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PARTE integrante DO HOJE MACAU Nツコ 2886. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

artes, letras e ideias

h deolinda da conceiテァテ」o (1913-2013)

Senso e sensibilidade


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Deolinda da Conceição Os passos e espaços de uma vida Deolinda da Conceição, jornalista e escritora macaense da primeira metade do século XX, Mulher trabalhadora de rara e admirável coragem, é uma referência na Literatura de Macau pela autonomia intelectual revelada à época, em absoluta paridade com a dos homens seus contemporâneos. Combinou duas visões do mundo, na vida e na obra deixada como testemunho de um tempo da História e da sua história. Escreveu em Macau sobre a realidade que conheceu, observou ou experimentou, chamando a si a responsabilidade de dar rosto a quem, por imposição cultural, se movimentava na sombra. Em “Cheong Sam (A Cabaia)”, seu único livro, são mulheres as principais personagens. Neste conjunto de contos, Deolinda da Conceição conta, com sabor de oralidade, histórias do antigamente, do maravilhoso e do fantástico chinês, ou, em notação mais realista, revela a crueza do seu quotidiano. Mulher do seu tempo, mas com uma visão para além dele, escreveu acreditando numa nova ordem, num devir de justiça e fraternidade que pusesse fim à caótica miséria humana. Como jornalista e escritora, impôs-se pela sua força de carácter e vontade indomável, enfrentando as circunstâncias com determinação e sensibilidade, a mesma com que os Grandes temperam a vida. Deolinda da Conceição com pai, tio e irmaos


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Helena Vale da Conceição Deolinda do Carmo Salvado da Conceição nasceu em Macau, na Freguesia de S. Lourenço, no dia 7 de Julho de 1913. Filha de António Manuel Salvado, comerciante, nascido em Medelim, Concelho de Castelo Branco, e de Áurea Angelina da Cunha, nascida em Macau, Deolinda era a quarta de oito filhos, sete raparigas e um rapaz. Graduou-se no Liceu de Macau com distinção, tendo feito estudos de inglês em Hong Kong. Ao completar 18 anos, em 1931, casa em Shameen, Cantão, com Luís Gaspar Alves, de quem tem dois filhos, José e Rui Alves. Com o curso liceal completo e um domínio perfeito do inglês e chinês, Deolinda, como outros seus conterrâneos, não teve dificuldade em encontrar trabalho em Xangai, para onde parte com a família na década de 1930. Não foi longa a estadia na “Paris do Oriente” pois a invasão japonesa impele-a a partir para Hong Kong. Na então colónia britânica foi professora de português. A ocupação japonesa de Hong Kong, em 1941, obriga-a a recolher-se com os filhos num campo de refugiados, de onde foi resgatada por um tio, o cónego Artur Gonçalves, que a trouxe de volta a Macau. Nos anos conturbados da guerra, a que Macau não ficou imune, Deolinda traduziu os serviços noticiosos telegráficos, de inglês para português, para o jornal “A Voz de Macau”, até ao encerramento deste, em 1945, por morte do proprietário, capitão Rosa Duque. Nesse período ocupou também o lugar de Directora da Escola Portuguesa dos Refugiados de Hong Kong e leccionou português no Colégio do Sagrado Coração. Fez ainda parte da Missão de Protecção aos Refugiados. Por força do seu divórcio em 1945, estes cargos foram-lhe retirados. Em 1946 nasce o jornal “Notícias de Macau” pela mão de Hermann Machado Monteiro e Deolinda é convidada a fazer parte da equipa iniciática. É também neste jornal que volta a casar. António Maria da Conceição, antigo colega dos tempos de escola e agora professor do Liceu de Macau, era também o chefe de redacção do Notícias de Macau. Em 1948, na sala da redacção do diário onde ambos trabalhavam, casam pela Conservatória do Registo Civil. Deste casamento nasce o seu terceiro filho, António Maria da Conceição Júnior. No Notícias de Macau, Deolinda desdobrou-se como jornalista, cronista, crítica literária e artística. Ao longo dos dez anos que serviu o jornal, encontrou aí a tranquilidade para poder escrever os seus contos e o espaço para os publicar. Nesse período, colaborou ainda com o extinto jornal português “Diário Popular“, na rubrica “Um conto por dia”, onde vários trabalhos seus foram publicados.

Deolinda da Conceição estudante

Em 1956 Deolinda da Conceição tem finalmente a possibilidade de cumprir um dos seus maiores sonhos – conhecer Portugal. Esse Portugal mítico não a desiludiu. Visitou lugares e espaços que cumpria conhecer: o berço paterno e a Basílica de Fátima. Encontrou amigos que fizera à distância. Em Lisboa deu também à estampa o livro “Cheong Sam (A Cabaia)”, numa Edição da Livraria Popular, de Francisco Franco.

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Em 1956 Deolinda da Conceição tem finalmente a possibilidade de cumprir um dos seus maiores sonhos – conhecer Portugal. Esse Portugal mítico não a desiludiu. Visitou lugares e espaços que cumpria conhecer: o berço paterno e a Basílica de Fátima. Encontrou amigos que fizera à distância. Em Lisboa deu também à estampa o livro “Cheong Sam (A Cabaia)”, numa Edição da Livraria Popular, de Francisco Franco. Esta colectânea de contos foi dedicada pela autora ao jornal “Notícias de Macau” e a todos os seus colegas de trabalho. Deolinda não chega a gozar inteiramente a estadia em Portugal. Doente, vê-se obrigada a regressar à sua terra. No dia 24 de Maio de 1957, com apenas 43 anos, após meses de sofrimento, morre em Hong Kong, no Hospital S. Paulo, vítima de cancro. José dos Santos Ferreira (Adé), seu colega de redacção no Notícias de Macau, escreveu: “Para ela, o poente da vida despontou cedo. Foi quando, talvez, as primeiras brisas de felicidade mal haviam começado a acariciar-lhe os dias. Oh! Quanto ansiou ela essa felicidade! Com a chama do amor ainda a flamejar-lhe no coração, a inteligência a resplandecer-lhe no cérebro, a esposa e mãe carinhosa que sofreu porque amou com verdadeiro amor, a mulher instruída que marcou posição de relevo no campo das letras, cedo se apartou de tudo e de todos, deixando angustiados não poucos corações. Grande foi o vácuo produzido pelo seu desaparecimento no meio literário em que evidenciou talento. Admirada pela personalidade e firmeza de carácter, a mulher de fino trato, dotada de um coração singular sedento do bem e da perfeição, levou quase a vida inteira a lutar pelos seus ideais, sempre confiante no triunfo, mas só naquele que desejava alcançado por via da rectidão e méritos próprios. Por isso se fez trabalhadora activa, intransigente nos seus princípios honestos e justiceiros, infelizmente nem sempre bem compreendidos” (in “Fotobiografia de Deolinda da Conceição”, ICM, 1987).

A jornalista do “Notícias de Macau”

Ao convite para integrar a equipa do jornal Notícias de Macau, fundado por Hermann Machado Monteiro, republicano, opositor de Salazar e auto-exilado em Macau, não foi estranha a experiência de Deolinda enquanto tradutora dos serviços noticiosos telegráficos durante a guerra. Como não foi estranha a abertura e grandeza de espírito do seu primeiro director, o médico Cassiano da Fonseca, ao dirigir-lhe a proposta de trabalho. Deolinda carregava o estigma de mulher divorciada, a quem tinham sido retirados todos os cargos docentes por obediência a “razões da moral e bons costumes”, ignorando a competência, fina inteligência e carácter íntegro desta mulher que dedicou a sua vida aos outros, especialmente atenta aos mais desfavorecidos. “Nunca foi rica. Mas generosa foi sempre a socor-


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O casamento com António da Conceição

Redacção NM (Patrício Guterres, Luís Gonzaga Gomes, Adelino da Conceição, Cassiano da Fonseca, Deolinda da Conceição, António Conceição, José dos Santos Ferreira (Adé) e Hermann Machado Monteiro)

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rer os necessitados que a procuravam, dando-lhes quanto podia do pão ganho à custa de árduo trabalho. De tudo isso fomos testemunha várias ocasiões” (Adé dos Santos Ferreira, in “Fotobiografia de Deolinda da Conceição”, ICM, 1987). Quis o destino que, destas circunstâncias, se perdesse uma professora e nascesse, aos 33 anos, a primeira jornalista de Macau, uma mulher livre e emancipada. Era a década de 1940 e a ”cidade cristã” uma sociedade demasiadamente pequena para esta mulher cheia de mundo, cosmopolita, que tinha desde cedo percorrido e vivido nas grandes metrópoles de Xangai e Hong Kong, convivido com gentes de diferentes proveniências e mundividências, o que, por certo, ajudou a moldar a sua forte personalidade. Deolinda a tudo resistiu: ao preconceito, ao ostracismo, ao desemprego, à guerra; mas tudo enfrentou, não virando as costas, também, às oportunidades que a vida lhe tinha para oferecer. E a vida de Deolinda, podemos afirmar, divide-se em “antes” e “depois” da entrada no Notícias de Macau. Deolinda da Conceição foi incumbida das funções de secretária da redacção, de redactora-tradutora e de coordenadora do Suplemento Feminino do Notícias de Macau, ao tempo em que da redacção faziam parte nomes incontornáveis do meio cultural macaense do século XX, como Luís Gonzaga Gomes, Adé dos Santos Ferreira, António Conceição e Patrício Guterres. Funcionava o jornal num velho casarão onde até um ano antes funcionara o “A Voz de Macau”, na Calçada do Tronco Velho, e onde hoje se situa o edifício que alberga o diário “Tribuna de Macau”. Desses tempos pioneiros do jornal, Deolinda da Conceição, na Dedicatória do livro “Cheong Sam (A Cabaia)”, escreveu: “Para quem o viu surgir, desenvolver-se e continuar a sua tarefa ingente, tantas vezes incompreendido, para quem sentiu as lutas, as canseiras, as desilusões e as amarguras da vida dum jornal diário, numa terra pequena e de recursos limitados, este jornal representa um triunfo de realidades que se não esquecem”. A vontade de fazer um jornal diário em português no Extremo-Oriente, mesmo face ao desconhecimento do pessoal que esforçadamente lhe dava forma, não esmorecia Cassiano da Fonseca e a sua equipa. “Lembro-me tão bem ouvi-lo dizer uma vez: “É preciso fazermos um dia uma reportagem completa sobre a forma como se trabalha aqui no Notícias de Macau, salientar o esforço dos nossos tipógrafos que, sendo chineses e desconhecedores da nossa língua, conseguem, no entanto, compor letra a letra, um jornal todos os dias. É claro que o público não conhece este sistema de trabalho, caso contrário com mais facilidade desculparia as gralhas e imperfeições que aparecem sempre.” (Deolinda da Conceição in Notícias de Macau, 14.8.1955).


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Do ambiente de franca camaradagem vivido no interior do diário, dos convívios e tertúlias entre colegas e amigos do jornal, há inúmeros testemunhos fotográficos. O proprietário, Hermann Machado Monteiro, reunia também em tertúlia a equipa da redacção, num almoço mensal no velho Hotel Riviera, onde vivia. Apesar de visado pela censura, o jornal era um espaço de cultura, de livre pensamento. Deolinda era uma autodidacta, sedenta de saber e de uma curiosidade inesgotável que a fazia estudar, ler e dobrar-se sobre os assuntos mais diversos para ilustrar o seu Suplemento. Traduzia e plasmava notícias sobre ciência, arte e cultura, escrevia adaptações de contos, publicava autores que de outra forma o público local não conheceria. As crónicas que escrevia nem sempre eram bem aceites, porque, por vezes, de uma contundência incómoda à sociedade do “faz de conta”. “Diz um velho adágio: “O mundo julga pelas acções e Deus pelas

escrita masculina” (Inácia Morais, “Deolinda, mulher pioneira” in 4.a edição de “Cheong Sam (A Cabaia)”, IIM, 2007). Nunca terá mesmo colocado esta questão de género. Como mulher emancipada que era, a opinião de quem poderia assim julgar o seu trabalho era-lhe certamente indiferente. À época, pelo contrário, era grande o esforço daquele(a)s que pretendiam fazer parte do circulo intelectual que a jornalista integrava. Deolinda apreciava certamente “chapéus de laçarotes”, como qualquer mulher da sua época. Possuía um apurado bom gosto e ser mulher inteligente e culta não seria para ela sinónimo de ausência de sentido estético e renúncia à sua feminilidade. O ter escrito sobre “moda, toiletes, canto, dança e chapéus de laçarotes” é mais uma afirmação da sua inteireza como mulher, também nos seus gostos particulares. “A moda tem caprichos mas a mulher de bom tom deve ter apenas um, e este será não afastar-se nunca do seu propósito de colocar

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Deolinda em Lisboa

“A moda tem caprichos mas a mulher de bom tom deve ter apenas um, e este será não afastar-se nunca do seu propósito de colocar a sua personalidade e o seu tipo de beleza acima das exigências da moda. (...) O bom gosto, quando não é inato, pode ser cultivado por uma educação cuidada.” intenções”, mas ao que parece o campo divino foi invadido pela massa humana que, não sendo omnisciente, serve-se das suas próprias características na avaliação das acções dos outros, pois as intenções, sem forma nem cor por abstractas, são sujeitas a interpretações de conveniência e oportunidade de cada um. Assim, não nos admirou muito a atitude de determinadas pessoas que, interpretando a seu modo e certamente para satisfação de um desejo inexprimido até agora, um gesto nosso, lhe atribuiu as suas próprias intenções. Infelizmente nesta verdadeira selva que é a sociedade dos tempos modernos, por influência atómica certamente, a coragem das opiniões é uma raridade espantosa (...)” (Deolinda da Conceição in Notícias de Macau, 6.12.1952). As suas crónicas e críticas de moda já foram interpretadas como “coisas supérfluas” e até, eventualmente, “patéticas”, a que Deolinda “habilidosamente” teria cedido escrever para ser aceite pelas senhoras e sociedade da época e poder, depois, tratar de assuntos mais sérios. Mas Deolinda não poderia estar mais em desacordo. Pela sua natureza intrínseca, não fazia cedências para ser perdoada pela “ousadia de escrever num mundo de

a sua personalidade e o seu tipo de beleza acima das exigências da moda. (...) O bom gosto, quando não é inato, pode ser cultivado por uma educação cuidada.” (Deolinda da Conceição in Notícias de Macau, 18.6.1949). Entre os inúmeros e variados textos escritos nas páginas do Notícias de Macau ao longo de dez anos, são muitos os que confirmam a sua identidade macaense. Com um enorme fascínio pela grande China, mas de um inultrapassável amor por Portugal e pela sua “querida Macau”, jamais vacilou na afirmação da sua matriz cultural. Os últimos textos escritos para as páginas do diário foram sobre Portugal, as impressões sentidas na ansiada primeira visita à sua Pátria. “Das suas impressões da Mãe-Pátria deixou-nos uma colectânea de interessantes crónicas, nas colunas do “Notícias de Macau”, em que transparece a sua vibrante sensibilidade artística, essencialmente feminina, o seu natural pendor emotivo e o poder, a um tempo penetrante e subtil, de análise e observação.” (in Notícias de Macau, 26.5.1957). Mas foram os contos que escreveu e publicou no Notícias de Macau a marca mais importante da sua passagem pelo diário. Foram muitos os temas aborda-

Tertúlia do Notícias de Macau no Fat Siu Lao

Tertúlia no Hotel Riviera

dos nestas narrativas curtas, obedecendo a um formato que deveria, por necessidade de paginação, ocupar poucas colunas do diário. Destes, Deolinda da Conceição seleccionou vinte e sete para a colectânea “Cheong Sam (A Cabaia)” que publicou em Lisboa. “ É um livro

pensado, meditado e escrito por uma senhora macaense, a única, cremos nós, que até hoje, ou pelo menos nos tempos modernos, tentou, e com acentuado sucesso, a literatura.” (Afonso Correia, “À Guisa de Prefácio”, in 1.a edição de “Cheong Sam (A Cabaia)”).


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mente no conto moderno de contextura magazinesca”, tendo chamado a atenção para outra importante característica: “Estávamos desabituados de ler histórias da tradição oral, e o certo é que a leitura dos contos de Deolinda da Conceição, por mais realistas e dolorosos que alguns deles se nos revelem, guardam seja o que for dessa admirável magia das histórias de fadas – sobrevivência moderna dos velhos apólogos orientais” (in Notícias de Macau, 28.10.1956). Sem rebuscamentos de linguagem e sem pretensiosismo estilístico, as frases simples e curtas, próximas da escrita chinesa, servem o objectivo de demonstrar a complexidade da realidade e da natureza humana. Muitas das histórias são contemporâneas das experiências da autora ou que ela mesma testemunhou. Destas, quase todas são passadas no tempo histórico entre a invasão da China pelos japoneses e o fim da II Guerra Mundial, em Macau (Ou Mun), Xangai, Pequim e Kei Hou, lugares expressamente referidos, mas sem grandes descrições de paisagem ou ambientes. Exceptua-se o conto “Fatalismo Oriental”, que tem lugar no Japão. O narrador, fazendo uso de diminutivos

Lançamento de A Cabaia em Lisboa

Deolinda da Conceição trabalhou no Notícias de Macau até as forças se lhe esgotarem. Deixou um rasto de respeito e admiração entre todos quantos com ela trabalharam, conviveram, lutaram e sonharam um jornal ao serviço da cultura e de Macau.

O livro “Cheong Sam (A Cabaia)”

Para conhecer mais aprofundadamente esta Mulher, na sua verdade e sensibilidade mais íntima, há que ler o seu livro “Cheong Sam (A Cabaia)”. Publicado em Portugal, em 1956, o livro foi acolhido de forma muito favorável pela crítica portuguesa, tendo despertado a curiosidade de um público desconhecedor do mundo exótico como era então olhado o distante Macau. São conhecidas as críticas publicadas no Diário de Notícias, Século Ilustrado, O Cronista, Diário da Manhã e Diário Popular, que o Noticias de Macau orgulhosamente reproduziu. De realçar a de João Gaspar Simões, novelista, ensaísta, crítico literário, um dos fundadores da revista Presença e primeiro biógrafo e editor de Fernando Pessoa, publicada no Diário de Notícias. Os contos que Deolinda escreveu, a maioria sobre mulheres chinesas, buscam ilustrar lições de sabedoria ou ética, de abnegação e sacrifício. Em histórias exemplares ou em histórias morais, recorrendo ao lendário ou a um realismo tocante, revela situações onde perpassa dor, fome e inquietação, levantando o véu do mundo inviolável das mulheres na China. João Gaspar Simões, na sua crítica à obra, observa: “A autora soube servir-se de uma arte de contar que se filia muito mais na tradição dos apólogos seculares da velha literatura budista que propria-

Deolinda da Conceição com os três filhos e marido

e de adjectivação delicadamente sentimental, deixa perceber ser mulher, que não fica indiferente ao sofrimento das personagens, manifestando-se e dando a conhecer os seus pontos de vista. Alguns contos são mesmo rematados com uma conclusão categórica. As personagens heroínas são na maioria mulheres anónimas, poucas têm direito a nome. Representam uma condição. Os ocidentais nunca o têm. “Ele” nomeia muitos “eles”. O texto é também pontuado por alguns vocábulos chineses, com uma naturalidade de quem domina o idioma e para quem só aquela forma de dizer fizesse sentido, nada tendo de pitoresco. “Não, nesse dia não iria, pois queria ter esperanças ainda de que a vida lhe reservava uns momentos felizes quando “ele” regressasse de Sai Iong para onde fora mandado tão de repente” (in “ O Calvário de Lin Fong”).

A outra metade do Céu

O título da obra remete-nos, de imediato, para o universo feminino. Cheong Sam é um traje longo da mulher chinesa, que modula o corpo, cingindo-o de forma sensual e revelando a elegância das que vestem este tipo de Cabaia. “Ao jantar, pôs de parte as ricas roupagens características de cetim encarnado bordado a oiro, de complicadas saias e faixas, para envergar uma cabaia elegante, de cetim preto com ramagens de várias cores, estilizada, a delinear graciosamente os contornos sedutores do seu corpo sinuoso. Estava tão radiosamente bela que, à sua entrada, se ouviram exclamações de pasmo” (in “Cheong Sam”). A cabaia exalta a beleza da mulher, os seus sonhos ou desejos, mas também o seu declínio: “Quando eu a vi pela primeira vez, tinha ainda o aspecto de uma pessoa saudável, cujo nível de vida devia ter sido bastante elevado, vestindo uma cabaia azul de talhe impecável (...). Semanas mais tarde, num dia cheio de sol e luz, vi-a na dobra do caminho. Vinha só, andando lentamente, a cabaia rota e suja” (in “Aquela Mulher”). A cabaia representa a vida e também a morte, invocando o próprio corpo na sua ausência, como trata o conto que deu nome ao livro. O título Cheong Sam e o seu correspondente em português, Cabaia, é como que uma referência à bivalência cultural de Macau, que abre portas à possibilidade de se quebrar o ferrolho do mundo fechado da tradição e de se poder conhecer outro corpo de valores, um “mundo novo”, tornando inevitavelmente diferente quem com ele contacte. Algumas mulheres destes contos, para o bem ou para o mal, ousaram fazê-lo. É com um olhar formatado por dois mundos, mas pertencendo por herança a um deles, que a autora, embora sendo exterior ao Outro, é capaz de ver e descobrir seres de excepção em histórias de vida e dor, de luta e resistência, abnegação e redenção. Daí o subtítulo “Contos Chineses”, porque na verdade são


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chineses estes contos, apesar de escritos em português. São chinesas as personagens que se desenvolvem dentro do seu universo de valores, representações, superstições e tradições. A autora constrói retratos dos costumes da sociedade chinesa, velatura sobre velatura, remetendo para o mundo do maravilhoso e do lendário, mas também, fazendo uso de uma vincada e agressiva paleta, revela duros quadros do quotidiano da mulher chinesa. Algumas, pela sua força e determinação, libertam-se do labirinto de má sorte, do dever de obediência confucionista aos pais ou maridos, ou ao destino de submissão. A mulher, com uma desmedida capacidade de sofrimento, é tema central dos contos, mas a solidariedade e o amor são transversais a quase todos, tendo como pano de fundo o fatalismo ou a desumanidade da guerra, que arrasta fome, privação, roubo, loucura. O fatalismo do lugar que a mulher ocupa na sociedade é, através do olhar acutilante da autora, focado em histórias de abandono, engano, ciúme, poligamia, concubinato, ou venda de crianças-meninas. Mas também em histórias de libertação, coragem no confronto com a tradição e de resistência até ao limite.

O Macau de Deolinda diluiu-se entre os brilhos do néon. A paisagem, humana e urbana, mudou. Os bairros onde morou já não existem, as ruas que percorreu estão diferentes. Outras foram rasgadas. Inevitavelmente. Passaram cem anos desde o seu nascimento. Mas, como então, Macau é espaço de acolhimento de muitas e diferentes gentes. Macau permanece lugar de encontro e de confronto. A obra legada por Deolinda da Conceição contribui para um maior conhecimento e aceitação do Outro, da cultura que partilhamos, para que também possamos descobrir um “mundo novo” ou renovado. A vida de Deolinda da Conceição, essa, tornou-se obra de ficção, como muitas das que retratou na sua colectânea.

Edições de “Cheong Sam (A Cabaia) – Contos Chineses” 1a. edição, Lisboa, 1956, Livraria Popular, de Francisco Franco; 2a. edição, Macau, 1979, Secretaria dos Assuntos Sociais e Cultura do Governo de Macau;

As duas metades do mundo

A autora traça a complexidade do universo feminino chinês, nas suas contradições entre superstição conjugada com tradição e uma nova ordem que, na sua óptica, o contacto com a “civilização ocidental” pode resgatar. “Aquela jovem que partira tímida e hesitante, regressava uma mulher perfeita, elegante, falando desembaraçadamente e de gestos firmes, segura de si e ciente da sua educação esmerada” (in Cheong Sam). Mas este encontro do oriente com o ocidente nem sempre é pacífico, antes eivado de equívocos que, por vezes, conduzem à violência e revolta. No conto “Cheong Sam”, Chan Nui vai até ao “novo mundo” e não regressa a mesma. Tornara-se uma “mulher moderna”. Chan Nui rompe com o modelo tradicional que lhe competia, absorvendo códigos sociais exógenos, tornando-se também ela uma estranha. O marido mata-a. Em “Conflito de Sentimentos”, uma mulher chinesa, nascida na América, ao chegar à China “declarara abertamente condenar o costume de os homens terem mais de uma mulher”. Casa e o marido, apesar das promessas, tomou para si concubinas, valendo-se dos seus “direitos de marido chinês”. A mulher regressa à América com o filho. Em histórias de relações entre ocidentais e mulheres chinesas, alguns contos são paradigmáticos. Em “O calvário de Lin Fong” um soldado português parte para Sai Iong, mas promete voltar. Deixa Lin Fong grávida, a sofrer o calvário do medo

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3a. edição, Macau, 1995, Instituto Cultural de Macau; 4a. edição, Macau, 2007, Instituto Internacional de Macau; Na sua casa no antigo Bairro Albano Oliveira

de uma esperança vã e de uma futura estigmatização. Já em “O refúgio da Saudade” a história do encontro entre os dois mundos tem um fim trágico, por razões opostas. Um jovem arquitecto europeu apaixona-se verdadeiramente por uma rapariga chinesa, mas os pais desta rejeitam preconceituosamente a relação. A jovem suicida-se. O conto “A esmola” é emblemático da complexidade da identidade macaense no contexto da sociedade colonial de então. A personagem principal, filho de pai ocidental e mãe chinesa, é retratado no cais esperando ansiosamente a partida para o país paterno, para onde vai estudar. Sentindo o estigma de ser “diferente”, tendo vergonha da mãe que ama e compaixão pelo pai de que se não orgulha, questiona a razão “porque teria ele nascido assim? Porquê? Porquê?”. Não compreende aquele “casamento”. Sente-se amado pelos dois e aos dois quer abraçar, mas a partida, a fuga do lugar de conflito, do espaço social que o deprimia, libertá-lo-ia “de tudo quanto repugnava ao seu espírito”. Finalmente, no conto “Sai Iong Cuai” (significando Demónios do Ocidente

ou portugueses) o Encontro cumpre-se. A compreensão do Outro como Ser Humano, seja ele “diabo do ocidente” ou “filho do velho império do meio”, derruba qualquer preconceito e dá lugar à compaixão e ao respeito pela diferença. Macau torna-se “terra de promissão”.

Edição em chinês, Macau e China, 1996, Instituto Cultural de Macau e Editora Montanha das Flores, tradução de Yao Jing Ming; Edição em Inglês, 2002, Gávea Brown Publications e Hong Kong University Press, colectânea “Visions of China – Stories from Macau”, selecção e tradução de seis contos por David Brookshaw.


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O Sapo Confucioni e a Nova Filosofia Passeava com o meu aluno no pátio do principal templo a Confúcio em Taipei. Dissertávamos sobre a ideia de transformação numa filosofia miscigenada, fruto do cruzamento dos pensamentos ocidental e oriental. Ele entregava-se com afinco à pesquisa dos escritos sobre borboletas, na literatura e na filosofia taoísta. Competia-me a mim alargar-lhe a pesquisa a outros campos da filosofia. Por isso encaminhei a conversa para Yu Dan (于 丹), cujo primeiro bestseller foi construído sobre a filosofia confucionista e, especificamente, a os Analectos(Lun Yu《論語》 ), intitulando-se: 《〈論語〉心得》 (Confucius from the Heart), tendo sido publicado pela primeira vez em 2006. - Já leu alguma coisa da filósofa Yu Dan? - Senhora Professora, não está a ir longe demais ao chamar filósofa a uma divulgadora que é um êxito de vendas? Ela fez o Mestrado em literatura chinesa antiga e o Doutoramento em estudos de cinema e televisão. - Só na primeira edição da obra vendeu mais de 10 milhões de cópias, colocando milhares de chineses a pensar em termos filosóficos. - O seu argumento para defender essa senhora parece-me fraco e pouco consistente. - Por que razão? O que lhe falta para merecer o título de filósofa? - A linguagem dela é pouco formal, embora não a tenha lido, já ouvi comentários muito negativos a respeito dela. Talvez seja uma boa escritora, por isso a identifico mais com a literatura e menos com a filosofia. - Como disse, meu amigo, ainda não a leu. Eu já a li e asseguro-lhe que domina na perfeição os principais conceitos da filosofia confucionista. Faz uma leitura dos Analectos em seis partes: O Caminho do Céu e da Terra (天地人之道); O Caminho do Coração e

da Alma (心靈之道); O Caminho do Mundo ( 處世之道); O Caminho da Amizade (交友之 道); O Caminho da Ambição (理想之道); e O Caminho do Ser (人生之道). - Desculpe, mas um dos principais conceitos do Confucionismo não é a Benevolência (Ren 仁)? Na divisão que referiu não lhe encontro qualquer referência directa, só a ouvi mencionar o Caminho (Tao 道 ) Aliás, não seria melhor chamar a Confúcio (Kongzi 孔子) um grande pedagogo e letrado? Para quê classificá-lo entre os filósofos? - Ora vamos por partes. Confúcio define a benevolência nos Analectos como amor às pessoas e as divisões do livro indicam qual o

caminho a seguir para a concretização na humanidade das melhores relações possíveis. É uma obra filosófica e muitíssimo pedagógica. Não foi Confúcio o primeiro grande pedagogo que a China teve? - Ainda assim muitas são as vozes que acusam Yu Dan de proceder a uma leitura superficial dos Analectos. - Penso que não. Creio que ela nos transmite a sua vivência dos Analectos, com influências budistas, patentes sobretudo no modo como tematiza a ideia de Coração (Neixin 内心), traduzida fielmente por Inner Heart na versão inglesa. Reservo-me o espaço para questionar a fidelidade, pelo menos na nossa língua, já que em portu-

guês o coração interior é algo de muito estranho. Adiante. Yu Dan lê Confúcio a partir das preocupações ético-morais contemporâneas. No final da obra afirma que os chineses possuem duas maneiras de ler os Clássicos (note, sempre os Clássicos!) E parafraseio: ou explicamos os Seis Clássicos ou os Seis Clássicos nos explicam a nós (中國人的學 習有兩種方式,一種是〈我往六經〉 ,另外一種是〈六經往我〉2007:120). Ela fez a opção por que os Clássicos respondessem às nossas questões actuais, no que respeita ao caminho a seguir no amor ao próximo, que pela negativa se define nesta escola pelo célebre: não faças aos outros, aquilo que não desejas para ti (已所不欲,

- Linda história. Voltemos à minha questão: qual é a literatura e a filosofia?

- Ela existe, mas é mais ténue do que vulgarmente se p

Zhuangzi que sonhou ser uma borboleta. Todos os grand

excelentes contadores de histórias. O que distingue u

ver, é simplesmente a capacidade que os filósofos reve sistematicamente sobre os temas da sua eleição, isto analiticamente a moral, a ética, a estética, a ontologia...


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勿施於人2007: 14). - Sim, porém defendo que o texto poderia muito bem ser catalogado nas obras literárias. Entre a filosofia e a literatura existem algumas distinções, não é verdade? - Não pense que me furto à sua questão. Deixe-me antes terminar o raciocínio. Toda a obra é uma longa meditação sobre o caminho a seguir para obter relações humanas benevolentes, ou dizendo de um modo mais naturalista, para transformar larvas em borboletas, ou, ainda de uma forma mais poética, sapos em príncipes. - Um aparte. Muito gostava de saber qual é a simbologia do sapo na China. Ouvi dizer que era um enviado da Divindade

a fronteira entre a

pensa. Recorde-se de

des filósofos foram

uns e outros, a meu

elam para dissertar é, para apresentar das suas histórias.

do Trovão (Lei Gong 雷公) e que cantava com especial vigor para anunciar a chuva. O sapo é um símbolo de transformação à semelhança da borboleta, mas possui uma raiz menos romântica do que no Ocidente; apenas por influência ocidental hoje também no Oriente os sapos se transformam em garbosas realezas. No entanto, enquanto poderoso representante das artes mágicas, basta sonhar com ele para que exista uma transformação nas nossas vidas. Positiva, mas também negativa, quando se sonha estar a ser-se mordido por um destes batráquios. - Podemos ficar descansados quando o animal não agride, pelo menos nos sonhos. Já tinha ouvido qualquer coisa sobre isso Os comerciantes que sonham com eles, enriquecem; os doentes melhoram ou até obtêm a cura, as grávidas vêm a dar à luz verdadeiros tesouros, e assim por diante. - Por isso não convém encurralar um sapo no fundo de um poço (jing di zhi wa 井底 之蛙), como nos avisa a sabedoria chinesa e também Yu Dan, já que isso significa o estreitamento do campo de visão, inviabilizando, acrescento eu à laia interpretativa, a capacidade de transformação natural do sapo. A autora pretende chamar a atenção para o perigo de confusão, ao aludir à história proverbial do sapo. Recordo as suas palavras: Como pode um sapo no fundo de um poço entender a vastidão do oceano ou do céu? (迷 惑多是因爲眼界不夠大,井底之蛙怎 麽能知道什麽叫海闊天空呢?2007:50) - Quer então dizer que Yu Dan se entretém a contar a história e chama a isso fazer filosofia?! Espero que não tenha esquecido a minha questão sobre o que distingue a filosofia da literatura. - Não esqueci, mas ainda não lhe vou responder. De facto, ela conta esta história do sapo e muitas outras, todas elas destinadas a cultivar um modo de estar ético-moral confucionista. Relata uma sobre porcos-espinhos que levaram muito tempo a aprender qual a distância que deviam manter para se aquecerem no Inverno sem se picarem uns aos outros. Os limites e a distância, bem como o nada em excesso, porque este é pior do que a falta, são alguns dos grandes ensinamentos que transmite, recorrendo por vezes ao auxílio de histórias do Budismo Chan (禪), num sincretismo tão próprio das vivências orientais. Diz então que nenhuma flor pode abrir em todo o seu esplendor sem

Ecos Naturalistas fenecer, nem a lua encher, sem minguar, porque esse é o ponto de viragem, onde começa o declínio de uma e da outra (花 一旦全開,馬上就要凋謝了;月一旦 全圓,馬上就要缺捐了2007:47). - São histórias e mais histórias! - Não se engana, meu amigo, que têm a finalidade de nos despertar para a atitude certa, de acordo com a filosofia confucionista que convém ao chinês do século XXI. Não há nada melhor do que contar histórias, como nos indica a filósofa na fábula dos três ratos, que rapidamente resumo. Esta possui afinidades com uma outra que bem conhecemos; a da cigarra e formiga, mas a chinesa vai mais longe, já que não castiga a cigarra, pelo contrário, premeia-a. Oiça: Três ratos do campo preparavam o Inverno. O primeiro buscava provisões; o segundo, agasalhos; porém o terceiro apenas vagueava pelos campos, em contemplação ao Céu e à Terra. Os ratinhos trabalhadores repreenderam-no: ele de papo para o ar e os outros a penar! Chegou o Inverno, rigoroso e tristonho como de costume. Os três ratos recolheram à toca. Nada lhes faltava, nem mesmo o tédio, até que o terceiro se pôs a relatar histórias para animar os desencorajados parceiros. Os outros dois perceberam então que aquele ratinho tinha estado a armazenar sol. (牠的那兩個夥伴這才 知道,這只天鼠當時在為大家儲備過 冬的陽光 2007: 104) - Linda história. Voltemos à minha ques-

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Ana Cristina Alves*

tão: qual é a fronteira entre a literatura e a filosofia? - Ela existe, mas é mais ténue do que vulgarmente se pensa. Recorde-se de Zhuangzi (莊子) que sonhou ser uma borboleta. Todos os grandes filósofos foram excelentes contadores de histórias. O que distingue uns e outros, a meu ver, é simplesmente a capacidade que os filósofos revelam para dissertar sistematicamente sobre os temas da sua eleição, isto é, para apresentar analiticamente a moral, a ética, a estética, a ontologia… das suas histórias. O terceiro ratinho é o escritor, o sapo-príncipe embrião de filósofo, mais um passo, mais uma transformação, e ei-lo metamorfoseado em príncipe-filósofo, tal como Yu Dan, que contou as histórias colocando-as na sua primeira obra ao serviço da filosofia confucionista. - Vou pensar sobre o assunto. - Não pense só, leia também a autora, que tem o mérito de apresentar a filosofia confucionista com ecos naturalistas, o que revela a adesão a uma mudança de atitude da escola, claramente identificável pelo menos a partir do século XVIII desde o filósofo Dai Zhen (戴震). Bibliografia 于丹2007《〈論語〉心得》臺北市: 聯經 Yu Dan 2009 Confucius from the Heart. London: Macmillan


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d e p r o f u n d i s

a revolta do emir

Cervejas

Pedro Lystmann

Eu tinha prometido não falar nisto mas faço-o agora, não com indignação mas com a satisfação decorrente do sabor doce da desistência. Não conheço nenhum bar de hotel em Macau onde a selecção de cervejas à disposição do público não seja de uma atroz banalidade. Não existindo (ainda?) em Macau pequenas fábricas de cerveja, como acontece um pouco por todo o mundo civilizado, o público continua condenado à oferta das grandes banais amarelecidas urinásticas mordacentas bafientas aborrecidas marcas internacionais. Não há muitas excepções. Mesmo que nos supermercados se encontrem algumas marcas mais interessantes (sempre dentro do circuito comercial internacional) nos bares de hotel o desprezo por estas pequenas aventuras continua total. Não existe, igualmente, nenhum bar, de hotel ou não, em que a cerveja seja a sua bebida nuclear e em que os bebentes se encontrem em seu redor. A única pequena excepção a este estado de coisas é a existência, em cada vez mais bares (e supermercados, mesmo que não haja em Macau nenhum supermercado gourmet digno desse nome), de witbier belga ou de outras, poucas, cervejas de trigo (1). Pode deste modo contrariar-se um pouco o hábito, que é mundial mas relativamente recente, do consumo das repetidas lagers louras, e acompanhar-se, mesmo que de longe, o retorno a outros tipos de cerveja. Os supermercados mantêm igualmente uma oferta muito irregular. Recordo com quase toda a certeza ter visto à venda, não recentemente, Duvel e Chimay. Uma oferta um pouco mais generosa de cervejas trapistas belgas (não haverá mais de 8 marcas em todo o país e na Holanda), como esta última Chimay, alegraria certamente os entusiastas locais. A Duvel, cujo nome significa demónio, já apareceu, com toda a certeza, pelas lojas locais, assim como uma ou outra cerveja lambic, as únicas que ainda usam um método de fermentação espontânea, por contaminação aérea do diabólico fungo usado para esse processo (o processo usado durante séculos, com resultados considerados quase sobrenaturais). Uma procura mais aturada permitirá encontrar (não nos bares) algumas marcas alemãs, checas, japonesas, australianas (James Boag’s) e até uma marca francesa que, não envergonhando, não causam especial frisson. O que será impossível será fugir a nomes que não pertençam às gigantescas empresas que controlam, actualmente, a distribuição da cerveja a nível mundial. Muitos países têm experimentado, contudo, nas últimas décadas, um ressurgir do interesse em nomes com produções mais baixas, de sabores particulares. A nível mundial, os EUA, com mais de 500 pequenas empresas (para ser classificada como uma microbrewery ou uma craft brewery uma companhia pode fabricar apenas até um certo número de litros por ano, no caso das primeiras cerca de 1.800.000 de litros por ano – correspondente a 15.000 barris) é provavelmente o maior produtor, mas este gosto, que tem sido acompanhado pelo hábito da confecção de cerveja doméstica, espalhou-se por muitos outros países, como a Austrália, a Nova Zelândia, o Canadá, alguns países da Europa e até mesmo o Camboja. Na Ásia, o Japão está particularmente

avançado na difusão deste gosto (ji-biru, cerveja local), e havia, há cerca de um ano, num país onde 4 grandes marcas dominavam totalmente o mercado, 250 pequenas fábricas de ji-biru. Se pensarmos onde a meticulosidade e a teimosia dos japoneses os levou na confecção de uísque os resultados não podem ser nada menos que brilhantes. Esta preferência poderá ter dois resultados: um menor consumo de bebidas produzidas por grandes empresas ou uma parcial transformação do mercado de massas. Como acontece com outros sectores públicos do território de Macau, no do entretenimento o modelo que se instalou na cidade consiste numa tensão sinistra e aparentemente sustentável entre dois modelos fundamentalistas, um comunista e um religioso – o norte-coreano e o wahhabista. O que é que nos anda a afastar do prazer, o comunismo ou a religião? Praticamente sem bares no topo dos edifícios, com uma aversão incompreensível às esplanadas e um procedimento de licenciamento de bares insondável, é cada vez mais difícil de afastar a ideia de que há alguém importante e influente nesta cidade que tem concentrado toda a sua atenção em banir o conceito de tempo livre. Tenho uma pequena prova disto. Em vinte anos nunca me cruzei, em qualquer bar do território, com um membro destacado da administração. A ausência de esplanadas é inexplicável. Que o clima não é desculpa prova-o a existência de um indecente número de esplanadas em locais com latitudes semelhantes ou com latitudes muito mais meridionais e temperaturas e níveis de humidade igualmente inclementes. A prova do primeiro exemplo colhe-se em Hong Kong ou em Zuhai, a do segundo por Banguecoque, Singapura ou Kuala Lumpur, esta última cidade, maioritariamente muçulmana, inundada de esplanadas e gente aparentemente feliz. A nível da rua não apenas desapareceram lugares de convívio no centro da cidade, devido ao aumento das rendas, mas igualmente tascas de rua devido a regulamentos provincianos. As pessoas que não visitavam Hong Kong há mais de dez anos andam muito surpreendidas. Também em Hong Kong se aplaude um interesse cada vez maior por cervejas de escassa produção ao mesmo tempo que esta vibrante cidade se transformou, em cerca de 10 anos (e como já aqui foi muitas vezes referido com admiração), de uma cidade chata numa em que a oferta de lazer é cada vez mais diversificada. Também em Hong Kong existem duas pequenas fábricas de cerveja artesanal e, para além disso, um conjunto de bares, na zona de Central mas não só, em que à cerveja é dedicada uma atenção especial. A Hop House, em vários bares espalhados pela cidade, oferece uma cerveja própria e uma escolha de cerca de 80 marcas diferentes em garrafa. (1) Quem quiser solidificar o seu conhecimento teórico sobre as cervejas continentes de mais de 50% de trigo na escolha dos seus grãos, não deve deixar de consultar: “brewing with Wheat, The ‘wit’ and ‘weizen’ of World Wheat Beer Styles”, de Stan Hieronymus.


próximo oriente Ai Weiwei não gosta de música. A culpa é do Partido Comunista que o obrigou a ouvir canções revolucionárias quando era jovem. Apenas canções revolucionárias. Por isso, o artista mais conhecido da China, com o primeiro disco acabado de sair, confessava à revista Smithsonian, em 2012: “Tenho muitos amigos músicos, mas nunca ouço música”. Um desse muitos amigos é Zuoxiao Zuzhou, um dos pioneiros do “rock” chinês e fundador da banda No. Na verdade, Zoo X, como também é conhecido, não é dos que, na República Popular, olham de lado para Ai Weiwei, o artista que, apesar de raramente expor no seu país, não bater recordes em leilões, nem ser considerado um mestre transformador do seu tempo, foi considerado pela revista ArtReview como o artista mais poderoso de 2011. Que Ai Weiwei, em 2013, seja o autor do disco saído da China que, muito provavelmente, será o mais falado (senão o único) na comunicação social internacional – está-se mesmo a ver –, apenas vai servir para atiçar ainda mais o ódio (a inveja?) dos que vêem o artista como um narcisista que agora decidiu usar a música para conseguir mais protagonismo. Ora, protagonismo é o que não tem faltado a Ai Weiwei. Aos 55 anos, a sua longa carreira nas artes já o levou a experimentar quase todas as expressões. Apesar de saltitar entre diferentes meios, manteve sempre um traço comum – a crítica feroz e frontal ao regime autoritário comunista chinês. Por isso, foi várias vezes preso e vítima de agressões. Actualmente, Ai Weiwei encontra-se proibido de viajar para fora da China as autoridades confiscaram-lhe o passaporte, ainda no rescaldo da última detenção, também a mais longa – 81 dias, devido a “fraude e evasão fiscal”. No último dia 22 de Junho, passaram dois anos desde que foi libertado. A data foi assinalada com o lançamento de “The Divine Comedy”. Como seria de esperar, ao longo dos quase 30 minutos do disco, dividido em seis canções, com música de Zuoxiao Zuzhou e letras e voz de Ai Weiwei, somos confrontados com a “experiência de Ai com as condições da China”, lê-se no “press release” que acompanha o álbum. “O disco inclui comentários sobre assuntos actuais (“Just Climb the Wall”, “Hotel USA”), documentações de diálogos reais (“Chaoyang Park”, “Laoma Tihua”), e reflexões pessoais (“Give Tomorrow Back to Me”, “Dumbass”)”. A música? “O disco atravessa géneros musicais com influências da ‘pop’, ‘rock’, ‘punk’ e ‘heavy metal’”.

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t e r c e i r o o u v i d o

Em Maio, num encontro com jornalistas, no seu estúdio, Ai Weiwei contou que a ideia de usar música surgiu após “pensar sobre como recuperar de um trauma” e “ transmitir um sentimento tremendamente secreto e privado para o público”. E assim surgiu o disco, o “single” “Dumbass” e o respectivo vídeo realizado por Christopher Doyle, o director de fotografia australiano mais conhecido pelo trabalho feito com os realizadores Wong Kar-wai e Zhang Yimou. No vídeo assistimos a uma encenação do que terão sido os 81 dias de cativeiro de Ai Weiwei, constantemente vigiado de perto por dois guardas que não descolam nem quando o prisioneiro dorme ou faz as necessidades. Mais ou menos a meio, os papéis invertem-se e é Ai Weiwei que vemos, vestido de polícia, a chicotear os jovens guardas enquanto tomam banho. Logo a seguir, o artista transforma-se de prisioneiro acompanhado por dois carrascos em celebridade ladeada por duas modelos em roupa íntima. A metamorfose completa-se já perto do final, quando surge um Ai Weiwei careca e sem barba vestido de mulher, de lábios pintados, tanto se assemelhando a um travesti como à figura de Buda. Ai Weiwei explica que são fantasias que se desenrolam na cabeça dos guardas, descritos ao New York Times como “prisioneiros que nunca abandonam o edifício” onde esteve detido, e que “nada sabem do que se passa, fazendo perguntas, secretamente, acerca de sexo e de muitas outras coisas”. E que se surpreendiam quando ouviam Ai Weiwei atacar um repertório extenso de antigos êxitos do cancioneiro comunista e revolucionário. Agora, em liberdade, Ai Weiwei diz a plenos pulmões: “Quero mostrar aos mais jovens que todos podemos cantar”. E ele canta, mas não no primeiro tema, “Just Climb the Wall”, um dos melhores – “rock” quebrado que imediatamente faz lembrar o último Nick Cave, com Ai Weiwei em registo “spoken word”, melancólico e pesaroso, como um lamento. Aparentemente, é uma referência à “Grande Firewall” da China, o poderoso sistema de censura na Internet, e também uma alusão à fuga do companheiro dissidente Chen Guangcheng, exilado nos Estados Unidos. A letra é cristalina: “This road leads to the West, keep going forth. Quick, climb the wall; the flowers are blooming along the way.” A odisseia de Cheng Guangcheng também se pressente, mais a esperança nos amanhãs que cantam e, em particular, no

Ocidente, em “Hotel USA”: “Go west along East Eastern Road, there’s a motel from America. A blind man bummed his way in, and the inn-keeper freaked out.” “Chaoyang Park”, “rock” de tendências industriais, tenso, tem o nome de um parque de Pequim que, em 2012, foi palco de confrontos entre “bloggers” rivais. Ai esteve lá: “Are you still following me? I won’t do it anymore. Tell me, what’s your name? Beat me and I won’t tell. Give my cell phone back. Delete those pictures now. I have a wife and a child too. I can’t remember their phone numbers.” “Laoma Tihua” descreve o que se passou em Sichuan, quando Ai Weiwei, em 2009, depois do sismo que matou dezenas de milhar de pessoas, visitou Chengdu com o intuito de recolher os nomes das crianças que morreram em escolas de construção deficiente: “Who’s knocking on the door? We’re all police.Why are you breaking in? To teach you a lesson, kid.” Ai Weiwei sofreu agressões da polícia que lhe valeram uma cirugia ao cérebro, mas não esmoreceu. Em “The Divine Comedy”, antes do derradeiro “Dumbass”, vitríola “hard rock”, há “Give Tomorrow Back to Me”, canção de tonalidades “folk”, com direito a acordeão, em que Ai Weiwei dirige-se aos poderosos: “You own the skies, you are the banker, you own the water cannon, and the bullets, but the bullet wounds are mine.” E avisa: “Yesterday is yours, today is yours, but you won’t have tomorrow.” Meia hora depois dos primeiros sons da mais recente obra de Ai Weiwei percebemos que na música, como na restante arte de Ai, o que conta é o próprio Ai Weiwei, a sua presença, a sua identidade, o chamado efeito “AWW” – ele e nada mais. Não importa que a sua voz seja pouco ou nada melodiosa, que não saiba cantar, ou que as letras não seja poesia de fino recorte. O que interessa é que é Ai Weiwei, e cada som seu é uma prova (como as fotografias que tira, constantemente, registando tudo e todos), um documento do real elevado para transcender qualquer outra narrativa ou ficção. Arte? Ai Weiwei faz-nos crer que sim Na nota de imprensa relativa ao disco, escreve-se que “cada canção é uma visão particular do novo canal que Ai encontrou para se exprimir através da música”. Talvez Ai Weiwei já goste de música. Ou então não, e este disco é apenas a continuidade da recusa e a resposta negativa, irada, às cantigas comunistas que o forçaram a escutar até à náusea. O regime tem razão: Ai Weiwei é um “punk”.

Hugo Pinto

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Ai Weiwei é um punk


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c i d a d e s i n v i s í v e i s

perspectivas

Jorge Rodrigues Simão

Raison d’état e raison d’être “What is past is prologue.” William Shakespeare A partir dos esquemas que nos legaram os grandes filósofos, é sempre possível decifrar o mundo actualmente e contar diversas histórias, cada uma com a sua lógica e verosimelhança, mesmo que sejam formuladas em total incoerência e irresponsabilidade, como foi por exemplo, a da atabalhoada, apressada demissão e recuo de um presidente de um dos partidos da coligação governamental de Portugal, fazendo ruir o suporte político maioritário que o sustentava no “Parlamento”. O filme político de péssima realização que Portugal, assiste com o pasmo dos outros parceiros comunitários e da comunidade internacional, nada tem a ver com uma “Raison d’état”, mas sim com uma “Raison d’être”, de interesses político-partidários, de aquisição de musculatura política por parte do partido político da ex-coligação governamental, como se fosse possível em democracia e funda crise económico-financeira que o país atravessa, comandandar a partir do hemiciclo parlamentar e por telemóvel acordos pontuais e incidentais. Tal comando, não tem a possibilidade de permitir que exista uma maioria virtual, que continue a denominar-se de governo nacional de um país sujeito a um “Programa de Assistência Económica e Financeira (PAEF)”, regulado por uma “troika”, de credores internacionais constituída pelo FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu, tendo o primeiro desembolsado até à sétima avaliação 22.550 milhões de euros. O montante total do “Programa” é de 78 mil milhões de euros ao longo de três anos. Todas e quaisquer estratégias ou soluções que os partidos da ex-coligação governamental venham a acordar ou ajustar, não tem sustentabilidade e credibilidade político-social que permita governar, e nunca deverá tal solução ser aceite pelo Presidente da República, nem pelos credores do “Programa”. Um governo de consenso nacional, pois não existe salvação para os moribundos, quando muito, seria de ressuscitação nacional, tem uma base político-social ainda mais frágil e daí deve ser excluída do campo de hipóteses e permissões académico-constitucionais. Fica pois, a mais onerosa, que é a dissolução da Assembleia da República de Portugal e a convocação de eleições gerais antecipadas no mais curto espaço de tempo possível, sendo previsível que das mesmas saiam as condições necessárias à formação de um governo com maioria parlamentar e com um mandato legislativo, coeso, estável e sustentável que permita renegociar os maus capítulos do conteúdo do “Programa”, invertendo os direccio-

nados à austeridade em favor do investimento sustentável que permita o crescimento. A coligação governamental não existe, mesmo que se venha a prolongar por mais algum tempo, deve ser encarada com tendo apenas na prática a capacidade e a sustentabilidade político-social de um governo de gestão, e daí que nada se precisa de esperar para ver que destino terá a ex-coligação governamental. A coligação deixou de existir desde a data do conhecimento da demissão infantil do Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros pelo Primeiro-ministro, que tem por obrigação aceitar e não criar uma manobra infantil de não aceitação. O que possa vir, à excepção, de eleições antecipadas, são meras figuras juríco-constitucionais permitidas sem suporte político, social e credibilidade que permita continuar a negociar o “Programa”. As massivas perdas financeiras, políticas e sociais que Portugal sofre, são inteiramente de responsabilidade presidencial, pois desde Junho de 2011 que o Primeiro-ministro convidado a formar governo não provou a sustentabilidade séria da coligação governamental, e pese tal facto, formou governo e foi empossado. O Primeiro-ministro sem prática no afã de trazer a sua pessoa de percurso cinzento e sem qualquer prática governativa e o seu impaciente partido político, recordista de muitas lideranças em curto espaço de tempo, para a ribalta, sabia em consciência a irresponsabilidade que constítuia formar governo com um partido minoritário, que desde sempre apresentou um “floating mood” político. O partido minoritário da ex-coligação governamental que a fez cair é o maior responsável político pela “tragédia portuguesa”. O povo português não se pode queixar, também, pois foi através do voto consciente que escolheu a abalada e convulsiva ex-coligaçao para os governar na pior crise de Portugal. Todavia, o povo português sempre encontrou energia nos seus sonhos e emoções para encontrar propostas e viabilidades, respondendo ao

repositório de desafios que tem de enfrentar. Portugal não é um país do “Passado” mas sim do “Futuro” e acreditar nessa verdade, é a única que o impulsionará na senda do crescimento e do progresso e não da austeridade consentida e da inércia confortável, passa pelo entendimento e acção de cada um dos cidadãos de Portugal. Os episódios que Portugal e a União Europeia (UE) vivem podem resvestir-se de elementos empíricos e provar que explicam com exactidão a realidade. Mas isso não deve impressionar-nos, pois os metodos de análise evoluiram de tal forma que é possível em geral encontar uma solução tão desejável e procurada. Existem no presente, tal como existiram no passado, teorias concorrentes que divergem não pela sua metodologia ou pelo seu grau de cientificidade, mas pelas hipóteses que presidiram à sua construção. Os seus fundamentos são apenas de ordem ideológica, reflectem cada uma das diferentes visões do mundo. Os conflitos ideológicos por mais que se desejem e se evitem não podem ser eliminados e podem ainda, ter-se mesmo razão político-social e econóomica, quando se é politicamente minoritário (na actual conjuntura de Portugal e da UE, não é o caso). As políticas económicas baseadas em largos consensos que não tenham a compreensão e adesão dos cidadãos em momentos de crise, nem sempre são as melhores. A história tem revelado que quanto mais forte e duradouro é o consenso, maior é o perigo das políticas serem más. É preciso manter o “bom senso”, qualidade política e social que vai rareando. O “slogan”, de que não existe alternativa para o que fazemos é algo que leva a todos os excessos. Existem outras soluções que balizam o caminho e mostram que não se deveria ir tão longe na aplicação de um determinado pressuposto. A ex-coligação desfez-se por razões políticas-partidárias de duvidosa credibilidade que têm por base a má escolha, aceitação e implementação de

políticas de ajustamento orçamental e macroeconómicas. O que impede uma política que podia ter sido bem sucedida em circunstâncias particulares, ser mantida em circunstâncias diferentes é como se costuma dizer, para encontrar nas palavras justificações que a razão dificilmente poderia encontrar, ou seja, que a rota fosse mantida, acontecesse o que acontecesse, custasse o que custasse. Todavia é essa firmeza na manutenção da rota que caracteriza melhor a evolução da política portuguesa e quiça da comunitária, há quase quatro dezenas de anos. A política económica de Portugal e “Comunitária” passou progressivamente de adaptaçãs às circunstâncias, ou seja, inflação, desiquilíbrios externos, fraca rentabilidade, à inflexibilidade relativamente às circunstâncias. O argumento que comumente se invoca em sua defesa é que uma outra política teria consequências tão catastróficas, que não somente, os problemas económicos que se pretendiam resolver teriam sido agravados, mas que Portugal teria perdido a sua posição. Trata-se de um argumento de autoridade e a responsabilidade da prova pertence aos defensores de um falso consenso. Os resultados das estratégias podem ser qualificadas, sejam quais forem os critérios utilizados, de maus ou muito maus de acordo com o grau de indulgência de quem os avalia; agravemento único do desemprego, défices e endividamento público, declínio do Sistema Monetário Europeu e afastamento da moeda única europeia, o “Euro”. Uma política só pode ser julgada pelos resultados. É preciso não esquecer a mensagem de Albert Einstein aos cépticos “Têm razão, caros cépticos, só a experiência pode decidir da verdade”. No caso vertente, a experiência não traz prova alguma, de que se tenham escolhido as melhores das políticas. É a hora certa, ainda que tardia e extremamente custosa para Portugal, de as debater com honestidade e não nos escudarmos numa atitude dogmática tão prejudicial de que o que se fez, foi bem feito, sendo a prova o facto de ter sido feito. A outra política, a do investimento e crescimento ao invés da austeridade, comprovadamente errada, não é caricaturial para poder ser considerada efectivamente com ironia e desprezo.Quem pode desejar e defender que as políticas portuguesas trabalhassem para o declínio da construção europeia? As políticas de investimento e crescimento não são um tigre de papel que se agita para criar medo, ao mesmo tempo que se serve para se confortar com as escolhas feitas; como depois de uma catástrofe, as populações aliviadas dizem que poderia ter sido pior; com efeito poderia não ter havido sobreviventes. Com efeito, a taxa de desemprego poderia ser de 25 por cento ao invés dos 17, 6 por cento. O problema não é de escolher uma outra política, mas, no quado da mesma política , adaptar melhor os meios aos fins.


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o r a t ó r i o z e n

OS DIAS DA POESIA EM VÁRIOS DIÁLOGOS

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Que escrita é esta que provoca a realidade como forma extensível do fenómeno humano? É de facto e para sempre a linguagem poética.

Amélia Vieira No dia 28 de Junho o meu querido amigo Daniel Lewers estava na Casa Pessoa com o poeta também ele convidado Lionel Riad que tive a honra de conhecer. E falou o seguinte: a poesia é o mais profundo da natureza de um homem, é aquilo que ele tem de inato que nada tem a ver com a sua identidade pública ou imagem social, muito menos de um qualquer pensamento acerca da sua forma. Mencionou Verlaine, o mais impulsivo e colérico dos homens que tentou matar a mulher e Rimbaud, o ser que amava. Porém, este ser reflectiu na sua poesia uma delicadeza sem paralelos, uma doçura e intrigante encanto, que dir-se-ia nasceram de um ente etéreo, e de uma finíssima sensibilidade, de alguém receptivo e bom, como os nossos melhores sonhos e os nossos mais fundos desejos oníricos. Para não falarmos, claro está, no brilhantismo da sua escrita de mestre e mestria linguística. Este paradoxal instante da natureza poética foi por Lionel Riad muito bem descrito e finamente interpretado na sua qualidade aliás, também ele, de poeta. Muito belo, portanto, o debate sobre o fazedor da “coisa” poética o que fez, que para trás ficasse esse superlativo efabulatório do designado «Eu Poético» seguido daquelas perguntas desabridamente metafísicas, que pergunta com enfatuo hiperbólico, onde ele se encontra. Houve alguém que disse até esta frase brilhante: O “Eu” poético fica portanto onde sempre esteve, no próprio Poeta! Pois claro! Sejamos no entanto amplamente interpretativos, e imaginemos que esse “Eu” anda por aí, sendo de todos um grande Nós e que cada poeta o “apanha” em fragmentos ou fractais e a dá cifrada a um mundo sempre indecifrável perante a pouca noção de existência de cada um. ….Imaginemos! Que escrita é esta que provoca a realidade como forma extensível do fenómeno humano? É de facto e para sempre a linguagem poética. Extensível na medida em que a realidade é feita pelo conceito do adjectivo que preconizamos, a Palavra toma corpo quando é proferida. Se banirmos a linguagem acaba o Homem. Poder-se-á fundar outra coisa, mas esta que faz acontecer pelo Verbo é o mais fascinante que nos aconteceu. «Se me esquecer de te nomear, tu não existes»! Se te chamar tu virás….tu és o projecto, a carne do meu Verbo. Daí a urgência das palavras boas, do bom nomear, da boa interpreta-

ção, do inventar para o reportório todos os Verbos, e Adjectivos e Fonemas que possam fazer esculpir a essência da centelha sagrada, tão ténue, tão frágil, que escuta como um antigo encantamento….. Depois, René Char, o poeta da Alegoria da Caverna: «consciente do «ultraje» a que se presta a comunicação, seja ela a dos valores humanistas que se guia pelo princípio da acumulação, ou a do sentimento do belo exposto à indisponibilidade de «semelhantes homens» o poeta pede-nos para interrompermos qualquer tentação de diálogo com a poesia. Devemos deixar-nos tão somente ir atrás dela, mergulhar na sua escuridão e vislumbrar um lampejo terrífico» Margarida Vale de Gato. René Char era menino quando lhe apareceu o dom da poesia. Foi exactamente a partir de um relâmpago ; observou então que o dia não ilumina que só existe o negro e a claridade que vem dessa mesma noite em forma de relâmpago. Ela, porém, cintila muito poucas vezes durante uma vida, depois de acontecer tudo fica ainda mais obscuro. Um outro poeta depois de ter presenciado uma árvore a arder em menino ficou para sempre com um problema linguístico… aquele instante, da árvore em chamas, marcou a corrente da sua voz num temor pela palavra como se ficasse gravado uma verdade que não se pode dizer. No limite destas experiências terríveis encontra-se muitas das vezes o limiar poético, a abrasadora noção de se saber que nem tudo nos é possível ser dito que nos vem como verdade e nos esmaga de suor e dádiva. Foi bonito, sim aquele discorrer, aquele conversar, aquele escurar a “brisa” Verbo. Há muito que deixei os saraus poéticos que por cá se fazem, parecem-me coisas demenciais de egos aflitos por mostrar coisas a molho de palavras. Portugal não só está inviável como se tornou miseravelmente uma corrente poetizante. No fim havia concórdia! E veio a lusa organizadora perguntar-me: queres falar em inglês, francês ou em calão? Pela primeira vez fiquei a saber que o meu lado escatológico da “poesis”, afinal, era para a sapiente e douta assembleia de senhoras, apenas e só um Calão! Ou seja, como se responde à rusticidade mais atávica? Com nada! Com nada... Com tudo o mais disse o nosso querido Carlos Queiroz « Não só com bons sentimentos se faz o Poema mas também ele se nega as ressentido» Não gosto deste sensível. O que foi bom, sem dúvida , foi o natural poético.


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o l h o s a o a l t o

gente sagrada

José Simões Morais

汉钟离度吕洞宾 Han Zhongli por dez vezes testou Lu Dongbin Após ter realizado toda a sua vida num sonho, Lu Dongbin percebeu a existência de uma outra via e quis ter como mestre o Imortal Han Zhongli, que o testou por dez vezes, para ver se ele tinha atingido o Dao. A primeira foi quando, após uma viagem, Lu Dongbin chegou a casa e encontrou toda a família morta. Sem ter nenhum sentimento, encarou tal como destino e começou a tratar dos preparativos para os funerais. Andava nestes preparos quando foi vendo os membros da família a acordar e percebeu que fora um teste que Han Zhongli lhe preparara. Outra vez, Lu Dongbin foi ao mercado levar o produto com o preço previamente combinado e ao chegar ao comprador, este ofereceu-lhe muito menos do que o acordado. Aceitando, foi embora sem nada replicar. A terceira vez ocorreu numa saída à rua, onde Lu Dongbin se encontrou com um mendigo que lhe pediu dinheiro e dando, o pedinte reclamou ser pouco: “-Mais uma moedinha!” Sorrindo, continuou o seu caminhar. Tendo ido Lu Dongbin à montanha para tomar conta dos carneiros, de repente apareceu um esfomeado tigre que vinha fitado num do rebanho. Quando se preparava para saltar sobre o cabrito, Lu Dongbin faz-lhe frente e o tigre retirou-se. O quinto teste aconteceu ao discípulo de Han Zhongli, a viver estudando na montanha, quando certo dia ao anoitecer lhe apareceu perdida uma formosa rapariga, à qual Lu arranjou guarida. Por três noites tentou-o seduzir, mas sem nunca ceder, ela desistiu. Na sexta vez, ao chegar a casa percebeu terem-lhe roubado tudo o que tinha e nem assim o levou a ficar zangado. Sem ali-

mentos para comer, começou a plantar e num sachar encontrou peças de ouro, que logo as voltou a enterrar. O sétimo teste ocorreu quando, após comprar umas peças de bronze, ao chegar a casa percebeu serem de ouro. Saiu logo à procura de quem as vendera para as entregar. Noutra ocasião encontrou-se com um estranho mestre daoista que, vendendo uma espécie de medicamento, apregoava: “-quem o comesse, morreria imediatamente, mas na próxima vida conseguiria atingir o Dao.” Dez dias ocorreram sem haver cliente e então Lu Dongbin comprou-o e bebeu todo, sem passar desta vida. O nono teste aconteceu quando apanhou um barco para atravessar um rio e a meio, uma enorme onda ia virando o barco, o que não o assustou. No último teste, Lu Dongbin encontrava-se só num quarto a meditar quando se apercebeu estarem à volta um sem número de fantasmas que lhe queriam bater e mesmo matar. Não sentiu medo e então um fantasma dirigindo-se-lhe lembrou ter ele, em outra existência, lhe retirado a vida e por isso, pedia para que a restitui-se. Magicando como fazer, apenas achou a solução no suicídio e à procura de um objecto para o realizar, ouviu a ecoar uma gargalhada e a voz do mestre Han Zhongli a dizer-lhe ter passado nos dez testes. Lu Dongbin, elevado pelo seu mestre a um outro nível de compreensão da vida, onde só na acção do estar se é, torna-se assim um Imortal. Desta vez, a imagem apresentada é de dois seres humanos a representar Han Zhongli e Lu Dongbin durante as festividades da deusa A-Má em Macau.


5 7 2013

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l e t r a s s í n i c a s

Huai Nan Zi 淮南子

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O Livro dos Mestres de Huainan

Com o crescer dos dias, o yin e o yang se digladiam; a vida e a morte separam.

Do Estado e da Sociedade – 52 No início da primavera não se devem abater árvores, nem perturbar os ninhos; não se devem abater animais prenhes, nem se devem colher ovos de pássaros. A meio da primavera, as correntes e pântanos não devem ser drenados, nem secos os lagos. E as florestas de montanha não devem ser queimadas. Não se devem conduzir quaisquer projectos de monta que possam prejudicar a agricultura. No final da primavera, repara as barragens, abre canais e limpa as estradas. Não permitas que as amoreiras sejam cortadas. Promove as indústrias caseiras e certifica-te que todos esses produtos são da melhor qualidade. No início do verão, evita começar projectos que envolvam movimento de terras e não cortes as árvores de grande porte. Encoraja a agricultura e impede que os animais causem danos aos cereais. Colhe e guarda ervas medicinais. Ao meio do verão não queimes carvão e não faças corar tecidos ao sol. Mantêm abertas as vilas e cidades sem cobrar tarifas ou impostos sobre bens. Lembra-te dos viúvos e viúvas e ajuda-os a ultrapassar as suas perdas. Com o crescer dos dias, o yin e o yang se digladiam; a vida e a morte separam. Durante este período as pessoas cultas regulam a sua dieta e comportamento, tendo o cuidado de não serem demasiado activas, moderando-se nos prazeres sensuais e tomando refeições leves.

Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www. ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.



h - Suplemento do Hoje Macau #93