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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

SEXTA-FEIRA 15 DE DEZEMBRO DE 2017 • ANO XVII • Nº 3956

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

PEREIRA COUTINHO

Sulu Sou não quis recurso EDUARDO LUÍS, AUTO-RETRATO

PÁGINA 7

ANTÓNIO DE CASTRO CAEIRO

CHINA

Soy loca por ti America

hojemacau GOVERNO VAI PASSAR LICENÇAS PROVISÓRIAS

Lufada de ar fresco

Finalmente, o Governo criou uma medida para ajudar o pequeno comércio e as PME: um dos pesadelos para quem quer abrir um negócio – a demora na obtenção das necessárias licenças – parece que vai acabar. A ver vamos. PÁGINA 7

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FESTIVAL DE CINEMA

A resposta de Helena PÁGINA 7

GALGOS

Quanto vale um cão ? PUB

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THE LEGENDARY TIGER MAN E ARTE DE SER NADA ENTREVISTA

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h 2 TEXTOS

MOP$10


2 ENTREVISTA

THE LEGENDARY TIGERMAN CONCERTO “HOW TO BECOME NOTHING” EM MACAU E SHENZHEN

O deserto do inadaptado

Três anos depois da passagem por Macau, The Legendary Tigerman regressa como um dos nomes principais do cartaz deste ano do festival This is My City, no sábado às 22h no espaço What’s Up Pop Up, na Calçada do Amparo. O português vai tocar ao vivo a banda sonora do filme, de Pedro Maia, “How to Become Nothing” O que é que o público de Macau pode esperar deste espectáculo que sai um pouco fora do conceito habitual de concerto? “How to Become Nothing” é um projecto que foi feito a três cabeças, com a Rita Lino, o Pedro Maia e comigo, e não tem nada a ver musicalmente com o disco “Misfit”. No fundo, é um cine-concerto, um live-cinema. O Pedro Maia faz alguma edição e montagem ao vivo. Obviamente, há uma história no


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filme que é comum a todas as exibições mas, como num concerto, há alguns espaços para improviso e há alterações que fazemos pontualmente em alguns momentos da montagem do filme. O Pedro faz essa parte ao vivo e eu faço a banda sonoro. É uma espécie de um cine-concerto um bocadinho mais livre e experimental. Não tem, portanto, só a ver com o meu universo como Tigerman, antes pelo contrário, até está um bocadinho distante e é um pouco mais experimental. É um trabalho assente na junção de imagem em movimento e música. “How to Become Nothing” é um título um bocado niilista, baseado na ideia do homem que se perde no deserto e de onde sai outro. O que está por detrás deste conceito? No fundo, a ideia inicial era desenvolver um projecto que tivesse a ver com música e imagem em movimento em Super 8 neste caso, porque era o Pedro Maia, e que tivesse a ver também com fotografia. Para mim era importante que fosse algo que se passaria no deserto, teria de ser uma road trip, era assim que eu queria escrever o disco novo. Antes de começar a compor o disco queria que fosse criado este universo visual e que fosse feita esta viagem e este personagem que dá pelo nome de Misfit. É o personagem principal do filme ao qual eu dou corpo. Desenvolvemos esta ideia a partir de um livro que chega a ser um bocado cómico, que é o “How to Disappear Completely and Never Be Found”, do Doug Richmond. O livro é quase um guia para quem quer desaparecer do mundo quando tem problemas, sei lá, com o IRS, ou para quem quer fugir para algum lado. Partimos dessa ideia muito simples e pragmática da road trip para colocar isto numa esfera que tem mais a ver com a poesia e a filosofia. Foi um road-movie escrito por mim diariamente, todas as manhãs levantava-me às 6 da manhã e escrevia o diá-

“Foi um projecto muito aberto em que sabíamos que havia a busca deste homem, um busca um pouco onírica e muito pouco real de alguém que procura tornar-se em nada.” rio desse dia. O argumento poderia ter alguma parte de verdade dos dias anteriores, ou poderia ser totalmente ficção, ou uma mistura de ambos, e depois partíamos para o dia de rodagem que tinha sido pré-definido. Sabíamos que esta viagem ia acontecer entre Los Angeles e Death Valley, foi um projecto muito aberto em que sabíamos que havia a busca deste homem, um busca um pouco onírica e muito pouco real de alguém que procura tornar-se em nada. O filme também tem a ver com todo o acesso que nós hoje em dia temos à informação e a toda essa existência digital está muito para além da nossa vida. Daí também termos filmado tudo em analógico. São muitas questões. No fundo, é um filme em formato de cine-concerto, que é uma forma mais livre e experimental, e que acaba por ser mais interessante. É um filme que tem muitas

“Misfit” marca o momento em que me apeteceu descolar totalmente do formato de one-man band, mantendo alguns dos pressupostos que acho que são importantes a nível de arranjos e próprio espaço que a música pode ter.”

camadas, é algo que só poderia ser feito com uma equipa muito curta e com muita intimidade e entreajuda na própria rodagem. Na realidade, o filme foi rodado em 14 dias e tem muita coisa a ver com o trabalho pessoal dos três, e foi algo que também foi tido em conta e levado para dentro do filme. Como é traduzir essa experiência um pouco existencialista para palco? O filme é um bocado mais livre e experimental, os cortes não são sempre no mesmo sítio, da mesma forma que a história não é sempre exactamente a mesma, há sempre uma variável adicionada. Há uma versão do filme um pouco mais fechada, que foi à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e que esteve no Indie Lisboa, que vai passar em Portugal e em várias salas de cinema um pouco por todo o lado. Esta parte ao vivo é como se fosse um concerto, há espaço para a minha parte de improvisação, mas há um guião que tenho de seguir porque eu faço a banda sonora do filme ao vivo. No final da travessia do deserto o Paulo foi para o mítico estúdio do Rancho De La Luna gravar o disco “Misfit”. Como foi a gravação e como define este disco? É um disco totalmente de viragem em relação a tudo que está para trás na minha carreira. Por um lado, porque é o primeiro disco que eu gravo neste formato, ou seja, que não gravo enquanto one-man band. Gravei com o João Cabrita no saxofone e com o Paulo Segadães na bateria. O disco foi composto já a pensar que seria, pelo menos, um trio. Na realidade é, também, o momento em que me apetece descolar totalmente do formato de one-man band, mantendo alguns dos pressupostos que acho que são importantes a nível de arranjos e próprio espaço que a música pode ter. O facto deste trio ter surgido um bocado por acaso, e de se ter vindo a criar quase como se fosse uma banda, acabou por influenciar muito o modo

como compus para este disco. Foi gravado no Rancho De La Luna, mas acabei por optar por misturar em Paris com o Johnny Hostile, que misturou as Savages. Ele tem uma abordagem muito contemporânea e inovadora, a forma como ele mistura discos de rock interessou-me porque não queria um disco que soasse ao século passado. Portanto, estou muito feliz com essas opções todas que parecem díspares, mas há aqui um equilíbrio muito grande entre gravar num estúdio praticamente todo analógico no meio do deserto e depois ir misturar em Paris de uma forma mais virada para a música electrónica do que propriamente ao rock. Acho que acabou por funcionar muito bem. Como se sentiu com a necessidade de censurar parte do filme para o público de Shenzhen? Foi algo que estava pressuposto desde o início. Ou optávamos por não passar

“A mim custa-me imenso que o filme vá passar assim mas, definitivamente, prefiro fazê-lo, que se fale sobre isto e que se questione o facto de se estar a fazer assim.”

o filme, ou por censurar o filme e ir a negro, ou por fazer esta opção de desfocar as imagens. Não sei se vai funcionar, ou não, se vamos conseguir fazer isto assim. Houve um momento em que tinha de decidir se queria mostrar o filme e, de alguma forma, marcar uma posição qualquer desfocando as imagens, ou não mostrar. Acho que é importante passar por este tipo de situações porque elas existem. Se elas não existissem em 2017 seria sinal de que a liberdade é uma coisa um bocado mais comum e em alguns países ainda não é assim. Acho que é importante para nós podermos levantar estas questões passando por elas. A mim custa-me imenso que o filme vá passar assim mas, definitivamente, prefiro fazê-lo, que se fale sobre isto e que se questione o facto de se estar a fazer isto.

(SOBRE A CENSURA)

João Luz

info@hojemacau.com.mo

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AVISO sobre a formulação dos pedidos de apoio financeiro para actividades no âmbito do Quyi (para o ano de 2018) 1. Âmbito de aplicação Espectáculos de óperas chinesas e de canções clássicas e populares a se realizarem durante o período compreendido entre os dias 1 de Janeiro e 31 de Dezembro de 2018. 2. Requisito para o pedido de apoio financeiro Instituições constituídas em Macau sem fins lucrativos e que funcionem nos termos legais. 3. Instituições / Projectos que não são considerados prioritários ou que não lhes serão atribuídos subsídios (1) Instituições sem fins lucrativos com menos de um ano de funcionamento; (2) Projectos que não correspondem aos objectivos do requerente institucional; (3) Projectos a se realizarem fora da RAEM. 4. Prazo para formulação do pedido Desde dia 1 até ao dia 29 de Dezembro de 2017. Os pedidos formulados fora do prazo não serão admitidos. 5. Documentos necessários à instrução do pedido Entrega do formulário “Requerimento de Apoio Financeiro” devidamente preenchido, acompanhado dos documentos descritos na Parte C do respectivo formulário. Para mais informações, o requerente pode consultar o “Aviso sobre as novas medidas para apoiar as actividades no âmbito de Quyi” (2016) e os “Guias Gerais para Pedido de Apoio Financeiro para Actividades no âmbito de Quyi” (Versão 2015), publicados pela Fundação Macau em 27 de Outubro de 2015. As informações, os formulários e os respectivos exemplares estão disponíveis no website da Fundação Macau. 6. Serviços de atendimento e apoio à instrução do pedido Durante o prazo acima referido, os funcionários desta Fundação estarão disponíveis no “Balcão de Pedidos de Subsídios para as Actividades no âmbito do Quyi” para prestar um atendimento rápido e eficaz. O representante do Requerente deverá trazer o “Certificado da Composição dos Corpos Gerentes da Associação” emitido pela Direcção dos Serviços de Identificação; a fotocópia do seu B.I.R.; as informações sobre a conta bancária do Requerente e o carimbo da instituição, para tratar do pedido na Fundação Macau. Podia marcar o horário de atendimento com os nossos funcionários. Local para entrega do pedido: Avenida de Almeida Ribeiro, N.ºs 61-75, Circle Square, 7.° andar, Macau Horas de expediente: De segunda a quinta-feira: das 9H00 às 13H00 e das 14H30 às 17H45; sexta-feira: das 9H00 às 13H00 e das 14H30 às 17H30 (à excepção dos dias feriados em Macau e das tolerâncias de ponto) Contacto Linha Directa: 87950965 (Dra. Ao) ou 87950981 (Dr. Cheong) E-mail: ds_info@fm.org.mo Website: www.fmac.org.mo


4 grande plano

THE EPOCH TIMES

15.12.2017 sexta-feira

É já este domingo que serão eleitos os delegados que vão representar Macau junto da Assembleia Popular Nacional, órgão legislativo da China. Há 15 candidatos para 12 lugares e neles estão deputados ou ex‑deputados da Assembleia Legislativa e líderes de associações tradicionais, mas há caras novas, como é o caso do empresário Kevin Ho. Analistas traçam cenários de subida ou de manutenção do poder instituído

ELEIÇÕES DOS DELEGADOS À APN

O GRUPO DOS

É

u ma eleição que escapa aos olhos mais comuns e que passa quase despercebida, mas irá decidir os rostos que vão representar a RAEM junto da Assembleia Popular Nacional (APN) e tentar mostrar junto do Governo Central os problemas mais prementes da sociedade local. É já este domingo que serão escolhidos os nomes para 12 luga-

res, de um total de 15 candidatos, mas são poucos os que, nas ruas, querem comentar este acto eleitoral ou sequer dizer o que esperam dele. Perante o nome APN, cidadãos, a residir na zona norte da península, e até académicos, do outro lado do telefone, recusaram falar com o HM sobre as eleições de domingo. Ainda assim, o HM conseguiu falar com alguns rostos que comentaram a subida de poder para

ASCENSÃO OU MANUTENÇÃO DO PODER?

alguns, ou a sua manutenção para outros. Lionel Leong, secretário para a Economia e Finanças, decidiu sair de cena, tal como Leong Iok Wa, vice-presidente da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), ou Io Hong Meng, supervisor geral dos Kaifong (União Geral das Associações dos Moradores de Macau). Do grupo de 15 candidatos, destacam-se algumas novidades:

Kevin Ho, sobrinho de Edmund Ho, ex-Chefe do Executivo, e recente accionista do grupo Global Media. Consta também o nome de Dominic Sio, empresário e ex-deputado à Assembleia Legislativa (AL). Para o académico Arnaldo Gonçalves, espera-se uma manutenção do poder já instituído até aqui. “Dada a natureza conservadora do eleitorado de Macau, numa eleição


grande plano 5

sexta-feira 15.12.2017

Mesmo com a eleição de delegados, Larry So acredita que haverá sempre um distanciamento em relação ao que se discute em Pequim nas reuniões da APN. “No processo de eleição há uma falta de transparência, embora saibamos os nomes dos candidatos e de onde vêm. Mas, ainda assim, os cidadãos de Macau continuam muito distantes em relação ao que se passará em Pequim.” Larry So não tem dúvidas de que há uns que irão manter o seu poder e outros que saem reforçados neste acto eleitoral, como é o caso de Kevin Ho. Apesar do empresário, líder da KNJ Investment e accionista da Global Media, já fazer parte de uma das mais famílias mais importantes de Macau, ao ser sobrinho de Edmund Ho, a verdade é que pode ver o seu poder reforçado junto de Pequim. O mesmo acontece com Dominic Sio Chi Wai, ex-deputado e director da CESL-Ásia, que também se estreia nestas lides. “Os candidatos que forem eleitos ficarão, sem sombra de dúvida, mais perto do Governo Central. Os novos nomes que surgem no seio dos candidatos são, sem dúvida, pessoas que vêm da comunidade política local. Isso significa que o Governo Central os quer ver nesta espécie de eleição. Trata-se sem dúvida do reforço do poder.” Larry So acredita que os nomes que não conseguirem ser eleitos já estão no bom caminho. “Os candidatos que não forem eleitos desta vez vão aprender algo e, nas próximas eleições, vão conseguir ser eleitos. Podem aprender imenso neste processo.”

RAEM SEM GABINETE

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que faz apelo ao eleitorado pró-Pequim em Macau, acho que vai haver uma manutenção dos representantes de Macau já habituais.” Arnaldo Gonçalves destacou os nomes que compõem o chamado presidium, entidade que tem gerido estas eleições, e que é composto por nomes como Chui Sai On, o Chefe do Executivo, Vong Hin Fai, deputado e mandatário da candidatura de Chui Sai On nas eleições

de 2014, ou ainda Liu Chak Wan, patrão da Transmac e “homem de confiança de Edmund Ho”. O académico questiona, contudo, o nome que irá substituir o de Lionel Leong. “Veremos se é Lao Ngai Leong ou José Chui Sai Peng [deputado à AL]. Inclino-me para este último. Macau é uma plutocracia em que o poder real é dividido entre quatro ou cinco grandes famílias patriarcais na tradição confuciana.” “É provável que haja uma cooptação de José Chui Sai Peng para a APN, dado que Chui Sai On deixará de ser Chefe do Executivo em 2019, isto é, no segundo ano da APN que será eleita”, acrescentou. Para Larry So, analista político e ex-docente do Instituto Politécnico de Macau, trata-se de um acto eleitoral bastante afastado do cidadão comum. “É uma eleição feita dentro de um círculo, não há muitos cidadãos de Macau que estejam envolvidos no processo porque não podem participar. O envolvimento das pessoas é mesmo muito limitado”, defendeu Larry So.

Defensor do sufrágio universal para a eleição do Chefe do Executivo e para os deputados do hemiciclo local, Au Kam San discorda que as eleições dos delegados de Macau à APN sirvam para um reforço do poder. “Conheço a maioria dos actuais delegados. Como são eleitos por uma minoria, considero que têm pouca credibilidade junto do público. Não considero que, por esta via, consigam atingir o objectivo de se tornarem líderes.” “Pode haver alguma influência, porque representam Macau na APN, mas nos últimos anos não vimos contributos práticos da parte dos 12 delegados de Macau. Não considero que possam obter grandes interesses políticos por serem representantes de Macau”, acrescentou Au Kam San.

PROBLEMAS PRÁTICOS

Numa entrevista recente ao HM, o ex-deputado à AL e membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), Leonel Alves, explicou como funciona este órgão e a APN. Leonel Alves foi novamente contactado para este artigo, mas até ao fecho desta edição não foi possível estabelecer contacto.

“Os delegados de Macau devem falar das posições da sociedade local junto do Governo Central. O problema é que as funções práticas dos delegados são reduzidas e não conseguem expressar as opiniões dos cidadãos.” AU KAM SAN DEPUTADO À ASSEMBLEIA LEGISLATIVA E MEMBRO DA COMISSÃO QUE ELEGE OS DELEGADOS

“No processo de eleição há uma falta de transparência, embora saibamos os nomes dos candidatos e de onde vêm. Mas, ainda assim, os cidadãos de Macau continuam muito distantes em relação ao que se passará em Pequim.” LARRY SO ANALISTA POLÍTICO

“É provável que haja uma cooptação de José Chui Sai Peng para a APN, dado que Chui Sai On deixará de ser Chefe do Executivo em 2019, isto é, no segundo ano da APN que será eleita.” ARNALDO GONÇALVES ACADÉMICO

AAPN “reúne-se em simultâneo com as sessões da CCPPC. Um é o órgão legislativo e o outro é o órgão consultivo, o que não quer dizer que todos os diplomas aprovados na sessão plenária sejam discutidos na Conferência Consultiva. Às vezes, a CCPPC é chamada a pronunciar-se sobre diplomas legislativos, mas nem sempre.” O deputado Au Kam San fala, contudo, de problemas de ordem prática ao nível da representatividade. “Os delegados de Macau devem falar das posições da sociedade local junto do Governo Central. O problema é que as funções práticas dos delegados são reduzidas e não conseguem expressar as opiniões dos cidadãos. Não existe um gabinete dos delegados em Macau e quando os residentes têm problemas no interior da China não sabem a quem pedir ajuda. Por isso a sua função não consegue ser exercida como deve ser”, concluiu. Tanto o deputado como o seu parceiro de bancada na AL, Ng Kuok Cheong, fazem parte do grupo de pouco mais de 400 pessoas que elegem estes delegados, por vestirem a camisola do país. “Achamos que o país precisa de avançar de forma progressiva, e apesar de não existirem eleições com sufrágio universal, queremos mostrar o nosso apoio para que haja esse avanço. É por essa razão que eu e Ng Kuok Cheong somos membros das reuniões para a eleição dos delegados de Macau à APN”, concluiu Au Kam San. As eleições do próximo domingo são organizadas pelo chamado presidium, composto por 12 membros, onde se incluem o Chefe do Executivo. Os resultados do acto eleitoral serão enviados a Pequim que depois irá oficializar os nomes dos novos delegados. Para concorrer, cada um teve de apresentar o mínimo de dez cartas de nomeação. A eleição é feita por um grupo constituído por cerca de 400 pessoas, que não tem um nome oficialmente traduzido para inglês ou português. Os 15 que querem ocupar os 12 lugares disponíveis na APN são Ng Siu Lai, vice-presidente da União Geral dasAssociações de Moradores de Macau (ou kaifong), Ho Sut Heng, vice-presidente da Federação dasAssociações dos Operários de Macau, a advogada Paula Ling, o empresário Kevin Ho, os deputados Si Ka Lon e Kou Hoi In. Segue-se o presidente da AL, Ho Iat Seng, Dominic Sio, ex-deputado e empresário, José Chui Sai Peng, engenheiro civil, deputado e primo do Chefe do Executivo, Iong Weng Ian, Lok Po, director do jornal Ou Mun, Wong Ian Man, Fong Ka Fai, Lai Sai Kei, da Escola Keang Peng, e Lao Ngai Leong. Andreia Sofia Silva e Vítor Ng info@hojemacau.com.mo


6 política

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GONÇALO LOBO PINHEIRO

Falei várias vezes com Sulu Sou, inclusivamente aqui na AL, e sugeri que ele recorresse da decisão do plenário, na medida em que recorrendo da decisão tornaria nula a suspensão e tudo voltaria à estaca zero JOSÉ PEREIRA COUTINHO DEPUTADO

CASO SULU SOU PEREIRA COUTINHO SUGERIU RECURSO DA VOTAÇÃO DA AL

O fim é muito longe

O deputado José Pereira Coutinho sugeriu a Sulu Sou recorrer da votação da Assembleia Legislativa que ditou a sua suspensão. Contudo, este quis levar o caso até ao fim. Coutinho espera que “os tribunais sejam independentes”

S

ULU Sou viu o seu mandato como deputado ser suspenso após uma votação maioritária dos seus colegas da Assembleia Legislativa (AL) mas, afinal, tinha a possibilidade de voltar à estaca zero. Isto porque

Sulu Sou poderia ter recorrido da votação ao enviar o parecer da Comissão de Regimento e Mandatos da AL a tribunal, pelo facto de este não conter uma opinião nem uma instrução sobre o caso. Foi José Pereira Coutinho que sugeriu a Sulu Sou o recurso, mas

este recusou. “Falei várias vezes com Sulu Sou, inclusivamente aqui na AL, e sugeri que ele recorresse da decisão do plenário, na medida em que recorrendo da decisão tornaria nula a suspensão e tudo voltaria à estaca zero. Ele entendeu que deveria ver o

problema resolvido. Eu tenho uma opinião diferente”, revelou ontem Coutinho aos jornalistas, à margem da reunião da Comissão de Acompanhamento dos Assuntos de Administração Pública. Coutinho disse “concordar” que Sulu Sou queria “ver resolvido o mais rapidamente possível o problema da desobediência qualificada”. E deixou um recado à justiça. “Espero que os tribunais sejam independentes, porque Macau precisa muito disso como uma região administrativa especial da República Popular da China, que tem o segundo sistema que funciona e que dê garantias de confiança de que aquilo que se passou com ele não se volte a repetir.”

AU KAM SAN TEM DÚVIDAS

O HM tentou questionar Sulu Sou sobre este assunto, mas até ao fecho desta edição o ex-deputado nunca respondeu às nossas questões. Já o deputado Au Kam San considerou que as regras não obrigam a que um parecer da Comissão de Regimento e Man-

datos, neste tipo de casos, tenha de conter uma opinião. “A comissão é solicitada a comunicar a sua posição, mas o tipo de opiniões que são necessárias não está esclarecido no Regimento da AL. Apesar de Sulu Sou ter tomado como referência um caso em 1997, em que o parecer contém opiniões, foi apenas um caso e tal não significa que a comissão tenha de declarar opiniões. As regras não definem isto.” Neste sentido, Au Kam San não revelou uma posição clara quanto à possibilidade de apresentação de recurso. “Não é inadequado [que o parecer da comissão] tenha opiniões apenas ligadas aos processos e não ao próprio caso”, acrescentou.

MELHORES DEPUTADOS PRECISAM-SE

Ontem o deputado José Pereira Coutinho disse ainda, no contexto do caso Sulu Sou, que os membros do hemiciclo necessitam de ter uma melhor formação como deputados. “Talvez seja necessário no futuro dar cursos de formação a muitos deputados da AL que, inconscientemente, tomam atitudes e condutas que em nada abonam à qualidade de um deputado. Isto independentemente de ser um deputado nomeado ou eleito.” “Acho que existe muito desconhecimento do papel e do exercício de funções de deputado e saber que tem de agir em consciência com a decisão que toma é extremamente importante e tem profundas implicações no segundo sistema de Macau”, concluiu.

Inutilidade a metro

Coutinho acha desnecessárias filmagens das obras do Metro Ligeiro

O

deputado português é da opinião de que filmar as obras de construção do metro ligeiro é mais um exemplo de despesismo e de possível conluio entre uma empresa privada e o Governo. “Como temos os cofres cheios de dinheiro o Governo esbanja por tudo e por nada” assim como tem acontecido com “estudos de consultadoria, encomendas do exterior, relatórios que não servem para nada além de gastar demasiado dinheiro do erário público”, comenta Pereira Coutinho.

Foi publicado em Boletim Oficial que o serviço de filmagens das obras do metro ligeiro terá um orçamento de 5,5 milhões de patacas. Além de não ver razão para estes custos, o deputado alarga o leque da inutilidade ao próprio meio de transporte. “Macau não precisa de um metro para resolver os problemas do tráfego, se tivéssemos mais juízo teríamos melhorado a rede dos transportes públicos e a eficiência dos sistemas pedonais”, explica. Pereira Coutinho recorda que desde 2003, uma

empresa de Hong Kong do MTR havia dado a opinião de que o metro poderia ser construído debaixo do solo, uma concepção que viria a ser alterada. Ou seja, o projecto teve um arranque conceptual tremido e tem vindo a arrastar-se há demasiado tempo e dinheiro, Mesmo num contexto de integração regional que poderá sobrecarregar a rede de transportes públicos, Pereira Coutinho entende que “enquanto a Lei Básica durar, não temos de seguir planos do delta”. O depu-

tado aponta como caminho a necessidade de “Macau marcar a sua singularidade e identidade”, em vez de seguir a rota para “ser mais uma província da República Popular da China”. À saída de uma reunião da Comissão de Acompa-

nhamento para os Assuntos da Administração Pública, o deputado comentou ainda a situação das derrapagens orçamentais na obra da Ponte em Y. Nesse aspecto, o deputado comentou as declarações do secretário dos Transportes e Obras

Andreia Sofia Silva (com V.N.)

andreia.silva@hojemacau.com.mo

Públicas acerca das falhas contratuais pelos defeitos nas obras e atrasos que não vão motivar multas às empresas responsáveis, “porque as empreitadas eram baratas”. “Se eu tiver um salário muito baixo e for multado pela polícia devido a mau estacionamento posso alegar baixo salário para não pagar a multa?”, questiona Pereira Coutinho. “São essas as situações que nos deixam preocupados quanto ao pensamento e à forma de actuar dos titulares dos principais cargos públicos, algo que resvala também para os seus subordinados”, remata o deputado. A.S.S com J.L.


política 7

COMISSÃO GOVERNO CRIA LICENÇAS PROVISÓRIAS PARA ESTABELECIMENTOS

O senhor dá licença? O Executivo vai criar licenças provisórias para que as empresas possam abrir portas antes de obterem as licenças definitivas. Será criada uma comissão para a sua emissão e um sistema de cloud computing para partilha de dados

É GONÇALO LOBO PINHEIRO

uma luz ao fundo do túnel para os estabelecimentos que se deparam com os elevados investimentos e rendas por pagar ainda antes de poderem abrir portas ao público. Ontem, na reunião da Comissão de Acompanhamento para os Assuntos da Administração Pública da Assembleia Legislativa (AL), o Governo anunciou que não só vai criar licenças provisórias para todos os estabelecimentos, à excepção das farmácias, como vai criar uma nova entidade responsável pela sua emissão.

“No futuro vai ser criada a figura de licenças provisórias”, referiu o deputado Si Ka Lon, que preside à comissão. Para se ter acesso a esta licença provisória, o proprietário do estabelecimento deve recorrer a um arquitecto ou engenheiro para tratar do processo junto da entidade responsável por estes casos. “Se o proprietário delegar poder ao arquitecto ou ao serviço competente pode logo obter a licença provisória”, acrescentou.

SIMPLIFICAÇÃO À VISTA

Outra das medidas anunciadas pelo Governo passa pela concentração de todos os pedidos de licenciamento numa só entidade pública, algo que poderá ser realidade na primeira metade de 2018. “A comissão vai criar condições para simplificar as formalidades e acelerar os procedimentos para um novo pedido. Actualmente há uma compilação de documentos que passam por todos os serviços e depois é emitida a licença. Agora o Governo propõe colocar o processo numa comissão de apreciação conjunta em que os funcionários têm esse poder de aprovação”, adiantou Si Ka Lon. O excessivo tempo de espera por uma licença que permite a abertura de um estabelecimento foi, aliás, um dos temas mais abordados pelos deputados que compõem a comissão.

A uniformização dos pedidos vai chegar a todo o tipo de estabelecimentos, à excepção das farmácias. “As licenças de restaurantes levam muito tempo a ser emitidas e o Governo vai melhorar o sistema de licenças de one-stop do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais, mas não vai tratar das licenças das farmácias. Os Serviços de Saúde (SS) vão convidar as obras públicas para participar no processo de emissão de licenças das farmácias”, explicou o presidente da comissão. Segundo explicou Si Ka Lon, para licenciar uma farmácia de medicina tradicional chinesa é necessário mais de um ano, sendo que os SS demoram apenas 60 dias a tratar da parte do processo que lhe compete. “O requerente tem de pagar as rendas

“As licenças de restaurantes levam muito tempo a ser emitidas e o Governo vai melhorar o sistema de licenças de one-stop do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais.”

TIAGO ALCÂNTTARA

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e suportar os encargos e isso é muito pesado para os investidores, e por isso os SS vão convidar a DSSOPT”, adiantou Si Ka Lon. Outra das medidas adoptadas em prol da simplificação da emissão de licenças passa pela partilha de informações dos serviços num sistema de cloud computing (computação em nuvem). “O Governo vai fazer uma electronização das formalidades e das informações para que haja uma troca interna. As diferentes entidades envolvidas podem trocar opiniões, dados e informações.”

“SITUAÇÕES INJUSTAS”

A reunião da comissão de ontem debruçou-se sobre uma particularidade do regime de actividade hoteleira e similar, que os deputados querem ver resolvida. “Sem declarar a caducidade da licença o proprietário da loja não pode arrendá-la para que outra pessoa explore o negócio. Geram-se situações injustas. Queremos que só com base em contratos de arrendamento válidos as licenças possam continuar, se não são caducadas. Este fenómeno existe nas licenças, sobretudo na área da restauração. Vários deputados levantaram esta questão”, concluiu Si Ka Lon. Andreia Sofia Silva

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SI KA LON DEPUTADO

Fitas na sopa

Helena de Senna Fernandes responde a Agnes Lam

A

directora dos Serviços de Turismo, Helena de Senna Fernandes, respondeu ontem às acusações proferidas pela deputada Agnes Lam na Assembleia Legislativa, onde referiu que a organização Festival Internacional de Cinema tem vindo a distribuir demasiados bilhetes gratuitos. “Há diferentes formas que estamos a tentar explorar junto das escolas. Temos de fazer com que as novas gerações criem este hábito de irem ao cinema. É

por esta razão que estamos a trabalhar com as escolas. Desta vez, em termos de entradas no cinema, estamos melhor do que no ano passado, mas há sempre coisas para melhorar. Vamos ouvir as diferentes opiniões e fazer um balanço”, referiu a directora dos Serviços de Turismo. No hemiciclo, Agnes Lam lembrou que o festival, com um orçamento de 20 milhões de patacas, precisa de conseguir atrair os residentes. “De acordo

com informações oficiais, 10 mil dos 15 mil bilhetes [distribuídos para a cerimónia de Entrega de Prémios do Festival] eram cupões que foram distribuídos principalmente às escolas, associações e a profissionais do sector cultural e artístico de Macau e do exterior, e da comunicação social”, apontou. “Esta iniciativa custou 20 milhões de patacas do erário público e deveria servir para atrair turistas e criar marcas culturais locais. Se até foi difícil convencer as pessoas a comprar bilhetes, como é que se pode dizer que a iniciativa alcançou os objectivos?”, questionou ainda Agnes Lam. A.S.S./S.M.M.


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TIAGO ALCÂNTARA

ao Governo, para que pressione o Canídromo a disponibilizar os cães para adopção e que deixa a associação gerir o espaço durante um ano, enquanto encontra um lar para todos os galgos. Até ao momento, as várias cartas enviadas ao Chefe do Executivo e ao secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, ficaram sem qualquer resposta.

“Não conseguimos começar a campanha para encontrar mais donos e não queremos já receber os fundos das outras associações porque não temos cães para entregar.” ALBANO MARTINS PRESIDENTE DA ANIMA

ANIMA TEM 371 PESSOAS À ESPERA DE ADOPTAR UM GALGO NO CANÍDROMO

Daqui não saem, daqui ninguém os tira Associação de protecção dos animais com lista de espera para receber galgos, mas Albano Martins queixa-se que Canídromo não quer entregar os animais. No Interior da China um galgo pode ser vendido por preços até às 4 mil patacas

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A N IM A tem 317 pessoas em lista de espera para adoptarem galgos do Canídromo de Macau. Contudo, a associação não consegue começar já a enviar os animais porque a empresa responsável pelo espaço, ligada à deputada Angela Leong, não quer disponibilizar os galgos para adopção. O cenário foi traçado, ontem, pelo presidente da associação de protecção dos animais, Albano Martins. “Temos neste momento uma lista com 317 pessoas de 14 países e regiões que estão preparadas para adoptar os cães.”, afirmou Albano Martins. “Temos 37 organizações a dizerem-nos que aceitam os cães, que fazem campanha connosco para encontrar uma casa para os

animais e que podem doar-nos dinheiro para ajudar. Mas ainda não aceitámos o dinheiro, porque não temos cães disponíveis”, acrescentou. Albano Martins aproveitou para clarificar que neste momento a maior dificuldade passa pelo facto do Canídromo não estar interessado em que os galgos sejam entregues para adopção. De acordo com os números apresentados pela ANIMA, desde 1963 até hoje o Canídromo apenas cedeu oito galgos para adopção. Ainda segundo explicou o presidente da ANIMA, há urgência na entrega dos galgos porque o processo de adopção leva algum tempo. Por exemplo, se os cães forem adoptados por pessoas fora de Macau, é preciso realizar exames

aos sangue dos animais três meses antes do transporte. A maioria dos interessados na adopção são fora de Macau, de países como Inglaterra, França, Itália, Hong Kong, entre outros. Actualmente existem no Canídromo 605 galgos, dos quais 539 estão em condições de correr e 66 inactivos, que podem ser adoptados. Os 605 animais estão distribuídos por 44 donos. “Não conseguimos começar a campanha para encontrar mais donos e não queremos já receber os fundos das outras associações porque não temos cães para entregar”, explicou Albano.

GOVERNO SEM RESPOSTA

Para salvar o maior número de galgos, a ANIMA fez dois pedidos

Por essa razão a ANIMA está a preparar-se para ter de encontrar um espaço para os animais, na iminência de não ser autorizada a gerir o Canídromo: “Estamos a preparar-nos para o pior cenário e estamos à procura de uma unidade industrial para colocar os galgos, enquanto procuramos uma solução”, revelou. “A deputada Angela Leong criou uma associação de protecção dos animais, mas tememos que seja apenas uma associação fachada para levar os galgos para o Interior da China”, afirmou também Albano Martins. No Interior da China os galgos podem ser vendidos por valores que chegam às 3 mil e 4 mil patacas, onde são utilizados para corridas legais, mas que acabam por promover apostas ilegais. Por esse motivo, a ANIMA enviou uma carta ao Gabinete de Ligação. “Vender os galgos para o Interior da China é capaz de ser a solução mais fácil para o Canídromo. Mas os cães só podem ser exportados com a autorização do Governo. Se não conseguirmos que o Governo previna a exportação, esperamos que no Interior da China não autorizem a importação”, apontou Albano Martins. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


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GCS

15.12.2017 sexta-feira

Este ano a FAOM teve igualmente ocasião de cumprimentar o Chefe do Executivo e apresentar as suas posições

FAOM CONGRATULA-SE COM A ELEIÇÃO DE QUATRO DEPUTADOS

Festa operária

Na reunião de balanço do ano, o presidente da FAOM, Leong Wai Fong, congratulou-se por ter eleito dois deputados e promete guerra para manter os direitos do trabalhadores

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M ano cheio de sucesso devido à eleição de dois deputados pela via directa. Foi este o principal destaque de Leong Wai Fong, presidente da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), que ontem

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este reunida na 2ª reunião da 34ª assembleia geral, que juntou cerca de 500 representantes de sectores sociais. Durante o encontro, o presidente Leong Wai Fong recordou que este ano as prioridades da FAOM focaram os trabalhos preparativos para as eleições legislativas e que

ECORREU esta terça-feira a 80ª assembleia-geral da Associação Comercial de Macau (ACM), tendo sido eleitos os novos corpos sociais. Segundo o jornal Ou Mun, Ma Iao Lai continua a ser o presidente da direcção, tendo sido eleitos como vice-presidentes o empresário Liu Chak Wan, o presidente da Assembleia Legislativa (AL), Ho Iat Seng, Chui Sai Cheong, vice-presidente da AL, Fong Chi Keong, ex-deputado, Ho Hao Tong, Ngan In Leng e a co-presidente da MGM China, Pansy Ho.

foram bem sucedidos, devido ao resultado que permitiu eleger dois deputados. Além disso, Leong elogiou a prestação da FAOM por ter feito uma renovação geracional nos membros da Assembleia Legislativa. Face aos grandes objectivos para o próximo ano,

o presidente revelou que vai estabelecer um grupo de trabalho para reformar a FAOM, com o objectivo de transformar de forma profunda os serviços oferecidos aos membros. A estratégia passa assim por equacionar criar um centro de serviços para os operários, que a FAOM acredita que vai ser fundamental para desenvolver os poderes da população mais desfavorecida. Ao mesmo tempo, os Operários estão a equacionar criar novas associações. Por outro lado, com vista a garantir o desenvolvimento de quadros qualificados e alargar a base de talentos da FAOM, o dirigente prometeu reforçar a formação para jovens, assim como para o pessoal das associações.

Leong Wai Fong também salientou que vai tratar da administração do lar para prestação de cuidados a idosos em Ka Ho, concedido pelo Governo. Quanto aos direitos e interesses dos operários, a FAOM assegurou que vai continuar a avançar com a revisão da lei das relações de trabalho e aperfeiçoar as políticas para a contratação de trabalhadores não-residentes.

GUERRA AOS INTERESSES

No que diz respeito à lei laboral, o responsável fez questão de discurso e reforçar a ideia de que a FAOM não vai aceitar uma redução dos direitos conquistados. Por outro lado, o responsável frisou que a FAOM vai continuar a exercer a

Patrões dizem apoiar empregados Ma Iao Lai continua presidente da Associação Comercial de Macau

No discurso que proferiu, Ma Iao Lai destacou o sucesso da realização do 19º congresso do Partido Comunista Chinês, tendo lembrado que, de acordo com as palavras do presidente Xi Jinping, estão esclarecidas as perspectivas do Governo Central em relação ao território, que exigem a prática da política “Um País, Dois Sistemas”.

Na visão de Ma Iao Lai, deve-se garantir a compreensão da administração das duas regiões administrativas especiais, de acordo com a Lei Básica e a constituição chinesa. O presidente reeleito da ACM disse que, no contexto da revisão da lei laboral e da implementação do salário mínimo universal, os patrões não estão contra os

trabalhadores, tendo enfatizado que a garantia dos seus direitos e interesses podem elevar a moral e manter os profissionais nas empresas. O problema da lei Kou Hoi In, deputado à AL e membro da ACM, apresentou o relatório dos trabalhos já realizados pela associação nos últimos meses, tendo concluído que as opiniões

função de ponte entre o Governo e os cidadãos, no sentido de apoiar e fiscalizar os trabalhos do Executivo, e assegurar a governação adequada. Ainda de forma a elevar o nível de participação política e formar mais talentos para participar na sociedade, o dirigente prometeu que a FAOM vai ter um total de cinco gabinetes de deputados no território, e introduzir um mecanismo de consulta e avaliação dos especialistas. No final, o político garantiu que participar nos assuntos ligados ao país e reforçar a divulgação da lei básica. Para tal, disse que vai continuar os trabalhos de sensibilização da Lei Básica, assim como vai fomentar a legislação da lei do hino nacional em Macau. Vitor Ng

dos sectores têm sido reveladas ao Governo. O deputado acrescentou que a actual lei das relações do trabalho tem causado obstáculos ao desenvolvimento dos sectores comercial e industrial. Kou Hoi In lamentou ainda que a compensação, pela via do salário, dos feriados obrigatórios traga um impacto negativo para a construção de Macau como um centro mundial de turismo e lazer. Como tal, Kou Hoi In pede uma revisão em prol de uma lei científica e operacional.


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sexta-feira 15.12.2017

Saúde Subida exponencial de escarlatina

Diários de um Inspector João Augusto da Rosa recorda o caso do rapto de Neto Valente

Desde a segunda quinzena do mês passado a RAEM tem registado uma subida exponencial de casos de escarlatina. Os Serviços de Saúde tomaram conta de uma média de seis casos por semana sendo que nas duas últimas semanas o número de casos subiu para uma média de 15 casos. No período homólogo do ano passado a média de casos registados foram de nove casos por semana. Até ao dia 13 de Dezembro, foram registados 402 casos de escarlatina. No período homólogo de 2017 foram registados 386 casos. A proporção entre sexo masculino e feminino é de 1,3 casos para 1 caso infectando crianças com idades compreendidas entre os 11 meses e os 13 anos. O maior número de casos, 89 por cento, atinge crianças entre os 3 e 8 anos de idade. Durante 2017 foram registados 17 casos que necessitaram de internamento hospitalar, mas que tiveram alta hospitalar. Não foram registados casos graves ou mortais, nem casos colectivos de escarlatina.

Sónia Chan Lei dos táxis concluída no primeiro trimestre de 2018

A secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, disse ontem que o novo regulamento dos táxis deverá estar concluída no primeiro trimestre do próximo ano. Segundo um comunicado, a Direcção dos Serviços para os Assuntos da Justiça (DSAJ) “estão a ultimar os trabalhos de análise à proposta de revisão do Regulamento dos Táxis”. Neste momento a DSAJ está a “proceder à análise final do texto, após a qual será necessária ainda uma troca de opiniões sobre alguns aspectos da proposta com os serviços responsáveis pela sua elaboração”. Sónia Chan disse ainda que foi “consultada a opinião do Gabinete para a Protecção de Dados Pessoais sobre a questão da gravação de som no interior dos táxis”.

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ex-inspector da Polícia Judiciária recordou ao Jornal Ou Mun que quando se tornou investigador adjunto de 1ª classe foi um momento em que sentiu um sentimento forte para assumir as suas responsabilida-

des do cargo. João Augusto da Rosa confessou que enfrentou episódios de grande dificuldade antes do período de transferência de soberania pela instabilidade e violência que fazia sentir no território. Nesse tempo, Macau era palco para muitos incidentes

de tiroteios, atendados à bomba e homicídios, factores que procurou a família do ex-polícias momentos de grande aflição. O adjunto do Comandante-geral deu alguns detalhes do caso do rapto de Jorge Neto Valente, que remonta a 2001. João Augusto

DSAL recebeu mais queixas Casinos terão mudado regalias dos trabalhadores sem os informar

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LOEE Chao, presidente da Associação Novo Macau para os Direitos dos Trabalhadores do Jogo, dirigiu-se ontem à Direcção dos Serviços para osAssuntos Laborais (DSAL) para apresentar queixas dos trabalhadores dos casinos. Estes queixam-se da alteração das suas regalias sem que as operadoras os tenham informado. A mudança prende-se com o facto dos trabalhadores terem agora de escolher entre o fundo de previdência ou o fundo de aposentação quando chegarem à idade da reforma. Segundo explicou Cloee Chao ao HM, esta alteração atinge 20 mil funcionários, uma vez que antes os fun-

cionários de jogo, quando atingiam a idade da reforma, podiam obter o fundo de previdência assim como o de aposentação. As novas regras tornaram-se conhecidas quando um segurança de um casino foi confrontado com a obrigatoriedade de escolha. Com esta alteração, cada funcionário que trabalha no mesmo casino há dez anos pode obter menos dinheiro num valor de mais de 100 mil patacas, estima a presidente da associação. A insatisfação levou centenas de funcionários a pedirem ajuda à DSAL, pois as alterações entraram em vigor no início do ano e ninguém foi avisado. O caso levou

Cloee Chao a um primeiro encontro com a DSAL a 14 de Dezembro, mas a DSAL respondeu que, como a lei das relações de trabalho não prevê o fundo de previdência, é necessário tempo para verificar os conteúdos dos contratos assinados entre os funcionários e o empregador para avançar com uma resolução. Na visão da presidente, as operadoras de jogo precisam de esclarecer as alterações junto dos seus funcionários. Tendo em conta o grande volume de lucros obtidos pelas concessionárias de jogo, os responsáveis deveriam garantir os interesses dos trabalhadores, defendeu a ex-candidata às eleições legislativas. V.N.

da Rosa recorda o momento em que o caso começou, com um veículo abandonado com a porta aberta na zona de Nam Van, o que levantou imediatamente a suspeita de se estar na presença de um caso de rapto. Como tal, iniciaram-se logo trabalhos de investigação e começou a caça ao homem na busca dos raptores, tendo sido criado um grupo específico para o caso. No processo da investigação, João Augusto da Rosa destacou os contributos de Wong Sio Chak, elogiando a forma como conduzia operações de investigação e como era um activo policial com muitos conhecimentos. A investigação prosseguiu até se ter encontrado um toxicodependente que no final deu pistas sobre o local onde se encontrava o advogado. No final, tendo auxílio do grupo de operações especiais e das forças de polícias, tendo o advogado sido salvo numa altura em que duvidava muito que pudesse ser encontrado com vida. O adjunto do Comandante-geral dos Serviços de Polícia Unitários, salientou ainda a importância do espírito da cooperação da equipa. Recordando o seu início de carreira ao Jornal Ou Mun, João Augusto da Rosa disse que começou a trabalhar na Polícia Judiciária em 1981, quando tinha 21 anos, tendo completado 36 anos de serviço. O adjunto contou que no início escolheu o curso de contabilidade e que apesar de ter tido oportunidade de trabalhar na Companhia de Electricidade de Macau (CEM) por um ano, sentiu que não estava no sítio certo e acabou por escolher a carreira policial.


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15.12.2017 sexta-feira

PARIS SMILE INAUGURA EXPOSIÇÃO A SOLO

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‘graffiter’ português Ivo Santos, que assina Smile, inaugura hoje, sexta-feira, a sua primeira exposição a solo em Paris, “Stray Thoughts”, composta totalmente por trabalhos novos. A mostra, que estará patente na galeria GCA, é composta por trabalhos feitos propositadamente para a ocasião e cria “um mundo imaginário com uma mistura do real”. O tema são “os super-heróis, ligados com a arte de rua, crianças e animais”. “O que une os trabalhos é a rua, a pintura, tudo o que tenha que ver com intervenção no espaço público: os super-heróis atuam na rua, as crianças sonham ser super-heróis, neste caso da pintura, os animais fazem parte da rua, do dia-a-dia, e muitos deles, por vezes, tornam-se heróis sem querer, ao salvarem ou mudarem vidas”, referiu Smile, em declarações à agência Lusa. A oportunidade de expor em Paris surgiu com um convite dos res-

ponsáveis da galeria GCA, que contactaram Smile depois de terem visto na rede social Instagram algumas imagens dos seus trabalhos. Apesar de o seu trabalho ser feito sobretudo nas ruas, directamente nas paredes, em “Stray Thoughts” usou como suporte as telas, embora haja uma pintura “feita na parede que fará parte da exposição”. A mostra estará patente entre a próxima sexta-feira e 13 de Janeiro. Smile irá regressar a Paris em Maio, para fazer uma pintura na rua com curadoria da galeria GCA, “que será um género de continuação da exposição”. PUB

Pessoa na ponta dos dedos ARQUIVO DIGITAL DO LIVRO DO DESASSOSSEGO PARA LER E MEXER

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Arquivo LdoD, esta quinta-feira apresentado em Coimbra, é uma poderosa máquina literária, onde pode ver todos os documentos originais ou comparar as várias versões impressas da fragmentária obra-prima pessoana, mas também organizar a sua própria edição do livro. Chama-se Arquivo LdoD, mas é muito mais do que um mero acervo digital da documentação original do Livro

do Desassossego (LD). Quem acede a https://ldod.uc.pt/entra numa espécie de máquina literária, onde pode limitar-se a ler, mas também é desafiado a assumir outros papéis, seja o de antologiador ou editor da incatalogável obra pessoana, seja, num futuro próximo, o de criador, escrevendo novos textos a partir dos fragmentos do LD. O projecto foi apresentado ontem no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC) por

Manuel Portela, do Centro de Literatura Portuguesa da UC, que o concebeu e coordenou, e por António Rito Silva, do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores (INES-ID) do Instituto Superior Técnico, responsável pela arquitectura do sofisticado software envolvido, já está em linha e foi pensado para poder ser manuseado com facilidade e proveito por utilizadores muito diversos: estudantes, investigadores, leitores em geral, mas tam-

bém, por exemplo, futuros editores ou tradutores do LD, que a partir de agora dificilmente poderão deixar de passar por este arquivo. Interessado há muito pelas questões – e oportunidades – que a migração do património literário para o meio digital levanta, o poeta, ensaísta e tradutor Manuel Portela encontrou nesse objecto genialmente fragmentário, inacabado e aberto que é o Livro do Desassossego o candidato ideal para esta ambiciosa experiência concreta, sem precedentes conhecidos entre os arquivos digitais dedicados aos grandes escritores mundiais. “Do ponto de vista conceptual, introduzimos uma dimensão nova, que é o facto de o utilizador não se colocar apenas no papel de intérprete, mas ser posto numa relação de manipulação com o texto”, diz. Portela começou a pensar no projecto em 2009, mas este só arrancou em 2012, com o patrocínio da Fundação para a Ciência e Tecnologia, o apoio de fundos europeus e o envolvimento do Centro de Literatura Portuguesa da UC, do INESC-ID e da Biblioteca Nacional. Logo que abre a homepage deste arquivo, muito bem conseguida também em termos gráficos, o utilizador é confrontado com um menu que lhe aponta cinco caminhos possíveis, correspondentes a outras tantas funções: “Leitura”, que oferece diferentes modos de ler o LD; “Documentos”, que lista todos os fragmentos, fornecendo informação técnica sobre cada um deles, bem como linkspara as respectivas fontes documentais e transcrições; “Edições”, onde se po-

CINEMA “FÁTIMA”, DE JOÃO CANIJO, NO FESTIVAL DE ROTERDÃO

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filme “Fátima”, de João Canijo, fará a estreia internacional em Janeiro no Festival Internacional de Cinema de Roterdão, na Holanda, revelou a Midas Filmes. João Canijo apresentará “Fátima” na secção “Voices”, ao lado de filmes como “The shape of water”, de Guillermo del Toro, “Outrage Coda”, de Takeshi Kitano, “Western”, de Valeska Grisebach, “Gangway to a Future”, de René Hazekamp, e “Anna’s War”, de Alexey Fedorchenko.

Este será um regresso de João Canijo ao Festival de Roterdão, trinta anos depois de aí ter apresentado, na abertura oficial, o primeiro filme, “Três menos eu”, de 1988. A 47.ª edição do Festival Internacional de Cinema de Roterdão decorrerá de 24 de Janeiro a 4 de Fevereiro, e a programação completa será apresentada a 17 de Janeiro. “Fátima”, que já teve estreia comercial em Portugal e foi visto por cerca de 25 mil espectadores, é uma ficção que acompanha um grupo de mulheres de uma aldeia de Trás-os-Montes, em peregrinação até ao santuário de Fátima. A peregrinação mais longa até Fátima, com mais de 400 quilómetros, parte precisamente de Vinhais, a aldeia onde um grupo de 11 actrizes portuguesas viveu durante o trabalho de preparação e rodagem para o filme de João Canijo.

O pretexto para João Canijo explorar a relação de convivência entre mulheres acabou por ser a peregrinação a Fátima, que as 11 actrizes - e o próprio realizador - experimentaram no processo criativo e que simularam depois na rodagem. Em “Fátima” entram as atrizes Rita Blanco, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Vera Barreto, Teresa Madruga, Ana Bustorff, Teresa Tavares, Alexandra Rosa, Íris Macedo, Sara Norte e Márcia Breia. Apesar de ter uma base documental, o filme é fruto de uma encenação. “Foi tudo absolutamente estudado. (...) Portanto, confunde-se, como em tudo, a personagem com a ‘persona’, mas isso é sempre assim. Os atores nunca saem de si próprios, não se transformam em mais ninguém. E essa confusão também me agrada bastante”, afirmou o realizador à agência Lusa, quando da estreia comercial.


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sexta-feira 15.12.2017

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palavra; e ainda “Virtual”, um espaço onde o utilizador pode criar a sua própria edição do LD ou organizar uma antologia do livro. A estas cinco funcionalidades, adianta Manuel Portela, irá somar-se uma sexta, a “Escrita”, que estará disponível “talvez daqui a dois anos”. A ideia, explica, é “permitir que os utilizadores escrevam com base no Livro do Desassossego, expandindo-o, completando textos inacabados ou usando-o como ponto de partida para novas

Do desespero

Carta da viúva de Liu Xiaobo preocupa amigos e familiares

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S familiares e amigos do Nobel da Paz Liu Xiaobo, que morreu em Julho, expressaram ontem preocupação com o estado de saúde da viúva do dissidente chinês após a divulgação de uma carta cujo conteúdo foi considerado perturbador. A poetisa Liu Xia, de 56 anos, tem estado sob vigilância policial desde que o seu marido recebeu o Nobel da Paz em 2010, uma distinção que provocou a irritação das autoridades chinesas. Numa carta escrita em forma de poema e endereçada à Nobel da Literatura de 2009, a escritora alemã de ascendência romena Herta Müller, a viúva de Liu Xiaobo disse estar “a ficar louca”. “Estou muito sozinha / Não tenho o direito de falar / De falar alto / A minha vida é como uma planta / Estou deitada como um cadáver”,

DAVID GRAY / REUTERS

ALMADA NEGREIROS

dem visualizar os documentos originais e as transcrições feitas pela própria equipa do arquivo, mas também optar por uma das quatro edições disponíveis do LD, escolher um fragmento e perceber, através das opções oferecidas num menu lateral, como aquele mesmo fragmento foi tratado pelos restantes editores do livro; “Pesquisa”, uma poderosa ferramenta de busca que permite procurar fragmentos segundo o suporte, a assinatura, a data e inúmeros outros critérios, incluindo o tema ou a presença de determinada

criações literárias. E todos estes contributos, bem como as antologias e edições propostas pelos utilizadores, ficarão no sistema. Ou seja, se no futuro próximo alguém abrir neste arquivo, por exemplo, o fragmento que começa “Amo, pelas tardes demoradas de verão, o socego da cidade baixa (…)”, encontrará o respectivo dactiloscrito conservado na BN, a digitalização da sua versão impressa no n.º 2 de A Revista, e a sua transcrição nas quatro edições do LD, mas poderá ainda ver como este texto em particular foi tratado nas antologias e edições entretanto organizadas pelos utilizadores ou verificar se alguém se terá inspirado nele para propor variações ou novas criações literárias. “Arquivo foi a palavra que usámos no início, mas é mais um simulador, um ambiente dinâmico em que se pode não apenas ler o texto de Pessoa, mas brincar, mexer, recombinar”, resume Manuel Portela.

escreveu a poetisa chinesa, segundo excertos citados pelas agências internacionais. O conteúdo da carta foi considerado pelos mais próximos como perturbador e revelador de um eventual estado depressivo. O intelectual e dissidente chinês exilado na Alemanha Liao Yiwu, amigo do casal, publicou uma imagem da carta na rede social Facebook no passado dia 9 de Dezembro. “Ela está a tomar muitos medicamentos para controlar a depressão”, afirmou Liao Yiwu, a partir de Berlim, em declarações via telefone à agência noticiosa

francesa France-Presse. Liao Yiwu assegurou que a viúva de Liu Xiaobo enviou o poema “recentemente”, mas sem explicar como a poetisa conseguiu ultrapassar as restrições de segurança. Outro amigo do casal, que recusou identificar-se, mas que vive em Pequim, afirmou que não consegue falar com a poetisa desde agosto. Os Estados Unidos e a União Europeia (UE) apelaram ao governo chinês para que libertasse a viúva do dissidente e que autorizasse Liu Xia a deslocar-se ao estrangeiro. Liu Xiaobo, o primeiro chinês a ser distinguido com o Nobel da Paz, morreu a 13 de Julho deste ano num hospital de Shenyang, nordeste da China, vítima de cancro do fígado. O dissidente tinha 61 anos. O dissidente, que cumpria há mais de oito anos uma pena de 11 por “subversão”, foi libertado condicionalmente no final de maio da prisão, dias depois de lhe ter sido diagnosticado o cancro em fase terminal, e transferido para o hospital.


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15.12.2017 sexta-feira

PEQUIM AUMENTA SUA INFLUÊNCIA NA AMÉRICA LATINA GRAÇAS À FALTA DE ESTRATÉGIA DOS EUA

Como gerir um vazio

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M A semana depois da eleição de Donald Trump, o presidente Xi Jinping viajou para a América Latina pela terceira vez em três anos para enviar uma mensagem clara: a China quer ser o principal aliado da região. “Se compartilharmos a mesma voz e os mesmos valores, podemos conversar e nos admirar sem que a distância importe”, prometeu o líder asiático à presidente chilena, Michelle Bachelet, em Santiago. Com quase um ano de Trump na Casa Branca, o Governo dos EUA está em retirada do plano internacional, questionando alianças e rompendo acordos. Na América Latina, a China, que há mais de dez anos é um importante parceiro comercial, aumenta agora a sua influência política, cultural e social para ocupar o vazio criado pela ausente estratégia norte-americana. Trump chegou à Casa Branca utilizando uma retórica nacionalista e proteccionista no âmbito comercial. A América Latina observou o carácter imprevisível de um novo presidente anti-establishment com incerteza.

Mas, em menos de um ano, o presidente norte-americano confirmou a lealdade à sua agenda antiglobalização “América Primeiro”. Trump retirou os EUA do Acordo de Paris – no qual estão todas as nações do mundo – e do Tratado Comercial com o Pacífico (TPP) com países asiáticos e latino-americanos. O presidente também ameaçou acabar com o Tratado de Livre Comércio (Nafta) com o México e o Canadá. Com essas e outras decisões, Trump distanciou os EUA de sua posição hegemónica mundial e forçou os seus aliados tradicionais a procurarem e reforçarem outras alianças. Além das repetidas sanções contra o Governo da Venezuela e o retrocesso nos pactos comerciais, a nova Administração não estabeleceu uma estratégia de aproximação com os seus vizinhos do Sul e ainda não nomeou os diplomatas dos postos de maior importância no Departamento de Estado. Os EUA, nas suas poucas referências à América Latina, centraram o seu discurso na mão firme contra a imigração e o narcotráfico.

PASAPORTEBLOG

Enquanto Trump rompe acordos e questiona alianças, o gigante asiático impulsiona os laços políticos, culturas e sociais com a região

A viagem de Xi Jinping, recheada de simbolismo, sugeriu uma aceleração para aprofundar as relações entre a América Latina e o seu país, que há 15 anos aumentou exponencialmente os investimentos na região. Nesse tempo, o gigante asiático multiplicou por 22 vezes o volume do seu comércio com os países da região. Em 2016, investiu aproximadamente 90 mil milhões de dólares nesses países. A China hoje já é o principal parceiro comercial do Brasil, Chile e Peru. Mas sua marca na América Lati-

na já ultrapassa os âmbitos económicos. “Agora a China tenta conseguir influência política. Cada vez consegue penetrar mais nas esferas académicas, culturais, sociais assim como na imprensa. Têm milhares de iniciativas para conectarem-se com as elites e pessoas de influência, por exemplo líderes de opinião, diplomatas, jornalistas, para lhes levar uma visão positiva da China”, afirmou nessa semana o pesquisador e jornalista Juan Pablo Cardenal numa conferência organizada em

Taiwan. Outra vez o referendo Pequim expressa oposição às actividades secessionistas

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EQUIM opõe-se resolutamente às actividades secessionistas de “independência de Taiwan” sob qualquer forma, incluindo o chamado referendo, disse nesta quarta-feira um porta-voz da China continental. An Fengshan, porta-voz do Departamento dos Assuntos de Taiwan do Conselho de Estado, fez o comentário em resposta a uma pergunta sobre “o projecto da lei de referendo” aprovado pelo órgão legislativo de Taiwan. “Opomo-nos firmemente à de-sinicização sob qualquer nome ou de qualquer forma. Os compatriotas dos dois lados devem

ser vigilantes contra as forças secessionistas da ‘independência de Taiwan’”, disse An. An também mencionou livros escolares em idioma chinês conjuntamente compilados pelas instituições educacionais dos dois lados do Estreito de Taiwan, que as escolas secundárias de Taiwan usam a partir de Outubro deste ano. O porta-voz chinês disse que a parte continental e Taiwan compartilham a mesma tradição cultural e os livros escolares impulsionarão a cultura nacional tradicional. Segundo An, a parte continental da China dialogaria com qualquer

partido político, organização ou indivíduo que seguir o princípio Uma Só China e o Consenso de 1992, e que se opõe à “Independência de Taiwan”. An disse ainda que mais comunicação e confiança mútua entre o departamento e o Novo Partido podem impulsionar adiante o desenvolvimento pacífico das relações através do Estreito e avançar o processo em direcção à reunificação pacífica do país. A Parte continental também teve comunicação regular com o KMT, revelou o porta-voz. An acusou a administração do Partido Democrata Progressista

Washington pelo think-tank Americas Society, Council of the Americas. Outros não acreditam nisso. “Só querem negócios, matérias primas e comércio”, defendeu o ex-embaixador mexicano na China, Jorge Guajardo. Nos últimos anos, entretanto, o Governo chinês e as suas agências impulsionaram iniciativas afastadas do âmbito comercial. “Convidam pessoas para ir à China participar em conferências, expor uma imagem benévola do regime, e os ‘transformam’ em embaixadores de facto

(PDP) de sempre obstruir a comunicação e a cooperação, e provocar a oposição e hostilidade entre as pessoas dos dois lados. Depois de 30 anos de intercâmbios, comunicação, cooperação e desenvolvimento têm sido a aspiração comum das pessoas de ambos os lados do Estreito e nada pode inverter essa tendência, notou An. “Mais taiwaneses perceberam a sinceridade da parte continental e viram a parte continental objectivamente. A parte continental forneceu oportunidades em vez de ameaças a Taiwan”, lembrou An. “O desenvolvimento pacífico das relações através do Estreito beneficiou as pessoas de ambos os lados enquanto a ‘independência de Taiwan’ causaria danos para as pessoas, especialmente as de Taiwan, concluiu An.

do Governo chinês. Frequentemente lemos colunas de opinião na imprensa da região que emulam o discurso feito pelo Partido Comunista da China”, explicou Cardenal, que pesquisou a influência da China em mais de 40 países. Há um ano Xi Jinping anunciou que nos próximos anos o seu Governo dará as boas-vindas a mais de 10.000 jovens líderes, 500 jornalistas e até 1.500 representantes políticos para participarem em eventos. A China criou Institutos Confúcio  em universidades de nove países, para promover a aprendizagem de chinês e da cultura do país, e programas de intercâmbio para estudantes. Apesar de existir pouca liberdade de imprensa na China, o país e a América Latina forjaram uma estreita cooperação que todo ano realiza um congresso com os principais actores dos veículos de comunicação da região. “As associações, as empresas e o Governo chineses remam na mesma direcção: querem favorecer os objectivos nacionais estratégicos do país”, afirmou Cardenal. Longe de diminuir, o crescimento da China na América Latina é visto como um fracasso da política norte-americana, como disseram os especialistas. Com o possível fim do Nafta, para muitos um acordo vital para a economia dos EUA, a China já se colocou como uma alternativa ao México. Se isso acontecer, a sua sombra surgiria na fronteira sul, aquela que Trump quer proteger com um muro.

Palestina Pedida rápida retoma das negociações

A China pediu nesta quinta-feira a rápida retoma do diálogo entre Israel e a Palestina, de modo a dar uma oportunidade a uma solução abrangente e justa para a questão, anunciou um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês. Uma cimeira dos países islâmicos, realizada em Istambul na quarta-feira, declarou Jerusalém Oriental a capital do Estado da Palestina, segundo a imprensa. A China entende as preocupações dos países islâmicos com o estatuto de Jerusalém, disse o porta-voz Lu Kang, solicitando uma solução para a questão de acordo com as resoluções relevantes da ONU e o consenso internacional. Lu assinalou que a China apoia o estabelecimento de um Estado palestino independente com plena soberania baseado nas fronteiras de 1967 com Jerusalém Oriental como capital.


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sexta-feira 15.12.2017

DEUTSCHE BANK CHINA É PAIS COM MAIOR RISCO

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China é a grande economia do mundo onde é maior o risco de uma crise financeira, com quase o dobro da probabilidade do segundo colocado. O alerta parte de uma nota do Deutsche Bank  assinada por Michael Spencer, economista-chefe para região da Ásia-Pacífico. A probabilidade de crise na China ficou em 13%, seguido por Canadá (8.6%), Arábia Saudita (7,7%), Turquia e Chile  (7,4%), Hong Kong (7%) e Australia (6,9%). O Brasil tem 1,7%. Ainda assim, o risco chinês não chega nem perto dos 50% verificados, por exemplo, em países como Espanha e Irlanda em 2010, quando despontava o problema da dívida europeia. O modelo também indica, ainda que de forma menos contundente, a gestação da crise financeira asiática dos anos 90 em países como Tailândia, que mostrava risco de 30% na época.

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Os riscos chineses já estão no radar faz algum tempo. Em Maio, a agência de classificação de risco Moody’s baixou a nota de crédito da China pela primeira vez em quase 30 anos. Em Setembro, foi a vez da Standard & Poor’s fazer o mesmo e baixar a nota em um degrau, citando o aumento dos riscos económicos e financeiros. A dívida total não-financeira chinesa explodiu de 160% do PIB em 2008 para 260% do PIB

actualmente, em grande parte fruto de estímulos para amortecer a crise financeira americana. O crescimento do PIB seguiu em patamares elevados, mas a dose do remédio passou a preocupar. O Fundo Monetário Internacional alertou em Dezembro que “a crescente complexidade do sistema semeou riscos de estabilidade financeira”. O diagnóstico é que uma política fiscal e monetária expansionista e o desenvolvimento

Passos seguros

Reforma das empresas estatais para melhorar qualidade e eficiência

REUTERS/JASON LEE

China impulsionará a reforma das suas empresas estatais a fim de fornecer uma maior força motriz para o desenvolvimento económico de alta qualidade com capital estatal, segundo uma decisão feita nesta quarta-feira na reunião executiva do Conselho de Estado presidida pelo primeiro-ministro Li Keqiang. A reunião, que ouviu um relatório sobre a reforma, supervisão e inspecção das empresas estatais centrais, decidiu que o sistema de gestão de activos estatais será melhorado e que uma lista de poderes e obrigações em relação à supervisão e gestão dos activos estatais será criada para alcançar uma supervisão mais precisa. As empresas terão autonomia nas suas operações na medida em que o governo aprofunda a reforma para aperfeiçoar a administração, fortalecer a inspecção e melhorar os serviços. Passos sólidos serão tomados para cortar a capacidade produtiva excessiva e a questão das “empresas zombies” será abordada de forma oportuna. As empresas estatais da China registaram uma receita comercial total de

LUO YUNFEI/GETTY IMAGES

Crise ou talvez não

mais de 41,9 biliões de yuans nos primeiros dez meses deste ano, uma alta anual de 15,4%, obtendo lucros de 2,39 biliões de yuans, um aumento de 24,6%, informou o Ministério das Finanças. A reunião decidiu continuar melhorando a distribuição sectorial, optimização estrutural e a reorganização estratégica do sector estatal. O capital estatal será canalizado principalmente para sectores importantes e áreas vitais para a segurança nacional, a economia integral, o bem-estar do povo

e o desenvolvimento de importantes infra-estruturas. “A reforma permitiu que as empresas estatais, especialmente as centrais, obtivessem subida das suas receitas comerciais, que chegaram ao nível mais alto em cinco anos”, disse o primeiro-ministro Li, acrescentando que as empresas estatais devem resolver os problemas identificados o mais cedo possível no processo de supervisão e inspecção. A supervisão sobre a operação do capital estatal será reforçada, assim como a inspecção de activos estatais no exterior, segundo a reunião. “Departamentos relacionados do Conselho de Estado devem apoiar activamente a reforma das empresas estatais e continuará procurando o aperfeiçoamento da administração, supervisão e melhoramento de serviços para ajudar no desenvolvimento de alta qualidade e para garantir a segurança e bons retornos de activos estatais”, concluiu Li.

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de um sistema bancário paralelo menos regulado vêm incentivando apostas cada vez mais arriscadas de investidores. Isso não costuma acabar bem, mas há particularidades que dificultam comparações com outros países e momentos históricos. A China tem repetidos superávites em conta corrente há mais de 20 anos e sua dívida é basicamente doméstica, com o governo controlando quase todo o sistema financeiro e a maior parte dos devedores. “O padrão típico de crises em mercados emergentes, de fluxos de entradas subitamente se revertendo e pondo fim ao boom económico, simplesmente não se encaixa com o que tem acontecido na China”, diz o Deutsche. Além disso, os dados mais recentes sugerem que o risco na China está recuando, já que o crescimento do crédito desacelerou para o mesmo ritmo do PIB nominal, estabilizando a relação crédito/PIB. “Se este ambiente macro continuar por mais um ano, a probabilidade de crise vai cair rapidamente”, diz o banco, apontando para a importância de manter os superávits como colchão de segurança mesmo que isso cause conflitos políticos com os Estados Unidos.

Investimento no estrangeiro caiu 33,5%

As empresas chinesas realizaram investimentos não financeiros no estrangeiro no valor de 107.550 milhões de dólares até Novembro, menos 33,5 por cento do que no mesmo período do ano passado, anunciou ontem o Governo chinês. De acordo com o Ministério do Comércio chinês, a queda reduziuse em relação aos 40,9 por cento registados nos primeiros dez meses. Deste total, o capital destinado a países que integram o projecto chinês de construção de infraestruturas e de desenvolvimento conhecido como Novas Rotas da Seda foi de 12.370 milhões de dólares até Novembro. Os acordos estabelecidos no âmbito desta iniciativa representaram 11,5 por cento do total de investimentos de empresas chinesas no estrangeiro, um aumento de 8,3 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. Em Agosto deste ano, a China anunciou políticas para restringir o investimento de empresas nacionais noutros países especialmente em sectores como o imobiliário e equipas desportivas, privilegiando antes as infraestruturas e as novas tecnologias.


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Só é real o que se ama ou alguma vez se amou

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MA das características dos modernos foi a tendencial afirmação da subjectividade. A descoberta de cada um de nós como sujeitos individuais, mais do que sublinhar a nossa singularidade, é uma forma de atomização. O nosso ponto de vista tal cartesiano é estigmático, monocular, ciclópico eventualmente. Mas mais do que tudo esta operação, nas descrições de Descartes e Kant, é uma revolução, pelo menos no interior do horizonte cognitivo, epistemológico, ou como os antigos lhe chamaram teórico. Esta revolução deve poder restituir-nos o lugar merecido não só no planeta, nem tão pouco só no universo de que há em nós, mas no ser, o que quer que “ser” queira dizer. Eu penso-me a pensar coisas pensadas. O “-me” é o primeiro complemento, directo, “posto” com o “eu” sujeito de “penso”. Todas as coisas são por isso mesmo “pensadas”, particípio passivo, resultante do impacto da acção do verbo sobre as próprias coisas. A situação não é nova. Um ponto de vista aponta para um alvo, mira-o. O que daí resulta é a distância entre o arqueiro e o alvo. A perspectiva produz o aspecto do alvo: a distância, a localização de arqueiro e alvo, o tamanho aparente do alvo, a configuração geométrica, etc., etc.. Entre a perspectiva e o aspecto abre-se um espaço estrutural, um prisma cónico, no interior do espaço mais alargado que o engloba. Podemos perceber que o modelo do arqueiro que faz mira sobre o alvo é analógico relativamente a todos os nossos objectivos, alvos, metas, propósitos, fins. Há sempre um ponto de vista que abre uma perspectiva que faz depender de si a aparição de uma coisa, que é sempre dada a ver com um determinado aspecto. Mas o aspecto não é uma coisa. De cada coisa tenho apenas o lado dela que está virado para mim e a descoberto. O lado de dentro de cada coisa, o lado de baixo, o lado de trás, as partes que podem estar eventualmente tapadas, nada disso eu vejo. Pomos lá esses lados ocultos e invisíveis, mas não os estamos a ver. Outra coisa decisiva é que os lados das coisas, que estão descobertos e virados para nós, são sempre vistos pela perspectiva que se abre sobre eles. Se o ponto de vista mudar, muda a perspectiva e assim também se produz uma alteração na morfologia do que estamos a

ver. O lado da coisa não é um aspecto. O lado da coisa a descoberto e virado para mim depende de mim para ser esse lado, a descoberto e virado para mim. Se virar uma mesa de pernas para o ar o lado de baixo da mesa, coincidente com o tampo da mesa virado para o chão, invisível e não a descoberto, enquanto olhava para ela há pouco com livros, a taça de café e tudo o que lá se encontrava, passa agora a estar à vista e a descoberto. É esse, agora, o lado visível e a descoberto, quando há pouco estava invisível e encoberto. O mesmo se passa quando pensamos nos lados de uma taça, o lado de dentro e o lado de fora, a sua apresentação côncava para receber o café e a sua apresentação convexa quando a arrumo na prateleira: côncavo e convexo são descrições geométricas de um mesmo objecto, mas são o inverso uma da outra. Uma mesa rectangular surge-me sempre conforme a perspectiva que me abre para ela como um trapézio, escaleno, isósceles, como um losango, mas nunca como um rectângulo. A deformação do aspecto da mesa não é uma deformação da mesa. As deformações são dinâmicas e conformam os múltiplos aspectos que as múltiplas perspectivas podem abrir sobre uma coisa, sobre o mundo envolvente, o milieu, o mundo. Ao aproximar-nos do que quer que seja, parece aumentar de tamanho. Ao andar de um lado para o outro a parede do lado oposto ao que me encontro aumenta de tamanho, à medida que diminuo e tendo a anular a distância entre mim e ela e quando me viro a parede de onde parti na direcção desta parece menor e aumenta à medida que ando na sua direcção. Se me afastar de autocarro, sentado de costas para o sentido do destino, tudo diminui de tamanho. As bermas da estrada tendem a encontrar-se lá ao fundo, afunilam. O ponto de vista é o de um prisma cónico em que as coisas tendem a convergir para um ponto de fuga, deslizando rapidamente até esse ponto para desaparecerem por serem reduzidas a tal ponto que já não as conseguimos captar pela percepção óptica. Eu vejo-me a ver coisas vistas por mim. Eu penso-me a pensar coisas pensadas por mim. Mas do ponto de vista mais alargado, percebemos que o mesmo se passa com os nossos objectivos, fins e metas a curto, médio e longo prazo. Os objecti-

EDUARDO LUÍS, AUTO-RETRATO

Estigmatismos

vos podem ser precisos e assomarem o horizonte porque os estabelecemos e fixamos. São fixos sempre num futuro. Não existem ainda na realidade, não foram realizados e não foram cumpridos. Mas criam sobre nós já agora uma tensão. Agem retroactiva e retrospectivamente sobre nós. Acendem-nos. Fazem-nos virar para eles. Dirigimo-nos para eles. Prosseguimos na sua direcção. Pode ser beber um café. Quando nos apetece beber um café, surge-nos essa vontade que nasce em nós. Nós não imaginamos a cena ou o conjunto de cenas que nos levam do quarto à cozinha, nem todas as fases do processo que está envolvido no fazer um café. Assim como ninguém quer a coisa projecta-se todo um con-

O aspecto não é uma coisa. De cada coisa tenho apenas o lado dela que está virado para mim e a descoberto

junto de acções implícitas no fazer café que se vão desdobrar numa cadeia ordenada de elos, que têm a sua constituição intrínseca. Levanto-me, caminho até à cozinha, tiro a lata do café do armário, encho a cafeteira de água, ponho o filtro, o café no filtro, acciono o botão da cafeteira, espero que a água seja passada pelo café no filtro, encho a taça com café, deito um farrapo de leite e bebo. O que se passa entre a vontade que me dá de beber café e o momento em que bebo café passou tempo. Estar efectivamente a beber café é atingir o alvo do objectivo “beber café”. Querer beber café é a afectação do ponto de vista que abre uma perspectiva no mundo que constitui um dado auto-biográfico. Se não me apetecesse beber café, ficava sentado onde me encontrava sentado. Não “teria viajado” até à cozinha, não tinha usado o tempo daquela maneira. Não teria bebido café e o dado auto-biográfico teria sido completamente diferente: “passei a tarde a trabalhar e nem sequer me levantei para beber um café”. Quantas decisões destas tomamos, quantas opções adoptamos entre o sim e o não, entre fazer e não fazer, entre levantar-nos e não nos levantarmos. Ao longo do dia podemos ter 100.000 pensamentos. São muitos segundos por minuto e muitos minutos por horas e horas num dia em que de um momento para o outro, num abrir e fechar de olhos nos pode dar para muitas coisas, nos pode apetecer muitas coisas. Querer ter essas coisas, cumprir objectivos, implica uma alteração do mundo, uma imposição da nossa perspectiva e do nosso ponto de vista que altera até a percepção da nossa casa: ora sentados onde estamos à secretária a olhar para as coisas, ora levantando-nos e afastando-nos da secretária. Vêmo-la mais distante e quando lhe viramos as costas não a vemos nem a parede que lhe serve de fundo. Vemos a porta do quarto e, aberta, o corredor e percorremo-lo até entrarmos na cozinha. E se antes víamos livros sobre a secretária, agora vemos a parafernália toda da cozinha. Se há pouco estava a ler e concentrado, agora a concentração é na tarefa. Posso ainda ter o sentido da última frase lida, mas a minha atenção está toda ela dada ao café. Talvez o nosso ponto de vista não seja estigmático e “eu” e “-me“ e “a mim” elementos complexos de uma lucidez ou de uma mente desdobrada. Veremos.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

sexta-feira 15.12.2017

tonalidades Esta semana publicamos também o texto de António de Castro Caeiro que não saiu na semana passada por ter sido feriado da Imaculada Conceição, padroeira de Macau

António de Castro Caeiro

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CORREM-ME imagens de cenas da vida familiar. Era miúdo. Viajávamos de carro. O Atlântico olhava-nos de sul. Era verão. Lembro-me perfeitamente de ver, deitado no banco de trás, as cópulas das árvores a passarem rapidamente no ecrã da janela lateral do carro. Tinham a abóbada de um azul crepuscular em fundo. Ao anoitecer, no outro dia, o sono trouxe-me ao convívio o avô e o pai. As avós não têm vindo. Não tenho justificação. Vem-me depois à lembrança estar estendido numa cama de rede, a olhar o céu azul de Agosto. Ramos de árvores e a sua parte superior destacam-se, salientando-se do azul do plano de fundo azul. Assaltava-me o espírito que não havia nenhum conteúdo “real” que me revelasse a diferença entre essa apresentação, por altura da minha adolescência e uma qualquer outra apresentação do passado, que alguém pudesse ter tido em séculos anteriores. A única diferença é haver passado tempo, uma diferença reconhecida por uma consciência. Aquela percepção era a primeira antes de começar o quotidiano das férias grandes, quando havia mundo. Agora, não há quotidiano de férias. Não sinto já “aquele” primeiro mergulho atlântico, como outrora. Nem estou em lado nenhum sem trabalhar, nem espero fazer qualquer experiência de encantamento, de fascinação, ou do maravilhamento de estar vivo, uma experiência que apenas existe invariavelmente sob dependência de grandes expectativas, grandes esperanças, que inauguram antecipações a projectar o haver por acontecer, a alegria efusiva, um exaltação eufórica, sem perdas ou então minimizáveis. É neste contexto que me surge, irradiando, centrífuga, excêntrica uma disposição melancólica. Vibra. É uma onda. Como atmosfera, envolve tudo. Não está circunscrita à percepção da cena onírica nem à percepção da lembrança do passado, com as suas geografias delimitadas. E só agora me acomete, exportando-se para mim agora, volvidos tantos dias já. Está aqui. Mergulha-me no seu clima, arrasta-me na corrente do seu próprio elemento. Dá-me a compreender como o tempo passou. Atira-me para a verdadeira dimensão em que existo no meu presente e não apenas na actualidade. Como o tempo passou! É a desolação que põe de pé vidas passadas e futuros a haver? Voltarei a existir em voo rápido? E depois

EDWARD HOPPER, TARDE AZUL

Melancholia revisitada

é sempre a cair rapidamente, num voo em precipício. Por quem esperas? Por quem dos teus si-mesmos esperavas? Quem te salvará de ti da loucura de teres de conviver com a vida? A vida é a protagonista da tua vida? Essa figura complexa que tudo tinge, o tempo e o espaço da ciência que seriam sem a vida que faz deles tempo vital e espaço vital e me leva nas horas, horizonte a correr para o mar, em fluxo, a fugir. Tudo está dentro desse oceano, dessa correnteza? Que verdade encerra em si o piscar de olhos da melancolia? Deixa-me fora de mim ou vê-me num ápice e perpassa-me? Talvez que se quisesse a morte, a morte era a última amiga a quem dirás sim, sem querer, mas desistindo. Sem quereres ir com ela, mas tu és eu, oh! morte. Eras tu por quem eu tinha esperado toda a vida e davas a entender que a vida era possível,

todas as expectativas com preenchimento ou então com o mínimo de dor possível que não era possível. Todas as minhas esperas não eram em vão, tudo por que tinha lutado era obtido e conseguido, a minha vida não se perdia na permanência do que era suficiente, mas quando vinha um sonho era logo desfeito como se não fosse para mim. O desconsolo vem da solidão em que sou eu a sós com o resto de mim, a seguir não há nada a não ser o vazio. Tudo sem mim cá, sem memória e, por isso, sem futuro. E continua-se-nos mais um dia.

O desconsolo vem da solidão em que sou eu a sós com o resto de mim, a seguir não há nada a não ser o vazio

Acordamos e mais um dia na convalescença, mas sem esperança de sair um dia, de rejuvenescer. Vou para onde decrépito, demente, em sofrimento, desolado: o desconsolo de não conseguir engolir nem líquido nem sólido, de os meus dentes não servirem para nada e não ouço e não vejo. De quando em vez, a mão é tocada, mas dói-me tudo quando me lavam e vestem. Não era como a minha avó me vestia ainda a dormir, para ir para a escola, como se de repente estivesse pronto, vindo de um sonho. Os outros continuam cá mas eu não tenho inveja deles. Eu vou e fico. Sei que fico durante algum tempo, depois o tempo passa, um ano ou dois. E o tempo passará até quando já nada nem ninguém remeterá para mim. Terei acabado. Só a morte trará consolação? A noite obscura da ausência.


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15.12.2017 sexta-feira

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Notificação edital (56/FGCL/2017) Nos dos pedidos: 6/2015, 7/2015, 8/2015, 9/2015, 10/2015, 11/2015, 12/2015, 13/2015, 14/2015, 15/2015, 16/2015, 17/2015, 18/2015, 19/2015, 20/2015, 21/2015, 27/2015, 3/2016, 5/2016, 16/2016, 19/2016, 22/2016, 25/2016, 28/2016, 29/2016, 39/2016, 332/2016, 334/2016

Anúncio ﹝158/2017﹞ 1.

Entidade que realiza o concurso: Instituto de Habitação (IH).

2.

Modalidade do concurso: Concurso público.

3.

Designação do concurso: Prestação de serviços de administração de edifícios nos bairros sociais do Instituto de Habitação (II).

4. Objectivo: Concurso para a prestação de serviços de administração de edifícios, nomeadamente serviços de limpeza, segurança, reparação e manutenção das partes comuns e dos equipamentos colectivos nos bairros sociais, sendo os locais e o período de prestação de serviços o seguinte: - Torres A/B/C do Bairro Social de Tamagnini Barbosa, blocos 9/10/11 do Bairro Social da Taipa, Edifício Fai I/ Edifício Fai Fu da Habitação Social do Fai-Chi-Kei, Edifício Mong Sin I/ Edifício Mong Sin II da Habitação Social de Mong Há e Edifício Mong In da Habitação Social de Mong Há, sendo o prazo para a prestação de serviços de três anos, compreendido entre o dia 1 de Julho de 2018 e 30 de Junho de 2021. - Blocos 1/2 do Edifício Iat Seng da Habitação Social da Taipa, sendo o prazo para a prestação de serviços de trinta e três meses e dez dias, compreendido entre o dia 21 de Setembro de 2018 e 30 de Junho de 2021. 5.

Requisitos especiais dos concorrentes: 5.1 Podem concorrer ao presente concurso as sociedades comerciais que se encontrem registadas na Conservatória dos Registos Comercial e de Bens Móveis, cujo âmbito de actividade, total ou parcial, inclua a actividade comercial de administração de condomínios ou serviços de administração de propriedades e que não sejam titulares de licença de segurança nem exerçam a actividade de segurança privada; ou os empresários comerciais, pessoa singular, cujo âmbito da sua actividade, total ou parcial, inclua a actividade comercial de administração de condomínios ou serviços de administração de propriedades; 5.2

Os concorrentes que tenham exercido efectivamente a actividade comercial de administração de condomínios ou serviços de administração de propriedades, pelo menos durante 5 anos, até ao termo do prazo para a entrega das propostas do presente concurso;

5.3

Os concorrentes devem recrutar pelo menos um director técnico a tempo inteiro, com três anos de experiência efectiva no exercício de uma função similar à de director técnico, com habilitação literária não inferior ao ensino secundário complementar e que tenha sido aprovado no “Curso de Técnicos Especialistas em Administração de Edificações” realizado pela Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL);

5.4

Durante os 3 anos anteriores até ao termo do prazo de entrega das propostas o concorrente não pode ter tido qualquer contrato relativo à actividade comercial de administração de condomínios ou prestação de serviços de administração de propriedades, denunciado unilateralmente pelo IH, por violar as disposições estipuladas no contrato;

5.5

Os concorrentes devem entregar as propostas de acordo com o estabelecido no programa do concurso e no caderno de encargos.

6.

Obtenção do programa e processo do concurso: Podem consultar e obter o respectivo processo do concurso, na recepção do IH, sita na Travessa Norte do Patane, n.° 102, Ilha Verde, Macau, nas horas de expediente. A obtenção de fotocópia dos documentos acima referidos, é efectuada mediante o pagamento da importância de $ 2.000,00 (duas mil patacas), em numerário, relativa aos custos das fotocópias ou podem proceder ao download gratuito na página electrónica do IH (http://www.ihm.gov.mo).

7.

Visita aos locais e esclarecimentos por escrito: A visita aos locais será realizada no dia 19 de Dezembro de 2017, às 9:30 horas. Os concorrentes devem comparecer no espaço comercial D do rés-do-chão da Habitação Social de Fai Chi Kei - Edifício Fai I, situado na Travessa de Fai Chi Kei, à data e hora acima mencionadas e serão acompanhados por trabalhadores do IH. Os concorrentes devem dirigir-se à recepção do IH ou ligar para o telefone n.º 2859 4875, nas horas de expediente, antes do dia 18 de Dezembro de 2017, para proceder à marcação prévia para participação na visita aos locais. Durante a visita não serão prestados esclarecimentos. Caso os concorrentes tenham dúvidas sobre o conteúdo do presente concurso, devem apresentá-las, por escrito, à entidade que realiza o concurso, antes do dia 27 de Dezembro de 2017.

8.

Caução provisória: O valor da caução provisória é de $ 1.500.000,00 (um milhão, quinhentas mil patacas). A caução provisória pode ser prestada por garantia bancária legal ou por depósito em numerário através da conta em nome do IH, na sucursal do Banco da China em Macau.

9.

Local, data e hora para entrega das propostas: As propostas devem ser entregues a partir da data da publicação do presente anúncio até às 17 horas e 45 minutos do dia 29 de Janeiro de 2018, no IH, sito na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau, durante as horas de expediente.

10. Local, data e hora do acto público do concurso: No IH, sito na Travessa Norte do Patane, n.º 102, Ilha Verde, Macau, às 10 horas do dia 30 de Janeiro de 2018. 11. Critérios de adjudicação: O critério de adjudicação do presente concurso público é o do preço mais baixo proposto. 12. Outros assuntos: Os pormenores e quaisquer assuntos a observar sobre o respectivo concurso encontram-se disponíveis no processo do concurso. Informações posteriores sobre o presente concurso serão publicadas na página electrónica do IH (http://www.ihm.gov.mo). Instituto de Habitação, aos 29 de Novembro de 2017. O Presidente, Arnaldo Santos

Nos termos da alínea 1) do n.º 1 do artigo 9.º da Lei n.º 10/2015 (Regime de garantia de créditos laborais), conjugado com o n.º 2 do artigo 72.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, vem o Conselho Administrativo deste Fundo notificar o devedor dos números dos pedidos acima referidos, “Empresa Hoteleira de Macau Limitada (Titular do Hotel Palácio Imperial Beijing)”, com sede na Avenida Padre Tomás Pereira nº 889, Taipa, o seguinte: Relativamente aos vinte e oito ex-trabalhadores (Ieong Sao Ngo, Liu Chan Chong, Ng Kai Hon, Lei Lai Kuan, Chou Kuok Chio, Wong Chio Iong, Hoi Lai Hong, Wong Sao Han, Ao Ieong Lai, Lam Sut Kam, Leong Iong Mui, Lo Ieong Hap, Hoi Pek Iong, Wong Choi Chi, Leong Iok Lan, Chan Wa Sio, Cheong Oi Chan, Chan Im Man, Leong Iok Sim, Lao I Fong, Leong Sut Fei, Leong Huisong, Wu Sio Cheng, Leong Nga Lai, Ao Lon, Wong Iek I, Lou Ut Hei e Chao Mou Chong), no que diz respeito ao requerimento junto deste Fundo para pagamento dos créditos emergentes das relações de trabalho, o Conselho Administrativo deste Fundo, em 5 de Dezembro de 2017, deliberou, nos termos do artigo 6.o da Lei n.º 10/2015 (Regime de garantia de créditos laborais), efectuar o pagamento dos créditos em causa aos ex-trabalhadores acima referidos, no valor total de $714 179,90 (setecentas e catorze mil, cento e setenta e nove patacas e noventa avos). Mais se informa o devedor que este Fundo irá efectuar o pagamento dos créditos àqueles ex-trabalhadores, oito dias após a data da publicação da presente notificação. De acordo com o artigo 8.o da referida Lei, após efectuado o pagamento dos créditos, este Fundo fica sub-rogado naqueles créditos. O devedor pode, durante as horas de expediente, deslocar-se à sede da DSAL, sita na Avenida do Dr. Francisco Vieira Machado nos 221 a 279, Edifício Advance Plaza, Macau, para consultar os referidos processos. 7 de Dezembro de 2017 O Presidente do Conselho Administrativo do Fundo de Garantia de Créditos Laborais, Wong Chi Hong

Notificação edital (57/FGCL/2017) Nos dos pedidos: 125/2017, 155/2017

Nos termos da alínea 1) do n.º 1 do artigo 9.º da Lei n.º 10/2015 (Regime de garantia de créditos laborais), conjugado com o n.º 2 do artigo 72.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, vem o Conselho Administrativo deste Fundo notificar o devedor dos números dos pedidos acima referidos, “Kuok Mao Promoção de Jogos Limitada”, com sede na Avenida Comercial de Macau, Hotel Animação Imperial, 6º andar, Macau, o seguinte: Relativamente aos dois ex-trabalhadores (Lam Ka Lok e Fong Iok Kun), no que diz respeito ao requerimento junto deste Fundo para pagamento dos créditos emergentes das relações de trabalho, o Conselho Administrativo deste Fundo, em 5 de Dezembro de 2017, deliberou, nos termos do artigo 6.o da Lei n.º 10/2015 (Regime de garantia de créditos laborais), efectuar o pagamento dos créditos e dos juros de mora em causa aos ex-trabalhadores acima referidos, no valor total de $137 405,70 (cento e trinta e sete mil, quatrocentas e cinco patacas e setenta avos). Mais se informa o devedor que este Fundo irá efectuar o pagamento dos créditos àqueles ex-trabalhadores, oito dias após a data da publicação da presente notificação. De acordo com o artigo 8.o da referida Lei, após efectuado o pagamento dos créditos, este Fundo fica sub-rogado naqueles créditos. O devedor pode, durante as horas de expediente, deslocar-se à sede da DSAL, sita na Avenida do Dr. Francisco Vieira Machado nos 221 a 279, Edifício Advance Plaza, Macau, para consultar o referido processo. 7 de Dezembro de 2017 O Presidente do Conselho Administrativo do Fundo de Garantia de Créditos Laborais, Wong Chi Hong


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sexta-feira 15.12.2017

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José Simões Morais

Primeiros festejos em Macau à Padroeira

C

RENDO suficientes os dois artigos publicados sobre a Imaculada Conceição para deixar por um ano este tema, apareceu-nos um texto de 1648 escrito pelo jesuíta Nicolau da Costa e reproduzido por Benjamim Videira Pires S.J., relatando as primeiras celebrações em Macau em honra da Padroeira, que não resistimos em transcrevê-lo, tal a riqueza e opulência, contrária ao despojo material da filosofia franciscana. “A ordem real sobre a consagração do Leal Senado de Macau à Imaculada deve ter chegado à Cidade do Nome de Deus, na monção da Primavera de 1647. Imediatamente se organizaram <desde Dezembro desse ano até aos 22 de Fevereiro de 1648, muitas festas somenos, como carreiras e várias encamisadas, nas quais vinham os homens principais da cidade a cavalo, luzidiamente trajados ao modo sínico, ora ao japónico e às vezes à moirisca, outros em trajos de outros reinos estrangeiros, com grande número de tochas acesas nas mãos e da mesma maneira os seus pajens e escravos, todos vestidos de diferentes librés. E porque neste tempo estavam ainda aqui os navios da Índia, os moradores de Cochim, por darem mostras da alegria que sentiram em seus piedosos peitos, foi também a sua encamisada com pandorga [música desafinada e sem compasso], coisa que muito contentou a todos e em que gastaram bem de prata, porque vinham grão número de figuras que representavam os diversos passos, com muitas tochas e outras luminárias. Porém, os naturais e filhos desta cidade e os japões levaram (vantagem) aos demais, porque numa segunda-feira de manhã arvoraram em um mastro, na rua direita da cidade, uma formosa bandeira, de campo, andaram muitos cavaleiros com outra bandeira, em cujo campo vermelho estava numa das bandas uma esfera e na outra uma águia pintada, correndo as ruas por onde havia de passar a sua, que chamavam, procissão, com tambores, pífaros, lançando em muitos lugares à gente que se ajuntava vários ditos galantes, versos e epigramas em louvor da Virgem. À noite, vieram com sua procissão pelas ruas, os ditos tangendo diante, também, pífaros, trombetas com charamelas, a visitar as principais igrejas da cidade. Após os instrumentos, vinham, por sua ordem, o deus Marte a cavalo, Neptuno sobre um delfim, com o deus Pan sobre outra alimária, cada um destes deuses no coice do seu esquadrão; e diante de cada um

do qual ia uma formosa bandeira em que iam escritos vários versos e motes com figuras, tudo em louvor e com glória da Senhora; e os de cada esquadrão, que eram de 20 em 20, (seguia) cada um com sua tocha acesa na mão. Detrás das companhias dos 3 deuses, cujos soldados e vassalos com seus criados vinham (vestidos) da mesma libré que o seu deus, se seguiam as deusas Ceres, Diana e Minerva, cada uma no fim de seu esquadrão, assentada em rico trono, posto sobre um carro triunfal, dos quais carros o primeiro era puxado por duas serpentes por cordões de seda; o segundo por dois veados e o terceiro era levado por dois cavalos ricamente vestidos, ao modo com (o) trajo de cada uma das deusas. Junto ao derradeiro carro, vinha uma capela de cantores de excelentes vozes, com tangedores que, de quando em quando, tocavam diversos instrumentos, descantando muito a ponto, o que acabado ao som da viola, davam sua música com variedade de cantigas e toadas, tudo em louvor da Virgem; e nos terreiros das igrejas principais, descansavam, foliavam e bailavam de terreiro, com aplauso da muita gente que se ajuntava, por eles serem muito destros. Em nosso terreiro (da

Igreja da Madre de Deus ou S. Paulo) se esmeravam mais, para mostrarem o reconhecimento aos nossos (i. é, jesuítas), que eles ensinaram (i. é, ensaiaram) e a escola onde aprenderam o que sabem. Tudo acima foram prelúdios das festas, com que se solenizou o dia determinado...>”

A 8 DE DEZEMBRO

“<Para que fosse mais célebre e em tudo com perfeição, diziam os homens ser necessário ajudarmos nós; e aí vieram a este Colégio (de S. Paulo) os Vereadores, como cidadãos principais, pedir encarecidamente aos Superiores (da Companhia de Jesus) os ajudassem..., pois eles, por si sós, não podiam sair com coisa boa. E como a petição era tão justa e para glória de Deus e louvor da Senhora, não se lhes pôde negar. O que se lhes deu para a procissão foi a figura da Fama, que ia a cavalo, com um pendão da Virgem, de glorioso bastidor em campo branco, cujas duas pontas levavam dois cavaleiros, galantemente vestidos, e os cavalos (em que iam montados) com ricos jaezes. Três danças – uma de anjos, outra de pastores, outra de soldados, com uma

folia, indo os meninos em oiro, pedras preciosas, pérolas e aljofres. Deram-lhes (os Jesuítas) mais as figuras seguintes: a Graça, que ia em um carro triunfal, levando a seus pés presos o demónio e o pecado, pelo qual carro puxavam as Virtudes – scilicet: Castidade, Prudência, Justiça e Fortaleza. Para puxar o segundo carro em que ia a Senhora, os 4 Patriarcas: Abraão, Jacob, Isaac e Joaquim (pai da Virgem). Por quanto havia três arcos triunfais, antes de chegar a S. Francisco (onde na sua igreja de Nossa Senhora dos Anjos havia uma capela e um altar dedicado à Imaculada Conceição. A Confraria, estabelecida pelos anos de 1572-1580, estava encarregada do culto da Imaculada e zelava a celebração da festa da Padroeira do Senado, de todo o Reino e seus domínios, no dia 8 de Dezembro) fez-se-lhes um diálogo, que se representou junto do primeiro (arco), que estava na rua, abaixo da porta principal da nossa igreja, donde a procissão saiu, em que entraram a Graça, o Pecado e o Diabo. No segundo (diálogo), falou o Anjo Custódio, oferecendo à Senhora o seu arco em nome da cidade. No terceiro (diálogo), saiu a Confraria da Senhora, pedindo-lhe quisesse aceitar aquelas amostras de amor, à qual respondia a Alegria, que posta num alto fingia vir do Céu, para ajudar a festejar este dia de tanto gozo para a Virgem... Isto o principal com que este Colégio (de S. Paulo) concorreu para a festa (da Padroeira)..., afora os ornamentos ricos, que se emprestaram aos frades franciscanos para todos os altares e as mais capas que iam na procissão de todos os clérigos e nossos Padres e Irmãos... Não trato das custosas charolas (i é, andores) dos Santos que levava, nem das muitas invenções e outros passos de prazer que na procissão iam, nem do ornato das ruas e palanques que havia, nem dos engenhosos jogos e outras muitas festas e folguedos que 8 dias contínuos houve... por não ser este o lugar. O que se apontou acima foi por ser coisa que este Colégio (de S. Paulo de Macau) fez, em serviço da Virgem, de que os homens muito se edificaram, assim como folgaram...>, (da Relação do jesuíta Nicolau da Costa). Eis uma imagem pálida e parcial das grandiosíssimas festas com que a Cidade do Nome de Deus solenizou a proclamação da Imaculada Conceição como sua Padroeira”, segundo transcreve Benjamim Videira Pires.


20 opinião

15.12.2017 sexta-feira

O

We didn’t start the fire/it was always burning, since the world’s been turning. Billy Joel

politicamente correcto, outra vez. Hoje queria falar daquilo que muitos entendem pelo “desprezo pelo politicamente correcto”, ou DPC, para facilitar. Tem-se feito por aí uma confusão sobre o que é exactamente o tal do politicamente correcto, e não é à toa que essa “confusionistas” angariam seguidores; afinal fala-se aqui do “politicamente”, e de política e dos políticos está quase toda a gente farta. O essencial seria mesmo discernir o que é o correcto, e distingui-lo do incorrecto. Essencialmente, tudo o que não é uma coisa, é a outra, invocando aqui do sr. de La Palice. E falando apenas em meu nome, o “incorrecto”, ou o “errado”, não me interessa para nada. O DPC tem piada. Sempre teve. Tempos houve em que considerávamos que o humor do Herman José era “politicamente incorrecto”, que ele dizia o que lhe dava na real gana, e isso entretia-nos à brava. Admirávamos sobretudo a coragem do indivíduo em substituir-nos na tarefa de não precisar de “dar cara” a ninguém. Dava-nos mesmo era vontade de fazer o mesmo com o chefe, com a mulher, com a sogra, com o gajo que estacionou no nosso lugar em frente ao serviço, mas não dá. É preciso engolir alguns sapos para se poder viver em harmonia (já está, apanhei “harmonite” aguda), em sociedade, enfim, aprender a não ser um bicho-do-mato. Tem sido mais ou menos assim desde que saimos das cavernas. Isto não tem que ser necessariamente um mal, ou “a ditadura do politicamente correcto”, como alguns lhe chamam. O problema aqui é que os autores desta nova versão do DPC alteraram o conceito anterior de “politicamente correcto”, dando-lhe um aspecto completamente atroz. O DPC na sua versão mais pura, nas redes sociais e na boca de politiqueiros populistas, não tem servido senão para branquear uma série de atentados à ordem social, à humanidade, e até à lei. Dizer-se que “todos os ciganos são indigentes”, que “a maior parte dos bandidos são pretos” ou que “os refugiados são terroristas” não é “dizer as verdades”, nem nada disto tem a ver com o politicamente correcto, mas com o humanamente desprezível – racismo e xenofobia não são formas de liberdade de expressão: são crimes!

LEOCARDO

BALTHUS, O SONHO DE TERESA, 1938

Desprezo

bairro do oriente

O expoente máximo de tudo isto, o “poster boy” do DPC, é nem mais que o presidente dos Estados Unidos, figura alaranjada e representante da supremo do bordão de “levar tudo à frente”, e “todos mortos e ainda era pouco”. Por mais asneiras que faça, sejam elas determinar a saída do seu país das convenções das quais participam os países do mundo todo, a atitude confrontatória em estilo de “bullying” com o regime da Coreia do Norte, ou mais recentemente a ideia de transferir a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém (que já era “de facto” a capital do estado de Israel, não era isso que estava em causa), o presidente Trump consegue manter uma larga base de apoio. Pronto, se esta espécie de clubismo leva ao ponto de fazer pessoas supostamente inteligentes ne-

gar evidências como o aquecimento global, que soluções pode isto ter? Trump tornou-se na vaca sagrada do DPC, mesmo que muito boa gente não tenha entendido do que se trata afinal o “politicamente correcto”. Quanto à parte do “politicamente”, desconheço o seu estado, mas posso garantir que o “correcto” anda mesmo pelas ruas da amargura. PS: Uma vez que me vou ausentar do território em breve, não podendo assim contribuir com a coluna da próxima quinta-feira, como habitualmente. Assim sendo, gostaria de desejar a todos os leitores do Hoje Macau um feliz Natal, solstício de Inverno ou Channukah, conforme o caso. E que melhor altura que não esta para reflectir naquilo que é realmente o correcto. Não só para nós, mas também para os outros. Para todos. E boas festas.


opinião 21

sexta-feira 15.12.2017

PAUL CHAN WAI CHI

O

Uma má decisão política

comentador de Hong Kong, Johnny Lau, afirmou que um político deve possuir três qualidades: ética, coragem e discernimento políticos. Os deputados da Assembleia Legislativa não têm necessariamente de ser especialistas em leis, existem conselheiros jurídicos na Assembleia que se ocupam dessas matérias. Quando os deputados discutem as propostas de lei e as colocam à votação, estão a lidar com questões de ordem política. Estas decisões derivam dos antecedentes pessoais de cada um, do estrato social que representa e do interesse geral, que deve sempre ser tido em consideração. Mas, acima de tudo, é uma decisão que devem tomar com discernimento, conscientes das suas repercussões em termos sociais. Em termos históricos não existem “ses” e a História é irreversível. Quando acontecem infortúnios a única possibilidade é tentar remediá-los. Mas se as “terapias” falham, todos os envolvidos são apontados como responsáveis. Portanto, a melhor forma de lidar com o infortúnio é fazer tudo para o evitar. O resultado da votação pela suspensão do mandato do deputado Sulu Sou foi bem claro: 28 votos a favor e 4 contra. Esta decisão, quer em termos pessoais, quer em termos colectivos, é uma má decisão política. Em qualquer lugar deste planeta, para manter a estabilidade política é necessário disponibilizar aos opositores os canais apropriados para expressarem os seus pontos de vista, e não empurrá-los para um beco sem saída. Encorajar os jovens a juntarem-se ao sistema vigente, permite-lhes expressar as suas opiniões dentro desse sistema e chegar a um consenso social por via do debate. Mesmo as pessoas comuns, se se sentirem inseridas, escusam de inventar inimigos que não existem. E já que o Conselho Legislativo de Hong Kong se tornou um campo de batalha onde se digladiam os opositores políticos, não há qualquer necessidade de a Assembleia Legislativa de Macau se vir a tornar num “barril de pólvora”. O parecer submetido pela Comissão de Regimento e Mandatos sobre a suspensão do mandato do deputado Sulu Sou não era tendencioso e a análise dos conselheiros jurídicos da Assembleia lembrava a todos os deputados que o propósito da imunidade parlamentar é proporcionar a todos os representantes a possibilidade de cumprirem em pleno os seus mandatos. A imunidade dos deputados deve ser defendida a todo o

CARAVAGGIO, SALOME COM A CABEÇA DE S. JOÃO BAPTISTA, 1607

um grito no deserto

custo, pois destina-se a evitar julgamentos de parlamentares. Quando um deputado estiver numa situação em que pode vir a ser julgado, a situação deverá ser muito bem analisada para apurar se existem provas muito consistentes que apoiem a acusação. Também é necessário analisar se essas provas substanciais entram ou não em contradição com os princípios fundamentais do direito à imunidade dos deputados. A questão é que uma suspensão do mandato transcende o deputado em causa e passa a envolver a Assembleia como um todo, especialmente no que respeita à manutenção da estabilidade e da dignidade do Parlamento. É lamentável que os deputados que votaram a favor da suspensão do mandato de Sulu Sou não tenham tido em consideração a dignidade da Assembleia Legislativa. Esta atitude vai enfraquecer inquestionavelmente o desenvolvimento político de Macau no futuro. As lutas não terão de existir se não houver opressão. Quando a luta substitui a discussão e a comunicação, cria-se um ce-

Macau tem talentos, mas falta-lhe pessoas com discernimento político nário em que, ao fim e ao cabo, todos ficam a perder. Não nos esqueçamos das sábias palavras de Mohandas Karamchand Gandhi, “Olho por olho e o mundo fica todo cego”. Antes da Assembleia Legislativa ter decidido pôr a suspensão do mandato do deputado Sulu Sou à votação, o cenário ainda parecia promissor porque qualquer pessoa sensata não iria optar por “vencer a batalha, mas perder a guerra”. Desejaria sim pôr fim à discussão o mais rapidamente possível e, após o termo do mandato de Sulu Sou, tomar as medidas que fossem necessárias, o que teria sido a decisão certa. A Assembleia Legislativa decidiu efectuar a votação a 4 de Novembro, e não nos dias 5 e 6 dedicados ao debate das Linhas de Acção Governativa da área dos Transportes e Obras Públicas.

Ex-Deputado • Membro da Associção Novo Macau

Parece-me ter sido uma resolução acertada, caso contrário Sulu Sou teria sido privado da última possibilidade de se defender. Infelizmente, as melhores expectativas não se vieram a concretizar. Actualmente Sulu Sou está sob suspensão do mandato e terá de enfrentar um julgamento. Não se sabe se irá ser condenado ou apenas sentenciado a uma prisão de 30 dias, essa decisão competirá ao juiz. As duas partes envolvidas poderão vir a apelar da sentença, se assim o desejarem. Mas o que sabemos é que a Assembleia Legislativa perdeu um deputado e que este caso político vai alimentar o falatório da cidade. Se a situação tivesse ido mais além e, em vez da suspensão estivéssemos a falar de cancelamento do mandato e de uma re-eleição para substituição do cargo, Macau ia enfrentar o caos. Quando atiramos uma pedra a um lago criamos uma ondulação momentânea mas, não tarda, o lago volta a serenar. Mas se continuarmos a atirar pedras para o lago, acabamos por nos molhar. Macau tem talentos, mas falta-lhe pessoas com discernimento político.


22 (f)utilidades TEMPO

MUITO

15.12.2017 sexta-feira

?

NUBLADO

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

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16

MAX

24

HUM

60-85%

EURO

9.51

BAHT

O CARTOON STEPH

JAZZ SUNDAY SESSIONS Live Music Association | A partir das 21h00

Cineteatro

UM DISCO HOJE

Nomeio um ficheiro de word e dou o tiro de partida para a coluna de hoje com a sensação de que a abstracção será arrancada a ferros, totalmente domada por uma cansada objectividade que precisa de uma cama, silêncio e escuridão. É então que uma torrente de devaneios metafísicos começa a ganhar forma, vindos das profundezas prestes a desaguar na ponta dos meus dedos, vogando em marés de café e alucinação. 1500 caracteres de catatonia diária, de pobres jogos de palavras escritos à velocidade de uma bala sem misericórdia, imponderada torrente, beatitude complemente inútil. Pólvora seca disparada por uma pistola de doces farsas em direcção à verticalidade para depois me chover em cima. Sou artesão de vocábulos concebidos para serem comida das minhocas, adubo estéril, inconsequência verbal. Todos os dias, uma coluna de areias movediças onde o peso não afunda, onde o céu não se avista, nem se pressente o inferno. Aqui jaz o significado, em cada frase um purgatório vazio, a meus pés tombou o sentido das mensagens. O mundo fica suspenso no matraquear das teclas, que estalam como castanholas do flamengo escrito. Precursão que enche a sala, página que se vai completando a custo com as únicas palavras proferidas neste dia mudo. João Luz

THE BLUE MOODS OF SPAIN | SPAIN

C I N E M A

STAR WARS EPISODE VIII SALA 1

STAR WARS EPISODE VIII [B] Fime de: Rian Johnson Com: Daisy Ridley John Boyega Mark Hamill 14.15, 21.30

STAR WARS EPISODE VIII [3D] [B] Fime de: Rian Johnson Com: Daisy Ridley John Boyega Mark Hamill 18.50

MY LITTLE PONY: THE MOVIE [A] [FALADO EM CANTONENSE] Fime de: Jayson Thiessen 17.00

PROBLEMA 181

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 180

SUDOKU

DE

Domingo

EXPOSIÇÃO “AO MEU CORAÇÃO UM PESO DE FERRO” Livraria Portuguesa | Até 08/01 EXPOSIÇÃO “O TEMPO MEMORÁVEL” Museu de Macau | Até 25/02/2018 A LINGUAGEM E A ARTE DE XU BING Museu de Arte de Macau | Até 4/3/2018

1.21

CATATONIA CANINA

Sábado

Diariamente

YUAN

PÊLO DO CÃO

WAT DE FUNK MINI-CONCERT Village Mall, Rua do Campo | 19h30 às 21h00 ARRANQUE DO FESTIVAL DE CINEMA DOS ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS DOS DOIS LADOS DO ESTREITO, HONG KONG E MACAU Cinemateca Paixão

PICNIC COM CONCERTO DOS BLADEMARK Albergue SCM | Das 14h00 às 17h00 CONCERTO THE BEATBOMBERS – FESTIVAL THIS IS MY CITY Discoteca D2 | A partir das 00h00 CONCERTO “PAULO PEREIRA’S SAXEXPERIENCE” – FESTIVAL THIS IS MY CITY | WHAT’S UP POP UP Calçada do Amparo | 19h00 às 20h00 CONCERTO FASLANE – FESTIVAL THIS IS MY CITY | WHAT’S UP POP UP Calçada do Amparo | Das 21h00 às 00h00 “MO澳門 | HOW TO BECOME NOTHING CINE-CONCERT” – FESTIVAL THIS IS MY CITY | WHAT’S UP POP UP Calçada do Amparo | Das 20h00 às 21h00 EXPOSIÇÃO “PEARL PAKMAP” – FESTIVAL THIS IS MY CITY” | WHAT’S UP POP UP Calçada do Amparo | Das 17h30 às 19h30

0.24

SALA 2

WONDER [B] Fime de: Stephen Chbosky Com: Julia Roberts, Owen Wilson, Jacob Tremblay 14.15, 21.45

“They say life is never fair...”, assim começa a discografia dos Spain, banda norte-americana de blues, ou slowcore que gira em torno de Josh Haden, filho do genial baixista de jazz Charlie Haden. “The Blue Moods of Spain” é um disco que suave na sonoridade, mas brutal em termos emocionais, carregado de dor impulsionado pelo baixo pachorrento de Haden. Num disco que é bom como um todo, ainda assim destacam-se faixas como “Untitled #1”, “Spiritual”, “I Lied” e “World of Blue”. O disco foi lançado em 1995, antes do hype do country e folk alternativo, e soa bem mais actual que muitos desses discos. Bom para dias negros. João Luz

SALA 3

MY LITTLE PONY: THE MOVIE [A] [FALADO EM CANTONENSE] Fime de: Jayson Thiessen 14.30

MY TOMORROW, YOUR YESTERDAY [B] [FALADO EM JAPONÊS. LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS] Fime de: Takahiro Miki Com: Sota Fukushi, Nana Komatsu 16.30, 19.30, 21.30

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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Luz; João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


retrato 23

sexta-feira 15.12.2017

DOROTHY NG, INSTAGRAMER DA CONTA “COOKING B”

N

ASCEU e cresceu em Hong Kong mas as ligações com Macau estiveram sempre presentes na sua família. Dorothy Ng é uma jovem que estudou gestão mas que optou por seguir uma tendência comum nos dias de hoje: tem um trabalho a tempo parcial como gestora da conta “Cooking B”, na rede social Instagram. Na “Cooking B” a gastronomia local ganha especial destaque. Lá entram todo o tipo de pratos, desde comida portuguesa a coreana, passando pela japonesa e até tailandesa. Pelo meio há fotografias de viagens e momentos pessoais que Dorothy decide partilhar com os seus seguidores. “Estudei gestão mas não fui boa nos estudos, sobretudo na matemática. Os números só me dão dores de cabeça”, contou ao HM. “Mais tarde formei-me

“Uma história real e linda” no curso de fotografia e, aproveitando o meu interesse por comida, decidi abrir uma conta no Instagram.” Até agora o projecto tem corrido bem. “Gosto de apresentar coisas boas para os meus seguidores e o seu apoio é a maior motivação para encontrar os melhores ângulos de diferentes pratos. Macau foi classificada como cidade gastronómica pela UNESCO e fiquei feliz com isso, acho que Macau merece.” Cada fotografia merece uma especial atenção por parte de Dorothy Ng. “Isto é uma coisa que faço nos meus tempos livres, mas não é fácil tirar uma foto que me faça ficar satisfeita logo à primeira.” Dorothy Ng lamenta que vários restaurantes mais tradicionais tenham fechado portas por não conseguirem pagar as rendas altas,

um local onde costumava fotografar bastante. Contudo, nem só de comida se faz a conta “Cooking B”. “Além de ser um meio para emitir informações ou opiniões é também uma plataforma para interagir com as outras pessoas. Também partilho experiências de viagens, como a que fiz no ano passado à Coreia do Norte. Foi uma viagem inesquecível”, recordou.

A NOSTALGIA

Dorothy Ng considera-se uma pessoa caseira. “Gosto de arrumar a casa e ir aos mercados. Cozinho todos os dias e conheço melhor os alimentos, e distingo logo a qualidade da comida e sei o processo de preparação dos pratos.” Apesar de ser natural de Hong Kong, Dorothy Ng sente-se ligada a Macau e considera que neste pequeno território a gastronomia

é semelhante, mas com um “estilo nostálgico”. “Macau é como uma terra natal, porque a minha mãe nasceu cá e a minha avó é de cá também. Sempre ouvi a minha avó contar histórias sobre a Macau antiga e a freguesia de São Lourenço, onde residia. Como tenho cá família decidi ficar por algum tempo para conhecer a cidade”, apontou. A criadora do projecto “Cooking B” recorda mesmo a história de vida da avó que a remete para a Macau de outros tempos. “A minha avó tem mais de 85 anos e casou com um rapaz rico de Macau quando tinha 20 anos. As histórias de romance são sempre assim, um rapaz rico casa com uma rapariga jovem e bonita. Essa história é real e linda e os meus avós sempre recordaram os tempos em que viveram em Macau. Daí sempre

ter tido vontade de ver como está a cidade hoje.” Dorothy Ng confessa que sempre teve uma grande paixão pela comida. “Uma das primeiras inspirações foram as receitas da minha avó, que são um segredo na minha família (risos). Ela cozinha muito bem e sabe os sabores que combinam melhor, acho que herdei este talento dela.” Ainda assim, a sua maneira de cozinhar acabou por ser ligeiramente diferente. “Ela gosta mais de comida tradicional chinesa enquanto as minhas receitas têm elementos ocidentais. É como se fosse uma comida de fusão”, referiu. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


Nas máximas, há qualquer coisa de dogmático que repugna. Afirmar é uma grosseria mental. António Patrício

ONU Projecto contra Jerusalém como capital de Israel

Eleições Putin corre como independente

Torneio da Soberania Macau contra Cantão

A formação de veteranos de Macau inicia a participação no Torneio de Futebol da Soberania diante de Cantão e o encontro está agendado para hoje às 14h30, no Canídromo. O resultado do sorteio foi conhecido ontem à tarde. Portugal, que é representado este ano pela equipa de veteranos do Sporting, vai defrontar o Japão, às 12h30. Nos restantes encontros, a Coreia do Sul defronta o Vietname, às 11h00 e Hong Kong enfrenta Taiwan, às 16h30. Os encontros do Sábado realizam-se à mesma hora dos de hoje e no Domingo, a final está marcada para as 16h00.

Encontro de treinadores

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A Associação de Futebol de Macau promove amanhã um encontro e partilha de experiência entre os treinadores locais. O evento está agendado para as 14h00 e vai prolongar-se até às 17h00, tendo lugar no Estádio Macau.“Vamos ter um seminário para reunir todos os treinadores de Macau e partilhar as novidades sobre o aspecto técnico do desenvolvimento do futebol. Esperamos que os treinadores locais estejam presentes e que gostem da actividade”, afirmou Daniel Sousa, vice-presidente da AFM. “Todos os treinadores que foram formados nos nossos cursos estão convidados. É uma oportunidade de conviver e trocar experiências”, acrescentou.

U

M projecto de resolução contra o reconhecimento pelos Estados Unidos de Jerusalém como capital de Israel está a ser preparado na ONU para demonstrar o isolamento dos norte-americanos no Conselho de Segurança, disseram ontem fontes diplomáticas. Os Estados Unidos da América, Estado-membro permanente do Conselho de Segurança e principal defensor de Israel, têm o direito de veto sobre todas as resoluções submetidas à votação e utilizou-o várias vezes no passado. “O importante é ter o apoio de 14 dos 15 membros do Conselho de Segurança” para este futuro texto, disse à agência de notícias AFP, sob anonimato, uma fonte diplomática palestiniana. Na sexta-feira passada, os Estados Unidos estavam totalmente isolados do Conselho de Segurança durante uma reunião

de emergência, convocada depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter anunciado o reconhecimento unilateral de Jerusalém como capital de Israel. Todos os outros membros do Conselho de Segurança criticaram esta decisão. Vários deles denunciaram a violação das resoluções anteriores da ONU, enfatizando que a questão de Jerusalém deveria fazer parte de um acordo negociado entre israelitas e palestinianos, como solução do conflito existente entre os dois povos. O embaixador palestiniano na ONU, com o estatuto de observador, Riyad Mansour, disse à AFP que o texto de resolução proposto pediria aos Estados Unidos que “anulasse” a sua decisão. Mas de acordo com várias fontes diplomáticas, “a linguagem”, em última análise, mantida

no projecto poderia ser mais matizada para assegurar o apoio dos 14 países membros do Conselho de Segurança da ONU. O objectivo final é não descartar completamente os Estados Unidos, mas sim pressionar para que o projecto de paz que prometeram, desde que o republicano Donald Trump chegou ao poder há quase um ano, leve em conta os interesses dos palestinianos. Desde a criação de Israel, em 1948, a comunidade internacional absteve-se de reconhecer Jerusalém como sua capital. Israel anexou a parte oriental de Jerusalém em 1967 e aprovou uma lei declarando que é a sua capital “indivisível”. Esta anexação nunca foi reconhecida pela comunidade internacional e os palestinianos consideram Jerusalém Oriental como a capital do futuro Estado da Palestina.

WIKIMEDIA COMMONS

O Presidente russo, Vladimir Putin, anunciou ontem que irá apresentar-se às eleições de Março de 2018 como candidato independente. “Irei como independente, mas confio no apoio das forças políticas, dos partidos e das organizações sociais que partilham a minha visão sobre o desenvolvimento do país”, disse o chefe de Estado russo, que há uma semana tinha anunciado a candidatura à reeleição. “E, em geral, espero contar com um amplo apoio popular”, acrescentou, salientando que, se for reeleito, vai modernizar a economia russa, uma vez que defende uma Rússia “virada para o futuro”, através de uma economia “mais flexível” e com uma “eficiência aumentada”. O Presidente russo, também líder do partido Rússia Unida, defendeu ainda uma maior aposta nos serviços de saúde e de educação, temas que estarão, disse, “no topo das prioridades”. No entanto, o chefe de Estado russo salientou que gostaria de ver maior competição política, o que permitiria “garantir maior equilíbrio” no sistema político nacional. Segundo analistas políticos locais, Putin tem actualmente um índice de popularidade que ronda os 80%, pelo que deverá ser reeleito nas presidenciais de Março.

PALAVRA DO DIA

sexta-feira 15.12.2017

LIVROS PORTUGUESES PREMIADOS NA CHINA

O

S livros portugueses “O meu avô” e “O homem da mala” estão entre os premiados da primeira edição da Competição Internacional de Livros Ilustrados Little Hakka, na China, foi ontem anunciado. “O meu avô”, de Catarina Sobral, editado pela Orfeu Negro, e “O homem da mala”, com ilustrações de João Vaz de Carvalho e texto de Adélia Carvalho, editado pela espanhola La Fragatina, estão entre os seis “Melhores dos Melhores” na categoria Grupo Profissional, à qual concorreram 180 livros de 26 países, tendo os vencedores sido hoje divulgados pela organização. Em relação a “O meu avô”, o júri destaca a “sensação de quadro fluido com um sentido perfeito de ‘design’”. “A forte comparação de cores em cada página demonstra dois ritmos de estilo de vida, mostrando o amor profundo da personagem pelo seu avô. Quase conseguimos ver o amor puro e forte a correr para nós”, lê-se no ‘site’. Já em “O homem da mala”, o júri considera que “João Vaz de Carvalho tem uma síntese hábil de humor e alegria de contar histórias”. “Esta história demonstra uma técnica muito conseguida, qualificada e uma linguagem visual pessoal; a sua linguagem visual é muito próxima do mundo das crianças”, considerou o júri. A Competição Internacional de Livros Ilustrados Little Hakka foi criada “para encorajar e premiar todas as editoras e autores individuais dedicados à criação de livros ilustrados, e para encontrar força criativa e trabalhos notáveis, tanto na China como no estrangeiro, assim como criar oportunidades de cooperação e intercâmbios internacionais para editoras e ilustradores”.

KARTING PILOTO DE MACAU CORREU COM COSTELA FRACTURADA

O

piloto João Afonso vai falhar a prova de karting que celebra a criação da RAEM, agendada para domingo, após se ter lesionado no fim-de-semana passado, com uma fractura numa costela. O incidente decorreu no Sábado, mas o piloto só foi diagnosticado no dia seguinte, após ter conquistado o 11.º lugar na Taça de Macau. “Não vou participar [na corrida]. No fim-de-semana passado tive um acidente numa prova, ainda no sábado, aleijei-me e não estou recuperado para poder correr já este fim-de-semana”, disse João Afonso, ao HM. “Lesionei-me durante na corrida da pré-final [apuramento para a final], quando na última curva da última volta um piloto veio contra mim e o karting dele subiu o meu e acertou-me. Fiquei com uma costela fractura e agora não posso correr”, acrescentou.

Na semana passada o piloto tinha participado nas corridas da Taça de Macau e na classe X30 SR, a última prova a contar para o Campeonato Asiático da modalidade. O acidente ocorreu no sábado, mesmo assim, no Domingo, João Afonso alcançou um 7.º lugar no Asiático e um 11.º posto na Taça de Macau, após ter arrancado do 22.º lugar. Na altura, João Afonso não mencionou as lesões, até porque não pensava que se tratava de algo tão sério: “Eu no Domingo já me estava a sentir mal. Logo na primeira corrida depois de 15 voltas já não estava muito bem e isso afectou a minha performance”, explicou. “Depois corri na prova da Taça de Macau, já com muitas dores. Eu na altura não me tinha apercebido que era tão grave. É verdade que no Sábado à noite já me tinha sentido mal, mas só

no Domingo é que me apercebi que era mais grave do que estava à espera”, frisou.

RECUPERAÇÃO ATÉ MARÇO

João Afonso entra agora num período de recuperação, apontando para um regresso à competição apenas em Março do próximo ano. O mais importante por agora, diz, é assegurar que recupera e descansa o suficiente para evitar possíveis complicações. “Vou esperar para recuperar bem e pensar no próximo ano. É chato mas temos de aceitar a realidade, se não estou apto para correr também não vou forçar. Vou recuperar com calma”, justificou. “Só devo voltar a competir em Março. Não vale a pena estar a esforçar-me porque como se viu no Domingo passado, os resultados também não foram nada de especial. Agora é esperar”, apontou. J.S.F.

Hoje Macau 15 DEZ 2017 #3956  

N.º 3956 de 15 de DEZ de 2017

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