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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2607. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

ARTES, LETRAS E IDEIAS

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FISIOGNOMONIA O QUE DIZ UMA FACE


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FISIOGNOMONIA

Notas sobre a face, o carácter, a expressão das emoções e da sua aplicação nas ciências e nas artes Zazie

Fisiognomonia (gr. physiognomia; in. physiognomonics; fr. Physiognomonie; al. Physiognomik; it. Fisiognomicà). Arte de julgar o caráter  do  homem, seu  modo  de sentir e de  pensar, a partir de sua aparência visível, especialmente a partir dos traços fisionômicos.  Aristóteles (seguido por muitos escritores antigos e medievais) já admitira a  possibilidade de julgar a natureza de uma coisa com base em sua forma corpórea (An. pr., II, 27, 70 b 7). Cícero falava de um fisiognomonista, Zopiro, que se vangloriava de conhecer a natureza e ocaráter  dos homens pelo exame de seu corpo, ou seja, de seus olhos, seu rosto e sua testa (De Fato, V, 10). Mas foi principalmente no Renascimento que essa arte foi cultivada, a começar por Giambattista della Porta, que, em 1580, publicou o livro Sulla fisiognomonia umana. Esse tipo de estudo foi muito difundido no séc. XVIII por Lavater (Fragmentos fisiognomonia, 1775-78). O  próprio  Kant  reconheceu o valor da fisiognomonia (Antr., 11, cap. III). Hegel distingue-a das más artes e dos estudos inúteis porque ela afirma a unidade entre interior e exterior (Phänomen. des Geistes, I, parte 1, cap. V; trad. it., p. 281). Nos tempos modernos a fisiognomonia  também tem defensores  não  só entre os psicólogos  e caracterologistas, mas também entre filósofos. Spengler disse: “A  morfologia  do que é mecânico e amplo, ciência que descobre e ordena relações causais, é chamada de sistemática. A morfologia do que é orgânico, da história e da vida, de tudo aquilo que traz em si direção e destino, é chamada fisiognomonia” (Untergang des Abendlandes, I, p. 134). R. Kassner afirmou a identidade entre psicologia e fisiognomonia, alegando que a antiga distinção entre ser e aparecer não tem valor: “A psicologia deve então ser  fisiognomonia  e qualquer outra é tediosa e banal, pois, como tudo consiste na visão, nada há que precise ser mais investigado ou descoberto, retirando uma camada de aparência depois da outra” (Dasphysiognomische Weltbild, Intr.; trad. it. em Os elementos da grandeza  humana, 1942, pp. 6l ss.). [Abbagnano]

in Conta Natura

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Em pleno século XVII ainda Lavater questionava a importância das manifestações físicas do psiquismo humano, interrogandose sobre a sua natureza: “o que é a natureza universal senão fisionomia. Não se reduz tudo a superfície e conteúdos? Corpo e alma? Efeito externo e faculdade interna? Princípio invisível e fim visível?”

azão deve ter tido Momus que de todos os deuses troçava e não perdoou a Hefesto não ter colocado uma janela no peito dos humanos de modo a desvendar-se-lhes os segredos. E não faltou ao longo dos tempos quem procurasse por outras vias essas manifestações mais escondidas da alma. O corpo, principalmente a face, há-de mostrar essas marcas da personalidade e do carácter humano – a máscara sempre foi a persona, coube aos fisionomistas a tarefa mágica ou científica da decifração dessas marcas impossíveis de esconder. A prática já era conhecida na Suméria e antigo Egipto. Na antiga Roma tornou-se comum entre os grandes senhores possuírem um metoposcopi com dons para ler nas rugas da face o carácter dos que os rodeavam, numa antecipação da psicologia política que mais tarde também será receita recomendada por um Castiglione ou Maquiavel. O percurso da magia para a ciência vai ter muitos elos e entrosamentos. Da busca esotérica dos sintomas da alma cósmica aos estudos da psicologia moderna, muitos entrosamentos houve pelo caminho e à fisionomia tanto se dedicaram médicos como filósofos, magos e artistas. A adivinhação da alma e as bizarrias zoomórifcas da animalidade escondida por baixo da pele necessitarão tanto do mistério como da arte da revelação. Em pleno século XVII ainda Lavater questionava a importância das manifestações físicas do psiquismo humano, interrogando-se sobre a sua natureza: “o que é a natureza universal senão fisionomia. Não se reduz tudo a superfície e conteúdos? Corpo e alma? Efeito externo e faculdade interna? Princípio invisível e fim visível?” Como pesquisas associadas à medicina as fisionomias têm em Hipócrates o iniciador, usando pela primeira vez o termo no tratado acerca das epidemias, no sentido do julgamento de alguém pela aparência física. O desenvolvimento desta arte divinatória entre as formas animais e as fisionomias humanas chega à Idade Média através de outros tratados em que o carácter hermético predomina. Tal é o caso dos estudos do Pseudo Aristóteles, Adamantios, Polemon e o pseudo Apuleius que transitam do mundo clássico por via de traduções e tratados árabes do género, como o manual de medici-


Gravuras zoomórficas de Charles Le Brun

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na de Kitab al-Mansuri fi al-tibb (The Book of Medicine para Mansur), de Rhazes ou o de Kitâb al Firâsa de Al-Râzi (1209) Por influência do neoplatonismo e recrudescimento do fundo de tradição mágica, estas artes ganham novo fôlego a partir do Renascimento. Giambatista della Porta (1541- 1615), personagem de gostos excêntricos e dotado de conhecimento enciclopédico que abarcava criptografia, horticultura, estudos de óptica, astrologia, matemática e fortificações, retoma e colige estes estudos no tratado De Humana Physiognomia, publicado em Nápoles no ano de 1586. O corpo humano é visto como um livro, passível de ser lido por quem possua a arte dos oráculos. O intuito da obra explica-se silogisticamente. 1- cada espécie animal tem a sua forma correspondente às suas propriedades e às suas paixões; 2- os elementos dessas figuras encontram-se no homem; 3- o homem possui esses mesmos traços tem, por consequência, um carácter análogo. O homem-leão - poderoso e generoso, possui peito largo, espáduas amplas e mãos e pés longos. Neste exercício todos os detalhes são analisados minuciosamente do nariz, à forma das sobrancelhas, tipologia da boca, etc., nada fica de fora. O exercício é magnificamente ilustrado em gravuras, procurando imagens históricas de personagens notáveis E assim aparece o Platão-cão; o Sócrates-veado; o Sérgius Galba- águia e muito outros. Curiosa é a explicação das características de Sócrates – o nariz achatado nítido revelador da luxúria... mas a mais exótica é esta novidade do famoso rinoceronte de Durer justaposto à efígie do grande poeta Policiano. Alguns exemplos parecem recolhidos do senso comum. O Pseudo Aristóteles, por exemplo, dizia que os cabelos finos, o corpo flácido, os molares achatados, face pálida e olhos fracos e pestanejantes são características de pessoas tímidas. Mas outras características provêm da tradição astrológica baseada na crença da ligação do macrocosmos ao microcosmos e na velha teoria dos humores. Em cada indivíduos seria possível detectar as marcas desse todo operante, pois o ser humano não possuía uma natureza particular em relação aos outros seres vivos. Nesta base serão vão estabelecidas as características psicológicas comuns ao próprio temperamento dos animais “patronos” do seu nascimento. Acrescente-se o contributo da Metoposcopia, ciência inventada pelo notável matemático e físico Gerolamo Cardano (1501-1576), que traçava paralelos entre as rugas da testa e o efeito dos planetas sob cuja égide o indivíduo nasceu. Cardano, cuja vida trágica atesta também o carácter aventureiro destes primórdios místicos dos estudos científi-

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cos, chegou a sistematizar 800 tipologias capazes de identificarem idênticas variantes de carácter e outros efeitos acessórios como a detecção de uma mulher adúltera por esta forma. Della Porta não se limita a compilar a tradição do passado. As suas tipologias faciais e psíquicas vão mais longe que a moralização em torno da bestialização do homem, como acontecia nos tratados medievais. Basta recordar que o fabulário no género como é o caso do Roman de Fauvel que fazia parte de uma recolha em que incluía também o velho Segredo dos Segredos de tradição aristotélica. Giambattista della Porta acentua o lado bizarro nas ilustrações que acompanham o tratado e insinua-se por áreas em que a humanidade se expande para outros reinos A pesquisa de semelhanças cósmicas leva-o a procurar semelhanças no próprio reino vegetal, afastando-se assim da legitimação moralizadora em que ainda se podiam incluir os zoomorfismos. São os olhos, as sobrancelhas, que se comparam a ramos e raízes, como se toda a geração estivesse sujeita aos mesmos princípios indecifráveis, caminhando para a possibilidade do homúnculo liberto das grilhetas adamitas. O corpo e o natureza fundem-se; ramificam-se os dedos das mãos do mesmo modo que as raízes de uma planta; arqueiam-se sobrancelhas como o corpo de um roedor; todos os detalhes e partes da antureza tornam-se metáforas recíprocas, examinadas como se de uma enciclopédia das formas se tratasse. NoDe Humana Physiognomia (1586) os paralelos transformam-se numa autêntica taxionomia iconográfica.Os dentes humanos fazem lembrar os “dentes” na casca de um ananás, nas sementes de um fruto ou na raiz de uma flor. As expressões faciais conjugam-se com um catálogo do reino vegetal e incluem receitas à base de ervanária aplicada a cada órgão do corpo. Esta cartografia da face e da alma, ainda esteve sob censura por parte da Igreja, a quem nunca agradaram as artes mágicas, mas escapou ao Índex com o bom argumento que os traços humanos apenas atestam predisposições e que o livre-arbítrio da consciência permanecia. A convivência destas tradições materialistas com a ortodoxia religiosa prossegue de forma mais pacífica que muitas vezes se supõe. Em pleno século XVII o erudito médico Sir Thomas Browne (1605-82) na Religio medici (1635) continua a afirmar que certos caracteres na nossa face que transportam o moto das nossas almas, discordando que tal se deva à influência planetária pois pensa que apenas exprime o temperamento. A importância da ilustração figurativa é decisiva, razão pela qual os próprios médicos conseguiam maior aprovação das teorias pela capacidade de ilustrarem os seus tratados. No caso destas experiências em torno das marcas fisio-


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nómicas os caminhos entrecruzam-se e vão caminhar a par até muito tarde. Lavater tanto recebe esta herança por via de Giambattista como usa os desenvolvimentos que Charles le Brun, pintor de corte de Luís XV e ditador das belas artes conservadoras da corte havia desenvolvido. O talento de desenhador está bem patente no refinamento que imprime nestes desvios por trabalhos “menores” que só vieram a ser publicados postumamente em 1698, como “método para aprender a desenhar as paixões”. A ilustração torna-se decisiva para a divulgação destes estudos, motivo pelo qual deparamos com trocas entre artistas e “fisiólogos”. No entanto nem todos seguem as taxionomias e desenhos espartilhados. Foi o que aconteceu com Rubens, igualmente atraído por estas derivações em torno da bestialização da alma humana. Nos esboços que executou em Itália e que acabou por inserir no Tratado da figura humana há toda uma interiorização da força bestial, em fisionomias inquietas e agitadas, cuja potência se exterioriza numa espécie de “terriblitá” mais próxima de Miguel Angelo que dos catálogos analíticos dos restantes fisionomistas. Não terá sido por acaso que foi nele que Masson veio beber as influências, quando as experiências surrealistas se voltaram de novo para estas tradições mais “underground” da arte. Paralelamente também se tinha dado uma bifurcação artística entre esta “cartografia” de marcas astrológicas do carácter humano e as derivações “bárbaras” e satíricas, mais próximas da etimologia das momices do deus grego. Com efeito, assiste-se a uma evolução da própria noção de riso medieval- grotesco e escancarado - para a um gozo mais subtil, a partir do Renascimento. Artisticamente os zoomorfismos vão dando lugar a exageros caricaturais das próprias feições, tornando-as bestiais sem necessitarem de perder a intrínseca natureza humana. Leonardo da Vinci praticou-o à margem, neste caso sem qualquer intuito para-científico, apenas como um refinamento do humor dando origem à caricatura. Simplesmente a caricatura era um desregramento facial, uma bestialização do ser humano por excessos que monstruosos em que perde a sua humanidade sem no entanto reflectir qualquer particularidade cósmica ou psicológica passível de organização sistémica. O problema não será detectado por um cientista mas por um pintor satírico. Hogarth, (1697-1764) deu seguimento à fisionomia e no tratado de estética-Analysis of Beauty(1753), não só aconselha os artistas a estudarem os trabalhos de Le Brun como tentou (ainda que sem grandes resultados) separar os traços de carácter das caricaturas, de modo a que estes não fossem tomados por troça. Hogarth teve uma verdadeira obsessão

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Assiste-se a uma evolução da própria noção de riso medievalgrotesco e escancarado - para a um gozo mais subtil, a partir do Renascimento. por esta diferenciação, a que no entanto nunca conseguiu dar forma convincente. Um ano antes de morrer ainda andava à volta do assunto, a propósito dos desenhos dos prepotentes juízes da série The Bench. Queixava-se que não lhe entendiam as marcações de carácter, insistindo em confundi-las com a caricatura, tal como as suas pinturas e gravuras satíricas também eram consideradas uma arte de segunda. Importa salientar a mudança progressiva do uso de um bestiário moralizado para uma posterior ideia de mundo como animal vivo- que tem equivalência artística nas bizarrias de um Arcimboldo, como o tem nas ligações éticas e físicas de um Giordano Bruno ou de um Hobbes-, a que se vai seguir a interiorização no eu psíquico que com Descartes se afasta definitivamente do mundo das associações mágicas. As trocas de influências entre a arte e a ciência continuaram na obra de Lavater e atingiram um dos momentos mais importantes quando, Theódore Géricault acompanhou os estudos de Georget, precursor da psicanálise, captando na tela as primeiras tipologias de doenças mentais. Com este passo separava-se a caricatura monstruosa como marca de Deus para assinalar o desvio maligno, da patologia humana passível de entendimento e cura. Contudo, o velho Tratado de Lavater não estava esquecido. No apogeu do nazismo recuperam-se estas “cartografias” da alma, frenologias e metroscopias congéneres, no intuito de se criarem definitivas taxionomias de raças. O corpo teórico da Ciência, tal como o da Arte, nunca foi neutro mas os cruzamentos operados atestam como o percurso de institucionalização da primeira também equivalem à desmontagem dosatus quo da segunda. Na charneira encontra-se a valorização do grande iceberg escondido- as pulsões automáticas que constituem o Eu- capazes de o universalizar dispensando na Arte o génio-criador e dando origem na Ciência a “novos magos”. A psicologia moderna também ganhou em precisão tanto quanto perdeu em ambição cósmica- os remendos dos novos “psico-oráculos” deixaram de aspirar a harmonias que vão muito mais além do mundo do emprego ou do apartamento.


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BREVÍSSIMAS NOTAS DE FISIOGNOMIA CHINESA

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S ANTIGOS CHINESES davam grande importância a todos os detalhes da face, pois acreditavam que simbolizam o destino da pessoa. Testa larga, lisa e brilhante, por exemplo, indicava uma pessoa com espírito de liderança e comunicativa, com promessa de carreira profissional bem-sucedida. Têmporas largas, claras, cheias, sem pintas, linhas ou cabelos prometiam viagens agradáveis. Já a vida tranquila, sem doenças e dificuldades, dependia do espaço entre as sobrancelhas. A técnica chinesa de leitura do rosto, a fisiognomonia, analisa boca, olhos, sobrancelhas, nariz, queixo, testa e orelhas, separadamente. A testa grande e lisa, por exemplo, indica uma infância feliz e inteligência. Sobrancelhas grossas e bem desenhadas mostram

uma personalidade forte e saúde perfeita. Maçãs do rosto arredondadas, ideias próprias. Nariz reto com ponta arredondada, grande capacidade de ganhar dinheiro. E boca exuberante com os cantos virados para baixo, personalidade emotiva. Porém a leitura parte de quatro formatos básicos de rosto.  Segundo a medicina chinesa, a cor das faces é alterada quando existem desarmonias ou perturbações nos cinco espíritos, cada um deles relacionado a um órgão: O espírito shen corresponde a mente e coração. Hun rege o fígado. Por relaciona-se ao pulmão. Yi é associado ao intelecto e ao baço-pâncreas. E zhi aos rins. Face com vermelhidão forte e persistente: indica que shen, o espírito responsável pelas actividades mentais (pensamento, memória e consciência), pode estar per-

turbado. A clareza mental fica prejudicada. Já um tom rosado na face mostra um shen forte, sadio.  Face esverdeada: quando uma raiva súbita e intensa é despertada, ela perturba o espírito hun, que reside no fígado, e obscurece a criação, a coragem e a intuição. Também indica desarmonia emocional.  Face esbranquiçada: sensações fortes de perigo eminente e tristeza desarmonizam o espírito po, relacionado ao pulmão. Ele fornece o instinto de conservação e as reações imediatas. Em desequilíbrio, diminui a energia vital.  Face amarelada: desequilíbrio no espírito yi (intelecto). Sinal de sobrecarga mental e falta de concentração.  Pele acinzentada: o medo profundo afecta o espírito zhi. E assim diminui a força de vontade e a determinação.

ROSTO DE MADEIRA É comprido e fino. Todo o contorno é rectangular, desde a testa até o queixo. Também costuma ter nariz recto, orelhas compridas, sulcos profundos e sobrancelhas longas e finas. Este formato fica mais evidente quando a pessoa é alta e magra. É considerada amável, solidária e preocupada com as questões sociais, como uma árvore frondosa que protege as pessoas do sol quente.

ROSTO DE ÁGUA

ROSTO DE FOGO

ROSTO DE METAL

ROSTO DE TERRA

Arredondado e cheio, sendo quase impossível ver os ossos e as depressões. Fica ainda mais caracterizado quando a pessoa é baixinha e gordinha, com a barriga saliente e as costas largas. A personalidade é tão flexível e adaptável quanto a água. 

A região média é mais larga, destacando as maçãs e o nariz. A região inferior, ao contrário, é mais estreita, maxilar e queixo recuados. Normalmente, são pessoas de cabeça quente, corajosas, ambiciosas, impetuosas e, algumas vezes, cruéis. 

Bem quadrado. Os ossos e a pele são firmes, a testa é larga e a boca e o queixo, grandes e cheios. A estrutura óssea é mais visível do que no rosto de água. Transmite uma imagem de força e firmeza. Pessoas com rosto de metal são sinceras e directas. Têm bastante clareza mental e podem ser calculistas.

Aspecto pesado, com cabeça e boca grandes, maçãs cheias, sobrancelhas grossas, nariz e orelhas carnudas. São pessoas de temperamento estável, calmas, reservadas. São também exigentes, responsáveis e rigorosas. 


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Luís Bernatrdi In O Holoscópio

JOSÉ JOAQUIM Gama Machado (1775-1861), fidalgo da Casa Real, comendador da Ordem de Cristo, conselheiro de Legação de Portugal em Paris e sócio correspondente da Academia Real de Ciências de Lisboa foi uma excêntrica figura portuguesa, que viveu em Paris desde 1806 até à sua morte. A excentricidade deste homem, celebrada na obra Les Excentriques de Champfleury, revelou-se na sua forma de vida, na obra que escreveu e publicou e no conteúdo do seu testamento. Gama Machado dedicou-se com paixão violenta ao estudo da história natural, uma actividade que o absorveu totalmente nos últimos anos da sua vida, ao ponto de se levantarem justas dúvidas sobre a integridade das suas capacidades mentais. Com o objectivo de satisfazer a enorme curiosidade e de ter sempre à mão os objectos dos seus estudos, este ilustre português vivia rodeado de pássaros vivos das mais variadas espécies, sendo alguns de grande raridade. Possuía, além disso, “aves e outros animais ampalhados, caixas com borboletas e outros insectos” provenientes de todas as partes do mundo. Segundo as suas próprias palavras, o fim essencial do seu trabalho era: Demonstrar duma maneira incontestável, para as pessoas mesmo as menos familiarizadas com o estudo das sciências naturais, que aí onde se encontrem formas, robes [roupagens] e côres idênticas, na imensa série dos seres organizados, aí se encontrarão também as mesmas conformidades de instintos, de habitos e costumes. Noutras palavras, Gama Machado propunha-se estabelecer as leis gerais de semelhanças comportamentais entre animais e o próprio homem, com base em semelhanças na morfologia exterior desses seres animados. Expôs as sua originais teorias na obra  Théorie des Ressemblances  (1831-1858), constituída por 4 grossos volumes e mandada imprimir à sua custa. Nela cita obras de autores famosos como o frenologista Franz Gall (1758-1828), o naturalista Charles Bonnet (1720-1793), e, principalmente, o filósofo natural renascentista Giovanni Battista della Porta (1535?-1615) – autor deDe Humana Physiognomonia (1586), Phytognomoniae  (1591) eCoelestis Physiognomoniae (1601) – o qual parece ter sido seu grande inspirador e mestre. Em 1926, o médico Alberto Pessoa (1883-1942) escreveu um extenso artigo, na Revista da Universidade de Coimbra, onde fez o relato da vida e obra de J. J. da Gama Machado e onde afirma que “o grande livro do nosso José Joaquim da Gama Machado é, e sempre foi, uma das mais extraordinárias colecções de disparates que têm aparecido à superfície da terra” e que “o livro do

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O EXCÊNTRICO CONSELHEIRO

GAMA MACHADO

comendador não tem pés nem cabeça”. Sobre a recepção que esta obra teve em Portugal, o mesmo Alberto Pessoa escreveu o seguinte: A Academia de Sciências de Lisboa não só agradeceu por mais duma vez, em termos elogiosos, a oferta dos volumes da Théorie des Ressemblances, mas chegou mesmo a eleger o seu autor, na sessão da Assembleia de Efectivos de 4 de Fevereiro de 1853, sócio correspondente […]. O cardeal Saraiva recebeu igualmente uma cópia da  Théorie, tendo agradecido ao autor por carta e onde escreveu “há muito tempo não li huma Obra, que tanto me recreasse, instruisse e illustrasse”. Este era um comentário inesperado já que o clero francês tinha criticado com muita veemência as ideias materialistas expressas nesse livro. A biblioteca da Câmara dos Pares foi igualmente contemplada com uma cópia da  Théorie, que foi aparentemente muito apreciada. A Mesa da Câmara foi encarregada de endereçar ao distinto comendador uma carta de agradecimento a qual muito o sensibilizou. Como se explica, então, que uma obra de tão má qualidade científica e com ideias tão contrárias à religião fosse tão elogiada pela Academia de Ciências, pelo cardeal de Lisboa e pela Câmara dos Pares? Alberto Pessoa apresenta uma justificação possível, que parece igualmente muito acertada: O homem era rico, amável, bem relacionado, tinha amigos e parentes em altas situações. Ninguém o queria desgostar, a êle que se desfazia em amabilidades para tôda a gente. A obra tinha aspecto considerável, grande formato, óptimo papel, elegância tipográfica, magníficas estampas. Tudo isto infunde respeito. Quem recebia um volume, oferecido pelo autor, folheava-o, admirava as figuras, lia bocado aqui, bo-

O fim essencial do seu trabalho era: Demonstrar duma maneira incontestável, para as pessoas mesmo as menos familiarizadas com o estudo das sciências naturais, que aí onde se encontrem formas, robes [roupagens] e côres idênticas, na imensa série dos seres organizados, aí se encontrarão também as mesmas conformidades de instintos, de habitos e costumes.


cado acolá, achava tudo muito curioso e, se não era do métier, ficava pensando que por certo lá estaria a última palavra da sciência. Os outros, os naturalistas, esses é de crer que não tomassem muito a sério as descobertas do comendador. Lá uns com os outros, sabe Deus o que diriam; mas, coitados, em público, não diziam nada, calavam-se prudentemente, bem sabiam que, se falassem, ninguém os acreditaria e que se sujeitavam a ser acusados de invejosos. Assim se criou e sòlidamente se estabeleceu uma reputação que o Parlamento, as Universidades, as Academias e os eruditos consagraram… E talvez não seja caso único… Alberto Pessoa conclui esta discussão com alguma graça: A obra de Gama Machado está hoje completamente esquecida. Desconfio mesmo que fui eu a única pessoa que recentemente a leu de fio a pavio. Alguma coisa também havia de fazer um dia, que os outros não tivessem feito… O testamento de Gama Machado (que morreu com 86 ou 87 anos) foi sendo escrito ao longo de décadas. Tinha um elevado número de correcções e aditamentos e estava cheio de incongruências e incompatibilidades. Após a sua a morte, a partilha da enorme fortuna que deixava – avaliada em cerca de um milhão de francos – teve que ser decidida em tribunal durante um julgamento que deu brado em toda a cidade de Paris. A sua colecção de pássaros foi deixada à governanta, Elisabeth Perrot, da qual tinha tido um “filho natural”. A maior parte do dinheiro foi distribuído por familiares. Alguns objectos foram doados a entidades portuguesas: à Academia de Ciências de Lisboa – uma colecção de aves empalhadas e desenhos originais da sua Théorie des Ressemblances – à Universidade de Coimbra – cabeças de gesso do sistema Gall, um pequeno busto do comendador, dois vasos de porcelana e dois quadros – e ao Príncipe Real de Portugal – algumas colecções de história natural (aves embalsamadas). Deixou ainda fundos destinados à divulgação da teoria das semelhanças para que pudesse ser professada em cursos no Ateneu Real de Paris, na Société des Sciences Naturelles, de que era membro, e na Academia de Ciências de Lisboa. Neste último caso, o fundo deveria ser “aplicado expressamente ao estudo dos costumes das aves de capoeira, indígenas e exóticas” e, em princípio, os cursos deveriam realizar-se em Lisboa e em Coimbra. À Academia de Ciências de Paris deixou um fundo para um “Prix da Gama Machado” destinado “à melhor memória sobre as partes coloridas dos sistemas tegumentosos dos animais ou sobre a matéria fecundante dos seres animados”, o qual, efectivamente, foi atribuído de três em três anos a vários investigadores franceses. O seu amor pelos animais tornou-se lendário e naturalmente não podia deixar de legar à Sociedade Protectora dos Animais de Paris um fun-

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do monetário importante. Toda esta generosidade não pôde no entanto ser concretizada, porque a fortuna, embora grande, não cobria todas as despesas indicadas pelo benemérito conselheiro. A excentricidade mais notável do testamento de Gama Machado relaciona-se no entanto com o seu funeral: Desejo que o meu corpo seja guardado o mais tempo possível, e colocado num caixão de chumbo. O meu corpo será levado directamente ao cemitério do Pire-Lachaise: gastar-se-à o menos dinheiro possível (despesa inútil de vaidade). Tomar-se-á para modêlo do meu túmulo o que mandei elevar ao meu estorninho; esta ave, estando embalsamada, depositar-se-à o seu corpo com o meu. Este modêlo será enviado para Lisboa. Os meus cavalos acompanharão o meu entêrro sem puxar ao meu carro, o meu criado de quarto levará numa pequena gaiola uma das minhas aves favoritas. Proíbo expressamente que se convide seja quem fôr para o meu entêrro. Os meus criados acompanharão o meu corpo no meu entêrro; será o último testemunho de reconhecimento por todas as bondades que tive para com eles. […] O meu entêrro terá logar às três horas da tarde, à hora em que os corvos do Louvre têm o costume de vir procurar o seu jantar”[…]. Servir-se-ão do meu caixão que tem relação com o meu trabalho das sciências naturais. Êste caixão encontra-se em minha casa, bem como a mortalha. […] Depositar-se-ão no meu caixão as aves contidas nos quatro túmulos que ornam as minhas colecções de história natural. Gama Machado parece ter ainda determinado que lhe metessem no caixão um volume com as obras de Lucrécio, o seu autor favorito!...


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C H I N A C

António Graça de Abreu O PRIMEIRO dos doze notáveis textos das Conversas do Chá e do Café1, -- da pena e inteligência de António Conceição Júnior, filho de Macau e homem de cultura --, fala do encontro entre o narrador e Zhou Yun, uma tocadora de pipa natural da província de Anhui que lhe vai dedicar um trecho musical intitulado 黄山云 Huangshan Yun, ou seja, “Nuvens na Montanha Amarela”. Terminados os acordes subtis e intensos, o narrador perguntou a Zhou Yun:

黄山 HUANG

ANTÓNIO GRAÇA DE ABREU

NÉVOAS E BRUMAS EM

“Quem compôs esta peça?” A jovem chinesa responde: “Alguém escutou a montanha!”2 Vamos tentar ouvir a música de Huangshan ou montanha Amarela que se levanta no sul da província de Anhui, 450 quilómetros a oeste de Xangai. É por certo a mais misteriosa, surreal e mágica montanha entre todas as que polvilham as terras da China, se esquecermos os Himalaias tibetanos. Tem também muito menor dimensão do que as cordilheiras do Tecto do Mundo e apenas 1864 metros de altitude. Mas que interessa a altura da montanha? Importa é ser habitada por deuses e imortais. Quais deuses, quais imortais? Os deuses que inventaram a montanha e os deuses e imortais que os homens inventaram, e acreditam habitar a montanha. De resto, “imortal” em chinês escreve-se 仙xian, ou seja a união dos caracteres人山ren e shan, o que corresponde a “homem” e “montanha.” Imortal será o homem que fez sua a montanha e que é pertença da montanha. Cheguei a Huangshan pela primeira vez na Páscoa do ano de 1998. Viajei então de avião de Pequim para Tunxi, o aeroporto que serve a região. Mais uma hora de viagem de autocarro, pelo fundo de vales bordejando rios e campos amarelos de colza, verdes de trigo e dos arbustos do chá, vermelhos de azáleas e ameixieiras em flor, e estava na cidadezinha de Huangshan, no sopé da serrania. Depois, foi a subida de teleférico, 3.709 metros de extensão a trepar na cabine numa viagem de quinze minutos entre picos e o respirar da névoa. Levava comigo uma pequena trouxa composta por uma muda de roupa porque ia dormir num hotel lá no alto, no meio das nuvens. Da saída do teleférico até ao hotel Xihai, que significa “Mar (de Nuvens) do Oeste”, são uns quatro quilómetros a pé com subidas e descidas por escadarias de pedra e caminhos de terra e gravilha solta. A meio da caminhada começou a cair uma chuva impiedosa, milhões e milhões de torneirinhas abertas despejando a água do céu sobre o surpreendido turista lusitano e mais umas centenas de desprevenidos chineses. Cheguei ao hotel molhado

em tudo o que é saliência e reentrância do corpo, encharcado até ao tutano. Anoitecia. No hotel, envolto por uma floresta de nuvens, um banho, um jantar simples e o descanso da noite. Acordaram-me de madrugada, ainda não nascera o dia. Fazia frio e emprestaram-me um casacão acolchoado para subir ao pico das Rochas Flutuantes, a um quilóme-

tro de distância, onde iria ver nascer o sol. No lusco-fusco do amanhecer trepei por escadarias íngremes e tortas, tudo encharcado pela chuva da noite, agarrando-me a correntes de ferro e corrimãos não muito seguros. Lá em cima, o sol rompia entre mares e mares de nuvens brancas. Respirei o silêncio, comi mil pedaços de névoa e bebi a montanha.

Depois, caminhar por Huangshan. Tapetes de névoa perfurados aqui e além pelos cumes aguçados dos montes como lâminas de gigantescas espadas apontando para o céu, pinheiros retorcidos pendurados na falésia ou crescendo sobre rochedos solitários, cascatas de brumas subindo e descendo pela penedia empurradas pelo vento, vertentes escarpadas cortadas por infindá-


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R Ó N I C A

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GSHAN, A MONTANHA AMARELA A montanha suspensa no fio das nuvens, o beijo das brumas voando, todos os sonhos do ano diluídos na névoa.

nhos, e pode-se contar com duas horas de fila para se subir e descer a montanha em cada um dos três teleféricos que a cruzam. Para a inserção total do viajante no imenso corpo da montanha poder-se-á ascender a pé até aos cumes mágicos seguindo a rota dos caminhos e escadarias, desde os vales luxuriantes até aos penhascos pendurados nas nuvens. É um dia inteiro de escalada que se prolonga por dez ou quinze quilómetros de maravilhas, com milhares e milhares de degraus a subir. Uma hora depois de se chegar lá acima, os músculos das pernas bamboleiam como se tivessem sido recheados com geleia, em todo o corpo paira uma esmagadora sensação de cansaço, não muito agradável. Como não existem estradas que conduzam ao topo, muitos dos produtos levados para os três ou quatro hotéis existentes no cimo de Huangshan são transportados às costas por carregadores que sobem as infindáveis escadarias curvados ao peso das mercadorias que oscilam num equilíbrio ritmado na extremidade de varapaus flexíveis de bambu. Os homens estão habituados, mas dói de ver. Lá em cima, o viajante pode sempre entrar pelos recantos mais escondidos e menos percorridos pela correnteza de chineses. A vastidão da montanha Amarela possibilita o comungar solitário com os imortais e os pequenos deuses da grande natureza. E dá para procurar o afastamento das gentes, caminhar no silêncio por vales sinuosos, com rochas à solta suspensas nas alturas, e ouvir pinheiros imponentes sussurrando na brisa. Na Abril de 2011, à noite, no pequeno quarto do hotel Shizi Lin, ou seja, do “Bosque do Leão”, meio escondido numa plataforma abrigada da montanha, fiz o balanço do dia e escrevi: Entro pelo vale Esmeralda, um pinheiro com mil anos saúda o viajante, lá em cima, acenam picos habitados por deuses. Avanço entre penhascos por montanhas verdes, lavo os olhos nas torrentes brancas, os ouvidos na música das cascatas, o corpo leve flutua na neblina azul. Os imortais vêm ao meu encontro e dizem: “Esta é a nossa casa e também o teu lar”.

veis degraus rasgados na pedra, pequenas quedas de água faiscando ao longe. A montanha suspensa no fio das nuvens, o beijo das brumas voando, todos os sonhos do ano diluídos na névoa. É Primavera, mas que importa? Na montanha Amarela, sol, chuva ou neve, é-me minuciosamente indiferente. Na China existe um provérbio que diz mais

ou menos o seguinte: “Depois de visitar Huangshan, para quê subir outras montanhas”. Tenho-me perdido em ascensões mais ou menos amenas por umas tantas montanhas sagradas da velha China, mas o bom filho à casa torna e como a montanha Amarela é uma das mães da natureza, lugar onde os homens se perdem e reencontram, no ano de 2011 eis-me de regresso a Huangshan.

Desta vez, quase não havia nuvens. Contemplar toda a majestade da montanha, os espaços imensos do vazio, os horizontes recortados na pedra e no azul baço do céu. Mas nem tudo são perfeições em Huangshan, também por culpa dos homens. Se é um dos lugares de beleza natural mais famosos da China, a multidão de turistas chineses atravanca picos, escadas e cami-

Regressando às Conversas do António Conceição Júnior, é bom seguir o conselho de Zhou Yun, a bonita mulher de Anhui expatriada em Macau, e viajar até Huangshan. Para escutar a montanha.

1 António Conceição Júnior, Conversas do Chá e do Café, Macau, Livros do Meio, 2011. 2 Idem, ibidem, pag. 21


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D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

MINT JULEP OU PIMM’S CUP ? Estas linhas receberam inspiração de vários vectores. De um amigo com quem uma convivência longa desenvolveu piadas privadas em torno do Pimm’s n.1, de um livro de Miguel Esteves Cardoso que se chama Com os Copos, e de uma senhora que escreveu um livro sobre bebidas que se chama Victoria Moore (a senhora, o livro chama-se How to Drink, é de 2009 e é excelente). Este livro, que se debruça sobre bebidas alcoólicas e não, está organizado de acordo com as estações do ano e nele se aconselham várias bebidas para a celebração desta mais pagã das estações. Não me desinclino também a dar a estas crónicas uma pertinência sazonal. De súbito, estamos de novo na primavera e, curiosamente, é num bar com uma vocação muito específica e decididamente não primaveril que vamos encontrar feitas à perfeição estas duas bebidas solares, gloriosas e celebrativas, onde figura, brilhante, um ingrediente que é a própria imagem apolínea da frescura e das promessas de março, abril e maio – a hortelã. (Era necessário que alguém com coragem e sentido das prioridades escrevesse um artigo sobre a borragem). Por teimosia e como modo de excitar no leitor uma propensão decifratória escolho não identificar o bar onde se podem melhor (penso que não haverá em Macau lugar que o ultrapasse) apreciar esta duas misturas. Confesso que a minha surpresa foi relativa. Já antes, neste bar mais outonal que primaveril, reparara que a atenção na confecção das misturas está a um nível superior. O culpado fora um Dry Martini preparado com um brilho que só engana os mais incautos. Não vale a pena entrar em pormenores. Nos olhos do barman que o preparou apercebi uma interrogação e um receio que revelam um tipo de brio que em Macau é uma surpresa. O mesmo se passou, uns dias depois, durante a prova das bebidas de primavera, o Pimm’s Cup e o Mint Julep. Um outro engenheiro deste mesmo bar dificilmente disfarçou, igualmente, primeiro a expectativa e depois a satisfação à minha reacção. Um bar que leva tão a sério um dos seus elementos fundamentais, o gelo, não poderia deixar de ser um campeão (no sentido daquele que pugna por algo) da qualidade. Estas duas bebidas aparecem, no entanto, irremediavelmente ligadas a dois eventos desportivos primaveris de ar livre e não a uma dissolução de interiores. O Pimm’s Cup, de que trataremos com mais minúcia noutra altura, àquele que será o acontecimento desportivo que mais claramente marca uma época do ano, a do início do Verão: o Torneio de Wimbledon. O Mint Julep, uma coisa americana boa, sólida e perigosa, porventura muito mais masculina

e ruidosa, a um acontecimento muito menos pacífico e impossível de reproduzir num lugar como Macau, onde impera um sentido burguesinho da ordem e um horror estupidificante pelo desconhecido e pelo excesso: o Derby de Kentucky, em Louisville. A propósito da edição deste ano da famosa corrida recordem-se com apetite palavras do mais famoso cronista deste acontecimento “decadente e depravado”, um ex-Anjo do Inferno de cabeça rapada, Hunter S. Thompson. Escolho apenas dois instantes onde figuram referências à bebida oficial do decadente evento: “We could always load up on acid and spend the day roaming around the clubhouse grounds with bit sketch pads, laughing hysterically at the natives and swilling mint juleps so the cops wouldn’t think we’re abnormal.” “Thousands of raving, stumbling drunks, getting angrier and angrier as they lose more and more money. By midafternoon they’ll be guzzling mint juleps with both hands and vomitting on each other between races.” Estamos em 1970 e o Derby já acabou. Nada de novo na América: “A radio news bulletin says the National Guard is massacring students at Kent State and Nixon is still bombing Cambodia”. O que é um Mint Julep? Que melhor sugestão para o fim de semana que percorrer os bares de Macau até chegar finalmente ao único lugar onde este será servido com o profissionalismo que os 3 primeiros pedem? Ao terceiro I’ll Have Another o alegre bebente poderá notar que deixou definitivamente de ligar aos cavalos. Este ano, esta expressão poderá ter outro gosto. I’ll Have Another é o nome do cavalo que ganhou a edição deste ano. Mas isso, pouca gente sabe.


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T E R C E I R O O U V I D O

próximo oriente

Hugo Pinto

UMA CONVERSA NO TEXAS COM A “INDIECHINA” EM FUNDO Já lá vão quase dois meses. No dia 16 de Março, trouxe a estas páginas a participação inédita de sete bandas chinesas num dos maiores festivais de música de todo o mundo, o norte-americano South by Southwest (SXSW), realizado anualmente em Austin, no estado do Texas. Além dos concertos de Snapline, Carsick Cars, Re-TROS, Duck Fight Goose, Rustic, Deadly Cradle Death e Nova Heart, o cartaz do festival incluiu uma conferência que tinha por título “Why the Global Music Industry Needs China”. Eram quatro os oradores convidados para perorar sobre a importância da China para a indústria musical: Tony Ward, antigo executivo de várias editoras multinacionais sedeado em Hong Kong, cidade a partir da qual dirige a empresa de consultadoria e “marketing” musical Man On the Ground, e director do Music Matters, festival realizado em Singapura; Li Si Si, fundadora da S.T.D. Promotions, uma das maiores empresas de promoção de eventos musicais da China, além de responsável pelo departamento de comunicação da divisão chinesa da empresa Converse; Xi Chen, vocalista da banda Snapline, activa desde 2005 e, actualmente, uma das mais relevantes; e, finalmente, Josh Feola, fundador do excelente sítio electrónico “Pangbianr” (www.pangbianr. com), plataforma através da qual promove e organiza eventos ligados, sobretudo, à música chinesa experimental e “avant-garde”, além de ter sido o autor de diversos textos sobre música chinesa que foram dados à estampa em publicações como The Wire, ou em sítios

electrónicos como Altered Zones (www.alteredzones.com) e Tiny Mix Tapes (www.tinymixtapes.com). A moderação da conversa esteve a cargo de Charles Saliba, um dos fundadores da editora Maybe Mars, de Pequim, considerada a segunda maior editora independente da China; também em parceria com Michael Pettis, o antigo banqueiro de investimento de Wall Street tornado mecenas do rock alternativo chinês, Saliba ajudou a fundar o D-22, o clube de música ao vivo da capital chinesa que foi uma espécie de segunda casa para uma parte significativa das bandas locais. Graças à Internet, não foi necessário ter estado no Austin Convention Center para seguir a conversa. O tema que deu título à conferência ocupou pouco mais de cinco minutos do total de cerca de uma hora. A maior parte do tempo, assim se impunha, foi passada a tentar explicar o que é, afinal, a música alternativa chinesa à audiência, bem como a dissecar as abundantes especificidades do Império do Meio. No meu texto de 16 de Março, considerava que a presença de sete bandas no cartaz do SXSW, um número recorde, era um indicador de que “a música chinesa alternativa e independente vai ocupando o seu lugar na competitiva (e complicada) indústria musical global”, contrapondo, de seguida, que “estamos ainda longe de poder afirmar que o espaço tomado actualmente pela “indiechina” granjeou reconhecimento e popularidade suficientes para que as bandas chinesas sejam já parentes com

direito a presença assídua em todas as reuniões de família.” Nem de propósito, a meio da conferência, um dos oradores lembrou-se de fazer o exercício de perguntar quem, de entre a audiência, conseguia nomear pelo menos uma banda chinesa que já tivesse ouvido; levantaram-se quatro braços. Neste ponto, unanimidade entre os convidados. A posição consensual foi sintetizada por Josh Feola: “A música chinesa ainda não passou a fazer parte do ‘mainstream’, nem é algo familiar” fora da China. Ainda assim, recordou, têm sido atingidos “vários marcos” no caminho desse objectivo, destacando-se as presenças, nos últimos três anos, no SWSX. O futuro promete ser “excitante”, prevê Feola. Xi Chen acrescenta que o crescimento tem sido “consistente” e que “há mais visibilidade” actualmente. Ainda assim, menos optimismo quando a questão passa pelo estabelecimento de uma verdadeira indústria a partir do universo das bandas alternativas chinesas. Tony Ward observa, e lamenta, que “é difícil fazer dinheiro da música na China, até nos concertos”, cujos bilhetes são forçosamente baratos para corresponder a um poder de compra de uma maioria que ainda vive à margem do “boom” económico. Ward avisa: o negócio da música “é um investimento e tem que se ter uma visão de longo prazo”, já que “as coisas acontecem devagar”. (continua)

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À S U P E R F Í C I E

PENSAMENTO POSITIVO, MEU AMIGO, PENSAMENTO POSITIVO

António Lobo Antunes In Visão

AOS QUARENTA e cinco anos quem me dá trabalho? Ninguém, claro. É capaz de haver uns contentores de lixo com restos de comida, e também se podem comer os filhos, como propunha Swift para combater a fome na Irlanda. E quando os filhos se acabarem coma-se a si mesmo. Ossinhos dos dedos chupados um a um Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica: três dias a rasgar papel. Normalmente fico uma hora ou isso, de caneta suspensa, e depois as palavras começam a sair sozinhas. Esta não, e já estou farto de deitar frases para o lixo. Julgo que se deve ao facto de ter demasiadas coisas dentro de mim, de viver uma altura difícil, de me achar melancólico e revoltado. Melancólico com a minha situação, revoltado com a situação do meu país. É raro o dia em que não me pedem - Não me arranja um emprego? a mim, que não possuo poder nenhum, e lá fico a ouvir histórias desesperadas e tristes. Os portugueses estão a sofrer muito, e o sofrimento dos portugueses é mais importante do que o meu: que direito tenho de me queixar seja do que for? Quanto a mim não consigo fazer nada, quanto aos outros a minha importância colectiva é nula. Um amigo médico, por exemplo - Fale do que se está a passar na Saúde como se aquilo que eu escrevesse mudasse alguma coisa. Não muda. Sou apenas um homem que faz livros, preso por um contrato que assinei sem ler, como

de costume, a uma editora que me não agrada. Não tenho grandes ilusões. Nem pequenas, aliás. A árvore, em frente da minha janela perdeu as folhas: ramos torcidos, sombras de pássaros nem sonhar. Eu reflectido no vidro, sentado a esta mesa. Esferográficas, páginas, uma lupa, porque as primeiras versões são numa letrinha minúscula que, por vezes, me custa ler. Trago uma espada no peito. Volta e meia torce-se nos pulmões. E lá está a crónica a resistir. Não quer ser feita, tem a consciência de não valer grande coisa. E, mesmo que valesse grande coisa, o que valia? Não há imortalidade: há o silêncio que se vai espessando à volta de um nome, até o nome desaparecer por inteiro. E, até desaparecer, tanta inveja, tanta mesquinhez, tanta patetice. Para quê? A nossa existência é um pequeno evento pedestre: quem se rala? Os outros, por muito que nos queiram, estão de fora. E, depois, partem, construindo-se uma nova alma. Aqueles de quem gostei tornaram-se ausências que se estreitam. Continuo a lembrar-me deles: vai doendo menos. Vai doendo menos? Vai doendo menos. Quem se lembrará de eu pequeno? - Fale do que se está a passar na Saúde e qual saúde, Zé? A nossa, a dos outros? Lembro-me que na primeira urgência interna que fiz no Hospital de Santa Maria, depois do curso, morreram seis doentes. Um médico, no dia seguinte - Eh pá você bateu o record e eu, que era um miúdo, atarantado com a minha proeza. - Não me arranja um emprego? porque o subsídio acaba daqui a nada e

depois o que faço eu, diga lá? Aos quarenta e cinco anos quem me dá trabalho? Ninguém, claro. É capaz de haver uns contentores do lixo com restos de comida, e também se podem comer os filhos, como propunha Swift para combater a fome na Irlanda. E quando os filhos se acabarem coma-se a si mesmo. Ossinhos dos dedos chupados um a um. Nunca me foi tão difícil escrever uma crónica. Olhe, já agora experimente comê-la embora deva saber mal como rabo de gato e não alimente nada. Estou a compor isto enjoado de mim, embora tenha batido um record. Seis pessoas é obra. Aguenta mais um mês, Ant��nio, e logo sabes. Talvez te comam numa urgência interna. - Como se chamava aquele? - Não me vem agora o nome mas escrevia livros. - Desses que a gente gosta? - Não, dos complicados, dos que dão trabalho. Livros que não falavam, ouviam. Eu prefiro coisas que distraiam, para maçadas basta a vida. Conselho de um editor - Publique histórias leves, histórias que distraiam E tem razão, para maçadas basta a vida, dêem-me episódios que me divirtam, que chumbada pensar. - Não me arranja um emprego? um emprego, um empregozinho, dinheiro para pagar as contas, seja o que for preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta angústia. E tem razão. Tudo é preferível a esta angústia, tudo é preferível a esta miséria. - Fale da Saúde

fale da Saúde, da electricidade, dos transportes, da prestação da casa, da prestação do carro, da prestação da máquina de lavar, dos preços no supermercado, dos sapatos que o meu marido precisa, da penúria em que ando. Isto não é uma crónica, é um gemido indistinto, a minha mãe - Não compraste umas hortaliças, filho? o carro parado há dois meses que não há para a gasolina. Já não haverá mais para a gasolina. Talvez para uma garrafinha de petróleo (pode ser que exista quem fie) verter a garrafa em cima de mim e chegar-lhe um fósforo. Depois uns tempos na enfermaria até as queimaduras do terceiro grau resolverem o assunto. E não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso emprego. Quer dizer, já não é preciso preocuparmo-nos com a saúde. Já não é preciso comer o filho. Já não é preciso comer nada. Nem acabar esta crónica. Nem rasgar papel. Nem deitar períodos para o lixo. Nem estar à espera do exame no mês de abril. Nem ter demasiadas coisas dentro. Nem de não estar satisfeito com a editora que, essa sim, ficará satisfeita dado que quando um escritor pifa vende mais e é maçador falar nisto mas vender é importante. A cultura é muito bonita porém, como deve calcular, como suponho que calcula, como calcula com certeza, é necessário ganhar a vidinha. Nunca lhe foi tão difícil escrever uma crónica? Pois olhe, já a terminou, vê, você lamenta-se, lamenta-se, mas acaba por cumprir o trabalho. Muito gostam os artistas de choramingarem.


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À S U P E R F Í C I E

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VIAGEM OU TRAVESSIA INICIÁTICA? FELICIDADE OU SALVAÇÃO? Manuel Afonso Costa NO CASO das ilhas convergem pelo menos três elementos de grande significado simbólico: a ilha em si mesma, o elemento água e a ideia de travessia. A ilha é um terra isolada, espécie de deserto no meio do mar. E sabe-se o quanto o desejo religioso se concretiza melhor nos espaços ermos e afastados do mundo e quanto o sentimento de espera ganha aí uma intensa dimensão espiritual. A água porque se sabe também que o elemento água estimula simbolicamente a purificação e purga porque a água separa os mundos1. E finalmente a ideia de travessia porque ela é indissociável de todos os perigos, sabendo-se que eles nobilitam iniciaticamente. Se a ideia de travessia em si mesma pode ser investida de um poderoso significado simbólico a travessia dos rios e dos mares tem uma grande tradição iniciática. Como diz Catalão: “A viagem para lá do mar provoca uma libertação do tempo anterior, um corte com o tempo e o mundo antigo, (...) porque o mar é em si mesmo (...) e foi o mar que deu à luz a terra e o homem”2. Esta relevância do mar é confirmada por inúmeras cosmogonias, entre as quais destaco o poema cosmogónico acádio, Poema da Criação (Enuma elish) onde o herói Marduk mata a deusa má Tiamat (o mar) e a partir do seu corpo constrói o universo e o homem3. É enorme o número de aventureiros, ascetas e místicos que procuraram o paraíso em ilhas perdidas no meio das grandes massas marítimas. No fundo, a ilha é ao mesmo tempo terra, realidade e ficção, existe mas não existia antes, estava lá para ser descoberta, mas protegida do mundo, ela oferecia-se à descoberta mas só os puros poderiam atingi-la. Ela está separada dos homens pelo mar e a travessia do mar é a iniciação por excelência. Os rios são também um elemento determinante na geografia dos paraísos, não só porque o paraíso é ele-mesmo o lugar de origem dos maiores rios como, associados a fenómenos de catabase, eles aparecem como as grandes fronteiras separadoras do mundo real e do mundo escatológico. São em geral rios as derradeiras sentinelas não só do paraíso como dos antros infernais. Por outro lado os rios são adereços recorrentes no processo iniciático de personagens eleitas, destinadas a grandes feitos, tais como Moisés, Amadis de Gaula etc. Se os rios aparecem no início a ungir de predestinação os eleitos sujeitos à sua prova aparecem também

no fim, a marcar as jornadas decisivas em direcção ao paraíso e ao inferno: Gilgamesh, as arcas fúnebres egípcias etc. Na Demanda do Santo Graal, Lancelot tem a visão do inferno para lá de um grande rio. Na descida de Eneias aos antros infernais, o mais famoso dos rios infernais o Aqueronte e seus afluentes lá estão organizando todo um labirinto aquoso e lodoso, envolvendo o acesso ao inferno. E finalmente ainda na Eneida aparece o Letes ou rio do esquecimento que assinala a passagem para o Eliseu, lugar reservado aos eleitos e virtuosos. Em todos os casos, porém, prevalece uma ideia de viagem, seja ela catabase (descensus ad inferos) ou ascensão, em meio aquoso ou ctónico que introduz como essencial a ideia de deslocação no tempo e no espaço, via-

gem essa que é isomórfica da viagem do devir própria à odisseia do homem do nascimento à morte e para lá dela já que a morte é a viagem arquetipal de todas as viagens. Note-se de passagem que a viagem também pressupõe a ideia de travessia e esta é sempre encarada como uma prova, algumas vezes iniciática, como já disse. Sabe-se do papel que as navegações fúnebres desempenharam nos mitos de fundação assim como em muitas escatologias. “No diálogo dos mortos, de Luciano, para entrar na barca de Caronte os mortos têm de entrar nus e sem bagagem. Têm também de se separar da beleza, da arrogância, do orgulho, da cólera, da insolência, das paixões: a vaidade, o luxo, a glória, o nascimento, os títulos (...) A

travessia da água funciona (...) como prova que escolhe os puros”4. Em muitos casos este sonho concretiza-se apenas num lugar retirado, agradável e tranquilo, na pervivência do topos greco-latino do locus amoenus, que é permanente no imaginário ocidental da vida feliz, na vida ou na literatura e ao qual se atribuem as qualidades sonhadas: Fontaine de Vaucluse para Petrarca, a Saint Victoire para Cézanne, A Fonte Santa para Correia Garção, Monticello para Jefferson, Tusculum para Cícero, a Propriedade de Sabina ou a Propriedade de Tivoli para Horácio e Andes ou a Villa de Posilipo para Virgílio, ou ainda Shepherd’s Cottage para a princesa Perdita de Shakespeare, etc. O paraíso é ainda inseparável da ideia de viagem, pelo facto de uma das características do paraíso ser a distância, distância que se concretiza nas ilhas longínquas, nos oceanos profundos ou nas montanhas de difícil acesso. Aliás à ideia de viagem está associado um sentido de purificação, mas também de repouso merecido, após a longa provação iniciática. A transcendência geográfica valoriza os lugares distantes e viajar é simbolicamente uma saída do eu. Só saindo de si se empreende o caminho da busca primordial. Fechamento no ser, saída e regresso5, eis os tempos implícitos em toda a viagem. E a viagem é além disso vencer o perigo, daí que o acesso ao paraíso em Dante, por exemplo, obrigue à travessia do fogo.

Bibliografia Catalão, Pedro Miguel s. d. O motivo da ilha mítica na literatura medieval portuguesa, Lisboa: Universidade Nova de Lisboa (Texto policopiado). Le Goff, Jacques 1984b «Idades míticas», in Enciclopédia Einaudi. Memória-História, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

Notas 1 E é porque separa os mundos, que purifica. A purificação é esta separação judiciosa. Todas as figuras da purificação estão investidas desta função de separação. É quase uma tautologia, a expressão: «separação das águas». 2 Catalão s/d: 168. 3 Síntese feita a partir de Le Goff 1984. 4 Catalão s/d: 46 e 47. 5 Como na Odisseia. Mas Lévinas virá a propor modernamente uma outra aventura. Aventura que não é uma odisseia. Uma aventura que não culmina num regresso a si.


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O L H O S A O A L T O

gente sagrada

金花

Mas esta rapariga, que na sua juventude se tornou uma deusa, passou a ter uma história de vida difícil pois, não havia homem algum que a quisesse desposar

José Simões Morais

A FLOR DE OURO, KAM FA São várias as histórias que encontramos sobre a deusa Flor de Ouro, (金花, Jin Hua em mandarim e Kam Fa em cantonense), que é celebrada no dia 17 da 4.ª lua, este ano a ocorrer a 7 de Maio do ano solar. Sendo a principal das 18 amas do panteão budista, grupo de senhoras que estão prontas a ajudar as crianças a nascer e a crescer, educando-as e livrando-as de doenças, será como a representante das parteiras, num tempo em que ainda se nascia na casa familiar. Mas esse período, que durou todo o Neolítico, terminou agora com a maioria dos nascimentos a ocorrerem nos hospitais. Lugar de um nós doente, que se reflecte no grande número de cesarianas ocorridas mesmo nas maternidades. Na província de Kuangtung (Guangdong em mandarim), durante o reinado do primeiro imperador da dinastia Ming (13681398), conta a História que a esposa de um capitão de Cantão estava para dar à luz, mas o parto adivinhava-se muito difícil. Durante um sonho, ao capitão apareceu um ancião dizendo-lhe que deveria procurar uma senhora cujo nome era Kam Fa, pois só ela poderia ajudar a sua esposa e o filho que ia nascer, a sobreviver das complicações do parto. Ao acordar, o militar mandou enviados pela cidade à procura de todas as pessoas que tinham o nome Kam Fa e foram mais de uma centena as que apareceram. Uma a uma foram entrando no quarto da parturiente e quando uma rapariga com apenas 14 anos aí se encontrava, ouviu-se por fim o choro do bebé masculino que acabava de nascer. A alegria do pai foi enorme e este olhando para a rapariga que ajudara a sua esposa, viu nela uma deusa e rapidamente a notícia se espalhou pela cidade.

Desde então, a senhora Kang Fa tornou-se uma divindade muito querida pelas devotas mães chinesas, pois é protectora dos nascimentos e das crianças, socorrendo-as também nas suas enfermidades, nunca deixando de atender uma mãe aflita que a invoque. Mas esta rapariga, que na sua juventude se tornou uma deusa, passou a ter uma história de vida difícil pois, não havia homem algum que a quisesse desposar. Já como mulher e com essa triste sina, um dia resolveu suicidar-se, atirando-se ao lago em frente de sua casa. Após sete dias, surgiu das águas uma estátua de madeira cujo rosto era o de Kam Fa. As pessoas para a homenagear construíram-lhe um templo em frente à sua casa, que desapareceu no reinado do imperador Jiajing (1521-1566), devido à intransigência de um alto funcionário que por aí queria passar e por isso mandou que derrubassem o templo, mas a rua continuou a existir. Conhecida por Kam Fa kai hoje a rua chama-se Lâi Wán (Li Wan em mandarim). Mas há uma outra história sobre a origem de Kam Fa, que diz ter ela vivido há cerca de três mil anos num lugar em Jiangsu. Ao contrário da versão acima referida, aí se refere que Kam Fa nunca quis casar, tendo dedicado a sua vida às crianças, tanto ajudando-as a nascer, como educadora, ou salvando-as através de curas milagrosas devido ao seu conhecimento da medicina das plantas. Após passar esta vida, Kam Fa, pelas suas virtudes, foi entronizada e o seu culto continuou muito popular até aos nossos dias. Em Macau não há nenhum templo a ela dedicada, mas apenas altares onde está a sua estátua, como os existentes nos templos de Pau Kong e Lin Fong.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Tentando assim governar, fizeram crescer a desordem.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 4 Outrora, sob a liderança dos sábios, as leis eram liberais e leves os castigos. As prisões estavam vazias, todos partilhavam a mesma moralidade e ninguém era traiçoeiro. Nos tempos que se seguiram, o governo não foi assim. Os que estavam acima tornaram-se incontrolavelmente rapaces, enquanto os que estavam em baixo se encheram de cobiça e desrespeito. O povo comum era pobre e miserável, lutando entre si. Apesar de trabalharem duramente, nada alcançavam. Surgiram os ardilosos e muitos ladrões e assaltantes. Os superiores e os subordinados mantinham um ressentimento mútuo, as directivas não eram postas em prática, e os oficiais do governo não se empenhavam em regressar ao Tao. Ignorando o fundamental, os oficiais dedicavam-se ao

trivial; diminuindo recompensas, aumentavam os castigos. Tentando assim governar, fizeram crescer a desordem. *** Grande número de intelectuais na sociedade se afastou da raiz da Via e do seu poder, dizendo que a boa educação e o cumprimento de deveres bastam para governar o mundo. É impossível falar com eles acerca das artes da liderança. *** Quando os soberanos são muito ardilosos, os seus súbditos são muito traiçoeiros. Quando os soberanos mantêm muitos interesses e obsessões, os seus súbditos são muito afectados. Quando os soberanos sofrem de pouca confiança, os seus súbditos andam inquietos. Quando os

soberanos são muito exigentes, os seus súbditos são contenciosos. Se não endireitares estas coisas logo na raiz, mas te preocupares com os ramos, tal é como levantar pó ao tentar limpar uma sala, ou transportar contigo lenha enquanto tentas apagar um fogo. Assim, os assuntos dos sábios são limitados e fáceis de gerir; as suas exigências são diminutas e fáceis de satisfazer. São benévolos sem esforço; neles se confia sem palavras; tudo obtêm sem nada procurarem; são bem sucedidos sem denodo. Atêm-se apenas à realidade, abraçam a virtude e fazem proliferar a sinceridade. Toda a gente os segue, como ecos de um som, como reflexos de uma forma. Aquilo que cultivam é fundamental. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www.ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


FERNANDA DIAS Uma leitura do

YI JING O SOL, A LUA

E A VIA DO FIO DE SEDA A nova tradução do livro que há milénios ilumina a civilização chinesa


h - Suplemento do Hoje Macau #41