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MOP$10

SEGUNDA-FEIRA 17 DE JULHO DE 2017 • ANO XVI • Nº 3855 CARAVAGGIO

EPA

TIAGO ALCÂNTARA

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

A arte do romance h VALÉRIO ROMÃO

LUI XIAOBO

Um morto inconveniente

Bandeirada upa upa PUB

hojemacau

PÁGINA 1O

Sentenca acabada ´ EX-PROCURADOR DA RAEM CONDENADO A 21 ANOS E SEM HIPÓTESE DE RECURSO

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PÁGINAS 8-9

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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GRANDE PLANO

TÁXIS


2 grande plano

17.7.2017 segunda-feira

ASSIM DISSE O MUNDO...

Trump envia condolências

A Casa Branca transmitiu num breve comunicado a tristeza de Donald Trump perante a morte do activista Liu Xiaobo. “As sentidas condolências do Presidente foram dirigidas à mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, e à sua família e amigos”, afirmou o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer. O comunicado da Casa Branca não faz qualquer crítica à China ou ao caso de Liu. Antes de Trump, a morte de Liu Xiaobo foi assinalada pelo chefe da diplomacia norte-americana, que o recordou como alguém que dedicou a vida à procura da justiça e da liberdade, mas também de um ideal de humanidade. “Liu Xiaobo dedicou a sua vida ao melhoramento do seu país e da humanidade, e à procura da justiça e da liberdade”, referiu o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, num comunicado, divulgado poucas horas depois do anúncio da morte do dissidente. No mesmo comunicado, o secretário de Estado exortou as autoridades chinesas a libertarem a mulher do dissidente, Liu Xia. “Exorto o governo chinês a libertar Liu Xia da prisão domiciliária e a permitir que ela possa sair da China, de acordo com o seu desejo”, referiu o representante dos Estados Unidos, que frisou: “ao lutar pela liberdade, igualdade e o direito constitucional na China, o dissidente incorporou o espírito humano que o Prémio Nobel distingue”. “Na sua morte, ele apenas reafirmou a escolha do Comité Nobel”, concluiu.

França pede liberdade para a família

O chefe da diplomacia francesa, Jean-Yves Le Drian, saudou a memória de Liu Xiaobo, pedindo a Pequim que garanta a liberdade de movimentos à sua família. “Foi com profunda tristeza que tomei conhecimento da morte de Liu Xiaobo”, escreveu Le Drian numa declaração à imprensa. O ministro francês destacou a forma como o dissidente, “durante mais de 30 anos”, defendeu “com coragem os direitos fundamentais, nomeadamente a liberdade de expressão”. “França pediu várias vezes a sua libertação e deseja que as autoridades chinesas garantam a liberdade de movimentos da sua mulher, Liu Xia, da sua família e dos seus amigos”, apelou. “A defesa dos direitos humanos é uma prioridade da diplomacia francesa em todo o mundo. A esse título, essa questão faz parte do nosso diálogo com a China”, concluiu.

Alemanha insiste em viúva e irmão

O Governo alemão assegurou que os esforços realizados para garantir uma “solução humanitária” ao Nobel da paz chinês Liu Xiaobo não terminam com a sua morte e afirmou que vai continuar a apoiar a viúva e o irmão. Em conferência de imprensa, a vice-porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Adebahr, assinalou que as autoridades chinesas conhecem a petição de Berlim – em que se sugere que seja permitido aos dois familiares saírem da China e

viajarem, caso pretendam, para a Alemanha –, recordando o comunicado emitido na quinta-feira pelo chefe da diplomacia alemã, Sigmar Gabriel. O porta-voz da chanceler, Steffen Seibert, reiterou as condolências de Angela Merkel aos familiares de Liu após a morte de “um valente lutador pelos direitos civis e a liberdade de expressão” e recordou que o Governo alemão intercedeu em várias ocasiões na busca “de uma solução humanitária”. Nos últimos anos, sublinhou, Berlim pronunciou-se inúmeras vezes em defesa de Liu e da sua mulher, e nas últimas semanas apoiou “de forma particularmente veemente” uma solução humanitária”, uma atitude que “não vai ser alterada de um dia para o outro” pela morte do prémio Nobel. “O nosso desejo de uma solução humanitária não acaba com a morte deste ativista dos direitos humanos”, frisou o porta-voz.

LIU XIAOBO

CORPO CREMADO E CINZAS ATIRADAS AO MAR

O LUGAR DO

Taiwan insta China a aceitar o sonho de Liu

A presidente de Taiwan instou a China a aceitar o sonho de Liu Xiaobo. “O sonho da China não deve ser uma demonstração de poder militar, o sonho da China deve incorporar o sonho de Liu Xiaobo: a implementação da democracia, permitindo a cada chinês desfrutar de liberdade e dignidade”, afirmou Tsai Ing-wen, numa mensagem difundida através do Facebook. Tsai acrescentou que a China não deve temer a democracia e os direitos humanos e deve aceitar reformas políticas para permitir que todos os chineses beneficiem de um sistema democrático. A líder de Taiwan enviou também as suas condolências à família de Liu, o mais conhecido ativista chinês a favor da democracia, Nobel da Paz em 2010, que morreu enquanto cumpria uma pena de 11 anos de prisão por subversão contra o Estado. Tsai recordou várias frases de Liu, sobretudo o desejo de que a China se converta “num país de Estado de Direito, onde os direitos humanos sejam uma prioridade”. “Se o sonho da China é um sonho de democracia, Taiwan proporcionará toda a ajuda necessária no processo de realização desse sonho, creio que é isso que Liu gostaria de ver”, acrescentou.

Japão pede respeito pelos Direitos Humanos

O Governo japonês lamentou a morte de Liu Xiaobo e apelou a Pequim para que respeite os direitos e liberdades fundamentais. “O Japão continuará a seguir com atenção a situação dos Direitos Humanos na China”, afirmou o porta-voz do executivo japonês, Yoshihide Suga. Suga enviou as suas condolências à família de Liu. “A liberdade, o respeito pelos direitos humanos básicos e princípios jurídicos são valores fundamentais e cremos que estes devem ser garantidos também na China”, afirmou. O porta-voz japonês não confirmou se o Japão foi um dos países que ofereceu tratamento médico a Liu, mas disse que Tóquio “esteve em contacto com a China para tratar vários aspectos relacionados” com o caso, segundo a agência japonesa Kyodo.

Os admiradores de Liu Xiaobo não terão um local onde lhe prestar homenagem. As suas cinzas foram atiradas ao mar. A família agradeceu ao Governo pela sua “humanidade”. Ai Weiwei considerou a cerimónia “repugnante” e “uma violação do respeito devido aos mortos”

O

corpo Liu Xiaobo foi cremado numa “cerimónia simples”, em que compareceram família e amigos, e as cinzas atiradas ao mar neste sábado, horas depois da cremação. Foi o seu irmão mais velho, Liu Xiaoguang, que fez este anúncio durante uma conferência de imprensa organizada pelas autoridades, que controlaram de perto o funeral. Liu Xiaobo foi cremado “conforme a vontade dos membros de sua família”, anunciaram as autoridades. O governo chinês divulgou fotos mostrando a viúva, a poetisa Liu Xia, ao lado de seu irmão e do irmão de Liu Xiaobo,

rodeados de amigos, diante de corpo do dissidente cercado de flores brancas. A dispersão das cinzas do Nobel da Paz implica que ele não terá sepultura onde parentes, amigos e admiradores possam prestar homenagem. “As autoridades temem que se alguém tão emblemático como Liu Xiaobo tiver um túmulo, transformar-se-á em local de peregrinação para os seus simpatizantes”, declarou à AFP Ye Du, dissidente ligado à família. O artista e dissidente chinês Ai Weiwei, que vive em Berlim, tuitou uma foto do funeral, definindo a cerimónia como “repugnante” e


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segunda-feira 17.7.2017

“uma violação do respeito devido aos mortos”. Mas Liu Xiaoguang defendeu esta opção, defendeu o sistema socialista e agradeceu às autoridades pela sua humanidade e colaboração. “Tudo reflecte a

EPA

MORTO

vantagem do sistema socialista” e que “os principais especialistas do país e do exterior se reuniram para o tratamento de Liu Xiaobo”, disse Liu. “Em nome dos outros membros da família Liu Xia e Liu Xiaobo, gostaria de agradecer cada

vez mais o cuidado humanista do Partido e do governo”, concluiu Liu Xiaoguang. Não é possível verificar a sinceridade destas palavras, pois as autoridades têm exercido desde o início do drama um severo controlo das informações vinculadas a Liu e pessoas próximas. A imprensa não pôde fazer perguntas ao irmão do dissidente ao final da declaração. O professor Markus M. Buachler, da Universidade alemã de Heidelberg, e o professor Joseph M. Herman do US MD Anderson Cancer Center, foram convidados para assistir ao tratamento. Liu Yunpeng, médico assistente de Liu Xiaobo, disse que o hospital fez todo o possível para tratar o paciente, incluindo 25 consultas conjuntas do hospital, cinco consultas conjuntas envolvendo especialistas chineses e uma que envolveu especialistas internacionais. Liu Xiaobo morreu aos 61 anos, depois de ter passado mais de oito na prisão, condenado por subversão pelo seu trabalho como ativista pelos direitos humanos e por reformas na República Popular da China. Foi o primeiro Prémio Nobel a morrer privado de liberdade desde o pacifista alemão Carl von Ossietzky, que morreu em 1938 num hospital quando estava detido pelos nazis. Após a sua morte, os olhares voltam-se para a sua esposa, Liu Xia, em prisão domiciliar desde 2010. A ex-poetisa e fotógrafa foi autorizada a visitar seu marido no hospital antes de seu falecimento, mas seus contactos com o mundo exterior são muito restritos. “Até onde sei, Liu Xia é livre”, afirmou Zhang Qingyang, dirigente da municipalidade de Shenyang, sem dar mais detalhes. Essa declaração foi questionada por pessoas próximas, que continuam sem ter contacto com Liu Xia. Em Hong Kong, milhares de pessoas fizeram uma manifestação com velas na mão para prestar homenagem a Liu. Desde a chegada ao poder do presidente Xi Jinping, no final de 2012, a repressão política na China aumentou. Além de reprimir defensores dos direitos Humanos, o governo também perseguiu seus advogados, prendendo dezenas de juristas e militantes.

AUTORIDADES GARANTEM QUE VIÚVA “É LIVRE”

A

s autoridades chinesas garantiram que Liu Xia, a viúva do Nobel da Paz Liu Xiaobo, “é livre”, mas os amigos mais próximos têm denunciado que não podem contactá-la e que está sob vigilância do regime. “O governo chinês vai proteger os direitos legítimos de Liu Xia com base na lei”, garantiu Zhang Qingyang, porta-voz da agência de informação do governo da cidade de Shenyang. Questionado sobre se Liu Xia poderá viajar para o estrangeiro como pretende, Zhang respondeu que a viúva do Nobel da

Paz “é livre”, mas que neste momento sente um “enorme pesar” pela morte do marido e as autoridades “respeitaram o seu desejo de não ser incomodada”. Depois da morte deste dissidente chinês, todas as atenções estão postas na viúva, já que as pessoas mais próximas têm alertado para a fragilidade do seu estado de saúde depois de ter passado os últimos sete anos em prisão domiciliária sem ter sido acusada de qualquer delito.

Um “peão do Ocidente”

Pequim considera entrega do Nobel a Liu uma blasfémia

Liu Xiaoguang defendeu o Governo

U

M jornal do Partido Comunista Chinês (PCC) disse que Liu Xiaobo era um peão do Ocidente, cujo legado desaparecerá em breve. Em editorial, o Global Times, jornal em inglês do grupo do Diário do Povo, o órgão central do PCC, afirmou que Liu teve uma “vida trágica”, porque tentou confrontar a sociedade chinesa com apoio de fora. O Global Times considerou que os últimos dias de Liu foram “politizados por forças estrangeiras”, que usaram a doença de Liu para “promoverem a sua imagem e demonizarem a China”. Aquestão dos direitos humanos é uma fonte de persistente tensão entre o Governo chinês e os país europeus e Estados Unidos, que tendem a enfatizar a importância das liberdades políticas individuais. Para as autoridades chinesas, “o direito ao desenvolvimento é o mais importante dos direitos humanos” e o “papel dirigente” do Partido Comunista, no poder desde 1949, é “um principio cardial”. “Na história da China, nenhum dos heróis foi delegado pelo Ocidente. A posição e valor de alguém na História será decidida pelos seus esforços e persistência para o desenvolvimento do país”, concluiu o jornal. Por seu lado, o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang afirmou que a atribuição do Nobel da Paz em 2010 a Liu Xiaobo, foi uma blasfémia. “Atribuir a distinção a tal pessoa contraria o propósito deste prémio. O Nobel da Paz foi blasfemado”, acusou em conferência de imprensa. Vários países criticaram Pequim pela morte do dissidente, depois de se terem oferecido para dar tratamento médico a Liu. Geng revelou que Pequim protestou junto dos Estados Unidos e do Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU, pelos “comentários irresponsáveis” sobre a morte do dissidente. Por isso, a China disse também que enviou protestos diplomáticos a vários países, entre os quais os

Estados Unidos, por “comentários irresponsáveis” sobre o caso de Liu Xiaobo. “Apresentámos protestos a alguns países para mostrar o nosso descontentamento”, afirmou Geng Shuang. Geng detalhou que entre os destinatários dos protestos constam os EUAe o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al Hussein. França e Alemanha também figuram da lista. O porta-voz chinês condenou os países que criticaram a forma como a China lidou com Liu, considerando que as críticas “têm fins ulteriores” e “não têm base nenhuma”, constituído uma “interferência” nos assuntos internos do país.

A China disse que enviou protestos diplomáticos a vários países, por “comentários irresponsáveis” Entretanto, Taiwan também não ficou sem uma resposta directa. Um porta-voz de Pequim disse que “os ataques arbitrários repetidos do Partido Progressista Democrático (PPD) de Taiwan e de sua líder contra a parte continental são comportamentos perigosos”, refere a Xinhua. “As autoridades de Taiwan e o PPD fizeram comentários imprudentes sobre o sistema político da parte continental depois da morte de Liu Xiaobo causada por um cancro”, disse Ma Xiaoguang, porta-voz do Departamento dos Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado. Ma referiu ainda que Liu foi condenado por violar a lei chinesa. Após o diagnóstico de cancro no fígado, os departamentos e instituições médicas da China fizeram todos os esforços para tratar Liu humanamente conforme a lei, insistiu. Ma disse que o PPD e a sua líder deixaram cair o véu de “manter a actual situação”, atacaram repetidamente a parte continental e agravaram os conflitos através do Estreito, tentando recuar nas relações, provocando para tensão e turbulência. “Este tipo de comportamento é muito perigoso”, explicou Ma. “Manipulação política, mudança do enfoque e enganar as pessoas não terão sucesso”, concluiu Ma.


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T

RISTEZA e indignação juntaram na sexta-feira dezenas de pessoas no largo do Leal Senado para uma homenagem ao activista chinês Liu Xiaobo, que morreu na quinta-feira de cancro, sob custódia das autoridades chinesas, após oito anos de prisão. “Ele estava a lutar pela democracia na China, pelo seu povo, e foi isto que recebeu em troca. Uma pessoa que não é violenta, que usa a sua vida para lutar pelo que acredita, recebeu isto”, disse à agência Lusa Mee Fong, de 58 anos, de Hong Kong, referindo-se ao seu encarceramento e impedimento de sair da China para procurar assistência médica para o cancro no fígado. Sentimento semelhante foi manifestando por Ching, de 39 anos: “Juntei-me à vigília porque respeito muito Liu, as suas acções, que são muito pacíficas. Concordo com o que ele queria fazer”. Ching, que vive em Macau mas é de Taiwan, diz ter muito presente o papel do Nobel da Paz durante os protestos de Tiananmen, onde negociou a libertação de centenas ou milhares de estudantes. Mas foi a continuação do seu trabalho de promoção dos valores democráticos que veio cimentar o seu respeito. “A continuação das suas acções por tantos anos, sob tanta pressão do Governo, é algo muito raro. O Governo (chinês) não pareceu disposto a dar-lhe assistência médica adequada. Ele venceu o Prémio Nobel da Paz e acho que devia ter sido muito mais bem tratado”, disse. A vigília foi convocada pela Associação Novo Macau, a maior organização pró-democracia do território, que fez um minuto de silêncio às 17:35, hora a que

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NOVO MACAU HOMENAGEOU ACTIVISTA E PRÉMIO NOBEL

Em memória da luta

Foram poucos os que participaram na vigília de sexta-feira promovida pela Associação Novo Macau, que homenageou o prémio Nobel da Paz chinês Liu Xiaobo, falecido com cancro. Nas ruas sentiu-se a tristeza e lembrou-se a liberdade

HM/LUSA

OUTROS ACTIVISTAS FALECIDOS NA PRISÃO as autoridades disseram que Liu Xiaobo morreu.

FOTOS A PRETO E BRANCO

A associação colocou uma fotografia a preto e branco de Liu, junto a uma cadeira onde repousava o “Carta 08”, o seu manifesto democrático, assinado por centenas de intelectuais, que lhe valeu uma condenação a 11 anos de prisão por subversão. Um painel branco compunha a instalação, onde as pessoas podiam deixar mensagens. Em inglês podia ler-se “Mourning for Liu Xiaobo” (“De luto por Liu Xiaobo”).

Izzie, de 25 anos, não conseguiu convencer os amigos a participar, mas fez questão de ir. “Acho que temos de vir aqui e dizer ao Governo que fazer isto não é bom, não é justo”, disse. Apesar de considerar que Macau “tem algum espaço livre” para divulgar a luta de Liu Xiaobo, Izzie disse que “muito poucas pessoas sabem o que lhe aconteceu” e que a maioria “apenas aproveita Macau e não quer saber nada sobre política”. Sentada num banco, atenta aos discursos da Novo Macau, uma residente com “mais de 50 anos”, hesitou

ACTIVISTA XU ZHIYONG LIBERTADO

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garantida. “Perdê-la é muito fácil, preocupo-me com isso. Lutamos por um bocadinho de democracia em Macau e é muito difícil. Perder a liberdade de expressão, de imprensa, a liberdade de não ter medo, é muito fácil”, afirmou. “Ontem os chineses souberam que Liu morreu e quatro deputados do campo pró-democracia (foram afastados em Hong Kong). Preocupamo-nos que a liberdade se esteja a perder muito rapidamente. É muito triste”, comentou, referindo-se à decisão de um tribunal de Hong Kong de afastar do cargo quatro deputados eleitos pela população. Liu Xiaobo morreu aos 61 anos, na província de Liaoning, onde estava hospitalizado. Foi o primeiro Prémio Nobel a morrer privado de liberdade desde o pacifista alemão Carl von Ossietzky, que morreu em 1938 num hospital quando estava detido pelos nazis.

activista político chinês Xu Zhiyong, co-fundador do movimento ‘Novo cidadão’, que pedia mais transparência ao Governo, saiu ontem da prisão depois de cumprir uma pena de quatro anos por “alteração da ordem pública”. De acordo com a agência de notícias espanhola Efe, que confirmou a saída da prisão com o seu advogado, Xu, de 44 anos, é um activista moderado que foi detido em Julho de 2013 e condenado em Janeiro de 2014. “Não me convém falar”, respondeu o activista ao chegar a casa, quando questionado pelos jornalistas sobre se estava a ser vigiado, uma prática comum para os activistas mesmo depois de já

terem sido condenados e cumprido a pena. A frase é comum na China para as pessoas que estão submetidas a vigilância ou que receberam advertências do Governo para não falarem publicamente. A página chinachange.org, gerida nos Estados Unidos e especializada em casos de direitos humanos, publica hoje que vários amigos que tentaram visitar o activista na sua casa foram impedidos de o fazer por agentes de segurança vestidos à paisana. A saída de Xu Zhiyong acontece poucos dias depois da morte do intelectual e Nobel da Paz Liu Xiaobo e renovou as preocupações sobre a crescente repressão do regime chinês contra os dissidentes.

em falar, mas acabou por aceitar sob anonimato. “Fiquei muito triste, dói aqui”, disse, apontando para o coração. “Só queria estar aqui, homenageá-lo, lembrá-lo por ter lutado pela liberdade de falar”, afirmou, emocionada. Sobre a fraca adesão à vigília, admitiu que “as pessoas de Macau não querem fazer as coisas muito abertamente, é um sítio muito pequeno, toda a gente tem medo de perder o emprego”. Questionada sobre se também não sente medo, respondeu: “Também tenho,

mas não muito porque já tenho idade para não me preocupar. Mas estou satisfeita porque trabalho numa escola e falámos sobre isto com estudantes e professores. É uma escola católica e rezámos pela alma dele. Algumas pessoas ainda têm coração”.

AI A LIBERDADE

O presidente da Associação Novo Macau explicou que a iniciativa foi organizada para exigir “democracia e liberdade, em Macau e na China”. Apesar de não ter juntado muitas pessoas, a vigília atraiu atenção, já que, localizada junto à igreja de São Domingos, perto a principal praça de Macau, é local de passagem frequente, tanto de residentes como de turistas. “Acho que muitas pessoas, especialmente os turistas da China, podem não saber da notícia. Somos uma região administrativa especial, temos liberdade de expressão e de imprensa, queremos levar essa liberdade aos chineses e partilhar a história de Liu”, afirmou. Sulu Sou disse não tomar a liberdade de Macau como

CAO SHUNLI • activista dos direitos humanos que morreu em Março de 2014 num hospital de Pequim, depois de ter sido detido em Setembro de 2013.

TENZIN DELEK RINPOCHE • um lama tibetano a cumprir uma pena de prisão perpétua por “incitar à separação do Estado” e que morreu em Julho de 2015.


política 5

segunda-feira 17.7.2017

TABACO ALTERAÇÕES À LEI APROVADAS NA ESPECIALIDADE

Não há povo sem fumo

Governo proibia totalmente o fumo em casinos, universidades e paragens de autocarros, e impedia a exibição de maços para venda. O regime de prevenção e controlo do tabagismo foi aprovado pela AL em 2011, passando a ser proibido fumar na maior parte dos recintos fechados.

GCS

O diploma inicial previa o fim do fumo nos casinos, mas a oposição das operadoras obrigou o Governo a recuar. Alguns deputados torceram o nariz às salas de fumo nos casinos, que vão ter de obedecer a novas regras, mas de nada lhes adiantou. A nova lei entra em vigor no início do próximo ano

PRÉDIOS ANTIGOS EM DEBATE

Os deputados aprovaram ainda a realização de um debate sobre a degradação dos prédios com mais de 30 anos e a necessidade de legislação sobre vistorias regulares, apresentado pelo parlamentar eleito por via directa Mak Soi Kun. O debate vai realizar-se ainda de 15 de Agosto, data em que termina a legislatura.

A

Assembleia Legislativa (AL) aprovou as alterações à lei de prevenção e controlo do tabagismo, com o Governo a recuar na intenção inicial da proibição total do fumo nos casinos. As modificações ao diploma, debatido agora na especialidade, foram todas aprovadas. A lei prevê a proibição de fumar em todos os recintos fechados à excepção dos casinos, onde serão criadas salas para fumadores. “A sala é uma boa medida e os requisitos que vamos exigir [para a sua construção] são muito rigorosos. Vamos exigir ventilação permanente e uma maior área entre salas de fumadores e zona de jogo”, disse o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, sublinhando que o Governo está a cumprir o estabelecido na convenção-quadro para o controlo do tabaco da Organização Mundial de Saúde (OMS). A cada três anos, o Governo vai avaliar e efectuar um relatório sobre os trabalhos de controlo do tabagismo, indicou. “Só há duas excepções para as salas de fumadores: aeroportos e casinos. Em todos os outros locais é proibido”, garantiu. O secretário explicou aos deputados que as seis operadoras de jogo

“As salas de fumo são tóxicas. A obrigação do empregador e do Governo é proteger a saúde dos funcionários.” ELLA LEI DEPUTADA

concordaram com “a necessidade de criar salas para fumadores com requisitos muito rigorosos”. A lei vai entrar em vigor em Janeiro do próximo ano, mas 29 dos 44 casinos existentes já pediram as normas para a construção das salas de fumadores. “Os casinos podem criar as salas antes da data [de entrada em vigor da lei] e as seis operadoras concordaram com esta proposta de lei”, afirmou o secretário.

A deputada Ella Lei – que, durante o processo de análise na especialidade, se mostrou descontente com as cedências do Executivo ao sector do jogo – afirmou que “não apoia, nem concorda com a decisão do Governo”. “Os casinos são os únicos recintos fechados que permitem fumadores, em violação da convenção-quadro da OMS e em prejuízo dos trabalhadores. Só a

proibição total do fumo em recintos fechados protege a saúde das pessoas. As salas de fumo são tóxicas. A obrigação do empregador e do Governo é proteger a saúde dos funcionários”, disse. O deputado Chan Iek Lap defendeu uma compensação pecuniária para os trabalhadores dos casinos obrigados a conviver com o fumo. A proposta inicial de revisão da lei do tabaco apresentada pelo

AAL rejeitou um recurso interposto pelo deputado José Pereira Coutinho relativo à proteção da reserva natural de Coloane, por considerar ser necessária a autorização prévia de Chui Sai On. O presidente da AL, Ho Iat Seng, afirmou tratar-se de um projecto de lei que vai afectar a política de terras do Governo, sendo por isso necessária a autorização prévia do Chefe do Executivo. Os deputados rejeitaram ainda um outro projecto de Pereira Coutinho para promoção, sensibilização e divulgação dos tratados de Direitos Humanos e Convenções da Organização Internacional do Trabalho.


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SINOSKY GOVERNO NEGOCEIA PLANO A LONGO PRAZO

SOFIA MARGARIDA MOTA

Fazer novo do velho

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Melinda Chan pede medidas para edifícios industriais

S

ÃO edifícios deteriorados. Um dia serviram as indústrias locais, mas estão, actualmente, sem condições para acolher empresas. As rendas são outro problema que limita o seu aproveitamento e Melinda Chan pede medidas ao Governo. A deputada quer a revisão da lei de modo a que seja alterada a finalidade dos edifícios industriais do território e alargado o âmbito de sua utilização. O objectivo é dinamizar estes locais de modo a manter as estruturas em boas condições e a promover espaços cujo trabalho venha colmatar as necessidades dos residentes. A deputada específica o seu pedido, e insta o Governo para que pondere a remodelação destes edifícios de modo a acolherem empresas ligadas às indústrias culPUB

turais e criativas, empresas sociais, e de apoio às PME. Melinda Chan recorda, em interpelação escrita, que já em 2011 o Executivo divulgou um plano de revitalização dos edifícios industriais. O objectivo, refere, seria “aumentar a sua taxa de utilização” depois do declínio das indústrias do território. No entanto, desde a implementação da medida, “foram recebidos 15 requerimentos e apendas dois foram autorizados”, pelo que, diz Melinda Chan, “é evidente que a referida medida não consegue surtir os devidos efeitos”.

NECESSIDADES ESQUECIDAS

Por outro lado, as empresas, essencialmente ligadas às indústrias culturais e criativas do território e que estão alojadas em espaços nos edifícios industriais, contribuindo

para a sua manutenção, tendem a abandonar estes lugares. A razão, aponta, tem que ver com a constante subida do valor das rendas, mesmo na ausência de condições de funcionamento. O facto destes edifícios se encontrarem debilitados e sem condições de segurança, nomeadamente no que respeita a equipamentos contra incêndios, tem feito com que equipamentos e serviços como parques infantis, campos de férias e centros de fitness não consigam obter licenças de funcionamento. São, no entender da deputada, serviços necessários à população e que poderiam ter, nos edifícios industriais, as condições necessárias para exercer funções. Sofia Margarida Mota

sofia.mota@hojemacau.com.mo

Governo vai pedir à Sinoksy, concessionária que tem a seu cargo o fornecimento de gás natural, um plano a longo prazo que garanta “a estabilidade e a segurança do seu fornecimento”. A informação é do próprio Executivo em resposta à interpelação da deputada Kwan Tsui Hang. O Governo assegura que em Março deste ano foi restabelecido o fornecimento de energia eléctrica a gás natural com a concessionária e adianta que, para o projecto a longo prazo, ambas as partes estão em negociações. O Gabinete para o Desenvolvimento do Sector Energético não deixa de sublinhar o empenho que tem tido na introdução do gás natural no território enquanto “uma das políticas energéticas do Governo que se destinam a melhorar a qualidade do ar”. Para o feito, afirma, está a ser planeada a utilização desta energia para usos doméstico, nos transportes e uso comercial, sendo que a rede de gasodutos já se encontra em construção nas zonas da Taipa e de Coloane. Em Maio, Kwan Tsui Hang interpelou o Governo sobre o contrato de concessão com a Si-

noksy, empresa responsável pelo fornecimento de gás natural. A deputada queria saber qual o ponto de situação das negociações entre o Executivo e a concessionária, que se arrasta há cerca de dois anos. Kwan Tsui Hang lembrava que o acordo para o fornecimento de gás natural foi assinado em 2007, lamentando que a empresa não tenha cumprido os requisitos, tendo deixado, a partir de 2011, de fornecer gás natural à Companhia de Electricidade de Macau (CEM). Para a deputada, a má qualidade dos serviços da companhia concessionária não só afecta a produção de electricidade através do gás natural, mas também impede o desenvolvimento do próprio serviço. S.M.M.


política 7

Passos em volta

HOJE MACAU

segunda-feira 17.7.2017

Estudantes falam de poucas infra-estruturas desportivas no inquérito

A

falta de espaços para a prática desportiva tem sido um problema levantado no panorama político e social, e agora um novo inquérito vem mostrar o que pensam os jovens sobre o assunto. O questionário levado a cabo pela Associação Geral de Estudantes Chong Wa revela que 55 por cento dos inquiridos consideram que as actuais instalações públicas para a prática do desporto não são suficientes, sendo que 32 por cento dos que responderam querem mais estruturas para a prática de diferentes desportos. Loi Yi Weng, ligada à direcção da associação, pede ainda que o Executivo melhore as actuais instalações desportivas. Cerca de 27 por cento dos alunos pedem mais pistas para andar de bicicleta, para jogar badminton e para a prática da natação.

Cerca de 27 por cento dos alunos pedem mais pistas para andar de bicicleta, para jogar badminton e para a prática da natação – resultado do inquérito O inquérito, feito em parceria com a Associação de Pesquisa sobre a Juventude de Macau, questionou 918 estudantes de 17 escolas secundárias e de instituições do ensino superior. Só 15 por cento dos alunos utiliza frequentemente as instalações

públicas para fazer exercício físico, sendo que 72 por cento só utiliza os espaços de vez em quando. Loi Yi Weng, ligado à direcção da Associação Geral de Estudantes Chong Wa, conta que 92 por cento dos alunos entrevistados têm o hábito de praticar desporto diariamente, o que, na sua opinião, demonstra a existência de um sentimento de satisfação dos alunos na prática desportiva. Quanto aos locais mais frequentados por alunos, Loi Yi Weng disse que a maioria prefere fazer desporto na escola ou em casa, o que representa uma fatia de 45 por cento dos inquiridos. O estudo mostra ainda que 58 por cento dos alunos opta pela corrida ou pelos passeios como actividades físicas habituais. A responsável da associação considera que este resultado mostra que não há conhecimento sobre as outras práticas desportivas, pelo que apela ao Governo um reforço da promoção do desporto.

E O CANÍDROMO?

Lei Sio Chou, presidente da Associação, defende a construção, a curto prazo, de mais pistas para corridas, uma vez que os actuais espaços mais usados pela população não têm as condições ideais, como é o caso do reservatório ou da zona do lago Sai Van. O presidente espera que o terreno onde está localizado o Canídromo possa ser utilizado para a construção de infra-estruturas desportivas. O inquérito vai ser submetido ao Governo com as respectivas sugestões. Vítor Ng

info@hojemacau.com.mo

O

novo delegado de Cabo Verde no Fórum Macau quer as empresas cabo-verdianas focadas nas potencialidades do mercado chinês e não apenas no fundo de financiamento da organização, apostando, em simultâneo, na captação de investimentos para o arquipélago. “A internacionalização das empresas cabo-verdianas para este mercado ainda é muito incipiente. O nosso empresariado está muito interessado no fundo de financiamento. É importante não vermos o fundo somente como um alvo, mas conhecer o mercado chinês e o que o mercado chinês pode dar a Cabo Verde em termos de serviços, de produtos e até de conhecimento (kow-how)”, disse Nuno Furtado, em entrevista à agência Lusa, a poucos dias de partir para Macau. Formado em política internacional pela Universidade do Povo, de Pequim, Nuno Furtado, assume a partir de 1 de Agosto o lugar de delegado de Cabo Verde no Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre a China e Países de Língua Portuguesa (Fórum Macau), substituindo no cargo Mário Vicente. Nuno Furtado, que assumirá a função de “elo de ligação” entre o Fórum Macau e o Governo de Cabo Verde, será igualmente o representante da agência cabo-verdiana de promoção de investimentos, a Cabo Verde Trade Invest. “Queremos ter um intercâmbio muito fluente em termos

FÓRUM MACAU OS OBJECTIVOS DO NOVO DELEGADO DE CABO VERDE

O olho no mercado chinês

Nuno Furtado é o novo delegado de Cabo Verde no Fórum Macau. Antes de partir para o território confessou que é necessário captar investimento por parte das empresas cabo-verdianas, com o foco no mercado chinês comerciais e empresariais e apostar fortemente na captação de investimentos via Cabo Verde Trade Invest”, disse, adiantando que as novas orientações do Governo apontam para a internacionalização das empresas e captação de investimento chinês para Cabo Verde.

MISSÃO DE TRÊS ANOS

Nuno Furtado, que terá uma missão de três anos, traça

como objectivo a promoção da entrada de empresas cabo-verdianas no mercado chinês e a captação de investimentos chineses para o arquipélago. “O objectivo é ver empresas cabo-verdianas a penetrar no mercado chinês. Queremos que os nossos empresários tenham acesso ao mercado chinês e ao mesmo tempo gostaria de ver em Cabo Verde algumas empresas chinesas a investi-

rem forte, principalmente no sector da economia marítima e agricultura”, afirmou. O Governo da China vai apoiar Cabo Verde na criação da Zona Económica Exclusiva de São Vicente, projecto que Nuno Furtado acredita irá arrastar um conjunto de investimentos. Ainda assim, o novo delegado de Cabo Verde no Fórum Macau adiantou que, pelas primeiras impressões, está a ver “algum receio” dos empresários chineses em investirem em Cabo Verde por causa da dimensão do mercado. Por isso, entende que a sua missão passa também por convencer os empresários chineses que Cabo Verde pode ter, enquanto plataforma de entrada no continente africano, um papel semelhante ao que Macau tem para a China. “Temos que potencializar Cabo Verde como plataforma para fazer com que o capital chinês entre aqui e ao mesmo tempo penetre na Comunidade Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO). E aqui falamos de um mercado de 300 milhões de pessoas”, sublinhou. Sobre o fundo de financiamento, Nuno Furtado assinala a exigência na elaboração dos projectos e o valor relativamente elevado dos investimentos admitidos. “Alguns empresários cabo-verdianos têm lá projectos, mas nunca tiveram ‘feedback’ e, normalmente, isso acontece porque os montantes envolvidos são muito baixos. É preciso que os empresários cabo-verdianos comecem a pensar um pouco mais em grande em termos de projectos de investimento”, disse. Cabo Verde muda o seu delegado no Fórum Macau pouco tempo depois de ter acolhido, na cidade da Praia, o Encontro de Empresários para a Cooperação Económica e Comercial da China e dos Países de Língua Portuguesa, ocasião em que foram assinados vários protocolos entre Cabo Verde e a China. “São esses protocolos que devem ser acompanhados para materialização de acções concretas», considerou. Nuno Furtado, 41 anos, fluente em mandarim, é formado em política internacional pela universidade do Povo em Pequim, China, e antes de ser nomeado delegado para o Fórum Macau era conselheiro do presidente da Assembleia Nacional de Cabo Verde para a área da diplomacia. HM/LUSA


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Pôde ele bem. O antigo procurador não foi o primeiro da história judicial da RAEM a ser condenado em primeira instância sem possibilidade de apelo. Mas agora, que não tem a hipótese de ver revista a pena de 21 anos que lhe foi aplicada, invocou o direito a recurso. Foi tarde demais

A DESILUSÃO DA DEFESA

A advogada de Ho Chio Meng disse estar “desiludida” com os 21 anos de prisão e com o tipo de crimes a que foi condenado o seu cliente, discordando da punição por associação criminosa e branqueamento de capitais. “Temos primeiro de ver a sentença, os fundamentos, para podermos ver o que é que podemos fazer, mas com certeza ficamos um bocado desiludidos não só pela pena única que foi aplicada, mas também pelos crimes a que foi condenado”, disse Oriana Pun aos jornalistas à saída do tribunal. “Sempre defendemos que não há associação criminosa e também não houve o branqueamento de capitais”, acrescentou. Oriana Pun pronunciou-se ainda sobre a questão da impossibilidade de apelo, ao dizer que qualquer pessoa deve ter direito a recurso. “Acho que o problema do recurso, tal como antes já tinha sido suscitado, é um problema do nosso sistema judiciário (...). [No entanto], é um direito básico em qualquer parte do mundo. Para nós, uma decisão sem recurso não é uma decisão última”, disse. Apesar da impossibilidade legal de recurso, a advogada disse que a equipa de defesa tem “algumas ideias”, sem especificar quais. “Temos algumas ideias, mas também temos de estudar. Temos de ver qual é a pretensão do nosso cliente, só depois é que podemos dizer”, afirmou.

COM AS DORES DOS OUTROS HO CHIO MENG CONDENADO A 21 ANOS DE PRISÃO EFECTIVA

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ex-procurador Ho Chio Meng foi condenado na sexta-feira a 21 anos de prisão por vários crimes, incluindo burla qualificada, branqueamento de capitais agravado e promoção ou fundação de associação criminosa, em autoria ou co-autoria. Ho Chio Meng, que liderou o Ministério Público (MP) entre 1999 e 2014, conheceu a decisão do colectivo de juízes do Tribunal de Última Instância (TUI), liderado por Sam Hou Fai, sete meses depois do início do julgamento, a 9 de Dezembro de 2016. No final da sentença lida pela juíza Song Man Lei, durante quase


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anos o cargo de procurador do Ministério Público de Macau, a 20 de dezembro de 1999, aquando da transferência de administração, depois de ter sido adjunto do Alto Comissariado Contra a Corrupção e Ilegalidade Administrativa. Em 2009, chegou a ser apontado como o possível sucessor de Edmund Ho. No início desse ano, a chamada ala jovem do Partido Comunista Chinês demonstrou inequivocamente o seu apoio ao então procurador da RAEM, ao publicar, na sua revista, um artigo longo sobre Ho Chio Meng e as características que faziam dele o melhor candidato a Chefe do Executivo. TIAGO ALCÂNTARA

O colectivo de juízes decidiu também absolver Ho Chio Meng de dois crimes de burla simples, de um dos crimes de abuso de poder e de sete dos crimes de branqueamento de capitais agravado. Além da pena de prisão, Ho Chio Meng foi ainda condenado a pagar sozinho ao gabinete do procurador uma indemnização de 18,4 milhões de patacas. O tribunal condenou ainda o ex-procurador a pagar sozinho ou com outros arguidos, num caso conexo, mais de 57,5 milhões de patacas, acrescidos de juros até à data do pagamento integral. Foram declarados perdidos a favor do território um total de 1,2 milhões de patacas em benefícios ilegais, assim como o património possuído pelo arguido e mulher no valor de 12,1 milhões de patacas. O dinheiro apreendido nos autos, no montante de 331 mil dólares de Hong Kong, foi igualmente declarado perdido a favor de Macau.

IMPOSSIBILIDADES E OUTROS PERCALÇOS

duas horas, Ho Chio Meng gritou de braço no ar que era inocente, que não tinha recebido dinheiro indevidamente e que queria ter direito a recurso. Em prisão preventiva desde Fevereiro do ano passado, depois de ter sido detido por suspeita de corrupção na adjudicação de obras e serviços no exercício das funções no MP, Ho Chio Meng estava acusado de mais de 1500 crimes, incluindo burla, abuso de poder, branqueamento de capitais e promoção ou fundação de associação criminosa, em autoria ou co-autoria com outros nove arguidos, que estão a ser julgados no Tribunal Judicial de Base.

“Em cúmulo jurídico, vai o arguido condenado na pena única de 21 anos de prisão”, indica o acórdão do TUI. Ho Chio Meng foi condenado por 11 tipos de crimes: peculato e peculato de uso,

No final da sentença, Ho Chio Meng gritou de braço no ar que era inocente, que não tinha recebido dinheiro indevidamente e que queria ter direito a recurso

burla simples, burla qualificada de valor elevado, burla qualificada de valor consideravelmente elevado, destruição de objectos colocados sob o poder público, promoção ou fundação de associação criminosa, participação económica em negócio, branqueamento de capitais agravado, inexactidão dos elementos da declaração de rendimentos e riqueza injustificada. De acordo com o acórdão, 24 dos crimes de que o antigo procurador estava acusado prescreveram, incluindo um dos crimes de burla qualificada de valor consideravelmente elevado, três dos crimes de burla simples e 20 dos crimes de abuso de poder.

O TUI é a única instância que, em Macau, é chamada a decidir sobre processos que envolvem titulares ou ex-titulares de cargos públicos. Daí Ho Chio Meng não ter direito a recurso, apesar de ter sido julgado em primeira instância. Esta característica do sistema judicial tem sido criticada por diversos sectores. O caso de Ho Chio Meng é o segundo a confrontar o sistema com esta questão. O primeiro foi o do ex-secretário para os Transportes e Obras Públicas, Ao Man Long, detido há mais de dez anos, a 6 de Dezembro de 2006. Apesar de essa impossibilidade de recurso ter sido contestada na sequência do caso Ao Man Long, e não obstante os apelos para ser alterada a Lei de Bases da Organização Judiciária, o cenário repetiu-se, dado que a prometida revisão da lei se encontra “em curso” há anos. O caso do ex-procurador fez também renascer o debate em Macau em torno do estatuto dos magistrados e da falta de um instrumento de fiscalização da sua actividade. O julgamento de Ho Chio Meng começou a 9 de Dezembro do ano passado, depois de a primeira audiência ter sido adiada na sequência de um requerimento apresentado pela defesa do ex-procurador que pedia o afastamento do presidente do TUI, Sam Hou Fai, onde foi julgado. O pedido foi recusado pelo tribunal. O caso ficou marcado pela desistência do processo do primeiro advogado de defesa de Ho Chio Meng, Leong Weng Pun, que abandonou o caso em Março, dizendo que o tribunal não tratava a defesa e acusação de forma igualitária. Nascido em Macau em 1955, Ho Chio Meng assumiu aos 44

O SOL E O DESINFECTANTE

O Ministério Público (MP) não tardou a reagir à condenação do seu antigo líder. Pouco antes das 19h de sexta-feira, emitiu um comunicado em que defendeu que a condenação a 21 anos de prisão “é justa e imparcial”. “O julgamento do processo criminal respeitante ao exprocurador Ho Chio Meng foi levado a cabo pelo Tribunal de Última Instância (TUI) nos termos da lei processual, e o MP respeita a decisão desse processo que, tal como outras decisões proferidas pelo TUI, é justa e imparcial”, anunciou o Gabinete do Procurador. Na mesma nota, o Gabinete do Procurador recorre a metáforas para falar do caso. “Sendo a luz do sol o melhor desinfectante, o MP, que é um órgão judiciário, executa as funções de procuradoria de acordo com os princípios da legalidade e da objectividade, pelo que, partindo do princípio fundamental de que as pessoas são iguais perante a lei, o MP, no caso de Ho Chio Meng, deduziu a respectiva acusação e submeteu o caso ao julgamento do TUI, de acordo com a lei”, refere o comunicado. Também acrescenta que, “com o fim do julgamento do caso de ex-procurador no Tribunal de Última Instância, o Ministério Público vai continuar a reforçar a gestão do instituto interno, executando rigorosamente as suas funções de procuradoria relativas à fiscalização da aplicação da lei, definidas na Lei Básica” de Macau.


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TRANSPORTES BANDEIRADA DOS TÁXIS É ACTUALIZADA PARA 19 PATACAS

A Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego anuncia hoje o aumento da bandeirada de 17 para 19 patacas. A tarifa aumenta a cada 240 metros, em vez dos anteriores 260 metros. Os aumentos não agradam à maioria dos representantes do sector

“S

EGUNDO o que sei, a tarifa aumenta para as 19 patacas e a distância de aumento da tarifa foi cortada para 240 metros”, conta ao HM Tony Kuok, presidente da Associação de Mútuo Auxílio dos Condutores de Táxi. A decisão, que vai de encontro ao proposto pela Direcção dos Serviços para osAssuntos do Tráfego (DSAT), será anunciada hoje em conferência de imprensa. Há dois meses, o director da DSAT, Lam Hin San, dizia os serviços que dirige haviam tomado “em consideração vários dados estatísticos, incluindo a inflação registada nos últimos anos”. A ideia seria sugerir aos representantes do sector um aumento de duas patacas na bandeirada. Pois, dito e feito. A proposta avança, apesar da discordância algo resignada de algumas entidades de taxistas, tais como a

O

primeiro semestre de 2017 teve uma diminuição de 20 por cento dos casos de estacionamento abusivo de veículos em parques de estacionamento públicos. Apesar do decréscimo considerável em relação a período homólogo do ano passado, ainda assim, os casos registados ultrapassaram os 130. Incorrem em estacionamento abusivo, de acordo com a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT), por exemplo os veículos que estejam estacionados por mais de oito dias consecutivos. Outros casos

HOJE MACAU

Taxímetros em ascensão

de Táxis de Macau categorizou esta actualização de tarifa como “apenas um desconto”. O dirigente associativo enumerou ainda as dificuldades que o sector enfrenta devido à alta concorrência em termos de transportes de passageiros. Leng Sai Hou considera que um dos maiores problemas é o excesso de licenças de táxi emitidas pelas autoridades e a fraca fiscalização a serviços como a Uber.

“Segundo o que sei, a tarifa aumenta para as 19 patacas e a distância de aumento da tarifa foi cortada para 240 metros”

Associação Geral dos Proprietários de Táxis de Macau. O presidente da associação, Leng Sai Hou, em declarações ao Jornal do Cidadão, diz que a maior parte dos taxistas não está satisfeito com o valor do aumento que foi sugerido pela DSAT no final de Maio, mas que a única saída é a aceitação da proposta.

TONY KUOK PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DE MÚTUO AUXÍLIO DOS CONDUTORES DE TÁXI

No que diz respeito ao serviço de Rádio Táxi, que entrou em funcionamento há mais de três meses, Leng Sai Hou acha que não fez grande mossa em termos de concorrência, já que o serviço é diferente em termos de função e clientes. O dirigente associativo, ainda em declarações ao Jornal do Cidadão, revelou que não está surpreendido face ao anúncio de que o regulamento dos táxis não será apreciado ainda durante este mandato da Assembleia Legislativa. Leng Sai Hou prevê que a entrada em vigor do diploma não mude significativamente as regras que regulam as infracções praticadas por taxistas.

UM DESCONTO

Este aumento do preço das viagens não agrada à maioria dos taxistas, uma vez que é inferior aos valores sugeridos pelos representantes do sector nas negociações com o Governo. Leng Sai Hou considera que com a taxa de inflação verificada em Macau e os crescentes custos de manutenção e funcionamento dos táxis, a insatisfação perante ao aumento de duas patacas é mais que óbvia. Em declarações ao Jornal do Cidadão, o presidente da Associação Geral dos Proprietários

João Luz e Vítor Ng

info@hojemacau.com.mo

Estacionamento em espinha encravada Mais de 130 casos de parqueamento abusivo na primeira metade do ano

que entram no âmbito de estacionamento abusivo são os parqueamentos em lugar reservado ou privado, os veículos estacionados numa área que ocupa vários lugares ou que perturbe o normal funcionamento do recinto. Os serviços adiantam que sempre que verificam casos de estacionamento abusivo, é aplicada uma multa ao proprietário e procede-se à remoção do veículo que se encontra em infracção. Caso

se considere que a viatura em questão está abandonada, o caso passada para a tutela dos serviços de finanças que avançam para a venda em hasta pública, sendo cobradas taxas ao proprietário em questão. Entre os dias 1 de Janeiro e 30 de Junho deste ano foram detectados 133 veículos mal estacionados nos 42 parques de estacionamento públicos sob a alçada de DSAT. Durante os primeiros seis meses deste ano registaram-se menos 32

casos do que em 2016, o que representa uma diminuição de 20,36 por cento. De acordo com os dados estatísticos revelados, do universo de veículos em incumprimento 11 foram motociclos.

CRIME E CASTIGO

Do número total de casos de estacionamento abusivo registados, 47 já pagaram as taxas devidas, tendo os veículos sido retirados pelos respectivos proprietários. Em

três ocorrências os serviços procederam ao cancelamento de matrículas, com o processo a seguir para o Governo para tratamento posterior, estando 24 casos a aguardar andamento processual. A DSAT revela que estes 47 lugares de estacionamento estão, de novo, ao dispor do público. Para os casos mais extremos em que os serviços declaram o veículo como abandonado, é seguido um processo com andamento faseado. Em

primeiro lugar, a empresa de gestão do parte notifica a polícia para que a viatura seja bloqueada e transferida para o Depósito de Veículos, após três horas do bloqueamento. Em seguida os serviços da DSAT emitem notificação para que o proprietário levante o veículo, através de contacto directo ou por publicação. Contados 90 dias, se o proprietário notificado não reclamar a viatura esta é considerada abandonada e vendida em hasta pública pelos serviços financeiros. O proprietário fica ainda sujeito ao pagamento das taxas decorrentes da remoção e depósito diário. J.L.


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SAÚDE ALEXIS TAM GARANTE BOA PREPARAÇÃO DA ACADEMIA DE MEDICINA

Vou tratar-te da doença

Dengue Registado quinto caso importado

Os Serviços de Saúde confirmaram o quinto caso de dengue importado em Macau desde o início do ano. A febre de dengue foi detectada num homem de 20 anos, após uma viagem de dez dias à Malásia, informaram aqueles serviços em comunicado. Os primeiros sintomas (febre, calafrios, dor de cabeça, muscular e ocular, entre outros) manifestaramse na passada terçafeira, tendo o doente procurado tratamento no Centro Hospitalar Conde de São Januário no dia seguinte. Na quintafeira, o Laboratório de Saúde Pública confirmou o resultado positivo de análises efectuadas para a febre de dengue. O estado clínico do doente é estável, indicaram os Serviços de Saúde, acrescentando que nenhum dos familiares apresentou sintomas idênticos. As autoridades já registaram este ano cinco casos de febre de dengue importada: dois foram infectados nas Filipinas, dois na Tailândia e agora este último na Malásia. Ainda não se registou qualquer caso de febre de dengue com origem local desde o início do ano.

Wynn atribui bónus aos funcionários

A Wynn Macau vai atribuir um bónus financeiro a 96 por cento dos funcionários (um total de 12,600 pessoas) dos empreendimentos Wynn Macau e Wynn Palace, equivalente a um mês de salário. Segundo um comunicado da operadora, está excluído o pessoal de gestão. “Depois do aumento salarial anunciado em Março deste ano, este bónus visa mostrar o agradecimento a toda a equipa pelo seu trabalho e dedicação”, lê-se no comunicado.

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S planos do Governo para a criação da Academia de Formação de Medicina parecem estar a correr a bom porto. Citado por um comunicado oficial, Alexis Tam, secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, referiu que o Executivo tem feito contratações para que tudo esteja preparado. “Foram contratados, sucessivamente e em grande número, enfermeiros e médicos, tendo sido organizadas acções de formação de especialidade e realizados preparativos para a instituição da Academia de Formação de Medicina”, lê-se. Na visão do secretário, “todos esses trabalhos contribuíram para a melhoria notável da qualidade dos serviços de saúde públicos”. Além disso, Alexis Tam garante que a melhoria do serviço público de saúde não se fica por aqui. “O Governo da RAEM vai continuar a envidar esforços, estando confiante de que o número de camas, médicos e enfermeiros per capita serão aumentados de acordo com os padrões internacionais, com vista a prestar serviços de alta qualidade aos residentes de Macau.” Apesar da data de inauguração do novo hospital

O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura garante que o Governo tem vindo a contratar pessoal médico com vista à preparação da Academia de Formação de Medicina. Alexis Tam disse ainda que vai aumentar o número de camas e de médicos

público ser ainda uma incógnita, Alexis Tam referiu ainda, à margem de um evento público, que o Executivo tem levado a cabo vários trabalhos em prol de melhoria ou edificação de infra-estruturas. “O Governo tem-se empenhado em melhorar o sistema dos serviços de saúde local, [incluindo] as instituições de saúde públicas e privadas. Nos últimos dois anos, foram envidados esforços para a construção de infra-estrutura da área

de saúde, nomeadamente, as obras de alargamento do Edifício da Clínica da Especialidade do Centro Hospitalar Conde de São Januário, a construção do Complexo de Cuidados de Saúde das Ilhas e a construção de novos centros de saúde”, frisou.

SATISFEITO COM A LEI

Alexis Tam adiantou ainda estar satisfeito com os resultados alcançados com a aprovação, na especialidade, das alterações à Lei da Prevenção e

o alargamento da área dos locais de proibição de fumar, tal como uma “limitação mais rigorosa imposta à exposição dos produtos do tabaco e aumento do valor da multa por infracção à lei”. “Todas estas medidas não só vão contribuir para a transformação de Macau numa cidade livre do fumo do tabaco, como também melhor proteger os jovens, prevenindo-os de terem o hábito de fumar”, disse ainda. A.S.S.

Controlo do Tabagismo. O diploma foi votado naAssembleia Legislativa na passada sexta-feira. Citado pelo mesmo comunicado, o secretário defendeu que “a revisão feita é um grande passo nos trabalhos de controlo do tabagismo”, uma vez que o novo diploma “vai reforçar o controlo do tabagismo nos casinos, diminuindo a área em que os trabalhadores e turistas estão expostos no fumo do tabaco”. Alexis Tam lembrou que a nova lei vai regulamentar o uso dos cigarros electrónicos, implementa PUB

HM • 1ª VEZ • 17-7-17

ANÚNCIO Execução ordinária n.º

CV1-16-0224-CEO

Tribunal Judicial de Base – 1.º Juízo Cível

Exequente VENETIAN MACAU S.A., com sede em Macau na Estrada da Baía de Nossa Senhora da Esperança, The Venetian Macao Resort-Hotel, Executive Offices – L2, Taipa LIU HONGMIN, de sexo masculino, titular do Passaporte da República Popular da China n.º E6XX5X2X4, com última residência conhecida na República Popular da Executado China em 1302, Office Building A, Wanda Plaza, Cidade de Jinjiang na Província de Fujian ***

Uma carga de trabalhos DSAL decretou 20 suspensões em estaleiros de obras

A

Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) realizou, no Sábado, visitas de inspecção a 557 estaleiros de obras no território e outros locais de trabalho. Na área da construção civil foram inspeccionados 74 estaleiros, tendo sido emitidos “20 ordens de suspensão total ou parcial dos trabalhos”, aponta um comunicado. A DSAL atribuiu ainda 66 recomendações aos empreiteiros, a fim destes realizarem melhorias. Além disso, “foram aplicadas sanções relativamente a 57 situações não seguras, envolvendo trabalhos em altura, riscos eléctricos e falta de medidas de protecção colectiva, e outros”. Alguns estaleiros foram inspeccionados “detalhadamente”, sendo que, “quando foi detectada a possibilidade de existirem situa-

ções de perigo, a DSAL deu imediatamente recomendações para melhoramento e conselhos aos empreiteiros, aos encarregados de segurança e aos trabalhadores”. “Quando foram encontradas situações de risco potencialmente graves, a DSAL aplicou imediatamente sanções e emitiu ordem de suspensão dos trabalhos”, acrescenta ainda o documento. Os trabalhos de fiscalização e inspecção foram efectuados por 40 trabalhadores da DSAL, incluindo o seu director, Wong Chi Hong, que se dividiram por 12 grupos. Segundo o mesmo comunicado, “a DSAL vai continuar a inspeccionar todos os estaleiros de construção e incita todos os empreiteiros a fazer a supervisão da segurança dos estaleiros para garantir que os trabalhadores têm condições seguras durante a execução dos trabalhos”.

Correm éditos de trinta (30) dias, a contar da segunda e última publicação do anúncio, citando o Executado LIU HONGMIN, para no prazo de vinte (20) dias, decorrido que seja o dos éditos, pagar ao exequente a quantia de HKD9,837,600.00 (nove milhões oitocentas e trinta e sete mil, seiscentas Hong Kong Dólares) equivalente a MOP$10,132,728.00 (dez milhões cento e trinta e duas mil setecentas e vinte e oito Pataca), acrescida de juros vencidos no valor de HKD$1,547,602.72 (um milhão quinhentas e quarenta e sete mil seiscentas e duas Hong Kong Dólares e setenta e dois avos), equivalente a MOP$1,594,030.80 (um milhão quinhentas e noventa e quatro mil trinta Patacas e oitenta avos), a que acrescem, os juros vincendos, à taxa anual de 18%, as demais despesas despendidas com a presente cobrança coerciva, até à efectiva liquidação da dívida, ou no mesmo prazo, deduzir oposição por embargos ou nomear bens à penhora, sob pena de, não o fazendo, ser devolvido ao exequente o direito de nomeação de bens à penhora, seguindo o processo os ulteriores termos até final à sua revelia. Tudo conforme melhor consta do duplicado da petição inicial que neste 1.º Juízo Cível se encontra à sua disposição e que poderá ser levantado nesta Secretaria Judicial nas horas normais de expediente. E ainda que é obrigatória a constituição de advogado caso seja deduzido oposição – art.º 74.º do C.P.C. de Macau. Caso o citado pretenda beneficiar do regime geral de apoio judiciário, deverá dirigir-se ao balcão de atendimento da Comissão de Apoio Judiciário, sito na Alameda Dr. Carlos d´Assumpção, n.º 398, 6.º andar, Macau, para apresentar o seu pedido, sendo que poderá pedir esclarecimentos através do telefone n.º 2853 3540 ou correio electrónico info@caj.gov.mo. Para o efeito, terá de comunicar ao processo a apresentação do pedido àquela Comissão, para beneficiar da interrupção do prazo processual que estiver em curso, nos termos do n.º 1, do art.º 20.º, da Lei n.º 13/2012, de 10 de Setembro. Tribunal Judicial de Base da R.A.EM., aos 7 de Julho de 2017.


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UNS PARA OS OUTROS MARTIM MONIZ O PORTAL QUE UNE COMUNIDADES

INTERCÂMBIO FUNDO NACIONAL DAS ARTES FINANCIA 3 MIL PROJECTOS EM MACAU

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intercâmbio cultural entre Macau e China na formação de artistas e quadros especializados da área cultural são alguns dos objectivos de interesse do Executivo no âmbito do Fundo Nacional das Artes. Nesse sentido, Alexis Tam reuniu-se com a vice-presidente e secretária-geral do organismo, Zhao Shaohua na sede do Governo. O Fundo Nacional das Artes foi criado em 2013 com o objectivo de fomentar o desenvolvimento da criatividade artística, promover os artistas que tenham trabalhos de grande qualidade, assim como formar quadros qualificados na área da produção artística. Desde a sua génese, o fundo financiou mais de três mil projectos em Macau, incluindo programas de cooperação cultural e artística, envolvendo um montante investido de quase 3 mil milhões de patacas. Zhao Shaohua afirmou que a sua visita a Macau tem em vista o reforço da cooperação com o Governo da RAEM, assim como com as

associações cívicas locais. Pretende também prestar o apoio necessário ao desenvolvimento e promoção de criações artísticas de Macau e formar pessoal no sector. Alexis Tam focou a sua intervenção no que está a ser realizado no território, nomeadamente no pacote de medidas do Executivo para promover a cultura e o intercâmbio entre a China e os países de língua portuguesa. O Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura recomendou que sejam realizadas acções de formação de jovens artistas locais e quadros técnicos na China. O coordenador adjunto do Centro de Gestão do Fundo Nacional das Artes, Wang Yong, adiantou que os formandos recomendados pelo Executivo serão bem recebidos e assegurou apoio às intenções de Alexis Tam. Além disso, foi mencionado que o Fundo Nacional das Artes tem toda a disponibilidade para apoiar e promover óperas locais com características históricas e culturais típicas de Macau na China e no exterior. J.L.

O Portal Martim Moniz é uma plataforma portuguesa que presta serviços de ligação entre chineses e portugueses. Do ensino de línguas ao apoio logístico, os serviços são actualmente fundamentais num momento em que China e Portugal estreitam laços

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XISTE em Portugal uma plataforma que une as comunidades portuguesa e chinesa, o Portal Martim Moniz. Além de proporcionar informação bilingue de actualidade com interesse para públicos de ambos os países, fornece uma série de serviços com potencial para a integrar a comunidade chinesa em Portugal. “O Portal é uma plataforma digital de intercâmbio cultural entre Portugal e a China, cujo objetivo é dar conhecer Portugal aos chineses e a China aos portugueses”, resume a directora executiva, Sara Costa. A vertente informativa é a mais visível da plataforma, mas são os serviços, nomeadamente relativos à língua, que representam uma maior

À VENDA NANA LIVRARIA PORTUGUESA À VENDA LIVRARIA PORTUGUESA CRISTINA BRANCO • Kronos

Cristina Branco convidou vários músicos portugueses a comporem sobre a passagem do tempo e o resultado foi o álbum “Kronos”, que revela os diferentes caminhos que criou dentro do fado. O álbum apresenta catorze temas compostos por músicos como Mário Laginha, Janita Salomé, Rui Veloso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Carlos Bica e Amélia Muge. A ideia do álbum, o décimo na carreira de Cristina Branco, surgiu ainda antes da cantora gravar “Abril”, dedicado a José Afonso. Há dez anos falava-se num novo fado. Agora, passa a ser legítimo usar a expressão pós-novo fado. E «Kronos» é decisivo para essa mudança de paradigma.

procura. “Temos um Centro de Língua Chinesa e um Centro de Tradução e Interpretação de modo a optimizar a comunicação entre as comunidades”. O objectivo, afirma,

“Portugal foi um dos primeiros países a estabelecer um acordo estratégico com a República Popular da China definindo, a posteriori, diretrizes para cooperação no turismo” SARA COSTA DIRECTORA EXECUTIVA DO PORTAL MARTIM MONIZ

é o fomento do intercâmbio cultural entre os dois povos. Aprendizagem de línguas é, neste momento o serviço mais procurado e em particular o ensino do português a chineses. “É uma oportunidade de aprender português com professores qualificados para o ensino de PLE (Português Língua Estrangeira) e que possuem também um total domínio do mandarim”, diz Sara Costa. O contrário também acontece e, de acordo com a directora, são cada vez mais os empresários portugueses a procurar formação em mandarim. Estudantes do ensino secundário e universitário também integram estas formações, bem como alguns curiosos acerca da língua e cultura chinesa. Para a responsável, a existência do portal é fundamental

no momento actual de relações que os dois países vivem. “A plataforma surge numa altura especialmente próspera

RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

ANA MOURA • no Coliseu

Ana Moura é, por estes dias, uma das maiores certezas do fado, nacional e internacionalmente. A agenda lotada, com concertos por todos os continentes, podia ser um indicador suficiente da sua qualidade. Mas a isso junta-se o reconhecimento da crítica. O Prémio Amália foi disso exemplo, a nomeação para os Globos de Ouro, o Prémio Internacional da Portuguese American Leadership Council Association vão a par com alguns momentos ímpares, como a chamada ao palco do Estádio de Alvalade para cantar em dueto com Mick Jagger, ou o pisar, pela primeira vez, o palco do Coliseu. Este concerto é o primeiro DVD de Ana Moura e o seu primeiro registo ao vivo.


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Imagens por Pedrógão Grande

Fotógrafo de Macau participa em acção solidária

das relações Portugal-China. Esta é uma história que tem mais de 500 anos, uma vez que os portugueses chegaram à China no início do século XVI. Nos últimos anos temos vindo a assistir a um reforço dos investimentos chineses em Portugal, nomeadamente no sector da energia, dos seguros, da banca, do imobiliário, entre outros”. Sara Costa não deixa de sublinhar o desenvolvimento de relações entre os dois países também no sector do turismo, sendo que “Portugal foi um dos primeiros países

a estabelecer um acordo estratégico com a República Popular da China definindo, a posteriori, diretrizes para cooperação no turismo”.

“A plataforma surge numa altura especialmente próspera das relações Portugal-China” SARA COSTA DIRECTORA EXECUTIVA DO PORTAL MARTIM MONIZ

“O acordo estratégico assinado em 2005 é sobretudo uma declaração de intenções passada a escrito que a China adotou para privilegiar alguns países com quem tem melhores relações e que começou a ter repercussões mais visíveis a partir de 2010”, explica Sara Costa.

INTEGRAÇÃO INEVITÁVEL

A comunidade chinesa em Portugal já está, se acordo com responsável, enraizada. “Se, por um lado, continuamos a ver comunidades um pouco fechadas entre si nos negócios mais tradicionais desta comu-

nidade, por outro vemos já a segunda geração a integrar-se nas nossas escolas, atividades e sociedade civil”. Por outro lado, refere, os sectores de trabalho a que se dedicam são também cada vez mais diversos. Para Sara Costa as relações entre os dois países estão a passar “uma das melhores etapas” e a existência deste tipo de trabalho é cada vez mais importante. Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com

FACEBOOK

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fotojornalista Gonçalo Lobo Pinheiro, radicado em Macau, é um dos nomes que participa com imagens suas na acção “Uma Imagem Solidária”, que consiste na entrega de um donativo aos bombeiros em troca de imagens captadas pelas lentes de fotojornalistas e outros fotógrafos profissionais. A iniciativa decorre esta semana no Museu das Telecomunicações, em Lisboa. As imagens captadas por quase 200 fotojornalistas e outros fotógrafos profissionais podem ser vistas e trocadas por donativos, por um valor mínimo de 20 euros (184 patacas), na quarta-feira, a partir das 18h00, e na quinta-feira, a partir das 10h00, disse à agência Lusa o mentor da iniciativa, o fotojornalista António Cotrim. O que começou por ser uma acção de fotojornalistas, sob o lema “o melhor de cada um de nós para o melhor de todos nós”, estendeu-se a outros profissionais da fotografia, “que se mostraram interessados em participar”, contou o fotojornalista da agência Lusa. “Nesta altura de solidariedade não deve haver barreiras entre fotógrafos com e sem carteira de jornalista, deve haver união”, referiu o fotojornalista. As imagens, de tema livre, serão impressas no formato 30x40cm. Algumas fotografias, adiantou António Cotrim, chegaram de Macau, da China, da Alemanha, de França e do Brasil. Na página da iniciativa na rede social Facebook já foram sendo divulgadas algumas das imagens que estarão disponíveis para venda por um valor míni-

-mo “simbólico, que não paga o trabalho de quem fotografou, que tenta ir ao encontro do maior número de participantes”. Dois grandes incêndios começaram no dia 17 de Junho em Pedrógão Grande e Góis, tendo o primeiro provocado 64 mortos e mais de 200 feridos. Foram extintos uma semana depois. Estes fogos terão afectado aproximadamente 500 habitações, 169 de primeira habitação, 205 de segunda e 117 já devolutas. Quase 50 empresas foram também afectadas, assim como os empregos de 372 pessoas. Os prejuízos directos dos incêndios ascendem a 193,3 milhões de euros, estimando-se em 303,5 milhões o investimento em medidas de prevenção e relançamento da economia. HM/LUSA

Música Trio de Jazz Latino hoje no The Windsor O palco do The Windsor, no Grand Emperor Hotel, recebe hoje um concerto do trio formado por João Mascarenhas ao piano, Simon Williams nas percussões e a voz cristalina de Jandira da Silva. A banda, que começa a performance às 21h30 preenchem o cartaz de uma série que vai ganhando tracção, chamada Blue Monday Jazz. Quem se deslocar ao The Windsor será brindado com um repertório que vai da música brasileiro, ao Latin Jazz, passando por alguns clássicos do Jazz americano. Na segunda-feira seguinte, dia 24, sobe ao palco a Pannonica Jazz Ensemble.


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HONG KONG MAIS QUATRO DEPUTADOS PRÓ-DEMOCRACIA PERDEM ASSENTOS

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UATRO deputados pró-democracia de Hong Kong perderam os seus assentos, ficando sem poder de veto no Conselho Legislativo (parlamento), segundo decisão do tribunal perante um processo instaurado pelo Governo. Os deputados Leung Kwok-hung (conhecido como “Long Hair”), Nathan Law, Lau Siu-lai e Edward Yiu perderam a sua batalha na justiça, depois de o anterior Governo ter pedido a sua

Guarda costeira entra em águas japonesas

desqualificação, avança o jornal South China Morning Post (SCMP). A decisão do tribunal de última instância tem enorme impacto na capacidade de negociação do bloco democrata no Conselho Legislativo (LegCo) de Hong Kong. Com Leung, Law e Lau – todos eleitos pela via directa, ou seja, pela população – desqualificados, o chamado campo pró-democrata perdeu a capacidade de bloquear alterações legislativas apresentadas pelo campo pró-governo. Este cenário pode dar ao campo pró-Pequim a oportunidade de mudar as regras do órgão legislativo, impedindo os seus rivais de recorrer ao “filibuster” (bloqueio parlamentar) em leis controversas, salienta o jornal. A desqualificação é válida desde 12 de Outubro de 2016, quando tomaram posse. A batalha judicial foi gerada a partir de acontecimentos na tomada de posse. Numa acção judicial anterior, a administração conseguiu afastar os deputados pró-independência Sixtus

Dois navios da Guarda Costeira da China penetraram neste sábado em águas territoriais do oeste do Japão, no que representa a primeira incursão deste tipo, segundo confirmaram as forças japonesas. As embarcações navegaram durante poucas horas em águas japonesas próximas às ilhas de Tsushima e Okinoshima, situadas no Estreito da Coreia, segundo informou a agência Kyodo. A Guarda Costeira japonesa pediu às embarcações que saíssem destas águas, ainda que não tenha esclarecido o motivo nem se considerou esta acção uma intrusão ilegal. Sob a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar reconhece-se a navios de outros Estados o direito de passagem inocente, sempre que esta se pratique de conformidade com o direito internacional e as normativas locais. Navios chineses, tanto pesqueiros como navios da Guarda Costeira, costumam penetrar frequentemente nas águas que o Japão considera pertencentes ao seu território em torno das ilhas Diaoyu.

Baggio Leung e Yau Wai-ching (do grupo político Youngspiration), por terem proferido palavras, durante o seu juramento, consideradas anti-China. O caso destes dois deputados fez com que Pequim fizesse uma interpretação da Lei Básica (mini-Cons-

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Partido Democrático de Hong Kong acusou o governo de “declarar guerra” aos pró-democratas e à população, após a desqualificação de mais quatro deputados pela forma como prestaram juramento no parlamento daquela região chinesa, segundo a imprensa local. Citado pela RTHK, o presidente do Partido Democrático, Wu Chi-wai, disse que os direitos dos deputados de expressarem as suas visões no Conselho Legislativo (LegCo ou parlamento) podem ser restritos, uma vez que o ‘filibuster’ (bloqueio parlamentar) está agora mais restringido depois de os deputados pró democratas terem perdido o seu direito de veto. Wu Chi-wai advertiu que o princípio “Um país, dois sistemas” poderá ser adversamente afectado, afirmando que os governos de Pequim e de Hong Kong podem fazer o que quiserem agora. O partido Demosisto também reagiu à decisão do tribunal, afirmando que milhares de eleitores viram as suas escolhas “roubadas”. Em comunicado, o partido que viu desqualificado o mais jovem depu-

tituição), sobrepondo-se a uma decisão do tribunal de Hong Kong. O processo judicial cujo desfecho foi hoje conhecido foi iniciado pelo anterior chefe do executivo, Leung Chun-ying, e pelo secretário da Justiça, Rimsky Yuen Kwok-keung, em Dezem-

bro, depois do afastamento de Yau e Sixtus Leung. Os advogados do Governo argumentaram que estes quatro deputados não prestaram o juramento de 12 de outubro de forma solene, sincera e total. Yiu e Law foram acusados de adicionar palavras aos seus

juramentos, com Law a alterar o tom ao dizer a palavra “República”, em “República Popular da China”, como se estivesse a fazer uma pergunta. Yiu inseriu uma frase no seu juramento: “Vou defender a justiça processual em Hong Kong, lutar por sufrágio universal genuíno e servir o desenvolvimento sustentável da cidade”. Lau leu cada palavra com seis segundos de intervalo, o que advogado Johnny Mok Shiu-luen disse que dividiu o seu juramento em “90 estranhas unidades linguísticas desprovidas de qualquer coerência”, de acordo com o SCMP. Segundo o advogado, Leung Kwok-hung minou a solenidade da cerimónia ao entoar slogans, vestindo uma t-shirt com a frase “desobediência civil” e tornando o seu juramento numa “performance teatral”, e usando um chapéu-de-chuva amarelo, símbolo do movimento Occupy Central, além de rasgar uma cópia da controversa proposta de reforma política apresentada por Pequim em 2014.

Espingardas sem pólvora Pró-democratas acusam governo de “declarar guerra”

tado alguma vez eleito em Hong Kong - Nathan Law - disse que a perda de assento no LegCo por seis deputados até à data privou mais de 180 mil eleitores da sua voz. O Demosisto condenou o que classificou de “manifesta interferência do Governo de Pequim para prejudicar o poder da legislatura de Hong Kong através da reinterpretação da Lei Básica”. Além disso, o Demosisto RTHK

Agora não têm voz. Os ditos pró-democratas, que modificaram ou troçaram do juramento no Legco, ficam de fora por decisão do tribunal

KIN CHEUNG / AP

No princípio, eram as canções

Wu teme pelo princípio um país, dois sistemas

disse que agora estava mais do que o determinado para lutar pela democracia e sufrágio universal e que iria apoiar a decisão de recorrer contra a decisão do tribunal. Por sua vez, o desqualificado Nathan Law, um dos membros do Demosisto e líder estudantil dos protestos pró democracia em 2014, agradeceu aos eleitores que votaram nele. O também pró democrata James To disse que os quatro desqualificados “continuam a ser os que foram escolhidos pela população”. Outro deputado da ala pró-democrata, Raymond Chan, eleito pelo partido People Power, disse que os residentes de Hong Kong, incluindo aqueles que não votaram nestes quatro deputados desqualificados, não vão concordar com o uso pelo governo dos tribunais como “ferramenta” para alterar os resultados eleitorais. A deputada pró democrata Claudia Mo, que acabou em lágrimas num encontro com a imprensa,

disse que a acção do governo era “calculada”, afirmando que o executivo queria garantir que o campo pró democrata não vai ganhar nas próximas eleições intercalares todos os assentos que perdeu até à data. O desqualificado Leung Kwok-hung disse que os quatro deputados afetados pela decisão do tribunal têm a intenção de recorrer da sentença. Foram dadas duas semanas aos quatro deputados desqualificados hoje para abandonarem os respetivos gabinetes no LegCo. O LegCo é composto por 70 lugares, mas apenas 35 resultam de candidaturas apresentadas individualmente por cidadãos e do voto directo de 3,77 milhões de eleitores, em cinco círculos eleitorais definidos por áreas geográficas.


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segunda-feira 17.7.2017

PEQUIM PEDE À ALEMANHA QUE NÃO ENVIE SINAIS PROTECCIONISTAS

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China pediu à Alemanha que não envie “sinais negativos” proteccionistas ao mundo, após a aprovação de um decreto que aumenta a possibilidade de Berlim vetar a venda de empresas alemãs a entidades não europeias. “Esperamos que tanto a Alemanha como a União Europeia não sejam afectadas pelo proteccionismo” e “evitem enviar sinais negativos a outros países”, assinalou o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Geng Shuang. Nos últimos anos, Alemanha e China “estreitaram laços” e conseguiram estabelecer uma cooperação económica “mutuamente benéfica”, defendeu Geng, assegurando estar “preocupado” com os movimentos que podem levar ao proteccionismo económico. O Conselho de Ministros alemão aprovou esta semana um decreto que obriga à notificação sobre operações que envolvam empresas de “infra-estruturas estratégicas”, visando “mais protecção e reciprocidade”, segundo a ministra alemã da Economia, Brigitte Zypries. “Devemo-lo às nossas empresas, que enfrentam concorrentes de países com uma economia não tão aberta”, acrescentou, numa referência a potências como a China. A norma surge depois de, no ano passado, o fabricante de electrodomésticos chinês Midea ter comprado uma posição maioritária na empresa germânica de robótica Kuka. A operação suscitou receios de que a China obtivesse tecnologia alemã. Este ano, o ministério da Economia alemão vetou a compra da Aixtron, empresa do sector tecnológico, por parte do investidor chinês Fujian Grand Chip Investment (FGC). As empresas da União Europeia e Estados Unidos queixam-se frequentemente da falta de reciprocidade dos investimentos chineses, face às fortes restrições vigentes no mercado da China.

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presidente chinês Xi Jinping anunciou neste sábado a criação de um comité para coordenar a regulação financeira da China. A decisão foi dada durante uma reunião de dois dias, que procurou estabelecer uma ampla estrutura para tornar o sistema regulatório do país mais coeso. Xi disse que o novo grupo, chamado Comité Estatal de Desenvolvimento e Estabilidade Financeira, será formado para garantir que os reguladores financeiros possam trabalhar melhor juntos. Num comunicado oficial divulgado na conclusão da reunião, no final deste sábado, o presidente chinês disse que o papel do banco central na prevenção do risco sistémico será fortalecido. Nenhum detalhe foi dado sobre a composição do comité. De acordo com pessoas familiarizadas com o assunto, uma opção é que o grupo seja colocado dentro do Banco Popular da China e chefiado pelo seu director. Detalhes ainda estão a ser definidos, disseram. “Uma melhor coordenação regulatória significa melhor partilha de informações entre os diferentes reguladores”, explicou uma das pessoas. “O Banco Central, em particular, precisa recolher informações abrangentes de outros reguladores em tempo útil ao mesmo tempo em que forma a política monetária e decide sobre outros cursos de acção”. Durante anos, o Banco Central da China e os reguladores que supervisionam os sectores bancário, de valores mobiliários e de seguros geralmente agiram de forma isolada, às vezes até mesmo com objectivos contraditórios. Isso levou a erros que exacerbaram uma forte venda de acções em meados de 2015 e levantou dúvidas sobre a administração da economia chinesa. O plano apresentado pelo presidente Xi representa uma versão muito menos radical do que o anteriormente imaginado por algumas autoridades e conselheiros do governo, que defendiam a

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grupo chinês HNA, accionista da TAP através do consórcio Atlantic Gateway e da companhia brasileira Azul, adquiriu a maioria do operador do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, informou ontem o portal de informação económica Caixin. O negócio, avaliado em 108 milhões de yuans foi realizado entre a Hainan HNA Infrastructure Investment Group, subsidiária do conglomerado chinês, e o

XI JINPING ANUNCIA COMITÉ PARA REGULAÇÃO FINANCEIRA

Contas na mesa

fiscalização centralizadora, colocando toda a regulamentação sob o banco central. Essa proposta, de acordo com autoridades chinesas, encontrou forte oposição de grupos que poderiam ser forçados a ceder poder. Resta saber se o novo comité fará a diferença. Nos últimos anos, a China já criou um mecanismo de coordenação financeira com a presença de dirigentes de todos os

órgãos reguladores. Mas esse mecanismo não conseguiu melhorar a coordenação de forma significativa, de acordo com autoridades. “As pessoas apenas se reúnem uma vez por mês, principalmente para o almoço”, disse uma autoridade com conhecimento do mecanismo. A reunião de dois dias concluída neste sábado, denominada Conferência Nacional de Trabalho

Samba comigo

Accionista da TAP adquire 51% do operador do Aeroporto do Rio de Janeiro grupo brasileiro de engenharia Odebrecht. A HNA passa assim a deter 51% dos direitos de controlo do aeroporto, enquanto que a restante participação é detida pelo grupo de Singapura Changi Airport. O grupo chinês compromete-se também a investir

2.160 milhões de yuans, para pagar os direitos de licença da infra-estrutura. Ambas as operações necessitam da aprovação de organismos sectoriais e das autoridades anti-monopólio da China e do Brasil. Nos últimos três anos, o grupo HNA investiu

Financeiro, é realizada de cinco em cinco anos. Tradicionalmente, é presidida pelo primeiro-ministro. Desta vez, foi Xi quem fez o discurso principal e sentou-se no centro do palco, que também contou com a presença do primeiro-ministro Li Keqiang e de várias outras autoridades, indicando ainda que Xi consolidou o controlo dos assuntos económicos nas suas mãos.

mais de 40.000 milhões de dólares em aquisições e investimentos além-fronteiras, convertendo-se num dos maiores investidores internacionais da China. O grupo tem ainda importantes participações em firmas como Hilton Hotels, Swissport ou Deutsche Bank. A empresa detém indirectamente cerca de 20% do capital da TAP, através de uma participação de 13% na Azul (companhia do brasileiro David Neelman que

integra a Atlantic Gateway) e uma participação de 7% na Atlantic Gateway. Uma das suas subsidiárias, a Capital Airlines, inaugura este mês o primeiro voo direito entre a China e Portugal. O aeroporto internacional do Rio de Janeiro é o segundo mais movimentado do Brasil, com 17 milhões de passageiros no ano passado.


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Foi um dia de inúteis agonias... em modo de perguntar Paulo José Miranda

Ricardo Ben-Oliel Como é que um judeu de família da Europa central nasce em Cabo Verde e cresce e forma-se em Portugal? Tudo por força do acaso . Minha mãe, nascida na Alemanha, encontrava-se em Milão, na companhia da irmã e do cunhado, quando Mussolini deu aos judeus ordem de expulsão. Teriam de abandonar a Itália dentro de um mês, sob pena de repatriamento. Por sorte, um familiar deles que à data se encontrava em  Cabo Verde, conseguiu obter-lhes licença de entrada. Meu pai, também judeu, que tinha negócios em Cabo Verde, encontrava-se no porto do Mindelo quando o navio em que minha mãe viajava aí chegou. Ainda por força do acaso, conheceram-se logo após o desembarque. Meses  depois estavam casados. Passados anos, já meus pais tinham três filhos, e por razões de escolaridade decidem mudar-se para Lisboa. Aí estudei desde a primária até ao final da licenciatura em direito.

Portugal diligenciou em não afectar os seus interesses no mundo árabe. E como foi todo o processo de adaptação a Israel, à língua, à escrita, pois tornaste-te um académico respeitado nesse país? Vê que colocas a questão em termos de passado , como se o meu processo de adaptação tivesse já terminado. Não é assim. Ele está ainda em curso, e assim será. Apesar dos meus quarenta e tal anos em Israel, e de me ter tornado um académico conhecido como catedrático de direito, tenho ainda muito a aprender. A aprendizagem da língua, da escrita – e isto apesar de ter muitíssimas centenas de páginas publicadas em hebraico – da cultura, dos costumes das várias etnias que habitam o país, exigem um trabalho constante, perseverante.  Sou um imigrante, terei de aceitar a minha função de ponte entre o passado  e as gerações futuras. Os meus filhos já estarão integrados. Os meus netos ainda melhor.

O que te levou a deixar Portugal e passar a viver em Israel? Esta é uma das mais complexas  respostas a dar. E que respeita à mais  difícil decisão da minha vida. Não fui para Israel por razões económicas ou políticas, que são as que geralmente dão origem à  emigração. A razão foi ideológica. Corpo aqui (Lisboa), espírito lá (Israel), até que decidi reencontrar-me, partindo. Foi em Dezembro de 1973. Sabes que estou a escrever uma novela em que tento responder a esta tua pergunta? Isso é uma boa notícia! A propósito do que me respondes, de não haver uma razão politica na tua mudança para Israel, qual era a relação do Estado Novo com os judeus? RICARDO BEN-OLIEL: O Estado Novo, é sabido, sempre teve uma relação ambígua para com muitos. Até  para com a  Igreja. Não admira que, em certa medida, o mesmo tenha sucedido com os judeus. Mas há que distinguir entre dois períodos diferentes: até ao final da Guerra e o pós-guerra. Grosso modo, diria que na primeira fase, apesar de sérios ziguezagues e mesmo graves deslizes, houve uma relação de cooperação. Judeus chegaram de comboio dos países ocupados. As autoridades criaram vários locais de acolhimento. Lisboa torna-se um porto de passagem para milhares que buscam outras bandas. A minha própria família materna encontra um abrigo em Portugal. Estes factos não podem de modo algum ser ignorados. Terminado o conflito, o relacionamento é de franco, bom entendimento. Eu conheci de perto a comunidade israelita de Lisboa, na década de sessenta e princípios dos anos setenta,

Não fui para Israel por razões económicas ou políticas, que são as que geralmente dão origem à emigração. A razão foi ideológica. Quando começaste a escrever? Tinha os meus doze, treze anos. Fazia-o um tanto às escondidas. Escrevia histórias curtas que às vezes  dava à minha irmã para ler. Nunca publiquei o que quer que fosse  nos jornais juvenis à data existentes.

nela também tive certas funções directivas. O presidente da comunidade, Prof. Moisés Amzalak, que veio a ser presidente da Academia das Ciências, foi íntimo de Salazar. Contou-me que Salazar chegou a consultá-lo para efeito de nomeação de ministros. O Prof. Kurt Jacobson chegou a vice-reitor da Universidade de Lisboa. O doutor Samuel Ruah, se bem me recordo, foi médico de Salazar. Tratava-se de uma pequena comunidade, jul-

go que não teria mais de mil membros, onde vários se distinguiram no mundo da medicina, do direito, da economia. Intramuros não se falava de política. Nem bem, nem mal. Tal não impediu que só em 1977 tenham sido estabelecidas relações diplomáticas a nível de embaixada com Israel, e que só em 1991 venha a ser instalada a primeira embaixada de Portugal em Telavive. Aí as considerações já eram completamente outras, e

E conhecias a tradição literária judaica ou somente a ocidental? No período que precedeu a aliá (emigração) a minha leitura visou essencialmente  a compreensão da Torá, do Talmud, da Kabalá. Interessava-me captar o máximo sobre a identidade judaica, a Weltanschauung do povo judeu. No campo estritamente literário, certamente que me eram muito familiares os nomes de Chaim Bialik, Shmuel Agnon, Amos  Oz, entre outros. Mas não nego que muito aprendi sobre a particular sensibilidade e olhar crítico judaico  lendo escritores judeus ocidentais, tais como Stefan Zweig, Isaac Babel, Saul Bellow, Hannah Arendt , Elie Wiesel , Salinger, Philip Roth, e tantos  mais, sobretudo o grande Kafka.


segunda-feira 17.7.2017

ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

Paulo Maia e Carmo tradução e ilustração

ZHANG GENG «Pushan Lunhua»

Tratado de Pintura do Junco das Montanhas Wen Jitang1 disse: «De cada vez que o meu mestre pegava no pincel, o seu pulso e o seu braço eram só força». Quando se analisam as palavras destes três mestres - Qian Xiangshu, Wang Lutai e Wen Jitang - pode-se compreender como o pincel deve ser usado. Ao examinar espécimes verdadeiros dos velhos mestres eu percebi que embora as pinceladas e os contornos de pedras e montanhas fossem feitas com um pincel fino e subtil e um toque leve e macio, a sua energia vital era profunda e rica para além de palavras. O uso do pincel não era simplesmente uma questão de audácia; as transformações vitais dos velhos mestres não se restringiam aos objectos materiais. Mas para os principiantes o atrevimento é muito importante como primeiro passo.

A Tinta «Seja grossa ou fina, seca ou húmida, a tinta não deve ter o gosto das coisas mundanas, como comida cozinhada, isto se se quiser alcançar os mais belos efeitos. Wang Lutai disse: «É possível aprender a pincelada de Dong Qichang, mas a sua tinta é tão fresca e variada, tão pura, brilhante e atraente que toca as pessoas de modo irresistível; como poderia tal coisa ser produzida pelo poder humano? Leio muitas vezes uma inscrição do próprio Dong Qichang numa pintura, na qual ele diz: «Eu entretenho-me com o pincel e a tinta e nos tempos recentes as pessoas distinguem «a arte de Dong», mas elas não percebem o meu método particular de usar a tinta, que é a verdadeira face de mestre Dong (o seu ponto mais essencial).» Mas ele também disse num rolo de escrita cursiva (caoshu): «As pessoas só conhecem o espírito da tinta na pintura; desconhecem o espírito da tinta na escrita.» É evidente a confiança que Dong Qichang tinha em si próprio e na sua maneira de usar a tinta. Consequentemente não é necessário procurar entre os antigos a maneira de utilizar a tinta; se compreendermos as ideias de Dong, conseguimos ultrapassar o antigo.

1 - Pintor famoso pelo seu conhecimento técnico Wen Yi, zi Kexiang, hao Jitang, viveu na primeira metade do século XVIII. (Nota de Osvald Sirén, op. cit. p.213, onde é usada a grafia Wade-Giles Wên Chi-t’ang)


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ARMINDA MARIA DOS SANTOS FERREIRA MACHADO DE MENDONÇA

Falecimento A família de Arminda Maria dos Santos Ferreira Machado de Mendonça, vem, com imensa dor e pesar, informar do seu falecimento, ocorrido no passado dia 13 de Julho, em Macau. A missa de corpo presente será celebrada no próximo dia 18 de Julho (terça-feira) pelas 20:00 horas, na Casa Mortuária Diocesana. No dia seguinte, 19 de Julho (quarta-feira), pelas 11:00 horas será celebrada missa no Cemitério de S. Miguel Arcanjo, seguida de funeral. A família enlutada agradece antecipadamente a todos quantos queiram associar-se a estes piedosos actos.

Assine-o TELEFONE 28752401 | FAX 28752405 E-MAIL info@hojemacau.com.mo

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segunda-feira 17.7.2017

O ofício dos ossos Valério Romão

CARAVAGGIO, SÃO JERÓNIMO (PORMENOR)

Da arte do romance

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de repente um tipo mete-se a escrever um romance e, mal passa das dez páginas sobre as quais alimenta as maiores dúvidas de que se aproveite uma linha que seja, começa a sentir um arrependimento tal que só não enfia o portátil na banheira e os dedos no liquidificador porque cometeu a imprudência de ter dito a todos os amigos que “agora é que é, vais ver, é uma ideia tão tão boa que não pode falhar”. Quando entra no terceiro capítulo, sói não raramente fumar mais do que escreve – acaso tenha a sorte de ser fumador e não dependa das unhas ou das cutículas para minorar a ansiedade – como consegue ter um vislumbre bastante adequado do que poderá ser uma vida em permanente desequilíbrio hormonal. Enquanto tenta manter a coerência interna do livro, luta com a sintaxe, com a adjectivação que lhe parece ora excessiva ora incipiente, com todas as palavras permanentemente ao lado e para as quais não consegue encontrar sinónimos, com a temperatura, sempre inadequada, com o sono, sempre a destempo e, sobretudo, com a ideia pela qual se enamorou e que lhe parece tão idiota naquele momento como lhe parecia genial antes de a começar a trabalhar. Quando alcança o que lhe parece ser o meio do livro e com alguma sorte, já está em velocidade de cruzeiro e a demanda assemelha-se mais um trabalho das nove às seis do que a um acto criativo. Está

com vinte quilómetros nas pernas, faltam outros vinte e não há tempo para pensar em como ou porque se encontra ali. Pensar é parar e ele precisa de correr, porque já faltou mais. É isso: já faltou mais. De vez em quando acontece fado: um parágrafo, uma imagem e, por vezes, toda uma página. O tipo trava, relê, e sorri e, deste modo, ganha um fôlego renovado para continuar. “Não sou assim tão merdoso”, pensa. Inebriado pela resistência que demostra ao desgaste que provavelmente já lhe custou uns quilos, toda uma temporada do Narcos e até o afecto dos gatos, o tipo prossegue, preocupado apenas com a corrida: já não há como voltar atrás. Anos mais tarde, arrependido com “aquela merda incipiente que só fazia sentido naquela altura em que ainda não tinha adquirido de facto a minha voz” vai desejar ter podido voltar atrás. Ou mandar tudo às malvas na altura certa. Só consegue ver onde está. Não consegue ver o caminho que percorreu.

Luta (...), sobretudo, com a ideia pela qual se enamorou e que lhe parece tão idiota naquele momento como lhe parecia genial antes de a começar a trabalhar

Quando está perto da meta já vai muito cansado. Não é um cansaço físico, malgrado comer e dormir cada vez menos e lhe doerem as nalgas independentemente da posição que adopte – já experimentou de pé, mas cedo percebeu que trocava uma dor por outra –, é outro tipo de cansaço, uma espécie de incremento na gravidade que faz com que todos os movimentos tenham um custo e um peso acrescidos. Respira fundo e esfrega os olhos. De vez em quando, dá por si a contemplar um ponto na parede ou uma nódoa na toalha de mesa. Não sabe quanto tempo esteve ali sem o estar. Só há uma coisa que lhe devolve algum alento: fazer scroll até ao início do texto e voltar. É o equivalente a engolir uma generosa golfada de ar para ir ao fundo. Antes de colocar o derradeiro ponto final, imagina todas as versões alternativas e porventura mais equilibradas, mais originais, mais desafiantes, ou seja, tudo menos aquela. Quando finalmente se decide (desiste) vê o mundo a apanhá-lo antes mesmo de poder respirar: a caixa do correio atafulhada de contas e ameaças de despejo, o frigorífico onde há muito só habita uma abóbora que já é bisavó de um esporo em idade universitária e os gatos, lentos e magros da fome, que não lhe passam cavaco nem quando ele abre uma lata de atum. Diz que nunca nunca mais. Passados apenas uns meses, enamora-se de outra ideia.

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“De la musique avant toute chose”

AVERÁ uma frase de Borges que nos remete para o devaneio de na poesia se encontrarem contidas a música e a pintura, pois a sucessão de palavras – para além das ideias – conteria ritmos, melodias e imagens. Deixando, por ora, de lado a vertente contemplativa e considerando unicamente a música, não será difícil atribuir o carácter encantatório do fluir poético à existência de uma musicalidade no poema, seja ela derivada da sonoridade das palavras ou do modo como se entrelaçam, para depois se sucederem as imagens e os conceitos. Existe na poesia um efeito vibratório, musical, onde reside, se não o seu principal pólo de interesse, pelo menos a fonte de parte considerável do seu fascínio. “Os estímulos visuais”, refere Ester de Lemos, “não escapam tão facilmente à vigilância da razão, não são tão facilmente encarados em si mesmos como os estímulos auditivos, sobretudo os musicais.” (Lemos, 1956, p. 30) Se a música escapa à vigilância da razão, ela será o meio excelente para arrebatar, para suster essa poesia que “eleva cada indivíduo através de uma ligação específica com o todo restante.” (Novalis, 2009, 121). Este carácter sintético da poesia, em grande parte ancorado nessa musicalidade, não deverá ser entendido como referido à dialéctica, que entende um momento de negação, mas a um mero gesto de apropriação criacionista, capaz de proporcionar polaridades outras e sistemas de leitura, o que equivale a dizer reinventar universos e abrir uma miríade de possibilidades à expressão da vida. A síntese, na dialéctica, exprime, afinal, o culminar do processo de aculturação; no criacionismo, a função da negação, fundamental na construção da identidade, só estará presente na expressão poética como condição de sinceridade do media, como se pretendesse operar uma regressão a um estado anterior onde a graça da criança (das três metamorfoses de Nietzsche/ Zaratrusta) lhe permite apoderar-se do mundo num golpe. Não se tratará, contudo, de uma regressão propriamente dita mas de uma reaquisição — a saudade é do futuro. Se, para Rousseau, a primeira linguagem era poética tal seria no sentido em que uma palavra dessa primitiva língua encerraria muito mais sentidos que o seu significado literal (ou que este não existiria e muitos significados estariam contidas numa palavra só) e os homens de antanho falariam basicamente por metáforas, abarcando assim mais do mundo do que eles próprios poderiam compreender, sendo a Língua o repositório de um saber que os próprios indivíduos que a falavam apenas entenderiam parcialmente. A poesia inscreve-se numa ânsia de apropriação do mundo e dos seus sentidos ocultos, num claro sentir filosófico em que, para além da vibração musical (mas também em ela), o poema expressa uma visão, eventualmente, o esboço ou o castelo final de uma qualquer metafísica. É com o primeiro Romantismo que poeta e poesia exacerbam esta ânsia, assumindo o conceito poético que elevará o “homem acima de si mesmo”. Trata-se, no dizer de Novalis, de uma poesia “transcendental”, que é “mesclada de filosofia e poesia”, e que prefigura a dissolução dos sistemas filosóficos, na medida em que “se o filósofo ordena tudo, coloca tudo, então o poeta dissolveria todos os elos. As suas palavras não são signos universais — são sons — palavras mágicas, que movem belos grupos em torno de si”. Novalis remataria: “Quando mais poético, mais verdadeiro”. Parece então que com o Iluminismo, o poeta visa ultrapassar o mero papel mediador do xamã para aspirar a ser ele mesmo – através dessa transcendentalidade que lhe proporciona o pensamento filosófico e mesmo a ciência – uma fonte de permanente problematização, expressão radical da vida mas também das volutas do espírito, sem abdicar também do modo – mágico – como eventualmente recuperará alguns restos dessa linguagem primor-

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A dor que deveras sente ´

Carlos Morais José, in Órphão

dial, onde se rebatiam os mistérios do mundo e das coisas. CAMILO PESSANHA E AS “NOBRES ESPECULAÇÕES DO ESPÍRITO” Sem deter o exclusivo ou sequer a preponderância, poesia e filosofia particularmente se entrelaçam no espaço da Língua Portuguesa, por razões que talvez passem pelo defeito da segunda e o excesso da primeira. Após o milagre grego, raramente o Sul produziu um assertivo pensamento lógico, mas as preocupações metafísicas, lidas através dos penetrantes filtros da experiência do mundo e de particulares sensibilidades, cedo se imiscuíram em temáticas versejadas. Já em Camões, para não irmos mais atrás, ao vate, ao cantor épico, se sobrepunha o homem dilacerado pela dúvida, onde o recurso à mitologia soa – além da epocalidade renascentista – ao desespero de constatar uma diversidade percorrida, revivida, recebida e, por tanto, a intuição de um mundo desencantado. Na segunda metade do século XIX, a presença cimeira de Antero de Quental – o que “ensinou a pensar em ritmo; descobriu-nos a verdade de que o ser imbecil não é indispensável a um poeta” (Fernando Pessoa) –, com certeza deu um tom definitivamente filosófico à expressão da poesia lusófona e talvez poético à filosofia pensada em Português. As crises, civilizacional na Europa e muito específica em Portugal, na sequência do Ultimatum britânico, eram demasiado profundas e dolorosas para que os poetas se limitassem aos devaneios dos salões, às rimas de ocasião, enfim às actividades dos que Pessanha define como “essa legião de poeta mínimos, cuja pobre musa toda a sua fecundidade esgota na concepção de cem páginas de lirismo”. Como explica Gustavo Rubim, Camilo Pessanha critica a poesia como “uma expressão directa dos sentimentos, das sensações ou da experiência vivida do poeta e opõe-lhe uma concepção mais abstracta que inscreve o discurso poético no campo das ‘especulações do espírito’”. Ora para sustentar a filosofia no discurso poético, para lhe garantir o carácter especulativo, implica, como diz o autor de Experiência da Alucinação, “uma certa dimensão impessoal” (Rubim, 1993, 142). Ou seja, o que Fernando Pessoa já exprimia, quando escreveu este revelador apontamento: (...) A cada um de só três poetas, no Portugal dos séculos XIX a XX, se pode aplicar o nome de «Mestre». São eles Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. (...) O terceiro ensinou a sentir veladamente*; descobriu-nos a verdade de que para ser poeta não é mister trazer o coração nas mãos, senão que basta trazer nelas os simples sonhos dele. Estas palavras que não são nada bastam para apresentar a obra do enorme poeta Camilo Pessanha. O mais, que é tudo, é Camilo Pessanha.” Este “trazer nas mãos os sonhos do coração” implicará um duplo distanciamento: uma consciência primeira que, se bem que sob o filtro da sensibilidade, exige a exterioridade; e uma exterioridade que permite a reflexão distanciada. O poeta adquire esse distanciamento em relação a si mesmo (ao lirismo óbvio) e a possibilidade de contemplar (teorizar) o que detém agora nas mãos, operando uma espécie de processo alquímico de destilação, decantação e, finalmente, sedimentação – de sensações, sentimentos e ideias – nas palavras finais do poema. Isso é de tal modo presente em Pessanha que, mesmo quando produzia “os seus poemas por uma premente necessidade espiritual”, fazia-o “numa atitude eminentemente intelectual

(...) vivendo e revivendo o sentir dos momentos de concepção poética.” (Dias Miguel, 1956, 185) É então a poesia o canto desses sonhos do coração? O que são eles? Parece-nos que Pessoa se refere, quase falando numa linguagem gémea da de Pessanha, a um processo poético. Curiosamente (e tal não deverá passar de uma coincidência), no pensamento tradicional chinês, seja ele confucionista ou daoísta, o coração (xin) é a entidade onde residem as emoções, os desejos, os sentimentos, o pensamento e a moral, ou seja, ali se entrelaça toda a fenomenologia da existência interna dos seres humanos. Se entendermos coração neste sentido, teremos então o indivíduo e todos as seus rizomas culturais nas mãos. Mas Pessanha, por outro lado, entregava-se “ao trabalho do aperfeiçoamento da expressão, preocupado até à angústia com o sortilégio e a magia verbal, condensando e polindo de tal modo, que muitas vezes obscurecia quase totalmente o sentido biográfico e directo que tinham essas poesias”, nas palavras de António Dias Miguel. (Dias Miguel, op.cit.) Assim se revelam a existência de uma matriz filosófica e uma a exigência de distanciamento biográfico, a par com a demanda extrema da musicalidade. Seguindo estas referências, parece inegável que a reflexão filosófica ocupa um lugar fundamental na poesia de Camilo Pessanha. Ainda que nem sempre explícita, a sua concepção do mundo constituiu, talvez de forma dolorosa, uma das principais episteme onde a sua poesia lançou raízes e a partir da qual se desenvolveu. A PERGUNTA E O GELO Já em 1887, no poema Soneto de Gelo, o poeta explicitava algumas das preocupações derivadas do seu dispositivo ontológico: “Eu mesmo quero a fé, e não a tenho, – Um resto de batel – quisera um lenho, Para não afundir na treva imensa, O Deus, o mesmo Deus que te fez crente... Nem saibas que esse Deus omnipotente Foi quem arrebatou a minha crença” Ou seja: a ausência da fé, uma existência num mundo sem Deus e, consequentemente, a morte como fronteira de dissolução do indivíduo. O poeta quisera uma pequena prova, ainda que só “um lenho”, de “um resto de batel” (a barca, baraka — animal fantástico, montada de Abraão e Maomé, que na mitologia islâmica opera a comunicação entre dois mundos), algo onde se suster, que o não deixe “afundir na treva imensa” de um universo vazio de sentidos divinos ou de quaisquer outras satisfatórias respostas. É precisamente essa “treva imensa”, o segredo insondável, que provoca no poeta o início de uma profunda dor metafísica, quase revolta contra a divindade pelo seu silêncio/inexistência e sua consequente falta de fé. Se foi Deus “quem arrebatou a minha crença” é porque o estado de descrença é anterior ao próprio advento do raciocínio científico-filosófico ou da intromissão da cultura. É certo que a falta de fé surgirá também como decorrente do próprio ZeitGeist, da posição do poeta num dado momento civilizacional. É a religião na qual foi educado, as relações familiares, a escola frequentada, o valor atribuído ao conhecimento científico, a sociedade emergente, enfim, o conjunto global de valores e procedimentos que constituem uma Cultura num determinado momento da História, que tornavam pro-

blemática a existência de Deus. Mas Pessanha parece afirmar que sente a sua descrença, de algum modo, anterior, constitutiva e fatal, porque lhe foi arrebatada por Deus, o que não deixa de exalar uma paradoxal ironia. A extinção da crença resultará como anteriormente resultava a sua afirmação: sem que o sujeito nela tenha uma real intervenção. Pessanha assume neste poema o seu ateísmo como condição (dolorosa) e não como decisão consciente. Até porque o novo universo, dessacralizado, não lhe fornece respostas. Simplesmente, efemeramente o admite, na sua fria indiferença, sem proporcionar qualquer consolo às angústias fundacionais dos humanos. O poeta refere esse mal-estar matricial no poema Estátua: Cansei-me de tentar o teu segredo: No teu olhar sem cor, — frio escalpelo, O meu olhar quebrei, a debatê-lo, Como a onda na crista dum rochedo. Segredo dessa alma e meu degredo E minha obsessão! Para bebê-lo Fui teu lábio oscular, num pesadelo, Por noites de pavor, cheio de medo. E o meu ósculo ardente, alucinado, Esfriou sobre mármore correcto Desse entreaberto lábio gelado: Desse lábio de mármore, discreto, Severo como um túmulo fechado, Sereno como um pélago quieto. O cansaço de procurar de respostas no olhar – acto que remete para a contemplação, a teoria –, dá lugar à ousadia do beijo – acto amoroso, a poesia. No primeiro caso, a contemplação esbarra e quebra-se “como a onda na crista de um rochedo”. No segundo, produz-se um esfriamento do que era “ardente, alucinado”. Ou seja, nem a razão consegue penetrar o insondável; nem um extremo desejo e uma vitalidade transbordante obtêm outro resultado que não seja a sua própria dissolução. Em ambos os casos, sobrevém uma existência assombrada pelo silêncio. Emana, de facto, deste poema uma sensação de horror perante um universo feito estátua, em cuja indiferença nem Razão nem Vida penetram. Estátua porque, se bem que gelado e silencioso, de olhar sem cor como as estátuas gregas, ainda assim, tal como a escultura clássica, o universo não deixa de exibir uma certa ordem e exalar uma profunda beleza. Tal acentua o sofrimento do poeta perante a impossibilidade de – não de o conhecer – mas de beber esse segredo. Não serão os conhecimentos científicos, racionais, que trariam satisfação a Camilo Pessanha, pois estes nem de perto pretendem responder às questões que o habitam. Mas, mesmo face às suas ousadias, de pesadelo, nada acontece a não ser o esfriamento perante a gravitas de um “túmulo fechado” ou de um “pélago quieto”. Pessanha habita um universo novo, que a ciência descreve através das teorias quânticas, do princípio da incerteza, da transformação sucessiva de matéria em energia e de energia em matéria, em que a própria matéria não é mais que uma vibração ou ondulação, obediente a ritmos misteriosos, desconhecidos mas dessacralizados. Não será também o uno conceito de Vontade, de Schopenauer — como tem sido repetidamente afirmado por uma ligação rápida ao dito pessimismo do alemão —, que aqui estará em jogo. Não existe uma Vontade (conceito eivado de metafísica), mas um palimpsesto de forças, de energias, de vibrações, num universo em que as formas se limitam uma existência efémera como no poema “Imagens que passais pela retina dos meus olhos / Porque não vos fixais?”, em que tudo é transitório e de sentidos vagos. Os “olhos pagãos” somente vêem os “sucessivos desertos”. E nem a sua presença deixará qualquer rasto: “Fica sequer, sombra de minhas mãos”. No lugar de Deus não existirá nada, sequer faz sentido o panteísmo de Espinosa. A ideia de um ser divino, antropomórfico ou dissemina-


ARTES, LETRAS E IDEIAS 21

segunda-feira 17.7.2017

do, dará lugar a esse resfolgar contínuo de todas as coisas, essa dimensão pulsante que permite supor a existência de um ritmo primordial, incessante, inesgotável, sem face nem propósito, sem leis morais, mera energia e mera matéria, em permanente metamorfose, como o poeta sussurra ainda no seu leito de morte, à laia de despedida: “Tudo podridão... tudo matéria...” E podridão, o leitor do Octave Mirbeau de “O Jardim dos Suplícios”, novela passada em Cantão no século XIX, que Pessanha certamente era, sabe que significa metamorfose. Num plano mais pessoal, é a ausência de uma consciência divina que torna fútil a crença num destino, dando ao indivíduo a sensação solitária de à toa marear na vida, tornando-a também a ela fútil e levando à invocação da morte como acto estético último, no sentido borgesiano da iminência de uma revelação que não se produzirá. Enfim, levantou ferro. Com os lenços adeus, vai partir o navio. Longe das pedras más do meu desterro Ondas azuis do oceano, submergi-o. Que eu, desde a partida, Não sei onde vou. Roteiro da vida Quem é que o traçou? (...) A sensação de inutilidade da vida (“Foi um dia de inúteis agonias”... “Floriram por engano as rosas bravas...”) percorre a obra de Pessanha. A vivência num mundo desencantado, sublinhada pela decadência do país, estriba-se numa ontologia melancólica, onde a aura materialista acaba por ser, em confronto com a sensibilidade do poeta, fonte de uma inextirpável dor. Camilo Pessanha será um daqueles primeiros homens a ter nascido no mundo de um Deus morto (Nietzsche), mas onde a estrutura religiosa se encontra profundamente imiscuída na Cultura e mantém a sua influência noutros domínios que não o filosófico. Por exemplo, nesta linha, Michel Onfray, no seu Tratado de Ateologia, classifica de ateísmo cristão o pensamento dos homens oitocentistas que não acreditam na existência de Deus, mas cuja moral se rege pelos valores do cristianismo. No caso de Pessanha – também porque a sua poesia mergulha “as suas raízes no húmus natal” – existirá, não uma moral cristã, mas uma estética primeva que não dispensa uma concepção divina, um plano do mundo. É, sobretudo, em termos estéticos, imagéticos até, com todas as suas consequências, que esses arquétipos assombram Pessanha. Ele recorre aos mitemas da sua cultura, claramente perturbantes, para exprimir o seu desvanecimento no mundo contemporâneo e também na sua própria sensibilidade. Tal procedimento é recorrente quando o poeta se refere, por exemplo, a figuras femininas, segregando imagens como “Magra figura de vitral...”, “Madalena, cabelos de rastos...”, de nítida influência religiosa ou, num registo mais rural, mas igualmente irreal: a alma de sua mãe, pela neve, a mendigar à porta dos casais. Repare-se ainda no poema Transfiguração: Mulher forte, remiu-me a tua prece: Penitente, pagão, bem lusitano Ergo os braços ao céu quando anoitece. Judas divaga, em espiras de pecado Eis-me o Verbo de Deus, sacramentado No rebuço dum capote alentejano.

XIX, até encontrar a sua mais desesperada e última expressão no satanismo, que precedeu o nosso poeta. Tais caminhos mostraram ser becos sem saída, meras expressões contingentes de um problema que cavava mais profundo que uma inversão, na qual, afinal, se declarava um amor supremo edipianizado. E não seria por aí que Camilo caminharia. Como refere Rubim, a partir da crítica do poeta ao livro Flores de Coral, de Alberto Osório de Castro, nele a vida surge como “uma consequência lógica” da morte, a vida significa a morte, uma não é a negação da outra. “De que havia pois de lamentar-se, ou contra o que havia, pois, de insurgir-se, se a morte é, em relação à vida, não só o termo fatal, mas também a consequência lógica?” Contudo, Pessanha não deixa de considerar a morte como algo de fatal, a par com uma consequência lógica. Daqui se entende a concepção da vida — apenas porque no humano existe à partida o conhecimento antecipado do fim — como fatalidade, embora esteja ausente o destino. O que parece aconchegar tal concepção da morte como dissolução do indivíduo, em que esta não passa de uma “consequência lógica da vida”, parece ser um desejo último de fusão com o Cosmos, finalmente de participação total, expurgadas que serão a consciência e a dor. Recortes vivos das areias, Tomai o meu corpo e abride-lhe as veias... O meu sangue entornai-o, Difundi-o sob o rútilo sol (...). Só o meu crânio, fique, Rolando, insepulto no areal, Ao abandono do simoun Que o sol e o sal o purifique. A morte será uma porta para a integração total no universo, integração que não será a de uma alma una mas da matéria que se transforma, de um corpo que se desfaz: “Róseas unhinhas que a maré partira... / Dentinhos que o vaivém desgastara... / Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...” é o que sobra de uma vida e da “fúlgida visão, linda mentira!”. Poderá ser correcto afirmar que a biografia infantil do poeta, as suas desilusões amorosas e mesmo a sua frágil saúde terão sido razões importante para conferir à dor um lugar de relevância nos seus poemas. Mas creio que, aquém e além das referências biográficas, fará sentido outorgar a esta dor metafísica – consequência da consciência da inexistência de Deus, do indivíduo após a morte e do Destino – um papel central na obra do poeta de Clepsidra. A DOR QUE DEVERAS SENTE De tal modo a questão da dor é central na poesia de Camilo Pessanha que o poeta a transforma em energia necessária, como se ela fosse o único instrumento que permitiria uma visão mais profunda do universo e, de um modo quase perverso, justificasse a existência humana: uma espécie de Sofro, logo existo, na medida em que seria um garante de Ser. Tenho sonhos cruéis: n’alma doente Sinto um vago receio prematuro. Vou a medo na aresta do futuro, Embebido em saudades do presente... Saudades desta dor que em vão procuro Do peito afugentar bem rudemente, Devendo ao desmaiar sobre o poente, Cobrir-me o coração dum véu escuro!...

A mulher (origem, cultura) fica como repositório da crença, que eventualmente, à la Pascal, o redimirá. Mas ele é Judas (traidor, em pecado) e mesmo quando poeta, expressão divina, “sacramentado”, acaba rebaixado à banal, prosaica, desencantada condição de existência “no rebuço dum capote alentejano”.

Porque a dor, esta falta de harmonia, Toda a luz desgrenhada que alumia As almas doidamente, o céu de agora,

FUSÃO OU BARBÁRIE Uma das consequências principais de um universo dessacralizado é o surgimento da morte como espaço de dissolução do indivíduo. Deus existiu moribundo na poesia do século

Sem a dor, o coração, os tais sonhos, “é quase nada”. São as lágrimas que justificam a madrugada e sem elas o sol não seria sol, nele se extinguiria o que ele próprio proporciona. A importância atribuída à falta de harmonia remete

Sem ela o coração é quase nada: — Um sol onde expirasse a madrugada, Porque é só madrugada quando chora.

para a frase de Rimbaud: “Finalmente, acabei por considerar sagrada a desordem do meu espírito”. No caso do poeta português, essa desordem é fruto da dor, mas é também fonte de iluminação, de uma percepção outra do mundo, como se fora um método poético de absorção mais intensa das coisas. Este poema é de 1888. Mais tarde, o poeta acabaria por rever esta posição como adiante demonstraremos. Ora a questão da dor fora colocada no debate filosófico, entre outros, por Soren Kierkegaard e por Nietzsche que, na sua Genealogia da Moral, a refere como a grande criadora de memória. O filósofo alemão evoca os grandes espectáculos públicos da dor: as matanças, as carnificinas, as execuções públicas e a tortura, a que a Humanidade tem paulatinamente assistido e cuja função, afirma, é precisamente a criação de uma memória; a dor como uma terrível mnemotécnica, que passa mesmo, em certas sociedades, por rituais extremos e pela inscrição dos corpos. Num plano individual, a dor também proporciona a memória e demarca os limites de acção dos indivíduos, mas a sua persistência, nomeadamente de uma dor metafísica, impele o sujeito para a reflexão filosófica e – pretenderão alguns – estende o campo de percepção a outras realidades. Tal fará, em Pessanha, que a dor seja invocada: “Saudades desta dor que em vão procuro / Do peito afugentar bem rudemente”. Repare-se no paradoxo: sente-se a falta (heurística) de uma dor que se pretende eliminar, porque ela é “a luz desgrenhada que alumia as almas” e o “céu d’agora”. Ou seja, a dor é ainda o que permite, no caos que desencadeia, um determinado conhecimento de si próprio e a intuição do universo. Veja-se o exemplo do poema Branco e Vermelho, no qual a dor se transmuta em luz, em lúcida febre e proporciona a visão, a contemplação do mundo. E é toda uma humanidade agrilhoada que o poeta nos descreve, atravessando um mundo deserto, futilmente explorada e temente de um castigo, seres viventes nos charcos do medo, que só a morte liberta do sofrimento. A dor induz o poeta a um estado de luminosidade/alucinação que lhe proporciona a visão da humanidade que desfila, açoitada ao ritmo dos seus versos. E que humanidade é essa? Um grande painel de sofrimento, de desconforto metafísico e também produto do crime cometido desde o alvorecer da História: a exploração do homem pelo homem. Claro que neste poema existem outros cambiantes, outros caminhos interpretativos, nomeadamente (uma vez mais) para quem se quiser referir a conhecimentos esotéricos e à importância do maniqueísmo (a oposição luz/trevas) no pensamento templário e maçónico, sabida que é a filiação de Pessanha à maçonaria. Contudo, cremos que esta filiação, longe de ser religiosa, passava precisamente pela recusa da Igreja e por uma tendência de fraternidade social. É sabido em Macau que a loja a que Pessanha pertencia não tinha um carácter teísta, bem pelo contrário. Dela fizeram parte conhecidos ateus e republicanos. ALMA LÂNGUIDA E INERME À medida que em Macau Pessanha vai adensando os seus contactos com o pensamento chinês, podemos vislumbrar nos seus poemas alguns pontos de contacto com a tradição oriental, nomeadamente eventuais influências daoistas. De facto, a concepção de um mundo heraclitiano, em permanente movimento, não andará muito longe da ontologia proposta pelo pensamento daoista, mas será sobretudo o retorno à pureza original, que todo o pensamento clássico chinês prescreve, que encontra nos daoistas um método que nos surge como próximo de certos versos do nosso poeta. Para o sábio daoista, deve o homem retirar-se do mundo, afastar-se para o ventre da terra onde, no silêncio, num processo de metamorfoses, comparável ao de uma crisálida, se transformará no Feto Imortal. O daoista alimentar-se-á na sua gruta, sugando as estalactites,

como se fossem os seios da Terra. Pessanha abre precisamente a Clepsidra como o famoso poema Inscrição: Eu vi a luz em um país perdido. A minha alma é lânguida e inerme. Ó! Quem pudesse deslizar sem ruído! No chão sumir-se, como faz um verme... Ou mais à frente no mesmo volume: Porque o melhor, enfim, É não ouvir nem ver...  Passarem sobre mim  E nada me doer!  — Sorrindo interiormente,  Co’as pálpebras cerradas,  Às águas da torrente  Já tão longe passadas. —  Rixas, tumultos, lutas,  Não me fazerem dano...  Alheio às vãs labutas,  Às estações do ano.  Passar o estio, o outono,  A poda, a cava, e a redra,  E eu dormindo um sono  Debaixo duma pedra.  (...) E eu sob a terra firme,  Compacta, recalcada,  Muito quietinho. A rir-me  De não me doer nada. Ora não se trata aqui da morte mas de atingir um estado outro de consciência, em que a fusão com a Terra, que um psicanalista poderia atribuir a um desejo de fusão com a mãe, seria o passo principal para conseguir um determinado tipo de repouso, que eliminaria a dor. Gaston Bachelard, curiosamente no mesmo livro em que refere Lúcio Pinheiro dos Santos, um filósofo amigo do poeta de Macau, entende “o repouso como um dos elementos do devir”, que se inscreve no “cerne do ser, que devemos mesmo senti-lo no fundo mesmo do nosso ser, ao nível da realidade temporal sobre a qual se apoiam a nossa consciência e a nossa pessoa. (...) Que cada um, à sua maneira, se liberte das excitações de circunstância que o põem fora de si. (...) o ser libertar-se-á de um impulso vital que o afasta para longe dos objectivos individuais, que se desgasta em actuações imitadas. (...) A consciência pura aparecer-nos-á como uma potência de espera e vigia, como uma liberdade e uma vontade de nada fazer.” (Bachelard, 2006, V-VI). Estamos então perante uma espécie de quietismo como panaceia para a dor, fonte de iluminação e, no sentido referido por Gustavo Rubim, de alucinação, na medida em que a percepção do mundo se altera, se refina, se torna rítmica através da escuta aproximada do pulsar do pensamento e da própria matéria. Também nessa crisálida emerge, finalmente, um fio de voz, plena de consciência e de musicalidade, que dará origem ao poema. Não se trata, portanto, de um desejo de morte mas de obter um lugar excelso de compreensão do mundo que passa, como no daoismo, pela participação no todo, quase mineralização, onde a impessoalidade não significa necessariamente despersonalização mas, pelo contrário, a formação de um ser outro, como a borboleta Aurelia dos neo-platónicos de Alexandria, símbolo de uma nova sabedoria. Podemos concluir que o ateísmo de Camilo Pessanha não o conduziu a um beco sem saída, como o poema Estátua parecia anunciar. Pelo contrário, permitiu-lhe navegar por territórios desconhecidos, não se fechar na sua própria cultura e dotar a sua poesia de uma universalidade e de uma atemporalidade inegáveis. Quando nos subtraímos a essa ideia onde tudo cabe e que tudo explica, ficamos sós perante o Cosmos mas é precisamente nesse momento que se revela a tragédia e a beleza da condição humana, desse animal cujo dever é olhar o universo de frente, sem improváveis mediações, assumindo-se como filho das estrelas e do mar, assombrado pela ideia de infinito e orgulhoso por ser uma pequena chama no vasto incêndio do universo.


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17.7.2017 segunda-feira

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AGUACEIROS

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

MÚSICA | BLUE JAZZ MONDAY, COM JOÃO MASCARENHAS E JANDIRA SILVA Grande Emperor, Windsor | 21h30

MIN

26

MAX

33

HUM

65-95%

EURO

9.18

BAHT

Quarta-feira

CINEMA | IV CICLO DE CINEMA CRED-DM – SISTEMA PRISIONAL “PRISON ON FIRE” Casa Garden | 19h30

Diariamente

O CARTOON STEPH

EXPOSIÇÃO “A ARTE DE ZHANG DAQIAN” Museu de Arte de Macau | Até 5/8 EXPOSIÇÃO “DESTROÇOS” DE VHILS Oficinas Navais, nº. 1 | Até 31/11

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 79

PROBLEMA 80

UMA SÉRIE HOJE C I N E M A

WAR FOR THE PLANET OF THE APES SALA 1

CARS 3 [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Brian Free 14.00, 16.00, 18.00, 20.00

DISPICABLE ME 3 [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Pierre Coffin, Kyle Balda, Eric Guillon 22.00 SALA 2

WAR FOR THE PLANET OF THE APES [B] Fime de: Matt Reeves

SUDOKU

DE

EXPOSIÇÃO “O MAR” DE ANA MARIA PESSANHA Casa Garden | Até 31/08

Cineteatro

1.18

PUNK GÁSTRICO

PALESTRA | REFLEXÕES SOBRE A QUALIDADE DE VIDA “STRESS – TRAMPOLIM OU ÂNCORA” COM EDUARDO SALDANHA Fundação Rui Cunha | 18h30

EXPOSIÇÃO “CONTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10

YUAN

PÊLO DO CÃO

Amanhã

EXPOSIÇÃO “NEW ART PEOPLE PROJECT 2017: BOUNDLESS 4” Armazém do Boi | Até 13/8

0.23

Ontem vi um homem sentado em frente a um edifício governamental de cabeça baixa, amparada precariamente por mãos trémulas, como quem se prepara para vomitar na direcção do telemóvel que estava no chão, mesmo por baixo da boca. Esta imagem inundou-me de questões de significado. Haverá algum sentido ritualístico naquela imagem, conterá algum simbolismo antropológico, alguma profunda ilação a tirar? Arrogo-me da tarefa interpretativa de mandar uma pedrada de significado no imenso charco conceptual com que me deparei. Talvez fosse uma instalação punk gástrica, uma crítica à sociedade que tornou o contacto social em mais uma acepção de materialismo plástico. Mas porquê em frente de um edifício do poder? Aí, é possível que a performance se destinasse a demonstrar uma biliosa reacção a mais um ciclo eleitoral que se encerra, à constante propaganda que inunda as redes sociais. Outra hipótese é estar prestes a derramar sobre o aparelho o resultado de uma orgiástica bebedeira informativa. Estaria o senhor a traduzir para uma linguagem de bolçada estética o pessimismo de Arthur Schopenhauer, ou a trilhar o caminho romântico/decadente de Baudelaire, Verlaine e companhia? Perguntas para as quais possivelmente nunca teremos respostas, fica o mistério significativo. João Luz

GAME OF THRONES | DAVID BENIOFF E D. B. WEISS

Normalmente sugerimos neste espaço um livro, disco ou filme. Porém, hoje é um dia especial. Depois de mais um de um ano do fim da 6ª série de Game of Thrones, a saga está de volta. Sem querer desvendar muito sobre o enredo, o programa da HBO é um fenómeno de massas de tremenda qualidade, algo que não é comum. Com uma narrativa que desafia as lógicas tradicionais de heróis e vilões, a crueza da imprevisibilidade da história tem sido um dos trunfos que distingue Game of Thrones. Apesar de na série a fantasia desempenhar um papel, a tempos irritante, fica algo em pano de fundo sendo que o fio condutor é profundamente político e impregnado de imaginário shakespeariano.

Com: Woody Harrelson, Sara Canning, Judy Greer 14.15, 16.45, 21.45

WAR FOR THE PLANET OF THE APES [3D] [B] Fime de: Matt Reeves Com: Woody Harrelson, Sara Canning, Judy Greer 19.15 SALA 3

SPIDER MAN: HOMECOMING [B] Fime de: Jon Watts Com: Tom Holland, Robert Downey Jr., Michael Keaton 14.15, 16.45, 19.15, 21.45

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opinião 23

segunda-feira 17.7.2017

reencarnações JOÃO LUZ

NR, outrem, fantasma desprovido de cidadania trasladado pela força do labor. Sou a soma de todos os medos, bode expiatório dos males do mundo, o larápio de pão local. Nas palavras de um sublinhado provocador, “dizem que semeio o caos e a destruição como o vento semeia as papoilas”. Essa é a minha reputação. Porém, sou exactamente o contrário, vivo nas antípodas da percepção daquilo que projectam de mim. Procuro ser edificante, na total acepção da palavra, numa Macau que é uma construção de forasteiros. TNRs emprestam o músculo para fazer a cidade crescer em altura, estrangeiros investem deltas de cobre, gente de fora vem jogar e deixar o dinheiro que enriquece o território abraçado pelo sufocante e míope lótus. Já antes, Macau havia sido construída por outros, vivia do acasalamento entre interior e exterior. Muitas vezes com violência, como qualquer cópula que se preze. A existência é um processo de cooperação e partilha, o encerramento e a solidão só se revelam, no seu expoente máximo, na morte. Parece ser a isso que aspiram aqueles que me olham de lado, que desconfiam do estrangeiro que carrega maus presságios na bagagem. Em Macau tudo o que é mau é importado. Doenças são trazidas de fora para o seio impoluto da eterna saúde. Crime também é algo que transborda das fronteiras do medo para o interior desta imaculada comunidade de santos. Os maus costumes, a sarna, peçonhas várias, má condução de veículos, conduta sexual diabólica, erecções infames, mau hálito, caspa, tudo emanações exteriores. Nada me verga perante este tufão escala de ignorância 8, muito pelo contrário, aguento este vendaval com um esgar trocista. Pobres diabos, amedrontados pelo fantasma da concorrência, receosos de perder regalias, prioridades, na Macau que mima em demasia, que aburguesa e vive num oásis económico de pleno emprego. Aqueles que me temem, coitados, vivem presos à ineptidão de um umbigo que enclausura, dos horizontes

DIEGO RIVERA, A REVOLTA

T

Trabalhador Não Residente

Gentes de Macau, saiam da caverna, ouçam o apelo deste estrangeiro que vos quer bem

encerrados na geografia de cárcere. Vivem num cativeiro auto-imposto. Daí o receio de quem tem o mundo por sua casa, as estrelas como tecto último, o horizonte como destino. Os meus braços querem o mundo, da mesma forma que a minha boca anseia pão e o meu equador as vossas filhas. A emigração faz parte da natureza humana, fundadora da inata curiosidade que nos move, desde os primórdios dos nossos tempos. Há mais de 200 mil anos, os primeiros humanos sentiram a vontade de partir, começava assim o engenhoso e a vontade de abarcar o globo num fôlego. Emigrámos do leste africano, daquilo que hoje é a Etiópia e lançámo-nos numa aventura sem fim, que nos está a levar hoje além do sistema solar. O nosso primeiro apetite é sair, numa eterna alusão uterina. Seguir esta pulsão é estar conforme à natureza, vogar à bolina, orçar o libidinoso contacto dos elementos em direcção ao mais sublime dos portos. Reconhecer este desiderato requer elevação, saber receber é um exercício de nobreza, aquilo que traça a distinta linha entre um anfitrião e um selvagem com medo da própria sombra. Há muito que deixámos para trás o passado neandertal, mas ele persiste resiliente e traz o Homem à sua condição ancestral de prisioneiro na platónica caverna. Mesmo sem grande vontade de resvalar para alegorias, a verdade é que as sombras nas paredes de Macau ganham cavernosas identidades, tornam-se sinistras. É verdade que a luz cega aqueles que teimam em viver na treva, mas os olhos precisam da clarividência da verdade, da exposição ao que é autêntico. Gentes de Macau, saiam da caverna, ouçam o apelo deste estrangeiro que vos quer bem, soltem-se dos pesados grilhões do medo, encarem o que de melhor há na vossa natureza. Eu não tenho medo, ostento o meu peito aberto, vivo solto, bebo a vida de um trago, sou mal pago e sorriu dos infortúnios e armadilhas que me metem na frente, sempre ciente da minha grandeza. Posso não ter muito nos bolsos, mas o meu coração transborda, encaro o sol de frente, a minha casa é onde a sola dos meus pés se firma. A orfandade de pátria é a minha assinatura no indigno cartão que me identifica, não há fronteira que me contenha. O meu nome é Liberdade!


Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,/ Onde esperei morrer, meus tão castos lençóis?/ Do meu jardim exíguo os altos girassóis/ Quem foi que os arrancou e lançou no caminho? Camilo Pessanha

segunda-feira 17.7.2017

TIMOR-LESTE APOTEOSE DA FRETILIN EM OECUSSE

O outro Alkatiri

49 turistas retirados de uma ilha

As autoridades chinesas resgataram 49 turistas que ficaram presos numa ilha desabitada próxima da costa sul da China devido à chegada do tufão Talas ao país. Em comunicado, o Ministério dos Transportes indicou que os turistas estavam na ilha Nanpeng e foram retirados durante a manhã. As autoridades mobilizaram um barco e um helicóptero de resgate para levar o grupo para a parte continental do país antes que se começassem a sentir os efeitos do Talas. O tufão deverá afectar as zonas costeiras da província de Cantão, a região de Guangxi, a ilha Hainan e outras zonas do Mar da China Meridional desde ontem e até à tarde de hoje. O sul da China está em alerta azul - o de menor gravidade numa escala de quatro cores - devido à chegada do Talas, o quarto tufão da temporada, que deverá trazer ventos fortes e chuva.

Eleições Angola recusa acordo prévio com União Europeia

A União Europeia pediu ao Governo angolano a assinatura de um memorando de entendimento prévio para observar as eleições gerais de 23 de Agosto, pretensão que foi recusada, informou o ministro das Relações Exteriores de Angola, Georges Chikoti. A União Europeia foi uma das entidades convidadas pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE), indicadas pelo Presidente da República, para observar as eleições gerais angolanas, tal como, entre outras, a União Africana, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) ou Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). “O convite é aberto. Mas não queremos quaisquer acordos específicos com cada uma destas organizações. Quem quiser vir, vem e quem não quiser, pode não vir, mas o certo é que o convite é aberto”, disse Georges Chikoti. “Não esperamos que alguém nos vá impor a sua maneira de olhar para as eleições e nos dar alguma lição, como também não pretendemos dar lições em termos de eleições”, disse. Ainda assim, insistiu que a União Europeia “está convidada, à semelhança de outras organizações”, para observar as eleições angolanas.

O

secretário-geral da Fretilin, Mari Alkatiri, chegou sábado num cavalo castanho, rodeado de centenas de pessoas, ao campo de futebol da capital do enclave timorense de Oecusse, onde uma multidão o recebeu em apoteose, num comício do partido. A uma semana nas eleições legislativas, de 22 de Julho, o antigo primeiro-ministro timorense reconhece que a sua imagem, que antes transmitia austeridade, é hoje uma surpresa para as multidões que o partido tem vindo a reunir. “As pessoas não esperavam. Tinham em mim a pessoa de confrontação, quase de conflito, antipático. Mas não. Agora, liberto de tudo, sou aquilo que sou e sei que tenho aos ombros a responsabilidade de representar os que começaram tudo isto comigo e agora já não estão vivos. Sinto que os represento assim”, disse. No palco, discursa, interage com velhos e novos que ali estão e dança, fazendo vibrar os apoiantes que vieram de todo o enclave. Desde o inicio da manhã que, um pouco por toda a zona de Pante Macassar, se viam passar

camionetas amarelas, motas e carros, carregados de apoiantes do partido. No comício unem-se o moderno e o antigo, com jovens de telemóvel na mão a registar o momento, enquanto katuas, velhos líderes tradicionais, vestidos com tais, passeiam a cavalo entre os veículos. Um desses katuas entrega o bikase, cavalo em baikeno (a língua regional), a Mari Alkatiri, que depois percorre o

curto percurso entre a sua casa e o comício. No campo de futebol, um animador e um conjunto no palco põem todos a dançar. A pouco e pouco, Alkatiri consegue chegar à tribuna de honra onde, depois do hino timorense e da Fretilin, o candidato conduz um minuto de silêncio. Na esquina do segundo andar de um hotel próximo, em posição privilegiada, observadores da União Europeia (UE), munidos até com um par de binóculos, acompanham a movimentação no campo e os discursos no palco principal. Em redor, onde há sombra, muitos amontoam-se, ainda que a grande festa se faça, no meio de muitas bandeiras, no terreno em frente ao palco e à tribuna de honra onde Alkatiri está acompanhado de vários líderes nacionais e regionais do partido. A Fretilin, considerada o partido com a melhor estrutura em Timor-Leste, tem um ‘posto de campanha’ em cada posto administrativo com representações ainda em cada suco e em cada aldeia. Alkatiri sobe ao palco, onde agora dança com um grupo de mulheres e homens.

PORTUGAL-CHINA LAÇOS “SEM PRECEDENTES”

China deve ter crescido perto de 7%

A China deverá apresentar hoje, segunda-feira, um crescimento do PIB na ordem dos 6,8% no segundo trimestre deste ano, ligeiramente abaixo dos 6,9% que cresceu entre Janeiro e Março, em linha com o objectivo governamental. Os dados semestrais do comércio, publicados na semana passada, revelaram que as importações chinesas aumentaram 25,7% no ano, ao passo que as exportações subiram 15%, algo que os analistas atribuem a uma forte procura externa e a uma procura interna relativamente resistente. São as exportações, aliás, que vão evitar uma quebra brusca da maior economia asiática, que está a entrar numa fase de desaceleração sustentada, dizem os analistas, embora haja também alguns que afirmam que é possível que o crescimento das exportações sofra um abrandamento devido aos riscos geopolíticos e à valorização da moeda chinesa face ao dólar.

Wimbledon Federer conquista oitavo título

O tenista suíço Roger Federer tornou-se ontem no recordista de vitórias em Wimbledon, ao conquistar o seu oitavo título na relva londrina, com um triunfo sobre o croata Marin Cilic, em três ‘sets’. Seis meses depois de se sagrar campeão do Open da Austrália, Federer impôs-se na final do ‘major’ londrino ao sexto tenista mundial, que se debateu com problemas físicos, por 6-3, 6-1 e 6-4, em uma hora e 43 minutos. Aos 35 anos, o suíço, que não cedeu qualquer ‘set’ no seu percurso no All England Club, amplia ainda mais a sua lenda, isolando-se como o tenista mais vitorioso da história de Wimbledon e reforçando o estatuto de recordista de torneios de ‘Grand Slam’ (19).

Hamilton vence GP da Grã-Bretanha

• As relações entre a China e Portugal estão “num nível sem precedentes, como bem demonstra a sólida cooperação bilateral em diversos campos durante os últimos anos”, afirmou Zhang Dejiang, presidente do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional (APN). Durante a reunião com o presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, Zhang sublinhou que Pequim e Lisboa são “bons amigos e parceiros que se entendem, se respeitam, confiam um no outro e se apoiam mutuamente”. Zhang também disse que espera que os dois países possam melhorar a confiança mútua na política e aumentar a coordenação estratégica, levando sempre em conta os principais interesses e preocupações um do outro. A China dá grande importância

ao desenvolvimento das suas relações com a União Europeia (UE) e espera que Portugal, como um importante membro do bloco, possa continuar desempenhando um papel construtivo na promoção dos laços entre as duas partes, acrescentou. Como Portugal é um importante país destino dos investimentos chineses na Europa, Zhang expressou a esperança de que a parte portuguesa garanta os direitos legítimos das empresas e investidores da China no país europeu. Por sua parte, Rodrigues disse que a visita de Zhang, a primeira visita de um chefe do Legislativo chinês a Portugal, tem um grande significado para melhorar a cooperação entre os corpos legislativos dos países e fortalecer as relações bilaterais.

O britânico Lewis Hamilton (Mercedes) venceu ontem o Grande Prémio da Grã-Bretanha, 10.ª prova do Mundial de Fórmula 1, e ficou a um ponto do alemão Sebastien Vettel (Ferrari), líder do campeonato. Hamilton gastou 1:27.21,430 horas para vencer pela quarta vez consecutiva em Silverstone, terminando com uma vantagem de 14,063 segundos sobre o finlandês Valtteri Bottas (Mercedes) e de 36,570 sobre o também finlandês Kimi Raikonnen (Ferrari). Vettel, que terminou em sétimo, após um problema num pneu na penúltima volta, mantém a liderança do Mundial, mas agora com apenas um ponto de avanço sobre Hamilton e 23 sobre Bottas.

Hoje Macau 17 JUL 2017 #3854  

N.º 3854 de 17 de JUL de 2017

Hoje Macau 17 JUL 2017 #3854  

N.º 3854 de 17 de JUL de 2017

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