Page 1

h ARTES, LETRAS E IDEIAS

PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2736. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

UNIVERSIDADE

CORTE E COSTURA


16 11 2012

h 2

I D E I A S F O R T E S

A UNIVERSIDADE E OS CÓMICOS

Carlos Morais José

U

MA identidade nacional existe na realidade aos olhos dos estrangeiros que rapidamente classificam, de acordo com a sua memória normalmente recente, um indígena de um determinado país. Inevitavelmente, isso acontece. No caso português, somos perseguidos pelo futebol. E pouco mais. E no entanto... a excepção tem-me acontecido nos lugares mais inesperados (ou talvez não). Como por exemplo, no Café Roozegar, em Isfahan, onde me interrogaram sobre Fernando Pessoa e a tristeza que nos perpassa a sensibilidade. Mas isso é em países de poetas!... Em Portugal, propriamente dito, o governo entende que a universidade pública é, antes de mais, um factor de justiça social que não pode desaparecer, nem perder qualidade. E, claramente, parte da sua agenda passa pela extinção desses

factores que procuram equilibrar as desigualdades e permitir a qualquer indivíduo, independentemente da sua origem social, ter acesso ao saber universitário. Se, numa primeira abordagem, poderíamos crer estar unicamente perante uma mera manobra económica, cujo objectivo seria o enriquecimento de privados e a rarefacção do Estado, a verdade é que um segundo olhar detecta, por baixo do diáfano manto do mercado, um objectivo puramente político, que se prende com a perpetuação de linhagens e de clientelas, estreitando cada vez mais as portas da mobilidade social. No admirável mundo da agenda neo-liberal existem definitivamente os uns e os outros e, entre eles, um fosso permanentemente mais largo e mais profundo. O primeiro passo, a nível europeu, foi dado com Bolonha e os cursos de três anos. A desvalorização consequente do ensino universitário implicou a desvalorização social dos diplomas, vulgarizando os mestrados e mesmo os doutoramentos, funda-

mentais em quantidade para a existência dos estabelecimentos privados. A opção de nivelar por baixo, de diminuir o grau de exigência, é mais um passo no sentido de criar uma enorme massa de gente mal qualificada, disponível para um mercado de trabalho que raramente oferece espaço correspondente ao que se começou a estudar. O definhamento das universidades públicas em Portugal seria o segundo e fatal passo para garantir a tal desigualdade social. Como em alguns dos países que os nossos governantes admiram, o ensino de qualidade existe no privado, se bem que com substanciais ajudas do Estado em termos de investigação, sendo os estabelecimentos públicos – não as escolas onde se entra por mérito e onde existem os melhores professores – fábricas de canudos socialmente desvalorizados. Para piorar este cenário neo-realista, basta considerar que, ainda por cima, não existe em Portugal, para além da Universidade Católica, outro estabelecimento privado com prestígio e qualidade. Pelo

contrário, têm sido inúmeros os problemas e polémicas em volta das universidades privadas, o que lhes tem retirado credibilidade. Se o ensino público piorar, o país vê-se na contingência de nem sequer ter na privada algo que o consiga substituir. Como se pode constatar, as pretensões do governo, para além de deflagrarem naturais indignações entre os reitores, são cómicas. Neste processo de poda que, ao que parece, o país está votado, um inábil jardineiro corre o risco de cortar nas raízes e matar a planta, ao invés de eliminar as partes que lhe pesam nos ramos e não os permitem crescer. O Presidente da República não parece interessado nestes assuntos e assiste, com a sua enervante impassibilidade, ao esboroamento das coisas. A universidade pública é, por todas as razões e mais algumas, uma raiz fundamental do Portugal democrático que se desenvolveu após o 25 de Abril. Vamos estar atentos ao que dizem hoje os reitores...


N

UM momento particularmente difícil da vida nacional, as universidades entendem dirigir-se ao país através de uma Declaração conjunta, que foi distribuída à entrada desta sessão. É um gesto que vale como gesto, que vale como um momento de suspensão do tempo para dizermos, colectivamente, Assim, não, para explicarmos, colectivamente, que Amanhã já será tarde. A presença, na mesa, do Presidente do Conselho Geral e do Presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa revela a união da Academia neste dia de grande significado para todos nós. As universidades são instituições seculares, com um passado que se confunde com a própria existência da nação. Nas últimas décadas, têm sido bases fundamentais de uma sociedade que recusa o destino de um país desqualificado e periférico. Não podemos voltar atrás. O que se joga, hoje, não é um problema interno das universidades. É um problema de Portugal e dos portugueses. As universidades têm a herança do passado e têm a responsabilidade do futuro. Mas nada poderão fazer se ficarem sem presente. Não vou falar-vos, outra vez, da redução de 50% no financiamento público das universidades, desde 2006. Não vou falar-vos, outra vez, da diminuição de 30%, apenas nos últimos dois anos. Não vou falar-vos, outra vez, do desastre que seria mais um corte de 10% no próximo ano. Já ninguém suporta os números, nem as queixas, nem as lamentações. Já ninguém aguenta esta pátria “eterna mas perdida”, sem sequer sabermos se foi no passado ou no futuro onde a perdemos (Sophia de Mello Breyner). Mas nós estamos aqui e temos, mais do que nunca, um dever de presença. É difícil? Eu sei que é difícil, mas é agora que o país precisa de nós. A pergunta que devemos fazer não é sobre esse “enorme desvio [que existiria] entre aquilo que os portugueses acham que devem ser as funções sociais do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar”. Não, essa não é a pergunta. A nossa pergunta é outra: Será que os portugueses querem cortar nos sectores do conhecimento e da ciência onde se promove o que há de melhor na sociedade? Será que os portugueses estão dispostos a desperdiçar o investimento feito nas últimas décadas, resignando-se perante o regresso de uma sociedade da pobreza e da miséria, de um país sem ambição e sem futuro? É esta a nossa pergunta, porque sabemos que, em períodos de grande perturbação, é preciso manter o rumo. Sem objectivo, sem rumo, não há caminho. Andaremos aos círculos, cada vez mais extenuados, mas não sairemos do mesmo lugar. O que está em causa não são quaisquer prerrogativas ou privilégios internos às universidades. Não. O que está em causa é a existência de instituições capazes de construir o único caminho de futuro para Portugal. Porque sem formação superior, sem conhecimento, sem ciência, não haverá riqueza, nem empregos, nem qualquer possibilidade de superar a crise que hoje vivemos. O que nos define não são os problemas

h

16 11 2012

I D E I A S F O R T E S

DISCURSO DO REITOR DA UNIVERSIDADE DE LISBOA António Sampaio da Nóvoa

que temos, mas a maneira como os enfrentamos. Este é o momento para dizer, e para mostrar, que as universidades são capazes não só de formar os jovens, não só de produzir conhecimento de alto nível, mas também de colocar os jovens que formam e o conhecimento que produzem ao serviço das pessoas e da sociedade. Mais: para mostrar que as universidades são, já hoje, lugares de inúmeras iniciativas, onde se concretizam ideias e projectos sociais, culturais, empresariais, tecnológicos; que as universidades são, já hoje, espaços centrais da vida económica e do desenvolvimento social. É imensa a responsabilidade histórica que temos pela frente: demonstrar que o país não está condenado a ser o que foi durante grande parte do século XIX e do século XX e que pode ser “outra coisa”, que pode finalmente compreender – como escrevia Manuel Laranjeira a Miguel de Unamuno – “que a inteligência é o grande capital dos povos modernos e a cultura a mais fecunda das revoluções”. É esta a responsabilidade da nossa geração. Hoje. Porque Amanhã já será tarde. Não vale a pena fazermos de conta que sabemos o que não sabemos, que podemos o que não podemos. Mas é preciso que alguém faça o que tem de ser feito. Ou damos agora o passo que ainda falta – depois da formação, depois da conhecimento, conseguir que a formação e o conhecimento sejam decisivos na organização da sociedade, da economia e do trabalho – ou voltaremos muitas décadas atrás, a um país ao qual nenhum de nós quer regressar. Lembro-me quando Lóri, personagem de Clarice Lispector, explicava que só sabia que já começara uma coisa nova e que nunca mais poderia voltar à sua condição antiga. Em Abril, o país começou uma vida nova e não pode voltar à sua condição antiga. Para isso precisa das universidades e da sua capacidade de inventar o futuro. Aqui, na Universidade de Lisboa, não vivemos entrincheirados, vergados à ditadura da sobrevivência. Em tempos de extrema dificuldade, temos conseguido reforçar a nossa coesão e o nosso trabalho.

Não há muitas oportunidades para agradecer a todos os que fazem a universidade no dia-a-dia. Quero fazê-lo, agora, agradecendo sobretudo aos membros dos órgãos de governo da Universidade (conselho geral, senado, conselho universitário) e aos órgãos de governo das Faculdades (assembleias, direcções, conselhos científicos, conselhos pedagógicos), agradecendo a todos a atitude exemplar que têm revelado nestes tempos de tanta dificuldade. Aqui, na Universidade de Lisboa, sabemos bem que não há nada pior do que a política do pior. Não estamos acomodados. E, por isso, temos conseguido construir, em diálogo com os nossos colegas da Universidade Técnica de Lisboa, um projecto de futuro para as nossas instituições e para o país. Será o mais importante projecto de defesa da universidade pública no Portugal contemporâneo, o mais importante projecto de construção de uma grande universidade pública, da cidade de Lisboa, da língua e da cultura portuguesa, com projecção na Europa e no mundo. É possível que o decreto-lei da fusão seja aprovado na próxima semana. A versão que conhecemos garante a democraticidade do processo, consagra uma imprescindível autonomia reforçada e garante o património da nova Universidade. Ficará, assim, concluída a segunda fase do “im-

3

possível”: a primeira foi a aprovação nos conselhos gerais e nos senados; a terceira será a elaboração dos estatutos e a eleição dos novos órgãos de governo. E depois do “impossível”, virá o trabalho difícil, muito difícil e exigente, de construção de uma nova instituição, que saiba ser aquilo com que temos sonhado. É um trabalho que começa de imediato, mas que será, sobretudo, da responsabilidade da geração que agora nos há-de suceder na universidade. Sei bem que “a vida é uma sucessão de absolutos no provisório deles todos” (Vergílio Ferreira). O melhor das universidades está na mudança, na criação, na capacidade de se renovarem e de assim renovarem a sociedade. Vivemos esta esperança no mesmo dia em que vivemos a angústia de um orçamento que nos pode arrastar para uma situação de bloqueio e de paralisia. É preciso dizer Assim, não. Temos um dever de presença e um dever de palavra. Não podemos deixar para amanhã o que precisamos de dizer hoje. E hoje sentimos o que Miguel Torga já denunciava há 50 anos, ainda que os nossos tempos sejam, felizmente, muito diferentes dos tempos em que não havia liberdade. Falava contra aqueles que “experimentam a resistência da vítima, e tentam ao mesmo tempo desmoralizá-la. Quando lhes parece oportuno, dão meia dúzia de voltas à tarraxa. E conseguem, ao fim de cada torção, além da certeza de que podem ir mais longe na violência, que ela seja o espelho desencorajante da nossa própria degradação: – E nem assim nos revoltamos”. Não podemos permitir que continuem a dar voltas à tarraxa. Assim, não. Sem decisões corajosas, que não ponham em causa a nossa vida, que não prejudiquem irremediavelmente a nossa energia, poderemos estar perante o colapso das universidades durante o ano de 2013. Amanhã já será tarde. Não é um problema apenas do Governo ou das instituições. É um problema dos portugueses. Não dizemos palavras negativas. As nossas palavras são de futuro. Somos uma das poucas soluções de que o país dispõe para sair da crise em que se encontra. A sociedade tem de ser muito exigente em relação às universidades, mas não lhes pode retirar as condições mínimas de vida e de acção. É uma escolha de fundo, uma das mais importantes, talvez mesmo a mais importante que os portugueses têm de fazer. Em momentos difíceis, mais do que nunca, é preciso estabelecer as prioridades do presente, não em função do presente mas em função do futuro. Aqui, na Universidade de Lisboa, saberemos escutar as vozes da sociedade, estaremos atentos às decisões que os portugueses têm de tomar, de uma vez por todas, quanto às universidades e ao seu futuro. Mas não temos tempo. Porque Amanhã já será tarde. O que se passar nos próximos dias pode marcar, por muitos anos, a vida da Universidade de Lisboa. Foi isso que quisemos dizer, solenemente, às 12 horas deste dia 9 de Novembro de 2012.


16 11 2012

h 4

I D E I A S F O R T E S

Declaração Conjunta dos Reitores das Universidades Públicas Portuguesas

PORTUGAL E AS UNIVERSIDADES N

UM momento em que o país está confrontado com um quadro de complexidade e adversidade extremo, que condiciona o presente e aprisiona o seu futuro, importa, de forma muito sintética, explicitar o que fazem as Universidades Públicas por Portugal e o que Portugal perderá se asfixiar as suas Universidades. O QUE FAZEMOS POR PORTUGAL 1. As universidades são o local de excelência para a formação de recursos humanos altamente qualificados. A qualidade das universidades que integram o CRUP é reconhecida internacionalmente. 2. As universidades públicas portuguesas são as instituições responsáveis pela formação e qualificação dos futuros profissionais com intervenção nas áreas técnicas, científicas, artísticas e culturais, essenciais ao desenvolvimento do país. 3. As universidades constituem a única base sólida em que assenta o sistema científico e tecnológico nacional, sendo decisivas para o seu rejuvenescimento e sustentabilidade, incluindo a financeira. 4. As universidades possibilitam a articulação entre a criação do conhecimento e as suas concretizações, desde a tecnologia à cultura, desde as ciências às artes. É visível a importância económica dos produtos e das tecnologias desenvolvidas pelas universidades portuguesas, bem como das empresas resultantes do empreendedorismo académico. 5. As universidades públicas são exemplo de uma gestão rigorosa e eficiente sem qualquer responsabilidade no aumento do défice público, num quadro de transparência e pública prestação de contas, anualmente auditadas por entidades independentes. 6. As universidades públicas geram receitas em paridade com o financiamento estatal. Num número significativo de instituições, a captação de receitas próprias é já superior a 50% dos respectivos orçamentos. 7. As universidades públicas complementam o quadro de acção social, possibilitando a formação de estudantes de estratos sociais com dificuldades económicas. 8. As universidades prestigiam a posição de Portugal no Mundo, nomeadamente no espaço da língua portuguesa. O QUE PORTUGAL PERDE A actual proposta de lei para o Orçamento de Estado de 2013 (OE 2013),

em discussão na Assembleia da República, irá ter consequências altamente nefastas para o funcionamento das Universidades. A eventual aprovação da proposta do OE 2013, ao reduzir, num valor médio de 9,4%, as dotações a atribuir às universidades, em comparação com o ano corrente, terá efeitos imprevisíveis e irreversíveis em todo o sistema universitário, inviabilizando o desenvolvimento de actividades essenciais para o seu funcionamento. Recorde-se que o financiamento público das universidades já foi reduzido em 144 milhões entre 2005 e 2012, valor que

atingirá os 200 milhões se a atual proposta de OE 2013 vier a ser aprovada. Neste contexto, Portugal perderá: 1. Educação – afectando o desempenho dos nossos cursos, pois não haverá recursos humanos e materiais que permitam suportar o funcionamento das Escolas, das Faculdades e dos Institutos com consequências na diminuição da qualificação dos portugueses e da sua actualização ao longo da vida. 2. Investigação – desperdiçando a capacidade e as condições institucionais, humanas, materiais e logísticas que permitem impulsionar e estrutu-

rar novos projectos com sucesso, tendo presente o ambiente concorrencial no qual as universidades públicas portuguesas estão obrigatoriamente inseridas. 3. Inovação – impossibilitando a interacção com o tecido empresarial e com a malha social, reduzindo de forma adversa a capacidade que as universidades ganharam nos últimos anos neste domínio, bem como a sua contribuição para o desenvolvimento do país. 4. Internacionalização – cortando a dinâmica de atracção de estudantes estrangeiros e de participação em consórcios e projectos internacionais que tem sido a marca diferenciadora da actividade das universidades nos últimos anos. 5. Especialização – impedindo o esforço que as instituições universitárias têm desenvolvido no sentido de cruzar competências instaladas, recursos nacionais e desafios societais, e que permitiria a sua maior especialização e diferenciação internacional e regional. 6. Cooperação – inibindo a crescente projecção das universidades portuguesas no âmbito do espaço da língua portuguesa, perturbando os consórcios, os protocolos e os acordos que têm sido concretizados nos últimos anos, limitando, por isso, uma maior estruturação do espaço da CPLP. 7. Financiamento – impedindo que as universidades mantenham a sua capacidade de angariação de financiamento comunitário e extracomunitário, obtido através da participação e competição em consórcios e projectos internacionais. As universidades públicas portuguesas são uma esperança maior e o mais promissor motor da mudança que Portugal necessita de consolidar para sair da crise. Sem elas, o futuro do país será muito mais sombrio e a soberania nacional, alimentada pela afirmação do conhecimento, ficará diminuída. A absoluta necessidade de evitar a desintegração do sistema universitário português leva a que os reitores, acompanhados por outros dirigentes académicos de todas as universidades públicas portuguesas, se reúnam na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra, na próxima sexta-feira, dia 16 de novembro, para fazerem uma comunicação solene ao país.


16 11 2012

h

I D E I A S F O R T E S

Fiona : a dura Mata Hari de uma agência secreta, mulher tão linda como fatal, capaz de destruir um homem sem o menor remorsos. Phillip é o seu arquiinimigo, militar implacável da agência rival. Ambos procuram um segredo escondido no interior da selva indiana – tão terrível que, para descobri-lo, se vêem obrigados a colaborar. E para consegui-lo vão precisar de Pedro Alves, um pacato e solitário professor alfacinha que vê a sua vida destruída por esta luta de agentes secretos. Raptado e forçado a acompanhar Fiona e Phillip para as Gates Ocidentais, Pedro desconhece o que pretendem dele. Sabe apenas que, entre os perigos da selva indiana e a brutalidade dos agentes, é pouco provável que sobrevivia. Ele e o mundo!

5

A EXPEDIÇÃO DOS MORTOS Joachim Hunot PARTE II

Continuação do número anterior

A

CORDA com um balanço violento. Ouve o motor do “jeep” a rosnar, pneus a resvalar e depois o impulso da viatura para a frente. Tenta mexer-se de lado. Doem-lhe as articulações dos ombros. Então descobre que está amarrado com os braços atrás das costas. Felizmente não lhe prenderam as pernas, pelo que Alves consegue apoiar um pé e impulsionar-se para cima. Encosta-se à estrutura lateral do carro. O vento quente bate-lhe na cara e abafa-lhe os pulmões. Abre a boca para respirar. O olho inchado fá-lo ver tudo enevoado. - Precisamente de conversar – diz Fiona. O corpo de Alves balança para lá e para cá. Esquina um olhar à mulher e repara que está cheia de pensos rápidos nos braços e um grande no sobrolho.. – Não me pode censurar pela tentativa – diz ele amargo. - Não guardo o ressentimentos. - Só peço que me digam para onde me levam. Não entendo. Fiona abre o fecho de uma mala junto aos pés. – Oh, mas eu vou dizer, professor. O corpo de Pedro Alves dá um pequeno salto quando lhe cair certeiramente um calhamaço no colo. Com um movimento do joelho, endireita o volume. Era a

sua tese de Doutoramento. Necronomicon. - Não estou a perceber. - Encontrámo-lo. - A minha tese de Doutoramento? - Não, o Necronomicon. Ele abre a boca involuntariamente. Sente uma dor no lábio. Está rasgado e inchado para a frente e olha para ele como se fosse uma alienígena, de viés. As suas íris escuras dilatam-se com a visão e grande plano do rosto mal tratado de Pedro Alves. O professor, como um pássaro hipnotizado, sente uma estranha impressão no baixo-ventre, e o seu olhar escorrega para os lábios da operacional que o amassara todos momentos atrás. - Não - diz ela, quebrando aquele esquisito encantamento. - O Necronomicon é muito. Um mito da literatura. - Não – volta Fiona a dizer. Silêncio. Entretanto mais um balanço violento do jipe. O volume escorrega por entre as pernas de Alves e cai no chão. Ouvem-se gritos de macacos e chamamentos de pássaros ocultos na floresta, por cima do ruído dos motores. É uma cena surrealista.

- Muito bem. A bem da discussão, vamos admitir que o Necronomicon existe. Faz ideia do que significa encontrá-lo? - Não estou a ver em que é que essa questão beneficia a discussão – repara Fiona. - Mas... sim, faço ideia. - Querem estudá-lo? – pergunta o professor, esperançoso. - Hum... não. As sobrancelhas de Alves sobem até ao meio da testa. - Meu Deus. Querem vendê-lo? Ou pior ainda, usá-lo vocês! Pergunta ele muito alto. – Já pensaram no que pode acontecer se esse livro cair nas mãos erradas? - Você preocupa-se muito – diz Fiona tranquilizadora – Muito bem, vamos dizer que queremos estuda-lo. Alves dá um grito. – Isso é mentira! Você acabou de me dizer que não era isso que iam fazer! Depois cala-se. Os seus olhos descem até ao cano da pistola que lhe comprime o nariz. - Acalma-se. Alves geme quando ela empurra a arma contra a sua narina esquerda. Tem o nariz amassado. Um simples toque é uma tortura.


16 11 2012

h 6

Alves expele um sim anasalado muito pouco convincente, mas que Fiona parece considerar suficiente, pois alivia a pressão e volta a aguardar a arma. Montaram acampamento perto da estrada. Às seis da tarde o céu já está tingido de azul-escuro. A temperatura está morna. Do mato saem sons diferentes. Rãs e grilos. Os pássaros inquietos chilreiam muito alto, todos juntos. Os operacionais montam tendas de campanha. Meia dúzia de autóctones contratados carregam bidões com água e latas de comida. Fiona está a olhar para os longínquos rochedos castanhos, tingidos de vegetação trepadeira. Os seus cumes rasgam véus de nuvens brancas. O ouvido de Fiona espevita-se. Ouve água a cair. Devem haver cascatas por ali. Depois o ouvido dele espevita-se outra vez. Um dos indianos, com a bidão à cabeça, está a emitir um som ondulante. Primeiro baixinho, depois entusiasma-se e dá um grito musical que faz algumas cabeças voltar. Fiona pensa que a Índia tem uma aura mística muito peculiar, principalmente quando vivida em primeira-mão. Os sons dos animais, das cascatas ocultas nas rochas, fazem os pelos dos seus braços arrepiarem-se. Segredos. Segredos em ruínas antigas, em penhascos pré-históricos, passagens secretas por detrás de trepadeiras estranguladoras. A selva indiana é um caos de elementos naturais encavalitados uns nos outros. Fiona sorri enquanto rói a unha do indicador. A mão de Sparks pousa-lhe no ombro. - Falaste com o professor? – pergunta ele. - Sim. - E? - E nada. – responde Fiona – Vai colaborar. Não tem outro remédio. - E se ele não souber? - Morre. - E se morrermos todos? Fiona volta-se para Sparks. O canto do lábio sobe mas não sorri com os olhos. – Não vamos morrer todos. Provavelmente só alguns. Sparks coça a barba grisalha. Tem pés de galinha profundos e o olhar baço. - Mandamos a equipa de Phillip à frente? - Se for possível – responde Fiona – Ele não sabe, mas não é parvo. Vai estranhar. - Então quem vais sacrificar? - os indianos. Menos o guia. Depois a equipa de Phillip. Em último recurso, alguns de nós. Sparks deixa os ombros descair. Os lábios comprimen-se. - Fiona... - Ela sorri e assenta uma palmada no ombro do operacional sénior. – Não te preocupes. Não vais ser tu. Chove a cântaros. Gostas pesadas batem na lona por cima de cabeça de Fiona. Nessa noite ela volta a falar com Phillip. Estão sentados ao lado um do outro, debaixo dessa lona esticada. Fiona tem as botas molhadas, o cabelo húmido, mas mesmo assim transpira. Phillip fuma um cigarro em silêncio. Ela mira-o de viés e ajeita-se no banco. Está suado e brilhante, com os olhos pousados numa linha imaginária até ao mato escuro.

I D E I A S F O R T E S

- Quando achas que vale o livro? – pergunta ele. - Leiloado, um valor mínimo de abertura de um bilião. Phillip volta o rosto para ela. Parece surpreendido. - Por um livro? - É o livro dos mortos. - Os mortos não deviam valer tanto dinheiro. Estão mortos – conclui ele, apagando o cigarro com o pé. - E tu sabes muito sobre isso, não é, Phillip? A voz de Fiona sai com uma ligeira tremura. Phillip volta a encará-la. Fiona só repara nos seus olhos fundos. - Eu não tive culpa de nada. - Tu nunca tens culpa de nada – diz Fiona com desdém. Antes que Phillip possa responder à altura, ela levanta-se e volta-lhe as costas. O banco dele cai para trás, na terra molhada, quando ele se levanta também e lhe agarra o braço com força. O puxão é tão forte que se ouve um rasgão. Fiona olha para o lado, para a camisola rasgada e depois para Phillip. Mostra-se imperturbável. Mas ele está com um ar de ofendida interrogação. - O passado não é para aqui chamado – rosna ele. Fiona não diz nada. Não é preciso. Não se tenta sequer soltar. Mas Phillip acaba por abrir a mão e deixa-a ir. CAMINHO PARA OS GATESOCIDENTAIS, ESTADO DE GOA – DIA 5 Nascer do dia, Pedro Alves acorda suado como um porco e com moscas de volta de si. Aliás, sente-se mesmo porco. Não toma banho há demasiados dias. O hábito sabe-lhe mal. Precisa de água. Precisa também de lavar o sangue seco da cara. Que farrapo se sente. Não há nada que não lhe doa. Vê com o seu olho entreaberto o velho operacional chamado Sparks. Está sentado num banco de campanha, a olhar para ele. Alves tem vontade de o mandar passear, já antecipando que o vinha aborrecer como os outros. Ninguém se aproxima dele a não ser para exigir alguma coisa. Mas desta vez, surpreende-se. Sparks estica-lhe uma garrafa de água. - Você está com mau aspecto – diz o operacional. – Não devia ter tentado fugir. O professor mete o gargalo na boca. O inchaço ainda faz com que se babe e molhe a camisa. Bebe metade. Depois recupera o fôlego. - Qualquer pessoa faria o mesmo na minha situação – diz ele amargamente. - Embrenhar-se na selva? Na selva indiana? Para morrer sozinho? Alves olha para Sparks de viés. - Não sei se isso seria mau, dadas as alternativas. - Você não é homem de se deixar morrer, professor Alves – diz Sparks com um sorriso, tão fugaz, que quase podia ser uma ilusão. Alves não diz nada. O homem parece


16 11 2012

h

I D E I A S F O R T E S

amigável, mas é óbvio que não é de confiança. Aqueles tipos são uns mercenários sem escrúpulos. Só se interessam por dinheiro. Falar com a víbora comandante é o mesmo que falar com um oficial da Gestapo. E o outro que o esmurrou parece ser ainda pior. Porque raio iria agora baixar a guarda a este velho com ar de sabido? Sparks atira-lhe uma pequena maçã. Esfomeado como está, Alves não hesita em dar-lhe uma trincadela. Geme com a abertura dos maxilares, mas o fruto é doce e purificante. - Você está com medo – diz o operacional. Alves observa-o como se fosse demasiado cedo para dizer coisas tão óbvias. - Mas garanto-lhe que se colaborar, voltará são e salvo para casa. Como se nada disto tivesse acontecido. O professor sabe que não é assim. Já leu demasiadas histórias para se deixar enganar com promessas vazias. Sabe que quando tiverem o que querem, lhe dão um tiro na cabeça e o deixam a apodrecer na Índia. - Eu sei bem onde estou metido. – diz ele - Escusa de estar com paninhos quentes. Sparks sorri e anui a cabeça. Desvia a biqueira da bota para o lado quando o professor atira o caroço quase para cima de si. - Veja as coisas por este prisma. Ninguém o maltratou quando não foi necessário. Alves solta uma gargalhada, quase forçada, e levanta os braços como se tivesse tido uma epifania. - Oh sim. Então, claro, a culpa foi toda minha. Por me ter portado mal, não é? Sparks inclina-se para a frente, - Ouça. Não tenho qualquer simpatia especial por si. E o contrário também não se verifica. Mas acho que merece que alguém lhe diga alguma coisa sem ser para lhe dar ordens. O professor lança-lhe um olhar desconfiado, mas não retalia. - você teve o azar de ter escolhido mal o tema do seu Doutoramento. Interessou-se pelo assunto errado. - Concordo. - Mas agora também já não há nada a fazer. Senão colaborar. Sparks sorri com o sarcasmo do prisioneiro, - Se reparar, somos todos civilizados. Há uma ordem nos que fazemos, e procedimentos a seguir. O homicídio não faz parte desses procedimentos. Mas a intimidação sim. Portanto, a bem da sua integridade física, não tente fugir outra vez. Porte-se bem. O professor concorda com a cabeça. Não ficou convencido de nada, mas melhor assim que dar-lhe mais corda. Está claro que quer apenas controla-lo. Impedir que ele dê mais problemas, Aquele tipo de manipulação enjoa-o. GATES OCIDENTAIS – DIA 6 Atrasam-se muitas horas. A chuva alagou a estrada de tal maneira que têm de prosseguir a passo de caracol. Um dos “jeeps” atolou-se irremediavelmente e foi

deixado para trás. O guia está nervoso e fala num dialecto cada vez mais cerrado. A certa altura, tem dúvidas sobre o caminho. Isso causa logo uma grande agitação, que cessa quando ele garante de joelhos e por Vishnu que não os iria deixar ficar mal. Phillip ri-se do homem apavorado, mas não se mete. Fiona lança-lhe um olhar acusatório. Chegam ao local às quinze horas. Têm de deixar as viaturas e passar a pé, encharcados pela chuva contínua, por uma garganta rochosa que sobe até ao céu. Dos rochedos pendem lianas e trepadeiras. Há árvores com grandes copas redondas e fetos gigantesco a rebentar por entre os rochedos. O caminho é u, trilho antigo, de lajes gastas, interrompidas pela vegetação rasteira. Ninguém se atreve a dizer nada. Ninguém viu o local a não ser o pequeno guia indiano. A expectativa mistura-se com o silêncio. À medida que vão caminhando, o espanto vai-se instalando. O trilho termina numa plataforma de pedra, como uma varanda, sobre a vista mais impressionante que qualquer um deles tenha visto. Há uma grande quadrado de céu cinzento por cima das suas cabeças. O horizonte é tapado por paredes verticais de rocha onde a vegetação nasce encavalitada. É como se alguém tivesse escavado um buraco o relevo, onde da base ao topo vai quase um quilómetro de altura. O local tem o aspecto de uma cratera, repleta de vegetação húmida. E embutida mesmo em frente descobre-se a fachada de um templo. A construção é simétrica, perfeita, embora quase que engolida pela flora. Um grandioso templo de blocos sobrepostos, com os entalhes decorativos gastos pela erosão. Phillip pousa uma mão na cabeça como se isso lhe permitisse ver melhor. Fiona está radiante. Sorridente. Alves esquece-se momentaneamente das mazelas e endireita-se com os olhos arregalados. Todos os outros têm reações parecidas. O guia parece satisfeito e aliviado. É preciso descer a varanda em rapel. Já cá em baixo, a equipa demora mais de uma hora a chegar à fachada do templo. De perto é ainda mais grandioso. Gigantesco. As plataformas da base da estrutura têm o dobro da altura de um homem, os pilares o diâmetro de sequóias, e as estátuas são animais gigantescos, serpentes e cabeças de tigre maiores que um ser humano, em nichos de parede irregulares onde se agarram raízes. Montam a base de operações de frente para a entrada do templo. Uma entrada em arco, maior que a de uma catedral. Do topo do arco pendem plantas verdes em cacho. Lá dentro, uma penumbra parda, e a insinuação do desconhecido. Fiona encosta-se a um pilar partido. Parou de chover há meia hora e ela despe a capa para a chuva. Inclina-se para a frente e estica o rabo para fora, na direção de Pedro Alves, que está retesado a observar como a forma redonda se bamboleia com o esforço. Quando está a passar a capa pela cabeça, Fiona ouve um tiro e sinais

de agitação. Ao esforçar-se por se livrar dela, puxa reflexamente da pistola. A equipa está toda a olhar para Phillip, que por sua vez está com o ar agoniado. - O que é que se passa? – pergunta Fiona. Ele olha para o chão, para junto dos pés. - Não é nada. Era uma cobra. - E era preciso usares a pistola? - Não gosto de cobras. Sparks faz um comentário em voz baixa, mas audível. Aponta para o templo com um dedo. - Então não deve ser boa ideia entrares ali. Phillip volta a guardar a arma e dirige-lhe um olhar picado. – Porquê? - Porque deve estar cheio delas. As serpentes gostam de lugares escuros. Sparks e Fiona trocam um olhar discreto e ela deixa escapar um sorriso. A preparação para a expedição ao interior do templo é demorada. Há muita coisa a planear. Instrumentos a testar e a reunir, e sanguessugas a queimar com pontas de cigarros. Focos de luz, equipamento de espeleologia, armamento e primeiros socorros. Tudo é visto e revisto com precisão. Determina-se a equipa que fica na base e a que entrará no templo. Contando com sete operacionais, Phillip, Fiona e Sparks, Pedro Alves e quatro indianos, incluindo o guia, totaliza, quinze pessoas. A exploração está marcada para o dia seguinte, porque às cinco da tarde a luz já é ténue. É certo que dentro do templo não fará diferença ser noite ou dia, mas por uma questão psicológica, acham melhor assim. Para além disso, terão tempo para descansar. Fiona vê Pedro Alves na sua típica localização, preferencialmente afastada de todos, a tirar a camisa molhada e a atirá-la para o lado, enjoado. Depois repara nele uma certa hesitação, dois segundos de reflexão, e um resmungar baixinho ao voltar a apanhá-la, consciente de que não tinha mais nada para vestir. Ela aproxima-se dele por trás, devagarinho, em jeito de apreciação do tronco nu académico. Alves volta-se no último segundo e Fiona atira-lhe com uma camisa verde para cima da cabeça. - Visto isso. Você já cheira mal. Alves devolve-lhe um olhar azedo. – Obrigado. Você às vezes é um encanto. Fiona volta-lhe as costas. Depois para a meio caminho e deixa escorregar um olhar para trás. - E veja lá se para de olhar para onde não deve. Pedro Alves esbugalha os olhos, e se não tivesse ficado tão embaraçado poderia ter notado o sorrisinho discreto no canto dos lábios da terrível operacional. Nessa noite volta a chover a potes. A água escorre pelas paredes da cratera e receia-se que se forme ali uma piscina. As lonas tapam grandes zonas, mas o chão está alagadiço e a humidade do ar não permite que nada segue. O som da chuva na folhagem, mesmo não havendo uma réstia de vento, é quase ensurdecedor. As rãs coaxam muito alto. Ocasionalmente ouve-se um macaco a guinchar. Fiona não consegue dormir descansada.

7

Não se pode dizer que esteja ansiosa com o dia seguinte, mas sente uma agitação dentro da cabeça. Um peso de responsabilidade. Na altura em que lhe ocorre que poderá ser alguma coisa parecida com remorsos, levanta-se e sai da tenda. Quando vê Phillip sentado num banco de campanha, voltado de costas para ela, Fiona imobiliza um pé no ar, encolhe-se no mesmo sítio e começa a virar-se lentamente. Mas um graveto estala debaixo da sua sola, e ele dá por isso. - Onde é que vais? - A lado nenhum. Ele chama-a. - Anda para aqui fazer-me companhia. Fiona chupa os lábios e suspira. Vai sentar-se numa pedra lisa, ao lado dele. Phillip oferece-lhe uma lata de cerveja morna. Subitamente, o sentimento parecido com remorso dissipa-se de dentro de si. Ao olhar para a chuva a espirrar nas poças, Fiona sente-se muito mais concentrada. Phillip acende um cigarro e faz uma careta. - Bolas, que o tabaco está húmido!... A única resposta de Fiona é um desinteressado olhar para o cigarro e depois volta-se outra vez para a frente. Instala-se um silêncio de fazer aumentar a respiração. Ao fim de cinco minutos sem dizerem nada, Phillip tosse e mexe-se no assento. Fiona arrepende-se por não ter reprimido um esquinar de olhos na sua direção e de ter sido apanhada a cruzar um olhar com ele. - Ouve, Fiona. Em relação àquela conversa de ontem à noite. Ela finge um ar muito atento. – Sim? Phillip parece estar a escolher as palavras. De repente, olha para as botas como se estivesse muito interessado nelas. - Esse rancor que tens. Não faz sentido – diz ele por fim. Fiona tem um sorriso cínico congelado nos lábios. Fita-o sem pestanejar. Ele aguenta o seu olhar com valentia. - Tu mataste o meu pai – diz ela gelidamente. Phillip dá uma última passa e atira com o cigarro para a lama. - O teu pai ia premir o gatilho na minha cabeça. Era ele ou eu. Desculpa lá se na altura queria viver mais uns anos. - Se não tivesse traído o teu país para se juntares a esses porcos soviéticos, o meu pai nunca te teria encostado uma arma à cabeça. Face a esta resposta incisiva, Phillip cala-se. Fiona levanta-se e enfia-lhe a lata vazia na mão. Depois afasta-se, mas ele dá um salto do banco e desliza para lhe barrar o caminho. Ela estaca e ergue o queixo. O rosto com os olhos muito abertos, os lábios cerrados, incide nele com censura. Imune a isto, Phillip dispara uma pergunta. - Porque é que ainda não mudaste o nome? Fiona esboça um sorriso de incredulidade. – Não tens nada melhor que fazer do que bisbilhotar os meus documentos? - Responde. - Para nunca me esquecer quem é que matou o meu pai.


16 11 2012

h 8

U T O P I A S

BADA SHAREN E SHITAO: DOIS P Ung Vai Meng AO RITMO compassado das noites e dos dias, de seu entrelaçamento e intersecções, o mundo sucede-se a si próprio. Rios tumultuosos, desertos solitários, mas sempre a beleza da Natureza a incitar o pensamento aos filósofos e a inspirar poetas e pintores a eternizar ideias e sentimentos na superfície do papel. Ba Da Shan Ren e Shi Tao, duas estrelas brilhantes no céu das artes das dinastias Ming e Qing, não foram excepção. No Ocidente, os psicólogos da Gestalt propõe que tudo o que pode ser apreendido, num dado espaço e tempo, constitui um “campo de percepção”. Quer olhemos as estrelas do firmamento ou as maravilhas da natureza, a reverência e os sentimentos que nos inspiram são, na verdade, a resposta de cada indivíduo ao seu próprio “Campo de Percepção”. Há mais de mil anos que, na China Antiga, os artistas encararam a natureza como um símbolo de vida, expressando os seus sentimentos através da representação de rios, montanhas e mares. Tal como refere no “Prefácio da Pintura de Paisagens”, Zhong Bing, um conceituado pintor da dinastia do Sul (qual?), acreditava que as grandes montanhas, com as suas imensas florestas, reflectiam as emoções

dos que por lá tinham passado. Na sua velhice, Zhong Bing descreveu nas paredes da sua casa todas as montanhas e rios que vira e contemplara. A pintura de paisagens era a sua forma preferida de captar o sentido de liberdade e beleza da natureza. Ba Da Shan Ren tinha uma predilecção especial pela pintura de paisagens e apreciava as características da pintura de Zhong Bing. Seguindo o estilo de Wang Gongwan e Ni Zan, Ba Da transmite nas suas obras um sentido de isolamento, através de pinceladas esparsas e suaves, cujo silêncio e elegância comove profundamente todos os que as contemplam. A natureza torna-se um campo de percepção quando a sentimos com o coração. De igual modo, uma obra de arte, quando nos emociona, torna-se um campo de percepção em si. E nesse campo de percepção particular, com diferentes elementos – perfis, cores e linhas – os pintores são capazes de recriar o espaço e finalmente atingir uma Gestalt, um estado de satisfação e resolução. Ao melhorar constantemente os seus esboços, os pintores tentam aperfeiçoar a integração de todos os elementos da imagem, de um ponto de vista pictórico. E expressam também o conteúdo e o significado das pinturas, ao sublinharem as relações entre esses elementos. Tradicionalmente, nos países ocidentais,

a principal tarefa era reproduzir na obra, com técnicas especiais, os personagens ou paisagens originais. No entanto, na China, os artistas acreditam que as flores, pássaros, árvores e rochas devem ser burilados com pinceladas exímias, para exprimir o estado de espírito, a erudição e os valores do artista. Para as artes abstractas, os elementos do tema são menos importantes, sendo que o conteúdo da obra é o resultado do relacionamento dinâmico dos seus elementos. O êxito da obra depende da satisfação que o espectador retira do relacionamento dinâmico nesse campo de percepção em particular. Ba Da exprime nas suas obras um sentido de romance poético através de sombreados simples e implícitos, bem como pela sua cuidada composição. Tudo ali é perfeito e refinado. No álbum de dez páginas, “Pinturas de Paisagens”, Ba Da refinou os complicados cenários naturais, transformando-os em contornos claros por meio de pinceladas secas e suaves. Os elementos visuais como montanhas, margens e cabanas no nevoeiro espalham-se na horizontal, de forma gradual, enquanto os declives se curvam para dentro, criando picos e montes argilosos. Os elementos formam unidades gráficas quadradas ou triangulares ordenadas. Os

grupos de árvores perpendiculares, simples na sua estrutura, actuam como o suporte principal das suas obras, sustentando as colinas da parte inferior, enquanto outras linhas realçam a parte superior da pintura. As árvores fazem a ligação em ambos os sentidos, criando uma sensação de estrutura forte, própria dos tempos modernos. A pintura aparenta grande leveza, com o seu ambiente vago, oferecendo ao espectador um espaço isolado e silencioso. Nem chuva nem sol, menos ainda as mudanças sazonais que impressionam Ba Da Shan Ren, mas sim a espiritualidade perene e o sentido solene da natureza. A sua mestria na pintura a tinta e o aperfeiçoamento da estrutura abstracta da obra são excepcionais. Mesmo sem ter presentes as dificuldades que passou em jovem ou o seu estatuto especial de descendente da família imperial, não podemos deixar de prestar homenagem e sentir respeito por suas obras admiráveis. Cada paisagem pintada por Ba Da é um epítome do cenário ideal. Rochas, florestas, colinas e cabanas são agrupadas de modo formar uma cena harmoniosa. As suas pinturas de flores e pássaros, por outro lado, são de uma grande vivacidade. Ao forjar as flores e frutos em pinceladas circulares ou retratar bambus, rochas, flores exube-


16 11 2012

h

F R Á G E I S

9

PINTORES INCONTORNÁVEIS rantes e orquídeas em pinceladas refinadas, Ba Da confere às suas obras esse sentido de elegância que é apanágio dos letrados da China. Com o seu talento, os artistas são capazes de transformar os objectos em símbolos visuais típicos e animados. No rolo “Pintura de Pinheiros e Veado”, depois de os olhos percorrerem os pinheiros robustos, descendo depois pelos ramos vergados, até pararem finalmente no veado, retratado de forma tão elegante e sucinta, o espectador efectua uma excitante viagem, ascendente e descendente, pelas estradas do reino da percepção. Shi Tao era dezasseis anos mais novo que Ba Da Shan Ren. Foi o grande mestre no panorama da pintura chinesa do século XVII. A sua auto-confiança, enormes capacidades artísticas e agressividade colocam Shi Tao num lugar ímpar na história da arte na China. As suas obras têm um sentido deliberado e uma composição invulgar. Corporizam, em grande estilo, as forças do universo em grande estilo também porque Shi Tao acreditava que a paisagem se devia fundir com as emoções do artista. Nas suas obras, Shi Tao dava muita atenção às suas emoções e sentimentos concretos. As suas grandes realizações nas artes não são apenas resultado de uma extensa experiência de viagens e poder de observação

mas também da sua personalidade extremamente instintiva. Shi Tao fundiu as suas percepções com a naturalidade misteriosa da paisagem. Dando livre curso às suas emoções, ultrapassou os princípios e convenções definidos pelos seus antecessores para chegar ao que considerava ser a forma perfeita e ideal nas paisagens que pintou. No rolo “Esboço de Paisagens”, os picos verdes e as águas tumultuosas dão um sentido de integração. Os traços de tinta, aparentemente não metódicos, umas vezes parecem espontâneos, outras estudados, criando um sentido dinâmico e opressivo. Shi Tao aproveitou ao máximo as características dos traços de tinta neste campo de percepção em particular, formado por linhas ininterruptas. Shi Tao percebeu muito bem e tinha um domínio total da utilização dos traços abstractos ou, como ele próprio dizia, “Um traço tem uma face e um verso. Há traços plenos de água e tinta, em forma de uma série de botões, ocos e insípidos, visíveis ou invisíveis, borrados ou brilhantes, turvos ou transparentes.” Nesta pintura, de um metro, os traços espalham-se e agrupam-se, uns a negro, outros em tons claros. Estes traços esvoaçantes não assumem a sua função habitual de retratar folhas ou zonas de musgo, mas assumem uma dinâ-

mica própria de presença-ausência, criando uma sensação de vida e tensão. “Pintura do Lótus de Tinta” é outra obra excepcional de Shi Tao. Nele se descrevem folhas de lótus entrecruzadas, flores e ervas, em tons escuros e claros. As pinceladas, plenas de vigor, surgem livres, dotadas da capacidade de espantar os nossos sentidos. Se a modernidade oculta no álbum de Ba Da “Pinturas de Paisagens” é encarada como resultado da procura de um enquadramento pelo artista, as linhas e a estrutura espacial de “Esboço de Paisagem” e “Pintura do Lótus de Tinta” vão no sentido intencional do artista de incluir nas suas pinturas a paixão e a vitalidade que lhe evocam a natureza. As obras de Shi Tao apresentam estilos variados, desde as francas e directas às arcaicas e isoladas, mas sempre com um sentido de elegância e frescura, expresso na vivacidade das montanhas, da água, das flores e das árvores. Na história das artes na China, Shi Tao ocupa um lugar ímpar, graças à sua personalidade educada e generosa. “Hua Yu Lu”, uma colectânea de comentários sobre pintura redigida por ele redigida, já em idade avançada, lança uma nova luz sobre a criação e apreciação de pinturas a tinta da China. O rolo “Tocando alaúde para uma vaca” retrata um homem culto que toca

para o animal, numa atitude prazenteira e confiante. Era exactamente este o estilo de vida que Shi Tao procurava. Inspirados pela energia que o universo desprendia à sua volta e pela profundidade da cultura chinesa, Ba Da Shan Ren e Shi Tao, dois mestres da arte, realizaram muitas obras, graças ao seu talento artístico e à vida especial que cumpriram, uma espécie de profetas no seu tempo, que levaram a bom termo a sua missão. Libertaram a pintura tradicional chinesa das convenções, dando-lhe criatividade, técnica e percepção individual. São um marco incontornável na história da pintura, na medida em que são também o ponto de partida para a modernidade, para o modo actual de pintar com tinta-da-China. Nas obras de Bada e Shitao, a concepção de unidade fundamental do universo permite explorar potencialidades e características, implícitas e moldáveis, da pintura com tinta chinesa. Ba Da Shan Ren e Shi Tao foram dois relâmpagos no céu sombrio de uma época turbulenta, no início de uma dinastia controlada por uma etnia diferente. As suas obras têm ainda um intenso significado e importância nos círculos artísticos contemporâneos. Ba Da Shan Ren and Shi Tao são, indubitavelmente, dois mestres da longa história das artes e da cultura.


16 11 2012

h

10

D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

ONDE FICA O RAFFLES ? Num lugar que se celebra como peculiar através das marcas históricas que consegue exibir, é notória a falta de sobrevivência de um hotel ou de um bar que tenha a minima carga história. Não há nada sequer que se lhe aproxime. Todos os hotéis de Macau em que nos podemos abandonar aos deleites da bebida são de construção muito recente. Por alguma razão não sobreviveu (ou nunca houve?), como em Hong Kong, um hotel ferroviário como o que hoje é o Peninsula ou outras glórias da hotelaria colonial antiga, exemplos cheios de brilho e de história, como o Raffles de Singapura (mas nunca em Macau houve ou poderia haver seja o que for que se aproxime à manifestação de poder económico e majestade quase indiana do Raffles, uma espécie de monumento a um conforto arcaico e necessário), o Strand, de Rangoon, o Oriental de Banguecoque, ou, se me é permitido referir um favorito pessoal, fonte de vastos prazeres de fim de tarde, estendido preguiçosamente a Ocidente e ao pôr do sol, estafado, lúgubre por vezes, majestático e pobre, o velho Galle Face de Colombo. É especialmente neste hotel que, ao terceiro gin, a linha divisória entre o mar e o céu se esfuma como se de um quadro de Rothko, com menos cor, se tratasse. Se o Riviera, situado na esquina da Avenida Almeida Ribeiro com a Avenida da Praia Grande, tivesse resistido, o que seria hoje? Outro mostruário de dourados? Ou o Hotel Caravela da Baía da Praia Grande, demolido, como aquele, nos anos 70? Não há no território nenhum hotel antigo e o autor destas linhas, pouco propenso a nostalgias, não tende a ver esta circunstância como preocupante. A história, o velho e o antigo pelo antigo ganharam uma rancidez turística a que se tornou difícil escapar. Não vale a pena chorar sobre leite derramado. Poderia ter acontecido aos velhos hotéis de Macau o que aconteceu ao Continental, em Saigão, mal renovado, triste, velho, completamente inútil e sem charme, ou o que se tornou o Caravelle, também em Saigão, recipiente de um turismo de massas barulhentas. Mais preocupante é não haver, de entre as novas estalagens, uma que se destaque pela ousadia ou pela qualidade do seu desenho. Não existe em Macau um único hotel que se defina pela sua presença enquanto

objecto arquitectónico desejável, muito menos como objecto de referência. Também não sobreviveu nenhum café ou restaurante de renome. Esta circunstância permite uma arrogância luminosa, beber sem memória e sem o peso que esta pode transportar totalmente desprendidos da memória do século XX. Salto prodigioso este da Igreja de São Paulo para o Hotel Sheraton. Esta emergência do novo, que não estabelece qualquer relação com o passado próximo, e, felizmente, com um passado mais remoto, não pode deixar de excitar uma reflexão sobre a cidade e o modo como o seu destino permanece uma incógnita total. Esta é uma cidade feita para os outros, os que estão de passagem, e não para os que nela residem permanentemente. Neste caso, o ajuste que foi necessário fazer é bastante pernicioso para quem aqui vive. Não deixa de ser esta uma posição única, a de viver num sítio que é cada vez mais uma cidade de empréstimo. Uma das grandes vantagens deste desafio consiste em este lugar cada vez mais nos impedir de perceber a nossa identidade. Nenhum sítio melhor para exercitar esta perda, sentida como uma evolução identitária e que tem um vago sabor decadentista, que nos bares desta cidade construída para os outros. Doce abandono este a uma navegação sem destino. A qualidade do serviço de mesa e de confecção de mixórdias a que temos acesso em bares como o Lan, o Macallan ou o bar do Hotel Mandarin (aconselho os negronis) transformam o seu usufruto numa experiência capsular, a reentrada nos complexos hoteleiros que os acolhem (pelo menos nos dois primeiros), uma alunagem de um impacto espacial. Tudo isto me faz lembrar Chia Thye Poh, o suposto comunista que, em Singapura, foi condenado a viver em Sentosa (depois de ter servido anteriormente uma sentença muito mais dura durante vários anos). O Senhor Chia viu crescer, tal como acontece em Macau, em redor do seu local de detenção, uma Disneylândia. Se toda esta malha hoteleira entrar em decadência quanto tempo levará para que o mangal devore os edifícios do Cotai e que estes se vejam cobertos da vegetação tropical e tentacular que rapidamente se apodera dos terrenos mais incautos?


16 11 2012

h

À S U P E R F Í C I E

próximo oriente

Hugo Pinto

CARSICK CARS: ESTADO ROCK “Ritual de lo habitual”, o título do segundo álbum dos Janes’s Addiction, assenta que nem uma luva para descrever o que se passou em Pequim nos últimos dias, a propósito do 18º Congresso do Partido Comunista Chinês. De cinco em cinco anos, o ritual repete-se. Desta vez, a reunião magna coincidiu com uma transição de liderança, mas nem isso, nem as lutas internas entre as várias facções do partido, os segredos ou os silêncios, nada perturbou as poses e os discursos e o natural andamento ditando que, depois, são outros cinco anos, até que tudo se repita. E assim sucessivamente. Tudo decorreu dentro da normalidade, sem dissensões ou sobressaltos (pelo menos públicos e oficiais), um pouco como o rock chinês, que, nos últimos 20 anos, passou de rebelde e contestatário (Cui Jian, o “pai” dos rockers chineses, esteve banido de actuar em grandes salas durante 11 anos por causa de certas ousadias, tais como “cantar” sobre certas coisas melindrosas) a apolítico e “livre” (quase todas as bandas e músicos no activo, hoje, desde que evitem referências a determinados temas “sensíveis”). Se não os podes vencer, junta-te a eles (ou, pelo menos, não os chateies). Mas mesmo que as máximas da resignação prevaleçam, também se pode dizer que “quem ri por último, ri melhor”. Ou, simplesmente, que “rir é o melhor remédio”. Tem a sua piada, sem dúvida, por exemplo, que a música mais conhecida da mais conhecida banda rock chinesa

tenha por título “Zhongnanhai”, o nome do palácio de Pequim que serve de sede do Partido Comunista e do Governo Central, e que designa, genericamente, a liderança chinesa, mas que também é o nome de uma popular marca de cigarros que, consta, Mao fumava. Juram a pés juntos os Carsick Cars (a tal banda que é a mais conhecida da “indiechina”) que a canção chamada “Zhongnanhai” refere-se à marca de tabaco. Não há por que duvidar. E também não há por que deixar de esboçar um sorriso. Os Carsick Cars formaram-se em Pequim, em 2005. Shou Wang (voz e guitarra), Li Qing (bateria) e Li Weisi (baixo), compunham o trio. O primeiro disco surgiu em 2007. Produzido pelo líder da banda P.K. 14, Yang Haisong, o álbum deixava identificar referências que iam do entorpecimento sónico dos Velvet Underground às melopeias repetitivas tecidas pela guitarra de Glenn Branca, passando, obviamente, pela maior influência de todas, os Sonic Youth e as suas canções rock pouco ortodoxas feitas de guitarras dissonantes. A banda de Thurston Moore e Kim Gordon, aliás, haveria de apadrinhar os Carsick Cars e levá-los numa digressão europeia, depois de os terem convidado para fazer a primeira parte de um concerto dos Sonic Youth na China, que haveria de ser cancelado à última da hora. A benção dos norte-americanos não aconteceu por acaso. Desde que apareceram, os Carsick Cars ocuparam decididos

o espaço inventado pelos Sonic Youth, algures entre a tradição rock e o vanguardismo “arty”, com a mesma afeição, entrega e desprendimento adolescentes. Tudo no sítio certo. Ainda em 2007, os três elementos da banda começaram a dispersar-se por outros projectos (igualmente interessantes): Shou Wang gravou o primeiro disco da dupla White, e Li Qing e Li Weisi fundaram os Snapline. Em 2009, os Carsick Cars editaram “You Can Listen, You Can Talk”, até à data o último trabalho de originais da banda, que tem, desde então, andado entretida em concertos na Europa e nos Estados Unidos. 2010 foi o ano da separação, mas não do fim dos Carsick Cars. Li Weisi e Li Qing abandonaram o grupo, sendo substituídos, respectivamente, por Ben Ben (da banda Boyz and Girl) e He Fan (dos Birdstriking), que, entretanto, deu o lugar a um novo baterista, Houzi (dos Chaos). Várias mexidas depois, no entanto, e como nota a editora Maybe Mars, “a formação tumultuosa mantém os Carsick Cars frescos e como uma das mais amadas bandas chinesas”. Na verdade, não é difícil acreditar que, tal como no Partido Comunista Chinês, também nos Carsick Cars, muito provavelmente a mais respeitada instituição rock da China, é preciso mudar para que tudo fique na mesma. E pode-se sempre perguntar, como eles o fazem: “Who fucking smoke my Zhongnanhai?”

11


Lê os verdadeiros escritores, lê Balzac, Han Shan, Shakespeare, Dostoieveski. Jack Kerouac

O homem que um dia se chamou Han Shan, ninguém sabe quem foi. Quando alguém o via, considerava-o um doido, um pobre diabo. Vivia retirado na montanha Tiantai, sete léguas a oeste do distrito de Tangxing, num lugar chamado Han Shan (Montanha Fria), entre rochas e falésias. Daí descia frequentemente para o templo de Guoqing, ao encontro do seu amigo Shi De, encarregado da limpeza da cozinha do mosteiro que lhe guardava restos de comida em malgas feitas com cana de bambu. Lu Qiuyin, prefeito de Taizhou (Séc. IX)

Quem gosta de poesia, quem deseja abrir a mente para as mil subtilezas do budismo chan ou zen, quem procura a simples inteligência do saber encontrará em Han Shan um mestre, um confrade, um amigo. António Graça de Abreu

POEMAS DE

HAN SHAN edição bilingue

TRADUÇÃO, PREFÁCIO E NOTAS DE ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU


perspectivas Jorge Rodrigues Simão

CRISE NO ESTADO SOCIAL DE BEM-ESTAR “Historically speaking, the welfare state as a phenomenon is linked to two key lines of development: the rise of the labour movement and the breakthrough of political democracy. Both contributed to fundamental changes in power relations in society. They are closely intertwined, as the labour movement as an organized force was also crucial for the development of political democracy - not least the introduction of universal suffrage”. The Rise and Fall of the Welfare State Asbjorn Wahl

O ESTADO de bem-estar social é um tema que cria uma divisão ideológica, principalmente entre a direita e a esquerda na política. Historicamente, o estado de bem-estar social representou um incomparável progresso na vida das pessoas em geral e nas condições de trabalho. A saúde, a expectativa de vida e a segurança social desenvolveram-se extraordinariamente num espaço de tempo relativamente curto, tal como o Estado social que surgiu no século passado, sucessor do Estado providência. É de realçar o mais importante, que foi o de dar às pessoas uma dignidade desconhecida. A caridade humilhante foi gradualmente substituída pelos direitos sociais universais, pelos quais as pessoas não necessitavam de permanecer de chapéu na mão a pedir esmola, quando eram atingidas por alguma desgraça, como doença, acidentes ou desemprego. O risco que até então era individual passou a ser colectivo, com um grau de desenvolvimento económico e uma segurança social que nenhuma geração antes tinha experimentado. Razão porque, o Estado social teve um excepcional apoio por parte das pessoas. Os liberais afirmam que a liberdade pessoal e a segurança colectiva são diametralmente opostas. Vêem o indivíduo como um ser contrário à colectividade, a liberdade oposta à igualdade, e sem sentido, as construções ideológicas. O movimento operário na sua luta por melhores condições de trabalho considera que a liberdade e a igualdade são um e o mesmo conceito, unidos pela solidariedade mútua. Liberdade, segurança e solidariedade constituem um todo orgânico. Adquiririam os liberais, das experiências do movimento operário e pela evidência dos factos, o conhecimento de que não existe liberdade sem segurança, e segurança sem liberdade. Sem solidariedade não é possível ter segurança e liberdade. O homem é um ser inseguro e inquieto que não pode ser livre. Está para além de qualquer entendimento, de que a enorme concentração de poder nas mãos de um pequeno grupo de capitalistas não seja problemático para os liberais, enquanto a organização e luta colectiva dos trabalhadores para resistir a esta concentração de poder, é vista como uma ameaça à liberdade. Sabemos que nada durante o século

h

16 11 2012

C I D A D E S I N V I S Í V E I S

passado contribuiu tanto para a liberdade individual, como a luta colectiva do movimento operário. A pobreza, necessidade e miséria são os pólos opostos da liberdade, revistam a forma política, cultural ou outras de supressão. O movimento sindical travou uma batalha em ambas as frentes. Os modernos neoliberais tornaram-se menos abertos ideologicamente e nas últimas décadas concentraram-se na eficiência e na denominada racionalidade económica. São vozes que protestam pelo aumento da despesa pública, planeamento liberal do bem-estar, crescimento económico sustentável e inovação. Falam em pôr almofadas debaixo dos braços das pessoas, retirando os incentivos que necessitam para fazer o seu melhor, pois a solução está em maior competição e mais mercado, menos impostos, menor dimensão do sector público e menores diferenças de rendimentos. Os pobres antes de empobrecerem devem ser motivados a fazer um esforço. Os ricos necessitam do oposto. A fim de saber quais seriam os efeitos negativos dos mitos neoliberais do estado de bem-estar o “Canadian Centre for Policy Alternatives”, efectuou um estudo e publicou um relatório em 2006, que compara as altas e baixas taxas de impostos dos países, com base em indicadores económicos e sociais. Assim, vários países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) foram agrupados em relação aos seus níveis de tributação. A principal conclusão do relatório, é de que os países com mais altas taxas de impostos, têm maior sucesso em alcançar os seus objectivos sociais que os países de mais baixas taxas de impostos. As asserções dos neoliberais de que a elevada despesa pública, crescimento económico sustentável e a inovação não têm uma base científica,

parece não proceder, pois instituições internacionais, incluindo vários organismos da ONU, que publicaram vários relatórios nos últimos anos, confirmam que os países nórdicos com altas taxas de impostos, apresentam altas pontuações relativamente aos critérios socioeconómicos. Os autores do relatório analisaram cinquenta diferentes critérios para o desenvolvimento social. Os países nórdicos, com altas taxas de impostos tiveram pontuações consideravelmente mais elevadas que os Estados Unidos e o Canadá em vinte e nove critérios, e melhores pontuações em outros treze critérios. Os países com mais baixas taxas de impostos, só tiveram uma pontuação mais elevada em sete critérios, sendo as diferenças insignificantes. Em comparação com os países de mais baixas taxas de impostos, os resultados mostraram, que os países nórdicos de maiores taxas de impostos tiveram maiores pontuações nas seguintes áreas: A proporção de pessoas pobres foi consideravelmente menor, os idosos tinham pensões consideravelmente mais elevadas, o rendimento distribuído foi significativamente mais igualitário, a segurança económica (que é um dos pilares da segurança dos estados modernos e desenvolvidos) foi consideravelmente melhor, a mortalidade infantil foi consideravelmente menor, a expectativa de vida era consideravelmente maior, a confiança entre as pessoas era consideravelmente maior, a confiança nas instituições públicas foi consideravelmente maior e as pessoas tiveram muito mais tempo de lazer. Muitos críticos concordam que os países nórdicos, ou os países com mais altas taxas de impostos, têm melhor segurança social e igualdade económica, mas afirmam que pagam um alto preço pela política social, apresentam um baixo crescimento econó-

13

mico e uma menor capacidade de inovação. O relatório referido, com base em reconhecidas e abrangentes estatísticas internacionais, não confirma essa tendência. Os trinta e três indicadores económicos depois de analisados e que constam do relatório revelam que os países nórdicos tiveram as mais altas pontuações em dezanove indicadores e os Estados Unidos e Canadá em catorze. Durante quinze anos até a data da publicação do relatório, o crescimento económico dos Estados Unidos e Canadá foi ligeiramente superior ao dos países nórdicos, bem como o crescimento da produção e do emprego. Todavia, os países nórdicos foram ligeiramente superiores em critérios, como o Produto Nacional Bruto (PNB) por habitante, o Produto Interno Bruto (PIB) por pessoa empregada ou por hora trabalhada, ou seja a produtividade, a taxa de participação da força de trabalho e a criatividade e inovação (medida através de índices internacionais). Assim, vemos que os mitos neoliberais acerca do Estado de bem-estar, como sejam a tributação e ineficiência do sector público, não têm um suporte sólido em termos reais. Sendo fáceis de refutar não representam os maiores conflitos existentes entre a direita e os liberais na política. O problema relaciona-se com o poder político e económico que representam, e que lhes permite ter uma opinião universal, mesmo quando os seus pensamentos não têm fundamento válido. Quando o Estado de bem-estar tem estado sob pressão e sujeito a cerrados ataques nos países nas últimas décadas, é porque não foi capaz de proporcionar o bem proposto. São reconhecidas as fraquezas e problemas do Estado de bem-estar, não podendo ser retirada a conclusão de que os países que desenvolveram as mais avançadas formas de bem-estar social (nomeadamente, os países nórdicos) deixem de ser os que melhor pontuação apresenta no total dos critérios socioeconómicos. Melhor que as intenções, devem existir outras razões para o facto da boa sociedade o atacar. Mais que tudo qualquer razão, o Estado de bem-estar existe e encontra a sua forma e conteúdo, através do conflito de interesses das diversas classes operada na sociedade. A tarefa capital será a de identificar, como os diferentes interesses das classes são expressos no Estado de bem-estar, como um modelo social. A era de austeridade imposta pelos governos na Europa, depois de trinta anos de reformas neoliberais, parece indicar que o futuro do Estado social de bem-estar parece comprometido. O Estado social de bem-estar deve ser encarado como o resultado de um compromisso de classe fabricado no século passado, que operou enormes mudanças nas relações de poder e na sociedade dos países. A crise ocidental e nomeadamente a europeia, parece querer fazer do modelo de Estado social algo do passado, que será substituído pelo Estado de trabalho ou de prestações sociais condicionadas.


16 11 2012

h

14

华佗

O L H O S A O A L T O

gente sagrada

José Simões Morais

HUA TUO, DEUS PATRONO DOS CIRURGIÕES HUA TUO nasceu entre 140 e 145 na vila de Qiao em Peiguo, hoje Bozhou, província de Anhui. Conhecido por Fu, tinha o nome de cortesia Yuanhua e viveu de uma forma simples, apesar de ser um excelente médico. Todos os seus escritos sobre medicina desapareceram como é o caso de Hua Tuo Nei Sh, (Medicina Interna de Hua Tuo), de Hua Tuo Fang, (Prescrições de Huo Tuo) e Zhen Zhong Jiu Ci Jing, (Método de usar Acupuntura e Moxibustão). A História conta que, apesar de ter dois discípulos, foi a quem tomava conta dele na prisão, ordenada por Cao Cao, que Huo Tuo quis entregar os seus escritos. Este, porém, com medo das represálias do general Han, recusou, o que levou Huo Tuo a queimá-los. No Ling Fong Miu em Macau ouvimos, por quem toma conta do templo, a história do manuscrito estar já quase todo devorado pelo fogo quando alguém conseguiu salvar duas folhas, que continham a técnica de laquear o canal reprodutivo dos animais masculinos. Outras histórias contam que através da medição do pulso de uma paciente, Hua Tuo fez o diagnóstico da morte intra-uterina de um ser que se mantinha dentro do corpo da parturiente. Advogava o exercício físico como uma das terapias para o corpo e por isso, incentivava a prática de wuqinxi, que desenvolveu. Como distinto cirurgião, Hua Tuo fez vários tipos de operações, usando uma anestesia que combinava mafeisan, uma erva medicinal (cannabis cozido) com vinho e acupunctura. Especialista em cirurgia fez operações com grande sucesso para remover tumores no abdómen e no intestino, assim como tumores na cabeça. Como ficou registado, passado um mês os pacientes já levavam uma vida normal. Na altura que Huo Tuo era já

muito famoso, o general da dinastia Han, Cao Cao, que sofria de terríveis dores de cabeça, mandou-o chamar. Aí passou longo tempo aliviando as dores com o recurso à acupunctura. Um dia pediu ao general para ir a casa, já que a sua esposa se encontrava doente. Por isso partiu e como a demora era já longa, Cao Cao mandou enviados com a ordem ao médico para regressar imediatamente. Como não a acatou, Cao Cao mandou os seus soldados trazê-lo à força e à chegada prendeu Huo Tuo. De nada valeram as súplicas de Xun Yu, conselheiro de Cao Cao, para poupar a vida a tão distinto médico e este foi morto, decorria o ano de 208. Pouco tempo depois, o filho favorito de Cao Cao, Cao Chong, adoeceu e morreu, o que levou o general a arrepender-se de ter morto o médico que poderia ter salvo o seu filho. Com um talento e sabedoria tão fora do comum, este reputado médico foi considerado pelos daoistas um Shenyi (milagroso médico) e após morrer passou a ser denominado Hua Tuo zaishi (Hua Tuo continua a viver). Em sua homenagem, 34 pontos de acupunctura ficaram com o seu nome. De salientar que o uso da anestesia na China deu-se 1600 anos antes de ser descoberta no Ocidente. No Hong Kung Miu, situado no Largo do Pagode do Bazar, existe na parte direita uma capela dedicada ao grande médico e cirurgião da dinastia Han. Esta foi mandada construir por um dos comerciantes que ofereceram dinheiro para o templo ser edificado e por ter adoecido prometeu que, se se conseguisse curar, construiria uma capela ao deus da Medicina, Wa To, como é conhecido em cantonense. Em Macau, muitos outros templos têm também a imagem de Hua Tuo e entre eles estão o Ling Fong Miu, o Lim Kai Miu e o Tam Kong Miu.


16 11 2012

h

L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

15

O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Necessidade não significa que não hajam bens, outrossim que o povo é impulsivo e muitas as suas despesas.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 23 Os verdadeiros líderes de uma sociedade progridem no tempo certo, de modo que o fazem com justiça, e, assim, não se regozijam especialmente com isso. Quando o tempo não é o certo, retiram-se, deferindo com justiça, de modo que não se sentem especialmente descontentes com isso. Foi assim que um barão de outrora, que abdicou em favor do seu irmão mais novo e é citado sempre como um exemplo de virtude, morreu à fome nas montanhas sem qualquer ressentimento. Abandonou o que desprezava e obteve o que prezava. *** A arte da liderança humana consiste em gerir sem artificio e instruir sem falar; ser puro e calmo, imóvel, inabalavelmente consistente, delegando assuntos aos subordinados segundo o costume de modo que os deveres sejam cumpridos sem esforço. *** Quando o território é vasto devido à virtude e a liderança é honrada pela sua virtude, tal é o melhor. Quando o território é vasto devido à justiça e a liderança é honrada pela sua justiça, tal é o segundo melhor. Quando o território é vasto devido à força e a liderança é honrada pela sua força, tal é o mais inferior. *** Uma nação em desordem parece cheia; uma nação em ordem parece vazia. Uma nação moribunda parece necessitada; uma nação que sobrevive parece superabundante. Vacuidade não significa que não existam pessoas, mas que todas se atêm ao seu trabalho; plenitude não significa que existam muitas pessoas, mas que todas buscam trivialidades. Superabundância não significa muitas posses, outrossim que os desejos são moderados e os afazeres mínimos. Necessidade não significa que não hajam bens, outrossim que o povo é impulsivo e muitas as suas despesas Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


FERNANDA DIAS Uma leitura do

YI JING O SOL, A LUA

E A VIA DO FIO DE SEDA A nova tradução do livro que há milénios ilumina a civilização chinesa

h - Suplemento do Hoje Macau #59  

Suplemento h - Parte integrante da edição de 16 de Novembro de 2012

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you