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MOP$10

SEXTA-FEIRA 10 DE FEVEREIRO DE 2017 • ANO XVI • Nº 3750

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

www.hojemacau.com.mo•facebook/hojemacau•twitter/hojemacau

TIAGO ALCÂNTARA

hojemacau

Dei-te quase tudo FUNDAÇÃO MACAU | APOIOS A UCTM E AS OUTRAS

AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

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GRANDE PLANO

MANUEL AFONSO COSTA

CASA DA CHINA ENTREVISTA

PSI | ATFPM

CRIMES SEXUAIS

OPINIÃO

Coutinho Bocas Os desterrados e Rita que não na Coreia importam Mulheres ISABEL CASTRO

PÁGINA 4

PÁGINA 5

FA SEONG


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É um facto que salta à vista quando a Fundação Macau publica as listas de apoios concedidos: há uma universidade privada que recebe muito mais do que as outras. Sobre esta partilha de patacas, há pouco quem fale. Ng Kuok Cheong encontra um só critério para a bonança de alguns. Chama-se ‘guanxi’

Ng Kuok Cheong diz não saber a razão de tanta generosidade para com a UCTM, mas deixa uma hipótese: “Talvez tenham boas relações, incluindo com o Chefe do Executivo”. PEDRO COIMBRA JURISTA

ANÁLISE SUBSÍDIOS DA FUNDAÇÃO MACAU ÀS UNIVERSIDADES PRIVADAS

TEORIA DAS BO

N

O ano passado, a Fundação Macau entregou ao organismo que gere a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM) mais de 509,6 milhões de patacas. Este montante, resultante da soma dos apoios trimestrais concedidos pela entidade liderada por Wu Zhiliang, diz apenas respeito aos subsídios para financiar os planos anuais de actividades e obras que estão a ser levadas a cabo pela instituição. De fora ficaram as ajudas para bolsas de estudo e outros projectos. A principal fatia do bolo dado à Fundação da UCTM foi tornada pública esta semana: no último trimestre do ano, seguiram para a instituição do Cotai mais de 446 milhões de patacas. A maior parte do dinheiro destinava-se a custear as obras do Complexo Pedagógico (Bloco O) da universidade. A Fundação da UCTM tem também sob a sua alçada o Hospital da Universidade e a Escola Internacional de Macau. Este visível apoio financeiro à Universidade de Ciência e Tecnologia está longe de ser uma novidade. “Já não é a primeira vez. A UCTM recebe subsídios da Fundação Macau com uma regularidade impressionante”, constata o jurista Pedro Coimbra. Chegou-se a um ponto em que a situação é encarada com normalidade. “Não percebo, sinceramente, porque é que essa verba aparece”, comenta ainda o jurista, em relação ao montante atribuído à universidade privada na recta final do ano. “Conheço muito pouco do trabalho da UCTM. Como tal, não percebo qual é a justificação para serem atribuídas verbas desse tipo.” Pedro Coimbra não é o único a ter dificuldades em perceber o funcionamento e os resultados da instituição de ensino universitário. Apesar de ter como grandes objectivos “promover a troca cultural, o crescimento intelectual, o desenvolvimento económico e o progresso social”, a UCTM não se distingue por ter uma forte ligação à comunidade local. Há alguns anos, esteve na ribalta pelas piores razões: o curso de Direito que ali era ministrado apresentava um

currículo muito pouco compatível com as necessidades dos alunos que pretendiam exercer no território.

DO PÚBLICO PARA O PRIVADO

38

milhões para Universidade de São José

Entre universidades e institutos públicos e privados, há nove estabelecimentos de ensino superior na cidade. A Fundação Macau contribui para o financiamento dos planos anuais de três universidades privadas: além da UCTM, também a Universidade de São José (USJ) e a Universidade da Cidade de Macau (UCM) recebem apoios. As diferenças são, porém, expressivas. No ano passado, a USJ, através da Fundação Católica de Ensino Superior Universitário, recebeu 38 milhões de patacas. Quanto à UCM, com ligações ao deputado Chan Meng Kam, teve direito a 47 milhões. Em ambos os casos, ao longo dos anos, o Governo tem ajudado na criação de condições de funcionamento destas instituições, nomeadamente através do apoio para instalações. Num território em que a grande maioria dos estabelecimentos de ensino não superior está nas mãos dos privados – a RAEM jamais poderia garantir educação aos residentes com as poucas escolas públicas existentes –, a lógica de apoio foi alargada também ao ensino superior, não obstante o facto de haver uma universidade pública de grandes dimensões. Há quem tenha dificuldade em compreender a razão destes apoios, sendo que a questão se torna ainda mais complexa quando em causa está a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, pelos valores significativos que arrecada. A UCTM é milhões para a Universidade de constituída por Ciência e Tecnologia de Macau seis faculdades ( Te c n o l o g i a s da Informação, Direito, Medicina Chinesa, Gestão Hoteleira e Turismo, TIAGO ALCÂNTARA

GRANDE PLANO

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O AS RELACOES ˜ `

Humanidades e Artes, e Ciências Médicas) e por quatro escolas (Gestão, Farmácia, Formação Contínua, Estudos de milhões para a Pós-Graduação), tendo ainda um DepartamenUniversidade da to de Educação Geral. Cidade de Macau Ao todo, a UCTM oferece 16 licenciaturas, 24 mestrados e 11 doutoramentos, num total de 51 cursos. À semelhança da Universidade de São José e da Universidade da Cidade de Macau, tem ainda programas de formação contínua. Já a USJ dispõe, ao todo, de 36 cursos e a UCM, a mais modesta em termos de diversidade académica, disponibiliza 24 programas. A Universidade de São José tem cinco faculdades (Estudos Religiosos, Humanidades, Administração e Governação, Psicologia e Educação, Indústrias Criativas) e um instituto, dedicado à Ciência e Ambiente. Quanto à Universidade da Cidade de Macau, está estruturada em seis faculdades, a saber: Gestão e Turismo, Gestão, Humanidades e Ciências Sociais, Educação, Direito, Estudos e Gestão Urbanística. Quanto às propinas, a USJ é mais cara do que a UCTM – a Cidade de Macau não disponibiliza online os valores a pagar. Na universidade sob a alçada da Fundação Católica de Ensino Superior Universitário, o valor anual por aluno de licenciatura anda entre as 43 mil e as 53 mil patacas. Os não residentes podem ter de pagar 73 mil. Na Universidade de Ciência e Tecnologia, a tabela tem variações conforme os cursos em causa. A maioria das licenciaturas custa 32.800 patacas por ano. O curso de Medicina Tradicional Chinesa está entre os mais caros: as propinas dos primeiros quatro anos são no valor de 37.200 patacas e o último ano implica desembolsar 32.800. Quanto aos estudantes que não têm BIR, os cursos mais baratos andam pelas 71 mil patacas e o mais caro ultrapassa as 88 mil. Ainda no universo da UCTM, o dinheiro da Fundação Macau segue também para a Escola Internacional de Macau. No ano passado, o

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erário público serviu para ajudar à expansão do estabelecimento de ensino. Também aqui as propinas chegam a valores consideráveis: uma criança que ande no jardim de infância paga 70 mil patacas por ano; os pais dos alunos do ensino secundário gastam 105 mil.

SEM FUNDAMENTO

Os deputados Au Kam San e Ng Kuok Cheong estão entre as vozes mais críticas em relação ao modo como a Fundação Macau distribui o dinheiro. Há anos que detectam problemas no que toca aos principais beneficiados: o Hospital Kiang Wu e a Universidade de Ciência e Tecnologia. “Os recursos da Fundação Macau são demasiado grandes”, considera Ng Kuok Cheong. “Devia existir um mecanismo de transferência para outros organismos, nomeadamente para o Fundo de Segurança Social.” A fundação recebe um montante correspondente a 1,6 por cento das receitas brutas das concessionárias de jogo.

TIAGO ALCÂNTARA

“Há outras instituições de ensino superior de Macau que me parecem mais conhecidas e às quais não são atribuídas verbas minimamente semelhantes a essas.” PEDRO COIMBRA JURISTA Sobre os apoios à UCTM tornados públicos esta semana, Ng Kuok Cheong não se alonga, mas é incisivo: “A Fundação Macau distribui dinheiro sem uma razão concreta.” O deputado pró-democrata diz não saber a razão de tanta generosidade para com a universidade do Cotai, mas deixa uma hipótese. “Talvez tenham boas relações, incluindo com o Chefe do Executivo.” O jurista Pedro Coimbra também não encontra uma explicação. “Não vejo que haja uma justificação que possa ser aceitável para o grande público para ser atribuída uma verba dessas à universidade.” A sensação que fica é, assim, de estranheza. “Há outras instituições de ensino superior de Macau que me parecem mais conhecidas e às quais não são atribuídas verbas minimamente semelhantes a essas.” Isabel Castro (com João Luz) info@hojemacau.com.mo


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S

ÃO três problemáticas do mercado laboral local que têm estado na ordem do dia e que vão transpor fronteiras. A Associação dos Trabalhadores da Função Pública (ATFPM) vai estar representada na Coreia do Sul para participar em mais um encontro anual da entidade Serviços Públicos Internacionais (PSI, na sigla inglesa), que congrega associações de 160 países, representantes de trabalhadores da Função Pública. Temas como a falta de uma lei sindical, os dias da licença de maternidade e o salário mínimo universal serão discutidos no encontro. Desde 1993 que a ATFPM é membro da PSI. Ao HM, Rita Santos avançou que irá abordar a questão da licença de maternidade em Macau, pedindo a implementação de 90 dias. “A primeira vez que houve uma reunião em Macau, logo após o estabelecimento da RAEM, sugeri o aumento dos dias de licença de maternidade. Em muitos países, incluindo a China, são 90 dias”, vinca. “Lembro-me que sugeri 90 dias, houve muitas críticas, sobretudo do sector privado da área empresarial. Parece-me que agora há mais vozes a favor. As mulheres hoje em dia têm uma dupla responsabilidade porque, além de tomarem conta dos filhos, precisam de mais tempo de descanso.” Já José Pereira Coutinho vai falar da ausência de uma lei sindical em Macau, apesar das diversas propostas de lei já apresentadas por

“Sugeri 90 dias, houve muitas críticas, sobretudo do sector privado da área empresarial. Parece-me que agora há mais vozes a favor.” RITA SANTOS PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA GERAL DA ATFPM

A

deputadaAngela Leong interpelou o Governo sobre o processo de atribuição de apoios financeiros por parte do Fundo de Desenvolvimento Educativo a escolas privadas, alegando que a fiscalização não está a ocorrer como o esperado. Por isso, a também administradora da Sociedade de Jogos de Macau (SJM) quer que o Executivo crie um órgão só para fiscalizar eventuais abusos. “As autoridades devem estudar a criação de um

PSI ATFPM ABORDA LEI SINDICAL E LICENÇA DE MATERNIDADE

Encontros na Coreia A ATFPM vai estar presente na reunião anual dos Serviços Públicos Internacionais, que este ano decorre na Coreia do Sul. A ausência de uma lei sindical em Macau, a implementação de 90 dias de licença de maternidade e o salário mínimo universal serão temas abordados por Pereira Coutinho e Rita Santos GONÇALO LOBO PINHEIRO

POLÍTICA

2019, mas até lá vamos mostrar as nossas vozes”.

PROBLEMAS CONSULARES

Rita Santos falou ainda do I Encontro do Conselho Regional da Ásia e da Oceânia das Comunidades Portuguesas, que está marcado para finais de Março e onde irá participar o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro. Na agenda estão assuntos relacionados com o funcionamento do Consulado-geral de Portugal em Macau. “Vamos transmitir os mesmos problemas em relação à falta de pessoal no consulado, é preciso actualizar os vencimentos, porque são baixos. Soube que vai haver um reforço do quadro, mas com um salário de oito mil patacas, o que é muito baixo. Vamos ver se Portugal dá mais atenção às actividades culturais e também ao papel de plataforma de Macau”, resumiu Rita Santos, que garantiu ainda que será debatida a possibilidade de implementação do voto electrónico. Isto numa altura em que a Assembleia da República em Portugal discute o assunto, após a entrega de uma petição. O I Encontro do Conselho Regional da Ásia e da Oceânia das Comunidades Portuguesas abrange os territórios da China, Macau, Hong Kong, Austrália, Timor-Leste, Japão, Coreia e Tailândia. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo

RITA SANTOS NÃO É CANDIDATA À AL Rita Santos

deputados à Assembleia Legislativa, cujas votações resultaram em chumbos. “Coutinho haverá de falar novamente da falta de uma lei sindical e de negociação colectiva, pela qual se luta desde 1987. Desde o início da ATFPM que apresentamos propostas ao Governo português”,

lembra a presidente da assembleia geral da associação. Para Rita Santos, a falta desta lei também se deve à falta de actuação da Administração portuguesa. “Foi culpa dos portugueses. Na altura parecia existir uma cedência em relação os empresários, e se tivesse sido aprovada a legislação

hoje não teríamos esse problema. As leis e as convenções internacionais antes do Governo da RAEM foram transferidas para o período após 1999 sem problemas. Mas temos de olhar para a frente.” Quanto ao salário mínimo universal, “o Chefe do Executivo disse que iria ser concretizado em

Dinheiro para onde?

Angela Leong pede fiscalização de subsídios a escolas privadas

serviço especializado destinado à fiscalização eficaz das finanças das escolas particulares. Vão fazê-lo?”, questionou, exigindo que sejam também verificados os salários que são pagos aos professores. “As autoridades devem, via análises efectuadas em conformidade com este princípio, verificar se as

remunerações do pessoal docente das escolas particulares atingem a devida percentagem, com vista a assegurar que as escolas apliquem os recursos públicos no desenvolvimento educativo.” Angela Leong lembrou alguns casos de ilegalidades cometidas, que foram denunciadas pelo Comis-

sariado da Auditoria. “Em 2015, descobriu-se que uma escola tinha recebido cerca de seis milhões de patacas de subsídios para o ensino especial, mas só uma pequena parte tinha sido utilizada com os alunos do ensino inclusivo. Isto resultou em criticas do público contra a fiscalização indevida, que

impede os alunos de obter os devidos apoios.” Nesse mesmo ano, “o CA descobriu a falta de cuidado da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude quanto à fiscalização dos pedidos de subsídios das escolas privadas, situação que resultou em abusos do erário público por parte de algumas escolas, e que só desfavorece o desenvolvimento educativo”, acrescentou a deputada. Angela Leong lembrou que Macau foi o primeiro território chinês a implementar

E

m declarações à Rádio Macau, Rita Santos confirmou que não fará parte da equipa de José Pereira Coutinho nas eleições legislativas deste ano. “O número dois vai continuar a ser Leong Veng Chai, que está a fazer um bom trabalho. Temos tido bastante apoio dos cidadãos de Macau, assim como dos corpos gerentes. Convencemo-lo a continuar a prestar serviço à população de Macau, resolvendo os seus problemas diários”, apontou.

a escolaridade gratuita, tendo sido criado o FDE para garantir “a optimização das condições de ensino das escolas privadas”. Para a deputada, é fundamental uma racionalização do sistema de ensino, de modo a garantir a formação de talentos. A interpelação oral apresentada pela deputada ainda não tem data marcada para receber uma resposta do Executivo no hemiciclo. A.S.S.


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S

Ó comete crime de importunação sexual aquele que mantiver contacto físico com a vítima, contra a sua vontade. O esclarecimento foi deixado por Cheng Chi Keong, presidente da 3.a Comissão Permanente da Assembleia Legislativa, no final de mais uma reunião em que esteve a ser analisada a proposta de lei que visa modificar e aditar crimes de natureza sexual ao Código Penal. Ontem, na terceira reunião desta semana, esteve em debate um tipo de crime que suscitou algumas preocupações aquando do seu anúncio, por se temer más interpretações e problemas na aplicação: a importunação sexual. Os deputados concordam com a intenção do proponente mas, ainda assim, pretendem obter uma redacção mais clara do artigo em questão. Trata-se de um “crime que não existe no nosso sistema jurídico”, começou por contextualizar Cheang Chi Keong. “A introdução tem como objectivo responder às expectativas e aspirações da sociedade. Vai colmatar uma lacuna.” Na reunião, que contou com a presença da secretária Sónia Chan, os representantes do Governo “salientaram que o propósito é reforçar a tutela jurídica para com as vítimas desses actos e punir devidamente os respectivos agentes, salvaguardando a ordem social”. A discussão teve sobretudo que ver com a delimitação do âmbito de aplicação do novo crime. O deputado lembrou que houve pessoas que ficaram na dúvida “se

Código Penal IMPORTUNAÇÃO SEXUAL SOBRE A FORMA VERBAL DE FORA

Os piropos não contam um palavrão” poderá ser considerado crime. Tal não vai acontecer, esclareceu, porque a importunação sexual prevista na proposta implica contacto físico. “É um dos elementos fundamentais do artigo”, notou. Questionado sobre se houve deputados a defenderem a inclusão da forma verbal de importunação sexual na legislação, Cheang Chi Kong afirmou que não houve qualquer deputado a deixar uma sugestão nesse sentido. “O princípio é o contacto físico, é essa a intenção legislativa”. Em Portugal, onde o Código Penal foi revisto há menos de dois anos também com vista à alteração de crimes de natureza sexual, a “formulação de propostas de teor sexual” passou a caber no crime de importunação sexual. Na altura, a modificação gerou bastante polémica. O delito pode valer uma pena de prisão até um ano ou pena de multa até 120 dias.

O LÁPIS OU A CANETA

Os deputados da 3.a Comissão Permanente vão ficar agora à espera que as assessorias da AL e do Governo reúnam para tratar de questões técnicas. “Esperamos que a norma seja redigida da forma mais clara possível”, indicou o presidente.

O deputado lembrou que houve pessoas que ficaram na dúvida “se um palavrão” poderá ser considerado crime. Tal não vai acontecer Um dos aspectos que merece uma revisão tem que ver com o tipo de contacto em causa. “Por exemplo, se um agente, pegando num objecto, num lápis ou numa caneta, tocar noutra pessoa, é considerado ou não crime de importunação sexual? Ou terá de ser mesmo um contacto

TIAGO ALCÂNTARA

O novo crime de importunação sexual, que o Governo quer acrescentar ao Código Penal, diz respeito apenas ao contacto físico. Os deputados concordam com a intenção legislativa. Ninguém pediu mais ao Executivo

físico? Creio que é intenção legislativa do Governo que o contacto físico abranja igualmente objectos”, declarou Cheang Chi Keong. “Esta questão também foi abordada na discussão sobre o crime de violação porque, no caso de haver coito oral ou anal, podem ser utilizados objectos ou outras partes do corpo.” O deputado explicou ainda que “o Governo propõe que o crime seja semipúblico, ou seja, se a vítima não apresentar queixa, não vai haver lugar a processo judicial”. Mas existe a vontade de proteger os menores de 16 anos pelo que, nessas circunstâncias, o Ministério Público pode dar origem ao processo mesmo sem a apresentação de uma queixa. A comissão tem novas reuniões agendadas para a próxima semana e espera que seja possível terminar a primeira fase da análise à proposta de lei, que tem que ver com o conteúdo dos artigos. Cheang Chi Keong acredita que, lá para o mês que vem, os aspectos técnicos estejam também resolvidos. “As questões colocadas ao Governo não são de princípio”, rematou. Isabel Castro

isabelcorreiadecastro@gmail.com

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POLÍTICA


6 SOCIEDADE

hoje macau sexta-feira 10.2.2017

ESTATÍSTICAS RESULTADOS DOS INTERCENSOS DIVULGADOS ESTE ANO

Este ano deverão ser apresentados os resultados dos Intercensos 2016, disse Mak Hang Chan, subdirector dos Serviços de Estatística e Censos, no âmbito da realização da 33ª sessão plenária da Comissão Consultiva de Estatística. Este ano será ainda realizado o Inquérito aos Orçamentos Familiares, referente ao ano de 2017/2018, a partir do quarto trimestre do ano, bem como a “disseminação dos índices trimestrais dos preços do imobiliário em Macau”, aponta um comunicado.

JORNALISTAS AIPIM COM NOVA DIRECÇÃO

Foram ontem eleitos os novos corpos sociais da Associação de Imprensa de Língua Portuguesa e Inglesa de Macau. O jornalista José Carlos Matias, jornalista da Teledifusão de Macau, é o presidente da direcção e Gilberto Lopes, chefe da Rádio Macau, o vice-presidente. João Francisco Pinto, director de informação e programas do Canal Macau da TDM, irá presidir à assembleiageral, enquanto Paulo Barbosa, editor do Macau Daily Times, está à frente do Conselho Fiscal. Os novos corpos sociais foram eleitos com 23 votos a favor, sem nenhum voto contra ou qualquer abstenção.

José Carlos Matias

A

construção da nova ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai deverá estar concluída no final deste ano, sendo que as autoridades estão agora a avaliar os ganhos obtidos em termos de turismo com este novo empreendimento. Ontem, o assunto foi discutido na reunião do “Grupo de trabalho para a promoção da cooperação económica entre

Imobiliário PREÇOS PROIBITIVOS PARA COMPRADORES

Casas a quanto obrigam É uma questão com barbas, mas que ganha contornos actuais, até porque os preços das casas continuam a aumentar. Os cidadãos protestam por habitação social e o debate político avoluma-se, enquanto não são tomadas medidas que tornem o mercado imobiliário mais acessível

C

OMPRAR casa em Macau é algo que está ao alcance de poucos, apesar da relativa bonança económica que o território atravessa desde a liberalização do sector do jogo. Uma evidência salta à vista: a falta de um plano político para responder ao problema da habitação. Desde o estabelecimento da RAEM, os preços no mercado imobiliário cresceram mais de 10 vezes. Com o aumento do valores das casas, desce a possibilidade de compra de imóvel. Nesse sentido, prossegue o debate político. Ella Lei interpelou o Executivo sobre esta matéria, alertando primeiro que, entre 2005 e 2010, apesar da subida dos preços do imobiliário e arrendamento, “o Governo não disponibilizou qualquer fracção de habitação social”. Sempre que abrem concursos para habitação pública os candidatos suplantam, em muito, os números de apartamentos disponíveis. A deputada da FAOM adianta que, para haver uma resposta sólida para este problema, primeiro é necessário fazer um estudo das necessidades de habitação dos residentes

de Macau. Foi com essa intenção que o Instituto da Habitação se prestou a fazer uma investigação sobre o ambiente residencial e a necessidade de habitação pública no território. Esse foi um dos motivos da interpelação escrita de Ella Lei: saber se com a finalização do relatório será pensada uma política de habitação pública.

KAIFONG CONTRA ESPECULAÇÃO

Também Chan Ka Leong afina pelo diapasão dos preços imobiliários demasiado elevados, escapando à

“O Governo só apresenta planos para projectos de habitação pública, mas não divulga nenhum calendário para inscrições de candidaturas.”

Autoridades analisam ganhos com ponte Hong Kong-Macau-Zhuhai Segundo um comunicado, “as duas partes vão estudar em conjunto as oportunidades de turismo trazidas com a conclusão da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, fortalecendo ainda mais a plataforma de cooperação

Vítor Ng (revisto por J.L.)

info@hojemacau.com.mo

CHAN KA LEONG KAIFONG

Turismo que vem do futuro Hong Kong e Macau”, que contou com a participação do secretário para o Comércio e Desenvolvimento Económico de Hong Kong, Gregory So Kam-leung, e do director dos Serviços de Economia da RAEM, Tai Kin Ip.

capacidade financeira dos residentes, o que “vai lesar a estabilidade social”. O chefe da comissão para os assuntos sociais dos Kaifong revela que a habitação é o problema que leva ao maior número de queixas dos cidadãos. “Nestes anos, o Governo só apresenta planos para projectos de habitação pública, mas não divulga nenhum calendário para inscrições de candidaturas”, comenta. Outra das preocupações de Chan Ka Leong prende-se com o sector privado que está sujeito à especulação, sem qualquer supervisão política. “As residências deveriam servir para as próprias pessoas lá viverem. O Governo deve adoptar mais medidas para prevenir os actos de especulação imobiliária nas habitações privadas”, acrescenta. O homem dos Kaifong aponta uma solução para o problema: “O Executivo pode reverter os terrenos vazios, de acordo com a Lei de Terras, para construir mais fracções da habitação pública”.

turística Guangdong-Hong Kong-Macau”. Será ainda analisado o possível reforço da “promoção, junto do sector turístico estrangeiro, das atracções do itinerário da viagem Guangdong-Hong Kong-Macau”, por forma

a promover “o desenvolvimento turístico de ‘uma viagem, várias paragens’ na região”. Em termos gerais, o encontro serviu para Hong Kong e Macau “trocarem opiniões, principalmente sobre a cooperação no turismo, na promoção de investimento, e nas convenções e exposições”. Ao nível do investimento, ficou prometida a

realização de actividades de captação de investimento no estrangeiro e a criação de um mecanismo de contacto permanente, bem como a organização de seminários. É objectivo captar a atenção de entidades estrangeiras, para que estas realizem convenções e exposições na região, reforçando a cooperação dos dois lados neste sector.


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A

secretária para a Administração e Justiça não descarta a hipótese de, a longo prazo, Macau só autorizar a importação de aves congeladas. “Como o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais já referiu, mesmo o abate centralizado implica riscos”, indicou Sónia Chan acerca da hipótese que tem estado a ser discutida nos últi-

O dilema das galinhas Governo admite importação exclusiva de aves congeladas

mos tempos. O tema ganhou maior pertinência na sequência da detecção de dois casos de gripe das aves, em lotes oriundos da China Continental, por altura do ano novo chinês, que obrigou ao abate de milhares de galinhas e pombos. “Sabemos que a tendência é para não haver abate de aves. A longo prazo temos de substituir por aves congeladas”, declarou ontem a governante, à margem de uma reunião na Assembleia Legislativa. Sónia Chan acrescentou que existem pessoas que sugerem o abate do outro lado da fronteira, de modo a que as aves cheguem ainda frescas ao território. Mas também esta sugestão encontra obstáculos, porque a concretização “não depende de Macau”. Insistindo que “o abate centralizado não evita totalmente o risco de vírus”, a secretária sublinhou que não há ainda uma decisão final sobre a matéria. “Aforma melhor é deixar de ter abate de aves. Mas há pessoas que levantam outras questões que têm de ser estudadas”, recordou. O fim da venda de aves vivas nos mercados locais teria implicações para quem trabalha nesta área.

GCS

A criação de um mecanismo centralizado de abate de galinhas e pombos não afasta a possibilidade de haver gripe aviária no território, frisou ontem Sónia Chan. A Administração pondera, no futuro, autorizar apenas a importação de aves congeladas. Mas a ideia não avança já

No início desta semana, Sónia Chan tinha reiterado que o assunto “é uma prioridade na agenda do Governo”. A responsável recordou que já foi feita uma consulta pública sobre esta matéria, sendo “necessário considerar as questões

relativas aos hábitos gastronómicos dos cidadãos, bem como a reestruturação do sector”.

LEIS E PESSOAS

Em menos de um ano, Macau registou cinco casos de gripe das aves e,

“Sabemos que a tendência é para não haver abate de aves. A longo prazo temos de substituir por aves congeladas.”

SOCIEDADE

em Dezembro passado, foi confirmado o primeiro caso de infecção humana. Os resultados da consulta pública a que a secretária fez referência foram divulgados em Junho do ano passado, tendo indicado que quatro em cada dez residentes de Macau se opõem à substituição de aves vivas por refrigeradas. O inquérito, destinado a avaliar a reacção do público à medida que o Governo pretende aplicar para prevenir surtos de gripe aviária, concluiu que 42,2 por cento dos 1026 inquiridos manifestam-se contra ou absolutamente contra a medida, 24,2 por cento exprimiram concordância ou absoluta concordância e 33,3 por cento afirmaram serem indiferentes ao assunto. Também ontem, Sónia Chan foi questionada acerca de nova regulamentação para o sector dos táxis, na sequência de casos que têm vindo a público que envolvem a cobrança de tarifas excessivas a turistas. A governante não deixou novidades. “Este ano deverá haver reformas em curso. Esperamos poder avançar com mais brevidade com os diplomas que têm que ver com a vida da população.” Isabel Castro

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SÓNIA CHAN SECRETÁRIA PARA A ADMINISTRAÇÃO E JUSTIÇA PUB

ANA LISBOA MANUELA ANTÓNIO Falecimento A família enlutada de Ana Lisboa Manuela António (conhecida por Anita), vem comunicar o falecimento da sua ente querida no dia 26 de Janeiro no Hospital S. Januário. No dia 11 de Fevereiro de 2016 pelas 20:00 horas será rezada uma missa pela sua alma na Casa Mortuária Diocesana. No dia seguinte, 12 de Fevereiro, pelas 10:30 será realizado o funeral e uma Missa no Cemitério São Miguel Arcanjo. Antecipadamente se agradece a todos quantos queiram participar no piedoso acto.

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CHINA

POLÍCIA INVESTIGA BANQUETE COM ANIMAL EM VIAS DE EXTINÇÃO

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MAIS DE 13 MILHÕES DE EUROS PARA NOVA ROTA DA SEDA EM 2016

Caminhos capitais

A

China investiu, em 2016, um total de 14.500 milhões de dólares na iniciativa Nova Rota da Seda, um conjunto de projectos internacionais de infra-estruturas e telecomunicações lançado por Pequim, informou ontem o ministério chinês do Comércio. Aquele montante foi investido nos 53 países que integram a iniciativa, anunciada em 2013 pelo Presidente chinês, Xi Jinping, e que pretende reactivar a antiga Rota da Seda entre a China e a Europa através da Ásia Central, África e sudeste Asiático. O valor refere-se apenas ao investimento directo realizado pelo Governo chinês. As empresas chinesas investiram 117.775 milhões de euros em actividades integradas na iniciativa - 51,6% do total do investimento feito por entidades privadas do país além-fronteiras no ano passado.

O porta-voz do ministério do Comércio, Sun Jiwen, assinalou que aqueles projectos “beneficiarão todos os países que integram a rota, melhorando as infra-estruturas e a interconexão regional”. “Vamos continuar a impulsionar a construção e aprofundamento do investimento nos países ao largo destas rotas”, afirmou o porta-voz. Sun destacou projectos como a nova rede ferroviária que liga a Hungria à Sérvia. Os projectos, que são financiados pelo Banco Asiático de Investimento em Infra-estruturas (BAII), de que

Portugal é membro fundador, são comparados ao norte-americano ‘Plano Marshall’, lançado a seguir à Segunda Guerra Mundial. Em Maio deste ano, Pequim vai acolher uma cimeira internacional com os países abrangidos pela iniciativa e que, segundo a imprensa chinesa, poderá trazer à China mais chefes de Estado do que a reunião do G20, que se realizou em Setembro passado em Hangzhou, leste do país.

PORTUGAL À ESPREITA

Portugal tem afirmado a sua intenção de integrar a inicia-

O porta-voz do ministério do Comércio, Sun Jiwen, assinalou que aqueles projectos “beneficiarão todos os países que integram a rota, melhorando as infra-estruturas e a interconexão regional.”

tiva, particularmente com a inclusão do porto de Sines. “Podemos ser de facto uma grande ponte entre a Europa, África, América do Sul e Ásia”, afirmou o primeiro-ministro, António Costa, durante a visita que fez à China, em Outubro passado, numa alusão à abertura do novo canal do Panamá e às novas rotas que permitirá entre o Pacífico e o Atlântico. “Essa é uma posição que nós assumimos e estamos empenhados em trabalhar com o Governo chinês para sermos inseridos neste projecto”, disse. O jornal oficial Diário do Povo assinalou ontem num artigo que a cimeira ajudará a “curar o proteccionismo”, numa alusão à postura da nova administração dos EUA, liderada por Donald Trump, e à saída do Reino Unido da União Europeia.

S autoridades chinesas estão a investigar um banquete organizado por funcionários do Governo onde foram alegadamente servidos pangolins, um dos mamíferos mais traficados do mundo e que está em vias de extinção. A investigação foi lançada depois de fotos do jantar terem sido colocadas nas redes sociais. O pangolim é o único mamífero totalmente coberto por escamas e que, quando ameaçado por predadores, se enrola sobre si próprio para se proteger. Na China e no Vietname considera-se que tem propriedades medicinais. A polícia está a investigar se o mamífero foi consumido num banquete realizado na província de Guangxi, no sul da China, detalhou a agência noticiosa oficial Xinhua. Uma mensagem que se tornou viral no Weibo, o Twitter chinês, indica que funcionários do governo de Guangxi convidaram investidores para comer o animal, que está em perigo de extinção, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza. Várias fotografias do jantar foram colocadas na Internet, com o comentário do utilizador: “É a primeira vez que como [pangolim]. Estou rendido a este sabor exótico”. Na China, o consumo de pangolim pode ser punido com mais de dez anos de prisão. “Hoje em dia, o que mais se destaca nos funcionários do governo é a perversidade”, escreveu um cibernauta no Weibo, referindo-se ao banquete. “Uma vergonha!”, disse outro. A Agência de Investimento e Promoção de Guangxi era inicialmente suspeita de ter recebido o banquete, mas a comissão local de disciplina do Partido Comunista Chinês ilibou o organismo.Citada pela Xinhua, a comissão detalhou que apenas um funcionário do governo participou no banquete. Cerca de um milhão de pangolins foram caçados em florestas na Ásia ou em África ao longo da última década.

CHINA VAI RECOLHER IMPRESSÕES DIGITAIS DE VISITANTES ESTRANGEIROS

Os estrangeiros que todos os anos visitam a China terão a partir de agora recolhidas as suas impressões digitais, ao entrar e sair do país, anunciou ontem em comunicado o Ministério da Segurança Pública chinês. As novas regras serão sobretudo aplicadas a pessoas com idades entre os 14 e os 70 anos. A medida será primeiro aplicada em Shenzhen, cidade que faz fronteira com Hong Kong. As autoridades chinesas contabilizaram mais de 76 milhões de entradas e saídas de estrangeiros, no ano passado. Coreia do Sul, Japão, Estados Unidos e Rússia foram os principais países de origem. O ministro realçou que o novo requisito é “uma medida importante para fortalecer a gestão das entradas e saídas” e que está de acordo com o praticado em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde 2004 que se recolhem as impressões digitais da maioria dos visitantes estrangeiros.


10 ENTREVISTA

MANUEL AFONSO COSTA

“Uma parte da minh

AUTOR

“Memórias da Casa da China e de Outras Visitas” é o mais recente livro de poesia de Manuel Afonso Costa, lançado ontem pela editora portuguesa Assírio e Alvim. A obra não representa apenas um regresso do poeta às publicações, ao fim de dez anos. É também uma forma de assumir que o Oriente, a China, lhe entrou em casa, que é como quem diz, pela alma adentro

“A casa desempenha um papel extraordinariamente rico nas nossas memórias. A casa é opaca, está de alguma maneira fechada, uns afectos abrem-se, outros nem tanto.”

Quando é que começou a pensar este livro, a escrevê-lo? Esse livro surge numa linha de continuidade, de uma poética que lhe é anterior. Não há um momento inaugural em que tenha decidido escrever poemas que obedecem a um determinado critério ou objectivo. Não há um thelos, no sentido de finalidade, de algo que esteja definido à priori. Isso acontece, talvez, no romance, em que a pessoa se senta para contar uma história. Para começar algo do zero. Sim. Com a poesia, a pessoa desde que começa a escrever, a determinada altura da vida, não deixa de o fazer e acaba por ir reunindo poemas suficientes para publicar. Não tem de existir uma ruptura, um ponto final e depois o começar de outra coisa. Dentro dessa linha de continuidade, tem de haver o aparecimento progressivo de alguma coisa diferente e nova. Mas deixe-me referir que vai haver um encontro de literatura e filosofia, em Macau e em Lisboa, promovido pelo Instituto Internacional de Macau, onde vão falar da minha poesia, com o tema “O aparecer da China na poesia de Manuel Afonso Costa”. Portanto há uma realidade que aparece, que é a China, sendo que não poderia aparecer apenas a partir dos livros. Aparece também a partir da sua vivência com a sociedade. Exacto. Já conhecia a China, teoricamente, já tinha visto gravuras, já tinha lido livros. Já tinha tido acesso à poesia chinesa, há muitos anos, mas nada tem que ver com o choque com a realidade. Este livro fala das memórias da casa na China. Claro que não é a casa onde eu vivi, é uma casa simbólica, é o lugar China, no sentido lato, onde vivi e tive o meu espaço próprio. A descrição do seu livro fala precisamente da casa enquanto símbolo. Metaforicamente falando, que tipo de casa é esta? É uma casa que alberga a sociedade chinesa? Em concreto, não. Diria que a minha poesia é muito fenomenológica, está sempre muito ligada às vivências. Foi muito importante vir para o Oriente e entrar em contacto com uma realidade. Esta desafia-nos. Existe a intencionalidade da nossa consciência, mas existe também a intencionalidade quase provocatória da realidade sobre nós. A realidade estimula-nos a reagir. Viver aqui, numa sociedade com um grafismo e arquitectura

diferentes... Mas não me refiro só a Macau, embora seja o elemento predominante, porque foi o sítio onde passei os meus últimos anos de Oriente. Fui muitas vezes a Hong Kong nos anos 90 e vivi quase um ano em Zhuhai. Então é todo o conjunto que me estimula. Quando me refiro à casa, é uma casa simbólica. Não é essa casa, com a sua arquitectura própria. Ela é concreta porque está plantada num lugar diferente, um lugar cuja entourage [o que está à volta] é diferente. Refiro-me a uma parte do mundo onde vivi grande parte da minha vida, e a nossa vida é toda feita de casa em casa.

“Creio até que este livro é melhor do que o anterior, e acredito que o próximo venha a ser melhor que este. Houve uma continuidade de escrita, fui apurando, em termos de savoirfaire, que é muito importante. Há uma maneira de fazer, com prática, experiência e continuidade.” De vivência em vivência. Vamos deixando nessas casas um bocado de nós enquanto lá vivemos. Ficam ligadas a elas todas as memórias. É em casa que escrevemos (eu pelo menos), amamos, cozinhamos, dormimos. A casa desempenha um papel extraordinariamente rico nas nossas memórias. A casa é opaca, está de alguma maneira fechada, uns afectos abrem-se, outros nem tanto. Ao mesmo tempo, a realidade exterior entra pelas paredes da casa. Se não, viveria aqui como se estivesse a viver em Lisboa ou em Paris. Estamos permanentemente em contacto com uma língua diferente e um grafismo diferente. Uma das coisas que mais me impressionou foi andar meio perdido por certas zonas de Macau, onde são ostensivos e quase histéricos os painéis publicitários mostrados ao exterior. Isso dá uma certa geometria estética, colorida, de luz e caracteres,

algo extraordinariamente intenso. É essa realidade que entra em contacto com a casa, que entra dentro de nós. E quando escrevemos ou pintamos, enquanto artistas, damos conta dessa transmigração das realidades. Disse que este livro é o resultado do que tem vindo a publicar até aqui. A última obra intitula-se “Caligrafia Imperial e Dias Duvidosos”. Passou de uma referência à caligrafia, um elemento muito característico da cultura chinesa, para essa vivência da China. De que forma é que estas obras se interligam?

Têm um ponto em comum. O livro “Caligrafia Imperial e Dias Duvidosos” tem cerca de 17 poemas que publiquei numa revista de cultura, sendo uma réplica literária minha do quadro dos tributários que está no museu em Taipé, uma obra de um imperador chinês do século XVIII. É uma obra chinesa, megalómana,

“A poesia está, em larga medida, a desaparecer das livrarias por esse mundo fora.”


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ha alma é oriental”

ENTREVISTA

“Há uma tendência clara de uma crise das humanidades, está tudo interligado. O fim do latim e do grego para mim é catastrófico, e basta ler o George Stein [crítico literário] para se perceber porque é que é catastrófico. Há um desinvestimento nas áreas literárias, e os jornais são um espelho da sociedade.” escrever. A escrita e a poesia são as maiores paixões da minha vida. Acontece que não paro muito em lado nenhum. Estive em Macau de 1993 a 2000, depois fui-me embora, estive em França, nos Estados Unidos, e desde 2011 vivo em Macau. Perco os contactos, as rotinas. Depois tive duas filhas, fiz o doutoramento, algo megalómano, e não tendo nunca deixado de escrever, fui pondo um pouco de lado as questões mais burocráticas. Isso porque é mais fácil escrever do que publicar. Os livros deveriam aparecer publicados por milagre. Gosto infinitamente mais de escrever e ainda mais de ler. É também crítico literário. É algo que falta em Macau? Sim, mas não é só em Macau. Temos de ser justos. Em Portugal a crise nesse domínio é avassaladora. E a poesia está, em larga medida, a desaparecer das livrarias por esse mundo fora. Em França escreve-se e publica-se muito pouca poesia.

e sensibilizou-me muito, tal como a Cidade Proibida e as Muralhas da China. Depois dou-lhe o nome de caligrafia [ao livro] porque um dos elementos do quadro dos tributários é a caligrafia: há uma gravura e há um texto. Com isso o imperador captou toda a realidade, que não conseguiu captar com os sentidos. Foi uma das primeiras formas de ligação à cultura e sociedade chinesa, e à grandeza da poesia e cultura chinesas. Há uma continuidade porque os primeiros poemas deste livro [Memórias da Casa da China e de Outras Visitas] também foram publicados na revista de cultura, na minha segunda

passagem pela China. Estes novos poemas não abordam o quadro dos tributários, mas fazem referência a alguns poetas chineses e à literatura chinesa. O modo de dizer da poesia chinesa é sempre mais sentencioso do que o nosso e esse é um aspecto que me sempre atraiu. É uma poesia despojada, onde as coisas aparecem como se fossem sentenças, mas depois não são para ler à letra. Contém outra realidade e sou sensível a essa ironia muito bem disfarçada e austera da poesia chinesa. Chamei-lhe casa pela simples razão de que agora tenho o direito de me referir a uma casa na China.

Ao fim de tantos anos... Já tenho uma parte da minha alma que é oriental. Eu já tenho uma casa na China. Acharia pretensioso se dissesse isso em 1994, tendo acabado de chegar a Macau. Passou muito tempo, com tantas experiências, e

“O modo de dizer da poesia chinesa é sempre mais sentencioso do que o nosso e esse é um aspecto que me sempre atraiu.”

tendo uma parte da minha vida que ver com esta realidade, posso dizer que tenho uma morada no Oriente. O livro “Caligrafia Imperial e Dias Duvidosos” foi publicado em 2007, há exactamente dez anos. Porquê esse interregno? Muitas pessoas me perguntam isso. Creio até que este livro é melhor do que o anterior, e acredito que o próximo venha a ser melhor que este. Houve uma continuidade de escrita, fui apurando, em termos de savoir-faire, que é muito importante. Há uma maneira de fazer, com prática, experiência e continuidade. Não vou ser hipócrita: nunca deixei de ler e

Como explica isso? Há uma tendência clara de uma crise das humanidades, está tudo interligado. O fim do latim e do grego para mim é catastrófico, e basta ler o George Stein [crítico literário] para se perceber porque é que é catastrófico. Há um desinvestimento nas áreas literárias, e os jornais são um espelho da sociedade. Fala-se da crise, dos números, das taxas. Houve um tempo em que todos os jornais, na sua maioria, tinham suplementos literários. Eu, que era uma pessoa com poucas posses, comprava sempre esses suplementos, que eram autênticos dossiers que tinha em casa. Os críticos eram verdadeiros profissionais, criticavam o que gostavam e o que não gostavam. Andreia Sofia Silva

andreia.silva@hojemacau.com.mo


h ARTES, LETRAS E IDEIAS

12

fotografias minúsculas com aquele detalhe fino do contacto directo com o negativo. A luz desenhada com precisão. O recorte nítido. Mais nítido do que ficou em mim que dele pouco ouvi. Pouco entendi daquelas feições. Um rosto severo e cerrado de contrariedade. Idealismo, talvez. Uma questão de honra, dizia-se. De vergonha. Sítio pequeno. Cercado da vasta planície coberta daquela luz inclemente sobre tudo. E sobre esse talvez idealismo que o fez desistir. Tantos filhos e tantos netos, uma mulher honesta e trabalhadora, e deixou-se sucumbir pelo erro da única filha mulher. Rapariga de menor virtude do que as agruras do tempo e da terra – dele - admitiam. O meu pobre avô Custódio Augusto. Deixou-nos honestamente a culpa em herança. A sua. Não a sua vivida, mas a sua contada. Para se fazer significar. A de existir assim. E toda a outra culpa, que não a dele, sobretudo, e viva para sempre. Afinal. Honestamente e com toda a ternura que me causa esse avô desconhecido, para além do pouco contado - que pena não ter perguntado mais - e de duas únicas fotografias naquele fato preto das ocasiões, não por elegância, que no campo não fazia talvez o paradigma de um homem sóbrio e reflexivo como ele, mas da decência, seja lá o que for que isso é, valeu a pena? Eu digo, e digo com voz pequenina porque o universo é grande e eu não, que temos que olhar com a força possível aquilo de que gostamos, sem memória. Só olhar o momento talvez assoberbado por um sentimento se for maior. E chega para passar ao outro dia. Não ambicionar mais do que a profundidade honesta de um momento, como uma engenharia que não se sabe a que construção leva. Mas algo ficará construído. Na economia complexa da existência. Mas ele não teve a serenidade de aceitar e deixar passar o tempo sobre aquilo que não podia mudar. Mudou o que estava ao seu alcance. Não se conformando com uma realidade, menos do que ideal, real. E deixou que a culpa tomasse conta da vida e depois, da morte. Até muito depois. A culpa é um

sentimento inútil à falta de outras qualidades. Sentimentos. As pessoas gostam da sua culpa como de um animal doméstico. Mau conselheiro, quando só. Aborrecido, incómodo, às vezes. Mas o seu animal de estimação. É mais fácil criá-lo do que a um animal desconheANABELA CANAS

H

Á dias em que tudo me é estranho. Para ser rigorosa, todos. Tudo me é exterior, incompatível. Como nos transplantes de órgãos. A compatibilidade do D.N.A. chega aí. Mas depois é todo o organismo a tentar reconhecer a pertença. A nova pertença, qualificada e aconselhada. E mesmo assim reage. Às vezes. É o sistema imunológico que rejeita afinal o que é corpo estranho e mesmo para salvar, estranho. Ninguém sabe de facto o que nos salva, para além de probabilidades cientificamente analisadas, ou nem mesmo assim seguras. Até um ponto. O ponto de ruptura com o que é estranho. A morte. A morte é uma criatura estranha. Retratos de família. Amores-perfeitos. Existem? Sim, as flores. Cresce-se numa cadeia de muitos elos de estranheza, só porque é assim a família de que se parte. E só isso, sem se dar conta durante muito tempo, cria um bicho estranho também ele a crescer subterraneamente e a insinuar que por vezes somos matérias tão diferentes que não há ADN que explique o que nos liga senão uma tradição. E que daí ao amor vão léguas submarinas. Difíceis laços estruturados em rede, em que uns nos trazem outros agarrados por inerência inultrapassável. Proximidades a tornar nítido um desenho de incompatíveis formas. Desarmonias. Quando se tem a sorte de ter uma família grande, é bom. Há sempre aquela metade difícil. Dispersa por inúmeros ramos. Mas há a outra, também. E às vezes difícil. Também. E é talvez assim que se começa lentamente a delinear contornos de imperfeição, sentimentos ambivalentes e contraditórios e uma síntese progressiva entre uns e outros. Valiosa, essa. A aprendizagem da imperfeição. Dos amores imperfeitos. E entre aqueles que são mais infinitos, e aqueles que são menos infinitos, cresce a certeza de que um ou outro, são definitivamente finitos. Ter um avô que se suicidou pouco antes de eu nascer, não me levou nunca a levar-lhe a mal a desfeita. Falava-se pouco desse avô, como se dele pouco sobrasse para além disso. Uma ou duas

Mais infinito, cido. Mas triste. Como o medo. O pior inimigo da liberdade. E a culpa, esse animal de estimação, bem alimentado leva longe. A menos-infinito. Como ao avô quase desconhecido, ao desconhecido. E nada mudou à face do universo com a herança que nos deixou.


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de tudo e de nada

Anabela Canas

menos infinito Não sei se é fantasia minha, ou se é a memória do meu próprio olhar ali solto em liberdade condiciona sobre as planícies, sobre o gosto árido das planícies, mas sempre me lembro de gente do Alentejo com uma espécie de olhar mais atirado para longe. Sem

obstáculos. E a olhar directamente os olhos dos outros. Dantes. A perscrutar almas e vidas. Talvez a transparência entranhada entre muitas rugas de expressão ou de protecção da íris, daquela luz toda. A semicerrar pálpebras e a atirar mais fundamente o olhar

para o espaço grande. No campo. Mas melancólico olhar, talvez. A gerar frio na alma torrada daqueles calores. Sem sombra para abrigo. Virada para dentro então. / Terra da cor dos olhos de quem olha! / A paz que se adivinha / Na tua solidão / Que nenhuma mesquinha / Condição / Pode compreender e povoar! / O mistério da tua imensidão / Onde o tempo caminha / Sem nunca chegar!... Miguel Torga, sobre o Alentejo. E porque não existe uma realidade constante. Mas, sim, estados de consciência, que definem o tom de um olhar nas coisas. Penso às vezes que é a lonjura do mar no interior. Que ali parecia não poder levar a lado nenhum. O tempo ou os passos. Sempre me intrigou o fenómeno do suicídio na planície alentejana. Deveria dizer planura, talvez. Ondulada e ampla. Arenosa, às vezes, e pontuada de sobreiros. Ou oliveiras, a intervalos, como se de propósito para deixar espaço ao desenho nítido das sombras. Nas dunas infindáveis sem mar à vista. Está mais que demonstrado que uma certa alternância nas vagas do sentir momentâneo salva de muitas prostrações, emoções variadas e megalomanias existenciais. Um momento depois, sabe-se, e o que era para ser nessa economia muito espontânea, já não é. É o que nunca era para ter sido senão como vislumbre. Maré cheia, maré vazia. E sempre alternando. Sempre me fez pensar essa melancolia atroz da planura das planícies. Uma espécie de insularidade não reconhecida, não pressentida. A moldar as disposições para a morte. País tão pequeno este e mesmo assim. E ela, pelo contrário, tão, tão resistente. Tão de infinitos. Ainda não passou um mês. Sobre minha árvore-mãe caída. E eu dela. Uma folha. Um lamento privado. De pessoa sem árvore, sem raízes, sem frutos. Um dia destes soube que tinha chegado a outra metade diferente da vida. A menor. Soube-o como folha caída abraçada a outra folha caída da mesma árvore. Ali, ambos, sós em frente à árvore - é bom ter um irmão - ela ainda ali caída e para sempre arrancada pelas raízes. Dias depois os dias começaram a chover e

foi terrível. Saber que lhe entregámos o corpo à terra como era seu destino. De árvore. Estávamos ali, dois troncos quebrados à beira da árvore mãe e por momentos entrelaçados num abraço raro e de silêncio, e, na despedida inclemente, a sós. É bom haver um outro ramo da mesma árvore -caída, já disse - e enlaçado no outro único ramo da mesma árvore caída. Ele respondeu-me estamos todos. Cada vez mais sós. Disse como um ramo da árvore ao outro ramo menor da mesma árvore. Foi a coisa mais existencial que lhe ouvi em muito tempo. Morri para dentro um bocadinho e por ele quando disse. Com ele. É bom ter um irmão. Também ali em frente à nossa árvore caída. Já entregue a outra dimensão da cósmica destinação se a há. Ou senão, de um outro sentido qualquer no não sentido de não se querer sentir. Ser capaz. De continuar. E há qualquer coisa especial no facto de termos caído da mesma árvore. Árvore – tronco e raízes fundas, disfarçadas nos objectos que deixou. Tantas coisas que só eu sei por detrás dos sorrisos fixos nas fotografias. Que só eu vou lembrar porque espiava os seus males. Mesmo sem os querer. Saber. Há momentos em que o meu luto é de guerra. O negro é o que se faz por dentro e que nem sempre transpira nas roupas. Mesmo no riso. Estávamos ali. Ramos caídos mas num destino possível. Ou eu e uma folha do tronco ao lado. Ou do mesmo tronco. Com a mesma árvore a quem chorar, com as mesmas raízes soltas da terra. Estávamos ali. Ramos caídos da árvore. Mas estávamos ali, subtilmente entrelaçados para o resto da vida. E há vida. Voltando aos amores-perfeitos. Amores-perfeitos adubados e frágeis mesmo assim. Lindos e frágeis. De aparência. Mas fortes e resistentes. Frágeis e resistentes, como ela. Ao frio. Ao calor. Coloridos e aveludados e manchados de escuro como asas de borboleta. Será talvez assim que as atraem. E às abelhas. Mas duram uma vida de flor. Falo tantas vezes em rosas. Sempre me lembro de as termos em casa, em vasos. Amores-perfeitos, nunca. No entanto, infinitos.


14

h Previsão por anos de nas

A

NO emocionalmente complicado, por trazer muitos riscos, que devem ser evitados. Requer um grande esforço pessoal e exige que se saia da zona de conforto, pois refugiando-se aí, será um ano difícil, com desapontamentos e conflitos. Os quatro signos com melhores previsões para este ano, Galo de Fogo, serão os bafejados pela sorte Búfalo, Tigre, Rato e Serpente. Já os nativos dos signos de Galo, Coelho, Rato e Cão vão ter um ano de grandes mudanças, por se encontrarem num ano Fan Tai Sui, contra o Tai Sui (Deus do Ano), logo podem enfrentar mais problemas, mas há duas diferentes direcções mediante como se encaram as situações. Se forem lidadas positivamente... O caso dos nativos do signo Rato, encontrando-se contra o Tai Sui (Po Tai Sui), mesmo assim não há com que se preocuparem pois têm cinco estrelas da sorte a ajudar nas mudanças e estas, ao contrário do ano passado, vão ser muito positivas.

Galo

Crescer. Só pelo amor, a sua vida fará sentido e encontrará uma direcção. Será um ano de mudanças difíceis por se encontrar contra o Tai Sui. Para os nativos nascidos em: •1945 – Terá uma vida agradável, sem necessidade de se preocupar com nada e apenas tomar cuidado para não sofrer nenhuma queda. •1957 - O seu pensar traz uma agudeza inteligente, o que lhe permitirá uma posição importante e ser respeitado, tanto socialmente como no trabalho. Por isso, a sua carreira e os proveitos estarão no topo, mas tenha cuidado e não se esqueça da sua cara-metade. Faça planos, pois é bom ano para criar um negócio. •1969 - Se estiver na via cultural e artística terá um ano promissor e com hipóteses de ganhar coisas boas. •1981 – Com a carreia e o dinheiro numa fase estacionária, emocionalmente vai atrair os outros. •1993 - É promissora a sua vida mate-

rial, mas facilmente lhe pode acontecer um acidente e para conquistar boa energia, celebre com uma grande festa o seu Aniversário. •2005 - Gosta de pensar e é criativo. Terá que ter cuidado ao usar objectos cortantes. O seu sentido de contradição é próprio da idade e dá continuidade ao conhecido por conflito de gerações.

•1971 - Contará com a estrela da sorte Lu Shen, que trará um bom rendimento e boas relações públicas. Mas terá também uma má estrela Qi Sha e por isso, hipóteses de se magoar, ou ser mal entendido. •1959 - Para quem trabalha em assuntos culturais e criativos será um bom ano, materialmente promissor. •1947 – Com boas relações sociais, terá muitas ideias e sorte nos negócios. Precisa de fazer uma Festa de Aniversário e cuidar da saúde do seu parceiro conjugal. •1995 – Ano para se deliciar com divertimentos, mas evite entrar em confronto com os outros.

Cão

Esperar. Não importa trovoada, vento ou chuva, Sol no seu coração é suficiente. É um ano para esquecer. Para os nativos nascidos em: •1982 - Apresente-se com um bom trabalho e assim a sua posição será confirmada. •1970 - Com diferentes vias para desenvolver o seu trabalho, tenha cuidado com a saúde e com as lâminas. Faça uma Festa de Aniversário. •1958 – Vai ser um ano muito activo e com muitos suportes. Aconselha-se aos seres masculinos fazerem uma Festa de Aniversário. •1994 – Um ano normal, mas com grande actividade social. Cuidado com os acidentes de viação. Melhor estudar mais. •1946 – Continuará a ter uma posição que lhe aufere grande respeito. Não necessita de se preocupar com o quotidiano, que não lhe trará problemas, mas cautela com a saúde.

Rato

Contentamento. Ouça o coração e o mundo mudará. É um bom ano. Para os nativos nascidos em: •1972 - Serão bafejados na carreira e nos rendimentos auferidos pelo trabalho. •1960 - Boa hipótese de ser promovida/o no trabalho, logo, ganhará mais, mas, não se esqueça da saúde. •1984 - Trabalhando muito, conseguirá boas criações, mas demasiadas relações poderão trazer algo de errado; tenha atenção, não se canse em demasia. •1996 - Pessoas importantes o ajudarão e terá um ano muito criativo; tente algo de novo, negócio ou noutra área de trabalho, pois terá bons resultados. •1948 - Tire prazer com a sua existência e cultive uma nova actividade pessoal.

Porco

Retornar. O Céu e Terra não são fáceis de mudar, mude-se a si. Será um ano difícil. Para os nativos nascidos em: •1983 - Será um ano estável, sem grandes problemas.

Búfalo

Imenso. Encontrando-se no cume, imagina-se a continuar a subir a

montanha. Quando está no sopé, imagina-se a nadar no oceano. Juntando os dois, aparece a Sabedoria. Ano promissor. Para o nativo nascido em: •1961 - Estará no topo quanto à carreira e amor. Terá a estrela da sorte Lu Shen a ajudar na sua carreira, o que o levará a chegar a uma nova etapa e por isso, auferir um bom salário. •1973 - Cairá dinheiro nos seus bolsos devido à sua sorte, mas não se esqueça que, no jogo é preciso sempre saber parar. •1985 - O trabalhar árduo levará a ser promovido e para o sexo feminino, cuidado com os acidentes. •1997 - Estudando bem terá reconhecimento dos mais velhos, que admirarão as suas ideias e criações e assim, brilhantemente se prepara. •1949 - A mente estará limpa e os pensamentos fluem-lhe. Ano materialmente rico.

Tigre

Florescente. Não seja o número 1, seja Único. Viver coloca-o a voar. Ano muito favorável. Para os nativos nascidos em: •1962 - Coloque no seu coração a carreira e conseguirá tudo o que deseja. •1950 - O seu poder e posição crescerão e muita gente o respeita. •1974 - Muito criativo, mas cansado do trabalho; cuidado com a saúde. •1986 - Muitos planos para este ano e com bastante suporte e apoios; por isso pode investir de uma só vez em todos os lados. •1998 - Será protegido pelos pais, estudará muito bem e de repente, passará a falar muito bem. •1938 – Muitas pessoas irão tomar conta de si, não se preocupe com nada mais.


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cimento no Galo de Fogo Coelho

Espera. Com boa sorte, avance, mas com azar, fique quieto. Vai deixar algo e o novo tomará lugar ao velho. Ano não muito favorável. Para os nativos nascidos em: •1963 - Receberá um dinheiro extra. Use este ano para desenvolver um novo projecto, que lhe poderá abrir uma nova porta. •1951 - A estrela da sorte Lu Shen ajudá-lo-á na carreira e por isso, receberá um bom ordenado. Terá uma vida social e emocional activa, o que o expõe e leva as pessoas a falar sobre si, bem ou mal, criando bastante ruído. Assim, quando decidir realizar algo, tome cuidado para não deixar a cauda de fora. Tome atenção à sua saúde. •1975 – Com árduo trabalho conseguirá o que precisa, não abuse das horas extras pois precisa de pensar na sua saúde. •1987 – Terá imensas ideias e uma activa vida social; o Deus do Ano (Tai Soi) pode colocá-lo numa nova situação. •1999 – Terá riqueza material e será um bom estudante. Realize uma grande festa de Aniversário para evitar problemas. •1939 – Continua com uma mente clara e muita gente irá tomar conta de si.

Dragão

Paz. Quando olha desde o cume, nada lhe retira a vista; abrindo o seu coração sente a pulsação, sendo daí que provem o Bom ou o Mau. É um bom ano. Para os nativos nascidos em: •1964 – Apresente as suas habilidades

para chefiar a sua carreira; é o centro do grupo. •1952 – Um bom ano para dinheiro e pode ter a sua carreira num novo patamar. •1976 – É o ano apropriado para criar um novo negócio, pois conta com bastantes suportes; os seres masculinos necessitam de fazer uma festa de aniversário para precaver desastres. Cuidado com a cana do nariz. •1940 – Respeitado pelas pessoas, não realize difíceis e árduos trabalhos. •1928 – Muitas pessoas irão tomar conta de si, não se preocupe com nada mais. •1988 – Estude e será promovido pelo seu chefe, o que lhe trará riqueza material.

Serpente

Prestígio. Desconstrua a sua imagem para encontrar a verdadeira. Vai ser um excelente ano. Para os nativos nascidos em: •1965 – Fará um muito bom planeamento e contará com uma boa qualificação para o realizar. •1953 – Terá dinheiro extra e variados investimentos dar-lhe-ão muitos proveitos. •1977 – Com bastantes suportes, será muito criativo na sua carreira e de todos os nativos de Serpente, é quem conseguirá alcançar mais proveitos materiais; festeje o seu Aniversário e convide todos os familiares. •1989 – Muita gente tomará conta de si, não importa no estudo, ou no trabalho, mostrar-se-á em boa forma. Especialmente se trabalhar em arte, ou assuntos culturais, conseguirá fazer uma boa obra; ano que terá muitas coisas boas para comer. •1941 – A boa estrela Lu Shen significa ter um bom rendimento e boas relações públicas. Cuide da sua vida emocional e não misture os sentimentos. •2001 – Rico materialmente é ano para se apaixonar, mas não entre de cabeça na relação pois ainda tem muito para viver e experimentar.

Cavalo

Emocionante. É vencedor se não pensar no que ganha, ou no que perde. Para os nativos nascidos em: •1966 – Vai ter um novo desenvolvimento na carreira. Uma boa relação suporta-o, com uma vida social rica. •1954 – Trabalhará duramente para criar um novo patamar, mas terá de cuidar da saúde, especialmente evitando noitadas. •1978 – Muita gente o suportará, estude bem e o Amor é maior que o Céu. •1942 – Tem a estrela da sorte Zheng Cai, que o ajuda pelo trabalho a ganhar dinheiro. Vida segura e respeitável, assim como um tranquilo desenvolvimento. •1990 – Faça grande publicidade a si mesmo, pois terá muitos aplausos. Muito cuidado ao praticar desportos radicais. Será conveniente celebrar o seu Aniversário com uma festa.

Cabra

Tranquilo. O valor de uma pessoa não está conectado com o quanto tem, ou ganha, mas, quanto não gasta. Ano sem grandes problemas. Para os nativos nascidos em: •1955 – Grande criatividade e de riqueza material, pois contará com um bom desenvolvimento nos negócios. •1967 – Um grande poder dá-lhe suporte, conseguindo ser promovido. Mas este ano poderá ver um familiar passar desta vida e por isso, deverá fazer uma festa de Aniversário para, pelas boas energias reunidas, evitar que tal aconteça. •1943 – Bons rendimentos, tendo os

outros a tomar conta de si. Vida estável e sem problemas. •1979 – É bom desenvolver o seu talento nas artes e cultura, o que lhe trará novos caminhos e rendimentos, assim como boas refeições. •1991 – Pensará apenas em fazer amizades e ficar apaixonado, mas a mente estará contra tudo o que lhe é proposto, o chamado espírito de contradição produto do denominado conflito de gerações, próprio da idade e que serve para se questionar e ao colocar em causa algo, permite pensar sobre isso.

Macaco

Florescente. Aceite as mudanças e não se prenda com pormenores. Ano razoável. Para os nativos nascidos em: •1956 – Um novo patamar espera por si, com a ajuda dos seus colegas e amigos. Irá criar uma nova actividade/negócio. •1968 – Mostre talento e terá diferentes hipóteses no seu desenvolvimento. •1980 – Com boa apresentação, será promovido e terá um salário mais elevado. Tornar-se-á famoso na sua área, apenas precisando de ter cuidado para evitar acidentes; por isso, guie com cuidado. •1992 – Conseguirá o emprego perfeito como vem desejando. •1944 – Criativo, continuará a trabalhar arduamente, mas não até se sentir exausto e tome cuidado para não misturar as suas emoções. Se for solteiro, parabéns, pois terá uma nova relação sentimental. •1932 – Este idoso macaco é rico e com a sua posição, imensas pessoas continuam a respeitá-lo. Não se esqueça de fazer exames à saúde. Neste artigo seguimos as previsões feitas por LEI KOI MENG (EDWARD LI)


16 (F)UTILIDADES TEMPO

POUCO

hoje macau sexta-feira 10.2.2017

?

NUBLADO

O QUE FAZER ESTA SEMANA Hoje ESPECTÁCULO “IDIOTA” Centro Cultural de Macau 20h00 e 20h45, até 11/2

MIN

10

MAX

17

HUM

40-80%

EURO

8.53

BAHT

EXPOSIÇÃO “CHANGE OF TIMES” DE ERIC FOK Galeria do IFT EXPOSIÇÃO “52ª EXPOSIÇÃO DO FOTÓGRAFO DA VIDA SELVAGEM DO ANO” Centro de Ciência (Até 21/02)

O CARTOON STEPH

EXPOSIÇÃO “SOLIDÃO”, FOTOGRAFIADE HONG VONG HOI Museu de Arte de Macau

EXPOSIÇÃO “I’M TOO SAD TO TELL YOU”, DE JOSÉ DRUMMOND Casa Garden, (Até 24/02) EXPOSIÇÃO “ENTER PLEASE”, DE CATHLEEN LAU Armazém do Boi | Até 26/02

C I N E M A

JOHN WICK: CHAPTER TWO SALA 1

RESIDENT EVIL: THE FINAL CHAPTER [C] Filme de: Paul W.S. Anderson Com: Milla Jovovich, Ali Larter, Shawn Roberts, Ruby Rose 14.30, 16.30, 21.30 SALA 2

JOHN WICK: CHAPTER TWO [C] Filme de: Chad Stahelski Com: Keanu Reeves, Ian Mcshane, Ruby Rose, Common 14.30, 16.45, 21.30

PROBLEMA 173

SOLUÇÃO DO PROBLEMA 172

UM DISCO HOJE

SUDOKU

DE

EXPOSIÇÃO “AD LIB” DE KONSTANTIN BESSMERTNY Museu de Arte de Macau (Até 05/2017)

Cineteatro

1.16

AGENTE LARANJA

EXPOSIÇÃO “VELEJAR NO SONHO” DE KWOK WOON Oficinas Navais N.º1

ESPECTÁCULO “MADE IN MACAU 2.0” | ANTIGO Tribunal | 18 e 19/02 | 20h00 e 15h00

YUAN

AQUI HÁ GATO

Diariamente

EXPOSIÇÃO “WHAT HAPPENED LAST NIGHT?’’ DE TIFFANY TANG Armazém do Boi | Até 26/2

0.22

Em todo o lado se fala da ameaça laranja, as paródias preocupadas estão em todo o lado, incluindo aqui na redacção, onde ouço todos os dias: “You’re a weak cat, sad!”. Não costumo meter-me em assuntos de política internacional, economia, ou qualquer tema que não envolva comida ou sono, mas é difícil passar uma hora sem uma referência a Donald Trump. Tal como o Agente Laranja, que devastou o Vietname, esta reedição humana colorada a cheetos é altamente tóxica. Para já, ainda não causa amputações, deformações físicas ou espinha bífida. No entanto, é difícil argumentar contra as evidentes perturbações mentais que causa, apesar de não ser, até prova em contrário, feito com um cocktail de herbicidas. O Agente Laranja lançado pelo exército americano nunca se pronunciou sobre a natureza dos mexicanos, nem o grau de atracção física de Rosie O’Donnell, nunca agarrou uma mulher pelas partes, nem atacou o sistema democrático assente na clara separação de poderes. OK, queimou a pele de crianças vietnamitas em parceria com o seu primo Napalm. Mas este outro agente laranja tem no seu domínio algo bem mais incendiário do que uma conta de twitter: tem o maior exército que o Homem já viu, assim como um arsenal nuclear capaz de mandar pelos ares o planeta. É a perfeita ironia a cuspir na cara de milénios de evolução do conhecimento. Confesso, das profundezas do meu negro e niilista coração, que a perspectiva de aniquilação via queijo cheddar com pulso faz-me sorrir, como só um gato consegue. Pu Yi

THE SMITHS – ST

O primeiro disco, homónimo, dos The Smiths foi uma pedrada no charco do pop rock da primeira metade dos anos 1980. A guitarra melódica e técnica de Johnny Marr, aliada ao dramatismo humorado das letras de Morrissey acrescentaram pop à cena post-punk de Manchester. Com um imaginário que trouxe para o pop rock o lirismo romântico de Oscar Wilde, os The Smiths começaram com estrondo, levando a crítica mais mainstream a questionar-se se estaria na presença dos novos Beatles. Singles como “What Difference Does it Make” e “This Charming Man” depressa os catapultaram para a notoriedade além-Manchester, tornando-os num fenómeno mundial. João Luz

Com: Ryan Gosling, Emma Stone 19.30, 22.00 SALA 3

THE LEGO®BATMAN MOVIE [A] FALADO EM CANTONÊS Filme de: Chris Mckay 14.30, 16.30, 19.30

52HZ, I LOVE YOU [B] FALADO EM MANDARIN Filme de: Wei Te-Sheng

LA LA LAND [B]

Com: Van fan, Chie Tanaka, Min-Hsiung

Filme de: Damien Chazelle

21.30

www. hojemacau. com.mo

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores Isabel Castro; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; Sofia Mota Colaboradores António Cabrita; António Falcão; António Graça de Abreu; Gonçalo Lobo Pinheiro; José Drummond; José Simões Morais; Julie O’Yang; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Paulo José Miranda; Rui Cascais; Rui Filipe Torres; Sérgio Fonseca Colunistas António Conceição Júnior; André Ritchie; David Chan; Fernando Eloy; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Rui Flores; Tânia dos Santos Cartoonista Steph Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


17 hoje macau sexta-feira 10.2.2017

OPINIÃO

contramão

ISABEL CASTRO

Os desterrados

CHARLIE CHAPLIN, MODERN TIMES (1936)

isabelcorreiadecastro@gmail.com

H

OUVE um tempo, há suficiente tempo para ser um passado distante, que a Taipa ficava lá longe. As famílias iam de barco até ao outro lado do rio, em passeios de fim-de-semana que se assemelhavam a excursões ao campo, o verde campo. A Taipa era ali um mundo à parte, uma aldeola. Macau era o centro deste mundo. Quem se portava mal, muito mal, ia para o desterro. O desterro era Coloane, essa ilha onde ainda era mais difícil chegar. Não havia istmo, nem casinos, nem Cotai, nem strip, e Las Vegas também não. Coloane era o destino dos leprosos que ninguém queria ver e dos larápios, dos funcionários públicos que se queria despromover por se terem portado menos bem. Coloane era quase o fim deste mundo. As coisas entretanto mudaram. Os larápios e os malcomportados nem imaginam a sorte que tiveram por puderem viver junto do verde, perto do mar. Apesar dos insectos e

de outra bicheza, é certo. O metro quadrado é agora muito mais caro na quase ex-ilha, quase ex-verde. Há autocarros com turistas que entopem o trânsito da vila. Também a Taipa sofreu alterações com a construção da ponte que tem o nome de um antigo governador. Modificou-se de tal maneira que já não se vai de barco, de aldeia não tem nada, fizeram-se mais duas travessias e pensa-se agora numa quarta. Há prédios como cogumelos, obras como polvos, cheias de tentáculos, e o metro quadrado é mais caro do que na península, sobretudo se for a olhar para ela. As ilhas deixaram de ser o fim do mundo, apesar de Macau continuar a ser o centro, até porque é na península que está o poder. O território cresceu, as pessoas acomodaram-se no buraco disponível, sem terem especial consideração pela centralidade. Macau, o território, esticou e ganhou novas características demográficas. Parece, porém, que o passado distante das ilhas continua presente na cabeça de alguns. Esta semana, as autoridades policiais decidiram desviar para a Taipa o trajecto de uma marcha lenta de veículos que estava programada para Macau. A ideia do protesto deste sábado era chegar perto da representação do poder – a sede do Governo e a casa da Assembleia Legislativa –, e

Tiveram sorte os organizadores. Uma marcha lenta em Coloane e ninguém dava por ela – corria-se o sério risco de ser confundida com um casamento não da piscina olímpica ou do estádio do território. Assim sendo, os organizadores da manifestação sobre rodas decidiram cancelar o evento. É curiosa a proposta de percurso feita pela polícia. A um sábado, dia em que não se trabalha, há que entupir a Taipa e não Macau. Os menos bem-comportados que fiquem pelas ilhas que aqui, na cidade, não queremos disso. Nem sequer tem grande importância haver obras em literalmente todas as ruas da Taipa, o que não sucede no percurso proposto pela organização. O que interessa mesmo é libertar as ruas da península de gente que pode ser um perigo à imagem de Macau, cidade harmoniosa

sempre muito preocupada com quem a visita. E um bocadinho a marimbar-se para quem vive nela. Tiveram sorte os organizadores. Uma marcha lenta em Coloane e ninguém dava por ela – corria-se o sério risco de ser confundida com um casamento. O campus universitário na Ilha da Montanha também seria uma boa alternativa: sem vivalma naquelas avenidas e jardins, ninguém dava por ela e não se corria o sério risco de ser confundida com coisa alguma. O Governo de Macau tem, em termos gerais, sérias dificuldades em lidar com a dissonância. Quer-se longe quem discorda. As manifestações são uma coisa muito desagradável, uma chatice, as pessoas andam aí pela rua a gritarem contra quem decide. O que é bom é o sossego. Por isso é que também se bate com a porta no nariz dos vizinhos de Hong Kong que têm outras ideias, não venham eles doutrinar o povo de cá, com panfletos e livros lá de outros sítios do mundo, muito distantes. Não, a Taipa já não é o desterro, as notícias não chegam por telegrama com vários dias de atraso, o mundo mudou e o modo como se lida com a contestação também. Quanto mais se deixa engrossar o coro do protesto, pior. Há que abraçar a discordância. Em nome da harmonia e coisa e tal.


18 OPINIÃO

hoje macau sexta-feira 10.2.2017

a canhota

FA SEONG 花想

DAVID FRANKEL, THE DEVIL WEARS PRADA

Mulheres no topo, mas também em baixo

H

OJE em dia há muitos casos reais e evidências que mostram que as mulheres têm mais habilitações do que os homens, sobretudo no mercado de trabalho. Muitas delas têm qualificações académicas mais altas, ocupando um maior número de cargos de destaque na carreira. Outras têm salários mais elevados em relação aos seus maridos, enquanto que muitas continuam a acreditar que ser mãe e dona de casa é um papel importante. As razões são variadas. Pelo que observo, em Macau, nas escolas as meninas parecem ter mais vontade de estudar, são mais pacientes e concentradas na aprendizagem, enquanto que os rapazes tendem a ser mais activos e movimentados. Isto corresponde à ideia tradicional de comportamento muito presente na sociedade chinesa, que predomina ainda nas gerações dos avós e pais – as meninas são consideradas mais obedientes, enquanto os rapazes devem ser mais brincalhões. Claro que haverá excepções.

Sinto-me orgulhosa em ver que, nos dia de hoje, as mulheres ocupam cada vez mais lugares importantes na sociedade, lugares iguais aos que são ocupados pelos homens, ou mesmo superiores. Por outro lado, sinto-me triste quando o lado mais comum abordado na desigualdade de géneros persiste O que acabei de escrever pode muito bem ser um exemplo das conclusões de 2015 do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA, sigla em inglês), onde participaram mais de 4400 estudantes do ensino

secundário de Macau, nascidos após o ano de 1999. A avaliação mostra que tanto na literacia em ciência, como na matemática e leitura, as notas das alunas sempre são melhores do que as dos alunos. Os investigadores apontaram que embora essa disparidade de género tenha tido uma melhoria comparando com os anos anteriores, a realidade é que os desempenhos das raparigas ultrapassam quase sempre os dos rapazes. Este fenómeno é interessante. Desde que me lembro, falar da desigualdade de género remete para a questão das mulheres serem consideradas mais baixas, mais fracas em relação aos homens, mas a realidade pode ser bem diferente. As mulheres podem ser muito mais capazes. Sendo do sexo feminino, sinto-me orgulhosa de ver que, nos dia de hoje, as mulheres ocupam cada vez mais lugares importantes na sociedade, lugares iguais aos que são ocupados pelos homens, ou mesmo superiores. Por outro lado, sinto-me triste quando o lado mais comum abordado na desigualdade de géneros persiste, sobretudo nos casos em que os homens tratam as mulheres como se pertencessem a uma classe inferior. Não as tratam sequer como pessoas, ameaçam-nas, agridem, maltratam. A implementação da lei da violência doméstica em Macau fez-nos perceber a existência destes casos pouco humanos e de maus comportamentos dos homens em relação às mulheres. A lei entrou em vigor há poucos meses, mas já foram noticiados sete casos onde as vítimas eram agredidas há vários anos. Na maioria das vezes as vítimas são imigrantes do interior da China que conseguiram ficar a viver em Macau por casarem com um homem portador do BIR. Numa situação como esta as mulheres pensam que a sua vida depende do marido, devendo ser obedientes, mesmo que esteja em causa um sofrimento constante. O surgimento de casos de violência doméstica noticiados nos meios de comunicação social mostra, por outro lado, a coragem que as mulheres conseguiram ter para denunciar as situações de que eram vítimas. Tanto em lugares mais altos como mais baixos, continua a existir homens que descriminam e não compreendem, que consideram que as mulheres não devem ganhar mais dinheiro do que eles, que devem ficar em casa a tratar dos filhos. É crítico o facto de muitos homens continuarem a acreditar em conceitos tradicionais.


19 PERFIL

RYOMA OCHIAI

hoje macau sexta-feira 10.2.2017

RYOMA OCHIAI, TERAPEUTA E DJ

O japonês suave

S

E existem pessoas que personificam aquilo a que se chama de “boa onda”, Ryoma Ochiai é, definitivamente, uma delas. Ar descontraído, sorriso sempre pronto a desatar em gargalhada, tudo atributos que já se podem ver no seu pequeno filho, Gil. Vive em Macau há quase seis anos. “Cheguei em Março de 2011 para ver como era o panorama dos cafés na cidade, vim apalpar terreno, conhecer esta área”, conta. Chegou com um amigo que lhe pediu ajuda para abrir um café na cidade. Tudo começou assim, por acaso, com a leveza que o caracteriza. A sua natureza de ávido viajante foi a porta de entrada na região, esta abertura de espírito valeu-lhe o convite profissional. Tinha andado um pouco por toda a Ásia, no seu estilo, mochileiro, calcorreando a Índia e a Tailândia, por exemplo. Mas Macau sempre lhe escapou no itinerário. Em criança, Ryoma tinha visitado Hong Kong com os pais, mas nunca tinha passado para este lado que, na sua opinião, “é totalmente oposto”. Quando veio foi para ficar. “Apesar de não saber chinês, gosto muito da cultura, mas não sabia absolutamente

nada de Macau, não li, não pesquisei antes de cá chegar”, confessa o massagista. A chegada ao território fascinou-o mas também o deixou chocado. Toda a azáfama, a profusão de culturas, os excessos dos casinos. Principalmente a sensação de que os sítios mais tradicionais nunca são total e exclusivamente portugueses, ou chineses. Na sua opinião, aqui vive-se “uma mistura de culturas muito interessante”.

PARTILHAR FELICIDADE

Uma das primeiras coisas que espicaçou os sentidos do japonês foi a comida. Apesar de gostar de tudo o que é gastronomia chinesa, e de em Macau esta ser um pouco diferente, já a conhecia. Mas a comida portuguesa era uma novidade. “É muito boa, e como vocês têm muitos pratos com arroz, para mim, enquanto japonês, é óptimo”, diz, com uma gargalhada sonora. Quando veio para Macau, apesar de concentrado na abertura do café, fez alguns amigos DJs, da forma simples como as pessoas com interesses em comum se conhecem e juntam. Então, um dia, surgiu

a oportunidade de organizar uma festa num local que já não existe: o Clube Lotus, no Hotel Venetian. “Foi muito bom, apareceu muita gente e a festa contou com muitos convidados e DJs internacionais.” Nesta altura, a cidade era uma novidade para Ryoma. “Quando vim para cá tudo era novo, tudo era divertido, sempre a fazer novos amigos, a conhecer lugares novos, comida nova, era como estar em viagem”, lembra. Até que a dimensão de Macau o apanhou, mas nunca de uma forma opressiva, até porque esta cidade é especial, “é como um pequeno país, até tem leis diferentes”. Em termos profissionais, Ryoma divide-se entre os pratos a passar música e as massagens que dá no Yoga Loft Macau. Enquanto estudava sociologia, Ryoma já fazia sets de DJ no Japão, ao mesmo tempo que trabalhava como recepcionista num centro de massagens tailandesas. As duas actividades continuaram ao longo da vida, assim como a intensa ligação à natureza e o prazer em viajar. Tudo se conjugou. Antes de se fazer à estrada pensou no que poderia fazer, em termos de trabalho, para

arranjar dinheiro e esticar a viagem. Então, fez-se luz. Massagens! A resposta estava ao seu alcance. Aprendeu a massajar e foi mundo fora. “As massagens são boas porque, mesmo que não entenda a língua, posso sempre olhar para o corpo e ver o que se passa, tirar alguma lógica”, explica. Voltando à vida de Macau, Ryoma sente que, como esta é uma cidade onde se pode fazer dinheiro, acaba por atrair pessoas que olham para o cifrão como a sua primeira prioridade de vida. Este não é o seu desígnio, “esteja no Japão, na Índia, ou aqui”. Claro que tem de fazer dinheiro para se sustentar, mas o seu objectivo “é tornar a vida excitante e partilhar com os outros”. Daí o prazer que sente em organizar festas, ou a fazer massagens. Seja à mesa, ou num clube de dança, o japonês quer partilhar algo fascinante, e tornar as pessoas em seu redor um pouquinho mais felizes. João Luz

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Também em Macau o frio mata mosquitos! Atlântido

sexta-feira 10.2.2017

Coreia do Sul MAIS DE 400 ARTISTAS PROCESSAM PRESIDENTE DEVIDO A LISTA NEGRA

Contra-ataque criativo

M

AIS de 400 artistas intentaram ontem uma acção contra a Presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, e outros membros do Governo, devido à alegada lista negra de figuras da cultura críticas do executivo. Um total de 461 artistas intentaram a acção junto de um tribunal do distrito central de Seul, por via da qual exigem que o Governo, Park, o seu ex-conselheiro Kim Ki-choon e o ex-ministro de Cultura, Choo Yoon-sun, compensem cada demandante com um milhão de won (815 euros) pelos prejuízos causados. Apesar de a referida lista ainda não ter sido revelada publicamente, os meios de comunicação social e artistas sul-coreanos falam há meses da criação desta lista para que as quase 9.500 pessoas do mundo das artes consideradas críticas da administração incluídas na mesma não recebessem subvenções públicas. Entre os nomes figuram actores e realizadores de cinema de prestígio internacional, como Song Kang-ho, Park Chan-wook, Kim Ki-duk, Lee Chang-dong, Lee Woo-jin ou Ryoo Seung-wan, ou escritores de peso como ou escritores como Han Kang, vencedora do Man Booker International Prize 2016 com o romance “A Vegetariana”. “A lista negra vulnerou os direitos pessoais dos artistas, assim como a sua liberdade de expressão e o seu direito a proteger a pri-

INDONÉSIA PELO MENOS SEIS MORTOS EM NAUFRÁGIO

Pelo menos seis pessoas morreram e sete continuam desaparecidas depois de um barco ter naufragado na costa de Kalimantan, no norte da parte indonésia da ilha de Bornéu, informaram ontem os ‘media’ locais. Um porta-voz dos serviços de emergência assinalou que um barco de pescadores resgatou, na noite de ontem, com vida, um casal de indonésios, segundo escreve o diário The Star. Os sobreviventes, que seguiam a bordo com outras 13 pessoas, alertaram que a embarcação naufragou na terça-feira depois de zarpar ilegalmente da cidade de Tawau, na província malaia de Sabah, com destino à Indonésia. Membros da equipa indonésia de busca e resgate encontraram ontem seis corpos sem vida perto da parte indonésia de Nunukan. As autoridades de ambos os países continuam as operações de busca por outros sete passageiros que continuam desaparecidos.

vacidade”, afirmou a associação Defensores de uma Sociedade Democrática, que representa os demandantes, num comunicado citado pela agência noticiosa sul-coreana Yonhap. Kim e Cho já foram acusados formalmente, na terça-feira, a par com outros sete ex-funcionários, de abuso de poder e coacção por supostamente criarem e administrarem esta lista negra, enquanto a Presidente da Coreia do Sul se salvaguardou na sua imunidade para não prestar declarações até ao momento junto do Ministério Público.

RICO ESQUEMA

Segundo a acusação, esta lista seria mais um instrumento ao serviço do esquema de extorsões alegadamente orquestrado por Choi Soon-sil, a figura central do escândalo de corrupção e tráfico de influências, apelidada de “Rasputina” pela sua relação próxima com a Presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye. Choi, de 60 anos, está acusada, entre outros, de tirar proveito da sua amizade de longa data com Park para interferir em assuntos de Estado apesar de não desempenhar qualquer cargo público; e de articular um esquema para extorquir, alegadamente com a conivência de Park, empresas de modo a que fizessem elevadas doações a fundações que controlaria em troca de favores. O escândalo, um dos piores da história da Coreia do Sul, tem desencadeado enormes protestos populares.

Park Geun-hye

“A lista negra vulnerou os direitos pessoais dos artistas, assim como a sua liberdade de expressão e o seu direito a proteger a privacidade.” ASSOCIAÇÃO DOS DEFENSORES DE UMA SOCIEDADE DEMOCRÁTICA

O parlamento, controlado pela oposição, aprovou a destituição da Presidente a 9 de Dezembro por causa deste caso, um dos maiores escândalos políticos da história recente da Coreia do Sul, uma decisão que terá de ser ratificada pelo Tribunal Constitucional para ser definitiva. O tribunal tem até Junho para decidir se Park tem de abdicar permanentemente ou pode voltar a assumir o cargo. Os seus poderes presidenciais estão suspensos, com o primeiro-ministro a liderar o Governo.

COREIA DO NORTE PODERÁ TER ATÉ 45 BOMBAS NUCLEARES EM 2020

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M especialista estimou ontem que a Coreia do Norte poderá ter até 45 bombas nucleares em 2020 atendendo ao aumento previsto das suas reservas de urânio e plutónico e ao seu ritmo, cada vez mais acelerado, de desenvolvimento de armas. A Coreia do Norte poderá possuir actualmente cerca de 280 quilogramas

de urânio altamente enriquecido, afirmou ontem, durante um fórum em Seul, Lee Sang-hyun, vice-presidente do Instituto Sejong, um ‘think-tank’ privado que figura entre os mais influentes do país, “Dada a quantidade de material nas mãos da Coreia do Norte, o país poderá ter entre 22 e 45 armas nucleares”, observou o es-

pecialista em declarações reproduzidas pela agência noticiosa sul-coreana Yonhap, a propósito das suas projecções para os próximos três anos. Lee baseia a sua projecção na crença de que Pyongyang, que reactivou em 2013 o centro nuclear de Yongbyon, e aparentemente aumentou a sua produção de material para

bombas, poderia elevar a sua capacidade de reprocessar plutónio a um ritmo de seis quilogramas anuais e ampliar as suas reservas de urânio em 80 quilogramas ao ano. Lee apontou que o regime de Kim Jong-un terá utilizado urânio enriquecido para o seu mais recente teste nuclear, em Setembro, e que estas melhorias

tecnológicas fazem pensar que se aproxima cada vez mais do desenvolvimento de armas nucleares passíveis de serem colocadas em mísseis balísticos. Além do ensaio nuclear de Setembro, a Coreia do Norte realizou outro oito meses antes, os quais se juntaram aos levados a cabo em 2006, 2009 e 2013.

MUNDIAL DE 2026 UEFA VAI PEDIR À FIFA DEZASSEIS VAGAS

O presidente da UEFA, o esloveno Aleksander Ceferin, anunciou ontem que vai pedir à FIFA que a Europa tenha direito, pelo menos, a 16 lugares no Campeonato do Mundo de futebol de 2026, alargado a 48 participantes. No Mundial2014, realizado no Brasil, ganho pela Alemanha, participaram 32 selecções, 13 das quais apuradas directamente pela fase de qualificação realizada sobe a égide da UEFA. “Acho realista pedir 16 vagas”, considerou Aleksander Ceferin, acrescentando que pretende ainda que a FIFA crie condições para integrar cada uma das selecções europeias em grupos diferentes. A FIFA decidiu em Janeiro acrescentar 16 participantes ao Mundial2026, elevando de 32 para 48, em que duas equipas avançarão para a fase a eliminar, e que é antecedida da de grupos a três selecções. O novo figurino competitivo, bem como as quotas continentais para o Mundial2026, deverá ser discutido e aprovado no decorrer de várias reuniões que a FIFA irá promover em Maio, no Bahrain.

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Hoje Macau 10 FEV 2016 #3750  

N.º 3750 de 10 de FEV de 2016

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N.º 3750 de 10 de FEV de 2016

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