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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

MOP$10

QUINTA-FEIRA 11 DE JANEIRO DE 2018 • ANO XVII • Nº 3970

SEGURANÇA

SULU SOU A RESPOSTA É HOJE P. 5

A beleza alheia

h Wong Sio Chak UMA SUSPENSÃO quer canal na TV QUE SAIU DO FRIO Nebulosa h

ANTÓNIO CABRITA

PÁGINA 4

GISELA MIRAVENT

hojemacau UNIVERSIDADE DE MACAU NOVO REITOR DIZ APOSTAR NO PORTUGUÊS

FRANÇA-CHINA

MACRON MARCA O TERRITÓRIO GRANDE PLANO

CINEMATECA PAIXÃO

OS BONS AMERI CANOS EVENTOS

As boas intenções Song Tonghua fala do advento de uma nova era na universidade que vem dirigir. Na qual os interesses de Macau e do país serão atendidos, através do reforço da presença da língua portuguesa. E, garante, não sabe trabalhar sem liberdade académica. PÁGINAS 8-9

D. JOSÉ DA COSTA NUNES ESTRAGA JANELA EM VEZ DE A RECUPERAR | ÚLTIMA

Era uma vez um Mondrian...


2 grande plano

NEGOCIOS TEM LIMITES MACRON DEFENDE FECHO DE SECTORES ESTRATÉGICOS A INVESTIMENTO ESTRANGEIRO

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REUTERS

VISITA

11.1.2018 quinta-feira

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O presidente francês foi claro: há sectores da economia que não estão nem podem estar à venda. Mas, por outro lado, recusou-se a abordar em público a questão dos Direitos Humanos por considerar que seria “ineficaz”

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presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu ontem perante o seu homólogo chinês, Xi Jinping, a ideia de definir os sectores económicos da União Europeia (UE) que são estratégicos e fechá-los ao investimento estrangeiro, designadamente chinês. Em declarações à imprensa após o encontro, sem perguntas dos jornalistas, Macron salientou a importância de a UE ter um objectivo comum na sua política em relação à China, que dentro de poucos anos será a primeira potência económica mundial.

O presidente francês defendeu, contudo, que a UE deve definir quais os sectores económicos que são estratégicos para a sua soberania e fechá-los ao investimento estrangeiro. Macron assegurou que não se trata de uma medida contra a China, mas pela soberania europeia, comparável à forma como a China limita o investimento estrangeiro em vários sectores da sua economia. No último ano registaram-se divergências entre países europeus, especialmente a Alemanha, e as autoridades da UE em relação à China, devido ao bloqueio de projectos de compra de

empresas europeias por empresas chinesas por se tratar de sectores estratégicos. Problemas semelhantes ocorreram noutros países, como na Austrália ou os Estados Unidos. O exemplo mais recente é da semana passada, com a negativa de Washington à compra da MoneyGram pela Ant Financial, do grupo Alibaba. Macron voltou por outro lado a manifestar o interesse de França em reequilibrar a relação comercial com a China, celebrou em Pequim um acordo na área da energia nuclear e outro para o levantamento do embargo chinês sobre a carne

de vaca e, no plano cultural, a abertura de um Centro Pompidou em Xangai. O Presidente francês está em visita oficial à China, a primeira desde que iniciou funções, e reuniu-se ontem com Xi Jinping, com uma agenda centrada nas relações bilaterais e numa aproximação entre a Europa e o gigante asiático.

NÃO HÁ LIÇÕES SOBRE DIREITOS HUMANOS

Por outro lado, Emmanuel Macron, recusou na terça-feira à noite, em Pequim, dar “lições” à China, ou referir em público a situação dos Direitos Humanos no

país, porque isso seria “totalmente ineficaz”. “Existem diferenças entre nós, que estão relacionadas com a nossa História, as nossas filosofias e natureza das nossas sociedades”, disse Macron, durante a declaração conjunta, ao lado do seu homólogo chinês, Xi Jinping. “Eu posso-me divertir a dar lições à China através da imprensa francesa. Isso já foi feito muitas vezes, mas sem resultados”, assegurou. Segundo a presidência francesa, a questão dos direitos humanos foi abordada por Emmanuel Macron, com os líderes chineses, mas em privado. O chefe de Es-

NUCLEAR ACORDO PARA TRATAMENTO DE COMBUSTÍVEIS USADOS

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França e a China assinaram “um memorando para um acordo comercial” sobre a construção de uma fábrica de tratamento de combustíveis nucleares usados, um negócio que pode ser providencial para o grupo francês Areva. O documento foi assinado na capital chinesa na presença do presidente francês, Emmanuel Macron, e do seu homólogo chinês, Xi Jinping, e abre caminho para que sejam concluídos 10 anos de negociações entre o grupo francês de energia nuclear, e o seu parceiro chinês CNNC. “Temos agora a garantia de contrato

com um prazo: a assinatura na primavera”, afirmou o ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, acrescentando que isto representa um montante de 10 mil milhões de euros no imediato, que podem ser vitais para o setor em dificuldades. A futura fábrica franco-chinesa pode tratar até 800 toneladas de combustíveis usados por ano. Além disso, um operador de energia nuclear chinês assinou um acordo com uma organização energética francesa para a aprofundar cooperação em tecnologia de energia nuclear. O acordo, entre a China Ge-

neral Nuclear Power Corporation (CGN) e a Comissão Francesa de Energia Alternativa e Energia Atómica (CEA), concentra-se em áreas tais como a tecnologia dos reactores nucleares, combustíveis e materiais avançados e ciclos de combustível nuclear. Segundo o acordo, a CGN e a CEA aprofundarão a cooperação na exploração, produção e abastecimento da indústria de energia nuclear, incluindo gestão de vida dos reactores e o projecto conceptual da tecnologia de quarta geração. He Yu, presidente da CGN, disse que o novo acordo promoverá

intercâmbios bilaterais em tecnologia da energia nuclear e abrirá novo espaço para a cooperação sino-francesa. Fundada em 1994, a CGN é a maior operadora de energia nuclear na China, com 39 mil empregados no mundo, concentrando-se no desenvolvimento de energias limpas como nuclear, eólica e solar. A CEA é uma importante organização em pesquisa, desenvolvimento e inovação na França. As suas principais áreas incluem defesa e segurança, energia nuclear e renovável, ciências físicas e da vida.


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quinta-feira 11.1.2018

CHINA ENCOMENDA 184 AVIÕES À AIRBUS

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tado francês recusou, no entanto, comentar sobre este assunto publicamente. “É totalmente ineficaz: acredito na diplomacia de respeito

“Não se trata de uma medida contra a China, mas pela soberania europeia, comparável à forma como a China limita o investimento estrangeiro em vários sectores da sua economia.”

mútuo. Temos que trabalhar a longo prazo”, afirmou. A organização de defesa dos Direitos Humanos Human Rights Watch (HRW) afirmou no início da viagem que o líder francês “deve cumprir” o compromisso de exigir maior respeito pelos direitos humanos na China. A HRW pediu a Macron que reitere publicamente o apelo francês para que seja dada total liberdade de movimento a Liu Xia, viúva do falecido dissidente e prémio Nobel da Paz Liu Xiaobo. Liu Xia é mantida em prisão domiciliária desde que Liu recebeu o Nobel da Paz, em 2010, situação que se prolongou após a morte

do marido, em Julho passado. Emmanuel Macron confirmou ter abordado a questão dos direitos humanos, em privado. “Mencionei essas preocupações ao Presidente Xi Jinping. Ele sabe que elas exis-

“Existem diferenças entre nós, que estão relacionadas com a nossa História, as nossas filosofias e natureza das nossas sociedades.”

tem na Europa, especialmente no que diz respeito às liberdades e direitos universais”, afirmou. A questão dos direitos humanos é uma fonte de persistente tensão entre o governo chinês e os países mais ricos, sobretudo na Europa e na América do Norte, que tendem a enfatizar a importância das liberdades políticas individuais. Para as autoridades chinesas, “o direito ao desenvolvimento é o mais importante dos direitos humanos” e o “papel dirigente” do PCC, no poder desde 1949, é “um princípio cardeal”.

OI uma bela despedida para Macron: treze companhias aéreas chinesas encomendaram um total de 184 aviões à construtora europeia Airbus, para serem entregues em 2019 e 2020, anunciou hoje a presidência francesa, no seu último dia da visita à China. Os aviões encomendados são do modelo A320neo. O valor da compra não foi detalhado, mas tendo em conta o actual preço dos aviões, este pode ascender a cerca de 18 mil milhões de dólares. “O negócio será fechado em breve e já foi confirmado pelo Presidente chinês, Xi Jinping”, disse Macron. O líder francês revelou ainda ter discutido o futuro do fabricante europeu com o homólogo chinês. “O presidente Xi confirmou-me que a China manterá o seu volume de pedidos nos próximos anos e a paridade da participação no mercado chinês entre a Airbus e a [norte-americana] Boeing”, disse. “Esta é a postura chinesa”, afirmou o chefe de Estado francês. A China é o segundo maior mercado para aviões do mundo, com a Airbus e a Boeing a partilharem praticamente a mesma quota de mercado. A firma norte-americana estima que a China precisará de um total de 7.240 aeronaves comerciais nos próximos 20 anos.

CENTRO GEORGES POMPIDOU (BEAUBOURG) INSTALA-SE EM XANGAI

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França e a China estabeleceram ontem as bases de um acordo para o estabelecimento de um Centro Georges Pompidou, de arte contemporânea, em Xangai, declarou o Presidente francês, Emmanuel Macron. Esta parceria prevê igualmente uma extensão dos Encontros de Fotografia de Arles, na cidade de Xiamen, no leste da China, disse à imprensa Emmanuel Macron, num encontro conjunto com o seu homólogo chinês, Xi Jinping.

O acordo insere-se numa estratégia de internacionalização do museu parisiense e surge na sequência de um protocolo assinado no ano passado, com o grupo chinês de capitais públicos West Bund, que previa a abertura do Centro Pompidou em Xangai para o início de 2019, recorda a agência France Presse. O projecto de internacionalização do Centro Pompidou tem vindo a ser testado desde 2015, na cidade espanhola de Málaga, e prevê igualmente a extensão a Seul, na Coreia do Sul, como foi anunciado pela instituição em 2016. O objectivo deste projecto do Centro Pompi-

dou, nomeadamente a expansão para a Ásia, é a valorização da sua colecção, apontada pelo setor como uma das mais importantes do mundo, ao nível da arte moderna e contemporânea, a seguir ao Museu de Arte Moderna (MoMA), de Nova Iorque. Inaugurado em 1977, em Paris, no Beaubourg, na zona urbana onde antes se encontrava o mercado abastecedor Les Halles, o centro toma o nome do presidente francês Georges Pompidou (1969-1974) e possui um acervo superior a 147 mil peças de arte moderna e contemporânea, que vão da pintura e da arquitectura a novas

expressões artísticas, com apelo a novos meios e novas tecnologias. Henri Matisse, Georges Rouault, Georges Braque, Pablo Picasso, Sonia e Robert Delaunay, Fernand Léger, Vassily Kandinsky, André Breton, Alberto Giacometti, Jean Dubuffet, Mark Rothko, Jasper Johns, Andy Warhol, Renzo Piano e Richard Rogers, sem esquecer os portugueses Maria Helena Vieira da Silva, pintora, e os arquitectos Álvaro Siza Vieira, Nuno Teotónio Pereira e Eduardo Souto de Moura, entre outros, são alguns dos nomes presentes na colecção do Centro Pompidou.


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PLENÁRIO SECRETÁRIO PARA A SEGURANÇA SUGERE CRIAÇÃO DE TELEVISÃO PARA EMERGÊNCIAS

Um leal canal GCS

A reunião plenária para discutir o apuramento de responsabilidades do Governo quando da passagem do tufão Hato teve um final inusitado: Wong Sio Chak sugeriu a criação de um canal de televisão para secretaria que dirige de forma a transmitir alertas e informações durante catástrofes naturais

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Wong Sio Chak sugeriu a abertura de um canal de televisão para a secretaria que dirige que “funcione 24 horas por dia em caso de emergência”. De seguida, disse ficar aguardar a “opinião dos deputados quanto a esta questão”

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sessão plenária pedida por Ng Kuok Cheong visava impedir que a culpa não morresse solteira nos períodos pré e pós tufão Hato, porém foi marcada por uma sugestão do secretário para a Segurança já no final do debate. No meio de um mea culpa, Wong Sio Chak deixou uma crítica velada a meios de comunicação que não divulgaram informações úteis a uma população que acabara de passar o dos piores tufões em muitas décadas. Como tal, o secretário sugeriu a abertura de um canal de televisão para a secretaria que dirige que “funcione 24 horas por dia em caso de emergência”. De seguida, Wong Sio Chak disse ficar aguardar a “opinião dos deputados quanto a esta questão”. No que diz respeito ao apuramento de responsabi-

bilidades”, mas que espera que “o Chefe do Executivo ouça o que a Assembleia Legislativa tem para dizer”. Agnes Lam começou por frisar que é necessário distinguir entre responsabilidades disciplinares e políticas e que as rajadas de vento do tufão Hato deixaram a descoberto as deficiências dos serviços de Macau. A recém eleita deputada afirmou que o Governo não atendeu à queixas dos cidadãos que se manifestavam desde os tempos do tufão Nida. Um ponto partilhado com Pereira Coutinho, que lamentou que as culpas tenham sido “todas empurradas para Foi Soi Kun”.

lidades, Au Kam San referiu que “não se está a pedir cabeças de dirigentes”, mas que nos momentos posteriores à devastação provocada pelo tufão que matou 10 pessoas “parecia que o Governo se havia tornado invisível”. Nesse sentido, o pró-democrata questiona-se porque foram apenas as chefias da Direcção dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) as únicas responsabilizadas pela inoperância do Governo na resposta e no sistema de alerta. Au Kam San deu o

exemplo da permissão para construir auto-silos em zonas baixas, interrogando se o pelouro de Raimundo do Rosário não terá também responsabilidades nessa matéria. O secretário para os Transportes e Obras Públicas respondeu apontando que para o apuramento de responsabilidades já correm dois processos disciplinares decorrentes dos acontecimentos do final do Agosto passado. Wong Sio Chak também deu uma réplica semelhante à intervenção de Pereira

Coutinho, afirmando que “foi constituída uma comissão que apresentou um relatório onde se verificou que alguns funcionários públicos violaram os seus deveres”. O secretário para a Segurança acrescentou ainda que “o relatório não fala de responsabilidade política”, exactamente aquilo que se pediu no hemiciclo.

A REFORMA

O proponente do debate, Ng Kuok Cheong, mencionou que “o Governo menospreza a imputação de responsa-

O português ainda se insurgiu sobre a forma como foi, em primeira instância, aceite a aposentação antecipada do ex-director dos SMG. O director dos Serviços de Administração e Função Pública veio a terreiro esclarecer que “de acordo com a legislação vigente que regula a aposentação, se um funcionário trabalhar durante 30 anos e tiver 55 anos” pode pedir reforma antecipada mediante a entrega de uma declaração com antecedência de 90 dias. Caso que se verificou com Foi Soi Kun mas, como se sabe, o Fundo de Pensões revogou o despacho em que foi fixada a sua pensão de aposentação. A questão da avaliação dos altos cargos do Execu-

tivo foi trazida à baila por Ho Ion Sang que referiu que “apenas um por cento dos dirigentes têm uma avaliação de desempenho onde se diz que têm de melhorar, os restantes têm notas de satisfaz muito”. O deputado entende que o sistema de avaliação dos funcionários públicos carece de revisão, e que “a renovação das comissões de serviço não deve ser feita com base nas pessoas que o funcionário conhece”, apelando à meritocracia nos serviços públicos.

OBRIGADO POR FISCALIZAREM

Mas nem só de críticas se fez o debate de ontem na Assembleia Legislativa. Ma Chi Seng referiu que chegou a “altura de avançar para a frente e ver o que se pode fazer para minimizar danos em situações futuras”. O deputado nomeado congratulou ainda a população de Macau, que “teve um comportamento exemplar” por se ter conseguido conter em entrar numa onda de pilhagens, aproveitando a situação de desnorte e destruição, como aconteceu anteriormente em países como os Estados Unidos. No capítulo dos alertas, Raymond Tam reiterou que foram criadas novas categorias de alertas, como o super-tufão e as cinco escalas de sinal de storm surge. O director do Corpo de Policia de Segurança Pública, Leong Man Cheong, lembrou que “o centro de operações de protecção civil tem feito simulacros e que, desde Outubro, têm sido feitas sessões de esclarecimento e contacto com associações”. O dirigente máxima da PSP recordou que foram tomadas medidas para se instalarem megafones em veículos para avisar a população em caso de tufão. O debate terminou com Wong Sio Chak a agradecer “as críticas e sugestões dos senhores deputados”, agradecendo “a fiscalização efectuada e as opiniões construtivas” que foram dadas. João Luz

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quinta-feira 11.1.2018

JUSTIÇA SULU SOU RECORRE DO PROCESSO QUE DITOU A SUSPENSÃO DO SEU MANDATO

direito de Sulu Sou que é defendido mas também queremos clarificar os regulamentos para que este tipo de situação não volte a acontecer”, acrescenta Scott Chiang.

Só para clarificar

LEITE DERRAMADO

Sulu Sou recorreu ao Tribunal de Segunda Instância para esclarecer se durante o processo para suspender o mandato de um deputado se este tem direito a defender-se em sede de comissão que vota o seu destino. A Assembleia Legislativa tem até hoje para responder, se não o fizer a suspensão do deputado pode ser suspensa. Scott Chiang esclarece que não é esta a intenção do recurso

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dia 4 de Dezembro foi histórico na vida da Assembleia Legislativa (AL) com uma votação que determinaria a suspensão do mandato do recém-eleito deputado Sulu Sou. O jovem legislador interpôs na semana passada recurso para o Tribunal de Segunda Instância do processo que ditou o seu afastamento das lides legislativas enquanto o processo-crime por desobediência qualificada correr. A AL tem até hoje para responder ao recurso interposto pelo pró-democrata e pode parar o processo de suspensão se não o fizer, algo que Sulu Sou diz não procurar. Scott Chiang esclarece que “o recurso é para clarificar incertezas acerca de alguns princípios fundamentais, como por exemplo o direito de Sulu Sou à autodefesa”. O ex-presidente da Associação Novo Macau adianta que a medida “não tem como intenção ultrapassar o

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deputado Si Ka Lon, que cumpre o segundo mandato na Assembleia Legislativa, é proprietário de onze lojas, embora não tenha especificado a localização das mesmas. De acordo com a declaração de bens do deputado ligado à comunidade local de Fujian, em quatro anos, o legislador apoiado pelo empresário Chan Meng Kam conseguiu aumentar o seu número de lojas de 10 para 11. Em relação ao número de fracções habitacionais, Si Ka Lon continua a ser detentor de cinco apartamentos, tal como acontecia na declaração de 2013. No entanto a forma como os espaços são utlizados sofreu alterações. No passado, Si Ka Lon tinha dois espaços para uso pessoal, dois para emprestar e um para arrendar. Agora utiliza duas casas, arrenda outras duas e apenas tem uma para emprestar. Além disso, o membro da AL é proprietário de três espaços de estacionamento para uso particular.

Scott Chiang, ex-presidente da Associação Novo Macau “O recurso é para clarificar incertezas acerca de alguns princípios fundamentais, como por exemplo o direito de Sulu Sou à autodefesa.”

resultado da votação do plenário”, até porque um tribunal não tem poder ou competência para tal. “O que queremos é clarificar um processo que consideramos

dúbio”, acrescenta o pró-democrata companheiro de Sulu Sou no processo-crime que deu início ao caso que marcou o início desta legislatura.

O grão-mestre local Si Ka Lon declara ser proprietário de 11 lojas

No que diz interesse à participação em empresas, houve alterações significativas. Em 2013, Si Ka Lon era detentor de 25 por cento da empresa Va Kio Kuoc Chai Tao Chi Iao Han Kong Si (tradução fonética), que tem um capital social de 100 mil patacas. Apesar do capital social se ter mantido, agora o deputado é detentor de 50 por cento da empresa. Outra novidade passa pelo facto de Si Ka Lon ser agora detentor de uma participação de 30 por cento de uma empresa com um capital social de 20 milhões de renminbis, que tem o nome de Ha Mun Seng Iek Kei Ip Kun Lei Chi Son Iao Han King Si (tradução fonética). Finalmente é também proprietário em 99 por cento da empresa Iek Seng Group Development Company

Limited, que tem um capital social de 100 mil patacas. Ao nível dos cargos que assume nas diferentes associações, Si Ka Lon é presidente da Aliança para o Progresso Macau, da Guangdong e Macau Federação da Indústria e Comércio, da associação Ou Mun In I Kong Tun e da associação Ou Mun Hong Hong Fai Tai Fo Wan Hip Wui. É ainda presidente honorário da Aliança de Povo de Instituições de Macau, ligada a Chan Meng Kam.

ADVOGADO CONSULTOR

Também o advogado de deputado nomeado pelo Chefe do Executivo, Chan Wa Keong, entregou a sua declaração de rendimentos. Além de ser proprietário de duas fracções habitacionais para uso próprio, uma

“É a primeira vez, desde a transferência de administração, em que temos um procedimento deste género a ser aplicado e há uma área cinzenta, não é só o

em Macau e outra em Zhuhai, o advogado é proprietário de várias consultoras. Chan é proprietário a 50 por cento da empresa de consultadoria San Si Toi Kun Man Iao Han Kong Si (tradução fonética), que tem um capital social de 50 mil patacas. Também nas empresas de consultadoria Lot Cheng Ku Man Iao Han Kong Si, Fat Cheng Ku Man Iao Han Kong Si e Soi Man Kuoc Chai Ku Man Iao Han, cada uma com um capital de 25 mil patacas, o deputado é detentor de 25 por cento, em cada empresa. Por último, o legislador é dono de 80 por cento da Companhia da Gestão do Escritório deAdvogado Chan Wa Keong. Ao nível das associações, Chan Wa Keong é presidente da Associação de Investigação do Sistema Jurídico de Macau e da Associação dos Alunos de Macau da Universidade da Ciência Política e Direita da China. João Santos Filipe (Com V.N.)

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A 4 de Dezembro 28 deputados deixaram 9123 eleitores sem representação. Durante esse debate Pereira Coutinho foi um dos legisladores que se insurgiu contra a suspensão de Sulu Sou. Além de se mostrar contra o parecer da Comissão de Regimento e Mandatos, o português sublinhou, exactamente, a forma como durante os procedimentos não foi respeitado o direito de defesa do pró-democrata. Na dúvida, Scott Chiang adianta que depois de uma apurada análise não conseguiram encontrar clareza nos regulamentos. “Isto mostra a magnitude das falhas e o potencial conflito entre princípios diferentes. Claro que as regras não são escritas na perfeição”, comenta o ex-presidente da Novo Macau. Scott Chiang esclarece que, por vezes, se apela ao tribunal para evitar uma situação, mas noutras a “expectativa é realmente mudar alguma coisa”. O pró-democrata faz questão de frisar que a suspensão já aconteceu. “A nossa situação actual não tem muita importância mas achamos que é fundamental e benéfico para o regime que clarifiquemos a forma como se trabalha na AL. O tribunal é a única entidade qualificada para o fazer”, esclarece. João Luz

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LICENÇAS DE JOGO COUTINHO QUER SABER MAIS DETALHES

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secretário para a Economia e Finanças, Lionel Leong, disse recentemente na Assembleia Legislativa que não vai divulgar dados sobre a renovação das licenças de jogo para proteger o território da concorrência. Contudo, o deputado José Pereira Coutinho pretende saber mais detalhes sobre o processo. “Que tipos de detalhes está o Governo a pensar neste momento e que não pode divulgar publicamente, podendo eventualmente afectar a concorrência dos países vizinhos?”, questionou. Falando do princípio da “transparência governativa”, o deputado pretende saber “quando é que o Governo vai divulgar a calendarização das várias etapas relacionadas com a concessão das licenças de jogo para a revisão do actual regime jurídico da exploração de jogos de fortuna ou azar?”. A.S.S.


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GCS

11.1.2018 quinta-feira

COOPERAÇÃO ASSINADOS OITO ACORDOS ENTRE MACAU E GUANGDONG O projecto da Grande Baía cresce a olhos vistos. Ontem foram mais ITO acordos e Os oito acordos e me- Guangdong tem oferecido empreendedorismo dos joacordos relativos memorandos de morandos agora assinados sempre”, disse Chui Sai On, vens e a aposta na construção à juventude, cooperação foram referem-se ao trabalho a numa breve intervenção an- de plataformas importantes, ontem assinados, desenvolver junto dos jo- tes do início dos trabalhos. O como a ilha da Montanha, segurança em Cantão, no sul vens, à segurança alimentar chefe do Governo de Macau Nansha, Zhongshan e Jianda China, pelos e à protecção da propriedade afirmou que “ao longo dos men. alimentar, Governos de Macau e da intelectual, à construção de anos, o esforço dos Governos Nesta conferência, Maprovíncia de Guangdong. parques de tecnologia no das duas regiões conseguiu cau e Guangdong vão propriedade Na abertura da conferência âmbito da medicina tradi- concretizar os trabalhos “abordar a aprofundar ainintelectual, de cooperação conjunta cional chinesa e à protecção essenciais no âmbito do da mais os assuntos inerenGuangdong-Macau, o che- ambiental e poupança ener- acordo-quadro de coopera- tes à participação conjunta medicina fe do Governo da Região gética. ção Guangdong-Macau”. na iniciativa ‘Uma faixa, Administrativa Especial “Temos consciência de Chui Sai On destacou a Uma rota’, à construção tradicional chinesa (RAEM) sublinhou que, para qualquer avanço e promoção da liberalização conjunta da Grande Baía de “a escala e o aprofundamento desenvolvimento de Macau, do comércio de serviços, Guangdong, Hong Kong e chinesa e da cooperação” entre as duas é indispensável o grande mais oportunidades e espa- Macau, à promoção do inregiões. apoio que a província de ços de desenvolvimento do tercâmbio entre os jovens, ambiente

De mão na massa

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S fundos públicos só vão pagar benefícios e apoios sociais aos idosos residentes. A ideia foi reforçada, ontem, por Ho Ion Sang, presidente da Primeira Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, que discute na especialidade a lei de garantias e dos direitos e interesses dos idosos. “Os cidadãos podem ficar descansados que este artigo deixa muito claro que os benefícios são só para os nossos residentes. Não vai haver benefícios pagos a não-residentes com dinheiros públicos”, afirmou Ho Ion Sang. Apesar disso, foi proposta uma alteração ao texto inicial do Governo que definia que só os residentes com 65 anos ou mais podiam ser considerados idosos, ou

Apoios só para residentes Deputados querem processos em tribunal agilizados

seja deixava de fora da definição os não-residentes. “Consideramos que a nova redacção é mais justa e tem um maior equilíbrio. A alteração reflecte o objectivo de considerar todas as pessoas com 65 anos ou mais idosas, independentemente de serem residentes. Era uma questão consensual entre os deputados”, acrescentou. Outro ponto muito discutido entre a comissão e os representantes do Governo foi a necessidade de acelerar os processos judiciais que envolvem os idosos, quando estes exigem o pagamento de pensões aos familiares.

Segundo explicou o presidente da comissão, de acordo com os artigos do código civil em vigor e a proposta de lei, quando um idoso está em situação de carência pode exigir aos familiares um pagamento mensal que lhe garanta viver com dignidade pela seguinte ordem: primeiro ao cônjuge, depois ex-cônjuge, descendentes, filhos, e ascendentes, pais. “Em caso de problemas em conseguir o pagamento, os idosos podem levar os familiares para o tribunal. Só que o processo é complicado e demora muito tempo. Sugerimos ao Governo que pensasse num proce-

à aceleração da construção da zona experimental de comércio livre, ao reforço da cooperação principal nas áreas sociais e de bem-estar da população”, reiterou. Na intervenção de abertura, o governador da província de Guangdong, Ma Xingrui, afirmou estar convicto que os trabalhos de ontem vão consolidar a cooperação entre Macau e Guangdong. As delegações de Macau e Guangdong à conferência, à qual assistiram o vice-director do Gabinete para os Assuntos de Hong Kong e Macau do Conselho de Estado da China, Huang Liuqan, e o subdirector do Gabinete de Ligação do Governo Popular na RAEM, Yao Jian, integravam mais de 40 responsáveis das duas regiões.

dimento para simplificar o processo e acelerar as decisões do tribunal”, sublinhou Ho Ion Sang. Ainda em relação a esta parte da lei, os deputados mostraram-se contra o facto dos pais de um idoso terem de assumir o pagamento de uma pensão ao filho, em caso de carência deste último: “Será que eles vão ter a capacidade de assumir o pagamento? Eles também são idosos e podem também estar em dificuldades, se ainda forem vivos. É uma questão que nos levanta muitas dúvidas em termos de aplicabilidade”, explicou. João Santos Filipe

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quinta-feira 11.1.2018

EXAME UNIFICADO ASSOCIAÇÃO BOM LAR SUGERE MELHORIAS

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prazo de inscrições para a realização do exame unificado de acesso ao ensino superior, destinado a quatro universidades, termina no próximo dia 19. Loi Yi Weng, vice-presidente da Associação da Construção Conjunta de Um Bom Lar, defende que devem ser

feitas melhorias, tendo em conta as opiniões de muitos alunos do ensino secundário. A responsável, que também é docente, adiantou que vários estudantes consideraram confusas as regras do exame, tal como a proibição de utilização de calculadoras, as diferentes indicações

dadas por aqueles que fiscalizam as provas e a falta de clareza nos espaços de resposta. No geral, os alunos esperam que haja melhorias nos trabalhos de preparação para a realização do exame. Loi Yi Weng espera que os alunos possam ser notificados mais cedo das novas informações do

exame e que haja uma maior divulgação das regras de funcionamento. A representante da associação presidida pela deputada Wong Kit Cheng deseja que as opiniões do pessoal docente possam ser ouvidas no futuro, para que os conteúdos dos exames possam melhorar em termos de qualidade.

ACIDENTE MULHER DE 60 ANOS MORRE APÓS SER ATROPELADA NA PASSADEIRA

Drama na Xavier Pereira

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MA senhora de 60 anos morreu ontem de manhã, após ter sido atropelada numa das passadeira do cruzamento entre a Rua de Francisco Xavier Pereira e a Rua de Fernão Mendes Pinto. O atropelamento mortal resultou de um acidente de viação que envolveu um autocarro da Nova Era e quatro viaturas ligeiras. Segundos as informações avançadas pela Polícia de Segurança Pública, ao HM, o acidente aconteceu às 9h00 da manhã, quando um veículo ligeiro aguardava que a senhora atravessasse a passadeira e foi atingido, por trás, por um autocarro da Nova Era descontrolado. O primeiro incidente resultou num choque em cadeira que envolveu o autocarro e quatro viaturas ligeiras. Além da vítima mortal, que só foi declarada morta mais tarde, já no hospital, ficou igualmente ferido um residente com cerca de 50 anos, condutor de uma das viaturas ligeiras. “Um veículo parou numa passadeira e quando aguardava sofreu um embate por trás de um autocarro, que provocou um choque em cadeia. A idosa atravessava a passadeira e acabou por ficar presa entre dois veículos”, disse fonte da PSP, ao HM. Ontem à tarde ainda não tinham sido apuradas as responsabilidades do acidente, que está a ser investigado: “O caso foi entregue para inquérito e a polícia está a fazer as averiguações necessárias”, explicou a mesma fonte das autoridades. Ainda de acordo com a informação oficial, os condutores envolvidos no acidente não acusaram o consumo de bebidas alcoólicas.

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Colisão mortal entre cinco viaturas começou devido a descontrolo de autocarro da Nova Era e causou um morto e um ferido. Empresa de transportes públicos disse ao HM que viatura tinha passado recentemente a inspecção e que o condutor foi suspenso com efeito imediato

Lou Pak Sang é o novo director da DSEJ

O actual subdirector da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude (DSEJ) vai assumir os serviços. A informação foi dada pelo secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, ao canal chinês da rádio, à margem da cerimónia de abertura da exposição sobre o ensino de tecnologias de informação. O governante salientou ainda as qualidades da actual directora que está de saída, Leong Lai sublinhando os seus contributos nas áreas da ciência e do sensino inteligente.

Ponte HMZ Inscrições para maratona abrem dia 15

A primeira maratona na ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau está agendada para o dia 18 de Março, e as inscrições para os interessados em participar têm início na próxima segunda-feira. De acordo com o Jornal Ou Mun, a actividade conta as modalidades de maratona e mini-maratona, sendo que se espera um total de cerca de 10000 participantes. As inscrições são aceites até 29 de Janeiro, e a inscrição exige o pagamento de 300 e 200 renminbis, conforme se trate de mini ou maratona completa.

Vendilhões Não há jovens a querer a profissão

O momento do acidente foi captado por uma câmara de vigilância na zona e está a ser partilhado nas redes sociais. Apesar disso, a PSP apela aos cidadãos que tenham assistido ao incidente que se apresentem para ajudarem na investigação do caso.

CONDUTOR SUSPENSO

Como consequência do acidente, o motorista do autocarro da Nova Era, que causou o primeiro embate, foi suspenso pela empresa. Ontem foi avançada a possibilidade do acidente ter sido causado devido a erro do condutor, que terá carregado no acelerador, quando pretendia travar. Ao HM,

o vice-administrador da empresa, Abel Kowk, recusou confirmar qualquer cenário, mas afastou problemas de manutenção relacionados com a viatura. “Não houve qualquer falha nos travões, até porque o nosso autocarro tinha passado há pouco tempo a inspecção. Nesta altura ainda não sabemos o que se passou porque estamos a investigar o caso. Mas posso assegurar que a viatura reúne as condições exigidas. Sobre isso temos a certeza”, disse Abel Kwok. “O autocarro envolvido no acidente tem entre seis e sete anos. Vamos cooperar com as

Abel Kwok disse ainda que a empresa “lamenta profundamente” estar envolvida num acidente com vítimas mortais e que, caso se prove a culpa da companhia, que vai “seguir todas as regras, accionar os seguros e assumir as suas responsabilidades”

autoridade e fazer o que for necessário para clarificar a situação”, frisou. Após o acidente, a empresa enviou um representante ao hospital que entrou em contacto com os familiares da vítima, a quem enviou as condolências. Além disso, suspendeu com efeitos imediatos o motorista. “O condutor está suspenso e não vai conduzir os nossos autocarros até haver uma conclusão sobre as investigações. Depois, tomaremos uma decisão sobre o seu futuro”, explicou. Abel Kwok disse ainda que a empresa “lamenta profundamente” estar envolvida num acidente com vítimas mortais e que, caso se prove a culpa da companhia, que vai “seguir todas as regras, accionar os seguros e assumir as suas responsabilidades”. O autocarro fazia o percurso número oito, que liga o Jai Alai à Rua do Parque Industrial. João Santos Filipe

joaof@hojemacau.com.mo

O Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) revelou que o número de vendilhões está a diminuir em Macau, facto que se deve, de acordo com presidente da Associação de Auxílio Mútuo de Vendilhões, Cheng Wong, a não existirem jovens a querer enveredar pela profissão. Ao canal chinês de rádio, o responsável referiu que há cada vez mais idosos a pedirem a reforma pelo que as licenças são devolvidas ao IACM, e não há ninguém a requerer novas licenças. “Não há sucessores jovens que queiram continuar o negócio”, disse. Cheng Wong mostrou-se ainda a favor da criação de um mercado nocturno no território e apontou a zona A dos novos aterros como uma localização a ter em conta “pelo seu excelente ambiente”.

Trânsito Aberto concurso público para gerir seis auto-silos

O Governo abriu um novo concurso público para a gestão e exploração de seis parques de estacionamento públicos. Tratam-se dos auto-silos Jardim Comendador Ho Yin, da Rua de Malaca, do Edifício Mong Sin, Edifício Mong In, da Rua da Tranquilidade e da Rua do Almirante Sérgio. O acto público da abertura das propostas terá lugar no próximo dia 9 de Fevereiro.

Wynn Trabalhadores ganham bonus salarial este mês

A concessionária de jogo Wynn anunciou ontem que vai pagar a 13 mil trabalhadores dos empreendimentos Wynn Macau e Wynn Palace um bónus salarial este mês. Estão excluídos os gestores de topo. “Este bónus será atribuído para mostrar a apreciação da empresa pelo trabalho duro e compromisso dos trabalhadores durante o bem sucedido segundo semestre de 2017”, lê-se no comunicado ontem enviado às redacções.


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“S

Ó falo fluentemente mandarim e inglês, mas como estou em Macau vou começar a aprender cantonês e português”, foi assim que começou o encontro de ontem entre o novo reitor da Universidade de Macau (UM), Song Tonghua, e os jornalistas. Depois de cumprimentar e se apresentar individualmente aos profissionais da comunicação social, Song Tonghua iniciou a sua intervenção com referência à necessidade de falar as línguas da terra para uma melhor integração nas novas funções. “Espero que no futuro possa aprender rapidamente as línguas para as saber falar e para me fazer entender”.  Por outro lado, o responsável considera importante que num território que tem duas línguas oficiais, as pessoas se consigam comunicar. “Queremos que cada vez mais chineses falem português e que cada vez mais portugueses falem chinês

SONG TONGHUA

NOVO REITOR DA UM DESTACA IMPORTÂNCIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

SOFIA MARGARIDA MOTA

É um conceito que se encaixa no pensamento de Xi Jinping. O novo reitor da Universidade de Macau tomou posse na passada terçafeira e não demorou a apresentar-se como portador de uma “nova era”. Recorreu a uma entrevista colectiva com jornalistas em que salientou a importância da língua portuguesa nas actuais políticas de Macau e do continente, prometendo um desenvolvimento “brilhante”. E garantiu não estar habituado a funcionar sem liberdade académica

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O homem da nova era

para que consigamos comunicar melhor nas duas línguas”, apontou. “A UM já tem um departamento de português e também se empenha em ensinar pessoas de língua portuguesa a aprender o chinês”, destacou referindo-se ao centro de estudos das duas línguas que o estabelecimento já alberga. No entanto a comunicação feita em língua portuguesa não tem marcado a actividade da UM o que Song Tonghua considera ser “um aspecto que tem de ser resolvido”. Sem dominar ainda as pastas e os trabalhos das diferentes faculdades e valências da UM, visto ter tomado posse na passada terça-feira, a questão da comunicação já está na agenda. “É o meu segundo dia de trabalho e ainda tenho de visitar e conhecer todos os departamentos,

mas vou prestar atenção à forma como a universidade pode usar o português na nossa comunicação com o exterior. São assuntos que me preocupam e tentarei arranjar uma forma de tornar a comunicação mais eficaz quer seja em cantonês quer seja em português e espero que isso aconteça num futuro próximo”, apontou Song Tonghua, sendo que hoje já começa a ver em que ponto está a situação. A questão do português, considera, é de importância particular na medida em que faz, não só parte das políticas locais, como das directrizes do Governo Central para o território “num momento em que a China tem cada vez mais relações com os países de língua portuguesa e em que Macau assume o papel de plataforma”.

“A UM tem de servir as necessidades tanto de Macau como do país, pelo que a língua portuguesa e a colaboração com os países de língua portuguesa na área da educação e pesquisa vai ser uma parte muito importante dos trabalhos que quero que a UM faça.”

“O Governo Central quer ver Macau como uma plataforma entre a China e os países de língua portuguesa e esta é uma missão muito importante para Macau. A UM tem de servir as necessidades tanto do território como do país, pelo que a língua portuguesa e a colaboração com os países de língua portuguesa na área da educação e pesquisa vai ser uma parte muito importante dos trabalhos que quero que a UM faça”, sublinhou.  “Vejo um futuro brilhante para este sector nesta nova era da universidade Macau”, rematou.

LIBERDADE FUNDAMENTAL

Num momento em que se discute a liberdade académica e as preocupações a ela associadas com a integração regional, para Song Tonghua


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quinta-feira 11.1.2018

DE CHENGDU PARA MACAU Breve cronologia

1964 Nasceu numa aldeia em Sichuan. Desde pequeno que os pais, para que o filho tivesse uma vida fora da pobreza, fizeram o que lhes era possível para que entrasse na universidade. Foi admitido na Universidade de Ciência e Tecnologia de Chengdu aos 16 anos.

1989 Concluiu o doutoramento no Instituto de Pesquisa em Energia Eléctrica da China, na Universidade Tsinghua. Foi o primeiro doutorado nascido de Bazhong, cidade onde nasceu.

1991 Foi para inglaterra à

trata-se de uma não-questão. De acordo com o reitor “a liberdade académica é o coração de qualquer universidade em qualquer parte do mundo e é por isso que irá fazer parte do trabalho da UM”. O responsável está habituado a trabalhar com a liberdade e é assim que pretende continuar. “Trabalhei nos Reino Unido durante 18 anos e estou habituado a esta liberdade”. Interrogado se tinha tido algum tipo de orientação quanto a “assuntos delicados” Song negou peremptoriamente que tal tenha acontecido. De qualquer forma, para o reitor, “a própria lei local ressalva bem a existência de liberdade académica e na educação e prometo que a UM vai agir acordo com a lei local e em total conformidade e compromisso com a liberdade académica”.

UMA ESCOLHA EVIDENTE

Escolher a UM para trabalhar não foi difícil para Song Tonghua. Dadas as suas características geográficas, este é um estabelecimento de ensino que representa um ponto em que o reitor pode marcar a diferença dada a experiencia que traz do passado. “A sua localização no Delta do Rio das Pérolas, e na Grande Baía conferem à UM um enorme potencial como instituição de referência”, diz. Por outro lado, tendo em as funções que desempenhou como consultor do Governo nas áreas da tecnologia e ciência, os 18 anos enquanto académico em Inglaterra e o papel de vice reitor em duas das maiores universidades da China,

procura de trabalho. Passou por várias etapas e conseguiu um lugar de académicos convidado da Royal Society, na Universidade de Bristol. Só depois de muitas pesquisas e apresentações na sua área de especialização, Song foi admitido como professor, aos 33 anos, pelo Departamento de Engenharia de Computadores e Electrotecnia da Brunel University e acabou por ser consultor no que respeita a construções eléctricas para a Rússia, Itália e Austrália.

2004 Song foi nomeado membro da Royal Academy of Engeneering. Foi o primeiro estrangeiro a ser admitido na academia inglesa na área da engenharia. No mesmo ano, assumia também os cargos de vice director da Universidade de Liverpool e de presidente na delegação daquele estabelecimento em Xian.

2009 Regressa à China depois de ter aceite o convite da Tsinghua para professor de engenharia eletrotécnica e director do gabinete de contratação de especialistas de alto gabarito.

2012 Song é vice-reitor da Universidade de Zhejiang

2018 Reitor da universidade de Macau

sendo uma dela a famosa Tsinghua, Song Tonghua considera que tem os conhecimentos e experiência necessários para fazer da UM uma referência. “Venho de algumas universidades de topo na China trabalhai como vice-reitor na Tsinghua e tenho um passado académico que junta o as concepções de ensino

tanto de ocidente como do oriente e penso que isso é uma das mais valias que posso trazer para este cargo na UM”, disse. Esta foi também uma das razões que levou o reitor a escolher a UM. “Macau é um lugar onde o Oriente e o Ocidente convivem com uma forte ligação à Europa, nomeadamente a Portugal e que, ao mesmo tempo, pertence à China. Como tal, posso usar os meus conhecimentos para fazer o que me proponho: Elevar a Universidade de Macau a um novo nível de excelência de modo a que, depois dos cinco anos de mandato, a UM seja uma escolha prioritário para ser considerada pelos alunos locais e um estabelecimento de orgulho para Macau”, apontou.

APRENDER COM O EXTERIOR

A contratação de profissionais do exterior para melhor formar os alunos da UM é uma das medidas que Song também já tem na agenda. Numa altura em que se fala tanto de talentos, Song considera que é importante ir buscar profissionais qualificados ao estrangeiro, com experiências nas suas áreas de conhecimento para que possam passar o melhor aos alunos da UM. “Queremos trazer talentos de fora para formar os talentos locais”, apontou.

“A liberdade académica é o coração de qualquer universidade em qualquer parte do mundo e é por isso que irá fazer parte do trabalho da UM.” A internacionalização não se fica por aqui. “Num ambiente académico que já recebe professores de vários cantos do mundo, a tendência vai continuar, e mais, é para formar um ambiente internacional acolhedor de cooperação em que todos se sintam bem por trabalhar em conjunto, sendo que vamos proporcionar mais e melhores oportunidades para os professores”, disse. Por ter formação e ser especialista na área da eletrotecnia, o sector da energia será olhado com atenção até porque “com a passagem do tufão Hato, verificou-se que seria muito importante que existisse uma investigação já realizada capaz de oferecer soluções para evitar os cortes de energia”, ilustrou de modo a salientar a relevância do sector. A cidade inteligente é outra das áreas que o território precisa ver desenvolvida e em que a engenharia eletrotécnica mais uma vez pode dar os seus contributos, considera. Sofia Margarida Mota

Sofia.mota@hojemacau.com.mo

Toma lá, dá cá

Hospital do Cotai obriga a troca de terrenos com STDM

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construção do novo hospital no Cotai vai obrigar à troca de terrenos entre o Governo e a Sociedade Linhas Aéreas Ásia Oriental, ligada à STDM. Esta tem de entregar o terreno que possui na Estrada do Altinho de Ka-Hó. Em troca, o Governo concede-lhe, na Taipa, um pedaço de terra por arrendamento O Governo viu-se obrigado a negociar com a Sociedade Linhas Aéreas Ásia Oriental quando percebeu que o terreno que esta empresa tinha na Estrada do Altinho de Ka-Hó, em Coloane, e que servia de base à manutenção de helicópteros, iria atrapalhar as obras do novo hospital. A empresa em causa está ligada à Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) e tem como administradores a empresária Pansy Ho e o empresário Un Chan, ligado à Shun Tak. Segundo um despacho publicado ontem em Boletim Oficial (BO), assinado pelo secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raimundo do Rosário, a empresa deve ceder o terreno que possui junto à Estrada do Altinho de Ka-Hó, em Coloane. Em troca ganha a concessão, por arrendamento, de um terreno localizado na Taipa. Esta terá a duração de 25 anos, sendo que o aproveitamento do espaço deve ser feito em 36 meses. O terreno concedido pelo Executivo tem um valor de 40 milhões de patacas, sendo que aquele que a concessionária irá devolver vale quase 24 milhões de patacas. A renda a pagar pela Sociedade Linhas Aéreas Ásia Oriental, durante o período de aproveitamento do terreno, será

de 171 mil patacas, ou seja, 17 patacas por cada metro quadrado. O contrato, também disponibilizado em BO, revela que o terreno na zona de Ka-Hó “encontrava-se aproveitado com a construção de uma base-serviço de manutenção de helicópteros”, com um edifício de três pisos.

ESTUDOS REALIZADOS

Os governantes procederam a vários estudos quando perceberam que “a rota aérea desta base impede o desenvolvimento de empreendimentos com uma altura superior a 60 metros” no Cotai. “Após diversos estudos sobre a sua recolocação, foi iniciado um procedimento de troca dos direitos resultantes da concessão do terreno da aludida base pelo direito de concessão de um terreno com a área de 10 162 m2, situado na ilha da Taipa, na zona E2 do novo aterro, designado por lote LT7”, lê-se no BO. Este processo obrigou à realização de “negociações entre a [empresa] concessionária e a Administração através da Autoridade de Aviação Civil e da Direcção de Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), a fim de acordar as condições de troca de direitos”. A DSSOPT elaborou posteriormente a minuta do contrato que foi enviada à concessionária. “Em face das alterações propostas, realizou-se uma reunião entre as partes, após o que foi elaborada a nova minuta de contrato.” Todo o processo foi alvo de análise por parte da Comissão de Terras, que deu o seu parecer favorável no dia 10 de Agosto do ano passado. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


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Feiticeira do Amor”, “Good Time” ou “Columbus” são algumas das películas que poderão ser vistas nas próximas duas semanas na Cinemateca Paixão. Está pronto a estrear mais uma temporada de filmes exclusivamente com a assinatura de realizadores norte-americanos, intitulada “Nova América – Cinema de Possibilidades”. A ideia, contou Rita Wong, presidente da associação que gere o espaço, é mostrar o que de novo e diferente se tem feito num país que domina o cinema em termos mundiais. “Os filmes americanos são muito populares em todo o mundo, independentemente de serem filmes de Hollywood ou outros. Uma vez que nos EUA são produzidos muitos filmes, com os quais temos

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Além de Hollyw CINEMATECA PAIXÃO NOVO CINEMA AMERICANO EM DESTAQUE

Arranca já este sábado a nova temporada de filmes na Cinemateca Pai filmes produzidos nos Estados Unidos. “Nova América – Cinema de P filmes ao público, com destaque para aquilo que é alternativo e para a muito contacto, há também um novo cinema. Desta vez cooperámos com um director que estudou nos EUA e está habituado à cultura americana e aos seus filmes.”

Rita Wong adiantou que a sua colaboração acabou por revelar-se fundamental na introdução “de um lado mais alternativo do cinema americano junto do nosso pú-

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA O TEMPO ENVELHECE DEPRESSA • António Tabucchi

Todas as personagens deste livro parecem estar empenhadas numa confrontação com o Tempo: o tempo dos acontecimentos que viveram ou estão a viver e o tempo da memória ou da consciência. Mas é como se uma tempestade de areia se tivesse levantado nas suas clepsidras: o tempo foge e detém-se, gira sobre si próprio, esconde-se, reaparece a pedir contas. Do passado emergem estranhos fantasmas, as coisas que antigamente eram incompatíveis agora parecem harmonizar-se, as versões oficiais e os destinos individuais não coincidem. Um ex-agente da defunta República Democrática Alemã que durante anos espiou Bertold Brecht, vagueia sem destino por Berlim até ir ter ao túmulo do escritor para lhe confiar um segredo. Numa localidade de férias da ex-Jugoslávia, um oficial italiano da ONU que durante a guerra do Kosovo sofreu as radiações do urânio empobrecido ensina a uma miúda a arte de ler o futuro nas nuvens. Um homem que engana a sua solidão contando histórias a si próprio torna-se protagonista de uma aventura que inventara numa noite de insónia. Sensível às convulsões da História recente, Antonio Tabucchi mede-se com o nosso Tempo «desnorteado», em que se os ponteiros do relógio da nossa consciência parecem indicar uma hora diferente daquela que vivemos.

blico”. “Queremos trazer mais horizontes e mais alternativas ao público”, frisou. A temporada começa no sábado, com a realização de uma palestra intitulada

“Seminário do Festival De Hollywood ao Independente: O CinemaAmericano na Linha da Frente”, que tem entrada livre. Esta palestra, com entrada gratuita, tem como orador

Derek Lam, da Universidade de Hong Kong. “[Derek Lam] virá falar dos filmes americanos e com isto queremos aumentar o interesse das pessoas. Esperamos que

RUA DE S. DOMINGOS 16-18 • TEL: +853 28566442 | 28515915 • FAX: +853 28378014 • MAIL@LIVRARIAPORTUGUESA.NET

PEREGRINAÇÃO DE ENMANUEL JHESUS • Pedro Rosa Mendes

Como fez com o Mapa Cor-de-Rosa em Baía dos Tigres, Pedro Rosa Mendes reinventa, nesta “Peregrinação de Enmanuel Jhesus”, um espaço nobre da literatura portuguesa, de Fernão Mendes Pinto a Ruy Cinatti: o arquipélago malaio, imenso território de aventura, onde as caravelas chegaram há exactamente 500 anos. Passagens de História, memórias políticas, cadernos da guerrilha, tratados breves de diplomacia, debates teológicos, cenas de artes marciais, cartografia antiga, observações de botânica, notas de geologia, ritos de sagração, sortes tauromáquicas, até um fado perdido (por Amália?) lá em «Outramar»: abundantes são os tesouros que nos acompanham nesta viagem. Uma vertigem de personagens desfilam e falam a várias vozes. O resultado é um romance em diário de bordo, uma ficção de portulano, «suma accidental em que da conta de mvitas e mvito estranhas cousas que vio e ouvio nos reynos do Achém, Çamatra, Sunda, Jaua, Flores y Servião y Bellos, que vulgarmente se chamam Timor, homde nace o sandollo».


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UPSTREAM COLOUR

HOJE NA CHÁVENA Paula Bicho

Naturopata e Fitoterapeuta • obichodabotica@gmail.com

Bodelha Nome botânico: Fucus vesiculosus L. Família: Fucaceae. Nomes populares: ALGAVESICULOSA; BOTELHO; BOTILHÃO-VESICULOSO; CARVALHINHO-DO-MAR; CARVALHO-MARINHO; FUCO; FUCUS; SARGAÇO; SARGAÇOVESICULOSO; VAREQUEVESICULOSO.

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ixão, desta vez dedicada aos Possibilidades” mostra dez as realizações no feminino mais pessoas possam vir, mas o importante é trazer alternativas. Também temos novos filmes que têm elementos mais comerciais. Tudo para que o público possa explorar novas áreas no cinema”, disse a directora de programação da Cinemateca. Rita Wong assegura que “Nova América – Cinema de Possibilidades” constitui uma pequena temporada. “Optámos por passar apenas dez filmes, que vão ser exibidos duas vezes cada um. Tentámos incluir mais filmes realizados por mulheres, porque estão a fazer um bom trabalho nesta área. Também incluímos os novos realizadores, como é o caso do realizador do filme ‘Columbus’.” Na apresentação desta iniciativa, os gestores da Cine-

mateca Paixão consideram que o alternativo a Hollywood tem surpreendido pela positiva. “Apesar da máquina económica de Hollywood ter suplantado o seu desenvolvimento artístico, os filmes americanos fora do sistema dos grandes estúdios têm continuado a amadurecer e impressionar no palco internacional.”

“Com estes filmes de qualidade, esperamos mostrar as muitas facetas da vibrante cultura americana.” CINEMATECA PAIXÃO

“Esta série de dez aclamadas produções americanas abrange todo o tipo de géneros, da acção ao drama, da comédia ao thriller. Com estes filmes de qualidade, esperamos mostrar as muitas facetas da vibrante cultura americana.” Além disso, “as mulheres e as minorias étnicas têm tido papéis cruciais em muitos destes filmes, quebrando o molde da supremacia masculina branca. São películas cujas visões estão cheias de possibilidades que levarão os espectadores até uma nova era do cinema americano.”

NOVE MESES POSITIVOS

Foi em Abril do ano passado que a Cinemateca Paixão abriu portas ao público. Com quase um ano de actividade, Rita Wong faz um balanço positivo do funcionamento de um espaço que já mostrou o melhor do cinema local. “Temos vindo a aumentar os números em termos de público. Estamos satisfeitos, apesar de querermos sempre fazer melhor. Foi algo surpreendente a resposta em termos de público e reacções. Temos um espaço muito pequeno e conseguimos falar com quem nos visita e temos tido um feedback importante. Penso que as pessoas procuram de facto coisas novas ou diferentes e vamos tentar ter isso”, rematou. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

A Bodelha é uma alga de cor verde-acastanhada, de águas frias e baixas profundidades, muito abundante nos rochedos. Apresenta talos achatados, foliáceos, geralmente bifurcados, com pequenas vesículas repletas de ar (aerocistos) que permitem a flutuação; os talos fixam-se às rochas submersas através de um disco basilar provido de rizóides e, na outra extremidade, encontram-se os órgãos reprodutores. Pode atingir um metro de comprimento. É nativa das costas do Atlântico Norte e do Mediterrâneo Ocidental, encontrando-se com frequência nas praias de toda a costa portuguesa. Em algumas zonas do Oceano Atlântico, cobre grandes superfícies, conhecidas como mar dos sargaços. A Bodelha é uma das algas marinhas mais usadas ao longo dos tempos, quer como alimento quer como remédio. Plínio, famoso médico do século I, designou-a de Quercus marina, recomendando-a para as dores nas articulações. No século XVIII foi muito popular no tratamento dos tumores escrofulosos, asma e doenças de pele. Porém, em 1811, Bernard Courtois descobre o iodo a partir da sua destilação, e a Bodelha cai em desuso. Em 1862, o médico Duchesne-Duparc ao utilizá-la no tratamento da psoríase apercebe-se de que tinha um efeito redutor das gorduras e começou a usá-la no combate à obesidade. Em fitoterapia são usados os talos. Composição Por absorver grandes quantidades de minerais da água do mar, a Bodelha contém sais minerais e oligoelementos em elevada concentração; polissacáridos mucilaginosos, manitol, sorbitol, proteínas e aminoácidos livres, e lípidos; contém ainda compostos amargos, fitosteróis e vitaminas. Aroma a mar; sabor salgado, insípido e mucilaginoso. Acção terapêutica Devido ao teor significativo em iodo orgânico, a Bodelha estimula e tonifica a glândula tiróide favorecendo a produção de tiroxina, uma hormona que acelera o metabolismo promovendo a combustão dos nutrientes; esta propriedade parece verificar-se apenas quando existe um mau funcionamento desta glândula. Deste modo, pode ser benéfica no tratamento

do hipotiroidismo. Atendendo a que as perturbações da tiróide podem ser complicadas de tratar, é essencial o acompanhamento de um profissional de saúde. Com uma acção protectora sobre as mucosas digestivas, esta alga absorve o suco gástrico diminuindo a acidez e regulariza a função intestinal; estes efeitos devem-se ao conteúdo em mucilagens, umas fibras com a capacidade de absorver a água numa quantidade até seis vezes o seu próprio peso. É recomendada em caso de refluxo gastroesofágico, gastrite, hérnia do hiato e outras situações que originem pirose ou hiperacidez, além de obstipação e diarreia. Antioxidante, a Bodelha auxilia na redução do colesterol e favorece a elasticidade das artérias. É igualmente usada na diabetes. Diurética e depurativa, proporciona alívio nos transtornos reumáticos. É também um estimulante do sistema imunitário. Outras propriedades Muito utilizada no combate à obesidade e à celulite, a Bodelha produz sensação de saciedade reduzindo a quantidade de alimentos ingeridos e aumenta a degradação da glicose e dos ácidos gordos ao acelerar o metabolismo, auxiliando à perda de peso. Além disso, é laxante, diurética e depurativa, e fornece vitaminas, sais minerais e proteínas evitando que se produzam carências durante o processo de emagrecimento. Como tomar Uso interno: • Em ampolas, xarope, gotas, cápsulas ou comprimidos, em simples ou fórmulas, para o emagrecimento, celulite, obstipação, diabetes, desintoxicação hepática, estados de fadiga e astenia, e como remineralizante ou estimulante das defesas. • Alga fresca ou seca e previamente demolhada: ingerir 2 a 4 talos por dia, como se de outra verdura se tratasse. Precauções Contra-indicada nas pessoas em tratamento com hormonas tiroideias ou agentes antitiroideus, e em situações de ansiedade, insónia, taquiarritmias, cardiopatias ou emagrecimento acentuado; também não deve ser tomada durante a gravidez e a lactação. Em altas doses ou em caso de hipersensibilidade individual, pode provocar intoxicação (iodismo) devido a uma hiperactividade da glândula. Pela possível contaminação com metais pesados, devem ser usadas preparações com controlo de qualidade. Em caso de dúvida, consulte o seu profissional de saúde.Os frutos não maduros podem provocar perturbações digestivas. Em caso de dúvida, consulte o seu profissional de saúde.


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ZONAS DE LIVRE COMÉRCIO RELAXAM REGRAS PARA ESTRANGEIROS

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Conselho de Estado decidiu relaxar os regulamentos para as empresas que investem nas zonas de livre comércio (ZLCs), para assim promover a reforma e abertura no país, anunciou terça-feira. Segundo as decisões endossadas pelo primeiro-ministro Li Keqiang, a China permitirá aos locais de entretenimento de capital totalmente estrangeiro fornecer serviços nas ZLCs, e os investidores

estrangeiros poderão actuar nos negócios de acesso à internet. O país removerá a restrição de que a China fabrique pelo menos 70% do equipamento usado nos projectos de capital estrangeiro. As empresas de capital apenas estrangeiro poderão abrir postos de gasolina e fabricar e reparar aeronaves com um peso máximo de descolagem de 6 toneladas. Também foram retiradas as limitações de investimento

em helicópteros de pelo menos 3 toneladas. Os investidores estrangeiros também poderão ser accionistas maioritários em agências de frete marítimo internacional. As ZLCs na China começaram em Xangai e hoje somam 11; são um modo de testar novas políticas, incluindo liberalização dos juros e menos restrições de investimento, para melhor integrar a economia com práticas internacionais.

Li Keqiang no Cambodja

O primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, partiu na manhã de quarta-feira de Pequim para o Cambodja para uma visita oficial e a segunda reunião dos líderes da Cooperação LancangMekong. Li fez a visita a convite do primeiro-ministro cambodjano Hun Sen. A segunda reunião dos líderes da Cooperação Lancang-Mekong começou em Phnom Penh, Camboja, nesta quarta-feira, com o tema “Nosso Rio de Paz e Desenvolvimento Sustentável”. A Cooperação LancangMekong inclui Camboja, China, Laos, Myanmar, Tailândia e Vietname.

Cooperação em saúde na Grande Baía

JORNAL DO PCC DEFENDE DESENVOLVIMENTO NUCLEAR FACE A POLÍTICA ATÓMICA DE TRUMP

Bomba por bomba Trump enlouqueceu e o mundo prepara-se para responder. E ficar cada vez mais perigoso

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M jornal do Partido Comunista Chinês (PCC) defendeu ontem que a China deve retomar o desenvolvimento da sua capacidade nuclear, nas vésperas de o Presidente norte-americano, Donald Trump, apresentar a sua política para as armas de destruição maciça. “Donald Trump deverá adoptar uma abordagem mais preventiva para potenciar a sua capacidade nuclear”, prevê o Global Times,

jornal em inglês do grupo do Diário do Povo, o órgão central do PCC. Em editorial, o jornal afirma que a administração Trump vai promover o “desenvolvimento desenfreado de armas atómicas miniaturizadas para uso em guerra convencional” e “manter o domínio” nas reservas nucleares globais sobre a Rússia e China. Donald Trump irá apresentar no final deste mês a sua Revisão da Postura Nuclear, depois do seu antecessor, Barack Obama, ter tentado reduzir o papel do armamento nuclear na estratégia de defesa dos EUA. O jornal The Guardian escreveu ontem que Trump pretende flexibilizar os limites à utilização de armas nucleares e criar uma nova ogiva para ser transportada por mísseis balísticos intercontinentais.

O mesmo jornal detalha que a Revisão da Postura Nuclear de Trump estipula a permissão para utilizar armamento nuclear em resposta a ataques não-nucleares. Os Estados Unidos gastam já mais do que todos os restantes países do mundo na sua capacidade nuclear. A China, país mais populoso do mundo e segunda maior economia do planeta, mantém 260

A administração Trump vai promover o “desenvolvimento desenfreado de armas atómicas miniaturizadas para uso em guerra convencional

ogivas nucleares, segundo dados do governo chinês - menos do que França, por exemplo. “Sem o poder sustentado por uma grande capacidade nuclear, a China não será capaz de projectar influência de forma compatível com a sua crescente estatura global”, afirma o Global Times. Desde a sua primeira detonação atómica, em 1964, a China conduziu um total de 45 testes nucleares, o último em 1996. Apesar de China e Estados Unidos serem os principais parceiros comerciais um do outro e as economias dos dois países serem em muitos aspectos complementares, Pequim e Washington mantêm várias fricções geopolíticas, nomeadamente no Mar do Sul da China e no nordeste da Ásia.

Os governos locais na Grande Baía, no sul da China, assinaram na terça-feira documentos para impulsionar a cooperação no sector de higiene e saúde. A área cobre as regiões administrativas especiais de Hong Kong e Macau e nove cidades na Província de Guangdong, incluindo Guangzhou e Shenzhen. Song Tie, vice-director do Centro Provincial do Controlo e Prevenção de Doenças de Guangdong, disse que a província cooperará mais com Hong Kong e Macau no combate às doenças epidémicas, incluindo troca de informações, compartilhamento de tecnologia, organização de conferências e mais formações e intercâmbios com os profissionais de saúde. Song afirmou que as três áreas trabalharão juntas para prevenir e conter as doenças epidémicas como o dengue e a gripe. Chan Siu-chee, secretária do governo de Hong Kong, disse que as três áreas têm intensificado os intercâmbios no combate à tuberculose. Os governos assinaram um acordo-quadro para cooperação em higiene e saúde e assinaram documentos de cooperação em 26 projectos, incluindo supervisão de água potável, formação de médicos, primeiros socorros e formação médica pública.

Recrutamento militar prefere licenciados

O portal de recrutamento gfbzb.gov. cn, administrado pelo Ministério da Defesa Nacional, foi aberto para pedidos e consulta de políticas nesta quarta-feira. De acordo com uma circular divulgada no portal na terçafeira, os gabinetes de recrutamento militar de todos os níveis devem começar o recrutamento local em 1 de Abril e emitir devidamente as notificações de recrutamento com informações claras sobre o tempo de registo, pessoal e métodos. Antes de 30 de Junho, os gabinetes locais de recrutamento militar devem completar o registo, informou a circular. Também foi informado que os graduados universitários terão preferência no recrutamento.


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quinta-feira 11.1.2018

Quando o telefone toca

Retomadas comunicações militares entre as duas Coreias

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S exércitos da Coreia do Norte e da Coreia do Sul comunicaram pela primeira vez em quase dois anos através de uma linha, cuja reactivação foi anunciada na véspera da histórica reunião entre representantes de Seul e Pyongyang. Os exércitos das duas Coreias realizaram, com normalidade, testes de troca de mensagens através da linha recentemente reaberta, confirmou um porta-voz do Ministério da Defesa da Coreia do Sul à agência de notícias Efe. Trata-se da linha destinada a comunicações militares na região junto ao Mar Amarelo (chamado Mar do Oeste nas duas Coreias). Pyongyang tinha deixado de utilizá-la em Fevereiro de 2016 em protesto contra o encerramento do complexo industrial intercoreano de Kaesong, decidido unilateralmente por Seul como castigo pelo desenvolvimento de armas por parte de Pyongyang. Durante o encontro de alto nível, o primeiro entre as duas Coreias desde Dezembro de 2015, Pyongyang tinha já informado Seul que tinha voltado a conectar esta via de comunicação. Durante a reunião, Pyongyang aceitou também a proposta de Seul de realizarem futuras conversações de cariz militar para apaziguar os ânimos junto à tensa fronteira entre as duas Coreias, que se encontram tecnicamente em guerra há 65 anos. Nesse sentido, espera-se que o Ministério da Defesa da Coreia do Sul proponha, nesta semana ou na próxima, uma data

e um lugar para a realização do primeiro desses encontros. Os militares das duas Coreias não se reúnem desde Outubro de 2014. Desde então as relações bilaterais deterioram-se progressivamente face ao contínuo desenvolvimento do programa de armas de Pyongyang e ao aumento dos desentendimentos fronteiriços que incluiu troca de tiros de advertência. A reunião desta terça-feira, realizada em Panmunjom, aldeia fronteiriça onde foi assinado o armistício da Guerra da Coreia (1950-53), resultou em importantes sinais de aproximação entre Seul e Pyongyang. Isto depois de 2017 ter ficado marcado por três ensaios nucleares e o lançamento de múltiplos mísseis balísticos por parte da Coreia do Norte, agravados pela retórica bélica do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem trocado insultos pessoais e ameaças de guerra com o líder norte-coreano, Kim Jong-un. No encontro, Pyongyang manifestou a intenção de enviar uma delegação composta por altos funcionários, atletas e animadores aos Jogos Olímpicos de Inverno, que se celebram a partir de 9 de Fevereiro em PyeongChang, na Coreia do Sul. A Coreia do Sul propôs, por seu lado, organizar então conversações militares para aliviar a tensão transfronteiriça e a retoma das reuniões de famílias separadas pela guerra, mas sobre este tema a Coreia do Norte ainda não se pronunciou.

DESNUCLEARIZAÇÃO É “CAMINHO PARA A PAZ”

A

desnuclearização da península coreana é “o caminho para a paz e o nosso objectivo”, afirmou hoje o Presidente sul-coreano, um dia depois do primeiro encontro em mais de dois anos entre representantes das duas Coreias. “Nós devemos resolver pacificamente a questão nuclear norte-coreana”, afirmou Moon Jae-In, em conferência de imprensa, indicando que vai pedir mais conversações com Pyongyang para o efeito. Altos representantes de Seul e de Pyongyang protagonizaram na terça-feira a primeira reunião de alto nível entre as duas Coreias desde Dezembro de 2015, que teve lugar em Panmunjom, aldeia fronteiriça onde foi assinado o armistício da Guerra da Coreia (1950-53).

CAMPANHA ANTI-CORRUPÇÃO CONTINUA A TODO O VAPOR

Caçar moscas, abater tigres

A

mais alta agência anti-corrupção do Partido Comunista da China (PCC), a Comissão Central de Inspecção Disciplinar do PCC (CCID), realizará a sua segunda sessão plenária de 11 a 13 de Janeiro para definir o trabalho anti-corrupção do Partido em 2018. O país manteve uma postura dura contra a corrupção em 2017, e a campanha “tornou-se uma maré esmagadora e está a ser consolidada e desenvolvida”, escreveu ontem a Xinhua. Cinco funcionários administrados pelo governo central foram postos sob a investigação por suspeita de “graves violações disciplinares” desde o 19º Congresso Nacional do PCC realizado em Outubro de 2017. Durante o congresso, Xi Jinping disse que a corrupção é “a maior ameaça que o nosso Partido enfrenta”, pedindo a todos os membros do PCC que tenham a determinação e a tenacidade para perseverar no combate “sem fim” contra a corrupção. “A queda dos cinco funcionários é um sinal potente de que o Partido continuará com o ímpeto e manterá a pressão contra a corrupção no ano novo”, sublinha a Xinhua. O regulador anti-corrupção expulsou funcionários corruptos durante o último ano, desde as chamadas “moscas” até os “tigres”. Segundo a CCID, pelo menos 18 funcionários foram investigados e quase 40 receberam punições disciplinares do Partido em 2017. Enquanto isso, os corpos locais anti-corrupção têm identificado burocratas de cargos menores suspeitos de desviarem fundos públicos, usarem fundos públicos para banquetes, aceitarem subornos e realizarem banquetes de luxo, entre outras violações. Além do combate contra “tigres” e “moscas”, o regulador anti-corrupção tem estado ocupado em caçar os funcionários corruptos foragidos no exterior. Até o final de Dezembro, 3.866 fugitivos tinham sido capturados e repatriados de mais de 90 países, com mais de 9,6 mil milhões de yuans em fundos recuperados pela polícia, segundo a CCID. A China também investigou a corrupção nos esquemas de alívio da pobreza. Quase 450 pessoas foram investigadas e punidas por reivindi-

cações fraudulentas ou apropriação indevida de fundos e 730 milhões de yuans em fundos mal usados foram recuperados numa inspecção a 28 províncias no ano passado, disseram o Ministério das Finanças e o Gabinete do Grupo Dirigente para Alívio da Pobreza e Desenvolvimento do Conselho de Estado. Uma pesquisa de opinião pública mostrou que cerca de 75% dos chineses estavam satisfeitos com os esforços anti-corrupção em 2012. O número aumentou para quase 94% em 2017. “O combate à corrupção é uma luta duradoura. Embora resultados notáveis tenham sido obtidos, a luta é longe de chegar ao fim”, sublinha a Xinhua. A reforma do sistema de supervisão está entre os mais recentes esforços para controlar a corrupção. A China começou a criar comissões supervisoras nos níveis nacional, provincial, sub-regional e distrital, para garantir

que “a supervisão cubra todos que trabalham no sector público e exercem poder público”. As comissões supervisionarão a execução de deveres e ética por funcionários públicos, investigarão actividades ilegais como corrupção, abuso do poder, negligência de deveres e desperdício de fundos públicos, determinarão penalidades administrativas e transferirão casos criminais potenciais para as procuradorias, segundo uma decisão adoptada pelo mais alto órgão legislativo do país no início de Novembro. Um projecto de lei de supervisão foi submetido em Dezembro para a sessão legislativa bimestral do Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional para a segunda leitura. Contém regulamentos claros sobre a criação dos órgãos supervisores, responsabilidades e poderes, métodos da investigação deles para garantir que actuem conforme a lei.

GENERAL INVESTIGADO POR CORRUPÇÃO

U

m alto cargo do exército chinês, o general Fang Fenghui, membro da Comissão Militar Central (CMC), está a ser investigado por alegadamente ter recebido e pago subornos, informou ontem a imprensa oficial. Trata-se do mais recente caso de corrupção envolvendo altas patentes das Forças Armadas da China, até há pouco tempo consideradas intocáveis. Nos últimos anos, dois ex-vice-presidentes da CMC - braço político do exército -, os generais Guo Boxiong e Xu Caihou, foram também acusados de corrupção. O primeiro foi condenado a prisão perpétua, em 2016, e o segundo morreu no ano anterior, antes de ser julgado. Fang Fenghui deixou de aparecer em público há cinco meses e foi gradualmente abdicando dos seus cargos, sugerindo que estava sob investigação. As acusações sugerem

que Fang subiu na carreira à custa de subornar outras patentes do exército, aponta a imprensa chinesa. O Presidente da China, Xi Jinping, advertiu já que este tipo de corrupção abala a governação do Partido Comunista, ao enfraquecer a lealdade e prontidão das Forças Armadas. Mais do que qualquer instituição, as Forças Armadas chinesas, designadas oficialmente por Exército Popular de Libertação (EPL), devem encarnar o espírito de “servir o povo”, um dos pilares da “educação socialista”. O EPL é também o maior do mundo, com cerca de dois milhões de efetivos. Após ascender ao poder, Xi lançou uma campanha anticorrupção, hoje considerada a mais persistente e ampla na história da China comunista, e que resultou já na punição de mais de um milhão de membros do partido.


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11.1.2018 quinta-feira

lá fora passa aquele mundo, onde ainda não passei. Diários de Próspero António Cabrita

MICHAŁ ŁEPECKI / AGENCJA GAZETA

A beleza alheia

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O início do século, comprei o livro nuns saldos da Livraria Buchholz, em Lisboa: Dans une autre beauté, de Adam Zagajewski. Custou-me cinco euros. Li-o de rajada e, encantado, falei dele aos amigos. Em vão, ninguém dava um tostão furado por outro polaco. A tolerância para os eslavos esgotava-se em três nomes: o Milosz, para alguns demasiado católico (uma barbaridade), o Herbert (que sofria de um excesso de racionalidade, outra idiotia) e a Szymborska (quase extraordinária, não fora ser mulher). E em me sendo perguntado o que acrescentaria o Zagajeswski, respondi, secamente, “bom, na verdade, tem os defeitos dos outros, além dos próprios…”. Fiquei sozinho com a minha descoberta, na altura desconhecia que a Susan Sontag e o Brodsky escreveram maravilhas sobre o livro. Calhou-me ir a Paris meses depois. Aí comprei o Mystique Pour Débutants, do Zagajewiski, tão delicioso como o título. Quis editá-lo na extinta Íman Edições, mas fali nas vésperas do “grande negócio” – sem desdouro embora igualmente sem glória.

Neste ínterim o prestígio do Zagajewski subiu em flecha e hoje é o santo e a senha da actual literatura polaca. Tendo finalmente saído dele uma antologia portuguesa, Sombra de Sombras, na Tinta da China (2017). Não me vou ocupar da antologia portuguesa (oportuna e bem feita), mas antes discorrer sobre Dans une autre beauté – um sortido muito equilibrado de notas diarísticas, de livro de memórias, de caderno de pequenos ensaios e de aforismos -, cuja ideia matriz se vislumbra no poema que cito, incluído na antologia portuguesa: NA BELEZA CRIADA PELOS OUTROS: Só na beleza criada pelos outros/ existe consolação, na música/ e nos poemas dos outros./ Só os outros nos podem salvar, / mesmo que a solidão tenha o sabor/ do ópio. Não são o inferno, os outros,/ se os espreitarmos de manhã, quando/ têm a testa limpa, lavada pelos sonhos./ Por isso cismo muito sobre a palavra/ que hei-de usar, «ele» ou «tu». Cada «ele»/ é uma traição a qualquer «tu», mas,/ em troca, um poema de alguém fielmente/ oferece uma fresca, moderada conversa.» Contra a paranóia sartreana (“o inferno são os outros”), ao arrepio da mediocridade do regime político de tipo

soviético em que cresceu e pelo qual se sentiu espoliado quer de “acessos directos à beleza criada pela tradição humanista”, quer “da evidência da verdade” – marcas de sensibilidade a que o regime contrapôs o dogma, a venalidade e a consequente corrupção do gosto em nome de uma estética sob programa -, Zagajewski viu na “beleza alheia” a evasão e um factor de contágio que excede em muito o campo da estética. Posto a beleza ser a lente que potencia a transmutação do olhar e abre, nos termos que o poeta usa, a passagem da solidão ao solidário. Ao transformar-nos, a beleza incita a apurar as miras da Verdade enquanto nos empurra para a consciência de que vivemos num tecido de «intertextualidades», face a cuja matéria nos situamos como um elo. O resgate da beleza propende-nos a uma maior humildade (galvanizada na contemplação e no estudo) e converte-nos em membros de uma comunidade – a dos receptores da obra de arte – que mantém a consciência de que uns poemas remetem, de algum modo, para outros poemas, umas canções remetem para outras, sucedendo o mesmo na pintura: isto faz da fecundidade da tradição uma eterna fénix.

Ou seja, só quando nos convertemos em guardiões de uma tradição – a beleza alheia – é que nos alçamos a um patamar de fidelidade que, de modo a renovar-se a combustão que mudará a pele à fénix (e isto não é paradoxal mas complementar), exigirá ao autor o salutar cultivo da ironia e da crítica. Não existe assim tradição sem crítica e ironia e vice-versa. Embora nada disto dispense o fervor: um entusiasmo que nos impele. Eis o núcleo da «cosmovisão» zagajewskiana: uma pequena revolução ao jeito de uma conversa amena e passo a passo. E que não pode prescindir de qualquer detalhe da memória nem da tradição clássica. Um aspecto se abre aqui, de responsabilidade social: se cada um de nós se sentisse de facto o guardião de uma beleza não própria mas alheia, talvez esse peso não nos deixasse ceder à trivialidade e nos tornássemos criaturas de outra substância moral. Isto podia de facto ser o fundamento de uma ética, creio. O que não adivinhava e só agora me dei conta é que já tinha traduzido esta ideia em 95 numa narrativa, em As Cinzas de Maria Callas (Teorema, 97), um livro em que atesto os engulhos de ser pobre e de crescer na periferia de Lisboa antes do 25 de Abril (- tema que nos últimos anos se tornou moda). Aí narro um encontro meu com um homem mais velho do meu bairro, peão de um obscurantíssimo passado. Aterrando nos princípios de setenta naquele rincão pobre, como um antigo emigras nas Américas, gabava-se de uma paragem na Argentina, onde teria sido amigo do Onassis, e doutra, breve, em Hollywood, tendo no entanto acabado a sua malograda carreira de actor como a voz do Mister Ed, o cavalo que falava. Um dia o Arquimedes chamou-me ao seu anexo para, do nada, me emprestar um livro do Cesariny e me fazer ouvir ópera. Naquele tugúrio a que não faltava o bolor acontece a transmissão fatal: lega-me uma pequena urna onde jurava assentarem as cinzas de Maria Callas, das quais me tornava guardião. Eu tinha doze anos e aquela responsabilidade pesava-me e levou-me ao gesto insólito de, durante três anos, pedir aos meus pais como prendas de anos e Natal discos da Maria Callas. Veio o 25 de Abril e poucos meses depois a Maria Callas foi cantar ao Coliseu de Lisboa. Afinal fora enganado. Mas já estava mortalmente infectado pela diferença que era, contra todo o condicionamento da minha condição social, ser um apaixonado pela ópera e pela estranheza da dicção do Cesariny. Creio que não me acomodei como fiel de armazém devido ao deslumbre face à beleza alheia.


ARTES, LETRAS E IDEIAS 15

quinta-feira 11.1.2018

A Poesia Completa de Li He

十月 玉壺銀箭稍難傾,    缸花夜笑凝幽明。    碎霜斜舞上羅幕,    燭籠兩行照飛閣。    珠帷怨臥不成眠,    金鳳刺衣著體寒,    長眉對月斗彎環。

Décima Lua O vaso de jade com suas setas argênteas Mal pode vazar,1 Flores-lamparina sorriem à noite Onde luz e treva congelam.2 Tremores de geada dançam de lado Sobre cortinas de gaze, Brilham duas fieiras de velas-dragão3 No seu pavilhão alado.4 Deita-se sentida na sua rede de pérolas, Incapaz de dormir, Sob um robe ornado de fénixes douradas O seu corpo é frio, Fixa a lua, as suas longas sobrancelhas Competem com seu curvo jade.5

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3 4 5

A água na clepsidra do palácio está quase a gelar. O pavio forma uma flor à medida que a lamparina arde; como isso é considerado bom presságio, diz-se que a lamparina sorri. Mas está tão frio que a luz também parece congelada, tal como as suas sombras imóveis. “Velas em candelabros em forma de dragão. Os corredores ligando os apartamentos das mulheres ao palácio principal eram construidos elevados do chão, de onde “alados”. Está melncólica como a lua crescente de inverno. O poema lida com uma das favoritas do imperador, aqui negligenciada.

Tradução de Rui Cascais • Ilustração de Rui Rasquinho Li He (790 a 816) nasceu em Fu-chang durante a Dinastia Tang, pertencendo a um ramo menor da casa imperial. A sua morte prematura aos vinte e sete anos, a par da escassez de pormenores biográficos, deixam-nos apenas com uma espécie de fantasma literário. A Nova História dos Tang (Xin Tang shu) diz-nos que He “nunca escrevia poemas sobre um tópico específico, forçando os seus versos a conformarem-se ao tema, como era prática de outros poetas [...] Tudo quanto escrevia era inquietantemente extraordinário, quebrando com a tradição literária.” Segundo um crítico da Dinastia Song, o alucinátorio idioma poético de Li He é a “linguagem de um imortal demoníaco.” A versão inglesa de referência aqui usada é a tradução clássica da autoria de J.D. Frodsham, intitulada Goddesses, Ghosts, and Demons, publicada em São Francisco, em 1983, pela North Point Press.


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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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Caderno de Geografia Gisela Miravent

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ÃO foi completamente inesperado, já a várias cabeças aquilo ocorrera. Mas foi grandioso e ainda assim imprevisto no momento preciso em que aconteceu. Nunca se acredita que o céu e o mar possam verdadeiramente trocar de lugar entre si. O acordo selado de madrugada desenrolou-se ao longo de um dia furioso e de luz indefinida. As vagas atingiram uma altura aterradora e bela; água e espuma em quantidades sobrenaturais foram lançadas ao ar e pregadas num espelho mágico, cheio de criaturas marinhas dentro. Inversamente, as nuvens lançaram-se num mergulho abissal e encheram antigos oceanos de uma massa onde tudo se podia perder. Até pedaços próprios.  Nem tudo correu bem. Nem todos perceberam a tempo o que estava prestes a acontecer, pelo que peixes muito variados e plantas aquáticas multicolores ficaram para trás, sem possibilidade de se encontrarem com o seu mar – a não ser vendo-se ao espelho até ao limite da sua existência. E muitos pássaros bateram asas dentro de água, procurando atingir o céu ao contrário.  Que ideia, pensavam todos, que ideia gigante e louca – o que lhes deu?, não chegava o abraço do costume, não tinham vivido sempre para o limite um do outro? Tantas vezes se interpelaram para lá do limite até… a cada tempestade baralhavam-se e tinham filhos: as criaturas mais estranhas que povoam a Terra... e agora? Terra gasosa e uma luz irradiada de um chão indeciso. Sobre as cabeças, um espelho poucas vezes transparente, carregado como nenhum céu nos dias em que se compõe como a derradeira ameaça. Uma gaivota olhava fixamente as nuvens de entre uma massa de água a que não conseguia escapar. As nuvens pareciam-lhe ondas, também iam e vinham, entravam umas pelas outras, variavam na forma e tonalidade. Não pensara que podiam ser assim bonitas: como pudera suceder que nos seus vôos de tão longas distâncias nunca se tivesse apercebido de que as nuvens eram todas diferentes entre si?  Os olhos da gaivota desanimavam-se e ela não lutava, observava só, completamente espantada, a cavalgada daquelas massas de água em transformação contínua, de forma fantástica em forma fantástica. Sentia vertigens. Queria cair, mas o espelho fixara-a ali. Entre as nuvens, abaixo, peixes saltavam desolados por esse outro mar que já não lhes pertencia, as barbatanas incertas de como trabalhar aquele gás difuso, as guelras a quererem sustentar o líquido evadido para sempre. Era um espectáculo sofrido e poético. Os peixes, sobretudo, emprestavam às nuvens uma vivacidade de esplendor apocalíptico.

ANA JACINTO NUNES, SEM TÍTULO

Nebulosa

E foi então que o viu. A princípio tomou a coisa por mais uma nuvem interessada na mascarada. A gaivota estava agora convencida de que as nuvens representavam incessantemente as formas que lhes calhara observar no tempo e se se configuravam em dragões a cuspir pela boca baforadas gasosas é porque os

dragões existiam. Mas esta forma sofria de maneira contrária à alegria doida e pueril das nuvens. Não se movia ligeira, arrastava-se com esforço, a fazer uso não se sabe de que engenho e força. Era uma baleia azul, gigante entre gigantes. E sobre a baleia, num desajustamento de corpos cilíndricos impossíveis de se

O espadarte e a gaivota sorriem um para o outro enquanto coreografam o amor possível numa dança deslumbrada e feliz.

concertarem entre si, arrastava-se ele, em ensaio natatório condenado desde que o mar dera em céu e o céu em mar, ineficaz e triste de se ver: o espadarte. Fundo nos olhos da gaivota acendeu-se uma luz. Não parecia possível que no meio daquele tumulto de fim dos tempos fosse justamente aparecer-lhe o espadarte numa situação tão desoladora e irremediável quanto a sua. O seu  espadarte. A memória socorreu-a desde o mais íntimo de si e devolveu-lhe imagens dos passeios suaves ou agrestes que haviam feito os dois tantas vezes, a mímica de que usavam para comunicar, a dança de corpos no limite do céu e do mar, a alegria transbordante ou a melancolia por conta de dias de fome e cansaço. Estava tão encantada quanto apreensiva. Logo o seu espadarte. Bateu asas. Bateu-se furiosamente de encontro à água porque só movimentando-se poderia desencadear um reflexo capaz de ser detectado pelo espadarte. Talvez. No entanto, quanto maior o vigor em que se implicava mais água engolia; em menos de nada afogar-se-ia para sempre. Semiconsciente, continuou sempre a bater as asas ou talvez já não as batesse senão em sonhos. Parecia não dar mais acordo de si. Nos seus olhos, a luz apagara-se. Pensou que pensava: tinha sido uma gaivota feliz e tinha havido um espadarte com quem partilhara os melhores momentos da sua vida. Depois caiu. … A baleia azul preparou-se para lançar um repuxo de água imemorial. O espadarte fixou os olhos na gaivota e concentrou-se em chamar a si as últimas energias. Beijou suavemente o corpo cravejado de cracas da baleia e, unidos num esforço superiormente combinado, a baleia ejectou toda a água que guardava dentro de si por entre a massa traiçoeira de nuvens e o espadarte, lançado a par do repuxo, empreendeu um salto em altura nunca antes visto, como se lembrava de ter tentado sem o mesmo sucesso quando quisera provar à gaivota que podia voar como ela. A sua espada embateu no espelho de água e quebrou-o. Enquanto o espadarte se projectou para o interior do mar invertido, a gaivota cruzou-se com ele numa queda inconsciente rumo ao seu céu de sempre.       ... O mundo é agora completamente outro. Tanto desapareceu, tanto se transformou. Outros adaptaram-se às massas de nuvens a vogarem eternas sob um capacete líquido e fantástico. No limite do espelho de mar, e no cimo do mais alto castelo de nuvens, o espadarte e a gaivota sorriem um para o outro enquanto coreografam o amor possível numa dança deslumbrada e feliz.


18 (f)utilidades TEMPO

11.1.2018 quinta-feira

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NUBLADO

O QUE FAZER ESTA SEMANA Sábado

SEMINÁRIO “NOVA AMÉRICA: CINEMA DE POSSIBILIDADES” Cinemateca Paixão | 14h30

MIN

10

MAX

16

HUM

35-70%

EURO

9.65

BAHT

“THE FLEA MARKET AT OLD BORDER GATE” ESPAÇO “WHAT’S UP POP UP” Rua dos Ervanários | Das 14h às 20h

Domingo

O CARTOON STEPH

EXPOSIÇÃO “MOSTRA FOTOGRÁFICA ‘UM CORAÇÃO DIVIDIDO’” Fundação Rui Cunha | Até Sábado EXPOSIÇÃO “O TEMPO MEMORÁVEL” Museu de Macau | Até 25/02/2018 A LINGUAGEM E A ARTE DE XU BING Museu de Arte de Macau | Até 4/3/2018

PROBLEMA 195

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 194

UM LIVRO HOJE C I N E M A

UNLOCKED SALA 1

THE COMMUTER [C]

Com: Lyn Shaye, Angus Sampson, Leigh Whannell 19.30

Filme de: Jaume Collet-Serra Com: Liam Neeson, Vera Farmiga 14.30, 16.30, 19.30, 21.30

SALA 3

SALA 2

KIDNAP [C] Filme de: Luis Prieto Com: Halle Berry, Sage Correa 14.30, 16.30, 21.30

INSIDIOUS: CHAPTER 4 [C] Filme de: Adam Robitel

Um filme de: Michael Apted Com: Noomi Rapace, Orlando Bloom, Michael Douglas 14.30, 19.30, 21.30

FALADO EM CANTONENSE Filme de: Lee Unkrich 19.15

À hora marcada, toca o instrumento que desperta dor. Todo o corpo protesta contra a violência da transição que se avizinha, depois de passeios por florestas eléctricas e da comunhão fraternal com criaturas fantásticas. A pestana abre em protesto a reivindicar mais fantasia. Mas na mesa de cabeceira toca um carrilhão de sinos a rebate, exigindo acção e o retorno ao lúgubre teatro quotidiano. Desperto para uma sucessão de dias em que não apetece abrir a boca, em que só a palavra escrita tem a capacidade para representar o indizível convívio que tenho com as musas invisíveis. Desempoeiro as cinzas dos sonhos e preparo-me para mais um ténue exercício de misantropia, carregando humor nebulado nos braços e conjurando tempestades no peito. Quero música, saltar e mastigar estrelas, abraçar nuvens e boicotar angustias. Preciso de verbo tatuado no papel, caleidoscópios de analogias e reflexões que buscam refúgio da linguagem corrente. Quero que o meu peito rebente como um foguete cósmico e que o meu tórax aberto seja um canteiro para lótus florirem cores que não existem. Quero escrever frases de nuvens e imaginar formas improváveis nelas, percorrer becos e travessas com melodias a ressoar em mim. Quero um oceano a salgar-me os pés e a embalar-me para marés maiores, um aluvião que me solte a quilha e me devolva ao líquido infinito. João Luz

JACK LONDON | “O POVO DO ABISMO”

O início do século XX foi um período de grandes dificuldades e fracturas sociais. É neste período que a escrita de Jack London floresceu, sempre com uma forte dose de consciência social. Em “O Povo do Abismo”, o autor mergulha na pobreza extrema do East End de Londres, entrando na vida das pessoas e, muitas vezes, dormindo na rua. A obra relata episódios de miséria, de fome, sempre na primeira pessoa, antecipando o estilo do New Journalism que viria a ganhar fulgor 60 anos depois. O livro chegou a influenciar George Orwell, que repetiu os passos de London e escreveu um livro semelhante. Essencial em qualquer biblioteca. João Luz

UNLOCKED [C]

COCO [A]

SUDOKU

DE

Diariamente

Cineteatro

1.24

ACORDAR ATRAVESSADO

FILME “GOOD TIME” Cinemateca Paixão | 21h30

FILME “CERTAIN WOMEN” Cinemateca Paixão | 21h30

YUAN

PÊLO DO CÃO

FILME “THE LOVE WITCH” Cinemateca Paixão | 16h30

FILME “COLUMBUS” Cinemateca Paixão | 16h30

0.24

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opinião 19

quinta-feira 11.1.2018

bairro do oriente

LEOCARDO

F

Nos entretantos

UI passar o último fim-de-semana aqui ao lado, em Hong Kong, para espairecer. Na manhã de Domingo, perto da pensão onde fiquei em Yau Ma Tei, deparei com este sinal à porta de um parque público, indicando que ali se podia fumar. Não era parque situado no fundo de um beco perdido, ou de um descampado afastado dos comuns mortais. Era junto ao sumptuoso templo de Tin Hau, um dos muitos eregidos em devoção à deusa Kun Yam. Um espaço amplo, arejado, cheio de verde e mesas de pedra onde se pode jogar mahjong, e mesmo em frente a um interessante motivo turístico. Sendo eu de Macau, fiquei tão aparvalhado com aquilo que precisei de tirar uma foto, não fosse contar isto a alguém e pensarem que alucinei. Com a introdução do novo regime anti-tabágico, que entrou em vigor no início deste ano, a proibição estendeu-se a passeios onde existem paragens de autocarro, e mais não sei aonde, e a multa pela infração triplicou. Deste lado do Rio das Pérolas pratica-se à caça ao cigarrinho, e o divertido e didático “Adivinha onde podes fumar?” Outro episódio, na mesma manhã e ainda antes disso. Acordei cedo, e mesmo que não se coma nada, preciso pelo menos de “uma

mudança de óleo” antes do “motor arrancar”, que é como quem diz, uma bica. Ou “expresso coffee”, como por aqui se chama. Dei com um 7/11 logo à saída do meu alojamentei, entrei, deparei com uma máquina de café e, meio a medo, perguntei à senhora que se podia beber um expresso. Meio minuto e 9 dólares de Hong Kong depois, estava ali com uma bica dupla digna desse nome, ideal para começar o dia em beleza, e tirada com uma prontidão e simpatia irrepreensíveis. A única vez que entrei num 7/11 em Macau com a esperança de beber uma bica, foi-me negado, com um ar de caso e a gesticular que não, que horror, que coisa diabólica é essa que está aí a pedir! Diferenças que dizem muito. Não estou a querer comparar Macau com Hong Kong no sentido de qual deles é o melhor.

São muitas as teorias que podem explicar as diferenças entre os dois lados, mas a mais evidente e que salta à vista de quem tem uma visão imparcial é que a população de Hong Kong parece mais abnegada aos valores da cidadania e exige que as coisas funcionem e que haja lugar para todos

Nada disso e, com o bairrismo que existe entre os dois lados, ainda me mandavam ir viver para Hong Kong. Não quero ir viver para lá, mas se há algo que ainda não entendi é como se pode ser tão passivo e provinciano, e não se querer pedir um pouco das coisas boas que eles lá têm. É que o respeito pela liberdade de todos, incluindo fumadores ou cafeínomanos como eu, e muitas outras pequenas coisas como estas são parte do conjunto daquilo que se chama “ter qualidade de vida”. Pois é, vão-me dizer que Hong Kong “é muito maior, não se pode comparar”, mas isto não se trata aqui de uma questão de tamanho, gosto ou cultura – são duas cidades da China separadas por um braço de mar. São muitas as teorias que podem explicar as diferenças entre os dois lados, mas a mais evidente e que salta à vista de quem tem uma visão imparcial é que a população de Hong Kong parece mais abnegada aos valores da cidadania e exige que as coisas funcionem e que haja lugar para todos. Deste lado parece que ficámos presos de movimentos com as duas obras tornadas faraónicas, e de quem toda a gente espera: o metro ligeiro e o hospital das Ilhas. Parece que não há lugar a mais progresso sem estes projectos engracianos estejam concluídos ou enquanto ficamos a fazer figas à espera da hora em que o Canídromo feche as portas (ouvi dizer que é em Junho, mas... deste ano?) Nos entretantos, ficamos parados à espera. E é nesse ponto que estamos, nos entretantos, a olhar ali para o lado.


O sentimentalismo português: sempre de ignomínia engatilhada e soluço represo na garganta. PALAVRA DO DIA

António Patrício

quinta-feira 11.1.2018

Adeus Mondrian... COSTA NUNES JANELA FOI ALTERADA SEM CONHECIMENTO PRÉVIO DO ARQUITECTO

FONG SOI KUN GOVERNO ACEITOU APOSENTAÇÃO

O

Governo anunciou ontem, em comunicado, que aceitou o pedido de reforma do ex-director da Direcção de Serviços Meteorológicos e Geofísicos, Fong Soi Kun. O primeiro pedido do ex-director, definido no comunicado meteorologista operacional especialistas principal de 3.º escalão, tinha sido apresentado a 28 de Agosto de 2017, na sequência da passagem do Tufão Hato. A 13 de Setembro do mesmo mês, Sónia Chan, Secretária para a Administração e Justiça, assinou um despacho que definia o montante da pensão de Fong Soi Kun, mas acabou por revogar o mesmo devido à pressão pública, justificando que não tinha sido cumprida a antecedência mínima necessária de 90 dias, como está definido no Estatuto do Trabalhadores da Administração Pública de Macau. A responsável sublinhou também na altura que a validação do pedido de aposentação era uma competência dos próprios SMG. Agora, e passados mais de 90 dias, cujo prazo que terminou a 27 de Novembro de 2017, o pedido foi aceite. No comunicado não foi esclarecido o montante nem a forma como foi calculado o valor da pensão.

China/2017 Inflação nos 1,6%

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O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da China, o principal indicador da inflação no país, subiu 1,6%, em 2017, um abrandamento de quatro décimas face ao aumento de 2% registado no ano anterior. Segundo os dados do Gabinete Nacional de Estatísticas (GNE) chinês, em Dezembro, o IPC registou uma subida de 1,8%, em termos homólogos. Já o Índice de Preços na Produção, que indica a inflação no sector grossista, registou uma subida homóloga de 4,9%, em Dezembro, o que representa uma queda face ao mês anterior, quando o aumento se fixou em 5,8%. O GNE detalha que os preços dos produtos e serviços de saúde subiram 6,6%, em Dezembro, face ao mesmo mês de 2017. O imobiliário avançou 2,8%, no mesmo mês, enquanto o sector educação, cultura e entretenimento aumentou 2,1%. Os preços dos produtos alimentares subiram 2,4%, em Dezembro, face ao mesmo mês de 2016, uma décima abaixo do crescimento registado em Novembro.

Antes

A

S obras efectuadas no jardim de infância D.José da Costa Nunes resultaram na alteração de uma janela que era símbolo do movimento arquitectónico De Stilj, também conhecido como Neoplasticismo. Surgido em 1917, trata-se de um movimento inspirado nas icónicas linhas do pintor Piet Mondrian. As mudanças levaram o arquitecto autor do projecto de ampliação do Costa Nunes, Mário Duque, a questionar a Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes (DSSOPT), por estar em causa a violação dos direitos de autor. Na carta enviada ao organismo, à qual o HM teve acesso, lê-se que “nessas obras procedeu-se à destruição da janela icónica virada a norte de desenho neoplasticista, com a construção de uma nova janela de desenho diferente e alheio”. Trata-se, na visão de Mário Duque, “uma ‘inovação’, para efeito do Código Civil, na medida em que modifica a linha arquitectónica e o arranjo estético do

Depois

prédio”. Tratando-se, na visão do arquitecto, de uma “obra de modificação”, caberia à Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (AIPIM), responsável pela gestão do jardim de infância e também pelas obras, contactar previamente o arquitecto. Na carta enviada, Mário Duque pede ainda que seja feita uma “averiguação urgente sobre a modalidade e actos da obra em curso, tomando as devidas precauções naquilo que colida com o ordenamento da RAEM”. Na resposta que deu ao arquitecto, a DSSOPT confirmou que não foi responsável pela execução da obra. Em declarações ao HM, Miguel de Senna Fernandes, presidente da AIPIM, adiantou que as questões de licenciamento foram respeitadas. “Tivemos de informar de que iríamos fazer esta obra. Foi atribuído [pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude] um subsídio para este efeito e os serviços conhecem este projecto.” O HM sabe que no passado dia 2 deste mês alguns fiscais da DSSOPT se deslocaram

ao jardim de infância D. José da Costa Nunes.

CUSTOS ERAM EXCESSIVOS

O presidente da AIPIM admitiu que não sabia que Mário Duque é o autor do projecto de ampliação do jardim de infância, que foi concluído em 1997, o que fez com que não tenha sido feito um contacto prévio. Ainda assim, Miguel de Senna Fernandes promete enviar uma carta ao arquitecto a explicar as alterações. O facto de ter sido colocada uma janela totalmente diferente da original prende-se com o elevado estado de degradação e custos excessivos que a AIPIM não conseguia suportar. “A alteração foi ditada por razões de segurança, mais nada. A janela estava em muito mau estado, já havia sinais visíveis de enferrujamento, e a única maneira para tratar daquilo era fazer uma janela nova. A reposição da janela [no formato original] custaria muito mais dinheiro, e depois a janela não é pequena.” O presidente da AIPIM disse ainda já ter conhecimento da carta

enviada à DSSOPT. “Lamentamos não o termos informado previamente. Não tínhamos outra hipótese porque os subsídios são muito limitados. Não podemos ser impedidos de fazer as reparações absolutamente necessárias para garantir, pelo menos, a segurança das pessoas envolvidas.” “Naturalmente lamentamos ter avançado com a obra sem dar conhecimento ao arquitecto. Se soubesse que era ele naturalmente que ia falar”, adiantou o presidente da AIPIM, que pede, contudo, compreensão da parte de Mário Duque. “O arquitecto vai ter de compreender que não sou pessoa de fazer alterações a torto e a direito. Mas quando as condições exigirem que as faça, mesmo que não vá de encontro ao gosto das pessoas, é o que tem de ser feito. Com todo o respeito, vai ter de compreender a nossa posição”, concluiu. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

Hoje Macau 11 JAN 2018 #3970  

N.º 3970 de 11 de JAN de 2018

Hoje Macau 11 JAN 2018 #3970  

N.º 3970 de 11 de JAN de 2018

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