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MOP$10

SEXTA-FEIRA 14 DE JULHO DE 2017 • ANO XVI • Nº 3854

HOJE MACAU

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

PODER DE SINERGIA

Jornalista e candidato PÁGINA 4

Pessanha de riquexó h JOSÉ SIMÕES MORAIS

A arte e a jóia

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hojemacau

ELEIÇÕES QUEM SÃO E O QUE QUEREM OS CANDIDATOS À VIA INDIRECTA?

Poder directo Os representantes das mais poderosas associações não dispensam os lugares de deputados

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GRANDE PLANO

CRISTINA VINHAS EVENTOS


2 GRANDE PLANO

LEGISLATIVAS

São 15 candidatos para 12 lugares, num sufrágio que diz pouco ao eleitorado em geral. Mas é neste grupo de deputados que se verificam, para já, as maiores alterações. E é também neste conjunto de membros da Assembleia Legislativa que está o maior poder interno

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ÊM uma importância que, muitas vezes, escapa à opinião pública. São, por norma, os menos interventivos, o que pouco ou nada significa. Há muito trabalho de bastidores nisto da política. Não são escolhidos pela generalidade dos eleitores, mas sim pelos seus pares, por serem os mais bem posicionados para defenderem

os interesses corporativos a que pertencem. A figura do deputado eleito por via indirecta é uma herança do passado, do tempo da Administração Portuguesa, em que era necessário garantir, na Assembleia Legislativa (AL), a representatividade das diferentes comunidades. À época, a política era dominada sobretudo por quem falava por-

OS EMPRESÁRIOS

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ORQUE há apenas uma lista – a União dos Interesses Empresariais de Macau – a eleição está garantida. É neste grupo que se encontra o influente Ho Iat Seng, presidente da AL, o empresário Kou Hoi In e o engenheiro civil José Chui Sai Peng, ambos deputados. Cheang Chi Keong é substituído por Ip Sio Kai, antigo líder do Banco da China e presidente da Associação de Bancos, um estreante nestas andanças legislativas. A União dos Interesses Empresariais de Macau foi a escolhida pelo colégio a que pertence quase por unanimidade: num universo de 102 eleitores legalmente registados e ligados aos sectores industrial, comercial e financeiro, obteve 97 votos. Na apresentação da candidatura, Ho Iat Seng – que, volta

Ho Iat Seng

SUFRÁGIO INDIRECTO COM VÁRIOS NOVOS ROSTOS

OS HOMENS tuguês e era preciso chamar para o hemiciclo pessoas do mundo chinês de Macau. Apesar de haver quem entenda que, hoje em dia, a ideia de ter deputados indirectos já não se justifica, as mexidas na lei eleitoral não tiveram consequências nesta organização peculiar do sistema legislativo do território. Os críticos desta via de acesso falam ainda de uma certa desadequação dos interesses representados à realidade actual da RAEM. Tomando como exemplo o sector do trabalho, observamos que os deputados eleitos por esta via são oriundos da Federação das Associações dos Operários de

Macau (FAOM). Houve tempos em que a FAOM congregava uma parte importante dos trabalhadores da cidade, mas hoje, atendendo à evolução do tecido económico e social, essa ideia é altamente questionável. Havendo ou não uma real correspondência com o que é hoje Macau, certo é que este grupo de 12 deputados tem uma forte ligação ao poder, mais ou menos assumida. O mesmo acontece interinamente: os principais cargos da AL estão entregues a quatro deputados eleitos por sufrágio indirecto. Ho Iat Seng é o presidente, Lam Heong Sang é o vice-presidente, Chui Sai

Cheong e Kou Hoi In são os 1.o e 2.o secretários, respectivamente. Um dos nomes da Mesa da AL está de saída – Lam Heong Sang não se recandidata, pelo que na próxima legislatura será necessário encontrar quem o substitua. Mas esta será apenas uma das várias mudanças dentro deste grupo de tribunos: são vários aqueles que não vão permanecer na AL, a começar por LeonelAlves, deputado com 33 anos de experiência, o mais antigo de todos eles. Também Cheang Chi Keong decidiu que tinha chegado a hora de abandonar o órgão legislativo. Será necessário fazer mais uma substituição em termos internos,

OS OPERÁRIOS e meia, mostra ser crítico em relação ao modo como a RAEM é governada – defendeu que é preciso prestar atenção ao desenvolvimento do território. Afirmou que não se podem dar benefícios a um só sector, mas a todas as camadas da população. O número dois, Kou Hoi In, assegurou que vai defender os interesses que representa, bem como trabalhar para que sejam atenuadas as dificuldades sentidas pelas pequenas e médias empresas, sector que também merece a atenção de José Chui Sai Peng. Já Ip Sio Kai prometeu efectuar trabalho em prol do desenvolvimento do sector financeiro de Macau. Nas últimas eleições, a lista então igualmente liderada por Ho Iat Seng arrecadou 99,57 por cento dos votos.

José Chui Sai Peng

Lei Chan U

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ARA os interesses laborais, o sistema reserva dois assentos, sendo que já se sabe, a mais de dois meses das eleições, quem é que vai ser eleito: Lam Lon Wai e Lei Chan U. São os herdeiros políticos de Lam Heong San e Ella Lei, actuais representantes do sector na AL, que saem ambos deste campeonato. Lam Heong San deixa o hemiciclo; Ella Lei decidiu atirar-se ao sufrágio directo, depois de uma primeira legislatura que ficou marcada por uma intervenção activa. Todos estes nomes surgem do mesmo contexto político: a Federação das Associações dos Operários de Macau. A Comissão Conjunta da Candidatura das

Lam Lon Wai

Associações de Empregados, nome escolhido para lista, decidiu este ano fazer eleições internas para escolher os candidatos a deputados. São dois nomes sem experiência na matéria que já prometeram seguir os passos dos antecessores. Lam Lon Wai é subdirector da Escola para Filhos e Irmãos dos Operários e lidera a lista. Pretende defender os direitos dos residentes, sobretudo dos trabalhadores, fomentando a diversificação económica do território. Quer ainda impulsionar o desenvolvimento do sistema democrático e contribuir para a reorganização da máquina administrativa. Dos seus objectivos políticos fazem

ainda parte “os assuntos ligados aos jovens”, com destaque para os que dizem respeito à ascensão na carreira. Lei Chan U leva com ele para a AL o que aprendeu como membro do Conselho Permanente de Concertação Social. Tem como principais preocupações problemas que afectam os trabalhadores: a sobreposição de férias com feriados e a necessidade de atribuir uma compensação aos trabalhadores, a implementação da licença de paternidade e o aumento dos dias de licença de maternidade. Garante que o ano não vai chegar ao fim sem apresentar sugestões para a revisão da lei laboral.


A figura do deputado eleito por via indirecta é uma herança do tempo da Administração Portuguesa, em que era necessário garantir a representatividade das diferentes comunidades

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GCS

DO MEIO uma vez que o deputado é, há já várias legislaturas, presidente da 3.a Comissão Permanente da AL. A 1.a Comissão Permanente irá ter, igualmente, um novo comando, uma vez que a actual presidente, Kwan Tsui Hang, eleita pela via directa, decidiu afastar-se da vida política.

COMEDIDA CONCORRÊNCIA

Já houve eleições que não havia qualquer expectativa em relação aos resultados do sufrágio indirecto, por o número de candidatos corresponder exactamente aos assentos disponíveis. No dia 17 de Setembro, o nível de emoção será igualmente fraco, mas há um

colégio eleitoral que terá duas opções no momento do voto: foram apresentadas duas listas para o sector profissional. Mas já lá vamos. Antes, importa recordar alguns números. O sistema eleitoral contempla quatro lugares para o sector industrial, comercial e financeiro, os chamados interesses empresariais; três lugares para o sector profissional; dois lugares para o sector do trabalho; dois lugares para o sector cultural e desportivo; e um lugar para o sector dos serviços sociais e educacional. Isabel Castro (com Vítor Ng) info@hojemacau.com.mo

OS DESPORTISTAS CULTURAIS

OS PROFISSIONAIS

RATA-SE de um sector sem novidades, sem concorrência, com dois candidatos para outros tantos lugares, figuras bem conhecidas de quem acompanha as lides legislativas do território: Cheung Lup Kwan e Chan Chak Mo. É mais um caso em que existem dúvidas sobre a verdadeira equivalência entre o nome do sector que representam e o meio de onde são oriundos, atendendo a que, em ambos os casos, se distinguem essencialmente no meio empresarial. Da biografia oficial de Vítor Cheung Lup Kwan no site da AL não consta o exercício, neste momento, de qualquer cargo ligado nem ao desporto, nem à cultura. Ocupa funções de topo em empresas ligadas ao investimento. Deputado à AL há muitos anos, é também membro do Conselho para o Desenvolvimento Económico da RAEM. Tem 79 anos. Chan Chak Mo tem uma visibilidade pública bastante maior, desde logo pelo facto de ser presidente da 2.a Comissão Permanente da Assembleia Legislativa. Com formação académica em Gestão de Empresas, o homem forte da Future Bright, deputado desde 2001, tem um longo currículo político e uma ligação ao Comité Olímpico de Macau. Os dois veteranos da AL candidatam-se com uma lista

o único sector onde vai existir alguma competição interna. Ao contrário do que aconteceu em 2013, em que a União dos Interesses Profissionais de Macau fez uma corrida solitária, este ano há mais uma lista: a União dos Interesses de Medicina de Macau. Este novo grupo é liderado por Chan Iek Lap, deputado eleito há quatro anos ao lado de Chui Sai Cheong e Leonel Alves. Desta vez, parte para o processo com uma equipa onde cabem Kuok Cheong Nang e Wong Chin Kit. Há três lugares para preencher. Resta saber como é que os votos se vão dividir, mas é altamente improvável que Chui Sai Cheong, empresário influente e com muitos anos de experiência legislativa, perca o lugar. Com a saída de Leonel Alves, o irmão do Chefe do Executivo concorre acompanhado por Vong Hin Fai, figura muito próxima de Chui Sai On que, neste momento, ocupa um assento na AL por ter sido por ele nomeado.

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Cheung Lup Kwan

Chan Chak Mo

que se chama Associação União Cultural e Desportiva Excelente. O programa político inclui vários pontos relativos às directrizes do futuro desenvolvimento das áreas da cultura e do desporto, incluindo o Desporto para Todos, a formação para atletas de elite e o desenvolvimento da indústria cultural. Em 2013, os deputados foram eleitos com 96,36 por cento dos votos do colégio a que pertencem.

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Chan Iek Lap

Chui Sai Cheong

A substituição de Leonel Alves por Vong Hin Fai não convence quem se interessa por estas matérias. Apesar de serem ambos advogados, Alves é tido como sendo um jurista com muita mais experiência; depois, tem três décadas de passado político e legislativo que o colocam numa posição ímpar no território. Da lista de Chui Sai Cheong faz ainda parte Ben Leong, uma figura bem conhecida de um sector profissional que reúne muitos portugueses: a arquitectura. Leong é presidente da Associação dos Arquitectos de Macau. Quanto à União dos Interesses de Medicina de Macau, Chan Iek Lap é um médico sem papas na língua que não tem, no entanto, marcado o seu percurso político através de uma intervenção pública regular. Em entrevista recente a este jornal, demonstrou ter preocupações políticas sobretudo na área em que trabalha, optando por não tecer grandes considerações sobre outros domínios sociais.

Vong Hin Fai

Chan Hong

A EDUCADORA

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sufrágio de Setembro também não vai trazer surpresas no que toca ao sector dos serviços sociais e educacional. Chan Hong, presidente da Associação de Educação de Macau, ligada também aos órgãos sociais das Mulheres, volta a candidatar-se sem concorrência. Em 2013, foi eleita com mais de 98 por cento dos votos. Este ano, o resultado não deverá ser substancialmente diferente. A comissão de candidatura de Chan, a Associação de Promoção do Serviço Social e Educação, tem como metas a melhoria dos serviços sociais, o desenvolvimento da qualidade da educação e o aumento da qualidade da vida dos residentes. No âmbito dos serviços sociais, a deputada e candidata destaca a necessidade de aumentar o apoio aos cuidadores dos idosos e a acessibilidade. Quanto à educação, gostaria de ver um ritmo mais acelerado no projecto das escolas de Céu Azul e o aumento dos espaços para fins educativos.


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HOJE MACAU

POLÍTICA

Eleições PODER DE SINERGIA TEM CANDIDATOS QUE JÁ FORAM JORNALISTAS

Adeus quarto poder Johnson Ian e Ikei Che foram jornalistas durante vários anos, mas decidiram mudar de profissão e passar para a política, ao serem membros da lista ligada à Associação Sinergia de Macau. Pedem mais opinião pública, mais benefícios para os cidadãos e reconhecem que existe autocensura nos media chineses

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ERCORREU, durante vários anos, os corredores da Assembleia Legislativa (AL) como jornalista do jornal Ou Mun. Falava pessoalmente com os deputados, até que decidiu que podia tentar ser um deles. Johnson Ian foi jornalista durante 15 anos e é um dos membros da lista Poder da Sinergia, ligada à Associação Sinergia de Macau, que este ano participa nas eleições legislativas.

Ikei Che foi um dos rostos da informação do canal MASTV e também pensou que poderia estar no lugar onde a política acontece.Ambos deixaram as suas redacções para não mais voltar. Mesmo que não sejam eleitos, assumem que querem continuar a ser vozes activas na sociedade. Johnson Ian não estudou sequer jornalismo. Licenciou-se em Economia na Universidade de Macau e trabalhou na Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) como croupier. A experiência durou apenas dois meses, porque o trabalho era “muito aborrecido”. Decidiu então ser jornalista, tendo começado por escrever sobre economia. “Como jornalistas somos parte da sociedade, e fui jornalista durante 15 anos. Com esta profissão pude conhecer com mais detalhe os problemas existentes”, disse ao HM. Ikei Che achava que, antes de ser jornalista, sabia muito sobre Macau, mas percebeu que, afinal, havia muito mais para descobrir. “Conheci coisas com que nunca tinha tido contacto. Nos dois anos em que fui jornalista percebi que, às vezes, é possível avançar com a resolução dos problemas das pessoas, mas ninguém fala. Além disso, o Governo não ouve os dois lados de uma questão. Se Lam U Tou conseguir ser eleito, vamos conseguir ajudar as pessoas e apresentar soluções, e foi por isso que me candidatei”, conta. Que objectivos têm como candidatos? O problema da habitação vem logo ao de cima. “Queremos

um fornecimento estável de habitação pública, como havia durante a Administração portuguesa. Mas desde 1999 que o fornecimento de casas públicas diminuiu bastante”, referiu Johnson Ian. Além disso, a lista Poder de Sinergia pede “uma melhor qualidade de vida e a implementação de melhores políticas”, sobretudo relacionadas com os novos aterros. É ainda pedido “um novo sistema de transportes públicos, porque os contratos vão expirar no próximo ano”, disse o candidato.

DESAPONTAMENTO GERAL

Johnson Ian puxa do seu lado de economista para dizer que, tendo em conta o Produto Interno Bruto de Macau, um dos melhores do mundo, a população poderia viver muito melhor. “As pessoas de Macau não estão satisfeitas e sentem-se desapontadas

“As pessoas sentem-se desapontadas com o Governo, mas temos de criticar também os deputados, porque eles têm o papel de monitorizar o trabalho do Executivo.” JOHNSON IAN CANDIDATO ÀS ELEIÇÕES com o Governo, e com os problemas existentes ao nível da habitação e do sistema de transportes.” O desapontamento existe em relação ao trabalho do Executivo e dos próprios deputados. “As pessoas sentem-se desapontadas com o Governo, mas temos de criticar também os deputados, porque eles têm o papel de monitorizar o trabalho do Executivo.”

Quais são, então, os deputados preferidos da população? Na visão de Johnson Ian, os preferidos são Ng Kuok Cheong e Kwan Tsui Hang, que está de saída da AL. E José Pereira Coutinho? “Não tanto, porque se concentra nos funcionários públicos e esquece um pouco o resto da população.” Na visão do ex-jornalista do Ou Mun, “não há muita discussão sobre economia e jogo na AL”. “É preciso focar este tópico, porque a economia é muito importante em Macau”, apontou Johnson Ian, que reiterou que “o desempenho dos deputados está abaixo das expectativas das pessoas”. Apesar do descontentamento, Johnson Ian diz que ainda há pouca expressão da opinião pública. “As pessoas querem uma mudança, mas quem é que vai chegar cá fora e pedir essa mudança? Ainda temos uma sociedade chinesa muito tradicional, mas isso não é muito positivo para o desenvolvimento de Macau.” “Muitos mantêm-se em silêncio, e para serem ouvidos têm de fazer parte das associações mais tradicionais”, defendeu ainda. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

A AUTOCENSURA E A FALTA DE FORMAÇÃO

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uestionada sobre se foi alvo de censura no seu trabalho jornalístico, Ikei Che responde que “mais ou menos”. “Não tinha toda a liberdade, mas essa é uma situação compreensível. Mas a maioria dos casos, relacionados com os problemas com que se deparam os cidadãos, ou que estão ligados ao trabalho do Governo, podíamos noticiar”, apontou a ex-jornalista. Johnson Ian afirma que existe autocensura nos media chineses, à semelhança do que têm apontado vários relatórios internacionais sobre liberdade de imprensa. Tendo sido jornalista do Ou Mun, um dos diários mais lidos em Macau e considerado próximo de Pequim, Johnson Ian ressalvou que, “na maioria das vezes”, pôde escrever tudo o que quis. “Porque é que a sociedade pensa que há constrangimentos? Porque o

maior problema está nos repórteres. Há auto-censura e eles optam por não escrever, por não reportar. A maior parte dos jornalistas quer notícias, mas não tem fontes. ”Para o antigo jornalista, que teve de corrigir textos vezes sem conta até aprender a escrever notícias, o maior problema é a falta de formação nos media de língua chinesa. “Os jovens jornalistas não têm formação e não sabem escrever notícias. Vão para as conferências de imprensa e pensam que basta o comunicado de imprensa, mas não chega.” Johnson Ian conta casos de outros tempos, em que o jornalista ligava directamente para os números de telemóvel dos membros do Governo, sobretudo antes de 1999. “Tudo mudou. Não querem falar mais, querem manter as coisas em segredo”, remata.


5 POLÍTICA

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O Chefe do Executivo encontrou-se ontem com membros da Comissão que investiga as queixas contra o Comissariados contra a Corrupção (CCAC), de modo a inteirar-se do andamento dos trabalhos até agora. De acordo com comunicado do Gabinete do Chefe do Executivo, a reunião também serviu para uma troca de opiniões para que os trabalhos sejam melhorados. Os membros da Comissão explicaram que as queixas recebidas são tratadas de forma séria e conforme a competência atribuída pela lei. Foi também referido que o CCAC tem correspondido no sentido de dar solução aos problemas que motivaram as queixas. O Comissário contra a Corrupção, Cheong Weng Chon, participou na reunião.

ALIMENTAÇÃO WONG KIT CHENG DUVIDA DA QUALIDADE DE AVES IMPORTADAS

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A sequência da polémica proibição de venda de aves vivas, a deputada Wong Kit Cheng interpelou o Executivo para que tenha em consideração a possível falta de qualidade da carne importada. O aumento da necessidade de compra de aves congeladas é uma situação que deixa a deputada preocupada, nomeadamente no que diz respeito às condições de higiene destes produtos. Wong Kit Cheng diz ter recebido queixas de cidadãos que revelaram situações de más condições de conservação das aves congeladas importadas. Por esse motivo, a deputada interpelou o Governo a apostar em medidas de fiscalização e inspecção a esses produtos importados nos locais de venda. Outra das preocupações de Wong prende-se com a proveniência dos produtos. Apesar de a deputada achar que existe na população a ideia de que as aves congeladas são mais seguras, os matadouros e viveiros a que os vendedores recorrem levantam sérias dúvidas ao nível das condições higiénicas. A interpelação de Wong Kit Cheng tem como objectivo garantir a segurança e a qualidade das aves importadas em Macau. Como tal, espera que as autoridades adoptem medidas de fiscalização desde a fonte, o local de origem das aves, de forma a aferir as condições higiénicas. A preocupação seguinte é o processo de transporte e, finalmente, os locais de venda ao público. V.N./ J.L.

Ensino Superior LEI NÃO EXPLICITA REGRAS PARA CURSOS NO EXTERIOR

Canudos quase mistério O novo regime do ensino superior não determina as directrizes para a abertura de cursos no exterior por parte das instituições de ensino superior locais, algo que o jurista António Katchi contesta, alertando para a questão da liberdade académica

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Governo não criou regras específicas na nova lei do ensino superior para a abertura de cursos no estrangeiro por parte de universidades locais, mesmo depois do Comissariado da Auditoria (CA) ter alertado para a questão legal da criação do Instituto de Investigação Científica e Tecnológica da Universidade de Macau em Zhuhai. O parecer jurídico relativo à análise do regime do ensino superior, por parte dos deputados da Assembleia Legislativa (AL), recorda esse exemplo. Na prática, todos os cursos terão de receber o aval do Governo, sem que haja regras concretas quanto às diferenças entre jurisdições. O problema foi levantado pela própria comissão da AL. “Obrigar a presente lei a ser aplicável no exterior não iria dificultar ainda mais as instituições do ensino superior locais a ministrarem cursos no exterior? Se o âmbito de aplicação da presente lei for estendido ao exterior, então o proponente terá de ponderar, seriamente, como vai resolver eventuais conflitos entre os sistemas jurídicos local e estrangeiro.” O Executivo “pensou numa solução prática”. Todas as instituições locais, sejam privadas ou públicas que “pretendam ministrar cursos no exterior, terão de apresentar, primeiro, um pedido ao Governo, a fim de deixar que o Governo saiba onde é que a instituição requerente pretende ministrar os cursos”. Caberá às instituições “observar os mesmos procedimentos previstos pela proposta de lei para a realização dos cursos”. Além disso, o Executivo prometeu “delegar ou destacar equipas para essas instituições, a fim de procederem a uma avaliação in loco”.

E A LIBERDADE ACADÉMICA?

Na visão do jurista António Katchi, o novo regime jurídico do ensino superior deveria conter regras mais específicas. “É óbvio que a realização de cursos no exterior por parte de instituições de Macau coloca esses cursos sob a alçada de dois ordenamentos jurídicos e de duas jurisdições,

GCS

DISCIPLINA CHUI SAI ON REÚNE COMISSÃO QUE ANALISE QUEIXAS AO CCAC

sendo impossível Macau impor a priori a aplicação exclusiva do seu próprio direito”, referiu ao HM. “Seria preferível a lei estabelecer algum enquadramento normativo para estas actividades, pois o mero facto de o Governo as ter de autorizar não é suficiente. É preciso definir regras mínimas que orientem o Governo na sua decisão”, defendeu António Katchi, que alerta ainda para a questão

da manutenção do princípio da liberdade académica, contido no segundo sistema. “A lei deveria cingir-se a estabelecer as condições que, do ponto de vista do próprio direito de Macau, se reputassem essenciais. Uma dessas condições seria o respeito escrupuloso pela liberdade de expressão e pela liberdade académica”, lembrou. O jurista deu o exemplo de cursos locais ministrados na

“A lei deveria cingir-se a estabelecer as condições que, do ponto de vista do próprio direito de Macau, se reputassem essenciais. Uma dessas condições seria o respeito escrupuloso pela liberdade de expressão e pela liberdade académica.” ANTÓNIO KATCHI JURISTA

China. Nesse caso, a instituição em causa “deveria estar expressamente obrigada pela lei de Macau a garantir, nesses cursos, o exercício da liberdade de expressão e da liberdade académica, em termos não menos favoráveis que os consagrados no direito de Macau, e a opor-se, pacificamente, a qualquer interferência das autoridades locais que implicasse desrespeito por esses direitos”. A questão legal levantada pelo relatório do CA já terá sido resolvida. Segundo o parecer da AL, “devido às exigências das autoridades e do sistema jurídico do interior da China, o referido instituto de investigação acabou por ser registado como ‘entidade privada não empresarial’”, aponta o parecer da AL. Andreia Sofia Silva

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Está escolhido o nome que vai substituir Lola Flores Couto do Rosário na direcção do Jardim--de-Infância D. José da Costa Nunes. Chamase Marisa Peixoto e há quatro anos que é educadora na instituição. Não domina o chinês, mas Miguel de Senna Fernandes confia agora na estabilidade da escola

Costa Nunes MARISA PEIXOTO É A NOVA DIRECTORA DA ESCOLA

A escolha natural

Marisa Peixoto assinou contrato como directora por um ano. Tal como explicou o presidente da APIM, isso não revela falta de confiança no novo nome. “É normal, todos os contratos com todo o pessoal docente foram sempre de um ano. Todos os anos renovamos os contratos e corresponde a uma prática tradicional. No espaço de um ano veremos se tem condições para continuar.”

“Continuamos a esperar por uma directora que domine várias línguas, mas muitas vezes as coisas não acontecem. Mas não é por causa disso que não se gere um jardim-de-infância.”

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Á um ano entrava Lola Flores do Rosário, bilingue, que prometia trazer um novo rumo ao Jardim-de-Infância D. José da Costa Nunes e, sobretudo, responder ao aumento dos alunos chineses. A directora acabou por não ficar mais do que um ano lectivo, sendo que Marisa Peixoto é o nome que se segue. A educadora está há quatro anos no jardim-de-infância de matriz portuguesa e, segundo referiu Miguel de Senna Fernandes, é o nome ideal para ficar à frente da instituição. “Neste momento ela reunia as melhores condições para desempenhar o cargo, a escolha foi natural. Há cerca de quatro anos que está no Costa Nunes e conhece bem a escola, bem como os colegas. Havia outros nomes que reuniam boas condições, mas julgámos que a Marisa seria uma boa aposta”,

MIGUEL DE SENNA FERNANDES PRESIDENTE DA APIM

disse o presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM). Miguel de Senna Fernandes quis ir à prata da casa buscar um nome e não pensou sequer em recorrer a currículos de fora do Costa Nunes. Marisa Peixoto não domina a língua chinesa, ao

contrário da sua antecessora, mas para o presidente da APIM isso não constitui um problema de maior. “[Marisa Peixoto] Não domina o chinês, isso seria ouro sobre azul. Continuamos a esperar por uma directora que domine várias línguas, mas muitas vezes as coisas não acontecem. Mas não é por

causa disso que não se gere um jardim-de-infância. O bilinguismo é um factor importante, mas não é decisivo. A actual directora domina o chinês, era uma aposta bastante boa.” Quanto a Lola Flores Couto do Rosário, não ficará a trabalhar no jardim-de-infância. Vera Gonçal-

A sequência do violento despiste do passado fim-de-semana, André Couto foi internado num hospital de Hong Kong. Na passada terça-feira, a equipa pela qual corre, a Spirit Z – Laptime Factory, lançou um comunicado destinado à angariação de fundos para pagar as contas médicas. O valor pedido era de 550 mil dólares de Hong Kong, quantia que foi conseguida em pouco tempo.

A necessidade surgiu na sequência da “atenção médica urgente” que não podia esperar pela confirmação de cobertura por parte da companhia de seguros, segundo informação deixada no Facebook da equipa de André Couto. O montante de donativos ultrapassou o esperado. O valor remanescente será usado para posteriores tratamentos e reabilitação, explica a equipa do piloto. Na sequência do despiste o piloto fracturou

a coluna, ficando com a vértebra L1 partida. Num vídeo publicado no Facebook, André Couto revelou que a equipa médica considera a fractura instável, exigindo, pelo menos, um mês de cama numa posição estática e acompanhamento constante. “É uma sorte estar aqui a falar, estou a mover os braços e as pernas, o que são boas notícias”, declarou o piloto num vídeo publicado pela equipa. Na

mesma publicação, o piloto aproveitou para agradecer a onda de solidariedade que respondeu, prontamente, à solicitação da sua equipa. “É difícil expressar as minhas emoções, sinto que muitas pessoas me querem ajudar, só posso agradecer do fundo do coração”, diz o piloto. André Couto promete lutar contra a adversidade de forma a regressar às pistas o mais rapidamente possível. J.L.

Miguel de Senna Fernandes referiu ainda que sempre quis o melhor para a escola em todas as decisões que tomou. “Estivemos sempre à espera de uma maior estabilidade, as escolhas foram sempre feitas nesse sentido. É uma esperança renovada, com certeza. Tudo indica que será um nome bem aceite, se bem que é sempre uma incógnita. Mas, segundo o que conhecemos da pessoa em causa, vai dar-nos estabilidade”, rematou. Andreia Sofia Silva

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SPORTSCAR365.COM

ANDRÉ COUTO REUNIDOS DONATIVOS PARA CONTA DE HOSPITAL

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ves, a directora que a antecedeu, chegou a ser convidada para ficar na escola como educadora, mas declinou o convite. “A Lola não vai ficar no Costa Nunes, não sei onde vai ficar. Ela melhor o dirá”, explicou Miguel de Senna Fernandes.

CONTRATO DE UM ANO

SOFIA MARGARIDA MOTA

SOCIEDADE


7 IPM ARRANCOU ONTEM A 4ª EDIÇÃO DO “VERÃO EM PORTUGUÊS”

Ensinar a ensinar

SOCIEDADE

GONÇALO LOBO PINHEIRO

hoje macau sexta-feira 14.7.2017

Ajudar professores chineses a leccionar a língua portuguesa é o objectivo de mais uma edição da iniciativa “Verão em Português”, que está a decorrer no Instituto Politécnico de Macau. Para Carlos André, o curso marca uma etapa decisiva do ensino do idioma no Continente e poderá definir a qualidade que terá no futuro

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EVE início ontem a quarta edição do curso “Verão em Português”. A iniciativa, a cargo do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa (CPCLP)  do Instituto Politécnico de Macau (IPM), dá assim continuidade ao projecto que traz professores de Português do Continente para uma semana de formação. O objectivo, diz Carlos André, director do CPCLP, é poder desenvolver o ensino da língua na China colmatando as necessidades dos docentes. “O curso foi projectado de acordo com as necessidades que nos são apresentadas pelos professores de Português no interior da China”, referiu o responsável durante a cerimónia de abertura da formação. Dos conteúdos a leccionar, a organização tem o cuidado de que vão ao encontro das dificuldades. “Como são necessidades muito vastas há sempre o cuidado de organizar a formação de uma forma muito abrangente. Temos alguns módulos de formação nas áreas da cultura e da literatura, e depois uma insistência muito grande na área da língua.” Entre as maiores dificuldades apontadas pelos nativos de língua chinesa que se dedicam ao ensino do português, Carlos André sublinha a fonética e a gramática. “Neste curso abordamos a formação para

a fonética, que é um dos problemas muito sérios dos professores de Português que são falantes nativos de chinês e os problemas das estruturas. A estrutura da língua chinesa e da língua portuguesa são substancialmente diferentes”, salienta. Este ano, o curso conta com 22 participantes. Se normalmente são professores do Continente, esta edição conta com dois formandos de Macau. Para Carlos André, esta situação é natural, porque quando se trata do ensino do português, “os problemas são os mesmos para todos”.

UMA ETAPA DECISIVA

A língua portuguesa já é ensinada há muito na China Continental. Começou a ser leccionada nos anos

“O curso foi projectado de acordo com as necessidades que nos são apresentadas pelos professores de Português no interior da China” CARLOS ANDRÉ DIRECTOR DO CENTRO PEDAGÓGICO E CIENTÍFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA

1960 no Instituto de Rádio Difusão de Pequim e, pouco tempo depois, na Bei Wai de Pequim. Mas o ensino da língua teve uma interrupção ainda nessa década. No entanto, neste momento está, de acordo com Carlos André, num ponto decisivo do seu desenvolvimento. “A verdade é que, se pensarmos quando é que o português começou a ter este crescimento forte, não foi há tantos anos assim. Foi apenas há dez anos que começou a crescer e a etapa actual é decisiva.” Carlos André explica: “É uma fase em que o que nós fizermos agora vai determinar a qualidade do português no interior da China para os próximos anos. O que tem de ser feito tem de ser feito já. Este é o momento em que as coisas arrancaram e precisam de ser consolidadas. É exactamente nesse ponto que estamos, no ponto a seguir aos primeiros passos, no momento em que a criança começou a caminhar, mas ainda cai muito”, refere o responsável. As necessidades actuais são dirigidas em três sentidos: é preciso mais formação, são necessários materiais e há que consolidar a rede entre as universidades chinesas e o CPCLP. Destes três anos de trabalho, o CPCLP tem um balanço muito positivo. “Neste momento há cerca de 180 professores de português no Continente, uma grande parte

UM MAIS DE 450 ALUNOS APRENDEM LÍNGUA PORTUGUESA NO VERÃO

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Curso de Verão de Língua Portuguesa promovido pelo Departamento de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Macau conta, este ano, com mais de 450 alunos. De acordo com a organização, “o curso tem por objectivo oferecer uma enriquecedora experiência de imersão linguística durante as férias de Verão, através de aulas de língua e de actividades culturais”. Os participantes vêm dos mais diversos pontos do mundo, entre eles, a China, Timor-Leste, Tailândia, Estados Unidos, Coreia do Sul, Moldávia, Índia, Hong Kong e Macau.

A iniciativa, que vai decorrer entre os dias 17 deste mês e 4 de Agosto, oferece vários níveis de formação. No total são quatro e vão desde a iniciação ao nível avançado. “Dado o interesse que, no ano passado, as turmas do nível superior e de Tradução Chinês/ Português suscitaram, este ano continuará a existir o espaço formativo para estes alunos”, sublinha a Universidade de Macau. A participação em actividades como danças folclóricas, canto, desporto e história de Macau também faz parte do programa, que inclui ainda visitas a museus e ao centro histórico do território.

Carlos André

deles, mais de 100, são chineses e todos eles conhecem o centro”, afirma Carlos André. O total de formandos a que o centro deu apoio até agora já anda na casa dos 200 e o número de horas de formação em Macau e no interior da China já passa as 1800, em cerca de 30 universidades. Para já, só é possível formar uma turma, mas no futuro poderá ser diferente. “Quando chegarmos ao momento em que possamos ter

duas turmas de 20 formandos no curso de Verão, seguramente que iremos fazer níveis de formação diferente.” Este ano, a divisão já está parcialmente a ser posta em prática. Os 22 alunos vão ser divididos duramente o período lectivo da manhã em duas turmas. Carlos André afirma ainda que, em breve, haverá notícias de um novo projecto que estará pronto a ser divulgado. Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com

PORTUGUÊS É UMA MAIS-VALIA

H

elena Wu está pela segunda vez a frequentar o curso “Verão em Português” que decorre até ao dia 21 no Instituto Politécnico de Macau. Para a professora de língua portuguesa na Universidade de Nankai, as dificuldades ainda são muitas e esta formação representa uma forma de as ir colmatando. “Na China temos falta de materiais didácticos de formação de professores e este curso ajuda muito”, afirma. Helena Wu não deixa de referir o crescente interesse pela língua portuguesa por parte dos alunos do Continente. A razão, aponta, é simples. “Já é um facto. O português significa emprego na China”.


8 SOCIEDADE

hoje macau sexta-feira 14.7.2017

Bombeiros USO DE MOTOCICLOS AUMENTA RAPIDEZ DE RESPOSTA

Emergência em duas rodas

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OS incêndios que ocorreram na primeira metade do ano, 76,64 por cento não requereram o uso de mangueiras. Para que se tenha uma ideia, estes casos foram 351, num universo de 458 circunstâncias em que o alerta de fogo levou bombeiros a sair do quartel. O chefe de primeira, Cheong Chi Wang, explicou esta situação com o aumento de vigilância dos cidadãos, que terá aumentado. Nesse sentido, o chefe espera que “os cidadãos continuem a coordenar os trabalhos de prevenção contra incêndios, de forma a minimizar a oportunidade de ocorrências”. O total de fogos para os quais os bombeiros foram chamados a actuar foi este ano de menos 84 casos do que em igual período do ano passado, o que representou uma diminuição de 15,5 por cento. As principais causas de incêndios foram o esquecimento de desligar o fogão e a queima negligente de papéis votivos. Nesse sentido, o Corpo de Bombeiros procedeu a muito mais inspecções com o intuito de prevenir futuras ocorrências, e diminuir os riscos e prejuízos causados pelos fogos. A primeira metade de 2017 teve 3195 inspecções de segurança, o que representou um crescimento de 23,36 por cento em comparação com os primeiros seis meses de 2016. Além disso, foram realizadas 1154 vistorias a postos de gasolina, depósitos provisórios, reservatórios, restaurantes e transportes de combustível. Porque são espaços que requerem atenção especial, o Corpo de Bombeiros realizou vistorias diárias a depósitos de combustíveis.

RESPOSTA RÁPIDA

Apesar de se terem registado menos casos que motivaram a saída de ambulâncias, um total de 19.184 casos, uma diminuição de 2,56 por cento, a capacidade de resposta aumentou consideravelmente. Na primeira metade de 2017, os bombeiros

GCS

O número de ocorrências a que o Corpo de Bombeiros foi chamado a intervir baixou no primeiro semestre do ano, em comparação com o ano passado, assim como a necessidade de apagar fogos. Já a saída rápida de ambulâncias aumentou devido ao uso de motociclos de socorro

ACIDENTE HOMEM VÍTIMA DE QUEDA EM FOSSO DE ELEVADOR

Um homem de 55 anos foi ontem encontrado morto no edifício Tong Nam Ah Central Comércio, na zona Nova de Aterros do Porto Exterior. De acordo com o canal chinês da Rádio Macau, tratouse de um acidente de trabalho. A vítima é um trabalhador não residente que foi encontrado inanimado pelo Corpo de Bombeiros. Segundo a mesma fonte, foi levado para o Centro Hospitalar Conde de São Januário, onde foi declarado o óbito. O homem, que caiu num fosso de elevadores, era técnico de reparações destes equipamentos. O acidente terá acontecido no momento em que reparava um cabo que se terá desprendido, provocando uma queda de quatro metros.

LEITE EM PÓ IACM NÃO ENCONTRA ANOMALIAS

O Cento de Segurança Alimentar do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) testou 25 amostras de fórmula de leite infantil em pó que estão à venda no mercado. O objectivo era aferir da existência de microorganismos patogénicos e da composição nutricional dos produtos. Os testes da equipa do IACM não revelaram qualquer anomalia no leite analisado. As condições higiénicas, assim como a composição nutricional deste tipo de produtos são essenciais para o desenvolvimento saudável dos bebés. Os testes realizados pelo IACM recaíram sobre amostras de preparados lactantes à venda em várias lojas de Macau, com proveniências distintas como França, Holanda, Espanha, Nova Zelândia e Austrália.

chegaram a sinistros 27.349 vezes, quase mais seis mil vezes do que em igual período de 2016, representando um crescimento de mais de 26 por cento. Cheong Chi Wang explica este fenóme-

A prevenção e informação foram os trunfos que o Comando do Corpo de Bombeiros usou para justificar a diminuição do número total de acções operacionais

no com o facto de o Corpo de Bombeiros ter arranjado uma forma de chegar aos locais da chamada dando a volta ao problema do trânsito. Nesse sentido, é enviado primeiro um motociclo de socorro para o local sinistrado, veículo que permite aos bombeiros chegarem onde é preciso com maior brevidade. A aposta na prevenção e na informação foram trunfos que mereceram destaque na comunicação de Cheong Chi Wang, tendo sido consideradas razões principais para a diminuição do número total de acções operacionais. Entre Janeiro e o final de Junho deste ano, o Corpo de Bombeiros foi chamado a intervir em 22.339 casos, me-

nos 893 ocorrências do que no mesmo período do ano passado, representando uma diminuição de 3,84 por cento. Também as operações de salvamento diminuíram 9,6 por cento no primeiro semestre deste ano, passando dos 729 casos ocorridos em 2016 para 659 neste ano. O chefe de primeira do Corpo de Bombeiros deixou ainda um alerta para que a população não deixe crianças sozinhas em casa e que os pais eduquem os filhos para não brincarem com fogo. Outro dos focos de Cheong Chi Wang foi o pedido de atenção com os aparelhos de fogão a gás, as canalizações e fugas. João Luz

info@hojemacau.com.mo

BOMBEIROS EM NÚMEROS Pessoal efectivo no Corpo de Bombeiros Veículos de emergência

1234 159

Autotanques 22 Viaturas equipadas com escadas

5

Ambulâncias 42 Motociclos de socorro

31

TÁXIS CONDUTOR DETIDO POR TENTATIVA DE EXTORSÃO

Foi detido um taxista por suspeita de cobrança abusiva de tarifa e de extorsão. O canal chinês da Rádio Macau conta que a alegada vítima, um visitante da China Continental, apanhou o táxi em questão na passada quarta-feira, no Hotel Grand Lisboa, para ir para o Hotel Venetian. Quando lhe foi pedido o montante de 400 dólares de Hong Kong, o cliente resolveu sair do carro. No entanto, deixou o telemóvel no táxi e, quando o quis reaver, foi-lhe pedido pelo condutor a quantia de mil dólares. O turista resolveu pedir ajuda à polícia e ligou de novo ao taxista já na presença das autoridades, tendo marcado um encontro. Apanhado em flagrante, o condutor de táxi acabou por admitir o excesso de tarifa e a tentativa de extorsão.

AUTOCARROS CARREIRA 15X VAI ATÉ HAC-SÁ

O trajecto do autocarro nº 15X vai, a partir de amanhã, entender-se até à paragem “Praia de Hac-Sá”. De acordo com a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego, com esta carreira será mais fácil aceder àquela zona, principalmente na época balnear. A medida vai implicar algumas alterações no tráfego local, sendo que alguns lugares de estacionamento para automóveis ligeiros situados fora de Parque de Hac-Sá passarão a ser zona de largada de passageiros e de estacionamento das carreiras nº 15X e 26 A.


9 hoje macau sexta-feira 14.7.2017

Tem início amanhã mais um conjunto de dois ateliês de formação na arte da joalharia. A iniciativa, promovida pela Casa de Portugal em Macau, é aberta a todos e ensina a dar os primeiros passos na criação de peças únicas

A

formação tem início amanhã para os estreantes na arte de fazer jóias. No dia 19 o ateliê continua, agora destinado aos interessados que já têm um nível mais avançado no ofício. Trata-se da formação em joalharia a cargo da Casa de Portugal, monitorizada por Cristina Vinhas. “A ideia é dar a conhecer aos interessados o que é a joalharia”, diz a formadora ao HM. “No nível inicial, a intenção é dar as bases para que as pessoas comecem a perceber o comportamento dos materiais, nomeadamente dos metais latão e prata, porque são aqueles em que trabalhamos mais”, explica.  No nível inicial o trabalho é essencialmente em latão. “O objectivo é que nesta primeira aprendizagem não exista um grande

“Não estamos a falar de alta joalharia, mas sim de joalharia contemporânea, e o desenvolvimento deste sector em Macau é um trabalho necessário” CRISTINA VINHAS FORMADORA EM JOALHARIA

desperdício de material”, explica a formadora, sendo que no segundo nível já se começa a trabalhar com a prata. No entanto, há casos em que, porque o formando já apresenta conhecimentos acerca dos materiais, Cristina Vinhas permite que as pessoas trabalhem em metais mais nobres. A razão da cedência, aponta, é por serem da preferência dos alunos. “Há um pouco aquela ideia de que uma jóia é em ouro ou em prata”, mas, actualmente, essa ideia estará a mudar. O conceito de joalharia é, porém, muito vasto. Para Cristina Vinhas, que trabalha na área há vários anos, a criação de uma peça é definida essencialmente pela sua elegância. “Pode ser uma peça muito simples e é igualmente uma jóia, porque uma jóia não é definida pela quantidade de diamantes ou de brilhantes que a peça tem. Tem que ver, essencialmente, com a sua forma e design”, sublinha. Além dos metais, as formações integram também o trabalho com outros materiais. Cristina Vinhas trabalha, nos ateliês, o uso do sisal, de madeiras e resinas. “De momento estou também a trabalhar muito os acrílicos, vidros e sedas e mesmo casulos dos bichos da seda, um material que, penso, tem muito potencial”, acrescenta a formadora. 

EVENTOS

Joalharia COMEÇA AMANHÃ MAIS UM ATELIÊ NA CASA DE PORTUGAL

SAO JOIAS ´

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LIBERDADE PARA CRIAR

As formações em joalharia dirigidas por Cristina Vinhas são essencialmente caracterizadas pela liberdade criativa. “Os formandos vêm com interesses diferentes e querem fazer diversos tipos de peças, e por isso não imponho nada, cada um desenvolve o seu trabalho dentro daquilo que mais gosta”, explica a formadora. O mesmo acontece com os materiais a trabalhar. De acordo com Cristina Vinhas, este também é o objectivo das formações promovidas pela Casa de Portugal. “Não estamos a falar de um curso curricular e o interesse destes ateliês é precisamente o facto de não limitarem as pessoas e serem um espaço em que podem fazer o que mais gostam”. A responsável já monitoriza a formação da Casa de Portugal em joalharia há oito anos e sublinha a diversidade de alunos que tem vindo a ter, sendo que “é uma formação

para todos e temos tido muitas pessoas de várias classes e nacionalidades”. Muitos portugueses, macaenses, chineses vietnamitas e mesmo gregos têm aprendido a fazer jóias com Cristina Vinhas. Esta diversidade tem uma razão evidente: “Macau

é um lugar cosmopolita, com muitas culturas e etnias, e os cursos acabam por também acolher muita gente diferente”, refere a responsável. Apesar do empenho, a responsável não vê evolução na área da joalharia no território. “Há muita coisa

ainda para desenvolver. No entanto, já esteve pior.” A formadora considera que começa a existir algum interesse e menciona algumas formandas que teve, que continuaram o seu trabalho com estudos em Londres e que agora já desenvolvem

as suas peças de autor. “Não estamos a falar de alta joalharia, mas sim de joalharia contemporânea, e o desenvolvimento deste sector em Macau é um trabalho necessário”, remata. Sofia Margarida Mota

sofiamota.hojemacau@gmail.com

ORQUESTRA DE MACAU | TEMPORADA FECHA COM OSCAR WILDE O concerto de encerramento da temporada da Orquestra de Macau tem data marcada para o próximo dia 29. O concerto que vai decorrer no Centro Cultural de Macau traz ao palco “Eine florentinische Tragödie”. A peça é uma ópera em um acto baseada numa obra de Oscar Wilde. O concerto, dirigido pelo maestro principal da formação, Lu Jia, conta ainda com a presença de jovens cantores coreanos, nomeadamente a soprano MyungJoo Lee, os barítonos Paul Kong e Seung Min Seong, e com o tenor americano Erik Nelson Werner. Os bilhetes já se encontram à venda.


10 CHINA

hoje macau sexta-feira 14.7.2017

Coreia do Norte PEQUIM DEFENDE IMPORTAÇÕES DE MINÉRIO DE FERRO INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NA CHINA SOBE 2,3%

O investimento directo estrangeiro na China subiu 2,3%, em Junho, relativamente ao mesmo mês do ano anterior, para 100.450 milhões de yuan, indicam dados oficiais ontem divulgados. Entre Janeiro e Junho, as empresas estrangeiras não financeiras investiram no país um total de 441.540 milhões de yuan, o que representa uma queda homóloga de 0,1%. No mês passado foram estabelecidas 2.894 novas empresas com capital estrangeiro, mais 14,3% do que no ano anterior, de acordo com o Ministério do Comércio chinês . O sector manufactureiro atraiu 128.600 milhões de yuan (16.589 milhões de euros) em investimento externo, no primeiro semestre, uma subida homóloga de 3%, representando 29,1% do total do investimento estrangeiro no país. O sector dos serviços recebeu 309,99 milhões de yuan, 70,2% do total do investimento. Na primeira metade deste ano, o investimento directo não financeiro da China no exterior caiu 45,8%, em termos homólogos, para 48.190 milhões de dólares, segundo o Ministério do Comércio chinês.

Sanções passam ao lado

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China defendeu ontem as suas importações de minério de ferro da Coreia do Norte, face às criticas do Presidente norte-americano, Donald Trump, e afirmou que está a cumprir com as sanções impostas pela ONU. Apesar de Pequim ter suspendido a importação de carvão da Coreia do Norte, o comércio entre os dois países tem aumentado, levando o Presidente norte-americano, Donald Trump, a acusar Pequim de não fazer o suficiente para travar o programa nuclear norte-coreano. Nos primeiros cinco meses do ano, as compras de minério de ferro por parte da China subiram 34%, face ao mesmo período de 2016, segundo uma associação industrial sul-coreana. O ferro é uma das principais compras da China à Coreia do Norte, depois de Pequim ter suspendido as importações de carvão, em linha com as sanções impostas pela ONU. O porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Geng Shuang afirmou que a importação de ferro não é abrangida pelas sanções e não gera lucros para o programa nuclear do regime de Kim Jong-un.

EXPORTAÇÕES E IMPORTAÇÕES ACELERAM

As exportações e importações da China aceleraram, em Junho, pelo segundo mês consecutivo, num sinal positivo para a economia do país e a procura global. Segundo dados das alfândegas chinesas, as exportações subiram no mês passado 11,3%, enquanto as importações cresceram 17,2%. O aumento das exportações poderá impulsionar o crescimento da economia chinesa, que deve desacelerar este ano, numa altura em que Pequim reforça o controlo sobre os empréstimos bancários, visando reduzir os riscos do aumento do endividamento. “Os dados optimistas hoje divulgados revelam que a procura global por bens chineses continua a ser forte, e que a procura interna é bastante resiliente”, apontou Julian Evans-Pritchard, da consultora Capital Economics, num relatório. O aumento das exportações é um sinal positivo para a liderança chinesa, que está focada em assegurar postos de trabalho, enquanto enceta uma transição no modelo económico do país, visando tornar preponderante o consumo interno.O Fundo Monetário Internacional (FBI)prevê que o ritmo de crescimento da economia chinesa recue para 6,6%, este ano, uma décima abaixo do valor registado em 2016, e que no próximo ano abrande para 6,2%. “As exportações devem continuar a ter um bom desempenho, em relação às previsões razoavelmente positivas para os principais parceiros comerciais da China”, afirmou Evans-Pritchard. “Mas estamos cépticos de que o ritmo atual das importações possa ser sustentado a longo prazo, devido às crescentes adversidades económicas, que resultam de políticas mais rigorosas”, acrescentou.

Angola quer mandar no ar

China fornece material militar à Força Aérea

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Governo angolano aprovou a compra, à China, de equipamentos e meios militares para a Força Aérea Nacional, por mais de 237,9 milhões de dólares, segundo despacho presidencial a que a Lusa teve hoje acesso. De acordo com o documento, assinado pelo Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, de 11 de Julho, a compra destina-se ao “reforço” do controlo do espaço aéreo e assim “salvaguardar os objectivos estratégicos nacionais”. Esta compra, em material não especificado no documento, será feita através da empresa Simportex, em representação do Ministério da Defesa Nacional de Angola, à China National Aero-

-Technology Import & Export Corporation (CATIC). Entre outros produtos militares, a estatal chinesa CATIC comercializa drones, aviões e helicópteros, para várias utilizações. O ministro da Defesa da China, Chang Wanquan, iniciou na quarta-feira uma visita de 48 horas a Angola, para reforço da cooperação no domínio militar. Os três ramos das Forças Armadas Angolanas contam com mais de 100.000 militares, setor que representa 7,24% de todas as despesas do Estado previstas no Orçamento Geral do Estado de 2017, equivalentes a 535.128 milhões de kwanzas (2,8 mil milhões de euros).

“Vamos continuar a implementar rigorosa e seriamente a resolução do Conselho de Segurança [da ONU] para a Coreia do Norte”, apontou o porta-voz. “Esperamos que todos os lados envolvidos estejam claros de que as sanções impostas pelo Conselho de Segurança à Coreia do Norte não são sanções económicas totais”, acrescentou. A China é o principal aliado diplomático do regime de Pyongyang, mas tem-se afastado progressivamente do país, face ao comportamento provocador de Kim Jong-un.Aliderança chinesa teme, contudo, um colapso do regime, e argumenta que suspender o comércio de alimentos e outros bens pode gerar uma crise humanitária no país vizinho. Na semana passada, Trump citou dados das alfandegas chinesas que apontam para um crescimento homólogo de 36,8% no comércio entre os dois países, no primeiro trimestre do ano, criticando Pequim por não fazer o suficiente. As importações chinesas com origem na Coreia do Norte caíram 13,2%, na primeira metade do ano, para 1,7 mil milhões de dólares, enquanto as exportações da China para a Coreia do Norte subiram 29,1%, para 880 milhões de dólares.

CHINA E JAPÃO À PROCURA DA NORMALIDADE

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China e o Japão devem proteger as bases políticas das relações bilaterais e restaurar o desenvolvimento normal dos seus laços, disse na quarta-feira a vice-primeira-ministra chinesa Liu Yandong. Liu fez a declaração durante uma reunião com uma delegação de legisladores japoneses liderada por Seiko Noda do Partido Liberal Democrático. As relações entre a China e o Japão estão num momento histórico crucial pois os dois países estão a realizar o 45º aniversário da normalização das relações diplomáticas e o próximo ano marcará o 40º aniversário de assinatura do Tratado de Paz e Amizade China-Japão, disse Liu. Liu pediu que as duas partes implementem o con-

-senso obtido pelos líderes dos dois países durante a cimeira do G20 em Hamburgo para proteger a base política dos laços bilaterais e lidar de forma apropriada com os tema sensíveis. As duas partes “devem impulsionar de forma constante os intercâmbios e a cooperação em diferentes áreas”, assinalou Liu. Noda disse que o Japão se esforçará para melhorar o entendimento e a confiança mútua e que está comprometido em construir uma relação estável entre os dois países.


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EZASSEIS académicos chineses vão participar pela primeira vez no congresso da maior associação de estudos de língua e culturas de língua portuguesa, que decorre este mês, em Macau, noticiou hoje a imprensa local. O 12.º congresso da Associação Internacional dos Lusitanistas (AIL), organizado pelo Instituto Politécnico de Macau (IPM), vai ouvir 142 oradores de 15 países, em representação de cerca de 80 universidades, nomeadamente do Brasil, Espanha, Reino Unido, Itália, Polónia, Estados Unidos e Portugal, com as universidades de Lisboa, Porto e Coimbra. Os 16 oradores da China vão representar universidades de Pequim e Xangai. De Macau participam entre oito a dez académicos, um da Universidade de Macau e os restantes do IPM. De acordo com Carlos André, director do Centro Pedagógico e Científico de Língua Portuguesa do IPM, o “grande número de professores chineses com comunicações aprovadas” significa que os estudos de português “já evoluíram muito” na China. O congresso conta com a presença da ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, Rui Vieira Nery, membro da direcção da Fundação Calouste Gulbenkian, Onésimo Teotónio de Almeida, professor de português nos Estados Unidos e Hélder Macedo, docente do King’s College em Londres. Uma das quatro sessões plenárias vai ser dedicada à língua

CHINESES PARTICIPAM PELA PRIMEIRA VEZ EM CONGRESSO DE LUSITANISTAS

Vinde e aprendei

portuguesa no mundo, nomeadamente na China e em Macau. Ao longo de 48 sessões paralelas estarão em destaque as literaturas portuguesa, brasileira e africana, a história contem-

porânea e temas ligados aos estudos feministas na literatura, sociologia e cinema. O congresso decorre entre 23 e 28 de Julho. A última reunião da AIL realizou-se em 2014, em Cabo

Verde, e elegeu presidente o italiano Roberto Vecchi, professor associado de Literatura Portuguesa e Brasileira na Faculdade de Língua e Literatura da Universidade de Bolonha (Itália).

SONDAGEM POVO CHINÊS QUER MAIOR TRANSPARÊNCIA

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E acordo com uma sondagem recente realizada pelo China Youth Daily, 90,6% das 2.009 pessoas entrevistadas esperam que o governo tome a iniciativa de divulgar informações. Zhang Zhihong, professor associado da Escola de Governação Zhou Enlai da Universidade de Nankai, disse que a abertura de informação é necessária para combater a corrupção dentro do gover-

no, e que as informações devem ser lançadas de forma verdadeira e oportuna. “Com o destaque crescente da divulgação de informações, a qualidade da abertura de informação e governança melhorará dramaticamente”, afirmou ele. A expectativa pública se baseia em um foco sobre os lançamentos de informações do governo, já que 81,8% dos entrevistados informaram que

prestam atenção a essas informações, mostrou a pesquisa. Mais de 60% dos entrevistados estavam preocupados com as explicações sobre políticas, enquanto outros 45,5% indicaram que lêem consultas públicas para políticas. “Sempre acompanho com as informações relacionadas a políticas e regulamentos, especialmente as consultas públicas ao fazer decisão

e as explicações sobre políticas após a implementação”, assinalou Li Han, professor universitário em Beijing. No entanto, a divulgação de informações do governo também provocou preocupações. Até 45% dos entrevistados disseram que tiveram de esperar muito tempo antes de receber as informações. Um total de 61,4% esperou que o governo melhorará sua eficiência

na divulgação pública de informações. Uma série de regulamentos sobre a divulgação de informações do governo, que entraram em vigor em 2008, foram revisados no mês passado e o prazo para opinião pública terminou em 6 de julho. O projeto dos regulamentos revisados inclui um princípio que exige fazer da publicação de informações algo rotineiro.

CHINA

VAGA DE CALOR ATINGE GRANDE PARTE DO PAÍS

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MA onda de calor atinge esta semana grande parte da China, com algumas cidades a registarem temperaturas superiores a 40 graus, levando as autoridades a recomendar que se reduza o tempo passado ao ar livre. Segundo os serviços meteorológicos da China, a vaga de calor atingiu ontem 21 províncias, num total de 3,64 milhões de quilómetros quadrados. Em Pequim, sede de um município com cerca de 21,5 milhões de habitantes e quase seis milhões de automóveis, os serviços meteorológicos previam uma temperatura máxima de 39 graus Celsius para ontem. Em algumas áreas das províncias de Hebei, Shanxi e Shaanxi e da região do Xinjiang, no norte do país, as temperaturas atingiram esta semana 42 graus. A temperatura mais alta, de 47,8 graus, foi registada na cidade de Turpan, no Xinjiang. Em Xangai, a “capital” económica da China, as temperaturas máximas superam os 35 graus. As autoridades recomendam que se reduza o tempo passado ao ar livre, sobretudo entre as 10 e as 16 horas, e que se consuma pelo menos dois litros de água por dia. Segundo o Centro Nacional de Meteorologia, a onda de calor no sul resulta de uma faixa de alta pressão atmosférica, caracterizada por ventos calmos e quentes, provenientes de regiões tropicais, enquanto que no norte se deve principalmente a outra alta pressão quente formada no continente.

TREINADORES CHINESES EM MANCHESTER

Um grupo de 57 treinadores chineses vão realizar um estágio de 12 semanas em Manchester para acompanhar os treinos das duas equipas da cidade, o United e o City, anunciou ontem a agência de notícias Xinhua. Neste curso intensivo, este grupo de treinadores passarão pelos centros de estágio dos dois clubes para assistirem aos métodos de trabalho de José Mourinho, no United, e Pep Guardionla, no City. O grupo de técnicos passará também pelo St. George’s Park, ‘quartel-general’ da Federação Inglesa de Futebol. A China continua a operar um grande investimento no futebol, angariando treinadores (André Villas-Boas, Luiz Felipe Scolari, Sven-Goran Eriksson ou Fabio Capello) e jogadores (Hulk, Oscar, Carlos Tevez ou Ezequiel Lavezzi) de renome para a Superliga do país. Alguns dos maiores empresários chineses têm adquirido clubes como o Inter de Milão, Aston Villa ou Espanyol.


h ARTES, LETRAS E IDEIAS

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Caligrafia do espanto ANABELA CANAS

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EIO de visita. Não sei se vai ficar. A máquina de escrever velhinha e amarelo banana. Esquecida e discreta estes anos todos. Uma visita curta de carinho e lembranças. Do tempo devagarinho. Veio para conversar e para o retrato de família. Às vezes penso se um dia se deixará de escrever à mão. Com o gesto trabalhoso e revelador. Com o tacto atento à caneta. Com gostos e preferências de cor e espessura. Penso nisso muitas vezes quando reparo na rapidez das teclas. Mas ela não era assim. Dura e teimosa, não tornava o gesto fácil, nem muito ágil. Por isso as folhas e os cadernos de um conforto insubstituível. As folhas de linhas finas e o gosto das folhas lisas onde a escrita voa como lhe apetece num céu limpo e livre. Talvez se tenha cada vez menos paciência para esse desenho que retarda o passo. Quando gosto de alguém fico tempo sem conto e sem fim a contemplar-lhe a escrita. Não, não falo da escrita das ideias. A forma. Mas não falo da forma como as ideias se entrelaçam e desenvolvem, da estrutura frásica, do ritmo. É da caligrafia que falo. Essa impressão indelével do gesto. Do movimento, da passada que deixa registo. No seu hermetismo. Na sua significação enquanto tal. Gosto de a seguir. E o encantamento, como se face a um rosto. Como a face de um rosto. Que se tacteia mentalmente, acompanhando cada linha. Que se observa como numa carícia. Há um lugar certo para cada coisa. Eu procuro isso nos dias e nas coisas. As coisas precisam de um lugar bom para estar, para dormir. As palavras. Tudo. Procuro. E desarrumar porque é preciso ou porque é a vida. E arrumar para que tudo chegue à noite e possa dormir. Em paz. Com uma manta de afago e embalo bom. Todas as coisas. Todas as palavras. Também podiam. Como cães. Levados à rua, mas retornando a casa para dormir no seu lugar. Nunca abandonar as palavras. Como bichos de estimação. Mesmo maus. Levá-los para a cama e pô-los confortáveis para dormir. Nunca ao relento do silêncio. Um gesto. Uma carícia vaga. Quanto baste. Mas em todos os gestos se pode cruzar um mundo de ideias que tolhem, que mudam, que paralisam que arrependem. O gesto e a caligrafia do gesto. Mas não a escrita. A caligrafia da escrita. Há um lugar algures. Desconhecido todos os dias a dizer. Um lugar para cada silêncio. Como aquele onde todos os dias todas são as palavras possíveis em um tudo vale. A pena. A espada. O minuto depois e o gesto que apaga. Em tudo. Inevitáveis, mas limpas. Ásperas, ternas. Todas as que há. Todas convocadas a ver. Esse lugar ideal que há. Há um ruído que é possível lapidar. Um lugar. E pessoas firmes como âncoras. Nenhuma palavra vento as leve. E leves palavras duras como pedras a atirar em curvas e ondas e a fazer

ilumina

ondulação em torno de tornozelos sólidos de pés fincados no chão. Mesmo de areia. Almas ao vento no ar do céu. E pelo meio o corpo haste a ondular. É o corpo da letra. E no veio do tempo a andar deslizantes ou tensas todas as palavras. Todas são remédio ou têm antídoto colado às finas hastes. De planta para crescer. Quando é. Tudo é possível dizer. E apagar com um gesto. Denso. De sentir. Em tudo há um gesto um ápice um rasgo. A sibila adivinha mas não faz, o gesto, a criança faz mas não adivinha e às vezes ao contrário e nada. E nada vai ali, de facto. Mas era possível imaginar, ser. Um código seguro. A ler. Não nada. E há um gesto há um afago há um sentido. E nada. Nada flui e era. Mas era mesmo. Os olhos dizem a alma sente o pulmão sofre. Porque. Porque não. Mas era assim que era. Com a escrita de linhas a azul em páginas em papel em branco. A dizer em vôo visível. Tudo o que voa me enternece. E o que voa livre sem ter necessidade de fugir porque não há perigo. E tudo o que voa sem medo e sem medo flui sem ferir. E às vezes penso que todos somos refugiados mas alguns dormem em camas de conforto em casa. Mas fugidos de algo.

Sou dada a emoções contemplativas. Coisas de lentidão parada. Melopeias dos sentidos da visão e do tacto. Como a eternidade da carícia num cabelo, num pelo de bicho. Uma página de dicionário. Essa explicação calma dos sentidos. Essa impressão boa de que todas se encerram ali, se ajudam na explicação da vida que se diz. Que se desmultiplicam em explicações uma das outras. Umas às outras. Como se uma espécie de família em que todas se relacionam com todas. Poucas coisas produzem em mim uma contemplação extasiada tão densa como a observação da caligrafia de uma pessoa amada. Como se move. Como se movimenta subtil por ali uma parte desvendada do seu dinamismo interior. Como se revela. Mas

Há um lugar certo para cada coisa. Eu procuro isso nos dias e nas coisas. As coisas precisam de um lugar bom para estar, para dormir

revelando o quê exactamente é coisa bem mais difícil de adivinhar. Estando lá. Como parte de um espaço etéreo do espírito, em que firmemente e irreprimível, se desenrola uma relação entre o gesto, a decisão implícita e a forma. Sempre a mesma nas suas subtis variações. Aquilo que subterrâneo determina a forma. Sempre reconhecida como uma de muitas expressões de um rosto uno. Espanta-me e enche de encantamento. Os laços a prender mais fortes ou com lassidão uma letra. Uma curva rápida e irreprimivelmente hesitante sempre naquele ponto e a emendar numa abrupta quase angulosidade. Que não chega quase a ser. Mas há um gesto que para sempre naquele ponto a fluidez da curva. Noutras um nó. Aqui e ali um gancho. Uma espécie de anzol em que a corda da escrita avança como se suspensa de uma falésia perigosa. Letras que se alongam e desdobram com sensualidade de quem se espreguiça. Mas sempre as mesmas mesmo se nem sempre. A curva de uma letra pequena, suspensa no ar e a descer a terra pouco firme. As que ficam suspensas, e com um braço no ar. As que se encostam sempre ao ombro da outra. E as que laçam setas rápidas em frente. Ou a subir ve-


13 hoje macau sexta-feira 14.7.2017

ação artificial

Tonalidades

Anabela Canas

António de Castro Caeiro

“Vai correr tudo bem” T

ODA a grande filosofia é sistematicamente céptica. Não o é dogmaticamente. Na infância e na juventude, escutamos dos pais e dos mais velhos, dos que têm responsabilidade e carinho por nós: “vai correr tudo bem”. No que é decisivo, em todas as situações críticas, não correu nada tudo bem. Nem correram algumas coisas bem ou só uma. Correu sempre tudo mal. Acabou. E o fim dá sempre cabo de tudo. Destrói. Apaga. Anula. Esvazia. Logo para começar o que quer dizer este “tudo”? A “vida toda”? Ou “tudo” é conteúdo da situação específica em que nos encontramos? E porque é que alguém nos diz que “tudo vai correr bem”? O que sabem as pessoas de nós e da vida para nos dizer que tudo vai correr bem? Tudo! Bem! Correr! Em que situações é que nos dizem que tudo vai correr bem. São situações em que estamos remetidos para os outros, e essa remissão configura a nossa própria vida. Não são apenas aqueles outros que são importantes para nós, por a eles nos unirem laços estreitos. São aqueles outros que causam um impacto devastador nas nossas vidas. São agentes do mal. A sua importância nas nossas vidas vem do sofrimento que causaram, do poder destrutivo, moral, afectivo, sentimental, numa palavra: existencial. Os outros projectam-se em nós de diversas maneiras e o que nos liga a eles não EDWARD HOPPER, AUTOMAT

lozes. Como se alça o braço de um d ou de um t e se enlaça em si como ao tronco de uma árvore. Um abraço em nó. Em laço. Como fica em aberto um a por pressa de escrita e como se fecha duplamente em nós um outro a ou o. Como um p se torna ponte pronta a abrir passagem a passos que se lhe sobrepusessem. Em fechamento pouco apertado. Uma duna, Quase. Como uma outra se curva para dentro quase em espiral como se a querer voltar a uma posição fetal mas já sem o abrigo primordial. Uma espiral firme e irreprimível de retorno a si no mais interior. Essa letra do abismo. Em que a saída é sempre mais atrás. Em arrependimento, em contrariedade, em necessidade de sair para a letra seguinte. Movimentos que estancam, definitivos. Ou que fecham num arabesco, como num círculo mágico de protecção. E floreados. Líricos de folhagem leve. Há letras pontes. Letras castelo. Letras torre. Letras abraço. Ou arremesso. Há gestos tensos e imbricados e retorcidos em si. Fiz isso tantas vezes. Olhar. Por um tempo. Intrigada. Com esta estranha caligrafia do ser. Como as pessoas se situam na inicial do seu nome. Se a usam como echarpe leve e descuidadamente poisada pronta a voar, ou quando dela saem a custo para as outras letras. As que dela lançam âncora e as de dela fazem torre fechada a sete chaves. As que atam e as que desatam as formas como deixando livres de voar em frente. E as que voltam atrás. As que recolhem uma curva que ficou antes, as que abraçam a memória da letra anterior. As que não acertam e as que seguem sempre em frente, esticadas languidas e desejosas de avançar. Espraiadas. Ou contidas. Pé ante pé, ou atabalhoadamente. As que se mascaram de outras. Lentas, mais lentas porque se perdem ao espelho a esquadrinhar o rosto maquilhado, a roupa diferente, os sapatos de salto desusado. Poucas coisas escapam a este desfile de pequenas figurinhas animadas pela paisagem desértica de uma página. E por isso mesmo. Sem sinais, sem uma chama que as guie no espaço físico, a vencer o deserto, simplesmente e sós. Preocupadas com uma ideia que as guia. Uma indecisão. Às vezes, mesmo, consigo próprias. Com o que vestem no momento. O arredondado e o anguloso. Com hora marcada sempre naquele ponto. Há uma configuração interior que se verte nestas formas pequeninas e irreparáveis. Há uma constância que diz delas, serem como um rosto. Um olhar que de dentro se entorna sem querer. Há, talvez um sentido descritivo possível dessa caligrafia do ser desenhada nas palavras. Teorias sobre isso. Mas o que me espanta é a inevitabilidade das formas. O padrão. A unidade coesa de alguém por detrás do desenho. Todas as figurinhas dançantes ou corredoras, ou por vezes paradas nas esquinas. Encostadas às paredes. Expectantes ou precipitadas. Esse mundo ínfimo, animado e fascinante em que me posso quedar horas. Sem por elas dar.

são apenas laços positivos de afecto são também laços negativos. Os protagonistas das nossas vidas não são heróis apenas. Há também os maus da fita. São ruins, vis, criaturas com níveis de agressão e impacto incomensuráveis.

Na separação afectiva, nada pode correr bem. (...) Podemos levar a vida inteira para nos reavermos No rescaldo de situações críticas, alguém nos diz que tudo vai correr bem. Tudo? Bem! Como? Quando tudo está a correr mal, quando a situação de impactos emocionais e crises afectivas são inultrapassáveis, não são anuláveis, nada é repetível para que o pudéssemos contornar! Tudo é simplesmente irreversível. Não quer dizer que não sobrevivamos. Ficamos para contar a história e temos tantas roupas para a nossa alma quantas as suas cicatrizes. O mapa das nossas almas é vincado em baixo relevo, nas nossas almas, e algumas

pessoas têm as suas existências estampadas nos seus rostos. No final da vida, tudo está lá marcado. Mas também podemos perceber que nada nunca corre bem nas separações. Achamos que está bem separar-nos, porque é difícil o amor. O amor incha numa casa com um peso insuportável ao qual o quotidiano não sobrevive. E rebenta-se pelas costuras. Entre os apaixonados há uma divindade, uma atmosfera divina. Quando ela é dissipada, os amantes passam a ser os próprios, mas sozinhos e sem os outros. É difícil conviver com os outros, quando já somos só nós e não somos ainda com aqueles outros sem os quais, achávamos, não teríamos identidade. Na separação afectiva, nada pode correr bem. Tem tudo mesmo para correr mal. E quanto à possibilidade de refazermos a vida, ela não é negada, mas é muito difícil sobreviver só, quanto mais acompanhado. Podemos levar a vida inteira para nos reavermos. Achamos que não sobrevivermos a outra história de amor, aquele amor infeliz que foi a primeira vez de todas as primeiras vezes. Nem queremos saber do que se passa com essas pessoas. Desejamos vagamente que sejam felizes, mas sobretudo que não se cruzem nunca mais connosco. E há dias sem dúvida em que lhes desejamos mal, quando nada corre bem e só há amargura, sem um consolo que desfaça o horror. Mas também nada correrá bem quando ficamos na estrada sem pai, como naquele livro, “The road”, em que a criança sobrevive ao pai. O pai tentou prepará-lo o melhor possível para a sobreviver ao holocausto. Todo o filho que sobrevive ao pai sobrevive para atravessar um holocausto. Na infância, perder o pai é tremendo. Como se os adultos e velhos que perderam os pais não estejam na infância, desprotegidos, sem poder obviar o que quer que seja! Não. Não acredito que tudo vá correr bem. Começou a correr mal e vai ser para sempre assim. Tudo vai ser diferente. A diferença não quer dizer ainda a sobreposição do mal ao bem. Quer dizer apenas que estamos sem mapa, sem bússola nem rosa dos ventos. Sem tempo já ou só desesperados. E poder-se-á pensar que estas palavras celebram o cepticismo e o mal ou o desespero. Nem pensar nisso! Nem tão pouco se deseja que tudo corra mal, como se isso fosse possível. É só uma resposta homeopática ao tudo que corre mal, ao nada que corre bem, para poder sobreviver mais umas horas na maquinaria da ansiedade e da preocupação que estanca o decurso do tempo, atrasa-o, para-o.


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António Graça de Abreu

Nuku Alofa ILHAS TONGA, POLINÉSIA

À

S oito e meia da manhã saio do navio para a descoberta impossível-possível desta ilha de Tongatapu onde se situa Nuku Alofa, a capital do reino de Tonga. Reino? Exactamente. Tonga é uma antiga monarquia e não existe mais nenhuma em toda a Polinésia. Sua Majestade o rei Tupou VI e a rainha Nanasipau’u dão logo as boas vindas aos recém-chegados, em dois painéis gigantes à entrada do pequeno porto. O arquipélago conta com 176 ilhas, sendo 40 delas habitadas, e forma também o único território do Pacífico Sul que nunca foi colonizado por estrangeiros. Os tonganeses têm orgulho nisso. A sua pele é escura, lábios grossos, olhos grandes, maçãs do rosto salientes, feições marcadas pela origem polinésia. Parecem gente simples, respeitadora do próximo e muito religiosa. Irei comprovar, um pouco por toda a parte, a existência de variadíssimas igrejas católicas e protestantes.

Os leitões assustam-se com a minha aproximação para tirar uma fotografia e fogem, cada um para seu lado. Depois voltam à protecção da mãe e às saborosas tetas da porca. Associo a cena ao nome da agência de viagens de Nuku Alofa, rigorosamente Teta Tours A ilha é plana, sem edifícios altos. Em Nuku Alofa, destaca-se o palácio do rei, um excelente conjunto arquitectónico rodeado de relvados e jardins, construção de madeira pintada em branco, com telhados vermelhos, préfabricado na Nova Zelândia em finais do século XIX e depois trazido para a ilha, e aqui montado. Não é visitável porque Sua Majestade habita no palácio, não costuma receber convidados e mais raramente ainda é visto pelo seu povo. Dou uma volta pelo centro de Nuku Alofa, uma cidadezinha com 20 mil habitantes, não muito interessante.

Descubro uma originalidade, uma agência de viagens que tem o curioso nome de Teta Tours. Entro num minibus que leva passageiros para parte incerta, a leste, e pergunto ao condutor se vamos passar por alguma praia. Ele responde, num catastrófico inglês, que no fim da linha existe uma praia. Avanço. Foram 20 a 25 quilómetros de estrada, sentado no meio da gente boa e simples da ilha de Tonga, sempre a sair, sempre a entrar, surpreendida por encontrar dois estrangeiros na carrinha de transporte. Passamos por um hospital moderno, circundamos a grande laguna que entra por dentro da ilha e quase a corta ao meio, atravessamos a vila de Mu’a. Continuamos viagem para norte, já não há ninguém no mini-autocarro, só nós dois e o motorista. Perguntolhe pela praia. Diz-me que fica dois quilómetros mais adiante mas temos de pagar três dólares US pela continuação do trajecto. Ok! Chegamos à praia, pequena, com pouca areia e as águas não completamente limpas. Falo-lhe em outras praias, mais bonitas. Sim, ele pode-nos levar, fecha o mini-bus ao serviço público – agora o negócio é outro, o veículo ficará por nossa conta --, e vamos dar a volta a toda a ilha, coisa aí para quatro horas. São 150 dólares US. Não era bem isto que eu queria. Pagamos os três dólares cada um e saímos. Olho o mapa, podemos caminhar ao longo do mar e retomar mais adiante a estrada de regresso. Encontro três tonganeses que metem conversa. Só a mulher fala um pouco de inglês e pergunta de onde é que nós somos. Não sei se entendeu o nome de Portugal, mas acrescentei: “Viajamos desde a Europa num grande navio italiano.” Algum espanto no semblante dos ilhéus que habitam em três ou quatro pobres casas de madeira, do outro lado da estrada, frente ao mar. Têm porcos pretos que andam à solta pela rua procurando comida, chafurdando à vontade por tudo quanto é sitio. Uma mãe porca, extremosa e dedicada, deixa seis ou sete bacorinhos chuparem desalmadamente as suas tetas. Os leitões assustam-se com a minha aproximação para tirar uma fotografia e fogem, cada um para seu lado. Depois voltam à protecção da mãe e às saborosas tetas da porca. Associo a cena ao nome da agência de viagens de Nuku Alofa, rigorosamente Teta Tours.

É isto mesmo. Pergunto aos tonganeses se podemos tomar banho na praia. A mulher diz-me que sim, mas acrescenta que quando alguém mergulha naquelas águas lisas é normal um porco atravessar a estrada, fazer companhia ao banhista e meter-se também por dentro do mar.   Tomar banho na praia de uma apetecível ilha da Polinésia, na companhia de um porco preto? Regresso a Nuku Alofa, com paragem no porto primitivo onde o capitão Cook, descobridor do sul da Austrália, desembarcou em 1777, na vinda a este lugar. Avanço. Na pequena estação de autocarros da capital pergunto por um mini-bus que me leve para o outro lado, o oeste da ilha, até à praia de Ha’atafu que, segundo o mapa de Tonga e a fotografia do folheto turístico, me parece ser um lugar excelente. Mais trinta quilómetros por boa estrada marginada por casas de melhor qualidade do que as do lado

leste da ilha, e chegamos a Ha’atafu. A praia não exibe os predicados que eu imaginava. Tem águas límpidas, mas também muita pedra e areia pouco fina. Saudades das praias das Caraíbas, mas provavelmente ainda não acertei numa boa praia do Pacífico. Um bom banho, duas horas de papo para o ar e é tempo de pensar no regresso ao navio. Uma longa caminhada pelo estreito alcatrão da estrada, por entre uma estonteante floresta tropical, algumas casas bonitas rodeadas de jardins, o verde intenso dos relvados e arbustos, e chego a uma singular aldeia grande que dá pelo nome de Nukunuku. Com nome tão sugestivo, estou com curiosidade em conhecer. Vou descobrindo que o idioma tonga também é muito traiçoeiro. Pergunto qual o significado de tão estranho topónimo. Muitos simples, nuku significa “habitação, casa”,  nukunuku  será uma “aldeia”, “um conjunto de casas.” O nome de Nuku Alofa, a capital, tem a ver com nuku, ou seja “casa” e  alofa  que significa “amor”. Portanto haverá “amor nas casas”, ou um conjunto de nukus, as “casas” onde reina o “amor.” Em Nukunuku, ao lado da estrada, um grupo de miúdos joga à bola no recreio da escola. Num grande relvado, rapazes e raparigas correm, lançam-se à molhada para agarrar uma bola oval, não de futebol, mas de rugby. Tonga tem a Nova Zelândia e a Austrália como países de referência, as ilhas Fiji ficam relativamente perto. Aqui o desporto nacional é o rugby. Terminou o jogo, acabou o tempo de recreio na escola de Nukunuku. A campainha que marca a reentrada nas aulas é uma bilha de gás vazia percutida com uma espécie de martelo agitado impiedosamente pela mão de uma professora. Outro mini-bus e estou de novo em Nuku Alofa, num aprazível café onde bebo um razoável “expresso” e utilizo o wi-fi gratuito. Na minha tablet vejo os mails da última semana e leio as notícias do Portugal distante. Pelo telemóvel, ligo para os meus filhos. Dois deles ignoravam por completo que existissem umas ilhas chamadas Tonga. Últimas, e únicas, compras. Por oito dólares US, trago uma espectacular t-shirt    preta com um golfinho dourado estampado no peito e, nas costas, também a dourado, as palavrasKingdom of Tonga. É para vestir no Verão, em dia de festa, em homenagem ao povo desta ilha.


15 hoje macau sexta-feira 14.7.2017

Amélia Vieira

A

legenda de um tempo pode ser feita a partir dos títulos comerciais para o consumo. Distantes do “marketing “ os anos sessenta e mais além (até mais aquém, no tempo em que os poetas eram óptimos publicitários) foram bastante criativos na sua função de nomear. Tanto que hoje é com espanto que damos por nós a contemplar a estrutura gráfica de embalagens, revistas, objectos e até jornais. Não sei se se vendia muito ou pouco nem mesmo das características e do sucesso dos conteúdos, mas tudo era sem dúvida feito numa escala mais atraente. Do «Português Suave» aos «Definitivos» os cigarros seriam deste ponto de vista “light”, fortes e normais, o que está muito bem designado pois que cada um procura nas coisas um certo grau de intensidade, já na marca «Coração» - desenferrujador de metais - não vemos grande ligação a não ser o símbolo solar do órgão visado... e, quanto aos metais, desenferruja-os, que os nobres por assim serem, não precisam de tal acção. Coisas tão bonitas com imagens tão refinadas que ficamos a contemplar: senhoras elegantíssimas lavando o chão até ao restaurador «Olex», em que o espanto seria a textura dos cabelos entre povos diferentes. Víamos isto como se o mundo fosse uma lenda onde todas as coisas estavam ordenadas. Os Piratas que furam as orelhas para verem melhor ao longe, num local preciso do lóbulo da orelha, eram esticados em pastilha elástica, o «Ajax» era um tornado branco a cavalgar entre sebes fazendo de um detergente um antídoto mitológico, a pasta medicinal «Couto» exaltava a dentição africana como se fosse natural andar com cadeiras na boca, as «Sebentas» tão inteligentes e úteis para fazer coisas nem que fosse riscar... era tida também como sinónimo de sujidade aplicada à condição física juvenil caso nos sujássemos todos a comer gelados «Rajá». Era um mundo assim, eufemístico, que se iria aos poucos endurecendo com o recurso cada vez maior à imagem. A legenda era uma graça que nos entrava pela imaginação adentro e onde cada um completava o artefacto dos conteúdos, não raro tinha o poder de recriar em volta um paraíso. Havia regras a preto e branco, também, aquela placa a dizer« As crianças com menos de oito anos não devem assistir aos nossos programas a partir das vinte e duas horas». Uma secura, sem canção de embalar, uma ordem, sem beijos dentro: mas, não raro, também censurávamos a programação pondo-nos à frente do ecrã que de tão grande e nós tão pequenos deixava ver as bordas dessa intransigente mensagem. Vamos assim recuperando os nossos sonhos, mas não deixávamos de ser despertos para o estranho mundo que nos

Definitivos envolvia. Hoje, há distância de décadas que parecem séculos, não somos essas pessoas graves urdidas de censuras constantes, pois que guardámos o transitório como se guardam os poemas antigos e não nos fizeram o mal que porventura era suposto ter sido possível fazer: não, não fizeram. O Verão é assombrosamente nostálgico para estas coisas pois que damos por nós a querer aquelas figuras com cabeças enormes que vinham nos prémios, a pensar em como um chapéu mexicano era o abrigo ideal para se ter uma etnia longínqua, as nossas bicicletas eram supersónicas, e não faltava a irreverência por capítulos de uma « Pipi das Meias Altas» que levantava polícias com as duas mãos e vivia a sós com um cavalo e um macaco dentro de uma casa cheia de dinheiro de um barco naufragado. Eram instituições! Aos oito anos vimos um senhor num programa que tinha um Ovo e que usávamos como elemento para os fios do pescoço, com olhos boca e cabelo, e esse senhor era Almada Negreiros: muito hirto, com um perfil imponente, sentado ao meio - no meio de tudo - falando monossilabicamente e o tempo parou ao contemplarmos a sua figura, ela está na minha retina como as coisas da revelação. Claro, faltava-nos todo o mecanismo da complexidade móvel dos nossos tempos, mas haverá alguém que tenha detonado pelo órgão da visão, hoje, a mesma carga

energética com a intensidade desta aparição? São brasas acesas! Temos sempre de voltar a ser discípulos, principiantes, de superar os troços dos caminhos e passar a outras transformações, temos toda a rotina e todas as derrotas, e todas as conquistas em forma comprimida, mas, soltamos as vias do percurso quando nos abeiramos da infância onde nenhum sofisma é possível que possa interpretar melhor aquilo que a realidade tão bem conseguiu. Isso, suponho, seja uma grande dádiva. Esse tempo para tudo sem o arrastão demencial da “brincadeira” para adultos que a todo o momento nos querem impingir para sermos mais felizes: ninguém tem nada a ver com a nossa felicidade! Nem queremos receitas para tais estados de espírito, sentimo-nos insultados e até desconsiderados como pessoas com tanto receituário. Embora possa não parecer, nós somos de um tempo civilizado. Hoje olham-nos com a desconfiança de que olham para tudo, de soslaio e com o criticismo massivo que revela doença interpretativa, mas é natural, estamos ausentes das receitas e somos só a cobaia por onde os testes passam indiferenciadamente. Mas atrás de nós ainda há deuses, e falam forças, e estão em sentido muitas coisas que nem sabemos que as herdámos. Não viemos ocupar o maravilhoso «Homem Novo» a partir de um cromagnon ignoto que na ideia se instalou.

Não, nós somos de facto de um mundo que, embora não acreditado, era à sua maneira civilizado. Certamente mais pobres, mas hoje também somos tão pobres que andamos disfarçados de ricos. A felicidade que nos querem dar não se aplica em nenhuma dimensão da vida quando a vivemos por dentro. Parece que continuamos com os mesmos enigmas disfarçados e aplicamos defesas em coisas já em si tão sitiadas... cercamo-nos de um vínculo de comportamentos externos para não termos que estar todos os dias a inventar a vida, mas seria bom inventá-la mais dado que a norma é incrivelmente parasitária. Vamos a mais locais e países porventura, mas somos turistas que é tudo quanto há de mais triste. A ir que seja para dentro dos locais e povos, de modo, a sentirmos a mesma experiência diante de um Almada de quando fôramos crianças, que seja a revelação vestida em nós, que estejamos tão dentro e perto que esqueçamos a linha divisória entre estar e visitar. Acabou tudo como sempre acabou: os mais velhos morreram, nós ficámos, os lutos são posições espaciais e não uma paragem no tempo da dor, dado que nos querem fazer acreditar que ao não existir não devemos ter intervalos para ela e que todos, numa cripta incinerada, ainda damos matéria para um elemento que poderemos utilizar ao peito e matéria para estátuas. Não longe estamos do nazismo higiénico das cinzas, mas nós que labutámos para que nada disso voltasse a acontecer, de forma cega utilizamos os moldes que nos servem a medida de uma felicidade nunca antes conquistada. O paradoxo é o acaso mais conseguido e nem sempre estamos disponíveis para continuar sem as devidas rectificações. Numericamente gravados, somos um Holocausto predestinado à fúria das convenções onde a norma é aplicada sem retaliação: afinal, tal como os primeiros da saga, não sabemos exactamente para onde vamos. Só quando fecharem a luz e os gases começarem a inundar os espaços, teremos quietos a resposta. Definitivo é este século todo de correntezas imprevistas e súbitos acontecimentos que nos deixam a fumar água pelas narinas... Sabe-se lá se os cigarros são líquidos! Daquelas lindas embalagens guardamos os rótulos como de poemas se tratassem e somos seguidos pelos fumos sombrios de um planeta voluntariosamente ígneo, mas também glacial. Numa demonstração definitiva de que não só tudo mudou como aos poucos se tornará impróprio como habitação de todos. Por isso seria bom avançar rápido com as novas formas de êxodo galáctico na medida em que definitivamente se irá tornar um planeta radical. Tudo vai, tudo volta, tortuosos são os caminhos da eternidade...


16

h Camilo Pessanha

O

calendário marcava 10 de Abril de 1894 quando, por volta das cinco da tarde, encostava ao cais do Porto Interior o vapor Heungshan vindo de Hong Kong. Pouco tempo medeia entre a chegada do novo Governador da Província de Macau e Timor, o Capitão de engenharia José Maria de Sousa Horta e Costa (1858-1927), e do professor do Liceu: apenas duas semanas. Mas se era a primeira vez que Camilo Pessanha vinha a Macau, já o engenheiro Horta e Costa conhecia bem o território, pois fora empossado a 2 de Novembro de 1885 Director das Obras Públicas de Macau, posto que ocupara até 2 de Novembro de 1888. Assim, quando em 24 de Março de 1894 pela primeira vez “assume o cargo de governador, Horta e Costa sabia muito bem quais os interesses locais e os jogos de poder, o orçamento de que dispunha e as ligações político-administrativas que teria de manter com o Ministério dos Negócios da Marinha e Ultramar, sem esquecer a frente diplomática como Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário junto de Sua Majestade o Imperador da China e Rei de Sião”, segundo refere António Aresta. Acompanhado pela sua esposa Adelaide Silvano, o Governador, nomeado por decreto de 23 de Dezembro de 1893, partira de Lisboa a 18 de Fevereiro e chegara a Macau entre 22 a 24 (referindo o jornal Echo Macaense, talvez por engano, o dia 27) de Março, sendo transportado pela canhoeira Bengo, que o fora esperar no dia 21 a Hong Kong. Desembarcara no Cais do Governador, fronteiriço ao Palácio das Repartições Públicas, na Baía da Praia Grande, que muito jeito teria dado a Camilo Pessanha, pois o hotel onde iria ficar hospedado era logo ali ao lado. No entanto, o professor, como todas as comuns pessoas, fôra desembarcado no Porto Interior.

A PESTE EM GUANGDONG

Tivesse Camilo Pessanha chegado em Maio e teria de passar pela inspecção sanitária, feita ainda no próprio barco pois, tal como Cantão, Hong Kong padecia já no pesadelo da peste bubónica, apesar de Macau se ter mantido livre de tal calamidade. O primeiro caso

aparecera na última semana de Março num distrito pobre de Cantão, perto da porta Sul e nos primeiros dias de Maio manifestava-se já em Hong Kong. Por isso, todos os passageiros que vinham da então colónia britânica e da província de Guangdong eram inspeccionados na fronteira por um dos dois médicos navais, o dr. Novais ou dr. Homem de Carvalho, ali em serviço diário durante seis horas ininterruptas para fazerem a despistagem da terrível epidemia. Quem gostava de aparecer para vistoriar as passageiras estrangeiras era Ho-Lin-vong e Hip-Lui-sen que, a 22 de Junho de 1894 “entraram no vapor Heungshan juntamente com o sr. Chefe de Saúde, mostrando a sua autoridade na vigilância da inspecção dos passageiros, serviço de que se acha encarregado o sr. dr. Gomes da Silva. Este estado de coisas não pode continuar. É um desprestígio à autoridade que desempenha este trabalho e um motivo para os preponderantes alegarem serviços que não prestam nem podem prestar. Que vão inspeccionar os flower-boat do rio”, como refere no dia seguinte o jornal O Independente. De salientar continuarem em vigor em Setembro, as medidas preventivas contra a peste. Ainda em Junho, os chineses de Macau realizavam procissões com as suas divindades, percorrendo as ruas com andores para a cidade se conservar livre da terrível peste. Fôra para debelar um surto de varíola e de cólera, provenientes de Hong Kong que, em 1888, entrara na cidade a divindade Na Tcha. A estátua desse deus criança, um menino travesso dotado de poderes sobrenaturais, passeara pelas ruas de Macau e os residentes, por ele protegidos, dedicaram-lhe dois templos.

CHEGADAS

Ao desembarcarem no Porto Interior, no cais ponte feita em madeira, logo os passageiros eram apanhados pela frenética actividade e rebuliço do bazar chinês. De lembrar que ainda não existia a Avenida Almeida Ribeiro. “O comércio dos chineses é principalmente na rua do porto interior e no Bazar; na rua do porto interior faz-se a carga e descarga das inúmeras lorchas e outros barcos que demandam o porto, principalmente do peixe salgado, e no

Bazar é onde os chineses tem os seus principais estabelecimentos de comércio, as casas públicas, onde eles tratam os seus negócios, as casas de jogo e colaus [restaurantes] que frequentam diariamente”, segundo refere o director das Obras Públicas, o eng. Augusto Abreu Nunes, também ele recém-chegado a Macau, a 14 de Dezembro de 1893, e ainda nomeado pelo Governador da Província Custódio Miguel de Borja, em 12 de Janeiro de 1894 para o cargo de Inspector de Incêndios. Depois do eng. Abreu Nunes, chegara a 22 de Janeiro, com a esposa e um filho, o dr. Álvaro Maria Fornelos, que vinha ocupar o cargo de Procurador dos Negócios Sínicos, interlocutor com o governo chinês. Em Fevereiro desse ano, o Administrador do Concelho das Ilhas da Taipa e Coloane e Comandante da Fortaleza da Taipa,

o sr. Tenente João de Sousa Carneiro Canavarro era promovido a Capitão graduado. Os cules, trabalhadores chineses assalariados, em Macau desempenhavam o papel de serviçais ou de criados por conta própria que, desde 1858, estavam integrados numa companhia e organizados corporativamente. Mal o vapor proveniente de Hong Kong encostava ao cais de madeira, os inúmeros cules, trajados com cabaias gastas e imundas, acocorados na companhia de um cachimbo de bambu esfumando pequenas porções de tabaco durante a espera, num salto levantavam-se e precipitavam-se pelo barco dentro para descarregarem as bagagens dos passageiros. Fora, outros cules junto aos seus alugados, velhos e sujos riquexós, esperavam na praça o cliente, na esperança de conseguir a maquia


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José Simões Morais

desembarca em Macau

suficiente para passar o resto do dia a trabalhar em lucro, refeição e jogo. Descendo do barco, com o corpo ainda a ondular, os assarapantados passageiros eram logo envolvidos pelos cules que, na tentativa de encontrar quem transportar, alimentavam o reboliço e a algazarra no Porto Interior.

OS RIQUEXÓS

O cule coloca os varais no chão para permitir a Camilo Pessanha sentar-se na cadeira do riquexó e, após este instalado, levanta-os, preparando-se para partir. Provavelmente a bagagem era transportada noutro riquexó, por outro cule, já que nesse tempo em Macau ainda não havia automóveis. Existia a zorra, um carro baixo, com quatro rodas pequenas e grossas, para transportar objectos pesados. Em vias de desaparecer estavam as cadeirinhas, sem rodas,

pois, para além do preço ser mais caro, eram mais vagarosas e desconfortáveis. Os riquexós, na linguagem oficial eram denominados jerinxá, ou jinrickshas, o nome japonês de onde a ideia deste tipo de transporte deve ter aparecido. No Japão, eram esses “carrinhos de duas rodas e varais ligeiros, puxados em corrida vertiginosa por homens designados por koruma”, como refere Ladislau Batalha. Em Macau, os riquexós surgiram na primeira metade de 1883 e desde então começaram a substituir as cadeirinhas, pois traziam a vantagem pela economia de tempo e dinheiro. Eram puxados por cules e se até 1894 havia vinte e tantos proprietários para os cerca de 280 carros, nesse ano foram eles preteridos, tendo o Senado entregue a um monopólio, que tomou conta desse negócio. Passa um cule aguadeiro a vender água aos recém-chegados, mas Camilo não se atreve a provar, guardando para mais tarde, quando deixasse a estadia do hotel, beber a água da bica do Lilau (designação então da Fonte do Nilau, ou do Lilau). A água que a cidade consumia era preferencialmente de três fontes ou, com pior qualidade, a dos poços. À chegada de Camilo Pessanha, em 1894, os poços seriam à volta de 600 particulares, dentro dos muros das habitações, e aproximadamente 140 públicos, ou comuns a muitos moradores, não sendo então ainda obrigatório os poços encontrarem-se com as bocas rodeadas de uma grade de ferro e terminar superiormente em chapa de pequena largura de modo a não servir para alguém aí se sente, ou se ponha de pé, quando tirar água, o que só vai ser legislado pelo Código de Posturas de 1896. Proveniente das fontes do Lilau, da Inveja e da Flora, a água era recolhida e transportada por cules aguadeiros, reunidos desde 30 de Outubro de 1858 numa Companhia, que a entregavam a cada um dos bairros, cobrando dinheiro pelo frete do seu transporte. Já sobre a qualidade da água potável, Macau não vai conseguir resolver esse problema durante a vida de Camilo Pessanha. Em cima do riquexó e ajustado o preço, que andaria pela dezena de avos até ao Hotel Hing Kee, no outro lado

da cidade, num relance terá avistado as águas do Rio Oeste. Camilo Pessanha não sabia estar na ordem do dia o assunto dos jinrickshas, pois o Leal Senado preparava-se (concurso realizado a 26 de Junho de 1894) para licitar a entrega desse negócio a um monopólio. Os até então proprietários dos carros tinham visto em Janeiro as taxas a pagar ao Leal Senado aumentadas para $23,50 por ano, assim como aparecera publicado no Boletim Oficial a faculdade conferida ao Leal Senado de determinar as dimensões de cada carro. Queixava-se o repórter do jornal O Independente, de 13 de Janeiro de 1894, “o esquecimento dos ilustres edis de ao mesmo tempo fixarem o máximo do preço do aluguer que os proprietários dos carros têm direito a exigir aos condutores, a fim de que estes não ficassem à mercê da exploração daqueles. Esquecia-se essa postura de publicar a relação das calçadas íngremes que não sejam conduzidas por dois homens. Assim quem ia pagar o aumento da taxa eram os utentes”. De referir ter sido o aparecimento do projecto do Liceu, ao convidar a câmara a participar com um subsídio, deliberando o Senado dar 5000 patacas, que levou o seu Presidente, o sr. Comendador Basto, a dizer numa das sessões ter chegado a ocasião de apresentar a moção do vereador Victorino sobre o monopólio dos jinrickshas. Assim, quando Pessanha aqui chegou, estava essa entrega a ser preparada, sendo à partida conhecido quem ia ficar com o negócio. O difícil primeiro contacto com os estrangeiros recém-chegados, pela falta de palavras para se fazer entender e captar o cliente, o cule no levantar a voz espera conseguir, pelos poucos sons reconhecidos, dar os nomes dos hotéis desejados. Fácil quando se tratava de passageiros ocidentais pois eram então apenas dois, o Boa Vista e o Hing Kee.

OS HOTÉIS PARA ESTRANGEIROS

O Hotel Boa Vista era propriedade desde Março de 1891 do inglês William Edward Clarke, capitão do vapor Heungshan. Fora inaugurado a 1 de Julho, após ser ampliada a casa da família Remédios, construída por vol-

ta de 1870 e onde esta continuava a residir, servindo também como local de hospedagem para muito do pessoal das companhias estrangeiras que operavam em Macau. Este hotel, situado no Chunambeiro, na Rua do Tanque do Mainato (hoje Rua do Comendador Kou Hó Neng), encontrava-se num morro protegido desde 1622 pelo então já desmantelado (desde 1892) Baluarte de Bom Parto, mas ainda sem ter sido parcialmente destruído, como veio a acontecer em 1910. O baluarte fora construído sobre as ruínas do cemitério dos Agostinhos, onde teriam os missionários espanhóis desta Ordem Religiosa edificado o seu mosteiro em 1586. Sobre a Praia do Bispo, o Hotel Boa Vista foi gerido até 1894 pela família Remédios, sendo a clientela maioritariamente britânica e era o único (segundo a propaganda) com um estatuto de verdadeiro hotel na cidade. Mas, devido ao progressivo e cada vez mais rápido assoreamento do Porto Interior, após a mudança do vapor Heungshan pelo Kiu Kiang, de menor calado e péssimo serviço a bordo, o capitão inglês William Edward Clarke deixou de poder estar presente no seu hotel e durante as travessias publicitar o Boa Vista, sobretudo aos compatriotas que de Hong Kong vinham passar o fim-de-semana. Já o hotel concorrente, o Hing Kee, hospedava os portugueses à chegada a Macau mas, após se familiarizarem com a cidade, mudavam-se para as suas próprias casas. No entanto, sabia-se ficar a estadia no hotel mais em conta do que alugar uma casa e nem mesmo nas “repúblicas”, casas alugadas por várias pessoas, os custos eram menores. Ao escutar “Hing Kee”, essa familiar sonoridade eleva-se sobre o ruído, sobre a barafunda que em frente ao cais do vapor, por momentos se dissolve para de novo se voltar a ouvir. Na postura, os cules captam os clientes e procuram proporcionar-lhes a tranquilidade de alguém ter compreendido os seus desejos. A comunicação é sustentada pela empatia e o esforço de compreender e articular os nomes em português dos lugares normalmente requeridos pelos passageiros a transportar. Camilo Pessanha entrava em Macau e, num ápice, dava por si a rolar.


18 PUBLICIDADE

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TEMPO

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AGUACEIROS

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

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26

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33

HUM

65-95%

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9.18

BAHT

Sábado

MÚSICA | TURTLE GIANT LIVE Rua De Nossa Senhora, Beer Temple | 20h30 às 22h00

Segunda-feira

O CARTOON STEPH

EXPOSIÇÃO “NEW ART PEOPLE PROJECT 2017: BOUNDLESS 4” Armazém do Boi | Até 13/8 EXPOSIÇÃO “CONTELLATION” DE NICOLAS DELAROCHE Galeria do Tap Seac | Até 08/10 EXPOSIÇÃO “O MAR” DE ANA MARIA PESSANHA Casa Garden | Até 31/08 EXPOSIÇÃO “A ARTE DE ZHANG DAQIAN” Museu de Arte de Macau | Até 5/8 EXPOSIÇÃO “DESTROÇOS” DE VHILS Oficinas Navais, nº. 1 | Até 31/11

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 78

EXPOSIÇÃO “AS MUDANÇAS DE HENGQIN” Armazém do Boi | Até Domingo

UM DISCO HOJE

Cineteatro

C I N E M A

PROBLEMA 79

SUDOKU

DE

EXPOSIÇÃO “COLOUR/SHAPE/LOVE”, DE JOAQUIM FRANCO Macau Art Garden | Até 16/7

YUAN

1.18

TEORIA DO CAOS

CINEMA | “OS AMANTES E OS DÉSPOTAS”, 2º FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIO DE MACAU Cinemateca Paixão | 21h30

Diariamente

0.23

PÊLO DO CÃO

CINEMA | “RIO CORGO”, 2º FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIO DE MACAU Cinemateca Paixão | 19h30

MÚSICA | BLUE JAZZ MONDAY, COM JOÃO MASCARENHAS E JANDIRA SILVA Grande Emperor, Windsor | 21h30

(F)UTILIDADES

O universo é feito de deslumbramento e violência, dois lados de uma moeda desequilibrada por natureza. Não compreende compaixão, justiça, amor, assim como todos os conceitos humanos que edificamos para racionalizar a jornada em que nascemos. A tragédia não escolhe alvos, as tempestades não marcam calendário para uma época conveniente, a morte é indiferente aos nossos desígnios, à pureza dos corações a que abruptamente interrompe. Arranjamos formas de mitigar esta crueldade aleatória, traçamos mundos paralelos onde a justiça recompensa os dignos, projectamos paraísos onde tudo estará bem, fortalecemos essa ideia com fé, com o que temos à mão. Mas por cá, onde a realidade é palpável, o caos é imperdoável, não vê rostos, não segue lógicas e varre a existência de forma caprichosa. Mas também a felicidade sai nesta lotaria existencial. Dias e noites polvilhados por sorrisos que nos surgem do nada, por surpresas que também não seguem ordem definida. É assim que vivemos, como um corpo sem peso numa maré revoltosa, sempre à deriva por mais que julguemos que estamos numa rota determinada. A imprevisibilidade é a única certeza, a entropia a única ordem, a mudança a única constante. Mais vale abraçar o caos, aceitá-lo, lutando com todas as forças para que a maré nos leve a bom porto. João Luz

FEIST | PLEASURE

A cantora canadiana está de regresso com um grande álbum, que mistura um pouco da essência pop que já lhe conhecemos com outras sonoridades mais maduras. A cantora que é um dos rostos do cartaz do festival Clockenflap deste ano tem aqui um trabalho que será, certamente, um dos mais importantes do ano. Destaque para o single que dá nome ao álbum e para “A Man it’s Not His Song”. Andreia Sofia Silva

WAR FOR THE PLANET OF THE APES SALA 1

CARS 3 [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Brian Free 14.00, 16.00, 18.00, 20.00

DISPICABLE ME 3 [A] FALADO EM CANTONÊS Fime de: Pierre Coffin, Kyle Balda, Eric Guillon 22.00 SALA 2

WAR FOR THE PLANET OF THE APES [B] Fime de: Matt Reeves

Com: Woody Harrelson, Sara Canning, Judy Greer 14.15, 16.45, 21.45

WAR FOR THE PLANET OF THE APES [3D] [B] Fime de: Matt Reeves Com: Woody Harrelson, Sara Canning, Judy Greer 19.15 SALA 3

SPIDER MAN: HOMECOMING [B] Fime de: Jon Watts Com: Tom Holland, Robert Downey Jr., Michael Keaton 14.15, 16.45, 19.15, 21.45

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20 OPINIÃO

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“Throughout the post–Cold War period, U.S. responses to North Korea’s nuclear ambitions have been based on a simple premise: a nuclear North Korea would destabilize regional stability and thus cannot be permitted under any circumstances. At the height of each of the North Korean nuclear crises, both the Clinton and Bush administrations imposed a series of economic sanctions and considered military options”. Global Rogues and Regional Orders: The Multidimensional Challenge of North Korea and Iran Il Hyun Cho

A

Coreia do Norte tem sido particularmente contraditória nos últimos meses, aumentando acentuadamente o número e a ambição dos seus testes de mísseis balísticos. Ainda não é claro, porque razão o seu governo optou por se comportar de uma maneira tão desviante em termos internacionais. A opinião convencional é de que o regime de Kim Jong-un parece sente-se repentinamente muito mais ameaçado pelos Estados Unidos e pelos seus aliados, temendo que seja o próximo país escolhido para uma intervenção militar em grande escala e subsequente mudança de regime político. Assim, e de acordo com essa linha de pensamento, Kim e os seus seguidores estão à procura desesperadamente por construir um programa de mísseis balísticos e armas nucleares, que seja suficientemente grandioso, potente e de grande alcance para dissuadir os americanos e s o seus aliados de os atacar militarmente. Se considerarmos em termos de valor nominal, esta posição parece razoável, pois a Coreia do Norte é um estado desonesto, que é amplamente criticado pela maior parte do mundo, não fazendo uma análise minuciosa da situação em termos globais. Em primeiro plano, não existe motivo para que a Coreia do Norte se sentira mais ameaçada, actualmente, do que nos anos anteriores. As doutrinas de invasões preventivas e mudanças de regime chegaram ao seu ponto culminante, sob o governo George W. Bush, declinaram com Barack Obama e não há motivo para acreditar antes da crise actual, que Donald Trump teve algum interesse real em uma guerra com a Coreia do Norte. Os comentários de Trump sobre o Kim Jong-un, em verdade, foram geralmente corteses durante a sua campanha eleitoral e, recentemente, em Maio de 2017, Trump elogiou Kim como um biscoito muito inteligente, e sentir-se-ia feliz por sentar-se à mesa e comer na sua companhia um hamburguer. A declaração de que o regime começou a testar mísseis com mais rapidez do que

nunca, porque se tornou dominada por um súbito terror de que os Estados Unidos e os seus aliados iriam invadir o país sem aviso, não tem qualquer fundamento. Em segundo lugar, há poucos desejos estratégicos da parte dos Estados Unidos e dos seus aliados de derrubar o regime de Kim Jong-un e os norte-coreanos bem o sabem. Os sul-coreanos preocupam-se com os milhões de refugiados que inundarão as suas fronteiras, se o regime de Kim Jong-un entrar em colapso, e o gigantesco custo financeiro que uma unificação subsequente poderia acarretar. Os japoneses estão mais preocupados com a ameaça representada pela China do que pela Coreia do Norte, e temem que uma mudança de regime neste país possa reduzir o número de forças militares dos Estados Unidos estacionadas na região, o que também reduziria a necessidade estratégica que une a Coreia do Sul e o Japão, apesar das nefastas memórias que existem entre os dois estados, sobre o horrível tratamento japonês dado ao povo coreano de 1910 a 1945. Sem a ameaça da Coreia do Norte, o Japão poderia sentir-se abandonado pelos seus dois principais aliados e ter de enfrentar só o emergente gigante chinês. A Coreia do Norte fornece aos Estados Unidos um pretexto para estacionar as tropas e forças navais na região, o que ajuda a conter a China, enquanto minimiza a necessidade de fazer uma menção exagerada ao elefante na sala da região. Em terceiro lugar, mesmo que Kim Jong-un realmente se sentisse em pânico sobre a administração Trump, já possui o dissuasor mais efectivo, que pode realisticamente esperar alcançar. O regime testou com sucesso, em termos nucleares, uma bomba atómica em 2006 e, posteriormente, construiu uma reserva pequena, mas letal, de armas nucleares. Tem a capacidade de fazer ataques nucleares contra os parceiros americanos na Ásia-Pacífico, nos próximos anos, e poderá até atacar os Estados Unidos usando a sua grande força submarina ou colocando ogivas em contentores de carga, que poderiam ser enviados e não detectados para os portos americanos e detonados remotamente. Além disso, as suas ogivas foram feitas de forma impenetrável contra um primeiro ataque americano por algum tempo, inclusive através da ocultação em “bunkers” subterrâneos fortificados. Pelo menos alguns seriam provavelmente carregados em submarinos lançadores de mísseis, que a Coreia do Norte testou com êxito em Setembro de 2016. Isso garante que a Coreia do Norte possui uma capacidade nuclear poderosa de retaliação. Ao reforçar a sua dissuasão nuclear, a Coreia do Norte também possui a capacidade de responder a uma invasão ou ataque nuclear americano, infligindo uma destruição terrível aos aliados dos Estados Unidos e aos americanos com base na Ásia-Pacífico usando meios não-nucleares, incluindo o ser capaz de devastar a capital sul-coreana com rajadas massivas de artilharia aptas a

GIULIO ROMANO, A BATALHA DE ZAMA (PORMENOR)

O desprezível regime

realizar ataques químicos, ainda que exista qualquer proximidade entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos em termos de paridade nuclear. Temos de considerar que em quarto lugar se a Coreia do Norte realmente procura evitar ser atacada, deve manter uma atitude tão moderada quanto possível. A Coreia do Norte não tem escassez de problemas internos e externos que estão sob observação da administração Trump, e seria fácil manter-se em segurança se resolver deixar de ser o centro das atenções mundiais. As acções da Coreia do Norte foram particularmente provocatórias, quase deliberadamente estudadas para fomentar uma resposta hostil. O assassinato de Kim Jong-nam em Fevereiro, usando uma arma química em plena luz do dia em um aeroporto da Malásia, só faz sentido se o objectivo fosse estimular os actores estrangeiros a níveis mais altos de hostilidade. O retorno do cidadão dos Estados Unidos, Otto Warmbier, em estado de coma e que acabou por falecer a 19 de Junho de 2017,

quando tinha sido condenado a uma pena de quinze anos de trabalho e não era visto há mais de um ano, parece intencionalmente preparado para inflamar os ânimos. Porque não o mantiveram escondido, fingindo que ainda estava a cumprir a sua sentença? Mesmo os próprios testes de mísseis foram realizados de forma mais conflituante possível, com o regime norte-coreano a responder às críticas dos Estados Unidos, proclamando que realizaria os testes semanalmente, mensalmente e anualmente, juntamente com o lançamento de novos vídeos de ataques nucleares da Coreia do Norte contra importantes cidades americanas. O momento para o teste do mais recente míssil efectuado pela Coreia do Norte, foi no dia de feriado nacional dos Estados Unidos, a 4 de Julho de 2017, sendo uma verdadeira bofetada provocativa. Se a Coreia do Norte tivesse realmente medo de uma invasão pelos Estados Unidos e seus aliados, chamar deliberadamente e repetidamente a atenção de forma negativa é uma acção completamente descabida. Ainda podia testar os mísseis, mas


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OPINIÃO perspectivas

JORGE RODRIGUES SIMÃO

da Coreia do Norte

tentaria evitar anunciar ao máximo o que está realmente a preparar. Se a série de testes de mísseis que aumentam rapidamente não está a ser feita principalmente para evitar um ataque dos Estados Unidos contra a Coreia do Norte, qual a razão porque o regime está agir tardiamente de forma tão beligerante? Alguns dos possíveis motivos são bem conhecidos e um deles é que o governo pode estar a usar os novos testes para divulgar a força e as conquistas técnicas do regime à sua população, a fim de distraí-los e reduzir o seu descontentamento. O outro motivo é de que Kim Jong-un pode acreditar que inúmeros testes permitirão fazer os Estados Unidos retornarem às negociações, e fazerem novas concessões à Coreia do Norte, tendo como moeda de troca a paralisação do seu programa de armas nucleares. Há também, no entanto, outra razão potencial que recebeu pouca consideração nos círculos políticos e académicos, que é o facto da Coreia do Norte estar intencionalmente a incitar os Estados Unidos, ao lançamento de ataques punitivos em pequena escala contra

si. Tal pode parecer contra-intuitivo, qual a razão porque um país quer ser atacado por forças externas? Os ganhos em popularidade do seu líder, provavelmente, superariam as perdas materiais incorridas pelos bombardeamentos, especialmente porque a história mostrou que tais ataques de mísseis americanos raramente têm qualquer efeito militar significativo. A história também mostrou que um governo sob ataque de um inimigo internacional muitas vezes experimenta um enorme impulso de popularidade, como resultado do aumento de patriotismo, um maior desejo de cooperação contra um agressor, e uma melhor disposição para tolerar as dificuldades internas como parte do esforço de guerra e conhecido como “Síndrome ao redor do efeito de bandeira.” O mesmo aconteceu, por exemplo, no início da campanha de bombardeamento da OTAN a Belgrado, durante a Guerra do Kosovo, o que levou a uma explosão de popularidade para o anteriormente aviltado presidente Slobodan Milosevic, e que permitiu que permanecesse no poder por mais tempo do que seria possível (a sua popularidade apenas possibilitou, depois de se saber que os bombardeamentos seriam sustentados, algo que a dissuasão norte-coreana desde longa data, bem como as protecções chinesas e russas, converteriam em suicidas para que os Estados Unidos se acaso tentassem). O regime norte-coreano vem a trabalhar para acumular benefícios de popularidade, por estar em estado de animosidade com os Estados Unidos há décadas, mas a realidade do conflito essencialmente ilusório que descreve para o seu povo, sofre de uma grande falha que é a ausência de ataques inimigos palpáveis que a população pode ver, ouvir e sentir. Um ataque real dos Estados Unidos preencheria bem esse vazio. Além disso, uma das fraquezas da posição de Kim Jong-un como líder é a ausência de credenciais militares reais. Ter a oportunidade de agir como o líder que, valentemente, enfrenta o poder da superpotência mais importante do mundo e sobrevive, ajudaria também, a preencher essa lacuna com facilidade. Kim Jong-un tem uma razão clara para desejar um impulso interno em termos de popularidade. O estado fortaleza sobre o qual reina, está a ser atacado por uma multiplicidade de factores que podem prejudicar o controlo do seu regime sobre a população, incluindo uma escassez generalizada de alimentos, prestação inadequada de cuidados de saúde, extrema escassez de energia e aumento do acesso da população a informações do mundo exterior, através de meios ilegais. Apesar de o regime parecer ser seguro contra o risco de revolta interna ou golpe militar em futuro previsível, só se mantém devido ao intenso e contínuo trabalho do governo e das suas forças de segurança para manter o “status quo”, e patrocinar uma

manifestação patriótica em torno do regime de Kim, face a ataques americanos abertos, bem como elevar o próprio líder a herói militar, pode ser visto como suficientemente benéfico para valer a pena o sofrimento de um dano físico, resultante de um ataque que um míssil ou drone pode causar. Assim, Kim Jong-un recuaria na ideia de um ataque nuclear americano ou de invasão em grande escala, que significaria o fim do seu regime.

A Coreia do Norte fornece aos Estados Unidos um pretexto para estacionar as tropas e forças navais na região, o que ajuda a conter a China, enquanto minimiza a necessidade de fazer uma menção exagerada ao elefante na sala da região A dificuldade para o seu governo é de encontrar a resposta correcta. Se agir de forma muito beligerante, ao disparar uma ogiva nuclear contra Tóquio ou Seul, por exemplo, provavelmente criaria uma resposta de grande intervenção ou erradicação nuclear. Ao invés, trata de irritar e ofender os Estados Unidos a um nível que seja suficiente para incitar um bombardeamento em pequena escala, mas não a nível tão grave que possa vir a incorrer em algo pior. As acções que o regime tomou nos últimos meses, incluindo o teste de novos mísseis, mas que na verdade não atacaram país algum, matando ínfimas pessoas, em vez de grande número de civis estrangeiros, e nivelando as ameaças que são preenchidas com hipérbole, mas cuja pouca essência alinharia exactamente com esta estratégia. É altamente improvável que os Estados Unidos arrisquem que a Coreia do Norte dispare armas nucleares contra os seus aliados, ou fazendo explodir um contentor de carga nuclear em São Francisco, ou provocando uma retaliação nuclear maior da China, ou mesmo lançando uma invasão em grande escala da Coreia do Norte por causa de um único cidadão morto e alguns testes de mísseis ilegais. Todavia, não é de todo improvável que possa responder com o mesmo tipo de ataques militares que Trump usou contra a Síria este ano, depois do governo de Assad ter usado armas químicas contra a sua população, Bill Clinton usou contra o Afeganistão e a Somália após os ataques da embaixada dos Estados Unidos em 1998, e contra o Iraque no mesmo ano, por não terem cooperado com os inspectores de armas da

ONU, e Ronald Reagan utilizou contra a Líbia em 1986, após o bombardeamento da discoteca de Berlim e contra Beirute, em 1983, pelo bombardeamento de um quartel militar multinacional. É de considerar que, enquanto a administração Trump considera as suas respostas ao recente aumento de beligerância da Coreia do Norte, deve ter em consideração que o lançamento de ataques limitados pode, de facto, ser exactamente o que o regime de Kim Jong-un quer. Existem muitas outras razões pelas quais os Estados Unidos devem agir com extrema prudência, antes de tomar esse caminho, que não deve ser negligenciado. Fazer exactamente o que um ditador totalitário desprezível quer, pode em geral ser uma má decisão. A verdade é que as sanções ocidentais e as promessas de acção da China não conseguiram controlar o seu programa nuclear, tendo a Coreia do Norte realizados testes de mísseis a cada duas semanas desde o início do ano. As sanções são destinadas a prejudicar a economia, mas apesar de toda a miséria, o país está a crescer entre 1 por cento a 5 por cento ao ano. A ONU tentou bloquear o acesso da Coreia do Norte ao dólar americano, limitando a quantidade de carvão que o estado pode exportar, potencialmente privando-o de mais de um quarto da sua receita total de exportações. A China, compradora de 99 por cento das vendas de carvão da Coreia do Norte, afirmou em Fevereiro de 2017 que suspenderia todas as importações. Tais medidas não tem impedido que a Coreia do Norte continue por meios fraudulentos a vender carvão e a ter acesso a moeda estrangeira, bem como usa agentes de terceiros países para vender drogas, armas e produtos falsificados. O governo permite que as pessoas singulares criem negócios lucrativos, Além de produzirem para o Estado, os agricultores e as fábricas têm alguma liberdade para procurar os seus clientes. As imagens de satélite mostram que os mercados crescem em tamanho e número entre as cidades. As pequenas e médias empresas estão a proliferar e seis empresas de táxi operam em Pyongyang. A fúria apocalíptica da Coreia do Norte na realização de um programa de armas nucleares, incluindo o seu não cientificamente e militarmente provado primeiro lançamento de mísseis balísticos intercontinentais é fundamentado no que dizem ser um conjunto racional de metas em que o mais importante é a auto-preservação. O regime diz que quer uma bomba nuclear porque viu o que aconteceu, quando o Iraque e a Líbia ficaram sem as armas de destruição massiva. Os seus regimes foram derrubados por intervenções apoiadas pelo Ocidente. A Coreia do Norte quer travar outros países de fazerem o mesmo, nomeadamente a administração do presidente Donald Trump, de derrubar o seu regime totalitário.


22 OPINIÃO

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contramão

Dois por quatro

PAULA REGO, A DANÇA

1. Macau tem um ritmo estranho. Às tantas os outros sítios também têm um ritmo estranho, mas quem vive aqui não está neles e, por isso, não sabe de certeza vivida. Ficamos por cá a fazer a contabilidade de um tempo bastante parvo, em que os dias são sempre muito compridos e, em simultâneo, demasiado curtos, até porque o sol foge cedo, muito cedo, nos dias em que se digna a aparecer. São dias compridos, mas curtos, que teimam em ser extraordinariamente repetitivos para quase todos nós, emoldurados que estamos entre afazeres profissionais, familiares, pessoais, sociais. Dias curtos, mas compridos, que se condensam em ciclos, sempre mais ou menos iguais. Quem veio de fora faz as contas não aos anos, mas ao número de edições deste ou de determinado acontecimento. A partir de certa altura, o tempo começa a mingar. Ainda ontem era grande prémio e está quase aí outra vez, deixem o Verão acabar e vão vê-lo em auditivas acelerações. Por entre estes compassos repetitivos de Macau, que se escreveram para serem dois por quatro, andante, andam fusas e semifusas que, de tão rápidas, se nos escapam ao entendimento. Damos por elas, mas não sabemos que leitura fazer das coisas que não aparecem escritas. O que nos mostram não chega a ser. Não nos resta mais do que esperar pelo tempo, esse conceito que alguém inventou para evitar que vida e morte se juntassem demasiado depressa.

2. Vêm aí as legislativas, assunto que, muito provavelmente, não empolgará por aí além a maioria dos que me lêem. Para este ano há mais do mesmo, com mais diversidade, mas com o grau de interesse de sempre: pouco. Ainda assim. Faz parte desta coisa de ser cidadão estarmos informados das nossas opções, mesmo sabendo, de antemão, que dificilmente nos servirão. É um direito dever, um dever direito, não há mais e é o que temos. No início era complicado perceber isto, lembro-me bem. Fui assistir ao meu primeiro plenário na Assembleia Legislativa com uma útil revista na mão que me dizia quem era quem, na medida em que é possível perceber-se quem é quem, e lembro-me de pensar que seria difícil algum dia entender o que verdadeiramente se dizia por ali. Não me enganei redondamente, apesar de, com o tempo, ter conseguido fixar os rostos e algumas das ideias, uma conquista que, feitas bem as contas, serve de pouco, de muito pouco. Sei quem são mas não sei quem são, ainda hoje, apesar de tudo. Ainda bem. Ainda assim. Várias legislaturas depois, com mais mudanças pelo meio do que seria de esperar, apesar do tédio que marca o tempo político, continuo a

Não sabemos que leitura fazer das coisas que não aparecem escritas. O que nos mostram não chega a ser

ISABEL CASTRO

surpreender-me com este sistema e com quem faz parte dele. Os grandes e os pequenos, os grandes que estão ali de pedra e cal, com raízes na alcatifa fofa, e os pequenos, aqueles que não chegam lá mas que, por algum motivo quase sempre pouco ligado a uma irresistível vontade de participação cívica, querem lá estar também. Por norma, não conseguem. Ainda assim. Surpreendem-me os nomes e a falta de ideias e também o excesso de monotemáticas lutas. Listas que têm apenas um único objectivo, como se fosse um disparate ter mais do que um. Ou como se fosse de todo impossível dez cabeças produzirem dez ideias diferentes. Listas que se dizem cor-de-rosa, o que quer que isso signifique. Candidatos que continuam no século XX, na primeira metade do século XX. Candidatos que não saíram do século XVIII. Candidatos que ainda não perceberam que já não há cavalos e burros nas ruas, que dos agricultores resta apenas uma associação com o nome, que as mulheres não carregam cântaros na cabeça e que as crianças não andam descalças, barrigudas de fome, nas ruas enlameadas da terra, e que os mandarins agora são outros, com menos sedas e talvez menos mulheres. O tempo tem um ritmo estranho. Compassos de dois por quatro, andante, 60 por minuto, como manda o tempo, talvez 80 em caso de crise, fusas e semifusas que não encaixam, corre tudo tão depressa e tudo fica no mesmo sítio.


23 PERFIL

PETER BARTUSEK

hoje macau sexta-feira 14.7.2017

PETER BARTUSEK, PROFISSIONAL DOS SETE OFÍCIOS

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Homem do renascimento

Á pessoas que deambulam pelo mundo, quase como se vivessem ao sabor do vento. Peter Bartusek é um bom exemplo disso, o protótipo daquilo a que se convencionou chamar de um cidadão do mundo. Em poucos anos, o húngaro viveu em seis países, sempre com ocupações diferentes. Há quatro anos chegou a Macau na sua primeira incursão asiática. O primeiro impacto foi perturbante para Peter Bartusek. “Na altura, vivia em França, nas montanhas, no meio do campo, e quando cá cheguei fiquei chocado, não gostei muito de Macau”, confessa. O abalo inicial foi como uma comoção. Habituado a ter campo de visão, Peter Bartusek sentiu uma enorme falta da natureza e de amplitude, de espaços abertos. “Achei a cidade claustrofóbica e poluída”, conta. Aos poucos, essa sensação foi sendo atenuada, em especial com a ajuda das amizades que foi firmando. “Conheci pessoas muito boas, mas é claro que se demora sempre um pouco a desenvolver amizades e a ganhar confiança”, recorda. Os primeiros contactos com locais, em particular chineses, foram complicados

para o húngaro. O recém-chegado achou as pessoas rudes, com um trato duro, pouco polido. Uma primeira impressão que se foi alterando à medida que foi entendendo a cultura. “Normalmente não gosto de gritar com empregadas para conseguir chamar-lhes a atenção, não é assim que as coisas funcionam na Europa, mas foi algo a que me tive de habituar”, exemplifica. Hoje em dia, Macau ainda o sujeita a altos e baixos constantes. Depois de se ter apercebido do panorama geral, de ter entendido a cidade, Peter Bartusek passou a gostar de Macau, com o tempo lá sucumbiu ao seu charme. Para já, confessa que não tem planos para sair, é algo que não está no seu horizonte. Ainda assim, se sair, o húngaro “gostava de ficar algures na Ásia”.

MULTI-TASKER

Chegou a Macau porque as oportunidades de emprego na Europa escasseavam, mesmo para uma pessoa que faz de tudo um pouco. Peter Bartusek, enquanto estudava Química na Hungria, trabalhou na construção civil. Terminado o curso, conseguiu emprego numa empresa farmacêutica, onde ficou

um ano e meio. Depois disso, o acaso tomou conta da sua vida profissional e fê-lo percorrer a Europa. Após uma conversa provocadora com um amigo, acabou por se mudar para a Grécia, onde trabalhou como fotógrafo. Em seguida foi viver para Inglaterra, onde foi empregado num centro de jardinagem e depois num centro de lavagem de automóveis. Voltou à Hungria, onde trabalhou em atendimento ao público num aeroporto a vender bilhetes de shuttle. Seguiu para mais uma temporada em Inglaterra, antes de viver seis meses em Oeiras. A passagem seguinte, antes de vir para Macau, foi em França. “Já fiz de tudo, acho que nunca fiz nada duas vezes, andei de trabalho em trabalho, de país em país.” Em Macau faz de tudo um pouco, pinta apartamentos, faz reparações, trata de canalizações. É algo que gosta de fazer e que veio mesmo calhar, uma vez que em Macau escasseavam pessoas a fazer este tipo de trabalho que falassem inglês. Na visão de Peter Bartusek, todas estas mudanças enriqueceram-lhe, em muito, a vida. “Acho que sou mais tolerante em relação a pessoas que são diferentes de mim,

aprendi a adaptar-me a diversas situações em pouco tempo”, explica. O húngaro chegou, várias vezes, a terras que não conhecia sem ter um emprego, sem ter nada e a ter de arranjar formas de sobreviver. Sempre com o apoio de amigos, conhecendo pessoas e encontrando formas de trabalhar com elas. Até que chega a Macau, onde o húngaro de 33 anos já vive há quatro anos e se sente em casa. Por cá, gosta de Coloane, de ficar próximo da natureza, mas também se deixou encantar “pela estranheza da cidade, onde há zonas que são o equivalente a viajar pela história”. Outro dos destaques de Peter Bartusek são os pequenos restaurantes chineses, onde gosta de partilhar uma refeição com os amigos. Até nesse aspecto, Macau pode oferecer um pouco de aventura e uma sensação de entrar em território imprevisto, um pouco ao sabor da vida do húngaro. “Adoro as velhas tascas chinesas, onde é sempre divertido e desafiante pedir algo”, conta Peter Bartusek. João Luz

info@hojemacau.com.mo


Porque o melhor, enfim,/ É não ouvir nem ver.../ Passarem sobre mim/ E nada me doer!/ — Sorrindo interiormente,/ Co’as pálpebras cerradas,/ Às águas da torrente/ Já tão longe passadas.” Camilo Pessanha

sexta-feira 14.7.2017

LIU XIAOBO (1955-2017) APN PAULA LING NÃO É CANDIDATA

Paula Ling não se vai recandidatar a um lugar na Assembleia Popular Nacional (APN), noticiou ontem o canal português da Rádio Macau. A advogada é delegada à APN desde 2008. Paula Ling junta-se assim a Lionel Leong, secretário para a Economia e Finanças, que também não volta a concorrer a um assento no órgão legislativo da China. Esta semana, o secretário justificou a decisão com o facto de se querer dedicar em exclusivo às funções que desempenha no cargo. Nas últimas eleições para a APN, Lionel Leong não era ainda membro da equipa governativa de Chui Sai On.

ENSINO CHINA AUMENTA VAGAS PARA RESIDENTES

As instituições de ensino superior do Continente vão aumentar as vagas para receber alunos de Macau. A notícia foi divulgada ontem pelo canal chinês da Rádio Macau, que cita o subdirector do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong, Macau e Taiwan do Ministério da Educação da China. Zhao Lingshan fez questão de referir que a China Continental não vai diminuir os lugares destinados a alunos locais, mas sim aumentar. O motivo, apontou o responsável, tem que ver com a formação de talentos associada à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. Zhao Lingshan vincou ainda que este ano o Ministério da Educação da China e o Governo de Macau já alargaram as possibilidades de ingresso em universidades chinesas através da aceitação de alunos por carta de recomendação da instituição de ensino local. De acordo com o subdirector, a taxa de alunos que entraram no ensino do Continente por esta via foi de 90 por cento o que, considera, é uma taxa alta.

JAPÃO EXECUTADOS DOIS CONDENADOS À MORTE

O Japão executou ontem por enforcamento dois condenados à morte, nas 18.ª e 19.ª execuções deste governo, liderado pelo primeiro-ministro Shinzo Abe, informou o Ministério da Justiça. O Japão é o único país industrializado, juntamente com os Estados Unidos, que mantém a pena de morte, e a reticência japonesa em abandonar esta prática tem sido duramente criticada por organizações de defesa dos direitos humanos como a Amnistia Internacional. A legislação japonesa estipula que os condenados à morte devem permanecer incomunicáveis até ao momento da aplicação da pena, de que tomam conhecimento poucas horas antes de acontecer. Em Outubro de 2016, a Federação de Advogados do Japão aprovou pela primeira vez a adopção de uma declaração contra a pena de morte no país, pedindo que seja substituída pela prisão perpétua em 2020.

MORREU AMÉRICO AMORIM

Américo Amorim, empresário e o homem mais rico de Portugal, morreu esta quinta-feira, vítima de complicações de saúde. Faria 83 anos no próximo dia 21. Conhecido como “rei da cortiça”, faleceu esta quinta-feira, a poucos dias de completar 83 anos, na sequência de problemas de saúde que o afectavam há algum tempo. O CEO da Corticeira Amorim era o homem mais rico de Portugal, com uma fortuna de 4,09 mil milhões de euros em 2017, segundo a lista das pessoas mais ricas do mundo da revista Forbes. Américo Amorim ocupava, em 2016, a posição 369 da lista da Forbes, descendo 16 lugares na lista publicada em 2017, ainda que a sua fortuna tenha crescido de 3,6 para 4,09 mil milhões de dólares.

FÁTIMA PAPA RENDEU SEIS MILHÕES DE EUROS

A visita do Papa Francisco a Fátima, nos dias 12 e 13 de Maio, rendeu à hotelaria e à restauração do concelho cerca de seis milhões de euros, segundo os dados da Associação Empresarial de Ourém (ACISO), apresentados pelo Jornal de Notícias desta quinta-feira. “Os efeitos não são imediatos, mas já se notam os frutos. A taxa de ocupação já é muito boa e esperamos, até ao final do ano, chegar a um milhão de dormidas”, afirmou ao JN o assessor da direção da ACISO, Pedro Mafra, acrescentando que, quanto aos restaurantes, “tendo em conta o número de dormidas e um preço médio de 15 euros por refeição”, estima-se que tenha havido uma receita na ordem dos 1,5 milhões de euros.

A morte de um Nobel

O

dissidente chinês Liu Xiaobo morreu ontem aos 61 anos, anunciaram as autoridades da província de Liaoning, onde o Nobel da Paz de 2010 estava hospitalizado com cancro do fígado. Liu Xiaobo esteve detido mais de oito anos por “subversão”. Foi o primeiro Prémio Nobel a morrer privado de liberdade desde o pacifista alemão Carl von Ossietzky, que morreu em 1938 num hospital quando estava detido pelos nazis. Liu Xiaobo foi condenado em 2009 a 11 anos de prisão por subversão, depois de ter exigido reformas democráticas na China e um dos autores de um manifesto, a “Carta 08”, que defendia o respeito pelos direitos humanos e a realização de eleições livres. Em 2010 foi distinguido com o Nobel da Paz e na cerimónia de entrega do prémio, em Oslo, uma cadeira vazia representou Liu, já sob detenção. A 26 de Junho último, o dissidente foi colocado em liberdade condicional e hospitalizado, devido a um cancro no fígado em fase terminal, diagnosticado em maio. Os últimos exames realizados em Shenyang mostravam que o tumor tinha aumentado de tamanho. Liu sofria ainda de insuficiência renal, de acordo com o hospital, que a 8 de Junho, declarou que o doente não podia ser transferido para o estrangeiro, contrariando a vontade de Liu Xiaobo de ser tratado fora da China. Os médicos norte-americano e alemão que observaram o dissidente chinês tinham pedido que fosse transferido “o mais depressa possível”. Várias organizações de defesa dos direitos humanos e próximas de Liu criticaram Pequim por ter esperado por uma deterioração do estado de saúde para colocar o dissidente em liberdade condicional, mas as autoridades afirmaram que ele estava a ser tratado por médicos especialistas reputados. Longe de ser um gesto humanitário, a libertação de Liu foi decidida para evitar uma imagem desastrosa

para Pequim: a morte de um dissidente famoso atrás das grades, de acordo com a associações de defesa dos direitos humanos. Liu Xiaobo foi detido pela primeira vez por ligação aos protestos de 1989 na praça de Tiananmen. Na altura professor em Pequim, participou em 1989 no movimento pró-democracia da praça Tiananmen, desencadeado PUB

pelos estudantes, e foi detido após a repressão violenta do movimento, tendo passado um ano e meio na prisão sem nunca ter sido condenado. Encarcerado num campo de reeducação “pelo trabalho” entre 1996 e 1999 e afastado da universidade, Liu tornou-se um dos animadores do Centro Independente Pen China, um grupo de escritores.

A China era há muito criticada pelo tratamento dado aos militantes e opositores políticos, mas desde a chegada ao poder do Presidente Xi Jinping, no final de 2012, que a pressão sobre a sociedade civil aumentou. Em Julho de 2015, mais de 200 advogados e defensores dos direitos humanos foram interpelados pela polícia. A maioria foi posteriormente libertada, mas seis foram condenados no ano passado a penas de até sete anos de cadeia. Os tribunais chineses têm uma taxa de condenações de 99,92% e os inquéritos avançam muitas vezes com base em confissões obtidas sob tortura. A mulher de Liu Xiaobo continua, desde 2010, sob detenção domiciliária. De acordo com Patrick Poon, da organização Amnistia Internacional, Liu Xia nunca foi acusada formalmente de qualquer crime.

Hoje Macau 14 JUL 2017 #3853  

N.º 3853 de 14 de JUL de 2017

Hoje Macau 14 JUL 2017 #3853  

N.º 3853 de 14 de JUL de 2017

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