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RÓMULO SANTOS

SULU SOU VS. KOU HOI IN

ASSOCIAÇÃO DAS MULHERES

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GONÇALO LOBO PINHEIRO

DUPLO IMPACTO

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MOP$10

SEXTA-FEIRA 15 DE JANEIRO DE 2021 • ANO XX • Nº4690

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

COVID-19

RETORNO A WUHAN

PRONTAS PARA ELEIÇÕES

PÁGINA 12

hojemacau ANOS

Ternura dos 40 Ao longo de quatro décadas de actividade, a Universidade de Macau tornou-se numa das instituições incontornáveis do território. Desde a sua fundação, a universidade cresceu, acumulou polémicas e alargou o leque de ofertas de ensino, tentando colmatar as carências profissionais de Macau.

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GRANDE PLANO

O FLANNÊUR ROSA COUTINHO CABRAL

MULHERES DE ITÁLIA GONÇALO M. TAVARES

A EGIPTOMANIA DUARTE DRUMOND BRAGA


2 grande plano

NO PRINCIPIO ERA O VERBO OS 40 ANOS DA UNIVERSIDADE DE MACAU E O PIONEIRISMO NO ENSINO SUPERIOR

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ORRIA o ano de 1981 quando o Governo local decidiu criar a primeira universidade do território. Começou por ser designada como Universidade da Ásia Oriental, passando uma década mais tarde a Universidade de Macau (UM). A transferência de soberania do território estava no horizonte e a então Administração portuguesa considerava essencial apostar no ensino superior público para formar quadros qualificados bilingues. Nesse sentido, o curso de Direito em língua portuguesa foi dos primeiros a ser criado. Vitalino Canas, advogado, ex-deputado à Assembleia da República (AR) e secretário de Estado do Executivo de António Guterres foi uma das

figuras que ajudou a criar a licenciatura. Ao HM, recorda o papel do então Governador, Carlos Melancia, no processo “um homem de visão que, além de deixar muita obra em Macau, teve a visão em relação a estas questões estruturantes ao nível do Direito”. Segundo o advogado, Melancia percebeu “que não fazia sentido pretendemos negociar com os nossos parceiros chineses a permanência do Direito português por um período longo de 50 anos e não deixarmos as bases necessárias, tal como juristas bilingues capazes de entender o Direito que vinha da Administração portuguesa em chinês e português”. Apesar de não ter faltado dinheiro para fundar a universidade pública, a escassez fez-se sentir

“[A criação da UM] foi uma iniciativa muito positiva e em termos históricos só terá pecado por tardia. É fácil dizer isso hoje, mas as condições eram outras.” JORGE GODINHO PROFESSOR

Cerimónia inaugural na antiga sala de pelota basca do Casino Jai Alai TIAGO ALCÂNTARA

ADeclaração Conjunta Luso-Chinesa acelerou a necessidade de Macau ter uma instituição de ensino superior para formar quadros qualificados, essenciais para a futura RAEM. Assim nasceu, em 1981, a Universidade da Ásia Oriental, mais tarde Universidade de Macau. A primeira aposta pedagógica foi o direito, seguido da tradução e interpretação chinês-português e depois o ensino relacionado com o jogo. Em 40 anos, renasceu num novo campus em Hengqin mas também foi palco de algumas polémicas

MACAUANTIGO.WORDPRESS.COM

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ao nível dos recursos humanos, nomeadamente de juristas e professores. Foi necessário “recorrer à Universidade de Lisboa e depois à Universidade de Coimbra” e pedir que “dispensassem alguns docentes para lançar o curso.” No livro “Macau nos Anos da Revolução Portuguesa 1974-1979”, o General Garcia Leandro, antigo Governador de Macau, recorda os primeiros contactos para se estabelecer uma universidade, cujo orçamento seria de 40 milhões de patacas e previa “a construção num terreno na ilha da Taipa, com projecto moderno de arquitectura”, com capacidade para servir “uma população de dois mil alunos em quatro anos, ao ritmo de 500 por ano”. Seria feita “a regência das várias cadeiras dos cursos garantida por um professor decano doutorado pela Universidade de Oxford e por vários professores universitários originários da Matteo Ricci, da Universidade Chinesa de Hong Kong e também dos EUA”.

Garcia Leandro já não era Governador aquando da formalização do arranque do projecto educativo. O primeiro contrato para formar uma equipa docente e conteúdos pegagóciso foi assinado em Fevereiro de 1979 com o grupo Matteo Ricci. “Creio que foi mais um bom serviço prestado à população”, escreveu o antigo Governador. Garcia Leandro dá conta depois de “um desvio dos objectivos, tendo sido privilegiados os alunos de Hong Kong, o que obrigou a sucessivas intervenções da Administração de Macau, até que, durante o Governo de Carlos Melancia, a universidade passou a ser património do território”. O antigo Governador recordou também que “para o arranque não havia outra solução”, porque nem o seu Governo, nem qualquer universidade em Portugal tinham capacidade financeira para o investimento. Estava em marcha o nascimento da UM como hoje a conhecemos.

OS PRIMEIROS ALUNOS

A Universidade de Macau em 2008

Paulina Santos, advogada a exercer em Macau, foi aluna da primeira turma de Direito. Recorda que, no primeiro ano, havia mais de 70 alunos, dos quais apenas restaram 12 no final do curso, feito que seria assinalado em grande. “Angariámos cerca de 600 mil patacas para uma

GONÇALO LOBO PINHEIRO

EDUCAÇÃO

15.1.2021 sexta-feira


grande plano 3

sexta-feira 15.1.2021

ÁREA

1.09 km2

GRADUADOS

37.486

PROGRAMAS DE LICENCIATURA

38

DOCENTES

590

ORÇAMENTO GLOBAL

2,713

milhões de patacas

MESTRADOS

63

DOUTORAMENTOS

(55,6% financiado pelo Governo)

30

(números relativos ao primeiro semestre do ano lectivo de 2019/2020)

festa de finalistas que se realizou no Hotel Lisboa e o último Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira e a sua esposa, Dra. Maria Leonor foram os nossos convidados de honra. Fizemos depois uma viagem de finalistas a Paris, Portugal e Pequim”, recorda ao HM. Aadvogada macaense assume as saudades desse período. “O currículo era o mesmo dos cursos ministrados em Portugal, era muito exigente. Naqueles cinco anos, todos os fins-de-semana serviam para pôr as lições em dia, porque os alunos eram todos trabalhadores-estudantes.” Para Paulina Santos, a criação da UM “mudou o estatuto de Macau e os residentes beneficiaram do facto de poderem tirar um curso na sua terra”. Outro dos alunos desse curso foi José Pereira Coutinho, hoje deputado à Assembleia Legislativa (AL). “Foi das decisões mais acertadas e, com base nessa formação, hoje temos muitos desses alunos que são funcionários públicos e que exercem funções de alta responsabilidade no Executivo e nos tribunais.” Como antigo aluno, Coutinho recorda que o curso era “extremamente exigente”. “Obrigava a uma dedicação quase completa. Mas também havia uma certa compreensão por parte dos dirigentes dos serviços no sentido de permitir a saída dos trabalhadores para frequentarem as aulas, pois os cursos eram nocturnos.” Olhando em retrospectiva, Vitalino Canas considera que o curso de Direito da UM cumpriu os propósitos. "Claro que a dinâmica será sempre para que o Direito seja cada vez mais falado em chinês e não em português, mas será sempre

um Direito de matriz portuguesa, e isso é importante.” “Se daqui a 29 anos fizermos um balanço e verificarmos que o Direito de matriz portuguesa continua a ser aplicado em Macau, embora com a língua chinesa, acho que o curso terá tido certamente um papel importante”, frisou Vitalino Canas.

A APOSTA NO JOGO

Depois do curso de Direito, e com a liberalização do sector do jogo em 2001, a UM decide apostar no ensino do jogo, não só a nível jurídico como de gestão. Jorge Godinho começou a dar aulas em 1993 e contribuiu para a criação de um mestrado na área. Para o académico, a criação da UM "foi uma iniciativa muito positiva e em termos históricos só terá pecado por tardia. É fácil dizer isso hoje, mas as condições eram outras”. Olhando para a frente, Jorge Godinho entende que a UM ainda tem um caminho a percorrer. “Uma universidade madura pode demorar 50 anos

“A UM hoje tem uma maior área, mas entendo que a faculdade de Direito deveria ter continuado na Taipa. Faltam notícias sobre o actual funcionamento do curso. Nem sei quem são os professores.” PAULINA SANTOS ADVOGADA E ANTIGA ALUNA

a pôr-se de pé, com 40 anos é ainda relativamente jovem. Estas coisas demoram muito tempo. Esse trabalho tem vindo a ser feito, começou-se por algumas áreas científicas que foram consideradas de interesse prioritário, como o Direito, a língua portuguesa, as ciências sociais, a gestão.” AUM apostou também no ensino do português, sobretudo na tradução e interpretação. No entanto, José Pereira Coutinho considera que podia fazer muito mais neste domínio. “Nos últimos anos descurou-se bastante a área da tradução e da interpretação.” Além disso, o deputado defende que a instituição “podia fazer mais nas áreas que Macau mais precisa, na economia, educação financeira e cursos relacionados com a área dos negócios”. Também ao nível do ensino do português, Paulina Santos considera que tem sido feito um esforço para manter viva a língua. “Penso que é mais importante agora o ensino do chinês para os alunos portugueses, principalmente para quem quer seguir a carreira de magistratura”, acrescenta a advogada.

A MUDANÇA PARA HENGQIN

Em 2014, a UM deixou o velho campus na Taipa para se mudar para o complexo educacional em Hengqin. O dossier foi polémico, com muitas derrapagens orçamentais e atrasos à mistura, além de acusações de plágio no projecto de arquitectura feitas pelaAssociação Novo Macau. No entanto, Jorge Godinho traça hoje um balanço positivo dessa mudança. “Dei muitas aulas no antigo campus, lembro-me do meu último dia de aulas lá. O campus foi crescendo, mas chegou a uma

altura em que não dava para mais, e foi excelente construir este campus gigantesco onde a UM tem condições extraordinárias e que permite fazer um trabalho excelente.” Na visão de Paulina Santos, a mudança para a Ilha da Montanha trouxe alterações que foram além da deslocação geográfica, nem todas para melhor. “A UM hoje tem uma maior área, mas entendo que a faculdade de Direito deveria ter continuado na Taipa. Faltam notícias sobre o actual funcionamento do curso. Nem sei quem são os professores.”

LIBERDADE ACADÉMICA

Também em 2014 a UM foi protagonista de algumas notícias pelos piores motivos, com um caso de alegada violação da liberdade académica. O contrato de Bill Chou, professor de ciência política, não foi renovado e o académico argumentou que a decisão foi motivada pelo seu activismo político. A UM sempre negou as acusações. Hoje em dia, Bill Chou dá aulas em Hong Kong e confessa ao HM que a sua saída teve repercussões no meio académico local. “O impacto imediato na UM e em outras instituições de ensino foi o silêncio de muitos académicos de Macau através dos seus contratos de trabalho, como o meu, assinados a prazo. A renovação de um contrato está sujeita a decisões arbitrárias por parte da liderança da universidade”, acusa. O HM questionou a UM sobre estas declarações, que se escusou a fazer qualquer comentário. Questionado sobre liberdade académica, Jorge Godinho assume que nunca sofreu qualquer tipo de pressão. "Não faço considerações

genéricas. O que posso dizer, a título pessoal, é que eu nunca senti absolutamente qualquer problema. Nunca a minha liberdade académica foi afectada, desde 1993, quando comecei a dar aulas, até hoje.” Bill Chou reconhece o trabalho feito pela UM noutras áreas do ensino e de investigação, apesar de considerar que os objectivos não são os ideais. “Sem dúvida que os programas da UM em Direito, português e tradução ajudaram ao crescimento dessas áreas. Contudo, o sector da tradução continua a manter-se com alunos da China que recebem formação no país ou noutro lugar, e não na UM.”

Em 2014, a UM deixou o velho campus na Taipa para se mudar para o complexo educacional em Hengqin. O dossier foi polémico, com muitas derrapagens orçamentais e atrasos à mistura, além de acusações de plágio no projecto de arquitectura O actual reitor da UM, Yonghua Song, tomou posse a 9 de Janeiro de 2018, depois da saída do seu antecessor, Wei Zhao, ter gerado alguma polémica. Wei Zhao assumiu funções como reitor da UM em Novembro de 2008 e saiu em 2019 para dirigir a área de investigação na Universidade de Sharjah, sem respeitar o período de seis meses após o termo do contrato com a UM, a que estão obrigados os titulares de cargos de direcção da função pública. No entanto, o Gabinete de Apoio ao Ensino Superior acabaria por arquivar o caso. “Este Gabinete recebeu a opinião jurídica do serviço competente que considera que o ‘não exercício de actividades privadas após a cessação de funções’ não se aplica ao reitor da Universidade de Macau”, pelo que “o caso foi arquivado”, indicou o GAES, em resposta escrita ao HM. Desde o “nascimento” da instituição,Vitalino Canas destaca a evolução que não só a UM teve nos últimos 40 anos como todo o ensino superior local. “20 anos depois daAdministração portuguesa ter deixado o território, creio que deixou um bom legado nesse domínio. Mas a Administração de Macau prosseguiu os esforços por nós iniciados e hoje em dia temos um ensino superior muito diferente e de maior dimensão. Fico feliz por isso.” Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


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15.1.2021 sexta-feira

RÓMULO SANTOS

IH SEGURANÇA DOS EDIFÍCIOS DEVE SER “ASSUMIDA PELOS PROPRIETÁRIOS”

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Sulu Sou, deputado “A AL (…) avança sempre com uma definição controversa sobre aquilo que é a política do Governo, com o objectivo de limitar o nosso poder enquanto deputados.”

AL KOU HOI IN VOLTA A REJEITAR PROJECTO DE SULU SOU SOBRE ASSOCIAÇÕES LABORAIS

A nega do costume

Após novo recurso, o presidente da Assembleia Legislativa, Kou Hoi In rejeitou “liminarmente” o projecto de Lei de Sulu Sou que visava garantir a participação de trabalhadores em associações laborais. Ao HM, o deputado referiu que a decisão e os argumentos demonstram, uma vez mais, a limitação do poder legislativo dos deputados

O

projecto de lei submetido por Sulu Sou a 14 de Agosto com o objectivo de proteger a participação dos trabalhadores em associações laborais e regular a responsabilidade criminal de empregadores voltou a ser rejeitado por Kou Hoi In, presidente da Assembleia Legislativa (AL). A deliberação, sobre o segundo recurso apresentado pelo deputado, foi divulgada ontem no portal da AL. Caberá agora aos deputados, decidir se o projecto de lei será admitido ou não para votação “A decisão do presidente da AL de rejeitar liminarmente o projecto de lei nos termos da Lei Básica e do Regimento, foi tomada com fundamentos e razões suficientes”, pode ler-se no documento. Para Kou Hoi In, o projecto de lei não pode ser admitido por se tratar de uma iniciativa que impacta as políticas do Governo, nomeadamente a Lei das relações de trabalho, facto que implicaria a obtenção prévia do consentimento escrito do Chefe do Executivo.

“[As disposições do projecto e lei] constituem (…) também teor nuclear da Lei das relações de trabalho, verificando-se uma larga coincidência (…) quanto ao princípio da igualdade, às garantias do trabalhador e ao regime sancionatório, sendo que o disposto no projecto de lei sobre a indemnização por despedimento dos titulares de órgãos de associações laborais implica alteração ao regime existente de indemnização por despedimento da Lei das relações de trabalho”, argumentou o presidente da AL. Kou Hoi In considera ainda que, o facto de Sulu Sou tentar autonomizar o regime de indemnização por despedimento dos titulares de órgãos de associações laborais, altera o regime para todos os trabalhadores e que, por isso, é “indubitavelmente atinente à política do Governo”.

ASAS CORTADAS

Por seu turno, Sulu Sou insiste que o projecto de lei não implica “impactos substanciais” ou mesmo “alterações e conflitos” em

relação às políticas do Governo, espelhadas na Lei das relações de trabalho e que, por isso, não deveria implicar a autorização prévia do Chefe do Executivo. Sobre o regime de indemnização por despedimento dos titulares de órgãos de associações laborais, o deputado considera que a questão nem se coloca, dado que “não existe sequer em vigor qualquer política do Governo relacionada”. Contactado pelo HM, Sulu Sou apontou que, o facto de a apresentação de uma lei estar dependente da autorização prévia do Chefe do Executivo, é uma “limitação ao poder legislativo dos deputados”. Além disso, considera ainda não existir uma definição clara sobre o que são políticas do Governo. “Não pedi autorização ao Chefe do Executivo desta vez porque insisto que este projecto de lei não está relacionado com a política do Governo. Passa apenas pelo direito de participação de trabalhadores em associações laborais. Como noutras ocasiões em que apresentei recurso, a AL não possui

uma definição clara daquilo que considera ser a política do Governo. Nos últimos anos tive a oportunidade de observar que a AL avança sempre com uma definição controversa sobre aquilo que é a política do Governo, com o objectivo de limitar o nosso poder enquanto deputados”, partilhou Sulu Sou. Questionado sobre o que esperar da discussão no plenário sobre o projecto de lei, o deputado sublinha que o mais importante é pressionar o Governo para que submeta lei sindical o mais rapidamente possível. “Estou sempre focado no processo e não no resultado das minhas propostas. Por isso, o objectivo é usar a acção legislativa para consciencializar o público e continuar a pressionar o Governo para submeter a lei sindical o mais cedo possível. Mas penso também que, especialmente os deputados do sector dos operários, têm a obrigação de defender as ideias apresentadas neste projecto de lei”, acrescentou. Pedro Arede

pedro.arede.hojemacau@gmail.com

M resposta a uma interpelação escrita de Leong Sun Iok sobre a fraca adesão ao “Plano de Apoio a Projectos de Reparação de Edifícios”, o Instituto de Habitação (IH) vincou que a responsabilidade da manutenção e segurança dos edifícios deve ser assumida pelos proprietários. Segundo o IH, devem ser os detentores dos imóveis a “convocar uma assembleia geral de condomínio para deliberar sobre a inspecção e a reparação dos edifícios” e, de acordo com as suas “próprias necessidades”, optar por candidatar-se ao plano de apoio do Governo ou contratar uma empresa qualificada para reparar o edifício. Recorde-se que na interpelação enviada em Outubro de 2020, o deputado tinha perguntado quais as razões para que, durante mais de 10 anos, apenas 40 edifícios, dos mais de cinco mil com mais de 30 anos existentes em Macau, tenham realizado inspecções. Referindo que as inspecções aos 40 edifícios que beneficiaram do “Plano de Apoio a Projectos de Reparação de Edifícios” implicaram uma despesa total de 6,79 milhões de patacas (em média, cerca de 170 mil por edifício), o deputado questionou ainda o IH sobre os critérios de selecção implicados na escolha das entidades designadas para a tarefa. Na resposta, o IH revela que a proposta escolhida é a que implica menos encargos. “O IH irá convidar, por consulta escrita, empresas com funções de elaboração de projectos, constantes da lista das empresas inscritas na DSSOPT, para se candidatarem ao projecto de reparação, sendo este adjudicado a um dos concorrentes admitidos com a ‘proposta de menor preço’”, pode ler-se na resposta assinada pelo presidente do IH, Arnaldo Santos. P.A.

Estacionamentos IH recusa intervir em processos de propriedade

O Instituto de Habitação recusa intervir em processos a decorrer nos tribunais em que as construtoras dos prédios estão a tentar apoderar-se dos lugares de estacionamento, através do processo de usucapião. Este é um termo jurídico para situações em que se aceita que uma pessoa por estar na posse de um imóvel e fazer uso do mesmo durante um longo período de tempo se tornou no dono legítimo. A questão tinha sido levantada por Sulu Sou, numa interpelação escrita, em que se tinha mostrado preocupado com tensões sociais que podem ser causadas no caso dos proprietários ficarem sem os imóveis pelos quais pagaram. No texto, o democrata recorda ainda que até 1996, as leis dificultavam o registo de propriedade dos lugares estacionamento. Contudo, Arnaldo Santos recusa intervir nos processos e afirma que as decisões competem aos tribunais.


política 5

sexta-feira 15.1.2021

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Associação Geral das Mulheres de Macau vai participar nas Eleições Legislativas deste ano, voltando a apostar na candidatura da Aliança de Bom Lar, que em 2017 elegeu a deputada Wong Kit Cheng. A intenção foi anunciada na quarta-feira à noite por Tina Ho, presidente da associação e irmã do Chefe do Executivo, durante um jantar com os meios de comunicação em língua chinesa. Numa mensagem, citada pelo Jornal do Cidadão, em que deixou cinco objectivos para o ano que agora se inicia, Tina Ho lançou a candidatura da plataforma Aliança de Bom Lar, com o objectivo de defender “os direitos legais das mulheres e crianças”. Na vertente do acto eleitoral, as Mulheres de Macau vão ainda procurar “associações e grupos próximos” para integrar a lista e assim “reflectir a voz e as reivindicações de mulheres e crianças na Assembleia Legislativa”. Ainda de acordo com a presidente da associação, a candidatura às eleições visa “melhorar o nível da participação das mulheres na vida política”. Mas, no ano em que celebra o centenário da Fundação do Partido Comunista, menção que não ficou esquecida, Tina Ho traçou como principal objectivo da associação promover o reforço do amor à pátria de “diversas formas”. Nesse sentido, a associação diz que vai utilizar os seus recursos sociais,

ASSOCIAÇÃO DAS MULHERES TINA HO ANUNCIA QUE ELEIÇÕES SÃO PRIORIDADE

O tiro de partida

como a Base da Educação do Amor pela Pátria e por Macau para Jovens para transmitir o valor do patriotismo à “nova geração” e do princípio “Um País, Dois Sistemas”.

NOVOS ÓRGÃOS SOCIAIS

A presidente da Associação das Mulheres comprometeu-se com a aposta na lista Aliança de Bom Lar, que em 2017 elegeu Wong Kit Cheng. O anúncio foi feito num jantar que contou com a presença de personalidades como Chan Hong, Paula Ling e Fanny Vong

Nos restantes objectivos declarados, a associação comprometeu-se igualmente com as metas traçados pelo Governo, como a integração na Grande Baía, a nível da integração das mulheres, mas também no desenvolvimento económico. Nesta vertente, a Associação das Mulheres espera a disponibilização serviços sociais para os membros no outro lado da fronteira. Em tempos de pandemia, o assunto não ficou de fora das metas, e a associação diz ir fazer tudo para apoiar o Governo não só no controlo da pandemia, mas também na recuperação económica. Finalmente, ao longo deste ano haverá nova escolha de corpos sociais, e Tina Ho deixou o desejo de que o momento sirva para “trazer mais mulheres qualificadas para a associação” e criar uma maior união, também através da discussão dos temas mais actuais no que diz respeito a mulheres e crianças. Além da presidente Tina Ho, no jantar estiveram ainda outros membros da associação, como as deputadas Chan Hong e Wong Kit Cheng, a advogada Paula Ling ou Fanny Vong, a reitora do Instituto de Formação Turística. João Santos Filipe e Nunu Wu

Para Tina Ho, a candidatura às eleições visa “melhorar o nível da participação das mulheres na vida política”

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INTERPELAÇÃO DEPUTADA WONG KIT CHENG DECLARA GUERRA A FOLHETOS PORNOGRÁFICOS

SAÚDE MENTAL PEREIRA COUTINHO QUER COMISSÃO PARA INVESTIGAR SUICÍDIOS

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deputada Wong Kit Cheng quer soluções para combater a distribuição de folhetos pornográficos e promoção da prostituição na comunidade. Numa interpelação escrita, a legisladora lamenta ainda que os dois problemas se arrastem há anos e que não se resolvem devido aos constrangimentos legais. Contudo, para Wong esta devia ser uma das prioridades porque podem ter impacto negativo para a imagem de Macau como centro de turismo, assim como para a segurança do território e para a formação os jovens.

No que diz respeito à prostituição, Wong sublinhou a necessidade de “purificar os bairros comunitários” e revelou que após terem sido impostos restrições nos controlos das fronteiras, por causa da pandemia, que recebeu várias queixas sobre o intensificar da actividade de prostituição. Anteriormente, o Governo defendeu que para proibir a prostituição seria necessário

haver um consenso alargado na sociedade. Por isso, a deputada quer agora saber o que vai ser feito pelo Executivo para chegar ao esse consenso. No mesmo sentido, a deputada queixou-se que actualmente nas operações de prostituição não é possível aplicar sanções penais, mas apenas multas, expulsão do território ou a proibição de entrada. Por outro lado, a legisladora perguntou também quando pode haver alterações legais para que os folhetos de promoção de actos pornográficos, que não são explícitos, possam ser alvos de sanções.

TRAVÉS de interpelação escrita, José Pereira Coutinho considera que o Governo deve criar uma comissão independente para investigar as causas do aumento do número de suicídios entre os jovens, no contexto da pandemia de covid-19. O deputado quer ainda saber se o Executivo já aferiu o impacto da pandemia “na vida material e económica dos residentes” e se pondera lançar medidas específicas para evitar os suicídios dos residentes que se encontrem “men-

talmente instáveis sob o impacto da pandemia”. Sobre a Política de Juventude de Macau entre 2021-2030, Pereira Coutinho pede ainda melhorias, nomeadamente, quanto à organização de actividades específicas para “impulsionar os jovens a prestar mais atenção aos assuntos sociais” e para desenvolver as suas “capacidades de pensamento e análise in-

dependentes” para filtrar informações desejáveis. Sobre o tema, o deputado lembra que a facilidade de acesso a informação permitida pela evolução tecnológica, expõe jovens “mal informados” a informações indesejáveis e ideias erradas sobre o suicídio. De acordo com os Serviços de Saúde (SS), até Outubro de 2020, registaram-se 56 suicídios, mais oito casos (16 por cento), relativamente ao mesmo período de 2019. P.A.


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15.1.2021 sexta-feira

Aviso De acordo com o Despacho do Chefe do Executivo n.° 109/2005, os requerimentos visando a renovação de licenças anuais, a emitir pelo Instituto para os Assuntos Municipais, devem ser tratados, anualmente, entre Janeiro e Fevereiro, salvo se outro prazo estiver fixado em disposição legal. Na falta de regime especial, a não renovação da licença anual no supramencionado prazo implica a cessação da actividade licenciada, salvo se o interessado proceder à respectiva regularização no prazo de 90 dias. Caso efectue o pedido de renovação da licença anual no período de regularização de 90 dias, fica sujeito a uma taxa adicional calculada nos seguintes termos: • • •

Dentro de 30 dias, a contar do termo do prazo para a apresentação do pedido de renovação da licença: 30% da taxa da licença em causa; Dentro de 60 dias, a contar do termo do prazo para a apresentação do pedido de renovação da licença: 60% da taxa da licença em causa; Dentro de 90 dias, a contar do termo do prazo para a apresentação do pedido de renovação da licença: 100% da taxa da licença em causa.

Para um melhor conhecimento dos titulares de licença, é apresentada a seguinte tabela descritiva com o tipo de licenças a renovar entre 1 de Janeiro e 28 de Fevereiro de 2021 Tipos de Licença Licença para estabelecimento de venda a retalho (de carnes frescas/ refrigeradas/congeladas) Licença para estabelecimento de venda a retalho de vegetais Licença para estabelecimento de venda a retalho de pescado Licenciamento para animais de competição Licenciamento de outros animais – cavalos Licença para arrendamento de tendas ambulantes temporárias nos mercados Emissão de licença de vendilhão Licença de reclamos e tabuletas de carácter permanente Licença de reclamos em veículos Licença especial de pejamento de carácter permanente Licença de esplanada Os locais e as horas de expediente, para o tratamento de requerimentos de renovação de licenças, são os seguintes: AVISO ISENÇÃO DE IMPOSTO DO SELO SOBRE TRANSMISSÕES DE BENS De acordo com o disposto no artigo 13.º do Orçamento da Região para o ano de 2021, aprovado pela Lei n.º 27/2020, os bens imóveis adquiridos com destino à habitação, no ano de 2021, até ao valor de $3 000 000,00 (três milhões de patacas) encontram-se isentos, no referido ano, de imposto do selo sobre transmissão de bens, pelo que se comunica o seguinte: I. Para beneficiar da isenção do referido imposto do selo, devem os contribuintes apresentar requerimento em conformidade, junto da Direcção dos Serviços de Finanças, desde que preencham os seguintes requisitos: 1. 2.

sejam residentes permanentes da Região Administrativa Especial de Macau, maiores de idade, e, não sejam proprietários, na data do primeiro documento ou contrato de compra e venda do ano de 2021, de qualquer bem imóvel (tais como: bens destinados a habitação, a comércio, a escritório, a indústria, a estacionamento de veículos motorizados, etc.), na Região Administrativa Especial de Macau, salvo casos em que se detenha apenas um imóvel destinado ao estacionamento de veículos motorizados.

II. Considera-se proprietária a pessoa singular que tenha adquirido bens imóveis por qualquer um dos documentos considerados como fonte de transmissão para efeitos fiscais, independentemente do registo de aquisição na Conservatória do Registo Predial. III. Quando for adquirido por um casal e o regime de bens do casamento adoptado for o da comunhão geral, da comunhão de adquiridos ou da participação nos adquiridos, desde que nenhum deles seja proprietário de qualquer imóvel, é atribuído o direito à isenção atrás mencionada. IV. A transmissão de bens imóveis a terceiro que não seja por motivo de sucessão hereditária, no período de 3 anos contados da data da concessão da isenção, determina a caducidade da mesma, devendo o seu beneficiário, antes de aquela ocorrer, proceder ao pagamento do imposto do selo que seria devido nos termos gerais, sob pena de o beneficiário, além da colecta em dívida, ter de pagar os juros compensatórios à taxa legal e eventuais multas. V. Os contribuintes que obtiveram o benefício fiscal desta natureza em anos anteriores ou no presente ano orçamental, não têm direito à isenção atrás mencionada.

Aos 4 de Janeiro de 2021. O Director da DSF Iong Kong Leong

Centro de Serviços do IAM Avenida da Praia Grande, n.° 762- 804, Edf .China Plaza, 2.°andar, Macau. Centro de Serviços da RAEM das Ilhas Rua de Coimbra N°225, 3.° andar , Taipa. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Norte Rua Nova da Areia Preta, n.º 52, Centro de Serviços da RAEM, Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Norte - Posto de Toi San Avenida de Artur Tamagnini Barbosa n.º 127, Edf. D.ª Julieta Nobre de Carvalho, Bloco B, R/C , Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Norte - Posto de Fai Chi Kei Rua Nova do Patane, Habitação Social de Fai Chi Kei, Edf. Fai Tat, Bloco II, R/C, Lojas G e H, Macau Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Central Rotunda de Carlos da Maia, n.os 5 e 7 , Complexo da Rotunda de Carlos da Maia, 3.º andar, Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público da Zona Central - Posto de S. Lourenço Rua de João Lecaros, Complexo Municipal do Mercado de S. Lourenço, 4.°andar, Macau. Centro de Prestação de Serviços ao Público das Ilhas Rua da Ponte Negra, Bairro Social da Taipa, n.º 75K, Taipa. Centro de Prestação de Serviços ao Público das Ilhas - Posto de Seac Pai Van Avenida de Vale das Borboletas, Complexo Comunitário de Seac Pai Van, 6.˚ andar, Coloane Horário de funcionamento: 2.ª a 6.ª feira, das 9:00 às 18:00 horas (aberto à hora de almoço). Os formulários de pedido de renovação das supramencionadas licenças (excepto para a Licença de Vendilhões) poderão ser obtidos no website do IAM (www.iam.gov.mo). Para mais informações, queira ligar para a Linha do Cidadão, através do telefone no 2833 7676. Macau, 30 de Novembro de 2020 Presidente do Conselho de Administração para os Asuuntos Municipais José Maria da Fonseca Tavares www. iam.gov.mo


sociedade 7

sexta-feira 15.1.2021

Crime Internautas vítimas de extorsão devido a fotografias

CRIME CIDADÃO VIETNAMITA DETIDO POR SUSPEITA DE TRÁFICO DE DROGA

Gelo na Ouvidor Arriaga

A Polícia Judiciária deteve na terça-feira um homem, de nacionalidade vietnamita, suspeito do crime de tráfico de droga. O indivíduo foi apanhado com droga, o que levou as autoridades a investigar um apartamento na avenida Ouvidor Arriaga onde foram encontrados mais estupefacientes

U

M homem de nacionalidade vietnamita, de 34 anos de idade, foi detido por suspeitas do crime de tráfico de droga. A detenção foi feita pela Polícia Judiciária (PJ) esta terça-feira e, segundo informações da própria PJ, o indivíduo tinha consigo uma embalagem de metanfetamina, mais conhecida por ice. De seguida, as autoridades investigaram um

apartamento na Avenida Ouvidor Arriaga, onde encontraram mais nove pacotes, totalizando mais de oito gramas, num valor de 28 mil patacas. A PJ adiantou também que o suspeito admitiu dedicar-se ao tráfico de droga há três semanas e que recebeu cinco mil patacas para tratar da embalagem e distribuição. O indivíduo terá dito ainda às autoridades que não fazia ideia

do valor dos estupefacientes que tinha consigo. Além disso, terá referido também que não houve qualquer transacção de dinheiro nesta operação. O homem fez ainda um teste de despistagem à covid-19, que deu negativo.

MP INVESTIGA

O caso foi, entretanto, encaminhado para o Ministério Público para prosseguimento da investigação. O cidadão vietnamita é suspeito dos crimes de tráfico ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas, bem como de consumo ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas. As leis de Macau determinam que o crime de tráfico ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas pode levar a penas compreendidas entre cinco a 16 anos de prisão, enquanto que o

O caso foi, entretanto, encaminhado para o Ministério Público para prosseguimento da investigação. O indivíduo é suspeito dos crimes de tráfico ilícito de estupefacientes e de substâncias psicotrópicas, bem como de consumo ilícito

consumo ilícito pode incorrer em penas de prisão de três meses a um ano, ou pena de multa de 60 a 240 dias. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

JUSTIÇA TUI MANTÉM DECISÃO DE DEMITIR ANTIGA CHEFE DA DSAJ

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Tribunal de Última Instância (TUI) deu razão ao Governo num caso de demissão de uma ex-chefe da divisão financeira e patrimonial da Direcção dos Serviços de Assuntos de Justiça, cargo ocupado entre 1999 e 2014. Segundo o acórdão ontem divulgado, a ex-chefe “abusou de poderes ao fornecer gratuitamente o lugar

de estacionamento num auto-silo, alugado pela DSAJ e que lhe cumpria administrar, para uso dos seus familiares”. A mesma funcionária falsificou ainda o cartão de estacionamento, tendo sido condenada a uma pena suspensa de dois anos pelos crimes de abuso de poder e de “falsificação de documento de especial valor por funcionário”.

A 25 de Julho de 2018, a então secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, aplicou a pena de demissão à ex-chefe da DSAJ, depois de um processo disciplinar. A mulher recorreu da decisão para o Tribunal de Segunda Instância (TSI), que negou provimento ao recurso, tendo depois recorrido para o TUI, acusando

o Executivo de “total desrazoabilidade no exercício de poderes discricionários, no que respeita à aplicação da pena de demissão”. No entanto, entenderam os juízes do TUI, entre outros argumentos, que a funcionária “para manter e ocultar a ilicitude da situação de uso abusivo do lugar de estacionamento, fez tudo e até tentou fazer,

inclusive, ‘falsificações de documentos de especial valor’ (cartão de estacionamento para veículo especialmente autorizado), o que demonstra um comportamento altamente censurável e reprovável, totalmente impróprio de um ‘servidor público’”.

Duas pessoas em Macau foram alvo de extorsão no valor de 47 mil patacas, após terem posado nus em conversas online. O caso foi revelado pela Polícia Judiciária e divulgado ontem pelo canal chinês da Rádio Macau. De acordo com o relato, o primeiro caso envolveu um estudante que pensava estar a falar com uma internauta. Durante a conversa, a vítima foi mostrando-se sem roupa e acabou a ser alvo de chantagem em três ocasiões que resultaram na perda de 47 mil patacas. Num outro caso, um segurança local enviou um vídeo em que aparecia nu, assim como fotos, e foram-lhe pedidas 8 mil patacas para que o conteúdo não fosse partilhado. O homem recusou pagar e apresentou queixa.

Turismo Visitantes pagaram menos por hotéis e vestuário

A redução do preço dos quartos dos hotéis e do vestuário foram os principais factores que fizeram com que os preços para os turistas ficassem mais baratos no quarto trimestre do ano passado, face ao mesmo período de 2019. Segundo os dados divulgados ontem pela Direcção de Serviços de Estatística e Censos (DSEC), no último trimestre do ano passado o Índice de Preços Turísticos registou uma quebra de 15,26 por cento para 118,21 pontos. O alojamento teve uma quebra de 49,89 por cento, enquanto o vestuário e o calçado diminuíram 12,49 por cento. Já os preços para o divertimento e actividades culturais tiveram uma quebra de 7,56 por cento.

DSAT Anunciada abertura de nova estrada na Taipa

A Direcção de Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) anunciou a abertura ao público de uma nova estrada que faz a ligação entre a Avenida Marginal Flor de Lótus e a Avenida dos Jogos da Ásia Oriental. A nova estrada, que fica perto da Rotunda da Piscina Olímpica, tem quatro faixas de rodagem, duas em cada sentido, com uma extensão de 180 metros. No que diz respeito às obras de instalação de saneamento da Avenida Marginal Flor de Lótus, as autoridades apontam que devem estar concluídas nos primeiros seis meses deste ano.


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ENSINO GOVERNO IMPLEMENTA NOVAS MEDIDAS PARA FISCALIZAR FINANCIAMENTO

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Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) vai aplicar cinco novas medidas para melhorar o modelo de financiamento do Fundo de Desenvolvimento Educativo (FDE) às escolas. Segundo um comunicado, “será reforçada a fiscalização das entidades titulares em relação ao financiamento e administração das escolas”, estando previsto um reforço das “atribuições de fiscalização dos gestores, de diversos níveis, das escolas”. Além disso, serão optimizados “os actuais procedimentos e mecanismo de abertura e análise de propostas nas escolas, incluindo a introdução, na comissão de abertura e comissão de análise de propostas, de outros intervenientes educativos, abrangendo os representantes do conselho de administração”. A ideia é “aumentar a transparência na abertura e análise das propostas”, adianta a DSEJ. O Executivo pretende também melhorar o actual procedimento “relativo ao pagamento faseado do finan-

ciamento do FDE”, incluindo a realização de mais vistorias às escolas. A DSEJ promete também divulgar a concessão dos apoios financeiros às escolas através da publicação de todas as informações online. A DSEJ promete reforçar, “mediante meios electrónicos, a fiscalização sobre a implementação de planos por parte das escolas”, realizando “inspecções aleatórias, em maior grau, através da recolha, por via electrónica, de várias formas, das informações comprovativas dos planos realizados pelas escolas”. Caberá ainda às escolas a apresentação de um relatório completo sobre os projectos subsidiados pelo FDE e um “ofício de esclarecimento” caso haja alterações nesses mesmos projectos. Este ofício deve ser assinado pelo representante da entidade titular, juntamente com o novo projecto. Nestes casos, o FDE “poderá eventualmente reduzir o montante do apoio financeiro ajustado à situação real”.

UM ESTUDO SOBRE DISCRIMINAÇÃO PUBLICADO EM REVISTA INTERNACIONAL

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M estudo da Universidade de Macau (UM) sobre a estigmatização, discriminação e crimes de ódio contra grupos populacionais inseridos em comunidades falantes de chinês durante a pandemia de covid-19 foi publicado no Asian Journal of Criminology. A investigação, conduzida por Xu Jianhua, responsável pelo departamento de Sociologia da UM, debruçou-se sobre recolha de conteúdos nos meios de comunicação social entre o final de 2019 e Abril de 2020. O objectivo foi estudar a forma como factores como “o medo de ficar infectado, a cul-

tura gastronómica, utilização de máscaras, ideologia política e o racismo”, influenciaram a estigmatização dos diferentes grupos. Segundo o estudo, na fase inicial da pandemia, os actos de estigmatização recaíram mais sobre os residentes de Wuhan, e eram provenientes das regiões fora da província de Hubei, passando depois pela discriminação por parte de residentes de Hong Kong e Taiwan contra habitantes do Interior da China. Por fim, com a pandemia controlada dentro de portas, a estigmatização passou para a população africana a viver na China.

Xu tinha sido o escolhido num processo polémico, já que o académico terá feito parte da comissão de recrutamento que inicialmente avaliou os candidatos para a vaga

UM XU JIE LANÇA NOVO CONCURSO PARA DIRECTOR DA FACULDADE DE LETRAS

Rebobinar a cassete

O director interino da faculdade de letras desistiu da posição a que se tinha candidatado depois de fazer parte de comissão de recrutamento. A Universidade vai agora abrir um novo concurso internacional

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Universidade de Macau (UM) lançou um novo concurso para contratar um director para a Faculdade de Letras, após o candidato seleccionado, Xu Jie, que foi igualmente director interino, ter desistido.Anotícia foi avançada ontem pela Rádio Macau. Xu tinha sido o escolhido no ano passado, num processo polémico, uma vez que o académico terá feito parte da comissão de recrutamento que inicialmente avaliou os candidatos para a vaga. Mais tarde, Xu acabaria por deixar a posição e candidatar-se ao cargo que ocupava de forma interina, tendo sido seleccionado. Face a este procedimento, e ainda antes de o director interino ter sido escolhido, a UM sempre defendeu que o recrutamento

se tinha realizado “de acordo com os procedimentos normais”. A UM terá recebido várias candidaturas no âmbito do concurso que durou mais de um ano, entre as quais de académicos internacionais. Segundo o “Estatuto do Pessoal da Universidade de Macau”, os recrutamentos têm como princípio geral a “igualdade de condições e de oportunidades para todos os candidatos”.

CONTRATO DE 1,3 MILHÕES

Segundo o novo concurso, o director da Faculdade de Letras vai auferir de um salário anual que começa nas 1,3 milhões de patacas. Entre os requisitos exigidos, o candidato deverá ter doutoramento “numa área relevante”, além de ser professor catedrático com “distinta e internacionalmente reconhecida experiência de investigação e académica”.

O domínio do inglês, como língua de trabalho no meio académico, é outras das exigências e os conhecimentos de chinês e português são tidos como uma vantagem. O concurso para liderar uma faculdade com cerca de 1.300 alunos e mais de 110 docentes tem como prazo limite 22 de Fevereiro. Os interessados serão contactados cerca de três meses depois da entrega da respectiva candidatura. Além de um director para a Faculdade de Letras, a UM procura ainda um director para o Departamento de Português. O cargo é actualmente desempenhado por Dora Nunes Gago, de forma interna, após Yao Jinming ter pedido licença sabática. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


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Traços que no A

Galeria At Light, ligada à associação Arts Empowering Lab, inaugura no próximo dia 23 de Janeiro a exposição “Cor da Vida - Exposição dos Artistas dos Países de Língua Portuguesa”, que inclui trabalhos de autores como Damião Porto, Malé, Pedro Proença, entre outros. A mostra, que pode ser visitada até ao dia 6 de Março, tem a curadoria de José Isaac Duarte. “Havia o interesse de fazer uma exposição de artistas lusófonos na galeria. Tudo foi feito com base em acervos que existem em Macau e montou-se uma exposição com dois artistas de cada país. O resultado é uma pequena amostra da diversidade artística dos países de expressão portuguesa”, contou ao HM. Sem apontar uma obra de maior relevo, José Isaac Duarte confessou que quis mostrar a diversidade e a cor da arte que se faz nos países de expressão portuguesa. “Naturalmente que é importante uma galeria querer fazer esta exposição. Acho que é importante uma galeria não institucional que queira apresentar artistas lusófonos.” Joey Ho decidiu avançar para a organização desta mostra dadas as ligações

históricas que Macau possui com a lusofonia. “Macau tem uma longa conexão com os países de língua portuguesa. A relação tem incluído também uma partilha a nível artístico. Esta exposição é parte desse movimento e um vislumbre da vitalidade das artes visuais desses países”, disse.

OS ARTISTAS

Sem qualquer artista de Macau representado, “Cor da Vida” apresenta trabalhos de conceituados pintores que há muito palmilham o caminho das artes. É o caso de Pedro Proença, nascido em Angola em 1962, devido ao facto de o pai ter sido mobilizado para a Guerra Colonial. Anos mais tarde

“Macau tem uma longa conexão com os países de língua portuguesa. A relação tem incluído também uma partilha a nível artístico. Esta exposição é parte desse movimento e um vislumbre da vitalidade das artes visuais desses países.” JOEY HO GALERIA AT LIGHT

voltaria para Lisboa e, além de artista plástico, é também escritor, músico e tipógrafo. No caso de Damião Porto, nascido em Portugal, a sua obra tem uma forte presença figurativa, conforme disse numa entrevista ao portal Minho Digital. “O que fundamenta geralmente o meu trabalho, tanto nas pinturas como nos desenhos é uma forte presença figurativa e, simultaneamente, persegue os limites do expressionismo chegando próximo do informal, ou seja, a neofiguração.” Natural de São Tomé e Príncipe, Malé, cujo primeiro nome é Eduardo, reside hoje na Batalha, em Portugal. Nascido em 1973, Malé fez os cursos de Design de Equipamento (Escola Secundária de Artes António Arroio, Lisboa, 2000), Artes Plásticas (Escola Superior de Arte e Design, nas Caldas da Rainha, 2006), Formação Artística (SNBA, Lisboa, 1998). Nomes como Abel Júpiter, Kwame Sousa, Roberto Chichorro e Sidney Cerqueira fazem também parte da mostra, sem esquecer Malangatana Ngwenya, artista plástico e poeta moçambicano que faleceu em 2011. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

PEDRO PROENÇA

No próximo dia 23 é inaugurada na Galeria At Light a exposição “Cor da Vida”, com obras de artistas lusófonos e curadoria de José Isaac Duarte. A mostra foi organizada a partir de um acervo já existente no território. Para Joey Ho, responsável pela galeria, ligada à associação Arts Empowering Lab, recorda que Macau possui há muito uma ligação próxima com a lusofonia

DAMIÃO PORTO

EXPOSIÇÃO GALERIA AT LIGHT REÚNE ARTISTAS LUSÓFONOS EM “COR DA VIDA”


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KWAME SOUSA

os unem

IC DISPONÍVEL NOVA EDIÇÃO DE “OS LIVROS E A CIDADE”

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Instituto Cultural (IC) acaba de publicar a 25ª edição de “Os Livros e a Cidade”, disponível nas bibliotecas públicas de Macau, e que tem como tema “Leitura divertida para crianças”. Esta edição “explora o cultivo da cultura da leitura entre as crianças e analisa a situação actual de como a leitura em família e o seu mercado estão a ser desenvolvidos na cidade através da partilha de informações com associações e principais profissionais na área da educação”. A publicação conta com secções como a coluna “Retrato da Biblioteca”, que apresenta uma entrevista com os funcionários da biblioteca do Instituto de Enfermagem Kiang Wu de Macau, que possui uma colecção de livros

de medicina profissional, mas que poucos residentes de Macau conhecem. A publicação inclui também a secção “Manual da Biblioteca”, com a “Base de Dados da Colecção de Periódicos em Língua Estrangeira”, que permite aos leitores terem acesso a jornais antigos em línguas estrangeiras, e ler artigos do passado viajando no tempo, e observar de perto a trajectória das mudanças ocorridas em Macau. Estão disponíveis para levantamento gratuito três mil exemplares em todas as bibliotecas públicas sob gestão do IC, bem como nas instituições do ensino superior, Galeria Tap Seac e em várias livrarias, incluindo outros espaços culturais e artísticos do território.

Cinema CCM tem 1,3 milhões para apoiar até 14 projectos Até ao próximo dia 19 de Fevereiro, o Centro Cultural de Macau (CCM) estará a a receber propostas de realizadores locais interessados em participar com as suas obras na próxima edição do “Macau - O Poder da Imagem”. Segundo um comunicado divulgado ontem pelo Instituto Cultural

(IC), serão apoiados até 14 projectos através da distribuição e de 1.320.000 de patacas. Os projecto candidatos serão divididos pelas categorias “Documentário”, “Curtas” e “Animação”, sendo a iniciativa aberta a participantes de três níveis de experiência: o “Avançado” e o “Livre” são

destinados a realizadores experimentados, e o nível “Iniciado” aos cineastas aspirantes mais novos. Desde 2007, o “Macau - O Poder da Imagem” gerou perto de 600 propostas, que resultaram em 134 filmes, alguns dos quais premiados e exibidos em festivais no exterior.

Samba de Julho

Rio de Janeiro celebrará anualmente “carnaval fora de época”

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estado brasileiro do Rio de Janeiro passará a celebrar anualmente um segundo carnaval em Julho, segundo uma medida publicada ontem em Diário Oficial e que visa estimular o “turismo” e a “economia” na região. Denominado “CarnaRio – Carnaval fora de época”, o projecto foi aprovado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e sancionado pelo governador interino, Cláudio Castro, que determinou a inclusão do evento no calendário oficial estadual. “O CarnaRio tem por finalidade estimulação do turismo, lazer e, principalmente, o aquecimento da economia com a criação de postos de emprego e venda de produtos e serviços. A organização das comemorações relativas à data deverá contar com a participação das ligas, agremiações e blocos carnavalescos, e ainda da Secretaria de Estado responsável pela pasta da Cultura”, diz a decisão publicada no Diário Oficial do Rio de Janeiro. A iniciativa está programada para acontecer todos os anos, na

segunda quinzena de Julho. “A segunda quinzena de Julho coincide com férias escolares praticamente em todo o país, atraindo a chegada de turistas. Outra vantagem da criação deste evento é que muitos estados no nosso país possuem os seus carnavais fora de época como atração turística”, justificou o autor do projecto, deputado estadual Dionísio Lins. O projecto, que ganhou agora força de lei, não está directamente relacionado com a pandemia da covid-19, que fez os carnavais deste ano serem adiados ou cancelados em todo o país sul-americano.

FOLIA CONTIDA

Em Fevereiro, mês em que habitualmente se celebra o Carnaval, a festa não acontecerá em Belo Horizonte, Florianópolis, São Paulo, Salvador, Recife e Rio de Janeiro, cidades que ainda avaliam transferir a folia para outra datas. No Brasil, a pandemia do novo coronavírus já fez cerca de 205 mil mortos e 8,2 milhões de infectados, o que o torna no terceiro país do mundo com mais infecções.


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COVID-19 OMS CHEGOU À CHINA PARA INVESTIGAR ORIGEM DO VÍRUS

De volta à casa partida

Uma equipa de onze investigadores e especialistas da Organização Mundial de Saúde chegou ontem à China para investigar a origem do novo coronavírus, o SARS-CoV-2, detectado pela primeira vez em Wuhan, em fins de 2019

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A passada terça-feira, as autoridades chinesas confirmaram que a equipa de especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) iria chegar à China viajando directamente para Wuhan, procedente de Singapura. Porém, dois dos especialistas foram impedidos de embarcar porque os testes acusaram a presença de anticorpos covid-19. Além da OMS, a missão integra especialistas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Mundial de Saúde Animal, estando envolvidos cientistas dos Estados Unidos, Japão, Rússia, Reino Unido, Holanda, Dinamarca, Austrália, Vietname, Alemanha e Qatar. Em Fevereiro e Julho de 2020, duas equipas de especialistas visitaram a China com o mesmo objectivo da actual missão, mas poucos pormenores foram divulgados sobre a origem de um vírus

que já provocou quase dois milhões de mortes entre os mais de 91,5 milhões de contaminações em todo o mundo. A visita da missão à China, em particular a Wuhan, foi confirmada segunda-feira pelas autoridades de Pequim, depois de, na semana

passada, ter sido anulada à última hora por falta das autorizações necessárias. Nos últimos meses, Pequim reagiu mal aos pedidos de uma investigação independente, tendo mesmo aplicado sanções comerciais à Austrália, que insistiu nesse

sentido em várias ocasiões. As autoridades chinesas, apesar de confirmarem a visita da missão, que está prevista durar entre cinco e seis semanas, não adiantaram quaisquer pormenores sobre o programa, devendo os especialistas cumprir uma quarentena, ainda não

conformada por Pequim, logo que cheguem a território chinês. No entanto, os sucessivos atrasos impostos pela China para aceitar uma investigação independente implicam que os primeiros vestígios da infecção sejam bastante complicados para encontrar, sobretudo em Wuhan, cidade que reportou a primeira morte associada ao novo coronavírus a 11 de Janeiro de 2020.

PACIENTE ZERO

Em Wuhan, como noutras partes da China, a pandemia esteve amplamente sob controlo na Primavera e o número nacional de mortos permaneceu oficialmente em 4.634 desde meados de Maio. A China tem sido criticada internacionalmente pela reacção inicial à epidemia, tendo vários médicos de Wuhan que evocaram a existência do vírus sido acusados pela polícia de “propagarem rumores”, enquanto um jornalista independente que cobria então a quarentena na cidade sido condenado em Dezembro a quatro anos de prisão. Mesmo o nome da primeira vítima mortal da covid-19 continua por conhecer, sabendo-se unicamente tratar-se de um homem de 61 anos que frequentava o mercado de Wuhan, considerado como o primeiro grande foco da pandemia e que foi encerrado a 1 de Janeiro de 2020 mantendo-se, de resto, vedado até hoje, com as autoridades chinesas a não permitirem a entrada a especialistas independentes.

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ECONOMIA COMÉRCIO COM O RESTO DO MUNDO CRESCEU 1,9% EM 2020

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comércio da China com o resto do mundo aumentou 1,9 por cento em 2020, em relação a 2019, segundo dados publicados ontem pela Administração Geral das Alfândegas. As trocas comerciais atingiram os 32,15 biliões de yuan. As estatísticas oficiais mostram que as exportações cresceram 4 por cento no ano passado para 17,93 biliões de yuan. As importações, por outro lado, caíram 0,7 por cento em relação ao ano de 2020, para 14,22 biliões de yuan. Assim, o excedente comercial foi de 3,7 biliões de yuan em 2020, mais 26,7 por cento do que em 2019. Já o comércio com a União Europeia (UE) aumentou 5,3 por cento em 2020, enquanto que o comércio com os Estados Unidos aumentou 8,8 por cento durante o mesmo período. O comércio com o principal

parceiro comercial da China, a Associação das Nações do Sudeste Asiático, cresceu 7 por cento. Em Dezembro, o comércio internacional da China expandiu-se 5,9 por cento numa base anual, totalizando 3,2 biliões de yuan. Durante o mesmo mês, as exportações aumentaram 10,9 por cento, enquanto as importações caíram 0,2 por cento. A Administração Geral das Alfândegas salientou ontem que, durante os primeiros dez meses de 2020, o comércio da China com o resto do mundo representou 12,8 por cento do total mundial, enquanto as exportações atingiram 14,2 por cento nesse período. Estes seriam máximos históricos para a China, de acordo com a mesma entidade, que cita dados próprios e da Organização Mundial do Comércio.

Acidente Detidos responsáveis de mina onde estão retidos 22 mineiros As autoridades chinesas detiveram os responsáveis de uma mina de ouro no Leste da China onde um grupo de 22 mineiros está retido desde domingo, após uma explosão. Segundo a agência Xinhua, os responsáveis levaram mais de 24 horas a informar as autoridades sobre o acidente, violando o tempo máximo de notificação, de uma hora. A explosão aconteceu no domingo, numa mina situada em Qixia, na província de Shandong, causando danos graves na escada que dá acesso ao fundo da mina,

bem como nos cabos de comunicação. As autoridades não indicaram a profundidade a que se encontram os mineiros. A mina pertence à empresa local Shandong Wucailong Investment. Mais de 300 trabalhadores estão a tentar remover os obstáculos que impedem o acesso aos mineiros retidos. A China é o maior produtor mundial de ouro, com 11 por cento do total mundial extraído em 2019, segundo o Conselho Mundial do Ouro. O país contava com mais de três mil minas de ouro em 2016.


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sexta-feira 15.1.2021

INTERNET HKCHRONICLES FOI BLOQUEADO PELAS AUTORIDADES DE HONG KONG

Região

Crónicas sem rede

O fornecedor de Internet de Hong Kong Broadband Network disse hoje que o acesso ao portal HKChronicles foi bloqueado, tratando-se do primeiro caso de censura no quadro da lei de segurança nacional

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portal HKChronicles foi bloqueado, segundo anunciou o fornecedor de Internet de Hong Kong Broadband Network, ao abrigo da lei de segurança nacional. De acordo com o popular fornecedor de internet da Região Administrativa Especial de Hong Kong o bloqueio ao portal associado ao serviço verificou-se “após uma acção de injunção” (procedimento judicial que permite a um credor de uma dívida aceder a documentos). Ao contrário do que acontece no continente, a RegiãoAdministrativa Especial de Hong Kong dispõe de livre acesso à Internet apesar de os democratas temerem que a nova legislação sobre a segurança nacional venha a

restringir a liberdade ao acesso às redes digitais. Na semana passada, os utilizadores de internet de Hong Kong notaram que era impossível o acesso ao portal HKChronicles a partir de alguns computadores. Através de um comunicado os responsáveis pelo portal declara-

ram na altura que “acreditavam” terem sido bloqueados pelas autoridades locais. A polícia recusou-se a comentar os factos, mas ontem a empresa Hong Kong Broadband Network, um dos mais importantes fornecedores de Internet da região administrativa especial, confirmou ter recebido uma ordem para desactivar o site HKChronicles. “Nós desactivamos a ligação ao portal (HKChronicles) em conformidade com a lei sobre a segurança nacional”, disse hoje o servidor de Internet.

SEM ACESSO

O HKChronicles, que permanece activo para os utilizadores externos e em Hong Kong através de redes virtuais privadas,

é apontado pelas autoridades como “controverso” por divulgar imagens e depoimentos das manifestações pró-democracia, desde 2019. O site bloqueado em Hong Kong dá voz às denúncias sobre a violência excessiva da polícia. Quando as autoridades ordenaram aos polícias para não usarem os crachats de identificação durante os confrontos e manifestações o portal começou a recolher os dados policiais dos agentes divulgando-os na página, uma tática conhecida como “doxing”. A prática consiste em divulgar informações pessoais, um procedimento ilegal em Hong Kong. A lei permite à polícia actuar junto dos fornecedores de Internet, suprimir conteúdos considerados “infracção”.

HK 11 DETIDOS POR AJUDAREM ACTIVISTAS NA FUGA PARA TAIWAN

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polícia de Hong Kong deteve ontem 11 pessoas por suspeita de ajudarem 12 activistas pró-democracia a tentarem fugir da cidade, noticiaram os ‘media’ locais. A polícia deteve oito homens e três mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 72 anos por “darem apoio a criminosos”, de acordo com o South China Morning Post, que citou fontes não identificadas.

O conselheiro distrital e advogado Daniel Wong Kwok-tung, um dos detidos, publicou na sua página na rede social Facebook que os agentes do Departamento de Segurança Nacional tinham chegado a sua casa, embora ainda não soubesse para que esquadra de polícia seria levado. Wong, membro do Partido Democrata da cidade, é conhecido por prestar apoio jurídico a centenas de mani-

festantes detidos durante os protestos antigovernamentais em Hong Kong em 2019. As 11 pessoas são suspeitas de ajudar os 12 jovens de Hong Kong detidos no mar pelas autoridades chinesas do continente enquanto tentavam navegar para Taiwan em Agosto, sendo que alguns deles enfrentavam acusações relacionadas com os protestos antigovernamentais em 2019.

No final de Dezembro, dez foram condenados à prisão em Shenzhen por terem atravessado ilegalmente a fronteira, com penas entre sete meses e três anos. Entre eles, está o estudante universitário Tsz Lun Kok, que detém passaporte português, condenado a sete meses de prisão e ao pagamento de uma multa de 20 mil yuans pelo tribunal do distrito de Yantian, em Shenzhen.

COREIA DO SUL SUPREMO CONDENA PARK GEUN-HYE

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Supremo Tribunal da Coreia do Sul confirmou ontem a condenação da ex-Presidente Park Geun-hye a 20 anos de prisão, num caso de corrupção que levou à sua destituição, em 2017. A decisão põe termo a um longo processo judicial após a destituição de Park, precedida de meses de protestos nas ruas. Primeira mulher eleita para o cargo na Coreia do Sul, Park tinha sido condenada em 2018 a 30 anos de prisão por corrupção e abuso de poder. Os tribunais viriam a reduzir a pena a 20 anos de prisão, na sequência de uma série de recursos da defesa. O Supremo Tribunal aprovou igualmente as multas a pagar pela antiga chefe de Estado, de 21,5 mil milhões de won (16 milhões de euros). Park foi ainda condenada a dois anos de prisão por infracções às leis eleitorais. Se cumprir integralmente as duas penas, a ex-Presidente terá mais de 80 anos quando

for libertada. Park admitiu ter recebido ou pedido dezenas de milhões de dólares de empresas sul-coreanas, incluindo a Samsung Electronics, além de partilhar documentos secretos e ter organizado uma “lista negra” de artistas críticos das suas políticas, ou ainda de ter demitido responsáveis que se opuseram aos seus abusos de poder. AJustiça da Coreia do Sul é conhecida pela severidade em relação a antigos chefes de Estado. Quatro dos ex-presidentes ainda vivos foram condenados após o fim dos seus mandatos. O antigo chefe de Estado Roh Moo-hyun suicidou-se em 2009, após ter sido questionado sobre suspeitas de corrupção que implicavam a sua família. Há algumas semanas, o líder do Partido Democrata, actualmente no poder, Lee Nak-yon, admitiu propor o perdão de Park e de Lee Myung-bak, outro ex-Presidente condenado, mas as declarações suscitaram protestos tanto à direita como à esquerda.

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COMISSÃO PROFISSIONAL DOS CONTABILISTAS

Aviso

Torna-se público que já se encontra finalizada a correcção da segunda época de prestação das provas para a inscrição inicial e revalidação de registo como auditor de contas, contabilista registado e técnico de contas, realizadas no ano de 2020 nos termos do disposto na alínea 3) do artigo 1º do Regulamento da Comissão de Registo dos Auditores e dos Contabilistas, pela referida Comissão. Os respectivos resultados serão notificados aos interessados até ao dia 22 de Janeiro, solicitando-se aos mesmos que contactem com a Sra. Chio, através do nº 85995344, caso não recebam a mencionada notificação. Aos 8 de Janeiro de 2021 O Presidente da Comissão Profissional dos Contabilistas, Iong Kong Leong

MISSA DE 30º DIA ~ VIRGINIA MORAIS ~ “As pessoas que muito amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós.” A família de Virgínia Morais convida familiares e amigos para a missa do 30º dia, em sufrágio da sua alma, que será realizada no dia 17 de Janeiro de 2021, pelas 11:00 horas, na Igreja de S. Domingos. Muito reconhecida, a família agradece as flores, doações, condolências, palavras de solidariedade e carinho expressados por ocasião do funeral, bem como, a todos que queiram participar neste acto de fé e solidariedade cristã.


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Teorias do Céu Rosa Coutinho Cabral

“Ce quelque chose q’on nous permetra d’appeler modernité” Baudelaire

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ORO em Baudelaire e gostava de dizer que nasci lá - naquele reino que me enche de comoção - mas nasci noutro lugar que não quero revelar para já. O que urge agora é ser o habitante daquela cidade parida num acto de escrita, e largar o meu corpo no passeio bouleversant das suas palavras, autênticas pontadas de civilização no meu coração nu, sangue de uma nova espécie de humanos: o flanêur que deambula sem profissão nem destino entre boulevards, quartiers, passages subtis e mergulhar “na multidão como um imenso reservatório de electricidade”. E a multidão, como ouvi em Benjamin, “é o véu flutuante através do qual Baudelaire vê Paris”. Ando e desando na cidade e, como numa atracção melíflua, vou sempre parar a Les fleurs du mal – bairro de Baudelaire onde me tenho embebedado, drogado e feito amor com a multidão, desposando-a em cada visita. A cidade é o espaço em que me quero mover para extrair a matéria prima que me interessa: o eterno do transitório na grande fábrica de choques que rege a cidade moderna na “realização do antigo sonho do labirinto” que o flanêur persegue, segundo também encontrei em Benjamin. Benjamin é também uma cidade que visito com frequência, guiada pela minha carta-do-mundo. Nas últimas décadas foram escavadas importantes ruínas cartográficas, lugares de baldaquinos, cartografias e Globos Terrestres na cidade de Sloterdijk - topos deslumbrante mas muito inquieto! Bem sei que parece impossível, mas nem sempre as cidades mantêm as mesmas coorde-

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“Eu, o possesso

O flannêur

nadas. À frente destes olhos que o tempo há-de guardar, o mapa entra em mutação, como uma aranha desandasse a sua teia, e leva a cidade de Sloterdijk para perto de Marx, cidade incontornavelmente moderna. Mas o território representado no mapa não pára de se transformar e arrepia-se que nem uma serpente, insinuando-se nas cercanias de Kant, zona montanhosa e tradicional. E, não fica por aí, pois já a vi saltar para a frente da sombria cidade de Foucault ou mudar-se provisoriamente para a Ásia... mas isso fica para um conto a propósito de cidades-móveis que terei todo o gosto de vos falar quando chegarmos a Borges, a cidade de todos os Alephs, esferas mágicas, labirintos, bibliotecas encantadas, infinitudes que se concentram num só ponto. Tenho uma absoluta consciência que a minha carta de orientação pode ser uma constelação: aquilo que pertence ao tempo, aquilo que se move, aquilo que está mas que não vemos sempre, aquilo que a luz obscura nos mostra e

“Voo para o Oriente. Aterro em Pessanha porque tenho esta incrível faculdade de conhecer as senhas de passagem entre cidades, como se fossem bilhetes de ida-e-volta para lugar nenhum. Apenas a viagem me alicia.”

CONTO 1 que podemos ligar a nosso bel prazer, dando nascimento às rotas que nos constituem no caminho. E sigo pela minha viagem. Agora o que interessa é a minha visita a Baudelaire, uma cidade “crispé comme un extravagante”, “éprise du plaisir jusqu’ à l’atrociré”, “beugle”, e “hurle”. Senti-me como “un poète sinistre, ennemi des familles, favori de l’enfer”na maldição poética de Baudelaire. Finalmente instalei-me no Hotel dos Mortos, entre românticos e modernos. Como no Homem da Multidão de Edgar Alan Poe, eu ofereço-me como narradora desta aventura. Neste conto anormal das teorias do céu, o narrador é uma versão longínqua do flannêur, natural de Baudelaire. Neste conto sigo o olhar do flanêur que captura a paisagem num estado de distracção, ou melhor, “embriaguez anamnésica”, vagueando no presente à procura de “aventuras horríveis, raras, através das capitais”, glorificando a vagabundagem. Afinal ando à nora, entre informações disfuncionais. A minha rede de informações em Baudelaire leva-me a tantas outras cidades enterradas dentro dela, que fico tonta. A cidade subterrânea, escapista, as sensações multiplicadas com excesso e intensidade nos bairros de Mon coeur mis à nu, do Pintor da Vida Moderna, nos Tableux Parisiens, inquietam-me. Como qualquer criminoso, percorri o sub-mundo da técnica moderna das fábricas, dos filmes, e aspirei a dissolução da experiência certa que ser consciente do meu próprio tempo é fundamental. Certa que quase “toda a nossa originalidade vem da marca que o tempo imprime nas nossas sensações.” Posso gritar Eu sou o Outro! O Outro sou eu!! Como um poeta da revolução que abre trincheiras e caminhos secretos para as cidades de Rimbaud e Pessoa. Que sarilho – sinto-me como un Bateaux Ivre, um soldado em fuga com uma malinha pequenina e castanha de couro da Suécia, onde guardo dois preciosos materiais: a aura e a experiência, por isso sou o narrador deste conto sobre cidades que nasceram no grande continente da Poesia rodeados do mar da literatura. Voo para o Oriente. Aterro em Pessanha porque tenho esta incrível faculdade de conhecer as senhas de passagem entre cidades, como se fossem bilhetes de ida-e-volta para lugar nenhum. Apenas a viagem me alicia. Pessanha é uma cidade fin de siécle, acertada com o zeitgeist do seu tempo e, coisa rara, com a inteligenzia europeia. Nela reverberam outras cidades, a ocidente do oriente, neste caso, como Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Verlaine... Movi-me como um flanêur entre uma multidão de palavras moventes, álgidas, imagens fugidias, voláteis, instantâneas, fantasmagóricas. Exalo o ópio, o absinto talvez, mas sobretudo aquele bairro de tempo que se chama Clepsidra. Detive-me lá como se eu, a narradora, encarnasse um destino adivinhado a pairar sobre Macau. arando em um montão de estrelas a topografia poética das palavras daquela cidade-móvel que se exilou a oriente do oriente. Nas suas ruas e tabernas embebedo-me com lágrimas e fragmentos de palavras ouvidas na cidade e misturando-as no meu choro: Ai meu coração volta para trás, nas róseas unhinhas, dentinhos, conchas e pedrinhas de um mar em sofrimento, derramado dos olhos mortos dos soldados e guardado no pranto do mundo! “Foi no entanto que choramos a dor de cada um... E o vinho em que choraste era comum: Tivemos que beber no mesmo pranto.” Camilo Pessanha


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

sexta-feira 15.1.2021

do Pasmo.”

entre oriente e ocidente

FICÇÃO, ENSAIO, POESIA, FRAGMENTO, DIÁRIO

Gonçalo M. Tavares

Ambulâncias e pés feios Ebe ouve o barulho estridente de uma ambulância e em vez de fechar os ouvidos fecha a boca porque não quer gritar. Edda está ao lado dos pais no sofá e finge ter fome e mexer na barriga, mas de facto está a tocar ao de leve no sexo. Edelberga está com raiva porque na escola ninguém sabe ainda o seu nome. Editta está a fazer a planta transversal da futura casa do filho, mas este ainda tem um ano e mal gatinha. Edvige diz a Fiore que o pai já foi proibido de entrar em casa pela mãe e pela polícia. Egizia toca pela primeira vez na terra e como domina ainda mal a linguagem diz: puta para a terra como se isso fosse uma palavra bonita. Egle diz a Federica que as convicções são para atirar pela janela fora quando se está com medo e quando se quer encontrar um namorado depois dos quarenta anos. Elaide está paranoica à procura de uma luva debaixo do sofá, mas a luva não está debaixo do sofá. Elda está nua em cima da cama, de costas, com joelhos e mãos em cima do colchão, a pensar quando é que isto acaba? Elena abre a torneira da água da casa de banho para o namorado não ouvir os seus intestinos. Eleonora está a jogar ao jogo do galo no hospital, mas sabe que vai morrer. Elettra sai em bicos de pés para não perceberem que ela vai sair de casa e nunca mais vai voltar. Eliana abre a persiana, mas o dia está tão escuro que quase nada muda no seu ânimo. Elide está a falar via zoom, mas a internet não está boa por isso ela grita de tal maneira que fica rouca. Elimena abana a cabeça a Daniela e diz que ela agora chorou bem pior do que da última vez. Elisa insulta o político que está na televisão, e desenha no ecrã uns cornos na cabeça dele com uma caneta que comprou ontem e lhe disseram que é mesmo adequada para escrever em ecrãs. Elisabetta tenta aprender latim, mas as sirenes das ambulâncias não a deixem concentrar. Elisea olha para os pés pequenos e feios e pensa que preferia manter os pés pequenos e feios, mas ser mais alta uns centímetros. Ella ouve Deanna dizer que a dor é mais forte do que a curiosidade e apetece-lhe beliscá-la para ela deixar de ser parva. Eloisa começa a gritar no chuveiro de uma maneira que lembra o filme Psico do Hitchcock. Elsa quer visitar a mãe que está no hospital, mas dizem-lhe que a mãe já não está no hospital e ela não percebe se foi mudada se morreu.

ILUSTRAÇÃO ANA JACINTO NUNES

Mulheres de Itália (17)


16

h

Crónico Oriente

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A Egiptomania em Portugal

LANDSCAPE WITH THE FLIGHT INTO EGYPT, BRUEGEL

Duarte Drumond Braga

15.1.2021 sexta-feira

U

M caso curioso dentre as febres de fim de século é o da egiptomania, que a Portugal também se dignou chegar. E não falamos de reproduções de estranhos monumentos junto aos Jerónimos, ou de maquilhagens bizarras, mas de poesia. No Egipto dos modernistas portugueses, as pirâmides, a esfinge e restante bric-a-brac imagético são sinais de uma ambiência hierática, rara, ritualística, e não apenas puramente exótica. Para exótico, qualquer Java ou qualquer Algarve serviria. Só o Egipto parece dar ao poema aquele misterioso timbre de sarcófago mental; envolvê-lo numa certa ambiência, tornando abstrato o que é concreto e concreto o que é abstrato. O terceiro poema da série «Chuva Oblíqua», do Pessoa ortónimo, reflete essa construção de um ambiente mis-

terioso em pleno surto vanguardista. O Egipto atravessa o próprio ato de escrita do poema: “A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro.../ Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente/ E ao canto do papel erguem-se as pirâmides... (…)/ Ouço a Esfinge rir por dentro/ O som da minha pena a correr no papel.../ Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme”. Muito longe de qualquer descritivismo do país dos faraós, há aqui um mistério

no ato de escrita que só o Egipto permite cifrar. Em Alfredo Guisado, um galego republicano da baixa de Lisboa, a atração pelo mistério redundou num travestismo metafísico junto às pirâmides, no terceiro poema da série «As Exéquias da Princesa»: “Meu Corpo é um Egipto de Saudade. /Mênfis a minha Alma. Meus sentidos/Pirâmides na minha antiguidade./ Meus seios são lagoas sempre cheias./ Múmias de reis meus olhos

Só o Egipto parece dar ao poema aquele misterioso timbre de sarcófago mental; envolvê-lo numa certa ambiência, tornando abstrato o que é concreto e concreto o que é abstrato.

doloridos /E Nilos de desejos minhas veias.” É curioso que este poeta-princesa pouco se quis prolongar para além dos tempos da Vanguarda. Guisado calou-se por volta de 1918, reunindo apenas uns versinhos galegos. Ficaram só estas estranhas pirâmides do seu corpo metamorfoseado em país, e só elas conseguem simbolizar aquela misteriosa indefinição de um corpo. Já Ângelo de Lima, triste cativo vário de hospitais psiquiátricos, Pessoa juntou-o ao grupo da revista Orfeu para o seu segundo número, aumentando o escândalo. As geografias orientais de Ângelo vão além do Nilo, chegando até ao Rio Amarelo, mas é junto ao primeiro que a sacerdotisa e rainha Neitha-Kri entoa o seu próprio louvor: “Sou a Grande Rainha Neitha-Kri... /Sou Devota da Noute Pensadora.../ E Neith é grande, pelos Céus Senhora... / E eu, Sua Filha, Sou Nofrei-Ari!...”. Aqui não se trata do mistério da escrita ou do corpo, mas da reconstituição de uma liturgia perdida de uma religião mistérica ou esotérica, que o poema procura simular para isso recriando a própria língua portuguesa com palavras e expressões anómalas. O último exemplo é Luís de Montalvor, poeta órfico pouco conhecido, conquanto dinamizador de Orfeu, que se afogou com toda a família num carro que foi parar ao Tejo, uma espécie de Nilo lisboeta. Montalvor dirigiu a famosa coleção de poesia da Ática e verdade é que a sua obra poética, quase desconhecida, é-o sobretudo por ser muitíssimo parca, onde contudo se encontra a fantasia oriental «Dromedário», com elementos que citam condensadamente a temática da viagem ao Levante, mais do que precisamente ao Egipto: “Verdade ou sonho? Que importa/ ao morto olhar o rumo incerto)?/Eu sigo o sonho (e cismando!)/do dromedário pisando/silêncios do meu deserto…” Trata-se dum cenário reduzido a dados puramente simbólicos que remetem para uma paisagem essencialmente interior. O Egipto, como se vê, forneceu bons materiais para um hieratismo e um culto do Mistério que interessava aos poetas modernistas portugueses. Em síntese, é sobretudo um clima imagético e simbólico, por vezes puramente textual, como em Pessoa, que a partir dele se desenha.


(f)utilidades 17

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C I N E M A

SALA 1

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LOVE YOU FOREVER [B]

THE MOVIE DEMON SLAYER: KIMETSU NO YAIBA MUGEN TRAIN [C]

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FALADO EM PUTONGHUA LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Yoyo Yao Com: Lee Hongchi, Li Yitong 16.45, 19.15

1 8 5 0 FALADO 2 EM JAPONÊS 4 6 LEGENDADO EM CHINÊS Um filme de: Sotozaki Haruo 7 14.30, 16.45, 19.15, 21.30 7 3 WILD MOUNTAIN THYME [B] Um filme de: John Patrick Shanley OK! MADAM [B] Com: Emily Blunt, 8 6 FALADO 1 EM JAPONÊS 7 Jamie Blant, LEGENDADO EM CHINÊS Christopher 7 Walken 5 3 Um 9filme de: Solozaki8Haruo 14.30, 21.30 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 0 2 7 8 1 2 9 3

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SOLUÇÃO DO PROBLEMA 10

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Habituados a cenários de guerra internacionais, os militares da Guarda Nacional foram chamados a guardar o Capitólio, em Washington, na sequência da ocupação violenta do passado dia 6 de Janeiro e das ameaças que ainda persistem.

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UM LIVRO HOJE

THE SOFT MACHINE | WILLIAM S. BURROUGHS

Burroughs é um dos escritores basilares do movimento Beatnik que teve o seu auge com os romances “Naked Lunch” e “Junkie”. Este livro, o primeiro da trilogia “Nova” foi escrito usando a técnica cut-up, em que o autor divide a obra e baralha a sua ordem aleatoriamente. “The Soft Machine” desenrola-se num mundo de pesadelo, em que um agente secreto tem a habilidade para se metamorfosear noutras pessoas. O protagonista constrói uma máquina do tempo para ir ao passado derrotar um gang de padres maias que usam o calendário da civilização antiga para controlar mentes. Um dos livros mais estranhos e experimentais da obra de um vulto incontornável da literatura do século XX. João Luz

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Pedro Arede; Salomé Fernandes Colaboradores Anabela Canas; António Cabrita; António de Castro Caeiro; Ana Jacinto Nunes; Amélia Vieira; Duarte Drumond Braga; Emanuel Cameira; Gonçalo M.Tavares; Inês Oliveira; João Paulo Cotrim; José Simões Morais; Luis Carmelo; Nuno Miguel Guedes; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rosa Coutinho Cabral; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Teresa Sobral; Valério Romão Colunistas André Namora; David Chan; João Romão; Jorge Rodrigues Simão; Olavo Rasquinho; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


18 opinião

15.1.2021 sexta-feira

“What’s really behind the rise of apocalyptic environmentalism? There are powerful financial interests. There are desires for status and power. But most of all there is a desire among supposedly secular people for transcendence. This spiritual impulse can be natural and healthy. But in preaching fear without love, and guilt without redemption, the new religion is failing to satisfy our deepest psychological and existential needs.” Michael Shellenberger, Apocalypse Never: Why Environmental Alarmism Hurts Us All

E

STAMOS a viver uma era de preocupação, especialmente um medo das alterações climáticas. Uma imagem resume esta época que é de uma rapariga com um letreiro a dizer que “Morrerás de velhice ou de alterações climáticas”. Esta é a mensagem que os meios de comunicação estão a perfurar as nossas cabeças, pois as alterações climáticas estão a destruir o nosso planeta e ameaçam matar-nos a todos. A linguagem é de apocalipse. Os noticiários referem-se à “incineração iminente do planeta” e os analistas sugerem que o aquecimento global pode fazer com que a humanidade se extinga em poucas décadas. Recentemente, fomos informados que a humanidade tem apenas uma década para salvar o planeta, fazendo de 2030 o prazo limite para salvar a civilização. E, portanto, temos de transformar radicalmente todas as grandes economias para acabar com a utilização de combustíveis fósseis, reduzir as emissões de carbono a zero, e estabelecer uma base totalmente renovável para toda a actividade económica. As crianças vivem no medo e alinham as ruas em protesto. Os activistas estão a isolar as cidades e os aeroportos para aumentar a consciência de que toda a população do planeta está a enfrentar “hecatombe, morte e fome”. Em 2017, o jornalista americano David Wallace-Wells escreveu uma longa e aterradora descrição do impacto do aquecimento global para a revista New York. Embora o artigo fosse geralmente considerado pelos cientistas como exagerado e enganador, o mesmo argumento foi publicado em forma de livro, em 17 de Março de 2020, com o título “The Uninhabitable Earth: Life After Warming”, que se tornou um bestseller. O livro revela um alarmismo sem falhas: “É pior, muito pior, do que se pensa”. Da mesma forma, no seu livro de 2019, “Falter: Has the Human Game Begun to Play Itself Out?”, o naturalista americano Bill McKibben, líder da organização ambientalista 350.org, advertiu que o aquecimento global é a maior ameaça à civilização humana, pior até do que a guerra nuclear. Pode acabar com a humanidade não com uma explosão, mas “com o rebentar de um oceano em ascensão”.

Uma prateleira gemeria sob o peso de livros recentes com títulos e mensagens deliberadamente aterradoras. É assim que o mundo acaba com secas e ondas de calor e os furacões que estão a convergir na América. Os meios de comunicação social reforçam a linguagem extrema, dando amplo espaço aos activistas ambientais, e envolvendo-se no seu próprio activismo. O New York Times adverte que “em todo o mundo as alterações climáticas estão a acontecer mais rapidamente do que os cientistas previam”. A capa da revista Time diz-nos: “Fiquem preocupados. Estejam muito impressionados”. O jornal britânico The Guardian foi mais longe, actualizando as suas directrizes de estilo, pelo que os repórteres devem usar os termos “emergência climática”, “crise climática”, ou “ruptura climática”. O editor do jornal acredita que “alterações climáticas” não é suficientemente assustadora, argumentando que “soa bastante passivo e suave quando aquilo de que os cientistas estão a falar é uma catástrofe para a humanidade”. Sem surpresas, o resultado é que a maioria de nós está muito preocupada. Uma sondagem de 2016 revelou que em países tão diversos como os Emiratos Árabes Unidos e a Dinamarca, a maioria das pessoas acredita que o mundo está a piorar, e não a melhorar. No Reino Unido e nos Estados Unidos, dois dos países mais prósperos do planeta, um espantoso 65 por cento das pessoas são pessimistas quanto ao futuro. Uma sondagem de 2019, revelou que quase metade da população mundial acredita que as alterações climáticas irão provavelmente acabar com a raça humana. Nos Estados Unidos, quatro em cada dez pessoas acreditam que o aquecimento global levará à extinção da humanidade. Há consequências reais para este medo. As pessoas estão a decidir, por exemplo, não trazer crianças ao mundo. Uma mulher disse a uma jornalista: “Eu sei que os humanos são difíceis de procriar, mas o meu instinto agora é proteger os meus filhos dos horrores do futuro, não os trazendo ao mundo”. Os meios de comunicação social reforçam esta escolha; os países querem saber “como se decide ter uma criança quando as alterações climáticas estão a intensificar. Se os adultos estão preocupados de forma disparatada, as crianças estão aterrorizadas. Um inquérito do Washington Post de 2019 mostrou que das crianças americanas entre os treze e os dezassete anos de idade, 57 por cento sentem medo das alterações climáticas, 52 por cento sentem raiva, e 42 por cento sentem-se culpadas. Um estudo académico de 2012 com crianças com idades compreendidas entre os dez e os doze anos, de três escolas de Denver, revelou que 82 por cento expressaram medo, tristeza e raiva ao discutir os seus sentimentos sobre o ambiente, e que a maioria das crianças partilhava opiniões apocalípticas sobre o futuro do planeta. É revelador que para 70 por cento das crianças, a televisão, os noticiários e os filmes foram

fundamentais para formar os seus pontos de vista aterrorizantes. Uma criança de dez anos, diz sobre o futuro que já não haverá tantos países por causa do aquecimento global, porque ouve falar no Discovery Channel e canais científicos como se em três anos o mundo pudesse inundar-se com o calor e ficar demasiado quente. Estas descobertas, se válidas em todo o país, sugerem que mais de dez milhões de crianças americanas estão aterrorizadas com as alterações climáticas. Como resultado deste medo, em todo o mundo as crianças estão a faltar às aulas para protestar contra o aquecimento global. Porquê assistir às aulas quando o mundo vai acabar em breve? Recentemente, uma aluna dinamarquesa da primeira classe perguntou seriamente à sua professora: “O que vamos fazer quando o mundo acabar? Para onde iremos? Para os telhados?” Os pais podem encontrar uma montanha de instruções e guias online com títulos bastante sugestivos. E assim, representando o verdadeiro terror da sua geração, uma jovem segura um sinal que diz “Vou morrer de alterações climáticas”. As alterações climáticas são um problema real. Ao contrário do que ouvimos, os resultados climáticos básicos têm-se mantido notavelmente consistentes ao longo dos últimos vinte anos. Os cientistas concordam que o aquecimento global é principalmente causado pelo homem, e que tem havido poucas mudanças nos impactos que projectam para a subida da temperatura e do nível do mar. A reacção política à realidade das alterações climáticas sempre foi deficiente, o que também se tem vindo a apontar há décadas. Existem formas mais inteligentes para enfrentar o aquecimento global. Mas a conversa mudou drasticamente nos últimos anos. A retórica sobre as alterações climáticas tornou-se cada vez mais extrema e menos ancorada à ciência actual. Ao longo dos últimos vinte anos, os cientistas climáticos aumentaram cuidadosamente o conhecimento sobre as alterações climáticas, e nós temos mais fiáveis dados do que nunca. Mas, ao mesmo tempo, a oratória que vem dos comentadores e dos meios de comunicação tornou-se cada vez mais irracional. A ciência mostra-nos que os receios de um apocalipse climático são infundados. O aquecimento global é real, mas não é o fim do mundo. É um problema controlável. No entanto, vivemos agora num mundo onde quase metade da população acredita que as alterações climáticas irão extinguir a humanidade, tendo alterado profundamente a realidade política. Faz-nos duplicar em políticas climáticas pobres. Faz-nos ignorar cada vez mais todos os outros desafios, desde as pandemias e a escassez de alimentos até aos conflitos e disputas políticas, ou subsumi-los sob o signo das alterações climáticas. Esta singular obsessão com as alterações climáticas significa que estamos agora a passar de desperdiçar milhares de milhões de dólares em políticas ineficazes para desperdiçar triliões de dólares. Ao mesmo tempo, estamos a ignorar cada vez mais os

GEORGE FREDERIC WATTS, HOPE

O infundado

desafios mais urgentes e muito mais fáceis do mundo. E estamos a assustar crianças e adultos sem sentido, o que não é apenas factualmente errado mas moralmente repreensível. Se não dissermos para parar, o actual falso alarme climático, apesar das suas boas intenções, é provável que deixe o mundo muito pior do que poderia estar. Precisamos de deixar o pânico, olhar para a ciência, enfrentar a economia, e abordar a questão racionalmente. Como é que reparamos as alterações climáticas, e como é que a priorizamos no meio dos muitos outros problemas que afligem o mundo no topo da qual está a Covid-19 que não é fruto das alterações climáticas?


opinião 19

sexta-feira 15.1.2021

perspectivas

JORGE RODRIGUES SIMÃO

apocalipse climático

As alterações climáticas são autênticas, e causadas predominantemente pelas emissões de carbono dos seres humanos que queimam combustíveis fósseis, e devemos combatê-las de forma inteligente. Mas para o fazer, temos de parar de exagerar e de argumentar que é agora ou nunca, e parar de pensar que o clima é a única coisa que importa. Muitos defensores do clima vão mais longe do que o apoio da ciência. Sugerem implicitamente ou mesmo explicitamente que o exagero é aceitável, porque a causa é tão importante. Depois de um relatório da ONU sobre o clima de 2019 ter conduzido a reivindicações exageradas por activistas, um dos autores científicos advertiu contra o

exagero. Escreveu que arriscaríamos a afastar o público com conversas extremistas que não são cuidadosamente apoiadas pela ciência. Apesar de tudo está certo. Mas o impacto de reivindicações climáticas exageradas vai muito mais fundo. Dizem-nos que temos de fazer tudo de imediato. A sabedoria convencional, repetida ad nauseam nos meios de comunicação, é que só temos até 2030 para resolver o problema das alterações climáticas. Isto é o que a ciência nos diz? Não é! É o que nos diz a política. Este prazo veio de políticos que fizeram uma pergunta muito específica e hipotética aos cientistas e que basicamente consiste no que será necessário para manter as alterações climáticas abaixo de um objectivo quase impossível? Não surpreendentemente, os cientistas responderam que fazê-lo seria quase impossível, e chegar perto de qualquer meta exigiria enormes mudanças para todos os sectores da sociedade até 2030.Imagine uma discussão semelhante sobre mortes no trânsito. Nos Estados Unidos, quarenta mil pessoas morrem todos os anos em acidentes de viação. Se os políticos perguntassem aos cientistas como limitar o número de mortes a uma meta quase impossível de zero, uma boa resposta seria fixar o limite de velocidade ao equivalente a três quilómetros por hora. Ninguém morreria. Mas a ciência não nos diz que devemos ter um limite de velocidade de três quilómetros por hora, apenas nos informa que se queremos zero mortos, uma forma simples de o conseguir é através de um limite de velocidade de três quilómetros por hora fortemente imposto. No entanto, é uma decisão política para todos fazerem as contrapartidas entre limites de velocidade baixos e uma sociedade conectada. Actualmente e com exclusão da Covid-19 e todas as suas possíveis estirpes a nossa atenção única apesar dos muitos desafios globais, regionais e mesmo pessoais são quase inteiramente subsumidos pelas alterações climáticas. A sua casa está em risco de inundações por causa das alterações climáticas! A vossa comunidade está em risco de ser devastada por um ciclone devido às alterações climáticas! As pessoas estão a morrer à fome no mundo em desenvolvimento por causa das alterações

climáticas! Com quase todos os problemas identificados como causados pelo clima, a solução aparente é reduzir drasticamente as emissões de dióxido de carbono a fim de melhorar as alterações climáticas. Mas será esta realmente a melhor maneira de ajudar? Se quiser ajudar as pessoas nas planícies aluviais do Mississippi, do Nilo ou outro qualquer grande rio a reduzir o risco de inundações, existem outras políticas que ajudarão mais rapidamente, de forma barata e eficazmente do que a redução das emissões de dióxido de carbono.

“Durante os últimos trinta anos, o rendimento médio global por pessoa quase duplicou. Isto conduziu a diminuições maciças na pobreza. Em 1990, quase quatro em cada dez pessoas no planeta eram pobres. Hoje é menos de uma em cada dez.” Estas poderiam incluir uma melhor gestão da água, a construção de diques mais altos, e regulamentos mais eficazes que permitam a algumas planícies aluviais inundar de modo a evitar ou aliviar inundações noutros locais. Se quiser ajudar as pessoas no mundo em desenvolvimento a reduzir a fome, é quase tragicómico concentrar-se na redução do dióxido de carbono, quando o acesso a melhores variedades de culturas, mais fertilizantes, acesso ao mercado e oportunidades gerais para sair da pobreza os ajudaria muito mais rapidamente e a um custo menor. Se insistirmos em invocar o clima a cada curva, acabaremos muitas vezes por ajudar o mundo de uma das formas menos eficazes possíveis. Não estamos à beira da iminente extinção. Na realidade, muito pelo contrário. A retórica da desgraça iminente desmente um ponto essencial, pois em quase todas as formas que podemos medir, a vida na Terra é melhor agora do que era em qualquer outra altura da história. Desde 1900, temos mais do que duplicado a nossa esperança de vida. Em 1900, a esperança média de vida era de apenas trinta e três anos; hoje é de mais de setenta e um. O aumento tem tido o impacto mais dramático no pior momento do mundo. Entre 1990 e 2015, a percentagem do mundo que praticava a defecação aberta caiu de 30 para 15 por cento. A desigualdade na saúde diminuiu significativamente. O mundo é mais literato, o trabalho infantil tem vindo a diminuir, estamos a viver num dos tempos mais pacíficos da história. O planeta também está a ficar mais saudável. No último meio século fizemos reduções substanciais na poluição do ar interior, anteriormente o

maior assassino ambiental. Em 1990, causou mais de 8 por cento das mortes; isto reduziu quase metade para 4,7 por cento, o que significa que 1,2 milhões de pessoas sobrevivem todos os anos e que teriam morrido. O aumento do rendimento agrícola e a mudança de atitudes em relação ao ambiente significaram que os países ricos estão cada vez mais a preservar as florestas e a reflorestar. E desde 1990, mais 2,6 mil milhões de pessoas tiveram acesso a fontes de água melhoradas, elevando o total global para 91 por cento. Muitas destas melhorias surgiram porque ficámos mais ricos, quer como indivíduos quer como países. Durante os últimos trinta anos, o rendimento médio global por pessoa quase duplicou. Isto conduziu a diminuições maciças na pobreza. Em 1990, quase quatro em cada dez pessoas no planeta eram pobres. Hoje é menos de uma em cada dez. Quando somos mais ricos, vivemos melhor e vidas mais longas. Vivemos com menos poluição do ar interior. Os governos providenciam mais cuidados de saúde, proporcionam melhores redes de segurança e aprovam leis e regulamentos ambientais e de poluições mais fortes. É importante notar que o progresso não terminou. O mundo foi radicalmente transformado para melhor no século passado, e continuará a melhorar neste século. A análise dos peritos mostra que é provável que nos tornemos muito melhores no futuro. Os investigadores que trabalham para a ONU sugerem que até 2100 os rendimentos médios aumentarão talvez para quatrocentos e cinquenta por cento dos rendimentos actuais. A esperança de vida continuará a aumentar, para oitenta e dois anos ou possivelmente para além de cem anos. À medida que os países e os indivíduos enriquecem, a poluição atmosférica irá reduzir ainda mais. As alterações climáticas terão um impacto global negativo no mundo, mas diminuirão em comparação com todos os ganhos positivos que temos visto até agora, e continuarão a ver-se no presente século. A melhor investigação actual mostra que o custo das alterações climáticas, se nada fizermos, será de cerca de 3,6 por cento do PIB global. Isto inclui todos os impactos negativos; não só o aumento dos custos das tempestades mais fortes, mas também os custos do aumento das mortes por vagas de calor e das zonas húmidas perdidas devido à subida do nível do mar. Significa também, que em vez de verem os rendimentos aumentar para 450 por cento até 2100, poderão aumentar “apenas” para 434 por cento, o que é claramente um problema. Mas também não é uma catástrofe. Como o próprio painel climático da ONU o afirmou que para a maioria dos sectores económicos, o impacto das alterações climáticas será pequeno em relação aos impactos de outros factores [tais como] alterações na população, idade, rendimento, tecnologia, preços relativos, estilo de vida, regulação, governação, e muitos outros aspectos do desenvolvimento socioeconómico.


“Querer ser livre é também querer livres os outros.”

Eleições 24 portugueses recorreram a voto antecipado em Macau

Crime Moita Flores acusado de corrupção e branqueamento por obra

Entre terça-feira e ontem, um total de 24 cidadãos portugueses votaram antecipadamente para as eleições presidenciais. O número foi avançado ontem pelo Consulado de Portugal para Macau e Hong Kong à TDM-Rádio Macau. Em Macau, as eleições para escolher o próximo presidente de Portugal vão realizar-se de forma presencial no consulado, durante os dias 23 e 24 de Janeiro, entre as 8h e as 19h. De acordo com a TDM-Rádio Macau, para os cidadãos que se encontrem actualmente a fazer quarentena não haverá arranjos especiais para exercerem o direito de voto. Em Macau, estão recenseados em 70.106 cidadãos portugueses.

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Covid-19 Embaixadora dos EUA elogiou Taiwan

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A embaixadora norte-americana nas Nações Unidas elogiou a forma como Taiwan lidou com a pandemia de covid-19 e criticou a posição da China de impedir a ilha de fazer parte de organizações internacionais. A posição foi declarada durante uma conversa virtual realizada ontem com a Presidente Tsai Ing-wen, depois de a sua visita à ilha ter sido cancelada, a poucos dias antes do fim do mandato de Donald Trump. “Infelizmente, Taiwan não pode partilhar o seu sucesso nos fóruns da ONU, incluindo na Assembleia Mundial da Saúde, porque a RPC [República Popular da China] o impede”, escreveu Kelly Craft na rede social Twitter. Taiwan, que tomou a decisão de fechar as fronteiras e colocar em prática um regime de quarentena muito rígido assim que foram conhecidos os primeiros casos da infecção, contabiliza, até agora, menos de 850 casos de covid-19 e sete mortes. No ano passado, a ilha registou 253 dias sem qualquer transmissão local do coronavírus.

sexta-feira 15.1.2021

PALAVRA DO DIA

Simone de Beauvoir

Hans Kluge “Dez países concentram 95% de todas as vacinas. Temos que trabalhar intensamente para conseguir uma vacinação uniforme em todos.”

A galgar terreno Variante da covid-19 descoberta no Reino Unido em 25 países europeus

A

nova variante do SARS-CoV-2 descoberta no Reino Unido já foi detectada em pelo menos 25 países europeus, incluindo a Rússia, afirmou ontem o director regional europeu da Organização Mundial de Saúde (OMS). Em conferência de imprensa em russo, o belga Hans Kluge lembrou que o novo coronavírus, como todos, “muda com o tempo” e garantiu compreender o alarme pelo surgimento de variantes como a designada por B117, identificada em Setembro passado no Reino Unido. Kluge defendeu que todos os países europeus devem aumentar esforços para apurar sequências genéticas de amostras do SARS-CoV-2 e trocar informações sobre elas. O responsável do departamento imunológico da OMS Europa, Oleg Benesh, salientou que há “dúvidas legítimas” sobre a eficácia das vacinas já disponíveis contras as novas variantes, mas que “não há provas de que a imu-

nidade adquirida [com as vacinas] não proteja”. “A vacina gera imunidade contra os antigénios do vírus, esta imunidade é policlonal, ou seja, produz anticorpos contra diferentes fragmentos e antigénios do vírus e é por isso que esperamos que funcionem, não temos provas do contrário”, considerou. Hans Kluge indicou que no ano passado houve 26 milhões de casos de contágio e mais de 580.000 mortes na região europeia. “Desde o começo do ano, mais de 280 milhões de habitantes da região europeia estão em condições de confinamento total e durante a semana passada aumentou o número de países que anunciaram confinamentos parciais. Na região continuam a verificar-se índices muito altos de transmissão da infecção”, notou.

ACUMULADORES DE VACINAS

O director europeu da OMS apontou que “2021 ainda será um ano de pandemia, mas enfrenta-se uma situação mais controlável e previsível”, para o que contribuirão

as campanhas de vacinação que já decorrem em 31 países europeus. “Dez países concentram 95 por cento de todas as vacinas, por isso temos que trabalhar intensamente para conseguir uma vacinação uniforme em todos”, referiu. Portugal registou pelo menos 72 casos de contágio pela nova variante do SARS-CoV-2, segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), que os identificou em 28 concelhos. Na última actualização das análises genéticas ao novo coronavírus, divulgada na terça-feira, o INSA afirma que os dados da nova variante, mais contagiosa, detectada no Reino Unido “apontam para a existência de transmissão comunitária”. O INSA, que já analisou 2.342 sequências do genoma do SARS-CoV-2 a partir de amostras recolhidas em pessoas infectadas, detectou “38 novas sequências da nova variante” em amostras recolhidas nos aeroportos de Lisboa e Porto e junto de todas as regiões de saúde do país, excepto da Madeira.

Ministério Público deduziu acusação contra o ex-presidente da Câmara de Santarém Moita Flores e um empresário, no âmbito das obras no Jardim da Liberdade, pela prática dos crimes de corrupção e de branqueamento. Em comunicado, o Ministério Público afirma que, na sequência do inquérito que correu no Departamento de Investigação e Acção Penal de Évora, foi deduzida acusação para julgamento por tribunal colectivo contra Francisco Moita Flores e um empresário do ramo da construção civil, imputando-lhes a prática de crime de corrupção passiva e activa, respectivamente, e de crime de branqueamento. Foram ainda acusados um antigo funcionário do município, como cúmplice no âmbito da prática do crime de corrupção, um filho do ex-autarca e ainda duas pessoas colectivas, aos quais foi imputada a prática do crime de branqueamento. Os crimes de que são acusados “decorrem de factos praticados entre os anos de 2009 e 2010, no contexto da construção do parque de estacionamento subterrâneo e outras obras realizadas no Jardim da Liberdade, em Santarém”, acrescenta. De acordo com a acusação, o ex-presidente da Câmara Municipal de Santarém “recebeu vantagem patrimonial do empresário da construção civil, por intermédio de sociedades comerciais ligadas ao respetivo grupo empresarial e ao filho do primeiro, pela prática de actos contrários aos deveres do cargo que exercia”. Em causa está o alegado recebimento de 300.000 euros, através de empresas da família do ex-autarca, para favorecimento da ABB Construções, empresa que, em 2010, recebeu uma indemnização de 1,8 milhões de euros da Câmara de Santarém na sequência de alterações contratuais que reduziram os lugares de estacionamento projectados inicialmente para o parque subterrâneo.

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Hoje Macau 15 JAN 2021 #4690  

N.º 4690 de 15 de JAN de 2021 - Edição em papel do jornal Hoje Macau

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