abertura da temporada. Marcado para o dia 2 de Setembro, conta com Kyung Wha Chung. “A

TAE W

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No ano em que passavam 40 anos da edição de “Os Sobreviventes”, o primeiro longa duração da sua carreira, Sérgio Godinho olhava em frente e apresentava um disco constituído por 11 novas canções como só ele sabe fazer. “Mútuo Consentimento” inclui algumas parcerias inéditas: Bernardo Sassetti, Noiserv, Francisca Cortesão (aka Minta), o percussionista António Serginho (Foge Foge Bandido) e a Roda de Choro de Lisboa são alguns dos que se juntaram à banda que tem acompanhado Sérgio Godinho nos últimos anos - “Os Assessores”.

BURAKA SOM SISTEMA • Komba

O sucessor de “Black Diamond”, gravado na vila algarvia de Monchique, conta com as colaborações de Igor Cavalera, fundador dos Sepultura, do austríaco Stereotyp e de outros nomes. A origem do nome Buraka Som Sistema, já se sabe, é o da freguesia da Buraca, na cidade da Amadora, arredores de Lisboa. O conceito de sound system, esse é oriundo da Jamaica.


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uns dos nomes que vão acompanhar a Orquestra do ontem e dele constam espectáculos de música

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numa apresentação especialmente concebida para as futuras mães. A ideia, afirma a organização, é que seja “a primeira experiência musical do bebé”. O Dia Mundial da Criança não foi esquecido e a 2 de Junho, em colaboração com o grupo de teatro infantil Ratão, a OM apresenta “Terra de fadas e magia sinfónica”. A ideia é combinar música, dança e teatro de modo a despertar a curiosidades dos mais pequenos. Do programa destaca-se também a deslocação da OM à comunidade. Neste sentido a orquestra desloca-se às escolas, desde o ensino primário

ao superior com eventos musicais especificamente concebidos para cada um destes públicos. A OM vai ainda continuar a dar concertos nos locais classificados como património. De acordo com a organização, é uma forma de “criar experiências musicais únicas num ambiente de encontro entre o oriente e o ocidente”. De modo a estar mais perto da comunidade vão continuar, à semelhança dos anos anteriores, os espetáculos que levam a música clássica à galeia da Tap Seac, à biblioteca e ao museu. Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com

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Se a vida não passa de um sonho ´ esta inquietacão? que sentido faz ´

O erro ontológico de Machado de Assis na análise de O Primo Basílio (1)

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UMA passagem da célebre crítica de Machado de Assis a Eça de Queirós, e mais particularmente a O Primo Basílio, lemos: “Para que Luísa me atraia e me prenda, é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesma; seja uma rebelde ou uma arrependida; tenha remorsos ou imprecações; mas, por Deus! dê-me a sua pessoa moral.” Ora, é precisamente isto que Eça não dá, nem quer dar. O que Machado de Assis – quero deixar bem claro que me refiro ao senhor Machado de Assis enquanto leitor e não ao escritor Machado de Assis. Não se trata aqui do escritor Machado de Assis, mas sim do leitor, da leitura que Machado de Assis fez do romance do escritor Eça de Queirós O Primo Basílio – não via, não conseguia nem ver nem aceitar, era que Eça concedesse à pessoa, na figura do personagem, tão pouco valor. Mas para Eça, é isso que é o mais importante. Para Eça, o importante é mostrar o quanto a nossa vida está longe de ser nossa; o quanto a nossa vida está longe de nos pertencer e de respondermos inteiramente sobre ela. E, neste sentido, Eça é profundamente ontológico. O humano sabe muito pouco de si, da sua condição, daquilo que lhe está acontecer, das forças que decidem o seu destino. Isto é o que Eça de Queirós – o escritor, talvez não o homem – viu muito bem. Pois se o humano é assim, porque têm os personagens de ser diferentes? O que importa a Eça não são bons ou maus efeitos literários, bons ou maus episódios, sequer moral, que parecia ser tão importante para o leitor Machado de Assis, o que importa a Eça é o humano. O humano na sua situação no mundo. Comecemos então por apurar as estruturas do humano que ardem em O Primo Basílio, as fundamentais, de modo a entender melhor a célebre passagem de Luísa, a que Machado de Assis se refere. As estruturas a analisar são: desejo, prazer e nada. Encetemos então, e primeiramente, a distinção entre desejo e prazer, através de uma passagem do livro, onde Leopoldina conversa com Luísa, já muito perto do fim do livro. Leopoldina era uma mulher casada, um pouco mais velha do que Luísa, 27 anos, muito bela, “o corpo mais perfeito de Lisboa”, reputada de mulher viciosa, de ter vários amantes e com quem o marido de Luísa, Jorge, proibira esta de se encontrar. Luísa tinha crescido com Leopoldina e tinha admiração por ela, pela sua beleza e, de algum modo,


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Máquina Lírica Paulo José Miranda

pela forma decidida com que vivia. E gostava muito de ouvir o que a outra lhe contava acerca dos seus amantes. Antes de avançarmos para a passagem que se pretende analisar, veja-se outros episódios com Leopoldina. O primeiro, ainda Jorge está em Lisboa, de partida, embora não esteja em casa, e Leopoldina fala-lhe de Basílio, que ele havia chegado a Lisboa. Depois, o que não deixa de ser curioso, aliás bastante curioso, já com o marido fora, quando Luísa se preparava para ir visitar Leopoldina, e estava contente por isso, seu primo, Basílio, apresenta-se pela primeira vez desde o regresso, fazendo com que ela se decida a já não visitar a amiga, mas antes a ficar em casa com o primo. Era como se o Eça fizesse com que, ao invés das conversas da Leopoldina acerca dos seus amantes, ela iniciasse também um caminho de fazer as suas próprias conversas. Mais tarde, sendo já amante do primo e num ataque de arrependimento, querendo e não querendo acabar, pensa em falar com Leopoldina acerca do assunto, escreve Eça: “Sacudia a cabeça com impaciência, como se aquelas imaginações fossem os ferrões de insetos importunos; esforçava-se por pensar só em Jorge; mas as idéias más voltavam, mordiam-na; e achava-se desgraçada, sem saber o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que era!” Quando Eça escreve “consultar Leopoldina”, obviamente não quer que pensemos que se trataria de uma procura de começar a trilhar o curso do arrependimento. O que ela pretendia, seguramente, com essa hipotética consulta era uma concordância fora dela com os seus desejos dentro dela. Ou seja, o que ela pretendia de Leopoldina era que esta lhe falasse dos enormes benefícios de se ter um amante e de como isso não traz mal nenhum ao mundo, pelo contrário. Luísa queria duas coisas que lhe pare-

ciam irreconciliáveis: sossego, paz de alma, como se usa dizer, e satisfazer seu desejo no corpo do primo. Trata-se, portanto, de uma situação que todos nós aqui presentes conhecemos bem. Não necessariamente em relação a um amante, mas em relação a alguém com quem costumamos dormir e queremos ouvir de uma amiga ou de um amigo que devemos continuar a fazê-lo, contrariamente a um possível fim. Não é que Luísa não continuasse amante de Basílio, sem a hipotética consulta – como nós não deixamos de continuar a ficar com alguém, se outros não nos apoiarem nessa nossa decisão –, mas depois da consulta com Leopoldina, sempre continuaria a sua aventura mais aconchegada, isto é, não continuaria sozinha, levaria consigo para o seu amante um “não sou só eu que penso assim”. Este “não sou só eu que penso assim” é de extrema importância para quem sabe que está a cometer uma falha ou apenas suspeita disso. Que essa consulta nunca se realize, não tem aqui importância, pois o que está em causa, o que importa mostrar é como Leopoldina, na economia do texto, aparece sempre ligada a uma agressão contra a convenção social. Pensar em consultar tal pessoa, só pode significar não querer se pôr de bem com o status quo, com o que é convencional. Por outro lado, quando diz “Jesus, que infeliz que sou!” está a dizer a verdade, a verdade que atinge a natureza humana nessa situação em que Luísa se encontra, isto é, sentir dentro de si, em si mesma, dois quereres contraditórios: um a exigir dela que se comporte como seria de esperar de uma senhora da sua condição; outro a exigir dela a satisfação do desejo pelo primo. A infelicidade dela, aqui, na frase acima, resulta da sua vida estar a ser assaltada pelo desejo, à sua revelia. O desejo que sente faz com que não tenha mão nela, não tenha possibilidades de se segurar, isto é, Luísa não tem o controlo da sua vida. Esta é a sua infelicidade. Aqui, a infelicidade não é o desejo. A infelicidade são duas coisas: o desejo agindo sobre ela de modo a tomar-se senhor dela, seu dono; e ela sentir, saber que não o deve fazer devido à sua condição de mulher casada. E que diz então Leopoldina a Luísa de tão relevante para a nossa análise? Estas seguintes e extraordinárias palavras, quase no fim do livro: “Não, realmente tinha vontade de outra coisa, não sabia bem de quê! As vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um tédio mole.) Eram tão sensaborões todos os homens

que conhecia! Tão corriqueiros todos os prazeres que encontrara! Queria uma outra vida, forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar - ser mulher de um salteador, andar no mar; num navio pirata... Enquanto ao Fernando, o amado Fernando dava-lhe náuseas! E outro que viesse seria o mesmo. Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus! E, depois de escancarar a boca, num bocejo de fera engaiolada: - Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh, céus! Ficaram um momento caladas.” Iniciamos então aqui a nossa distinção entre desejo e prazer, na economia do texto de Eça e na apresentação da situação humana. O desejo, já havíamos mostrado anteriormente, com Luísa, tem o poder de nos transformar em escravos. Luísa, através do desejo, deixa de ter poder sobre a sua própria vida – quando estamos sobre esse efeito, costumamos dizer “deixei de pensar” –, Luísa deixa de ser ela no desejo. Mas agora, com Leopoldina, dá-se uma avanço na compreensão do desejo e seus mecanismos. O desejo é auto-fágico, ele traz em si mesmo a vontade de acabar, de se comer a si próprio. O desejo devora o desejo. Depois

do desejo saciado, devorado, o prazer termina. Mas o desejo traz também em si, além da vontade de se acabar, uma promessa de prazer. O desejo promete prazer. É essa promessa de prazer, esse canto da sereia, que o humano não suporta ouvir, acabando por ceder ao que o desejo quer. Desejo e prazer não são o mesmo. Desejo é uma coisa que promete outra. Desejo promete prazer. Promete e dá (pelo menos, a maioria das vezes). O prazer é a morte do desejo, é o desejo a acabar-se, o desejo a comer-se a si próprio. No fim, acaba-se tudo: o desejo e o prazer. Por isso, tantas vezes acontece dizermos a nós próprios que o melhor é cair logo naquela mulher de uma vez (ou naquele homem), para depois termos sossego; pois o desejo por saciar não nos deixa sossegados, mas uma vez saciado acabou-se, voltamos a nós; e a mais das vezes é mesmo o melhor que temos a fazer, pois a promessa de um enorme prazer anunciada no desejo acaba-se por se tornar apenas fracções dessa promes-

Para Eça, o importante é mostrar o quanto a nossa vida está longe de ser nossa; o quanto a nossa vida está longe de nos pertencer e de respondermos inteiramente sobre ela sa, pequenas fracções de um prazer, que faz com que isso não volte a acontecer e, quanto a esse assunto, ficamos sossegados. Mas o desejo renasce das suas próprias cinzas através de um aliado poderoso: a memória. A memória traz até nós o desejo e a sua promessa de prazer. A memória traz até, nesse trazer, aquilo que se não passou, se for caso disso, mas principalmente a idealização do que se passou. Um update do passado, daquilo que se passou. Seja com ou sem update, a verdade é que a memória devolve-nos o desejo, instiga em nós uma vontade de repetir o prazer. É assim que o desejo se tende a multiplicar. Tende a multiplicar-se em nós numa procura vã de encontrarmos um prazer que se não acabe, um prazer que veja o fundo ao desejo. Tudo isto porque a memória não nos dá descanso e permite uma entrada livre, ao desejo, em nós. A multiplicação do desejo acabará sempre, no seu melhor, numa frase assim: “E outro que viesse seria o mesmo. Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!” De facto, uma vez caídos na multiplicação do desejo, nenhum homem (ou mulher) nos pode salvar, só Deus. (continua)


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Amélia Vieira

1888

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Á anos especiais e números que se repetem como anunciados. Este oito, três vezes repetido, é uma miríade de números, sem dúvida, mas neste ano a trindade poética nasceu como se fora um octogonal propósito: Pessoa, Ungaretti, Eliot, em locais diferentes; um no Egipto, outro no Missouri e outro em Lisboa, com poucos meses de diferença, Fevereiro, Junho, Setembro, sem qualquer intimidade aparente e até mesmo cultural mas, por uma boa casualidade, fundaram o que de melhor existiu em décadas de poesia. Os tempos estavam despertos, sim, estavam abolitivos neste final de século com os séculos passados, o tempo corria rasurando muito e inventando mais, os dons eram maiores, as estradas mais sinuosas e plenas de incentivo a uma nova vibração na consciência, bem como no refinar de uma certa sensibilidade. Muitos se atiraram para o futuro de forma brilhante e irromperam pelo vinte e um tirando a modernidade ao moderno vício de ser actual. Quando os perscrutamos ficamos indefesos dentro do casulo lânguido do presente e tentamos inventar um ano como que abrangente onde caibam alguns mais latos para a dianteira do mundo e os nossos cálculos flutuam muito, dado que não repetimos tantos números assim, que têm um lado qualquer onde se suspeita estarem registos maiores do que o anos eles mesmos. Ano do Rato para os chineses que nada conheciam destas andanças da trindade. Se Eliot achava que o poeta em que se tornara não existiria se tivesse ficado nos Estados Unidos, o mesmo se pode dizer

de Pessoa: se a um tempo não tivesse ido para a África do Sul, e Ungaretti nascido no Egipto, não fosse ele filho de italianos, de modo que foi-lhes proveitosa esta deriva por portos onde começaram, sem terem de ficar sujeitos a uma pátria só. Eliot vai para Inglaterra mas em Paris tem os seus anos de amor simbolista pelo seu amado Baudelaire, Pessoa não se sabe ao que veio e desagua numa Lisboa sem Baudelaire e caminha tanto que lhe perdemos os passos, Giuseppe também andou por Paris e colaborou com Giovanni Papinni numa revista, depois, e mais musculado que os seus dois congéneres, parte para as fileiras da Primeira Guerra Mundial. Haroldo de Campos traduz a sua poesia quando dá aulas mais tarde na Universidade de S.Paulo. De facto, nada há de menos belo no seu percurso literário, ao contrário dos seus momentos políticos, se formos a ver, também Eliot se converte ao cristianismo e Pessoa exerce um pensamento que hoje em alguns momentos teríamos que considerar demasiado conservador. Mas, e mesmo assim, as suas modernidades não são basculhadas na imensa inventividade e no registo de viajantes da bela construção. Em Alexandria nasce-se talvez mais poético, nos Estados Unidos depende da latitude, em Lisboa, assinala-se esse feito, mas tudo bem interligado forma uma mandala de caracteres geográficos espalhados no ano em que de oitovas se fizeram versos. – Ilumino-me de imenso – um verso de quatro palavras de Ungaretti, a concisão torna a sua poesia uma preciosa fonte de inspiração, e mesmo Eliot não se inibiu de estudar sânscrito e

religiões orientais para retirar dela a previsibilidade no poema. Todos um pouco herméticos ou não fosse a capacidade da vertente poética a verdadeira essência da religião e penso que este aspecto não deverá ser neles jamais uma questão formal, mas sim, estrutural, fazendo parte da raiz que abrange estes destinos. Não há registo que tivessem escrito cartas uns aos outros, ou mesmo se conheciam a existência uns dos outros, possível que sim, mas, dado as buscas incessantes de cada um nas suas tarefas, onde se poderiam ter encontrado? No céu das suas abundâncias e nas vagas lumes dos patamares da época, Pessoa parecia mais enclausurado, até por que o país dele é mais país para ele quando mais se debruça acerca do seu próprio mito. Um mito que fragiliza e enche de neblina a vida dos seus indagadores. Se Eliot se passeia entre o jardim e o deserto indo buscar a profetas as suas escadas e visões dantescas, fá-lo no enquadramento de uma vida social activa mas sempre um pouco esquiva dado que não lhe agradavam as perguntas devolvendo ao indagador a pergunta intacta, já Ungaretti se esforçava para que um maior número de gente falasse o italiano. Eram três homens estranhos. Os números para um, a síntese para outro, a imponderabilidade tamanha em outro ainda, a correcta forma de organizar um pensamento sem o entulho gigantesco das línguas... que de números, só Pessoa tinha cincos, e Ungaretti devia ser o oito total dado que também nasceu a oito. Depois, consta-se que Eliot apenas se debruçava mais sobre o profeta Elias que tinha uns números que cabiam na

sua articulação verbal. Nós somos vigiados pela narrativa dos poetas e se lhes quisermos sentir o pulso temos de não contar e, sobretudo, nunca contar como foi, dado que não deve ter sido fácil a soma de tal missão mas, há anos, como há tempos, e tempos como homens, em que vemos coisas que nos encantam de tal maneira que pensamos serem do mesmo Ovo Cósmico. Que se desova cá em baixo de forma geométrica, não tanto como as enguias, é certo, mas programados como as estrelas e umas à distância de universos embatem umas nas outras. São nossos pares aqueles que de forma concertada e incógnita giram na mesma luz do impacto e nos deixam a pensar nestas coisas. Que coisas há onde o pensamento não é necessário, e o sentir é só para quem lê, e debaixo de zimbros estamos todos sem noção aparente; regozijamo-nos por estar dispersos, pouco bem fazíamos uns aos outros... E Ungarretti nos diz: eis que chega o poeta... desta poesia me resta aquele nada de inexaurível segredo... Sem mais anos que consintam tanta dádiva acrescentamos datas à vida que dura por tempo incerto e onde muitas vezes nos sentimos tão sós, nós que com tantos, em tanto lado, não seguimos estas rotas, gostaríamos de nascer um dia em 1888. Depois seríamos arquitectos de templos octogonais, todos previstos como pistas de aterragem dos senhores dos céus, e já não havia Capelas Imperfeitas por que o tecto das Catedrais dá sempre para o infinito, não se completam, como não se termina um poema.


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terça-feira 18.7.2017

TEMPO

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AGUACEIROS

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

CINEMA | DOCUMENTÁRIO “AMA-SAN” Varejão | Cinemateca Paixão | 21h30

MIN

25

MAX

29

HUM

80-98%

EURO

9.22

BAHT

CINEMA | DOCUMENTÁRIO “CAMERAPERSON”, DE KIRSTEN JOHNSON Cinemateca Paixão | 21h30 CINEMA | IV CICLO DE CINEMA CRED-DM – SISTEMA PRISIONAL “PRISON ON FIRE” Casa Garden | 19h30

Quinta-feira

O CARTOON STEPH

CINEMA | “PLASTIC CHINA”, DE JIU-LIANG WANG Cinemateca Paixão | 21h30

Diariamente

EXPOSIÇÃO “PARA BAIXO E PARA CIMA” DE DENIS MURELL Até 26/7 EXPOSIÇÃO “NEW ART PEOPLE PROJECT 2017: BOUNDLESS 4” Armazém do Boi | Até 13/8 EXPOSIÇÃO “CONTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10

EXPOSIÇÃO “A ARTE DE ZHANG DAQIAN” Museu de Arte de Macau | Até 5/8 EXPOSIÇÃO “DESTROÇOS” DE VHILS Oficinas Navais, nº. 1 | Até 31/11

Cineteatro

C I N E M A

WAR FOR THE PLANET OF THE APES SALA 1

CARS 3 [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Brian Free 14.00, 16.00, 18.00, 20.00

DISPICABLE ME 3 [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Pierre Coffin, Kyle Balda, Eric Guillon 22.00 SALA 2

WAR FOR THE PLANET OF THE APES [B] Fime de: Matt Reeves

Com: Woody Harrelson, Sara Canning, Judy Greer 14.15, 16.45, 21.45

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 79

PROBLEMA 80

UM FILME HOJE

SUDOKU

DE

Sexta-feira

EXPOSIÇÃO “O MAR” DE ANA MARIA PESSANHA Casa Garden | Até 31/08

1.18

TAXI DRIVER

Quarta-feira

CINEMA | DOCUMENTÁRIO “RIO CORGO”, DE MAYA KOSA & SERGIO DA COSTA Cinemateca Paixão | 21h30

YUAN

PÊLO DO CÃO

PALESTRA | REFLEXÕES SOBRE A QUALIDADE DE VIDA “STRESS – TRAMPOLIM OU ÂNCORA” COM EDUARDO Saldanha | Fundação Rui Cunha | 18h30

CINEMA | DOCUMENTÁRIO “TARACHIME + AMAMI” De Naomi Kawase | 19h30

0.23

Macau está repleta de Travis Bickles sem moicanos, espero que sem Magnums 44. Ainda assim, a loucura corre pelas artérias rodoviárias cuspindo perigos sobre quatro rodas. A única distinção para o protagonista do épico de Scorsese é que não são lobos solitários, muito pelo contrário, operam em matilha, ganham força em número. A união faz a força, principalmente no que toca a reunir mãos para desancar no pêlo do cliente mais impertinente. Macau põe-se em bicos de pé para se mostrar internacional, um centro turístico que seduz o mundo. Porém, o seu cartão-de-visita não são as Ruínas de São Paulo, mas o taxista que se recusa a olhar para um GPS, quanto mais entender uma palavra de inglês tão complexa quanto “ferry”. Estes são os nossos embaixadores, numa etimologia poética de personagens que baixam as dores da cidade. A sua primeira arma é o esgar de desdém com ligeira contorção de pescoço, a milhas de distância da mais elementar noção de serviço ao cliente. Sim, um dia a verdadeira chuva virá para lavar toda a porcaria das ruas, nessa altura grande parte desta classe arrisca-se a ser arrastada pelo dilúvio justiceiro. Até lá, os destinos incompreendidos adubam o desdém que, por sua vez, aumenta a recusa de transporte. Devo estar a dias de ouvir a “scorsesíca” questão: “Are you talking to me?”. João Luz

A NOITE DOS MORTOS-VIVOS | GEORGE A. ROMERO

Este é o primeiro filme do mestre George Romero, lançado há quase meio século. Não necessariamente o seu melhor, mas o início de uma saga que o tornaria num realizador de culto para os aficionados de zombies e filmes de terror. George Romero morreu na madrugada de ontem, deixando um legado fílmico e de influência em muitos realizadores actuais, como Sam Raimi e John Carpenter, entre muitos outros. O realizador de origem cubana, criado em Nova Iorque, realizou mais de 20 filmes. Morreu aos 77 anos, numa altura em que os zombies estão em alta de popularidade. João Luz

WAR FOR THE PLANET OF THE APES [3D] [B] Fime de: Matt Reeves Com: Woody Harrelson, Sara Canning, Judy Greer 19.15 SALA 3

SPIDER MAN: HOMECOMING [B] Fime de: Jon Watts Com: Tom Holland, Robert Downey Jr., Michael Keaton 14.15, 16.45, 19.15, 21.45

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18.7.2017 terça-feira

macau visto de hong kong

EDWARD HOPPER, ESCRITÓRIO À NOITE

Despedimento sumário

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O passado dia 14 o site “appledaily.com” publicou uma notícia sobre o despedimento súbito de oito funcionários de um jardim de infância em Mongkok, Hong Kong, após a cerimónia de entrega de diplomas. O director do infantário encontra-se entre os funcionários despedidos. A história conta-se em poucas palavras. A cerimónia foi realizada fora da escola. Quando o director e alguns educadores regressaram ao estabelecimento, o supervisor esperava-os acompanhado por seguranças. “Dêem-lhes 15 minutos para irem buscar as suas coisas. Os cheques com as indemnizações já estão passados. Estou de partida para o estrangeiro e quem não levar o cheque agora, vai ter de esperar três meses até que eu regresse a Hong Kong.” O despedimento sumário atingiu seis educadores, um funcionário administrativo e o próprio director. Dos onze funcionários ao serviço, a escola ficou reduzida a três. O supervisor convidou ex-funcionários a regressar à escola. O súbito despedimento perturbou imenso os atingidos. Alguns choravam convulsivamente. Os pais, acabados de saber do

sucedido, voltaram rapidamente para o infantário. Educadores e crianças choravam abraçados. Aparentemente, por trás de tudo isto, esteve a má relação de trabalho entre o director e o supervisor. Os educadores despedidos afirmaram que eram pagos abaixo da média. Mas, nem mesmo assim, conseguiram garantir o posto de trabalho. Já eram mal pagos e ainda acabaram por ser despedidos. Na sequência dos acontecimentos a polícia foi chamada ao local. Mas por se tratar apenas de um conflito laboral os agentes nada puderam fazer. Em Hong Kong, o posto mais elevado dentro de qualquer escola é o de supervisor, o director está sob as suas ordens. A decisão do supervisor prevalece, portanto. O director estava ao serviço do infantário há 17 anos. Os educadores há dez, sete, cinco, três e um ano, respectivamente. Se os meus leitores estão recordados, há algumas semanas a esta parte falei sobre o Fundo Compensatório da Previdência, que se destina a indemnizar trabalhadores que ficam desempregados após trabalho de longa duração. Os trabalhadores com mais de cinco anos de casa podem habilitar-se a este Fundo.

A Lei Laboral de Macau é bem melhor do que a de Hong Kong, porque na altura em que foi elaborada já Macau era próspero

A desactualização da lei do trabalho de Hong Kong, que ainda se rege pelas condições socio-económicas e laborais dos anos 70, é um dos problemas que estas pessoas têm de enfrentar. Se se lembrarem desse período, sabem que na década de 70 não se vivia desafogadamente em Hong Kong e que a cidade não estava desenvolvida. As empresas em geral não tinham grande capacidade económica e, por isso, a os benefícios garantidos por lei aos trabalhadores eram escassos. Nestes contratos tudo se resume ao dinheiro. Se a entidade patronal estiver disposta a pagar ao empregado o valor da indemnização previsto, não terá qualquer dificuldade em despedi-lo, pondo desta forma um ponto final nas suas obrigações para com ele. Foi o que se passou na situação que temos vindo a relatar. O supervisor paga o que tem a pagar e vê-se livre dos oito empregados. Neste caso o que choca mais é a desumanidade do processo. Em primeiro lugar, os funcionários foram despedidos no dia da cerimónia de entrega dos diplomas. Era um dia feliz que se transformou num dia de lágrimas e infelicidade. Entretanto, o caso foi comunicado à polícia e à comunicação social. A história passou a ser do domínio público e, como tal, é possível que venham a ter dificuldade em contratar novos funcionários. Em segundo lugar, as crianças serão necessariamente afectadas e irá gerar-se um sentimento de insegurança. Esta insegurança vai alastrar-se aos pais e a outros educadores que venham a trabalhar no infantário e põe em risco os laços afectivos que se têm de estabelecer entre os educadores, as crianças e os pais. Em última análise os pais podem perder a vontade de deixar as crianças nesta escola. Desconhecem-se os motivos do mau relacionamento entre o supervisor e estes educadores. Mas, no que à educação diz respeito, a principal preocupação deverá ser o interesse das crianças. Estes meninos têm idades compreendidas entre os 2 e os 6 anos. Neste período das suas vidas, o afecto que recebem dos educadores é talvez mais importante do que os conhecimentos que estes lhes transmitem. Se os professores desaparecerem sem mais nem menos no final de cada ano, este estabelecimento acabará por vir a ter problemas, e as crianças não se vão sentir bem. É uma situação em que todos ficam a perder. A Lei Laboral de Macau é bem melhor do que a de Hong Kong, porque na altura em que foi elaborada já Macau era próspero. Os empregados têm direito a mais benefícios. Basta lembrarmo-nos que a lei de Macau impõe uma pausa no final de cada cinco horas de trabalho, pagamento de horas extraordinárias quando o horário excede o estipulado, etc. Talvez Hong Kong deva rever a sua Lei Laboral de forma a dar mais protecção a quem trabalha. No mínimo deve evitar que casos como o que acabámos de descrever se repitam.

Professor Associado do IPM • Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau • legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk • http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog

DAVID CHAN


opinião 23

terça-feira 18.7.2017

sexanálise

Sexting

NIGEL VAN WIECK, Q TRAIN

TÂNIA DOS SANTOS

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E há quem defenda que a revolução digital não alterará a nossa forma de nos relacionarmos, eu não faço parte desse grupo de pessoas. Os nossos exercícios de sedução já sofreram o upgrade dos novos desenvolvimentos tecnológicos, seja isso com os famosos dating websites, o tinder, ou simplesmente porque agora estamos todos muito mais contactáveis, e à distância de um click. Sexting, que é a maneira inglesa de nomear mensagens de teor sexual, surgiu como uma nova tendência na forma como seduzimos e queremos ser seduzidos. Contudo, da mesma forma que a big data desenvolve novos desafios para as práticas sociais e no desenvolvimento de políticas públicas, também o sexting é alvo de alguns desafios conceptuais e de regulação. Ora vamos por partes. Não há nada de errado em trocar mensagens de teor sexual, com fotografias de corpos desnudados ou pormenores de ór-

gãos sexuais excitados, desde que seja totalmente consensual. Um casal que ande a trocar mensagens marotas para praticar novas formas de sedução faz parte da nossa sexualidade se assim o quisermos – até mesmo se o fizermos com estranhos. Repito: desde que seja consensual, não vejo nada de particularmente problemático. Só que estas novas formas de lidar com o sexo já tiveram os seus problemas. Material de conteúdo sexual, seja ele escrito, mas predominantemente imagético, é por vezes re-utilizado para outros fins. Quantas vezes é que já ouvimos histórias de casais onde um dos elementos publica as fotos íntimas do outro? Já ouvimos umas quantas – e o medo, irritação e consternação são mais do que legítimos. Já para não bastar de ver as fotos da intimidade espa-

Não há nada de errado em trocar mensagens de teor sexual, com fotografias de corpos desnudados ou pormenores de órgãos sexuais excitados, desde que seja totalmente consensual

lhadas pelo mundo virtual, acontece que as comunidades que nos rodeiam não vão envergonhar a pessoa que publicou conteúdos que não era de seu direito, mas a pessoa que viu a sua confiança traída pelo ex-companheiro. Quando se é adolescente então, estes processos são particularmente problemáticos porque no meio de tanta fase de transição e de hormonas a saltitar, este tipo de vergonha parece intransponível. As vítimas que passam por este tipo de situação – que carregam este tipo de vergonha e que se sentem sem controlo do que se está a passar – por vezes tomam medidas mais drásticas ao porem um fim às suas vidas. Estes são casos dramáticos que inicialmente começam por uma troca inofensiva – à primeira vista segura – e consensual de imagens de teor sexual. Os governos, ao verem um desenvolvimento tão dramático a estes casos fazem o que acham melhor: ilegalizar o sexting ou promover campanhas onde nunca se deve trocar este tipo de imagens com absolutamente ninguém. Mas em vez de se educar para uma sexualidade saudável, continua-se a promover tabus e restrições que (normalmente as mulheres) têm que resolver – seja isso a vergonha, a culpabilização ou a acusação

de que são umas galdérias por algum dia terem pensado em fotografar-se semi-nuas e quererem partilhar isso com quem mais intimidade sexual têm. Pensemos na prevenção rodoviária como um exemplo: não só se responsabilizam os condutores pelo que fazer (ao regular comportamentos) mas também se desenvolvem veículos mais seguros e tecnologias de protecção mais eficazes. É isso que falta na narrativa do sexting também – uma preocupação digital para contornar estas questões. Porque este é um problema que reflecte a forma como vemos o sexo ou a nossa expressão sexual e que realça alguns dos problemas relativos à privacidade digital – porque as redes sociais ainda estão na sua infância, e um entendimento de como regulamentar certas práticas também está numa fase muito embrionária. Há quem diga que a tecnologia amplifica os nossos piores comportamentos... Eu acho que o potencial de promover comportamentos seguros e bem informados deveriam ser bem maiores. Se pudermos investir numa educação sexual e digital menos melindrada, talvez possamos proteger com eficácia a nossa integridade e a liberdade de expressarmos a nossa sexualidade.


Podem calcá-lo, deitar-lhe terra, / Que não apagam o lumaréu.  / Deixem! Não calquem! Deixem arder. / Se aqui o pisam, rebenta além.  / — E se arde tudo? — Isso que tem?  / Deitam-lhe fogo, é para arder...  Camilo Pessanha

Lisboa Voto electrónico discutido amanhã

É já amanhã que a petição intitulada “Também somos portugueses”, que pede a introdução do voto electrónico para as eleições presidenciais e legislativas em Portugal, será discutida em Lisboa, na Assembleia da República. Assinada por mais de quatro mil portugueses espalhados pelo mundo, incluindo os territórios de Macau, Hong Kong e China, a petição tem, segundo os seus mentores, alguns objectivos que já foram concluídos em outros projectos de lei apresentados pelos partidos políticos em Portugal. Além do voto electrónico, é ainda pedido o recenseamento automático e a gratuitidade do voto postal.

Taiwan Protesto contra presença de navios dos EUA

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A China protestou ontem oficialmente contra os Estados Unidos, após o voto da Câmara dos Representantes, que permitiu que os navios de guerra norteamericanos possam voltar a visitar Taiwan. A câmara baixa do parlamento norte-americano adoptou na sexta-feira a lei de autorização da defesa nacional (National Defense Authorization Act) para 2018, um texto que autoriza todos os anos o Governo dos EUA a estabelecer o orçamento para o departamento de Defesa. O documento inclui uma emenda apelando ao Pentágono para estudar a possibilidade de restabelecer as visitas recíprocas de navios militares taiwaneses e americanos. A lei foi aprovada com 344 votos favoráveis contra 81 e ainda deverá ser adotada pelo Senado e ser assinada pelo Presidente norteamericano, Donald Trump. “A China opõe-se firmemente a qualquer forma de troca oficial ou contacto militar entre os Estados Unidos e Taiwan”, declarou o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Lu Kang, durante uma conferência de imprensa. Os navios militares norte-americanos não realizam visitas a Taiwan desde que Washington estabeleceu relações diplomáticas com Pequim em 1979.

terça-feira 18.7.2017

Qatar Emirados Árabes acusados de ataque informático

SEUL PROPÕE DIÁLOGO A PYONGYANG, JAPÃO CONSTRÓI ABRIGOS

Gatos escaldados

A

Coreia do Sul propôs iniciar conversações com a Coreia do Norte com o objetivo de diminuir as tensões na península depois do ensaio de um míssil intercontinental por Pyongyang. “Propomos a realização de uma reunião que vise pôr termo às atividades hostis que fazem subir as tensões ao longo da fronteira terrestre”, declarou o Ministério sul-coreano da Defesa através de um comunicado, citado ontem pela agência France Press. Esta oferta de diálogo é a primeira desde a chegada ao poder em maio do Presidente sul coreano, Moon Jae-In, visto como mais aberto às negociações do que o seu antecessor. A Cruz Vermelha propôs, pelo seu lado, um encontro entre as famílias coreanas separadas desde a guerra de 1950-1953. O Ministério sul-coreano da Defesa propôs que o encontro se realizasse esta sexta-feira em Panmunjom, a “cidade das tréguas”, na fronteira entre as duas Coreias. A Cruz Vermelha sugeriu que o encontro entre as famílias se realizasse no mesmo local no próximo dia 1 de Agosto. O encontro proposto pelo ministério seria a primeira reunião oficial das duas Coreias desde Dezembro de 2015. A presidente anterior, Park Geun- Hye, recusou novas conversações até que Pyongyang desse mostras concretas de iniciar um processo de desnuclearização. Já a Cruz Vermelha fez saber que espera uma “resposta positiva”

da Coreia do Norte, que lhe permita organizar em outubro uma série de reuniões de famílias, e que, a acontecerem, seriam as primeiras em dois anos.

JAPONESES CONSTROEM ABRIGOS NUCLEARES

Entretanto, os cada vez mais frequentes lançamentos de mísseis norte-coreanos estão a colocar o Japão sob alerta, obrigando o país a reavivar as medidas de segurança tomadas durante a Segunda Guerra Mundial, com os ataques nucleares de Hiroshima e Nagasaki. Em todo o país, estão a ser construídos abrigos comuns para proteger os japoneses de possíveis ataques do regime de Pyongyang e as vendas de máscaras de gás dispararam nos últimos meses. É a preparação para o pior. Nas televisões, um anúncio de 30 segundos dá uma série de advertências do Governo à população, implorando-lhes que, em caso de um ataque, procurem abrigo em edifícios resistentes ou em caves subterrâneas, que estão a ser construídas em todo o Japão. Aos civis é recomendado que se afastem das janelas e se escondam debaixo de objetos fortes e sólidos, como mesas ou bancadas de cozinhas, para evitar maiores danos. Seiichiro Nishimoto, que nos últimos dois meses construiu mais de uma dúzia de abrigos em várias províncias japonesas, conta ao jornal britânico ‘The Guardian’ que a sua empresa, sediada em Osaka, viu o seu negócio aumentar exponencialmente nos últimos anos

graças aos receios de uma nova investida norte-coreana. “A maioria dos nossos clientes estão preocupados com a possibilidade de vir a acontecer um novo ataque norte-coreano”, afirma Seiichiro Nishimoto. “Eu acho que deveríamos ter abrigos em todo o Japão. As pessoas reclamam do custo, mas os mais pequenos não são tão caras como um carro familiar”. Nove cidades do país já realizaram exercícios de evacuação em escolas, prédios e empresas para preparar a população para os procedimentos a adotar em caso de um eventual ataque. As autoridades japonesas acreditam que um míssil norte-coreano demoraria cerca de 10 minutos a atravessar o mar do Japão e aterrar no país. Yoshihiko Kurotori, que preparou um abrigo em casa para prevenir as consequências devastadoras dos tsunamis, que são um fenómeno com elevado risco de ocorrência na zona, conta que os 1,8 milhões de ienes (cerca de 1,3 milhão de patacas) que investiu no abrigo subterrâneo para prevenir os desastres causados por uma calamidade natural, vai ser agora de extremo benefício para prevenir uma catástrofe com mão humana. Por outro lado, alguns críticos acusaram o primeiro-ministro conservador do Japão, Shinzo Abe, de explorar os medos da população face aos avanços nucleares da Coreia do Norte  para justificar os gastos recorde com a defesa e os polémicos planos para rever a constituição “pacifista” do Japão.

Os Emirados Árabes Unidos (EAU) estão por detrás do “assalto” a vários portais do Qatar, em Maio, quando foram publicadas frases falsas e incendiárias, confirmou a Bloomberg. Segundo informações analisadas pelos serviços secretos norte-americanos, o plano começou a ser desenvolvido pelos EAU no dia 23 de Maio. Yousef al-Otaiba, Embaixador dos Emirados Árabes Unidos em Washington, informou em comunicado que o país “não tem qualquer ligação a esta situação de pirataria”, descrevendo o artigo como “falso”. O incidente ocorreu pouco depois da visita do presidente dos EUA, Donald Trump, à Arábia Saudita. O Bahrein, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, e o Egito cortaram relações diplomáticas e de transporte com o Qatar no dia 5 de junho, acusando Doha de apoiar extremistas sunitas e militantes xiitas.

Irão quebra regras para homenagear matemática

A imprensa estatal do Irão quebrou a regra de não publicar fotografias de mulheres sem lenço a cobrir a cabeça para homenagear a matemática Maryam Mirzakhani, que morreu no sábado, aos 40 anos. O tributo foi liderado pelo Presidente iraniano, Hassan Rouhani, que partilhou na rede social Instagram uma fotografia de Maryam Mirzakhani, sem o tradicional “hijaj”. Hassan Rouhani escreveu uma mensagem onde diz que a morte da “eminente matemática” iraniana de “renome mundial é “muito dolorosa”. Conhecida como “A Rainha da Matemática”, Maryam Mirzakhani, de 40 anos, dava aulas na Universidade de Stanford, no estado norte-americano da Califórnia. Foi a primeira mulher a receber a medalha Fields, uma importante distinção na área da Matemática para pessoas com menos de 40 anos. Maryam Mirzakhani morreu no sábado, num hospital da Califórnia, vítima de cancro.

Hoje Macau 18 JUL 2017 #3855  

N.º 3855 de 18 de JUL de 2017

Hoje Macau 18 JUL 2017 #3855  

N.º 3855 de 18 de JUL de 2017

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