Page 1

MOP$10

TERÇA-FEIRA 14 DE JANEIRO DE 2020 • ANO XIX • Nº 4448

hojemacau

HOJE MACAU

RÓMULO SANTOS

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

JORGE ARRIMAR

MACAU TÉNUE

CAPITAIS PÚBLICOS

GABINETE NO HORIZONTE PÁGINA 7

Contas deste Rosário

Sem papas na língua. Foi assim que Raimundo do Rosário, ao seu estilo, se apresentou na primeira sessão plenária de 2020 da AL. Garantiu não ter vergonha dos atrasos na aprovação do Plano Director, prometeu mudanças notórias na DSSOPT e voltou a pedir compreensão para as avarias do Metro Ligeiro. Mak Soi Kun mostrou-se feliz por voltar a ver Rosário na AL. PÁGINAS 4-5

SHUN TAK

APERTAR O CINTO PÁGINA 8

PUB

www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau

GCS

ENTREVISTA


2 ENTREVISTA

JORGE ARRIMAR ESCRITOR

Em Setembro esteve numa conferência na Universidade de Macau e falou do I Encontro de Poetas de Macau, nos anos 90, que não voltou a ter mais edições. Que razões aponta para a falta de iniciativa? Nessa conferência tive a oportunidade de falar de um encontro que foi tão importante e único e que depois caiu num véu de silêncio sem se perceber porquê. Do que eu li não há qualquer referência a esse encontro, nunca há. As grandes referências que se fazem, com a Mónica Simas, Fernanda Gil Costa ouAna Paula Laborinho, entre outros estudiosos, o próprio Seabra Pereira, todos esses fazem uma referência simpática sobre o resultado desse encontro que foi a edição da “Antologia dos Poetas de Macau”. Não se podem imputar culpas. Posteriormente, foram feitas algumas publicações, como a “Antologia dos

“A poesia continua

HOJE MACAU

É de uma enorme janela virada para o rio Tejo que o autor Jorge Arrimar escreve os seus versos, contos e romances. Poeta de Macau, escritor angolano, são muitas as facetas literárias que assume no triângulo geográfico que compõe a sua vida. Actualmente, trabalha num romance histórico sobre Angola e publicou muito recentemente um livro de poesia, “Insomne”, onde Macau surge de forma ténue


3 terça-feira 14.1.2020 www.hojemacau.com.mo

com Macau” “Não acontece só comigo. Falei com várias pessoas que publicam e me dizem que há essa dificuldade na promoção, venda e distribuição. Em Portugal, tirando a altura da Feira do Livro, não há mais oportunidades, é difícil encontrar livros sobre Macau.”

Poetas de Macau”, que é um reflexo desse ambiente e desse espírito novo que aparece com o encontro. Entretanto dá-se a transição e creio que muitas pessoas do meio da língua portuguesa saíram de Macau, e creio que se criou alguma instabilidade com a transição. Houve muita gente que se sentiu intimidada pela grande mudança que se avizinhava, e outros tinham de sair porque iria haver uma mudança de Administração. Houve muitos motivos para que não se tenha criado de novo esse espírito de forma a haver um encontro similar. Mas criaram-se outros de acordo com as novas realidades. Publicou recentemente “Insomne - Poema em Dez Actos”. Macau surge neste livro? É um livro de carácter geral, mais de emoções com uma carga emocional muito forte. O próprio título acho que o diz, tem a ver com muitas situações da vida que nos marcam, muitas vezes de forma negativa, como a doença, a morte ou o envelhecimento, tem muito essa carga. Isso extravasa qualquer lugar. De qualquer forma, e como não podia deixar de ser, a minha vida…e a minha terra Angola e tem relação com outras terras por onde passei, como osAçores. Macau aparece de uma forma um bocado espumada, de uma forma metafórica, mas não é um livro tão centrado num destes territórios da minha escrita como é o “Rotas Circulares” [editado pela Gradiva em 2017], que é completamente dedicado a Macau. Uma pessoa olha logo para o livro e vê que é dedicado a Macau, este não tem esse cunho. A sua carreira literária é marcada por um triângulo de lugares - An-

gola, Açores e Macau. Qual deles é o mais importante para si? Sou um escritor angolano e ninguém tem dúvidas disso, e apresento-me e sou recebido como tal, porque nasci emAngola e há mais de 100 anos que lá vivia com os meus antepassados. Portanto, não é apenas 10 anos aqui e 13 anos acolá. Angola é a matriz, tem lugar primordial porque é lá que nasço e cresço. Em Macau e nos Açores só posso ser um escritor de Macau e dosAçores, não sou escritor macaense nem açoriano, há aqui uma diferença pelo menos de grau. Está a escrever um novo romance histórico sobreAngola, mas nunca escreveu Macau em prosa. Porque é que Macau lhe desperta mais a vertente poética? Não é bem assim. A poesia nasce em Angola e continuei sempre a escrever poesia que tem Angola como grande motivo. Macau aparece também nessa expressão, mas não quer dizer que só escreva poesia sobre Macau ou prosa sobreAngola. O que acontece é que acabei por não escrever nenhum conto ou romance sobre Macau nem sei porquê, talvez porque me toque mais a sensibilidade de poeta, mas não lhe sei dar uma explicação clara, calhou assim. Para quando um romance sobre Macau? Macau, para mim, aparece mais na minha escrita no género de poesia. Escrevo alguns artigos e ensaios, e depois a história de Macau que é uma das minhas áreas. Romance… ainda não tentei, nem contos. Tenho estado mais com o romance de Angola, que me ocupa imenso. O romance tem uma linha de trabalho completamente diferente. Mas a poesia também pode ser trabalhosa e pode demorar muito. Cada poema pode ter uma individualidade…enquanto que o romance é todo um trama que tem princípio, meio e fim, e se alonga, e é vasto, um poema pode ser muito curto e pronto, começou e acabou. E como o meu romance é histórico ainda tem a componente de pesquisa, que me exija mais tempo. Quando estou a trabalhar num romance não me sobra mais tempo para outro romance. A poesia continua com Macau e o romance continua com Angola, tenho estado meio dividido. Quando é que o romance deAngola é publicado?

Ele está bastante avançado e queria tê-lo terminado no final do ano passado, mas estou com muita vontade de o terminar para do fim de 2020. Ainda falta algum trabalho. Vive em Almada e escreve em casa. Como é que escrever sobre lugares que lhe dizem tanto e que estão distantes geograficamente? Essa é, um bocado, a minha condição. Acabei por me integrar no quotidiano destas terras de que temos vindo a falar. Uma porque nasci e cresci, e outras porque houve uma integração na minha escrita. Passado algum tempo acabo por me irritar e acabo por escrever quase sempre de longe. Não sei se isso se reflecte na escrita, isso cabe às pessoas que me lêem e que me escutam dizer alguma coisa. Da minha parte, penso que a capacidade do cérebro de reter imagens e situações faz com que a falta desses lugares não anule qualquer manifestação artística. Há sempre o peso da distância, saudade e memórias, e isso acaba por se reflectir de forma positiva na escrita. Comigo acontece isso, volto com alguma frequência a esses meus lugares da escrita, não são lugares que ficaram lá aos quais eu nunca mais voltei. Este ano, em três meses, estive emAngola,Açores e Macau.

“De uma forma geral, concordei com o projecto [da Biblioteca Central]. Achei que era uma boa possibilidade, seria central de nome e fisicamente. Penso que é um sítio bonito e quase equidistante em relação a tudo o que há em Macau.” Foi para Macau em 1985 e foi director da Biblioteca Nacional/ Central de Macau. Quando saiu, em 1998, sentiu que o trabalho estava feito? Fiz parte do grupo que teve como missão reestruturar o IC, as bibliotecas e os arquivos do território. Nessa altura, houve muitas coisas que foram reestruturadas, como as leis, criou-se o depósito legal, nova legislação e regulamentos. A biblioteca passou a ter novas chefias intermédias, criou-se uma rede de bibliotecas, passou a chamar-se biblioteca central e deixou de ser nacional. Houve um grande trabalho de reestruturação de tudo o que eram leis e regras. Depois as coisas iam acontecendo. A biblioteca e o arquivo tinham direcções separadas.

“Quando estou a trabalhar num romance não me sobra mais tempo para outro romance. A poesia continua com Macau e o romance continua com Angola, tenho estado meio dividido.” Por isso é que eu digo que nunca pagarei a Macau aquilo que Macau me deu, porque em termos profissionais nunca teria tido a possibilidade que tive ali de ter tudo, biblioteca escolar, pública, tudo. Foi também consultado aquando do primeiro projecto para a Biblioteca Central. Sim, em 2008, para uma das candidaturas. E agora voltaram a perguntar a minha opinião. De uma forma geral, concordei com o projecto. Achei que era uma boa possibilidade, seria central de nome e fisicamente. Penso que é um sítio bonito e quase equidistante em relação a tudo o que há em Macau. À partida, aquele edifício tem uma fachada interessante que é de preservar, é uma forma de o manter. Mas tudo o que for feito lá dentro essa é outra história. Falemos agora do mercado livreiro em Macau. Publica-se muito sobre o território, mas falta um mercado na verdadeira acepção da palavra? Dou exemplos meus. Publiquei a minha tese de doutoramento em Macau, uma edição do IC, e o livro na Livraria Portuguesa (LP) nunca se encontrou à venda. Se não está à venda na LP, sendo um livro escrito em português, não sei onde poderá estar à venda. Haverá alguma falha, mas não estou a dizer que é da LP ou que é da editora. Que é uma falha grande, é. Nem sequer consigo perceber porque é que isso acontece. Isso também acontece com um dos meus últimos livros, “Rotas Circulares”, que foi escrito logo à partida em português e chinês, que faz parte de uma colecção de poetas de Macau, o livro ficou mais caro por causa da versão numa segunda língua, e continua a não ser vendido em Macau e sei que se fizeram esforços nesse sentido. Pelos vistos, não acontece só comigo. Falei com várias pessoas que publicam e me dizem que há essa dificuldade na promoção, venda e distribuição. Em Portugal, tirando a altura da Feira do Livro, não há mais oportunidades, é difícil encontrar livros sobre Macau. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


4 política

RÓMULO SANTOS

Revolucão O ´ GOVERNO RAIMUNDO DO ROSÁRIO PROMETE GRANDES MUDANÇAS NAS OBRAS PÚBLICAS

secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, prometeu “mudanças notórias” no funcionamento da Direcção de Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) diante dos deputados. O secretário foi ontem a interpelado no Plenário pelos deputados e deixou antever grandes mudanças, também com a nomeação do novo director da DSSOPT. O esclarecimento foi prestado depois de uma intervenção do deputado Mak Soi Kun, que sublinhou a necessidade de haver um dirigente de nomeação definitiva e com responsabilidades bem-definidas, para evitar confusões junto da população e dos sectores que lidam com este departamento. Na resposta, Raimundo do Rosário prometeu mudanças e revelou estar optimista: “O novo director da DSSOPT vai ser anunciado muito em breve. Estou muito optimista que a imagem da DSSOPT vai mudar para melhor”, começou por prometer. “Esperem mais algum tempo para ver e vão notar grandes mudanças. Posso confirmar que dentro do corrente ano vão ver algumas mudanças nas Obras Públicas”, sublinhou. Desde Dezembro do ano passado que Li Canfeng deixou de ser director da DSSOPT. Ontem, Raimundo do Rosário reconheceu que os trabalhos de mudança de Governo, com a tomada de posse

de Ho Iat Seng como Chefe do Executivo, fizeram com não tivesse tido disponibilidade para se concentrar no assunto. Porém, a situação deve mudar nas próximas semanas, a tempo da apresentação das Linhas de Acção Governativa, marcadas para Abril.

GCS

Questionado por Au Kam San, o secretário para os Transportes e Obras Públicas negou sentir vergonha devido ao andamento dos trabalhos de elaboração do Plano Director. “Não estou sentado numa secretária de braços cruzados”, defendeu-se

14.1.2020 terça-feira

SEM VERGONHA

Um dos assuntos que levantou questões dos deputados foi o facto de vários terrenos recuperados pelo Governo não terem sido aproveitados nem terem um objectivo claro. O Executivo justificou este aspecto com duas razões: por um lado, a prioridade passa pela construção de habitação pública na Zona A dos Novos Aterros e na Avenida de Wai Long, que secam recursos para os outros terrenos. Por outro, ainda se aguarda pela conclusão do Plano Director para garantir que os terrenos são desenvolvidos de

“Posso não estar confortável nem satisfeito com o ritmo dos trabalhos. Mas se me perguntarem se tenho vergonha, não tenho. Não estou aqui sentado de braços cruzados sem fazer nada.” RAIMUNDO DO ROSÁRIO SECRETÁRIO PARA OS TRANSPORTES E OBRAS PÚBLICAS

GPDP SULU SOU APONTA A INCAPACIDADE PARA FISCALIZAR ILEGALIDADES

S

ULU Sou questionou o Governo sobre a tecnologia de reconhecimento facial e acusou o Gabinete de Protecção de Dados Pessoais (GPDP) de ser incapaz de fiscalizar eventuais ilegalidades. A declaração foi feita no plenário de ontem, diante de Mui San Meng, Adjunto do Comandante Geral dos Serviços de Polícia Unitários, e de Iao Hin Chit, Coordenador-

-Adjunto do GPDP. O deputado justificou a sua intervenção com a desconfiança dos residentes face ao sistema. “Os cidadãos não acreditam nas autoridades policiais porque não conseguem saber se houve imagens captadas e utilizadas de forma ilegal. Aliás, nem o seu colega ao lado do GPDP [Iao Hin Chit]”, acusou o democrata. “Para os cidadãos, não

é suficiente que se diga que quem não deve não teme”, sublinhou. Já antes o deputado tinha indicado que o facto de as autoridades não terem um mecanismo de fiscalização, o que gera desconfiança: “A justificação da tutela da segurança é muito complicada, justificam-se sempre com a confidencialidade e a protecção dos dados [para não fornecer informações]”, atirou.

Por sua vez, Mui San Meng, dos SPU, recusou a ideia do Governo abdicar da tecnologia: “Este instrumento [reconhecimento facial] pode elevar a taxa de prevenção e o combate ao crime. Entendemos que é legal e não vamos pensar em colocá-lo de lado [...] Se as pessoas não estiverem envolvidas em nenhuma ilegalidade, as imagens são destruídas automaticamente após 60

dias”, afirmou Mui. Porém, frisou que o objectivo é sempre combater o crime: “O sistema de ‘Olhos no Céu’ tem tido sempre como objectivo apoiar a polícia na prevenção e combate à criminalidade, com vista a assegurar a segurança da vida e dos bens dos residentes, ao invés de ser entendido como um sistema que serve para monitorizar a vida da população”, sublinhou.


política 5

terça-feira 14.1.2020

à vista

acordo com as finalidades definidas pelo mega documento. No entanto, o facto do Plano Director ainda não estar concluído valeu críticas ao Governo. Por exemplo, o primeiro esboço ficou completo em 2018, mas o consenso sobre a necessidade do documento é anterior. Por isso, o deputado democrata Au Kam San perguntou a Raimundo do Rosário se sentia vergonha face ao ritmo dos trabalhos: “Eu não sei se os Governantes não sentem vergonha… O Plano Director foi aprovado nos dois mandatos anteriores, mas ainda não está elaborado […] Em 2018 foi apresentado um esboço, mas levam mais de sete anos e ainda não está concluído. Por este andar, nem daqui a dez anos está tudo concluído”, criticou. O deputado explicou depois que o Instituto para os Assuntos Municipais está limitado na construção de espaços de lazer em Seac Pai Van, junto às habitações públicas, porque os terrenos têm como finalidade o desenvolvimento industrial. Na resposta, Rosário negou sentir-se envergonhado e afirmou não estar a dormir no cargo: “Posso não estar confortável nem satisfeito com o ritmo dos trabalhos. Mas se me perguntarem se tenho vergonha, não tenho. Não estou aqui sentado de braços cruzados sem fazer nada”, ripostou. “Não estou a dormir, por isso não sinto vergonha. Tenho feito todos os meus esforços”, acrescentou. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

O deputado Mak Soi Kun, ligado à comunidade de Fujian e vencedor das últimas eleições legislativas, afirmou estar feliz por Raimundo do Rosário regressar ao Plenário como secretário. “Estou feliz por estar aqui a ouvir a sua voz. O secretário actua com pragmatismo e fala de forma honesta”, apontou o legislador, antes da sua primeira intervenção do dia. Além de deputado, Mak Soi Kun é construtor e é o proprietário da empresa encarregue pela construção da 2.ª Fase da nova Prisão de Coloane.

Habitação Pública Zona A arranca com 4 mil fracções

O Governo está a trabalhar na construção de quatro mil fracções para habitação pública na Zona A dos Novos Aterros. Segundo o coordenador para o Gabinete para o Desenvolvimento de Infra-estruturas, Lam Wai Hou, os serviços públicos estão a trabalhar na concepção do projecto e preparação do concurso público de atribuição da obra. Os trabalhos envolvem oito lotes, uma vez que além das fracções habitacionais, o Governo está igualmente a preparar equipamentos e instalações sociais necessários, de forma a evitar os erros verificados no complexo habitacional de Seac Pai Van, como explicou Lam Wai Hou.

Zhen Hwa recusa pagar 11 milhões de patacas por atrasos na construção da prisão

O

Governo e a Companhia de Construção de Obras Portuárias Zhen Hwa estão em tribunal a discutir uma multa de 11 milhões de patacas, devido a atrasos com cerca de 83 dias nas obras da Primeira Fase do Novo Estabelecimento Prisional de Macau. Os trabalhos foram adjudicados em 2010 a troco 113 milhões de patacas e era suposto que as obras fossem concluídas em Fevereiro de 2012, de acordo com o Despacho do Chefe do Executivo n.º 307/2010. No entanto, tal só aconteceu em 2014. O atraso fez com que o caso fosse para tribunal, com o Governo a reclamar compensação no valor de 11 milhões de patacas. A situação foi reconhecida por Raimundo Rosário, ontem na Assembleia Legislativa, que no final comentou o caso, sem mencionar o nome da empresa ou o montante da dívida. Mais tarde complementou a informação: “Em relação à primeira fase da obra do Estabelecimento Prisional de Macau, que são as fundações e os muros, a duração dos trabalhos foi mais longa do que o previsto. Na altura, as Obras Públicas aplicaram uma multa. O adjudicatário tem uma opinião

diferente e há um diferendo”, afirmou. “Não me recordo quando o processo entrou em tribunal, mas é um caso com vários anos. A situação é esta”, acrescentou.

ESGRIMA NA BARRA

Na primeira decisão do processo, que foi directamente tomada pelo Tribunal de Segunda Instância, como acontece no caso de contenciosos administrativo dos titulares de altos cargos políticos, os juízes consideraram que não devia ser cobrada multa à empresa. O colectivo de juízes considerou que apesar de os atrasos reconhecidos por todos que a multa de 11 milhões só poderia ser aplicada, caso os defeitos verificados tivessem mesmo impedido a entrega. Como tal não aconteceu, e como a empresa se mostrou disponível para fazer as correcções necessárias, o tribunal deu razão à Companhia de Construção de Obras Portuárias Zhen Hwa. A primeira decisão foi tomada a 18 Julho de 2019. No entanto, como Raimundo do Rosário indica que o caso ainda decorre nos tribunais, que o Governo recorreu da primeira decisão e que espera agora um veredicto favorável to Tribunal de Última Instância.

Metro Ligeiro Rosário apela à compreensão para avarias O secretário para os Transportes e Obras Públicas pediu ontem a compreensão da população e dos deputados para as avarias que marcaram o primeiro mês de funcionamento do Metro Ligeiro. Raimundo do Rosário justificou que o sistema é novo em Macau e que 80 por cento dos trabalhadores da empresa são residentes, o que implica que também estão a aprender. “Em todo o lado, e Macau não é excepção, quando começamos com um novo sistema certamente que há acertos, ainda por cima tratando-se de uma coisa

totalmente nova. Por isso expliquei aos senhores deputados que quando iniciámos esta operação, e disse aqui na Assembleia, precisámos de recrutar 600 pessoas. As pessoas tiveram um período relativamente curto de formação e 80 por cento são residentes. Toda a gente está a dar o seu melhor”, afirmou já no final da sessão. “Alguns incidentes têm origem na parte mecânica, mas alguns também têm a ver com as pessoas. O que pedi é alguma compreensão popular e da Assembleia, por isso aproveitei o Plenário para o fazer”, acrescentou.

SOFIA MARGARIDA MOTA

Plenário Secretário foi à AL e Mak Soi Kun ficou “feliz”

A prisão no tribunal


6 política

14.1.2020 terça-feira

O

novo porta-voz do Conselho Executivo e secretário para a Administração e Justiça, André Cheong, anunciou ontem que as obras do lado de Macau do posto fronteiriço de Hengqin estão concluídas, assim como a discussão proposta de lei sobre "as normas fundamentais para a aplicação do direito da RAEM” na zona. A proposta, que está pronta para ser entregue à Assembleia Legislativa (AL), poderá entrar em vigor em menos de seis meses, acredita o porta-voz do Conselho Executivo. "O tempo não podemos prever pois está dependente daAL, mas creio que não vai demorar muito tempo. Creio que vai ser antes do final do primeiro semestre", referiu André Cheong. O anúncio surge no seguimento do comité permanente da Assembleia Popular Nacional da China ter delegado poderes ao Governo de Macau para administrar a parte correspondente do território do posto fronteiriço de Hengqin e zonas contíguas, definida pela “planta cadastral”, entretanto já publicada em despacho do Chefe do Executivo, Ho Iat Seng. “A proposta de lei estipula expressamente que a referida planta cadastral delimita as vias da RAEM para entrada ou saída legal da Zona do Posto Fronteiriço da Parte de Macau, estipulando ainda que as zonas contíguas incluem as PUB

ferida proposta de lei por parte da Assembleia Legislativa (AL), o porta-voz do Governo referiu ainda faltarem inspecções técnicas e testes à estrutura.

“O tempo não podemos prever pois está dependente da AL, mas creio que não vai demorar muito tempo. Creio que vai ser antes do final do primeiro semestre.” ANDRÉ CHEONG PORTA-VOZ DO CONSELHO EXECUTIVO

Falta o quase Posto fronteiriço de Hengqin apontado ao primeiro semestre de 2020

respectivas partes da Ponte Flor de Lótus e da ponte de acesso que liga a Universidade de Macau e o Posto Fronteiriço Hengqin (excepto os pilares), bem como o

espaço reservado do Metro Ligeiro de Macau que se estende até ao Posto Fronteiriço Hengqin”, pode ler-se no comunicado oficial que acompanhou o anúncio.

Sobre a ponte de acesso entre a Universidade de Macau e o posto fronteiriço de Hengqin, o Cheong acrescentou ainda que esta ainda não foi construída e que não existe, de momento, calendário para a construção da infra-estrutura.

AFINAR DETALHES

Além do funcionamento do novo posto fronteiriço estar agora dependente da aprovação da re-

"O funcionamento do posto fronteiriço da parte de Macau depende agora da coordenação entre duas partes. A primeira está relacionada com a aplicação do direito da RAEM nesta zona específica (...), segundo o que a China delegou para o exercício de jurisdição na zona do posto fronteiriço. Por outro lado, depende da parte técnica, pois já acabámos as obras e resta a parte dos testes (...), de verificação de todas as instalações e testes de circulação de passageiros", explicou André Cheong. Pedro Arede

info@hojemacau.com.mo


política 7

terça-feira 14.1.2020

A

SANÇÕES NO HORIZONTE

Sublinhando que o novo gabinete tem como principal objectivo “melhorar a utilização

CAPITAIS PÚBLICOS NOVO GABINETE APRESENTA DIRECTIVAS EM FEVEREIRO

Em busca de identidade O âmbito de actuação do novo Gabinete para o Planeamento da Supervisão dos Activos Públicos coordenado por Sónia Chan foi ontem apresentado na Assembleia Legislativa (AL). Após a reunião foram também anunciadas visitas às empresas de capitais públicos perar pela elaboração dos diplomas legais que vão regulamentar a actividade destas empresas de capitais públicos para saber se serão definidas sanções. Quanto às dúvidas levantadas pela comissão acerca da eventual sobreposição de papéis entre o Comissariado da Auditoria e o novo gabinete, o presidente da comissão de acompanhamento afirmou que os dois organismos terão função independentes. “O Comissariado faz um trabalho de supervisão à posteriori e também durante a execução do orçamento e por isso é um trabalho de verificação do cumprimento das normais legais ou não. Já o novo gabinete irá incidir sobretudo sobre os direitos patrimoniais”, esclareceu Mak Soi Kun.

GCS

S competências do Gabinete para o Planeamento da Supervisão dos Activos Públicos anunciado pelo Governo de Ho Iat Seng no dia 20 de Dezembro 2019, foram ontem divulgadas após a primeira reunião entre o novo Gabinete e a comissão de acompanhamento para os assuntos das finanças públicas. Coordenado pela ex-secretária para a Administração e Justiça, Sónia Chan, que marcou presença na reunião, o novo organismo irá, numa primeira fase, proceder à pesquisa de informações de forma a aperfeiçoar os regimes actuais relacionados com três tipos de activos públicos da RAEM. “Este gabinete tem por missão reorganizar e rever as situações e os regimes relacionados com os três tipos de activos públicos da RAEM: bens imóveis pertencidos à RAEM e às entidades autónomas, empresas de capitais públicos e fundos autónomos”, afirmou Sónia Chan após a reunião, através de uma nota publicada, em resposta às questões colocadas pelos jornalistas portugueses. No final do encontro, o presidente da comissão de acompanhamento, Mak Soi Kun, anunciou também que o novo Gabinete vai criar directivas destinadas ao funcionamento das empresas de capitais públicos, anunciadas no próximo mês. Estas medidas irão contemplar aspectos como “o trabalho feito pelos representantes do Governo no conselho de administração destas empresas” e a fiscalização da concretização, ou não, de objectivos. Além disso, da fase inicial dos trabalhos farão também parte visitas aos fundos autónomos e às empresas de capitais públicos. "Neste momento, estão a ser elaboradas as directivas e prevê-se a sua divulgação em Fevereiro. O Gabinete também vai efectuar visitas aos fundos autónomos e às empresas de capitais públicos para se inteirar da situação dessas entidades", revelou Mak Soi Kun. Acerca das directivas que estão a ser preparadas, oficialmente designadas por “Instruções para a divulgação pública de informações por empresas de capitais públicos”, Sónia Chan detalhou ainda que, “serão aplicadas às empresas de capitais públicos em que a RAEM ou as outras pessoas colectivas de direito público da RAEM detêm, directa ou indirectamente, e cumulativamente, participações financeiras superiores a 50 por cento”.

Pedro Arede

info@hojemacau.com.mo

PUB

Aviso de pedido para junção de restos mortais do erário público”, Mak Soi Kun esclareceu ainda que o organismo irá permitir uma fiscalização mais eficaz dos activos públicos pois visa “aferir se os investimentos feitos

“Se o Chefe do Executivo andar de Mercedes, não faz sentido outros representantes do Governo circularem num veículo de categoria superior.” MAK SOI KUN DEPUTADO

Economia Secretário espera bom desenvolvimento para mercado de títulos Lei Wai Nong, secretário para a Economia e Finanças, disse ontem que “o processo de desenvolvimento do mercado de títulos em Macau partiu do zero e começa agora a avançar para o bom desempenho”. Citado por um comunicado oficial, o secretário adiantou também que o Governo “vai

proceder às tarefas relacionadas com a legislação e regulamentos, bem como à supervisão do mercado de títulos de Macau, para promover a sua maturidade e aperfeiçoamento”. Estas declarações foram proferidas no âmbito da cerimónia de assinatura do memorando de cooperação entre a

companhia Transacção de Bens Financeiros de Chongwa (Macau), S.A. e a Bolsa de Valores do Luxemburgo. Lei Wai Nong disse ainda que, no que diz respeito ao estabelecimento de uma bolsa de valores em Macau, o caso ainda está a ser alvo de estudado, estando a ser elaborado um relatório.

permitem alcançar os objectivos inicialmente propostos”. “Não se trata apenas de uma questão de legalidade, mas sim de razoabilidade. Cabe a este gabinete alertar o Governo para casos em que não se justifica determinado investimento (…), como um espaço pouco apropriado ou luxo desnecessário”, explicou Mak Soi Kun. “Se o Chefe do Executivo andar de Mercedes, não faz sentido outros representantes do Governo circularem num veículo de categoria superior”, exemplificou o presidente da comissão. Já sobre eventuais incumprimentos das regras, Mak Soi Kun disse ser preciso “es-

Conselho Executivo André Cheong estreia-se como porta-voz Por ocasião da conferência de imprensa realizada a propósito da abertura da secção de Macau do Posto Fronteiriço de Hengqin, André Cheong, secretário para a Administração e Justiça, falou ontem pela primeira vez na qualidade de porta-voz do Conselho Executivo (CE). É a primeira vez desde 1999 que um membro do Governo é nomeado porta-voz do órgão de consulta do Chefe do Executivo. André Cheong mostrou-se preparado e acredita que nada será diferente por acumular os

dois cargos. “O funcionamento do CE é regido pelo regulamento interno (…) e o meu papel é facilitar a comunicação entre o Governo e a comunicação social e passar as informações do Governo, dando o melhor esclarecimento”, explicou André Cheong. “Sendo também secretário, creio que isso vai facilitar o meu trabalho ao nível da comunicação, pelo facto de ter mais informações e conhecimentos sobre o Governo", acrescentou o novo porta-voz do Conselho Executivo.

Eu, Lau Oi Ching (劉愛貞), nos termos da alínea 5) do n.º 1 e dos n.ºs 2 a 4 do artigo 26.º -A do Regulamento Administrativo n.º 37/2003, alterado pelo Regulamento Administrativo n.º 22/2019, apresento um pedido para a junção das cinzas de Maria Yu Pedro (余麗明) na sepultura n.º SM-3-0024 do Cemitério São Miguel Arcanjo, cujos restos mortais se pretende juntar, era cônjuge do falecido já ali inumado, o defunto Belmiro Jose Pedro (石 美路). Venho por este meio informar as pessoas indicadas no n.º 1 do artigo 26.º -A do Regulamento Administrativo acima referido de que podem apresentar objecção por escrito ao IAM no prazo de 30 dias, contados a partir da data da publicação do aviso. A objecção escrita deve ser entregue no escritório dos assuntos relativos a cemitérios da Divisão de Higiene Ambiental do IAM, sito no 3.º andar do Edifício Comercial Nam Tung, na Avenida da Praia Grande n.º 517. Se o IAM não tiver recebido objecção por escrito no prazo determinado, o pedido de junção pode ser autorizado. Aos 14 de Janeiro de 2020 Lau Oi Ching


8 sociedade

14.1.2020 terça-feira

TRABALHO SHUN TAK ANUNCIA CORTES DE 15 A 8 POR CENTO NOS SALÁRIOS

Quem está mal muda-se

A empresa liderada por Pansy Ho avisou os trabalhadores que os seus salários vão ter reduções de 15 a 8 por cento. Os empregados foram ainda avisados que se não aceitarem as alterações serão despedidos

A

empresa Shun Tak, responsável pelos serviços de ferries entre Macau e Hong Kong, anunciou um corte salarial para todos os trabalhadores que recebam um salário superior a 10 mil dólares de Hong Kong por mês. A informação foi avançada ontem pela empresa de Hong Kong. Os trabalhadores que não aceitem por escrito a redução salarial serão automaticamente despedidos. Os novos salários entram em vigor já no próximo mês. Quem recebe uma verba mensal entre 10 mil dólares de Hong Kong e os 30 mil dólares vai ter um corte de oito por cento. No caso dos funcionários que recebem mais de 30 mil dólares de Hong Kong, mas menos de 70 mil dólares de Hong Kong o ordenado é diminuído em 10 por cento. Finalmente, todos os salários superiores a 70 mil dólares

A grande joia da coroa da Shun Tak é a participação de 11,5 por cento na Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), que por seu turno controla 54,1 por cento na concessionária do jogo Sociedade de Jogos de Macau

de Hong Kong vão ter um corte que chega aos 12 por cento. A medida anunciada pela empresa liderada por Pansy Ho, filha

de Stanley Ho, surge numa altura em que há um abrandamento do crescimento económico no Interior da China, uma redução do

número de pessoas a deslocaram-se de ferry entre Macau e Hong Kong, motivado pela abertura da nova ponte entre as RAEs, e um

Conexão além-fronteiras CTM assina memorando com Angola Cables

A

C o m p a n h i a de Telecomunicações de Macau (CTM) assinou um memorando de entendimento com a multinacional de telecomunicações Angola Cables para aumentar as oportunidades de negócios entre Macau, China continental e países lusófonos africanos e Brasil. Macau e as regiões vizinhas na área da Grande Baía têm condições e oportunidades para serem o terminal do sistema de cabos internacionais e a localização ideal

para receber centros de dados e promover um o ecossistema digital da região, indicou a CTM, líder no fornecimento de telecomunicações em comunicado. A parceria, assinada em Dezembro, pretende estabelecer os termos, promover estratégias e oportunidades para ligar a área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau a África e às Américas, em particular aos países de língua portuguesa nos dois continentes. Para o presidente do conselho de

administração da CTM, Vandy Poon, a parceria reflecte o posicionamento da empresa de participar activamente na concretização do papel de Macau na Grande Baía e na iniciativa chinesa “uma faixa, uma rota”. “A CTM acredita que o crescente nível de integração na Grande Baía, Macau desempenhará um papel significativo na promoção da cooperação comercial entre empresas chinesas e países africanos de língua portuguesa e das Américas (Brasil)” e a “exploração conjunta de

novas oportunidades de investimento e de negócios e mercados”, disse, de acordo com o mesmo comunicado.

PARA LÁ DO FOSSO

Já o responsável da Angola Cables, António Nunes, considerou que a “cooperação entre as partes pode ser” fundamental para “ultrapassar o fosso existente entre o continente e o resto do mundo”. “A expansão da conectividade em todo o hemisfério sul tem o potencial para desblo-

quear muitas vantagens e benefícios trazidos por um acesso digital seguro”, desde a promoção do comércio externo a um desenvolvimento económico robusto, indicou. De acordo com a mesma nota da CTM, a Angola Cables tem uma rede de cabos submarinos que liga os continentes na região atlântica, com “elevada disponibilidade e boa qualidade”, detém centros de dados em Angola e no Brasil e está a promover o Atlântico sul como ‘hub’ digital.

contexto da instabilidade política na RAEHK, que se prolonga há mais de seis meses. A Shun Tak tem actividade em Macau, Hong Kong e no Interior da China e foi fundada em 1972 por Stanley Ho, no âmbito do império do Rei do Jogo, e em 1973 entrou na Bolsa de Hong Kong. No entanto, com as guerras da sucessão, depois dos problemas de saúde do patriarca, a empresa passou a ser controlada pelas filhas da segunda mulher de Stanley, com Pansy Ho na linha da frente. Maisy e Daisy, irmãs de Pansy, fazem igualmente parte da direcção da empresa. Além do serviço de ferries, a Shun Tak é um dos grandes agentes no mercado imobiliário de Macau, Interior da China e Hong Kong. Recentemente, a empresa entrou ainda no mercado da Cidade-Estado Singapura. No entanto, a grande joia da coroa da Shun Tak é a participação de 11,5 por cento na Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM), que por seu turno controla 54,1 por cento na concessionária do jogo Sociedade de Jogos de Macau. Ao nível dos investimentos na hotelaria, a empresa liderada por Pansy Ho controla os hotéis em Mandarim Oriental, na Península de Macau, e Grand Coloane Resort, em Coloane junto à praia de Hac Sá. João Santos Filipe

Joaof@hojemacau.com.mo

Jogo MGM anuncia pagamento de bónus aos funcionários

A MGM será a quarta operadora de jogo a atribuir bónus salarial aos seus funcionários. De acordo com um comunicado, o bónus atinge todo o pessoal que não está ligado a funções de gestão, representando mais de 90 por cento da empresa. O bónus será equivalente a um mês de salário e será pago em duas fases, uma em meados deste mês e outra em Fevereiro. Grant Bowie, CEO e director-executivo da MGM China, disse que este pagamento adicional constitui “uma apreciação e reconhecimento da nossa parte pelo trabalho duro desempenhado pelos membros da nossa equipa no ano passado”. “Vamos continuar a investir no desenvolvimento dos nossos funcionários e fazer da MGM o local ideal para que os locais possam crescer e desenvolver as suas carreiras. O ano de 2020 representa um novo começo, vamos dar as boas-vindas a novos desafios e oportunidades para Macau com uma mentalidade inovadora”, disse ainda o empresário.


sociedade 9

terça-feira 14.1.2020

TIAGO ALCÂNTARA

Branqueamento Transações suspeitas caem 20,86 por cento

As autoridades de Macau registaram, no ano passado, 2.941 participações de transações suspeitas de branqueamento de capitais e/ ou de financiamento do terrorismo, menos 20,86 por cento do que no ano anterior. De acordo com dados publicados ontem pelo Gabinete de Informação Financeira (GIF), no ano passado foram registadas menos 775 participações do que em 2018, quando se registaram 3.716. O jogo foi, mais uma vez, a actividade que deu origem a mais denúncias, 1.913, ou 65,05 por cento do total, seguindo-se instituições financeiras e companhias de seguros, com 880. Outras instituições representaram 5,03 por cento das denúncias (148), indicou o GIF. Em 2018, o jogo representava 56 por cento do total das denúncias. Os sectores referenciados, como os casinos, são obrigados a comunicar às autoridades qualquer transação igual ou superior a 500 mil patacas.

AMCM Quebra em empréstimos para habitação e comerciais

Dados oficiais da Autoridade Monetária e Cambial de Macau (AMCM), ontem divulgados, relativos ao último mês de Novembro revelam que “os novos empréstimos hipotecários para habitação e os empréstimos comerciais para actividades imobiliárias aprovados diminuíram em relação ao mês anterior”. No que diz respeito aos empréstimos à habitação, a quebra foi de 2,9 por cento, totalizando 3,42 mil milhões de patacas. Já os empréstimos com fins comerciais diminuíram 63,4 por cento “desde uma base relativamente alta do mês anterior” e atingiram as 2,36 mil milhões de patacas. Apesar de a quebra nos empréstimos, a verdade é que o saldo bruto dos mesmos cresceu. No caso dos empréstimos à habitação, houve um aumento de 0,7 por cento face a Outubro de 2019, “correspondendo a uma subida de oito por cento quando comparado com o período homólogo do ano transacto”. No caso dos empréstimos comerciais, houve uma quebra de 0,2 por cento no saldo bruto face a Outubro.

TAXA TURÍSTICA ANALISTAS DEFENDEM ESTRATÉGIA CLARA POR PARTE DO GOVERNO

Não bastam números

Glenn Mccartney, académico na área do jogo, e o economista Albano Martins defendem que o Governo deve ser claro no que diz respeito à taxa turística, com um conjunto de medidas viáveis. O professor da Universidade de Macau diz que há mais formas de controlar o número de turistas

A

Direcção dos Serviços de Turismo (DST) publicou na passada semana os resultados de um questionário feito a residentes, turistas e operadores de turismo quanto à possibilidade de se cobrar uma taxa turística. Os resultados revelam que a maior parte dos operadores de turismo está contra esta medida, enquanto os residentes estão esmagadoramente a favor. Analistas ouvidos pelo HM defendem que o Governo deve ser claro na estratégia que pretende com a criação de uma taxa deste género. “Antes de avançar com tal medida, o Governo deve pensar bem primeiro”, disse o economista Albano Martins. “Resolver o que pretende com uma taxa turística é o mesmo que tentar vazar o oceano com um copo. Se a ideia é retirar visitantes, então essa política deve ser feita com o Governo Central. Se a ideia é tirar visitantes de certas áreas, a melhor maneira de fazer isso é tornar outras

áreas atractivas, trabalhá-las e vender essa ideia aos operadores”, adiantou. Albano Martins defendeu também que “tudo o que seja uma intervenção bruta e feia, uniforme, é sinal de falta de ideias”. Já Glenn Mccartney, professor da Universidade de Macau (UM) com especialização em turismo, assumiu ao HM que os resultados do inquérito promovido pela DST “não o surpreendem”. “Tudo depende das perguntas que são feitas. Se me perguntam, como residente, se os turistas devem pagar uma taxa eu vou dizer que sim, porque isso tem impacto no meu dia-a-dia. As questões deveriam ser mais abrangentes, ligadas ao tipo de consumo e aumento de rendas. Só assim se

obtém o panorama do turismo em Macau”, disse.

APOSTAR NA MARCA

Glenn Mccartney, que o ano passado publicou um estudo onde defende que aplicar a taxa turística em Macau é um erro, disse ao HM que o Governo deveria apostar noutras formas para gerir o número de turistas, tal como desenvolver a marca Macau. “A taxa turística é apenas uma das medidas que pode ser utilizada para controlar o número de visitantes. Não temos uma estratégia de desenvolvimento da marca da cidade, temos múltiplos eventos a acontecer, mas não temos uma imagem única do que é Macau. A

“A taxa turística é apenas uma das medidas que pode ser utilizada para controlar o número de visitantes. Temos múltiplos eventos a acontecer, mas não temos uma imagem única do que é Macau.” GLENN MCCARTNEY ACADÉMICO

marca Cotai Strip é um bom exemplo de gestão de marca”, frisou. O professor da UM assegura que o pagamento de uma taxa turística será mau para o sector das convenções e exposições. “O Governo deveria anunciar já algumas medidas ou políticas, não é claro porque é que se quer criar uma taxa turística em Macau. Se tiver uma conferência em Macau com 1000 participantes, são 1000 patacas que pago de taxa, então posso escolher outro destino. [Esta medida] terá consequências e impacto”, frisou. Glenn Mccartney disse ainda que o dinheiro cobrado com a taxa turística deveria ser devidamente investido. “Como operador, acharia errado pagar qualquer tipo de taxa. Os grandes apostadores dos casinos não vão pagar, talvez os casinos paguem, mas aí a indústria pode alegar que já paga muitos impostos. Tudo depende das medidas que o Executivo quer implementar”, concluiu. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


10 eventos

14.1.2020 terça-feira

Um olhar que diz

FESTIVAL FRINGE TEATRO FÍSICO E PERFORMANCE DE RUA MARCAM CARTAZ NO FIM-DE-SEMAN

Chama-se “LOOK@YOU” e é o espectáculo que marca a agenda deste fim-de-semana bido pelo grupo ArtFusion Macau, este é um espectáculo que “visa uma fusão entre pe liberdade e arte”, explica Laura Nyogeri, mentora do grupo de espectador a actor”, acrescentou Laura Nyogeri.

VER PARA CRER

Aideia por detrás do “LOOK@ YOU” é também percepcionar a cidade que nos rodeia. “Através da exposição e observação é possível aprendermos mais sobre a nossa cultura e sobre as culturas que nos rodeiam. Assim é Macau, um lugar onde residem diversas nacionalidades, com tradições, costumes e identidades diferentes. Mas sofreremos nós um processo de aculturação automática, ou temos nós também um papel determinante nesse processo

S

ÁBADO e domingo são os dias marcados no calendário do Festival Fringe para a estreia do espectáculo “LOOK@YOU - Olha e vê”, promovido pelos grupos locaisArtFusion Macau e pela Macau Talent Academy Association. A performance de rua, que traz também ao público a experiência do teatro físico e de música ao vivo, acontece no sábado às 15h na Praça Jorge Álvares, com a duração de duas horas. Nesse dia, a performance acontece também nas Ruínas de

São Paulo às 11h. No domingo, o público poderá assistir ao espectáculo apenas junto ao icónico monumento, também às 11h. A performance inclui ainda música assegurada com DJ Raise, de Portugal, que “irá conceber um conjunto de sons multiculturais que envolvem diversos continentes e que se misturam numa verdadeira simbiose cultural”, explica Laura Nyogeri, mentora do grupo ArtFusion Macau. No que diz respeito à componente musical do espectá-

culo, será feita uma “viagem que parte da contemporaneidade dos sons europeus, do Fado português e das músicas de intervenção, das fusões e remisturas sonoras que espelham um verdadeiro conceito de músicas do mundo”, adian-

ta a artista num comunicado enviado ao HM. O espectáculo em si visa “uma fusão entre pessoas, cultura, criatividade, liberdade e arte”. “O LOOK@YOU é uma espécie de instalação de arte

“Nada é exactamente o que parece, exigindo que o espectador observe atentamente onde o mundo real começa e termina. O público é convidado a ver e sentir com os ‘olhos’.” LAURA NYOGERI ARTFUSION MACAU

em movimento”, uma vez que tudo acontece “através do movimento corporal criativo, da música e de um espaço artístico para olhar”. “Nada é exactamente o que parece, exigindo que o espectador observe atentamente onde o mundo real começa e termina. O público é convidado a ver e sentir com os ‘olhos’. Este projecto tem como objectivo criar uma experiência única, onde o desfile de teatro físico inclui uma verdadeira interacção com o público, tornando-o parte do próprio espectáculo, passando


eventos 11

terça-feira 14.1.2020

z tudo

NA

a do Festival Fringe. Conceessoas, cultura, criatividade, Multi-A-Cultural que define a RAEM?”, questiona Laura Nyogeri. O projecto que estes dois grupos levam ao Fringe pretende que o público consiga ver além daquilo que os olhos revelam à primeira vista. “Pretende-se uma exploração profunda, fazendo sentir, para que possamos atingir o público no coração, para que este uso os ‘olhos’ para sentir e que possa ouvir com o coração, e também para que abuse das emoções para apreciar as performances apresentadas.” “Se a sociedade actual está mergulhada num indivi-

dualismo, queremos fazê-la olhar mais para os outros, para o seu redor, o mundo. E, ao mesmo tempo, olhamos demais os outros, para a sociedade, preocupando-nos diariamente com o que pensam. Subitamente será que nos envolvemos num esquecimento em relação a olhar para nós? É aqui que nasce a inspiração e motivação na criação de LOOK@YOU”, conclui Laura Nyogeri. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

A

produção espanhola “Klaus”, dos realizadores Sergio Pablos e Carlos Martínez López, foi nomeada para o Óscar de Melhor Longa-metragem de Animação, contando com os portugueses Sérgio Martins e Edgar Martins na equipa. “Klaus: A Origem do Pai Natal”, do espanhol Sergio Pablos, cocriador dos filmes “Gru – o Maldisposto”, apresenta, de acordo com a Netflix, “um estilo de animação único que combina técnicas tradicionais de desenho 2D com a tecnologia mais avançada”. O filme, disponível naquela plataforma de ‘streaming’ desde 15 de Novembro, foi realizado na íntegra nos SPA Studios, em Madrid, com uma equipa que junta pessoas de mais de 20 países, incluindo dois portugueses: Sérgio Martins, ‘Animation Supervisor’, e Edgar Martins, ‘Story Department Supervisor’. Já antes, “Klaus”, primeiro filme de animação da Netflix, havia sido nomeado para os prémios Annie, considerados os “Óscares do cinema de animação”. O filme conta com um elenco composto por nomes como Jason Schwartzman, J.K. Simmons, Rashida Jones, Joan Cusack, entre outros.

POR OUTRO LADO

O filme “Tio Tomás, A Contabilidade dos Dias”, da realizadora portuguesa Regina Pessoa, ficou ontem de fora dos cinco nomeados aos Óscares na categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação, do qual era um dos finalistas. O filme “Joker”, de Todd Phillips, lidera as nomeações aos Óscares, com 11 no total, seguindo-se, com 10 cada, “O Irlandês”, de Martin Scorsese, “1917”, de Sam Mendes, e “Era Uma Vez… Em Hollywood”, de Quentin Tarantino. A lista dos nove candidatos ao prémio de Melhor Filme é composta por “Le Mans’66: O Duelo”, de James Mangold, “O Irlandês”, “Jojo Rabbit”, de Taika Waititi, “Joker”, “Mulherzinhas”, de Greta Gerwig, “Marriage Story”, de Noah Baumbach, “1917”, de Sam Mendes, “Era uma vez… em Hollywood” e “Parasitas”. A melhor realização, para além de Joon-Ho, é completada por Martin Scorsese, Todd Phillips, Sam Mendes e Quentin Tarantino.

A lista final

Presença portuguesa nos Óscares com nomeação de “Klaus” nas longas de Animação

Já no domínio da categoria de melhor Filme Internacional (antigamente designado Melhor Filme Estrangeiro), os nomeados foram o polaco “Corpus Christi – A Redenção”, de Jan Komasa, o norte-macedónio “Honeyland”, o francês “Os Miseráveis”, de PUB

Ladj Ly, “Dor e Glória”, do espanhol Pedro Almodóvar, e “Parasitas”. Para melhor actor principal, foram nomeados Antonio Banderas (“Dor e Glória”), Joaquin Phoenix (“Joker”), Leonardo DiCaprio (“Era Uma Vez… em

Hollywood”), Adam Driver (“Marriage Story”) e Jonathan Pryce (“Dois Papas”). A lista das melhores actrizes principais é constituída por Cynthia Erivo (“Harriet”), Scarlett Johansson (“Marriage Story”), Saoirse Ronan (“Mulherzinhas”), Charlize Theron (“Bombshell – O Escândalo”) e Renée Zellweger (“Judy”). A cerimónia dos Óscares acontecerá a 9 de Fevereiro em Los Angeles, Califórnia, e não terá um apresentador anfitrião, repetindo-se o que aconteceu em 2019.


12 china

14.1.2020 terça-feira

A vanguarda em redes de quinta geração e os avanços na área da inteligência artificial estão a mudar o dia-a-dia das cidades e das pessoas, levantando a autênticas revoluções de costumes, mobilidade compartilhada e desaparecimento do dinheiro físico. Pelo caminho, também a privacidade entra em vias de extinção

C

HANG não atravessa a rua fora da passadeira desde que, da última vez, recebeu imediatamente uma multa para pagar no telemóvel; Yuan conduz com cautela, sabendo que uma infracção pode-lhe deduzir prontamente pontos na carta. A liderança em redes de quinta geração, reconhecimento facial, Inteligência Artificial ou 'big data' [análise de dados massiva] colocou a China na vanguarda da transformação digital, permitindo a criação de cidades inteligentes, sistemas de mobilidade compartilhada ou o desaparecimento do dinheiro físico. Críticos alertam, no entanto, para a entrada da sociedade chinesa numa 'era pós-privacidade', que suscita novas questões éticas e legais, à medida que a conveniência gerada pelos avanços tecnológicos acarreta custos para a privacidade e ameaças para a segurança. "Hollywood devia fazer um filme sobre isto", comenta à agência Lusa um mate-

TECNOLOGIA CHINA NA ‘ERA PÓS-PRIVACIDADE’ ABRE “CAIXA DE PANDORA”

O futuro está aqui

PREÇO A PAGAR

mático indiano a residir nos Estados Unidos, e especialista em 'big data', na sua primeira visita à China. "A quantidade de dados acumulados e a falta de regulação criaram aqui um mundo novo", observa. Tom Van Dillen, gestor em Pequim da consultora Greenkern, explica assim a rápida implementação das novas tecnologias no país asiático: "Quanto mais privacidade estás disposto a perder, mais conveniente a tua vida se torna". "O que realmente me impressiona é que, a necessidade por conveniência tornou-se uma parte tão elementar de como as pessoas entendem a liberdade, que estão dispostas a sacrificar a sua própria privacidade", explica. Michael Zakkour, vice-presidente da consultora Asia Market

Strategy, considera à Lusa tratar-se de um fenómeno global e não exclusivo da China: "moral, ética e legalmente, as sociedades não acompanharam as implicações

“A promoção arbitrária desta tecnologia (...) abrirá a caixa de Pandora. O preço a pagar não será apenas a nossa privacidade, mas também a própria segurança.” LAO DONGYAN PROFESSOR DE DIREITO NA UNIVERSIDADE TSINGHUA

da transformação digital para a existência humana". Mas o Governo chinês tem utilizado os novos recursos tecnológicos para aprimorar o seu caráter totalitário e reforçar os instrumentos de controlo da polícia chinesa, que detém já amplos poderes para conduzir interrogatórios e fazer detenções. Cerca de 200 milhões de câmaras de vigilância foram, nos últimos anos, instaladas nas principais cidades do país, segundo dados oficiais. Muitas estão dotadas de reconhecimento facial, que é cada vez mais complementado com a instalação nas ruas, bairros ou acesso a edifícios residenciais, de colectores de números internacionais do subscritor móvel (IMSI, na sigla em inglês) e os números

OMS SURTO DE DOENÇA RESPIRATÓRIA NA CHINA NÃO SE ALASTROU

A

Organização Mundial de Saúde (OMS) identificou a origem de uma doença respiratória que matou uma pessoa e infectou outras 40 na China num mercado de mariscos da cidade de Wuhan, mas ressalvou que a doença não se alastrou. A OMS disse que o surto não se alastrou

de série electrónicos (ESM) dos telemóveis - cada dispositivo tem os seus próprios números -, permitindo associar o rosto ao telemóvel de quem vai passando. "As pessoas passam e deixam uma sombra; o telefone passa e deixa um número. O sistema conecta os dois", lê-se numa brochura de uma empresa chinesa que desenvolve aquele tipo de sistema de vigilância para esquadras de polícia locais.

para além do mercado de mariscos situado nos subúrbios de Wuhan, cidade do centro da China que funciona como um importante centro de transporte doméstico e internacional. O mercado foi encerrado e não houve casos detectados em outras partes da China ou fora do país, deta-

lhou a organização. "As evidências sugerem que o surto está associado a exposições a um mercado de mariscos em Wuhan", informou a OMS, acrescentando que o mercado foi encerrado no início do mês. "Não há, nesta fase, registos de infecção entre os profissionais de saúde ou evidências claras de

transmissão entre seres humanos", disse. O surto alimentou receios sobre uma potencial epidemia, depois de uma investigação ter identificado a doença como um novo tipo de coronavírus, uma espécie de vírus que causam infecções respiratórias em seres humanos e animais

e são transmitidos através da tosse, espirro ou contacto físico. Entre as 41 pessoas infectadas com a nova pneumonia viral, um homem de 61 anos de idade morreu na semana passada. Sete outras estão em estado crítico, detalharam as autoridades de saúde de Wuhan.

No entanto, numa altura em que a privacidade e uso de dados dos utilizadores são alvo de debate político e legislação no Ocidente, sobretudo após escândalos como os do uso de dados de utilizadores da rede social Facebook pela empresa Cambridge Analytica nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, também na China começam a surgir sinais de consciencialização, sobretudo quanto à segurança dos dados - dados pessoais são frequentemente vendidos a grupos que levam a cabo esquemas fraudulentos por telefone. Num caso recentemente noticiado pela imprensa chinesa, Guo Bing, professor de Direito na Universidade de Ciência e Tecnologia da província de Zhejiang, na costa leste do país, apresentou queixa contra um zoológico local que exigia aos visitantes que se submetessem a reconhecimento facial. Guo argumentou que o vazamento ou uso fraudulento de dados pessoais "pode facilmente comprometer a segurança e a propriedade dos consumidores". Os comentários sobre o caso acumularam mais de 100 milhões de visualizações na rede social Weibo, o Twitter chinês, com muitos internautas a pedirem a proibição total da recolha de dados biométricos. Num artigo recente, Lao Dongyan, também professor de Direito na prestigiada Universidade Tsinghua, em Pequim, descreveu mesmo o reconhecimento facial como "um pacto com o diabo". "A promoção arbitrária desta tecnologia (...) abrirá a caixa de Pandora", comentou. "O preço a pagar não será apenas a nossa privacidade, mas também a própria segurança", concluiu.


região 13

terça-feira 14.1.2020

Uma explosão de lava foi ontem registada num vulcão nas Filipinas, após uma súbita erupção de cinzas e vapores que forçaram os moradores a fugir e os serviços públicos, escolas e aeroporto de Manila a fechar

A

erupção do vulcão Taal, que começou no domingo, provocou nuvens de cinzas que atingiram a capital, Manila, a cerca de 100 quilómetros de distância, obrigando ao encerramento do principal aeroporto do país, com mais de 240 voos internacionais e domésticos cancelados. Um aeroporto alternativo, a norte de Manila, no porto de Clark, permanece aberto, mas as autoridades admitiram que também possa ser encerrado, caso a queda das cinzas coloque em causa a segurança dos voos, de acordo com a Autoridade de Aviação Civil das Filipinas. A agência de resposta a desastres do Governo informou que cerca de oito mil moradores foram deslocados para pelo menos 38 centros de acolhimento na província de Batangas e nas proximidades da província de Cavite, mas as autoridades disseram esperar que o número aumente, com centenas de milhares a serem retiradas dos locais de risco. Alguns moradores não puderam sair de aldeias cobertas de cinzas devido à falta de transportes e pouca visibilidade, enquanto outros se recusaram a abandonar os locais. "Temos um problema: o povo está em pânico devido

Wilson Maralit, autarca de Balete “Temos um problema: o povo está em pânico devido ao vulcão porque quer salvar o sustento, porcos e rebanhos de vacas. Estamos a tentar impedi-los de regressar e avisámos que o vulcão pode explodir novamente a qualquer momento e atingi-los.”

FILIPINAS ERUPÇÃO FECHA ESCOLAS, SERVIÇOS PÚBLICOS E AEROPORTO

O Taal vulcão ao vulcão porque quer salvar o sustento, porcos e rebanhos de vacas", afirmou o autarca da cidade de Balete, Wilson Maralit, à rádio DZMM. "Estamos a tentar impedi-los de regressar e avisámos que o vulcão pode explodir novamente a qualquer momento e atingi-los", acrescentou.

UM ENTRE MUITOS

Maralit, cuja cidade fica ao longo da costa do lago Taal, em torno do vulcão em erupção, apelou para o envio de tropas e polícias adicionais para

impedir que moradores voltem às aldeias costeiras, zonas de alto risco. Depois de meses de inquietação, o Taal voltou subitamente a dar sinais de vida no domingo, lançando vapor, cinzas e pedras a uma distância de 15 quilómetros, segundo o Instituto de Vulcanologia e Sismologia filipino. A agência governamental de monitorização de vulcões elevou o perigo para o nível 4, indicando "uma erupção perigosa iminente". Apesar da explosão de lava, o vapor e a queda de cinzas diminuiu

ontem. Alguns moradores começaram a retirar os poucos centímetros de cinzas que cobriam casas e carros em Tagaytay, uma popular cidade turística numa cordilheira com vista para o pitoresco vulcão. Geralmente movimentada, pelo tráfego e turistas, muitos dos restaurantes e cafetarias de Tagaytay estavam fechados, e a estrada principal coberta de lama vulcânica. O instituto de vulcanologia lembrou ao público que a pequena ilha onde fica o vulcão é uma "zona de perigo permanente", embora as

aldeias de pescadores existam ali há anos. As autoridades aconselharam os moradores a permanecerem em ambientes fechados e a usarem máscaras e óculos de proteção ao ar livre. Os serviços públicos e as aulas nas escolas de várias cidades foram suspensos, inclusive em Manila, para evitar riscos à saúde causados pelas cinzas. Um dos menores vulcões do mundo, o Taal está entre as duas dúzias de vulcões activos no arquipélago das Filipinas, situado ao longo do chamado "Anel de Fogo" do Pacífico, uma região sismicamente activa na qual se registam frequentes terramotos e erupções vulcânicas. Cerca de 20 tufões e outras grandes tempestades também atingem as Filipinas todos os anos, tornando-o num dos países mais propensos a desastres do mundo.

COMÉRCIO VIETNAME PEDE A TIMOR-LESTE PARA RATIFICAR ACORDO

O

ministro dos Negócios Estrangeiros do Vietname pediu ao seu homólogo de Timor-Leste a ratificação do acordo de comércio livre entre os dois países, assinado em 2013. Segundo a agência noticiosa estatal vietnamita VNA, Pham Bình Minh, que é também vice-primeiro ministro do Vietname,

defendeu que a ratificação do acordo iria promover o comércio entre os dois países. O diplomata encontrou-se em Nova Iorque, na sexta-feira, com o ministro timorense dos Negócios Estrangeiros, Dionísio Babo Soares, à margem de uma reunião do Conselho de Segurança da Organização das Nações

Unidas (ONU). Durante o encontro, Dionísio Babo Soares encorajou as empresas vietnamitas a apostarem no mercado timorense. O diplomata deu como exemplo o grupo estatal de telecomunicações Viettel Group, que detém a Telemor, uma das três operadoras de telecomunicações a operar em Timor.

Segundo a VNA, o ministro timorense disse ainda contar com o apoio do Vietname na adesão de Timor-Leste à Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), um processo que se arrasta desde 2012. Pham Bình Minh teve ainda um almoço com o secretário-geral da ONU,

António Guterres. De acordo com a VNA, o português sublinhou que a ONU apoia a resolução, de forma pacífica e com base na lei internacional, das disputas territoriais no mar do Sul da China. Pequim reivindica quase todo o mar do Sul da China, apesar das reivindicações do Vietname,

Filipinas, Malásia e Brunei. Em 2016, o Tribunal Permanente de Arbitragem decidiu a favor das Filipinas e contra a China no caso de disputas territoriais no mar do Sul da China, mas Pequim tem sempre recusado a mediação.


14

h

14.1.2020 terça-feira

Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos

Início da missionação jesuíta na China

E

M Zhaoqing, capital da província de Liangguang, a primeira Missão católica jesuíta na China foi fundada a 14 de Setembro de 1583 pelos missionários italianos do Padroado Português, Matteo Ricci e Michele Ruggieri, que em 1582 tivera autorização das autoridades chinesas para aí se estabelecer. Não vinham a trajar as lobas da Sociedade de Jesus (S.J.) mas as túnicas de monges budistas, pois pretendiam ganhar o respeito e a atenção da população e disfarçar a aparência de estrangeiros. Em 1584, com a permissão do governador Chen Wenfeng [Chen Rui fora destituído do seu cargo a 6 de Fevereiro de 1583, segundo Jin Guo Ping e Wu Zhiliang] construíram uma igreja e a residência. Dedicaram-se a publicar em xilografia o primeiro Catecismo em chinês (Kiao-Yao) do padre Ruggieri [feito em Cantão] e em conjunto com Ricci, Os 10 Mandamentos do Senhor do Céu (Tien-Tchou Chekiai) entre outras obras. Matteo Ricci, que adoptara o nome chinês Li Madou, estudou a cultura chinesa e continuou a elaborar o mapa-múndi, que começara em Macau e terminaria em Beijing. Ganhou fama junto dos mandarins, a quem pretendia converter, com o conhecimento dos Clássicos chineses, de geografia, matemática e astronomia, não tivesse sido aluno no Colégio Jesuíta em Roma de Christophorus Clavius, [eminente matemático que validou as teorias de Galileu e reformara em 1582 (ano da chegada de Ricci a Macau) o calendário juliano e o denominou gregoriano em honra do Papa Gregório XIII]. Em finais de 1585, um alto mandarim tencionando visitar a família em Shaoxing convidou Ruggieri para o acompanhar. Em Cantão encontraram o padre António de Almeida, que de Macau viera de barco com mercadores portugueses, e assim seguiu também o jesuíta português até Zhejiang. Aí andaram a missionar, tendo-lhes passado pela cabeça abrir uma nova residência, mas essa esperança logo se desvaneceu já que foram pressionados pelas autoridades locais a abandonar o local, desvanecendo-se tal ideia. António de Almeida foi para Macau pois não tinha autorização de residir em Zhaoqing, para onde se dirigiu Ruggieri a fim de se encontrar com Ricci, que ficara na missão com Duarte de Sande. Devido à permanente instabilidade e às constantes dificuldades que os missionários encontravam, o padre Sande regressou a Macau em Novembro de 1587 e o padre Valignano, de novo como Visitador, decidiu em 1588 mandar

Ruggieri a Itália para convencer a Santa Sé a enviar um representante oficial a Beijing, com o fim de o Imperador conceder liberdade religiosa aos católicos. Segundo Horácio Peixoto de Araújo, devido à morte sucessiva e num curto espaço de tempo de quatro papas, [Ruggieri chegou a Roma a 19 de Junho de 1590 era Papa Sisto V, mas este morreu cerca de dois meses depois. Seguiu-se Urbano VII Papa apenas por doze dias. Eleito a 5 de Dezembro de 1590 Gregório XIV foi papa durante menos de um ano e Inocêncio IX durante 62 dias. Já o Papa Clemente VIII esteve na Santa Sé de 30 de Janeiro de 1592 a 3 de Março de 1605], Ruggieri falhou na sua missão e nunca mais voltou à China, tendo morrido a 11 de Maio de 1607. Devido às tensões criadas pela população em Zhaoqing e à hostilidade de Liu Jiwen, o novo governador de Liangguang, em 1589 os jesuítas foram postos fora da sua residência e Ricci foi autorizado a residir em Shaozhou (Shaoguan), onde chegou a 26 de Agosto de 1589 acompanhado por o padre António de Almeida. Aí encontraram um clima mais acolhedor e perceberam que a terminologia e as ves-

tes budistas até então usadas não davam o estatuto pretendido, pois segundo o padre António Gouveia, os bonzos eram tidos por ignorantes e rudes. Assim deixaram crescer o cabelo e barba e passaram a usar a roupa de seda dos eruditos confucianos. Nessa cidade a Norte de Guangdong, que liga à província de Jiangxi, Ricci conheceu o jovem estudante de alquimia Qu Taisu, filho de Qu Jingchun, Ministro dos Ritos na corte Ming, que lhe pediu para ser seu tutor a fim de aprender álgebra e geometria, o que ocorreu durante dois anos, segundo refere Shen Fuwei. Em 1594, um mandarim militar, que ia à capital, convidou Ricci para lhe fazer companhia. Ricci levava preciosos presentes enviados de Roma pelo P. Acquaviva, dois relógios, um de torre, outro de sala, aos quais juntou os oferecidos pelo Vice-rei da Índia e outros comprados em Macau. Chegou até Nanjing mas depois recuou para Nanchang, capital de Jiangxi, onde se fixou a 28 de Junho de 1595 e aí viveu por três anos. Em 1597, desde Macau o Visitador Valignano nomeou Matteo Ricci como superior da missão na China e este, em Nanchang, apresentou-se aos dig-

“Matteo Ricci, que adoptara o nome chinês Li Madou, ganhou fama junto dos mandarins, a quem pretendia converter, com o conhecimento dos Clássicos chineses, de geografia, matemática e astronomia...”

José Simões Morais

nitários locais: a Lu Wangai, governador da província de Jiangxi, a Zhang Huang, famoso confucionista e a Zhu Duojie, príncipe de Jian’an, a quem presenteou com instrumentos astronómicos, um relógio de mesa e o seu atlas do mundo. Convidado por o amigo Wang Honghui, ministro dos Ritos em Nanjing, Ricci em Junho de 1598 viajou para Beijing com o padre Lazzaro Cattaneo [músico, que desde 1594 estivera com ele em Shaoguan], onde chegaram a 7 de Setembro de 1598. Aí tencionava expor as novas teorias da Renascença, sobretudo na área das matemáticas e astronomia. No entanto, não conseguiram entrar na corte imperial devido à invasão da Coreia pelo Japão, estando a atmosfera em Beijing hostil para com os estrangeiros, segundo refere Gianni Criveller. Assim, a 5 de Novembro de 1598 deixaram a capital e via marítima chegaram a Nanjing a 6 de Fevereiro de 1599. De Macau, Valignano remete-lhe mais presentes para o Imperador, quadros da Virgem e do Salvador e relógios de vários tamanhos. Ricci deixou Nanjing a 18 de Maio de 1600 e partiu pelo Grande Canal de novo para Beijing, agora com Diogo Pantoja. Na corte imperial entraram a 24 de Janeiro de 1601 e o Imperador Wan Li (1573-1620), que já ouvira falar de Ricci, ficou encantado com os presentes. Wan Li apesar de nunca ter visto e conhecido pessoalmente os jesuítas, pois devido à sua obesidade [segundo Álvaro Semedo] vivia em reclusão e apenas convivia com um pequeno círculo de mandarins, concedeu permissão para eles ficarem em Pequim e construírem uma residência com capela (que viria a ser a Catedral da Imaculada Conceição, Nantang). No entanto, o investigador Shen Fuwei refere que, após três dias, a 27 de Janeiro Ricci conseguiu uma audiência com o Imperador Ming a quem ofereceu 31 itens em 19 diferentes presentes. Segundo Horácio Peixoto de Araújo, “Desde que, em Janeiro de 1601, Matteo Ricci e Diego Pantoja entraram na Corte de Pequim, ninguém duvidava da importância que assumia a presença de alguns Padres junto do imperador; da sua aceitação pelo soberano dependia a permanência e a liberdade de movimentação dos restantes missionários nas diversas regiões do império. Daí que os mandarins cristãos e os jesuítas conjugassem esforços no sentido de possibilitar de novo a entrada na Corte e oficializar uma residência da Companhia em Pequim.” Com relógios, os jesuítas conquistavam o Imperador Wan Li.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

terça-feira 14.1.2020

Pequena história do fundamental uma asa no além Paulo José Miranda

N

O seu livro “Pequena História do Fundamental”, Ruth Cohen escreve que só podemos vir a saber algo que nós mesmos tornemos fundamental. E a história humana é a história do que fomos tornando fundamental ao longo do tempo. No centro desta sua reflexão estão as religiões, que sempre mantiveram para os seus crentes o carácter de fundamental. No fundo, as religiões são edifícios que sustentam o fundamental ao longo dos séculos. Mas quando se põe a analisar as diversas religiões, Ruth Cohen repara que a maioria delas está a perder esse seu carácter de fundamental. Mostra-nos que o catolicismo hoje está bastante longe daquilo que foi em séculos mais distantes ou mesmo nos séculos anteriores a este, que o judaísmo também de algum modo está a perder o seu carácter de fundamental, assim como algumas religiões orientais já o tinham perdido. De todas as religiões, segundo a autora, só o islamismo parece manter o seu carácter de fundamental; todas as outras são sombras do que foram, maiores ou menores, mais ou menos escuras. Num capítulo acerca das “novas religiões”, a que chama “A Aurora Escura das Seitas Evangélicas”, onde se vê um crescendo em algumas partes do globo, escreve que não podemos considerar isso religiões; são máquinas de fazer dinheiro e alienação. Assim, nesta análise acerca da perda do fundamental nas religiões, destaca a grande e única excepção: o islamismo. A perda do fundamental nas religiões do Ocidente, deve-se, segundo a autora, à transferência da pulsão religiosa para o culto da imagem. E nós não podemos deixar de pensar que talvez haja uma estreita ligação entre a permanência do fundamental e do desprezo pela imagem, na religião muçulmana. Será a imagem, o culto dela, realmente um obstáculo ao que é fundamental, ao culto do fundamental? Será que este culto da imagem é realmente responsável pela perda daquilo que nos é fundamental, nas religiões e nas sociedades? Ruth Cohen escreve: “A transferência da pulsão religiosa para o culto da imagem, está intimamente ligado a um culto novo e profano: o culto da visibilidade. Ser-se visível, ou estar constantemente visível para todos pode identificar-se com ser famoso, embora este último não esgote o primeiro. Ser uma imagem nas televisões, nas revistas e nas redes sociais

é um fenómeno recente, tem apenas algumas décadas. O culto da imagem é acima de tudo um culto de alienação. Talvez por isso mesmo, o mais difícil para o ocidente entender acerca do islamismo, seja a sua recusa total e absoluta do culto da imagem, que começa logo pela imagem da mulher socialmente.” Esta identificação entre o culto da imagem e a perda do fundamental, que inicialmente pode parece querer colocar a religião muçulmana num patamar acima na história do fundamental, revelar-se-á o seu contrário. Há, contudo, uma passagem que devemos ler: “A imagem é cada vez mais um desperdício de tempo, um desperdício da vida. Ainda que os muçulmanos hoje possam estar errados em relação ao método e à hermenêutica da sua própria religião, a verdade é que eles tocam o fundamen-

tal, contrariamente ao ocidente, e esse fundamental enraíza sem dúvida numa descrença na imagem, num desprezo até pela afirmação de alguém através da imagem.” Apesar de tudo, e ainda que posteriormente Ruth Cohen ataque o islamismo, não deixa de transparecer alguma admiração pela recusa do culto da imagem no islamismo. “Ainda não tocámos o fundamental, estamos apenas na ilusão do mesmo. O desprezo pelo culto da imagem permite ao islamismo manter a sua relação com o fundamental do culto religioso, o fundamental da sua crença, mas afasta o islamismo de uma evolução, isto é, de uma transformação do fundamental, uma ruptura com um antigo modo de ver o fundamental, que é a igualdade.” Para Ruth Cohen, a igualdade é o novo paradigma do fundamental na história.

Num capítulo acerca das “novas religiões”, a que chama “A Aurora Escura das Seitas Evangélicas”, onde se vê um crescendo em algumas partes do globo, escreve que não podemos considerar isso religiões; são máquinas de fazer dinheiro e alienação.

Sublinha que é fundamental não aceitar o véu ou o niqab nas mulheres muçulmanas. Não pela ausência de imagem, mas pelo que representa esse “roubo de imagem”. Roubo de imagem é como Cohen chama à imposição do niqab e da burka no islamismo. Mas, e é aqui que se dá a passagem para a igualdade, esse roubo de imagem não tem como finalidade o impedimento do culto da imagem, mas antes o exercício de um poder do homem sobre a mulher. Que começa com o roubo da imagem e continua no impedimento de aprenderem e de exercerem um trabalho que as dignifique, que lhes possa dar liberdade, serem auto-suficientes. A submissão choca muito mais do que uns trapos a taparem o rosto ou o corpo. Os trapos prendem a mulher à lei da religião, mas a impossibilidade de aprendizagem, ou de trabalho, por parte da mulher, prende a mulher ao homem. Esta pequena história do fundamental, para além de uma análise ao que foi sendo considerado fundamental na sociedade ocidental, é uma viagem pelas crenças e pelos jogos de poder que se escondem por detrás da imposição das mesmas. E uma análise pertinente ao culto da imagem através dos tempos. Poder-se-ia dizer um livro que vai da crença à igualdade.


16

h

14.1.2020 terça-feira

´

Compositores e Intérpretes através dos Tempos Michel Reis

Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995)

Michelangeli “Il grande”

P

OUCOS pianistas provocaram maior reverência e controvérsia que Arturo Benedetti Michelangeli: reverência pela sua perfeição cristalina, e controvérsia por interpretações que podiam ir do arrepiante ao sublime. O pianista italiano que foi aclamado por muitos críticos e músicos como um dos artistas supremos do teclado do seu tempo, teria feito 100 anos no passado dia 5 de Janeiro. Os críticos dividiam-se sobre o seu trabalho, mas o seu comando técnico supremo do piano é um aspecto indisputável da sua arte. Era um homem bem constituído cujos longos braços e mãos grandes estavam tanto à vontade a segurar o volante do seu Ferrari (foi três vezes concorrente na famosa corrida de automóveis Mille Miglia) como a domesticar o teclado do seu Steinway de concerto que insistia em levar consigo em digressão. Nascido numa pequena povoação perto de Brescia, Arturo Benedetti Michelangeli começa a estudar violino aos três anos de idade com o seu pai, prosseguindo os estudos de música no Instituto Venturi, em Brescia. Aos 10 anos, entra para o Conservatório Verdi, em Milão, onde se diploma em piano aos 13 anos. Em 1938, aos 18 anos, inicia a sua carreira internacional ao participar no Festival Internacional Isaÿe em Bruxelas, no qual se classifica em sétimo lugar e do qual foi vencedor o célebre pianista russo Emil Gilels. Um ano depois, alcança o primeiro lugar na primeira edição do Concurso Internacional de Execução Musical de Genebra (piano), no qual foi aclamado como “um novo Liszt” pelo pianista Alfred Cortot, presidente do júri, do qual fazia também parte o pianista Ignacy Paderewski, que viria a apoiar Michelangeli no início da sua carreira. Durante a II Guerra Mundial, Michelangeli serviu o país como piloto na Força Aérea Italiana, sendo capturado pelos alemães para o final da guerra, que, declarou mais tarde, lhe vergastaram as mãos e braços quando descobriram que era pianista. Após o conflito, ensinou no Conservatório Martini em Bolonha e o ensino permaneceria uma parte essencial do seu trabalho. Em 1949, foi escolhido como pianista oficial dos eventos comemorativos dos 100 anos da morte de Chopin, que tiveram lugar em Varsóvia. Tornou-se conhecido pelo seu ensino pouco convencional e lendário, nas suas famosas Academias Internacionais que leccionava no belo Schloss Paschbach, em Eppan, no Tirol do sul, em Itália. Os seus melhores alunos eram convidados a frequentar estas academias gratuitamente, mas segundo as regras e horários restritos de Michelangeli. Dois alunos que reverenciaram o seu trabalho foram

Conhecido pelo seu perfeccionismo, seriedade de estilo e obsessão por pianos impecavelmente regulados e afinados, Michelangeli foi um pianista de muitos recitais cancelados à última da hora, para desespero dos seus managers, e que reputadamente não gostava de dar concertos

Maurizio Pollini e Martha Argerich. A actual Academia de Piano Eppan inspira-se na tradição das famosas master classes realizadas por Michelangeli em Eppan, nos anos 50. Nesse período ensinava no Conservatório em Bolzano mas vivia em Eppan, no referido castelo, onde ainda é possível admirar o seu piano. A sua generosidade para com os jovens artistas era muito conhecida. A Academia de Piano Eppan segue esta tradição. Seis jovens pianistas são convidados para uma master class exclusiva e a dar aí concertos ao serão. Um dos participantes recebe o Prémio Arturo Benedetti Michelangeli (no valor de €5.000) atribuído pela Cidade de Eppan. De aparência aristocrática e quase Lisztiana, Michelangeli aparecia em palco com aspecto cadavérico e sepulcral. A sua execução, frequentemente controversa, não pertencia a nenhuma escola a não ser a sua. O seu estilo, individual e possivelmente perverso em alguns aspectos, era directo, mas contido, caloroso mas frio. A sua técnica, que podia ocasionalmente ser imaculada, era não apenas fruto de um prodigioso talento, mas também de um trabalho árduo. Costumava dizer aos seus alunos que para tocar piano “tem que se trabalhar até nos doerem os braços e as costas todos. A música é um direito para os que o merecem.” Palavras exigentes de um homem que as seguia. Conhecido pelo seu perfeccionismo, seriedade de estilo e obsessão por pianos impecavelmente regulados e afinados, Michelangeli foi um pianista de muitos recitais cancelados à última da hora, para desespero dos seus managers, e que reputadamente não gostava de dar concertos. Era um conhecedor da mecânica do piano e insistia que os seus instrumentos de concerto estivessem em perfeitas condições. Este artista inigualável destacou-se principalmente como grande intérprete de Debussy e Ravel; e em Beethoven, Chopin, Schumann e Brahms soube igualmente mostrar o seu imenso talento. Era conhecido também pela sua hipocondria, pelas suas superstições e por passar noites inteiras acordado, estudando piano. O seu último recital, com um programa inteiramente dedicado a Debussy, realizou-se em Hamburgo, no dia 7 de Maio de 1993. Arturo Benedetti Michelangeli faleceu em Lugano, no dia 12 de Junho de 1995, na sequência de uma crise cardíaca e encontra-se sepultado em Pura, na Suíça. SUGESTÃO DE AUDIÇÃO: • Claude Debussy: Préludes - Volume 1 Arturo Benedetti Michelangeli, piano – Deutsche Grammophon, 1984


ARTES, LETRAS E IDEIAS 17

terça-feira 14.1.2020

D

ISTANTES ainda estávamos dos dias que revolucionaram a escrita quando «Caligramas» em 1918 sai com o seu futurismo modernista - que Almeida Negreiros um pouco antes nos daria, é certo, belíssimas demonstrações do poema visual da fonte do mesmo verso livre que haverá de encantar mais tarde o movimento concretista dos anos sessenta. Inspiração esta que parte de uma averiguação dos signos gráficos e se debruça nos caracteres cuneiformes, chineses e também na arte copista dos manuscritos da Idade Média que virão a ser não menos decisivos para uma revolução na forma de conceber o acto da leitura. Assistimos também ao instante da «liberdade livre» quando nos é dado um poema como «Alcools» que suprime a pontuação e nos obriga assim a uma perspetiva diferente. Apollinaire compreende de forma quase visionária que uma nova forma de comunicação está em curso no início do século vinte e que a escrita teria de lhe seguir os passos. As múltiplas alternativas dão espaço inventivo para alargar o código da leitura e com ele criar suportes que ajudem a rele-la enquanto matéria viva que subjaz a toda a transformação. «Le poète assassiné», os contos que relatam em parte sua própria história, reflecte muitas vezes a charneira do tempo que lhe foi dado viver, e nessa ambiguidade coberta de uma certa lubricidade, toda a recolha de formas de leitura que em muitas variantes e em línguas outras se fazem até da esquerda para a direita compondo nomes que só a transgressão pode entender. Ele continua a misturar muitos géneros que vão desde a poesia, à fábula, ao fantástico, recitativo e teatral, e numa intermitência morre e nasce em cada capítulo não se preocupando com a unidade que tanto atrasa em muitos casos a errância preciosa do pensamento quando nada o impede de se expressar assim. O método da escrita pode ser aqui entendido pelas "linhas tortas" que o próprio Deus insiste em escrever, que tais curvas têm o poder de ter por dentro uma coerência tal, que abalará certamente a metódica noção daqueles que andam longe de entender o verdadeiro significado de escrita criativa. Percursor do modernismo, ele tem ainda o dom da narrativa e fá-lo através da sátira mordaz como em «O Heresiarca e Cª» seguindo o trilho talvez de um Camilo Castelo Branco que provavelmente nunca conhecera, mas que parece buscado de «Alves & Companhia», surpreendentemente na mesma ironia e acutilância que lhes foi tão cara. Sem

-

Apollinaire JEAN METZINGER, ETUDE POUR LE PORTRAIT DE GUILLAUME APOLLINAIRE

Amélia Vieira

dúvida que é uma grande riqueza de sinais todo o conteúdo aqui expresso, como se vasos comunicantes andassem próximos daqueles que desdobraram a palavra em todas as direcções de uma realidade a haver. A insolência está por toda a obra numa viva alusão ao extra-

polar daquilo que sempre será apanágio de seres sensíveis, a sua profunda indignação face ao mundo que os rodeia, e este trilho é o elemento que transforma um insuportável mal-estar numa manifestação que transcende e cura o próprio doente do transtorno desse mesmo

A insolência está por toda a obra numa viva alusão ao extrapolar daquilo que sempre será apanágio de seres sensíveis, a sua profunda indignação face ao mundo que os rodeia, e este trilho é o elemento que transforma um insuportável mal-estar numa manifestação que transcende e cura o próprio doente do transtorno desse mesmo mundo

mundo. Não há dúvida que a "felicidade" esse estigma mundial do agora, retirou de cena os seus mais eloquentes observadores, mas, a forma como este, e muitos outros agarraram a observância tem lá dentro um arquétipo infalível que subjaz a todas as épocas. Apollinaire era um polaco - filho de mãe polaca - pois que do pai nada se sabe, e a sua vibrante fonte um caldo de uma nação religiosa que acompanhá-lo-á até ao fim: e no livro acima mencionado dá-se o confronto com a sua origem que passa por ser do domínio da fé, e que passa depois para um plano mais teológico com formas rebuscadas de significado bíblico transportas para uma consciência que dá às suas personagens uma extrema humanidade pois que são feitas de partes tão detestáveis quanto boas, admiráveis mesmo, pondo a Humanidade no centro do seu próprio drama. Claro que o faz com humor, espírito incisivo e, numa palavra só, "graça tanta", com aquela intensidade que não conhece tempos mortos e nos faz assim compreender melhor este impulsionador da literatura moderna. Ele foi sem dúvida uma personalidade multifacetada que criou raízes com os seus pares na vanguarda de um tempo onde o Cubismo teve alta social e a palavra Surrealismo lhe é ainda devida. Mas as peripécias de vida destes homens não são aventuras suaves, e chega a ser acusado de cumplicidade no roubo de Mona Lisa juntamente com Picasso. É preso, ficará perturbado e, aos olhos dos mais conservadores, possuidor de todos os perigos por ser estrangeiro, rebelde e atentar contra uma certa base civilizacional. Nada de novo, portanto. Dá as boas vindas às mudanças e saúda-as com puro génio criativo tendo para isso um terreno mais vasto de expressão, consegue suplantar-se em quase todas as ocasiões, que o tempo exigente arrasta uns, e faz faróis ainda outros, e é por isso que ele, na sua também tão parecida situação presente nos continua a inspirar. Ele consegue inovar a herança e trazê-la para o seu instante carregada de futuro numa anunciação comunicante sem igual. Não deixa de ser também um aviso à nossa navegação o título do seu primeiro livro, aliás, absolutamente espantoso: «O Encantador em Putrefação». Cento e dez anos são passados e este deveria ser o encanto que nos define. Apollinaire é um mago. Ele deixou a escrita em dia, no dia em que soubermos ver que escrever tudo de todas as maneiras com as técnicas escreventes, será a nossa própria humanidade que se escreve e assim avança para o seu mais vasto entendimento.


18 (f)utilidades

?

NUBLADO

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje

MIN

16

MAX

22

HUM

EURO

7

Amanhã

6

2 5

SESSÃO DE “SERÕES COM HISTÓRIA” - BEATRIZ BASTO DA SILVA Fundação Rui Cunha | Das 18h30 às 19h30

EXPOSIÇÃO “GAME – GIGI LEE’S MULTIMEDIA” Armazém do Boi | Até 16/2

SOLO EXHIBITION”

7 4 1 6 3 5 5 6 3 7 2 4 EXPOSIÇÃO “NO YA ARK: INVISIBLE VOYAGE” 3 1 Armazém do Boi |2 Até 2/25 7 6 6 7 4 2 1 3 2 5 6 C3 I 4N 1E Cineteatro 1 3 7 4 5 2 4 2 5 1 6 7 Armazém do Boi | Até 11/2

39

3 2 6 1 7 5 4

41

2 5 1 3 7 4 6

SALA 1

5 6 1 3 2 4 7 1 4 6 2 5 3 7

UNDERWATER [B]

1 7 4 5 3 6 2 5 3 7 6 1 2 4

Um filme de: William Eubank Com: Kristen Stewart, Vincent Cassell 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 2

1917 [C]

7 4 2 6 1 3 5 4 1 2 7 3 6 5

Um filme de: Sam Mendes Com: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Benedict Cumberbatch 14.30, 16.45, 19.15

ASHFALL [B]

FALADO EM COREANO LEGENDADO

6 3 7 4 5 2 1 3 2 5 4 6 7 1

2 5 3 7 4 1 6 7 6 3 5 4 1 2

2 1 4 5 7 M A 6 3

6 7 4 1 2 5 3

EM CHINÊS E INGLÊS Um filme de: Lee Hac-Jun, Kim Byung-Seo Com: Lee Byung-Hun, Ha Jung-Woo, Ma Dong-Seok A.K.A. Don Lee 21.30 SALA 3

LITTLE WOMEN [A] Um filme de: Greta Gerwig Com: Emma Watson, Saoirse Ronan, Florence Pugh, Meryl Streep 14.15, 16.45, 19.15, 21.45

38

7 3 6 5 1 2 4

MESA DE DESTROÇOS 6 1 5 3 7 4 2

5 4 2 1 6 7 3

4 7 3 2 5 1 6

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 38

1 6 4 7 2 3 5

3 2 7 6 4 5 1

2 5 1 4 3 6 7

UM SÉRIE 5 1 6 3HOJE 2 4 7 3 2 4 6 1 7

2 6 5 3 7 4

4 7 1 5 2 3

5 4 7 2 6 1

A segunda temporada desta série portuguesa, transmitida pela RTP, faz o retrato da sociedade portuguesa na década de 80, depois da Revolução dos Cravos. Uma boa série de época que nos recorda episódios políticos e sociais tão importantes como as acções terroristas das Brigadas FP25, a entrada do FMI no país e o flagelo do consumo de droga, ao mesmo tempo que acompanhamos as aventuras da família Lopes. Andreia Sofia Silva

42

1917

YUAN

1.16

2

1 3

7 4

3 7 5 6 5 4 4 1 2 2 6 1 5 3 6 1 4 7 www. 7hojemacau. 2 3 com.mo

1 3 6 7 4 5

3

4

7 3

7 5 2 1 3 6

6 1 3 4 5 2

39 43

54 7 13 1 7 6 2 4 5

PROBLEMA 39

45

1 41 4 3 45 7 3 6 2

3 1 2 57 4 5 6 2 7 56 4 71 5 3

2 45 6 64 3 7 51 6 3 5 2 24 71 37

61 33 5 6 7 4 2 3 1 37 6 5 2 4

7 4 31 2 5 16 3 4 5 1 3 32 7 46

5 6 7 3 62 71 4 7 2 64 1 6 3 5 5

Quando hoje passeamos pelas chamadas redes sociais reparamos num fenómeno sintomático: seja qual for a ideia, opinião ou evento rapidamente se formam dois lados, dois partidos, duas facções, que mutuamente se insultam e destilam ódio como se em causa estivesse realmente um futuro qualquer. Ao contrário do que se poderia pensar, depois das experiências do século XX, nomeadamente da crítica das metanarrativas, o mundo voltou a ser a preto e branco. A “verdade” voltou e vingativa. Afinal, qual de nós não é hoje o detentor da “verdade”, pura, crua e sem remissão? Ter dúvidas, hesitar, reflectir, pensar, não está na moda. É mesmo horrível, coisa de gente fraca, pouco digna de guerreiros de40 teclado. A coisa agora é mais insultar, excruciar, reclamar, excluir. Ao contrário do que seria esperado, parece haver uma compulsão para se pertencer a algo, habitar num grupo de “amigos” cujos valores estão previamente formatados, tudo pronto e embrulhado para consumo rápido e certeiro. Não se trocam ideias, insulta-se o que discorda de nós. No fundo, é um descanso, um torvelinho parado, um remoinho que não sai do mesmo sítio e por isso deve ter um efeito hipnótico e calmante. E lá vamos: cantando o que nos fazem cantar, recitando o que nos fazem recitar. Orgulhosos de pertencer e de não ser. Entrámos, seguramente, na era do pós-indivíduo. Carlos Morais José

4

A família de Abu Amre partilha uma refeição ao lado do monte de entulho em que se transformou a casa onde habitavam, em Gaza, depois de um ataque israelita.

40

4 1 5 2 6 7 3

0.26

38 A ERA DO PÓS-INDIVÍDUO 4 1 3

2

Diariamente

37

BAHT

37

Fundação Rui Cunha | Das 18h30 às 20h30

EXPOSIÇÃO “MACAU CANIDROME-POUCHING TSAI

8.90

VIDA DE CÃO

INAUGURAÇÃO DA EXPOSIÇÃO “DIVINE BEASTS – PAPER ARTS BY BENSON LAM”

6 0 - 9 0´%

S U D O K U

MUITO

LIU XIAO XINHUA/BARCROFT MEDIA

TEMPO

14.1.2020 terça-feira

6 2 4 5 1 3 7 5 6 2 7 3 4 1

44

5 7 4 3 2 6 1

46

4 2 5 7 3 6 1

7 4

1

1

2

4 1 6 74 5 21 3

61 2 36 1 7 4 5

2 4 5 61 3 1 73

73 35 2 4 1 5 6

1 5 7 2 6 34 45

3 67 1 5 4 7 2

5 42 3 7 26 4 1 65

7 1 6 35 5 4 23

1 4 2 6 72 3 56 7

3 5 1 4 6 23 7

2 6 4 5 1 7 3 2 5 5 6 4 2 1 3 7

6 7 31 1 2 5 4

CONTA-ME COMO FOI | RTP (2020)

48 6 47 1 4 6 1 2 2 1 6 3 7 4 5 4 1 2 3 7 7 3 2 1 7 4 3 5 2 1 6 3 2 5 1 4 5 7 6 3 1 6 5 4 3 7 2 5 6 7 2 1 3 4 5 7 6 2 1 7 5 3 4 7 4 6 5 3 2Propriedade 1 Fábrica 7 de Notícias, 4 LdaDirectorCarlos Morais 3 José7Editores2João Luz;6José C. Mendes 4 Redacção 5 1 3Filipe;4Juana Ng7Cen; Pedro6 Andreia Sofia Silva; In Nam Ng;2 João Santos Arede Colaboradores Anabela Canas; António Cabrita; António de Castro Caeiro; António Falcão; Ana Jacinto Nunes; Amélia Vieira; Gisela Casimiro; Gonçalo Lobo Pinheiro; Gonçalo 6M.Tavares; 2 João3Paulo Cotrim; 5 José Drummond; José Navarro 4 de5Andrade;7José Simões 2 Morais; 1Luis Carmelo; 6 3Michel Reis; Nuno Miguel Guedes; 6 Paulo7José Miranda; 1 Paulo 4 Maia5e Carmo; Rita Taborda Duarte; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; David Chan; João Romão; Jorge Rodrigues Simão; Olavo Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; 1Rasquinho; 4deredacção 6 ePublicidadeMadalena5daSilva3(publicidade@hojemacau.com.mo) 4 1 6 2Assistente 7demarketingVincentVong1Impressão 5 Tipografia 3 Welfare 6 Morada2 Xinhua5 Secretária Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo

4 6 7 3 1 5 2 4


opinião 19

terça-feira 14.1.2020

macau visto de hong kong

DAVID CHAN

A grande balbúrdia

E

M Novembro, soube-se através da comunicação social, que a deputada Song Pek Kei tinha entregado ao Governo uma interpelação escrita, onde recomendava que não se deveria trabalhar nos dias úteis em que se realiza o Grande Prémio de Macau, de forma a evitar o congestionamento do trânsito e toda a confusão que daí advém. Estes feriados deveriam ser extensíveis às escolas. Poderia ainda ponderar-se a implementação do trabalho por turnos nos departamentos oficiais. No dia 8 de Janeiro foi publicada a resposta do Governo. O Gabinete para o Desenvolvimento do Desporto, reiterou que o Executivo tem investido de forma empenhada no melhoramento das infra-estruturas e da logística do Grande Prémio, de forma a reduzir os inconveientes para a população. Futuramente, far-se-ão estudos para encontrar soluções que optimizem a questão da mobilidade.

O Grande Prémio costuma realizar-se de Quinta a Domingo. Quinta e Sexta são dias úteis. Os adultos vão trabalhar e as crianças vão para a escola. Macau tem muita população e pouco espaço. As medidas que envolvem a realização desta prova resultam num enorme congestionamento do trânsito. Aos Sábados a situação já melhora um pouco e aos Domingos ainda melhora mais. É evidente que o facto das pessoas não terem de se deslocar alivia o tráfego. Quando o Governo apresenta uma proposta deve apoiar-se nos factos. Sem uma pesquisa séria e uma recolha de dados exaustiva, é difícil convencer a população

Quando o Governo apresenta uma proposta deve apoiar-se nos factos. Sem uma pesquisa séria e uma recolha de dados exaustiva, é difícil convencer a população da qualidade da proposta

da qualidade da proposta. Talvez esteja na altura de levar a cabo estudos estatísticos que demonstrem que, durante o Grande Prémio, o grau de congestionamento do trânsito durante as Quintas e as Sextas é superior àquele que ocorre aos Sábados e aos Domigos, devido às deslocações para os locais de trabalho e para as escolas nos dias de semana. Se este estudo for feito, dar-se-á mais força à argumentação que defende que os dias úteis em que se realiza o Grande Prémio deveriam ser declarados feriado, ou que, pelo menos, fosse possível um acordo de isenção de serviço, efectuado entre os trabalhadores e as entidades patronais, isenção essa que seria compensada posteriormente e desta forma a interpelação de Song Pek Kei passaria mais facilmente. O problema dos transportes afecta Macau em larga escala. Tendo isso em mente, é razoável esperar que o Governa responda de forma positiva à interpelação de Song, já que está em causa o interesse público e um indispensável consenso social. Uma pesquisa em profundidade e uma análise detalhada serão incontornáveis.

Professor Associado do IPM • Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macau • legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk • http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog


“O que veio primeiro? O intestino ou a ténia? William S. Burroughs

PALAVRA DO DIA

Saúde Residente de 71 anos morre devido a Gripe A

CHINA MERCADO AUTOMÓVEL VOLTA A RECUAR EM 2019

Os Serviços de Saúde (SS) comunicaram ontem que uma mulher de 71 anos, residente de Macau, faleceu na sequência de Gripe A. Com um historial de doenças crónicas e portadora de um tumor, a paciente deu entrada nas Urgências do Hospital Kiang Wu no domingo com sintomas de febre e tosse. Depois de feito o teste rápido da gripe, verificou-se reacção positiva ao vírus de gripe A. Devido ao estado grave da doente, que sofria de insuficiência respiratória, foi prontamente encaminhada Urgências do Centro Hospitalar Conde de São Januário onde foi diagnosticada uma pneumonia direita na radiografia de tórax. Os SS informaram também que 43 alunos, de quatros escolas diferentes, foram diagnosticados com gripo. Desde Setembro de 2019 até ao presente momento, Macau registou 31 casos de gripe complicados com pneumonia, entre os quais, registou-se, agora, o primeiro caso mortal. Entre os 31 casos de gripe complicados, 81 por cento não tinham administrado a vacina anti-gripal.

A

S vendas de automóveis caíram pelo segundo ano consecutivo na China, em 2019, à medida que a guerra comercial com Washington e a desaceleração da economia chinesa afectaram a confiança do consumidor, informou ontem uma associação do sector. As vendas no maior mercado automóvel do mundo caíram 9,6 por cento, em relação a 2018, para 21,4 milhões de veículos utilitários desportivos, ‘minivans’ e ‘sedans’, segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis. No total, as vendas de veículos, incluindo camiões e autocarros, caíram 8,2 por cento, para 25,8 milhões de unidades. Em 2018, e após duas décadas de crescimento explosivo, as vendas de automóveis caíram 4,1 por cento na China, face às disputas comerciais com os Estados Unidos e à desaceleração do crescimento da economia chinesa, que levaram muitos consumidores a adiar a compra de automóvel. Os analistas esperam que as vendas estabilizem este ano, mas isso representaria uma queda superior a três milhões de unidades, face ao pico de 24,7 milhões de veículos vendidos em 2017.

Exemplo prático Governo chinês defende interdição à entrada do director da HRW em Hong Kong

Turismo Gabinete de Crises emite alerta de nível 1 para Manila e Luzon

PUB

O Gabinete de Gestão de Crises do Turismo (GGCT) emitiu ontem um alerta de viagem de nível 1 para a ilha de Luzon, nas Filipinas, incluindo a capital do país, Manila. De acordo com um comunicado, está em causa a recente erupção do vulcão Taal. “O GGCT alerta aos residentes de Macau que planeiem viajar para ou que se encontrem na Ilha de Luzon (incluíndo Manila) para estarem em alerta e acompanharem o desenvolvimento dos acontecimentos que poderão afectar a sua segurança pessoal. O GGCT continuará a acompanhar o desenvolvimento da situação”, lê-se. Até ao momento não foram recebidos quaisquer pedidos de informação ou assistência.

terça-feira 14.1.2020

O

Governo chinês defendeu ontem a decisão de negar a entrada em Hong Kong ao director da Human Rights Watch (HRW), acusando a organização de defesa dos Direitos Humanos de incentivar os protestos na região. “Trata-se de um direito soberano da China autorizar ou não a entrada de alguém no seu território”, defendeu Geng Shuang, porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, em conferência de imprensa. Hong Kong é palco, desde Junho passado, de protestos quase diários, marcados por cenas de vandalismo e confrontos com a polícia, para denunciar a interferência de Pequim nos assuntos da região e exigir reformas democráticas e uma investigação independente à alegada brutalidade policial. Pequim acusa regularmente entidades e países estrangei-

ros, principalmente os Estados Unidos, de incentivarem as manifestações em Hong Kong, ao apoiarem publicamente os manifestantes ou receberem figuras do movimento pró-democracia. “Inúmeros factos e evidências mostram que esta organização apoiou, por vários meios, indivíduos que cometeram acções anti-China e causaram a desordem em Hong Kong”, acusou Geng. “Ele tem grande responsabilidade pela situação caótica em que Hong Kong hoje se encontra. Este tipo de organizações merece ser punida, deve pagar o preço”. O director da HRW, Kenneth Roth, revelou no domingo que as autoridades de Hong Kong o proibiram de entrar no território, onde tinha planeado apresentar o relatório anual da organização não governamental, que tem sede em Nova Iorque. Citado pela agência Associated Press

(AP), Kenneth Roth, cidadão norte-americano, relatou que as autoridades de imigração no aeroporto disseram que ele não podia entrar em Hong Kong, mas sem esclarecem os motivos dessa decisão. “Eu queria destacar os ataques cada vez mais fortes de Pequim contra os esforços internacionais para apoiar os direitos humanos”, disse. “Esta recusa é uma ilustração vívida desse fenómeno”, argumentou. Em Dezembro passado, a China anunciou sanções - sem especificar a sua natureza - contra ONG americanas, incluindo a HRW, em retaliação contra a aprovação pelo Congresso norte-americano de uma lei que apoia os manifestantes de Hong Kong. Human Rights Watch, the National Endowment for Democracy e Freedom House constavam entre as organizações mencionadas por Pequim.

São Januário Técnica cirúrgica ganha distinção da Fundação Stanley Ho

A “laparoendoscopia de incisão única” levada a cabo pela equipa cirúrgica do Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) dos Serviços de Saúde de Macau (SSM) ganhou o “Prémio de Excelência Médica” da Fundação de Desenvolvimento Médico do Dr. Stanley Ho em 2020. Esta técnica cirúrgica começou a ser feita no hospital pública em 2003, sendo utilizada tecnologia de ponta no campo da laparoscopia, o que, segundo um comunicado, reduz efectivamente o trauma dos doentes causado pela cirurgia e acelera o tempo de recuperação pós-operatória, aliviando a dor causada pelo tratamento cirúrgico. Actualmente esta técnica cirúrgica é utilizada em várias especialidades médicas.

Transportes Air Macau inaugura quinta ligação para Pequim

A transportadora aérea de Macau inaugurou ontem uma nova ligação para Pequim-Daxing, o novo e segundo aeroporto internacional de Pequim, elevando para cinco o número de voos diários para a capital chinesa. Com esta nova ligação, “a Air Macau vai ser a primeira transportadora aérea, entre outras baseadas em Hong Kong e Taiwan, com operações” nos dois aeroportos de Pequim, indicou a companhia em comunicado. Fundada em 1994, a Air Macau voa actualmente para 27 destinos, transportando anualmente 3,16 milhões de passageiros. Erguido no extremo sul da capital chinesa, a cerca de 45 quilómetros do centro da cidade, o aeroporto internacional de Pequim Daxing foi inaugurado em Setembro do ano passado, e projectado para receber 72 milhões de passageiros por ano.

Profile for Jornal Hoje Macau

Hoje Macau 14 JAN 2020 # 4448  

N.º 4448 de 14 de JAN de 2020

Hoje Macau 14 JAN 2020 # 4448  

N.º 4448 de 14 de JAN de 2020

Profile for hojemacau
Advertisement