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ARTES, LETRAS E IDEIAS

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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nº 2761. NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

“Nunca maltratei a Lu, bati nelas algumas vezes, apenas para manifestar o meu carinho. Também te bati algumas vezes, mas tu estás aí, não me abandonaste

para lugar nenhum. A minha mãe sempre foi espancada pelo meu pai, mas nunca abandonou o lar. As mulheres antigas são melhores que as de hoje, que se espantam com um simples açoite (...) Transmito às mulheres a cultura da resignação e do silêncio, tal como aprendi da minha mãe. E a minha mãe aprendeu de sua mãe. Foi sempre assim desde tempos sem memória (...) “O meu Tony, ao lobolar cinco mulheres, subiu ao cimo do monte. Ele é a estrela que brilha no alto e como tal deve ser tratado. E tu, Rami, és a primeira. És o pilar desta família. Todas estas mulheres giram à tua volta e te devem obediência.

PAULINA CHIZIANE

Ordena-as”

A OUTRA VOZ DA LITERATURA MOÇAMBICANA


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I D E I A S F O R T E S

O FEMINISMO NEGRO DE

PAULINA CHIZIANE

Adelto Gonçalves

in Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana

Para João Craveirinha, pela amizade e pelos subsídios fornecidos para este ensaio.

I

Se a literatura escrita por mulheres já é um mundo diferente, abordado por ângulos que romancistas e contistas homens dificilmente vêem, imaginemos, então, o que pode ser o mundo visto por uma mulher africana, moçambicana, ainda mais se é governado por costumes e tradições que nos soam estranhos. Esse estranho e mágico mundo é o que oferece em seus livros Paulina Chiziane (1955), a primeira romancista negra de Moçambique. Diz-se aqui primeira romancista negra porque não seria correcto chamá-la de

SE A LITERATURA ESCRITA POR MULHERES JÁ É UM MUNDO DIFERENTE, ABORDADO POR ÂNGULOS QUE ROMANCISTAS E CONTISTAS HOMENS DIFICILMENTE VÊEM, IMAGINEMOS, ENTÃO, O QUE PODE SER O MUNDO VISTO POR UMA MULHER AFRICANA, MOÇAMBICANA, AINDA MAIS SE É GOVERNADO POR COSTUMES E TRADIÇÕES QUE NOS SOAM ESTRANHOS. ESSE ESTRANHO E MÁGICO MUNDO É O QUE OFERECE EM SEUS LIVROS PAULINA CHIZIANE (1955), A PRIMEIRA ROMANCISTA NEGRA DE MOÇAMBIQUE.

primeira escritora moçambicana, pois Lília Momplê (1935), nascida na Ilha de Moçambique, autora de livros de contos e de uma biografia, professora, funcionária da Unesco e ex-secretária-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, apareceu antes dela, já na época pós-independência. E é provável que haja outras moçambicanas autoras de livros. Acontece que Lília Momplê, descendente de macua, é mestiça, carregando sangue europeu nas veias. E, se o critério for o de uma suposta africanidade, Paulina seria a primeira negra escritora de Moçambique, mas definitivamente não é a primeira moçambicana escritora. É claro que estes “divisionismos cromáticos” não levam a nada, até porque ninguém seria mais ou menos moçambicano por causa da cor da pele. Seja como for, o que se sabe é que na sociedade moçambi-


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cana destes dias há duas versões para esta questão: uma para consumo interno (que nem todos são tão escuros) e outra para consumo externo (mais abrangente). Isto sem contar certos “paternalismos colonialistas” que levam escritores de Moçambique e Angola, com raízes mais europeias do que afrobanto, a encontrar melhor recepção na indústria editorial, além de maior divulgação pelos meios de comunicação da antiga metrópole e do Brasil. Ou será que é só por falta de informação ou coincidência que na universidade brasileira, durante encontros sobre literatura africana de expressão portuguesa, só se fala em Mia Couto (1955), José Eduardo Agualusa (1960) e Pepetela (1941)? Afinal, não se pode dizer que Paulina Chiziane seria desconhecida no Brasil. De Paulina, a Companhia das Letras, de São Paulo, em 2004, lançou o romance Niketche. Uma história de poligamia, que a Editorial Caminho, de Lisboa, publicou em 2002, enquanto os seus outros livros ainda aguardam a boa vontade de algum editor brasileiro. Nascida em Manjacaze, na província de Gaza, ao Sul de Moçambique, Paulina viveu no campo até os sete anos, quando se mudou para os subúrbios da cidade de Maputo, onde frequentou estudos superiores de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane, sem concluí-los. Nasceu numa família protestante onde se falavam as línguas chope e ronga. No campo falava a sua língua materna, o chope, e, quando se mudou para a cidade, teve de aprender o português na escola, enquanto era obrigada nas ruas a falar o ronga, a língua nativa de Maputo. “Sou chope, o meu pai era alfaiate de esquina, só depois arranjou uma barraca. A minha mãe sempre foi camponesa, às vezes ficava uma semana sem vir à casa, a tratar da machamba (plantação de mandioca)”. A voz da escritora moçambicana Paulina Chiziane é serena, mas o orgulho das origens é indisfarçável. Aprendeu a língua portuguesa na escola da missão católica. Aos 20 anos, cantou o hino da independência moçambicana, gritou contra o imperialismo e o colonialismo e, depois, com a guerra civil (19751992) que arrasou o país, desencantou-se. Por isso, os seus livros nem sempre falam directamente da guerra, mas de um país destruído, da miséria de seu povo, da superstição, dos rituais religiosos e da morte. Participou activamente da vida política de Moçambique como membro da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), na qual militou durante a juventude, tendo sido eleita nas primeiras eleições multipartidárias em 1994. Mas trocou a vida partidária para se dedicar à escrita, ao trabalho na Cruz Vermelha e à publicação das suas obras, provavelmente, desiludida com o machismo que ainda marca as relações políticas no país. 

II

No seu último livro, O alegre canto da perdiz (2008), além dessas questões que mar-

cam a secular submissão da mulher ao universo do homem em certas sociedades africanas, Paulina leva o leitor a confrontar-se também com a questão do reducionismo praticado por quem olha a África de fora e procura apresentar a sua História e sua Literatura como se o continente africano se tratasse de um só país, tal como denunciou a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (1977) no seu discurso contra o perigo de se ouvir e repetir uma história única, a dos vencedores. (ADICHIE, 2009). Como muito bem observa Nataniel Ngomane, doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Eduardo Mondlane, no posfácio que escreveu para este livro, Paulina, se não é a primeira, com certeza, é a voz que mais alto se eleva hoje para recuperar temas “esquecidos” por aqueles autores africanos de expressão portuguesa cujas raízes remontam ao colonialismo - ainda que sejam críticos ou tenham lutado contra o colonialismo -, ao aflorar temas como o racismo, a assimilação, a subjugação de valores africanos aos valores europeus, a poligamia, as relações de subserviência não só no lar, mas entre nações e grupos étnicos. Como o fizera em Balada de amor ao vento (1990), o seu livro de estreia, com Sarnau, em  Ventos do apocalipse  (1999), com Minosse e Wusheni, em O sétimo juramento (2000), com Vera, e em Niketche (2002), com Rami, mulheres que vão à luta, em O alegre canto da perdiz, Paulina apresenta Serafina, Delfina, Maria das Dores e Maria Jacinta, uma geração de avó, filha e netas, personagens metonímicas que se desdobram e mostram os conflitos da sociedade na Zambézia, província moçambicana do Centro-Norte, onde a autora vive há largos anos. A metáfora unificadora deste livro está em que a Zambézia seria o centro do cosmos, com os Montes Namuli como o ventre do mundo ou o berço da Humanidade. E isso vem oportunamente ao encontro de uma investigação genética mundial hoje em curso denominada “The Genographic Project”, da revista National Geographic, em parceria com a IBM, que aponta que a espécie humana saiu de um tronco comum africano e que o que existe hoje no mundo - e que, no passado, chamávamos de “raças” - são variantes de uma marca genética comum. Dessa forma, os actuais moçambicanos, independentemente de que nação sejam, segundo essas pesquisas, seriam do haplogrupo L0 do tipo mtDNA ( mt de linhagem mitocondrial), que teria surgi-

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Serão “paternalismos colonialistas” que levam escritores de Moçambique e Angola, com raízes mais europeias do que afrobanto, a encontrar melhor recepção na indústria editorial, além de maior divulgação pelos meios de comunicação da antiga metrópole e do Brasil? Ou será que é só por falta de informação ou coincidência que na universidade brasileira, durante encontros sobre literatura africana de expressão portuguesa, só se fala em Mia Couto, José Eduardo Agualusa e Pepetela?

do há cerca de 100 mil anos na África Oriental, expandindo-se para o Oeste e o Sul e mesmo para fora de África. Surpreendente é o facto detectado de que partilhamos uma linhagem comum, ou seja, não seriam necessários mais que 20 mil anos para que africanos mais escuros e de olhos pretos se tornassem europeus nórdicos muito mais claros e de olhos azuis e vice-versa. “Toda a raça humana é mestiça de cruzamentos híbridos muito antigos”. (CRAVEIRINHA, 2005, pp.103-104). A partir da reconstrução desse mito - que, agora, começa a ganhar bases científicas -, Paulina reconstitui também o mito da

origem matricial do mundo. E por quê a Zambézia? É que essa é a região africana em que se deu com maior intensidade a miscigenação, a ponto de ser conhecida como o Brasil da África. Ao revisitar os mitos da origem matricial, Paulina repete o que o antropólogo cubano Fernando Ortiz (1881-1969), com base nas ideias do antropólogo polaco Bronislaw Malinowski (1884-1942), batizou de transculturação, vocábulo que mais bem expressa as diferentes fases do processo transitório de uma cultura para outra, pois esta não consiste em apenas adquirir uma distinta cultura, que a rigor é o que o termo anglo-americano accul-


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turation significa com toda a soberba de quem o cunhou, mas o processo implica necessariamente a perda de uma cultura precedente, ou seja, uma parcial desculturação, e significa a criação de novos fenômenos culturais (ORTIZ, 1973, pp.134-135). Noutras palavras: não há aculturados, no sentido da perda de uma cultura própria substituída pela do colonizador (e no sentido africano o colonizador aqui não é só europeu, mas refere-se também a povos africanos e outros que colonizaram e subjugaram povos africanos, vendendo-os aos traficantes europeus). É o que se pode compreender melhor nas palavras do escritor peruano José María Arguedas (1911-1969), igualmente antropólogo: “Não sou um aculturado: sou um peruano que orgulhosamente, como um demónio feliz, fala em cristão e em índio, em espanhol e em quechua”. (ARGUEDAS, 1975, p.282). O drama da África passa exactamente pelo que outros povos fizeram dela, o que não significa que se o continente tivesse continuado isolado, teria tido um futuro melhor. Um drama que Paulina soube como ninguém resumir nestas linhas de O alegre canto da perdiz:  “As mães gostam de dar aos filhos nomes de fantasia. Nomes de passageiros, de vagabundos. Os negros converteram-se. E começaram a chamar-se Sofia, Zainabo, Zulfa, Amade, Mussá. E tornaram-se escravos. Vieram os marinheiros da cruz e da espada. Outros negros converteram-se. Começaram a chamar-se José, Francisco, António, Moisés. Todas as mulheres se chamaram Marias. E continuaram escravos. Os negros que foram vendidos ficaram a chamar-se Charles, Mary, Georges, Christian, Joseph, Charlotte, Johnson. Baptizaram-se. E continuaram escravos. Um dia virão outros profetas com as bandeiras vermelhas e doutrinas messiânicas. Deificarão o comunismo, Marx, marxismo, Lénine, leninismo. Diabolizarão o capitalismo e o Ocidente. Os negros começarão a chamar-se Iva, Ivanova, Ivanda, Tania, Kasparov, Tereskova, Nadia, Nadioska. E continuarão escravos. Depois virão pessoas de todo o mundo com dinheiro no bolso para doar aos pobres em nome do desenvolvimento. E os negros chamar-se-ão Sofia, Karen, Tânia, Tatiana, Sheila. Receberão dinheiro deles e continuarão escravos”. (CHIZIANE, 2008, pp.156-157).

III

Paulina recusa o rótulo de romancista, definindo-se apenas como contadora de histórias, inspirada naquilo que ouviu, quando criança e adolescente, da boca dos mais velhos à volta da fogueira. É o que faz em seu romance  Niketche,  nome que define uma dança de iniciação sexual feminina da Zambézia e de Nampula, no Norte do país, região predominantemente macua, onde está a Ilha de Moçambique, primeira capital das possessões portuguesas da África Oriental e local de desterro do poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-

Lobolo é o dote que o homem dá à mulher ao casar, mas lobolar aqui serve também para definir o acto de quem sustenta um lar. Ao conhecer as suas rivais, Rami vai entrar em contato com séculos de tradição e de costumes, a crueldade da vida e também com a diversidade de mundos e culturas que convivem em Moçambique. É difícil entender estes pensamentos sem conhecer a dimensão da tragédia africana. Em país de poucos homens - milhares morreram na guerra, muitos ficaram mutilados, outros tantos emigraram -, as mulheres, aparentemente, aceitam dividir os seus maridos umas com as outras, embora a poligamia venha de tempos já perdidos, quando os cultores do Islão desceram a África e disseminaram as suas crenças e costumes. Nalguns lugares de Moçambique, como na província de Gaza, é comum que a mulher atenda ao chamado do marido de imediato, largando tudo o que está a fazer. Mais: quando o marido chama, ela não pode responder de pé. (CHIZIANE, 2002, p. 128). Também é difícil entender esta conversa sobre violência na família em que o imaturo Tony, fruto típico de uma sociedade patriarcal (CORREA, 2004), justifica a sua condição de polígamo: “Nunca maltratei a Lu, bati nelas algumas vezes, apenas para manifestar o meu carinho. Também te bati algumas vezes, mas tu estás aí, não me abandonaste para lugar nenhum. A minha mãe sempre foi espancada pelo meu pai, mas nunca abandonou o lar. As mulheres antigas são melhores que as de hoje, que se espantam com um simples açoite (...)”. (CHIZIANE, 2002, pp.282-283). Ou entender o conformismo de Rami: “(...) Transmito às mulheres a cultura da resignação e do silêncio, tal como aprendi da minha mãe. E a minha mãe aprendeu de sua mãe. Foi sempre assim desde tempos sem memória (...). (CHIZIANE, 2002, p. 254). 1810), por onde passaram também em épocas diversas os poetas Luís de Camões (c.1524-1580) e Manuel Maria de Barbosa do Bocage (1765-1805). É de lembrar ainda que na Zambézia, de que fala Chiziane, nas décadas de 30 a 50, ainda praticava-se o muhito que era uma cerimónia da puberdade feminina da região dos lomués (alguns deles, entre  1800 a 1840, foram levados para Santa Catarina e São Paulo como escravos), que  etnolinguisticamente pertencem ao grupo dos macuas que também foram levados para o Brasil e espalhados da Bahia a Montevidéu, ao final do século XVIII, ápice do comércio negreiro na Ilha de Moçambique em direção ao Sul da América.  Essa cerimónia antiga, o  muhito, consistia em  preparar a  jovem mulher  para  servir o homem (macho alfa) em plenitude quer no prazer sexual quer na alimentação. O romance conta a história de amor entre Rami, mulher do Sul e de nível social superior à da imensa maioria das mulheres do país, e Tony, alto funcio-

nário da polícia em Maputo. Casada há vinte anos de papel passado e aliança no dedo e mãe de muitos filhos, Rami, desprezada pelo marido, desconfia de aventuras extraconjugais de Tony. Então, descobre que o marido tem mais quatro mulheres e muitos filhos. Vai à casa de cada uma das rivais, às vezes discute com elas, mas, no final das contas, trava amizade com todas a ponto de, em certo dia, reuni-las em sua casa para fazer uma festa-surpresa ao marido. A iniciativa, porém, desperta a ira da sogra de Rami, para quem a monogamia é um sistema desumano que marginaliza uma parte das mulheres, privilegiando outras, “que dá tecto, amor e pertença a umas crianças, rejeitando outras, que pululam pelas ruas”. Diz a sogra: “O meu Tony, ao lobolar cinco mulheres, subiu ao cimo do monte. Ele é a estrela que brilha no alto e como tal deve ser tratado. E tu, Rami, és a primeira. És o pilar desta família. Todas estas mulheres giram à tua volta e te devem obediência. Ordena-as”. (CHIZIANE, 2002, p. 125).

IV

Para as seguidoras de Simone de Beauvoir (1908-1986) e Flora Tristán (18031844), tudo isto, certamente, parece estranho, mas é a forma que Paulina encontrou de denunciar o sofrimento das mulheres africanas, subvertendo os valores tradicionais. Isso não significa que partilhe integralmente dos valores das feministas brancas. A dita civilização branca já levou tanto sofrimento à África que qualquer ideia, mesmo emoldurada por valores humanitários, sempre é recebida com desconfiança. E não poderia ser diferente. O trágico é que o grito de Paulina, dificilmente, será ouvido ou compartilhado pelas mulheres de Moçambique, pois os escritores africanos escrevem para o leitor branco de fora de seus países que pode comprar seus livros, já que, em razão dos altos índices de analfabetismo e dos baixos níveis socioeconómicos, as tiragens nos países africanos de língua portuguesa são ínfimas, o que não significa que em Portugal e no Brasil sejam muito superiores. Em Balada de amor ao vento (1990), o seu pri-


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meiro romance, Paulina recupera as histórias dos rongas e dos chopes, que ouviu em sua infância, quando ficava a escutar a avó contar casos ao pé da fogueira. Os rongas, o povo do Sol Nascente, chegaram à região de Maputo há mais de 700 anos, procedentes dos Grandes Lagos. O povo chope veio da província de Gaza e da província de Inhambane, falando línguas bantu, da família Niger-Congo. Essas populações já estavam à beira da baía de Maputo quando os portugueses chegaram em 1502 à Terra dos Mpfumos (Grande Maputo), com o navegador Luís Fernandes à frente, numa caravela perdida de um comboio que seguia rumo à Índia (CRAVEIRINHA, 2002, p. 20). As duas línguas que compõem este grupo são o XiChope, falado principalmente nos distritos de Inharrime e Zavala e no posto administrativo de Chidenguele, e o biTonga, falado na cidade de Inhambane e nos distritos de Maxixe e Jangamo. Estas são as origens de Paulina. Uma das histórias de sua gente é a de Sarnau, a jovem que descobriu que amava Mwando, um rapaz que estava encaminhado para ser padre. Como o namoro não prosperava, cada um vai para um lado e Sarnau acaba virando uma das mulheres do rei das terras de Mambone. Paulina conta a história desse relacionamento, da juventude à idade madura, as suas alegrias e sofrimentos, até a separação dolorosa e o reencontro. Mas, antes de tudo, trata do conflito vivido por uma moçambicana entre o mundo moderno e o mundo tradicional, a África arcaica, seus valores eminentemente machistas em que a mulher só existe para servir ao homem e constituir seu objeto de desejo. Depois de casada e bem casada, Sarnau vê Mwando reaparecer e vive outro romance. Perseguidos, acabam de novo por se separar. Mwando, depois de se envolver com a mulher de um cipaio (soldado), foi deportado para Angola, onde passou quinze anos a plantar cana e café. Um filho de Sarnau, gerado por Mwando enquanto ela era rainha, acaba coroado rei, depois da morte do presumível pai, enquanto a mãe é obrigada a cumprir um destino de prostituição para sobreviver. Este é um livro feminista, mas feminista à maneira africana: não é uma obra que desafie o estatuto da mulher africana ou moçambicana. Aliás, usar termos como africana e moçambicana é correr o risco das generalizações. No próprio Moçambique, há flagrantes diferenças: o Norte é uma região matriarcal, onde as mulheres têm mais liberdade, enquanto o Sul e o Centro são regiões patriarcais, extremamente machistas. E a narrativa de Balada de amor ao vento ocorre em Gaza, a mais machista de Moçambique, onde a mulher, além de cozinhar e lavar, para servir uma refeição ao marido tem de fazê-lo de joelhos.

V

Portanto, este livro traz o olhar do feminismo negro, que é diferente do feminismo branco, porque muito mais trágico. Ou alguém duvida que a mulher negra sempre foi muito mais oprimida

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Mulheres moçambicanas da província de Gaza

e massacrada que a branca, que vive do suor de seu próprio rosto há muito mais tempo, que responde por sua própria família desde épocas imemoriais, embora fuja à luz da razão discutir gradações de violência? Basta ler  Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII, de Luciano Figueiredo, para se perceber que o papel da mulher - e, mais ainda, da mulher negra - sempre foi esquecido nos livros de História do Brasil, como se a colonização e a ocupação do território tivessem resultado apenas da acção do homem (FIGUEIREDO, 1997, p.16). E que teriam sido raras as mulheres europeias que emigraram para o Brasil e para a América hispânica, até porque nos séculos XVI, XVII e ainda XVIII havia muitas restrições à presença feminina a bordo de embarcações. E, portanto, foram indígenas as mulheres que acolheram o afecto não só dos primeiros colonizadores como de tantos outros que continuaram a chegar ao Novo Mundo, bem como o fizeram as africanas e as miscigenadas, anos mais tarde, constituindo uniões consensuais e o concubinato, práticas contra as quais de pouco valia o pífio combate moralizante empreendido pela Igreja. Foi dessa população mestiça que nasceu, inclusive, a elite económica brasileira que nunca foi branca, embora sempre tenha procurado se passar por tal. Por isso, as poucas mulheres idealizadas

pela nossa poesia arcádica oitocentista, como Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, e Bárbara Eliodora, de Alvarenga Peixoto (1744-1793), só foram incensadas pelo Romantismo do século XIX porque eram brancas, enquanto a negra Francisca Arcângela Cardoso, que deu quatro filhos ao mavioso Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e lhe inspirou vários poemas, está esquecida até hoje. Tal como em África a mulher negra na América também procurou as suas próprias estratégias de sobrevivência, desempenhou papéis económicos, criou os filhos e protagonizou muitas histórias - que, com certeza, estão à espera do talento de uma Paulina Chiziane brasileira para contá-las como se conta histórias à beira da fogueira e seguir uma tradição iniciada pela maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), a primeira romancista negra do Brasil.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARGUEDAS, José María. El zorro de arriba y el zorro de abajo. Buenos Aires: Losada, 1975. CABAÇO, José Luís.  Moçambique: identidades, colonialismo e libertação. São Paulo: Unesp São Paulo, 2009. CHIZIANE, Paulina.  Balada de amor ao vento. Lisboa: Caminho, 2003.

________________.  Niketche. Uma história de poligamia. Lisboa: Caminho, 2002. ________________.  O alegre canto da perdiz. Lisboa: Caminho, 2008. ________________. O sétimo juramento. Lisboa: Caminho, 2000. ________________.  Ventos do apocalipse. Lisboa: Caminho, 1999. CRAVEIRINHA, João.  Jezebela: o charme indiscreto dos quarenta. Crónica de uma mulher. Lisboa: Universitária Editora, 2005. ________________.  Moçambique: feitiços, cobras e lagartos. Lisboa: Texto Editora, 2002. FIGUEIREDO, Luciano.  Barrocas famílias: vida familiar em Minas Gerais no século XVIII.  São Paulo: Editora Hucitec, 1997. OESTERS, Christoph.  Figuras do Outro: identidades pós-coloniais no romance moçambicano contemporâneo. Tese de doutorado. Universidade Utrecht, Holanda, 2005. ORTIZ, Fernando.  Contrapunteo cubano del tabaco y el azúcar. Barcelona: Editorial Ariel, 1973. RAMA, Ángel.  Transculturación narrativa en América Latina. Cidade do México: Siglo Veintiuno Editores, 1985. Meios eletrônicos: ADICHIE, Chimamanda, 2009. The danger of a single story. Discurso na Universidade de Oxford, Inglaterra, em julho de 2009.www.ted.com/talks/ lang/por_br/chimamanda_adichie_the_danger_ of_a_single_story.html. Acesso em: 17abr2010>.  CORREA, Eloisa Porto, 2004. “A  trajetória descendente do amante viciado, tirano, sádico e manipulador em Niketche de Paulina Chiziane”. Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos.Acesso em: 17abr2010.


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ERNESTO CARDENAL

PELA REVOLUÇÃO Antonio Astorga

MUNDIAL

ABC.es

ERNESTO CARDENAL, poeta nicaraguense da revolução sandinista, o teólogo da libertação, cientista, místico, o monge trapista do mosteiro de Gethsemani, recebeu, emocionado, das mãos de Sua Majestade a Rainha Sofia Prêmio XXI poesia latino-americana no Palácio Real. Honrado, com a sua boina preta e impenitente casaco branco, o poeta revolucionário agradeceu ao Património Nacional e à Universidade de Salamanca “de terem decidido conceder este prémio honrosísimo sem ter muito mérito (alguns com mais mérito agora poderiam estar aqui em vez de mim), e a Sua Majestade a Rainha Sofia, em cujo nome se outorga este prémio. Que a poesia seja promovida por uma rainha é algo que outros governantes deveriam imitar. “ Ernesto Cardenal glosou o significado especial para si deste prémio, “Sofia que na língua materna de Sua Majestade significa Sabedoria e é uma figura muito misteriosa e muito atraente da Bíblia. Ela fala de si mesma no Livro de Provérbios, dizendo que Deus já a tinha antes da criação. E antes que houvesse grandes mares, antes de brotarem rios e nascentes, antes de se terem formado as colinas e as montanhas, ela brincava com a criação e estava feliz entre os homens. A tradição cristã tem interpretado esta figura da Bíblia como um atributo de Deus, como Deus na sua criação e também como Cristo, Sabedoria de Deus, e a Palavra criadora de Deus. Neste caso, creio que é como dizer que Sofia é a poesia de Deus “.

“QUE A POESIA SEJA PROMOVIDA POR UMA RAINHA É ALGO QUE SE DEVE IMITAR”

Poesia – para o poeta a quem o Papa João Paulo II ralhou em 1979, no aeroporto de Manágua, por propagar doutrinas apóstatas – é a pessoa amada: “A poesia é o amor. E a poesia é a amada que uma pessoa ama, e tudo o que alguém ama e que te ama. A poesia é tudo, incluindo o Criador de tudo. A poesia é Deus.” Continua o autor de

“Falas com teu telemóvel e falas e falas e ris no teu telemóvel sem saber como foi feito e menos como funciona mas que importa isso grave é que tu não sabes como eu não sabia que muitos morrem no Congo milhares e milhares por esse telemóvel morrem no Congo... Nas suas montanhas há coltan* (além de ouro e diamantes) usados para os condensadores dos telemóveis pelo controlo dos minérios corporações multinacionais fazem esta guerra sem fim 5 milhões de mortes em 15 anos e não querem que se saiba... “ *minério raro, cujo nome resulta da fusão de columbite e tantalite, fundamental para o fabrico de telemóveis.

“ Hidrogénio enamorado”, a antologia com que honra o Prémio Rainha Sofia: “A poesia, que também tem sido a linguagem de Deus, foi a primeira língua da humanidade, e até hoje continua a ser a comunicação humana mais eficaz. Nos povos cuja civilização é ainda primitiva todos são poetas. ‘Todo o índio é um poeta em potência”, diz Day Grave. Entre os tuaregues de África todos fazem versos, e o mesmo se passa em muitas tribos indígenas nos Estados Unidos. Na Grécia antiga, tudo foi escrito em verso, até mesmo as leis. De acordo com uma antiga tradição islâmica, Adão no paraíso falava em verso. Há poucos dias, acompanhado de uma calorosa saudação, escrevia-me o meu amigo, o grande Bispo brasileiro Pedro Casaldáliga: “Quem tem medo tendo a Páscoa?”. Isto também nos ensina Sofia, a Sabedoria e a Poesia de Deus “.

FALTA A “REVOLUÇÃO MUNDIAL”

Ao poeta, por excelência revolucionário, foi perguntado que revolução falta ainda. Respondeu: “A poesia social, o protesto, a rebelião e a insurreição são muito necessárias. Resta fazer a revolução mundial, que é inevitável. Um outro mundo, uma outra igreja, um outro Deus é possível. “ Ernesto Cardenal, poeta, historiador, místico, antropólogo, cientista, revolucionário, leu este seu poema seu, “O Telemóvel”, para ilustrar de que linhas se cose a sua poesia: “T. S. Eliot disse que às vezes a grandeza de uma obra literária é devida a razões extra-literárias. Não sei se a minha tem grandeza, mas tem uma pequena grandeza: os temas da minha poesia têm sido em favor dos oprimidos e dos pobres, a teologia da libertação, ou melhor, a teologia da revolução, a minha poesia é dedicada a eles. “ Para Cardeal, a exploração infantil denunciada no poema “manteve-se em segredo, e o meu poema foi o primeiro a denunciar este crime oculto”.

CARDENAL ENFRENTOU A CÚRIA E JOÃO PAULO II ADMOESTOU-O

O poeta nicaraguense era um monge trapista, no mosteiro de Gethsemani,


Kentucky, sob os auspícios do seu mestre, o poeta e místico Thomas Merton. Depois da sua ordenação, em Manágua, em 1965, fundou a comunidade contemplativa de Solentiname. Mais tarde, lutaria pela transformação política do seu país, enfrentando a ditadura de Somoza e acompanhando o triunfo da Frente Sandinista de Libertação Popular em 18 de julho de 1979, e depois de entrar clandestinamente no país no dia seguinte era Ministro da Cultura Governo de Reconstrução Nacional até 1987. Cardenal enfrentou a cúria e essas divergências são exemplificadas pela chegada de João Paulo II ao aeroporto de Manágua em Março de 1983. Cardenal estava com outros membros do governo sandinista e o papa, em frente às câmaras de televisão, admoestou e repreendeu o poeta por propagar doutrinas apóstatas. Em 1985, o Vaticano suspendeu-o “a divinis”, impedindo-o de exercer o seu ministério sacerdotal.

Cardenal estava com outros membros do governo sandinista e o papa, em frente às câmaras de televisão, admoestou e repreendeu o poeta por propagar doutrinas apóstatas. Em 1985, o Vaticano suspendeu-o “a divinis”, impedindo-o de exercer o seu ministério sacerdotal. Quais são as iluminações da sua vida? Cardenal responde: “Deus mas deu. Deus faz-me escrever. Parte da minha união com Ele é que Deus faz de mim um escritor, e é necessário quando é melhor o silêncio e a palavra. “ Ao poeta revolucionário por excelência pergunta-se se existe qualquer revolução pendente, e ele responde: “Agora os problemas são tão grandes que a poesia social, o protesto, a rebelião e a insurreição são muito necessárias. Desde Homero, desde a Bíblia, que há poesia de protesto, e hoje o mundo é tão ruim, tão feio, porque está mais capitalista, e o capitalismo selvagem é um fracasso retumbante. Resta fazer a revolução mundial, que é inevitável. Um outro mundo, uma outra igreja, outro Deus é possível. Tudo o que significa também a palavra revolução. “

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SUZHOU E A ELOQUÊNCIA NO PIN

José Simões Morais SUZHOU, CONHECIDA como a cidade do Grande Canal e dos jardins, foi a par com Hangzhou, considerado um dos paraísos sobre a Terra. Referenciada pelos mais de mil jardins que teve, conta actualmente com nove que lhe perpetuam essa fama. Estes estavam inseridos nas casas residenciais de pintores, escritores, oficiais reformados e abastados comerciantes e neles os arquitectos deram largas à sua criatividade. Mas, desta vez, não foi para visitar os jardins que viemos a Suzhou.

Antes de entrar pela cidade, subimos ao pagode Norte para a percebermos. Plana, é uma urbe que se estende e como limites para Leste vemos uma barreira de novos prédios a contrastar com a arquitectura de casas térreas, ou no máximo de três andares, que para a nossa frente se perde de vista. Caminhando para o coração da cidade, passamos pelo mercado das flores e, reorientando-nos pelos quarteirões, voltamos à rua Renmin, o eixo da cidade. Fora da tranquilidade do resto da cidade, o som da rua pedonal de Guanqian mas-

sacra quem por aí passa, numa mistura de diferentes músicas, uma por cada loja de vestuário, a berrar das colunas de som colocadas à porta. O negócio das castanhas assadas em pequenas betoneiras é um furor, com filas intermináveis nas lojas que também por toda a cidade as vendem. Similares multidões encontram-se nas famosas lojas de produtos locais, como as que vendem os artesanais rebuçados e biscoitos. A meio da rua abre-se uma praça e encontramo-nos perante o templo do Mistério (Xuanmiaoguan), edificado no ano de 276

sobre as ruínas do palácio do rei Helu. Foi um dos maiores e mais importantes templos daoistas da China, com 31 pavilhões, apesar de actualmente se apresentar apenas com três, sendo de visitar o pavilhão dos Três Puros Fiéis. No aberto recinto do templo sentamo-nos, envoltos num som de rua com aromas e fumos emanados das espetadas nas grelhas a carvão. Continuando a passear, decidimos ir à procura do Museu de Ópera de Kunju. Após passar por uma ponte, com um resguardo feito casa, para atravessar um pequeno canal, damos conta de um ajuntamento de


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bicicletas e triciclos estacionados à frente de um antigo e elegante edifício. Pela sua arquitectura e esculturas deixa transparecer a alma do que ali se narra mas, numa espreitadela, é-nos revelada uma casa de chá. Não pode ser o Museu de Ópera de Kunju, que deve estar mais à frente. Pouco mais, é verdade, mas ainda aí não chegamos. Logo à porta, numa das paredes laterais, como cenário, prateleiras com cafeteiras e por detrás da enorme peça de madeira trabalhada, que serve de tapa entrada (conhecida em mandarim por 屏门 ping men), uma

senhora num balcão vende bilhetes. Por quatro Yuan entramos, primeiro para um pátio onde, ao fundo, com as portadas todas abertas, se mostra uma sala com pouca luz. Esculturas de bronze confundem-se com as silhuetas de figuras, na maioria idosas, que

conversam. Com os olhos já habituados à pouca luminosidade, entregam-nos um copo e arranjam-nos uma cadeira na sala de chá. Pouco tempo depois, ficamos a saber faltar vinte minutos para começar o espectáculo. A audiência está em conversas anima-

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das e com as cadeiras dispostas, não para as mesas, mas para o palco. Na espera vão-se servindo da água quente do termos para o seu chá e trincando pevides e descascadas pequenas nozes muito polidas. Após um longo momento criado pelo som de badaladas, o orador, com a sua longa cambaia de mangas largas, espera num canto do palco para entrar. As luzes das lanternas apagam-se, ficando intensas as do palco. O actor posiciona-se por detrás de uma mesa, com um pano amarelo onde está pousado um instrumento musical denominado sanxian (xianzi), de três cordas, com um longo braço e uma pequena caixa. A eloquência das suas palavras, os gestos das mãos, onde um leque aparece para dar o toque na mesa como afirmação ou, finalizar de assunto e logo outro tema percorre pela oralidade do som até que, sente necessidade de ritmar as ondas que vai provocando e, faz vibrar as três cordas do xianzi. Declamando, entoa com uma paz e temperança os sons de caracteres, com que muitas vezes brinca pelas semelhanças e complementaridades. Noutras vezes mostra-se teatralmente zangado e como que irritado mascara a brusquidão, como para acordar as pessoas que, embrulhadas pelos pensamentos dos significados que tais sons lhes contam, de repente voltam à realidade. Aqueles três toques com o leque no tampo da mesa dão a pausa para mudar de assunto. O espectáculo de Pingtan dura hora e meia, com o único declamador a puxar em eloquência as tensões e interjeições, com uma graça pelo meio das histórias, intervaladas com o tocar um instrumento de cordas para usar o canto ou afinar a voz. A posição das mãos e o raro uso de abanar o leque dão a cada gesto uma significação. Por vezes, faz uso da imitação e desdobra a voz. Esta forma de espectáculo desde a dinastia Tang era muito popular em Yangzhou, situada também na província de Jiangsu. Aí evoluiu, mas só nos finais da dinastia Qing que apareceu em Suzhou. Denominada Pingtan, serviu para fazer crítica e por isso, foi desprezada por muita da classe alta da cidade de Yangzhou. Ainda a magicar com as ideias que nos ficaram deste espectáculo, esquecemo-nos do primeiro objectivo que era ir ao Museu da Ópera Kun e sem dele nos lembrarmos, voltamos para Oeste até à rua Pingjiang, uma perpendicular à rua dos teatros. Pingjiang foi um dos antigos nomes por que era conhecida Suzhou. Ao longo dessa rua, um canal que nos lembra ser esta cidade atravessada e rodeada por canais, ligados ao Grande Canal. Estudantes e professor passam para o papel de desenho, ou para a tela, a paisagem de antigas casas com as suas esquinas envoltas em árvores e o recorte do barqueiro que, no abanar do remo pela popa, conduz o barco entre os estreitos arcos das pontes do canal.


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10 perspectivas Jorge Rodrigues Simão

URGE RESTAURAR O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE “The world economy as a whole is undergoing a period of slowdown. The growth rates for the United States, Europe, and Japan at the center of the system have been sliding for decades. In the first decade of this century these countries experienced the slowest growth rates since the 19305; and the opening years of the second decade look no better. Stagnation is the word that economists use for this phenomenon. In human terms it means declining real wages, massive unemployment, a public sector facing extreme budget crises, growing inequality and a general and sometimes sharp decline in the quality of life. It produces all sorts of social and political crises, and these crises and their consequences will likely be the defining events of the coming generation.” The Endless Crisis: How Monopoly-Finance Capital Produces Stagnation and Upheaval from the USA to China John Bellamy Foster and Robert W. W. McChesney

O VELHO e credenciado princípio que afirma que o poder é a capacidade de definir a situação, isto é, de impor pela força, e a manipulação ou argumentação, o relato a respeito do que sucede e está em jogo, então poderia descrever-se o actual momento europeu, como a tentativa de impor um discurso invulgar, articulado em torno dos particularismos nacionais que são o centro contra periferia, o sul contra norte, a austeridade de uns Estados-membros face ao esbanjar de outros. Esse discurso tem a particularidade de em muitas ocasiões, os Estados-membros mais atingidos pela crise, colaborarem, mantendo o modelo e investindo na partilha de papeis entre bons e maus. A crise do euro teve como consequência mostrar as debilidades que se tinham configurado à volta de certos objetivos compartilhados e que parecia recuperar-se face a receios igualmente compartidos. A sintonia veio a revelar-se frágil e acaba por ceder ao forte discurso e vontade de alguns Estados-membros. A cacofonia intergovernamental da governança europeia, impede os Estados-membros da Europa do Sul de perceberem a reciprocidade dos deveres que os vinculam, tal como os benefícios que obtiveram por força dessa vida comum. As divergências de interesses converteram-se em discursos contrapostos e, o que é mais grave, estabilizaram assimetrias de poder. A actual renacionalização da política europeia mostra até que ponto alguns Estados-membros foram incapazes de interiorizar a sua mútua interdependência, à qual devem muitos benefícios, mas também, algumas obrigações. A crise institucional da União Europeia (UE) não terá solução, se não for mudado o discurso e a forma de agir, de modo a convencer todos os Estados-membros de que não são autónomos, mas interdependentes e portanto obrigados à cooperação. Os Estados-membros que vivem a crise de forma mais intensa sabiam o que fazer com os benefícios, mas não criaram nenhum mecanismo para responsabilizar ou segurar os riscos. A UE não tem estruturas para resolver as crises porque o processo de uma maior integração está unicamente desenhado para repartir os benefícios. Era de prever que uma maior integração proporcionaria ganhos para todos.

A maior exigência de justiça que aparecia no horizonte do possível era que quem ganhasse ou tivesse mais, redistribuísse parte dos seus ganhos. O caso mais evidente é a cláusula que ao proibir a ajuda aos países com problemas de dívida, vem a considerar de facto a União Monetária, como uma comunidade na qual todos os Estados-membros podem aumentar as suas oportunidades económicas, mas proibe compartilhar os riscos que lhe estão associados. O déficit não pode ser resolvido pela comitologia ou pela governança participativa; requer uma forte ideia de justiça, um conceito de responsabilidade complexa, colocando os Estados-membros num inédito horizonte de repolitização. Os Estados-membross, pelo menos os que sofrem mais os efeitos da crise, tinham adotado decisões na base de uma identificação incontrovertível dos benefícios que recebiam, e no presente confrontam-se com alternativas que implicam uma competição política em torno de valores discutíveis, ou que supõem algum género de redistribuição. É terminado o recreio da política sem alternativas, as decisões sem responsabilidade e a justiça sem inconvenientes. Sem solidariedade, qualquer decisão é para uns uma imposição e para outros uma transferência. Sem instrumentos para a deter, a tormentosa crise da UE continua a avançar, com o aumento diário de desempregados e cuja situação está longe de inverter esse ciclo, fazendo que mais de cento e vinte milhões de europeus, ou seja, um em cada quatro, está em risco de cair na pobreza. As nefastas perspectivas, e sua gestão por parte dos vinte e sete Estados-membros da UE, preocupam pelo menos teoricamente os líderes comunitários, que têm solicitado uma actuação imediata sob pena de a situação poder ser irreversível. Se não existir um limite máximo nas políticas de austeridade que alguns Estados-membros implementaram para fazer face à recessão, a Comissão Europeia seria obrigada a tomar medidas duras, para sair do ciclo do desemprego, ainda que, se desconheçam quais sejam. As políticas de austeridade são impostas pelo executivo comunitário, quer aos Estados-membros intervencionados pela “troika”, composta pelo Banco Central Europeu (BCE), Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional (FMI), como são a Irlanda, Grécia e Portugal, quer aos não intervencionados, como por exemplo, Espanha e Itália. O presidente da Comissão Europeia defende que existem limites e que nem todos os esforços que estão a ser feitos são socialmente aceitáveis. Seria salutar que a Comissão Europeia os criasse e fizesse os Estados-membros respeitar, dado o caos e a confusão governativa existente no desejo único de cumprir metas estabelecidas de forma apressada e contraditória, que estão a destruir as economias e o tecido social de alguns Estados-membros, a bem do equílibrio de um déficit estabelecido teoricamente nos Tratados Constitucionais da UE e nunca testado em momentos de crise, que vêm de encontro ao dito a 24 de Dezembro de 2012,

pelo ex-presidente da Comissão Europeia de 1985 a 1994, Jacques Delors, de que se tornava necessário modificar o tratado europeu para garantir a sobrevivência da UE. Afirmou ainda que a solidariedade passa por um abandono da soberania no que concerne à gestão da moeda única, à harmonização fiscal e tributária, ao esforço de coesão no seio da zona euro. A UE deixará efectivamente de existir no projecto sonhado e ambicionado se os Tratados não forem revistos. As decisões no âmbito das políticas económicas têm de ser tomadas de forma cautelosa e sensata, que considerem os seus efeitos sociais, tal como consta das conclusões da “Cimeira Europeia contra a Pobreza” que se realizou em Bruxelas, no ínicio do mês, entre as organizações sociais e os representantes comunitários. É cada dia mais evidente que a “Estratégia Europa 2020”, lançada pela Comissão Europeia a 3 de Março de 2010, para assegurar a saída da crise e preparar a economia da UE para a próxima década, que identificou três vectores fundamentais de crescimento que deverão orientar as acções concretas, tanto a nível comunitário, como nacional, que são o crescimento inteligente (promover o conhecimento, a inovação, a educação e a sociedade digital); o crescimento sustentável (tornar o aparelho produtivo mais eficiente em termos de recursos, ao mesmo tempo que se reforça a competitividade) e o crescimento inclusivo (aumento da taxa de participação no mercado de trabalho, aquisição de qualificações e luta contra a pobreza, reduzindo-a em vinte milhões até 2020) está a facassar. Todos os dias cada vez mais pessoas entram em situação de exclusão social, sofrendo sérias privações materiais. A taxa de desemprego na Gécia, em Outubro, foi de 26 por cento, tendo a sua economia entrado no sexto ano de recessão, fortemente atingida pelas medidas de austeridade impostas pela “troika”. A taxa de desemprego na Espanha, no mesmo período, foi de 26,2 por cento, a de Portugal de 16,3 por cento, a da Irlanda de 14,8 por cento, a da Itália de 10,8 por cento e a da “Zona euro” de 11,7 por cento. O desemprego juvenil foi de quase 24 por cento, em Outubro, na “Zona euro”. A Grécia apresentou uma taxa de 57 por cento, que foi a maior da UE, a Espanha, com 55,9 por cento e Portugal, com 39,1 por cento. O presidente do Conselho Europeu, o presidente da Comissão Europeia e a vice-presidente do Parlamento Europeu, perante tais dados, têm apelado à responsabilidade dos Estados-membros para que invistam mais nas políticas sociais de forma a resolverem esta grave situação, que não é tão fácil como afirmam e que chega tarde. Os Estados-membros devem estimular o “Fundo Social Europeu”, defendendo a Comissão Europeia que um mínimo de 25 por cento do orçamento da política de coesão, seja destinado a combater o desemprego e 20 por cento, seja empregue na luta pela inclusão social. A Comissão Europeia pediu aos Estados-membros que apoiassem outros projectos

como o do fundo europeu para ajudar os mais desfavorecidos, proposta que foi apresentada em Outubro, e que reservassem um montante de 2,5 mil milhões de euros no âmbito do novo quadro plurianual financeiro de 2014 a 2020, ou seja, no montante de cerca de 360 milhões de euros anuais. O novo fundo tem como objectivo proporcionar uma ajuda aos mais carenciados, sendo uma demonstracção de solidariedade para com os mais atingidos pela crise, destinando-se a manter a continuidade do programa de ajuda alimentar, que durante vinte anos, tem sido executado através dos excedentes de produtos pagos no âmbito de uma intervenção da Política Agrícola Comum (PAC), que será descontinuada no final do próximo ano. Todavia, os orçamentos em fase final de elaboração não permitem ainda, implementar o fundo para financiar a compra de alimentos às pessoas mais necessitadas, bem como roupas e outros bens essenciais às crianças desabrigadas e materialmente privadas, tais como sapatos, roupas e sabão. Existem actualmente quarenta milhões de pessoas que sofrem de carências alimentares e mais de quatro milhões de sem-abrigo na UE. A gestão das intervenções em cada Estado-membro será da responsabilidade de organizações não governamentais, com experiência nesse campo A proposta prevê que os Estados-membros sejam responsáveis por 15 por cento dos custos dos programas nacionais, e os restantes 85 por cento serão suportados pelo fundo. O Reino Unido parece dirigir-se de forma imparável para um referendo sobre a sua permanência na UE. As sondagens assinalam que quase 70 por cento dos ingleses apoiaria a consulta, e mais de metade votaria a favor da saída do Reino Unido, sendo apenas 29 por cento a favor da permanência na UE. Muitas outras razões a que esta se soma, fazem que o Reino Unido e alguns outros Estados-membros sejam contrários ao aumento da sua contribuição, ainda que seja para projectos que tenham por fim acabar com a pobreza. A decisão está por tomar e ver-se-á no momento adequado qual o grau de compromisso dos Estados-membros. É preocupante, porque no momento que a UE mais necessita de investimentos para lutar contra a exclusão social, existe o pensamento maioritário que defende a redução do orçamento, que é um instrumento fundamental para fazer face a este tipo de problemas.


T E R C E I R O O U V I D O

próximo oriente Os Estados-membros devem manter os serviços sociais e as redes de segurança social, tendo em consideração que as taxas de desemprego em geral, e as de desemprego juvenil em especial, aumentaram de forma alarmante, em alguns Estados-membros, sobretudo em Espanha, que segundo o “Eurostat” revela mais de seis milhões de desempregados, não sendo possível, nem permitido esburacar o tecido social que dá resposta às necessidades de uma população cada vez mais vulnerável. Os cidadãos europeus, pela primeira vez em vários séculos pensam no futuro com muito receio, devido à incompetência de governantes mal preparados e à falta de autênticos líderes europeus. Os Estados-membros da Europa do Sul vivem uma situação de verdadeira emergência social, e não deve ser permitido que se desmorone o modelo de inclusão social existente. As medidas de austeridade extrema, e o corte nos fundos destinados às políticas sociais, previdência social ou educação conduzem tão só, ao aumento da pobreza. A situação é complexa, mas deve continuar-se a manter a despesa social. As políticas de austeridade levam ao desmantelamento do Estado de bem-estar. A riqueza tem de ser repartida de forma mais equitativa. O objectivo não pode ser socializar as perdas e privatizar os benefícios, pois não é possível que os que não têm para viver sejam os responsáveis pelas perdas, sendo os últimos a suportar os prejuízos resultantes das fragilidade ou debilidades da União Económica e Monetária (UEM). A pobreza só pode ser resolvida com maior investimento em proteção social e com planos para fomentar o emprego, sobretudo o de qualidade, dando prioridade ao desemprego juvenil. O emprego é a forma mais eficaz de manter as pessoas protegidas contra a pobreza, mas infelizmente o emprego nem sempre é uma garantia de não ser pobre, ainda que, em alguns casos se trate de a ocultar. A pobreza afecta todos os Estados-membros da UE e está a atingir níveis intoleráveis. Mas nem as recomendações, nem as boas intenções dos líderes comunitários parece ter o efeito de diminuir a situação alarmante que se vive na UE. O actual quadro quiça possa melhorar se os conselhos e directrizes comunitários forem vinculativos para os Estados-membros, o que implicaria uma outra natureza na unidade política da UE. A “Plataforma Europeia contra a Pobreza e a Exclusão Social”, define as medidas para atingir a meta da UE até 2020, prevendo reduzir em, pelo menos, vinte milhões as pessoas em situação de pobreza e exclusão social. Lançada em 2010, a plataforma faz parte da “Estratégia Europa 2020” para um crescimento inteligente, sustentável e inclusivo. A crise económica aprofundou as desigualdades entre os Estados-membros da UE, e agora que a pobreza açoita uns mais que outros, alguns dos mais ricos não estão dispostos a contribuir mais, para esse fundo solidário que beneficiaria os países da Europa do Sul, como a Grécia, Portugal, Espanha ou Itália, que são os que se encontram em pior situação. A “Plataforma Social”, só funcionará se os Estados-membros forem vinculados por uma directiva comunitária que consagre um mínimo de investimento garantido aos programas sociais. Feliz e próspero 2013

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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

Hugo Pinto

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MÚSICA INDUSTRIAL: NÃO É O FIM DO MUNDO No passado dia 21 de Dezembro, a data que pôs o mundo a pensar no fim, o vídeo que dá pelo nome de “PSY - GANGNAM STYLE M/V” tornou-se no mais visto de sempre do Youtube, ultrapassando a espantosa marca de mil milhões de visualizações. Desde esse dia, e até à hora em que escrevo estas linhas, a contagem cresceu mais de 53 milhões de vezes. Assim por alto, a cada minuto que passa, o vídeo sul-coreano é visto mais de quatro mil vezes. Este sucesso, que tem tanto de estrondoso como de enigmático (aparentemente, uma boa fatia da população mundial, ao contrário do que nos faziam crer, tem os ouvidos bem abertos para o que, ainda assim, podemos chamar de “weird music”, cantada numa língua que apenas uma minoria percebe), dirá algumas coisas sobre o planeta que habitamos e levantará algumas questões. Uma, de acordo com o excelente ‘site’ The Quietus, interpela-nos: “Será que 2012 vai ficar na história da música como o ano em que o resto do mundo, finalmente, percebeu que a melhor música Pop é feita actualmente na Coreia do Sul?” Na verdade, parece ter sido nos últimos doze meses que o mundo, o ocidental em particular, descobriu a chamada “K-Pop”. Na Ásia, contudo, os países vizinhos da Coreia do Sul, sobretudo a China e o Japão, andam há pelo menos uma década entretidos com a “Hallyu Wave” (a “Onda Coreana”). Aqui ao lado, em Hong Kong (e por arrastão em Macau), 2012 fica especialmente marcado como o ano do ressurgimento (devido ao fenómeno Psy, sem dúvida) do fascínio em torno da cultura e entretenimento de origem sul-coreana, depois de, nos últimos dez anos, essa relação amorosa ter sido feita de altos e baixos. Nos últimos meses, alguns dos maiores nomes da “K-Pop” estiveram em Hong

Kong (Yoon-A, das populares Girls’ Generation, Big Bang, T-ara, 2AM, ZE:A, f(x), e, claro, o inevitável Psy, que se deu também ao trabalho de uma brevíssima e custosa passagem por Macau), e o território vizinho haveria mesmo de ser escolhido como palco da edição deste ano do Mnet Asian Music Awards (MAMA), a maior cerimónia da indústria musical na Ásia. Em 2010, ano em que o festival criado em 1999 saiu pela primeira vez de solo coreano, o MAMA realizou-se em Macau e, no ano seguinte, rumou a Singapura. O facto de o festival rodar em digressão demonstra o forte compromisso da organização e da indústria musical sul-coreana em fazer a “Hallyu Wave” continuar a avançar pela Ásia e, de caminho, preparar a invasão global. Prova também que, nisto tudo, há um método. No artigo publicado no The Quietus, Robert Barry lembra a certa altura que a Coreia do Sul é um país que, em termos económicos, é dominado pelo sector da alta tecnologia. “Um país onde uma coisa chamada ‘vício da Internet’ é uma desordem psiquiátrica reconhecida que afectará cerca de 80 por cento da população.” Nota ainda o autor que “a música Pop costuma ser melhor quanto mais reflectir os processos de produção do tempo em que se insere.” Temos assim, a título de exemplo, que, em Detroit, “a Motown deu-nos o som dos interfaces homens-máquinas ‘fordianos’ que habitavam as fábricas de automóveis”; depois, o Techno, “o som dessas mesmas fábricas a substituírem os humanos por computadores”. Na Coreia do Sul, “talvez a K-Pop seja a expressão sónica do processo de produção de uma nova economia virtual, fazendo a ligação entre a alta finança e a indústria electrónica de consumo”.

Este tipo de linguagem que nos remete tanto para as linhas de produção em série como para o universo da realidade virtual parece, efectivamente, o mais adequado para abordar o fenómeno da “Onda Coreana” (que, além da música, inclui também cinema, séries de televisão e vídeo-jogos, entre outra parafernália). De acordo com os relatos de agentes da indústria “K-Pop”, nas (muitas) histórias de sucesso nada acontece por acaso. Antes de serem apresentados ao mundo, os “ídolos coreanos” são sujeitos a intensos treinos de voz e dança, nunca esquecendo o visual infimamente trabalhado ao detalhe e até que, muitas vezes, os aspectos originais fiquem irreconhecíveis. Os planos estratégicos de longo prazo passam, também, por meticulosas campanhas de ‘marketing’ que têm, hoje, uma poderosa ferramenta nas redes sociais. Tudo isto se aplica a qualquer indústria musical digna desse nome, mas os coreanos são minuciosos como poucos: para chegarem directamente aos fãs chineses, por exemplo, os artistas sul-coreanos criam contas no ‘site’ Weibo (o equivalente de “microblogging” na China), e as actuações são talhadas especificamente para cada cidade (o que inclui versões de temas populares locais, entre outros mimos). E a música? Nada de diferente do que pulula nas televisões, rádios e Internet ocidentais. Como sintetiza Robert Barry: “Uma música que persegue uma certa sensação de aceleração: simplificada, comprimida, eficiente, apropriando-se de elementos já presentes em abundância na Pop americana e no R&B.” Um mundo calculado e vivido ao segundo, porque, como dita a velha máxima capitalista, tempo é dinheiro. (continua)


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O C I D E N T E O R I E N T E

IRÃO E ISRAEL

A dupla face dos media e do Conselho de Segurança da ONU Rui Pedro Fonseca In Resistir.info

À SEMELHANÇA do que aconteceu em relação ao Iraque com as mentiras fabricadas de que Saddam Hussein possuía instalações com armas de destruição maciça; que não queria deixar entrar os inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA); de que o ditador teria sido corresponsável pelos ataques às torres gémeas; a imprensa e os círculos de opinião de referência internacionais e portugueses têm vindo a intensificar o enredo de suspensão e de medo em torno das populações ocidentais em relação ao Irão. Se atentarmos às palavras-chave de Obama proferidas na conferência da AIPAC [1] , a 4 de Março de 2012, notamos que estas aglutinam um padrão de ideias-chave, de discursos que vêm sendo reproduzidos constantemente pela imprensa nacional e internacional, partilhados por círculos de opinião, que têm diabolizado o Irão e legitimado sanções económicas, acusações e ameaças de intervenção militar (dos Estados Unidos e Israel) que têm vindo a aumentar cada vez mais de intensidade: “ameaçam varrer Israel do mapa”; “apoiam grupos terroristas empenhados na destruição de Israel”; “terrorismo”; “programa nuclear do Irão”; “ameaça”; as “armas mais perigosas do mundo”; “armas nucleares”; “Irão não cumpre as suas obrigações”; “regime iraniano”; “caminho que os vai levar a uma série de consequências se eles não cumprirem” [2] Os círculos de formação de opinião veiculam actualmente o Irão como o perigo número 1 para a ordem mundial, e importa dissecar e compreender o alcance destas expressões alusivas às “ameaças” iranianas:  

“VARRER ISRAEL DO MAPA”

A verdadeira versão do que disse Ahmadinejad - “Este regime que ocupa Jerusalém deve ser eliminado das páginas da história” - aparentemente foi eliminada da face do planeta da imprensa de referência e resta a inquestionada e repetida mentira do que Ahmadinejad nunca disse: que “Israel deve ser varrido do mapa”. A citação verdadeira de Ahmadinejad, já assumida pelo próprio, fez referência à mudança de regime em Israel que das palavras passa às ações de, com os tanques e buldozeres da Caterpillar, apagar do mapa inteiras aldeias de Palestina, de matar e/ou expulsar os seus moradores para construir colonatos. Ainda assim, as práticas de Israel não são dignas de sanções nem da atenção da generalidade dos/as comentadores/as e agências noticiosas. Tal como aconteceu com o Iraque a partir de 2001, o Irão é mencionado pela impren-

Israel e aliados passam incólumes a críticas dos seus não cumprimentos da lei internacional e são constantemente representados como vítimas, paladinos dos bons valores e guardiões da segurança global. sa de referência (incluindo a portuguesa) como um “regime perigoso” para o Ocidente porque as reservas de energia nuclear estão a ser utilizadas para fins militares. O primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu continua a pressionar os Estados Unidos para, provavelmente em aliança, actuarem militarmente. É uma das vozes mais acusatórias de que o Irão possui instalações que têm como objectivo a produção de armas nucleares: “Continua, sem interferência, a obter capacidade de produzir armas nucleares e, portanto, bombas nucleares” e há que colocar uma linha vermelha (red line) no programa nuclear iraniano: “Esperar por quê? Esperar até quando?” [3] Diz ainda Netanyahu: “É inaceitável que um país que viola de forma flagrante as resoluções do Conselho de Segurança e da AIEA (...) possa beneficiar dos frutos da energia nuclear” [4]

As diabolizações de Israel e EUA em relação ao Irão no que diz respeito à energia nuclear dividem-se em duas ordens de questões, que não são controversas, e que importa serem esclarecidas: (1) a legitimidade que o Irão tem em produzir energia nuclear e (2) os relatórios da AIAE. 1. O Irão tem toda a legitimidade em produzir energia nuclear para fins pacíficos. Dentro dos termos do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TPN), de acordo com o artigo IV, todos signatários, incluindo o Irão que o assinou em 1969, tal como os Estados Unidos e outros países signatários, têm todo o direito em desenvolver energia nuclear para fins civis, portanto para fins pacíficos. Dentro tratado de não proliferação a energia nuclear é, então, um óbvio direito de qualquer país. Todos os Estados que assinaram o TPN têm o dever de cumprir com o artigo IV.1 que declara:

“Nada neste tratado deve ser interpretado como algo que afete o direito inalienável de todas as Partes do Tratado desenvolverem pesquisa, produção e uso de energia nuclear para fins pacíficos sem discriminação e em conformidade com os artigos I e II deste Tratado.” [5] Neste contexto, Israel, enquanto país não signatário do TNP, não tem qualquer direito legal a desenvolver energia nuclear sem a supervisão da AIEA. Adicionalmente, ao contrário do que fez o Irão e outros Estados da região, Israel nunca abriu as suas instalações aos inspectores da AIEA. As infracções de Israel neste âmbito, juntamente com o não escrutínio dos principais meios noticiosos, aumentam de gravidade a partir do momento em que existem inequívocas instalações de produção nuclear para fins militares em Dimona (Israel) tal como foram detalhadas pelo ex-técnico nuclear israelita Mordechai Vanunu (em 1986). Disse Vanuno, em 2005, a Eileen Fleming: “Nixon parou com as inspecções e concordou em ignorar a situação. Como resultado, Israel aumentou a produção. Em 1986, existiam mais de duzentas bombas. Hoje [2005], pode haver plutónio suficiente para produzir dez bombas por ano” [6] O sacrifício de Vanuno da sua própria liberdade em nome da verdade foi em vão porque as suas descobertas têm muito pouco retorno da imprensa e dos círculos de opinião ocidentais. O “estatuto” de Israel de produtor de armamento nuclear nem sequer é ambíguo, ou especulativo (como pelos vistos é no caso do Irão). É reconhecido internacionalmente e desde cedo logo após a constituição de Israel enquanto Estado que, por David Ben-Gurion, instituiu um programa de armamento nuclear, em meados da década de 1950, como parte da sua “política activa de defesa” [7] . Para além de no passado terem vendido clandestinamente armas nucleares à África do Sul, mesmo neste ano de 2012, Israel vendeu mísseis nucleares à Alemanha para armar submarinos cujos oficiais alemães, como Hans Rühle, chegaram a admitir a dimensão nuclear da transação designada de “Operação Samson”: “Eu assumi desde o início que os submarinos teriam capacidade nuclear.” [8] As cerca de 200 bombas nucleares que Israel detinha em 1986, aumentando para um número actual situado entre 300 a 400, não tiveram nem têm o mediatismo, nem mereceram, ou merecem, qualquer sanção do próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas. E qual a razão? Simplesmente porque Israel tem o apoio incondicional (militar, político, económico e diplomático) [9] dos Estados Unidos que armam e apoiam a aquisição e produção de armamento israelita que é utiliza-


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O C I D E N T E O R I E N T E

do, por exemplo, para cometer flagrantes atentados contra os direitos humanos na Palestina com o fim de “conquistar território pela guerra”. Adicionalmente, os Estados Unidos, Israel e aliados passam incólumes a críticas dos seus não cumprimentos da lei internacional e são constantemente representados como vítimas, paladinos dos bons valores e guardiões da segurança global.  

OS RELATÓRIOS DA AIEA

2. Ao contrário de Israel, o Irão permitiu que os inspetores da IAEA visitassem as instalações onde não foram encontradas quaisquer provas de desenvolvimento de energia atómica para fins militares. Os próprios serviços de inteligência dos EUA, como a CIA, também não encontraram provas que o Irão produz armamento nuclear. Mas quais são, afinal, os pontos críticos revelados no último relatório da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) de 31/Agosto/2012? No que diz respeito às “Actividades relacionadas com o Enriquecimento” o relatório confirma que “o Irão não suspendeu as suas actividades de enriquecimento (...) e todas estas actividades estão sob a supervisão da Agência, assim como todo o material nuclear, instalado em cascata e a alimentação e as estações de retirada/evacuação nessas instalações estão sujeitas à vigilância e confinamento.” [10] O documento assinala (na alínea 39) que o Irão poderá “eventualmente” continuar com as actividades cessadas em finais de 2003 para o “desenvolvimento de aparelhos nucleares explosivos” [11] . A capacidade de fabricar armamento militar nuclear é aplicável a qualquer país que produza energia nuclear e tenha alguma tecnologia. Por fim, o relatório afirma, inequivocamente, (na alínea 52.) que a AIEA admite não ter encontrado atividade de material nuclear para fins militares e que, “portanto, conclui que todo o material nuclear do Irão é para atividades pacíficas.” [12]  

A ASSOCIAÇÃO MEDIÁTICA DO IRÃO AO TERRORISMO E A VITIMIZAÇÃO DE ISRAEL

A outra grande ameaça veiculada por Obama, Netanyahu e seguidores/as é o apoio do Irão ao “terrorismo” [13] . De acordo com Obama e seguidores/as, o apoio do Irão é bipartido entre Hezbollah e Hamas. O “terrorismo” do Hezbollah é celebrado com um feriado a cada 25 de Maio no Líbano, e exalta a expulsão dos invasores israelitas do território libanês em 2000. Israelitas que, até então, durante 22 anos, haviam cometido terror e tortura permanecendo em flagrante violação das ordens do Conselho de Segurança das Nações Unidas e da lei internacional. O agora celebrado Dia de Libertação Libanês, proporcionado pelo Hezbollah, marca assim a expulsão dos ocupadores israelitas e a libertação do Líbano, sendo que os media e comentadores/as residentes invertem a realidade caracterizando os israelitas-ocupantes como agredidos, vítimas, e o grupo político/militar do Hezbollah como terrorista. O outro apoio do Irão ao “terrorismo inter-

nacional” é o Hamas - que se tornou numa séria ameaça (terrorista) quando os palestinianos cometeram o crime (em 2006) de votarem neste movimento no que viriam a ser as primeiras eleições a ocorrerem na Palestina. A imprensa de referência refere-se ao Hamas como uma das grandes forças terroristas a nível mundial por lançar de Gaza uns rockets artesanais que atingiram as fronteiras israelitas como reacção aos 7,700 rockets disparados (em Junho de 2006) pelas forças militares israelitas contra civis e alvos civis palestinianos [14] . Ainda que o massacre resultante da Operação Chumbo Fundido (2007/2008), levado a cabo por Israel com apoio militar e diplomático dos Estados Unidos, tenha originado a morte de mais 1600 civis palestinianos/as e 13 israelitas (4 mortos pelas próprias forças IDF), a destruição de alvos civis (escolas, hospitais, mesquitas, esquadras de polícia) - este não foi uma época de morte e sofrimento suficientemente digna para que a imprensa internacional de referência designasse Israel, ou os EUA apoiantes, como Estados terroristas que não respeitam a lei internacional e os direitos humanos. Ao contrário de Israel e Estados Unidos, o Irão não cometeu qualquer acto de terrorismo internacional pelo simples facto de não ameaçar, invadir e/ou atacar um país há mais de duzentos anos. Todavia, os círculos de opinião mencionam que é o Irãoo que devemos recear apesar de o Iraque ter sido destruído, tal como se determinou por nenhuma das razões anunciadas pelo governo de George Bush. Nem importa que o Irão esteja sob ameaça constante dos Estados Unidos e Israel, que violam o ponto 4. (do art. 2) da Carta das Nações Unidas: “Os [Estados] membros deverão abster-se nas suas relações internacionais de recorrer

EUA, o país mais fundamentalista da região do Médio Oriente); e é quase impercetível equivalendo a 2% da capacidade militar dos Estados Unidos [16] . O Irão chegou a ser aliado das grandes potências ocidentais quando (em 1953) os EUA e Grã-Bretanha derrubaram o governo legitimamente eleito e apoiaram o ditador Shah e os seus programas nucleares. Foi a partir de 1979, quando a população iraniana expulsou o ditador do poder, que os EUA têm vindo a tentar estrangular o Irão: tentaram o golpe militar, apoiaram militarmente Saddam Hussein (1980-88) na invasão ao Irão que matou centenas de milhares de pessoas, e, desde então, o Irão sofreu sanções por não aceitar ser cliente dos EUA e manter o seu “regime” democrático. A verdadeira ameaça do Irão é o seu peso no Médio Oriente como parceiro comercial de outros países, como a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha, a Rússia, a China, o Japão e a Coreia do Sul; a partir da década de 1990 com a Síria, a Índia, Cuba, Venezuela e a África do Sul, e que vem expandindo seus laços comerciais com a Turquia e o Paquistão. Os principais produtos de exportação são o petróleo, gás natural, produtos químicos e petroquímicos, mas também frutas, nozes e tapetes. O estatuto do Irão é representado, pela propaganda ocidental, como desestabilizador para a região; mas quando os Estados Unidos e aliados invadem e bombardeiam os países vizinhos - já são representados como os agentes que pretendem criar “estabilização”. O regime iraniano é hostilizado pelos EUA simplesmente porque não admitem que os iranianos controlem os seus recursos. Mas quando os governantes ditadores são clientes dos EUA [17], mesmo que bloqueiem o

O Irão não cometeu qualquer acto de terrorismo internacional pelo simples facto de não ameaçar, invadir e/ou atacar um país há mais de 200 anos. Todavia, os círculos de opinião mencionam que é o Irão que devemos recear. à ameaça ou ao uso da força, quer seja contra a integridade territorial ou a independência política de um Estado, quer seja de qualquer outro modo incompatível com os objectivos das Nações Unidas” [15] Manter as sanções económicas contra o Irão porque este tem tecnologia nuclear é não só hipócrita como também ilegal à luz do direito internacional, logo constitui-se como um crime. Mas estes dois países têm um estatuto especial porque não respondem perante direito internacional, pois os seus crimes não contam como tal.  

O ESTATUTO DE AMEAÇA DO IRÃO

Apesar do zumbido da propaganda, a ameaça do Irão não é militar. Quando comparada com o resto da região (inclusivamente com Israel) a capacidade militar do Irão é relativamente mais baixa; é praticamente metade do que gasta a Arábia Saudita (cliente dos

crescimento do próprio país, que oprimam as próprias populações, ou cometam atrocidades em série, passam geralmente despercebidos perante os media de referência. O facto dos media comentarem o Irão com tanta intensidade denota a básica assunção que os Estados Unidos, Israel e alguns aliados europeus têm o direito de utilizar as sanções económicas, que estrangulam as exportações iranianas, de ameaçar ou ainda invadir militarmente à revelia da lei internacional. Em suma, o que está em causa é uma intensa doutrinação mediática que tem vindo a proteger a agenda dos responsáveis imperialistas que prosseguem os seus planos de conquista sem serem responsabilizados por terrorismo e por diversos crimes internacionais pelas entidades competentes, que são reguladas pelos interesses dos que mais importam.

13

NOTAS [1] American Israel Public Affairs Committee, ou America’s pro-Israel lobby [2] Na conferência da AIPAC, a 4/Março/2012, “President Obama, Diplomacy still an option in Iran”, CNN,www.youtube.com/watch?v=ex-ie1UUKUg&feature=related [3] Benjamin Netanyahu, “Those that refuse to set Red lines for Iran; can’t give Israel Red light” (Sept 12,2012),www.youtube.com/watch?v=BZV-Ul9a5Kc&feature=related [4] Benjamin Netanyahu,  www.tvi24.iol.pt/internacional/nuclear-israel-irao-tvi24/1186238-4073. html [5] Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Versão do documento em inglês, assinado em Washington, Londres e Moscovo a 1 de Julho de 1968. Este documento foi ratificado a 5 de Março de 1970 e proclamado por Richad Nixon a 1970 http://www.fas.org/nuke/control/npt/text/npt2. htm [6] “Mordechai Vanunu, Whistle Blower on Israel’s Nuclear Weapons Program, Jailed Again” 23 May, 2010, - por Eileen Fleming, Countercurrents.org revolutionaryfrontlines.wordpress.com/... [7] Cf. The Nuclear Threat Initiative em www.nti. org/country-profiles/israel/nuclear/ [8] Israel’s Deployment of Nuclear Missiles on Subs from Germany, em Der Spiegel , 6/June 2012 www.spiegel.de/... [9] Por exemplo, isoladamente do resto do mundo, os EUA têm vetado indiscriminadamente as mais de 35 propostas de resolução sobre Israel e Palestina nas sessões anuais da Assembleia Geral das Nações Unidas. Os EUA continuam abertamente a apoiar a militarização, colonização israelense em “território palestiniano ocupado”. [10] Alinea 10 do documento Implementation of the NPT Safeguards agreement and relevant provision of Security Council resolutions in the Islamic Republic of Iran - Report by the Director General, 30 Agosto 2012 IAEA www.nytimes.com/... [11] Alinea 39, Idem [12] Alinea 52, Idem [13] Dentro de uma conceção imperialista, portanto desconexa da lei internacional, é que este é apenas cometido sempre pelos “outros”, e nunca pelas potências do ocidente. [14] Cf. Noam Chomsky, “U.S. Savage Imperialism The U.S. Empire, the Mideast, and the world” , part I 2010,www.zcommunications.org/u-s-savage-imperialism-by-noam-chomsky [15] Carta das Nações Unidas, Capítulo 1, nº 4 do art. 2: www.un.org/spanish/Depts/dpi/portugues/charter/chapter1.htm [16] List of countries by military expenditures: en.wikipedia.org/wiki/List_of_coun tries_by_

military_expenditures [17] Só para citar alguns exemplos da longa lista de ditadores apoiados pelos Estados Unidos: Gen. Ibrahim Babangida, Anwar El-Sadat, Hosni Mubaral, Pieter Willem Botha, Mohamed Suarto, Saparmirad Atayevich Niyazov, Syngman Rhee, Anastasio Somosa Garcia, Gen. Jose Efrain Rios Montt, Gen. Manuel Antonio Morena Noriega, Augusto Pinochet, Gerardo Machado Morales, Saddam Hussein, etc. Mais em tinfoilpalace.eamped.com/2011/01/29/dictators-supported-by-the-us/


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玉皇

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

YU HUANG

O IMPERADOR DE JADE

O MAIS importante deus, que superintende todos os outros no Céu do panteão daoista, é o Imperador de Jade, Yu Huang. No entanto, a sua imagem só foi criada na dinastia Tang para governar os deuses no Céu e servir de espelho para o povo respeitar os seus soberanos como mandatários desse poder na Terra. Mas, mesmo sem representação material, o culto ao Céu (Tian) já vinha de tempos ancestrais, encontrando-se referenciado na literatura como Imperador do Céu (Huangtian), ou simplesmente Céu (Tian). Quando na dinastia Qin (221–206 a.E.C.), o social passou a estar mais rigidamente estratificado, os poucos deuses até então existentes desdobraram-se e novos deuses apareceram. Todos os deuses encontravam-se subordinados ao Céu, a quem reportavam, tendo que lhe prestar contas e fazer relatórios do que se passava sobre as suas jurisdições. Já nas cerimónias aos deuses presididas pelos imperadores da dinastia Han do Leste, estes ofereciam sacrifícios apenas ao Imperador do Céu. Foi durante a dinastia Tang, seguidora do Daoismo, que a grande sistematização do divino ficou estruturada. No Céu apareceu o imperador de Jade (Yu Huang) e na Terra, o imperador tornou-se o representante do Céu aos olhos do povo. Era grande a devoção pela doutrina daoista dos imperadores Tang, tendo havido quem resignasse ou encurtasse o seu mandato do Céu, para se entregar à prática dessa filosofia. Nesse período apareceu uma História sobre um reino antigo em que o imperador, já de uma idade bastante avançada e por não ter filhos, apelou a Lao Zi para lhe arranjar um sucessor. Passado pouco tempo, a sua esposa sonhou com Lao Zi, que trazia uma criança ao colo, a entrar no seu corpo. Após a gravidez nasceu um rapaz que, envolto em luz, veio iluminar de contentamento todo o reino. Cresceu cultivando a bondade e o bom senso, com amor por todos os seres. Quando o imperador passou desta vida, tomou-lhe o lugar, mas por pouco tempo pois, após verificar estar o reino bem governado pelos seus súbditos, resignou ao cargo. Distribuiu todas as suas riquezas e retirou-se para a montanha. Praticando o Dao, tornou-se um profundo conhecedor da Natureza, atendendo as

pessoas aflitas que lhe pediam ajuda, tanto em matérias de saúde do corpo, como do espírito. Ao fim de milhões de anos atingiu a imortalidade de Buda e mais outros tantos milhões de anos, tornou-se a suprema divindade do Céu, o Imperador de Jade. Outra História conta estar o Céu num grande rebuliço andando os deuses em competição para ver qual iria superintender sobre todos os outros. Então, algumas divindades, que não se prestavam a esse estar e viviam pela harmonia da solidariedade, resolveram que para governar os três mundos (o Céu, a Terra e o Inferno) deveriam procurar nos outros mundos alguém com qualidades para tal cargo. Após vaguear por muitas regiões, onde a tirania dos reis constantemente mostrava o espírito individualista, de soberba e de crueldade com que governavam o povo, chegou o enviado dos deuses a uma pequena povoação onde a harmonia reinava. Querendo perceber as razões de haver uma diferença tão grande no estar daquela população, com as pessoas sempre bem-dispostas e alegres, disfarçado de mendigo, o enviado do Céu encontrou-se com o chefe da povoação, cujo apelido era Zhang. Submetendo-o a algumas provocações difíceis de suportar e desejos impossíveis de realizar, teve como retorno uma verdadeira atitude altruísta e sempre dada com um sorriso benevolente. Conquistado pela simplicidade e simpatia e admirando a obra de boa governação, o mensageiro revelou o que ali o trazia. Convidado a ir para o Céu ser o Deus dos deuses recusou, mas por fim foi forçado a aceitar. Com ele levou toda a família, as sete filhas e a sua esposa, que se tornou a Rainha Mãe do Oeste. Pouco tempo depois, já como governante dos três Mundos, colocou tudo e todos em harmonia, pois antes de tomar as resoluções, mostrando modéstia e prudência, sabia escutar as opiniões dos outros. Assim com a concordância de todos, os outros deuses decidiram aceitá-lo pela sua autoridade natural como Imperador do Céu. Inquebrável nas suas convicções, no bem governar pela ética, passou a ser denominado Imperador de Jade. O seu aniversário assinala-se no dia 9 da primeira Lua e em Macau encontramo-lo no templo do Bambual.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Não se deve confiar no talento humano como sendo necessariamente iluminado.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 29 O conhecimento que as pessoas têm das coisas é pouco profundo. No entanto, desejam que esse conhecimento ilumine toda a terra e tudo mantenha em mente. Se não dependerem da matemática dos princípios e usarem apenas a sua capacidade subjectiva, depressa chegarão a um impasse final. O conhecimento convencional não é suficiente para governar a terra. Um rei malévolo de outrora possuía uma força fenomenal; no mar matava tartarugas gigantes e, em terra, capturava ursos. O homem que o depôs tinha apenas uma força diminuta, mas, ainda assim, travou o rei malévolo e fez dele cativo. Isto mostra que, por si só, a virilidade não é suficiente para governar a terra. Dado que o conhecimento convencional é insuficiente para governar e a virilidade não basta para ser forte, não se deve confiar no talento humano como sendo necessariamente iluminado. Um soberano que não desce da parte superior do templo, mas perscruta para além dos quatro mares, é alguém que reconhece as coisas por meio das coisas e conhece o povo por meio do povo. Não há limite ao que o conhecimento acumulado é capaz de levantar. Tudo aquilo que é feito através do conhecimento de muitos sempre vinga. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


h - Suplemento do Hoje Macau #67  

Suplemento h - Parte integrante da edição de 28 de Dezembro de 2012

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