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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2646. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

ARTES, LETRAS E IDEIAS

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O BOSÃO DE OURO A DEMANDA POR UMA PARTÍCULA QUE JUNTOU OS HERÓIS DO NOSSO TEMPO


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I D E I A S F O R T E S

BOSÃO

A partícula que pode mudar (como pensamos) o mundo O BOSÃODE Higgs é considerado pelos físicos a chave para entender a estrutura fundamental da matéria e a partícula que atribui a massa a todas as demais, segundo a teoria conhecida como “modelo padrão”. A nova partícula apresenta, em primeira análise, características de massa e comportamento previstas para o bosão de Higgs pelo chamado Modelo-Padrão, a “tabela periódica “ da física das partículas. A massa da nova partícula “é de 125,3 GeV (mais ou menos 0,6 GeV)”, ou seja de cerca de 125 vezes a massa do protão, disse Joe Incandela, responsável máximo pela experiência CMS, uma das duas que no LHC procuram o bosão de Higgs. Quanto à fiabilidade do sinal produzido no detector CMS pela partícula , “é de 4,9 sigma”, quase atingindo, portanto, a meta dos “5 sigma”, que os cientistas consideram ser o nível de fiabilidade desejado para afirmar a existência da nova partícula. Com um sinal de 5 sigma, a probabilidade de as observações serem o fruto do acaso e não corresponderem à produção de uma partícula é de apenas 0,00005733%, o que equivale a dizer que há uma hipótese em 1.744.278 de os cientistas estarem enganados ao afirmar que estão de facto a observar uma partícula nova.

DUAS EXPERIÊNCIAS, A MESMA CONCLUSÃO

Para Joe Incandela, responsável pela experência, não existem contudo dúvidas de que a CMS detectou uma partícula que pode ser o bosão de Higgs. “É realmente uma nova partícula. Sabemos que tem de ser um bosão e que é o bosão mais pesado alguma vez encontrado”, diz ainda Incandela, citado num comunicado. “As implicações disto são muito importantes e é precisamente por esta razão que temos de ser extremamente diligentes em todos os nossos estudos e verificações”, acrescentou. “A descoberta de uma partícula consistente com o Higgs abre a porta a estudos mais detalhados e requer grandes análises estatísticas, que permitirão afinar as propriedades da nova partícula e ajudarão provavelmente a esclarecer outros mistérios do nosso Universo”, sublinhou o director-geral do CERN, Rolf Heuer, no comunicado. Pelo lado da segunda experiência, a ATLAS, a responsável Fabiola Gianotti apresentou resultados independentes compatíveis que os da CMS. A massa da

estudos mais profundos que necessitarão de mais estatísticas para estabelecer as propriedades de uma nova partícula”, completa. “Esta partícula permitirá descobrir outros mistérios de nosso universo”, segundo Heuer. “Talvez seja o bosão de Higgs que encontrámos, talvez hoje tenhamos compreendido como se organizou a matéria no início do Universo, um milésimo de bilionésimo de segundo depois do Big Bang”, explicou à AFP Yves Sirois, um dos porta-vozes do CMS. “Talvez seja o bosão de Higgs, talvez outra coisa muito maior que abre a porta para uma nova teoria, além do modelo padrão”, completou. Segundo a física Pauline Gagnon é preciso verificar todas as propriedades da nova partícula até o fim do ano, antes de um pronunciamento com certeza absoluta. Mas, de acordo com Gagnon, se não é o bosãode Higgs, “pelo menos é muito parecido”.

A UTILIDADE DE UM MONSTRO

O CENTRO EUROPEU DE PESQUISA NUCLEAR (CERN) ANUNCIOU ESTA QUARTA-FEIRA DE MANHÃ EM GENEBRA A DESCOBERTA DE UMA PARTÍCULA TOTALMENTE NOVA QUE PODE SER O BOSÃO DE HIGGS, ENTIDADE SUBATÓMICA CUJA PROCURA DURA HÁ QUASE 50 ANOS, MAS AINDA SÃO NECESSÁRIAS VERIFICAÇÕES PARA CONFIRMAR SE ESTA É OU NÃO A “PARTÍCULA DE DEUS” QUE OS CIENTISTAS PROCURAM. nova partícula, concluiu, é de 126,5 GeV com uma fiabilidade de 5 sigma.

CIENTISTAS AO RUBRO

Apesar das dúvidas se esta nova partícula é o bosão de Higgs ou outro tipo de partícula, os aplausos e os rostos dos físicos reunidos em Genebra refletiam a alegria e o alívio do mundo científico. “Nunca pensei que assistiria a algo assim em vida e vou pedir para minha família que coloque o champanhe na geladeira”, afirmou o britânico Peter Higgs, o cientista de 83 anos que em 1964, ao lado

dos colegas Robert Brout (falecido em 2011) e François Englert, postulou por dedução a existência do bosão que tem o seu nome (ver página 3). A emoção foi palpável e Englert, sentado ao lado de Higgs, não conseguiu conter as lágrimas. “Superámos uma nova etapa na nossa compreensão da natureza”, afirma em comunicado o director geral do CERN, Rolf Heuer, satisfeito com o trabalho até ao momento. “A descoberta de uma partícula cujas características são coerentes com as do bosão de Higgs abre o caminho para

As pesquisas acontecem no Grande Colisor de Hádrons (LHC), o maior acelerador de partículas do mundo, na sede do CERN em Genebra. Neste túnel de 27 quilômetros de circunferência, instalado a 100 metros de profundidade, os físicos provocam o choque de bilhões de prótons com a esperança de encontrar, com a ajuda de todo tipo de detectores, o rastro do bosão entre os restos (cascatas de partículas). O anúncio desta quarta-feira acontece depois de, no mês de Dezembro, o mistério sobre o bosão de Higgs ter sido consideravelmente reduzido quando as duas experiências independentes que acontecem no LHC (ATLAS e CMS) limitaram uma região situada entre 124 e 126 giga eléctron-volts (1 GeV equivale à massa de um próton). Uma região agora confirmada pelos cientistas. Esta unidade de energia é utilizada para representar a massa das partículas seguindo o princípio de equivalência energia-massa (o famoso E=mc2), os dois atributos da matéria. Mas o principal obstáculo até agora era a margem de erro das duas experiências, ainda muito grande, apesar do grande número de dados acumulados, e que obrigava os cientistas a falar de “indícios” e não de “descoberta” do bosão. O LHC, após uma pausa de Inverno, voltou ao trabalho em Abril em pleno rendimento e gerou em três meses mais dados que em todo ano de 2011, que permitiram o anúncio desta quarta-feira.


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Como funciona o acelerador de partículas

MR. HIGGS

O FÍSICO BRITÂNICO Peter Higgs teve uma epifania genial, em 1964, ao postular a existência de uma partícula subatómica, que os físicos do CERN afirmam agora ter encontrado. Este homem modesto, agora aos 83 anos, exclamou: “Ah. que merda, eu sei como fazer!” quando teve a intuição de um “campo” que se assemelha a uma espécie de cola onde as partículas ficariam mais ou menos presas, contou ao seu antigo colega Alan Walker. Higgs publicou um artigo sobre sua teoria, que acabou por se tornar no farol de uma escola científica para qual vários físicos têm contribuído ao longo dos anos. Tímido e sossegado, Higgs leva uma vida pacata em Edimburgo, Escócia, onde ensinou por muitos anos. Higgs estava nesta quarta-feira em Genebra, quando a CERN anunciou a descoberta. Fato cinzento e camisa branca com colarinho aberto, Higgs foi saudado por uma “ovação de pé”, quando entrou no auditório. Considerado uma pessoa muito inteligente por pessoas que trabalharam com ele, Higgs teve seu primeiro artigo sobre o bosão rejeitado pela revista Physics Letters, editada na época pelo CERN, a mesma organização que gastou muita energia, dinheiro e tempo para descobri-lo tempos depois. “É um homem com modos muito suaves e educados, mas que se torna difícil se você disser algo errado no campo da física”, explicou à AFP Alan Walker, que se aposentou após trabalhar com Higgs. Nascido no dia 29 de Maio de 1929 em Newcastle, norte da Inglaterra, Higgs ingressou no curso de matemática no King’s College London, onde mais tarde também fez o seu mestrado, doutoramento e agregação. Em 1960, Peter Higgs tornou-se professor de física na Universidade de Edimburgo, cargo que ocupa até hoje por mérito vitalício. Higgs é activista contra as armas nucleares e foi membro do Greenpeace até o grupo se opor a manipulações genéticas. Visitou o CERN apenas uma vez, quando a experiência começou em 2008. Modesto, Higgs por muito tempo se encolheu com a menção do termo “bosão de Higgs”, contam. Ateu, Higgs também não gosta da outra alcunha para este bosão, a “partícula de Deus”.

“NOBEL PARA HIGGS”, DEFENDE HAWKING

Fonte: revista Veja

Peter Higgs, deveria receber o Prémio Nobel da Física. Quem o diz é o famoso físico britânico Stephen Hawking, que acaba de perder uma aposta de 100 dólares, depois de um grupo de cientistas do CERN ter anunciado a descoberta do bosão. “Este é um resultado importante e deveria dar a Peter Higgs o Prémio Nobel”, disse Hawking. “Mas, de certa forma, é uma pena, porque os grandes avanços na física nascem de experiências que deram resultados que não esperávamos. Por isso é que apostei com Gordon Kane, da Universidade de Michigan, que a partícula de Higgs não seria encontrada. Parece que acabei de perder 100 dólares.” Hawking considera que a descoberta é de uma enorme importância. “Se o decaimento e outras interacções desta partícula forem como se espera, será uma forte prova para o tão conhecido modelo-padrão da física de partículas [o modelo que descreve as partículas elementares e as forças entre elas]”, disse Hawking.


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h “ NÓS, OS EXPERIMENTALISTAS, SOMOS OS CÉPTICOS” 4

O MUNDO DAS PARTÍCULAS SUBATÓMICAS PARECE O CENÁRIO MÁGICO DE UM FILME FANTÁSTICO. NO ENTANTO, ESTÁ NA BASE DO UNIVERSO MATERIAL EM QUE VIVEMOS. UMA DAS PARTÍCULAS MAIS ESTRANHAS DESSE MUNDO É O CÉLEBRE BOSÃO DE HIGGS. JOE INCANDELA É O RESPONSÁVEL MÁXIMO PELO COMPACT MUON SOLENOID (CMS), UMA DAS DUAS GRANDES EXPERIÊNCIAS INTERNACIONAIS QUE DECORRERAM UTILIZANDO O LHC, OU SEJA, O GIGANTESCO ACELERADOR DE PARTÍCULAS QUE FOI CONSTRUÍDO PERTO DE GENEBRA, NA SUÍÇA, PARA TENTAR DETECTAR O FUGIDIO MAS FAMOSO BOSÃO DE HIGGS. ENTREVISTA PUBLICADA ORIGINALMENTE A 6 DE JANEIRO DE 2012

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Ana Gerschenfel in Públlico

O que é o bosão de Higgs? Um campo de energia? Uma partícula? É, ao mesmo tempo, um campo e é uma partícula. Infelizmente, esta é a coisa mais difícil de explicar às pessoas, porque tem a ver com o mundo quântico, com a mecânica quântica, que é totalmente contra-intuitiva. Na mecânica quântica, uma onda, um campo, também pode ser composto de partículas. Falamos de ondas de luz, mas são feitas de fotões e podemos pensar na luz como sendo ondas difusas ou como sendo partículas, porque a luz é ambas as coisas. Esta “dualidade onda-partícula” é algo que ninguém percebe intuitivamente. É tão paradoxal... Não há nada que se lhe assemelhe na nossa experiência quotidiana. Mas as equações dizem-nos que as coisas são assim e essas equações funcionam fantasticamente bem. Mas posso dizer-lhe como é que eu o vejo, o Higgs, talvez isso ajude. Para mim, o Universo - ou seja, o espaço-tempo - não é vazio. É uma espécie de tecido - e, em todos os pontos desse tecido, há partículas que podem, de repente, existir e deixar de existir. Uma delas é o Higgs. O Higgs existe potencialmente; não está realmente lá, mas está lá num sentido virtual. Segundo o Modelo-Padrão da Física - que é o modelo que melhor descreve como funcionam as coisas ao nível subatómico -, é o bosão de Higgs que confere a sua massa às outras partículas e que faz, portanto, com que o Universo tal como o conhecemos exista. Sim. A teoria diz que as outras partículas, ao deslocarem-se no Universo, interagem com esse Higgs virtual, com esse campo de Higgs, e adquirem massa. E quanto mais interagem com o campo de Higgs, mais massa têm. Por exemplo, se pegarmos num dos átomos do meu corpo e o colocarmos no espaço, vai haver, à sua volta, partículas de Higgs a materializarem-se e a desaparecerem constantemente. É assim que interagem, são virtuais e podem aparecer e depois desaparecer. É uma simplificação, mas são como uma nuvem à volta de cada partícula. Essa nuvem virtual de Higgs está sempre lá, mas cada partícula de Higgs individual surge durante um período de tempo muito curto e depois desaparece. O Higgs é a última partícula que falta encontrar para completar a “tabela” de partículas previstas pelo Modelo-Padrão. Como é que o LHC vai conseguir detectá-la?

O campo de Higgs é feito de partículas de Higgs e nós queremos encontrar a partícula para provar que o campo existe. Mas, para isso, temos de obrigá-la a “sair” da sombra: ela está lá, na trama do Universo, e, ao aplicarmos energia suficiente, podemos fazer com que uma delas se torne real. É preciso muita energia para a criar, porque a partícula real tem de facto muita massa. Nunca “veremos” uma partícula de Higgs a menos que a obriguemos a materializar-se aplicando suficiente energia. E o LHC serve para isso? Mais ou menos. Porquê? Os detectores do LHC não medem a massa (ou a energia) do bosão de Higgs? Não. Medem taxas de produção do bosão de Higgs. Ou seja, o número de eventos que são potencialmente aparecimentos do Higgs no mundo real. Então, ao fazerem colidir protões entre si, nunca vêem o bosão propriamente dito? Não. São tudo efeitos estatísticos, vemos um pequeno pico no número de eventos que podem indiciar um bosão de Higgs, mas somos incapazes de dizer se um dado evento foi ou não um bosão de Higgs a aparecer. No fundo, estamos à procura de um excesso, estatisticamente significativo, de eventos susceptíveis de serem bosões de Higgs, de uma taxa de produção que seja compatível com a existência do bosão de Higgs. Mas como é que deduzem daí a massa do bosão de Higgs? À partida, nós não sabemos qual é a massa do bosão de Higgs - portanto, temos, de facto, de olhar para os diversos intervalos de massa possíveis. Mas o que sabemos é: qual deve ser a taxa de produção do Higgs para cada valor da massa. E se, num dos intervalos, conseguirmos melhorar a precisão e obter um pico muito estreito, com pouco ruído de fundo, então vamos poder dizer que esses eventos são provavelmente bosões de Higgs a ser criados - e que a massa do Higgs se situa nesse intervalo. Parece uma tarefa infernal... Mas é sempre assim que trabalhamos. Precisamos de mais resultados estatísticos, de afinar a pontaria, de saber em que intervalo de massa devemos procurar. À partida, havia um enorme leque de valores de massa possíveis e foi por isso que tivemos de desenhar um detector que tivesse múltiplas capacidades. Agora, já afinámos a pontaria até um minúsculo intervalo. Se tivéssemos sabido esse intervalo à partida, os nossos detectores teriam sido ligeiramente diferentes, mas, seja como for, sabemos agora que a massa do bosão de Higgs se situa entre 115 e


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128 GeV [Gigaelectrão-volts, a unidade em que se mede a massa das partículas subatómicas]. Conseguimos afinar muitíssimo o leque de valores possíveis. Mas nem todos os intervalos possíveis foram explorados. A massa do bosão de Higgs não poderia ser, na realidade, muito mais elevada? Sim, poderia ser superior a 600 GeV, mas isso parece muito improvável. Todos os outros indícios que temos apontam para a massa do Higgs ser muito baixa, da ordem dos 100 GeV. Portanto, nunca pensámos seriamente que pudesse situar-se num nível diferente. Claro que se começarmos a analisar esse nosso pequeno intervalo de 13 GeV, a estreita janela que determinámos, e obtivermos resultados que nos façam descartar a possibilidade de o Higgs ter a massa que neste momento pensamos que tem, então vamos ter de olhar muito a sério para massas mais elevadas. Se a massa do bosão de Higgs se situar efectivamente no intervalo agora anunciado, isso significa que ela não corresponde totalmente ao valor previsto pelo Modelo-Padrão (que é mais próxima de 150 GeV). Isso não são más notícias para o modelo? Não. O Modelo-Padrão é apenas um modelo, não é uma teoria. As más notícias para os modelos não nos preocupam. Estamos a tentar encontrar uma teoria. Sabemos que o Modelo-Padrão não chega. Mas esse não é o fim da história. Se tivéssemos encontrado uma janela de massa para o Higgs à volta de 150, 160 GeV, isso é que teria sido preocupante, porque, de repente, o Modelo-Padrão teria sido suficiente para explicar a realidade. Não precisaríamos de mais nenhuma nova Física para o fazer. Isso seria assim tão mau? Sim, porque a maneira como o Modelo-Padrão resolve os problemas não parece natural. Não há maneira de explicar como é que poderíamos ter tido tanta sorte, como é que por acaso o Universo se encontra precisamente no estado previsto pelo Modelo-Padrão. Imagine atirar cinco lápis para o ar e todos eles caírem sobre a ponta da mina, ficando aí um segundo antes de tombar. Nunca viu tal coisa, pois não? Bom, saiba que a probabilidade de isso acontecer seria muito maior do que a probabilidade de o Universo se encontrar precisamente no estado previsto pelo Modelo-Padrão. Não acreditamos que as coisas funcionem assim, de uma forma tão artificialmente equilibrada. Achamos que tem de haver qualquer coisa de mais natural que tenha feito que tudo acontecesse. É aqui que entra em jogo uma outra te-

oria, a supersimetria ou SUSY. De que se trata? A supersimetria pega em todas as partículas [do Modelo-Padrão] que conhecemos e cria para cada uma delas “partículas-parceiras”. O número de partículas mais do que duplica em relação ao Modelo-Padrão, porque, para o Higgs, cria cinco novas parceiras. A supersimetria e o Modelo-Padrão são incompatíveis entre si? Não. O Modelo Padrão, ao seu nível, funciona e é fantástico. É como a mecânica de Newton [em relação à Teoria da Relatividade de Einstein]: fantástico mas incompleto. E a supersimetria resolveria todos os problemas que o Modelo-Padrão não resolve? Poderia, de facto, resolver tudo, poderia ser muito “limpa”. Mas teríamos sempre um derradeiro problema: como ligar a supersimetria à força da gravidade.Para isso, vai ser preciso trabalhar mais uma outra teoria, a chamada Teoria das Cordas. Ainda temos trabalho para pelo menos dois séculos. [ri-se] O que é a Teoria das Cordas?

cobriram que, para a teoria funcionar, tinham de trabalhar num espaço de 11 dimensões, dez espaciais mais uma temporal, e de lidar com minúsculos objectos com sete dimensões e propriedades muito especiais. E, de repente, tornava-se necessário desbravar territórios inteiros, totalmente novos, da Matemática. Estamos num desses momentos em que assistimos ao desenvolvimento de novas ferramentas matemáticas, mas isso pode demorar muito tempo. Às vezes, em Ciência, são precisas várias gerações até chegarmos ao estádio em que podemos voltar ao problema original e começar realmente a lidar com ele. É fascinante observar o que está a acontecer, mas ao mesmo tempo é doloroso - e é muito frustrante para os que trabalham em Teoria das Cordas, porque eles querem mesmo resolver o problema físico. (...) O LHC vai fechar em finais de 2012 por dois anos. Vai ser difícil esperar pela reabertura? Vamos ter muitos dados e muitas coisas a fazer que não conseguimos fazer neste momento porque os resultados

É uma teoria que permitiria explicar como as coisas funcionam. Mas é extremamente difícil do ponto de vista matemático. Acho que os especialistas desta teoria estão numa situação que já se verificou no passado na Ciência e na Matemática, quando, a seguir a Newton, a Matemática necessária para explicar o electromagnetismo ainda não existia. Assim, nos anos 1800, a Física tornou-se o motor de novas abordagens matemáticas. Novos ramos da Matemática foram desenvolvidos e forneceram as ferramentas necessárias para perceber a electricidade e o magnetismo. O que está a acontecer com a Teoria das Cordas agora é muito semelhante. Há uma ideia genial, uma ideia muito simples, e toda a gente ficou entusiasmada com ela. Mas depois des-

estão sempre a sair e há muita pressão para os conseguirmos analisar. Não temos muito tempo para pensar e olhar para o que temos. Não quero dizer com isso que estamos a fazer mal as coisas; de facto, estamos a fazê-las fantasticamente bem, mas também gostaríamos de poder digeri-las com mais tempo, de juntar os resultados e de os apreciar de forma mais global. E esses dois anos vão permitir-nos fazer estudos aprofundados. No mundo, quantos laboratórios e centros de computação colaboram no tratamento dos resultados? O CMS envolve 175 institutos, dos quais 60 possuem centros de cálculos muito grandes, com vários milhares de computadores cada. E que estão a analisar os dados 24 horas por dia.

MR. BOSE

A REVELAÇÃO na quarta-feira de novos dados que apontam para a existência do bosão de Higgs, a “partícula de Deus”, enviou uma vibração especial de orgulho, misturado com frustração, à comunidade científica da Índia. O “Higgs” é bem conhecido por se referir a Peter Higgs, o pesquisador britânico que em 1964 fez muito do trabalho conceptual de base sobre a elusiva partícula. O que é em grande parte desconhecido, pelo menos para não-especialistas, é que o termo “bosão” deve seu nome ao trabalho pioneiro do físico indiano Satyendra Nath Bose. Nascido durante o domínio colonial britânico em 1894, em Calcutá (agora Kolkata), Bose foi professor nas universidades de Calcutá e Daca. Em 1924, enviou um artigo a Albert Einstein que descreve o modelo estatístico que eventualmente levou à descoberta do que ficou conhecido como o fenómeno de Bose-Einstein. O documento estabeleceu a base para descrever as duas classes fundamentais de partículas sub-atómicas – bosões, em homenagem a Bose, e fermiões, referidos ao físico italiano Enrico Fermi. Enquanto vários prémios Nobel foram concedidos a investigações relacionadas com o conceitos de bosão, Bose nunca foi homenageado pela Academia Sueca. Archan Majumdar, um astrofísico do homónimo Centro Nacional para Ciências Básicas Satyendra Nath Bose, em Kolkata, disse que o nome de Bose seria mais conhecido se as suas descobertas não tivessem sido feitas durante a era colonial. “Se a Índia fosse uma nação independente, ele poderia ter conseguido mais reconhecimento do que tem”, disse Majumdar. “Além disso, se ele tivesse ganho o prêmio Nobel, que merecia mais do que muitos outros, teria sido mais conhecido, mas infelizmente isso não aconteceu.” Em 1954 recebeu o Bose Vibhushan Padma - a maior distinção civil da Índia. Morreu em 1974.


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O CASINO DE DEUS A Ciência à procura do seu Graal

UM DOS MAIORES desafios da Física moderna é desenvolver uma teoria que descreva de forma unificada todos os fenômenos do Universo. O grande obstáculo é a incompatibilidade entre duas das principais teorias físicas deste século, a relatividade geral e a mecânica quântica. Esse desafio é o tema da pesquisa de Victor de Oliveira Rivelles, professor do Instituto de Física da Universidade de  São Paulo e dedicado ao problema desde os anos 80. Cada uma dessas teorias desempenha perfeitamente seu papel quando é aplicada no contexto em que foi criada. Mas cada uma fracassa ao ser aplicada aos fenómenos descritos pela outra. Por que, então, modificá-las em vez de deixá-las como estão? A idéia de unificação é a mola propulsora dos principais avanços da Física desde seus primórdios. Até o século XVII, o movimento dos corpos terrestres e celestes era considerado distintamente. Os corpos terrestres tenderiam a parar depois de se movimentar por algum tempo, devido à sua natureza terrena. Já os corpos celestes, como o sol, a lua e os planetas, se moveriam eternamente – o que seria uma demonstração de seu caráter divino. A mecânica clássica, formulada pelo físico inglês Isaac Newton (1642-1727), mostrou que os corpos terrestres e celestes obedecem às mesmas leis de movimento, ao dar uma descrição unificada para ambos. As suas ideias causaram uma mudança filosófica e religiosa profunda, pois mostraram, matematicamente, que o movimento dos corpos nos céus era puramente material.  Ao sintetizar teorias que pareciam antagónicas, os cientistas conseguem descrever um número maior de fenómenos com menos hipóteses e também prever fenômenos futuros. O físico alemão Albert Einstein (18791955) disse que a teoria física tem dois anseios: englobar o máximo possível de fenómenos e as suas conexões e alcançar isso com base no menor número possível de conceitos independentes e relações arbitrariamente pressupostas.  

MICRO VERSUS MACRO

A mecânica quântica pode parecer para o leigo um amontoado de conceitos que ferem o bom senso: aquilo que ora parece ser uma partícula, comporta-se como uma onda e vice-versa. Além desse aparente contra senso, há uma perda definitiva do que restava da Física clássica. Após séculos de  tranquilidade com as equações deterministas do movimento, os cientistas tiveram de encarar o terrível princípio da incerteza, formulado pelo físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), para o qual é impossível

Einstein e Heisenberg: dois génios, duas visões incompatíveis

determinar simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula. “Quando tentamos aplicar os conceitos da mecânica quântica à relatividade geral, somos conduzidos a resultados absurdos, que contradizem os próprios fundamentos dessas teorias, diz Rivelles.

DEUS JOGA DADOS?

Apesar de ter contribuído para o nascimento da mecânica quântica, Einstein jamais aceitou a sua interpretação probabilística. Na Física clássica, toda quantidade física tem um valor determinado. No mundo quântico, passou a vigorar a probabilidade. Deus não joga dados com o Universo, disse Einstein. O físico britânico Stephen Hawking (1942-), que ocupa o mesmo posto de Newton na Universidade de Cambridge, rebate Einstein: Deus joga dados, sim!. Instaurou-se assim o conflito entre mecânica quântica e relatividade geral. Muitos físicos seguiram os passos de Einstein e propuseram mudanças na mecânica quântica. O próprio Hawking deu os primeiros passos nessa direcção. O holandês Gerardt Hooft (1946-) – prémio Nobel de Física de 1999 pelo seu trabalho sobre a unificação das forças fraca e eletromagnética – e o norte-americano

Leonard Susskind (1940-) propõem a manutenção da mecânica quântica e modificações na relatividade geral. As primeiras evidências de que a relatividade geral deveria mesmo ser modificada vieram com a proposta das supercordas, em meados de 80. A motivação para as supercordas baseia-se na constatação de que o conceito de uma partícula idealizada como um ponto material é inadequado para formular a quantização da relatividade geral. As teorias de cordas são radicalmente diferentes das teorias usuais.  Os objectos fundamentais não são mais partículas pontuais, mas sim objetos estendidos, unidimensionais, que são as chamadas cordas, diz Rivelles. Por terem um tamanho muito pequeno, elas parecem comportar-se como partículas. As teorias de cordas, no entanto, precisam ser formuladas de modo a descrever todos os tipos de partículas elementares conhecidos. Uma das teorias de cordas considera a existência de uma partícula com todas as propriedades do gráviton e que, embora ainda não comprovada experimentalmente, seria capaz de conduzir a força da gravidade. É um resultado que Rivelles considera surpreendente.  Outra partícula prevista pela teoria de

No mundo quântico, passou a vigorar a probabilidade. Deus não joga dados com o Universo, disse Einstein. Stephen Hawking rebate Einstein: Deus joga dados, sim!

cordas tem a propriedade de mover-se com velocidade superior à da luz. A existência dessa partícula, o táquion, é proibida pela relatividade de Einstein. É aí que entra o conceito de supersimetria, que resolve o problema ao eliminar essa partícula indesejada. A supersimetria é um artifício teórico que unifica todas as partículas e forças da natureza simplesmente por considerar em pé de igualdade dois tipos de partícula bastante distintos, os bósons e os férmions. Com a aplicação da supersimetria, as teorias de cordas se transformam em teorias de supercordas, unificando de forma adequada todos os tipos de partículas fundamentais. Uma das surpresas da teoria das supercordas, segundo Rivelles, é que ela pressupõe um espaço de dez dimensões, sendo nove de espaço e uma de tempo. A explicação para o facto de nosso espaço-tempo só revelar quatro dimensões é que no início da formação do Universo, logo após o Big Bang, seis dessas dimensões se tornaram extremamente pequenas. Nessa área, a comprovação prática é considerada praticamente impossível, por lidar com distâncias ínfimas, bilhões de bilhões de vezes menores que as distâncias investigadas nos mais modernos aceleradores de partículas em uso (nos quais se chega à distância de um bilionésimo de um bilionésimo de centímetro). É uma situação análoga à do Big Bang, a explosão que teria originado o Universo e igualmente não é passível de comprovação. A teoria de supercordas, segundo Rivelles, poderá prever relações desconhecidas entre as partículas ou mesmo a existência de novas partículas e, portanto, de forças ainda não detectadas. À medida que a teoria de supercordas se for consolidando, poderá até resolver questões que intrigam físicos e filósofos, tais como: por que o Universo existe em quatro dimensões (as três dimensões espaciais de comprimento, largura e altura, mais a dimensão temporal) e não em mais ou em menos dimensões? Por que a matéria só aparece na forma de quarks e léptons? Rivelles não desanima ao lembrar que só se conhecem alguns pedaços da teoria de supercordas. As dúvidas se acumulam, mas essa teoria, que deve descrever todas as forças do Universo, ainda está na infância e sua formulação completa levará muito tempo, lembra o pesquisador. O próprio Einstein levou dez anos para formular a teoria da relatividade geral, que descreve apenas a gravitação. O físico norte-americano Edward Witten comentou há anos – e seus colegas do mundo todo concordam – que a teoria de supercordas é uma teoria do século XXI que, por acidente, foi descoberta no final do século XX.


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DON’T STEP ON MY TOE

Sandra Fernandes

UM DOS MAIORES SONHOS dos físicos, para muitos deles mesmo o maior, consiste em encontrar as quatro forças fundamentais unificadas (forças gravítica, electromagnética, nuclear fraca e nuclear forte). Tal unificação é muitas vezes denominada de  Theory of Everything, TOE. Pretende-se em última análise unificar a relatividade geral e a mecânica quântica, já que as outras forças já se encontram unificadas. Uma das teorias concorrentes mais conhecidas é a Teoria das cordas. As tentativas de chegar à TOE começaram ainda na primeira metade do século XX. Em 1919, o polaco Theodor Kaluza partiu das equações da relatividade geral e, desprezando as massas e expandindo o problema a cinco dimensões (quatro espaciais e uma temporal), unificou os campos gravitacional e electromagnético. Porém, para chegar a este resultado, teve de anular arbitrariamente a dependência da quinta dimensão durante a demonstração. Ora, se uma quinta dimensão não observável já levantava questões, o desaparecimento dela no decorrer da demonstração foi o argumento final que levou a que esta teoria fosse ignorada pela comunidade científica. Em 1926, Oskar Klein resolveu o problema de Kaluza, propondo que uma das cinco dimensões se dobrava sobre si própria, deixando de poder ser observada, sendo o raio de curvatura da ordem dos 10^−35 m. Apesar de resolver certas

questões em aberto (como a quantificação da carga), esta rectificação previa a existência de novas partículas de massas tão grandes (da ordem da massa de Planck), que estava excluída a sua criação e, por isso, a sua observação. Na década de 40, as diferenças significativas entre os momentos magnéticos dos protões ou neutrões e dos electrões levantaram algumas dúvidas sobre o carácter pontual das partículas positiva e neutra do núcleo. Em 1943, Werner Heisenberg propõe que os protões e os neutrões sejam objectos extensos. Numa época em que a mecânica quântica estava em plena expansão, estas ideias caíram em (quase) total esquecimento. Em 1968, Gabriele Veneziano observou um estranho fenómeno: grande parte das propriedades da força nuclear forte eram descritas pela função beta de Euler, uma fórmula, pouco conhecida, que tinha sido escrita pelo matemático Leonhard Euler, 200 anos antes. Tal descoberta chamou a atenção da comunidade científica, destacando-se três físicos (Yoichiro Nambu, Holger Nielsen e Leonard Susskind) que demonstraram que as partículas elementares, consideradas como cordas, objectos a uma dimensão, e não como pontos, eram perfeitamente descritas pela função beta de Euler. Nasceu assim a Teoria de Cordas. No início da década de 70, várias experiências levaram a resultados bastante díspares das previsões efectuadas pela nova teoria. O principal problema surgiu em padrões vibracionais que eram previstos pela teoria, mas não observados experi-

mentalmente. Este problema foi rapidamente resolvido, tendo-se verificado que estes padrões em excesso correspondiam aos gravitões, que já tinham sido teoricamente previstos. Porém, esta descoberta não foi devidamente aceite pela comunidade científica, surgindo grande discórdia entre os apoiantes da Teoria de Cordas e os defensores das teorias das partículas pontuais. Assim, mais uma vez, a teoria caiu no esquecimento. Foi também no início da década de 70 que surgiu a ideia da supersimetria, segundo a qual há simetria entre bosões e fermiões. Esta ideia surgiu em dois contextos: na Teoria de Campos que descerve partículas pontuais e na Teoria de Cordas, em consequência da introdução dos fermiões. Surgiu aqui uma ponte entre duas teorias tidas então como opostas. Em 1980, Michael Green e John Schwarz ligaram melhor a Teoria de Cordas e a Mecânica Quântica, demonstrando que a Teoria de Cordas abrange as quatro forças fundamentais e toda a matéria existente. Nasceu então a Teoria das Supercordas, que junta a Teoria das Cordas e a Supersimetria. Iniciou-se a 1.ª Revolução das Supercordas, tendo sido, entre 1984 e 1986, publicados centenas de trabalhos sobre este tema. Segundo a nova teoria, as partículas passaram a ser vistas como pequenas cordas a vibrar em vez de serem pontos. Foi nesta altura que a Teoria de Cordas passou a ser aceite por numerosos físicos como uma teoria capaz de fazer a grande unificação. O problema principal associado à Teoria de Cordas, que ainda hoje é a razão de algum do seu

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descrédito, é a necessidade de espaços a 10 dimensões para os fermiões e a 26 dimensões para os bosões. Havendo uma ligação entre a Mecânica Quântica e a Teoria de Cordas, redobravam-se os esforços para reforçar a teoria, em particular ligando a Teoria das Cordas com a Teoria dos Quarks. Pensou-se que os quarks podiam ser as extremidades das cordas, surgindo assim uma possível razão para que os quarks não fossem observados isoladamente: tal como acontece nos ímanes, ao quebrar uma corda ter-se-iam duas cordas, com dois quarks cada nas extremidades. Em 1994 iniciou-se a 2.ª Revolução das Supercordas (que durou até 1997), que foi desencadeada pela descoberta de Edward Witten de que as várias versões da Teoria das Supercordas consistiam afinal de diferentes limites de uma nova teoria a 11 dimensões, a Teoria M. Joseph Polchinski descobriu que esta teoria requer objectos com mais dimensões, os chamados D-branes, que abriram caminho para a construção de novos modelos cosmológicos. Nos dias de hoje, prosseguem intensivamente os estudos sobre este tema. Estão mais direccionados para a verificação experimental, para a procura e rectificação de falhas na simetria e para o aperfeiçoamento de alguns aspectos geométricos da teoria. Tendo em conta a rapidez com que estes estudos têm surgido, poderá estar para breve uma Teoria de Grande Unificação. A acreditar nalguns especialistas o século XXI  será o século da TOE.


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C H I N A C

蓬莱PENGLAI, ENT

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António Graça de Abreu Como descobrir as ilhas de Penglai? Xu Fu partiu, levou as donzelas do reino de Wu, Quem sabe se regressarão um dia? Li Bai LI BAI ou Li Po (701-762) é, com Du Fu (712770), o maior poeta dos trinta séculos de poesia chinesa, um homem com a dimensão e importância de um Dante, um Shakespeare, um Camões. Viajou largamente pela China e tinha o bom hábito de escrever poemas em muitos dos lugares por onde jornadeava. Por isso encontramos estátuas do poeta, ou poemas seus gravados na pedra um pouco por todo Império do Meio. No ano de 745, Li Bai encontrou-se com Du Fu na província de Shandong e nesse ano escreveu um poema so-

bre Qin Shihuang, o primeiro imperador que veio morrer a Shandong quando procurava as receitas para a imortalidade exactamente junto ao mar, muito próximo de Penglai. Nesse poema, Li Bai fala do ministro Xu Fu, encarregado pelo imperador de procurar as ervas que possibilitariam a imortalidade do soberano. Xu Fu comprometeu-se a descobrir a mézinha mágica mas, para tal, exigiu vários juncos de alto-mar a fim de poder navegar rumo às ilhas míticas dos imortais, situadas algures a leste, perdidas no mar. Com a intenção de povoar essas ilhas, pediu também trezentos rapazes e trezentas donzelas para viajarem nos navios e para depois crescerem e multiplicarem-se, fixando-se nas ilhas dos imortais que se calculava vazias de gentes, apenas habitadas por fantásticas e estranhas figuras que haviam alcançado o ambicionado estatuto de imortais.

Xu Fu e os seiscentos jovens partiram destas costas de Shandong, junto a Penglai, e perderam-se no horizonte do mar, não mais quem quer que seja soube o que aconteceu à grande expedição naval. Só na dinastia Tang, oito séculos mais tarde, os chineses tiveram pleno conhecimento da existência das ilhas nipónicas e logo houve quem sugerisse que o Japão era criação chinesa, nada mais, nada menos do que as ilhas descobertas e povoadas por Xu Fu e sua varonil companhia. Segundo Sima Qian (145 a.C. – 86 a.C.), o maior historiador da China Antiga, a procura das três ilhas dos imortais, das mil maravilhas e dos dez mil encantamentos iniciara-se já no século IV a.C., com juncos a navegar da China para o Oriente Extremo. Sempre em vão, viagens sem sucesso, as expedições marímas perdiam-se no mar.

Verdade é que apenas a 15 quilómetros de distância de Penglai, bem mais perto do que as costas sul das ilhas do Japão situadas a uns 1.400 quilómetros, encontramos o arquipélago de Changshan, meio perdido na bruma mas, nos dias luminosos e claros, perfeitamente visível desde Penglai. Conta a lenda que Guangyin, a deusa budista da Misericórdia espalhou alguns diamantes no mar. Cresceram e transformaram-se nestas ilhas. Quando os Oito Imortais do taoismo religioso passaram pela região, usaram as ilhas de Changshan para um descanso mágico e hoje, no imaginário chinês, as divindades continuam a pairar por estas paragens. Penglai faz parte dos lugares sagrados do taoismo, há muitos séculos. Fica a setenta e cinco quilómetros de Yantai. Cheguei lá pela primeira vez em 1992, viajando com os primos chineses num au-


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R Ó N I C A

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TRE IMORTAIS E BRUMAS

tocarro que não tinha horário de partida, arrancava quando estava cheio de passageiros. A estrada, serpenteante e bem tratada, ladeada por campos de amendoim, algodão, vinhedos, milheirais e o mar, acompanha a costa noroeste da província de Shandong, com praias entrecortadas por falésias não muito altas caindo sobre o Oceno Pacífico. Penglai não é uma ilha mas uma península rodeada por um conjunto de muralhas que parecem crescer a partir da água do mar e se estendem, subindo e descendo, em volta de um monte. Parece-se com um enorme castelo saído do oceano. No alto encontramos uma torre e um conjunto de pavilhões e templos taoistas. São notáveis algumas paredes interiores em ardósia com poemas gravados na caligrafia do poeta Song Dongbo, mais retratos e desenhos de paisagens imortalizadas pelo

estilete a rasgar suavemente a pedra. Lá de cima, contemplar a vastidão do mar pode eliminar as angústias das gentes e, como dizem os chineses, limpar as impurezas acumuladas nos pulmões e intestinos. Mais abaixo, existe uma parte da muralha com uma entrada larga e passagem pedonal superior que possibilita a ligação entre o mar e um porto interior repleto de barcos de pesca, e alguns de recreio. A muralha servia também como defesa costeira face à pirataria que, sobretudo nos séculos XVI e XVII, infestava estes mares. Até nós, portugueses, chegados à China do Sul, à foz do rio das Pérolas em 1513 com o mercador Jorge Álvares, passámos durante séculos a ser denominados hai tou por esta gente do norte, ou seja colaram-nos o nada bonito epíteto de “ladrões do mar”. Nos últimos vinte anos Penglai tem cres-

cido muito e os turistas chineses, outrora quase inexistentes, enxameiam agora o lugar. Para satisfazer tão vasta mole humana que naturalmente tem todo o direito a conhecer os lugares mais famosos da sua pátria, ajardinaram-se espaços, contruiram-se mais templos, inclusive em 2008 foi inaugurado no monte Sanxian ou dos Três Imortais, a 1,5 km de distância, um enorme complexo arquitectónico com 72 estátuas, pavilhões, pontes e torres, tudo a imitar o estilo da dinastia Ming, a brilhar e a cheirar a novo. Até fizeram um teleférico e um grande molhe que entra por dentro do mar no extremo do qual ergueram mais um templo e um pagode. Abençoadamente, o oceano é pacífico e não costuma investir contra tanta malfeitoria. Por detrás do complexo multisecular de Penglai levantaram um farol moderníssimo. Útil

sem dúvida para a regularização e auxílio ao tráfego marítimo mas um atroz atentado a um lugar envolto na sublime magia do tempo. Vamos até ao pequeno porto de Penglai, almoçar ou jantar num dos muito restaurantes de peixe, tipo marisqueira, existentes logo ali à beira de água. Come-se muito bem, quase só iguarias provenientes do mar, das ostras ao camarão, das amêijoas à lagosta. Na minha primeira estadia em Penglai, em Agosto de 1992, a prima Sun Yuxia decidiu ir molhar os pés na água do mar, uma forma simples e higiénica de procurar a bênção das divindades. Arregaçou a saia e entrou, formosa e não segura, pelas ondas rasteiras do oceano. Numa próxima ida a Penglai – se houver próxima –, eu prometo ir à praia, vestir fato de banho e encharcar todo o corpo nas ondas serenas do Pacífico arrastadas pelas poderosas mas dulcíssimas mãos dos imortais.


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D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

PIMM’S CUP – A OBNUBILAÇÃO E A MANHA Presumo que todas as pessoas sejam, periodicamente, atingidas por acontecimentos que as levam a lembrar que o tempo tem um aspecto cíclico. Há, no passar dos meses que constituem o ano, marcos que levam a reparar que rapidamente passou outro ano, como se houvesse algo de inacreditável na velocidade com que o tempo passa, que é, sempre praticamente a mesma. Um ano comum tem 8760 horas - cerca de 2555 das quais passamos no cumprimento de uma necessidade no qual não incomodamos ninguém com as nossas impertinências ou desilusões, isto é, a dormir. É muito vasta a diversidade dos calendários mas é difícil escapar à ideia de que o tempo que é vivido por nós, individualmente, tem um rosto cíclico. Cada um terá criado as suas balizas e o seu modo próprio de visualizar o ano. Pessoalmente, sem que me aperceba bem da sua razão fundamental, há um acontecimento, que se repete sensivelmente a meio do ano, que me causa esse frisson que constitui a consciência da passagem de mais um. Um acontecimento que impressiona indelevelmente o início do Verão. É Wimbledon. A partir de Wimbledon já nada poderá ser levado a sério, estes dias constituindo uma espécie de inauguração, e aqueles que praticam esta disposição durante todo o ano sentem-se a partir daqui, pelo menos durante umas semanas, irremediavelmente acompanhados. Porque não outro acontecimento desportivo? Ou uma festividade como o Natal, ou um acontecimento um pouco mais pagão, o solstício de Verão - projectado na figura de São João? Há outros acontecimentos desportivos, como o Torneio das Seis Nações, que o poderiam substituir, mas nenhum tem o poder de Wimbledon. O Festival de Bayreuth ou a Semana da Florescência das Cerejeiras não têm, igualmente, este poder de sugestão. A estas semanas de erva e tempo incerto aparece associada uma bebida que é uma das bandeiras do Verão e do deleite ao ar livre - o Pimm’s Cup. Basicamente, um Pimm’s Cup consiste em muito gelo, 1 parte de Pimm’s nº 1, que tem uma base

de gin e é o único que se consegue arranjar com facilidade, 3 partes de limonada, água tónica ou ginger ale (Miguel Esteves Cardoso admite Sumol ao mesmo tempo que relembra a dificuldade em arranjar borragem), hortelã, pepino e fruta. Pense-se em sol e Verão e parta-se desta base. Há quem o beba só com gelo mas nesse caso não é um Pimm’s Cup - é uma merda. Foi assim que me foi servido num bar onde já em mais do que uma ocasião um pedido meu foi recebido com aquele olhar, tão praticado em Macau que poderia constituir um dos seus emblemas oficiais, que consiste numa espécie de obnubilação temporária, uma marcha inevitável do vazio (obnubilação s.f. (…) estado de perturbação da consciência, caracterizado por ofuscação da vista e obscurecimento do pensamento(…)acção de cobrir como uma nuvem(…) - em Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. A administração local, intenta em reduzir toda a sua expressão a bonecos, poderia criar o Obnubilinhas. Este bar é o Bar 38 do Hotel Altira. Recentemente, no famoso Coliseum, em Kuala Lumpur, a ignorância que eu li nos olhos do empregado foi imediatamente substituída por um ar jocoso e sabedor, o modo como a expressão certainly sir lhe saltou dos lábios, grossos e manhosos, um segredo bem guardado entre nós (manha s.f. 1 habilidade, talento na maneira de proceder, de realizar algo; desenvoltura, destreza(…)2 habilidade de enganar, despistar, desorientar; astúcia, esperteza, malícia(…)3 procedimento astucioso, finório; ardil, artimanha (…) - em Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Será um pouco pedante julgar um bar pela sua reacção a um pedido de Pimm’s Cup mas é precisamente isso que está a acontecer aqui. Desde o início que este bar me causa uma irritação cujas causas apenas em parte identifico: a iluminação é mal concebida, não tem um balcão (nunca vi o barman), o pé direito da sua sala principal é demasiadamente alto. Além do mais, a qualidade do serviço não parece acompanhar o que se pratica no resto do hotel, o Altira, que acolhe o bar mais alto de Macau. O modo como, na minha últi-

ma visita, a simpatiquíssima empregada colocou o cinzeiro sobre a mesa seria, no Japão, causa de despedimento imediato e perpétuo embaraço para a família. Que o espectáculo da ignorância e da incompetência não tolha, contudo, o usufruto do Verão. Vários Pimm’s Cup podem ajudar a levar bom cabo este propósito. Outro texto não deixará de chamar a atenção para alguns dos privilégios que este lugar permite. Mas não tem de ser assim. Há Cups muito decentes no Star World (aproveite-se, sempre que possível, a sua varanda), no Mandarim, e especialmente, no Lan e no Macallan. Sobre estes dois últimos bares observe-se o seguinte: o Lan é um dos poucos bares em que os seus enormes janelões permitem que se beba Pimm’s Cup no seu ambiente natural, isto é, rodeado pelo sol. A sua confecção é mais que decente e os pedidos processam-se sem o menor óbice. Continuo sem perceber a indisposição local para esplanadas, um dos supremos luxos que contribuem para o bem estar e qualidade de vida das populações. Munique, Madrid, Manila, Marraquexe, Melbourne, Memphis, Milão, são algumas cidades cujo nome começa por M onde isso já se percebeu. Porque não Macau ? E Beirute. O Macallan, ao tentar reproduzir um ambiente interior outonal de madeiras e cabedais não seria o sítio ideal para Cups não fosse a inultrapassável competência dos seus funcionários. Este é, sem dúvida, o mais glorioso e solar dos Cups de Macau. Mas há uma maneira de dar a volta a tudo isto que é fazê-lo em casa. Juntando-se um grupo faça-se em jarros (a parte líquida apenas) e beba-se como refresco, com hortelã, pepino e laranja ou morangos ou o que lhe apetecer porque o Verão é aparentemente a mais fugaz das estações. Esta bebida pode ser pretexto para que se pratique um exercício que parece afastado da sociedade local, que é não nos levarmos muito a sério e esquecermos as inanidades que nos rodeiam. E porque é que as pessoas não se sentam? E Wimbledon? Será este o ano de Andy Murray? Depois de alguns Pimm’s pode ser que alguém acredite.


OS FASCISTAS À PORTA Mário Soares ACABO DE LER um livro do ensaísta e pensador holandês Rob Riemen, intitulado: “O Eterno Regresso do Fascismo”, publicado em Outubro de 2011. O título, só por si, é insólito e, ao mesmo tempo, extremamente preocupante. Sessenta e seis anos após o fim da II Grande Mundial, vencida sob a bandeira da Liberdade, da Carta do Atlântico e das Nações Unidas, quem podia imaginar ser possível voltarmos a falar, seriamente, no perigo do fascismo ou, pior ainda, do nazi-fascismo, como uma calamidade que pode voltar a contaminar a Europa, como um micróbio que reaparece anos depois num corpo social doente? É, como o título indica, o teor do livro de Rob Riemen, que invocando grandes autores como: Goethe, Alexis de Tocqueville, Nietzsche e Ortega y Gasset, que tanto escreveu sobre a rebelião das massas, e, mais recentemente, Paul Valéry, Max Scheler e Albert Camus, entre outros, relembra que tanto o fascismo como o nazismo chegaram ao poder por via de eleições democráticas, em sociedades que tinham perdido os valores éticos e só viam o dinheiro, a “joie de vivre” e os mercados especulativos. Estamos, na realidade, de novo, a viver uma crise, para além de financeira e económica, de civilização. Sem ideais que nos inspirem e, por isso, se cria nas camadas populares um sentimento de mal-estar, de frustração e de ressentimento, em que os valores democráticos da cidadania se perdem e os líderes políticos, cada vez mais desacreditados, procuram dirigir-nos, apostando no neoliberalismo e, consequentemente, no nacionalismo e no populismo. Através de slogans de uma cultura kitsche, conseguem, assim, da pior maneira, interessar as massas, aparentemente ganhando o sentimento dos povos... O grande Winston Churchill, num discurso que proferiu em 1946, no imediato pós-guerra, em Zurique, com a Europa destroçada e para evitar novas guerras, advertiu: “É preciso recriar a família europeia (...) para se desenvolver em paz, em segurança e em liberdade. E para tanto é necessário construir uma espécie de Estados Unidos da Europa” em que, obviamente, o Reino Unido não entraria. Pois bem, passaram seis décadas de paz, progresso e bem-estar social e os dirigentes europeus ainda não tiveram coragem de dar um passo decisivo no sentido federal, como hoje parece ser indispensável. Não nos admiremos, pois, de estarmos hoje, na União Europeia, na situação crítica, de crise aguda, em que nos encontramos. Os nacionalismos e os populismos, dos Partidos conserva-

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O QUE CARACTERIZA E DEFINE O FASCISMO? PORQUE PODEMOS AFIRMAR QUE ESTÁ HOJE DE REGRESSO À EUROPA? QUE RESPONSABILIDADES TÊM AS ELITES NO SEU RESSURGIMENTO? E COMO LUTAR CONTRA A SUA PROPAGAÇÃO? NUM PEQUENO ENSAIO, ROB RIEMEN AJUDA-NOS A COMPREENDER (E A COMBATER) MELHOR O FASCISMO, UM MAL DOS NOSSOS DIAS.

Tanto o fascismo como o nazismo chegaram ao poder por via de eleições democráticas, em sociedades que tinham perdido os valores éticos e só viam o dinheiro, a “joie de vivre” e os mercados especulativos.

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dores europeus (na esmagadora maioria), substituíram-se à solidariedade e à igualdade entre os Estados membros, das famílias socialistas e democrata cristãs. Com a melhor cara e total irresponsabilidade, os atuais dirigentes europeus aceitam ser dominados pelos mercados especulativos. Com efeito, únicos valores que para eles contam, ignorando as pessoas, são o dinheiro, as economias virtuais e todas as negociatas e especulações que têm lugar à sombra do neoliberalismo. A história, obviamente, não se repete. Mas o livro de Rob Riemen, sem se referir especialmente à situação actual, deste início de século, tão complexo e incerto, obriga-nos a refletir, para depois actuar. Porque é necessário actuar. O regresso à violência, ao poder absoluto dos mercados especulativos e ao agravamento das desigualdades sociais, que tanto nos afligem, vão obrigar a União Europeia a abandonar essa política cega que, a prolongar-se, conduzirá necessariamente ao desastre. Ao mesmo tempo - espero - que a União Europeia reconheça a necessidade de se lançar numa política de salvação pública e de justiça social que a faça avançar e, simultaneamente, contribua para renovar a esperança do velho continente num mundo melhor, de que possa beneficiar. Na verdade, por mais graves que sejam os tempos que se avizinham não devemos perder a esperança. Foi sempre alimentando a esperança num mundo melhor que as sociedades - e as pessoas - foram capazes de progredir. Lutando pelos grandes ideais, da paz, da liberdade, da solidariedade, da justiça social e dos Direitos Humanos. É por isso que em momentos de crise não podemos nem devemos - prescindir das conquistas sociais. O professor Riemen sabe do que fala - e tem autoridade para o dizer - porque a Holanda de hoje tem um partido e um governo que chegaram ao poder por via do voto popular - como, aliás, Mussolini e o próprio Hitler - não se diz fascista, que horror, mas na prática procede como tal. Como aliás está a acontecer também com a Hungria. E com a própria União Europeia, sobretudo da zona euro, porque graças ao comando da Chanceler Merkel, educada na ex-Alemanha de Leste, não o esqueçamos, associada ao volúvel Presidente Sarkozy, por pouco tempo, espero, tem vindo, para evitar a inflação, que tanto a aterroriza, a deixar prevalecer a austeridade sobre a recessão e o desemprego, ambos crescentes - com as consequências trágicas que daí resultam - pelo menos em seis Estados europeus prestigiados, como: Grécia, Irlanda, Portugal, Chipre, Espanha e Itália. E os que aí vêem, como é inevitável.


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ROB RIEMEN, FILÓSOFO HOLANDÊS, AUTOR DE “O ETERNO REGRESSO DO FASCISMO”

A RAIZ DO FASCISMO É A Joana Azevedo Viana

ESTUPIDEZ

in jornal i

O fascismo continua latente? A minha geração cresceu convencida de que o que os nossos pais viveram nunca voltaria a acontecer na Europa. Quando vocês se livraram do fascismo nos anos 70, nos anos 90 devem ter pensado que não mais o viveriam. Mas uma geração depois, já estamos a assistir a uma espécie de regime fascista na Hungria, na Holanda o meu governo foi sequestrado pelos fascistas, pelo sr. [Geert] Wilders [do Partido da Liberdade]... Com uma nota comum a todos que é o ódio à Europa. Para Wilders, o grande inimigo era o Islão e agora são os países de alho. Países de alho? É o que ele chama a países como o vosso, Espanha, Polónia... A Europa tornou-se uma ameaça. Com a II Guerra Mundial aprendemos a lição de que a única saída, depois de séculos de sangue derramado, era ter uma Europa unida e agora as forças contra [essa união] estão a ganhar controlo. É o primeiro ponto. E o segundo? A actual classe dominante nunca será capaz de resolver a crise, porque ela é a crise! E não falo apenas da classe política, mas da educacional, da que controla os media, da financeira, etc. Não vão resolver a crise porque a sua mentalidade é extremamente limitada e controlada por uma única coisa: os seus interesses. Os políticos existem para servir os seus interesses, não o país. Na educação, a mesma coisa: quem controla as universidades está ali para favorecer empresas e o Estado. Se algo não é bom para a economia, porquê investir dinheiro? Nos media o mesmo. Sim. No geral, os media já não são o espelho da sociedade nem informam de facto as pessoas do que se está a passar, existem sim para vender e vender e vender. E as consequências estão à vista. Pois, estamos a assistir à desintegração da sociedade. Tudo é baseado na premissa de que as pessoas devem ficar mais ricas e é daqui que vem a crise financeira, daqui e deste comportamento totalmente imoral e irresponsável de um pequeno grupo de pessoas que não podia importar-se menos [com a sociedade] e sem interesse em ser responsável. Quando uma sociedade está focada na economia, na economia, na economia e na economia, perde-se a noção do que nos dá qualidade de vida. E quando somos privados dessa noção, surge um vazio. A sociedade kitsch que refere no livro? Sim, em que a identidade das pessoas não depende do que elas são, mas do que têm. Quando se torna tão importante ter coisas, serves um mundo comercial, porque pensas que a tua identidade está relacionada com isso. Estamos a criar seres humanos vazios que querem consumir e ter coisas e que acabam por se vestir e falar todos da mesma forma e pensar as mesmas coisas. E

a classe dominante está muito mais interessada em que as pessoas liguem a isso do que ao que importa. A classe dominante teme que as pessoas comecem a questionar tudo? Claro que sim! Frederico Fellini, o realizador italiano, disse um dia: “Eu sei o que é o fascismo, eu vivi-o, e posso dizer-vos que a raiz do fascismo é a estupidez. Todos temos um lado estúpido, frustrado, provinciano. Para alterar o rumo político, temos de encontrar a estupidez em nós”. Mas se as pessoas fossem um bocadinho mais espertas, não iriam para universidades estúpidas, nem veriam programas estúpidos na TV. Existe uma elite comercial e política interessada em manter as pessoas estúpidas. E isso é vendido como democracia, porque as pessoas são livres de escolher e blá blá. Quando não é assim. Não, não, não, não! [Bento de] Espinoza – muito obrigado a Portugal por o terem mandado para a Holanda – explicou que a essência da democracia é a liberdade, mas que a essência da liberdade não é teres o que queres; é usares o cérebro para te tornares num ser humano bem pensante. Se não for assim, se não fores crítico perante a sociedade mas também perante ti próprio, nunca serás livre, serás sempre escravo. Daí que o que estamos a viver não tenha nada a ver com democracia. Tem a ver com quê? Vivemos numa democracia de massa, uma mentira que abre os portões a mentirosos, demagogos, charlatães e pessoas más, como vimos no séc. XX e como vemos agora. O retorno do fascismo é inevitável? Vamos fazer uma pausa (risos). Acho que não podemos entregar-nos ao pessimismo. Se acharmos que estamos condenados, que não há saída, que é inevitável, mais vale bebermos champanhe (risos). A razão pela qual publiquei esta dissertação e o meu outro livro, “Nobreza de Espírito”, e pela qual dou estas palestras e entrevistas é por-

que a primeira coisa de que precisamos é de pôr a verdade em cima da mesa. E como podemos fazer isso? Primeiro, admitindo que as coisas estão a correr mal e não apenas no nível económico. Relembremos uma grande verdade do poeta Octávio Paz: “Uma crise política é sempre uma crise moral.” Quando reconhecemos a verdade nisto, percebemos que a crise financeira é também ela uma crise moral. E aí devemos questionar de que tipo de valores universais estamos a precisar e o que é que devemos ter na sociedade para confrontar isto. Aí percebemos que há coisas erradas no sistema de educação. Por causa de quem o controla? Porque não está interessado na pessoa que tu és, mas no tipo de profissões de que a economia precisa. Se o preço é falta de qualidade, se o preço é falta de dignidade humana, é haver tanta gente jovem sem instrumentos para lidar com a vida e para descobrir por si própria o sentido da vida ou que significado pode dar à sua vida, então criamos o “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Aqui surge a sociedade kitsch. E a dada altura já é segunda-feira, a festa acabou, chegou a crise financeira e as pessoas já não conseguem pagar esta sociedade e surgem políticas de ressentimento, que é o que fazem os fascistas e é o que o sr. Wilders está a fazer de forma brilhante. Que políticas são essas? Em vez de tentar fazer algo positivo com as preocupações das pessoas e com os problemas que existem, explora-os. De que forma? Usando a velha técnica do bode expiatório. “Isto é por causa do Islão, por causa dos países de alho, por causa dos polacos. Nós somos as vítimas, vocês são o inimigo.” Ou “Isto é por causa da esquerda e das artes e da cultura, os hobbies da esquerda.” Este fulano [Wilders] é contra tudo o que pode alertar as pessoas para o facto de ele ser um dos maiores mentirosos de sempre.

Como as artes e a cultura que referiu? Sim. O que temos de enfrentar é: se toda a gente vai à escola, se toda a gente sabe ler, se tanta gente tem educação superior, como é que continuam a acreditar nestas porcarias sem as questionar? E porque é que tanta gente continua a achar que quando X ou Y está na televisão é importante, ou quando X ou Y é uma estrela de cinema é importante, ou quando X ou Y é banqueiro e tem dinheiro é importante? A insanidade disto... [suspiro] Se tirarmos as posições e o dinheiro a estas pessoas, o que resta? Pessoas tacanhas e mesquinhas, totalmente desinteressantes. Mas mesmo assim vivemos encantados com a ideia de que X ou Y é importante porque tem poder. É a mesma lengalenga de sempre: é pelo que têm e não pelo que são, porque eles são nada. E a educação também é sobre o que podes vir a ter e não sobre quem podes vir a ser. Reformar o ensino seria uma solução? Eu não sou pedagogo e quero mesmo acreditar que existe uma variedade de formas de chegar ao que penso que é essencial: que as pessoas possam viver com dignidade, que aceitem responsabilidade pelas suas vidas e que reconheçam que o que têm em comum – quer sejam da China, Índia, África ou esquimós – é que somos todos seres humanos. Sim, há homens e mulheres, homossexuais e heterossexuais, pessoas de várias cores, mas somos todos seres humanos. Não podemos aceitar fundamentalismos e ideologias e sistemas económicos como o capitalismo, mais interessados em dividir as pessoas do que em uni-las. E de onde pode vir a união? Só pode ser baseada na aceitação de que existem valores universais. A Europa é um exemplo maravilhoso disso: há esta enorme riqueza de tradições e línguas e histórias, mas continuamos a conseguir estar abertos a novas culturas e é onde pessoas vindas de qualquer parte podem tornar-se europeias. Mas isto só acontece se valorizarmos e protegermos o espírito democrático. A democracia é o único modelo aberto e o seu espírito exige que percebamos que Espinoza estava certo, que o difícil é mais interessante que o

A actual classe dominante nunca será capaz de resolver a crise, porque ela é a crise! E não falo apenas da classe política, mas da educacional, da que controla os media, da financeira, etc.


fácil, que não devemos temer coisas difíceis porque só podemos evoluir se estivermos abertos ao difícil, porque a vida é difícil. Que para lá das habilidades de que precisamos para a profissão em que somos bons, todos precisamos de filosofia, todos precisamos da arte e da literatura para nos tornarmos seres humanos maduros, para perceber o que as nossas experiências internas encerram. É para isto que existem as artes, é por isso que vais ver um bom filme e ouves boa música e lês um poema. É por isso que a cultura está sob ataque? Aqui em Portugal o actual governo eliminou o Ministério da Cultura. E é isso que o partido fascista está a fazer na Holanda e é o que outros estão a fazer em todo o lado. Óbvio! Quem quer matar a cultura são as pessoas mais estúpidas e vazias do mundo. Claro que é horrível para eles olharem-se ao espelho e verem “Sou apenas um anão estúpido”. Por isso querem livrar-se da cultura? Por isso e porque ela ajuda as pessoas a entender o que realmente importa. O medo da elite comercial é que as pessoas comecem a pensar. Porque é que os regimes fascistas querem controlar o mundo da cultura ou livrar-se dele por completo? Porque o poeta é a pessoa mais perigosa que existe para eles. Provavelmente mais perigoso que o filósofo. Quando usam o argumento de que a cultura não é importante e de que a economia não precisa da cultura, é mentira! Isso são as tais políticas de ressentimento, um grande instrumento precisamente porque eles nos querem estúpidos. E alimentam essa estupidez. Claro. A geração mais jovem tem de questionar as elites de poder. Sim, vocês precisam de emprego, mas, acima de tudo, precisam de qualidade de vida. E essa qualidade está relacionada com várias coisas: com a qualidade da pessoa que amas e com a qualidade dos teus amigos, com o que podes fazer que é importante e significativo para ti. Quando vês que te estão a tirar isso, percebes que não estão no poder para te servir, querem é que a sociedade os sirva. A democracia parece estar limitada a ir às urnas de x em x anos. O que é afinal uma verdadeira democracia? Quando Sócrates foi levado a julgamento disse “Vocês já não estão interessados na verdade” e isso continua a ser assim. É por isso que chamei ao meu primeiro livro “Nobreza de Espírito”, porque para a teres não precisas de dinheiro, nem de graus académicos. Nobreza de espírito é a dignidade de vida a que todos podem ter acesso e é a essência da democracia. O espírito democrático é mais do que ir às urnas e se eles [políticos eleitos] não se baseiam nessa nobreza, os sistemas colapsam, como estão a colapsar. Foi Platão que disse que “a democracia pode cometer suicídio” e é assim que começo o “Eterno

A História mostra-nos que as mudanças vêm sempre de um de três grupos: mulheres, jovens ou minorias. Acho que agora vai ter de vir dos jovens. Se isto continuar por mais três ou cinco anos, o seu futuro estará arruinado.

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À S U P E R F Í C I E

Retorno do Fascismo”. A grande surpresa para Ortega y Gasset foi que, livres do poder da Igreja e da tirania e aristocracia, finalmente havia democracia e o que fazemos? Estamos a matá-la! Isso aconteceu em Espanha, em Portugal, em Itália, na Alemanha, esteve perto de acontecer em França... Há um livro lindíssimo que Sinclair Lewis escreveu, “Não pode acontecer aqui”, mas a verdade é que pode facilmente acontecer nos EUA. O livro de Philip Roth, “A Conspiração contra a América”, prova-o. Em 2009 escreveu uma carta a Obama, então presidente eleito. Quatro anos depois, que avaliação faz do mandato? Na altura era a favor de Hillary Clinton. Porquê? Porque acho que ela tem instintos políticos muito melhores e mais experiência política que Obama. Estava na América no dia em que ele foi eleito, a 4 de Novembro de 2008, e foi um momento histórico, mas teria sido igualmente histórico se a América tivesse escolhido uma mulher. O problema com Obama é que não é um grande presidente. [risos] Em que sentido? Tornou-se demasiado vulnerável aos interesses infestados. Teve uma equipa económica com pessoas que vieram todas de Wall Street, como Larry Summers e Timothy Geithner. O poder do dinheiro no sistema político americano é assustador! E ele não conseguiu escapar a isso. E depois a política é uma arte e demasiados intelectuais pensam que, por terem lido sobre política, sabem de política. Não é verdade. A política tem a ver com pequenos passos, grandes passos são impossíveis numa democracia. Mas vamos esperar e rezar para que Obama seja reeleito. Senão vamos ter um problema, todos nós. E já agora, que no segundo mandato ele consiga fazer mais, tem esse dever. Obama legalizou em Janeiro a detenção por tempo indefinido e sem julgamento de qualquer suspeito de ligação a redes terroristas. O que pensa disso? Se lhe perguntasse sobre isso, ele dir-lhe-ia: “Aqui que ninguém nos ouve, não tive alternativa”. O problema sério com que estamos a lidar tem a ver com o poder dos media. Eles querem vender e só podem vender se tiverem notícias de última hora constantes. Têm de alimentar este monstro chamado público. Tudo tem de ser a curto prazo. Na política é o mesmo, é sobre o dia seguinte. Onde está a elite política que quer pensar à frente, a um ou dois anos? Onde estão os media que expliquem às pessoas a importância do longo prazo? Na economia é o mesmo. Tudo tem de ser agora. Perdemos a noção de tempo. No mundo político, as pessoas deviam poder dizer: “Não sei a resposta a essa questão. Dê-me uma semana e falarei consigo.” Mas se um político disser “Não sei”, é morto. Vivemos a política do instante, onde as questões estruturais são esquecidas. Veja, estou cá [em Lisboa] a convite de Mário Soares. O que quer que se pense sobre ele ou sobre Mitterrand, etc, essa geração viveu a guerra, experienciou a vida, leu livros. Cometeram erros? Claro que sim, mas é uma classe completamente diferente de tantos actuais políticos, jovens, sem experiência, que não sabem nada. Nada! Se lhes perguntarmos que livros leram, eles quase têm orgulho de não ler! O que pensa dos movimentos como os Occupy ou o 15M de Espanha? É extremamente esperançoso que estejamos a livrar-nos da passividade. Finalmente temos uma nesga de ar, mas precisamos de um próximo passo, protestar não basta. A História mostra-nos que as mudanças vêm sempre de um de três grupos: mulheres, jovens ou minorias. Acho que agora vai ter de vir dos jovens. Se isto continuar por mais três ou cinco anos, o seu futuro estará arruinado, não haverá emprego, casas, segurança

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social, nada. É tempo de reconhecer isto, de o dizer publicamente, de parar e depois avançar. Se os jovens pararem os jornais, os jornais acabam. Se os jovens decidirem que não vão à universidade, ela fecha. Mas parece não haver união para isso. É preciso solidariedade! Será que é preciso ir ver o Batman outra vez? Qual é o papel do Joker? É dividir as pessoas! Os actuais políticos são Jokers? No mínimo não estão a fazer o que deviam. Não estão a dizer a verdade. O perfeito disparate de que todas as nações europeias não podem ter um défice superior a 3% é pura estupidez económi-

dade e a portar-se como escravos e os “guardas” tornaram-se violentos e sádicos. De repente percebemos: “Uau, é isto a natureza humana, é disto que somos capazes.” Lição aprendida: há que controlar o poder, venha ele de onde vier. A sociedade é que pode controlá-lo? Sim, todos têm de aceitar uma certa responsabilidade. Os intelectuais têm de se manter afastados do poder, porque só assim podem dizer a verdade. Os media também, porque sem sabermos os factos a democracia não sobrevive. Se esses mundos de poder não tiverem total controlo, as pessoas têm tentações. Quem tem dinheiro quer mais dinheiro, quem tem poder quer mais

ca. Temos de investir no futuro. Como? Investindo numa educação como deve ser, que garanta seres humanos bem pensantes e não apenas os interesses da economia. Investindo na qualidade dos media... O dinheiro que demos aos bancos é milhões de vezes superior ao que é preciso para as artes, a cultura, a educação... A WikiLeaks revelou que a CIA espiou o 15M e que divulgou um documento onde diz ser preciso evitar que destes movimentos “surjam novas ideologias e líderes”. Uau! Isso prova o que defendo! Não sabia disso mas é muito interessante. Veja, porque é que temos democracias? Porque percebemos que o poder é um animal estranho para todos os que o detêm e que ninguém é imune a ele. Se dermos poder às pessoas elas começam a comportar-se como pessoas poderosas. Philip Zimbardo levou a cabo esta experiência, o Efeito Lucifer, na qual uns fingiam ser prisioneiros e outros guardas. A experiência teve de ser parada, porque os “prisioneiros” começaram a perder a sua individuali-

poder. E há que garantir a distribuição equilibrada destas coisas na sociedade. Só quando soube que vinha entrevistá-lo é que li sobre o Instituut Nexus. Está perdoada, não somos famosos. (risos) Porque é que decidiu criá-lo? Quando estava na universidade percebi que já não é o sítio onde podemos adquirir conhecimento e onde há conversas intelectuais, essenciais à evolução. Na altura conheci um judeu que dedicou tudo – tempo, energia, dinheiro – a resgatar o que Hitler queria destruir: a cultura europeia. Abriu uma editora, uma biblioteca, uma livraria. Tornou-se meu professor e começámos um jornal, o Nexus, e depois da primeira edição percebemos que tínhamos de levar a ideia a outro nível e criar uma infraestrutura aberta onde intelectuais de todo o mundo pudessem discordar uns dos outros e falar de tópicos importantes. Legenda da fotografia: Gandhi em Roma, saudado pela Juventude Fascista nos anos 30


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哪咤

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

NA CHA, A PRODIGIOSA CRIANÇA ENDIABRADA Deus a quem as pessoas recorrem quando os outros deuses não atendem os pedidos, Na Cha é venerado pelos médiuns e terá vivido há três mil e duzentos anos, quando o reino Zhou se preparava para conquistar o poder à dinastia Shang. Perante os inúmeros actos extraordinários atribuído à criança Na Cha, que nasceu após ter passado três anos e seis meses dentro da barriga da mãe e aí ter ido parar quando esta sonhou que um mestre daoista lhe entrara no quarto e lhe colocara um objecto no corpo. Com a mensagem da vinda de um ser transcendente, despertou banhada em suores frios e acordou o marido, contando-lhe o que tinha sonhado. Nesse momento, sentiu as dores do parto. O seu marido, um general Zhou, retirou-se para o quarto vizinho, ficando à espera do nascimento do terceiro filho. Do ventre da mãe saiu uma bola de carne encarnada e as parteiras assustadas deram um grito, o que levou o general a entrar no quarto. Ao ver a disforme massa, abriu-a com um golpe de espada. Dela emergiu uma criança com uma aura de raios vermelhos, envolvida numa faixa da mesma cor. Quem revelara à mãe em sonhos a vinda de um unicórnio fora o mestre daoista T’ai i Chên Jên que, logo após o parto, lhes fez uma visita. Foi este mestre quem deu o nome Na Cha à criança, tomando-a como seu discípulo e lhe ofereceu um bracelete de oiro, colocando-o no pulso direito. A criança era um avatar de Ling Chu tzu, “a Pérola Inteligente”. Esta história é-nos contada pela professora Ana Maria Amaro. Na Cha, irreverente e irrequieto, foi crescendo e aos sete anos era já um rapaz bem desenvolvido, mas que causava muitos problemas aos pais. Vestia um par de calças de seda vermelha, que desferiam raios de luz. Recorrendo às suas capacidades transcendentes entrou em confronto com a família do Rei-Dragão, a quem matou o terceiro filho. Acusado ao Imperador de Jade pelas suas diabruras e por essa morte, imolou-se diante de todos para poupar a família à vingança dos espíritos encolerizados. A sua alma espiritual voou até à caverna do seu mestre e protector. Depois

apareceu em sonhos à mãe pedindo que lhe construísse um templo em sua honra, pois só assim poderia reincarnar ao fim de três anos. Quando sua mãe acordou e contou ao marido, o general Lei Tcheng não concordou. Durante cinco noites Na Cha apareceu de novo à mãe e assim a senhora, desobedecendo ao marido, edificou o templo. Um dia, quando o general ao passar por um novo templo o vê tão cheio de crentes em orações, quis saber de que pou sat se tratava. Ao olhar para a estátua aparece-lhe o seu filho e furioso deu ordem para destruir a estátua e queimar a capela. Falhada a tentativa de reincarnar, Na Cha volta a procurar o mestre e este, como eram necessários homens para a luta pelo reino Zhou contra a dinastia Shang, pegando em dois rizomas e três folhas de lótus construiu o esqueleto onde reincarnou Na Cha, feito adulto. Armou-o com uma lança afiada, duma barra de ouro e duas rodas, uma de vento e outra de fogo onde apoiava os pés e flutuava. Aproveitando de novo a sua existência material, em vez de ir para a luta para que tinha voltado à Terra, resolveu vingar-se do pai e dos irmãos. Mas o seu mestre conseguiu colocá-lo na ordem dando ao pai de Na Cha poderes superiores e assim vemos por fim, ambos unidos na luta pela imposição da nova dinastia Zhou (1122–220 a.C.), na qual tantos seres transcendentes andavam empenhados. Foi, assim, que ambos conseguiram a imortalidade, após a vitória final. Este deus criança é representado com uma lança, uma argola de ouro, o anel cósmico com que matou o filho do Rei-Dragão e nos pés traz duas rodas de vento e fogo. Veste um tipo avental vermelho atado nas costas e que muitas vezes se vê nas crianças. O décimo oitavo dia da quinta Lua é o aniversário do deus Na Cha ou Na Tcha, como é mais conhecido em Macau, que este ano acontece no dia 6 de Julho. É uma figura que goza de extraordinária popularidade entre os chineses, tanto daoistas como budistas de Macau e conta na cidade com dois templos. O culto e as festividades a Na Tcha torna-se este ano Património Intangível de Macau.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

São muitos os que se deixam cegar por nome e reputação. São poucos os que vêem a realidade.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 12 Humanidade e justiça são as fundações da sociedade; tal é algo que jamais muda. Quando as pessoas conseguem aferir as suas capacidades e ter o tempo para examinar as suas acções, então, ainda que ocorram mudanças diárias, tudo correrá bem. *** Em tempos antigos eram puras as pessoas; eram rijas as artes e simples o comércio e as mulheres eram castas. Assim, a governação e a educação eram eficientes sem esforço; as maneiras e costumes eram fáceis de mudar. Agora, que as virtudes da sociedade estão em declínio e a moral enfraquece, pretender

governar uma populaça decadente com leis simples é como tentar prender um cavalo selvagem sem freio ou rédea. *** o Rei Wen era inteligente, mas, ainda assim, procurava aprender e, desse modo, se tornou sábio. O Rei Wen era corajoso, mas, ainda assim, procurava aprender e, desse modo, se tornou vitorioso. Seja quem for que monte a garupa do conhecimento dos muitos se tornará sábio; seja quem for que utilize a força dos muitos prevalecerá. *** Quando um grupo de gente se unifica, cem pessoas dispõem de força suplementar. Por

isso, confiar no poder de um só indivíduo resulta sempre em insegurança. *** Quando não há discriminação, quando cada indivíduo encontra um modo de vida adequado, então, está o mundo igualizado, ninguém havendo que a outro domine. Os sábios encontram trabalho para cada um dentre eles; não há nem uma capacidade desperdiçada. *** São muitos os que se deixam cegar por nome e reputação. São poucos os que vêem a realidade. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.



h - Suplemento do Hoje Macau #49