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PARTE integrante DO HOJE MACAU Nツコ 2812. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

artes, letras e ideias

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China nossa


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No décimo aniversário do falecimento de Maria Ondina Braga

Macau por dentro

Pedro Baptista

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aria Ondina Soares Fernandes Braga nasceu em Braga em 13 de janeiro de 1932, na mesma cidade onde veio a falecer em 14 de março de 2003. No entanto, ao contrário, do que se poderia depreender da coincidência, a vida de 71 anos da escritora minhota foi tudo menos sedentária, sendo antes um exemplo da diáspora portuguesa. Feitos os estudos liceais, na década de 50, Maria Ondina seguiu para Paris onde estudou na Alliance Française, e para Londres onde se licenciou em Literatura Inglesa na Royal Society of Arts. Entretanto, aos 17 anos tinha tido a sua

iniciação literária com a publicação do primeiro livro de poemas, a que se seguiu um outro ao celebrar dos 20, primícias que partilhou com crónicas de tipo social em jornais bracarenses. Em 1959, o espírito de viajante que a marcaria para toda a vida, mesclado com o fascínio pelo conhecimento de outros mundos e sobretudo de outras gentes, tão visível em toda a sua obra, fê-la rumar a Angola a lecionar português e inglês, posto o que seguiu para Goa, onde se encontrava, também lecionando, aquando da ocupação indiana, em dezembro de 61. Tanto em Angola, como na Índia, Ondina Braga sentiu o vórtice do crescente turbilhão transformador que alastra-

va no Império e que transparece, sob a serenidade da sua prosa, emergindo em observações, sinais, personagens e sobretudo ritmos de mudança, tantas vezes simbólicos, a funcionarem como presságios.

De Goa para o Santa Fé

Entre muitos goenses que optaram pelo Pacífico Sul, após a queda do Estado português da Índia, também a professora portuguesa que trabalhava em Goa seguiu para Macau, onde, depois de tanta experiência acumulada, terá tido o tempo e o sossego necessários ao início da sua atividade de contista, cronista e novelista que viria a florescer intensa, tal como a actividade docente, sempre lec-

cionando português e inglês, desta feita no colégio macaense de Santa Fé, atualmente o Colégio de Santa Rosa de Lima. Ao olhar para a juventude pré-literária de Ondina Braga, à escolha da sua formação, à determinação com que decidiu o seu percurso profissional, à entrega à tradução como alternativa profissional e à própria opção de vida pessoal solitária, retém-se a ideia de que a professora bracarense tudo fez no sentido de vir a ser o que realmente foi: acima de tudo uma escritora. Em 1966, sem ter deixado de ficar impresso, a partir do lado macaense do Canal dos Patos, o fervilhar da primeira revolução cultural chinesa, que haveria de ter como corolário político, as famosas


Bibliografia

movimentações comunistas, em novembro e dezembro desse ano, denominados do “Um, Dois, Três”, Maria Ondina Braga regressou a Portugal, estacionando agora em Lisboa, onde aprontaria a ata literária dessa longa expedição, com o seu primeiro livro de crónicas, significativamente intitulado “Eu Vim para Ver a Terra”, já nas bancas, e um livro de contos, de travo chinês, apreendido sem dúvida em Macau e aí gerado e gizado, intitulado ”A China mora ao lado”, que logo viria (1966), com todo o mérito, a ser prémio dos Manuscritos do SNI e publicado dois anos depois.

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Obras

“A China Mora ao lado”

Do ponto de vista literário, e deixando as primícias poéticas do fim da adolescência, “A China mora ao lado” é a primeira grande obra de uma escritora que afirmará os contornos da sua escrita maioritariamente através do registo contista. Constituído por 14 contos, por eles perpassa o encontro da delicada medicina chinesa com o olhar ocidental, o carácter de Macau e das suas várias portas como terra de exílio, o cosmopolitismo e a diversidade da cidade dos quiromantes e dos adivinhos, dos opiómanos e das prostitutas, das professoras do liceu, dos padres e dos monges, do fumo e do ma-jong, da venda de meninas por parte das avós aos senhores ricos que, por sua vez, em cada nova Lua adquiriam uma nova mulher, das bailarinas e das cantadeiras, de antigas senhoras nobres na miséria a irem-se na lorcha com os tufões, do fim do Império do meio com as castas e os senhorios, das saudades da China, das saudades do Norte, do livro dos filósofos, dos fantasmas, da mulher chinesa e da sombra de onde concebia, da memória da barbaria da ocupação japonesa marcando irredutível gerações sucessivas, da guerra civil de onde parece chegarem ainda, Rio das Pérolas abaixo, os sucessivos brados e choros das continuadas revoluções cantonenses, dos antigos e dos novos mortos, dos deuses e dos Deus em todos os natais, da esperança e da lucidez, dos sussurros e do gorgolejar do chá, com os olhos do Dragão faiscando nas noites, a acentuar os mistérios dos caminhos do Meio; ou a vida ocidental no torreão bem chinês e contudo, tanto próprio como universal, mesmo durante a administração portuguesa, vivendo a par e par com a presença inglesa e sobretudo convivendo com uma civilização milenar que, mesmo através da aparente submissão ou sobretudo através dela, vai triunfando, porque como reza o Dao, nada precisa de fazer, antes pelo contrário, para vencer… com-vencer…; mesmo quando se celebra a morte do tempo, quem sabe se o que parece, o suicídio dos deuses… Todavia, na mão de Ondina Braga, estas silhuetas que se movem em contornos esbatidos como que se fundindo, unificados pela nuvrezia emanada do Delta do Rio das Pérolas, cujas sequelas alastram pelo Guangdong afora, se não mesmo pelo Norte acima, em erupções histórico-

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Todavia, na mão de Ondina Braga, estas silhuetas que se movem em contornos esbatidos como que se fundindo, unificados pela nuvrezia emanada do Delta do Rio das Pérolas, cujas sequelas alastram pelo Guangdong afora, (...) em erupções histórico-políticas e civilizacionais capazes de encherem centenas de cronicões, encerram personagens solitários, cuja existência é um drama, uma memória, uma história, um combate e um projeto, cada um por si só, constituindo a verdadeira teia dos enredos da arquitetura ficcional da obra de Ondina Braga (...) conseguindo o milagre literário de plasmar os perfumes da condição humana na sua realidade mais esconsa

O Meu Sentir (1949) – Poesia, Braga: ed. da Autora. Tip. Cruz. Alma e Rimas (1952) – Poesia, Braga: ed. Da Autora. Of. Gráf. Pax. Eu Vim para Ver a Terra – Crónicas de Angola, Goa e Macau, 1965. Lisboa: Agência-Geral do Ultramar. A China fica ao lado – Contos de inspiração chinesa escritos em Macau. Prémio de manuscritos do SNI em 1966. 1ª edição, Lisboa: Panorama, 1968; 2ª edição, Amadora: Bertrand. 1974; 3ª edição, 1976 (livro de bolso); 4ª edição, bilingue, português e chinês, pelo Instituto Cultural de Macau, 1992. Estátua de Sal – Autobiografia romanceada, escrita em Macau em 1963 – 1ª edição, Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural 1969; 2ª edição, Lisboa: Círculo de Leitores. 1976; 3ª edição, Lisboa: Ulmeiro, 1983. Amor e Morte – Contos. Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural. 1970. Prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa. Os Rostos de Jano – Novelas. Amadora, Bertrand. 1973. A Revolta das palavras – Contos e crónicas. Amadora, Bertrand. 1975. A Personagem – Romance. Amadora, Bertrand. 1978. Mulheres escritoras – Biografias. Lisboa: Bertrand. 1980. Estação morta – Contos e novelas. Lisboa: Veja. 1980. O Homem da ilha e outros contos – Contos e novelas. Lisboa: Ática, 1982. A Casa suspensa – Novela. Lisboa: Relógio d’ Água 1982. Angústia em Pequim – Narrativa – 1ª edição. Lisboa: Ulmeiro. 1984; 2ª edição, Lisboa: Rolim. 1988. Lua de sangue – Novelas. Lisboa: Rolim. 1986. Bibliotecas: Memórias e mais dizeres. [pref. Henrique Barreto Nunes]. Braga: Bibl. Pública. 1988. Noturno em Macau – Romance. Lisboa: Caminho. 1991. 2ª ed. Caminho. 1993. Prémio Eça de Queirós. A Rosa de Jericó – Contos. Lisboa: Caminho, 1992. A Passagem do cabo – Contos e crónicas. Lisboa: Caminho, 1994. A Filha do Juramento − Contos Braga: Ed. Autores de Braga. 1995. Vidas vencidas – Contos e crónicas, Grande Prémio de Literatura ITF 2000, Caminho, 1998. Quando o Claustro é Sem Ninguém − Braga, Fundação Cultural Bracara Augusta. 2000. O Jantar Chinês e outros contos − [ilustração Carlos Marques]. Lisboa: Caminho. 2004.

Entrevistas 26.12.1982 – a José Jorge Letria, “O Diário”. 09.04.1983 – a Artur Moura, “Correio do Minho”. 13.04.1983 – a M. Antónia Fiadeiro, “Diário de Notícias”. 02.12.1988 – a Inês Pedrosa, “Independente”.


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-políticas e civilizacionais capazes de encherem centenas de cronicões, encerram personagens solitários, cuja existência é um drama, uma memória, uma história, um combate e um projeto, cada um por si só, constituindo a verdadeira teia dos enredos da arquitetura ficcional da obra de Ondina Braga, fazendo dos seus livros uma trama de entes invisíveis que o leitor é convidado a perscrutar para lá das sombras, recriando-os, sentindo em cada gesto e em cada fala ou em cada impressão da narradora, uma longa história onde a história acumulou tensões, devaneios, sonhos, tragédias e frustrações, que determinam a nuança do tom da palavra e o tempo dos silêncios, a subtileza do gesto contido ou do sublimado, conseguindo o milagre literário de plasmar, através de subtis eflúvios, para o leitor, os perfumes da condição humana na sua realidade mais esconsa, reconcóvios onde cada um alojou o seu jardim secreto que todos os dias rega, poda e beija, no sonho ou na vigília, roseiral do quotidiano a desfiar e desafiar o rosário da vida… É quiçá este o eixo decisivo e decisor de toda a obra de Ondina Braga…

“Noturno em Macau”

Que se expressa na sua obra mais madura e mais conseguida, pronta e prontamente publicada apenas em 1991, mas que aquilo inserimos de imediato, porque versa a década de 60 e foi de certeza trabalho de muitos anos antes da publicação, que lhe valeu o prémio Eça de Queirós − “Noturno em Macau”. É o livro mais conseguido da cronista e contista que, depois de se aventurar no romance em “A Personagem”, 1987, entre mais de uma dezena de livros de contos e de crónicas, se lança agora no seu segundo e derradeiro romance. Se é verdade que as características da crónica e do conto estão presentes em cada uma das peças do puzzle do romance de Ondina Braga, também é verdade que, do xadrez erigido, a montagem do intrincado romanesco é perfeitamente conseguida, através da tessitura de uma malha, de tipo caleidoscópica, susceptível das mais variegadas leituras. Não é uma obra qualquer, embora já tenhamos percebido que a relativa marginalização a que tem sido votada em Macau − ainda assim a obra mais procurada e lida da autora minhota – ou pelo menos o silêncio que a tem envolvido, é uma espécie de assobio para o ar, tantas são as problemáticas, contradições e mesmo provocações que a escritora vazou superiormente para a obra, construindo assim uma realidade de dissonâncias e confrontos, expressos ou silenciados, que pode ignorar quem quiser viver à margem das realidades, mas que são da maior relevância para quem optar por mergulhar na consciência do que se passa, para agir, ou não, em consonância. Ester é uma professora portuguesa vinda de Goa, em resultado da acção da Vijay indiana de 1961, apaixonada por um chinês mas deixando ambiguidades so-

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Do estado (deplorável) da leitura em Macau de maria Ondina Braga 1- A Livraria Portuguesa, comercial e privada, dispõe, pelo menos desde há um ano, apenas de um obra de Maria Ondina Braga, por sinal, a mais conseguida e a mais importante, com vários exemplares que vai repondo à medida das vendas. Todavia há pelo menos meia dúzia de títulos da escritora luso-macaense com reedição recente, nomeadamente as que têm Macau como pano de fundo, que não se percebe porque não estão disponíveis. Respeitando, claro, a soberania do dono, que todavia, pode estar descansado, pois não receberá a fatura da consultadoria não solicitada. 2 - Da vintena de obras de Ondina Braga, a Biblioteca Central de Macau que é necessariamente a herdeira do depósito legal da administração portuguesa, só dispõe de muito poucas e destas, nenhuma delas põe à disposição do público, porque as considera demasiado antigas, estando a falarmos de obras com menos de 30 anos de edição. 3 - O Instituto Cultural editou em 1991 a colectânea de contos “A China mora ao lado” que, não se encontrando à venda em sítio nenhum, se presume esgotadíssima. 4 - O IPOR tem na sua biblioteca um exemplar de uma obra de Maria Ondina Braga, precisamente a atrás referenciada, o que não é de espantar porque é esse o panorama do Instituto de deserto, arcaísmo e obsolescência em matéria de literatura portuguesa. Ora não se compreende então para que serve o IPOR. E é confrangedor imaginar que, enchendo a boca de bilinguismo, haja quem pense ser possível ensinar língua portuguesa sem os referenciais literários e culturais da portucalidade e lusofonia, sobretudo aqueles que mais incidem sobre a realidade histórica da região. 5 - Temos a esperança que algo mude depois desta pedrada no charco. E se conjuguem esforços para uma edição macaense, ou brácaro-macaense, ou de qualquer outra forma, de uma obra completa de Maria Ondina Braga, com o trabalho de arrumação organizacional e de estudo crítico que necessita, para se tornar uma jóia do património multicultural em primeiro lugar da RAEM, mas também da China e de Portugal.

bre uma possível relação com um oficial português; uma misteriosa chinesa, Xiao, é refugiada da China continental; a goesa Gandhora Gois, Dhora só e Dhora solitária, também vinda após a acção de Neru, nova professora primária do Colégio, cabendo-lhe suportar o pesado anátema de preencher o tabu da estória da escandalosa Arlete que deixou o pobre marido, o médico Esaú, para se raspar para a pouca-vergonha do livre amor com um comerciante de pérolas australiano; finalmente, para fechar a tétrada das protagonistas, a freira Rosa Mística. Nenhuma é de Macau por nascimento o que é significativo da leitura que Ondina Braga faz de Macau, por estes anos da primeira década de 60. Porque, com atenção obteremos dados que nos permitirão datar grosso modo o objecto da narrativa, algures entre a morte do Papa João XXIII e o início da Grande Revolução Cultural Proletária, ou seja entre 1963 e 1966, período em que a escritora estanciou na Pérola do Oriente! Sabemos como Ondina Braga escreve grande parte dos seus contos e integralmente este romance: as personagens vão deslizar, transfigurar-se, interpenetrar-se, desaparecerem nuns silêncios para reaparecerem em outros, pouco delimitados nos contornos, optando pela flexibilidade que lhes permite o esbatimento, separados pela desconfiança, pela amizade a medo, pela timidez, pela pudicícia exagerada também oriunda de repressões, contenções e solidões a mais. O discurso indirecto livre expresso pelo ritmo poderoso da maturidade literária permite-lhe plasmar as vozes em cochichos, os silêncios em sussurros, os deveres em devaneios, os olhares, os gestos em segredos, em misteriosas cartas, em gavetas, em caixinhas guardadas nos armários e sobretudo nos recôncavos das mentes … As palavras das personagens acomodam-se ao sentido das aparências mais convenientes que são a marca do visível, a trama romanesca, a instigar dionisíaca a imaginação do leitor, faz precisamente o contrário, empurrando-o página a página para a descoberta e a reconstrução no invisível da realidade vera de cada um. Mas não se trata apenas de uma obra de cruzamentos de lirismos múltiplos, de uma impressionante descrição sobre a evolução psicológica das personagens ou de uma reflexão narrativa sobre o universal e local drama da condição humana, em todos e em cada um. Tão-pouco mais um livro a marcar indelevelmente uma fase histórica da longa e vasta diáspora portuguesa, ou a realidade da plataforma histórica macaense como ponte de Cristal entre o Ocidente e o Oriente. O East-West. Mais do que tudo isso, “Nocturnos em Macau” é um livro totalmente macaense, na medida em que se possa ser inteiramente macaense em seja o que for. E nesse campo, o romance, longe de pacífico, de abafar ou de fugir às realidades das contradições, étnicas, culturais e sociais, para encontrar uma consensualidade em torno de uma pre-


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tensa harmonia macaense mais ou menos idílica ou idealizada, pelo contrário, aprofunda a trama das desconfianças exibindo-lhes progressivamente as arestas, as frestas, os ferretes e os ferrões, até lobrigar os respectivos sistemaa de preconceitos, discriminações, marginalizações, explorações. “Você tem um fraco pelos chineses, anda muito com essa professora china. Sim, somos vizinhas de quarto. Hum… chineses… Que estará por trás daqueles olhos, não me diz? Olhos de rato-cego…”. “Amar um chinês em Macau, uma portuguesa, uma metropolitana! Tratasse-se, vamos lá, de macaense, mas chinês!” Macau, por sua vez, não perdoava porque era “um meio manhoso, consciências leves, bocas pequenas, bafos compridos…” É esta conflitualidade que Ondina Braga em lugar de minimizar, trata pelo contrário de enfatizar, equacionando o que mais interessa, a relação da alteridade, o problema do conhecimento do outro e sobretudo o do desconhecimento... Ester afirma que veio para Macau para conhecer o povo chinês, todavia nunca perpassaria pela cabeça de Xiao ir a Portugal para conhecer os portugueses pela prosaica razão de que os que “já conheci bastavam-lhe. Os tropas, ali, sem nada que fazer, faziam filhos às chinesas”. O que leva inelutavelmente ao comentário de que “fáceis, as chinesas, em Macau, infelizmente”. Mas que, todavia, se soerguiam: “Nem negras, nem escravas”, contrapõe Xiao… “O pior de tudo é que essa cena tanto podia passar-se com a mestra dos estudos como com qualquer um em Macau: igual o espanto, igual o preconceito. Um chinês? Credo, chinês! Hoje em dia um perigo até os chinas. Ver só o que eles estavam a fazer lá no seu país, a virar tudo do avesso, a posição, a propriedade, tudo quanto importava, enfim, nos países prósperos. Daí, o povo fugir para cá. Macau cheio dessa gentinha sem eira nem beira. Tempo em que, em Macau, chineses dignos de reverência, as suas casas de telhados de louça, riquexó privativo, e a criadagem, e as tai-tais. Sun Yat-Sen, um exemplo, o seu palacete…” Não nos alongaremos, para deixar, como compete, para o leitor, que procuramos incentivar, o pitoresco da loja e biblioteca comunistas mesmo, “no centro da cidade”, o “vespeiro” revolucionário do Porto Interior, “os Guardas Vermelhos a fazer vista grossa para o Canal dos patos, as refeições a 5 patacas, o tráfego intenso dos sam-lun-ché, o Lago de Jade e, sobretudo, como já apontamos, a capacidade para re-criar a narrativa chegando à verdadeira história que Ondina Braga nos passa entre as palavras e sobretudo sob as palavras, no mundo do invisível onde tudo o que importa se passa...

Ser escritor

Antecipamos um pouco estas considerações sobre “Nocturno em Macau” porque passando-se a trama na primeira metade de 60, em Macau, que corres-

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05.07.1989 – a Judite Barbosa, “Letras & Letras”. 05.07.1989 – a José do Carmo Francisco, “Ler”, nº 12. 30.07.1991 – A Ana Paula Costa, JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias 05.04.1992 – A Maria Teresa Horta, Diário de Notícias. 26.06.1992 – A Fernando Assis Pacheco, O Jornal. 01.07.1992 – A João Robus, Letras & Letras. Set. de 1992 – A M. António Fiadeiro, revista Máxima, nº 48. 25.10.1995 – A Maria Teresa Lobato, Diário do Minho. 09.12.1995 - Mário Santos, Leituras / Público Cinema Autora do argumento cinematográfico para a curta-metragem, 21 minutos, “A Lição de inglês”, realização de Vítor Silva, 1990. Colaborações Colaborou nos suplementos literários de O Comércio do Porto, Diário de Notícias, Diário Popular, A Capital e no Letras e Artes e Colóquio-Letras.

ponde aos cindo anos em que a escritora viveu no território, é para nós certo que foi obra de trabalho de muitos anos, muita reescrita e muito apuramento. Mas é sobretudo significativo que Ondina Braga tenha necessitado de uma experiência de 5 anos em vivência direta, uma distanciação de quase 30 e se tenha abalançado na publicação do seu melhor romance, quando tinha já 59 anos, sendo que “A Personagem”, o anterior, foi publicado quando a escritora tinha 55 anos de idade. Num caso ou noutro, muita vida, muita experiência, muitas crónicas e contos, muita tradução de grandes romancistas, muita leitura e muito trabalho à espera do sinal interior que anuncia a maturidade e a predisposição do ficcionista para o romance. Quando se é jovem e até muito jovem podemos ser poetas, mantendo ou não essa veia para sempre na forma poética propriamente dita, ou mantendo-a como travo na obra literária que entretanto assumiu outras expressões. O exemplo de Rimbaud é significativo de mais, escreveu na adolescência e depois só silêncio. O mesmo, mas menos habitual, acontece com o conto, embora este além de se poder compaginar com a explosão criativa da juventude, tem as suas melhores realizações na língua portuguesa ou, por exemplo, na russa, na fase em que o escritor, mesmo que não essencialista, já só procura libertar-se de toda a canga acidental. Mas não no romance! É um género literário que requer tanto uma experiência vivida como literária que não se compagina com a juventude! E para tratar um tema e o transformar em pano de fundo ou trama é preciso tê-lo vivido admiti-

mos mesmo que indirectamente. É por isso que dá para sorrir, no mínimo, ver viajantes, há pouco saídos da adolescência, que estanciam durante meia-dúzia de dias em um lugar e conclamam a sua disponibilidade para, após essa experiência, desenvolverem trabalho literário sobre esse “espaço”, porque tem muitas potencialidades! Como se fosse o mesmo que vender bacalhau ao fardo ou trabalhar na colocação de vinhos. Só podemos estar perante uma brincadeira, ou então o que chamam literatura já desceu ao ponto da arte de fazer longas folhas de papel impresso para embrulhar sardinhas no dia seguinte, que é um digníssima profissão mas não literatura, acrescido todavia daquela inteira falta de pudor e sentido da qualidade que constitui o cabotinismo. Virando a agulha e procurando ser em algumas coisas conclusivo, sem desprimor para os vários e loquacíssimos narradores de estórias que deixaram obra em língua portuguesa em Macau, alguns dos quais com lugar indiscutível no areópago da literatura, Maria Ondina Braga é, a nosso ver, de longe, a melhor escritora ou escritor contemporânea de língua portuguesa que alguma vez escreveu sobre Macau ou tendo Macau como pano de fundo das narrativas novelísticas…

Uma longa carreira literária… até Beijing

Nos primeiros anos, após o retorno a Portugal em 1966, Ondina Braga prosseguiu com a publicação de mais alguns livros ligados à experiência exterior e interior tida, ao seguir a rota dos portugueses, efectuada há 500 anos por Jorge Álvares, sendo galardoada, em 1970,

Tradução para o português Arthur, Ruth, O Retrato de Margarida, Verbo, 1973, 1975 Baldwin, Faith, Todas as Coisas Têm o Seu Tempo, Minerva, sem data Bernard, Raymond, A Terra Oca, sem data Blackburn, John, Um Anel de Rosas, Minerva, 1967 Brand, Millen, A Esperança dos Vivos, Europa América, 1969 Buck, Pearl, A Mãe, Bertrand, sem data Caldwell, Erskine, Medora, Bertrand, sem data Chamers, Peter, Pode Entrar sem Bater, Minerva, 1969 Charles, Theresa, Doente Apaixonada (Romance), Minerva, sem data, Círculo de Leitores, 1ª e 2ª edição, 1984 Charles, Theresa, A Maneira dos Homens Amar (Romance), Minerva, sem data Charzat, Michel, George Sorel e a Revolução do Século XX, Iniciativas Editoriais, 1977 Crichton, Robert, O Segredo de Santa Vitória, Minerva, 1967 Dostoievski, Fiodor, O Eterno Marido, Editores Associados, 1975 Énard, Jean-Pierre, Daniel e Catarina à


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com o Prémio Ricardo Malheiros pelo seu livro de contos “Amor e Morte”. Como vimos a década de 70 foi também extremamente prolixa para a actividade literária de Ondina Braga, estreando-se em 1978, no romance, com “A Personagem”. Mas em 1982, quando, abandonada a actividade docente, em Lisboa, prosseguia a produção literária em ritmo intenso, não resistiu a mais um apelo dos antípodas, ou mais uma vez do Outro, e acedeu ao convite para voltar ao Oriente, desta vez para o coração do Império do Meio, a lecionar português no Instituto de Línguas Estrangeiras de Beijing, o que se haveria de repercutir literariamente na publicação de “Angústia em Pequim”, obra que teria grande impacte público e viria a ser acolhido com entusiasmo pela crítica, ainda existente na altura. Na verdade, a anuência ao convite nada tem de estranho porque Ondina Braga nunca deixou de manifestar, nos mais diversos momentos, em declarações e sobretudo em toda a sua obra, o seu fascínio pelo povo chinês, sendo disso mesmo mais uma expressão, “Angústia em Pequim”, que junta diversas impressões de uma mulher que optou pela solidão para ser escritora, e cuja descrição da cidade, em uma dúzia de linhas, poderá ser curiosa para comparar, com a Beijing de hoje, 30 anos depois, aqui em Macau onde tantos visitam a capital chinesa. «Cidade imensa, Pequim, monótona, prédios uniformes e escuros, o incessante rodar das bicicletas, um ar ao mesmo tempo desolado e majestoso, um povo calmo de olhar remoto e riso fácil. O autocarro do Hotel da Amizade leva-nos ao passeio de sábado, desta vez o Buda de Jade, sentado, jovem, feminil, os lóbulos das orelhas como brinco, as plantas dos pés voltadas para cima, sinal de tranquilidade. Depois, o jardim de um dos palácios imperiais do fim da dinastia Ming e última dinastia. Um parque dentro de parques, com a sua Biblioteca Consoladora do Coração, que, para os chineses, a inteligência aloja-se no peito e não na cabeça, conforme os ocidentais. Bei-hai: mar-do-Norte: o vasto canal a sugerir o oceano. E outeiros artificiais de rochas trazidas das mais longínquas partes do país, árvores em caramanchão e em gruta, poços-do-inferno, portas-do-paraíso.»

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Todavia, o essencial da obra de Ondina Braga, mesmo a partir de 1982, inspira-se nas memórias experienciais destas viagens e destas estadias, no conto e na crónica, destacado que já foi a publicação do “Nocturno”, em 1991.

A volta a Macau com “A Rosa de Jericó”

Nesse mesmo ano de 1991, Ondina Braga foi convidada a revisitar Macau, para o lançamento da 4ª edição de “A China fica ao lado”, desta feita por iniciativa do Instituto Cultural, por onde pontificava a excelência da figura de Luís Sá Cunha. E tudo indica que essa viagem animou literariamente ainda mais a escritora porquanto, nos anos seguintes, publica uma série de livros de contos e de crónicas em que a diáspora dos portugueses e a Pérola do Oriente têm o papel de principais protagonistas.

“A Rosa de Jericó” sai em 1992, contos escolhidos, inédito e já publicados num volume, organizados de forma muito curiosa e inteligente, em quatro secções denominadas livros, tantos quanto os Evangelhos em que alguns dizem que se apresentam as quatro personalidade de Jesus, cada um dos quais, por sua vez, constituído por um pentagrama de contos. O primeiro livro da tétrade intitula-se “versos de frio” e, embora nos imaginários saudosos, todo o Sul do Globo esteja presente, a toada das frustrações amorosas é carateristicamente europeia. Já o segundo, dedicado à China e a Macau, não podia encontrar melhor denominação do que “um desmedido silêncio” o que, por ser o que é, diz tudo do indizível do Meio. O terceiro, inesperadamente, agrupa-se como “árvores”, deixa um travo erótico aos perfumes fêmeos do Índico e do Pacífico-Sul, por

vezes às rubras madeiras brasileiras onde se instalou a saudade de que ficou saudosa a Bracara Augusta, suévica capital e prisciliana sede de louvor do Senhor e da Heterodoxia, mas também aos do húmus, na exuberância animal e vegetal, da cor, dos gemidos e do cosmo, nas águas do desejo, nos fogos dos feitiços das pedras, das coisas e dos homens. E dos “bichos”, último pentagrama da tetrákis, destes poemas em prosa de conto, de chuvas, de ventos e de levantamentos, memórias esquartejadas pela cegueira que faz a distância e faz o ódio, o outro para o outro, talvez seja apenas medo não do outro que está lá, mas do outro que está em nós, por sabermos a verdade inconfessável, de que também somos outro… a guerra, a memória, o esquecimento, o sonho falhado e o sono impossível na alucinação, se a porcaria da Pide fosse como a Gestapo e soubessem trabalhar em lugar “de se andarem a esfregar nas pretas” não se ouviria agora falar de socialistas nem quejandos! O melhor seria mesmo adotar um nome francês! Algo que significasse “a Imponente” ou coisa assim! Antes do recolhimento… Antes de “A Filha do Diabo”, Rahiva, fome de amor, também protesto e prodígio, conto inédito, um pouco versão popular do Fausto ou erudita do Livro de S. Cipriano, que encerra o último Evangelho, com o Arcanjo S. Miguel a trespassá-la com a lança, talvez uma metáfora do Mal no poder político, e portanto da revolução, talvez uma metáfora de Portugal, e do que ele precise, em qualquer leitura uma experiência literária original e inesperada de Maria Ondina Braga.

“A Passagem do Cabo”

Esta segunda viagem de Ondina Braga a Macau, revela-se histórica para esta última fase do seu percurso literário, não só com a organização de “A Rosa de Jericó”, mas também com a publicação, em 1994, de a “Passagem do Cabo”, na verdade uma segunda passagem, se não considerarmos a viagem a Beijing em 1982. Porque é disso que se trata neste livro mais de crónicas do que de contos, em que a escritora bracarense da diáspora


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afro-asiática pesquisa na sua arca do tesouro e repassa a sua passagem por Angola, da Ilha de Luanda ao Bailundo, da hora de chegada, por 1959 até à saída por altura dos acontecimento de 1961. Três crónicas são dedicadas a Goa onde a escritora tinha estado apenas um ano, talvez nem isso, experiência insuficiente para a geração de uma obra de fôlego com a Índia como pano de fundo. Apenas alguma apreensão dos sabores e dos cheiros, sensibilidade abafada pelo correr da evacuação civil precipitada pela invasão militar indiana que se seguiu à tentativa de ocupação desarmada dos satyaghras. A viagem da professora e escritora continuaria, sem os seus preciosos e pesados dicionários, mas ao menos com o Rainer Maria Rilke (quase certo a “Carta a um jovem poeta”) que, para grande desgraça, tendo escapado à invasão indiana, soçobraria na passagem de Hong Kong para Macau. Onde todavia, Delta do Rio das Pérolas afora, logo viria ao encontro da memória de Pessanha, memória em todos os sentidos, que aliás epigrafa: “ao meu coração um peso de ferro/ eu hei-de prender na volta do mar”. E num repente, ao sentir o “Oriente” ressurge a antiga nova poeta ou, como diria o Eugénio, a poeta antiga: Desabrochou em flor rara. Frágil e nua Como flor De qualquer jardim. Oh, quem ma arrancasse, Ébria de lua, E a desse de presente a um mandarim. (Poetisa? Não consigo, só mesmo se detestasse a Senhora!) São mais 40 páginas de 14 pequenas crónicas sobre os “Dias de Macau” a não serem perdidos para quem gostar do dizer Macau em português do bom, e para quem quiser entender nos gestos de hoje, alguns desfasados, muitos envoltos na estupefacção, outros no desinteresse, mas também muitos no ressentimento (silencioso, claro) um Macau que cresce esplendoroso mas também atropelando-se a si próprio e colocando-se frente ao perigo do seu próprio espezinhamento. Também as chaves do que haveria de ser o “Noturno” a obra-prima de Ondina Braga, mas muito mais do que isso, porque muito do sumo destas crónicas se perderam na arquitectura e na economia do romance. São crónicas dos anos 60, atualíssimas pois para quem quiser perceber que ver é lobrigar em cada gesto e em cada palavra o passado de que se fez o agora. Por outras palavras, haveria material abundante para outro romance macaense, não fosse a exigência literária que a romancista colocou nos poucos que escreveu. Mas também extravasam qualquer projecto, porque cada crónica vale por si precisamente no estado em que nos foi deixada.

Finalmente as crónicas desta repassagem derradeira de Ondina Braga por Macau, num último capítulo intitulado: “25 anos depois”, às voltas ainda com o fantasma de Pessanha e uma Senhora Amiga chamada a Morte! Personagem que se cruza várias vezes com a escritora, nos últimos tempos mais amiúde, e que a coloca de supetão na esteira literária de António Patrício, o de Cantão, outro grande da diáspora e amante dessa Senhora, que com ela se deitou, como com tantas outras, ao chegar a Macau umas décadas antes… Que terão o outro e o outro lado a verem com isto, para nós da pátria da língua portuguesa? Para nós de tão longe e de tão perto?

Vidas vencidas? O Livro do princípio e do fim!

“Vidas vencidas” é o último livro de contos e crónicas, pulicado em 1998, que valeu a Ondina Braga o Grande Prémio de Literatura ITF, em 2000. Como já alguém referiu, salvo erro José António Barreiros, admirador e devoto da escritora, se há espírito saudoso em Portugal, Maria Ondina Braga é o seu exemplo acabado, não só com alguns aspectos da sua obra como da sua vida, uma vez que, nos últimos anos, se vai recolher à Braga da nascença e da infância, para aí viver os últimos e perecer. Mais ou tanto como saudoso, o conteúdo literário e a vida de Ondina Braga celebram Orfeu na sua plenitude! Mas também para escrever… E “Vidas vencidas”, a derradeira obra da escritora bracarense da diáspora lusófona, parece-nos precisamente o Livro do Princípio e do Fim, do Nascimento e da Morte, da Infância e da Maturidade, dos bons velhos tempos e dos ainda melhores derradeiros. Para não dizer a obra do Amor e da Morte! Porque os primeiros estão nos segundos, e os segundos, como de resto os primeiros, poderiam nunca ter chegado… E se chegam em serenidade é porque foram desde há muito preparados e conversados em encontros atrás referidos com aquela Amiga especial chamada morte que, a fazer lembrar mais uma vez o saudosismo de Patrício, é sobretudo a consciência de. De resto, qualquer amanuense sabe que vencidas não é necessariamente derrotadas, é cumpridas… É assim que este “Vidas cumpridas”− que, no fundo, começou com o tentame autobiográfico iniciado em Macau com “Estátua de sal”− em termos de ata final, ou relatórios de todos os exercícios que importam, nos narra em pormenor o nascimento, a escolha do nome de sereia dos lagos, Ondina, avança nas marcas deixadas pelos ADN e pelas memórias, da mãe, das tias, do omnipresente Brasil da emigração nortenha, do Camilo, de Vidago, da Póvoa de Varzim, do Nobre, das rezas, do Bom Jesus, do Sameiro, do pássaro da morte, do Soares de Passos, das rãs, dos esconsos dos forros, dos sótãos, dos caixões, da trança desfeita, dos saltos

ao Porto ao Palácio de Cristal ainda vivo, ao Teatro Baquet a perecer em tragédia e a Agramonte onde se juntam os pés e se continua o silêncio dos cedros, do Victor Hugo, da brácara Rua de São Vicente, dos docinhos, do Sud-Express, que não era para todas nem para todos os minhotos, do liceu, da Ilustração portuguesa, do tempo a fazer-se o que era interrupto mas uno, do bambu de sala na sala de Pequim, da “Cidade do Santo Nome de Deus”, talvez da deusa?, o sexo dos deuses, mais complexo que o dos anjos?, e o de Deus? E o dos Deus?, do S. João, do patrão despedindo o pai, dos Biscainhos, das ladainhas a Nossa Senhora quiçá pela conversão do Afonso Costa, do ora pro nobis, do Monte Picoto, do Tao Tê Ching e da BBC na 2ª guerra, das madeiras, das mobílias, do Hotel Francfort sempre na sua Braga, ou a uma nem vintena de quilómetros o Grande Hotel da Bela Vista, da Brasileira Nova, fechada, ao contrário dos outros cafés das Arcadas, em cumprimento do luto pelo Führer, esse bom rapaz, com o Deo Gratias na Sé Primaz, da Rua Direita da Cruz de Pedra, dos medos, em Braga, em Macau, nos esconsos, nas mentes, mais da Póvoa, de Guimarães, de Riba d’ Ave, de Joana, de Santo Tirso, de Famalicão, dos novos-ricos a colarem-se ao Estado novo e da mãe a lamentar o desfecho do Rei D. Carlos, do penteado à garçonne e do rouge, ruge, sempre Nobre, a comunhão da solidão porque o solitário pode ser solidário, do Rilke, dos altares, da ata do fim e da certidão de nascimento escrita pela própria, do Oriente, de Confúcio, do li e do jen, de Lau Tzu, do Buda “as suas sagradas escrituras setecentas vezes maiores que a Bíblia”, Ondina Braga dixit… E disse também, ao fechar o livro do fim que assim se extinguiu “a luz da infância”. Ainda em 2000, Maria Ondina Braga fez para a Fundação Cultural Bracara Augusta, o texto “Quando o Claustro é Sem Ninguém”, publicado pela referida instituição. Em 1990, a escritora tinha saído homenageada pela Cidade de Braga que em 1994 lhe atribuiu a Medalha de Ouro. Em 1995, a Biblioteca Pública de Braga dedicou-lhe uma exposição bibliográfica. Em 2012, o Museu Nogueira da Silva da Universidade do Minho abriu um espaço destinado ao espólio e à mostra permanente da obra da escritora. Esperamos ainda este ano, em que se comemora o 10º aniversário da morte da grande escritora luso-macaense, poder preencher mais algum espaço do “Macau Hoje” com notícia sobre esse espaço museológico da literatura lusófona e preencher algumas das muitas lacunas do presente trabalho. Esperamos assim sentir que cumprimos a nossa obrigação e esperamos que outros possam ter o mesmo prazer em cumprir as suas. *Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto East West Institute for Advanced Studies

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Beira Rio, Paralelo Editora, 1980 Énard, Jean-Pierre, Daniel e Catarina à Pesca de um Tesouro, Paralelo Editora, 1980 Énard, Jean-Pierre, Daniel e Catarina e o Baptismo do Ar, Paralelo Editora, 1980 Énard, Jean-Pierre, Daniel e Catarina na Festa da Aldeia, Paralelo Editora, 1980 Énard, Jean-Pierre, Daniel a Catarina no Jardim Zoológico (Juvenil), Paralelo Editora, 1980 Galsworthy, John, Os Novos Forsyte, Livros do Brasil, 3 volumes, 1971 e 1972 Gladkov, K., A Energia do Átomo, Arcádia, sem data Greene, Graham, O Cônsul Honorário, Bertrand, 1ª edição, 1973, 2ª edição, 1977, Livros do Brasil, 1987, Círculo de Leitores, sem data. Greene, Graham, Uma Forma de Vida, Bertrand, sem data Henderson, W. O., A Revolução Industrial, Unibolso, sem data Hildick, E. W., Jim Detective, Verbo, 1970 Hildick, E. W., Jim Homem de Negócios (Juvenil), Verbo, 1970 Le Carré, John, A Toupeira, Bertrand, 1975 Marcuse, Herbert, Um Ensaio sobre a Libertação, Bertrand, 1977 Maringer, Johannes, Os Deuses do Homem, Arcádia, sem data Mishima, Yukio, O Templo Doirado, Parceria A. M. Pereira, 1972 Nin, Anais, Debaixo de uma redoma, Vega, 1981, 1986 Olsen, Paul, Terra de Velho, Minerva, sem data Parker, Richard, A Mina Abandonada, Verbo (Juventude), 1967 Hilips, Judson P., As Asas da Loucura, Minerva, sem data Potok, Chaim, Meu Nome é Asher Lev, Parceria A. M. Pereira, 1974. Price, Willard, Aventura com os Elefantes, Europa América (Juvenil), 1973 Renier, Elizabeth, É Perigoso Sonhar (romance), Minerva, sem data Rice, David, Os Bizantinos, 21º volume da colecção Historia Mundi, Verbo, 1970 Robbins, Harold, Competição Implacável, Bertrand, 1ª edição, 1973, 2ª edição, 1974; 3ª edição, sem data Robbins, Harold, Primeiro Morrem os Sonhos, Bertrand, 1ª edição, 1978, 2ª edição, 1980 Russel, Bertrand, Contos, Pareceria A. M. Pereira, sem data Sandstorm, Flora, A Porta (romance), sem data Smith, Howard, As religiões chinesas, Arcádia, sem data Tchechov, Anton (e outros), Histórias Russas, Livros do Brasil, sem data e Livros Unibolso, 1975 Todorov, Tzvetan, Introdução à Literatura Fantástica, Moraes, 1977 Wladimir Sas-Zalociecky, Bizâncio, Verbo, 969 Wouk, Herman, Ventos de Guerra, Bertrand, sem data Zernov, Nicolas, O Cristianismo Oriental, Arcádia, 1972………………………… …………………………………………….


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湖 州 Huzhou, capital dos pincéis

José Simões Morais A noroeste da província de Zhejiang visitámos Huzhou, mas como vínhamos atraídos por um dos tesouros da pintura chinesa, os pincéis, pouco interesse demos à seda e ao chá. Como o próprio nome indica, a cidade está ligada a lago, ‘hu’, pois Taihu, a terceira maior área de água potável da China, encontra-se a Norte de Huzhou. Após a compra do mapa, percebemos pelas manchas verdes estar esta cidade recheada de jardins. De triciclo chegamos a um hotel de duas estrelas, apesar da oferta de alojamento no de quatro estrelas, com os descontos, apenas por mais uns trocados nos permitir gozar uma qualidade superior de conforto. Com as malas já no quarto, é na recepção que ficamos a saber da existência na cidade de um Museu do Pincel. Considerada a capital dos pincéis pois, segundo um ditado, os pincéis de Huzhou, o papel de arroz Xuan de Xuanzhou (província de Anhui), a tinta da China de Huizhou (também em Anhui) e a pedra para tinta Duan de Zhaoqing

(Guangdong), são os quatro tesouros da pintura chinesa. Dá para perceber ser a cidade pequena pois, desde o terminal de autocarros, em dez minutos estamos no centro, tendo percorrido metade da avenida principal que longitudinalmente a divide. Logo no primeiro contacto com Huzhou, somos atraídos por uma esplanada nas margens de um canal no jardim Hebin. Parece um bom local para, na sombra, tranquilamente refrescar do Sol do meio-dia. Ainda a sentar e logo de longe nos acenam com um copo e uma garrafa térmica. Após o gesto afirmativo, trazem um copo cheio de folhas de chá verde e água quente, que sobre a mesa fica para nos servirmos. Aparecem engraxadores, que por um reminbi sacodem o pó aos sapatos, dando-lhes uma pequena polidela. Ainda com o sapato pousado na caixa, logo uma série de vendedores de óculos chegam, retirando-nos a serenidade do local. Mas nem foi isso que mais arreliou o nosso repouso. Um tocador de ehru, com uns sons de amplificador, experimenta cativar-nos a usufruir de umas quantas músicas. A pequena introdução a

“Yue liang wo di chin” (A Lua Representa o meu Coração) revela ser a sua actuação mais incomodativa do que artística. Continuando a caminhada para reconhecer a cidade, uma porta-dragão (longmen), de construção recente, abre a estreita rua pedonal muito movimentada, mas onde os edifícios se mostram desenquadrados do ambiente. Espreitando um estar de tempos já longínquos, que por aqui ainda se perpetua, logo outra longmen, esta antiga e feita de madeira, dá a entrada ao templo Fumiao. No pátio exterior, um sem número de vendedores de antiguidades espraiam os artigos pelo chão coberto por enormes lajes. Pelas vielas, lojas de roupa e entre duas, um cubículo com um balcão onde algumas pessoas esperam que, do grelhador a carvão em brasa, fiquem prontas as espetadas de diferentes pedaços de carne enfiadas num longo palito. Começam a ser horas de jantar e assim vamos atentos aos restaurantes. Mas as lanternas redondas vermelhas, que à entrada estes têm e os leva a serem facilmente distinguidos, não aparecem.

Avenida dos hotéis É na rua Hongqi Lu, onde se encontram a maioria dos hotéis e com o intuito de descobrir um restaurante, para aí seguimos. Em alto som, as músicas saem das lojas e do restaurante de comida rápida estrangeira, uma jovem empregada dança em frente a uma potente coluna, usando a sonoridade ligada às crianças para as espevitar a acompanhá-la. O aspecto da maioria dos restaurantes pouco atrai e após passar por alguns de comida rápida, tanto chineses, como das duas principais marcas estrangeiras, depara-se-nos um, cuja entrada indica ser diferente. Ao fim de um tempo de espera, gasto pelos recortes de gestos e outras cenas observadas, vêm-nos dizer ser o restaurante de pré-

-pagamento e que não há lista para escolher os pratos. As carnes já cozinhadas são na sua maioria de churrasco e estão expostas no sector de vendas, por detrás de vidros junto a uma outra porta de entrada. A venda para o exterior tem muita procura, o que nos levanta o ânimo perdido após termos globalizado o lugar. Compradas as senhas para a refeição, escolhida a comida pelos pratos das mesas dos clientes ali a jantar, é-nos servido tofu em molho de soja e uma malga de rissóis cozidos com recheio de carne, a boiar numa sopa. Comida barata para servir de jantar após o emprego. Embebidos no sabor do molho, somos interrompidos por uma pedinte, corcovada, de certa idade, que parece pedir dinheiro. Oferecendo o que ainda estamos a provar, logo nos é retirada a tigela e toda a comida vertida para um saco plástico. Nem o molho sobra. Perante tamanha fome, constatada mais tarde quando a vimos numas escadas a comer, ainda lhe oferecemos dinheiro para uma outra refeição. A mendicidade é um fenómeno recente na China, apesar de ter havido sempre dois tipos de pessoas que pelas ruas andam com um ar abandonado: aqueles que vagueando vivem pelo destino, indiferentes à materialidade do mundo e cujas pessoas lhes oferecem os alimentos e os que, de lugares mais pobres, migram para as cidades, ou não têm família para os sustentar. Claro que também já há pedintes de profissão. Queremos conhecer as especialidades gastronómicas da terra e por isso, no restaurante do hotel Huzhou, de duas estrelas, provamos pratos referenciados como de cozinha local. É-nos apresentado uma flor de peixe, prato assado num molho agridoce, em que o peixe fica retorcido com a sua pele a servir de cálice em forma de flor. Mas é no hotel Zhebei, de quatro estrelas, cuja cozinha requintada nos dá a provar um tofu que guardamos com saudade. O preço é mais barato que o anterior. Res-


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taurante recomendado por duas jovens, quando um dia subimos ao segundo andar de um restaurante de comida cozinhada na mesa, o vulgar hot-pot. Esperavam os seus amigos e a empregada pede-lhes ajuda para comunicar connosco. Nós, ao perceber que apenas serviam espetadas de vegetais, de carne ou marisco, para serem cozidas na panela aquecida sobre um bico de gás no centro da mesa, levantáramo-nos e propúnhamos sair. Solicitamente a funcionária pergunta-nos em inglês a razão de irmos embora. Aí entram as duas jovens estudantes universitárias em Hangzhou, que de férias viviam em casa da família. Explicando não ser esta a comida que nos apetece, aproveitamos para perguntar por outros restaurantes de comida regional. Como que desculpando Huzhou por não ter muitos restaurantes, apresentam como o melhor e de preço barato o restaurante do hotel Zhebei. Após um lauto manjar e como ainda é cedo, já que na China se começa a jantar às cinco da tarde, voltamos à avenida e logo a seguir ao hotel de onde vínhamos, surge um outro, também de quatro estrelas, o Internacional Huzhou. Continuando pelo mesmo passeio, encontramos a loja de seda Tian Yun. Depois uma loja de pincéis onde há para todos os tamanhos e preços, chegando a custar milhares de yuans alguns dos pincéis com cabo em porcelana, ou de bambu.

Museu dos pincéis Mergulhamos no passado de Huzhou, entrando por uma das ruas mais pitorescas da cidade. Uma igreja cristã domina-a e em redor, lojas ocupam a parte debaixo das casas de dois andares. Pelos solidéus nas cabeças de algumas pessoas, percebemos que alguns dos negócios pertencem a muçulmanos. O vendedor de tangerinas, depois de recusar ser fotografado,

oferece-nos uma deliciosa peça de fruta. Continuando, a curiosidade leva-nos ao encontro da ponte de pedra com três arcos construída em 1539, com algumas pedras ornamentais incrustadas. Daí e para Sudoeste, vamos até ao jardim da casa museu do pintor e calígrafo Zhao Mengfu (1254-1322). Nativo de Wuxing (hoje Huzhou), tinha como nome de cortesia Zi’ang e pseudónimos Songxue, Oubo e Shuijinggong Daoren. Era um príncipe descendente da dinastia Song, mas que serviu a dinastia Yuan dos mongóis como oficial na Academia Hanlin. Exímio calígrafo, considerado um dos quatro principais na História da Caligrafia Chinesa, era também pintor, mestre nas técnicas da dinastia Tang e especialista na representação de cavalos, usando recriar temas e estilos dos antigos mestres, com cores simples para fazer as paisagens. No jardim do museu, a serenidade com que o verde da vegetação se conjuga no lago com o castanho dos pavilhões de repouso, ou nas madeiras das casas de chá, leva-nos a ali ficar longo tempo, recriando figuras com a reflexão nas águas das pedras ornamentais do lago Tai. Saímos do jardim para visitar o Museu dos Pincéis que, apesar de estar englobado no mesmo recinto, tem uma entrada autónoma. Os pincéis de

Huzhou estão referenciados como os melhores do país e por isso há que ver como são feitos. Em termos cronológicos, o pincel foi inventado nos finais do século III a.C. por Meng Tian, um comandante militar da dinastia Qin. No entanto, percebe-se pelos vasos pintados de diferentes culturas neolíticas, que deve ter existido há pelo menos cinco mil anos. Por isso, Meng Tian estará ligado, não à invenção mas, ao aperfeiçoamento dos pincéis. O verdadeiro local de produção dos melhores pincéis não se situa na cidade, mas na povoação de Shanlian, em Wuxing, distrito de Huzhou. Os pincéis de caligrafia aí feitos tiveram o seu apogeu durante a dinastia Yuan e ainda hoje estão considerados entre os melhores de toda a China. Quatro etapas são necessárias para fabricar o pincel “hu” e usa-se a pelagem do coelho, da cabra e da cauda de doninha. Após a gordura ser retirada com sumo de tília, são cortados os pêlos em tamanhos iguais e entram numa solução para os limpar. Depois são unidos na base com goma arábica e após secar, enfeixados com um atilho, que os une ao cabo de bambu. Feita a estrutura do pincel, passa-se à fase seguinte do processo. Os pêlos são besuntados numa papa de algas para os colocar juntos e com o enrolar de um fio é-lhes criada uma ponta, a parte mais importante do pincel. Esse fio, que numa volta passa pelos pêlos para dar a forma de cone, serve também para retirar o excesso da papa aglutinadora. Através de uma extrema paciência e habilidade, os pincéis são limpos, arredondados, criando-lhes uma ponta, ficando com boa elasticidade. Com o pincel já pronto, passa para as mãos de outro funcionário, onde no cabo de bambu são gravados os caracteres Tian Kuan Trade Mark, que substituiu a antiga marca “Dupla Cabra”.

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Os pincéis (hao) de pêlo de cabra são macios e servem para escrever pequenos caracteres, os de pêlo de coelho são duros e os da cauda da doninha estão entre os dois, tendo grande elasticidade, servindo para a caligrafia de grandes caracteres. Por vezes faz-se uma mistura dos diferentes pêlos, usando-se também os de outros animais. Há pincéis de todo o tipo de tamanhos, servindo uns para pintar e outros para caligrafar. Os melhores para a caligrafia chinesa são os da mistura de pêlo de coelho e cabra. Os pincéis “hu” foram muito usados na corte imperial. Na outra parte do museu, está a sala do pintor Zhao Mengfu com os seus utensílios e algumas obras, onde também não faltam as pedras gravadas. Apesar do museu ter uma secção de vendas, após sair do recinto museológico e já na rua, um conjunto de lojas dedica-se à venda de produtos para pintura chinesa. Deixando os pincéis, visitamos o mercado e atravessando uma ponte de madeira em forma de zig-zag, percorremos outra parte antiga da cidade. Estendais de roupa escondem vendedores com sacos cheios de folhas de chá acabadas de colher e que pertencem à primeira colheita do ano, a melhor. Só mais tarde soubemos ser Huzhou a terra natal de Lu Yu, o grande mestre do chá. Aproveitamos a nossa estadia em Huzhou para visitar locais a uma hora de autocarro. Em Anji vemos o museu do Bambu e já fora da província de Zhejiang, em Jiangsu, numa das margens do lago Tai, Dingshan, que vem referenciada como o local de produção dos melhores serviços de chá. Cidade tranquila, ainda com um estar rural, Huzhou, apesar de ser famosa pelos pincéis, não terá sido representada por nenhum artista pois, como constatamos, a sua beleza estética é pouco representativa. No entanto, o valor da seda que aí se produz leva-a a ser também a capital da seda e por isso, também um local muito visitado pelos negociantes.


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p r i m e i r o b a l c ã o

luz de inverno

Boi Luxo

Bara no Soretsu (Funeral Parade of Roses), Toshio Matsumoto, 1969.

Não é muito difícil de perceber como é que este filme de 1969 pode ter influenciado A Laranja Mecânica, de Kubrick, estreado em 1971. Não é difícil de perceber como é que este filme influencia outros - ou terá influenciado - porque dele se desprende uma força influenciadora inevitável. O que é uma força influenciadora? Não sei, mas a visionação deste filme, ou a sua re-visionação, explicará tudo. Vêlo transmite uma vontade inexorável de o imitar, esteja este desejo fundado num inconfessável desejo nostálgico ou num ímpeto de futuro. É difícil encontrar pretextos para não gostar dele – raramente vemos um filme libertos de um preconceito. Este filme passa-se no bas-fond gay de Tóquio nos anos 60, na zona de Shinjuku, e, como não podia deixar de ser, é um filme político e profundamente urbano. Mistura barbudos e drag queens, estes últimos pouco interessados na transformação do mundo e da linguagem do cinema. Talvez seja o primeiro filme japonês a falar deste circuito gay, uma das várias doces e inevitáveis marginalidades que em Shinjuku à altura se permitiam. Shinjuku Mad, de Wakamatsu Koji, 1970, percorre as mesmas obsessões e as mesmas ruas, as ruas onde se cruzavam os salarymen e os profissionais e amadores da noite (como ainda acontece), e os hippies, os barbudos revolucionários, os artistas e os poetas que haviam eleito esta parte da cidade como sua. É bom viver numa grande cidade porque é só nela que é possível fazer este tipo de combinações. Só nas cidades faz sentido ser arrogante e olhar para os seus habitantes como se estes não

importassem. “Em Cloé, grande cidade, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Ao verem-se imaginam mil coisas umas das outras (...) Mas ninguém dirige uma saudação a ninguém (...)” – diz Italo Calvino em As Cidades Invisíveis. No ano em que Toshio Matsumoto realizou Bara no Soretsu, 1969, Wakamatsu Koji, frequentador convicto do carnaval artístico e contestatário em que se tornara Shinjuku, realizou 11 filmes porque era mesmo preciso fazer filmes. Hoje há bons filmes mas esta já não é uma idade do cinema, já não existe uma urgência de os fazer e, provavelmente, nem uma razão. Por favor, recebam com benevolência este atrevimento estatístico, mas eu diria que cerca de 80% dos filmes que se fazem hoje são completamente inúteis para o nosso avanço estético ou espiritual. Este é um filme que se situa à margem do cinema japonês que, durante os anos 50, primeiramente se tornou internacional, o dos filmes de Kurosawa, Mizoguchi ou Ozu, Gate of Hell de Teinosuke Kinugasa ou Samurai, The Legend of Musashi Miyamoto, de Hiroshi Inagaki. Igualmente à margem de filmes de autores da geração seguinte, a de Imamura, Shinoda ou Oshima. Ver este filme é um pouco como ver alguns filmes de Wakamatsu Koji (repentinamente muito famoso) ou Susumu Hani: mais íntimos, mais desconhecidos, orçamentalmente muito diferentes daqueles. Um olhar mais local, não necessariamente mais ou menos japonês. Mostra a diferença entre ir a um restaurante conhecido e constante dos guias turísticos da cidade, seja ele bom ou não, ou ir a um restaurante conhecido apenas de pessoas locais

(independentemente da sua qualidade), muito provavelmente mais cheio de fumo e de pessoas resignadas com a sua sorte. Não é obrigatório acreditar no que se diz neste filme, assim como o Kublai Kan não acreditou necessariamente nas histórias que lhe contou o jovem Marco Polo. Continuou, no entanto, “a ouvir o jovem veneziano com maior atenção e curiosidade que a qualquer outro enviado seu ou explorador” (Calvino). Mesmo nas partes em que se apresenta como documentário, e são muitas, não sentimos a obrigação de acreditar em algo mais que não seja a sua vontade de se encenar. Tomato Kechappu Kotei (Emperor Tomato Ketchup), de Shuji Terayama, 1971, é outro filme que se entretem por um mundo às avessas, uma ditadura de crianças violentas e cheio de sexo de choque e cenas absurdas que apetece reproduzir e imitar. Pode tentar-se valorizar estas peças através de vários tipos de desculpas e perspectivas, através da sua ousadia; da originalidade das cenas; do comércio que se estabelece entre a ficção e o documentário; do seu lugar vanguardista na história do cinema japonês; da sua possível actualidade; do efeito contrastivo em relação ao cinema actual ou do seu valor estético, mas talvez seja mais honesto apreciá-las sem grelhas intelectuais e admitir a sua sedução epidérmica. É preciso deixarmo-nos abandonar a um comprazimento por uma existência fechada e interior (“não gosto do sol”) que se move à margem de tudo, ou ao desespero que a sua condenação à marginalidade implica. “…quem me dera que todo o país se afundasse”. Mas porque é que um filme que celebra uma era em que tudo era possível, em que

“todas as portas estão abertas” (cita-se Jonas Mekas) é, ao mesmo tempo, tão triste? Grande parte dele dedica-se à história de uma das suas figuras principais, contada de um modo linear. De repente, entre os planos mais vanguardistas, entre as entrevistas a homossexuais e jovens intoxicados que constituem a sua parte documental e entre as notícias dos protestos contra a presença americana no país, a história de Eddie, o belo efebo do Bar Genet que todos cobiçam, sobrepõese a tudo o mais. “…quem me dera que todo o país se afundasse” – diz ele (ou ela) no funeral de um dos seus companheiros de trabalho no Bar Genet, Leda, que se suicidara por amor e despeito. No entanto, são vários os momentos de humor em Bara no Soretsu. Quando Che Guevara espirra, a sua barba salta. Isto acontece várias vezes. O tom desprendido que o filme adopta em várias das suas cenas estende-se ao modo leviano com que é representado o seu programa político. Este tom distingue-o de outros filmes dos anos 60 e 70 com intenções fílmicas semelhantes e acerca dos quais já aqui se falou extensivamente (muitos deles filmados também em Shinjuku). Neles há por vezes uma seriedade que a passagem de 40 anos tornou ridícula e provinciana. Em Funeral Parade of Roses não. Até os momentos líricos e/ou trágicos da história pessoal de Eddie acabam por querer ser apenas cinema. Afinal, isto é uma “mistura de crueldade e de riso”. Eu sei que esta cidade já não existe mas também sei que, como diz Calvino, “Nunca se deve confundir a cidade com o discurso que a descreve” .


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próximo oriente

Hugo Pinto

Memórias de fazer e desfazer “Acha que a sua memória é boa? Recorda-se de muitos detalhes? Qual é a sua lembrança mais antiga?” Estas perguntas são as três primeiras de cinquenta que fazem parte de um questionário distribuído um pouco por toda a China, mas sobretudo em Pequim, entre Dezembro do ano passado e o último mês de Fevereiro. Não se trata de um estudo académico, ou sequer de uma pesquisa científica patrocinada pelo governo central, nem muito menos de uma espécie de censos de uma qualquer brigada de fiscais da recordação ou de cobradores de lembranças. Não. Trata-se do projecto “The Execution of Precious Memories”. A convite do Goethe-Institute China, Blixa Bargeld (fundador dos Einstürzende Neubauten e ex-guitarrista dos Bad Seeds, a banda de Nick Cave) leva agora à capital chinesa um projecto que começou em Berlim, em 1994, e que passou por cidades como Tóquio, Buenos Aires, Estocolmo, Yaoundé, Londres, Nova Déli ou São Francisco. Em todos os lugares, sempre os mesmos métodos e objectivos: primeiro, são distribuídos, por vários meios, questionários na língua local, sendo depois devolvidos com o máximo de informação pos-

sível – anonimato garantido –, sendo que os dados serão processados por Blixa Bargeld, o principal responsável por um processo de “transformação poética” que , na fase de apresentação ao público, conta com a cumplicidade de artistas locais, sobretudo músicos. Em Pequim, estão agendados dois concertos relativos a este projecto, hoje, dia 15, e amanhã, no 9 Theater. Nesta edição chinesa de “The Execution of Precious Memories”, Blixa Bargeld (residente de Pequim durante sete anos) vai ter como matéria prima informação relativa às memórias de cerca de 200 chineses, que serão representadas num espectáculo que combina música e performance. Conforme se explica na página pessoal de Blixa, “The Execution of Precious Memories” parte da noção de que “a memória pinta com um pincel dourado”, provérbio chinês que, desde o início, serve de mote ao projecto. Ou seja, existe a premissa teórica de que as memórias, guardadas por todos como “preciosas”, podem ser ficcionadas e não são apenas “o resultado imparcial da gravação de percepções sensoriais”.

Na verdade, explica-se, “por si só, o registo das impressões sensoriais é já uma falsificação da realidade, dependendo dos interesses e preferências específicos de cada indivíduo”. Mais, “processar a percepção da memória de cada pessoa apenas aumenta a probabilidade de que as recordações sejam objecto de ficção”. “Como diz o provérbio chinês, o que temos percepcionado torna-se ficcionado, sofre um processo de embelezamento, e só então as memórias passam a existir e a ser preciosas”. Dos espectáculos que já se realizaram e dos quais se guardaram registos, “The Execution of Precious Memories” oferece uma síntese intensa das expressões que não são estranhas a quem acompanha com maior ou menor afinco o trabalho de Blixa Bargeld: poesia, gritos, silêncios, teatro, música e dança, tudo fazendo parte da trama em que através do que os outros pensam que pensam pensamos o que pensamos – uma espécie de mirada num espelho embaciado e distorcido no qual procuramos o reflexo da transparência subliminar, sabendo de antemão que o projecto raia o impossível. Mas, mesmo assim, não conseguimos desviar o olhar. Assim seja.

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perspectivas Jorge Rodrigues Simão

Economia ilegal e governança “Global governance remains mysterious in part because much about global society itself eludes our understanding. The informal and clandestine sides of global order are increasingly important-customary norms, background patterns of private and public expectation, black markets, and illegal flows. Although the clandestine, the informal, the illegal, the corrupt, are all quite different, each is a governance regime. Stigmatizing them, ignoring them - or utilizing them is, for every actor, a strategic choice.” Global Governance for the Political Economy of Today David Kennedy

O mundo não apresenta resistência e resiliência ilimitada para estar sujeito a constantes e novas perturbações. A crise financeira global enfraqueceu o sistema imunitário da economia global, debilitando-a. O agravamento da tensão geopolítica e a crescente inquietação, quanto às políticas sociais e aos planos e programas implementados e desenvolvidos, fazem que os Estados, bem como as sociedades tenham menos possibilidades, de fazer face às crescentes e mais complexas contrariedades que se apresentam à escala global. Os riscos, considerados como a possibilidade da ocorrência de factos imprevisíveis com efeitos prejudiciais, a que estão sujeitos os sistemas, desde o financeiro ao social, a nível global, é crescente, bem como a preocupação das pessoas, traduzida numa mecânica que parece funcionar ao contrário da famosa teoria do controlo do aumento da população, criada pelo economista inglês, Thomas Malthus, pai da demografia, que no final do século XVIII, no seu “Ensaio sobre o Princípio da População”, afirmou que a população humana crescia em progressão geométrica e os meios de subsistência, em progressão aritmética, pelo que, os riscos e preocupações, parecem crescer em paralelo, ou seja, ambos de forma geométrica. O aumento das preocupações, pelo aumento dos riscos a nível global, é coerente, dadas as maiores probabilidades de propagação rápida, pelo facto dos sistemas estarem cada vez mais inter-relacionados, e por consequência, serem crescentes as ameaças com efeitos catastróficos. A década que vivemos, ponderado o panorama global em matéria de riscos, irá fazer face a dois riscos globais transversais, de particular importância, pelo alto grau de incidência e interrelação. A desigualdade económica e as imperfeições em matéria de governança, reflectem-se na evolução de muitos outros riscos a nível mundial, limitando a capacidade dos Estados e das sociedade de responder com eficácia. Assim, e neste contexto, pode ser definido como o primeiro dos grandes paradoxos do século e milénio que há pouco iniciou, pois à medida que aumenta a união do mundo, também crescem as distâncias. A globalização criou crescimento eco-

nómico sustentado para uns e insustentado para outros durante uma geração; reduziu e reconfigurou o mundo e fez crescer grandiosamente o grau de interrelação e interdependência. Todavia, existe a necessidade de aceitar que neste processo, os benefícios têm sido distribuídos de forma desigual e que uma minoria tem colhidos os frutos de forma desproporcionada, surgindo o segundo paradoxo, pelo facto de grande parte da minoria colectora, não ter conseguido evitar a “Grande Recessão”, antes a tendo provocado. O crescimento de novas forças está a reequilibrar o poder económico entre os países, e a simples evidência imediata, indica que a desigualdade económica dentro de cada país está a aumentar. Os problemas de desigualdade e equidade económica, quer a nível nacional, quer internacional, estão a adquirir cada vez maior importância. Existem sinais no plano político, do renascimento do nacionalismo, por exemplo, demonstrados pela divergência existente no âmbito da crise na “Euro Zona”, entre os Estados-Membros que a compõem, em que o interesse nacional de alguns, se sobrepõe aos interesses comuns, suporte da “União Política” da Europa, como intenção final, maior que a “União Económica”. A liderança prepotente na divergência dos interesses presumivelmente comuns, é liderado pela Alemanha e França, com o Reino Unido assumindo a habitual fleuma da responsabilidade do “opt-out”, que coerentemente sempre assumiu, mau grado a ilusão da sua possível mudança com o decorrer do tempo, e que se dará em sentido da total desintegração a curto prazo. O populismo tem vindo igualmente, a renascer, sendo o mais recente exemplo, demonstrado pelo povo venezuelano à volta do líder enfermo e do seu corpo, posteriormente. A ruptura do tecido social é uma situação que mundialmente está a crescer, com uma forte incidência nos países desenvolvidos e em particular na “União Europeia (UE)”, onde o enfraquecimento das instituições políticas, vem reforçar a possibilidade de ruptura social. A respeito do desmantelamento do estado de bem-estar social na “Zona Euro”, o sociólogo francês, Alain Touraine, afirmou que “…não é aceitável um retrocesso da protecção e da redistribuição social, dado que à escala mundial, as desigualdades aumentaram…”. As opiniões dos países quanto à forma de provocar um crescimento sustentável e inclusivo, são cada vez mais divergentes. A UE, sob a designação de “Europa 2020”, adoptou pelo Conselho Europeu de Junho de 2010, uma estratégia multidimensional de promoção do crescimento sustentável e do emprego na próxima década, tendo em vista a saída fortalecida da Europa da pior

crise económica mundial, desde a “Grande Depressão”. A UE, acrescentou à ideia mundial de promoção do crescimento, o conceito de “inteligente, por referência à educação, conhecimento e inovação, visto que “sustentável”, diz respeito a uma economia mais eficaz em termos de recursos, mais ecológica e competitiva, e “inclusivo”, quer mencionar uma economia com um elevado nível de emprego, coesão económica, social e territorial. A situação que vive a “Zona Euro” obriga a postergar “sine die” esta estratégia, como o parecer do “Comité Económico e Social Europeu (CESE)”, sobre o impacto social da nova legislação em matéria de governação económica”, publicado no Jornal Oficial n.º C 143, de 22 de Maio de 2012, afirma - “A UE está actualmente a passar pela crise mais grave desde a sua fundação. A crise financeira evoluiu em muitos países para uma grave crise económica, social e da dívida. Como se isso não bastasse, as instituições europeias vêem-se confrontadas com a inacção e um défice de confiança. O “CESE” reitera que as medidas para combater a crise não deverão em caso algum violar os direitos inscritos na “Carta dos Direitos Fundamentais” e que por outro lado, há que identificar as medidas a tomar durante um ano para garantir o respeito dos direitos fundamentais. Infelizmente têm sido violados os direitos fundamentais de forma grosseira, como mostra a “Eurostat”. Acrescenta mais, que está esquecido pelos governantes, a criação imediata de um “Pacto de investimento social” e que de um modo geral, é de opinião que não se consegue sair de uma crise desta amplitude, com medidas de austeridade, como as adoptadas pela Grécia e outros Estados-Membros, mas sim e unicamente com uma política de crescimento. Assim o “CESE”, propõe um pacto de investimento social para promover, no âmbito da governação económica, investimentos sustentados nas qualificações, nas infra-estruturas e na produção e que se promovam investimentos na economia social, nas empresas sociais e na prestação de serviços sociais. Entre muitas outras propostas lúcidas, mas tardias, propõe ainda, um “plano de salvamento social” através de “governação social”, equivalente (social governance), pois, sem o dito plano como diz Jean-Claude Juncker, a arquitectura da governação económica fica incompleta e a Europa dará um passo atrás, convertendo-se numa simples união económica e orçamental, longe dos objectivos de uma economia social de mercado. É fundamental para fazer face a todos esses desafios e problemas, dentro e fora da UE, melhorar a governança mundial. Surge

em tal ideia, o terceiro paradoxo deste século e milénio tão pouco avançado no tempo, pois pelas mesmas razões, disparidade de interesses, incentivos contestados, diferenças normativas e de valores, é crucial que se melhore a governança mundial, que são a causa da ser difícil, complexa e confusa a materialização de tal imperativo, e que são a explicação de grandes fracassos como os da “Ronda de Doha para o Desenvolvimento”, da “Organização Mundial do Comércio (OMC)”, e a falta de acordo internacional na “Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas” realizada entre 7 e 18 de Dezembro de 2009, em Copenhaga. O “Grupo dos 20 (G20)” que representa as dezanove maiores economias do mundo e a UE pode ser considerado actualmente, apenas um meio encorajador, em matéria de governança mundial, mas a sua eficiência está por demonstrar. Além dos riscos globais transversais, existem outros extremamente importantes e que devem ser considerados e desde logo os referente aos desequilíbrios macroeconómicos na área do euro e não só, em que um grupo de riscos económicos, que incluem os desequilíbrios macroeconómicos e a volatilidade cambial, as crises fiscais e a queda dos preços dos activos, resultante da pressão entre a riqueza crescente e a influência das economias emergentes e os altos níveis de endividamento das economias avançadas. Os desequilíbrios das balanças comerciais e de poupança entre países e dentro de cada país, estão a tornar-se cada vez mais insustentáveis, enquanto os passivos sem financiamento previsto, exercem uma grande pressão a longo prazo sobre as posições fiscais. Uma forma de pôr fim a estes desequilíbrios seria tentar uma acção global coordenada; no entanto, esta solução é difícil de pôr em prática devido à diferença de interesses dos diversos estados. Quanto à denominada “economia ilegal”, figuram entre o grupo de riscos, a fragilidade dos Estados, o comércio ilegal, o crime organizado e a corrupção. A interrelação do mundo, as deficiências em matéria de governança e a desigualdade económica criam oportunidades para que prosperem as actividades à margem da lei. O comércio ilegal em todo mundo, em 2009, alcançou 1,4 mil milhões de dólares (subestimado) e encontra-se em constante crescimento. Além de implicar enormes custos para as actividades económicas lícitas, estes riscos debilitam os Estados, constituem uma ameaça para as oportunidades de desenvolvimento, afectam negativamente o estado de direito e mantêm aos países amarrados a ciclos de pobreza e instabilidade. A cooperação internacional, quer em termos de oferta, quer em termos de procura é uma necessidade urgente.


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metrópolis

Tiago Quadros*

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Entre a aparição e o desaparecimento Wang Hui e a sua mulher são os proprietários do Mima Café, construído em 2003, em Pequim, e os autores do processo de reconversão do antigo pavilhão. O casal obteve permissão para avançar com a obra, o seu primeiro projecto, com a condição de que as autoridades, cépticas em relação à arquitectura contemporânea, poderiam demolir o edifício, se não ficassem agradados com o resultado final. Os arquitectos pintaram de branco o interior do antigo pavilhão e construíram um pequeno cubo em aço inox. O novo edifício dispõe de casa de banho, cozinha e um restaurante sobre a cobertura. As qualidades texturais dos pavimentos irrompem face à lógica crua dos planos. A contemporaneidade explícita desta obra está também aqui: na oposição desenhada entre o reflexo, a posição e o lugar. A palavra reflexo pode significar indirecto, repetição ou reverberação, mas também pode acomodar vocábulos como inconsciente, instintivo, involuntário (que se faz sem consciência do facto). Se da palavra reflexo retirarmos o predeterminado “re”, ficamos com algo que deixa de ter a conotação de duplicação e ganha uma certa autonomia de resultado. E isso é o que acontece com o Mima Café quando o cubo em aço inox anuncia o edifício na paisagem. O turbilhão da natureza que afaga a obra de Wang Hui, sente-se lá dentro. Sente-se na cobertura de vidro, feito lago, onde nadam cinco carpas. Sente-se na suave navegação dos peixes vermelhos. E sem demoras, o chá de jasmim consome-nos a tarde imensa. Segundo Wang Hui: “A nova construção foi concebida como um dispositivo virtual para realçar dois elementos: incorporar o desaparecimento a um nível aceitável e exprimir a sensação de espaço de uma forma mais afirmativa. A superfície em aço inox gera uma sensação de fusão com o ambiente que a rodeia. O pavimento e a cobertura da casa de banho utilizam materiais transparentes para exprimir a suspensão do espaço. A luz directa introduz-se na estrutura através do tecto transparente, onde nadam os peixes, refrescando o interior da estrutura.”1 A leveza e a simplicidade do espaço são evidentes, com pormenores como uma secretária feita de livros a fazer vibrar o espaço interior. A utilização de água, gravilha e peixes de aquário, confirma uma referência abrangente à tradição chinesa, com o conjunto a assumir no seu todo um aspecto efémero. A imagem deste conjunto é uma construção que parece mover-se na direcção da

terra. A estrutura está dissimulada e isso é confirmado pela relação idêntica que o cubo estabelece com o chão e com a cobertura. A procura da dissimulação avança sobre as mesas que servem a cobertura. E tudo é de um imenso céu como se os arquitectos procurassem a não-construção, a não-estrutura, o não-objecto. Nascido em Xian, em 1969, Wang Hui frequentou a Universidade Politécnica do Noroeste. Antes de rumar a Pequim, para trabalhar no atelier FCJZ, onde concebeu projectos como a Villa Shizilin (Pequim, 2003), Wang Hui foi assistente do Professor Zhang Yao Zeng na NPU (1992-93), colaborou com o AE Design Workshop em Pequim (1993-97) e com o MIMA Design Worshop, também em Pequim (2003-04). Em 2005 fundou o colectivo NENO 2529. Para além do Mima Café, projectos como o Neno corridor (Pequim, 2004) e, sobretudo, a Apple Elementary School (A Li, Tibete, 200405), demonstram que Wang Hui está disposto a trabalhar em ambientes que incorporam o peso da tradição como o Palácio de Verão nos arredores de Pequim (Mima Café) ou numa das paisagens mais agrestes e difíceis da China (Apple Elementary School). O Mima Café, da autoria de Wang Hui, está implantado num lote próximo do Portão Oriental do Palácio de Verão, a curta distância de Pequim. Aqui estamos perante o que podemos chamar de “poética” da aproximação. Com efeito, a beleza do Mima Café está na sua simultânea lógica de “pertença” e na sua eminente “levitação” face a este lugar. A sua materialidade – impressa nas texturas da gravilha – coexiste com um sentido de abstracção que é dado pela geometria dos planos em aço inox. O Mima Café vive entre a aparição e o desaparecimento. E é nesse diálogo estreito que reside a sua delicadeza. Estamos perante uma arquitectura que vive e declara o espaço sem o modificar. Uma arquitectura que parte da natureza e afirma a natureza, sem ter vontade de a imitar. Uma arquitectura que acumula e agrega, mas que se despe na subtracção.

1 - JODIDIO, Philip, (2007). Architecture in China, Koln: Taschen, p. 170.

*Arquitecto, Mestre em Cor na Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa


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gente sagrada

福星

José Simões Morais

Fu Xing

a divindade estelar da Felicidade Fu Lu Shou San Xing são três estelares divindades extremamente populares como símbolo auspicioso do que os chineses desejam para as suas vidas, Felicidade, Dignidade ou Riqueza e Longevidade. Hoje trataremos de Fu Xing ligado à felicidade, deixando as restantes duas para as próximas semanas. Em tempos ancestrais, as pessoas chamavam Fu Xing ao planeta Mu Xing (木星) (Júpiter), estando ligado ao elemento madeira e que se comemorava no primeiro dia do décimo mês lunar. Para o tauismo, Fu Xing estava associado com Yang Cheng, um governador de Daozhou durante a dinastia Tang, que arriscou a sua vida quando escreveu um memorando ao imperador para mudar as terríveis condições em que vivia o povo da sua cidade. Daozhou (actualmente Daoxian, na província de Hunan) pouco tinha para enviar como tributo anual ao imperador e certa vez, o governador desesperado por nada ter de interessante para a corte, lembrou-se de mandar um anão, que muito agradou ao soberano. No ano seguinte, este satisfeito com a anterior prenda, que o divertira bastante, requereu que lhe fosse enviado mais anões. Ano após ano, assim partia para a capital do país um novo grupo de pessoas que, devido a um defeito congénito, não cresciam mais do que um metro. As famílias começaram a desesperar por perder os seus entes queridos e não saber as condições como estes eram tratados no palácio do imperador em Chang’an, capital da China na dinastia Tang. O governador da cidade, percebendo que estavam a rarear os anões, começou a colocar as crianças, com um nascimento normal, em caixas para que estas não crescessem e puder assim ter novos elementos para enviar como tributo. Foi quando chegou à cidade o novo governador Yang Cheng. Este, ao ver a desumanidade como era tratado o povo e a barbárie feita aos seus filhos, resolveu proibir tal e escreveu um memorando ao imperador explicando-lhe o terrível sofrimento em que encontrou a população, devido às exigências para ter anões como tributo. Acabava a carta dizendo rejeitar enviar novos anões para a corte. O imperador compreendeu e assim se deixou esta prática. Quando Yang Cheng passou esta vida, o povo, grato pela sua acção, erigiu-lhe um templo, considerando-o como um ser que dava bom augúrio. Daí até se tornar a divindade da Felicidade foi muito rápido e agora encontra-se em quase todas as casas chinesas. Como Oficial Civil, Fu Xing está vestido como tal, tendo todos os ornamentos que caracterizam esses magistrados chineses, conhecidos em português como mandarins. Assim apresenta-se representado vestindo uma cabaia, sapatos de ponta quadrada, um barrete especial, com penacho de folhas artificiais nos dois lados e um cinto. Na mão direita tem um ru yi (objecto curvo cerimonial, símbolo de poder e boa fortuna, que representa a concessão de todos os desejos) e na esquerda, um yuan bao (lingote de ouro). Por ser o mais importante dos três, Fu Xing está ladeado por Lu Xing e Shou Xing, havendo em Macau muitos templos com as suas imagens, que se apresentam em conjunto.


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Huai Nan Zi 淮南子

O Livro dos Mestres de Huainan

Aquilo que é proibido ao povo não deve ser praticado pelo soberano.

Do Estado e da Sociedade – 39 A lei deriva da justiça; a justiça deriva daquilo que é útil para a comunidade. Aquilo que é útil para a comunidade está em consonância com os corações das pessoas. Esta é a essência da governação. Assim, aqueles que compreendem a base não se deixam confundir pelas ramificações e aqueles que vêem o que é essencial não de deixam confundir por pormenores. A lei não vem dos céus, nem se ergue da terra. Desenvolve-se entre os homens e move-se no sentido da auto-correcção. Assim, aqueles que a encontram em si mesmos não a negam aos outros e aqueles que não a têm em si mesmos não a procuram nos outros. Aquilo que é estabelecido para os escalões mais baixos não deve ser negligenciado nos escalões mais altos. Aquilo que é proibido ao povo não deve ser praticado pelo soberano. Uma nação perdida não é a que não tem soberano, mas a que não tem lei. A distorção da lei não significa que não exista lei, significa apenas que existe lei, mas que não é aplicada. Ou seja, é como se não existisse lei. Como tal, quando os líderes estabelecem a lei, eles próprios agem como modelos e exemplos. E é assim que as suas directivas são executadas por toda a terra. Confúcio disse: “Quando os homens são pessoalmente verticais os outros seguem-nos, mesmo que ninguém tal lhes ordene; quando os homens não são pessoalmente verticais os outros não os seguirão, mesmo que lhes ordenem”. Assim, quando os próprios líderes são sujeitos a regulamentos, as suas directivas serão executadas pelo povo. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www. ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.

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h - Suplemento do Hoje Macau #78