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S E G U N DA - F E I R A 1 0 D E F E V E R E I R O D E 2 0 1 4 • A N O X I I I • N º 3 0 2 6

hojemacau

GONÇALO LOBO PINHEIRO

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

HOSPEDARIA SAN VA Espionagem, refúgio e outras tantas histórias

PÁGINAS 2 E 3

GOVERNO FISCALIZA SERVIÇO

Não aquece, nem arrefece PÁGINA 5 PUB

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CAMPEÃO MONTE CARLO PERDE

Sporting começa com o pé bem direito LIGA DE ELITE PÁGINA

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AGÊNCIA COMERCIAL PICO • 28721006

A lei existente em Macau no que ao Erro Médico diz respeito é mais que suficiente. A ideia é defendida pela Associação dos Médicos de Língua Portuguesa que entregou um parecer jurídico na AL mostrando-se contra a criação de um regime independente ou de uma comissão de perícia nomeada pelo Governo.

TÁXIS AMARELOS PÁGINA

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ERRO MÉDICO Médicos de língua portuguesa contra novo regime jurídico

Deputados contra renovação do contrato


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REPORTAGEM

hoje macau segunda-feira 10.2.2014

HOSPEDARIA FUNCIONA HÁ CERCA DE 80 ANOS NA RUA DA FELICIDADE

Anna e Peter Yip pertencem à quinta geração dos antepassados que, em 1873, construíram a hospedaria San Va, considerado o hotel mais antigo de Macau. Clube nocturno antes dos anos 30, lugar de refugiados e espiões nas décadas seguintes, San Va é hoje um hotel de baixo custo com problemas de propriedade ANDREIA SOFIA SILVA

andreia.silva@hojemacau.com.mo

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ARA contar a história da hospedaria San Va, teremos de deixar a Macau dos turistas e do jogo desenfreado. Recuando 80 anos para trás, estamos num pequeno território que é palco de estórias emaranhadas e vidas vividas na clandestinidade e na fuga. Tanto de ricos, como de pobres. Comecemos. Estamos em 1873 e todo o edifício que hoje alberga a hospedaria San Va, na Rua da Felicidade, é construído pelo patriarca da família Chau, à época uma das mais importantes de Macau. Mas o inicio desta história não se traça com hóspedes comuns. “Isto funcionava primeiro como um clube privado. E esse clube foi marcante, porque havia na altura muitos poucos edifícios com um terceiro piso. Este lugar ficava mesmo do lado oposto da China e podíamos ter uma boa vista do que acontecia do outro lado. Antes do meu bisavô paterno transformar o clube numa hospedaria, havia quartos secretos lá em baixo que serviam para detenção e discussão. Eram interrogados todos os que eram considerados inimigos ou espiões”, conta ao HM Peter Yip. Peter, juntamente com a irmã Anna, fazem parte da quinta geração das famílias Chau, do lado paterno, e Wong, do lado materno. À época integrantes da elite da sociedade macaense, acabaram por colaborar entre si, pois era um circulo “muito pequeno”. É num quarto de San Va, com janelas abertas para o restaurante Fat Siu Lau, que os dois irmãos relatam ao HM episódios que remontam a finais do século XIX e inícios do século XX. “Ao longo dos tempos tivemos clubes privados, missões secretas, espionagem e negócio de alojamento.”

O período de que Peter Yip fala coincide com a altura em que a China atravessa uma longa fase de conflitos, nomeadamente entre 1911, quando a Revolução de Xinhai acaba com a Dinastia Qing, e até 1949, quando chineses e os membros do Kuomitang, de Chang Kai-shek, lutavam numa guerra civil. Em 1949 tudo acabaria graças a Mao Tsé-Tung e à criação da República Popular da China (RPC). Macau, lugar neutro e português, foi a opção para muitos homens e famílias inteiras que queriam fugir à instabilidade. A hospedaria, ali junto à fronteira, foi a sua casa. “Havia muitos problemas na China, especialmente com soldados e oficiais ligados aos Kuomitang que ainda queriam lutar, ainda que Chiang Kai-shek já estivesse em Taiwan. Muitos desses homens mudaram as roupas, tornaram-se civis e vieram para Macau com objectivos de espionagem. E muitos escolheram esta hospedaria para viver. Trouxeram tudo o que tinham, dinheiro e ouro.” “O nosso bisavô (da família Chau) era um homem de negócios bem sucedido e tinha uma visão de futuro. Por isso é que transformou este espaço numa hospedaria para fazer dinheiro com estas pessoas. Nessa altura os clientes eram refugiados mas eram refugiados endinheirados, e todas as famílias viviam aqui”, conta Anna Yip. “Há poucas informações sobre o meu bisavô paterno. Mas temos boas razões para dizer que estava ligado com os Kuomitang”, afirma Peter. A espionagem terá durado até à década de 40. “Muitos espiões comunistas e dos Kuomitang estavam activos em Macau e Hong Kong. Durante a Grande Guerra, e mais tarde, mudaram-se para cá.” Tal invasão terá durado até meados da década de 60, quando Mao começou a sua Revolução Cultural, pois Macau “era um lugar calmo e seguro”.

GONÇALO LOBO PINHEIRO

Espionagem e refúgio: a história de San Va

Foi nessa altura que a fuga dos ricos deste território começou. “Queriam fugir porque tinham medo de ser influenciados e que comunistas, Kuomitang, ou ainda oficiais ligados à Dinastia Qing invadissem Macau. Se estivessem envolvidos na política, ou com posições importantes, poderiam ser mortos ou perder a sua riqueza e estatuto.”

A DÉCADA DOS HÓSPEDES POBRES

Estamos em meados da década de 50 e a China parece ter recuperado dos conflitos armados. Mas rebenta a Guerra da Coreia e a RPC decide apoiar a Coreia do Norte, ao lado da URSS. Macau volta a ser um porto de abrigo e a hospedaria San Va teve de se adaptar a uma nova vaga de hóspedes. “Nessa altura mais refugiados vieram, mas estavam numa situação pior. Ficámos com quartos mais pequenos. Tivemos de os dividir para receber mais pessoas, e eles viviam aqui. A clientela era composta por indivíduos que tinham perdido as suas famílias e que não tinham muito dinheiro para arrendar uma casa. Então o meu avô queria responder às necessidades destas pessoas. Foi aí que a hospedaria ficou como é hoje.” A China passa grande parte

da década de 60 e 70 a dar o seu Grande Salto em Frente. Quando Mao Tse-Tung morre, em 1976, dá-se o salto económico. A hospedaria começou a ser frequentada por homens de negócios.

A CHEGADA DOS PRIMEIROS TURISTAS

As reformas de Deng Xiaoping na China trazem os seus frutos e, nas décadas de 80 e 90, a economia do continente cresce como nunca. Os tempos mudam e a história da hospedaria já não se faz apenas com os homens de negócios e os seus momentos de lazer. “A China abriu-se politicamente e economicamente, e mais pessoas vieram. Depois dos anos 90 a maioria dos hóspedes eram pessoas que iam explorar e visitar a China. Mais tarde, depois dos anos 2000, começaram as marcações online, surgiram mais turistas.” Nos dias que correm, a hospedaria San Va tem em média 80% de taxa de ocupação. Os quartos mantém o traçado original desde 1980 e, se olharmos para cima, vemos um tecto trabalhado em madeira escura. Os quartos não têm ar condicionado e a mobília é a mesma desde há muito tempo: Anna e Peter não querem deitar fora o que é antigo, ao contrário

dos seus avós. “Temos mobílias únicas que mostram a época em que foram feitas. As camas eram de madeira, muito ao estilo dos anos 60. Mas agora não podemos ter estas camas, porque são duras e assim ninguém virá. Temos de nos adaptar às necessidades dos nossos clientes.” Quem opta por dormir neste hotel sabe que vai pagar um preço que não vai além das 500 patacas por noite, com partilha de chuveiro e casa de banho. Mas se o faz é por saber que ali vai encontrar cultura em estado puro. “50 a 60% dos nossos hóspedes vêm do continente e outros são de todo o mundo. Não tiramos grandes benefícios do tipo de turistas que vêm jogar e fazer compras, porque esses querem ficar em hotéis, de cinco estrelas ou mais baratos.” “Somos procurados por quem adora cultura e sabe o que é”, resume Anna. “Por quem gosta de passar uma ou duas noites a vivenciar a experiência de estar numa casa centenária. (Estes hóspedes) sabem o que esperar. São, na sua maioria, estudantes universitários, jovens que são mais abertos em termos de mentalidade. Quando chegam já conhecem a história de Macau. Também recebemos muitos académicos que querem experien-


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ainda perdura

ciar a cultura e a história. Outro grupo de pessoas que recebemos são aqueles que estão ligados a indústrias culturais e ao mundo da comunicação, da indústria do cinema, estas pessoas querem ter inspiração.”

MANTER O HOTEL PARA LÁ DOS TEMPOS

Numa altura em que o Governo se prepara para renovar as fachadas da Rua da Felicidade, os donos de um dos hotéis mais antigos de Macau querem manter o negócio, doa a quem doer. “Somos a quinta geração neste hotel, então dentro de nós sentimos que temos de manter este hotel vivo até ao fim do mundo. Esta hospedaria tem estado em funcionamento nos últimos 80 anos e não é fácil manter um negócio como este durante tanto tempo. Sabemos que o Governo tem planos para preservar a rua. Penso que estão a agir na direcção certa e estamos a fazer o que podemos para os ajudar a levar o projecto a cabo.” Anna Yip leva-nos a mostrar cada recanto de uma espaço histórico feito de cor verde. Explica, orgulhosa, o curioso abrir de janelas pregadas no tecto, cujas cordas se prendem cá em baixo e por onde o sol entra timidamente por entre os vidros. A hospedaria é hoje mantida por três a sete

funcionários, sendo o senhor Kim o responsável por eles, uma vez que Peter e Anna residem a maior parte do tempo em Hong Kong. Ali o realizador Wong Kar-Wai já filmou duas vezes. Fizeram-se outras curtas-metragens. Ao fundo de um corredor a luz entra por uma janela onde seca alguma roupa. O aviso de perigo lembra-nos que antes existia ali um terraço para os hóspedes descansarem da fugacidade dos dias. Desde o incêndio, ocorrido em 2006, que naquele lugar só existem cinzas. Dois anos depois foram descobertas uma arma e uma granada num dos quartos. A polícia apareceu, o caso fez manchete nos jornais.Anna Yip não tem problemas em afirmar que ambas as situações terão sido provocadas pela Chap Seng Tong [ver texto secundário]. Como se quisessem matar algo que não quer morrer. “Desde que houve o incêndio aconteceram muitas coisas e os problemas tornaram-se mais sérios.” Mas Anna não quer desistir. Para aquele terraço que já morreu tem pensada uma espécie de galeria de arte para dinamizar a cultura chinesa, um espaço para académicos virem falar do que fazem. Sente que tem essa responsabilidade. É sinal que a benevolência dos seus avós e bisavós ainda perdura nela e no seu irmão.

PROCESSO LITIGIOSO COMEÇOU HÁ MAIS DE UM ANO

Disputa de propriedade U MA reportagem recente sobre os problemas existentes na Rua da Felicidade, publicada no HM, dava conta de que a maioria dos seus edifícios pertencem à Associação Chap Seng Tong, conforme disse uma representante da Associação de Moradores (Kai Fong). Mas Peter Yip refuta esta versão dos acontecimentos. “São palavras deles, e eu diria que não são legítimas”, diz ao HM. “A Chap Seng Tong foi criada originalmente pelos meus antepassados, por Wong Luk (tetravô do lado materno). Mas a versão actual é a Chap Seng Tong Companhia Limitada, e uma associação registada (em Boletim Oficial). Mas são muito diferentes. Legalmente não têm uma ligação.” Há mais de um ano que Peter e Anna decidiram avançar para tribunal para provar que a hospedaria e algumas lojas situadas nos andares de baixo são suas e não da Chap Seng Tong. Esta tem vindo a receber as rendas dos comerciantes. Os dois irmãos falam ao HM de situações de usurpação e mudança de documentos, e dizem que as entidades que hoje existem têm o nome, mas nada têm a ver com o objectivo inicial para as quais foram criadas: a gestão do património familiar. Com ligação à associação e empresa existe uma rede de pessoas, num total de 43, que terão de responder perante o processo. Uma delas é a deputada, directora executiva da Sociedade de Jogos de Macau (SJM) e quarta mulher de Stanley Ho, Angela Leong. “A quarta mulher de Stanley Ho está a fazer isso. Não sei qual a empresa envolvida, mas será mais do que uma. Estão a usar vários nomes para inquirir as pessoas nesta rua. Vemos que aqui há muitas lojas vazias, e não abrem porque a quarta mulher de Stanley Ho já usou as suas maneiras de ter os prédios e as lojas. Ela tem de esperar.” Anna Yip não tem dúvidas de que se Angela Leong “conseguir esta área grande, será mais fácil reunir os espaços mais pequenos, porque esta esquina é estratégica e está sempre cheia de pessoas. Ela não sabe quando, mas vai esperar pelo tempo certo. Depois vai construir e fazer o que quer,

talvez construir outro casino, quem sabe?”

PAPÉIS MUDADOS

O problema de propriedade da hospedaria San Va remonta a meados do século XX, quando Wong Luk, tetravô materno de Anna e Peter, criou a Chap Seng Tong para gerir o património da família. O jogo começava a abundar em Macau e, apesar de afirmarem que a família nunca tirou vantagens directas disso, tal resultou num aumento de hóspedes, riqueza e património. “Após vários anos filhos e netos mudaram as regras”. Num local onde a demarcação do terreno nunca foi clara, desde o século XIX, surgiram os primeiros sinais de corrupção na década de 50, altura em que muitas famílias ricas vendiam o seu património e tentavam sair de Macau, devido à instabilidade politica e social. “Wong Luk criou a versão original da Chap Seng Tong. Depois a sua família estava a fugir, ele morreu, e também o seu filho, e devido aos acontecimentos sociais, muitas pessoas tiraram vantagens dos problemas do sistema. Usaram a corrupção, mudaram os documentos e usurparam propriedades”, afirma Peter. Durante o processo das primeiras licenças de jogo, em meados da mesma década, membros do Partido Comunista Chinês (PCC) terão vindo a Macau dialogar sobre o processo das licenças de jogo, onde terá estado envolvido Stanley Ho.A Sociedade de Turismo e Diversões de Macau (STDM) ganharia o monopólio do jogo em 1962. Peter diz que a família Ho relacionava-se com os seus antepassados. “Outras grandes famílias colaboraram com a família Wong e continuaram uma nova versão da Chap Seng Tong. Mas esta nova versão era totalmente distinta.” O HM questionou a STDM sobre eventuais propriedades na Rua da Felicidade, mas até ao fecho desta reportagem não obtivemos qualquer resposta. “Mudaram os papéis e puseram lá os seus nomes nos documentos oficiais, e tornaram-se os donos. Este é um caso especial que envolve uma associação, que não

está legitimamente autorizada, e que por si própria começou a afirmar-se a dona dos espaços e começou a receber as rendas. Usurpou espaços e assinou contratos. Esta tornou-se um veiculo ilegal e impôs novas regras.” De acordo com Peter Yip, tanto a associação como a empresa não tinham qualquer registo até 2002. Mas já antes da confusão dos registos houve um “erro de família”: o edifício da hospedaria foi uma prenda de casamento entre as famílias Wong e Chau, mas não houve documentos nem registos oficiais.

CASAS DE MÃO DE MÃO

Anna Yip fala de casos específicos de lojas sobre as quais recebiam rendas acordadas com os seus avós. Os negócios mudaram sem aviso e não reconhecem os arrendatários. Deixaram de receber o dinheiro. “As casas têm vindo a mudar de mãos muitas vezes. Por exemplo, o meu avô arrendou uma loja há cerca de 50 anos, a um senhor, o arrendatário original. Mais tarde morreu e foi a mulher que continuou a pagar a renda. Mais tarde o filho e o neto continuaram a pagar, mas já não é um café como era, mas sim uma loja de lembranças. Não sabemos quem são estas pessoas. O neto está a subarrendar, e claro que não podem fazer coisas destas sem a nossa aprovação. “Aqui arrenda-se a um preço baixo e depois subarrenda-se a outras pessoas a um valor mais alto. Nesta rua muitos espaços são subarrendados. Claro que não é legal, mas as pessoas fazem-no. Ninguém pergunta porquê ou diz que é preciso ir à polícia.” Anna Yip não cala a revolta. “Nós somos os verdadeiros donos destes espaços, mas de repente a Chap Seng Tong tornou-se a proprietária. Estas pessoas acreditam que é, sem documentos. Está na sua cabeça que a associação é a grande proprietária. Os seus representantes que falam com estas pessoas não são da associação, mas da empresa com o mesmo nome.” Os dois irmãos querem resolver o processo rapidamente para que se possa avançar com o restauro total da rua. “O Governo tem sido muito passivo e não pode intervir nas propriedades que não estão definidas como sendo públicas. Este caso é popular na Rua da Felicidade, porque o registo da maioria destas propriedades não está claro.” “Os problemas vão continuar a estar por aqui durante um longo tempo. Se este Governo não resolver os problemas, o próximo terá de o fazer. É a sua responsabilidade”, diz Anna Yip. – A.S.S


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POLÍTICA

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LIXO URBANO GOVERNO PODE CELEBRAR CONTRATO COM CSR, MAS URBASER MANTÉM-SE OPTIMISTA

Batalha perdida, guerra por terminar O TSI entende que a Administração pode assinar o contrato com a CSR para os serviços de limpeza urbana de Macau nos próximos dez anos. A providência cautelar interposta pela Urbaser, segunda classificada no concurso público, cai por terra. Mas o grupo ainda mantém esperança na “acção principal”, que pede a reavaliação das propostas para que venha a conseguir o “primeiro lugar”

RITA MARQUES RAMOS rita.ramos@hojemacau.com.mo

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Tribunal de Segunda Instância (TSI) legitimou a celebração do contrato de recolha de lixo e limpeza urbana entre o Governo e a Companhia de Sistema de Resíduos (CSR), vencedora do concurso público em Maio do ano passado. O acórdão do TSI, conhecido na sexta-feira, faz saber que não há razão para a suspensão do contrato pedida pela Companhia Urbaser S.A., empresa que ficou em segundo lugar no concurso. “A função conservatória inerente à suspensão carece de objecto e nenhuma utilidade pode ser trazida à requerente pela pretendida suspensão, assim sendo, não se deve suspender a eficácia do referido acto administrativo”, entendeu o TSI. A justificação é dada com o facto de a providência cautelar não ter um “conteúdo positivo”, ou seja, a suspensão do contrato não altera em nada a situação da empresa requerente. Neste caso, o processo judicial tem, na deliberação do TSI, um teor puramente “negativo” pois “deixa intocada a situação jurídica preexistente do requerente”. “A Administração adjudicou o contrato de serviço público à sociedade classificada em primeiro lugar, não se verificando neste caso a alteração

da situação jurídica da requerente que era classificada em segundo lugar no mesmo concurso. Nesta circunstância, a requerente não perdeu nada que tinha anteriormente com a prática do aludido acto administrativo, pelo que a adjudicação em causa era, em relação à requerente, um acto administrativo de conteúdo puramente negativo e sem vertente positiva.” Até ao momento, apenas tinha sido feita uma renovação provisória do contrato entre aAdministração e a CSR por um período de seis meses. Esta foi a solução encontrada pelo Executivo no final do ano passado, depois de o TSI - que se encontrava em mãos com um pedido de providência cautelar interposto pela Urbaser - ordenar a suspensão da assinatura do contrato em Setembro, contrariando a autorização dada pelo Chefe do Executivo dois meses antes.

A decisão não chega com surpresa à empresa portuguesa SUMA, que faz parte do grupo espanhol Urbaser, uma vez que já lhe tinha sido comunicado o acórdão do TSI em 19 de Dezembro. A empresa diz ao HM não estar sequer “preocupada” com esta decisão, uma vez que não invalida a “acção principal” em curso no TSI, que passa por uma reavaliação do concurso público, em que detectou “erros de avaliação que deram benefícios à CSR”.

VENCEDOR AINDA PODE SER DISCUTIDO

“O juiz entendeu que se pode assinar o contrato sem prejuízo da acção principal decorrer normalmente, por isso, o que pretendemos ainda é que esses vícios de avaliação sejam corrigidos”, explica

TURISMO KWAN TSUI HANG DEFENDE QUE MACAU TEM DE COLOCAR UM TRAVÃO

Como dominar o desenvolvimento? CECÍLIA LIN

cecilia.lin@hojemacau.com.mo

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deputada Kwan Tsui Hang disse, em declarações ao Jornal do Cidadão, de língua chinesa, que Macau não precisa de mais turistas, e acrescentou que haverá consequências más se vierem mais visitantes acima dos números que o território pode suportar. “Macau já não é a cidade ideal para viver ou viajar. Os residentes não conseguem viver bem, nem trabalhar com alegria. O Governo não consegue dominar o desenvolvimento do território e há falta de liderança e de uma política clara. A evolução da economia deve ser moderada e o Governo não deve apenas responder aos requisitos dos empresários e casinos. Macau

já não tem recursos nem condições para se expandir, mas vai acabar por sofrer se tiver mais turistas.” A deputada apontou ainda que durante a Semana Dourada do Ano Novo Chinês era muito difícil andar na rua. “Se em 2016 abrirem mais casinos no Cotai, deve haver mais turistas, e mais de cem mil trabalhadores não

LAU NGAI LEONG FALA DE VIA ESPECIAL EM ZHUHAI Durante a Semana Dourada do Ano Novo Lunar os residentes de Macau esperaram horas na fronteira de Gongbei, mas depois para mostrar o visto electrónico apenas necessitaram de dez minutos. Lau Ngai Leong, deputado por Macau à Assembleia Popular Nacional (APN), disse à TDM que as autoridades de Zhuhai consideram necessário separar as vias de residentes de Macau e de turistas na fronteira, pois assim pode-se facilitar o fluxo de pessoas que usam as vias automáticas e aqueles que necessitam de passar pelos canais normais.

residentes. Transportes, fronteiras, instalações sociais e rendas, todos os lados vão ter uma pressão maior. Acredito que os residentes vão sentir mais os efeitos negativos do desenvolvimento económico e as queixas vão subir.” Kwan Tsui Hang apontou ainda que os objectivos com o desenvolvimento económico é o de aumentar a qualidade de vida, mas que a situação presente é o contrário. “O Governo está sempre a evitar a questão da capacidade e suporte no sector do turismo. Claro que o sector e os empresários querem mais turistas, mas o Executivo precisa de entender as situações diferentes do grupos diferentes. Se o Governo ignorar as queixas dos cidadãos, qual é a utilidade de haver mais dinheiro?”

ao HM Nuno Kol de Carvalho, director de estudos e propostas da Suma, que se mostra optimista com o desfecho do processo judicial. “São erros tão grosseiros, que se o juiz entender que devem ser corrigidos, a comissão de avaliação terá novamente de refazer a apreciação das propostas não cometendo esses erros, e ao fazê-lo estamos convencidos que ficamos em primeiro lugar. Temos melhor preço, melhor experiência, uma proposta muito completa e bem feita e, portanto, não estamos a ver razão para não ganhar o concurso.” A empresa não específica os “vícios” em causa, mas lembra que sendo um serviço público tem um “impacto enorme na vida da população e dos trabalhadores” pelo que, neste caso, acreditam que haja “penalização do interesse público”. Para já, no entanto, a empresa sabe que o processo em tribunal está demorado e não vê calendário para uma decisão do TSI sobre esta matéria. A Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), departamento responsável pela celebração do contrato, emitiu um comunicado na sexta-feira apenas em língua chinesa, mas referiu ao HM que “ainda não há, para já, um calendário para a assinatura do acordo”.

Si Ka Lon diz que há casas económicas a serem alugadas

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deputado Si Ka Lon, número dois de Chan Meng Kam, disse à TDM que recebeu queixas de cidadãos que suspeitam que existem casas económicas a serem alugadas a terceiros. Proprietários no Edifício do Lago ter-se-ão queixado de suspeitas de arrendamento, bem como da existência de agências que apresentam estes imóveis para residentes do continente. Si Ka Lon diz que os cidadãos em questão lhe falaram da existência de rendas no valor de sete mil patacas, para uma casa com dois quartos. Outra casa, no Edifício da Tranquilidade, deverá estar a ser arrendada a cinco mil patacas mensais. O deputado considera que o Instituto da

Habitação (IH) tem o direito de monitorizar a situação, devendo criar um grupo de trabalho para acompanhar a questão. Entretanto o IH já reagiu a estas acusações e, à TDM, disse que desde a entrada em vigor da nova lei de habitação económica, não foram descobertas quaisquer violações face a arrendamentos de casas públicas. Mas apelam a que os cidadãos possam fazer queixas caso notem a existência de uma violação à lei. – C.L.


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JOANA FREITAS

joana.freitas@hojemacau.com.mo

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Associação dos Médicos de Língua Portuguesa de Macau (AMLPM) está contra a criação do Regime Jurídico de Tratamento de Litígios Decorrentes de Erro Médico. Isto, porque a associação acredita ser suficiente a lei existente em Macau e considera que ter um regime independente é desnecessário. “A lei não é necessária, nem introduz melhorias na prática clínica ou na prestação de cuidados de saúde, levando, pelo contrário, ao exercício da medicina defensiva”, pode ler-se no parecer feito pela AMLPM sobre o regime. O parecer, elaborado a pedido da Assembleia Legislativa – que votou a favor do regime, na generalidade, a 30 de Outubro do ano passado –, foi enviado às redacções pelo presidente Rui Furtado. Recorde-se que, depois de ter retrocedido por várias vezes, o Governo acabou por apresentar a proposta do Regime Jurídico de Tratamento de Litígios Decorrentes de Erro Médico à AL, sendo que este foi aprovado na generalidade, ainda que com algumas dúvidas à mistura. Um dos problemas levantados foi o facto de, se a lei entrar em vigor, passar a existir uma Comissão de Perícia do Erro Médico. Este grupo terá a competência de investigar os casos de conflito, mas é composto por sete membros, todos nomeados pelo Chefe do Executivo. O receio dos deputados, neste caso, prende-se precisamente com a concordância da sociedade face à credibilidade, qualificação e a avaliação a que devem ser sujeitos esses profissionais de saúde. Se o Governo assegura que o novo regime traz mais independência, já os profissionais discordam. No parecer da AMLPM, os médicos asseguram que o regime actual sobre os casos de erro médico – que é regulado por diversas leis existentes, como o Código Civil, e chega aos tribunais quando necessário – permite que haja julgamentos mais correctos. “Os conflitos que têm surgido nesta área têm sido julgados e resolvidos de forma satisfatória e justa. (...) Somos de parecer que o regime em vigência actualmente é muito mais

ERRO MÉDICO ASSOCIAÇÃO DOS MÉDICOS EM LÍNGUA PORTUGUESA DISCORDA DE REGIME INDEPENDENTE E DE COMISSÃO NOMEADA

“Regime em vigência é mais autónomo e fidedigno” Nem regime, nem comissão nomeada do erro médico. A Associação dos Médicos de Língua Portuguesa de Macau entregou o parecer pedido pela AL sobre o Regime de Litígios em caso de Erro Médico, mas mostra-se totalmente contra a criação quer de um regime independente, quer de uma comissão de perícia nomeada pelo Governo, como se prevê na lei autónomo, fidedigno e isento que a proposta criação de uma comissão de peritagem nomeada.”

SEM INTROMISSÃO DO GOVERNO

A hipótese de vir a existir esta Comissão de Perícia aparenta ser uma das maiores preocupações da AMLPM. No documento enviado aos jornalistas, os médicos dedicam cerca de duas páginas a analisar este grupo – cuja existência estão contra. “A [Comissão] como está prevista na proposta de lei não poderá contribuir para a melhoria da prática da medicina na RAEM e poderá mesmo agravá-la. A AMLPM propõe que tal

Torna-se impossível que um órgão administrativo com a composição da Comissão de Perícia tenha a independência e a idoneidade técnica e deontológica exigidas para exercer as suas competências acima de qualquer dúvida ASSOCIAÇÃO DOS MÉDICOS EM LÍNGUA PORTUGUESA

Comissão não seja criada.” As justificações, continua o parecer, são várias. Além de considerarem que dez anos – o tempo de experiência exigido a cinco membros da comissão – não é suficiente para que se saiba investigar casos de erro médico – uma vez que a actividade médica está em constante desenvolvimento e tem de se ter especialização específica para estes casos -, a associação diz ainda que a criação desta Comissão pode traduzir-se numa interferência do Governo na actividade médica. “Tal como proposta, esta Comissão é uma tentativa de intromissão da Administração, nomeadamente dos Serviços de Saúde, no processo de peritagem técnica, o que, à partida, vicia o seu valor e poderá condicionar a posterior decisão de quem tem de julgar, transformando-se assim numa espécie de ‘polícia política pericial’”. A AMLPM evoca regras deontológicas da profissão e leis reguladoras da medicina, para referir que a Comissão proposta acaba por ser “um órgão administrativo”, com pessoas que não precisam de ser profissionais de saúde

e que terá poderes “que se aproximam dos reservados aos tribunais”. A associação considera que a Comissão “tenta, sem conseguir, substituir uma associação profissional dos médicos de Macau, semelhante à Ordem dos Médicos”. A AMLPM vai mais longe e aponta que nunca viu um grupo como este em nenhum local com medicina de elevada qualidade. “Torna-se impossível que um órgão administrativo com a composição da

Comissão de Perícia tenha a independência e a idoneidade técnica e deontológica exigidas para exercer as suas competências acima de qualquer dúvida.” A associação assegura, contudo, que é extremamente necessário que a RAEM passe a ter este tipo de instituições profissionais médicas – como acontece em Hong Kong -, mas que terão de ser constituídas “exclusivamente por médicos, preferencialmente eleitos entre os pares, não sendo aceitável que seja administrativamente nomeada e muito menos que seja constituída por elementos da Direcção dos Serviços de Saúde ou da Administração”.

FUNDO PARA VÍTIMAS

A criação de um seguro de responsabilidade profissional seria recomendável em Macau, diz ainda a AMLPM, mas, em Macau, isso seria “improvável”. Não só pelo facto das seguradoras

poderem colocar em causa a qualificação e certificação dos médicos especialistas, mas também pelo facto do valor do prémio do seguro poder a vir ser muito elevado e proibitivo para os médicos e, entre outras razões, porque a assunção de culpa presente na lei não é aceite por nenhuma seguradora. O actual Regime Jurídico de Tratamento de Litígios Decorrentes de Erro Médico não prevê a existência de um sistema destes, algo com que a associação não discorda totalmente. Ainda assim, é deixada uma alternativa: a criação de um fundo de garantia médica. Este seria, sugere a associação, autónomo e a ser accionado por eventual indemnização atribuída aos doentes, como garantia, em caso de erros médicos grosseiros comprovados. Uma garantia que não retiraria ao médico as suas responsabilidades, garante a AMLPM. “O fundo seria da responsabilidade da Administração, que poderia sempre accionar o médico. Funcionaria como uma garantia para o doente e não para o médico, que continuará a ser responsabilizável no exercício da sua actividade.” A AMLPM passa a ser mais uma das vozes do sector contra a criação do regime de erro médico e da comissão de peritagem, sendo que a associação não poupa nas palavras ao dizer que a existência destes pode mesmo levar à diminuição da qualidade dos cuidados de saúde prestados e aumento dos seus custos, bem como beneficiar eventualmente os prestadores de cuidados de saúde privados. Isto, porque os médicos podem optar pelo que a associação chama de “medicina defensiva”: a que acontece por medo de errar.

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SOCIEDADE

CECILIA LIN

cecilia.lin@hojemacau.com.mo

JOANA FREITAS

joana.freitas@hojemacau.com.mo

hoje macau segunda-feira 10.2.2014

TIAGO ALCÂNTARA

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E, a partir de agora, começar a ver táxis amarelos com um painel num dos cantos do pára-brisas, saiba que não pode fazer sinal com a mão para eles pararem, nem que estejam livres. Esta é uma das medidas que a Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego (DSAT) encontrou para fazer com que 60 dos cem táxis da Companhia de Rádio Táxis Vang Iek cumpram a obrigação de responder apenas a serviços de chamada. Após a divulgação da renovação do contrato por mais nove meses entre o Governo e a empresa, a DSAT enviou um comunicado, onde assegura que os táxis amarelos estarão sujeitos a fiscalização. A Vang Iek tem, agora, um painel de visualização no Centro de Serviços da empresa, que mostra, através de GPS, o funcionamento da frota, como por exemplo, se o veículo se encontra livre ou com passageiro. “A DSAT já destacou pessoal para o Centro de Serviços dos Táxis a fim de recolher dados dos serviços dos respectivos táxis e acompanhar a situação das operações, de forma a elaborar a regulamentação do futuro modelo de funcionamento, regime de fiscalização e penalidades”, indica a DSAT. Recorde-se que, durante nove meses, 60% dos táxis especiais da Vang Iek terão de prestar serviços por chamada e os restantes 40% poderão prestar serviços mistos, sendo que passam apenas para rádio-táxis de forma gradual. “Os táxis que prestam serviços por chamada encontram-se devidamente assinalados com um painel visível, permitindo aos cidadãos e pessoal de fiscaliza-

TÁXIS AMARELOS DEPUTADOS CONTRA RENOVAÇÃO DO CONTRATO

Quando o telefone toca ção saberem, claramente, que os táxis não podem prestar serviços de tomada de passageiros nas ruas que não foram solicitados pelo telefone.” O comportamento da Vang Iek vai ser fundamental para a criação de um novo contrato, que terá punições em caso de incumprimento do exigido pelo Governo. Contudo, as obrigações a que a empresa está sujeita não são totalmente bem vistos por diversos profissionais do sector. Para Cheng Chung Fai, presidente da Associação dos Consumidores das

ACUSAÇÕES DE “NEGÓCIOS POR BAIXO DA MESA” POR PARTE DE MEMBRO DA DSAT

Wong Tong, membro do Conselho Consultivo para os Assuntos de Tráfego, queixou-se ao jornal Cheng Pou que os membros do Conselho não foram consultados sobre a proposta do Governo. “Na reunião, a DSAT apenas falou sobre a proposta de que 100% dos táxis iriam efectuar serviços de chamada, só fomos avisados da nova proposta quando os jornalistas receberam o comunicado.” O membro do Conselho Consultivo põe em causa se o Executivo não estará a fazer negócios “por baixo da mesa” e não descarta mesmo que “há muito tempo o Governo já tinha decidido”, mas apenas anunciou a decisão no último minuto, para evitar ser questionado nas conferências de imprensa. “O Governo apenas lançou um comunicado, em vez de realizar uma conferência de imprensa. Deve ter alguma coisa para esconder, não é apenas um segredo comercial.”

Companhias de Utilidade Pública de Macau, por exemplo, a falta de recursos humanos para os táxis amarelos tem de ser resolvido, de forma a que a empresa não acarrete custos operacionais muito altos. Este tem sido um dos pontos mais evocados também pela Vang Iek. “Uma licença para um táxi preto, com prazo de oito ou dez anos, custa cerca de dez mil patacas por mês, mas não há os problemas da falta de condutores. [Com este sistema], a Vang Iek não consegue atrair motoristas.” Cheng aponta ainda que, enquanto os cidadãos se queixam de ser difícil apanhar um táxi na rua, os táxis amarelos queixam-se de um mau ambiente de negócio. “Não será que os táxis amarelos ganham pouco pelo serviço de chamada? Recomendo que o Governo faça uma revisão ao modelo de serviços destes táxis, de forma a que estes possam melhorar o seu negócio.”

DO CONTRA

Se há quem apoie a empresa, o mesmo não se pode dizer de alguns deputados. Para Ng Kuok Cheong, por exemplo, a mudança de opi-

nião do Governo face ao serviço de chamadas e a concordância em que a empresa possa ter apenas 60 táxis ao serviço por telefone, incomoda. “Em apenas duas semanas, o Governo mudou a sua posição sobre o caso. Agora, 40% dos táxis amarelos podem apanhar clientes na rua, em vez de oferecer serviços de chamada. A DSAT também não consegue explicar porque é que o Governo ainda fez a renovação de contrato com a Vang Iek. O público está confuso.” Ng Kuok Cheong considera que o Governo precisa de lançar uma proposta de substituição da empresa em breve, caso após os nove meses, a Vang Iek ainda não consiga oferecer apenas o serviço de chamada. O democrata pede

O ESSENCIAL Durante nove meses, 60% dos táxis especiais da Vang Iek terão de prestar serviços por chamada e os restantes 40% poderão prestar serviços mistos, sendo que passam apenas para rádio-táxis de forma gradual

ainda que, caso isto não aconteça, o contrato seja cancelado. Ho Ion Sang também se mostrou desapontado com a renovação do contrato e pede que o Governo faça bem o trabalho de supervisão. Mais ainda, o deputado quer que o Executivo abra o mercado, para que possa haver mais concorrentes. Para se adaptar às necessidades dos serviços, a DSAT vai criar postos especiais de chamada dos rádio táxis em várias zonas. Já se encontram em funcionamento estações em Seac Pai Van, no Edifício Lago e nos arredores do Hospital Kiang Wu.

PARAGEM DE TÁXIS NA AVENIDA DE ALMEIDA RIBEIRO SUSPENSA

Tendo em conta que a suspensão provisória da paragem de táxis na Avenida de Almeia Ribeiro, durante a época festiva do Ano Novo Lunar, contribuiu positivamente para o escoamento do tráfego, a DSAT decidiu prolongar a medida por mais três meses. Quem quiser apanhar táxi, agora, poderá usar a zona junto do Banco Comercial, na Avenida da Praia Grande, e a paragem provisória de táxis junto do Banco Luso Internacional, na Avenida Dr. Mário Soares.


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JOGO ASSOCIAÇÕES DE PME E DO SECTOR DISCUTEM AUMENTOS SALARIAIS

Uma questão de percentagem CECÍLIA LIN

cecilia.lin@hojemacau.com.mo

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presidente daAssociação de Pequenas e Médias Empresas de Macau (PME), Stanley Au, disse no Sábado à imprensa chinesa que o aumento das rendas nas lojas e a falta de recursos humanos são as duas principais dificuldades que enfrentam actualmente as PME. Disse ainda que quando o Cotai terminar as obras dos novos empreendimentos de jogo, que o aumento salarial vai ser mais elevado. Para já, os salários das PME não atingem o patamar dos 5%, valor dos aumentos registados em algumas operadoras de jogo. “O Governo diz que este ano vai recrutar mais funcionários públicos, e a situação dos recursos humanos nas PME vai ficar ainda pior.” Stanley Au prevê que o Cotai também vai precisar de muitos funcionários.

“O salário mediano no jogo é de 16 mil patacas, e um licenciado pede como salário inicial entre 10 a 12 mil patacas. Esses são valores que uma empresa média pode suportar, mas para uma pequena empresa já é um pouco difícil. Aliás, com o plano dos cheques e aumentos durante os feriados, e a implementação do salário mínimo, tudo resulta num aumento da inflação e isso traz maior pressão para as PME.” Stanley Au questionou ainda quais deverão ser os valores fixos para os futuros aumentos salariais. “É inevitável aumentar os salários. Mas qual o valor ideal? Acho que 5% é racional e suportável, mas quando se ultrapassar os 10% já é inaceitável.”

ASSOCIAÇÃO DENUNCIA NEGOCIAÇÕES

Entretanto o presidente da Forefront of Macau Gaming, Ieong Man Teng, acusou os casinos de

ANTÓNIO FALCÃO

Stanley Au defende que é inevitável aumentar salários, mas que poucas PME poderão suportar valores na ordem dos 10%. Já a Forefront of Macau Gaming fala em negociações por parte das operadoras

aumentarem os salários anuais na ordem dos 5%, valor que será resultado de negociações entre as seis operadoras de jogo. Os empregados do jogo vão assim ter mais dificuldades em lutar contras as desigualdades no futuro, uma vez que, acusa, os

TURISMO AUMENTOS DE VISITANTES E DE PREÇOS DOS HOTÉIS NA SEMANA DOURADA

patrões do sector actuam em conjunto. “Há indícios claros que mostram que as empresas de jogo já tinham feito negociações com antecedência, para que o aumento salarial este ano fosse generoso para todos. De seguida, vão chegar a um acordo gradualmente para os restantes benefícios”, escreveu Ieong Man Teng na sua página na rede social Facebook. “Devemos evitar estes vícios. O problema é quando os casinos decidirem explorar os empregados, e aí já não podem mudar de trabalho para outro casino, porque vai ser igual. Nesse caso, devem deixar o sector e nunca mais trabalhar no jogo.” Ieong Man Teng disse ainda que no futuro é possível que os casinos façam pedidos conjuntos para pedir a importação de trabalhadores não residentes, por causa da falta dos recursos humanos. Tudo para os projectos no Cotai.

Rui Furtado Falta de médicos vem da Administração Portuguesa

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S problemas no Centro Hospitalar Conde de S. Januário começaram com a administração portuguesa, diz Rui Furtado à Rádio Macau. Numa entrevista ao canal português, o presidente da Associação dos Médicos de Língua Portuguesa de Macau (AMLPM), explica por que faltam médicos no Centro Hospital do Conde de São Januário. “Houve a ideia, em 1999, de que só podiam ficar 50 médicos no hospital, o que significa que regressaram a Portugal mais de 130 médicos. Não há nada, nem ninguém (...) que resista a uma sangria de três quartos do seu pessoal diferenciado. O grande problema do Centro Hospitalar Conde de São Januário começa, efectivamente, com esta saída abrupta da quantidade enorme de médicos (...) responsabilizo, e muito, a administração portuguesa pelo que aconteceu de mau no Conde de São Januário.” Rui Furtado disse ainda à Rádio Macau estar contra a criação de uma faculdade de medicina em Macau. Para Rui Furtado deve ser Hong Kong a assegurar aos residentes de Macau o estudo da medicina e a pós-graduação na área. “Não se justifica [criar uma faculdade]. Mas não sou acompanhado nisto por muitos dos meus colegas. Acho que, neste momento, Macau tem de resolver por uma vez o problema do estudo da medicina e da formação pós-graduada. Quanto a mim com o apoio de Hong Kong, para mim seria a maneira mais fácil, mais rápida, mais eficiente e com mais qualidade”, referiu o médico, no programa Rádio Macau Entrevista.

SAÚDE POSTOS DE URGÊNCIA DAS ILHAS E NOVAS URGÊNCIAS DO SÃO JANUÁRIO AUMENTAM FILAS DE ESPERA

Sobe, sobe, tudo sobe Ano novo, saúde nova D A E 31 de Janeiro e 6 de Fevereiro – feriados no continente devido ao Ano Novo Chinês - Macau registou um aumento de 13% de visitantes, face ao ano passado. De acordo com estatísticas preliminares, avançadas pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST), registaram-se mais de um 1,05 milhões de entradas no território, isto incluindo trabalhadores não residentes e estudantes. Mais de 770 mil pessoas eram provenientes do interior da China – mais 23% do que em 2013. Os hotéis do território – que actualmente oferecem cerca de 28,890 quartos – estiveram quase totalmente

cheios, tendo-se registado mais hóspedes do que no ano passado. De acordo com dados fornecidos pelos operadores hoteleiros, no período da semana dourada, os hotéis de três a cinco estrelas de Macau registaram uma taxa média de ocupação diária na ordem dos 94,4% - um aumento de 5%. Os hotéis de três estrelas registaram uma taxa média de ocupação na ordem dos 93,3%, uma subida de 4%, os hotéis de quatro estrelas, uma taxa média de ocupação diária de 92,8% - mais 6% -, e os hotéis de cinco estrelas tiveram uma taxa média de ocupação diária na ordem

dos 97,2%, registando uma subida de 6% face ao ano passado. Mas, os preços dos quartos também subiram devido à semana dourada. O preço médio por quarto dos hotéis de três a cinco estrelas registou uma subida de 17,5%, chegando às 2601 patacas. Durante a semanada dourada, a DST realizou 64 acções de inspecção nos postos fronteiriços, chegando a encerrar duas fracções suspeitas de prestação ilegal de alojamento. A entidade recebeu ainda 16 e queixas, pedidos de assistência e sugestões, referentes a táxis, compras, hotéis e guias turísticos. - J.F.

entrada em funcionamento do Posto de Urgência das Ilhas e do novo Edifício do Serviço de Urgência do Centro Hospitalar Conde de São Januário, fez disparar o número de utentes, em comparação com o período antes de serem activadas as instalações. Dados dos Serviços de Saúde (SS) mostram que o número de atendimentos diários foi de aproximadamente 900 pessoas em Janeiro, mais 17% do que os 750 utentes registados por dia no ano de 2013. Apesar das novas instalações, a subida causou um prolongamento nos serviços de tempo de espera, diz o Governo. “Além disso, segundo as informações disponíveis, o número médio de atendimentos diários no Serviço de Urgência do CHCSJ no ano de 2012 foi de cerca de 600 utentes, aumentando este de 120 utentes por

dia depois de entrar em funcionamento o Posto de Urgência das Ilhas, acumulando-se uma média de 720 utentes por dia. No primeiro mês após a activação do Edifício do Serviço de Urgência do CHCSJ, houve um aumento de uma média de 180 utentes por dia, ou seja, acumulou-se uma média de 900 utentes por dia, significando este número que o aumento de investimento dos recursos médicos pode originar mais procura dos serviços médicos.”

A chegada precoce do período de pico da gripe este ano provocou o aumento do número de utentes que recorreram à urgência, tendo-se registado um crescimento de 2,5% no número de utentes do serviço de urgência durante os feriados do Ano Novo Chinês. O número de utentes registados no Serviço de Urgência do Hospital Kiang Wu também aumentou 4 % em relação ao ano passado. Os SS anunciam que 5297 pessoas recorreram aos serviços médicos durante os feriados de ano novo, um aumento de 15%. De acordo com os dados estatísticos sobre a distribuição de utentes, o hábito dos residentes recorrerem a consulta médica é semelhante ao do passado, principalmente ao Serviço de Urgência do hospital, representando 70% dos serviços médicos integrais. - J.F.


CHINA

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ANTÓNIO CAEIRO Agência Lusa

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UANDO João André Goulart Oliveira Costa nasceu, no dia 12 de Abril de 1977, a comunidade portuguesa de Pequim aumentou 50 por cento. “Os chineses diziam-nos sempre que nós éramos os primeiros portugueses a viver em Pequim desde a fundação da República Popular da China, em 1949”, contou à agência Lusa a mãe de João André, Adélia Goulart. Pelo menos mais duas compatriotas viveram lá nas décadas de 1960 e 1970, mas eram mulheres de nacionalistas das colónias portuguesas em África e, provavelmente, não ficaram registadas como portuguesas. Adélia Goulart, ligada ao Instituto de Linguística da Faculdade de Letras de Lisboa, e o marido, João Cláudio Costa, formado em engenharia, chegaram a Pequim em Outubro de 1975, contratados pelas Edições em Línguas Estrangeiras. Tinham 28 anos.

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PRIMEIRO PORTUGUÊS NASCIDO EM PEQUIM DEPOIS DE 1949 TEVE DE SE REGISTAR NA EMBAIXADA DE FRANÇA

Comunidade inversamente proporcional à História

Eram ambos militantes do Partido Comunista de Portugal - PCP (m-l), a única organização politica portuguesa reconhecida então

pelo governo chinês e cujo secretário-geral, Heduíno Gomes, visitara a China em Maio de 1975. Portugal e a República PUB

Fornecimento de serviços de coordenação, produção e de execução da actividade “Celebração da chegada do Verão”, na Praia de Hác-Sá, a 1 de Maio Concurso Público no001/SCR/2014 Faz-se público que, nos termos da alínea 46 da deliberação n.º2/2014 do Conselho de Administração, de 10 de Janeiro de 2014, se encontra aberto concurso público para o Fornecimento de serviços de coordenação, produção e de execução da actividade “Celebração da chegada do Verão”, na Praia de Hác-Sá, a 1 de Maio. O limite máximo do valor global da prestação de serviços é de três milhões e quinhentas mil patacas (MOP3,500,000.00). O Programa do Concurso, o Caderno de Encargos e a Tabela das Exigências Específicas encontram-se à disposição dos interessados no Núcleo de Expediente e Arquivo do IACM, sito na Avenida de Almeida Ribeiro, no 163, r/c, Macau, todos os dias úteis, durante as horas normais de expediente. As propostas deverão ser entregues até às 17:00 horas do dia 24 de Fevereiro de 2014 ( 2ª feira). O proponente ou o seu representante, deve entregar a proposta e os seus documentos no Núcleo de Expediente e Arquivo do IACM. Com a proposta, deve o proponente apresentar uma caução provisória, no valor de sessenta mil patacas (MOP60,000.00), mediante depósito em dinheiro, garantia bancária ou seguro-caução a favor do IACM ou cheque bancário, entregue directamente na Divisão de Contabilidade e Assuntos Financeiros/Tesouraria do IACM, sita na Avenida de Almeida Ribeiro, n.° 163, r/c. O IACM realizará a este respeito uma sessão de esclarecimento pelas 15:00 horas do dia 12 de Fevereiro de 2014 ( 4ª feira), no Centro de Formação deste Instituto, sito no 6.º andar do Edifício China Plaza. O acto público de abertura das propostas realizar-se-á pelas 15:00 horas do dia 25 de Fevereiro de 2014 ( 3ª feira), no Centro de Formação deste Instituto, sito no 6.º andar do Edifício China Plaza. Macau, aos 23 de Janeiro de 2014. O Presidente, Substituto, do Conselho de Administração Vong Iao Lek WWW. IACM.GOV.MO

Popular da China não tinham relações diplomáticas: o pequeno João André teve de ser registado na Embaixada da França e, mais tarde, no Consulado português em Hong Kong. Como os raros ocidentais residentes em Pequim, Adélia e João viviam no Hotel da Amizade, um complexo com 35 hectares e quase

2.000 quartos e apartamentos, construído no início da década de 1950 para acolher os cooperantes soviéticos e reservado, depois, aos “peritos estrangeiros”. Durante quase cinco anos, aquele casal português assistiu à morte do presidente Mao Zedong, à queda do “Bando dos Quatro” (grupo radical que incluía a viúva de Mao, Jiang Qing), à reabilitação de Deng Xiaoping e ao início da política de “Reforma Económica e Abertura ao Exterior”. “Quando saímos da China, no verão de 1980, já não pertencíamos a nenhum partido político”, diz Adélia. A China, entretanto, começou a converter-se à economia do mercado, trocando o “aprofundamento da luta de classes” pelo desenvolvimento, e o PCP (m-l) acabaria por dissolver-se. A “primeira língua” de João André foi o chinês, aprendido com a dedicada

a yi (ama) que tomava conta dele enquanto os pais ensinavam português aos tradutores das Edições em Línguas Estrangeiras. “Já não me lembro de nada”, diz João André. Mas o local de nascimento assinalado no passaporte há-de acompanhá-lo para sempre e já lhe proporcionou até histórias divertidas. “Um dia, num restaurante chinês, disse à proprietária que tinha nascido em Pequim e mais tarde, quando lá voltei, ouvia-a dizer a um cliente chinês: ´Este é dos nossos`”, conta João André, actual coordenador do Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, nos Açores. No Outuno de 1977, outro casal ligado ao PCP (m-l), com dois filhos pequenos, foi contratado pela mesma editora: a comunidade portuguesa mais do que duplicou, mas até ao estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países, em Fevereiro de 1979, e à abertura da Embaixada, alguns meses depois, continuou a ter apenas sete pessoas. Mais do que reduzida, a comunidade era inversamente proporcional à História: Portugal foi o primeiro Estado europeu a enviar uma embaixada à China, no início do século XVI, e o último a governar uma parcela do território chinês (Macau), até Dezembro de 1999.

EUA garantem protecção ao Japão em caso de conflito com a China

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secretário de Estado norte-americano, John Kerry, afirmou sexta-feira que os EUA estão prontos a defender o Japão, em caso de conflito com a China, quando os dois países asiáticos mantêm um diferendo territorial no Mar da China Oriental. Durante um encontro com o seu homólogo japonês, Fumio Kishida, em Washington, Kerry, que anunciou igualmente uma viagem à China na próxima semana, mencionou um tratado de 1960, que consagra a protecção norte-americana ao Japão. “Sublinho que os EUA continuam determinados a respeitar as obrigações inscritas no tratado com os nossos aliados japoneses. E isto inclui o que

se passa no Mar da China Oriental”, declarou Kerry. Em 2013, a China criou uma tempestade diplomática ao estabelecer “uma zona aérea de identificação” (ZAI) no Mar da China Oriental, cujo traçado incluía as ilhas sob controlo japonês, mas reivindicadas pela China. “Os EUA não reconhecem e não aceitam a ZAI no Mar da China Oriental e não temos a intenção de mudar a forma como conduzimos as nossas actividades na região”, explicou John Kerry. Por seu lado, Kishida convidou o Presidente norte-americano, Barack Obama, a efectuar uma visita de Estado ao Japão, o que, segundo fontes diplomáticas, poderá ocorrer em Abril.


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PORTUGAL/CHINA RELAÇÕES DIPLOMÁTICAS COM “NOVA DINÂMICA” NA ÁREA ECONÓMICA

Menos política, mais dinheiro Q UINZE anos depois da transição de Macau para a China, as relações políticas luso-chinesas parecem ter perdido intensidade e os contactos entre os líderes dos dois países diminuíram. Mas na área económica, outrora incipiente, há uma dinâmica sem precedentes. “Estamos numa nova fase. Estamos no dealbar de uma relação económica que já não tem apenas potencial: está mesmo a dar resultados”, disse à agência Lusa em Pequim o embaixador de Portugal na China, Jorge Torres-Pereira. “O que se passa hoje não se pode comparar com o que se passou em grande parte do tempo anterior, em que estávamos obsessivamente concentrados na questão de Macau”, acrescentou. Portugal e a República Popular da China estabeleceram relações diplomáticas a 08 de Fevereiro de 1979 e oito anos mais tarde assinaram a “Declaração Conjunta sobre

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Jorge Torres-Pereira

Macau”, que determinou a passagem do território para a administração chinesa em Dezembro de 1999. Em apenas quatro anos (199498), Portugal enviou à China dois presidentes (Mário Soares e Jorge Sampaio) e dois primeiros-ministros (Aníbal Cavaco Silva e António Guterres). “Macau é uma história de sucesso, com a qual os dois países se sentem confortáveis”, disse o embaixador português. Mas “a forma mais significativa de comemorar o 35.º aniversário das relações diplomáticas era uma

visita de alto nível que consagrasse no plano político a nova dinâmica das relações económicas bilaterais”, defendeu Torres-Pereira. A possibilidade de o presidente Cavaco Silva se deslocar este ano à China, retribuindo a visita do homólogo chinês em 2010, já foi referida na imprensa, mas o diplomata remeteu o assunto para uma recente declaração do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete. “A Ásia será uma região prioritária em termos de diplomacia económica em 2014, com visitas previstas ao mais alto nível da representação do Estado, nomeadamente à China e ao Japão”, disse Machete num encontro com delegados da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP). O último presidente português que visitou a China foi Jorge Sampaio, há nove anos, e José Sócrates foi o ultima chefe de governo português recebido em Pequim, em 2007.

A China, entretanto, tornou-se o 10.º mercado de Portugal. Nos últimos quatro anos, as suas importações de Portugal mais do que duplicaram, atingindo em 2012 o montante recorde de cerca de 11.000 milhões de patacas. Para os vinhos portugueses, por exemplo, a China já é o 5.º maior mercado fora da Europa, depois de Angola, Estados Unidos da América, Brasil e Canadá. Em 2012, a China foi também o maior investidor em Portugal, com a China Three Gorges a comprar 21,35% da EDP (Energias de

Portugal) e a tornar-se o maior accionista da eléctrica portuguesa. Foi um dos maiores investimentos chineses na Europa, mas não foi o único: a China State Grid adquiriu 25% do capital da REN (Redes Energéticas Nacionais) e a Beijing Entreprieses Water Group comprou por cerca de 950 milhões de patacas a participação francesa na Veolia Portugal. Já este ano, o governo português aprovou a proposta do grupo Fosun para comprar 80% da Caixa Seguros por cerca de 10.000 milhões de euros.


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EVENTOS

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RITA MARQUES RAMOS rita.ramos@hojemacau.com.mo

TEATRO DÓCI PAPIÁÇAM NO GRANDE AUDITÓRIO DO CCM EM MAIO COM SÁTIRA SOBRE IMOBILIÁRIO

“Vivo na únde?”

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“tema quente” do espectáculo deste ano dos Dóci Papiáçam no Centro Cultural de Macau, no âmbito do Festival de Artes de Macau (FAM), é “invariavelmente” o mercado imobiliário, explica Miguel de Senna Fernandes. A peça, que sobe ao Grande Auditório em Maio, ainda só conta com um argumento embrião, mas já tem nome. “Vivo no Únde?” - ou “Casa de Sonho?” em português - é a pergunta que o grupo de teatro lança aos espectadores. “Ainda estou a escrever a peça. Está na forja, mas ainda está muito no início. Fala nomeadamente nas dificuldades em arrendar ou comprar casa”, conta o encenador ao HM. “Vamos falar de rendas, de habitação, nas questões que estão na boca do povo. E também dos talentos, para se rirem um bocado. Espero que gostem”, comenta. É, por isso, sobre as (poucas) políticas de habitação que a história se irá centrar, permitindo que muita gente se identifique com a trama.

O próprio grupo de teatro, que completou duas décadas no ano passado, espera há muito por uma “casinha própria” onde possa fazer os seus ensaios, mas de momento conta apenas com a “complacência da Escola Portuguesa

A

soprano Lourdes Martins, uma portuguesa nascida em Itália, figura como um dos principais destaques do Festival de Música do Monte, que arrancou sexta-feira em Goa, na Índia, e se prolongou até domingo. O festival, que vai na 12.ª edição, teve como palco a Capela da Nossa Senhora do Monte, recuperada pela Fundação Oriente, a qual organiza a iniciativa, de carácter anual, que conquistou um lugar no calendário cultural de Goa. A fim de “tirar partido” do pôr-do-sol, o festival começou às seis da tarde no exterior da capela, erguida num “lugar paradisíaco com uma vista soberba sobre a antiga cidade de Goa, onde se podem ver ainda os vestígios da presença portuguesa arquitectónica de então, daí perceber

de Macau (EPM)”, que cede um espaço para preparação dos espectáculos. “Há muito tempo que pedimos ao Governo, mas chego a compreender por que o Governo não pode fazer nada. É que não interessa ao grupo ter apenas

em mãos o novo “enredo” para levarem para os ensaios, garante Miguel de Senna Fernandes. O anúncio do XV FAM ainda não foi “formalizado” pelo Instituto Cultural, por meio da habitual conferência de imprensa, mas “a menos

GOA SOPRANO LOURDES MARTINS EM DESTAQUE NO FESTIVAL DO MONTE

Os ingredientes da diversidade que deveria ter sido uma cidade monumental nos finais do século XVI e compreender o ditado de que ‘quem vê Goa não precisa de ver Lisboa’”, descreveu o delegado da Fundação Oriente. Do programa destaque para a soprano Lourdes Martins, “portuguesa nascida em Itália, com formação brasileira e antepassados goeses”, que faz parte do coro do teatro da ópera de Turim e tem colaborado com o La Scala, de Milão. “Estamos à espera que seja um momento alto”, afirmou o delegado da Fundação Oriente, Eduardo Kol de Carvalho, antes do

À VENDA NA LIVRARIA PORTUGUESA MORTE EM VIENA • Daniel Silva

um apartamento como sede”, desabafa Senna Fernandes. “Somos nómadas há 20 anos. A mentalidade cigana é assim”, brinca. Os ensaios para o nova peça arrancam em Março, altura em que os actores terão

Restaurador de arte e espião ocasional, Gabriel Allon é enviado a Viena para desvendar a verdade por trás de um bombardeamento que deixou um velho amigo gravemente ferido. Entretanto é surpreendido por algo que vira o seu mundo do avesso - um rosto perturbadoramente familiar, um rosto que o gela até aos ossos. Na sua busca desesperada por respostas, Allon vai pôr a descoberto um modelo de maldade que se estende por sessenta anos e milhares de vidas - e no interior dos seus próprios pesadelos...

evento, acrescentando que “estão reunidos os ingredientes para um bom espectáculo”, dado que Lourdes Martins estará acompanhada por uma orquestra de câmara (Child’s Play), conduzida pelo maestro argentino Santiago Lusardi Girelli, que se encontra a prestar serviço na cátedra de música da Universidade de Goa. No palco da capela, um dos três, também sobressaem os coros: no sábado as atenções voltaram-se para o Coro Ceciliano de Bangalore, enquanto no domingo foi a vez do Coro da Universidade de Goa, novamente sob a batuta do maestro argentino.

que haja uma modificação de última hora” as datas estão acertadas. Por isso, nos dias 10 e 11 de Maio, sábado e domingo, respectivamente, a agenda dos fiéis seguidores dos Dóci Papiáçam vai merecer uma nota especial.

Os concertos no interior da capela carecem de um passe - atendendo à lotação do espaço. Já no exterior, à excepção de um recital de guitarra portuguesa, interpretado por Franz Schubert Cotta & Siddharth (Goa), as restantes demonstrações (incluindo música e dança) tiveram cunho indiano. “Além de ser uma manifestação cultural a que os goeses e estrangeiros já se habituaram, penso que o festival foi criado com o sentido ou objectivo de manter ou conservar e/ ou preservar minimamente em boas condições a capela”, afirmou Eduardo Kol de Carvalho, explicando que, a pedido da Fundação Oriente, o evento “obriga as autoridades a voltarem a pintar e a limpar toda a área e a restabelecer um pouco aquilo que eram as condições primitivas após a recuperação do edifício”.

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O OÁSIS ESCONDIDO • Paul Sussman

No ano de 2152 a.C., oitenta sacerdotes do Antigo Egipto usam a capa da noite para irem até ao deserto levando consigo um misterioso objeto envolto num pano. Quatro semanas mais tarde, ao chegarem ao seu destino, cortam em silêncio os pescoços uns dos outros. Quatro mil anos mais tarde, no Egito dos nossos dias, Freya Hannen, alpinista profissional, chega para ir ao funeral da irmã, Alex, uma exploradora do Sara. Desde o início que Freya desconfia das alegações de que a irmã se terá suicidado e decide investigar as verdadeiras causas da sua morte. Paul Sussman é jornalista e arqueólogo, atividade que o leva a passar vários meses por ano em escavações no Egipto. Autor best-seller de quatro thrillers, é um dos mais conceituados e populares autores do género.


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próximo oriente

“(...) Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos, espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos que não viram as torrentes infindáveis das rosas, ou as águas permanentes, ou um sinal de eternidade espalhado nos corações rápidos – Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam pelos muitos sentidos dos meses, dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra, para que se faça uma ordem, uma duração, uma beleza contra a força divina?

Hugo Pinto

HUGO PINTO

ARTES, LETRAS E IDEIAS

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(...) Falemos de casas como quem fala da sua alma, entre um incêndio, junto ao modelo das searas, na aprendizagem da paciência de vê-las erguer e morrer com um pouco, um pouco de beleza.” “Prefácio”, “A Colher na Boca”, Herberto Helder, 1961

É

dos “arquitectos” e das “casas” de Herberto Helder, poeta que “nunca escreveu sobre o caminho marítimo para a Índia”, como observou o crítico Pedro Mexia, que me lembro no regresso de Goa. Não me ocorre exaltar os feitos (já desfeitos?) de intrépidos exploradores. É nos arquitectos que penso, nos que chegaram e partiram talvez descuidados ou talvez indiferentes à ordem duradoura do mundo e do tempo, e nos que ficaram. Nos que nunca saíram. Em Goa, eles resistem. Não são arquitectos de profissão, mas praticam esse ofício de “arquitectar”, de planear, construir e criar. As casas, as cidades, as vidas, são como rumores – passam. Estas passam nesse enigmático tráfego que foi Portugal e os portugueses à descoberta de um mundo que sempre existiu e existiria em todos os gerúndios e modos possíveis. Em Goa, todavia, houve um tempo que parou, mas também pode ser que talvez nunca tenha corrido. Terá andado sempre com vagar, este com que agora envelhece como um retrato emoldurado numa parede. Como uma memória que nunca deixou de contar os minutos, as horas e os dias. Entra-se nas casas “cujas paredes, de um amarelo prodigioso, dir-se-iam perpetuamente iluminadas pelo furor do crepúsculo”, na justa descrição de José Eduardo Agualusa, e nelas reconhecemos os seus habitantes e o seu “orgulho melancólico de quem tudo teve, e tudo viu ruir e desaparecer”. Nesses casarões antigos exibem-se objectos que talvez sejam relíquias melhor guardadas num museu (talvez não), cartas, fotografias, porcelanas, móveis, moedas e até poemas escritos por um pai para o filho (“Era um homem/ Que tinha um burrico/Morava no campo/Chamava-se Chico”). Tudo remete para tempos que já foram. Tempos em que os salões se abriam e vibravam com a música dos pianos europeus. Tempos dos jantares faustosos e demorados. Tempos em que havia ouro para esconder. Tempos que os últimos descendentes da aristocracia católica (dos “reinois”, na terminologia colonial) já não podem viver, só reviver.

O ACONTECIMENTO DO SILÊNCIO “Saudades”, lê-se em azulejos à entrada de uma casa na Ilha de Divar, a que os portugueses chamavam Piedade, só acessível de barco. Sempre foi cercada pelo rio Mandovi e é dessa maneira que os seus (poucos) habitantes a querem, opondo-se a que se construa uma ponte desde “Old Goa”. No alto de uma colina fica a igreja da Nossa Senhora da Compaixão, ao lado do cemitério católico construído onde destruíram um templo hindu (outro foi entretanto erigido uns passos à frente da igreja). Pelo sopé do monte, as “portuguese villas” e, por todo o lado, cruzes e terrenos em que, devido a crenças mais ancestrais, não é permitido cultivar. Ao deixar a ilha, atravessando o rio no “ferry” descansado, somos surpreendidos pela visão da cúpula barroca da igreja de São Caetano, em “Old Goa”, elevando-se, caiada, sobre as palmeiras que parecem sustê-la sem qualquer esforço, qual altar tropical. Ao lado, esconde-se a igreja de São Francisco de Assis e, mais à frente, haveremos de encontrar a Basílica do Bom Jesus, do outro

lado da estrada que atravessa esta Goa Velha e de tolhida pacatez, outrora uma buliçosa capital que viria a ser abandonada e deserta depois de surtos de malária e de cólera. Aqui, muito mais do que nos pequenos bairros de traça influenciada pelos antigos visitantes onde se foi aprendendo a viver do passado e os velhos casarios são recuperados como pensões e restaurantes, mostra-se a face mais evidente do afastamento, da fuga e também do desamparo, apesar das monumentais igrejas de portas abertas. Ao contrário de Macau, onde tudo (quase tudo) se substitui ou justapõe, e em que a cidade é construída em areias movediças, um chão que parece estar sempre a fugir debaixo dos nossos pés, em Goa apenas o tempo toma conta do tempo, como uma planta trepadeira que pacientemente cobre uma fachada e a seguir outra e a seguir outra. É como se tudo se abandonasse, menos o silêncio. E esta natureza de “ir embora”, de partir, parece-me, é a epopeia maior: não a que canta mais alto, mas a que cala mais fundo.


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Ricardo Araújo Pereira

IN VISÃO

TENHA A BONDADE DE ME AMESQUINHAR, POR FAVOR

Q

UANDO entrei na universidade era um jovem assustado. Não conhecia a casa, nem os métodos de trabalho, nem os colegas. Havia muitas diferenças em relação ao liceu. Não havia campo de futebol no pátio. Não havia pátio. Eu precisava, como é evidente, de me integrar. Mas os meus colegas, com uma crueldade que ainda hoje, passados tantos anos, não esqueço, tinham outros planos. Tudo começou nos primeiros dias. Abordei um estudante mais velho e perguntei-lhe: “Podes dizer-me onde fica a biblioteca, por favor?” Espero que ele esteja a ler este texto e se envergonhe do sofrimento que me infligiu. Respondeu-me: “É ali em frente, à direita.” Fui ver e era mesmo. Em vez de me esfregar com excrementos de animais ou de me obrigar a rastejar, PUB

aquele idiota tinha-me fornecido uma informação correcta, como se eu fosse uma pessoa igual a ele. Eu estava disposto a tolerar que ele não quisesse escrever-me na testa a palavra “Besta”, até pelo que isso teria de pleonástico, mas não podia admitir que me privasse de uma enriquecedora experiência de vida, tratando-me como se eu fosse mesmo um ser humano. Fui atrás dele e não me contive. Sempre foi muito difícil para mim lidar com a maldade e a injustiça. Disse-lhe que a conduta dele era vergonhosa. Que, se eu não fosse humilhado em público, teria muito menos hipóteses de me sentir parte daquela comunidade. Que precisava de conviver, para facilitar a minha integração, e que nenhum convívio saudável e pleno dispensa a aplicação de ovos e farinha no cabelo. Ele fugiu e passou o resto do curso a

evitar-me. Mas eu ainda hoje o reconheceria, se o visse. Sonho com uma sociedade de tal modo solidária e ansiosa por integrar toda a gente que este tipo de prática se torna comum, não apenas na primeira vez que se vai à universidade, mas na primeira vez que se vai a qualquer lado. Quero poder ir a um talho e ouvir, da boca do talhante: “O sr. da senha 28 nunca cá veio, pois não? Então tire as calças porque vai simular que está a fazer amor com este lombo de vitela, enquanto o resto dos clientes o insultam.” Este é um tema ao qual sou especialmente sensível, e sempre que reflicto sobre ele preciso mesmo de relaxar e de me sentir mais à vontade. É o caso, agora. Vou pedir a alguém que me obrigue a andar na rua vestido apenas com uma fralda e todo besuntado em graxa, a ver se descontraio.


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h

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Isabel Lucas IN PÚBLICO

A NOVA IORQUE DE PEDRO GADANHO

U

M passeio pela “Big Apple” com o arquitecto português que é curador no MoMa, o Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque. A imagem é a de um homem a pedalar junto ao rio. Não há neve. Em vez dela, há tons de rosa ou vermelho das flores, dependendo se é Primavera ou Outono. O rio quase sem neblina, as árvores a dar a ilusão de mata cerrada, não fosse o permanente rodar dos carros numa dormência mecânica imparável. Na imagem, agora o pedalar percorre uma recta a subir ou descer Riverside Park. Meia hora a subir e outra a descer os mais de seis quilómetros que separam a rua 72 da 158, junto ao rio Hudson. Seria assim, alguém a pedalar numa bicicleta, não fosse o branco e o preto a desmentir quem diz que nada é a preto e branco, e o simples andar de bicicleta transformar-se numa experiência impossível. Naquela tarde em Upper West Side, junto ao rio, é mesmo quase tudo branco. Só umas pinceladas de preto e cinzento dos ramos das árvores a desmontar a ideia de um denso bosque. Nem uma folha. E a neblina a tirar a cor ao Hudson sem deixar ver como anda a outra margem. Tudo a perto e branco, excepto os cinzentos e depois quase todas as cores nos gorros dos que não temeram a tempestade e deslizam em trenós mais ou menos improvisados. É sábado de um Janeiro gelado. As temperaturas negativas andam a bater recordes — quem pode, hiberna. O que vemos, afinal, é um homem num café com neve em fundo, uma chávena na mesa e as mãos a acompanhar um discurso sobre o que é alguém poder sentir-se de vários sítios. “Cresci no Porto, vivi em Lisboa, passei por Milão, estive três anos em Inglaterra, agora estou aqui. Não posso dizer que sou de nenhuma dessas cidades, mas quando saio de uma delas sinto que não volto o mesmo”, diz Pedro Gadanho, português, há dois anos a viver em Nova Iorque como curador de arquitectura contemporânea no Museu de Arte Contemporânea de Nova Iorque (MoMA), como se houvesse uma apropriação quando se está num lugar mais do que na circunstância de turista ou viajante. É preciso haver algo de sedentário nessa condição nómada. É hora do lanche. A paragem é famosa, mas está a salvo de roteiros turísticos, apesar de os media do mundo não a ignorarem. Na sinalética dos espaços, o Café Lalo aparece como um lugar de sobremesas (29 receitas de cheese cake)

e um cappucino capaz de desafiar a concorrência mais exigente. Onde se vai para ver e ser visto ou apenas ser mais um anónimo entre novaiorquinos de todas as idades. Tudo isso é redutor. Há quem leia, quem escreva, os que bebem café, mas sobretudo os que conversam com a tal sobremesa à frente. É um café para quem gosta de cafés, que começou a ganhar identidade com os clientes que ali paravam antes e depois dos espectáculos, dos cinemas. Ganhou culto. Cruzavam-se artistas e espectadores. “Nunca aqui estive”, diz Pedro Gadanho, antes de entrar, em frente da fachada iluminada de uma town-house como tantas naquele bairro, mesmo na rua onde mora. Naquela tarde de 14 graus negativos, parece o abrigo perfeito. No interior, o ruído assemelha-se ao de um café latino. Fala-se alto e o Inverno vê-se das janelas, vidros altos, decoração de madeira a lembrar a Europa; Paris em Nova Iorque em cenário de filme. É cinematográfico. Norah Ephron, por exemplo, não resistiu ao charme do Lalo e sentou Meg Ryan e Tom Hanks numa das mesas de mármore, no filme You’ve Got Mail, de 1998. “O cinema parece estar sempre a dar-me sinais nesta cidade”, sorri. Fala de Woody Allen, claro, com paragens obrigatórias no Lincoln Center, umas ruas abaixo, a apontar agora para Manhattan, o filme de 1979, ou o Museu

de História Natural, numa das fronteiras do Central Park. O arquitecto fala em edifícios isolados. Refere a intervenção que está a ser feita no Witney Museum pelo italiano Renzo Piano; aponta o Hotel Americano, edifício em Chelsea, da autoria do mexicano Enrique Norten; lembra a torre de Frank Ghery, chamada New York; um edifício de habitação de luxo, na City; a intervenção que aproveita uma linha de caminho de ferro abandonada e fez um passeio que travessa o bairro de Chelsea, o High Line; e recua um pouco no tempo até ao New Museum, na Bowery, um projecto de 1977 dos japoneses Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa… São singularidades de uma cidade que Pedro Gadanho gosta mais pelo conjunto do que “pela excepcionalidade arquitectónica dos últimos anos”.

A COMIDA

Há uma explicação social ou económica ou política. Ou seja, há um contexto que explica o que Pedro Gadanho chama de um comodismo. Já lá vamos. As cidades têm paragens obrigatórias. É preciso passar pela modernidade cinematográfica, entretanto. Ainda o cinema. Outra vez na vizinhança, nas pequenas rotinas. Não comenta a intervenção que reacendeu a polémica entre urbanistas e arquitectos sobre

VIVER EM NOVA IORQUE NÃO É IGUAL EM BROOKLYN, NO UPPER WEST, NO VILLAGE, EM CHELSEA OU NO LOWER. CONHECE ESSES LUGARES, COMO HABITANTE OU PASSEANTE. SABE TAMBÉM DOS OUTROS, DOS EXCLUÍDOS DOS MAPAS DO BEAUTIFUL PEOPLE OU DOS TURISTAS

a obra que prevê o derrube do American Folk Art Museum, mesmo ao lado do MoMA, para ampliar o espaço do museu. A decisão apaixona nova-iorquinos, mas sobretudo muita opinião pública internacional, como se o MoMA fosse mais do mundo. E não é? É para lá que Pedro Gadanho caminha diariamente, saído do metro, e sente-se num filme de Jacques Tati sempre que percorre a Sixth and a Half Avenue, a passagem pedestre, em Midtown, que liga as ruas 57 e 51. “Todas aquelas pessoas no frenesim do pequeno-almoço a correr para o trabalho levam-me para esse ambiente.” São os atalhos de quem vai conhecendo a cidade onde vive, truques para encurtar distâncias, fugir ao frio ou ao calor de Julho e Agosto. “As coisas boas dos edifícios das corporações”, ironiza, falando dos muitos espaços privados que os nova-iorquinos usam como caminhos públicos. Ele incluído. Mas será sempre um homem em passagem. “Nunca tinha vindo muito a Nova Iorque. Duas vezes apenas. Uma das viagens que fiz foi logo a seguir ao 11 de Setembro e vi uma cidade muito deprimida. Não me apeteceu regressar tão depressa”, conta, voz pausada, sem pressa de chegar a um fim, como quem explora uma geografia tanto mais apetecível quanto fora de circuitos mais conhecidos, partilhada na intimidade de um segredo de amigos. Vão havendo segredos em Nova Iorque. Os brunches aos domingos em casa de amigos, uma ida a um restaurante que se percebe, depois, serem vários, à medida que se passam portas, um mercado onde há alguém que faz um prato especial aos fiéis. Sim, a comida. As novidades e os obrigatórios, as descobertas. A Taqueria La Esquina, em Kenamare Street, o Freemans, em Lower East Side, o Maison O, japonês também em Kenmare, a descoberta dos power lunches, terminologia associada aos almoços de negócios inaugurados pelos frequentadores de Wall Street, de que o Modern, o restaurante do MoMA, é um dos mais emblemáticos, como o Americano. Almoços quase tão calóricos quanto prolongados. E o Jacob’s Pickles, para brunches fora de casa, em Upper West Side. São paragens de uma conversa com um caminhante. É outra das circunstâncias de Pedro Gadanho em Nova Iorque, um homem que caminha pela cidade e tenta perceber quantas cidades podem existir, por exemplo, numa avenida, não só pela nacionalidade de cozinhas que se encontram. Gosta de seguir a linha recta dessas longas estradas que atravessam a ilha de Manhattan, ir pela Sexta, como quem finta a falta de surpresa e as multidões da Quinta, atravessar a Ponte de Brooklyn sem olhar para o relógio, “sair de manhã e chegar a meio da tarde”, cinco, seis horas a andar, chegar a Red Hook, parar na paisagem portuária, cruzar Williamsburg e chegar a Greenpoint, o bairro mais a norte de Brooklyn, ser um


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ponto numa geografia que permite ser-se quase o que se quiser. Essa possibilidade libertadora da claustrofobia que pode ser uma cidade habitada por oito milhões de pessoas onde estão os mais pobres e os mais ricos. A multiplicidade é o que o faz pensar em si como um homem cosmopolita, que gosta de centros de grandes cidades, da diversidade de hipóteses e de rostos, de estímulos que uma metrópole permite, mas se incomoda com o modo como ela limita a tantos essas possibilidades. Dá o seu exemplo. Em dois anos, teve hipótese de experimentar várias cidades dentro da cidade. “Vivi em cinco lugares muito diferentes e em cada um fui um habitante diferente de Nova Iorque. Isso permitiu-me ter conhecimento melhor da cidade.” Em Park Slope, numa town-house, ou num apartamento em Canal Street (fronteira entre o Village, o Soho, Little Italy, lugar de bares e falsificações, lojas, lojinhas, turistas e fiéis). É a escolha entre um bairro parecido com o de uma grande cidade da Europa, como Berlim, ou o de uma boémia que, apesar das suas hesitações ou deambulações, ainda é singular na zona baixa de Manhattan, antes de chegar a Wall Street. Viver em Nova Iorque não é igual em Brooklyn, no Upper West, no Village, em Chelsea ou no Lower. Conhece esses lugares, como habitante ou passeante. Sabe também dos outros, dos excluídos dos mapas do beautiful people ou dos turistas. Percorre-os a pé, seguindo as tais linhas rectas, reparando nas perpendiculares. No metro, o seu transporte na cidade, encontra os rostos de quem lá vive. “Não tenho carro. Quando preciso, alugo um.” Como no dia em que foi até ao Vale do Hudson, seguindo a Broadway. Mais uma vez, a mesma via e tantas urbes. Os contrastes que encantam ou agridem, ou apenas existem fazendo do conjunto a maior riqueza de uma cidade. Nisso, Nova Iorque é coerente. Nos contrastes, que não são apenas geográficos, mas sazonais. Ali, as estações do ano existem e marcam a vida dos nova-iorquinos. Por isso a imagem do homem a andar de bicicleta tão frequente em Abril, Maio

ou Junho, mesmo em Setembro ou Outubro, passa a ser impossível de replicar no Inverno. As estações são marcadas e marcam quem ali vive.

A ARTE

A conversar com um arquitecto, a geografia tem um lado político. Quem acompanha o blogue não estranha o discurso. Nas vésperas desta conversa, escreveu no blogue: “Por aqui, uma demência conservadora estarrecedora continua a tentar convencer toda a gente dos benefícios da economia trickle-down — a ideia delirante de que se houver uns quantos bilionários a sua riqueza vai pingar magicamente para todos à sua volta —, o texto do Weekly Standard mostra com números e estudos que, mesmo no último reduto da cultura empresarial libertária, a desigualdade só continua a aumentar. Basicamente, a mensagem é agora: ‘Habituem-se!!’ Estamos na polis num momento em que expressões ou palavras como estratificação social, estigma, exclusão, segregação estão na agenda de quem vive e gere esse espaço de partilha que é a cidade e a distopia parece ter dado lugar à utopia quando se aponta um futuro.” Pedro Gadanho tem escrito sobre o assunto no seu blogue. Quem são os que andam todos os dias de metro, consomem televisão como pipocas, os que cruzam as ruas sem levantar a cabeça, compram por atacado em lojas de menos de um dólar? O que os distingue dos escravos ou dos servos da Idade Média? Pessimismos numa cidade para a qual o mundo se habitou a olhar como modelo? Que contemporaneidade é esta? Não é só arquitectura, mas a arquitectura também refl ecte o tempo em que o espaço se vive e em Nova Iorque vive-se mais um acomodar do que um inquietar que conduza a algo verdadeiramente inovador, considera Pedro Gadanho, que encontrou, como habitante desta cidade, “a enorme qualidade de vida que é viver entre o Central Park e o Riverside, numa zona muito dinâmica, cheia de cafés, pequenas lojas, escolas e cinemas. Aqui há vida”, refere, em contraste com o Upper East,

do outro lado do Parque que divide a ilha naquelas coordenadas, e onde vivem os mais ricos, “um lugar de lojas de luxo e uma enorme aridez social”. Há horas que a neve cai sem pausa em Nova Iorque. Os fotógrafos de bilhetes postais disparam para ângulos inéditos. Há sempre uma nova forma de captar o branco numa cidade. Fala-se do sol e do sul. “Se tiver um sítio, terá de ser o centro de uma cidade. Mas com praia por perto”, acrescenta. Talvez esse sítio seja Lisboa, onde volta sempre esteja onde estiver. Quando chegou aos Estados Unidos, há dois anos, a meta era o final de 2014. Mas no início de 2014, o prazo pode prolongar- se até 2016. Talvez sejam cinco anos em Nova Iorque. As exposições previstas no contrato que o levou ao MoMA estão organizadas. Uma estreia-se em Julho, Conceptions of Space (18 projectos adquiridos pelo museu nos últimos dois anos, onde se inclui um de Siza Vieira) e outra no Outono. Há trabalho a seguir. Gosta da perspectiva de ficar e garante que nunca sentiu a estranheza ou a sensação de perdição de quem chega sozinho a um lugar totalmente novo. “O social ligado

ao meio onde trabalho ajudou nessa integração. Quando cheguei fui à inauguração de uma exposição em que a anfitriã era a Charlotte Rappling. O convite falava em jantar íntimo, mas havia umas 400 pessoas. Foi uma óptima amostra do que se seguiria.” Durante os seis meses em que viveu sozinho na cidade andou nesse “social artístico”. “Agora estou com a família” — e o lugar onde escolheu morar reflecte essa condição. Proximidade de escola, tranquilidade, uma centralidade que lhe permite estar próximo, à distância de umas estações de metro, do sítio onde estaria se fosse sozinho: o Soho, mais do que Chelsea, com as suas galerias hiper-inflaccionadas. Frequenta-as quando se justifica. A Longhouse Projects, em Hudson Square, onde está representada a portuguesa Joana Cardoso, por exemplo. “Muitos artistas mudaram- se para Brooklyn por causa da especulação de Chelsea, mas é uma situação ainda muito emergente. Em Chelsea está o reconhecimento. Mas está tudo mais disperso, com várias centralidades no campo criativo.” Ele é o viajante atento, mais uma vez. Nova Iorque é o seu centro, mas na arquitectura não é lá que tudo acontece. É um agregador de tendências globais a partir da rua 53, não muito longe dos museus que frequenta como qualquer consumidor de arte: o Museum of Arts and Design (MAD), em Columbus Circle, o Whitney, bem perto, ou o New York City Museum, uma descoberta sobre a cidade quase sempre ignorada por quem a visita. Olha-se em volta no Café Lalo. Há uma velha senhora numa garridice felliniana. Mais uma vez o cinema a ajudar, a dar coordenadas, ou sentido, ou o que se quiser que ajudasse a tornar um lugar mais familiar. E houvesse realizador e a imagem do início voltaria num plano pouco original. A bicicleta como ideia de partida para um passeio. Basta que passe o tempo da neve. Agora sobe a rua, pisando o branco que nunca antes foi pisado, passando por uma bicicleta parada, num passeio, em frente a uma porta. E se houvesse mar por ali, era lá que os olhos se fixavam. “É do que sinto mais falta por aqui. Mar e praia.”

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MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 11/AI/2014

MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 12/AI/2014

-----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se o infractor 孫有良(portador do Salvo-Conduto para Deslocação a Hong Kong e Macau da RPC n.° W44964XXX), que na sequência do Auto de Notícia n.° 5.1/DI-AI/2012 de 21.01.2012, levantado pela DST, por controlar a fracção autónoma situada na Avenida da Amizade n.° 898, Edf. Amizade, 14° andar H e utilizada para a prestação ilegal de alojamento, bem como por despacho da signatária de 24.01.2014, exarado no Relatório n.° 9/DI/2014, de 02.01.2014, lhe foi determinada a aplicação de uma multa de $200.000,00 (duzentas mil patacas), e ordenada a cessação imediata da prestação ilegal de alojamento no prédio ou da fracção autónoma em causa, nos termos do n.° 1 do artigo 10.° e n.° 1 do artigo 15.°, todos da Lei n.° 3/2010.-------------------------------------------O pagamento voluntário da multa deve ser efectuado no Departamento de Licenciamento e Inspecção destes Serviços, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, de acordo com o n.° 1 do artigo 16.° da Lei n.° 3/2010, findo o qual será cobrada coercivamente através da Repartição de Execuções Fiscais, nos termos do n.° 2 do artigo 16.° do mesmo diploma.----------------------------Da presente decisão cabe recurso contencioso para o Tribunal Administrativo, a interpor no prazo de 60 dias, conforme estipulado na alínea b) do n.° 2 do artigo 25.° do Código do Processo Administrativo Contencioso, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 110/99/M, de 13 de Dezembro e no artigo 20.° da Lei n.° 3/2010.--------------------------------------------------------------------------------------------------------Há lugar à execução imediata da decisão caso esta não seja impugnada.---------------------------------------------------------------------------O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício “Centro Hotline”, 18.° andar, Macau.-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Direcção dos Serviços de Turismo, aos 24 de Janeiro de 2013. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes

-----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se a infractora LAI TAI HO (portadora de Hong Kong Permanent Identity Card n.° D5565xx(x)), que na sequência do Auto de Notícia n.° 5/DI-AI/2012 de 21.01.2012, levantado pela DST, por prestação ilegal de alojamento da fracção autónoma situada na Avenida da Amizade n.° 898, Edf. Amizade, 14° andar H, bem como por despacho da signatária de 24.01.2014, exarado no Relatório n.° 10/DI/2014, de 02.01.2014 lhe foi determinada a aplicação de uma multa de $200.000,00 (duzentas mil patacas), e ordenada a cessação imediata da prestação ilegal de alojamento no prédio ou da fracção autónoma em causa, nos termos do n.°1 do artigo 10.° e n.°1 do artigo 15.°, todos da Lei n.° 3/2010.-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------O pagamento voluntário da multa deve ser efectuado no Departamento de Licenciamento e Inspecção destes Serviços, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, de acordo com o n.° 1 do artigo 16.° da Lei n.° 3/2010, findo o qual será cobrada coercivamente através da Repartição de Execuções Fiscais, nos termos do n.° 2 do artigo 16.° do mesmo diploma.----------------------------Da presente decisão cabe recurso contencioso para o Tribunal Administrativo, a interpor no prazo de 60 dias, conforme estipulado na alínea b) do n.° 2 do artigo 25.° do Código do Processo Administrativo Contencioso, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 110/99/M, de 13 de Dezembro e no artigo 20.° da Lei n.° 3/2010.--------------------------------------------------------------------------------------------------------Há lugar à execução imediata da decisão caso esta não seja impugnada.---------------------------------------------------------------------------O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício “Centro Hotline”, 18.° andar, Macau.-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Direcção dos Serviços de Turismo, aos 24 de Janeiro de 2014. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes


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DESPORTO

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LIGA DE ELITE LEÕES VENCERAM MONTE CARLO POR 2-0

Sporting surpreende o campeão ANTÓNIO MIL-HOMENS

info@hojemacau.com.mo

O

Sporting Clube de Macau operou ontem uma estreia de sonho no principal campeonato de futebol do território ao derrotar por 2-0 o campeão Clube Desportivo Monte Carlo por dois golos sem resposta em partida a contar para a ronda inaugural da edição de 2014 da Liga de Elite. Os leões do território, que venceram na última temporada o Campeonato de Futebol da II Divisão, tinham um baptismo difícil no primeiro escalão mas acabaram por surpreender tudo e todos como um futebol inteligente e um grande sentido de responsabilidade dentro das quatro linhas. Frente ao “todo poderoso” Monte Carlo, o Sporting não se intimidou e assinou uma entrada irreverente no desafio. A formação orientada por João Maria Pegado entrou decidida na partida e dominou durante os cinco primeiros minutos do encontro antes do Monte Carlo reivindicar, com alguma naturalidade, uma maior acu-

tilância ofensiva. Com uma boa capacidade de circulação de bolas, os campeões do território alinharam sem um ponta-de-lança de raiz e mostraram-se perdulários e displicentes no capítulo da finalização. Apesar de um maior domínio ofensivo, o onze “canarinho” não conseguiu criar oportunidades de golo flagrante e nos restantes lances Juninho mostrou ser uma aposta segura para a baliza dos leões. O apertar do cerco do Monte Carlo diluiu-se aos

LIGA DE ELITE - 1.ª JORNADA • RESULTADOS Polícia

0 – 1

Benfica

Kei Lun

0 – 4

Lai Chi

Sporting

2 – 0

Monte Carlo

Sub-23

0 – 4

Chao Pak Kei

Folgou o Ka I Equipa

J V E D GM-GS

Pontos

Chao Pak Kei

1

3

Lai Chi

1 1 0 0 4-0

3

Sporting

1 1 0 0 2-0

3

Benfica

1 1 0 0 1-0

3

Polícia

1 0 0 1 0-1

0

Monte Carlo 1 0 0 1 0-2

0

Kei Lun

1 0 0 1 0-4

0

Sub-23

1 0 0 1 0-4

0

Ka I

- - - - -

-

1

0

0

4-0

poucos e a passagem da meia-hora de jogo trouxe de volta um Sporting arrojado e pouco temeroso. Os titulares do campeonato da II Divisão começaram a aproveitar os espaços concedidos pelo adversário e a rondar com maior insistência o último

reduto do adversário. Aos 31 minutos, o Sporting beneficia de um livre directo em posição lateral à baliza de Domingos Chan e Wamba bate em jeito para uma defesa fácil do guarda-redes do Monte Carlo. Perseverantes, os leões voltam a levar perigo ao último reduto “canarinho” menos de dois minutos depois, mas a defesa dos campeões do território afasta sem grandes meneios as duas tentativas da linha avançada leonina. O primeiro golo da partida acabaria por surgir pouco depois, aos 35 minutos. O Sporting ganha uma falta à entrada da área adversária e aproveita da melhor forma a oportunidade. Em posição frontal à baliza de Domingos Chan, Bruno Brito cobra com perícia o livre directo e surpreende o veterano guardião na baliza do Monte Carlo. Com uma defesa displicente e muitas dificul-

dades na frente de ataque, os campeões do território procuraram responder dois minutos depois, com um passe longo para Leong Ka Hang na frente de ataque. Atento, no último reduto do Sporting, Juninho resolveu com uma saída segura de entre os postes. Embalados pelo golo, os leões não deixaram de atacar e aos 39 minutos uma falta ingénua de um defesa do Monte Carlo sobre Alexandre Matos em plena grande área “canarinha” acabou por provocar um rombo inultrapassável nas ambições dos campeões de Macau. O árbitro apontou para a marca de onze metros e Jardel não desperdiçou, duplicando a vantagem de que o Sporting Clube de Macau dispunha no placard. A perder por duas bolas a zero, o Monte Carlo procurou fazer o que lhe competia na etapa complementar, mas

ÁGUIAS DERROTARAM POLÍCIA PELA MARGEM MÍNIMA

Benfica entra a vencer na Elite C

OM um golinho apenas se acrescenta valor. A Casa do Sport Lisboa e Benfica de Macau não defraudou as expectativas dos que a consideram uma das principais candidatas ao título e entrou a vencer na edição de 2014 da Liga de Elite. As águias do território derrotaram a exigente formação do Grupo Desportivo da Polícia de Segurança Pública pela margem mínima (1-0), num desafio de sentido único. Apesar de se ter limitado a defender durante a maior parte da partida, o onze das forças de segurança do território assinou a primeira grande oportunidade do desafio ao fim de pouco mais de um minuto e meio de jogo. Titular na baliza do Benfica, Fong Chi Hang afastou para canto um cruzamento tenso do ataque adversário, impedindo que a temporada encarnada se iniciasse com um amargo de boca. A formação orientada por Daniel Pinto não se ressentiu do susto e precisou de menos de cinco minutos para chamar a si as despesas do encontro. Aos nove minutos, o brasileiro Fabrício Lima colocou pela primeira vez à prova Leong Chon Kit na baliza do Grupo Desportivo da Polícia de Segurança Pública. O Macau e Benfica dominava sem grande réplica do adversário mas

demonstrou sempre muitas dificuldades no capítulo da finalização. Aos 19 minutos, Niki Torrão conseguiu libertar-se da marcação da defensiva adversária, mas precipitou-se no remate e acabou por desperdiçar o que se afigurava ser uma boa oportunidade. O antigo dianteiro do Ka I voltou a estar em evidência dois minutos depois, ao desferir um pontapé colocado em posição frontal à baliza adversária. A iniciativa falhou por muito pouco o reduto à guarda de Leong Chon Kit. Aos 34 minutos foi a vez de Fabrício voltar a tentar a sorte, com um remate de primeira que não chegou a incomodar o último homem da Polícia. Bruno Martinho, avançado que se destacou com a camisola encarnada na recta final da última época, só aos 39 minutos deu um ar da sua graça, assinando uma das melhores iniciativas da primeira parte com um remate colocado, desferido a quase quarenta metros da baliza adversária. O antigo dianteiro do Amora acabaria por se revelar uma das principais figuras do desafio. Aos 62 minutos, o avançado, de 24 anos, ofereceu a vitória ao Benfica ao cobrar com inexcedível perícia um livre directo a mais de trinta metros da baliza à guarda de Leong Chon Kit.

GONÇALO LOBO PINHEIRO

MAR CO CARVALHO

os leões responderam com uma grande maturidade táctica. A formação orientada por João Maria Pegado criou a primeira oportunidade da segunda parte e entregou depois a iniciativa de jogo ao adversário, apostando de um modo esclarecedor no contra-ataque. O Clube Desportivo Monte Carlo dominou sem grandes sobressaltos durante os segundos quarenta e cinco minutos, mas apenas por uma ocasião dispôs de uma oportunidade flagrante para reduzir a diferença. Á passagem da hora de jogo, Rafael Medeiros isolou-se na frente de ataque e tentou fintar Juninho na grande área do Sporting, mas o guarda-redes brasileiro levou de vencida o duelo com o compatriota e impediu que o marcador se alterasse. Os trinta derradeiros minutos do desafio ficaram pautados pela insistência quase sufocante do Monte Carlo, mas uma exibição irrepreensível por parte da defesa dos leões sancionou a primeira grande surpresa da Liga de Elite. Irreverente, o Sporting impôs uma impensável derrota aos actuais campeões de Macau.

O desafio perdeu interesse após o golo encarnado e voltaria a ser Bruno Martinho a sacudir a monotonia, com um remate à meia-volta que quase surpreende o guarda-redes da Polícia de Segurança Pública. A última oportunidade da partida acabaria por pertencer ainda assim a Filipe Duarte. O central encarnado subiu ao último reduto da Polícia e quase marcou de cabeça o segundo golo do Benfica. Á formação das forças de segurança valeram os instintos de Leong Chong Kit, que responde com uma grande defesa. Os vice-campeões do território estrearam-se com uma vitória na edição de 2014 da Liga de Elite, mas viram Cuco contrair uma lesão com gravidade na recta final da partida. O atleta, de origem são-tomense, foi conduzido ao Hospital Conde de São Januário para observação. - M.C.


FUTILIDADES

hoje macau segunda-feira 10.2.2014

TEMPO

C H U VA

FRACA

MIN

8

MAX

11

HUM

80-95%

CINEMA

Cineteatro

EURO

10.9

BAHT

0.2

YUAN

17

1.3

HOJE NO PRATO Paula Bicho

Naturopata e Fitoterapeuta • obichodabotica@gmail.com

JUSTIN AND THE KNIGHTS OF THE VALOUR [A] (FALADO EM CANTONÊS) Um filme de: Mauel Sicilia 16.00 THE LEGO MOVIE SALA 1

FROM VEGAS TO MACAU [C] (FALADO EM CANTONÊS LEGENDADO EM CHINÊS E INGLÊS) Um filme de: Wong Jing Com: Chow Yun-Fat, Nicholas Tse 14.30, 16.15, 19.45, 21.30

JUSTIN AND THE KNIGHTS OF THE VALOUR [A] (FALADO EM CANTONÊS) Um filme de: Mauel Sicilia 18.00 SALA 2

JACK RYAN: SHADOW RECRUIT [C] Um filme de: Kenneth Branagh Com: Keira knightley, Kevin costner 14.00, 20.00, 21.50

Linho

SAVING MR.BANKS [B] Um filme de: John Lee Hancock Com: Tom Hanks, Emma Thompson, Colin Farrel, Paul Giamatti 17.45

Nome botânico: Linum usitatissimum L. Família: Linaceae. Nomes populares: Linhaça; Linho-da-terra; Linho-de-inverno; Linho-galego; Linho-mourisco.

SALA 3

THE LEGO MOVIE [A] (FALADO EM CANTONÊS) Um filme de: Phil Lord, Chris Miller 14.00, 20.00

THE BOOK THIEF [B] Um filme de: Brian Percival Com: Sophie Nelisse, Geoffrey Rush, Emily Watson 15.50, 21.50

THE LEGO MOVIE [3D] [A] (FALADO EM CANTONÊS) Um filme de: Phil Lord, Chris Miller 18.10

Tremer de frio durante 15 minutos equivale a uma hora de exercício • Tremer de frio pode ser tão eficaz quanto a prática de exercícios e ajudar a manter a forma, de acordo com uma pesquisa feita pelo Instituto de Sydney Garvan. As duas acções produzem reacções que ajudam a queimar calorias e, segundo o estudo, produzem a gordura castanha, que auxilia no emagrecimento. As informações são do Daily Mail. A transformação de gordura branca em castanha pode proteger os animais contra diabetes, obesidade e gordura no fígado. Pessoas com mais gordura castanha têm níveis de glicose mais baixos.

Equipa italiana do Bagheria marca oito golos na própria baliza • Marcar 8 golos num jogo é obra! Marcar 8 golos num jogo mas na própria baliza, é nem sei bem como classificar! Mas foi o que aconteceu em Itália. O caso aconteceu num jogo de futebol em Itália entre equipas da oitava divisão e referente à Taça da Sicília, no qual o Borgata Terrenove venceu o Bagheria por números pouco comuns: 14-3. Tudo corria normalmente até ao momento em que estava 6-3 a favor Borgata Terrenove, quando faltavam 10 minutos para acabar o jogo. Foi aí que tudo mudou. Segundo os jornais italianos, os futebolistas da equipa local ficaram atónitos, perante a súbita reacção do adversário. Nos últimos 10 minutos o Bagheria marcou na sua própria baliza oito golos ampliando o resultado para os anormais 14-3.

MIRTHA SOSA CONFESSA AMOR POR MOURINHO Mirtha Sosa é uma afamada modelo paraguaia que nos últimos anos tem tentado a sorte fora do seu país, nomeadamente em Espanha, no mundo da moda. Estando ainda numa fase inicial do percurso, poderá dizer-se, porém, que não tem tido azar, sendo já rosto principal de várias campanhas. Mas não só. O mediatismo também foi revelado em algumas saídas nocturnas onde conheceu alguns craques do Real Madrid. Depois de regressar ao Paraguai, a modelo deu uma entrevista, ao Portal Crónica, na qual explicou o período que passou em Espanha. Disse ter guardado algumas amizades, com pessoas reconhecidas, mas nada mais. Na referida publicação, porém, deixou escapar um desabafo. “O meu único amor impossível é Mourinho.”

fonte da inveja

O poder nunca esteve na ponta de uma espingarda

mas no dedo que prime o gatilho.

João Corvo

Originário da Europa e Ásia, o Linho é cultivado em numerosos países de clima temperado. Cresce de 40 a 80 cm de altura e apresenta bonitas flores de cor azul clara; o fruto é uma cápsula com 10 sementes castanhas. O nome da espécie usitatissimum, utilizadíssimo, alude aos seus múltiplos usos ao longo da História. A cultura do Linho remonta à Babilónia cerca de 3000 anos a.C., sendo inicialmente conhecido como planta têxtil. Era com tiras de Linho que os Egípcios envolviam as suas múmias. Na Idade Média, os pintores utilizavam o seu óleo na composição da têmpera, tornando as cores mais brilhantes e fáceis de usar. O óleo é ainda empregue no fabrico de tintas, vernizes, lacas, tintas para escrita e impressão e linóleos. Como planta alimentar e medicinal o seu uso data do século V a.C. Foi recomendado por Hipócrates e referido por Teofrasto na sua História das Plantas. No século XII, Santa Hildegarda, usava papas de Linhaça em compressas quentes no tratamento de diversas enfermidades. Já no século XVIII, foi muito apreciada a água de Linho, como bebida para conservar a saúde. Atualmente continua a ser uma planta de eleição em fitoterapia. São usadas as sementes ou Linhaça. COMPOSIÇÃO Elevado conteúdo em fibras, ácidos gordos polinsaturados e proteínas; linhanos, sais minerais, vitamina B1 e fitosteróis; hidratos de carbono em escassa percentagem e vestígios de heterósidos cianogénicos. Suave sabor a Noz. AÇÃO TERAPÊUTICA Excelente planta para o sistema digestivo, o Linho combate a inflamação, suaviza, protege e regenera as mucosas digestivas; além disso, estimula o peristaltismo, equilibra a flora intestinal regulando os processos de putrefação e fermentação, lubrifica as fezes tornando-as mais moles e retira-lhes o seu cheiro pútrido. É muito utilizado na obstipação crónica e sempre que se deseje uma evacuação rápida com fezes brandas

(hemorroidas, fissuras anais), mas pode igualmente ser empregue na diarreia; é ainda indicado, como adjuvante, nos estados inflamatórios do estômago e intestinos. O Linho baixa os níveis de colesterol total e LDL (o mau) no sangue, combatendo a aterosclerose e prevenindo o enfarte. É especialmente benéfico para os diabéticos, por diminuir a glicemia e proteger os rins dos danos causados por esta afeção. Pelo seu conteúdo em ácidos gordos polinsaturados é um excelente complemento na dieta das crianças hiperativas (TDAH), diminuindo os sintomas e melhorando o seu comportamento. OUTRAS PROPRIEDADES Externamente são usadas as cataplasmas, pelas suas propriedades anti-inflamatórias, antiespasmódicas e calmantes; são ótimas no catarro e bronquite, e nas cólicas (menstruais, renais, biliares ou intestinais); são ainda úteis nas picadas de insetos, gânglios inflamados, abcessos e furúnculos, os quais ajuda a amadurecer e extrair. O óleo de Linho é um suavizante da pele, empregue em caso de eczemas, pele ressequida e queimaduras. COMO TOMAR USO INTERNO • Maceração das sementes: 1 ou 2 colheres de sopa por copo de água, deixar em repouso 8 a 12 horas. Tomar 2 ou 3 vezes por dia. • As sementes inteiras ou moídas na hora podem ser adicionadas aos cereais de pequeno-almoço, iogurtes, pão, bolos, saladas de vegetais, sopas ou pratos cozinhados. • Óleo de Linho: Utilizado em cru, como tempero dos alimentos, ou em cápsulas. USO EXTERNO • Cataplasma da farinha de Linhaça (sementes moídas): 30 a 50 g por litro de água fervente, mexer até obter uma papa espessa. Aplicar diretamente sobre a pele ou sobre um pano de algodão. • Óleo de Linho: Aplicar como loção sobre a pele afetada. PRECAUÇÕES Em virtude da sua riqueza em ácidos gordos polinsaturados que rançam muito rapidamente e se tornam irritantes, a farinha e o óleo devem ser recentes. Em caso de dúvida, consulte o seu profissional de saúde.


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OPINIÃO

hoje macau segunda-feira 10.2.2014

MAR CO CARVALHO

expediente cínico

O amor em tempos de turba

H

Á quem mantenha inculcadas na pele as primeiras impressões de Macau com a mesma romântica devoção com que se preserva a memória de um primeiro beijo. A abraço insidioso e monótono do calor de Junho (a humidade, insubmissa, a rastejar sobre o corpo com o inequívoco desnorte de um congolote ou de uma centopeia, o ar denso e áspero, imóvel e ftártico na sua tepidez termal) não se esquece com ligeireza. A força do hábito e o correr dos anos ajudam a dirimir a estranheza: interrompido de quando em quando pela imprevisível bestialidade de um tufão, o calvário de um verão tropical torna-se mais fácil de suportar quando se domina o cardápio de estratégias e artimanhas com que o subconsciente se propõe derrotar o inferno. No feliz chavão de Fernando Pessoa, primeiro estranha-se, depois entranha-se: evitam-se ruas estranguladas pelo trânsito, o suplício das horas de maior exposição, inventam-se falsos desvios de consumo para amortecer o calor sob o refrigerado eléctrico de lojas de roupa e de sapatilhas e o indómito rigor estival vai esmorecendo. Desaparecesse com tão natural facilidade a sórdida dimensão que por cá se enreda (como o mais nefasto dos sargaços) em algumas palavras e pregões e compactuar com Macau não seria, porventura, tão extenuante e tão constrangedor. Alimentei durante algum tempo, não sem grande ingenuidade, a frágil ilusão de que a morte das ideologias iria redimir a linguagem e depurá-la do engodo providencialista que transforma uma ou outra palavra, um ou outro conceito num nada absoluto. Quando a relação entre significado e significante se esgota ou se articula em demasia com princípios de abstracção, o sentido dado à linguagem espartilha-se e com ele desmoro-

na-se a percepção que temos do mundo. Ao contrário do que seria de supor, o estertor das ideologias não trouxe consigo a desejada objectivação da linguagem e no domínio do discurso político o inimaginável aconteceu. O trato das ideias, a discussão dos conceitos foi substituída por um sem fim de parangonas, de eufemismos e de metáforas que em vez de clarificarem, escondem. Como bom aluno que é, o governo de Macau depressa interiorizou que são muitas e infindáveis as vantagens de se desarticular a linguagem. Depois de anos a fio a ouvir a “comunidade

“Talentos” é um número de circo em que anões gibraltinos jogam à apanhada com mulheres barbudas em bicicletas conduzidas por pinguins voadores. A trôpega definição do conceito deixa as portas escancaradas à imaginação, mas o preciosismo nem é dos que mais incomoda. O slogan com que Macau se promove em termos turísticos fora de portas, esse sim, deixa-me fulo. Por muito condescendente que procure ser, não encontro significado algum no chavão que se correlacione de forma inequívoca com o território que lhe é

Em abono da verdade, a ladainha também não necessita de significar coisa alguma. Os milhões gastos todos os anos pelo governo do território em campanhas de promoção turística nas mais cotadas cadeias internacionais de televisão são um exemplo acabado de desperdício dos dinheiros do erário público internacional” insinuar-se contra os males do mundo em “guerras preventivas” contra “terroristas” invisíveis (mas que caem como tordos em “ataques cirúrgicos”) e de ter percebido que em Portugal os idosos são indignos se não forem aberrantemente designados de “seniores”, o executivo da Região Administrativa Especial adoptou sem grande pundonor o seu próprio evangelho de redundâncias e estrafegou a língua com um rosário de inutilidades, de conceitos que dissimulam um vazio de ideias por detrás da cortina de nevoeiro que floresce sob a equívoca forma de um emaranhado de letras. Atente-se naquela que foi para muitos a palavra-chave das últimas Linhas de Acção Governativa. Quadros qualificados já é eufemismo que chegue. “Cérebros”, designação enraizada no Ocidente, é conceito que sofre de uma sofreguidão aberratória.

significante. Se o pregão se ficasse por “Macau, um mundo de diferença” confesso que seria, eventualmente, mais difícil contestar-lhe a validade. Como o mote é nebuloso demais, atormento-me meia volta a tentar encontrar ali indícios do que possa significar. Convenço-me depois de que se em vez de “diferença” ali estivesse “vrenhec” (“Num mundo de vrenhec, o vrenhec é Macau”) a frase continuaria a significar o mesmo: uma mão cheia de nada. Em abono da verdade, a ladainha também não necessita de significar coisa alguma. Os milhões gastos todos os anos pelo governo do território em campanhas de promoção turística nas mais cotadas cadeias internacionais de televisão são um exemplo acabado de desperdício dos dinheiros do erário público; com ou sem acções de divulgação, Macau continuará a receber milhões de

turistas porque mais do que “diferença” ou do que “vrenhec” oferece a quem a visita indeléveis, mas ainda assim tentadoras, possibilidades de redenção. A ânsia de ver a vida transformada por uma simples volta da roleta é o que traz a Macau uma boa parte da turba que a visita e os responsáveis pela Direcção de Serviços de Turismo fariam melhor se em vez de ficcionar a cidade, se apressassem a reconhece-la pelo que ela é: um subterfúgio de tentação e de caos que dilacera em menos de nada a imagem de romance e de expectativa com que a RAEM se vende ao mundo nos vídeos pastiche com que normalmente se apresenta quem pouco tem para oferecer. O centro da cidade foi sacudido por uma enxurrada de gente nos longos dias do Ano Novo Lunar e o tsunami, como seria de se esperar, teve um impacto devastador na “psyche” dos residentes do território. Ingénuos, sonham com o reforço dos cheques pecuniários, mas não disfarçam o incómodo por ver o Senado transformado num maralhal de curiosos com máquina fotográfica em riste e todo o tempo do mundo. Os mais impacientes praguejam e deitam má cara aos que nos visitam quando se apanham entalados no meio de um grupo de japoneses ou tentam, em vão, contornar o casal de namorados que segue, la main dans la main, num deambular apaixonado pelos estreitos passeios da Almeida Ribeiro. Não se apercebem, os ingratos de Macau, que eles – os jovens inebriados que nos visitam – também são vítimas. Compraram a ideia de um céu iluminado por rasgos de fogo de artifício e receberam o medonho azul abobadado do Venetian. Sonharam com uma Macau tranquila, vivida a dois e tiveram de a partilhar com um sem fim de almas em trânsito, um sem fim de encontrões, um sem fim de impacientes. Como é feio em Macau, o amor em tempos de turba.

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MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 17/AI/2014

-----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se os infractores LIN GUOMING (portador do Passaporte da China n.° G38150XXX), WANG JIEHONG (portadora do Passaporte da China n.° G21832XXX) e ZHENG YIJI (portador do Passaporte da China n.° G45911XXX), que na sequência do Auto de Notícia n.° 105/DI-AI/2012 e 10.10.2012, levantado pela DST, por controlar a fracção autónoma situada na Avenida da Amizade, n.os 361-B - 361-K, Edf. I On Kok, 24.° andar D e utilizada para a prestação ilegal de alojamento, bem como por despacho da signatária de 24.01.2014, exarado no Relatório n.° 18/ DI/2014, de 03.01.2014 lhe foi determinada a aplicação de uma multa de $200.000,00 (duzentas mil patacas), e ordenada a cessação imediata da prestação ilegal de alojamento no prédio ou da fracção autónoma em causa, nos termos do n.° 1 do artigo 10.° e n.° 1 do artigo 15.°, todos da Lei n.° 3/2010.----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------O pagamento voluntário da multa deve ser efectuado no Departamento de Licenciamento e Inspecção destes Serviços, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, de acordo com o n.° 1 do artigo 16.° da Lei n.° 3/2010, findo o qual será cobrada coercivamente através da Repartição de Execuções Fiscais, nos termos do n.° 2 do artigo 16.° do mesmo diploma.--------------------------------------------------------------------Da presente decisão cabe recurso contencioso para o Tribunal Administrativo, a interpor no prazo de 60 dias, conforme estipulado na alínea b) do n.° 2 do artigo 25.° do Código do Processo Administrativo Contencioso, aprovado pelo Decreto-Lei n.° 110/99/M, de 13 de Dezembro e no artigo 20.° da Lei n.° 3/2010.------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Há lugar à execução imediata da decisão caso esta não seja impugnada.---------------------------------------------------------------------------------------O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d’Assumpção n.os 335-341, Edifício “Centro Hotline”, 18.° andar, Macau.---------------------Direcção dos Serviços de Turismo, aos 24 de Janeiro de 2014. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes

MANDADO DE NOTIFICAÇÃO N.° 44/AI/2014 -----Atendendo à gravidade para o interesse público e não sendo possível proceder à respectiva notificação pessoal, pelo presente notifique-se os infractores 李成(portador de salvo-conduto para deslocação a Hong Kong e Macau da RPC n.° W34851xxx) e 何兵 鋒(portador do passaporte da RPC n.° G37167xxx), que na sequência do Auto de Notícia n.° 9/DI-AI/2013, de 23.01.2013, levantado pela DST e por despacho da signatária de 29.01.2014, exarado no Relatório n.° 48/DI/2014, de 10.01.2014, lhe foi desencadeado procedimento sancionatório, por controlar a fracção autónoma situada na Avenida da Amizade n.o 898, Edf. Amizade, 11.° andar A e utilizada para a prestação ilegal de alojamento.---------------------------------------------------------------------------------------------------------------No mesmo despacho foi determinado, que deve, no prazo de 10 dias, contado a partir da presente publicação, apresentar, querendo, a sua defesa por escrito sobre a matéria constante daquele Auto de Notícia, oferecendo nessa altura todos os meios de prova admitidos em direito. Nos termos do n.° 2 do artigo 14.° da Lei n.° 3/2010 não é admitida apresentação de defesa ou de provas fora do prazo.--------A matéria constante daquele Auto de Notícia constitui infracção ao artigo 2.° da Lei n.° 3/2010, tal facto é punível nos termos no n.° 1 do artigo 10.° da Lei n.° 3/2010.--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------O processo administrativo pode ser consultado, dentro das horas normais de expediente, no Departamento de Licenciamento e Inspecção desta Direcção de Serviços, sito na Alameda Dr. Carlos d'Assumpção n.os 335-341, Edifício “Centro Hotline”, 18.° andar, Macau.--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------Direcção dos Serviços de Turismo, aos 29 de Janeiro de 2014. A Directora dos Serviços, Maria Helena de Senna Fernandes


opinião 19

hoje macau segunda-feira 10.2.2014

DAVID CHAN* legalpublicationsreaders@yahoo.com.hk • http://blog.xuite.net/legalpublications/hkblog

macau visto de hong kong

PARAMOUNT PICTURES, TO CATCH A THIEF

Fogo de artifício, foguetes e panchões

O

rebentamento de fogo de artifício é cativante. O céu fica cheio de cores e luz. As pessoas ficam presas ao espectáculo e gritam de cada vez que rebentam os foguetes. O fogo de artifício em Macau é permitido em determinados locais e em horas especificas. De acordo com o artigo 16 do Regulamento Geral dos Espaços Públicos (Regulamento Administrativo n.º 28/2004), o IACM informa o governo sobre o horário, o tipo de fogo e os locais onde os foguetes serão lançados, 90 dias antes do novo ano chinês (o IACM tem que submeter à tutela uma proposta de edital, para vigorar nos espaços públicos sob sua jurisdição). Em 2014, o fogo foi autorizado desde 30 de Janeiro até dia 5 de Fevereiro. O horário varia de dia para dia, mas de um modo geral o fogo pode ser lançado das 10 ou 12h até à meia-noite ou 2h. A Wikipedia diz que “fogo de artifício são explosivos pirotécnicos usados com fins estéticos, culturais e religiosos. O seu uso mais comum é em espectáculos (também chamados pirotécnicos) onde são lançados vários tipos de foguetes.”

A situação em Hong Kong é semelhante. O fogo de artifício é frequentemente lançado e a maioria das pessoas não reporta os casos à polícia. A razão deve ser a mesma de Macau Olhemos primeiro para Hong Kong. Por causa de alguns tumultos ocorridos em 1967, a utilização e armazenamento de fogo de artifício foi proibida. “Fogo de artifício” é definido como “explosivos” na secção 2 da “Dangerous Goods Ordinance” (Cap. 25). A classificação dos vários tipos de explosivos está no regulamento “Dangerous Goods (Application and Exemption) Regulations” (Cap. 295A). Fogo de artifício está na “categoria 7”. “Explosivos” são definidos como “Elementos perigosos” na secção 3 do mesmo regulamento. A secção 6(1) proíbe qualquer

produção, armazenamento ou transporte de elementos perigosos sem autorização.    Em 1982, aquando das negociações entre a China e a Grã-Bretanha para a transferência de soberania de Hong Kong houve muitas discussões. Para harmonizar o ambiente, a Jardine Matheson Holdings Ltd. gastou 1 milhão de HKD num espectáculo de fogo de artifício para “ celebrar os 150 anos da sua fundação”. Desde então que todos os anos há fogo de artifício em Hong Kong. Mas a população em geral continua a estar proibida de lançar fogo de artifício.  Em 2014, no Ano do Cavalo, a transmitiu um programa em que se discutia a mudança das regras do fogo de artifício. A TVB entrevistou vários deputados que declararam que Hong Kong devia fazer o que faz Macau, i.e. especificar horários e locais em que o fogo (panchões) pode ser lançado pela população. Por outras palavras, se a população não cumprir as indicações de horas e lançamento do fogo, estará a cometer um crime.. A ideia de aliviar as regras do lançamento de fogo não é nova em Hong Kong. Em 2 de Fevereiro de 2011, o website “sina.com” publicou uma notícia com uma ideia semelhante.

A experiência de Macau com o fogo de artifício deverá ser partilhada com Hong Kong? Não há dúvida que o método adoptado por Macau é bom. Por um lado permite que a população possa lançar fogo em locais e horas determinadas. Por outro, proíbe que isso aconteça noutros dias. O controlo e o relaxamento andam lado a lado criando um sistema positivo para a sociedade. Mas qual é a verdadeira prática na vida real? As pessoas só lançam panchões nos dias e locais indicados? No dia 4 de Fevereiro de 2014, o Macau Daily relatou que entre o dia 31 de Janeiro e o dia 2 de Fevereiro houve três acidentes, sem feridos, resultantes do lançamento de foguetes. No entanto, houve 75 feridos, cinco dos quais tiveram de ser internados no hospital, devido ao uso de fogo de artifício. Para além disto, o IACM confiscou mais de 740 foguetes por armazenamento ilegal. Podemos também verificar que muitas pessoa lançam foguetes a horas e em locais que não estão previamente designados. Alguns até desligam a luz e lançam foguetes em casa, correndo o risco de partir os vidros das janelas, e de incendiar a casa causando danos aos vizinhos. Há pessoas que lançam fogo perto de carros, fazendo disparar o alarme das viaturas e provocando poluição sonora. Não nos esqueçamos que os carros têm gasolina o que aumenta ainda mais os riscos.  Parece que a polícia não recebe muitos relatos deste tipo de casos. Deve ser porque o lançamento de fogo de artifício durante o ano novo é um costume da sociedade chinesa. Não deve haver relatos até que alguém fique gravemente ferido ou até que haja algum incêndio.  A situação em Hong Kong é semelhante. O fogo de artifício é frequentemente lançado e a maioria das pessoas não reporta os casos à polícia. A razão deve ser a mesma de Macau.  O lançamento de foguetes é o nosso costume chinês. É divertido. No entanto, provoca o risco de ferimentos tanto para quem os lançam como para quem observa. O tipo de explosivos e de materiais inflamáveis contidos nos foguetes pode ser usado para produzir uma bomba, por isso o seu uso devia ser rigorosamente controlado. Era bom que em Macau e Hong Kong se pensasse bem nisto. Será que devemos fechar os olhos ao lançamento não autorizado de foguetes só porque é um costume chinês? Será que devemos permitir que estas pessoas ponham em risco a sua saúde e a dos outros? Se adoptarmos em Hong Kong a mesma postura de Macau, como é que vamos lidar com esta situação? Como é que acabamos com estas infracções se elas quase não são relatadas? *Professor Associado no Instituto Politécnico de Macau

Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editor Gonçalo Lobo Pinheiro Redacção Andreia Sofia Silva; Cecilia Lin; Joana de Freitas; José C. Mendes; Rita Marques Ramos Colaboradores Amélia Vieira; Ana Cristina Alves; António Falcão; António Graça de Abreu; Hugo Pinto; José Simões Morais; Marco Carvalho; Maria João Belchior (Pequim); Michel Reis; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Tiago Quadros Colunistas Agnes Lam; Arnaldo Gonçalves; Correia Marques; David Chan; Fernando Eloy ; Fernando Vinhais Guedes; Isabel Castro; Jorge Rodrigues Simão; Leocardo; Paul Chan Wai Chi Cartoonista Steph Grafismo Catarina Lau Pineda; Paulo Borges Ilustração Rui Rasquinho Agências Lusa; Xinhua Fotografia Gonçalo Lobo Pinheiro; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Calçada de Santo Agostinho, n.º 19, Centro Comercial Nam Yue, 6.º andar A, Macau Telefone 28752401 Fax 28752405 e-mail info@hojemacau.com.mo Sítio www.hojemacau.com.mo


hoje macau segunda-feira 10.2.2014

Macau Plano para teatro Cheng Peng surge até Julho

O Instituto Cultural (IC) confirmou este Sábado que a proposta de renovação do teatro Cheng Peng, junto à Rua da Felicidade, vai ser apresentado ao público no primeiro semestre deste ano. O conteúdo da proposta corresponde ao projecto inicial, que versa um espaço de espectáculos e uma base de formação para o teatro cantonês. O Governo já terminou os trabalhos de cartografia e outros dados referentes à localização do teatro.

Macau Metro ligeiro condiciona trânsito

A partir de amanhã, o trânsito vai estar condicionado na Avenida Panorâmica do Lago Sai Van. Numa primeira fase, a faixa de rodagem da avenida, que fica junto ao terminal da Barra, passa a ter uma via única. Os condicionamentos devem-se às obras do metro e o empreiteiro vai vedar o espaço por fases.

China Aberta quarta estação de investigação na Antárctida

A China abriu a sua quarta estação de investigação na Antárctida depois de quase dois meses de trabalhos de construção, anunciou sábado a Administração Estatal Oceânica. A nova base, denominada Taishan – como uma das montanhas sagradas na China, na província oriental de Shandong – está localizada a uma altitude de 2.600 metros entre as estações de Zhongshan e Kunlun, que lhe darão apoio logístico. A Taishan poderá acolher até 20 pessoas durante a época de verão e vai funcionar entre os meses de Dezembro e Março para estudar a geologia, glaciares, atmosfera e o magnetismo terrestre na região. A estação está equipada com uma pista de aterragem especialmente desenhada para a neve e gelo. A primeira expedição da China à Artártida foi realizada em 1984, tendo aberto a sua primeira estação de investigação, a Grande Muralha, um ano depois. A Taishan estará em serviço cerca de 15 anos e responde ao interesse da China em aumentar a presença na região, bem como no Árctico, uma região rica em recursos naturais.

Macau Número de animais abandonados não aumentou

TRÁFICO HUMANO AUTORIDADES REGISTAM 24 VÍTIMAS DE EXPLORAÇÃO SEXUAL EM 2013

Metade dos casos não assumem “lenocínio” Depois de um “reforço” nas acções de patrulhamento, as autoridades conseguiram deslindar 17 casos de lenocínio, que envolveram 24 mulheres nas teias do tráfico humano. No entanto, o dobro dos casos estiveram sob investigação, mas as mulheres em causa recusaram ser vítimas de exploração sexual RITA MARQUES RAMOS rita.ramos@hojemacau.com.mo

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O ano passado, a Comissão de Acompanhamento das Medidas de Dissuasão do Tráfico de Pessoas apurou 34 casos “de possível exploração sexual” em Macau. Porém, o organismo concluiu que apenas metade estão associadas a crimes de tráfico humano, envolvendo 24 vítimas do sexo feminino. “Em 2013, a polícia reforçou as acções sobre tráfico de pessoas [TIP, na sigla inglesa], tendo encontrado 34 casos de possível exploração sexual, no entanto, 17 destes, depois de intensa investigação e até de aconselhamento com assistentes sociais e organizações não-governamentais religiosas, asseguraram que o faziam de livre

vontade, não envolvendo uma terceira entidade, por isso, não eram forçadas a prostituírem-se. Estes são casos vistos como actos sexuais recompensados e não como lenocínio”, explica ao HM a comissão tutelada por Cecília Lau. Entre as vítimas de tráfico humano, 10 eram menores com idades compreendidas entre os 14 e os 17 anos. A Comissão de Acompanhamento das Medidas de Dissuasão do Tráfico de Pessoas avançou ainda que, entre estes 17 casos, foram incriminadas oito pessoas. No entanto, apenas um dos casos conheceu acusação do Ministério Público, os restantes ainda estão sob investigação. “Chegaram a tribunal 12 casos, envolvendo 29 arguidos, que conheceram

sentença em 2013. Em oito destes casos, 24 pessoas foram consideradas culpadas, sendo que em três casos (nove incriminados) foi concedida liberdade condicional”, disse o organismo, em resposta enviada por e-mail. Por outro lado, houve um caso detectado do ano anterior que conheceu desfecho apenas em 2013. “Um caso de tráfico humano respeitante a 2012 conheceu sentença em Março de 2013 envolvendo nove arguidos, posteriormente considerados culpados com sentenças de prisão de cinco a nove anos.” Em 2014, até ao momento, ainda não se conhecem casos. A comissão lembra, no entanto, que o tráfico humano é “um crime sério” em todo o mundo e precisa de maior atenção por parte do público para que “se possam resgatar as vítimas tão cedo quanto possível”. Ainda assim, segundo dados cedidos ao HM pelo Gabinete do Coordenador de Segurança, no início de 2013, este ano baixaram o número de casos e vítimas de tráfico humano. Em 2012, houve 19 casos relacionados com a prática deste crime, que envolveram 31 vítimas do sexo feminino. No entanto, os números em 2012 bateram recordes relativamente aos anos anteriores. A lei de combate ao crime de tráfico de pessoas entrou em vigor em 2008.

cartoon por Stephff

A ANIMA afirma que depois das férias do Ano Novo Chinês o número de animais abandonados não teve um aumento significativo, mas que, nos últimos anos, a tendência tem mostrado um agravamento de casos de maus tratos e abandonos. Dados do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) mostram que há, em média, 600 animais abandonados por ano. Os motivos são a morte provocada do animal ou a falta de tratamento adequado a uma doença. Tanto a ANIMA como a Associação da Protecção dos Animais de Macau (APAAM) dizem que os espaços para abrigar os animais estão cheios, e voltam a pedir ao Governo uma lei que resolva o problema. O IACM diz que todos os anos há cerca de dois mil novos pedidos de licença para animais.

China 137,5 milhões de viagens de comboio no Ano Novo Lunar

A China atingiu este ano um novo recorde de viagens de comboio por ocasião das festividades do Novo Ano Lunar, a maior e mais importante festa das famílias chinesas, com 137,5 milhões de viagens. Os dados de 2014, que traduzem um aumento de 13,5% face ao apurado no ano passado, foram compilados entre 16 de Janeiro e 6 de Fevereiro, período em que se iniciou o regresso dos trabalhadores a casa para a passagem do Ano Lunar, naquele que é conhecido como o maior movimento migratório interno do planeta e se repete anualmente. Além do comboio, os milhões de migrantes utilizaram ainda o avião, o barco e os autocarros para chegarem aos seus destinos. Só na sextafeira, as autoridades registaram 8 milhões de viagens de comboio no regresso às cidades, embora muitos comboios tivessem sofrido atrasos devido às tempestades de neve que atingem o centro, este e norte do país, complicando o regresso ao trabalho no gigante asiático. Vários comboios de alta velocidade tiveram de diminuir a velocidade, outros 100 sofreram atrasos e 64 autoestradas foram encerradas em oito províncias. As autoridades meteorológicas alertaram que a neve vai continuar a cair em Pequim e no centro e no leste da China. A rede ferroviária chinesa, que tem provocado muitos escândalos de corrupção e levou ao desmantelamento do Ministério dos Caminhos de Ferro tinha no final de 2013 um total de 100.000 quilómetros, dos quais 10.000 em vias de alta velocidade.

Hoje Macau 10 FEV 2014 #3026  
Hoje Macau 10 FEV 2014 #3026  

Edição do jornal Hoje Macau N.º3026 de 10 de Fevereiro de 2014

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