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PARTE INTEGRANTE DO HOJE MACAU Nツコ 2770. Nテグ PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE

ARTES, LETRAS E IDEIAS

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IN MEMORIAM ERIC HOBSBAWM


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IN MEMORIAM

ERIC HOBSBAWM (1917-2012): MARXISMO, LULA DA SILVA E GRANDE HISTÓRIA

Ivo Carneiro de Sousa

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O passado dia 1 de Outubro do ano passado, após prolongada doença, morreu num hospital de Londres com 95 anos o mais importante, conhecido e traduzido historiador britânico: Eric Hobsbawm. Apesar da notícia ter corrido muitos media, produzindo mesmo os obituários mais contraditórios, o facto tem algum interesse em hospedar-

-se a um jornal referencial de Macau em língua portuguesa, pelo menos para se visitarem algumas lições interessantes sobre a circulação e influência da obra do grande historiador nos países em lusofonia a que a RAEM pretende oferecer prestimosa plataforma. É que, apesar de sofrivelmente editado em Portugal, Eric Hosbawm era o autor estrangeiro mais traduzido, publicado e lido no Brasil nos últimos vinte anos, para além de se ter tornado assumidamente a mais importante referência intelectual do anti-

go presidente Luiz Inácio Lula da Silva com quem manteve demorada amizade, contactos muitos e correspondência abundante. Eric Hobsbawm nasceu longe, no tempo e no espaço, em Alexandria, no Egipto, em 1917, o ano da revolução bolchevique na Rússia, de pai britânico e mãe austríaca, ambos judeus praticantes. Quando tinha dois anos, a família mudou-se para Viena e, depois, fixou-se em Berlim de onde saíria para o Reino Unido, em 1933, depois da vitória eleitoral do Par-

tido Nacionalista e da chegada de Hitler ao poder. Hobsbwam tinha 14 anos e decidiu aderir ao Partido Comunista Britânico. Depois de se doutorar em Cambridge – que o rejeitou para professor – viria a desenvolver inteiramente a sua carreira académica no Birkbeck College de Londres desde 1947 até se reformar como seu presidente em 2002. Em 1978, tornou-se membro da Academia Britânica e, em 1998, recebeu de Tony Blair o título importante de companheiro de honra. Eric Hobsbawm legou-nos mais de


trinta livros e centenas de artigos espalhados pelas melhores revistas académicas, destacando-se na sua bibliografia os quatro volumes que consagrou à história mundial dos séculos XIX e XX, traduzidos em mais de quarenta línguas: A Era das Revoluções (1789-1848), A Era do Capital (1848-1875), A Era do Império (1875-1914) e A Era dos Extremos (1914-1991). Publicou o seu último livro, Como Mudar o Mundo, em 2011, reflectindo com especial inteligência sobre a crise económica que se instalou (para ficar?) na Europa desde 2008, procurando sugerir novas vias de organização da economia e de desenvolvimento social. Apesar de ter estudado com atenção estas quatro obras mais conhecidas (e que não apreciei especialmente), comecei a frequentar com respeitosa atenção a historiografia de Hobsbawm quando, em 1986, li e reli a edição inglesa de A invenção das tradições, livro genial que, contando também com a colaboração de Terrence Ranger, ajudava a esclarecer quanto a «tradição» deve mais às invenções oitocentistas dos nacionalismos e muito menos a qualquer história arcana. Conheci depois Hobsbwam por 1989, em Madrid, no último congresso da Associação de

nizadas em várias universidades britânicas, europeias e norte-americanas. Em 1995, volta ao Brasil para se desdobrar por várias palestras e debates, conhecendo e passando a apoiar activamente Lula da Silva. Não admira, assim, que no extraordinário discurso de tomada de posse como Presidente do Brasil, a 1 de Janeiro de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva tenha referido Eric Hobsbawm como a sua mais importante referência intelectual. Paralelamente, Hobsbawm lia a primeira eleição de Lula como a mais relevante mudança histórica do século XXI, não apenas para o Brasil, mas para o mundo. Por isso, mais tarde, em 2003, já com 85 anos, o historiador foi convidado de honra do festival FLIC, em Parati, na Amazónia. O presidente Lula da Silva enviou especialmente o seu Ministro da Cultura, Gilberto Gil, para o receber: era então uma espécie de veneranda curiosa superstar entre os músicos e as músicas mil do «país maravilhoso». A influência académica, intelectual e política da obra e do pensamento de Eric Hosbsbawm na América Latina é tão presente como gigantesca, estendendo-se do Brasil ao México para se reproduzir através de universidades e editoras im-

Eric Hosbawm era o autor estrangeiro mais traduzido, publicado e lido no Brasil nos últimos vinte anos, para além de se ter tornado assumidamente a mais importante referência intelectual do antigo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com quem manteve demorada amizade, contactos muitos e correspondência abundante. História Económica Mundial, uma organização que havia sido tradicionalmente dominada por historiadores soviéticos e da Europa do Leste de que acompanhei os congressos em 1984 e 1986, em Moscovo e São Petersburgo (na altura ainda Leninegrado). Apesar do seu português bastante correcto, nunca consegui nos anos seguintes mobilizar uma instituição académica que o convidasse a partilhar estudos e ideias em Portugal: os departamentos de história das universidades públicas eram ainda bastante conservadores para além de não saberem ler o que circulava em inglês. Hobsbawm nunca visitou, assim, um país de que conhecia bastante bem a história e a que se referia com o maior interesse. A história é completamente outra no Brasil onde, popularmente conhecido por Henrique Hobsbawm, se tornou nas últimas décadas o autor de língua inglesa mais estudado e citado. A sua influência académica e política é enorme. Em 1975, convidado pela Universidade Estadual de Campinas (a UNICAMP), Eric Hobsbawm participa activamente com as suas ideias no processo de democratização do Brasil, tema a que consagraria investigação, escritos e muitas conferências orga-

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portantes na Argentina ou no Chile. Significativamente (ou será mesmo curiosamente?), esta frequência referencial das obras do grande historiador faz-se precisamente pelas mesmas razões que ditaram a sua excomunhão entre alguns meios académicos e intelectuais europeus e norte-americanos: o seu assumido marxismo que, generosamente renovado e requestionado pela sua investigação, decidiu não renegar até à sua morte. A pergunta que divide (ainda bem) e invalida (melhor ainda) a apreciação favorável unânime do seu legado parece ser estranhamente esta: porque é que Eric Hobsbawm, indiscutivelmente um dos maiores historiadores contemporâneos, permaneceu marxista mesmo depois do fim da União Soviética e da queda do muro de Berlim, tendo mesmo chegado a ousar defender a história do comunismo (que não os regimes comunistas) ainda nos primeiros anos do século XXI? Um homem da idade de Hobsbawm, nascido em 1917, pertence a uma geração absolutamente singular que viveu tanto o colapso do capitalismo durante a Grande Depressão quanto, ainda por cima como judeu, a aterradora ascensão de Hitler e do nazismo na Alemanha. Nessa década

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de 1930 em que Hobsbawm se tornou um estudante mais do que brilhante, muitos milhares de jovens europeus devem ter enfrentado a opção absolutamente dicotonómica de estarem com ou contra o nazismo. E mais ninguém parecia nesta época estar mais contra os nazis do que os comunistas. Hobsbawm filiou-se no Partido Comunista britânico ainda adolescente e foi provavelmente leal, à sua maneira, até ao fim a um conjunto político e simbólico de experiências históricas único mais do que a uma cartilha de ideias ortodoxas que sempre criticou. O comunismo oferecia nas primeiras décadas do século XX, muito mais do que quaisquer ideias não-religiosas actuais, um sentido especial de comunidade. Pertencer então a um Partido Comunista obrigava a assumir um compromisso com a conspiração, de lealdade para com os amigos que sofriam ou haveriam de sofrer, firmando o sentimento colectivo de que a luta não era em vão já que um mundo mais glorioso haveria de nascer. À semelhança de muitas religiões escatológicas, o comunismo oferecia uma lógica de dor, redenção e progresso: cada prisão, cada

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deportação para um campo de concentração, cada execução não era apenas um momento de horror, mas mais uma prova da brutalidade, decadência e, sobretudo, fraqueza do capitalismo. A narrativa e simbólica revolucionárias sublinhavam ainda que o comunismo podia consolidar e salvar mesmo a geração engolida pela guerra, precisamente porque transcendia as gerações. O motor da história, como Marx havia ensinado, residia inexorável nas mudanças dos modos de produção: quando as estruturas básicas da economia começaram a mudar, a longa ordem

feudal agrária foi obrigada a ceder ao capitalismo nas cidades. A expansão das indústrias multiplicara o proletariado que reclamava agora os frutos do seu trabalho até que as fábricas e as cidades fossem partilhadas por todos. A propriedade privada comparecia como o pecado original da história humana, mas com a revolução proletária esse mal seria removido para se regressar à natureza original da propriedade comum vazando-se em harmonia social e prosperidade colectivas. Esta ideia de história herdada de Marx tinha para os comunistas uma lógica, mas

Parece importante elogiar mesmo ainda hoje aqueles que defendem os fracos contra os poderosos, a mudança contra as rotinas lucrativamente instaladas, batendo-se a partir de ideias difíceis e minoritárias, ideologias transformadoras e utópicas..., sobretudo hoje.

também um forte elemento de fé. Fidelidade e lógica tinham de operar conjuntamente, apesar de Hobsbawm privilegiar exclusivamente a lógica: para ele, comunistas podiam ser grandes historiadores (fascistas não...) porque o marxismo providenciava à história tanto uma metódica como uma nova intriga comprometida com os movimentos e as transformações sociais. Contudo, como se sabe, o comunismo no século XX não foi apenas uma ideia, um sonho, mas uma realidade política e a sua ideia de história transformou-se de profecia em edição retrospectiva. A União Soviética e as suas políticas de exterminação eram largamente conhecidas: a fome deliberada de milhões de ucranianos em 1933, o extermínio de camponeses e minorias étnicas em 1937 e 1938, a aliança com a Alemanha Nazi em 1939, a dominação pós-guerra da Europa do Leste, o esmagamento dos movimentos de reformas na Hungria e na Checoslováquia, a par de muitos outros arquipélagos de Gulag que fizeram o sucesso de variados romances e filmes de Hollywood alimentados pelos jogos de trocas de contrastes da Guerra Fria.


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Na extraordinária história do mundo moderno publicada por Hobsbawm, a sua última parte (A Era dos Extremos (19141991) é, de facto, a mais frágil, em parte porque o historiador tem de fazer face a uma União Soviética que coloca problemas mais do que embaraçosos ao esquema marxista e à utopia comunista de história. Em rigor, a história da União Soviética – quase curta numa perspectiva de longa duração – não apenas não trouxe o que o comunismo prometia como também chegou ao fim sem qualquer glória, soçobrando mesmo face a esses amplos movimentos de massas que rapidamente derrubaram todos os muros de Berlim. A ideia marxista de que a história da humanidade é uma grande história de sucessivos saltos e transformações rumo à conclusão maravilhosa de uma sociedade sem classes não aconteceu. Por isso, muitos políticos, intelectuais e académicos no mundo ocidental, liberais, democratas, sociais-democratas ou até socialistas, pensaram que a história tinha mesmo uma intriga lógica mas a reversa do que o comunismo propunha: o fim da União Soviética não era o fim da ideologia mas a prova de que a as ideologias liberais e democráticas ocidentais eram melhores. Eric Hobsbbawm não tinha no fim da sua vida simplesmente a certeza de que isto fosse inteiramente assim. Porque é que Hobsbawm pensou como entendeu, viveu como quis, escreveu o que nos deixou ou insistiu entre provocação e metáfora em se apresentar como o último historiador marxista é uma questão que não merece julgamento, mas compreensão, senão mesmo compaixão. Eric Hobsbawm foi certamente leal à memória dos seus camaradas e provavelmente sentimental em relação ao seu passado juvenil que definiu tanto as suas opções ideológicas quanto o seu carácter. Nos seus últimos anos de vida, nonagenário, lido em todo o mundo, respeitado tanto como contestado, encontrou-se num momento histórico, o nosso, que ainda se lhe afigurava uma era da ideologia – cada vez mais dominada, como insistia, pelas crenças liberais e neo-liberais –, mas em que a sua ideologia, as suas referências marxistas se encontravam numa posição progressivamente mais fraca, diminuída, praticamente silenciosa. Mas Hobsbawm era um lutador. Ao revisitar o passado de acordo com a sua ideologia, reconstruindo os movimentos, turbulências, mudanças políticas e sociais muitas da história contermporânea, Hobsbawm procurava defender pela história um estado soviético que não existia e ideias que pareciam definitivamente mortas e entrerradas. Por mais (ou completamente) errado que estivesse, ainda assim é importante destacar as virtudes das suas demoradas e quase teimosas posições: parece importante elogiar mesmo ainda hoje aqueles que defendem os fracos contra os poderosos, a mudança contra as rotinas lucrativamente instaladas, batendo-se a partir de ideias difíceis e minoritárias, ideologias transformadoras e utópicas..., sobretudo hoje.

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São Paulo, 1° de outubro de 2012

OBRAS DE ERIC HOBSBAWM EDITADAS EM PORTUGAL:

Prezada Senhora Marlene Schwartz Acabo de receber, com profunda tristeza, a notícia do falecimento do seu marido, o querido amigo Eric Hobsbawm, um dos mais lúcidos, brilhantes e corajosos intelectuais do Século XX. Desde que o conheci pessoalmente, muitos anos atrás, recebi de Eric, como ele preferia que eu o tratasse, incontáveis manifestações de estímulo à implantação de políticas que incorporassem os trabalhadores aos benefícios e à riqueza produzidos pelo conjunto da sociedade brasileira. Ao longo da última década, li com um sentimento de orgulho as entrevistas em que ele atribuía ao nosso governo a responsabilidade por “mudar o equilíbrio do mundo e levar os países em desenvolvimento para o centro da política internacional”. Quatro meses atrás, poucos dias antes de completar 95 anos, Eric Hobsbawm enviou-me, por um amigo comum, uma carinhosa mensagem. “Diga ao Lula para seguir lutando pelo Brasil”, disse ele, “mas não se esquecer jamais da sofrida África.” A partir de agora meu comprometimento com os irmãos africanos passará a ser, também, uma homenagem à memória de seu marido. Mais que um privilégio, foi uma honra ser contemporâneo e ter convivido com Eric Hobsbawm. Receba e, por favor, transmita aos filhos, netos e bisnetos dele as minhas homenagens. Luiz Inácio Lula da Silva

Globalização, Democracia e Terrorismo, Ed. Presença A Era das Revoluções (1789-1848), Ed. Presença A Era do Capital (1848-1875), Ed. Presença A Era do Império (1875-1914), Ed. Presença A Era dos Extremos (1914-1991), Ed. Presença Tempos Interessantes: Uma Vida no Século XX, Ed. Campo das Letras Escritos sobre a História, Ed. Relógio D’Água O Século XXI - Reflexões Sobre o Futuro, Entrevista a Eric Hobsbawm por Antonio Polito, Ed. Presença A Questão do Nacionalismo — Nações e nacionalismo desde 1780, Ed. Terramar

OBRAS DE ERIC HOBSBAWM EDITADAS NO BRASIL: A Era das revoluções - 1789-1848 (2009, Paz e Terra) A Era do capital - 1848-1875 (2009, Paz e Terra) A Era dos impérios - 1875-1914 (2009, Paz e Terra) A Era dos extremos - O breve século XX (1995, Cia. das Letras) História do marxismo - 12 volumes (19851989, Paz e Terra) Estratégias para uma esquerda racional Escritos políticos - 1977-1988 (1991, Paz e Terra) A revolução francesa (1996, Paz e Terra) História social do jazz (1990, Paz e Terra) Ecos da Marselhesa - Dois séculos revêem a Revolução Francesa (1996, Cia. das Letras) Pessoas extraordinárias - Resistência, rebelião e jazz (1998, Paz e Terra) Sobre história (1998, Cia. das Letras) Mundos do trabalho (2000, Paz e Terra) O novo século - Entrevista a Antonio Polito (2000) – também em edição de bolso (2009, Cia. das Letras) Tempos interessantes - Uma vida no século XX (2002, Cia. das Letras) Revolucionários - Ensaios contemporâneos (2003, Paz e Terra) A transição do feudalismo para o capitalismo Um debate (com outros autores) (2004, Paz e Terra) Depois da queda – O fracasso do comunismo e o futuro do socialismo (com outros autores) (2005, Paz e Terra) Globalização, democracia e terrorismo (2007, Cia. das Letras) A invenção das tradições (2008, Paz e Terra) Nações e nacionalismo desde 1780 (2008, Paz e Terra) Da revolução industrial inglesa ao imperialismo (2009, Forense Universitária) Bandidos (2010, Paz e Terra) Os trabalhadores - Estudos sobre a história do proletariado (2010, Paz e Terra) Como mudar o mundo – Marx e o marxismo 1840-2011 (2011, Cia. das Letras)


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O MARXISMO HOJE

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ENTREVISTA A ERIC HOBSBAWM

RIC Hobsbawm: Sou o Eric Hobsbawm. Sou um historiador muito velho. Durante toda a minha vida escrevi principalmente sobre a história dos movimentos sociais, a história geral da Europa e do mundo nos séculos XIX e XX. Acho que todos os meus livros estão traduzidos para italiano e alguns foram até bastante bem recebidos.

A 18 DE JUNHO DE 2011, POUCOS DIAS APÓS CUMPRIR O

BG: A nossa primeira pergunta é sobre o seu livro. O marxismo é considerado um fenómeno pós-ideológico. Poderia explicar-nos porquê? E quais podem ser as consequências dessa mudança? Eric Hobsbawm: Eu não usei no meu livro exactamente a expressão «fenómeno pós-ideológico» para definir o marxismo hoje, mas é verdade que, no momento, o marxismo deixou de ser o principal sistema de

INHERITANCE OF MARXISM. DAS ENTREVISTAS PUBLICADAS

SEU 94º ANIVERSÁRIO, ERIC HOBSBAWM FOI ENTREVISTADO POR VÁRIOS JORNAIS E REVISTAS NA ALTURA DO LANÇAMENTO DA EDIÇÃO ITALIANA DO SEU ÚLTIMO LIVRO: HOW TO CHANGE THE WORLD - WHY REDISCOVER THE

POR ALGUNS JORNAIS ITALIANOS, TRADUZ-SE O TEXTO DA RESPONSABILIDADE DE BEPPE GRILLO QUE SE TORNOU LIVRE, UNIVERSAL E CONTROVERSO EM MUITOS SÍTIOS E DEBATES MULTIPLICADOS PELA INEVITÁVEL INTERNET.

crenças associado aos grandes movimentos políticos de massas em toda a Europa. Apesar disto, acho que sobrevivem ainda alguns pequenos movimentos marxistas. Nesse sentido, houve uma grande mudança no papel político que o marxismo desempenhava na política da Europa. No entanto, há algumas partes do mundo, nomeadamente a América Latina, em que as coisas não se passaram do mesmo modo. Seja como for, a consequência daquela mudança, na minha opinião, é que agora todos nos podemos concentrar mais e melhor nas mudanças permanentes que o marxismo provocou, mesmo até nas conquistas permanentes do marxismo. Essas conquistas permanentes, para mim, são as seguintes: primeiro, Marx introduziu algo que foi considerado novidade e ainda não se realizou completamente, a


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saber, a crença de que o sistema económico que conhecemos não é permanente nem destinado a durar eternamente, sendo antes apenas uma fase, uma etapa no desenvolvimento histórico que acontece de um determinado modo e deixará de existir e converter-se-á noutra coisa ao longo do tempo; segundo, acho que Marx se concentrou na análise do modus operandi específico, do modo como o sistema se concretizou e se desenvolveu. Em particular, Marx concentrou-se no curioso e, ao mesmo tempo, descontínuo modo através do qual o sistema capitalista cresceu e desenvolveu contradições que, por sua vez produziram, grandes crises. A principal vantagem da análise que o marxismo permite fazer é a que considera o capitalismo como um sistema que origina periodicamente contradições internas que geram crises de diferentes tipos que, por sua vez, têm de ser superadas mediante uma transformação básica ou, pelo menos, alguma modificação menor do sistema. Trata-se desta descontinuidade, desta assunpção de que o capitalismo opera não como sistema que tende a se auto-estabilizar, mas que é sempre instável e eventualmente, portanto, requere grandes mudanças. Esse é o principal elemento que ainda sobrevive do marxismo.  Terceiro, e acho que aí reside a singularidade do que se poderá chamar de fenómeno ideológico, o marxismo é baseado, para muitos marxistas, num senso profundo de injustiça social, de indignação contra a desigualdade social entre os pobres e os ricos e poderosos.  Quarto, e último, acho que talvez se deva considerar um elemento que Marx talvez não reconhecesse, mas que esteve sempre presente no marxismo: um elemento de utopia. A crença de que, de um modo ou de outro, a sociedade chegará a uma sociedade melhor, mais humana, do que a sociedade na qual todos vivemos actualmente.  BG: No norte da África e em alguns países europeus – Espanha, Grécia e Irlanda –movimentos de jovens que nasceram na internet e usam redes como o Twitter e o Facebook estão a aproximar-se da política. São movimentos que exigem mais envolvimento e mudanças radicais nas escolhas das sociedades. Mas, ao mesmo tempo, a Espanha tende à direita e na Finlândia, Holanda, Bélgica e até mesmo na França, com Marie Le Pen, estão a surgir partidos nacionalistas de extrema-direita cada vez mais populares. Não é isto uma contradição? Eric Hobsbawm: Não, não acho. Acho que são fenómenos diferentes. Acho que, na maioria dos países ocidentais, hoje, os jovens são uma minoria politicamente activa, largamente por efeito de como a educação é construída.. Os estudantes sobretudo das Universidades sempre foram, ao longo dos séculos, elementos activistas. Ao mesmo tempo, a juventude educada hoje encontra-se muito mais familiarizada com as modernas tecnologias de informação que transformaram a agitação política transnacional e a mobilização política transnacional.

Mas há uma diferença entre (a) esses movimentos de jovens educados nos países do ocidente, onde, em geral, toda a juventude é fenómeno de minoria, e (b) movimentos similares de jovens em países islâmicos e em outros lugares, nos quais a maioria da população tem entre 25 e 30 anos. Nesses países, muito mais do que na Europa, os movimentos de jovens são politicamente muito mais massivos e podem ter maior impacto político. O impacto adicional na radicalização dos movimentos de juventude acontece porque os jovens hoje, em período de crise económica, são desproporcionalmente afectados pelo desemprego e, portanto, estão proporcionalmente muito mais insatisfeitos. Mas não se pode adivinhar que rumos tomarão esses movimentos. No todo, os movimentos dessa juventude educada não são, politicamente falando, movimentos da direita. Mas eles só, eles pelos seus próprios meios, não são capazes de definir o formato da política nacional e o futuro das transformações políticas. Acresidto que, nos próximos meses, assistiremos aos desdobramentos desse processo principalmente nos países islâmicos do Norte de África e do Médio-Oriente. Os jovens iniciaram grandes revoluções, mas não serão necessariamente eles a decidir a direcção geral pela qual se orientarão politicamente essas revoluções. Cada direcção, claro, depende do país e da região. Obviamente, as revoluções serão muito diferentes nos países islâmicos, do que são na Europa ou, claro, nos EUA. E é verdade que na Europa e, ainda que menos, nos EUA pode haver uma deriva para a direita na política. Mas isso, parece-me, poder ser assunto para outra pergunta. BG: Sim, a próxima pergunta é sobre a crise económica em que vivemos desde 2008. As crises de 1929, 1933, levaram o fascismo ao poder. Prevê algum risco de a crise actual ter os efeitos que tiveram as crises de 19228, 1929 e 1933? Eric Hobsbawm: Bem, não há dúvidas de que a crise, a crise económica que se arrasta desde 2008, tem muito a ver com a deriva à direita na Europa. Acho que, hoje, só quatro economias na Europa, na União Europeia, estão sob governos de centro ou de esquerda. Alguns devem perder, e a Espanha vai provavelmente mover-se em direcção à direita. Nesse sentido, parece verdade. Não acho que haja aí qualquer risco de ascensão do fascismo, como nos anos de 1930. O perigo do fascismo nos anos trinta foi, em grande medida, resultado da conversão de um país em particular, um país decisivo politicamente, a Alemanha sob a alçada de Hitler. Não há sinal de que isso esteja a acontecer hoje. Nenhum dos países importantes, segundo me parece, dá qualquer sinal nessa direcção. Nem nos EUA, onde há um forte movimento direitista, se pode concluir que aquele movimento ganhe poder nas urnas e Obama será provavelmente re-eleito no final de 2012. Nem, tão pouco, no caso dos partidos e movimentos de extrema-direita nos países europeus. Apesar de serem fortes, têm-se mantido

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como fortes minorias sem grandes hipóteses de se tornarem maiorias. Mas, sim, creio que, no futuro próximo, praticamente todos ou quase todos os países europeus serão governados por governos de direita, de um tipo ou de outro. Recorde-se que um dos efeitos do final da crise económica dos anos de 1930 foi que praticamente toda a Europa se tornou democrática e de esquerda, como jamais antes acontecera. Mas isso levou algum tempo. Portanto, há um risco, mas não é o mesmo risco que havia nos anos trinta. O risco é antes o de não se agir o suficiente para lidar com os problemas sociais básicos, enaltecidos pelo capitalismo dos últimos quarenta anos e enfatizados pelo renascimento dos estudos marxistas. BG: O que pensa sobre a União Europeia e sobre o que já foi conseguido? A União Europeia conseguirá consolidar-se ou voltará a ser uma simples reunião de estados? Eric Hobsbawm: Acho que a esperança de que a União Europeia venha a ser algo mais que uma aliança de estados e área de livre comércio não tem grande futuro. Não irá muito além do que já foi até aqui, mas não acho que seja destruída. Acho que o que já se conseguiu um nível elevado de livre comércio, um grau muito mais importante de jurisprudência comum, pelo que uma certa ordem legal comum permanecerá. A principal fraqueza da União Europeia, que me parece razão do fracasso, é o conflito entre a economia e a base social da União Europeia. Um conflito que resultou da tentativa para eliminar a guerra entre a França e a Alemanha e unificar economicamente as partes mais ricas e desenvolvidas da Europa. Esse objectivo foi alcançado, mas foi misturado de seguida com um objectivo político associado à Guerra Fria e ao desenvolvimento após o fim desse período, nomeadamente o objectivo de extensão das fronteiras da União Europeia a todo o continente e mais além. Este processo dividiu a Europa em partes que já não são facilmente coordenáveis. Economicamente, as grandes crises são muito mais duras no que diz respeito às aquisições da União Europeia desde os finais dos anos setenta, nomeadamente a Grécia, Portugal e Irlanda. Mesmo politicamente, as diferenças entre os antigos estados comunistas e os antigos estados não comunistas da Europa enfraqueceram a capacidade da Europa continuar a desenvolver-se. Se a Europa continuará a conseguir manter-se como está, eu não o sei. Não creio, contudo, que a União Europeia deixe de existir e acho que continuaremos a viver numa Europa mais coordenada do que a que se conhecia, digamos, imediatemente depois da II Guerra Mundial.  De qualquer modo, devo dizer que está fazer-me perguntas enquanto historiador, mas sobre o futuro. Infelizmente, os historiadores sabem tanto sobre o futuro quanto qualquer outra pessoa. Por isso, as minhas previsões não são fundadas em nenhuma especial vocação que eu tenha para prever o futuro.


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MORREU o fotógrafo japonês Shomei Tomatsu, responsável por uma das mais marcantes obras sobre a devastação e os sobreviventes do bombardeamento atómico de Nagasaki e Hiroshima, em 1945, e reconhecido como um dos mais influentes fotógrafos da moderna fotografia nipónica do pós-guerra. A informação do desaparecimento de Tomatsu, que morreu de pneumonia provocada por um cancro no dia 14 de Dezembro, só esta semana foi divulgada pela família. Era avesso a grande exposição pública e, segundo o The Guardian, nunca terá saído do seu país natal. Tomatsu, que tinha 82 anos, estava internado há algum tempo no hospital de Naha, capital da província de Okinawa, no Sul do país, uma das regiões que mais fotografou e onde captou as marcas de uma cultura muito particular que sobreviveu a recorrentes invasões, conquistas e ocupações, como a que aconteceu com o Exército norte-americano depois da capitulação nipónica na II Guerra Mundial. A cultura popular americana do pós-guerra e a sua influência na sociedade japonesa foi, aliás, um dos seus principais corpos de trabalho, imagens que tentam capturar as subtilezas visuais, as ambivalências de comportamento de uma sociedade em profunda transformação. Chewing Gum and Chocolate é uma das séries mais famosas deste trabalho e foi registada ao longo de vários anos nos arredores de bases aéreas americanas instaladas em território japonês. Tomatsu concentrou-se sobretudo na experiência individual e nos sinais da presença humana para tentar interpretar situações conjunturais extremas ou em profunda mudança. Michael Hoppen, o galerista que o representava em Londres, afirma, em declarações ao site PDN, que se perdeu “um dos maiores fotógrafos do mundo”. “Shomei Tomatsu recusou-se a ceder em todos os níveis e era o fotógrafo dos fotógrafos”. Considerado um dos pais

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da moderna fotografia japonesa, que nos anos 60 começou a dar sinais através de nomes como Takuma Nakahira e Daido Moriyama e de fotolivros e revistas como a seminal Provoke, foi premiado com

inúmeras distinções nacionais e internacionais tendo publicado 17 fotolivros a título individual. Pouco conhecido fora do Japão, o trabalho de Shomei Tomatsu foi, no entanto, alvo de uma grande retrospectiva

no San Francisco Museum of Modern Art em 2006 (Shomei Tomatsu: Skin of a Nation). Em simultâneo ao impacto da cultura Ocidental nos mais tradicionais modos de vida japoneses, Tomat-

su inquiriu visualmente a proliferação de uma cultura boémia e reactiva ao longo dos anos 60, investida concretizada sobretudo nas séries Eros, Tokyo e Protest, Tokyo. Um fotógrafo em roda-livre

Citado pelo British Journal of Photography, o crítico e teórico de fotografia Gerry Badger afirma que Tomatsu influenciou “de forma decisiva” a chamada “geração Provoke” que agrupou muitos fotógrafos japoneses em


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início de carreira que desenvolveram um estilo visual “em roda livre, altamente expressionista no qual cada fotografia pretendia chegar aos limites da incoerência descritiva”. Para Badger, um dos aspectos mais re-

levantes deste grupo, que teve em Tomatsu um dos principais impulsionadores, era a sua atitude desafiante em relação ao mundo, uma atitude inflamada pelo protesto político e pouco interessada em consolidar

um estilo ou uma estética particulares. Nascido Teruaki Tomatsu, em 1930, em Nagoya, Shomei Tomatsu era um militante pacifista, muito contido nas palavras e na exposição pública dos seus

sentimentos, segundo descreve o obituário do jornal francês Le Figaro, assinanado por Valérie Duponchelle, que o entrevistou no Japão. Começou a fotografar quando era criança e depois de um título académico em

Económicas pela Universidade de Aichi, colobora com o grupo editorial Iwanami. Esta ligação dura pouco, dois anos, tornando-se freelance logo a seguir. Em 1959, funda a cooperativa de fotografia “Vivo” (1957-

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1961) em colaboração com Eiko Hosoe (1933-) e Ikko Narahara (1931-). O primeiro grande marco da sua carreira acontece com a publicação deHiroshima-Nagasaki Document 1961, ao lado de Ken Domon (1909-1990), um fotolivro que desperta o interesse do público e da crítica pela forma impressionista e pouco documental com que trata a devastação causada pelos bombardeamentos atómicos àquelas duas cidades nipónicas, a 9 de Agosto de 1945. É deste período uma das mais icónicas fotografias da sua carreira e do que significou o lançamento das duas bombas atómicas sobre o Japão. Melted Bottle não é uma imagem imediata, mostra aquilo que parece um corpo mutante retorcido, um corpo sem pele, esticado, quando na verdade é uma garrafa de cerveja moldada pelo calor e impacto dos engenhos nucleares. Os objectos arquivados num pequeno museu de memória, onde foi registada esta imagem, dão a Tomatsu uma metáfora visual poderosa do que aconteceu aos corpos humanos nos ataques, ao mesmo tempo que sugere os custos de um acontecimento que mudou a história do país. Depois do trabalho centrado em Hiroshima e Nagasaki, Tomatsu mudou-se para Okinawa quando aquela província estava sob ocupação americana (só foi restituída oficialmente ao Japão em 1972). Para além de ter captado as consequências sociais desta presença naquela região, Shomei Tomatsu construiu um corpo de trabalho de grande relevância sobre as manifestações culturais mais tradicionais do arquipélago. No final dos anos 90, Tomatsu instalou-se novamente em Nagasaki, onde voltou a retratar sobreviventes da bomba atómica, até que, há cerca de dois anos, regressou a Okinawa, onde acabou por morrer. Nos anos mais recentes fotografou também os impactos da explosão económica no Japão. Uma das últimas grandes exposições do seu trabalho aconteceu em 2009 no Museu da Bomba Atómica de Nagasaki. IN PÚBLICO


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D E P R O F U N D I S

a revolta do emir

Pedro Lystmann

O GIM E A ÁGUA TÓNICA Com o gin tónico passa-se o mesmo que se passa com o martini seco. A simplicidade da sua execução convida à experimentação. Contudo, nesta simplicidade parece ter-se introduzido uma irritante proclividade para o disparate. Na confecção de um bebida que só tem quatro ingredientes, dois dos quais de produção industrial – gin, água tónica, uma rodela ou cunha de um citrino e gelo – insinua-se com uma frequência espantosa um impensável número de erros. Este será provavelmente apenas o primeiro de vários textos sobre o gin tónico (em português gim com água tónica) porque o gin tónico é uma bebida infinita na sua simplicidade e na sua diversidade. Por isso tem sido matéria de tão vasta literatura. Bebida simples, hoje em dia muito espalhada, fácil de misturar domesticamente, sobre ela todos opinam. Também é uma bebida matreira. Dois gins feitos exactamente da mesma maneira podem resultar, para surpresa de muitos dos seus executantes, em duas bebidas muito diferentes, como se esta se divertisse a aniquilar periodicamente as nossas certezas. Humoristicamente, o mais fácil é o gin. Este vosso servo, em vista do mercado local, que não exibe produtos de pequenas destilarias, não se inclina particularmente para as marcas mais caras, satisfazendo-se com a honradez da oferta mais tradicional. Este é um lugar como qualquer outro para reflectir sobre o está a acontecer ao gin, um lugar para reflectir sobre a história desta bebida originalmente holandesa mas que entrou no hábito universal graças à sede inglesa e ao seu destino colonial. Recorde-se que não é o gin que exibe propriedades que mantêm a malária a uma distância decente mas a bebida eleita para o acompanhar, a água tónica, considerada por muitos intragável se bebida sozinha. Têm sido várias as peripécias por que tem passado esta bebida de botanicals (maioritariamente junípero, vulgo zimbro em certas zonas, mas também

muitos outros como coentro ou angélica) a mais pícara das quais talvez a da taxa imposta no século XVIII à cerveja que tornou o gin na bebida mais barata do mercado (água incluída), numa versão não cortada, muito mais forte. A sua acessibilidade quase destruiu a Inglaterra (ler, de Henry Fielding, Enquiry into the Causes of the Late Increase of Robbers, 1751). É difícil pensarmos na sua história sem lembrar a gravura de Hogarth (Gin Lane, do mesmo ano da obra de Fielding) em que este mostra a estupidez da populaça intoxicada com esta bebida barata. O que está a acontecer ao gin (em Londres, claro, em Macau, na predição exacta de Auden, tal não irá acontecer) é o que aconteceu ao vodka – de bebida de segunda está a sofrer uma wallpaperização e

está a tornar-se numa bebida com classe. Mas não só. Está a ganhar – como aconteceu com o vodka – sabores novos. Que isto não nos faça esquecer que é, originalmente, uma bebida holandesa de brutos. Bravas destilarias londrinas, de dimensão artesanal, têm vindo a experimentar novas soluções gínicas. Aqui em Macau continuamos agarrados a 7 ou 8 marcas mais ou menos habituais, excepção feita aos que se afoitaram a uma tropicalização total do gin e adoptaram o seu offspring filipino. Mas não há que temer. A oferta ao alcance daqueles que em Macau decidiram conceder um patrocínio particular ao gin é aborrecida mas suficiente. Pessoalmente, ainda não consegui formar uma opinião definitiva sobre se se deve ou não manter

a garrafa de gin no congelador. Há quem diga que o frio anula algum do sabor que os botânicos que formam a sua individualidade lhe dão. Por outro lado, há quem defenda que um bom gin tónico tem de ser servido muito frio e que a sua manutenção no frigorífico favorece perfeitamente este intento. Poder-se-á fazer uma escolha entre estas duas tendências. Os escassos ingredientes tornam a experimentação em casa fácil. Não existe igualmente desculpa económica. A ingrediendia é barata e relativamente fácil de encontrar mesmo que em Macau nos tenhamos de contentar com uma escolha escandalosamente limitada de águas tónicas (o refrigerante mais antigo que se conhece?). A Indian Tonic Water, da Schweppes, parece ser um pouco menos doce. Fever Tree não deve existir. Se há algum consenso no modo como um gin deve ser apresentado este prende-se com a sua temperatura: baixa. Gelo de dimensão adequada feito com uma água de garrafa pouco mineralizada e sem sabor e feito no próprio dia, guardar no congelador o copo e/ou o gin asseguram-no. A adição dos citrinos não apresenta também problemas na confecção de uma variação clássica - limão ou lima em rodela ou em cunha, desde que sejam frescos. Por todo o mundo, com a possível excepção da Arábia Saudita e do Iémen, se começa a alterar esta base clássica. O GT admite muitas variações sem que se perca o seu rosto essencial. O Bar Ozone, em Hong Kong, apresenta um conjunto de variantes que podem servir como exemplo mas isso será escrita para uma outra ocasião. Este luminoso esforço poderá ajudar a afastar a ideia negra que o gin tem carregado ao longo da sua história como uma bebida de bebedores, uma bebida pura de embriagamento. Os mais atentos terão reparado que se não fala aqui do copo que deve conter o gin. Nem se fala em porções. Nem sequer da altura do ano ou do dia em que se deve consumir. Pois não.


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T E R C E I R O O U V I D O

próximo oriente

Hugo Pinto

O SOM E A FÚRIA “Nunca penso em termos como ‘lindo’ ou ‘feio’ porque são demasiado subjectivos. Algo que é lindo para alguém pode ser muito feio para outra pessoa e vice-versa. Quando fazemos música, os únicos parâmetros necessários ter em conta são o tempo e o som. Por vezes, penso até que o som nem sequer é assim tão necessário. Tem tudo que ver com o tempo.” Quem fala assim é Zbigniew Karkowski, que, nesta entrevista à página electrónica Disquiet Junto, datada de 2000, é apresentado como “retrato do artista sonoro moderno”. Por essa Internet fora e em inúmeras críticas e artigos de jornais e revistas não faltam elogios e títulos conferidos a este polaco nascido em 1958. Um resumo possível dos panegíricos pode ser encontrado nas palavras da editora Sub Rosa, casa que dá a chancela ao último trabalho de Zbigniew Karkowski, “Nerve cell_0 (for cello and computer)” (2012), assinado a meias com o violoncelista Anton Lukoszevieze: “Um dos mais influentes compositores actuais de música electrónica. Juntando os mundos da composição moderna e da música industrial, Zbigniew Karkowski é uma figura central no desenvolvimento do “noise” vanguardista”. Logo a seguir, a casa belga acrescenta: “Constantemente na estrada, actua frequentemente nas margens geográficas da cultura da música experimental, e também é assíduo nos palcos do mais estabelecido circuito dos festivais”. Aproveitando a deixa, apraz saber que Macau surge agora como ponto dessa geografia marginal da cultura da música experimental (o circuito dos festivais até existe, mas fica-se por outras andanças), já que o território recebe, este domingo, Zbigniew Karkowski. “Noise-on-Site : Prologue” é o nome do concerto cujo alinhamento é encabeçado pelo polaco, e que conta, ainda, com Sin:Ned (Wong Chung-fai), de Hong Kong, e e:ch, projecto de Eric Chan (Forget the G, Macau), dedicado à música experimental/noise/drone. Nestas páginas, já anteriormente se mencionou o nome de Zbigniew Karkowski a propósito da cena “noise” chinesa, que teve no polaco um impulsionador (e, de certa forma, um dos seus teóricos e ‘historiadores’). Foi o polaco, por exemplo, que assinou, com Yan Jun, o ensaio “The Sound of the Underground, Experimental and Non-Academic Musics in China”, que acompanha “An Anthology of Chinese Experimental Music”, compilação essencial para compreender a realidade do submundo artístico do antigo Império do Meio. Durante vários anos, Zbigniew Karkowski foi residente no Japão, o que lhe permitiu acompanhar de perto a génese do movimento de música experimental na China, tal como o desenvolvimento da cena japonesa.

Em nome próprio, desde o início dos anos 1980, Zbigniew Karkowski tem editado discos (mais de uma centena em diversas editoras de todo o mundo) e composto para diferente meios (filmes, exposições, instalações, teatro, dança), bem como colaborado com The Hafler Trio, Blixa Bargeld, Merzbow, Tetsuo Furudate, Francisco Lopez, ou Li Chin Sung, entre muitos outros. No extenso currículo, saltam ainda à vista os estudos que levou a cabo com ilustres como Olivier Messiaen, Pierre Boulez, Iannis Xenakis ou Georges Aperghis. Palavra de novo à Sub Rosa: “Zbigniew Karkowski está convencido de que a responsabilidade do artista moderno é viajar e trabalhar à volta do mundo, de modo a aprender e compreender diferentes culturas e, assim, descobrir a verdade acerca de nós e do nosso planeta. Também acredita firmemente que o exílio geográfico, político e social é uma condição necessária para uma criação artística honesta e verdadeira.” Depois, uma espécie de aviso: “Ele não está interessado na definição tradicional de música; na sua opinião, todos os sistemas e teorias musicais, enquanto conceitos culturais, devem ser destruídos.” Esta ideia de destruição parece oferecer um contraste óbvio e simultaneamente paradoxal às ideias de minimalismo e repetição que fazem parte do cânone (os puristas que me perdoem) da música experimental a partir da segunda metade do século XX. Ainda que,

ao ouvido destreinado, o “noise” não deixe de ser, apenas, “noise”, isto é, “barulho”, não temos outro remédio se não acreditar num artista dedicado como Zbigniew Karkowski quando diz que não quer parar no tempo e repetir o que já fez, procurando, a cada momento, alargar o espectro do seu trabalho. Nesta expressão chamada “noise” há uma noção que convém não esquecer: desafio. É, na verdade, com provocação que se incita a afrontar (a impetuosidade ou, se quisermos, violência associada ao verbo não é casual) convenções, preconceitos e ideias estabelecidas que são tentadas para uma espécie de jogo complexo, com regras difíceis, através do qual se descobrem ou redescobrem novos e velhos sentidos e significados, conhecimentos e concepções por vezes antigas e fundamentais que damos por adquiridas e imutáveis mas que, uma vez por outra, nos surpreendem. Assim haja vontade. E coragem.

“Noise-on-Site : Prologue” Zbigniew Karkowski (Polónia) Sin:Ned (Hong Kong) e:ch (Macau) 13.01.2013 20h00 Live Music Association Av. Do Coronel Mesquita, 48-48D, Edif. Ind. Man Kei,10B

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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

perspectivas Jorge Rodrigues Simão

A TEORIA DO CHOQUE “… Friedman believed that when the economy is highly distorted, the only way to reach that prelapsarian state was to deliberately inflict painful shocks: only “bitter medicine” could clear those distortions and bad patterns out of the way.” The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism Naomi Klein

A DÉCADA de 1970 é marcada pelo início da profunda crise estrutural, em que se precipita o capitalismo como sistema económico por força das revoltas sociais urbanas, da resistência dos trabalhadores das sociedades em transição da Europa de Leste e dos movimentos de libertação anti-imperialistas da periferia. O rendimento real da população contraiu-se de forma espectacular e rápida, e por tal facto, combinado com os deficits que a crise suportava nesse momento, devido em especial, aos problemas ambientais, à corrida aos armamentos protagonizada pelos blocos capitalista e comunista de poder bipolar, liderados pelos Estados Unidos e ex-União Soviética, respectivamente, o aumento descontrolado dos preços do petróleo (choques petrolíferos de 1973 e 1979) e a deslocação do sistema monetário mundial, depois do abandono do padrão dólar-ouro e o colapso do “Sistema de Bretton Woods”. Seguiu-se a edificação de uma estrutura institucional baseada em organismos então criados no âmbito das “Conferências de Bretton Woods”, como o “Fundo Monetário Internacional (FMI)”, o “Banco Mundial” e o “General Agreement on Tariffs and Trade – GATT – Acordo Geral sobre Pautas Aduaneiras e Comércio”, substituída pela “Organização Mundial de Comércio (OMC)”, que entrou em funcionamento a 1 de Janeiro de 1995, sob a égide dos EUA. O padrão de acumulação keynesiano-fordista (planeamento económico e político, respectivamente), a forma de controlo social fixada pelo “Welfare State” (Estado de bem-estar, traduzido na estabilidade do emprego, políticas de rendimentos e previdência social, que incluía entre outros, o seguro de desemprego, direito à educação, e diversos tipos de subsídios) e a revolução dos rendimentos pelo aumento continuado dos salários, que por consequência provocava o crescimento do consumo, malogrou-se por causa da gestão incontrolável das empresas (multinacionais), do salário relativo e das tendências inflacionistas globais, provocadas pela guerra travada pela potência hegemónica ocidental contra o movimento de libertação do Vietname. A partir dessas premissas, deram-se errados investimentos na periferia dos capitais internacionais excedentes, em particular dos petrodólares, e sob pressão dos movimentos dos trabalhadores, as elites políticas dos países em desenvolvimento encontraram

também, a sua rota. Todavia, e nesse momento evidenciou-se uma vez mais, que o capitalismo como sistema económico-social não é um processo estático, mas um processo agressivo e expansivo de destruição criativa e de despossessão, pelo qual se eliminam e pulverizam todas as barreiras sociais, institucionais, políticas e culturais que se apresentam como barreiras à utilização da força de trabalho e à formação de capital realizável, para produzir a partir dos seus pedaços e dos resultados de tão eficaz expropriação económica, os fundamentos de um novo ciclo de desenvolvimento desigual e de prosperidade. O compromisso estabelecido após a Segunda Guerra Mundial pelos líderes dos países desenvolvidos com os movimentos representativos dos trabalhadores, e as economias nacionais geridas pelos Estados, em prol do desenvolvimento e da implementação de políticas sociais não foi concretizado. O explícito processo de violenta reestruturação social, técnica e económica, inicia-se assim, no qual foram demolidos uns após outros, todos os obstáculos do “status quo” e do “acordo social” em vigor, com a mediação do Estado social. O Banco Mundial, o FMI e os monetaristas neoliberais, afirmaram a propósito, que foram impostos aos líderes dos países em desenvolvimento, presos na armadilha da dívida dos programas de ajuste estrutural, que arruinaram os seus orçamentos, destruíram os seus sectores de economia mista e criaram o desemprego, arrojando os trabalhadores à rua, e à miséria da sobrevivência na economia submersa ou à submissão de uns salários miseráveis, produto de uma reorientação das economias nacionais e da sua produção industrial para a exportação. Algo me faz lembrar a situação presente na União Europeia (UE) e as políticas defendidas pelas mesmas instituições que antes condenavam, mas que nunca deixaram de as aplicar de forma não muito transparente e na maioria das vezes velada, como sempre salientou Joseph Stiglitz. O laboratório experimental foi a contra revolucionária República do Chile, onde sob a ditadura militar do general Augusto Pinochet, sangrentamente imposta a 11 de Setembro de 1973, onde foram criadas as condições magníficas de uma tábua rasa. O Chile vivia um momento de séria hiperinflacção. O economista e Prémio Nobel da Economia de 1976, Milton Friedman, aconselhou o ditador chileno a fazer uma reforma rápida na economia, com cortes nos impostos e nas despesas sociais e supressão de diversa legislação correlacionada, livre comércio e privatização de serviços públicos. Acertou que a celeridade, o inesperado e o valor das deslocações despertariam reacções psicoló-

gicas nas pessoas que ajudariam ao ajustamento. É considerada a maior experiência realizada de reforma do capitalismo, e ficou conhecida como a revolução da “Escola de Chicago”, ou “Tratamento de Choque Económico” como a apelidou. Idêntica terapia tem sido usada em diversos países, incluindo o Sri Lanka, Nova Orleães e Iraque com as necessárias adaptações. Os três princípios constitucionais usados por Milton Friedman, têm seguido o oposto caminho, curiosamente na UE.

O laboratório experimental foi a contra revolucionária República do Chile, onde sob a ditadura militar do general Augusto Pinochet, sangrentamente imposta a 11 de Setembro de 1973, onde foram criadas as condições magníficas de uma tábua rasa Atentamente, e não por mera coincidência, foi esta a teoria aplicada pela Argentina na década de 1970, Reino Unido, em 1982, República Popular da China, em 1989, Rússia, em 1993 e Estados Unidos depois do 11 de Setembro de 2011. As reformas radicais subsequentes à crise financeira asiática de 1997-1998, que foi comparada à “Grande Depressão”, pelo poder avassalador que teve nas economias dos “tigres asiáticos”, tendo o “The New York Times” qualificado como os “maiores saldos totais do mundo”, teve idêntica origem. Na segunda metade da década de 1990, esta constelação de rupturas produziu uma segunda vaga de expropriação político-financeira, que arruinou definitivamente os estratos mais baixos da população de algumas economias emergentes da América do Sul e do Sudeste Asiático. Simultaneamente, e em todos os planos concebíveis, agravou-se a profunda crise estrutural e endógena que sofriam as “economias híbridas” das sociedades em transição da Europa de Les-

te, principalmente na última fase da corrida aos armamentos e na intervenção cada vez mais intensa do FMI e do Banco Mundial nos países altamente endividados, como a Polónia, Hungria, Jugoslávia e Roménia. Após a emersão das sociedades de transição do bloco soviético, iniciou-se com a cumplicidade activa das classes privilegiadas dos países, uma fase de destruição através da aplicação de uma terapia de choque a todas as estruturas socioeconómicas e institucionais que foram submetidas, a um ciclo ruinoso de expropriações e privatizações, liderado pelos governantes, com a participação das elites do partido transformadas em oligarcas, e o capital estrangeiro, conduzindo ao catastrófico empobrecimento da população. Os líderes do partido comunista e do Estado na República Popular da China, iniciaram por sua iniciativa as reformas radicais, que se deu primeiro com o suavização das restrições sobre a circulação da população rural e segundo com o fim das comunas populares agrícolas, constituindo um marco de mudança decisiva no processo de reforma, a partir de 1985. As Zonas Económicas Especiais (ZEEs), estabelecidas entre 1980 e 1984, os investimentos em infra-estrutura financiados por recurso ao deficit, foram a pedra de alicerce, para uma gigantesca corrente de investimento de capital estrangeiro, tendo o governo oferecido condições excelentes de exploração e valorização, garantidas pelo Estado e imposto aos trabalhadores migrantes. O mesmo tipo de desenvolvimento, nas grandes cidades, foi acompanhado por uma desregulamentação neoliberal introduzida primeiro em Inglaterra e depois nos Estados Unidos, e seguidamente imposto, durante a década de 1990, à totalidade dos países desenvolvidos do ocidente. O movimento dos trabalhadores sofreu uma grande redução do seu poder de pressão face à abertura dos mercados de trabalho e à terrível deslocalização da produção para as terras agrícolas tornadas incultiváveis da Europa de Leste e para os novos pólos de crescimento que se tinham formado na China e no Norte do México. O modelo tributário e as funções de redistribuição características do Estado social estão a instalar-se vagarosamente. Os Estados Unidos, a combinação da pobreza dos trabalhadores, desemprego alarmante e a repressão jurídico-policial prosperou de forma relevante, enquanto nas grandes cidades europeias, em conformidade com as orientações neoconservadoras ou neo-social-democratas dos regimes políticos, combina-se a eliminação dos rendimentos sociais compensatórios com novos instrumentos de segregação urbana e/ou de despossessão sociopolítica e coação laboral.


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C I D A D E S I N V I S Í V E I S

FICAREI DEPRIMIDO? Tomi Mori ISSO QUER dizer que pode acontecer amanhã, na semana que vem, no próximo mês, no próximo ano... Sem dúvida, trata-se de uma péssima notícia. Os japoneses sabem disto? Sim, sabem perfeitamente. Esse comentário dos investigadores foi divulgado amplamente nos meios de comunicação japoneses. Depois disso vi, inclusive, uma grande empresa jornalística publicar um manual que explica onde se refugiar, em Tóquio, caso ocorra tal calamidade. A JR (Japan Railways), que opera as principais linhas de comboio de Tóquio, divulgou que irá gastar muitos milhões de ienes para reforçar as linhas dessa que é a principal cidade japonesa e também o coração do país. Várias das grandes empresas japonesas divulgaram que estão a preparar planos para a eventualidade de as suas sedes serem atingidas pelo tremor, seja ele de qual proporção for. Numa situação de emergência, preparam-se para, imediatamente, transferir as operações de seus quartéis generais para outras cidades do país. A polícia japonesa tem um plano de fechar, rapidamente, as 50 principais vias de acesso à cidade. Dizem que é para

que alimentos e ajuda possam chegar ao local, mas é mais provável que seja para impedir que a população possa fugir de um possível inferno e, com isso, aniquile em apenas algumas horas aquilo que é a terceira economia mundial, depois dos EUA e da China. Temos portanto vários cenários possíveis. No caso de haver um forte terramoto, podem ocorrer milhares de mortes. A destruição de milhares de construções. A destruição de ruas e estradas. A destruição completa ou parcial das linhas de comboio e metro. A destruição completa ou parcial da rede elétrica. Isso, por si só, teria consequências catastróficas. Se, como resultado do terramoto, acrescentarmos um tsunami, seja ele pequeno ou grande, teremos essa tragédia multiplicada. Nesse caso poderíamos ver o metro de Tóquio inundado. Os principais edifícios inutilizados, já que parte da sua estrutura de manutenção (eletricidade, aquecimento, etc) encontra-se nas caves. É preciso lembrar também que a sede do governo se localiza em Tóquio. Além desse terramoto, outros investigadores alertam para a possibilidade de que num futuro próximo possam ocorrer os terramotos das regiões de Tokai, Nankai e Tonankai, abrangendo as áreas do cen-

Os investigadores da Universidade de Tóquio anunciaram recentemente que a possibilidade de um terramoto de magnitude superior a 7 pontos, na escala Richter, ocorrer em Tóquio, nos próximos 4 anos, é de 70% tro em direção ao sul, onde estão situadas duas das principais cidades nipónicas, Nagoya e Osaka. Os investigadores dizem também que esses três terramotos podem ocorrer simultaneamente, provocando tsunamis de até dez metros. O que temos a ver isso? Possivelmente, para alguns poucos, nada. Mas, para a grande maioria da população do planeta, provavelmente, muito. Em primeiro lugar, mesmo sem uma tra-

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gédia dessa natureza, a economia japonesa vem naufragando. Mas, caso esse desastre ocorra (refiro-me ao terramoto de Tóquio) existe a possibilidade de o Japão passar da terceira economia mundial para o principal problema económico mundial, arrastando consigo as economias do planeta. Poderia ocorrer um pandemónio nas bolsas de valores do mundo inteiro. A moeda japonesa poderia ser pulverizada instantaneamente. Poderíamos passar de uma crise global para uma profunda depressão global. E isso pode ocorrer a qualquer momento, já que os dados da atividade sísmica na ilha de Honshu, onde se localiza Tóquio, têm-se mostrado particularmente preocupantes desde a tragédia do ano passado. Sinceramente, ponderei muito sobre escrever a minha opinião. Mas, depois de escrever sistematicamente sobre o Japão, por mais de dois anos, vejo-me na obrigação de dizê-la. Nesse caso, mais do que ninguém, gostaria de estar equivocado. O que fazer? Não vejo outro caminho além de continuar a lutar contra as políticas de austeridade e de opressão. Mas acredito também que, caso não tenhamos a valentia necessária, poderemos cair numa grave depressão. Ficarei deprimido?


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O L H O S A O A L T O

gente sagrada

地藏王

José Simões Morais

DI ZANG WANG O REI DO INFERNO

O INFERNO (Di Yu) é um lugar temporário para onde vão todos os seres que durante a vida não conseguiram atingir a perfeição e terminar com o ciclo de reincarnações. Aí estão um período, até que o Rei do Inferno, Di Zang Wang, por lá passa para libertar as suas almas e as levar para a salvação do Céu de Amitabha, o Buda da Compaixão ilimitada. Como Deus da Misericórdia, Di Zang Wang é um dos quatro mais famosos bodhisattvas do Budismo, sendo os outros Guan Yin, Wen Shu e Pu Xian. Bodhisattva Di Zang Wang tinha o nome de Jin Qiao Jue (696-794) e era filho primogénito do sétimo Rei Hyegong (765-780) de Silla, no período da Coreia unificada. Segundo a lenda, ao nascer já trazia as raízes do Budismo e por isso ao chegar à idade dos 24 anos deixou a família, rapou o cabelo e tornou-se um monge e dirigiu-se para a China. Fez a travessia de barco e após acostar em Jiangsu, chegou à Montanha de Jiuhua, em Anhui. Aí vislumbrou a forma de Jiuhua shan como uma flor de Lotus. Costumava passear e embrenhar-se pela montanha dentro e achando esse lugar deslumbrante, não o quis deixar. Encontrou uma gruta e aí ficou a viver isolado em meditação. Longo tempo depois, alguém por aí passou e encontrou-o a pouco comer. Quando soube da história do monge, resolveu construir-lhe um templo. Por essa altura, a Montanha Jiuhua pertencia a Min Gong, um devoto budista que, quando soube do interesse de aí se construir um templo, ficou muito contente. Dirigiu-se logo para oferecer o pedaço de terra e, falando com Jin Qiao Jue, disse-lhe entregar a quantidade de terra que ele achas-

se necessária para o templo. A resposta de Jin Qiao Jue foi a de apenas necessitar de terra suficiente para o manto que vestia. Surpreso, Min Gong achou que tão pouca terra apenas chegaria para aí colocar uma cama. Então Jin Qiao Jue retirou o manto e atirou-o para o terreno. O manto cobriu toda a montanha e então o dono ofereceu-lha. Min Gong colocou o seu filho, Dao Ming, a acompanhar o monge e depois foi ele próprio discípulo do filho. Pronto o templo Hua Cheng, aí viveu Jin Qiao Jue mais 75 anos, tendo passado desta vida com 99 anos. Após três anos, um dos seus discípulos ao abrir o caixão, onde ficou o seu corpo sentado na posição de meditação, descobriu que este não se tinha deteriorado e por isso cobriram-no com ouro. Como nos conta o Pe. Manuel Teixeira: “Buda fê-lo então Senhor do Mundo Subterrâneo e foi-lhe prestada homenagem pelos dez juízes do inferno. “Tendo atingido o Dao, já que também pertence ao panteão daoista, tornou-se um bodhisattva no dia 30 do sétima Lua e toda a montanha Jiuhua ficou um mosteiro, o Jin Qiao Jue. Fez a promessa de só atingir o Nirvana e passar a Buda quando conseguisse purificar todas as más energias dos espíritos que estão nos Infernos, mas como cada vez há mais espíritos famintos, ainda é um bodhisattva. É representado tendo numa das mãos um bordão com seis anéis no topo, que permite abrir as portas dos Infernos e na outra, uma pérola para iluminar a escuridão das almas sofredoras. Em Macau encontramos a sua estátua no templo Sam Kai Vui Kun, junto ao Mercado de S. Domingos.


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L E T R A S S Í N I C A S

HUAI NAN ZI 淮南子

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O LIVRO DOS MESTRES DE HUAINAN

Ninguém nunca ouviu falar de se ser capaz de rectificar os outros quando se é torto.

DO ESTADO E DA SOCIEDADE – 31 Outrora, quando governavam reis-sábios, o seu governo e educação eram igualitários e a todos se estendia a sua caridade. Os que estavam em cima e os que se encontravam em baixo pensavam do mesmo modo; os superiores e os subordinados associavam-se de modo cordial. Havia suficiente comida e roupa, suficiente habitação e emprego. Os pais eram bondosos ; as crianças eram filiais; as mais velhas eram boas e as mais novas obedientes. Os vivos não alimentavam rancores e os moribundos não mantinham ressentimentos. O mundo era harmonioso e a gente cumpria os seus desejos. *** Ninguém nunca ouviu falar de um país ser caótico quando os indivíduos são ordeiros, nem nunca ninguém ouviu falar de um país ser ordeiro quando os indivíduos são desordeiros. Se uma régua não é direita, não pode ser usada para desenhar um quadrado; se um compasso é incorrecto, não pode ser usado para desenhar um círculo. O indivíduo é a régua e o compasso das coisas: ninguém nunca ouviu falar de se ser capaz de rectificar os outros quando se é torto. *** Os líderes altivos e sobranceiros não têm ministros leais; os bem-falantes não são necessariamente merecedores de confiança. *** A via do líder é redonda, girando sem cessar, mantendo uma influência espiritual maternal, aberta e altruísta, harmoniosa, sempre nos bastidores e nunca em palco. A via do ministro é quadrada, deliberando acerca do que é adequado e aplicando as medidas apropriadas, iniciando sugestões de acção, mantendo o seu posto com distinta claridade e assim atingindo o sucesso. Como tal, quando o líder e o ministro divergem nas suas vias, há ordem; quando fazem suas vias iguais, há desordem. Quando cada um deles consegue fazer aquilo que é adequado para si e gerir as suas próprias responsabilidades, então, os superiores e os subordinados dispõem de um meio de trabalharem juntos. Tradução de Rui Cascais Ilustração de Rui Rasquinho

Huai Nan Zi (淮南子), O Livro dos Mestres de Huainan foi composto por um conjunto de sábios taoistas na corte de Huainan (actual Província de Anhui), no século II a.C., no decorrer da Dinastia Han do Oeste (206 a.C. a 9 d.C.). Conhecidos como “Os Oito Imortais”, estes sábios destilaram e refinaram o corpo de ensinamentos taoistas já existente (ou seja, o Tao Te Qing e o Chuang Tzu) num só volume, sob o patrocínio e coordenação do lendário Príncipe Liu An de Huainan. A versão portuguesa que aqui se apresenta segue uma selecção de extractos fundamentais, efectuada a partir do texto canónico completo pelo Professor Thomas Cleary e por si traduzida em Taoist Classics, Volume I, Shambhala: Boston, 2003. Estes extractos encontram-se organizados em quatro grupos: “Da Sociedade e do Estado”; “Da Guerra”; “Da Paz” e “Da Sabedoria”. O texto original chinês pode ser consultado na íntegra em www. ctext.org, na secção intitulada “Miscellaneous Schools”.


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h - Suplemento do Hoje Macau #69  

Suplemento h - Parte integrante da edição de 11 de Janeiro de 2013

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