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PARTE integrante DO HOJE MACAU Nツコ 2881. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

artes, letras e ideias

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um amor proibido


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patrício

Encantado em Cantão Desencantado em edição

Catedral de Cantão, em fins do século XIX

Pedro Baptista O poeta António Patrício chegou a Cantão em plena revolução republicana vitoriosa no Sul da China, dirigida pelo Dr. Sun Yat-sen, em Dezembro de 1911 e aí permaneceu até Outubro de 1913, data em que a sua peculiar vontade de viver o levou à transferência para Manaus, como castigo pelo envolvimento amoroso com uma jovem de 18 anos, (Maria?)Lídia Carvalho, filha de uma poderosa família portuguesa radicada em Hong Kong, o que lhe valeu um processo disciplinar. Na verdade está confirmada a paixão

intensa que uniu o poeta e a jovem (Maria?) Lídia, de 18 anos, com casamento marcado, bem como a vida em comum que chegaram a estabelecer, durante um curto período de quatro dias de vida comum em Cantão, após a partida da esposa e dos filhos de Patrício para a Europa. Também o escândalo ocorrido naquela época de outros costumes, que levou a uma petição dinamizada pelos pais da jovem contra o cônsul exigindo o seu afastamento, sobretudo das proximidades da jovem, enviado pelo cônsul de Portugal em Hong-Kong ao governador interino de Macau, Aníbal Sanches de

Miranda, anexo ao ofício de 8 de Julho de 1913, onde não deixa de se sublinhar, tratar-se de “uma das mais conhecidas e respeitadas famílias da colónia portuguesa de Hong-Kong”. Vale a pena conhecer o teor da petição dos pais da jovem, Emídio Ernesto Rodrigues, engenheiro chefe da Hong Kong Canton Macau Steamboat Cia Lda e de Sarah Maria Carvalho Rodrigues, sua mulher, datada de 7 de julho de 1913, inclusa no Processo 661/1913 que, com base na tradução e adaptação de Maria Manuela Gamboa, se poderá fixar abreviadamente e grosso modo nos seguintes termos:


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1. Cidadãos da República portuguesa, tendo Emídio Rodrigues nascido em Macau, pedem proteção ao Governo de Macau, de acordo com as circunstâncias:

go do infame oficial e que salvaguarde os cidadãos portugueses, mandando-o embora.

2. Emídio Rodrigues passou 30 anos a bordo dos vapores entre Hong Kong e Cantão, Cantão e Macau, Macau e Hong Kong, etc.. 3. Tem vários filhos e filhas todos de orientação católica e boa educação. 4. Em fevereiro de 1912, Emílio Rodrigues, por motivos profissionais, residiu em Cantão com a filha mais nova e três filhos: por essa altura, a filha Maria estava noiva e ia casar em novembro de 1912 com Carlos M.S. Alves de Hong Kong. 5. Pouco depois de estarem em Cantão, travaram conhecimento com o cônsul de Portugal em Cantão, Dr. António Patrício, sua mulher e família, tornando-se ambas as famílias íntimas, participando em piqueniques e passeios. 6. A filha Maria era frequentemente acompanhada nos passeios pelos jardins de Shamen (Cantão) por António Patrício e pelo filhinho Totó. 7. Devido à alta posição do cônsul, que o punha fora de qualquer suspeita, e ao facto da família residir em Shamen, sendo ambas íntimas, ninguém suspeitou de qualquer envolvimento de António Patrício e de Maria que sempre se soube comportar. 8. A intimidade das duas famílias continuou até Março de 1913, quando Emílio Rodrigues foi transferido para a carreira Hong Kong – Macau, mudando-se a família para Hong Kong onde sempre residira anteriormente. 9. Em 1 de Maio de 1913, Maria recebeu uma carta dum amigo comum com o cônsul, mas os pais desconhecem o seu conteúdo bem como quantas missivas terá recebido de Patrício. 10. Em 4 de Julho de 1913, Maria saiu de casa às 10.45 da manhã levando parte do enxoval e dizendo que ia à Srª Silva para marcar a roupa intentando ficar até ao lanche. Todavia não voltou para casa e às seis da tarde do mesmo dia, a irmã mais nova de Maria recebeu uma carta registada a ela endereçada que continha uma carta de Maria para os pais. 11. Investigações feitas, descobriu-se que Maria ficou pouco tempo em casa da Srª Silva; que a mulher e o filho de António Patrício tinham partido de Hong Kong para a Europa nessa manhã; que o cônsul António Patrício, depois da família partir, se encontrou com Maria, lanchou com ela no Hotel

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King Edward e seguiram ambos para Cantão, no comboio expresso da tarde a partir de Kowloon. 12. Após isto, os pais mandaram o fiel Ah Yee a Cantão que descobriu Maria em casa do cônsul às 9.30 horas da manhã de 8 de junho e que lhe disse que a mãe estava gravemente doente. Maria, com o consentimento do cônsul, concordou em ir a Hong Kong. Chegando aí, Maria recusou-se a ir a terra e disse que ia para Macau onde encontraria sua mãe. Todavia, o Bispo Pozzoni convenceu-a a voltar a casa. 13. Foi visto que Maria foi levada pelo cônsul para Cantão a 4 de junho e viveu com ele, em sua casa, até 8 de junho. 14. Regressada a casa, Maria não se mostrou arrependida pelo seu comportamento e afirmou que o cônsul lhe tinha prometido divorciar-se da mulher e casar com ela, parecendo assim desejar ir ter com o cônsul a Cantão. Por fim, o Bispo convenceu-a a residir no Convento francês de Hong

Kong onde agora continua com a saúde muito debilitada. 15. A 9 de junho Ah Yee foi a Cantão buscar a roupa e jóias de Maria a que António Patrício juntou uma carta para Maria, tendo pedido a Ah Yee para lha entregar confidencialmente. Porém foram os pais que a receberam. 16. Os pais e a família receiam que, ficando o cônsul na China do Sul, induza Maria a voltar a Cantão e aí a viver com ele uma vida de infâmia. 17. Para além da desgraça e injúria sobre a família Rodrigues, a presença do cônsul é um escândalo público e um agravo público para a República portuguesa e os seus cidadãos, sobretudo para os que residem no Oriente, cujo guardião oficial faz uso da sua posição social e oficial para desviar uma jovem cidadã da República portuguesa. 18. Os pais de Maria rogam ao Governador de Macau que promova o casti-

Após o inquérito ordenado pelo MNE dirigido pela Legação portuguesa em Beijing, a sentença proferida pelas “Negócios estrangeiros”, a 10 de Outubro de 1913, transfere simplesmente Patrício para Manaus “atendendo a que tem prestado bons serviços consulares”. De notar a confusão e o conjunto de erros a propósito deste momento da biografia patriciana, protagonizados tanto por Armando Nascimento Rosa como por David João Neves Antunes, o primeiro com uma obra de grande fôlego analítico e especulativo1, o segundo responsável atual pela reedição das obras de Patrício pela Assírio & Alvim, agora chancela da Porto Editora2. Rosa afirma na sua obra “As Máscaras nigromantes” que “Pedro Cru” foi escrita em Macau em 1913, que Patrício foi, em Dezembro de 1911, “colocado no consulado de Cantão em Macau”(!) (p.158), que Patrício era “cônsul em Macau” (!!) (p.169), que foram “as autoridades macaenses” que puseram fim ao escândalo (citando uma tese de Mestrado de Maria Manuela Gamboa que tresleu porque a Mestre nem diz isso) (p.169), que Ramiro Mourão lhe enviara um livro para Macau (p.192) onde Patrício não estava. O que é um erro completo tornando incompreensível como um tão arrojado nível especulativo de uma obra pode desenvolver-se com proporcionalidade inversa no que diz respeito ao rigor historiográfico... Antunes, por sua vez, afirma na sua “nota biográfica sobre o autor” que Patrício “foi nomeado cônsul de Portugal em Cantão”, para logo a seguir dizer que “em Macau conservou-se até 1913” (!!!). Será que pensam, que é o que parece, que Cantão é em Macau? Não é longe, mas é bem mais do que uma hora tanto de caminheta, como de comboio ou de ferry! Cinquenta, cem ou mesmo duzentos Macaus caberiam facilmente em Cantão mas o contrário seria difícil! E Cantão é Cantão, é Guangzhou, onde Portugal sempre teve uma estrutura diplomática desde 1888 até 1966, quando os guardas vermelhos a saquearam. Pior, a “nota” repete-se com os respetivos erros nas já duas reedições das “Obras”3, uma iniciativa extremamente meritória da Porto Editora. Também dizer e redizer, como faz Antunes na mesma obra, que Patrício, an1 Rosa, Armando Nascimento – As Máscaras nigromantes – uma leitura do teatro escrito de António Patrício. Assírio & Alvim. 2003. 2 Antunes, David João Neves – posfácio a Serão Inquieto de que aparece como editor, Assírio & Alvim, chancela da Porto Editora, Fevereiro de 2013. 3 O mesmo erro já constava da “Nota biobibliográfica sobre o autor” que posfacia a edição de “O Fim” e “Diálogo na Alhambra”, (Assírio & Alvim, 2007) edição assumida, desta feita, por Nascimento Rosa. De resto, o texto é o mesmo do anteriormente citado de David João Neves Antunes em “Serão Inquieto”, o que provoca no público, no mínimo, uma sensação de desconforto...


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tes de seguir para Cantão ( ou terá sido para Macau?) se deslocou “à Corunha numa missão relacionada com a ameaça constituída pela insurreição monárquica liderada por João Franco ”é um pouco mais do que obnóxio, uma vez que o papel de Franco na oposição monárquica é nulo, queimado como estava, em todos os sectores, por ficar como o que criou as condições políticas para o regicídio. O chefe sempre considerado das duas incursões monárquicas vindas da Galiza, a 5 de Outubro de 1911 e a de Julho de 1912, com incidência em Vinhais e em Chaves, embora mancomunadas com o rei deposto no exílio, foi sempre, indubitavelmente , o Major Paiva Couceiro ele, o apodado de Paladino, a esperança da contra-revolução monárquica, e mais ninguém! Como o afirma qualquer História de Portugal seja o Matoso ( 6º vol., p.460), o Veríssimo Serrão (Vol. XI, pp106 e 117) ou o Oliveira Marques (Vol.XI, p. 705). Para não subirmos o escadote a espreitar o Medina! Ou carregarmos alguns livros memoriais desnecessários porque a memória chega-nos em matéria de ABC, mesmo se, enquanto historiador, o possamos ser apenas das ideias filosóficas e politicas. Foi aliás Paiva Couceiro que protagonizou, finalmente, em 1919, a Monarquia do Norte, embora o grande carniceiro que ficou na negrura da história, tenha sido Solari Allegro, que acabou por morrer em Espanha, porque nem Salazar autorizou a sua volta ao país! Agora João Franco aqui metido não é erro, é asneira básica inadmissível numa reedição destas, que merecia outra consideração! A facilidade com que o erro se desdobra nestas obras, denotando superficialidade, falta de exigência de rigor e mesmo desprezo pela verdade dos factos, acaba por colocar, talvez injustamente, sob suspeição, a sustentação e mesmo a seriedade do trabalho especulativo analítico de Nascimento Rosa, plasmado na obra de grande fôlego sobre o teatro escrito de Patrício intitulada “As Máscaras nigromantes”, assim como, infelizmente, a qualidade desta reedição das obras de Patrício que merecia mais. De resto, a agravar, nem sequer há quaisquer provas documentais de que Patrício tenha chegado a Manaus como afirmam os citados autores e, neste caso, a própria Maria Manuela Gamboa em que se baseiam, porque, segundo Jorge Carvalho Martins4, que estudou com minudência a carreira diplomática do poeta e se baseia em fontes documentais, chegado a Honolulu, Patrício, terá conseguido que o cônsul local telegrafasse para Lisboa, indicando a sua impossibilidade de prosseguir por motivo de doença, a que Lisboa anuiria sob condição de apresentação de atestado médico à chegada, o que viria a apresentar quando chegou a Lisboa, com atestado datado de janeiro de 1914 que, aliás, renovou pouco depois com outro. 4 Martins, Jorge Carvalho – António Patrício-Um diplomata liberal. Lisboa: IN-CM. 2000.

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Cantão, circa 1900


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Fragmentos poéticos Um certo sentido do sagrado

Amélia Vieira A primeira obra de António Patrício que li foi teatro: «Pedro o Cru». Foi há muito, muito tempo, era menina, talvez onze, doze anos, e jamais me esquecerei do forte clima emocional. Para mim, era assim como um deslumbramento, mas já sem a ternura dos contos de fadas. Ali, havia a amarga separação de alguém que seria insubstituível para um homem que ardia de uma febre estranha, que mal conhecia, e jamais suspeitava que pudesse ser assim. As descrições físicas de Inês eram maravilhosas: um ser belo, grande, voluptuoso, feminino, saía daquelas páginas que tinham tanto de erótico quanto de sagrado. Um Rei louco, uma Rainha morta, uma paixão que rasga os tempos….. um pai malvado, carrascos, improváveis cultos fúnebres. Era para mim uma história do Fantástico. Acho que fiquei sempre com um grande respeito pela Paixão a partir da leitura ardente desta obra. Mas, este autor nunca esteve distante da minha aura calorosa. Achava-o um místico, um homem coberto por sonhos, um representante sebastiânico, com duplicidade Pisciana que rege o mais estético da vertente de um país. Com o Modernismo e todas as Vanguardas mais os Neorrealismos, António Patrício, tornar-se-ia apenas um nome vago que os pais da nova geração apreciaram, mas tempo vai, tempo volta, e a vida é mesmo assim, ela vem de lados antigos e renova-se. Foi com gosto e surpresa, e finalmente, com aquele sentido de justiça interna que vejo o seu reabilitar – nem sabia que tinha vivido em Macau. Os Fragmentos que vêm de sair na editora de Carlos Morais José é um precio-

Os Fragmentos, que vêm de sair, é um precioso instante de Poesia. De Poesia pura. É radioso de simbologia. Apela ao mais poético do género que é a epígrafe, a edição mais parece um Livro de Horas, e a descrição e o nocturno toque da legenda fazem deste livro um momento alto no universo das coisas da leitura. so instante de Poesia. De Poesia pura. É radioso de simbologia. Apela ao mais poético do género que é a epígrafe, a edição mais parece um Livro de Horas, e a descrição e o nocturno toque da legenda fazem deste livro um momento alto no universo das coisas da leitura. Esta leitura, hoje, como ontem, como amanhã, não será para o grande público que é uma adjetivação um pouco abstrata, são “tecidos” das formas da escrita como as rendas de Bilros e outras preciosidades: elas não podem forrar os sótãos vazios das memórias. Têm outras funções e bem longe se encontram da trama do entretenimento. Num mundo de pessoas entretidas escapa-lhes um pouco a distinção daquilo que para o efeito não serve. Problema do Mundo! Mais tarde e por mero acaso publiquei um livro e intitulei-o «FIM» fui ver se haveria outros títulos, e sim, que havia: FIM - Diálogos de Alhambra, de António Patrício: história dramática em dois quadros, publicada em 1909. Uma peça extraordinária que faz do autor o vulto

mais relevante da estética simbolista na dramaturgia da língua portuguesa. A poesia, essa, sempre me pareceu uma longa Écloga, não faltando os seus «Spleen» muito à Baudelaire, e um ligeiro toque de Pierre Louis nas «Canções de Bilitis». Tudo nos remete a um classicismo lírico, improvável, belo, como Horderlin também fez renascer. Aliás, há qualquer coisa de íntimo entre os dois poetas, que difícil será mencionar, embora Holderlin fosse uma personalidade mais frágil, mais desprotegida, menos do Mundo. Mas, agora que escrevo, lembrei-me dele em associação. Há uma atmosfera que talvez venha de uma profunda noção de sagrado. Ambos nos antecipam um deus que em nós está morto e que eles magicamente fazem renascer. Estes são os Poetas! Como eles fazem , ninguém sabe, nem eles, mas algo nos indica que é por eles que o caminho está certo, é como um sussurro, uma fresca brisa, um testar de coisas que nos orienta. Há muito que deixei de ler António

Patrício. Porém, ele sempre constou da minha biblioteca. As novas gerações não fazem ideia de quem seja, as mais velhas venderam as bibliotecas com as suas obras. Muitas delas estão em alfarrabistas. Hoje, posso dizer, que ele está aqui, comigo, como um Arauto. Devo essa bênção ao editor desta bonita obra, que num dia muito simbólico, oito de Março, ma ofereceu, no dia do aniversário do Poeta. As coisas que a poesia faz! O simbolismo esteve em Macau bem representado, sim , há locais que gostam mais de um estilo que de outro, pessoas que são mais parecidas com a vibração de certos autores do que outras. Por cá não sei, a bem dizer, não sei, as obras que tenho do autor continuam a ser as da Assírio e Alvim, antigas, tanto de Teatro como a da Poesia Completa. «Pedro o Cru», a primeira, perdeu-se no roteiro dos tempos, mas ficou registada em mim como uma cicatriz de fogo. Aquelas coisas que sem elas a arquitectura das nossas naturezas seria certamente outra, pois que foram elas que nos ensinaram o caminho da saída. Da saída do Mundo como muito bem o designou Nietzsche: o Homem, meus amigos o Homem, é tudo aquilo que precisa ser vencido. Pois vençamos essa intermédia condição e tornemo-nos poetas. Poetas, o mais alto grau de civilização: “Porque o que fica os Poetas o fundam!”(Holderlin). E, porque falta uma oitava, porque falta o octógono infinito e grande, nada melhor que a epígrafe que se segue, ele, que nasceu a oito (eu também) e que sabe de infinitos. O oitavo dia da criação do mundo Nasce continuamente do génio E do sonho dos poetas. António Patrício, in Fragmentos poéticos


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Ferreira de Castro na Amazônia uma vida resgatada   Adelto Gonçalves

Novembro de 1929, quando já estava amadurecido e carregava uma boa experiência no jornalismo diário. O livro saiu à luz em 1930 e ganharia tradução alemã em 1933, alcançando grande difusão internacional, tendo sido publicado também na França, Espanha, Inglaterra, Rússia, Tchecoslováquia, Romênia, Suécia, Holanda, Noruega, na antiga Iugoslávia (em croata) e em outros países.  Nenhum daqueles pormenores, porém, empana o brilho do trabalho de Baze, que, profundo conhecedor da realidade amazônica, soube como resgatar os anos verdes de Ferreira de Castro, suas primeiras dificuldades logo ao chegar a Belém, a aventura que foi a viagem para o seringal, as revoltas contra o trabalho (semi) escravo, a criminalidade, as fugas para o interior da floresta, a medicina caseira baseada na tradição indígena, a caça como sobrevivência, a politicagem, os mandões locais, as pragas, as doenças, os dramas individuais, os sonhos, as acomodações desumanas, os males da bebida alcoólica e a vizinhança turbulenta com os índios Parintintins.   III

in Pravda

I Não se deve levar em conta livro de ficção como documento histórico, ainda que tenha sido largamente inspirado na própria vida do autor. É que na ficção o romancista ou o poeta se desprende de seu compromisso com a realidade e deixa a imaginação voar, misturando tempos e acontecimentos sem rigor cronológico. Mesmo assim, isso não significa que não se possa ler determinada obra como à clef, como sabe quem já cotejou o poema Cartas Chilenas, de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), com a documentação da época que consta do Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte, e dos arquivos públicos de Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais. É por isso que Abrahim Baze, historiador e museólogo, não andou mal ao escrever  Ferreira de Castro: um imigrante português na Amazônia com base no romance A Selva (1930), de Ferreira de Castro (1898-1974), tomando do personagem Alberto muitas experiências que teriam sido vividas pelo próprio romancista que deixou o lugar de Salgueiros, na freguesia de Ossela, no concelho de Oliveira de Azeméis, em 1911, aos 13 anos de idade, para embarcar no vapor inglês Jerome, rumo a Belém do Pará, onde seria despachado para o seringal Paraíso, nas margens do rio Madeira, no Estado do Amazonas. O resultado do esforço de Baze foi um ensaio biográfico livre das amarras metodológicas, como bem observou Almir Diniz de Carvalho Júnior, professor de História da Universidade Federal do Amazonas, autor de um dos prefácios deste livro, que acaba de ganhar terceira edição revista e ampliada, depois de ter a sua primeira edição publicada pela Revista Portugal, de Oliveira de Azeméis, em 2001, e sua segunda edição em 2005, já pela Editora Valer, de Manaus. Como brinde, acompanha esta edição um DVD com a longa-metragem A Selva, obra de adaptação do romancista Márcio Souza, responsável também pela sua direcção. Rodado em 2001, o filme contou com a participação de artistas brasileiros e portugueses de renome, como Diogo Morgado, Maitê Proença, Cláudio Marzo, Paulo Gracindo Júnior,

Roberto Bomfim e Chico Dias, além de outros 40 atores e três mil figurantes amazonenses. II É verdade que, ao levar em conta episódios ficcionais como se fossem reproduções fiéis da realidade, Baze cometeu anacronismos e alguns enganos, como já assinalou Maria Eva Letízia, professora do Centre de Recherche et d´Etudes Lusophones et Intertropicales da Universidade Stendhal, Grenoble III, da França, em crítica publicada na Revista

Castriana, do Centro de Estudos Ferreira de Castro, de Oliveira de Azeméis, e reproduzida nesta terceira edição do livro. Um deles foi ter colocado o jovem José Maria Ferreira de Castro a imaginar-se, quando ainda vivia no seringal Paraíso, passeando pela Avenida da Liberdade, em Lisboa, local que teria sido freqüentado pelo protagonista Alberto, mas que só seria conhecido pelo biografado em seu retorno a Portugal em 1919. Armado com suas lembranças da época em que vivia na Amazônia, Ferreira de Castro escreveu A Selva de Abril a

Para recuperar os primeiros passos de Ferreira de Castro, Baze visitou não só a casa onde o escritor nasceu e que hoje está transformada em museu, mas a escola de instrução primária que ele freqüentou e que lhe daria a base intelectual que lhe serviria para o resto da vida, seguindo uma tradição de autores autodidactas em Portugal que chegaria ao auge com o Prémio Nobel de Literatura de 1998 atribuído a José Saramago (1922-2010). Aliás, Ferreira de Castro teve o seu nome proposto ao Prémio Nobel em 1951 e em 1968, desta vez ao lado de Jorge Amado, indicado pela União Brasileira de Escritores. Na Amazônia, Baze saiu em busca de, praticamente, todos os passos de Ferreira de Castro, localizando até a hospedaria em que ele ficou em Belém, em frente ao cais do porto. Dessa época, o biógrafo teve ainda o cuidado de republicar velhos cartões-postais que mostram a Belém do começo do século XX e até do navio Justo Chermont que levou o futuro escritor para Manaus. Desta cidade, igualmente há fotografias de 1920, todas do acervo do próprio autor.


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Por fim, Baze reconstitui a chegada de Ferreira de Castro ao seringal Paraíso, que não existe mais desde a abertura da estrada Transamazônica na década de 1970, à época da ditadura militar (19641985), quando foi destruído, devastado e dividido em lotes pelo governo federal e vendido a agricultores e pecuaristas do Sul do Brasil. Na Amazônia, Ferreira de Castro vive o rescaldo da «febre» da borracha, quando os melhores tempos já se haviam ido e o trabalho dos seringalistas era desenvolvido em condições subumanas. No seringal, José Maria era apenas um rapazola precocemente amadurecido enviado para uma aventura por uma irresponsabilidade que só se justifica pela extrema miséria em que vivia sua família. Órfão de pai, era o primogénito que teria sido enviado ao Brasil com a esperança de que fosse mais um «brasileiro» a retornar enriquecido para sua vila natal. Que tenha obtido autorização para viajar sozinho, sendo menor de idade, e, mais ainda, que tenha sobrevivido em ambiente tão hostil são fatos que não se explicam e podem ser atribuídos apenas ao imponderável. No ensaio de Baze, tem especial relevo a família Teles Monteiro, proprietária do seringal Paraíso, e Juca Tristão, gerente, especialmente retratados em A Selva, que aqui ganham maiores contornos. De 1914 a 1918, época que coincide com a Primeira Guerra Mundial, Ferreira de Castro sobrevive em Belém e Manaus na mais completa miséria, embora em condições superiores à vida no seringal. Começa, então, a viver de sua pena, trabalhando no jornal A Cruzada, de Belém. Fundou com um amigo o Jornal Portugal, que era dedicado à numerosa colónia portuguesa da cidade. Publicou reportagens e até um folhetim. Trabalhou ainda no  Jornal do Commercio, de Belém, como atesta cartão de identidade funcional reproduzido no livro.                                                                IV   Abrahim Baze (1949) é graduado em História pela Uninorte e pós-graduado lato sensu em Educação a Distância pelo Centro Universitário Uniseb COC, de Ribeirão Preto-SP. Dedicou boa parte de sua vida profissional a organizar museus no Amazonas. É jornalista, apresentador e documentarista de televisão, com vários trabalhos produzidos, em especial sobre temas amazônicos.  É diretor do Museu da Rede Amazônica e do Memorial Senador Bernardo Cabral, membro da Academia Amazonense de Letras, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e apresentador dos programas Literatura em Foco e Documentos da Amazônia, no Amazon Sat. Publicou ainda os livrosLuso Sporting Club - Memória da Sociedade Portuguesa no Amazonas, História da Rede Amazônica eReal e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas.

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Democracia ou capitalismo? Malevich, Três mulheres

A democracia perdeu a batalha mas só não perderá a guerra se as maiorias perderem o medo, se revoltarem dentro e fora das instituições e forçarem o capital a voltar a ter medo, como sucedeu há 60 anos

Boaventura Sousa Santos A relação entre democracia e capitalismo foi sempre umaw relação tensa, senão mesmo de contradição. O capitalismo só se sente seguro se governado por quem tem capital ou se identifica com as suas “necessidades”, enquanto a democracia é o governo das maiorias que nem têm capital nem razões para se identificar com as “necessidades” do capitalismo, bem pelo contrário. O conflito é distributivo: a pulsão para a acumulação e concentração da riqueza por parte dos capitalistas e a reivindicação da redistribuição da riqueza por parte dos trabalhadores e suas famílias. A burguesia teve sempre pavor de que as maiorias pobres tomassem o poder e usou o poder político que as revoluções do século XIX lhe concederam para impedir que tal ocorresse. Concebeu a democracia liberal de modo a garantir isso mesmo, através de medidas que mudaram no tempo mas mantiveram o objetivo: restrições ao sufrágio, primazia absoluta do direito de propriedade individual, sistema político e eleitoral com múltiplas válvulas de segurança, repressão violenta de atividade política fora das instituições, corrupção dos políticos, legalização dos lóbis. E sempre que a democracia se mostrou disfuncional, manteve-se aberta a possibilidade do recurso à ditadura, o que aconteceu muitas vezes. No imediato pós-guerra, muito poucos países tinham democracia, vastas regiões do mundo estavam sujeitas ao colonialismo europeu que servira para consolidar o capitalismo euro-norte-americano, a Europa encontrava-se devastada por mais uma guerra provocada pela supremacia alemã, e, no Leste, consolidava-se o regime comunista que se via como alternativa ao capitalismo e à democracia liberal. Foi neste contexto que surgiu o chamado capitalismo democrático, um sistema assente na ideia de que, para ser compatível com a democracia, o capitalismo deveria ser fortemente regulado, o que implicava a nacionalização de setores-chave da economia, a tributação

progressiva, a imposição da negociação coletiva e até, como aconteceu na então Alemanha Ocidental, a participação dos trabalhadores na gestão das empresas. No plano científico, Keynes representava, então, a ortodoxia económica e Hayek a dissidência. No plano político, os direitos económicos e sociais foram o instrumento privilegiado para estabilizar as expectativas dos cidadãos e defendê-las das flutuações constantes e imprevisíveis dos “sinais dos mercados”. Esta mudança alterava os termos do conflito distributivo mas não o eliminava. Pelo contrário, tinha todas as condições para o acirrar logo que abrandasse o crescimento económico, o que se registou nas três décadas seguintes. E assim sucedeu. Desde 1970, os Estados centrais têm vindo a gerir o conflito entre as exigências dos cidadãos e as exigências do capital, recorrendo a um conjunto de soluções que gradualmente foram dando mais poder ao capital. Primeiro, foi a inflação, depois, a luta contra a inflação acompanhada do aumento do desemprego e do ataque ao poder dos sindicatos, a seguir, o endividamento do Estado em resultado da luta do capital contra a tributação, da estagnação económica e do aumento das despesas sociais decorrentes do aumento do desemprego e, finalmente, o endividamento das famílias, seduzidas pelas facilidades de crédito concedidas por um setor financeiro finalmente livre de regulações estatais, para iludir o colapso das expectativas a respeito do consumo, educação e habitação. Até que a engenharia das soluções fictícias chegou ao fim, com a crise de 2008, e se tornou claro quem tinha ganho o conflito distributivo: o capital. Prova disso: o disparar das desigualdades sociais e o assalto final às expectativas de vida digna da maioria (os cidadãos) para garantir as expectativas de rentabilidade da minoria (o capital financeiro). A democracia perdeu a batalha mas só não perderá a guerra se as maiorias perderem o medo, se revoltarem dentro e fora das instituições e forçarem o capital a voltar a ter medo, como sucedeu há 60 anos. 


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A Borboleta e a Nova Os tempos são de transformação, por isso requerem uma nova forma de filosofar ou pelo menos diálogos, ao jeito platónico, com certeza, mas com novos protagonistas e outros temas para meditação. Agora há filósofas que contribuem como podem para prolongar esta conversa da humanidade na feliz expressão de Richard Rorty. Num dia estival muito quente passeia uma professora com um estudante em Hong Kong, cruzando o Rio das Pérolas (Zhujiang 珠江) em direcção a Tsim Sha Tsui, Kowloon (Jian Sha Ju Jiulong 尖沙咀九 龍). A água de um azul-esverdeado é convidativa e inspira ao diálogo que trocam as personagens a caminho do Museu de Arte de Hong Kong ( Xianggang Yishuguan香 港藝術館), onde está patente uma exposição sobre o Tao Originário (Yuan Tao 原 道). - É para mim um grande privilégio desenvolver uma investigação sobre a ideia de transformação na filosofia chinesa sob a sua orientação. Estou um pouco perdido, ainda que seja muito sensível à beleza destas terras orientais, à beleza e à filosofia. - A sabedoria platónica é constituída pela contemplação de três grandes ideias: a Beleza, a Bondade e a Justiça. Sente-se tocado pela beleza destas paragens e o resto virá naturalmente. - Pensei em começar a minha pesquisa pelas borboletas e sua espantosa capacidade de metamorfose. - Pensou muito bem. As borboletas são essenciais na China. Simbolizam o amor, presentificam a beleza e figuram o movimento de transformação correcto, tendo contribuído de um modo decisivo para o desenvolvimento económico chinês. Não foi a seda (e mais tarde as porcelanas) o que mais notabilizou e fez brilhar a economia chinesa? - Que significa um movimento de transformação correcto? - Na China a verdadeira ética é indissociável da estética. Seria impensável enaltecer o movimento de borboleta sem a larva. Louvada, cantada e glorificada é a metamorfose de larva a borboleta, à semelhança do que sucede com a flor de lótus, que simboliza a pureza e beleza espirituais para budistas e hindus. A flor começa na lama e ergue-se rumo ao Céu, de uma beleza única, sem qualquer mancha ou resquício do sítio onde nasceu. - Então o movimento de transformação correcto é do menos bonito para o mais bonito, do menos bom para o melhor. Como é isso possível? Qual é o critério para aferir a beleza e a bondade, uma vez que segundo as principais filosofias orientais, estas apenas existem em relação? - Tocou num ponto essencial. É preciso chegar à raiz do que permite a relação, num movimento de retorno - o movimento é essencial. Este permite-nos captar a


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r ó n i c a

va Filosofia raiz do sopro de transformação, como defende Laozi (老子) no capítulo 42 do Clássico do Caminho e da Virtude (Daode Jing/ Tao Te Ching1《道德經》), que nos mergulha na unidade originária: O Caminho gera o Um; o Um gera o Dois; o Dois gera o Três; o Três gera os Dez Mil Seres. Estes carregam às costas o Yin e abraçam o Yang, misturando o sopro vital das duas forças geradoras. ( 道生一, 一生二,二生三;三生萬物。萬物負 陰而抱陽,沖氣以爲和) (2012:62) - Nesse caso o mais importante é saber como activar o sopro. Haverá um, dois ou vários sopros? A força feminina Yin e a força masculina Yang produzem sopros vitais independentes ou limitam-se a transmitir directamente o sopro vital originário? - Anaxímenes de Mileto, o filósofo pré-socrático que viveu no século VI a.C, pode ajudar-nos a iluminar esta questão, naturalmente via interpretações posteriores. Mas para ele o princípio cosmológico fundamental era o Ar. Este era princípio material, vital e divino, enfim explicava o mundo. Todas as coisas seriam constituídas por um ar infinito, não directamente, mas por transformação. Um ar rarefeito dava origem ao fogo, um mais condensado à terra. As únicas palavras que a história da filosofia lhe reconhece são, e cito: Tal como a nossa alma, diz ele, sendo ar nos mantém unidos e nos controla, assim faz o vento (ou sopro) e o ar que envolve todo o mundo (1983:158). - Sim, mas o que tem Anaxímenes a ver com os filósofos chineses? - Há afinidades entre as visões cosmológicas pré-socrática e dos primeiros filósofos taoístas. Partimos de uma unidade originária, que através da transformação e acção de um determinado elemento, no caso de Anaxímenes o Ar, vem a dar o mundo tal o conhecemos. Também para os taoístas a capacidade de transformação reside no Qi (氣), o sopro vital, que relaciona e harmoniza tudo quanto existe no nosso mundo (os dez mil seres na visão tradicional chinesa), a partir da ligação das duas forças primordiais, as primeiras a distinguirem-se da unidade originária. - Em que se distingue este Qi do Céu e da Terra? - Há alguma diferença, à maneira de Anaxímenes ou de Zhuangzi (莊子), quando este último sonha que é uma borboleta, porque esta unidade é pluralizada. Porém, só o Qi, o sopro vital tem, como claramente refere Laozi (老子), o poder de harmonizar as duas forças geradoras feminina e masculina. - Estou confuso. Afinal quantos Qi (氣) existem? - Muitos, mas voltemos à questão da correcção. Os certos, os únicos capa1 Depende do registo fonético seguido para fixar o chinês de acordo com o Alfabeto Internacional. Em Pinyin, adoptado pela RPC, escreve-se “Daodejing”, em Taiwan “Tao Te Ching”.

zes de nos religar ao Sopro Originário (Yuan Qi 元氣) são apenas dois, os do Céu e da Terra, ou seja, os das duas primeiras forças geradoras; só eles nos podem movimentar em direcção ao sopro correcto, como nos recorda um célebre general letrado, no século XIII às portas da invasão mongol. Chamava-se Wen Tian Xiang (文天祥 1236-1283). Combateu pelo seu país, opondo-se à invasão da China pelos mongóis. Foi capturado e morreu na cadeia. Ainda assim sobreviveu algum tempo, o que era de espantar dadas as difíceis condições de prisioneiro. Interrogando-se como seria possível ainda estar vivo, encontrou uma resposta no facto de cultivar o Qi correcto (Zheng Qi 正氣), alcançável pela harmonização dos sopros do Céu e da Terra. Enaltecido pela história chinesa como um grande patriota, tem perdurado o seu pensamento, condensado na expressão proverbial: O Sopro Vital Correcto do Céu e da Terra (Tiandi Zheng Qi 天地正氣). A canção que compôs em homenagem ao Sopro Correcto (Zheng Qi Ge 正氣歌) indica que este se obtém: pela conjugação harmoniosa das forças celestiais e telúricas; pelo cultivo de uma vida pacífica; pela obediência aos três princípios, os filhos obedecem aos pais, as mulheres aos maridos e os súbditos aos soberanos (三綱 關係命); e por uma acção enraizada no caminho e na justiça (道義為之根), pois só seguindo estes valores existenciais pode o sábio ter uma longa vida (哲人 日已遠). (2013: 61). Donde concluiu que o prolongamento dos seus dias em cativeiro só foi possível por ter nutrido correctamente o sopro vital puro e espontâneo, à semelhança das palavras proferidas por Mâncio 孟子( “我善於培 養洁然的正氣”). - Portanto para Wen Tian Xiang, segundo entendi, há um sopro originário, o correcto, aquele que relaciona directamente o Céu e a Terra e do qual derivam por transformação todos os outros sopros, incluindo o humano. Temos então um sopro do Céu (Tian Qi 天氣), um sopro da Terra (Tu Qi 土氣), um sopro Humano (Ren Qi人氣), um sopro mau (E Qi 惡氣), etc. E talvez também o cosmos possa ser explicado a partir de uma unidade originária donde se gera tudo o que existe e onde o sopro vital tem um papel essencial, seja ele um primeiro, segundo ou terceiro elemento. - Fundamental é alcançar o sopro originário (Zheng Qi正氣), que permite a metamorfose essencial, a mais bela. Como Liang Shanbo (梁山伯) e Zhu Yingtai ( 祝英台) ao transformarem-se em borboletas. Ele, Liang Shanbo, numa borboleta amarela, indicando a presença da força masculina, ela, Zhu Yingtai, a representante do princípio feminino, numa bor-

Ecos Naturalistas

boleta preta. Metamorfosearam-se em beleza e passaram a contar entre as histórias de amor mais tocantes da China: os Amantes-Borboleta. - Interessante. Esta transformação recorda-me o caminho de amor proposto no diálogo de Platão, o Banquete, onde o amor e a beleza também surgem interligados. Primeiro ama-se um corpo belo, depois vários. Segue-se o amor por uma alma bela e depois por várias. Após esta longa caminhada, está-se apto a contemplar a beleza espiritual, a do mundo das ideias. - Esse caminho, como chamaste e bem, tem a vantagem suplementar de ser percorrido no Oriente sem a separação de mundos. O sensível e o inteligível estão mesmo à mão de semear, o que se torna muito gratificante do ponto de vista filosófico, já que sábio pode facilmente re-ligar-se ao mundo espiritual sem ter de voltar costas à matéria. Basta cultivar o

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Ana Cristina Alves*

sopro vital, a fim de que a transformação possa ocorrer. Nós também podemos metamorfosear-nos como as borboletas. Bom, chegámos a Kowloon, vamos ver a exposição? Espero que o nosso diálogo te tenha ajudado. -Se ajudou, estou mesmo inspirado. Bibliografia A Borboleta http://super.abril.com.br/ mundo-animal/lagarta-leva-ano-virar-borboleta-488821.shtml Kirk, G.S, J.E Raven, M. Schofield. New York, Melourne: Cambridge University Press 梁衡(Liang Heng) 編2013. 《影響中國 歷史的十篇美文》香港:商務印書館 有限公司 Lau, D. C (Trans.) 2012 A Bilingual Edition. Hong Kong: Chinese University Press Wang Suoying, Ana Cristina Alves. 2009. . Lisboa: Caminho


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d e p r o f u n d i s

sol de inverno

Boi Luxo

Jaime, António Reis, 1974

8 vezes Jaime morreu já cá (escritos de Jaime Fernandes).

Não estava à espera das águas e do pequeno barco que no filme Jaime, de António Reis, navega aparentemente sem destino, acompanhado pelo som do vento e de alguma fúria. Já havia esquecido como este filme deriva labirinticamente para nos mostrar uma curiosidade, ao mesmo tempo que nos obriga a ver a dificuldade em fazê-lo. É tentador pensar que a história de Jaime Fernandes pertence mais a uma conversa que a um filme. É tentador não a contar e guardá-la na admiração de apenas alguns privilegiados, de a conservar fechada. As imagens do pátio circular do hospital onde Jaime Fernandes passou mais de trinta anos da sua vida demonstram o emblema perfeito da sua intenção e da sua inevitável impossibilidade. Da impossibilidade de penetrar nas figuras da pintura de Jaime Fernandes e da impossibilidade de penetrar no mundo do seu autor. Uma das concessões que o filme faz à nossa inteligência e à nossa sensibilidade é não o tentar demasiado. Todo o seu “enredo” se constrói mais em redor do espanto e do fascínio que da vontade de explicar. Por muitas imagens que António Reis crie de interiores estas servem apenas para nos manter no exterior, sejam estas imagens as mais reais, como as do pátio do hospital com o seu fontanário central como se de um claustro de loucos se tratasse - ou as mais surreais, que são mais uma prova da impossibilidade de entrar.

António Reis tem publicados livros de poesia e é impossível não associar os filmes de Reis e Margarida Cordeiro a este incurável estado artístico. Hei-de entrar nas casas também Como o luar A ver as faltas de roupa interior e de cama ( . . . ) Faça-se também o esforço de pensar que em 1974 esta forma crua e surreal de filmar era original. Impressionou profundamente figuras como João César Monteiro, que em Recordações da Casa Amarela também filma no pátio do mesmo hospital que Reis filmara (haveria Veredas sem Trás-os-Montes?). Permanece hoje igualmente sedutor e muito surpreendente - muito para lá de uma mera curiosidade moderna dos anos 70, como Uma Abelha na Chuva, de 1971, ou Belarmino, 1964, ambos de Fernando Lopes. Lembre-se que António Reis trabalhara como assistente de Manoel de Oliveira, 11 anos antes, nas filmagens de Acto de Primavera. Não poderá ter deixado de impressionar António Reis este esforço documental poético, assim como a coragem em deixar falar os outros, sem interrupções. Original é, igualmente, a sua aparente

“fragmentação” narrativa, os saltos bruscos para a obra pictórica, o retorno ao hospital, as viagens à “origem” de Jaime. Não sei se é a música de Telleman mas os planos que Reis filma no campo são os mais dolorosos, os mais distantes, ironicamente os que menos têm que ver directamente com a figura de Jaime. Não admira que Jean-Marie Straub, autor de filmes em que a música constitui a sublinha perfeita da distância e da beleza que marca os seus filmes, se conte, a par de Jean Rouch ou Joris Ivens, entre os inúmeros admiradores da pequena obra de Reis e Cordeiro. Esta é uma obra que, ao mesmo tempo que se apresenta muito generosa, um encanto certamente construído a partir do afecto pelo material filmado, se apresenta também com pouca vontade de se deixar penetrar. Perdoem-me que diga que Reis e depois Margarida Cordeiro, são quase egoístas no modo como se apoderam das suas figuras. Uma das peculiaridades deste conto provém igualmente do facto de, ao contrário do que acontece tão intensamente nos seus outros filmes, não haver aqui praticamente contacto humano. Em Trás-os-Montes e Ana as figuras humanas são quase omnipresentes (elas uma extensão da paisagem transmontana) rodeadas de um calor que promana do longo contacto e da intimidade que os autores desenvolveram com as pessoas que filmaram. Em Jaime a única presença humana de relevo

é a de sua mulher, só, negra e de pedra como um ídolo de um templo há muito abandonado. A Senhora Evangelina. O filme Jaime parte da descoberta, por Margarida Cordeiro, de um desenho de Jaime Fernandes (já depois da sua morte) numa parede do Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, onde este fora paciente. É-nos dado a ler, em silêncio total, no início da média metragem de António Reis: Jaime Fernandes nasceu em 1900, na freguesia de Barco, Covilhã. Era trabalhador rural. Em 1-1-1938, com 38 anos, foi internado no Hospital Miguel Bombarda. Aí faleceu, em 27-3-1969, após 31 anos de internamento. Começou a desenhar já depois dos 60 anos. Grande parte da sua obra perdeu-se. Permanece o silêncio enquanto se filma, através de pequenas frestas que não revelam muito, o pátio circular do hospital onde os pacientes passam parte do dia – o vergel dos loucos. Verdadeiramente vertiginoso será imaginar o que terá sido o tecido dos 31 anos que Jaime Fernandes passou dentro daquele muro cuja circularidade (sem início nem fim) mais acentua a estranheza. Mas isto não é um documentário no sentido em que o é Júlio de Matos... Hospital ?, de José Carlos Marques, do mesmo ano da revolução (nada aconselhável a espectadores impressionáveis). Assim o não são Trás-os-Montes e Ana, antes reflectindo uma enorme necessidade (impossível de cumprir) de nos dar a mostrar o inefável.


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t e r c e i r o o u v i d o

próximo oriente

Hugo Pinto

Aplicação tópica “É como escolher de que forma vemos uma luz através de um prisma. Ou vemos os fragmentos da luz decomposta e de cada um dos raios no prisma, ou o inverso.” Dustin Wong não está numa aula de geometria descritiva a perorar sobre o efeito fragmentário desse sólido cujas bases são polígonos iguais e os lados são paralelogramos. Não. A pedido da editora Thrill Jockey, Dustin Wong está a usar um prisma como metáfora para explicar o método como compõe música usando diversos pedais (distorção, tonalidade, “loops”, “delay”, etc.), atribuindo diferentes cores e texturas à guitarra. “Uso os pedais como uma fábrica têxtil”, uma máquina de tear que entrelaça as linhas de guitarra e as melodias, criando uma espécie de “mille feuille”, as “mil folhas” que os Sonic Youth, de resto, até já usaram como título de um álbum – inspirado, de acordo com Thurston Moore, em “Leaves of Grass”, o poema de Walt Whitman, mas a que não podemos deixar de conotar as mil malhas de guitarra por que a banda é conhecida. Musicalmente, Dustin Wong e os Sonic Youth terão poucas (ou nenhumas) afinidades, mas nos discos deste sino-americano nascido no Havai e educado no Japão encontramos o mesmo tratamento da guitarra como campo de experimentação que os Sonic Youth exploram há décadas. Todavia, mais próximo (relativamente) da banda de Thurston Moore estavam os Ponytail, o quarteto enérgico de Baltimore dedicado ao “art rock” e ao “noise pop”, comparados com os Deerhoof e os Boredoms, no qual Dustin Wong alinhou. A aventura a quatro acabou em 2011. De lá para cá, Wong editou dois discos instrumentais a solo, mais um, este ano, em que colabora com a japonesa Takako Minekawa, em tempos lídima representante da cena musical de Tóquio que ficou conhecida para a posteridade como “shibuya-kei”, e que desapareceu dos radares durante 13 anos – até o seu nome aparecer na capa de “Toropical Circle” (sim, é mesmo assim que se escreve) ao lado de Dustin Wong. Resta dizer que Takako Minekawa foi, até há pouco tempo, casada com Cornelius. Não se sabe ao certo o que levou a japonesa que colaborou activamente com o ex-marido e os Buffalo Daughter, por exemplo, a regressar às lides ao fim de tanto tempo. À falta de uma justificação, aceitemos que Takako Minekawa encontrou em Dustin Wong a companhia ideal para reviver o prazer de tempos mais felizes – “Toropical Circle” tresanda a “shibuya-kei”, com a sua música leve e “naïve”, a jovialidade colorida e sonhadora, as referências “pop” de outros tempos e lugares. E, claro, com a voz de Takako Minekawa. Se em “Toropical Circle” resta menos e do

risco da experimentação dos discos a solo de Dustin Wong, a verdade é que a voz de Takako Minekawa reforça o sentido lúdico da música, o que, contudo, não chega para apagar a sensação de repetição de uma fórmula, faixa após faixa, em que as vocalizações etéreas vagueiam sob espirais de guitarra, justapostas entre camadas de “loops” de outros instrumentos que aparecem como que pela magia de “caixinhas de música” que vão sendo abertas. Mas em vez de nos convidarem para uma imersão descomplexada no interior de um caleidoscópio, as canções de “Toropical Circle” (que têm, quase todas, excelentes e sugestivos nomes como “Party on a Floating Cake”, “Windy Prism Room” ou “Swimming Between Parallel Times”) deixam-nos a fazer “snorkelling”, ou seja, deixam-nos em águas rasas, apenas servindo para vermos uns peixes estranhos sem nos incomodarmos muito com as profundezas. Bem se sabe que os vapores tropicais não pedem muito mais, mas, no mínimo, espera-se da “música da estação” um bálsamo qualquer contra a lassidão e o entorpecimento dos sentidos. Não que “Toropical Circle” faça mal; apenas que podia fazer melhor. “Oh well”. “Toropical Circle” Thrill Jockey / PLANCHA, 2013 Takako Minekawa / Dustin Wong

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Samuel L. Jackson “A escravatura era a coluna vertebral do nosso país”

Em “Django”, Samuel L. Jackson encarna um dos mais belos patifes da históÉ o actor mais rentável de todos os ria do cinema e rouba a maior parte das cenas aos seus camaradas. Encontempos (os seus filmes recolheram tro com o ator fetiche de Tarantino. Entrevista do site Backchich. a bela soma de... 7,4 mil milhões de dólares!) No correr dos anos, ele teve papéis em “Jurassic Park”, Bom dia, estou verdadeiramente encan“Die Hard”, “Star Wars”, “Iron tado de entrevistá-lo. Man”, “The Avengers”, “Shaft” e, Samuel L. Jackson : Encantado. evidentemente, na maior parte dos Fuma? filmes do seu amigo Quentin TaranS. L. J. : Oh, é um cigarro electrónico. Estou a tentar largar este hábito sujo há tino. No início de Janeiro, Samuel anos. Mas, enfim... Leroy Jackson – 64 anos, encarnaEntra na maior parte dos filmes de Tação da atitude cool, boina na caberantino, faz mesmo a voz off de “Unça, look de gentleman-camponês – glourious Basterds”. É porque faz cantar os seus diálogos como se fosse um rap? esteve em Paris com Tarantino e ouS. L. J. : Creio que ele acha isso, gostaria tros atores de “Django” para uma que achasse. Em todo o caso, gosto da forma como ele escreve, e ele gosta da forma jornada de promoção non-stop, como eu digo as réplicas. depois de Roma e antes de Berlim. Deve mesmo entrar em “Reservoir Estamos no muito chic hotel Bristol, Dogs”. e o Circo Tarantino está lá instalaS. L. J. : Sim, passei na audição. Lembra-se de Tim Roth que repete a sua história de do. Estão presentes QT, Sam Jackcães com um negro, pois bem, acho que son, Christoph Waltz, Jamie Foxx vou ter o papel desse tipo. Está combinado ente mim e Quentin. e Kerry Washington. Para cada talento, um assessor de imprensa, “Sou um filho da segregação” um publicista, um assistente, um Nasceu no Tennessee. maquilhador, amigos, ou seja, entre S. L. J. : Nasci em Washington e fui criado no Tennessee. 8 e 15 pessoas por vedeta. São 13 horas e o segundo andar do Bristol Sofreu com o racismo e conheceu a segregação. Que foi que sentiu ao actuar está em ebulição: tudo regulado, em “Django”? milimetricamente, por um exército de S. L. J. :Conheço muito bem o Sul e gosto dele. Tenho um bom conhecimento da esassessores de imprensa que mantêm cravatura. Os americanos esqueceram-se em ordem um bando de jornalistas que quando os cow-boys exterminavam os índios, a escravatura era a coluna vertebral nervosos. Tenho 15 minutos de face da economia do país, com as plantações a face com uma lenda. de algodão e tabaco, os campos de cana de açúcar. Era trabalho forçado com uma Primeira indiscrição, o actor mais maioria de negros mantidos prisioneiros rentável de todos os tempos é simpápor uma minoria de brancos. É o que mostra o nosso filme. Pergunta-se muitas vetico, afável e não hesita em sair do zes como os brancos puderam manter sob discurso promocional que nos é sero seu jugo os seus escravos, que estavam em maioria numérica. Simplesmente pelo vido habitualmente neste tipo de enterror e pela intimidação! Certas cenas de contros. Segunda indiscrição: Sam “Django” são terríveis: o chicote, os combates de morte, os cães, mas a realidade The Man fuma cigarros eletrónicos. era muito pior. Cortavam-se pés, mãos, Terceira indiscrição, tem o ritmo de dedos. Alinhavam as mulheres grávidas, escolhiam uma, esventravam-na e mataum rapper e a voz “swinga”.


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vam o bebé. O suficiente para provocar a vontade de revolta. E este horror perdurou. Sabe, eu cresci na época da segregação, sou um filho da segregação. Havia sítios onde se podia ir e outros que eram interditos, com placas a dizer “Só para Brancos”. No autocarro, na escola... S. L. J. : … Em todo o lado, era em todo o lado, mesmo na rua. Se olhávamos alguém de lado na rua, podias desaparecer, ser morto. Era a vida na América tal como a conheci. Como explica que Hollywood fale tão pouco da escravatura? S. L. J. : (em tom de enfado) A América pediu desculpa por ter massacrado os índios, mas nunca reabilitou a memória dos meus antepassados. Os americanos não gostam de falar nisso. Houve o Lincoln de Steven Spielberg que fala da política da escravatura e sei que o realizador Steve McQueen acaba de filmar “12 years a slave” (com Michael Fassbender e Brad Pitt), penso que será muito diferente de “Django”. Será interessante comparar os dois filmes. Foi o senhor que teve a ideia do aspecto do seu personagem?

S. L. J. : Trabalhei nisso durante um ano. Reflecti sobre o penteado, sobre a cor da pele... Fizemos testes filmados e houve horas de maquilhagem. Finalmente, chegámos a um compromisso e tinha uma hora e meia de maquilhagem de manhã, uma prótese macia, não muito difícil de suportar durante o dia. Foi um papel engraçado de interpretar? S. L. J. : Sim, realmente, Stephen é um excelente personagem.

“O meu personagem é um desgraçado de um colaborador” Olhando-o ao lado de Leonardo di Caprio, tive a impressão de ver a serpente Kaa no desenho animado “O Livro da Selva”, ou o conselheiro do rei em Robin dos Bosques versão Disney, uma outra serpente. S. L. J. : (brinca). Stephen é o homem atrás do trono. É ele que gere a plantação porque Calvin está demasiado ocupado com os seus combates de mandingos e o seu bordel. Quando o filme começa, a escravatura existe desde há 150 anos. O avô de Stephen e o seu pai ocuparam-se da fazenda Candie, o seu destino era continuar. Ele é o produto do meio

e ocupa-se de Calvin como de um filho. Quer gozar dos seus privilégios enquanto os seus semelhantes nos campos morrem de pancada. Stephen é um desgraçado de um colaborador, que utiliza a situação a seu favor e que queria que a escravatura perdurasse mais 150 anos. De facto, é ele o senhor, ele tem o poder. E vê Django este antigo escravo que chega a cavalo, armado de pistola, como uma ameaça. Sobretudo, não quer que os outros escravos aspirem a esta liberdade. No ecrã, rouba todas as cenas. S. L. J. : Não era a minha intenção! Tentei ser fiel ao meu personagem, talvez o negro mais ignóbil da Sétima Arte, tentei servi-lo o melhor possível. Quando Stephen e Calvin estão juntos, tinha a impressão de que eram um monstro de duas cabeças. Era agradável representar esse papel com Leo.

“Durante a escravatura, era a palavra negro que era usada” “Django” é um filme político? S. L. J. : Este filme não é de forma alguma um documentário sobre a escravatura, é divertimento. Mas há aspetos políticos. A política da escravatura é uma coisa de que os americanos não querem falar, que es-

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condem debaixo do tapete, e querem dar a entender que talvez não fosse assim tão grave... Houve uma controvérsia nos Estados Unidos a propósito do uso da palavra “negro” em “Django”. Os jornalistas e os conservadores não se revoltaram pelo horror da escravatura, mas sim por esta palavra. Confesso que não entendi. S. L. J. : Eu também não e, no entanto, vivo no país! Durante o período da escravatura, era a palavra usada, qual é então o problema? Em breve um filme com Nick Fury como vedeta? S. L. J. : Não sei, adoraria. Em todo o caso, verão em breve Fury em “Capitão América 2”. Já entrou em 150 filmes. Qual é o seu motor? S. L. J. : Gosto disso, é só (explode em riso). É um bom emprego. Você é jornalista. Todas as manhãs, levanta-se e escreve. Faço uma coisa parecida. Se posso representar todos os dias, fico feliz. É o que faço, é o que gosto mais. E, sabe, é um desgraçado de um bom emprego!


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o l h o s a o a l t o

gente sagrada

吕 洞 宾

José Simões Morais

Lü Dongbin

O Sonho de Uma vida

Abrimos aqui com um brinde à saúde dos leitores e que melhor lugar para homenagear os Imortais do que uma tasca, com um copo de vinho para nos elevar ao local de encontro. Voltando a olhar, apresenta-se-nos agora como um templo. Aquele ritual de boas-vindas feito com o copo como recipiente, que varia de tamanho consoante os lugares, cheio de álcool a rondar os 50°, bebido num trago por três vezes seguidas, abre as portas ao inconsciente. Há quem use uma chávena de chá para ajudar à reflexão, sempre oferecida à entrada pelo bem receber, mas esse líquido os Imortais usavam-no para entremear com o vinho, na função de procura. O momento expande-se e num salto se fazem quatrocentos anos. O Imortal Han Zhongli vivera durante a dinastia Han do Leste mas de novo sintonizado, deixa-se entrar no período da dinastia Tang, quando Lu Dongbin o encontra. Já foi feita referência na Gente Sagrada ao Imortal Lü Dongbin, cujo nome era Lü Yan e viveu nos finais do século VIII, durante a dinastia Tang, estando como terceiro na lista dos Cinco Ancestrais da Escola do Norte, ou Quanzhen Dao. Com o sonho de ser um Oficial Civil, candidatou-se aos Exames Imperiais e aprovado nos de Prefeitura (Jieshi), foi realizar os do Ministério (Shengshi), o que por duas vezes não conseguiu passar e por isso, deixou de pensar na alta carreira de Oficial Civil doutorado. Entregando-se a uma vida errante, como registam as diferentes versões da sua vida, sempre em farras pelas inúmeras lojas de vinho, foi certa vez, ao entrar numa tasca na parte Leste de Chang’an, que se encontrou com Han Zhongli. Actualmente esse local em Xian é o templo daoista conhecido por Palácio dos Oito Imortais. Lu Dongbin contava 64 anos e de novo vinha à capital, Chang’an, fazer os Exames Imperiais do Ministério. Como chegara com antecedência, foi a uma casa de vinho onde reparou estar alguém a escrever numa parede um poema. Ao ler, Lu Dongbin, como candidato aos exames imperiais, quis saber o nome da pessoa e dirigindo-se-lhe, congratulou-o pelo brilhante texto. Apresentando-se como Zhongli Quan,

mais conhecido por Senhor Yun Fang, pediu-lhe uma opinião por escrito e ao ler, gostou, dizendo estar imbuído no Dao. Com o ensejo de ter boa companhia, numa caminhada pelos arredores, Zhongli Quan convidou Lu Dongbin para se juntar, mas com a ideia do exame, este não lhe respondeu. Após realizados os exames imperiais e aprovado como Oficial Civil com o título de Jinshi, Lu Dongbin com a distinção de Zhuangyuan, o primeiro classificado, começou a exercer e mostrando-se brilhante e trabalhador, ascendeu a oficial dos primeiros graus. Tinha duas bonitas esposas, com muitos filhos e netos, todos com altos estudos e nessa vida se passaram 40 anos. Outros dez foram como primeiro-ministro, com os luxos e riquezas que o cargo lhe deu. Mas aos poucos começaram pequenos atritos, que em crescendo criaram problemas com o imperador e assim, iniciou a longa travessia pela amargura. Caído em desgraça é preso, perde todos os seus haveres e cargos, enquanto os familiares são dispersos por diferentes províncias. Ele parte para o degredo numa das fronteiras nos limites do país. É Inverno e segue de cavalo, só. Ao entrar na montanha é apanhado por uma tempestade de neve e sem lugar para onde ir, enregelado, começa a lamentar a miséria da sua vida. Está a esperança a desvanecer-se e preste... Acorda sobressaltado, ficando a olhar para Zhongli Quan, que lhe diz não ter a água do arroz sequer chegado a ferver. Compreende ter passado pelas brasas apenas um breve instante. Zhongli Quan sorrindo, aprontou: “-No momento, realizaste 50 anos. Não temos que ficar contentes com o que ganhamos, nem tristes com o que perdemos. A vida é um sonho”. Esta história conhecida por Sonho Painço Amarelo (HuangLiangMeng) foi escrita por Ma Zhiyuan durante a dinastia Yuan, sendo a tradução livre com pormenores inseridos de outras fontes. A imagem aqui apresentada da estátua de Lü Dongbin encontra-se no templo de Hong Kung, junto ao Kun Iam Tong, na Avenida Coronel Mesquita em Macau.


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l e t r a s s í n i c a s

Huai Nan Zi 淮南子

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O Livro dos Mestres de Huainan

Com o crescer dos dias, o yin e o yang se digladiam; a vida e a morte separam.

Do Estado e da Sociedade – 52 No início da primavera não se devem abater árvores, nem perturbar os ninhos; não se devem abater animais prenhes, nem se devem colher ovos de pássaros. A meio da primavera, as correntes e pântanos não devem ser drenados, nem secos os lagos. E as florestas de montanha não devem ser queimadas. Não se devem conduzir quaisquer projectos de monta que possam prejudicar a agricultura. No final da primavera, repara as barragens, abre canais e limpa as estradas. Não permitas que as amoreiras sejam cortadas. Promove as indústrias caseiras e certifica-te que todos esses produtos são da melhor qualidade. No início do verão, evita começar projectos que envolvam movimento de terras e não cortes as árvores de grande porte. Encoraja a agricultura e impede que os animais causem danos aos cereais. Colhe e guarda ervas medicinais. Ao meio do verão não queimes carvão e não faças corar tecidos ao sol. Mantêm abertas as vilas e cidades sem cobrar tarifas ou impostos sobre bens. Lembra-te dos viúvos e viúvas e ajuda-os a ultrapassar as suas perdas. Com o crescer dos dias, o yin e o yang se digladiam; a vida e a morte separam. Durante este período as pessoas cultas regulam a sua dieta e comportamento, tendo o cuidado de não serem demasiado activas, moderando-se nos prazeres sensuais e tomando refeições leves.

Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www. ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


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José Drummond

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