Hoje Macau 01 JULHO 2022 #5040

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XINHUA

HOJE MACAU MOP$10

Nº 5041

DIRECTOR CARLOS MORAIS JOSÉ

ALL ABOUT MACAU

SEXTA-FEIRA 1-7-2022

ALFREDO GOMES DIAS

O FIM DAS DINASTIAS ENTREVISTA

HONG KONG 25 ANOS

A FORÇA DE UM PRINCÍPIO ANA JACINTO NUNES

PÁGINAS 2-3

CARLOS MORAIS JOSÉ LARES

UM CURTO CIRCUITO PÁGINA 5

CONSULADO

DESCONSOLO TOTAL PUB.

ÚLTIMA

Chuva de erros O dia ficou ontem marcado pela confusão nos centros de teste com a aglomeração de centenas de trabalhadores dos casinos e da construção civil obrigados pelo Governo a apresentarem um teste de ácido nucleico para irem trabalhar. Para agravar a situação, a chuva resolveu juntar-se à “festa”, acentuando o caos. O Executivo acabou por voltar atrás e retirou a medida. PÁGINAS 6-7

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QUE ANIMAL É ESTE?


2 hong kong

25 anos

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1.7.2022 sexta-feira

XI JINPING CHEGA DE COMBOIO, REAFIRMA PRINCÍPIO “UM PAÍS, DOIS SISTEMAS” E PROMETE

Um futuro mais “Os factos provaram a força do princípio”. O futuro da cidade, integrada na Grande Baía e incluída na estratégia nacional, só poderá ser mais risonho, sublinhou o presidente. Depois de um mau período, “Hong Kong emergiu mais forte”

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Presidente chinês Xi Jinping chegou a Hong Kong de comboio na tarde de ontem, quinta-feira. Xi, também secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista da China e presidente da Comissão Militar Central, assistirá a uma reunião de celebração do 25º aniversário do regresso de Hong Kong à pátria e à cerimónia inaugural do sexto mandato do governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK) a 1 de Julho. Xi e a sua esposa Peng Liyuan foram saudados pela Chefe Executiva da HKSAR Carrie Lam e pelo seu marido Lam Siu-por. Logo à chegada, o Presidente referiu que o futuro de Hong Kong será certamente mais brilhante se o princípio “um país, dois sistemas” for firmemente defendido e implementado. “Um futuro mais brilhante acenará, se formos em frente com perseverança”, disse Xi à chegada à estação ferroviária de alta velocidade de Kowloon Ocidental. Enquanto “um país, dois sistemas” for mantido inabalavelmente, Hong Kong terá certamente um futuro ainda mais brilhante e fará novas e maiores contribuições para o grande rejuvenescimento da nação chinesa, resumiu o presidente. “Os factos demonstraram a grande força de ‘um país, dois sistemas’”, não deixou de sublinhar. “Amanhã (hoje) celebra-se o 25º aniversário do regresso de Hong Kong à pátria.

Tendo resistido um largo período de tempo a “uma série de testes graves e superado uma série de riscos e desafios, Hong Kong emergiu mais forte e mostrou grande vigor”

Pessoas de todos os grupos étnicos do país juntar-se-ão aos compatriotas de Hong Kong para celebrar este alegre acontecimento. Gostaria de estender as minhas calorosas felicitações e os meus melhores votos aos compatriotas de Hong Kong”, afirmou o presidente.

“Os factos provaram a grande força de “um país, dois sistemas”, que garante a prosperidade e estabilidade a longo prazo de Hong Kong e assegura o bem-estar dos compatriotas de Hong Kong, concluiu Xi Tendo resistido um largo período de tempo a “uma série de testes graves e superado uma série de riscos e desafios, Hong Kong emergiu mais forte e mostrou grande vigor”, disse ainda Xi. “Os factos provaram a grande força de “um país, dois sistemas”, que garante a prosperidade e estabilidade a longo prazo de Hong Kong e assegura o bem-estar dos compatriotas de Hong Kong, concluiu Xi. Além disso, o Presidente felicitou os compatriotas de Hong Kong e expressou os seus melhores votos na ocasião que assinala o 25º aniversário do regresso de Hong Kong à pátria. O Vice-Presidente do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política Popular Chinesa Leung Chun-ying e o novo Chefe do Executivo da RAEHK, John Lee, também participaram na cerimónia de boas-vindas.


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hong kong

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risonho

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SECRETÁRIO PARA A SEGURANÇA LEI DE SEGURANÇA NACIONAL PRODUZIU RESULTADOS POSITIVOS

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secretário de Segurança da RAEHK, Chris Tang Ping-keung, não tem dúvidas: foram alcançados resultados positivos desde que a Lei de Segurança Nacional de Hong Kong foi aplicada em 2020, mas “a cidade tem de permanecer vigilante relativamente aos riscos de segurança nacional”. Fazendo a retrospectiva dos últimos dois anos, desde que a lei foi aprovada, Tang disse que as autoridades têm sido rigorosas na aplicação da lei e responsabilização dos infractores. Um total de 186 pessoas foram detidas por crimes de segurança nacional e 115 suspeitos foram processados, incluindo cinco empresas, revelou. Tang disse que incluem o magnata dos media Jimmy Lai Chee-ying e o Apple Daily - a publicação que ele usou para incitação bem como ex-membros do Conselho Legislativo. Dez pessoas envolvidas em oito casos foram condenadas, com o maior infractor condenado a nove anos. O ex-comissário da polícia actua como secretário de segurança desde o ano passado e permanecerá no seu cargo actual como chefe de segurança do novo governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong (RAEHK), que assumirá o cargo na sexta-feira. Apollonia Liu Lee Ho-kei, vice-secretária de segurança, disse que houve uma queda acentuada na violência e um declínio na interferência externa e incidentes de separatismo. O número anual de casos de incêndios criminosos diminuiu 67% e os danos criminais caíram em 28%, afirmou. Tang disse que a Lei de Segurança Nacional de Hong Kong e a melhoria do sistema eleitoral ajudaram a cidade a passar do caos para a estabilidade. No entanto, ele disse que os riscos de segurança ainda existem devido a questões geopolíticas internacionais. Um grande risco é o terrorismo local, como

Tang Ping-keung

ataques de “lobo solitário” e fabricação e lançamento de explosivos em parques e transportes públicos, disse. “As forças estrangeiras e os seus agentes locais ainda querem minar a estabilidade de Hong Kong e da nação por vários meios, sendo que as autoridades devem permanecer em alerta máximo”, acrescentou. “Para lidar com esses riscos, a recolha de inteligência é a chave e também devemos ser muito rigorosos na aplicação da lei”, disse ele. “Se houver alguma evidência sugerindo violações da lei de segurança nacional de Hong Kong ou outras leis que ponham em risco a segurança nacional, precisamos agir”. Tang afirmou que Hong Kong deveria promulgar o Artigo 23 da Lei Básica para proibir mais categorias de crimes graves de segurança nacional, como traição, sedição e roubo de segredos de Estado, os quais não são abordados pela Lei de Segurança Nacional de Hong Kong. “Embora a pandemia de Covid-19 tenha afectado o trabalho legislativo, faremos os maiores esforços para pressionar a promulgação do Artigo 23 da Lei Básica o mais rápido

possível para lidar com os riscos de segurança nacional existentes e futuros em Hong Kong”, disse ele. O Departamento de Segurança promoveu também a educação de segurança nacional entre os jovens, particularmente no Dia Nacional de Educação em Segurança, em 15 de abril, disse ele. Nas escolas, as agências deram ênfase adicional aos guias curriculares e aos elementos de segurança nacional no desenvolvimento e aprendizado dos alunos, bem como ao treinamento de professores, disse Tang. “Para os jovens que cometeram delitos, as instituições correcionais têm programas especiais para ensinar história chinesa, construir relacionamentos saudáveis com sua família e formar um sentimento de orgulho na pátria”, acrescentou. Tang disse que o princípio de “um país, dois sistemas” é a melhor configuração para Hong Kong e um garante de prosperidade de longo prazo na cidade. “A robustez do princípio ‘um país, dois sistemas’ só pode ser assegurada pela adesão a ‘um país’. Qualquer tentativa de desconsiderar essa premissa está destinada ao fracasso”, acrescentou.


4 política

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SOFIA MARGARIDA MOTA

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Kevin Ho “As duas RAE são ambas as janelas do nosso país para o mundo. Podem dar as mãos nas indústrias de conferências e exposições, turismo, e finanças”

LÍDERES DA INDÚSTRIA LOCAL ESPERAM UMA COOPERAÇÃO MAIS ESTREITA COM HK

Tempo de dar as mãos

Os empresários de Macau acreditam que mais cooperação com Hong Kong, criando complementaridades, será benéfico para a RAEM e para a construção da Grande Baía Kevin Ho, presidente da Associação da Indústria e Comércio de Macau, afirmou que Hong Kong, um centro financeiro internacional, e Macau, que se esforça por se transformar num centro mundial de turismo e lazer, podem procurar uma cooperação e desenvolvimento complementares. RÓMULO SANTOS

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S líderes da indústria de Macau expressaram confiança de que a RAE de Macau e a RAE de Hong Kong podem trabalhar em estreita colaboração e integrar-se melhor na construção da área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, aproveitando as vantagens do princípio “um país, dois sistemas”, dada a proximidade das duas cidades e histórias semelhantes. Por ocasião do 25º aniversário do regresso de Hong Kong à pátria, os líderes da indústria na RAEM expressaram confiança em que as duas cidades possam trabalhar em estreita colaboração e integrar-se melhor na construção da Área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, aproveitando as vantagens do princípio “um país, dois sistemas”.

“As duas RAE são ambas as janelas do nosso país para o mundo”, disse Ho. “Podem dar as mãos nas indústrias de conferências e exposições, turismo, e finanças”. Alan Ho, presidente da Associação dos Sectores de Convenções, Exposições e Turismo de Macau, espera que as indústrias de convenções e exposições em Hong

“Os 15º Jogos Nacionais Chineses a serem coorganizados pela província de Guangdong, Hong Kong e Macau em 2025 proporcionarão uma excelente oportunidade.” MA CHI SENG

Kong e Macau possam tomar a iniciativa de participar na cooperação regional e promover a cooperação na Área da Grande Baía através de convenções e exposições inter-cidades e inteligentes. “Como um importante centro de convenções e exposições na região Ásia-Pacífico, a indústria em Hong Kong desenvolveu-se rapidamente desde o seu regresso à pátria, particularmente nos sectores da joalharia, relógios e produtos de beleza”, afirmou. Nos últimos anos, cientistas e investigadores das RAE também participaram amplamente nos principais projectos científicos e tecnológicos do país. Pang Chuan, vice-presidente da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, disse que as universidades de Macau e Hong Kong têm cooperado

estreitamente no intercâmbio de pessoal, cooperação científica e de investigação, intercâmbio de laboratórios e na educação conjunta de estudantes. “As universidades de Macau e Hong Kong são geralmente mais internacionais, com mais oportunidades de participar na cooperação internacional”, disse Pang Chuan. “No entanto, confrontam-se com a falta de indústrias de apoio nas RAE”. Pang sugeriu que as universidades nas RAE combinem as suas vantagens na investigação e desenvolvimento com empresas de alta tecnologia na área da Grande Baía para melhor converterem os frutos científicos e de investigação internacionais. Ma Chi Seng, membro do Comité Desportivo de Macau, elogiou as realizações desportivas de Hong Kong desde o seu regresso à pátria, observando que o governo da RAE de Hong Kong se tem dedicado à promoção de Hong Kong como cidade de eventos desportivos internacionais, oferecendo experiências com as quais Macau poderia aprender. “Os 15º Jogos Nacionais Chineses a serem co-organizados pela província de Guangdong, Hong Kong e Macau em 2025 proporcionarão uma excelente oportunidade para aumentar a participação pública no desporto nas RAE e reforçar a cooperação aprofundada entre as indústrias desportivas nos três locais”, acrescentou Ma.


sexta-feira 1.7.2022

MP INDÍCIOS DE CRIME EM HOTEL DE QUARENTENA

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S indivíduos que abriram as portas dos quartos de quarentena para conversarem e beberem cerveja podem passar até seis meses na prisão, de acordo com um comunicado do Ministério Público (MP). Num caso que se tornou viral nas redes sociais, o organismo liderado pelo Procurador Ip Son Sang revela que em causa está o “crime de infracção de medida sanitária preventiva”, que pode ser punido com uma pena de prisão máxima de seis meses, ou multa de 60 dias. Afirma o MP, no comunicado, que com base nas imagens de CCTV do Hotel, os homens não só “abriram as portas dos quartos para fumarem, conversarem e passarem objectos a indivíduos”

que estavam igualmente a fazer quarentena, como circularam pelos quartos do hotel. Parte destes actos foi gravada e publicada na rede social TikTok. Ao contrário do primeiro comunicado do MP, com a data de 25 e Junho, que falava de um grupo de 8 indivíduos, agora são apenas referidos quatro ocupantes do hotel. O MPdiz ainda que foram aplicadas medidas de coacção aos indivíduos em questão, mas não revela as mesmas, ao contrário do que habitualmente faz nos seus comunicados. Este caso levantou grande polémica, principalmente nas redes sociais, onde as imagens circularam, por envolver turistas do Interior e haver a crença de que as sanções seriam leves.

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LARES NOVO MACAU RELATA CASOS DE FUNCIONÁRIOS QUE DORMEM NO CHÃO

Condições de batalha

Sulu Sou revela uma faceta do sistema de gestão em circuito fechado em lares de idosos, onde funcionários impedidos de voltar a casa dormem em tapetes de ioga, pedaços de cartão, sem almofadas, mantas ou remuneração pelas horas extra. O ex-deputado enviou cartas aos directores da DSAL e SSM a pedir soluções

Código de saúde Advogado alerta para penas por uso indevido Um advogado ouvido pelo jornal Ou Mun alertou para o facto de que a utilização de códigos verdes de outras pessoas para entrar em determinados espaços pode resultar em consequências legais. Segundo Mak Heng Ip, recorrer ao código verde de terceiros para entrar em determinado

local é uma violação clara às medidas de prevenção epidémicas, aumentando assim o risco de propagação do vírus. Ao jornal Ou Mun, Mak Heng Ip vincou ainda que a população tem a obrigação de colaborar com as medidas da prevenção da pandemia lançadas pelo Governo.

Fronteiras Encomendas vindas da China caem 32 por cento Com o aumento dos constrangimentos fronteiriços entre Macau e Zhuhai impostos desde o início do presente surto de covid-19, o número de encomendas a chegar ao território provenientes do Interior da China registou uma queda de 32 por cento. Segundo dados do sector logístico, citados pelo jornal Exmoo, o número de encomendas a entrar em Macau vindas do Interior da China diminuiu de um registo diário situado entre as 70 e as 80 mil, para cerca de 20 a 30 mil. Além disso, é acrescentado, devido às

restrições impostas pelas autoridades de Zhuhai, muitas encomendas ficam “presas” do outro lado da fronteira, acrescentando assim um período adicional de trânsito que pode ir dos três aos cinco dias. Neste contexto, o sector logístico espera que o Governo tome medidas para assegurar a entrada, sem sobressaltos, de encomendas a partir da China, sobretudo quando, devido ao actual surto, a compra de produtos online “é uma actividade importante do dia-a-dia” dos residentes de Macau.

Sulu Sou, Associação Novo Macau “É impossível encontrar quartos e camas suficientes para os funcionários. Há vários dias que dormem em colchões de borracha muito finos, tapetes de ioga e mesmo em cima de cartão.”

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ex-deputado Sulu Sou enviou cartas aos responsáveis máximos da Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais (DSAL) e dos Serviços de Saúde (SSM) a pedir soluções para a situação precária vivida pelos funcionários dos lares de idosos que estão em circuito fechado, ou seja, que estão obrigados a permanecer desde sábado nos locais de trabalho. Até ontem, estavam sob gestão em circuito fechado 24 lares de idosos, 11 centro de apoio a pessoas portadoras de deficiência e 1 centro de reabilitação para tratamento de toxicodependentes. O ex-deputado e vice-presidente da As-

sociação Novo Macau diz compreender que as autoridades não querem novos surtos em instalações, como o verificado no Complexo de Serviços de Apoio ao Cidadão Sénior da Obra das Mães, na Praia do Manduco. Porém, revela que não existem quartos ou camas disponíveis para as largas dezenas de funcionários obrigados a pernoitar em alguns dos 36 centros a operar em circuito fechado. “É impossível encontrar quartos e camas suficientes para os funcionários, que são obrigados a ficar nas áreas comuns dos locais, como em salas de actividades e gabinetes. Há vários dias que dormem no chão em colchões muito finos, tapetes de

ioga e mesmo em cima de cartão. Alguns nem têm almofada ou roupa de cama.”

Servir o público

Sulu Sou não esqueceu o pessoal dos Serviços de Saúde que ao abrigo do plano de resposta de emergência para a situação epidémica da covid-19 em grande escala trabalha por períodos de 14 dias sem pode ir a casa, com testes frequentes e períodos de auto-gestão. “Não há fim à vista para quem trabalha nestas condições, em particular os profissionais que têm a seu cargo crianças pequenas ou idosos e que enfrentam situações de grande ansiedade”, conta o antigo deputado.

Outra questão levantada por Sulu Sou, e que suscitou o envio da missiva ao director da DSAL, prende-se com os direitos laborais dos trabalhadores dos lares, nomeadamente no que se refere às leis que estabelecem o horário de trabalho, a distinção entre turnos, dias de descanso semanais e direito a feriados. Neste domínio, Sulu Sou indica que vários empregadores de lares de idosos avisaram os trabalhadores de que não haveria lugar a compensações extra.

Local de excepção

O Centro Reabilitação de Tratamento de Ká-Ho, gerido pela Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau (ARTM), é uma das instalações que está

a funcionar em “circuito fechado”. Augusto Nogueira, presidente da ARTM, testemunha o reverso da medalha e dá conta de uma “excelente e atempada colaboração com o Instituto de Acção Social” que permitiu preparar as instalações do centro e criar as melhores condições possíveis a funcionários e utentes. “Sabíamos que mais tarde ou mais cedo poderia surgir um surto, por isso preparámos tudo antecipadamente. Tivemos tempo para comprar camas, lençóis, instalar wi-fi e criar as condições para quem fica em circuito-fechado”, revelou ao HM. Actualmente, estão no centro de reabilitação em Ká-Ho 30 utentes e 7 funcionários. João Luz


6 especial covid-19

“Talkshow” sem apresentador Alvis Lo falta a conferência de imprensa após polémica com testes

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PESAR da controvérsia com os testes dos trabalhadores dos casinos e da construção, o director dos Serviços de Saúde, Alvis Lo, faltou à conferência de imprensa diária e deixou todas as explicações para Leong Iek Hou, chefe da divisão de Prevenção e Controle de Doenças Transmissíveis. A ausência surge após Alvis Lo ter protestado contra as perguntas dos jornalistas com a declaração que a conferência de imprensa “não é um talkshow”. “Ele está muito ocupado, mas está sempre a trabalhar connosco, está no Centro de Coordenação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus”, justificou Leong Iek Hou. “O trabalho de controlo da pandemia é muito complexo e com muitas etapas. E todos os trabalhos precisam do senhor director, por isso, estou aqui hoje para vos responder”, adicionou. Ainda assim, quando questionada sobre se alguém tinha de assumir responsabilidades políticas e demitir-se, Leong reconheceu as suas limitações: “Eu sou médica, a responsabilização não faz parte das minhas competências”, confessou. Ontem, Leong Iek Houve pediu desculpa e culpou os trabalhadores por não respeitarem os horários das marcações. “Muitas pessoas estiveram à espera nas filas e ficaram furiosas e tristes. Peço desculpa pelo que sucedeu”, afirmou. “Mas, não concordo que estejamos a mudar as medidas de um dia para o outro. Temos vagas suficientes para os testes, desde que as pessoas cheguem ao local de acordo com a marcação”, defendeu.

A responsável insistiu ainda que o Governo tinha capacidade para testar 90 mil pessoas por dia, nos seis postos activos, incluindo um outro posto para pessoas com código de saúde amarelo. “Vimos as imagens que circularam online e fomos ao local. No Campo dos Operários houve muita confusão, porque as pessoas fizeram marcação para a tarde, mas como tinham medo de não ter um resultado a tempo de irem trabalhar, foram aos centros de testes muito mais cedo”, atirou.

Ponto final

Leong Iek Hou defendeu também o teste, com o apoio das “diferentes partes” e dos “serviços públicos”: “Durante semanas, as diferentes partes e os serviços públicos deram um grande apoio às nossas medidas e à exigência de apresentação de um teste de ácido nucleico ou de teste rápido no local de trabalho”, reforçou. “Todas as medidas são para evitar a propagação do vírus no local do trabalho”, destacou. No mesmo sentido, a médica argumentou ainda que o Governo tem a capacidade para lidar com a situação dos testes, como disse estar provado pelos testes em massa. E a partir desse momento, deu por encerrada a polémica: “Não vou responder mais sobre isso [confusão de ontem]”, vincou. “O cidadão pode achar que o nosso trabalho não é perfeito, mas estamos sempre a melhorá-lo com a experiência”, garantiu. Apesar disso, voltou ao assunto várias vezes, uma das quais apontou que a confusão foi limitada aos Posto de Qingmao e no Campo do Operários. J.S.F.

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Tufão Confusão SURTO

OBRIGAÇÃO DE TESTE EM CASINOS E OBRAS GERA CAOS E LEVA GOVERNO A RECUAR

A exigência de apresentar um teste de ácido nucleico levou a uma corrida aos centros de testagem, na manhã de ontem. Após várias horas de confusão, corridas, gritos e aglomerações, o Governo anunciou a retirada da medida

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d i a de ontem começou com uma corrida ao centro de testes por parte de milhares de trabalhadores de casinos e da construção civil. Face à obrigação de terem de apresentar o resultado negativo de um teste de ácido nucleico com a validade de 48 horas, os trabalhadores geraram grandes aglomerações, muita confusão, gritos, empurrões e até insultos. Para piorar a situação, por volta do almoço, e numa altura em que estava içado o sinal número um de tufão, a chuva apareceu e apanhou muita gente desprevenida. Sem chapéu de chuva, muitos não tiveram outro remédio que não fosse aceitar a molha. As críticas à situação não se fizeram esperar, ao mesmo tempo que os vídeos começaram a circular nas redes sociais. E depois de várias horas de concentrações, por volta das 14h40, o Governo voltou atrás. Como justificação, o Centro de Coorde-

nação de Contingência do Novo Tipo de Coronavírus apontou que a aglomeração de pessoas “não é condizente nem favorável ao combate epidémico”. Em alternativa, passa a haver a obrigação de fazer

572 CASOS Ontem, às 17h, quando foram apresentados os dados havia 572 casos de covid-19 ligados ao surto actual, um aumento de 88 face ao número anterior. Além desses, de acordo com as estatísticas apresentadas pelo Executivo, 35 pessoas tinham testado positivo, mas de forma preliminar, pelo que os casos tinham de ser confirmados. Entre os 88 confirmados ontem, 48 foram detectados na comunidade e 40 nos postos de controlo.

TESTES CONTINUAM A coordenadora do centro de contingência adiantou ontem que a obrigatoriedade de realizar testes rápidos antigénio vai continuar hoje e amanhã.

testes rápidos para estes trabalhadores. “Foi decidido cancelar o requisito de que os trabalhadores da construção civil e casinos devem ter um certificado de teste de ácido nucleico negativo 48 horas antes de irem para o trabalho”, foi reconhecido.

Desastre anunciado

Antes da aplicação da exigência do teste, várias vozes na sociedade tinham alertado para a possibilidade de haver concentração excessiva nos centros. Uma dessas vozes foi a de Cloee Chao, a presidente da Associação Novo Macau pelos Direitos dos Trabalhadores de Jogo. Ao HM, a dirigente da associação revelou ter enviado na noite de terça-feira um email à Direcção de Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ) a sugerir que o prazo do teste fosse de sete dias. “Não sei com que antecedência foi pensada esta política, porque parece que os trabalhadores que precisavam de um teste negativo são mais do que o número

estimado pela DICJ”, afirmou Cloee Chao. “Quando os residentes vão fazer os testes em massa, têm uma flexibilidade de horários, podem ir a várias horas, mas estes trabalhadores não têm essa flexibilidade, o que faz com que haja uma concentração. Parece que isso não foi tido em conta”, acrescentou. Cloee Chao justificou ainda a corrida aos centros com receios de represálias, no caso de não conseguirem fazer os testes. Numa altura em que a economia atravessa a fase mais negra dos últimos anos, Chao apontou que os funcionários tiveram receios de não poder trabalhar e ficar sem o bónus de presença. Além disso, segundo Cloee, houve vários trabalhadores que apareceram nos postos de trabalho sem qualquer marcação, porque não conseguiram fazê-la online.

A brincar com as pessoas Por sua vez, José Pereira Coutinho, deputado ligado


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TESTE EM MASSA FALHA AFECTOU RESULTADO DE 132 PESSOAS

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à Associação de Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM), lamentou a situação causada e a incoerência governativa. “O Governo está a proceder muito muito mal porque quando é confinamento é geral, independentemente de serem casinos, estaleiros ou construções das obras públicas dos aterros”, afir-

mou Coutinho, ao HM. “Se o Chefe do Executivo e as autoridades de saúde a dizem às pessoas para ficarem em casa, porque é que estas pessoas têm de sair de casa e ir trabalhar?”, questionou. Neste sentido, toda a situação das aglomerações mereceu críticas do legislador. “Andam a brincar com as pessoas. Ora dizem

que é necessário fazer um teste, ora dizem que já não é necessário. Lamento ter de criticar o Governo sobre esta questão de haver excepções”, admitiu. “Mas, se também não há jogadores por que é que não fecharam os casinos?”, perguntou. José Pereira Coutinho alertou para o “grande risco

de propagação” entre os presentes, incluindo os trabalhadores destes locais, como as autoridades públicas. “Há um polícia que está no local de uma das grandes aglomerações e teve muitas pessoas em cima dele. Ele corre o risco de ficar contaminado”, atirou. “Há vários agentes que me telefonaram a dizer que foram contaminados em

serviço. Eu recebi informações directas”, revelou. O deputado defendeu ainda que os acontecimentos de ontem mostram que mais tarde ou mais cedo o Governo vai ter de aceitar a realidade e adoptar uma política de coexistência com o vírus, que se encontra “disseminado em todo o lado”. João Santos Filipe

MA anomalia detectada durante a análise de 22 amostras mistas recolhidas durante a última ronda de testes em massa levou a que o resultado de 132 pessoas permaneça desconhecido. De acordo com o Centro de Coordenação e Contingência, a situação está a ser revista, estando em causa falhas detectadas numa máquina de testagem da empresa Kuok Kim. “Após investigação, o Centro de Coordenação apurou que a Companhia de Higiene Exame Kuok Kim (Macau) Limitada, que participa no trabalho de teste massivo de ácido nucleico, não conseguiu detectar normalmente resultados em 22 amostras devido a falhas de uma das máquinas que deu erros no teste e que envolve 132 pessoas. Estas situações estão em revisão”, pode ler-se num comunicado divulgado ontem. No rescaldo do incidente, o Centro de Coordenação pediu desculpa a todos os residentes pelo atraso na publicação dos resultados e diz lamentar “profundamente” os erros da empresa, tendo solicitado à mesma que proponha “medidas práticas de melhoria para evitar que incidentes semelhantes aconteçam novamente”. O teste em massa realizado nos dias 27 e 28 de Junho resultou na recolha de 652.544 amostras, das quais 652.124 são negativas. No total, foram detectados 48 conjuntos de amostras mistas positivas.


8 entrevista

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ALFREDO GOMES DIAS

1.7.2022 sexta-feira

“Macau manteve o seu O livro “Macau entre Repúblicas”, da autoria do historiador Alfredo Gomes Dias, foi apresentado na segundafeira no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa. A obra traça o panorama de um território embrenhado entre o republicanismo em Portugal e na China, de 1910 e 1911, e a forma como Macau conseguiu manter o seu estatuto

HISTORIADOR

Como surgiu este projecto? Este livro parte de um projecto de investigação mais vasto, uma vez que estudo a história de Macau desde 1987, sempre focado na história contemporânea, entre o século XIX e a primeira metade do século XX. Nos trabalhos de investigação que fui fazendo deparei-me com a coincidência das datas da implantação da I República em Portugal e da República na China. Como temos sempre a ideia de que não há coincidências na história, mas sempre algum significado, fui à procura do contexto que explicava como dois países geograficamente opostos tinham desenvolvido, em simultâneo, um processo que levou ao fim da Monarquia em Portugal, com a Dinastia de Bragança em 1910, e depois o fim da dinastia chinesa em 1911. É curioso pensar que estas duas dinastias tiveram uma duração semelhante, começando ambas no princípio do século XVII. Que causas históricas realça para explicar essa coincidência? Percebe-se que houve um movimento internacional de processos históricos em diferentes impérios que levam à sua decadência e à implantação de regimes republicanos, em Portugal, na China e na Turquia, por exemplo. É nesse processo de decadência que explicamos, em parte, a I Guerra Mundial. Tentei então explorar os significados mais profundos além da semelhança entre datas.

Qual o republicanismo com maior impacto em Macau? O movimento republicano chinês tinha maior expressão no território face ao português, dada a proximidade geográfica da China? A proximidade geográfica tem um peso grande porque, ainda por cima no início do século XX, as proximidades geográficas não eram as mesmas que são hoje. Além disso, tínhamos as pontes sociais e políticas que existiam no território, nomeadamente da parte de uma certa elite com a China, que explica a influência

posterior do republicanismo chinês em Macau. Temos depois de associar as questões do republicanismo chinês com as questões sociais e políticas que existiam na altura entre Portugal e a China, porque havia questões diplomáticas que estavam em aberto que levavam a movimentos so-

“Os republicanos portugueses acolhiam, muitas vezes com discursos com grande esperança, o movimento na China como se fosse o ecoar do republicanismo no mundo.”

ciais que, de alguma forma, se manifestavam em Cantão contra a presença portuguesa. O movimento republicano acaba também por sofrer com esta influência. A nível internacional, a Revolução dos Jovens Turcos, por exemplo, foi um dos movimentos que inspiraram ambas as revoluções republicanas. Houve, assim, uma forte influência de movimentos que ocorriam na Europa. Exactamente. No princípio do século XX assistimos a um processo quase em cadeia de decadência dos grandes impérios. Depois, a I Guerra Mundial faz desabá-los por completo. Por um lado, processos internos levaram à decadência de cada império, mas depois também a conjuntura internacional e a influência que leva a algum

contágio entre territórios e que acabam por conduzir a tensões militares e diplomáticas que levam à I Guerra. A China era um país mais aberto ao Ocidente em relação ao que viria a ser depois de 1949? Havia maior penetração dos ideais políticos ocidentais no início do século XX? Isso depende um pouco dos contextos. Se pensarmos em Xangai, isso é absolutamente verdade. A cidade era cosmopolita e abriu-se completamente ao mundo, instalando-se depois a comunidade conhecida como os “portugueses de Xangai”. Nesta altura, a cidade recebe cerca de 40 nacionalidades diferentes, segundo o estudo que fiz, porque era, de facto, uma cidade completamente aberta ao mundo. O período

republicano até à II Guerra Mundial é mais aberto, até pela presença de Sun Yat-sen e as relações diplomáticas que tinha com outros países. Este processo é limitado pela situação interna do país. A

“Os princípios defendidos por Sun Yat-sen levavam a uma ideia de romper com o regime político anterior mas também de construir, do ponto de vista social, uma China diferente, em prol da melhoria do bem-estar do povo chinês.”


sexta-feira 1.7.2022

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u caminho” por parte da Administração portuguesa percebendo que a vida no território tinha as suas particularidades e não permitia oscilações tendo em conta a mudança de regimes que ocorriam em Portugal. Isso é bastante visível entre meados do século XIX até à década de 70 [do século XX], pois não creio que as grandes mudanças políticas ocorridas em Portugal tivessem uma forte influência na forma de governar Macau. Até por força da necessidade de determinadas relações com a comunidade chinesa e a China que não era compatível com as infecções políticas de Portugal.

implantação da República leva a uma transformação do regime, mas depois o processo de instabilidade política, com os senhores da guerra e o conflito civil entre o partido do Kuomitang e o Partido Comunista Chinês, põe em causa qualquer processo de abertura ao Ocidente. Como era Macau entre estes dois mundos? Foram nomeados governadores republicanos, como Carlos da Maia. As elites políticas debatiam ideias entre o mundo português e chinês? Em toda a governação feita até 1974, não me parece que tenha havido grande influência de ideias políticas do republicanismo em Macau. A sua singularidade, e o que permitiu a sobrevivência ao longo de todos estes séculos, foi sempre construída

Que conclusões históricas tira deste trabalho de investigação? É muito interessante perceber a forma como Portugal e China, em contextos geográficos diferentes, participaram num contexto político global que existiu nessa época. Macau, apesar dessas mudanças, manteve o seu caminho e a sua forma de estar que lhe garantiu a sobrevivência até 1999. No último estudo, feito com Joana Barroso Hortas, foi também interessante ver como a imprensa em Portugal tratou [o movimento republicano chinês] e como os republicanos portugueses foram lendo as notícias na China. Quais as reacções mais comuns que encontraram? Os republicanos portugueses acolhiam, muitas vezes com discursos com grande esperança, o movimento na China como se fosse o ecoar do republicanismo no mundo. Havia, por outro lado, análises mais cautelosas do que se estava a passar. Isso ensina-nos a perceber o que era o pensamento republicano em Portugal, olhando para acontecimentos internacionais. O estudo pode ser interessante nessa perspectiva, mesmo para quem pretende aprofundar conhecimentos sobre o republicanismo em Portugal e na imprensa. As notícias sobre a República na China, no momento em que ainda se estava a consolidar a República em Portugal, era uma forma

de dar alento ao nascimento do republicanismo português. Alguns dos ideais do republicanismo português passavam pelo sufrágio universal ou maior acesso da população à educação. Até que ponto havia semelhanças com os ideais republicanos na China?

“[Sun Yat-sen] é uma figura com uma dimensão e relevância tal, que penso que haverá sempre deficiência em matéria de investigação.” Os ideias sociais estão lá, mas têm uma roupagem um pouco diferente. As situações sócio-políticas e económicas da China eram um pouco diferentes face a Portugal. Os costumes chineses foram profundamente alterados com a República e isso é interessante de ver no livro, porque tentamos ilustrar o estudo da imprensa com imagens e ilustrações dos jornais republicanos em Portugal, que revelam bem o esforço que a República chinesa estava a fazer no sentido de mudar os hábitos sociais. Os princípios defendidos por Sun Yat-sen levavam a uma ideia de romper com o regime político anterior mas também de construir, do ponto de vista social, uma China diferente, em prol da melhoria do bem-estar do povo chinês. Falta estudar mais a influência de Sun Yat-sen em Macau? Penso que sim, porque é uma figura com uma dimensão e relevância tal, que penso que haverá sempre deficiência em matéria de investigação. Mas em que medida temos fontes que nos permitam construir outras narrativas e perspectivas históricas sobre a presença de Sun Yat-sen, de forma a dar um novo contributo sobre a sua vida em Macau? Deveria haver um esforço grande em Macau no sentido de procurar essas fontes ou reinterpretar as que já existem. Andreia Sofia Silva

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10 eventos

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POESIA DEUSA D’ÁFRICA LANÇA “SINOPSE DE CÃES À ESTRADA E POETAS À MORGUE”

Poemas do desassossego Deusa D’África, escritora moçambicana que foi uma das convidadas do festival literário Rota das Letras, acaba de lançar um novo livro, com a chancela da Alcance Editores. “Sinopse de cães à estrada e poetas à morgue” é hoje lançado na cidade de Xai-Xai

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INOPSE de cães à estrada e poetas à morgue” é o título do quarto livro de poesia de Deusa D´África, escritora moçambicana que já se embrenhou nas linhas do romance. O livro será lançado hoje na cidade de Xai Xai, em Moçambique, numa parceria entre a Alcance Editores e a Associação Cultural Xitende, de que Deusa D´África é coordenadora geral. Este é um livro onde a poesia apresenta “uma influência da oralidade na constituição da linguagem poética e a recorrência da pertença local”, sendo este “um importantíssimo elemento de subversão canónica, fundamental para a inovação da literatura moçambicana, contestação e denúncia”, aponta a sinopse do livro. Nascida em 1988, Deusa D´África tem, apesar da paixão pela escrita, formação na área dos números, possuindo um mestrado em contabilidade e auditoria. Além disso, é ainda professora na Universidade Pedagógica e na Universidade Politécnica.

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S escritoras portuguesas Ana Pessoa e Rita Sineiro foram ontem distinguidas nos Prémios Llibreter da Catalunha, nas categorias de livro infantil e juvenil e livro ilustrado, anunciou o Grémio de Livreiros da Catalunha, em Barcelona. De acordo com a organização, Ana Pessoa venceu o Prémio Llibreter de “Melhor Livro de Literatura Infantil e juvenil — Outras Literaturas” com a edição catalã de “Mary John”, enquanto Rita Sineiro é distinguida na categoria de “Livro Ilustra-

É também gestora financeira do projecto Global Fund – Malária. Inspirada pela poesia de Noémia de Sousa, Deusa D´África começou a escrever poesia em 1999, sendo autora de diversas obras. Títulos como “A Voz das Minhas Entranhas” e “O Limpopo das Nossas Vidas” venceram o Concurso Literário Internacional Alpas do Brasil. Muitos dos seus poemas encontram-se publicados no Jornal Notícias, O País, Pirâmide, Diário de Moçambique e Xitende. Deusa D’África viu alguns dos seus trabalhos editados no Brasil e outros traduzidos para sueco.

Um “golpe de azagaia”

A sinopse desta obra dá ainda conta de que “os versos Deusa d’Africa desautomatizam a linguagem e causam estranhamento”, sendo que a poetisa “vê uma função dialéctica com o poder de inaugurar [mas também] de destruir”. “A sua actividade poética é revolucionária por natureza, exercício espiritual, um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Ciente deste po-

Conquistas na Catalunha Ana Pessoa e Rita Sineiro distinguidas pelo Grémio de Livreiros

do”, com o livro “Filas de Sonhos”. O Prémio Llibreter, que vai na 23.ª edição, é uma iniciativa do Grémio de Livreiros da Catalunha, sendo atribuído em várias categorias, e a votação é feita entre livreiros, a partir das obras editadas em catalão no ano anterior. “Mary John”, ilustrado por Bernardo P. Carvalho, foi publicado originalmente em

2016 pela Planeta Tangerina e editado em Espanha pela L’altra tribu, estando também publicado no Brasil, nos Países Baixos e em alguns países da América Latina. A obra é um romance em forma de carta, no qual a protagonista, uma adolescente chamada Maria João, se dirige a um amigo de infância, o Júlio ‘Pirata’, por quem teve uma paixoneta não correspondida. Na

história há um momento de separação, com Maria João a mudar de cidade e a conhecer novos amigos, o que leva também a uma alteração do tom da narrativa, de um registo de mágoa e tristeza para alegria e humor.

Com história

Ana Pessoa, que nasceu em Lisboa e vive em Bruxelas, é uma premiada autora de livros para crianças e jovens,

quase todos publicados pela Planeta Tangerina. Além de “Mary John”,Ana Pessoa já publicou, entre outros, “O caderno vermelho da rapariga karateca”, “Desvio”, “Aqui é um bom lugar” e o mais recente “A luz é grande”. “Filas de sonhos”, de Rita Sineiro, foi ilustrado

der regenerador da poesia, a lírica de Deusa d’África vaticina. Outros teóricos, como Ezra Pound, prescrevem a necessidade do tratamento directo do tema como factor intrínseco ao bom poema. Também assim pode ser a lírica de Deusa, que relata casos como o ciclone Idai, em 2019”, lê-se no mesmo texto, assinado por Vanessa Riambau Pinheiro. Os poemas da autora são tidos como um “golpe de azagaia”, enquanto que a escrita “desassossega, perturba, rouba a paz, tira-nos da letargia”.

“Sinopse de cães à estrada e poetas à morgue” é o nome do quarto livro de poesia de Deusa D´África, escritora moçambicana que já se embrenhou nas linhas do romance “Cães à estrada e poetas à morgue” é dividida em três partes (Cães de papel/ Cães à estrada e Poetas à morgue/ Respeito nas bancas do mercado grossista) e, ao longo de mais de cem poemas, “entretece uma poética-manifesto”. Os versos expõem “males sociais, como a criminalidade, repressão, violência e miséria”, onde Deusa D´África aponta “as mazelas como problemas sociais de seu país, mas também rasura consonâncias metaforizadas entre a casa física e a entidade abstracta”. A.S.S.

por Laila Domènech e publicado pela editora espanhola Akiara Books, fundada pela portuguesa Inês Castel-Branco e que publica habitualmente em português, castelhano e catalão. O álbum é um conto ilustrado sobre a crise de refugiados rumo à Europa, através da história de um menino fechado num campo de acolhimento. “Filas de sonhos” é a estreia literária de Rita Sineiro, mediadora de leitura e contadora de histórias natural do Porto.


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Presidente Xi encontra-se com o Chefe do Executivo da RAEM O Presidente Xi Jinping reuniu-se, ontem em Hong Kong, com Ho Iat Seng, Chefe do Executivo da Região Administrativa Especial (RAEM), dizendo que as autoridades centrais reconhecem plenamente o trabalho de Ho e do governo da RAEM. Sublinhando a necessidade de manter a estabilidade enquanto prosseguem o progresso, Xi instou Ho e o Governo da RAEM a trabalhar incansavelmente na prevenção e controlo de epidemias, aliviar de

forma consistente e eficaz as dificuldades de subsistência da população, impulsionar a recuperação económica, promover firmemente uma economia moderadamente diversificada, e fazer todos os esforços para salvaguardar a estabilidade social em Macau. Ho agradeceu a Xi por se encontrar com ele e prometeu fazer esforços sólidos em todos os aspectos e salvaguardar resolutamente o bom desenvolvimento de Macau.

Um vírus, dois caminhos Medidas de bloqueio ameaçam cadeias de fornecimento

A “A China nunca iniciou uma guerra ou invadiu outros países. Não interferimos nos assuntos internos das outras nações, não exportamos ideologias ou impomos sanções unilaterais.”

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Governo chinês disse ontem que se opõe “firmemente” ao novo Conceito Estratégico da NATO adoptado esta semana em Madrid, que considerou estar “cheio de preconceitos ideológicos e apreciações do [período] da Guerra Fria”. “Trinta anos depois, a NATO continua com a sua estratégia de gerar inimigos e fomentar o confronto entre blocos”, afirmou, em comunicado, a missão chinesa junto da União Europeia (UE). “Este novo Conceito Estratégico ataca e difama maliciosamente a China. Daremos respostas firmes e determinadas a qualquer acto que prejudique os nossos interesses”, lê-se na mesma nota. O novo Conceito Estratégico da Aliança Atlântica, aprovado na quarta-feira, numa cimeira de líderes da NATO que ontem terminou em Madrid, considera que a China “desafia os interesses, segurança e valores” dos aliados. “O novo Conceito Estratégico afirma que são outros países que apresentam desafios, mas é a Aliança que está a gerar problemas em todo o mundo”, apontou a missão diplomática chinesa. “A NATO proclama-se uma organização de Defesa, que defende a ordem internacional baseada em regras, mas ignorou o Conselho de Segurança da ONU e travou guerras contra Estados soberanos”, acusou.

NATO CONCEITO ESTRATÉGICO “CHEIO DE PRECONCEITOS IDEOLÓGICOS”

Linhas mal traçadas Pequim reagiu energicamente às conclusões do encontro da NATO em Madrid, acusando a Aliança Atlântica de persistir com uma mentalidade de Guerra Fria Segundo o mesmo comunicado da representação chinesa, aAliança afirmou que a sua zona de defesa não iria para além do Atlântico Norte, mas, “nos últimos anos, a NATO mostrou a sua força na região da Ásia-Pacífico, tentando provocar um confronto entre blocos, como tem feito na Europa”. “Quem está a desafiar a segurança global e a minar a paz mundial? Existe alguma guerra ou conflito nos últimos anos em que a NATO não tenha estado envolvida?”, questionou a missão diplomática.

Desenvolvimento pacífico

Segundo Pequim, a China segue uma política externa

“independente e pacífica” e “contribui para o desenvolvimento global e defesa da ordem internacional”. “A China nunca iniciou uma guerra ou invadiu outros países. Não interferimos nos assuntos internos das outras nações, não exportamos ideologias ou impomos sanções unilaterais”, referiu o comunicado. A missão chinesa junto da UE instou a NATO a parar de “provocar confrontos ao traçar linhas ideológicas, a abandonar a mentalidade da Guerra Fria” e a não “denegrir” a China.

política de ‘zero casos’ de covid-19 ameaça a posição da China nas cadeias produtivas, à medida que o bloqueio de cidades e províncias gera imprevisibilidade e afeta a confiança dos investidores, alertam líderes empresariais. “Nunca se sabe o que vai acontecer a seguir”, resume Takayuki Shomura, vice-director-geral do grupo japonês Tailift Group, um dos maiores fabricantes de empilhadores do mundo, à agência Lusa, à margem da Cimeira de Multinacionais de Qingdao, no leste da China. Na primeira metade do ano, as vendas do grupo no país asiático caíram cerca de 50 por cento, à medida que a altamente contagiosa variante Ómicron obrigou as autoridades chinesas a impor medidas de confinamento extremas, para salvaguardar a estratégia de ‘zero casos’, assumida como um triunfo político pelo secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping. O isolamento de Xangai, a “capital” financeira do país, e de importantes cidades industriais como Changchun e Cantão, tiveram forte impacto nos sectores de serviços, manufactureiro e logístico. Num painel intitulado “Reconstruir a Indústria Global e as Cadeias de Fornecimento sob Múltiplos Choques”, Zhang Yansheng, investigador no Centro de Relações Económicas Internacionais da China, disse que as actuais medidas de prevenção epidémica obrigaram os fabricantes a manter grandes reservas de componentes, o que resultou num aumento dos custos, e a recorrer a fornecedores não chineses, numa fórmula designada “China + 1”. “Tens que estar preparado para o pior cenário”, explicou à Lusa Jiang Zuolin, vice-presidente de Operações para a China do

grupo Festo, multinacional alemã especializada em automação industrial. Uma das estratégias passa por trabalhar num “circuito fechado”, em que os funcionários estão interditos de sair das instalações das fábricas. “Preparamos actividades para os trabalhadores e passamos a oferecer pequeno-almoço, almoço e jantar”, descreveu Jiang. “Melhoramos também a qualidade dos dormitórios, para que as pessoas se sintam em casa”, acrescentou. A nível logístico, a empresa criou reservas de componentes e diversificou as cadeias de abastecimento. “Não podemos colocar os ovos todos na mesma cesta”, resumiu. Wu Jingkui, presidente na China do grupo espanhol Amadeus, especializado em soluções tecnológicas para viagens, disse à Lusa acreditar que a liderança do país está ciente dos danos causados pelas restrições em vigor, mas que encontrar o ponto de equilíbrio é uma “dor de cabeça”, face às circunstâncias do país. Com 1,4 mil milhões de habitantes, a China é

a nação mais populosa do mundo.

Questão de escolha

Um estudo da Universidade Fudan, em Xangai, publicado em Maio passado, concluiu que a variante Ómicron sobrecarregaria o sistema hospitalar do país e resultaria em cerca de 1,6 milhões de mortos, caso a China modere ou reduza as medidas de prevenção, devido à baixa taxa de vacinação entre os idosos e menor eficácia das inoculações domésticas. Zhang Yansheng, que é também um dos principais assessores económicos do Governo chinês e secretário-geral do ComitéAcadémico da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, órgão máximo de planeamento económico da China, alertou para uma tendência de “declínio” na globalização da economia mundial, agravada por fricções geopolíticas. “O que mais nos preocupa é a formação de dois sistemas paralelos, que obrigarão os países a escolher um lado”, apontou. “O nosso desafio agora é que as multinacionais estrangeiras mantenham a confiança no mercado chinês”.


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XUNZI

O “Mestre” Songzi disse, “Ser insultado não é vergonhoso”. Ao que eu respondo: sempre que discutimos, devemos primeiro ser capazes de estabelecer um alto padrão de correcção e só depois devemos prosseguir. Sem um alto padrão de correcção, não se poderá distinguir o bem e o mal e as disputas e litígios serão impossíveis de resolver. Aquilo que tenho ouvido é: “A coisa maior e mais elevada no mundo é a fronteira do bem e do mal, ela é a fonte de onde brota a distribuição das tarefas e a nomeação das coisas –, que são, simplesmente, os regulamentos de um verdadeiro rei. Assim, quando discutimos, debatemos, buscamos concórdia, ou nomeamos relativamente ao bem e ao mal1, devemos ter por mestres os reis-sage, pois o modo como distinguiam honra e desgraça era exactamente esse. Estas coisas têm duas origens. Existe a honra em termos do que é yi [justo]. Existe

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ELEMENTOS DE ÉTICA, VISÕES DO CAMINHO

Dos Juízos Correctos honra em termos das nossas circunstâncias. Existe desgraça em termos do que é yi. Existe desgraça em termos das nossas circunstâncias. Quando cultivamos os nossos pensamentos e intenções, quando as nossas virtudes e conduta apropriada são consideráveis e quando a nossa compreensão e deliberações são brilhantes, esse é um caso em que a honra vem do interior. E a isso se chama honra em termos do que é yi. Quando o nosso título e patente são eminentes, quando os nossos emolumentos e salário são consideráveis e a nossa posição e circunstâncias suplantam os outros – sendo no máximo o Filho do Céu ou um senhor feudal, ou, no mínimo, um conselheiro, primeiro ministro ou grande oficial – esse é um caso em que a honra vêm do exterior. E a isso se chama honra em termos das nossas circunstâncias. Quando se é perverso e corrupto, quando se vai contra aquilo que foi distribuído e se perturba a ordem

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apropriada, quando se é arrogantemente violento e ganancioso em termos de lucro, esse é um caso em que a desgraça vem do interior. E a isso se chama desgraça m termos do que é yi. Quando nos amaldiçoam ou insultam, quando nos arrastam pelo cabelo e nos batem, quando somos chicoteados ou nos cortam os pés, quando nos decapitam ou nos esquartejam e quando os nossos registos familiares são destruídos ou os nossos descendentes erradicados, esse é um caso em que a desgraça vem do exterior. São estas as duas origens da honra e da desgraça.

1 - “Buscar concórdia” (qi 期 ) e “nomear” (ming 命), são termos quase técnicos com os quais Xunzi se refere a uma progressão no sentido de estabelecer o uso da linguagem.

Xunzi (荀子, Mestre Xun; de seu nome Xun Kuang, 荀況) viveu no século III Antes da Era Comum (circa 310 ACE - 238 ACE). Filósofo confucionista, é considerado, a par do próprio Confúcio e Mencius, como o terceiro expoente mais importante daquela corrente fundadora do pensamento e ética chineses. Todavia, como vários autores assinalam, Xunzi só muito recentemente obteve o devido reconhecimento no contexto do pensamento chinês, o que talvez se deva à sua rejeição da perspectiva de Mencius relativamente aos ensinamentos e doutrina de Mestre Kong. A versão agora apresentada baseia-se na tradução de Eric L. Hutton publicada pela Princeton University Press em 2016.


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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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ANA JACINTO NUNES

antropofobias

CARLOS MORAIS JOSÉ Esta longa viagem, que a miríficos lugares nos leva e estranhas criaturas nos desvela, lentamente ensina certas ideias, expõe certos factos (imaginários ou não), que não deixam de contribuir para dissipar um pouco da névoa que constantemente se interpõe entre nós e o mundo. Mesmo se o nosso conhecimento da Natureza pouco se altera, devido à grandiosidade, complexidade e mudez do objecto, talvez seja o nosso próprio olhar, suas incidências e divagações que mereça uma interrogação, uma análise, uma investigação. Surge esta reflexão a propósito dos animais de face humana, amiudamente encontrados nas montanhas e nos vales, nos lagos e nos rios, dessa China cuja existência igualmente mergulha na bruma dos tempos e das mentes. Desta vez encontramo-nos na Montanha das Colinas Excelentes, nome misterioso para uma formação geológica que nenhuma árvore exibe, nenhuma planta alimenta, nenhuma flor a decora. As rochas permanecem nuas, cruelmente expostas a intensos banhos de sol e a uma atmosfera radicalmente seca. Talvez por isso, a Montanha das Colinas Excelentes emita um fortíssimo brilho, que encandeia que nela demorar a vista. Ora nas suas encostas mais a sul, existe um vale, a que chamam Central, onde, aliás, nasce o Vento Nordeste. Não conseguimos encontrar uma explicação para este fenómeno, de algum modo semelhante às cavernas gregas, de onde

O yu emanam os vários ventos que sopram sobre a terra. Trata-se de um estranho vale, seco como a boca de Hades, quase uma antecâmara do inferno, onde dificilmente alguma vida encontrará meios de subsistência, a não ser que se alimente de pedras e de algum minério que por ali houver. É, precisamente, nesta paisagem lunar e maléfica que se diz existir um pássaro, parecido com uma coruja, mas que apresenta uma face humana, com quatro olhos e quatro orelhas. Chamam-lhe yu, talvez por causa do som que regularmente emite e que os homens muito apreciam ouvir. Por quê?, perguntará o viajante desprevenido. É que, mal esse som atravessa os ares, mal o yu se põe a cantar nas imediações do Vale Central, logo os homens se colocam em fuga, de olhos nos chão e coração sobressaltado, pois avistar este pássaro é presságio de que uma terrível seca vai abraçar o mundo. Assim, embora dotado de um comportamento pacífico, o yu é um pássaro maldito entre os homens. Talvez estes se interroguem sobre a sua capacidade de sobrevivência num ambiente tão hostil e isso os faça atribuir ao animal a capacidade de espalhar as características do seu habitat pelo resto do mundo. O pensamento humano funciona muitas vezes por contiguidade, metonímia, de forma mágica e irracional. Como se os habitantes de um lugar pedregoso, por exemplo, tivessem de ser pessoas ariscas, desconfiadas, bicudas.

MAL O YU SE PÕE A CANTAR NAS IMEDIAÇÕES DO VALE CENTRAL, LOGO OS HOMENS SE COLOCAM EM FUGA, DE OLHOS NOS CHÃO E CORAÇÃO SOBRESSALTADO, POIS AVISTAR ESTE PÁSSARO É PRESSÁGIO DE QUE UMA TERRÍVEL SECA VAI ABRAÇAR O MUNDO

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SISTERS OF MERCY | FLOODLAND

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Lançado há mais de 30 anos, “Floodland” é dos discos a que se regressa sem resistência. Depois do inaugural “First and Last and Always”, “Floodland” trouxe a banda de Andrew Eldritch aos épicos hinos de rock gótico capazes de sair dos clubes underground para as rádios. Músicas como “Dominion/ Mother Russia”, “Lucretia My Reflection” e “This Corrosion” trouxeram um público mais abrangente a uma das bandas mais influentes das sonoridades negras do rock ‘n rol. Ao longo deste segundo registo dos Sisters of Mercy reconhecem-se ecos de referências a eventos históricos como o desastre nuclear de Chernobyl e à Guerra Fria. João Luz

FALADO EM CANTONÊS Um filme de: Angus MacLane 14.30, 16.30, 19.30, 21.30 SALA 2

TOP GUN: MAVERICK [B] Um filme de: Joseph Kosinski Com: Tom Cruise, Jennifer Connely, Val Kilmer, Miles Teller 14.00, 19.15

JURASSIC WORLD: DOMINION [B] Um filme de: Colin Trevorrow

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THE LOST CITY [B]

Um filme de: Adam Nee, Aaron Nee Com: Sandra Bullock, Channing Tatum, Daniel Radcliffe, Brad Pitt 14.30, 16.30, 21.45 SALA 3

EVERYTHING EVERYWHERE ALL AT ONCE [C]

Um filme de: Daniel Kwan, Daniel Scheinert Com: Michelle Yeoh, Stephanie Hsu, Ke Huy Quan, James Wong 19.00

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Propriedade Fábrica de Notícias, Lda Director Carlos Morais José Editores João Luz; José C. Mendes Redacção Andreia Sofia Silva; João Santos Filipe; Pedro Arede, Nunu Wu Colaboradores Anabela Canas; António Cabrita; Ana Jacinto Nunes; Amélia Vieira; Duarte Drumond Braga; Gonçalo Waddington; José Simões Morais; Julie Oyang; Paulo Maia e Carmo; Rosa Coutinho Cabral; Rui Cascais; Sérgio Fonseca; Colunistas André Namora; David Chan; João Romão; Olavo Rasquinho; Paul Chan Wai Chi; Paula Bicho; Tânia dos Santos Grafismo Paulo Borges, Rómulo Santos Agências Lusa; Xinhua Fotografia Hoje Macau; Lusa; GCS; Xinhua Secretária de redacção e Publicidade Madalena da Silva (publicidade@hojemacau.com.mo) Assistente de marketing Vincent Vong Impressão Tipografia Welfare Morada Pátio da Sé, n.º22, Edf. Tak Fok, R/C-B, Macau; Telefone 28752401 Fax 28752405; e-mail info@hojemacau.com.mo; Sítio www.hojemacau.com.mo

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um grito no deserto

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Paul Chan Wai Chi

VALHA-NOS SÃO JOÃO 1508 SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE AO JOAO BATISTA

NO MEU ANTERIOR artigo, mencionei que “depois de dois anos de pandemia, as medidas rigorosas implementadas pelo Governo de Macau para prevenir a propagação da COVID-19, com contenção das entradas em Macau tinham sido bem-sucedidas. Para além dos turistas e dos visitantes oriundos da China continental, quase nenhuns turistas estrangeiros visitaram Macau devido a estas restrições”. Mas, surpreendentemente, na véspera do dia do Pai, surgiu um novo surto pandémico. O Governo ainda está a investigar a origem deste surto. Vale a pena elogiar o Governo da RAEM por ter aprendido com a experiência do Governo de Hong Kong na forma como lidou a variante Ómicron. Tomou consciência de que, embora a maior parte da população esteja vacinada, não se consegue impedir a silenciosa e incolor Ómicron de se propagar na comunidade. O Governo da RAEM está bem preparado para este surto e os testes massivos ao ácido nucleico realizaram-se sem problemas durante dois dias, para além de cada pessoa ter recebido três Kits de testes rápidos de antigénio. A vacinação pode realmente prevenir sintomas graves e mortes causadas pela COVID-19 e, embora altamente contagiosa, a variante Ómicron é menos perigosa. Olhando para o que se está a passar em Hong Kong, na Coreia do Sul, no Japão, no Sudeste Asiático, na Índia, na Europa, na América, em África e noutros locais, acredita-se que depois de Macau ter passado por uma vaga desta epidemia, a abolição do uso obrigatório de máscara já não estará para muito longe. Os médicos, os peritos e os investigadores têm de confiar na Organização Mundial de Saúde para descobrir a origem da COVID-19 e encontrar forma de a manter completamente sob controlo. Numa perspectiva religiosa, devemos salientar que os católicos de Macau foram todos à missa durante o início da pandemia rezar a São Roque, o santo que combate as pragas e a pestilência, para que abençoasse a cidade e mantivesse o povo a salvo. Mas, para além de rezar a São Roque, Macau também precisa da bênção de São João, o seu santo padroeiro, para ajudar a cidade a superar a escuridão pandémica. 24 de Junho é o dia de São João Baptista em Macau, e ele é o santo padroeiro da cidade. Antes do regresso de Macau à soberania chinesa, o Leal Senado de Macau realizava sempre uma cerimónia no dia de São João para comemorar a vitória portuguesa sobre os holandeses que atacaram Macau a 24 de Junho de 1622. O dia 24 de Junho de 2021 teve também um significado histórico, pois foi a data da última publicação do jornal de Hong Kong, Apple Daily. A 26 de Junho de, 2021, o “Observatório de Macau”, do qual fui editor chefe em regime de voluntariado, foi suspenso a pedido da empresa que o ad-

Além de rezar a São Roque, Macau também precisa da bênção de São João, o seu santo padroeiro, para ajudar a cidade a superar a escuridão pandémica

ministrava. Não existe uma relação directa entre o fecho do Apple Daily e a suspensão do Observatório de Macau. Mas, a par das mudanças na situação social, ambos os jornais estão agora encerrados. Todos aqueles que tenham lido a Bíblia sabem que São João Baptista foi detido e encarcerado por ter acusado abertamente o Rei Herodes de ser um governante moralmente corrupto. Por fim, o Rei Herodes decapitou João a pedido da sua enteada. Então, aqueles que se atrevem a falar e a manifestar-se, também estarão condenados à morte? Não devemos subestimar a influência de um jornal. Após o encerramento do Apple Daily, as vendas de jornais em Hong Kong não aumentaram. Pelo contrário, cada vez menos pessoas compram jornais em Hong Kong. Em Macau, um dos quiosques de jornais onde eu costumava ir fechou, e

Ex-deputado e antigo membro da Associação Novo Macau Democrático

outro só atende clientes com assinaturas de jornais de Hong Kong. Este último disse-me que, assim que a época das corridas de cavalos terminar em Hong Kong, vai deixar de vender jornais daquela cidade. Esta ecologia mediática parece ser ideal para quem detém o poder porque quanto menos vozes se fizerem ouvir mais conveniente lhes será. No entanto, quando os jornais se transformam em ferramentas de propaganda quem é que vai querer gastar o seu dinheiro em publicidade? O desaparecimento do quarto poder significa que os meios para supervisionar o governo diminuíram. Quando o Governo faz o que quer e não existem na sociedade vozes contraditórias, estão criadas as condições para o aparecimento de uma crise. Macau precisa de São Roque, mas precisa mais ainda de São João Baptista!


“Foge por um instante do homem irado, mas foge sempre do hipócrita.” PALAVRA DO DIA

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crise económica gerada pela pandemia de covid-19 está a pressionar o sector imobiliário, podendo mesmo levar à redução do preço das casas em 20 por cento até ao final do ano. Quem o diz é Roy Ho, director da Centaline Property Macau, sublinhando que o surgimento do novo surto em Macau fará com que o número de transações de imóveis atinja mínimos históricos este mês e no próximo. Segundo o responsável da agência imobiliária ouvido pelo jornal Ou Mun, a crise, sentida em vários sectores, que tem levado ao aumento do desemprego e a cortes salariais, a somar ao expectável aumento das taxas de juro, tem colocado uma considerável dose de pressão ao sector imobiliário. Sobretudo, quando cada vez mais pessoas deixaram de ser capazes de cumprir os pagamentos previstos nos seus contratos de crédito à habitação, levando ao aumento do número de fracções penhoradas, que acabam por ser vendidas a um preço muito abaixo do seu real valor de mercado. Segundo Roy Ho a pressão que o imobiliário está a atravessar é também indissociável da crise e das transformações profundas em curso no sector do jogo. Isto, tendo em conta que o encerramento das salas VIP e de alguns casinos satélite tem levado, não só à dispensa de funcionários que passam a estar impedidos de cumprir as suas obrigações fiscais, mas também à desvalorização dos imóveis nas zonas circundantes dos casinos. Como resultado, muitas propriedades acabam por ser vendidas a preços reduzidos. Além disso, espera-se que os proprietários que detêm vários imóveis em Macau, aumentem a vontade de se desfazer dos mesmos a preços reduzidos, para obter liquidez a curto prazo. P. A. com N. W.

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Comunicação Lançado concurso para serviços 5G

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O Governo anunciou ontem o lançamento do concurso para o fornecimento dos serviços de comunicação com a tecnologia 5G. Segundo a informação revelada vão ser atribuídas quatro licenças, dado que actualmente existem quatro operadoras, e as propostas podem ser entregues até 15 de Agosto. O objectivo é que a tecnologia esteja disponível até Março do próximo ano. Para justificar a medida, o Executivo diz que segue a política de integração no país e de promoção da Grande Baía, além de servir as necessidades de quem vive na RAEM.

Rita Santos, conselheira “Com um salário médio líquido de 900 euros, dificilmente um funcionário do Consulado consegue sobreviver condignamente.”

Sem consolo possível Funcionários do Consulado ganham tanto como empregados de limpeza em hotéis

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S problemas vividos pelo Consulado-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, nomeadamente baixos salários e falta de recursos humanos, foi um dos assuntos abordados na última reunião de Rita Santos, Presidente do Conselho Regional da Ásia e Oceânia do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), com o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas em Portugal, Paulo Cafôfo. Ao HM, Rita Santos declarou que, no encontro, lembrou que “para o último concurso [de recrutamento] do Consulado, para um posto de trabalho na categoria de assistente técnico, a remuneração mensal oferecida era de apenas 1.139,82 euros [cerca de 9.674 patacas], o que, com a dedução de impostos, se traduz em cerca de 900 euros [7.644 patacas], correspondendo ao salário de um trabalhador de limpeza num hotel em Macau”. Neste sentido, Rita Santos entende que “com um salário médio líquido de 900 euros, dificilmente um funcionário do Consulado consegue sobreviver condignamente, razão pela qual o assistente técnico contratado optou por aceitar outra oferta mais competitiva”. A reunião com Paulo Cafôfo serviu também para discutir a questão da correcção cambial,

de cinco por cento, para os salários dos funcionários do Consulado. Macau ficou, assim, “equiparado ao Interior da China”, apesar de ter uma economia autónoma do continente e um dos mais elevados Produto Interno Bruto per capita do mundo. Paulo Cafôfo, assegurou Rita Santos, “respondeu que iria fazer uma revisão do factor da correcção cambial” por ter conhecimento de que, além de Macau, “outros países enfrentam este tipo de dificuldades devido à desvalorização da moeda local e do aumento dos preços dos bens essenciais”. Desta forma, “os salários dos funcionários de embaixadas e consulados não se coadunam com o custo de vida destes países”, admitiu o secretário de Estado.

Alunos de fora

Rita Santos e Paulo Cafôfo debateram também a situação na Escola Portuguesa de Macau (EPM). Após reunir com Manuel Machado, presidente da direcção da EPM, a conselheira transmitiu ao governante português o “aumento significativo de alunos nos últimos dois anos”, sendo que 57 por cento deles não têm a língua portuguesa como materna. Além disso, “por falta de espaço nas instalações, a EPM teve que recusar, no ano lectivo transacto, a inscrição de mais de cem candidatos”.

“Embora o Governo da RAEM conceda um subsídio à EPM, considero que há necessidade de um reforço de verbas por parte do Governo de Portugal para que possam ser construídas mais salas de aulas, a fim de responder às solicitações dos pais que pretendem que os filhos aprendam português naquele estabelecimento de ensino”, frisou Rita Santos. Os responsáveis discutiram também o regresso definitivo de muitas pessoas a Portugal, muitas devido às restrições pandémicos que persistem em Macau. Rita Santos alegou que, graças à redução do período de quarentena de 14 para dez dias, foi possível “desbloquear a contratação de oito professor para leccionar na EPM no próximo ano lectivo”. Relativamente às dificuldades financeiras sentidas pelas associações de matriz portuguesa no território, Paulo Cafôfo garantiu “que está em curso um plano de simplificação de procedimentos para que todas as associações de matriz portuguesa possam concorrer a subsídios”. Sobre a actual situação pandémica, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas “expressou o sentimento de solidariedade aos cidadãos de Macau, e em especial aos residentes portugueses”. Andreia Sofia Silva

TIAGO ALCÂNTARA

depressão tropical que evoluiu para ciclone tropical denominado “Chaba” deverá motivar a emissão do sinal número 3 até ao final da manhã de hoje, não sendo descartada a entrada em vigor do sinal 8 entre a noite de hoje e próxima madrugada. Isto, embora a possibilidade seja considerada “relativamente baixa a moderada”. “Existem variáveis na trajectória e intensidade do ‘Chaba’ (…) devido à influência e desenvolvimento de outra área de baixa pressão a leste das Filipinas. Se o ciclone tropical ‘Chaba’ adoptar uma trajectória mais para norte e mais próximo de Macau ou se intensificar perto da costa, não será descartada a hipótese de emitir um sinal de tempestade tropical mais elevado”, pode ler-se numa nota divulgada ontem à tarde pelos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG). Até domingo, espera-se que os ventos se intensifiquem, prevendo-se a ocorrência de aguaceiros fortes e trovoadas. Entre hoje e amanhã prevê-se ainda a ocorrência de inundações no Porto Interior, entre a manhã e o meio-dia.

1.7.2022

IMOBILIÁRIO PREÇO DAS CASAS PODE CAIR 20% ATÉ AO FINAL DO ANO

TIAGO ALCÂNTARA

CHABA SMG NÃO DESCARTAM EMITIR SINAL 8 HOJE À NOITE

Confúcio

sexta-feira