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Passos seguros para a ditadura PÁGINA 5

AUTOCARROS

ROTA DAS LETRAS

UMA SÉRIE DE INCOMPETENTES PÁGINAS 8-9

Primeiro capítulo chega à mesa EVENTOS

SOFIA MARGARIDA MOTA

LEI DA CIBERSEGURANÇA

hojemacau

ENTREVISTA

TEÓLOGO CATÓLICO AFIRMA

‘‘ EL GRECO

A Igreja tem de se adaptar para ser credível

CASO SULU SOU

DEPUTADOS QUEREM SUBSTITUIR TRIBUNAIS

Nervoso miudinho Vong Hin Fai e Kou Hou In entendem que os tribunais nada têm a dizer sobre a legalidade da suspensão de mandato de Sulu Sou. Leonel Alves classifica esta atitude como “um acto de nervosismo”. PÁGINA 5

TÉDIO

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SEXTA-FEIRA 12 DE JANEIRO DE 2018 • ANO XVII • Nº 3971

GCS

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ


2 ENTREVISTA

STEVE BEVANS

“Temos de levar a ciência e a psicologia muito a sério”

SOFIA MARGARIDA MOTA

PADRE E TEÓLOGO, SOBRE A IGREJA CATÓLICA

Teólogo com seis livros publicados e ligado à ordem católica Missionários do Verbo Divino, Steve Bevans esteve em Macau esta semana na Universidade de São José para falar dos cinco anos de pontificado do Papa Francisco. O padre norte-americano defende uma investigação interna aos casos de abusos sexuais e diz que a Igreja tem de se adaptar aos tempos modernos. Porque, desta forma, “não é credível” Que análise faz aos últimos cinco anos do pontificado de Francisco? Diria que ele trouxe ar fresco, uma nova energia. A Igreja está a tornar-se mais aberta e, para usar uma das palavras favoritas do Papa Francisco, está a tornar-se mais compreensiva. Pelo menos era isso que o Papa Francisco gostaria que a Igreja fosse, mas nem todos os bispos, padres ou cristãos estão nesse caminho. Mas foi essa visão que eles nos ofereceu, e isso é o mais entusiasmante. Que negativos momentos destaca dos últimos cinco anos? Estou contente com o que o Papa Francisco tem feito, e penso que ainda tem um longo caminho a percorrer. A minha critica mais forte talvez esteja relacionada com a sua atitude em relação às mulheres. Obviamente que ele gosta das mulheres e quer incluí-las, mas continua a ter, diria eu, uma perspectiva do homem latino-americano em relação às mulheres, de que estas têm um génio muito próprio e trazem conforto ao lar. Mantém esses estereótipos. De certa forma ele tem criado limitações nas questões da liderança, sobretudo quanto à ordenação das mulheres dentro da Igreja. Mas, por outro lado, abriu o debate sobre a possibilidade das mulheres serem ordenadas. Ele pediu também a participação de mais mulheres, ao nível da liderança, mas não o vejo a fazer nada de concreto em relação a este assunto. Dada a sua cultura e o seu background, penso

que ele está a fazer o que pode. Ele está a fazer um bom trabalho, não vejo grandes áreas onde possa estar a falhar. Claro que há áreas nas quais está mais limitado devido às tradições da Igreja, mas penso que está além disso. Há também os casos de abusos sexuais dentro da Igreja Católica. O Papa tem tido a melhor atitude em relação a este assunto, no sentido de resolver o problema? Sim. Ele tem enfrentado uma situação que é muito crítica e vergonhosa. Tem feito muito no sentido de ajudar as vítimas, mas é sempre difícil dizer aquilo que deve ser feito. As vítimas devem ser ouvidas e compensadas financeiramente e acho que ele está do lado dessa ideia. Sei que alguns grupos de vítimas criticam-no, eu compreendo-os, mas penso que o Papa Francisco está do seu lado mas não de uma forma extrema como gostaria de estar. É, decerto, difícil saber a verdadeira dimensão dos abusos sexuais dentro da Igreja Cató-

“Se pudesse escolher, seria um papa filipino, o actual arcebispo de Manila, Luís António Tagle, pois penso que continuará o legado de Francisco.”

lica. Seria importante realizar uma investigação interna a estes casos? Não sei. Talvez estivesse a favor disso. Penso que tem sido um grande problema na Igreja e espero que tenha sido um sinal de alarme. Espero que as pessoas mudem, embora isto seja uma doença e não seja algo que se possa mudar. Mas apesar de tudo esta questão tem sido exposta e sim, penso que seria uma boa ideia fazer uma investigação aos trabalhos internos da Igreja. Esta exposição é importante porque pode levar a uma erradicação. O Papa Francisco condena fortemente o clericalismo e o carreirismo e ele tem feito muitos inimigos dentro da Igreja por causa disso. Mas penso que ele está absolutamente certo e poderia até ter uma posição mais forte. Em relação à China, o Vaticano tem vindo a fazer uma tentativa no sentido de reatar relações com o país. Ainda assim, esse objectivo poderá ser mais difícil de atingir na era Xi Jinping? Acabei de estar uma semana em Hong Kong, fiquei num seminário e conheço o cardeal John Tong Hon muito bem. Conheço várias pessoas lá e o que ouvi é que um acordo está iminente, que vai acontecer em breve. Há algumas questões por resolver. Não tenho certezas em relação ao Governo, pois essa é questão complexa, mas penso que em termos da igreja oficial na China há uma abertura de ambos os lados para que haja

uma espécie de acordo, sobretudo ao nível da ordenação dos bispos. Isso deverá ser anunciado muito em breve. É importante para a China ter uma relação com o Vaticano, no sentido de reforço do poder político? Não basta ter o domínio em termos económicos e diplomáticos mas também na área da religião? Exactamente. Não sou especialista nesta área, mas o que têm dito é que a China está a descobrir a importância da religião. Descobriram que podem, eles próprios, encontrar o poder da religião para o bem do Estado e do Governo. Há uma certa abertura em relação à religião, que está a crescer. Esse acordo vai facilitar a vida dos chineses católicos que vivem escondidos? Vai de certa maneira facilitar. O Vaticano está a tentar chegar a um acordo e uma aproximação. Seria ingénuo pensar que esse acordo será feito sem problemas, mas há algo no ar. Digo isto apenas como observador e como alguém que está próximo de figuras de Hong Kong.

“O poder da Igreja costumava ser o medo, caso contrário as pessoas iam para o inferno. As pessoas já não acreditam nisso.”

Recentemente o Papa Francisco visitou o Myanmar, numa altura em que a crise humanitária do grupo étnico Royngha está no auge. Acredita que as suas palavras podem ajudar a resolvê-la? É uma situação complexa. Estamos a lidar com um país que é maioritariamente budista e que tem uma minoria muçulmana. Houve alguns ataques terroristas e as pessoas estão assustadas, mas isso não deve justificar, de maneira nenhuma, as perseguições que temos visto à minoria muçulmana. O Papa Francisco foi o mais sensível possível à situação e quem sabe aquilo que foi dito em privado? Esperemos que haja alguma alteração. Foi um momento importante na carreira do Papa. O Papa fez a coisa certa e outra coisa importante foi o facto de não ter feito isto sozinho: ele ouviu os conselhos do cardeal católico em Rangum, não se limitou a apontar o dedo.


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é baseada numa biologia muito limitada. O uso dos preservativos não quer dizer que sejamos todos promíscuos. Podemos falar da questão da moralidade desde que estejamos informados e não com uma mentalidade mais conservadora. Acredita que os padres podem vir a casar? É uma questão complicada. Mas penso que deveríamos discutir este assunto e pessoalmente acho que deveria ser uma opção possível. Em muitos países e culturas, uma vida celibatária não é o caminho a seguir. Temos de ter em conta esses lugares. A homossexualidade é outro tópico sensível, e sobre ele o Papa Francisco também mostrou abertura. A sua abordagem a esse assunto tem sido algo limitada, e é uma das áreas onde tenho algumas críticas a fazer. Mas ele tem bastantes limitações e não me parece que tenhamos de lhe apontar o dedo. É uma questão de moralidade baseada em biologia retrógrada. Temos de levar a ciência e a psicologia a sério e entrar num diálogo honesto sobre estas questões. Tanto homens como mulheres sofrem bastante com a sua identidade sexual. A coisa mais importante da vida é a misericórdia de Deus e não outras regras. Uma nova Igreja tem de buscar aquilo que a ciência descobriu, os cientistas não são pessoas fracas. Como Jesus disse, “a verdade vai deixar-te livre”. Então temos de entrar nesse diálogo aberto para ver o que vai acontecer. Esteve nas Filipinas como missionário, onde viveu até 1981. Como explica a relação tão forte que existe entre os filipinos e a religião? Para eles a religião é uma forma de escaparem ou de terem esperança face à pobreza? Sim. Não diria que é o ópio das pessoas, mas é algo que ajuda as pessoas. Ajuda, de facto, as pessoas a viverem as suas vidas. Os filipinos olham para a função da religião. Sei que em Hong Kong muitos deles trabalham como empregados domésticos, presumo que aqui a situação seja semelhante, e levam vidas duras. Os filipinos representam, de facto, a mais forte comunidade religiosa e vivem a sua fé até em casa. Nem todos praticam a sua fé, mas é muito forte e é uma cultura que respira religião. Em situações mais aflitivas é algo que os faz estar juntos. É um factor identitário importante.

Acredita que as condições sociais melhoraram no país ou acredita que está quase tudo na mesma? Um dos problemas nas Filipinas é que existe demasiada corrupção. Há poucas famílias que gerem o país. O presidente está um pouco de fora disto, mas vejo que existem muitos problemas no Governo. É um país com enormes recursos e uma população altamente qualificada, mas não conseguem sair desta imensa pobreza. Fizeram alguns progressos desde os anos do Governo de Ferdinando Marcos, mas há ainda muito por fazer. E temos agora esta guerra contra as drogas implementada por Rodrigo Duterte. É um grande problema e ele é um homem muito perigoso. É um populista e há um grande paralelismo entre ele e Donald Trump. Ambos ganharam as eleições mas penso que tudo foi errado. Estou

preocupado com as Filipinas, é muito triste. Qual deve ser o papel da Igreja Católica no século XXI? O Vaticano tem imensos recursos financeiros e inúmeros documentos históricos que continuam por revelar. A Igreja tem de mudar, ser mais transparente, para se aproximar das pessoas? Absolutamente. A Igreja Católica, e a sua liderança, não é credível. Podem falar o que quiserem sobre coisas bonitas, mas as pessoas não vão prestar muita atenção. O poder da Igreja costumava ser o medo,

“Esse tipo de coisas, como a proibição dos preservativos, é baseada numa biologia muito limitada.”

caso contrário as pessoas iam para o inferno. As pessoas já não acreditam nisso, a educação está a tornar-se algo universal e já não prestam atenção a todos os homens celibatários que falam sobre mulheres. Isso não faz sentido. Temos de ter uma Igreja menos clerical e mais ouvinte, e que esteja ligada com a ciência contemporânea e o seu pensamento. Muita da imoralidade de que se fala baseia-se em má ciência e má biologia. Temos de compreender a evolução biológica, compreender a astrofísica, a medicina contemporânea e só podemos oferecer acompanhamento se estivermos a par destas evoluções, ao invés de sermos críticos ignorantes, como muitas vezes acontece. O Papa Francisco, aliás, já alterou bastante o seu discurso em relação ao HIV e o uso de preservativos. Sim. Esse tipo de coisas, como a proibição dos preservativos,

O Papa Francisco acaba o seu pontificado em Março deste ano. Quem poderá ser o próximo Papa? Tem havido grandes mudanças. Francisco intitula-se como Bispo de Roma, mas na verdade é, de certa forma, bispo de todas as igrejas. Nesta igreja global não temos apenas italianos a tornarem-se bispos de Roma, pois é uma posição que está aberta a todas as nacionalidades, e este é um grande desenvolvimento na história da Igreja, e é irreversível. É possível que haja um bispo africano. Se pudesse escolher, seria um papa filipino, o actual arcebispo de Manila, Luís António Tagle, pois penso que continuará o legado de Francisco. Peter Turkson, do Gana, poderia ser outra hipótese, ou até americano, Joseph Tobin, o que seria uma escolha óptima, não relacionada com questões políticas. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


4 política

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TIAGO ALCÂNTARA

Outra questão controversa prende-se com regras, como a tipologia e área das fracções, que de acordo com a proposta de lei devem ser definidas por regulamento administrativo. Neste capítulo, Ho Ion Sang revelou que é um assunto que está a “ser discutido nas reuniões técnicas entre as assessorias das duas partes”. A prioridade dos deputados é defender a coerência de hierarquia de normas jurídicas e a concordância com a Lei Básica. Raimundo do Rosário mantém-se inflexível quanto a esta matéria. “A nossa posição em relação à tipologia e área das fracções, que acho que está mais ou menos ultrapassada, é que deve ficar para regulamento administrativo”, comenta o secretário.

HABITAÇÃO SOCIAL GOVERNO QUER CANDIDATOS MAIORES DE 23 ANOS

Idade da residência

A discussão na especialidade do regime jurídico da habitação social originou um debate aceso entre membros do Governo e deputados. Em questão esteve a idade mínima para as candidaturas ao benefício em questão. Executivo fixou em 23 anos, limite que deixa muitas dúvidas aos deputados

U

M pouco por todo o mundo a maioridade, no que toca a direitos e deveres, é definida entre os 18 e os 21 anos. Por cá, o Executivo pretende que a idade mínima do candidato à habitação social enquanto membro de agregado familiar passe de 18 para 23 anos. De acordo com Ho Ion Sang, presidente da comissão permanente que discute

na especialidade a lei que regula a matéria, os membros do Governo justificaram o aumento da idade por questões de “utilização racional de recursos e para evitar abusos na habitação social”. Uma das razões do Executivo prende-se com jovens que se candidatam durante o início do ensino superior, quando ainda não têm rendimentos, mas que quando as fracções ficam disponíveis já não se

encontram em situação de carência económica. Porém, os argumentos do Governo não convenceram os legisladores. “O aumento da idade suscitou dúvidas entre os deputados, tanto aqui na comissão como em plenário aquando da aprovação na generalidade, além disso, há pessoas entre os 18 e 23 anos e isso cria um tratamento injusto e pode gerar discriminação”, explica Ho Ion Sang.

Este artigo motivou um “debate aceso”, de acordo com o presidente da 1ª comissão permanente, que acrescentou ainda que “os 18 anos são o critério normal de maioridade”. É a idade em que a pessoa “tem a capacidade plena do exercício dos seus direitos, é uma idade padrão”. Ho Ion Sang revelou que a comissão a que preside analisou este “critério sobre a perspecti-

va do direito comparado”, nomeadamente os casos de Portugal, Hong Long e Taiwan.

ESGRIMA DE ASSESSORES

A discórdia entre legisladores e membros do Governo chegou ao ponto da decisão quanto ao requisito da idade ter sido adiada para o fim dos trabalhos em especialidade. “Vamos suspender este ponto e continuar na próxima reunião a ver os outros artigos. Após uma manhã a debater, os senhores deputados ficaram a saber das nossas razões e nós ficámos a saber as deles e no fim voltaremos outra vez a este artigo”, revelou Raimundo do Rosário à saída da reunião. Outra questão de critério que originou esgrima de argumentos prendeu-se com a eliminação do texto da proposta de lei da necessidade do candidato ter residido sete anos em Macau, um critério redundante uma vez que só se podem candidatar residentes permanentes.

“O aumento da idade suscitou dúvidas entre os deputados, além disso, há candidatos a habitação social com idades entre os 18 e 23 anos e isso cria um tratamento injusto e pode gerar discriminação.” HO ION SANG DEPUTADO

O membro do Governo entende que alguns deputados confundem habitação económica e social. “Eu vim para esta reunião e nem sequer trouxe uma cópia da lei da habitação económica, são duas coisas completamente diferentes”, revela. Raimundo do Rosário entende que como a habitação social é um benefício social dado pelo Governo, deve ser o próprio Governo a regular administrativamente os detalhes, como as áreas das fracções. João Luz

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GRANDE BAÍA INDÚSTRIAS LOCAIS SEM MEIOS PARA COMPETIR

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ACAU não tem indústria capaz de competir dentro do projecto da Grande Baía. Mais grave ainda é correr o risco de levar as que tem à falência caso não venham a ser tomadas medidas. A ideia foi deixada pelo deputado Si Ka Lon em interpelação escrita. “Nos últimos anos o Governo tem

impulsionado a diversificação da economia local e avançou até com vários planos de desenvolvimento que tiveram alguns resultados”, começa por dizer. Mas, a insuficiência de recursos, nomeadamente de terrenos, não permite a muitas indústrias irem mais longe”, refere o deputado, sendo que há residentes

preocupados que estas empresas percam um lugar no projecto da Grande Baís por não possuírem condições de competitividade. “Estas industrias locais não vão conseguir ter vantagem no projecto inter-regional podendo mesmo, algumas delas, deixar de conseguir sobreviver”, aponta.

O próprio acordo assinado em Julho relativo ao reforço da cooperação entre Guandong, Hong Kong e Macau e a promoção da construção da Grande Baía, não contempla o território como fonte de industrial, refere Si Ka Lon. O documento sublinha outra função de Macau: o de plataforma e de base.

O deputado quer saber quais os planos do Governo para mudar a situação e desenvolver em Macau alguma indústrias capazes de integrar a Grande Baía e com capacidade para competir. V.N.


política 5

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CASO SULU SOU VONG HIN FAI E KOU HOI IN NEGAM COMPETÊNCIAS A TRIBUNAIS

Seja feita a nossa vontade

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ONG Hin Fai e Kou Hoi In apresentaram uma proposta para declarar que a Assembleia Legislativa não reconhece aos tribunais poderes para verificar se os procedimentos legais foram cumpridos no processo de suspensão de Sulu Sou. A proposta inclui todos os procedimentos de suspensão e perda de mandatos no futuro e desde 1999 e foi apresentada na quarta-feira. A votação em Plenário vai decorrer na terça-feira, ou seja, no mesmo dia em que começa o julgamento de Sulu Sou. “A presente resolução vem confirmar que as deliberações do Plenário que sejam relativas à suspensão ou perda do mandato de um deputado são actos de natureza política, que estão excluídos do contencioso administrativo, fiscal e aduaneiro, sendo que estas mesmas deliberações não podem ser também sujeitas ao regime de suspensão de eficácia de actos administrativo”, pode ler-se na nota justificativa.

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ACAU pode vir a ser uma ditadura e o lei da cibersegurança, que se encontra em consulta pública, será responsável pela situação. Esta é a ideia deixada pelo ex-dirigente da Associação Novo Macau (ANM), Jason Chao, num comunicado enviado à comunicação social. Mais: trata-se de um regime que “vai proteger os que estão no poder e atentar contra a população em geral”, refere. Jason Chao deixa alguns exemplos que considera de importância maior. O ex-responsável pela ANM salienta a situação dos media. Sendo um sector incluído

ANTÓNIO FALCÃO

Deputados apresentaram proposta a reforçar que os tribunais não têm competência para verificar legalidade dos processos de suspensão e perda de mandatos. Leonel Alves afirma que a proposta parece um “acto de nervosismo” e que a Assembleia está a querer substituir-se aos tribunais

O projecto de resolução assinado pelos deputados, que se mostraram incontactáveis ao longo de ontem, foi entregue um dia antes do prazo definido para a Assembleia Legislativa responder ao recurso entregue por Sulu Sou no Tribunal de Segunda Instância. O deputado democrata pediu ao tribunal que analise se todos os procedimentos legais foram cumprido no processo que conduziu à sua suspensão.

“A proposta não impede o juiz de apreciar a questão, mas influencia a apreciação do tribunal, se ele for susceptível a estas influências” LEONEL ALVES, ADVOGADO E EX-DEPUTADO

Os deputados Kou Hoi In e Vong Hin Fai são o presidente e secretário, respectivamente, da Comissão de Regimento e Mandatos,

que optou por não emitir uma opinião sobre se Sulu Sou devia ser suspenso. Uma posição contestada na altura pelo deputado

Com a ditadura à porta

Jason Chao considera que lei da cibersegurança protege os poderosos

no que o documento define como “estrutura crítica”, a proposta em consulta classifica as empresas de comunicação social como alvo de monitorização. Como em outras estruturas críticas, as autoridades podem ter acesso às instalações das empresas do sector, o que vai dar acesso a dados confidenciais, como é o caso das fontes. A medida vai ainda permitir o controlo dos conteúdos noticiosos, alerta Jason Chao, “o que

vai levar Macau a uma ditadura total”.

NA PRAÇA PÚBLICA

Quanto à protecção de dados pessoais, o cenário continua a ser “vergonhoso”, aponta o ex-dirigente da ANM, sendo que o Gabinete de Protecção de Dados Pessoais (GPDP) não está a garantir a protecção de informação que foi “legislada previamente tendo em conta uma sociedade autónoma e livre de vigilância governamental”. Visto que o contexto não é o mesmo, é

necessário, se não urgente, diz o pró-democrata, proceder a uma revisão da leis referentes à protecção de dados e cabe ao GPDP avançar. Para Jason Chao, quando o Governo argumenta que o objectivo da lei da cibersegurança é a prevenção de

José Pereira Coutinho, que considerou que a comissão não cumpriu com as suas competências. Contudo, a proposta de resolução, e ao contrário das leis, só produz efeitos interno, ou seja, vincula a Assembleia Legislativa, mas não os externos, como os tribunais o Governo.

“ACTO DE NERVOSISMO”

Em declarações ao HM, o advogado e ex-deputado,

ataques cibernéticos, “as pessoas devem ter consciência que é uma forma de monitorizar o tráfego na internet e desta forma invadir a privacidade de cada um”. O documento propõe ainda o controlo dos antecedentes de pessoas com cargos de responsabilidade, nas estruturas críticas, tendo em conta as qualificações e a experiencia profissional e dá uma lista de

Leonel Alves, considerou que com esta proposta a Assembleia Legislativa está a substituir-se aos tribunais: “Essa resolução significa que a Assembleia substituiu o tribunal. O tribunal é que deve pronunciar-se se esses actos são sindicáveis. Não deve ser a Assembleia, num gesto que parece uma espécie de autodefesa prévia, a dizer que os actos são de natureza política logo são insusceptíveis de sindicância”, explicou Leonel Alves. Por outro lado, o advogado recordou a separação de poderes vigente em Macau e definiu o acto como pressão sobre os tribunais: “Nós temos três poderes [Executivo, Legislativa e Judiciário], não seria muito cordial o próprio órgão que tomou a decisão pronunciar-se sobre este assunto, devia ser relegado para os órgãos judiciais. Indirectamente, esta proposta exerce uma pressão sobre os tribunais”, começou por dizer sobre este aspecto. “A proposta não impede o juiz de apreciar a questão, mas influencia a apreciação do tribunal, se ele for susceptível a estas influências”, acrescentou. Leonel Alves revelou igualmente dificuldades para encontrar uma justificação para a proposta: “Parece-me um acto de nervosismo”, disse. “Se estivesse na Assembleia Legislativa votaria contra. Não faz qualquer tipo de sentido”, concluiu. João Santos Filipe

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critérios de desqualificação “o que pode ser um perigo”. “As directrizes são ambíguas e dependem das interpretações. Como tal, pode conferir às autoridades o poder de desaprovarem quem entenderem”. Para Jason Chao, o mínimo seria ter um conjunto de critérios objectivamente mensuráveis e que não deixassem duvidas a qualquer tribunal. Mas as medidas não são para todos. O acesso a dados é para a população em geral e de fora ficam as próprias autoridades, o que, de acordo com Jason Chao, é mais uma forma de “proteger os poderosos”. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo


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EDITAL

Edital n.º :1/E-OI/2018 Processo n.º :1470/OI/2007/F Assunto :Demolição de obra não autorizada pela infracção às disposições do Regulamento Geral de Construção Urbana (RGCU) Local :Avenida de Sidónio Pais n.º 35, Edf. Chang Tak, parte do terraço sobrejacente à fracção 5.º andar A (CRP: A4), Macau. Li Canfeng, Director da Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), faz saber que ficam notificados o dono da obra ou seu mandatário e os utentes do local acima indicado do seguinte: 1. Na sequência da fiscalização realizada pela DSSOPT, apurou-se que no local acima indicado realizou-se a obra não autorizada abaixo indicada, a qual infringiu o disposto no n.º 1 do artigo 3.º do Decreto-Lei n.º 79/85/M (RGCU) de 21 de Agosto, alterado pela Lei n.º 6/99/M de 17 de Dezembro e pelo Regulamento Administrativo n.º 24/2009 de 3 de Agosto, pelo que a mesma é considerada ilegal: 1.1 2.

Obra Renovação das telhas cerâmicas na camada para isolamento térmico da parte do terraço sobrejacente à fracção.

De acordo com os artigos 93.º e 94.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, foi realizada, no seguimento de notificação por edital publicado nos jornais em língua chinesa e em língua portuguesa de 5 de Junho de 2017, a audiência escrita dos interessados, mas estes não apresentaram qualquer resposta no prazo indicado e não foram carreados para o procedimento elementos ou argumentos de facto e de direito que pudessem conduzir à alteração do sentido da decisão de ordenar a demolição da obra não autorizada acima indicada. 3. Assim, nos termos do artigo 52.º do RGCU, por despacho de 8 de Janeiro de 2018 , exarado sobre a informação n.º 10371/ DURDEP/2017, ordena ao dono da obra ou seu mandatário que proceda, por sua iniciativa, no prazo de 15 dias contados a partir da data da publicação do presente edital, à demolição da obra acima indicada e à reposição do local afectado, devendo, para o efeito e com antecedência, apresentar nesta DSSOPT o pedido da demolição da obra ilegal, cujos trabalhos só podem ser realizados depois da sua aprovação. A conclusão dos referidos trabalhos deverá ser comunicada à DSSOPT para efeitos de vistoria; ou nos termos do artigo 53.º do mesmo decreto-lei, ordena aos mesmos que apresentem à DSSOPT, no prazo de 8 (oito) dias contados a partir da data de publicação do presente edital, o projecto de legalização da respectiva obra com os elementos necessários, com vista à avaliação da possibilidade da sua legalização. 4. Findo o prazo estipulado, não será aceite qualquer pedido de demolição ou de legalização da obra acima mencionada. De acordo com o n.º 2 do artigo 139.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 57/99/M, de 11 de Outubro, notifica-se ainda que nos termos do artigo 56.º do RGCU, findo o prazo referido, a DSSOPT, em conjunto com outros serviços públicos e com a colaboração do Corpo de Polícia de Segurança Pública, procederá à execução dos trabalhos acima referidos, sendo as despesas suportadas pelos infractores, sem prejuízo da aplicação de multas ao abrigo das leis aplicáveis e da eventual responsabilidade civil ou criminal a imputar aos mesmos. Além disso, findo o prazo da demolição e da desocupação voluntárias, a DSSOPT dará início aos trabalhos de demolição e de desocupação, os quais, uma vez iniciados, não podem ser cancelados. 5. Nos termos do n.º 1 do artigo 65.º do RGCU, os infractores são sancionáveis com multa de $1 000,00 a $20 000,00 patacas. 6. Nos termos dos artigos 145.º e 149.º do Código do Procedimento Administrativo, os interessados podem apresentar reclamação no prazo de 15 (quinze) dias contados a partir da data da notificação. 7. Nos termos do n.º 1 do artigo 59.º do RGCU, da decisão referida no ponto 3 do presente edital cabe recurso hierárquico necessário para o Secretário para os Transportes e Obras Públicas, a interpor no prazo de 15 dias contados a partir da data da notificação. RAEM, 8 de Janeiro de 2018 O Director dos Serviços Li Canfeng


política 7

sexta-feira 12.1.2018

As promessas de transformar Macau num lugar habitável referidas nas Linhas de Acção Governativa de 2011 ainda não viram acção. Macau tem cada vez mais problemas de qualidade de ar e água, aterros atulhados e os riscos para a saúde pública aumentam. Majk Soi Kun quer que o Governo diga para quando vai investir num plano que vise tornar o território num sitio em que se possa viver

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AMBIENTE MAK SOI KUN QUER ACÇÕES PARA UMA MACAU HABITÁVEL

Cidade impossível

MA cidade habitável é o pedido do deputado Mak Soi Kun ao Executivo. Macau é ainda um lugar em que, apesar dos esforços e as políticas sucessivas para protecção ambiental estarem na ordem do dia, se mantem um território onde não é saudável nem higiénico viver. A ideia é deixada pelo deputado em interpelação escrita tendo em conta as queixas da população. De acordo com Mak Soi Kun, os problemas de Macau repetem-se

e a cada ano tendem a agravar-se. O deputado detalha e aponta a saturação dos aterros pondo em risco a sua derrocada, a poluição atmosférica com a neblina quase constante e os maus cheiros causados pela poluição da água como situações que representam “uma ameaça à saúde pública”. Apesar das melhorias ambientais no que respeita ao tratamento de resíduos, Mak Soi Kun lamenta que ainda não exista qualquer acção concreta quanto aos problemas que afectam o quotidiano da

população que que interferem na sua qualidade de vida. “Nenhum progresso substancial foi feito na construção de uma cidade habitável”, aponta.

PROBLEMA AGRAVADO

“Nenhum progresso substancial foi feito na construção de uma cidade habitável.” MAK SOI KUN DEPUTADO

Deputados associativos

Song Pek Kei exerce funções honorárias em 43 organizações não lucrativas

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deputada de Fujian acumula o cargo de vice-presidente em várias associações. A saber: a Aliança de Povo de Instituição de Macau, a Associação Geral dos Conterrâneos de Fukien de Macau, a Federação da Juventude de Fukien de Macau, a Fujian Young Women Association of Macau e a Associação de Amizade de Ha Mun de Macau. A informação encontra-se na declaração de rendimentos que a deputada entregou no Tribunal de Última Instância (TUI).

Song Pek Kei é presidente da Macau China Nation Cultural Innovation Association, da Associação Macau Nam An Shishan e exerce funções honorárias em outras 43 organizações não lucrativas. A deputada não declarou qualquer rendimentos oriundos do ramo empresarial, nem participações empresariais. No capítulo das propriedades, Song Pek Kei apenas declarou ao TUI uma fracção predial para uso residencial. O deputado eleito por sufrágio indirecto Ip Sio

Kai, que acumula o cargo na Assembleia Legislativa com vice-presidência da sucursal de Macau do Banco da China declarou ao TUI a propriedade de três fracções habitacionais juntamente com a esposa. Desses imóveis, dois servem para uso próprio, enquanto o outro serve para arrendamento. O casal é dono de quatro lugares de estacionamento, dois dos quais para uso próprio enquanto que os restantes são usados para fins de arrendamento.

O deputado recorda ainda que já em 2011, na apresentação das Linhas de Acção Governativa, a população já levantava esta questão e o Executivo tinha prometido estar atento e proceder a medidas para melhor as condições de habitabilidade do território. Sete anos depois Mak

Ip Sio Kio é ainda presidente da Associação de Bancos de Macau (01/2009-presente), da Associação das Ourivesarias de Macau (01/2013-presente), da Associação de Macau para Promoção e Desenvolvimento Ecológico Chinês (01/2016-presente). O deputado eleito por sufrágio indirecto ocupa a vice-presidência da Associação das Empresas Chinesas de Macau (01/2011-presente), da Associação de Antigos Alunos da Escola Hou Kong (01/2012-presente) e da Associação dos Alunos da Escola Keang Peng Macau (01/2013-presente). João Luz (com V.N.)

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Soi Kun quer saber para quando é que o objectivo pode ser atingido. Por outro lado, há ainda o risco de Macau acabar por ser “uma vítima do desenvolvimento económico e social em que ter uma vida útil e com qualidade passa a estar fora do alcance dos residentes”, lê-se no documento enviado ao Executivo. São necessários esclarecimentos por parte do Governo, refere, e acima de tudo acções, visto que o ambiente em Macau “está constantemente a piorar”. Mak Soi Kun não deixa no entanto de ressalvar outras áreas de natureza ambiental em que o Executivo tem mostrado trabalho feito, nomeadamente no que respeita aos resíduos e aos esforços em enconrar soluções para o seu tratamento.

Metro Um trajecto para gastar dinheiro

Sofia Margarida Mota

sofia.mota@hojemacau.com.mo

“A Linha da Taipa pode estar pronta até ao final do mandato do actual Governo, mas o que é que vai acontecer com a linha de Macau se nem sequer está ainda definida na totalidade?” A questão é colocada pelo deputado Ng Kuok Cheong ao Governo após o anúncio feito pelo secretário dos transportes e obras públicas Raimundo do Rosário acerca da realização de mais um estudo sobre o trajecto do metro ligeiro na península. Para o deputado, a realização de mais uma pesquisa requer mais investimento de dinheiros públicos e, como tal, mais derrapagens orçamentais para um assunto que deveria, neste momento , estar bem definido. Ng Kuok Cheong alerta ainda para os cuidados a ter na linha de metro ligeiro de Macau, nomeadamente na zona da Barra tendo em conta os problemas associados às inundações.


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Depois da tragédia, uma medida: o motorista envolvido no acidente mortal trabalhava a tempo parcial para Nova Era, logo a DSAT suspendeu-os a todos. O caso volta a trazer à baila a falta de mão-de-obra no sector, onde uns são contra e outros a favor da importação de motoristas

A

Direcção de Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) ordenou a suspensão de todos os motoristas de transportes públicos contratados a tempo parcial, devido ao acidente da Rua Xavier Pereira, que envolveu um autocarro da Nova Era. De acordo com um comunicado ontem divulgado, a DSAT “exigiu à empresa a revisão imediata do seu regime de gestão de segurança em vigor e a apresentação, com a maior brevidade possível, do seu plano de melhoria”. O organismo, liderado por Lam Hin San, adiantou também que reuniu, “há dias”, com as concessionárias de autocarros, tendo sido debatidas as questões de segurança da circulação.

Tranca na porta AUTOCARROS

Ontem, à margem de uma reunião com deputados, o secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, explicou que o motorista do autocarro que causou a morte à idosa de 60 anos estava na profissão há pouco tempo. “A reacção imediata é porque o motorista em concreto estava há pouco tempo e trabalhava em regime parcial. [Isso aconteceu] por causa de uma procura maior, pois, como sabem, transportamos diariamente cada vez mais pessoas.” O secretário adiantou que, em média, viajam nos autocarros 580 mil pessoas por dia. “Já houve vários dias deste ano em que ultrapassamos as 600 mil pessoas, é uma grande pressão sobre os autocarros e sobre os motoristas de autocarros.”

DSAT SUSPENDE MOTORISTAS CONTRATADOS A TEMPO PARCIAL

Raimundo do Rosário garantiu que o próximo objectivo é evitar que novos acidentes deste género venham a acontecer. “É uma questão em que não devemos falar, para dizermos uma coisa e depois as companhias de autocarro dizerem coisas diferentes. Todos temos um objectivo comum que é evitar que estas coisas aconteçam.” O governante fez também uma sugestão que passa pela realização de uma reunião. “O melhor é a DSAT e as três companhias sentarem-se e encontrarem uma forma de evitar este tipo de incidentes ou pelo menos encontrar uma forma de melhorar a situação.”

ACIDENTES DIMINUÍRAM

Dados apontados no comunicado da DSAT revelam que os

acidentes de viação envolvendo autocarros até diminuíram em dez por cento o ano passado, tendo-se registado um total de 778 casos. Ainda assim, foi exigido um reforço em termos de segurança. “A DSAT exigiu às companhias de autocarros que tomassem medidas mais apropriadas para reduzir a taxa de ocorrência de acidentes, inclusivamente o reforço da formação dos motoristas, o aumento da sua consciência de segurança da circulação ou a intensificação da fiscalização nos pontos negros.” Também o secretário alertou ontem para a necessidade de uma melhor formação dos que conduzem os autocarros públicos. “Em geral, conduzir um autocarro é uma grande respon-

“Suspensão dos condutores não resolve o problema”

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HIANG Wa Cheong, representante da Associação Geral dos Operários de Autocarros de Macau, referiu que a suspensão dos condutores a tempo parcial não resolve o problema, tendo defendido mais tempo para que se apurem causas e responsabilidades. “Os acidentes acontecem muitas vezes por ne-

gligência, não há intenção. Os acidentes acontecem com os condutores com ambos os condutores, os a tempo inteiro e parcial.” Além disso, “os condutores a tempo parcial são necessários, sobretudo nas horas de ponta”, defendeu. “Ninguém quer que ocorram acidentes rodoviários, que dependem das condições rodoviárias como

se há muitas pessoas ou veículos nas estradas, assim como outros factores”, disse Chiang Wa Cheong Tal como alertou o deputado José Pereira Coutinho, Chiang Wa Cheong é uma das vozes que se mostra contra a contratação de novos motoristas ao exterior. “Os condutores já têm recursos ou treinos suficientes, não é preciso

importar condutores do exterior.” Este considera que motoristas vindos do exterior poderiam piorar o nível de condução, por não conhecerem o território e a rede de tráfego. Chiang Wa Cheong afirmou que 30 condutores da Nova Era, que trabalhavam a tempo parcial, ficaram suspensos, mas não conhece os números

relativos às restantes operadoras. No caso destes motoristas decidirem protestar contra a decisão do Governo, tudo terá de ser ponderado. “Temos de falar com os condutores sobre as solicitações”, concluiu o responsável. A.S.S./J.S.F./V.N.

os motoristas dos autocarros têm de ser experientes, profissionais, bem formados.”

“MENOS EXPERIÊNCIA E DEDICAÇÃO”

Em declarações ao HM, o deputado José Pereira Coutinho congratulou-se com a medida adoptada pela DSAT. Isto porque “a segurança está em primeiro lugar e é preciso rever toda a situação, introduzindo medidas para evitar que casos semelhantes voltem a acontecer”. “Mais vale prevenir do que estar a remediar. Acho que os condutores a tempo parcial têm menos experiência e dedicação, porque tão depressa podem estar a conduzir como a amassar pão nas pastelarias”, referiu. O deputado e presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau alerta também para as condições especiais de condução no território, sendo, por isso, exigida uma maior experiência. “Há de facto questões levantadas por se permitir uma tamanha responsabilidade para condutores sem experiência. Uma pessoa com uma carta nova sente dificuldades em conduzir em Macau devido à estreiteza das ruas, à alta densidade populacional e carros e pelo facto de não haver muito respeito pelas regras de trânsito. Tudo isto somado faz com que a experiência

sabilidade, porque os autocarros transportam muitas pessoas, são dezenas de pessoas. É uma viatura muito pesada, como sabem e como se viu, ontem, em que não foi o autocarro que bateu directamente na senhora. Mas


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TIAGO ALCÂNTARA

conte muito, principalmente nos transportes públicos.”

A FALTA QUE O MOTORISTA FAZ

José Pereira Coutinho lembra, contudo, que a suspensão dos motoristas a tempo parcial levanta uma outra questão: a necessidade de contratação de profissionais no exterior. “A questão crucial tem a ver com o facto de em Macau haver falta de condutor de autocarros. Esta é uma questão velha que tem vindo a ser debatida na Assembleia Legislativa.” Para Pereira Coutinho, “importar condutores seria uma solução, mas não é do agrado das pessoas do sector”. Isto porque poderia haver

“Mais vale prevenir do que estar a remediar. Acho que os condutores a tempo parcial têm menos experiência e dedicação, porque tão depressa x estar a conduzir como a amassar pão nas pastelarias.” JOSÉ PEREIRA COUTINHO DEPUTADO

o risco da queda dos salários, que actualmente se situam entre as 20 e 30 mil patacas. “Como se sabe os não-residentes têm menos garantias, porque muitos não recebem o salário na totalidade que é repartido com as agências de emprego. São autênticos sanguessugas. Era preciso evitar essas questões antes de se pensar em importar não-residentes. Isto acaba por afectar os salários dos condutores locais”, apontou. Por sua vez, o ex-deputado Lau Veng Seng prefere ser prudente quanto a este tema. “É importante não nos precipitarmos para qualquer conclusão só por causa do acidente de ontem. Contudo, um

estudo credível sobre o número de condutores experientes e formados em Macau é necessário para olharmos de forma mais detalhadas sobre o condutores necessários para assumirem estas posições.” Lau Veng Seng, que deixou o hemiciclo o ano passado, lembrou que já vários estudos revelaram que há poucos jovens a conduzir autocarros públicos. E assume que é preciso importar trabalhadores para este sector. “Para reduzir a idade dos condutores temos de assumir duas posturas: a primeira é tentar atrair condutores mais jovens para trabalhar neste sector; o segundo é reconhecer que temos falta de

condutores e que é necessários importar do exterior condutores.” Apesar de considerar que a contratação de pessoas a tempo parcial para conduzirem autocarros “é uma forma de lidar com o problema”, Lau Veng Seng defendeu mais formação para aprender a conduzir este tipo de transporte público. “No passado já se tinha falado na possibilidade de importar motoristas para veículos pesados, mas temos de ter em consideração que a forma de conduzir e os hábitos locais também exigem uma certa formação. É preciso fornecer formações”, rematou. Andreia Sofia Silva e João Santos Filipe (com J.L.) info@hojemacau.com.mo


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L G U N S trabalhadores de jogo da Wynn encontraram-se ontem com os deputados Ella Lei e Leong Sun Iok, ligados à Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), com o objectivo de apresentar uma carta junto ao Governo. O conteúdo da missiva pede uma melhor execução da lei do tabagismo para combater alegados casos de consumo ilegal de tabaco nos casinos. Choi Kam Fu, secretário-geral da Associação de Empregados das Empresas de Jogo de Macau, ligada à FAOM, referiu aos jornalistas que antes de se dirigir ao Governo já tinha solicitado ajuda a outros serviços público, como o Gabinete para a Prevenção e Controlo do Tabagismo e a Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos, mas até ao momento a questão permanece por resolver. Os trabalhadores falam da tolerância que PUB

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Maldito tabaco

Trabalhadores da Wynn queixam-se de tolerância a fumo ilegal

existe da parte das operadoras de jogo. “De acordo com os funcionários, os clientes podem continuar a fumar em espaços comuns de jogo

VIP. Houve fiscais das autoridades que acusaram (os fumadores), o que significa que nessas zonas o fumo de tabaco é proibido. No entanto,

a questão ainda não está resolvida”, contou o secretário-geral. Na carta, refere-se que os funcionários de jogo, quando alertam

os fumadores, não só não têm o apoio das empresas para as quais trabalham como são alvo de críticas e ficam sujeitos a mudanças para que desempenhem trabalhos mais duros. Nesse sentido, Choi Kam Fu pede a colaboração do Governo, para que este exija às operadoras de jogo para cumprirem a lei e deixarem de tolerar os comportamentos indevidos dos clientes. A deputada Ella Lei disse que, desde Outubro do ano passado, apareceram cerca de cem trabalhadores de jogo da Wynn a pedir ajuda junto à FAOM pelos actos de tolerância da operadora. Além disso, uma das solicitações dos trabalhadores está relacionada com a falta de conhecimento sobre as zonas permitidas e proibidas de fumo. A deputada pede uma melhor divulgação dessa informação, a fim de o público poder fiscalizar os actos de fumo ilegal nos casinos. V.N.

BANCA EMPRÉSTIMOS PARA HABITAÇÃO DESCERAM EM NOVEMBRO

O

S novos empréstimos para a compra de casa em Macau caíram 9,8 por cento em Novembro passado relativamente ao período homólogo, mas aumentaram 44,9 por cento em relação a Outubro passado, indicaram dados oficiais hoje divulgados. De acordo com as estatísticas da Autoridade Monetária de Macau (AMCM), os bancos concederam em Novembro 4,1 mil milhões de patacas em empréstimos, dos quais 99,1 por cento a residentes de Macau, mais 48,1 por cento em relação ao mês anterior. Os empréstimos a não residentes em Novembro diminuíram 58,8 por cento para 34,7 milhões de patacas. Os novos empréstimos comerciais para actividades imobiliárias aprovados em Novembro atingiram 6,6 mil milhões de patacas, mais 44,1 por cento em relação ao mês anterior e, em termos de variação homóloga, mais 222,2 por cento, indicou a AMCM. No final de Novembro de 2017, o saldo bruto dos empréstimos hipotecários para habitação correspondeu a 189,2 mil milhões de patacas, enquanto o dos comerciais alcançou 178,6 mil milhões de patacas. O elevado preço da habitação é uma das principais queixas da população de Macau.


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GONÇALO LOBO PINHEIRO

USJ ERIC SAUTEDÉ EXIGE 1.3 MILHÕES E DIZ-SE VÍTIMA DO DESPEDIMENTO

Acerto de contas

O académico Eric Sautedé exige à Universidade de São José 1,3 milhões de patacas no âmbito do seu despedimento. O processo continua pendente desde 2015 e o responsável afirma que a conotação política do caso afastou-o de várias ofertas de emprego Em mais de dois anos, Sautedé e a USJ nunca chegaram a acordo. “Nunca houve um gesto de conciliação da parte da USJ”, adiantou o académico. Sobre este assunto, o reitor da UJS, Peter Stilwell, nada quis dizer ao HM, pelo facto do processo ainda decorrer em tribunal.

O contrato chegou ao fim em Julho desse ano e “foi dado como terminado”, sendo que não tinha termo. Contudo, Eric Sautedé considera que tem algo mais a receber. “Tinha um contrato sem termo, uma vez que sou residente permanente, e fui informado da minha saída com um mês de antecedência, tendo-me sido pago apenas cinco semanas de salário por sete anos de um trabalho respeitável e depois de ter feito o meu papel como cientista político. É por isso que estou a processar a USJ”, apontou. Nas primeiras declarações que deu sobre o

QUESTÕES DELICADAS

Eric Sautedé actualmente radicado em Hong Kong, exige 1,3 milhões de patacas à direcção da USJ por danos morais e materiais

O

despedimento do professor de ciência política Eric Sautedé da Universidade de São José (USJ), em 2014, fez correr muita tinta, mas o livro ainda não chegou ao capítulo final. O académico adiantou ao HM que o processo decorre desde Agosto de 2015 sem que tenha havido qualquer avanço na matéria.

Eric Sautedé, actualmente radicado em Hong Kong, exige 1,3 milhões de patacas à direcção da USJ por danos morais e materiais. “Estou a processá-los por me terem despedido sem justa causa e por, depois disso, terem apresentado inúmeras razões à imprensa. Claro que também os processo por discriminação, com uma natureza política, e por violarem a Lei Básica”, explicou.

Nos trabalhos de salvamento e de reparação na sequência dos estragos provocados pelo tufão Hato houve companhias da construção civil que pediam valores demasiado alto pelos trabalhos feitos. Ainda assim, foram excepção. De acordo com o Jornal Ou Mun, a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT) revelou que a maioria das empresas deu contributos voluntários, poucas exigiram pagamento em valor razoável e apenas muito poucas elevaram o valor da conta. A DSSOPT reconhece que após a passada catástrofe natural foi apoiada por mais de 300 empresas do ramo da construção civil.

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RÓMULO SANTOS

Hato DSSOPT revela que empresas de construção ajudaram em salvamentos

Outro dos argumentos utilizados por Eric Sautedé prendem-se com o impacto que o caso teve na sua vida profissional, “sobretudo depois de Peter Stilwell ter indicado [que o despedimento] se deveu a razões políticas”. “Isso eliminou as minhas possibilidades de encontrar outro trabalho. Na verdade duas universidades não me aceitaram apesar de ser altamente recomendado por dois docentes para dar aulas a tempo parcial. Uma delas chegou mesmo a pôr fim ao acordo inicial que tínhamos feito para me contratar para docente a tempo inteiro. Estava apenas à espera do contrato”, frisou. Em Junho de 2014, o padre e reitor Peter Stilwell confirmava ao jornal Ponto Final a saída de Eric Sautéde. “Trata-se de clarificar as águas. Há um princípio que preside à Igreja de que não intervém no debate político dos locais onde está implementada”.

assunto, Peter Stilwell disse que a saída de Eric Sautedé tratou-se de “uma questão interna”, tendo adiantado que “a decisão é da exclusiva responsabilidade da universidade”. “Se há um docente com uma linha de investigação e intervenção pública [política], coloca-se uma situação delicada. Ou a reitoria pressiona e viola a sua liberdade, ou cada um segue o seu caminho”, referiu Stilwell. O reitor da USJ esclareceu também que a saída foi o resultado de um “processo longo em que foi dado a entender ao Dr. Éric que a

situação era cada vez mais delicada para a universidade”. “Pode-se estudar os vários sistemas políticos ou a Lei Básica, mas não intervir na actual governação. É uma fronteira difícil de delinear, entre o comentário político e o académico”, frisou Stilwell. “Falamos de um docente que está há sete anos na universidade, não completou o seu doutoramento e está a colocar a universidade numa situação delicada. Temos de ver o modo como a universidade é percepcionada”, concluiu o reitor. Andreia Sofia Silva

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Capítulo inaugur FESTIVAL ROTA DAS LETRAS ANUNCIA OS PRIMEIROS NOMES PARA CARTAZ DESTE ANO

A organização do Festival Literário de Macau - Rota das Letras 2018 anunciou os primeiros nomes de convidados da edição que dec Março. A edição que se avizinha terá a presença de Ana Margarida de Carvalho, Julián Fuks, Rosa Montero, Peter Hessler, Leslie T.

Ana Margarida de Carvalho

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edição 2018 do Festival Rota das Letras já mexe com o anúncio dos nomes dos primeiros convidados para o cartaz deste ano. De Portugal vem Ana Margarida de Carvalho, jornalista, escritora e autora de guiões de cinema e uma peça de teatro. A portuguesa, filha do escritor Mário de Carvalho, estreou-se no romance em 2013 com o livro “Que Importa a Fúria do Mar”.

Julián Fuks

A obra inaugural de Ana Margarida de Carvalho viria a ganhar por unanimidade o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores. A escritora e jornalista viria a repetir o feito com o seu segundo livro, “Não Se Pode Morar nos Olhos de um Gato”, que foi, simultaneamente nomeado pela Sociedade Portuguesa de Autores e pelo PEN Club. O livro publicado no ano passado venceu ainda o prémio Manuel Boaventura e foi finalista do Prémio Oceanos.

Rosa Montero

Do Brasil directamente para o Edifício doAntigo Tribunal de Macau chega o escritor e crítico literário Julián Fuks, autor de “A Resistência” publicado em 2015 e que venceu o Prémio Jabuti, o Prémio Saramago e que ficou em segundo lugar no Prémio Oceanos. O autor brasileiro escreveu ainda “Procura do Romance” e “Histórias de Literatura e Cegueira”. Da Espanha vem Rosa Montero, que trabalhou como repórter desde 1970 e que ainda publica no El País e em

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA YES IS MORE • Vários Autores

“Yes is More” é um manifesto radical de fácil acesso da filosofia de arquitectura de Jack Bjarke Ingeles Group, mais conhecido por BIG, sediado em Copenhaga. Ao contrário das tradicionais monografias de arquitectura, esta obra utiliza o formato dos livros “comics” para expressar a sua agenda radical para a arquitectura contemporânea. É, simultaneamente, uma primeira expressão documental das práticas do BIG´S, comtemplando métodos, processos, ferramentas e instrumentos, e onde os conceitos são constantemente postos em causa e redefinidos. Os projectos BIG´s ganharam prémios da academia real das artes, o premio especial do júri na bienal da arquitectura de Veneza, bem como muitos outros prémios Internacionais.

publicações daAmérica Latina. A jornalista espanhola estreou-se no romance em 1979 com “Crónica do Desamor”. Desde então, publicou 15 romances, duas biografias, três colecções de entrevistas, um livro de contos e várias obras para crianças. Os seus livros estão traduzidos em mais de 20 idiomas, sendo que o mais recente, de 2016, é “A Carne”.

ESCRITA INTERIOR

Como é habitual, o Rota das Letras dá destaque a autores

A Yi

de língua chinesa. A edição deste ano trará a Macau A Yi, que integrou a lista dos “20 autores abaixo dos 40” da revista UNITAS. O escritor, cujo temperamento tem ganho alguma fama, foi agente policial, trabalhou em secretariado e foi editor antes de se dedicar a sério à ficção. Com uma obra marcada pela predominância dos contos, A Yi tem vincado a sua personalidade enquanto escritor através de um estilo literário algo bizarro e uma vi-

são do mundo desapaixonada e isenta de sentimentalismos. O chinês foi distinguido como um dos 20 autores mais promissores da China pela People’s Literature e venceu o Prémio Revelação dos Prémios da Imprensa de Literatura Chinesa. O prolífero autor Han Dong é outro dos convidados oriundo da China Continental e que fará parte do cartaz da edição deste ano do Rota das Letras. O autor tem uma carreira longa com mais de

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sexta-feira 12.1.2018

ral

corre entre 10 e 25 de T. Chang e Han Dong 40 romances, colectâneas de contos, poesia e ensaios. Han Dong, escreveu igualmente séries de televisão e cinema. Aliás, na qualidade de argumentista e realizador, Han Dong teve o seu filme In the Dock em competição no 22º Festival Internacional de Cinema de Busan e no 1º Festival de Cinema de Pingyao.

Como é habitual, o Rota das Letras dá destaque a autores de língua chinesa. Os primeiros nomes de chineses da edição deste ano são A Yi e Hon Dong No primeiro lote de nomes revelados pela organização do evento há também um norte-americano, Peter Hessler, que viveu dois anos em Fuling, uma pequena cidade afectada pelo projecto da Barragem das Três Gargantas, experiência que inspirou a sua obra inaugural “River Town: Two Years on the Yangtze”. O livro faz parte de uma trilogia que reflecte os 11 anos que o norte-americano viveu na China, onde se inclui “Oracle Bones” e “Country Driving”. Neste naipe dos primeiros nomes anunciados está ainda a norte-americana Leslie T. Chang e Victor Mallet. A lista completa de convidados e respectivo programa da sétima edição do Festival Literário de Macau - Rota das Letras serão apresentados no início de Fevereiro de 2018. João Luz

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mais recente projecto da associação Art Fusion vai ser divulgado este fim-de-semana. A iniciativa integra a programação do festival Fringe e traz as interpretações e personificações dos alunos da associação tendo por base as pinturas de Juan Miró. São cinquenta fotografias, um mural, performances e workshops, tudo muito colorido e feito através da interpretação de cada aluno da Art Fision, das pinturas do artista espenhol. O projecto começou há ano e meio. Laura Nyögéri, responsável pela associação, estava a fazer uma viagem em França, e em Lyon conheceu uma loja com tapeçarias todas inspiradas na obra de Juan Mirá. Se já era apreciadora da obra, ficou ainda mais e regressou inspirada.

Depois de muita pesquisa encontrou uma exposição que Miró tinha feito em Denver intitulada “Instinto e imaginação”. O nome ficou registado e o trabalho com crianças e jovens com estes princípios como orientação, pareceram os mais adequados. “Os próprios conceitos utilizados por Miró remetem

Personificar pinturas

Art Fusion com projecto inspirado em Juan Miró

muito para o mundo infantil, para a simplicidade, a imaginação”, disse ao HM.

RECRIAR CORES E FORMAS

A partir daí o trabalho não parou. “Explorámos vídeos, imagens e interpretações e o mais interessante de perceber em todo o processo criativo foi que quanto mais novo o aluno era mais elaborada a interpretação dos quadros”, sublinha. Depois de uma temporada de análise e observação, Laura Nyögéri escolheu 100 pinturas para que cada um dos participantes escolhesse a sua favorita. “cada um explorou o quadro escolhido de várias formas, por exemplo, como é que, dentro dos cinco sentidos, cada um sentia a imagem escolhida”, referiu. “Baseado no quadro e no grafismo escolhido foi feita a sessão fotográfica que pelo Francisco Silva, que deu origem às cinquenta imagens que estão em exposição”. Para que o trabalho tivesse uma ligação ao oriente, os pauzinhos foram os objectos escolhidos para completar o figurino. “Utilizámos os pauzinhos nos penteados com algumas colagens e algumas

bolas para que estivesse um elemento da Ásia. Afinal, é um projecto de cá e desenvolvido em Macau”, apontou a responsável. Os cuidados foram também tidos na edição das imagens. “O objectivo é que quando as pessoas olham, possam ter a sensação de que estão a olhar para um quadro. Para isso utilizámos cores mais garridas por exemplo”, explica. A exposição é acompanhada por um mural e por performances com estátuas vivas em que algumas das representações das fotografias vão ocupar o espeço e integrá-lo”, completa.

ARTE PARA TODOS

Mas as actividades ligadas ao projecto não se ficam por aqui. “Vamos ter também PUB

dois workshops abertos a toda a comunidade”, disse. No sábado, das duas às sete da tarde a oficina é dedicada aos maiores de 16 anos e com alguma experiencia em artes performativas e a ideia é explorar o lado artístico naqueles que já o têm fomentado. No dia seguinte, à mesma hora, o workshop é dedicado aos mais novos, dos 6 aos 15 anos. As actividades vão decorrer nos mesmos moldes que todo o processo: “primeiro

trabalhamos o grafismo e o movimento, depois os participantes escolhem um quadro e os símbolos que querem ver pintados. Passamos à criação dos figurinos e por último vão fazer uma sessão fotográfica como a que foi feita para o restante projecto”, explicou a responsável. Sofia Margarida Mota

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China protestou ontem contra críticas de uma ministra australiana de que os programas de assistência financeira de Pequim a países insulares pobres no Pacífico estão a criar “elefantes brancos”, que ameaçam a estabilidade económica sem gerar benefícios. A ministra da Austrália para o Desenvolvimento Internacional e para o Pacífico, Concetta Fierravanti-Wells, disse a um jornal australiano que a China está a emprestar dinheiro a países do Pacífico em “condições desfavoráveis”, visando construir “edifícios inúteis” e “estradas para lado nenhum”. “O Pacífico está cheio destes edifícios inúteis, que nenhuma entidade preserva, e são basicamente elefantes brancos”, disse Fierravanti-Wells, numa entrevista publicada na quarta-feira. A ministra australiana acrescentou que suportar o endividamento constitui uma ameaça significativa para a estabilidade económica dos países do Pacífico. “Nós trabalhamos em cooperação com a China e encorajamos a China a utilizar o seu apoio ao desenvolvimento de forma produtiva e efectiva”, disse. “Não queremos construir algo só por construir. Não queremos construir estradas que vão para lado nenhum”, afirmou.

PROTESTO CONTRA AUSTRÁLIA POR CRÍTICAS A EMPRÉSTIMOS A PAÍSES DO PACÍFICO

Telhados de vidro O porta-voz do ministro chinês dos Negócios Estrangeiros Lu Kang afirmou ontem que os comentários de Fierravanti-Wells “demonstram pouca atenção pelos factos e são apenas irresponsáveis”. A China apresentou, entretanto, um protesto formal

ao governo australiano, revelou Lu. “Por muito tempo, com base no respeito absoluto pela vontade dos governos dos países insulares do pacífico e dos seus povos, e tendo em conta as suas necessidades de desenvolvimento, a China tem oferecido enorme

Empréstimo a Angola vai nos 60 mil milhões de dólares Desde que os dois países estabeleceram as relações diplomáticas há 35 anos, a China já cedeu à Angola cerca de 60 mil milhões de dólares em empréstimos. Cui Aimin, embaixador da China em Angola, num artigo publicado ao Jornal de Angola, esclarece que o montante destinou-se à construção de inúmeras infra-estruturas incentivando o desenvolvimento económico e a melhoria da vida do povo de angolano. O embaixador recorda ainda, que no final de 2016 foi realizado em Luanda o Fórum de Investimento China-Angola, que resultou na celebração de 48 acordos de intenção de investimento,

no valor total de 1200 milhões de dólares. “Têm-se aperfeiçoado também os mecanismos de cooperação, nomeadamente da Comissão Orientadora da Cooperação Económica e Comercial entre a China e Angola, tendo a parte chinesa fornecido formação a mais de 2500 quadros angolanos e concedido 300 bolsas de estudo”, lê-se no artigo. Passado 35 anos de relacionamento bilateral, Cui Aimin afirma que as relações sino-angolanas melhoraram muito sendo um exemplo da cooperação de benefícios mútuos e desenvolvimento comum entre a China e os países africanos.

assistência”, comentou Lu. “Esperamos que certas pessoas na Austrália façam alguma reflexão, em vez de apontarem o dedo e fazerem comentários irresponsáveis sobre outros países”, acrescentou. O problema diplomático surge depois de, no

SUSPENSO RESGATE A PETROLEIRO DEVIDO A EXPLOSÃO

China vai continuar a comprar dívida dos EUA O regulador nacional de divisas da China desmentiu ontem que o país tencione reduzir ou deixar de comprar títulos do tesouro norte-americano, afirmando que aquela notícia é “falsa” ou teve “fontes erradas”. A Administração Estatal de Divisas Estrangeiras do país reagiu assim aos artigos publicados na quartafeira por alguns órgãos internacionais, que avançaram que a China estava a considerar reduzir ou mesmo parar de

adquirir dívida dos EUA, porque esta se estava a tornar menos atractiva. Aquelas informações resultaram numa queda nos preços dos títulos do tesouro norteamericano e do valor do dólar, e uma subida na cotação do ouro. As reservas cambiais da China, as maiores do mundo, aumentaram em Dezembro 20.700 milhões de dólares, fixando-se em 3,14 biliões de dólares. A China é um dos maiores detentores de dívida dos EUA.

mês passado, a China ter protestado contra a decisão da Austrália de banir a interferência estrangeira da sua política doméstica, uma decisão motivada em parte pela crescente influência internacional de Pequim. O ministério dos Negócios Estrangeiros chinês disse

então que a decisão revelava preconceito para com a China e que envenenou as relações entre Pequim e Camberra. A China é o maior parceiro comercial da Austrália e a proximidade do país a Pequim afectou as suas relações com os Estados Unidos, principal aliado australiano em matérias de Defesa. A China transferiu pelo menos 1,8 mil milhões de dólares em assistência ou empréstimos a países do Pacífico nos últimos dez anos, segundo estimativas australianas.

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S autoridades marítimas chinesas suspenderam ontem as operações de resgate e combate ao fogo num petroleiro ao largo da costa de Xangai devido a uma explosão registada a bordo do

navio, informou um responsável governamental. O ministério dos Transportes chinês adiantou que as embarcações envolvidas nas operações de resgate retiraram-se para uma distância segura após a explosão que se fez sentir na popa do Sanchi, que já motivou uma operação multinacional para extinguir o fogo e resgatar os mais de 30 tripulantes ainda dados como desaparecidos. O navio continua em chamas, informou o ministério. As autoridades chinesas já tinham avisado que o petroleiro poderá explodir e afundar-se, o que poderia causar um desastre ambiental. O Sanchi transportava quase um milhão de barris de condensado, um tipo de petróleo ultra-leve (usado na produção de gasolina, diesel, jet fuel e combustível para aquecimento), quando colidiu no sábado à noite com um cargueiro a 257 quilómetros (160 milhas)

da costa. O navio incendiou-se e as operações de resgate têm sido dificultadas por chamas intensas, mau tempo e má visibilidade. Toda a tripulação do Sanchi, navio registado no Panamá, está desaparecida desde a colisão com o cargueiro chinês CF Crystal. A tripulação inclui 30 iranianos e dois marinheiros do Bangladesh. Na terça-feira, as equipas de resgate encontraram um corpo que pensam ser de um dos marinheiros do petroleiro - operado pela Companhia Nacional de Petroleiros do Irão (NITC). A empresa informou que existe uma possibilidade de os tripulantes estarem presos na sala das máquinas do navio. “Uma vez que a sala das máquinas do navio não está a ser directamente afectada pelo fogo e situa-se a cerca de 14 metros debaixo de água, ainda há esperança”, disse à Associated Press o porta-voz da NITC, Mohsen Bahrami.


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sexta-feira 12.1.2018

PEQUIM CRITICA EUA POR TRAVAREM AQUISIÇÃO DO MONEYGRAM

China comenta sobre construção de base militar no Paquistão O Ministério das Relações Exteriores chinês negou que o seu país tencione construir uma base militar no Paquistão. Ao longo dos últimos dias, os media internacionais especularam acerca da construção de uma base militar chinesa no Paquistão após relações do país com os Estados Unidos terem arrefecido. “Não conheço essa situação que menciona”, disse o porta-voz do ministro das Relações Exteriores quando perguntado acerca das especulações da imprensa, segundo as quais a China estaria a construir uma base naval próxima do porto de Gwadar, no Paquistão, considerado uma área estratégica da região. A China abriu a sua primeira base militar fora de seu território no Djibouti, na região conhecida como Corno da África, em Agosto de 2017.

Mercado, qual mercado?

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Governo chinês criticou ontem os Estados Unidos por usarem a “chamada segurança nacional” como argumento para bloquear a aquisição do serviço de transferências monetárias MoneyGram por uma firma chinesa. Um porta-voz do ministério chinês do Comércio disse hoje que a oferta de uma subsidiária do gigante chinês do comércio eletrónico Alibaba pelo MoneyGram era “um investimento comercial normal”. Porém, a empresa não conseguiu, na semana passada, a autorização do Comité para o Investimento Externo dos EUA para concretizar a venda. O porta-voz, Gao Feng, afirmou que Pequim “lamenta voltar a observar que investimento comercial e aquisições e fusões por empresas chinesas nos Estados Unidos voltaram a ser impedidas pela chamada ‘segurança nacional’”. Gao afirmou que as autoridades chinesas não estão contra um exercício regular das implicações para a segurança, mas que estão preocupadas que outros governos usem aquele argumento para

Metade dos novos veículos com inteligência artificial em 2020

A China deseja que a inteligência artificial esteja presente em mais de 50% dos seus carros novos a partir de 2020. De acordo com a Reuters, o país asiático pretende tornar-se líder mundial nesta tecnologia até 2025 e vê o sector automóvel como estratégico para o projecto. Para tornar o plano viável, a China quer cobrir 90% das grandes cidades e estradas com redes sem fio até o fim da década. Em comunicado oficial, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma (NRDC) informou que deseja promover campanhas para gerar apoio popular à estratégia de investimento em inteligência artificial. O órgão também revelou que vai criar uma equipa de funcionários no Conselho de Estado para contribuir para a inovação de carros inteligentes. A expectativa é que o país seja uma referência neste segmento em 2035.

AUTORIDADES DESTROEM IGREJA EVANGÉLICA

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S autoridades de uma cidade do norte da China demoliram uma igreja evangélica, disseram testemunhas e activistas radicados no estrangeiro, citados pela agência noticiosaAssociated Press (AP). Um funcionário do gabinete para assuntos religiosos da cidade de Linfen, citado pela AP, afirmou que não se tratou de uma demolição, mas relatos de activistas radicados fora do país e de testemunhas dão conta que forças militares usaram escavadoras e dinamite, na terça-feira, para destruir uma igreja em Linfen, um dos centros da indústria do carvão na China.

A ChinaAid, um grupo de defesa dos cristãos chineses com sede nos Estados Unidos, avançou que as autoridades locais colocaram explosivos numa sala de oração, na cave da igreja, para demolir o edifício. Fotografias divulgadas pela ChinaAid mostram o campanário e cruz derrubados, ilustrando a tensão entre grupos religiosos e o Partido Comunista Chinês (PCC), que é oficialmente ateu. Com uma congregação de 50.000 pessoas, a igreja há muito que vivia em atrito com o governo. Já em 2009,

centenas de polícias e capangas contratados confiscaram bíblias e destruíram parte da igreja, enquanto vários líderes religiosos locais foram punidos com prisão. A crescente popularidade das chamadas igrejas clandestinas tem levado as autoridades a adoptar medidas repressivas, face à preocupação que coloquem em causa o controlo político e social exercido pelo governo. A igreja já tinha sido acusada de violar contratos de uso dos terrenos e os códigos de construção, acusações frequentemente usadas contra igrejas clandestinas.

erguerem barreiras injustas contra negócios indesejados. A Ant Financial, subsidiária do gigante chinês do comércio electrónico Alibaba, tinha concordado em Janeiro de 2017 adquirir o MoneyGram por 1,2 mil milhões de dólares. Firmas chinesas têm realizado grandes aquisições de empresas tecnológicas e marcas estrangeiras, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos. Portugal não é exceção: a China tornou-se, nos últimos anos, um dos principais investidores no país, comprando participações em grandes empresas das áreas da energia, seguros, saúde e banca. A maioria dos negócios decorre sem incidentes, mas outros suscitam críticas devido à possibilidade de representarem uma ameaça à segurança do respectivo país ou à perda de activos importantes. Em Setembro passado, o Presidente norte-americano, Donald Trump, bloqueou a compra de um fabricante de semicondutores do estado de Oregon (noroeste dos EUA) por uma empresa financiada pelo Governo chinês, também por motivos de segurança.

Apple passa dados do iCloud para a China

A Apple anunciou a data de quando irá passar as operações da sua central de dados iCloud para a China. O anúncio foi feito no ano passado e serve para a Apple cumprir as leis chinesas. Na prática significa que todos os dados e gestão do iCloud de clientes chineses tem de estar em território chinês. A medida não deve ser sentida pelos clientes e não é esperado que isto afecte de alguma forma serviços ou funcionalidades. A Apple vai continuar a notificar os seus clientes durante as próximas semanas e até à data de 28 de Fevereiro. Esta medida está a causar preocupação por parte de críticos que dizem que isto vai ajudar o governo a espiar os clientes da Apple. A Apple é uma das primeiras empresas a mover a sua operação de dados de forma a cumprir com os regulamentos do governo chinês mas é esperado que outros gigantes tecnológicos sigam os mesmos passos.


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KAI DANG KU

Adeus buraco

Calças para crianças com uma abertura por onde podem fazer as necessidades eram comuns na China. Mas estão a ser substituídas pelas fraldas descartáveis. Ainda que alguns os prefiram, os Kai dang ku caminham a passos largos para a extinção

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AS TRADICIONAIS CALÇAS ABERTAS PARA CRIANÇAS PERDEM ESPAÇO PARA FRALDAS

cena da criança pequena que caminha ainda trôpega entre os primeiros passos, abaixa-se em plena luz do dia — na rua, no parque ou até mesmo no centro comercial — e alivia-se com a naturalidade de quem vai ao lavabo, talvez seja a que mais choque os “laowai” (estrangeiros) na Pequim contemporânea. Para que tenham essa liberdade de movimentos, muitos bebés chineses usam, desde bem cedo, o tradicional “kai dang ku”, ou a calça aberta nos fundilhos, em tradução livre. É verdade que hoje os kai dang ku são menos numerosos do que no passado recente, mas estão longe de passar despercebidos. Trata-se de um fenómeno que muitos estrangeiros têm dificuldades

em entender. Para a maioria, é um hábito pouco higiénico, anti-social, que acaba por prejudicar as crianças. “Estive na semana passada no The Place, um dos centros comerciais mais luxuosos daqui de Pequim, e vi uma criança baixar-se para fazer número dois. Em seguida, vi a mãe recolher o que ficou para trás. Fiquei horrorizada. É muito estranho”, conta uma advogada estrangeira que acaba de se mudar para a cidade. Engana-se quem acha que estas calças chinesas só têm desvantagens. Educadores chineses (e estrangeiros também) reconhecem que os bebés que usam este tipo de roupa podem aprender mais depressa o treino do lavabo, com todos os seus rituais e movimentos para se aliviarem.

Não é apenas fazer o que tiver vontade, como acontece com os que usam fralda. Os pais, ou avós que, em geral, cuidam das crianças com mais frequência na China, costumam repreendê-las quando fazem as suas necessidades no local

Além da simpatia de médicos pelas fraldas descartáveis, há ainda o facto de estas se terem tornado um símbolo de estatuto, o que fez da China um verdadeiro Eldorado para os grandes fabricantes mundiais

errado. Com isso, elas passam a ter um entendimento mais rápido de quando e onde fazer. Na China, as crianças são treinadas a partir dos três a quatro meses, enquanto, no Ocidente, só depois de um ano e meio de idade. “É preciso ficar atento. A gente aprende a identificar quando estão a fazer as necessidades. Sabemos identificar os sinais”, diz A. Zhang, de 51 anos, que é avó e cuidou de bebés muitos anos. Tudo isso leva muitos — “laowai” inclusive — a criar fóruns de debates na internet para discutir o assunto. Com a ascensão de dezenas de milhões os kai dang ku tendem a desaparecer ou a restringir-se às áreas rurais mais afastadas. A médio prazo, contudo, ainda devem ter alguns anos de vida.


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Há inúmeras ofertas de diferentes modelos nas lojas online e físicas por toda a China. Num conhecido mercado de roupas nas proximidades do Jardim Zoológico da capital é difícil encontrar macacões totalmente fechados para bebés na secção das roupas infantis. Muitos fabricantes sabem que as “kai dang ku” têm o seu apelo e são populares para uma camada importante da sociedade, mesmo depois da revolução das fraldas descartáveis no país no início dos anos 2000. “É muito comum. Não dá para dizer uma marca específica que faça esse tipo de roupa. São muitas. Existem menos crianças que as usam aqui em Pequim, mas ainda é um hábito bem popular”, afirma Sue Chen, de 26 anos, professora.

CONTAMINAÇÃO

É claro que acidentes acontecem e acontecerão, em casa ou na rua. Não raro, vêem-se crianças agachadas nas ruelas dos “hutongs” (as casas tipicamente chinesas nos bairros tradicionais) aliviando-se como querem, sem qualquer repreensão - o resultado é lixo em áreas públicas, mau cheiro e chamariz para bichos e doenças. Isso é ainda mais frequente no interior do país. Num condomínio considerado caro no centro de Pequim, para onde cada vez mais chineses se mudam como símbolo de estatuto, foi afixado no parque um bilhete que pede às mães que não deixem as crianças com a “kai dang ku” usar o escorrega. A medida teria por objectivo evitar que as outras crianças, que costumam descer ou subir no brinquedo encostando as mãos - e até a boca -, sofressem algum tipo de contaminação. Aos olhos da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a “kai dang ku” tem benefícios. As partes íntimas concentrariam mais Yang (que, com o Yin, forma pólos opostos de energia) do que as outras, segundo a médica de MTC Yiting Huang. E permitir que as crianças o libertem para que mantenham o equilíbrio com o Yin é visto como favorável para a saúde e para reduzir a incidência de doenças. Na avaliação de Huang, a calça, que foi criada quando ainda não havia fraldas descartáveis, deixa um espaço livre para o corpo dos bebés que não conseguem controlar ainda as suas necessidades. “Se não trocar (a fralda) no momento, ficam sujos e podem ter infecções”, diz a médica, que, ainda assim, acha mais higiénico para as crianças o uso das fraldas descartáveis. Há quem diga que a calça furada é benéfica sobretudo para meninos, porque os seus órgãos sexuais se desenvolvem ao ar livre, sem a pressão ou calor, o que aumentaria a fertilidade dos homens por deixar

o saco escrotal numa temperatura menos quente do que o resto do corpo. Para muitos médicos, o hábito de vestir esses modelos vem de um período em que a água deveria ser destinada às plantações, não existiam as fraldas descartáveis no país. Depois, quando estas passaram a existir, custavam muito caro. Hoje, os kai dang ku ainda podem pesar no orçamento de quem mora no interior. Mas começa a surgir uma espécie de consenso de que as “kai dang ku” devem ficar, como outros hábitos chineses, no passado. “Em primeiro lugar, não é higiénico para os órgãos sexuais e sistema urinário das crianças. Em segundo, não protege a intimidade das crianças”, avalia a pediatra do hospital de crianças da Província de Shanxi, Dra. Han Zhiyin. É indiscutível que as “kai dang ku” poupam o meio ambiente das toneladas e toneladas de lixo produzidas pelas fraldas descartáveis, principalmente num país como a China, onde os números de consumo e de dejectos sempre assustam.

A calça, que foi criada quando ainda não havia fraldas descartáveis, deixa um espaço livre para o corpo dos bebés que não conseguem controlar ainda as suas necessidades Nos Estados Unidos e na Europa há um movimento de pais que defendem a volta das fraldas de pano justamente para proteger o ambiente. Estima-se que os consumidores deitem foram 20 mil milhões de fraldas descartáveis por ano.

FRALDAS COMO SÍMBOLO DE ESTATUTO

Este é um problema com o qual os chineses terão de lidar para além das dificuldades com o excesso de produção de lixo no país. Além da simpatia de médicos pelas fraldas descartáveis, há ainda o facto de estas se terem tornado um símbolo de estatuto, o que fez da China um verdadeiro Eldorado para os grandes fabricantes mundiais. As vendas anuais dos modelos descartáveis crescem 50% por ano, ou mais, dependendo da marca. Trata-se de um mercado estimado em US$ 200 milhões por ano, de acordo com números de 2015. Segundo a consultoria AB, a revolução começou em 1998 na China, com a entrada de uma grande marca ocidental no mercado, acompanhada de uma forte campanha de

marketing para ensinar as mães a usarem essas fraldas descartáveis. A tendência é que esse mercado continue a crescer, tanto para os fabricantes estrangeiros, como para os chineses - com destaque para marcas premium, ainda mais caras,

que fazem sucesso porque também são prova de ascensão social. Quanto às “kai dang ku”, ainda devem resistir por algum tempo. Ainda que passem à história, há quem diga que terão inspirado o movimento “comunicação de

eliminação”, que vem ganhando força entre americanos. Trata-se dos sinais usados pelos adultos para se comunicar com as crianças que estão a aprender a usar a casa de banho antes mesmo de aprenderem a falar.


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Que me quereis, perpétuas miragens, Com que sonhos ´ainda me abismais? José Simões Morais

Tomada de posse e despedida dos Governadores

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EBRUÇÁMO-NOS já sobre o Bastão de Comando entregue ao Governador e os bastões dos vereadores e ouvidor. Agora prosseguimos, descrevendo a pompa das cerimónias de uma tomada de posse e despedida de Governador. Em 24 de Janeiro de 1851, “o Governador Conselheiro Capitão-de-Mar-e-Guerra, Francisco António Gonçalves Cardoso, nomeado, por decreto de 17 de Outubro de 1850, para suceder ao Conselheiro Capitão-de-Mar-e-Guerra Pedro Alexandrino da Cunha, que falecera em Macau [a 6/7/1850, após 37 dias como Governador], veio de Hong Kong, onde se hospedara em casa de Eduardo Pereira, a bordo da corveta D. João I. O desembarque efectuou-se no dia 26, ao meio-dia, no cais chamado do Governador [situado na Praia Grande]. Após a recepção no Palácio do Governo, o novo Governador ouviu missa na capela do Palácio. À noite, às 7.00 horas, realizou-se um jantar com a assistência dos membros do Conselho do Governo e da Câmara Municipal, cônsules, comandantes das corvetas e fortalezas, autoridades e vários empregados públicos. Foi investido na posse do governo desta Colónia, em [3 de] Fevereiro de 1851, pelas cinco horas da tarde, na porta principal da Fortaleza de S. Paulo do Monte, entregando-lhe o [Bispo D. Jerónimo da Mata, Presidente do] Conselho do Governo a chave da dita fortaleza e o bastão e com eles a posse do Governo desta cidade com todas as artilharias e armas, apetrechos e munições de todas as fortalezas da guarnição. Depois da posse, o Governador dirigiu-se à Igreja da Sé, onde depositou o bastão aos pés da Nossa Senhora da Conceição e onde se cantou um solene Te-Deum, seguido de recepção no Palácio do Governo”, segundo Luís Gonzaga Gomes. E com este ilustre macaense, pelas suas Efemérides, continuamos: em 19 de Novembro de 1851, “o Capitão-tenente da Armada Isidoro Francisco Guimarães desembarcou às 15.00 horas, sendo recebido pelo Governador cessante Francisco António Gonçalves Cardoso e demais autoridades. Após a recepção, no Palácio do Governo, o Governador cessante dirigiu-se à Sé, para buscar o bastão que havia depositado aos pés de Nossa Senhora da Conceição, dirigindo-se, em seguida, ao Monte, seguido das autoridades. Após a entrega do bastão e das chaves da Fortaleza e troca de discursos, dirigiram-se os dois governadores para o Leal Se-

nado, a fim de o novo Governador assinar o auto da posse, findo o qual voltou à Sé, para depositar novamente o bastão aos pés da Nossa Senhora da Conceição. Isidoro Francisco Guimarães, durante os anos da sua inteligente e próspera governação, conseguiu restaurar por completo o estado financeiro da província que, encontrando-se em 1852 deficitário, em 48.309 patacas, apresentou, em 1862, um saldo de 104.633 patacas”.

DESCRIÇÃO OFICIAL DO ACTO DE POSSE

Sobre este mesmo assunto, no Boletim do Governo na “parte não oficial, Macao, Sábado, 22 de Novembro de 1851. No dia 19 do corrente, teve lugar a entrega do Governo de Macau, determinada nos actos oficiais que deixamos transcritos. Às oito horas da manhã desse dia embandeiraram as Fortalezas da Cidade, e próximo às três da tarde desembarcou nestas praias o novo Governador nomeado, o Exmo. Sr. Isidoro Francisco Guimarães Júnior, sendo recebido no cais pelo Governador antigo, o Exmo. Sr. Francisco António Gonsalves Cardoso, Juiz de Direito da comarca, Secretário do Governo, Ajudante de Ordens, Autoridades civis e Militares, Oficialidade do Batalhão Provisório, & c. e pelo Batalhão de Artilharia, formado em parada, que fez a devida continência. A Fortaleza de S. Francisco lhe havia salvado na passagem, bem como a corveta ao sair dela S. Exa. recebeu com a maior afabilidade as felicitações que lhe dirigiam. Depois partiu o Governador Cardoso para a Sé a buscar o Bastão que havia depositado aos pés de Nossa Senhora da

Conceição e de lá dirigiu-se para o Monte, seguido das Autoridades, e da mesma forma foi postar-se em proximidade daquela Fortaleza o Batalhão de Artilharia. Depois das quatro horas chegou o novo Governador, acompanhado da Oficialidade do navio que acabava de comandar, a qual lhe queria testemunhar a sua respeitosa afeição seguindo-o de perto, por cujo motivo o mesmo Exmo. Sr. caminhou a pé até ao Monte. À porta da dita Fortaleza teve lugar a entrega do Bastão, pronunciando o Exmo. Dr. Cardoso, estas palavras: <Há nove meses que por ordem de Sua Majestade tomei conta do Governo desta Província, encargo este muito superior às minhas forças. Neste mesmo lugar recebi das mãos do Conselho do Governo este Bastão de Comando e tenho feito até hoje quanto é humanamente possível para desempenho da difícil empresa que me foi confiada e para prosperidade

O Governador cessante dirigiu-se à Sé, para buscar o bastão que havia depositado aos pés de Nossa Senhora da Conceição, dirigindo-se, em seguida, ao Monte, seguido das autoridades

e bem-estar dos honrados habitantes de Macau: que tudo é pouco quanto se faça por este nobre povo. Entrego com muita honra nas mãos de V. Exa. o Bastão e a Chave desta Fortaleza, que me estavam confiados e espero das virtudes e vastos conhecimentos de V. Exa. ajudado de assíduo trabalho, e de coadjuvação dos habitantes desta Cidade, que seja feliz o Governo de V. Exa. e torne próspera a sorte de Macau>. O Exmo. Sr. Guimarães respondeu assim, <Exmo. Sr. Conselheiro Cardoso! Tenho muita honra em receber das mãos de V. Exa. as Chaves desta Fortaleza e este Bastão, insígnia da autoridade superior da Província de Macau, que o Governo de Sua Majestade e Rainha Nossa Augusta Soberana, me confia. Sinto que uma importante Comissão de serviço público, em que o Governo da Rainha tem de empregar a V. Exa. prive os dignos habitantes de Macau da fortuna de continuarem sob o Governo de V. Exa. – Governo a que V. Exa. se tinha dedicado com tanto acerto e tão incansável zelo e actividade. Permita-me V. Exa. que eu o felicite, ou antes a mim próprio e aos habitantes de Macau pelos brilhantes resultados que tem coroado tão nobres esforços como aqueles que V. Exa. tem empregado no melhoramento deste Estabelecimento. Posto que V. Exa. me lega uma empresa muito superior às minhas forças, é de justiça confessar que ela é hoje muito mais leve do que quando V. Exa. a tomou sobre si, neste mesmo lugar, ainda não há dez meses. Agradeço os votos pela felicidade do meu Governo, que V. Exa. acaba de fazer e creio tão sinceros, quanto é verdadeiro o interesse que V. Exa. sente por tudo que tem o nome de Português>. Depois, tornou a entregar as Chaves ao Comandante da Fortaleza dizendo-lhe: <Sr. Major. Entrego a V. Senhoria as Chaves e o Governo desta Fortaleza e estou certo que V. Sa. se haverá na guarda e defesa da Cidade de Macau, como cumpre a um militar bravo e honrado e como convém à honra da Bandeira Portuguesa>. Em seguida foram os dois Governadores e o Leal Senado assinar o auto da Posse; e o Exmo. Sr. Guimarães voltou a depositar na Sé, aos pés da Padroeira do Reino, o Bastão da Governança.” Cinco dias depois, a 24 de Novembro de 1851 o ex-Governador Francisco António Gonçalves Cardoso embarcou na corveta D. João I para Hong Kong, daí seguindo para a metrópole no vapor da mala.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 19

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tonalidades António de Castro Caeiro

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OÃO Cassiano, João Damasceno, João Crisóstomo com São Tomás de Aquino consideram a “despreocupação” um pecado mortal. Não um pecado venal (“perdoável”). A tradução do substantivo feminino latino “acedia,-ae” é polissémica. Ou “aborrecimento”, “tédio”. Ou “despreocupação”, “ausência de cuidado”. A etimologia da palavra na segunda acepção vem do grego “akedos”. “Kedos” quer dizer “cuidado”, preocupação. A grafia “A” em “A+kêdos” representa o alfa privativo. Assim, a palavra quer dizer “sem cuidados ou preocupações” “desprovido de cuidados ou preocupações”. O interessante é que a primeira acepção da palavra é inteiramente latina. Tomás de Aquino na Questão 35 da Suma Teológica concebe-a como um processo, não apenas como um estado de espírito, mental ou corporal. “A-cedere” é a situação de estar a tentar fugir a Deus. Esta fuga não é passiva mas é um debate dramático para nos libertarmos de Deus e do seu sentido (Theunissen). Deste modo podemos ler o sentido etimológico da palavra grega: tédio, aborrecimento, exaustão, fadiga, neura, etc., como o resultado de um processo activo de fuga. “Ab-horresco” é um verbo incoactivo de fuga em face do horror. Todo o aborrecimento é, de facto, o que provoca uma fuga em face do horror. Não é um horror que meta medo por causa de um ente, que crie a angústia do pavor, o pânico. É um horror que é interpretado como esvaziamento activo, falta de sentido, inanidade. As horas do dia não levam a lado nenhum, o tempo parece não passar. O tempo não passa. As horas passam ao largo. O fim do dia é exactamente tão estagnado como o princípio do dia. As semanas trazem sempre o mesmo desespero, o mesmo vazio, não fazem sentido, não orientam nem dirigem. São João Cassiano diz que a hora da “Acedia” chega ao meio dia, para inquietar os monges com a sua força máxima. A situação do aborrecimento inquietante do tédio de não ter nada para fazer, estar des-preocupado, é estudada no laboratório existencial que é a vida monástica. A divisão do tempo do dia é dado pelo tempo da oração, das refeições, do trabalho comunitário. Mas as pessoas que se encontram nos mosteiros afastaram-se das preocupações do dia-a-dia do mundo, da sua ambição, das várias tentações provocadas pela “cobiça, dos olhos e da carne”. A vida num mosteiro é pensada “de fora” como afastamento, exclusão, reclusão. No interior da vida pessoal quer dizer uma escolha activa para viver uma vida “a fazer a vontade de Deus”, uma vida que expressa a exposição ao sentido dos dias que vem de uma dimensão diferente, absolutamente diferente, da agenda do nosso quotidiano, seja ela profissional, seja ela afectiva ou até mesmo religiosa. Este ponto fundamental decide o princípio de compreensão de um fenómeno que projecta de certo modo a modernidade.

El Greco, São Tomás

Tédio profundo (“acedia”)

O mosteiro e a vida monástica representam a vida com sentido, a cumprir-se na realização da vontade de Deus. É a possibilidade extrema e radical em que se fizeram todos os votos positivos para a consagração a Deus, uma vida dedicada a Deus. Não se trata apenas de abdicar do mundo nem de abdicar da ambição mundana. Trata-se de uma escolha positiva em que todas as acções são acções de graça. Orar é a expressão máxima da vida, porque resulta do contacto em “conversa” com o Pai. A “dieta” e o “regime” do dia são o resultado da renovação, que é o processo de “meditação” no sentido que configura o

Um mosteiro sem Deus é como um templo em ruínas. O monge não tem já o mundo para onde regressar, porque nem o mundo é habitado por Deus

“monge” sob o “desígnio” e a vontade do Pai. Esta hipótese existencial faz sentido, preenche, enche o coração de alegria. O mundo e as suas ambições ficam de lado, esquecidas, obliteradas. Deixam de fazer sentido. Mas o que se passa na sexta hora quando a inquietação do monge é máxima? Há alguma recidiva? Quererá o monge regressar ao mundo, como o prisioneiro quer sair da sua cela para um mergulho atlântico ou sentir o calor do sol no rosto? Não. A possibilidade extrema do aborrecimento é o da fuga à vida, ao quotidiano, da repetição, da ausência de novidade, do mesmo que é inultrapassável. A eternidade é a vida no mosteiro com as mesmas divisões de horas, as mesmas refeições, o mesmo trabalho. Deus desapareceu do mosteiro. Um mosteiro sem Deus é como um templo em ruínas. O monge não tem já o mundo para onde regressar, porque nem o mundo é habitado por Deus. Atirado violentamente para a interrupção total da passagem das horas, o momento é de horror, desespero, angústia. Não há apenas a abertura à consciência de si próprio como eu. É a vida, o mundo, e Deus que surgem na abertura resolutiva (“Erschlossenheit”, Heidegger) total.


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André Couto piloto“O meu sentimento foi: ‘Ah afinal ainda sei guiar, sou o André Couto, tenho é que estar numa pista a competir, não é em casa’”

AUTOMOBILISMO ANDRÉ COUTO VOLTOU A SENTAR-SE NUM CARRO EM ZHUHAI

O regresso do guerreiro

Após uma paragem de seis meses, o piloto local está a testar desde ontem com o construtor NIO, num dos carros eléctricos mais rápidos do mundo. O regresso acontece na pista onde teve o acidente que o deixou fora da competição

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NDRÉ Couto voltou ontem às pistas, no Circuito Internacional de Zhuhai, para participar em sessões de testes e numa actividade promocional do construtor chinês NIO. Após seis meses, o local já se sentou ao volante do carro EP9, um dos modelo eléctrico mais rápido do mundo.

Ao HM, o piloto de 41 anos revelou que apesar de algum receio inicial, assim que se sentou no carro e saiu para a pista sentiu-se totalmente confortável. “Antes do teste estava um pouco apreensivo porque não sabia o que ia encontrar ao nível de sensações do corpo, quando, por exemplo, passasse numa lomba,

Dia do Desporto no Jardim Camões

O Dia do Desporto, actividade promovida mensalmente pelo Instituto do Desporto, vai decorrer este Sábado no Jardim de Camões, de acordo com um comunicado do Governo. A actividade, que conta com a participação de associações locais, vai decorrer entre as 15h00 e as 17h30, com o objectivo de contribuir para o bem-estar da população. Neste espaço vão ser dados a conhecer à população desportos como futebol, voleibol, hóquei em campo, xadrez e um quiosque de mini jogos sobre o Grande Prémio de Macau. “As actividades têm como objectivo incentivar os cidadãos a praticarem o desporto, sentirem a alegria do desporto, intensificarem o interesse pelo desporto, para além de reforçarem a condição física”, pode ler-se no comunicado.

numa travagem ou num corrector. Ter um período tão longo de recuperação torna as coisas muito complicadas, uma pessoa começa a ter muitas dúvidas na cabeça sobre as suas capacidades”, confessou. “Por isso, cheguei à pista cheio de paranóias. Mas este é o mundo em que estou habituado a viver

e assim que vesti o fato, meti o capacete, sentei-me no carro e saí para a pista esqueci logo tudo o que tinha acontecido. O meu sentimento foi: ‘Ah afinal ainda sei guiar, sou o André Couto, tenho é que estar numa pista a competir, não é em casa’”, revelou. Por coincidência, o local regressou às pistas no mesmo circuito em que teve o acidente a 10 de Julho do ano passado e que resultou em fracturas múltiplas na vértebra L1. “Psicologicamente não é o regresso mais fácil por se na pista que é. Só que também há aquele pensamento: ‘Ah foi nesta curva que bati? Vou fazê-la a fundo’. Agora já passo naquela zona a fundo sem problemas”, comentou sobre o regresso. O carro que André Couto está a conduzir é um protótipo, do construtor chinês NIO. No entanto, não é um carro puro de competição.

Mesmo assim, a viatura eléctrica acelera dos 0 aos 100 em 2,7 segundos e atinge uma velocidade máxima de 313 km/h.

RECUPERAÇÃO EM ANDAMENTO

O regresso às pistas de André Couto foi autorizado após uma consulta em Hong Kong, com o médico responsável pela recuperação. “Sou um dos pilotos de testes da NIO e já era antes do acidente. Na altura, eles disseram-me que quando estivesse pronto podia regressar. Quando soube deste evento promocional falei com eles e disseram-me que estavam à minha espera. Depois fui ao médico, que também disse para ir testar”, contou. “Ainda não estou recuperado totalmente e tenho algum trabalho pela frente. Na próxima semana vou fazer uma ressonância magnética para ver como está a ser a recuperação. Já penso em competir, mas antes disso é preciso que o médico me diga que o meu corpo está pronto para ter outra batida forte”, explicou. Por outro lado, Couto confessou que às vezes é questionado pelas pessoas a razão de desejar voltar a competir, após um acidente com estas consequências: “É o que gosto de fazer. Se for a ver tive 20 anos a correr e nunca me tinha acontecido nada deste género. E os azares da vida podem acontecer em qualquer lado”, respondeu. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo


opinião 21

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um grito no deserto PAUL CHAN WAI CHI

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OM a abertura ao trânsito na Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau marcada para este ano, a Construção da Região Metropolitana da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau estará prestes a acontecer. De acordo com as tendências actuais, o papel político da RAEM e da RAEHK e as suas funções estratégicas serão certamente reajustados. Após o encerramento do Congresso Nacional do Povo (CNP) e a da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), que terão lugar no próximo mês de Março, as lideranças aos mais diferentes níveis serão confirmadas. Vão ser atribuídas novas tarefas e lançar-se-á de imediato mãos à obra para a criação de um novo figurino político. O tempo passa e não espera por ninguém, tal e qual como as reformas e as políticas de abertura. Para a China, as grandes preocupações políticas concentram-se no que se passa em casa e no estrangeiro, ao passo que os acontecimentos que ocorrem em Hong Kong e em Macau são vistos como questões locais. Mas, seja como for, a China não tolerará nunca quem queira destabilizar os seus macro ou micro-territórios. Depois do regresso de Macau à soberania chinesa, a cidade tem confiado à indústria do jogo o seu florescimento económico. Quem tem poder e influências consegue gerir a economia em proveito próprio. A situação de Macau, socialmente próspera e politicamente ultra-estável, é criada pela coordenação entre grupos representantes de diversos interesses. No entanto, sob esta superfície de super-estabilidade, a administração do Governo está minada de corrupção e os preços das matérias-primas e das propriedades sobem continuamente. A sociedade está apenas virada para o lucro e, mesmo instituições e organizações chinesas sediadas em Macau, acabaram por ser contagiadas por este modus vivendis. Mas se pensarmos bem, quando as coisas vão longe demais numa certa direcção, acabam por surgir forças contrárias que as virão combater. As mudanças acabam sempre por acontecer mais cedo ou mais tarde, é tudo uma questão de saber quais devem chegar em primeiro lugar. É voz corrente que, se o CNP e o CCPPC terminarem favoravelmente, os assuntos de Macau serão agendados para discussão, numa antecipação à mudança nos lugares-chave do Governo da RAEM, prevista após a eleição do Chefe do Executivo, em 2019. Até 2019, Hong Kong, Macau e Taiwan passarão por eleições locais. Em Taiwan, as

Deixem as balas voar

eleições estão marcadas para finais de 2018 e o seu resultado vai influenciar directamente o futuro do Partido do Progresso Democrático (PPD) e do Kuomintang da China (KMT) e afectará indirectamente as perspectivas de unificação pacífica com a China. Para o KMT e para o Presidente Xi Jinping são questões da mais alta importância. Em Hong Kong, a eleição circunscrita a um círculo, para preencher quatro lugares em aberto no Conselho Legislativo, está marcada para 11 de Março de 2018. Uma outra eleição similar, para preencher mais dois lugares vagos, está marcada para o final do ano. Estas duas eleições podem ser encaradas como “uma injustiça política” deixada pelo antigo Chefe do Executivo Leung Chun-ying. É o preço a pagar pela população de Hong Kong, e também pelo Comité Permanente do PNC que usou o seu poder para interpretar a Lei Básica, donde resultaram estas eleições. “Hoje é sobre Hong Kong, amanhã será sobre Taiwan”, aposto que o Governo Central não ficará propriamente feliz se isto vier a acontecer.

Da mesma forma, “Hoje é sobre Macau, amanhã será sobre Hong Kong”. Esta é uma frase muito usada pelo campo da pan-democracia de Hong Kong nos seus comentários ao princípio “um país, dois sistemas”. Durante um certo período, o despertar das consciências do campo democrático de Macau ficou a dever-se ao trabalho empenhado dos seus membros na Assembleia Legislativa. Mas, com a chegada do jovem Sulu Sou ao hemiciclo, aconteceu uma mudança na forma de discutir e debater os assuntos. Sulu Sou foi eleito sob o slogan “levar as reformas e o desenvolvimento sustentado à Assembleia Legislativa”. A entrada de

Acredito na independência judicial, no princípio “um país, dois sistemas” e na erudição da cultura chinesa. Mas uma coisa em que não acredito é em elites políticas

Ex-Deputado • Membro da Associção Novo Macau

sangue novo na Assembleia deveria ter-lhe trazido vitalidade. No entanto, algumas pessoas tomarão uma decisão política errada, ao transformarem um caso simples numa questão complicada. Esta decisão teve como consequência a suspensão do mandato de Sulu Sou. E, no pior dos cenários, Sulu Sou pode vir a ter o seu mandato cessado por decisão política da Assembleia Legislativa. Se vier a ser o caso, a Assembleia Legislativa e a sociedade em geral sairão diminuídas. Se Sulu Sou tivesse optado por apresentar recurso da decisão e por pedir uma nova votação do seu círculo eleitoral, o processo demoraria um ano ou mais. A 4 de Dezembro de 2017, a Assembleia Legislativa tomou uma decisão política insensata. Foi como se tivesse dado um tiro no princípio “um país, dois sistemas”. Como as balas ainda andam à solta, deixemo-las voar por mais algum tempo. Eu acredito que a população de Macau tem discernimento e também acredito na independência judicial, no princípio “um país, dois sistemas” e na erudição da cultura chinesa. Mas uma coisa em que não acredito é em elites políticas.


22 (f)utilidades TEMPO

POUCO

12.1.2018 sexta-feira

?

NUBLADO

O QUE FAZER ESTA SEMANA Amanhã

SEMINÁRIO “NOVA AMÉRICA: CINEMA DE POSSIBILIDADES” Cinemateca Paixão | 14h30

MIN

9

MAX

15

HUM

35-70%

EURO

9.65

BAHT

“THE FLEA MARKET AT OLD BORDER GATE” ESPAÇO “WHAT’S UP POP UP” Rua dos Ervanários | Das 14h às 20h

Domingo

O CARTOON STEPH

EXPOSIÇÃO “MOSTRA FOTOGRÁFICA ‘UM CORAÇÃO DIVIDIDO’” Fundação Rui Cunha | Até Sábado EXPOSIÇÃO “O TEMPO MEMORÁVEL” Museu de Macau | Até 25/02/2018 A LINGUAGEM E A ARTE DE XU BING Museu de Arte de Macau | Até 4/3/2018

PROBLEMA 196

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 195

UM LIVRO HOJE C I N E M A

UNLOCKED SALA 1

THE COMMUTER [C]

Com: Lyn Shaye, Angus Sampson, Leigh Whannell 19.30

Filme de: Jaume Collet-Serra Com: Liam Neeson, Vera Farmiga 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

SALA 3

SALA 2

KIDNAP [C] Filme de: Luis Prieto Com: Halle Berry, Sage Correa 14.30, 16.30, 21.30

INSIDIOUS: CHAPTER 4 [C] Filme de: Adam Robitel

Um filme de: Michael Apted Com: Noomi Rapace, Orlando Bloom, Michael Douglas 14.30, 19.30, 21.30

FALADO EM CANTONENSE Filme de: Lee Unkrich 19.15

A maior loucura de Erasmo de Roterdão foi não perceber que apenas existe poder mundano e que a sátira que traçou iria continuar muito além do auspício dos seus ensaios. O holandês estava longe de imaginar que 510 anos depois da sua obra máxima a Loucura entronada seria o prato do dia da ementa da política global. Salvo algumas honrosas excepções, a política mundial está entregue a casos clínicos bicudos. Líderes que precisam de tratamento ao nível universitário, com equipas que lhes dediquem total atenção. Apesar do inevitável avanço da moral social, algumas cadeiras de poder estão ocupadas por autênticos casos psiquiátricos. Por cá, as patologias e desequilíbrios emocionais são menos severos, mas ainda assim alarmantes. Reina uma total falta de empatia no ethos de Macau, o poder reveste-se de um egotismo que chega a causar pena. Pobres almas que têm, inevitavelmente, de encarar espelhos, dormir de noite e explicar à progenitura a forma como penalizam pequenos e favorecem grandes. Fazem lembrar as velhas hierarquias que colocam entraves a qualquer vestígio de renascimento. O mundo precisa, como de pão para a boca, de um Elogio da Sanidade, precisa de lítio e um sono descansado, preciso de ser amado pela mamã e de validação de pares. Precisa de se legitimar no amor. Ok, Pêlo do Cão que resvalou para uma emanação hippie, deve ser do sol. João Luz

COSMOPOLIS | DON DELILLO

O 13º romance do norte-americano, que motivou um filme realizado por David Cronenberg, é um ensaio crítico sobre a sociedade de consumo e os excessos de uma Era dominada pela alta finança. O livro vive da personagem Eric Parker, um bilionário pela espiritualidade oriental que atravessa Manhattan para cortar o cabelo na sua limusine. A narrativa desenrola-se vertiginosamente, carregada de simbolismo, de onde se retira a bela analogia onde o protagonista imagina uma economia onde a moeda é a ratazana, enquanto que na vida real perde uma quantidade astronómica de dinheiro em Wall Street. Mais um livro que cimenta a posição de Don DeLillo como um dos mais geniais autores vivos. João Luz

UNLOCKED [C]

COCO [A]

SUDOKU

DE

Diariamente

Cineteatro

1.23

ELOGIO DA LOUCURA

FILME “GOOD TIME” Cinemateca Paixão | 21h30

FILME “CERTAIN WOMEN” Cinemateca Paixão | 21h30

YUAN

PÊLO DO CÃO

FILME “THE LOVE WITCH” Cinemateca Paixão | 16h30

FILME “COLUMBUS” Cinemateca Paixão | 16h30

0.25

www. hojemacau. com.mo

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Luz; João Santos Filipe; Sofia Margarida Mota; Vitor Ng Colaboradores Amélia Vieira; Anabela Canas; António Cabrita; António Castro Caeiro; António Falcão; Gonçalo Lobo Pinheiro; João Paulo Cotrim; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Manuel Afonso Costa; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Miguel Martins; Paulo José Miranda; Paulo Maia e Carmo; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca; Valério Romão Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fa Seong; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


retrato 23

sexta-feira 12.1.2018

EVA MOK , FOTÓGRAFA

E

VA Mok é a fotógrafa de Macau que se dedica essencialmente à captura de imagens de rua e de arquitectura. Com 35 anos, foi há apenas cinco que resolveu mudar de vida. Deixou a cadeira de escritório onde trabalhava na como administrativa com a empresa responsável pelo espectáculo “The House of Dancing Water”, e dedicou-se à fotografia, actividade que na altura ainda era completamente nova, e em que a câmara não passava do vulgar telemóvel.  Uma das escolhas de Eva Mok é a fotografia de rua à qual prefere chamar de humanista. Para a fotógrafa, trata-se de alargar o conceito e estende-lo ao que mais gosta de fazer. “Capturar imagens capazes de reflectir culturas e hábitos do quotidiano de um lugar em particular é uma experiência muito enriquecedora e é o que mais gosto de fazer”, diz ao HM. Por outro lado, a fotografia é um bom instrumento capaz de reflectir a cultura de uma comunidade”, considera. Macau está incluído. “Apesar de ser a terra natal e o espaço que melhor conhece, continua a ser um lugar onde se encontram imagens únicas”, diz. Pessoalmente, prefere os bairros antigos e as festividades

Lente para a realidade tradicionais para registar. A razão, aponta, é reflectirem as particularidades de uma situação ou de uma história. No entanto, quando se fala de rua de quotidiano as dificuldades num território familiar são acrescidas. «As situações são mais difíceis de identificar porque é a minha própria cultura”, aponta Eva Mok. É a falta de surpresa que está na base desta dificuldade até porque “quando se vai para o estrangeiro e se entra no desconhecido estamos mais atentos a tudo e as imagens aparecem com mais facilidade”, diz. 

CADA LUGAR, SUA PARTICULARIDADE

Além da fotografia, Eva Mok é apaixonada pelas viagens. Depois de deixar o emprego voo para a Europa. Passou pela Rússia, viveu em Portugal e não deixou de conhecer a França, o Reino Unida, a Itália ou a Suíça. Pela Ásia, a Tailândia está nas suas preferências e há uma razão: “É muito fácil fotografar as pessoas na Tailândia. Olham-nos com um sorriso e deixam que registemos o que fazem”, explica. Já me Macau, se se tratarem de situação em que está implicada a venda de um produto, os comerciantes pedem para que se

compre de modo a deixarem-se fotografar. Às vezes, entro numa loja e sinto que as pessoas não querem ser fotografadas e às vezes até me dizem coisas do género “se não me compra nada porque é que eu hei de deixar que fotografe”, comenta. Na Europa as pessoas são mais reservadas, refere, pelo que, muitas vezes, escolhe dedicar-se à fotografia de arquitectura. «Também gosto muito de registar os edifícios característicos dos lugares e a Europa é muito boa para isso. Tem igrejas e monumentos incríveis que são um desafio para qualquer fotógrafo”, refere. 

UM GOSTO RECENTE

A fotografia apareceu quase por acaso e não há muito tempo. “Comecei com a fotografia no final de 2012”, conta. Cansada do trabalho que tinha que sentia “não trazer mais nada de novo” e depois de viajar para Portugal duas vezes em que teve oportunidade de percorrer o país foi juntando uma série de imagens tiradas com telemóvel. Os elogios por parte dos amigos fizeram com que se interessasse cada vez mais pela imagem. O resultado, uma dedicação total. “Comecei a perceber que gostava realmente de capturar

imagens e tratei de ter formação na área com a frequencia de cursos”, explica. Trabalhar em Macau como fotógrafa é sempre “uma luta” principalmente se não se trabalha no sector comercial. “Eu só faço fotografia de rua e de arquitectura e é muito difícil sobreviver com o que faço, mas se fotografasse eventos ou casamentos seria mais fácil”, diz. A venda de impressões é quase impossível. “Macau não tem essa cultura e se se tratam de artistas menos conhecidos qualquer valor que se peça é sempre considerado como “demasiado caro”, mas se forem trabalhos de artistas de renome ninguém se queixa dos preços, por muito altos que sejam”, lamenta. “É um grande desafio tentar vender as minhas fotografias” e a solução pode passar por ter de pensar em arranjar alternativas de modo a subsistir. “Estou a pensar em ter alguns trabalhos como free-lancer”, revela. Para já espera ainda ter oportunidade de conseguir uma exposição. Sofia Margarida Mota

sofia.mota@hojemacau.com.mo


Quando se vive honradamente, a morte é sempre justa.

Han Shan

“SAÍ À NOITE E FIQUEI A ARDER 15 MIL EUROS”

Á

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TIAGO ALCÂNTARA

LVARO Dominguez, antigo jogador do Atlético Madrid e do Borussia M’Gladbach, está a colaborar na criação de um manual para ajudar ex-futebolistas a gerir o dinheiro obtido ao longo da carreira. Álvaro Dominguez abordou as dificuldades pelas quais os jogadores de futebol passam para gerir o dinheiro ganho ao longo da carreira, assumindo ter passado por momentos em que não valorizava as quantias que recebia. “É uma mudança muito drástica e sem uma educação é muito difícil saber administrar esse dinheiro. Critica-se muito os futebolistas, mas dá um milhão de euros a qualquer miúdo da rua e vê como se organiza. Não creio que se comporte melhor que qualquer futebolista. Quando és futebolista não valorizas o dinheiro. Carros cada vez mais caros, relógios cada vez maiores. Apanhas um avião privado para jantar e achas que isso é normal. E eu sou o primeiro fazê-lo”, começou por referir o antigo futebolista espanhol, que contou ainda um episódio por que passou numa saída nocturna. “Saí uma noite com os meus amigos e fiquei com uma factura de 15 mil euros. É normal que quem leia isto pense que sou estúpido. E não, porque isso é algo que fazes uma vez na vida para saber como é, mas tens que te lembrar que não é essa a realidade. O problema é que muitos perdem essa perspectiva e fazem da excepção a regra”, acrescentou, em entrevista ao El Mundo.

PALAVRA DO DIA

sexta-feira 12.1.2018

ALGUNS BANCOS EUROPEUS REJEITAM TRANSFERÊNCIAS PARA MACAU

Causa e efeito

D

E acordo com notícia da TDM – Rádio Macau, pelo menos um banco português e outro banco italiano rejeitaram, recentemente, realizar transferências bancárias para Macau, alegando que o território integra agora a lista de paraísos fiscais da União Europeia. Estas transferências destinavam-se ao pagamento de fornecedores e serviços e fontes contactadas pela TDM - Rádio Macau admitem que empresas locais estão a sentir dificuldades em concretizar negócios. A lista de 17 jurisdições classificadas como paraísos fiscais foi divulgada pela União Europeia em Dezembro. E apesar de não ter ficado definido um quadro sancionatório para as jurisdições incluídas na lista, os ministros das

finanças da União Europeia recomendaram aos estados-membros que adoptassem, de forma coordenada, medidas defensivas em relação às 17 jurisdições, incluindo “um reforço na monitorização de transacções financeiras”. Com estas medidas defensivas a União Europeia disse que pretendia enviar um “sinal inequívoco para os países e regiões incluídos na lista, encorajando uma mudança em sentido positivo”. A inclusão de Macau na lista negra foi justifica pela União Europeia com o facto de o território não ter ratificado a Convenção da OCDE sobre assistência mútua administrativa em matéria fiscal. E de não se ter comprometido a resolver estes assuntos durante o ano de 2018. Em Junho do ano passado entrou em vigor a nova versão do Regime

e que já estão sob alçada do Governo. Em causa está uma acção interposta pela Moon Ocean, a concessionária, que exigiu montantes a pagar por outras cinco sociedades. Estes valores dizem respeito ao que foi pago pela Moon Ocean pela transmissão dos direitos

A

jurídico da troca de informações em matéria fiscal e, na altura, o Governo local fez saber que já tinha solicitado ao Governo central a extensão a Macau da aplicação da Convenção da OCDE para Assistência Mútua Administrativa em Matéria Fiscal, já assinada pelo Estado Chinês. No momento da entrada em vigor do diploma, Macau tinha apenas 21 acordos assinados relativos à troca de informações a pedido, estando ainda em negociações com mais oito países. Também em Março do ano passado, o Secretário de Estado português dos Assuntos Fiscais esteve em Macau para a assinatura do acordo para a troca de informações financeiras. A assinatura acabou por ser adiada uma vez que Macau alegou não estar ainda preparado para o fazer.

La Scala TJB vai decidir valores sobre restituição de terrenos Os juízes do Tribunal de Última Instância (TUI) entenderam atribuir ao Tribunal Judicial de Base (TJB) a competência para decidir os valores a serem pagos no âmbito da restituição dos cinco terrenos localizados em frente ao aeroporto, envolvidos no caso La Scala

CHINA VENDAS DE AUTOMÓVEIS MAIS DEVAGAR

resultantes da concessão e indemnização pelas benfeitorias realizadas no terreno. O TUI entende que, no que diz respeito à relação jurídica, “estão em faltas as vestes de autoridade pública em que actua uma das partes”. “Evidentemente não actuam

na qualidade de autoridade pública as sociedades transmitentes nem a RAEM. Afigura-se clara a natureza civil, e não administrativa, da relação jurídica em questão”, o que, na prática, afasta o Tribunal Administrativo do caso.

S vendas de automóveis na China subiram 1,4% em 2017, o menor aumento em mais de duas décadas, para 24,72 milhões de unidades, anunciou a Associação Chinesa de Fabricantes Automóveis. As vendas de veículos eléctricos e híbridos registaram uma subida homóloga de 53,3%, para 777.000 unidades, impulsionadas pelos incentivos dados pelo Governo, parte da sua “guerra à poluição”. As vendas de carros eléctricos, em particular, subiram 82,1%, face ao ano anterior, para 468.000 unidades. Caso se contabilize todo o tipo de veículos - incluindo camiões e autocarros - as vendas alcançaram 28,88 milhões de unidades, uma subida homóloga de 3%. A produção de veículos na China ascendeu, no ano passado, a 24,8 milhões de unidades, um aumento de 1,6%. O menor crescimento nas vendas de automóveis, face a 2016, quando se fixou em 15%, deve-se em parte à retirada de alguns incentivos fiscais, por parte do Governo, na compra de automóveis com motores até um máximo de 1,6 litros de cilindrada. O imposto na compra daquele tipo de automóveis foi reduzido, em 2016, de 10% para 5%, visando dinamizar o mercado, num período de desaceleração da economia. Em Janeiro de 2017, aquele imposto foi revisto para 7,5% e, em 2018, voltou a fixar-se em 10%. A China tornou-se, em 2009, o maior mercado automóvel do mundo, ultrapassando os Estados Unidos.

Hoje Macau 12 JAN 2018 #3971  

N.º 3971 de 12 de JAN de 2018

Hoje Macau 12 JAN 2018 #3971  

N.º 3971 de 12 de JAN de 2018

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