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Confessar e Viver a Fé Reformada

N

ós reformados defendemos a fé bíblica, a fé Reformada. Um dos pontos fortes do verdadeiro presbiterianismo é que, todos que um dia conheceram Jesus Cristo como Senhor e Redentor só serão recebidos na igreja quando professarem a sua fé em Cristo e a Bíblia como única regra de fé e prática. Os pastores e oficiais das igrejas presbiterianas, quando são ordenados, fazem votos e juramentos de que aceitam a Fé reformada; juram subscrever a Confissão de Fé de Westminster e os Catecismos que declaram Jesus como Filho de Deus, segunda pessoa da Trindade; que veio ao mundo para morrer pelos eleitos do Pai, tornando-se a propiciação pelos seus pecados e reconciliando-os com Deus. Os membros são ensinados nos pontos da Fé Reformada, e que no mínimo façam o que fizeram os crentes da igreja primitiva descrita em Atos 2:42 ̶ perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações . Mas aprendem algo maravilhoso sobre o propósito de viver: Glorificar a Deus e gozá-lo para sempre ! A Fé Reformada defende a grande comissão que Jesus Cristo deu à Sua Igreja e que enfatiza: 1. Ir e pregar o evangelho ao mundo inteiro ̶ a oferta livre do Evangelho 2. Ensinar tudo o que Ele nos ordenou em Sua Palavra. Então, a responsabilidade da Igreja é de instruir as pessoas na fé bíblica. Temos sempre de mencionar esta Fé Reformada que é conhecida também como Calvinismo. B. B. Warfield, o grande teólogo de Princeton, dizia que Calvinismo é o cristianismo chegando à maturidade . Quando falamos de Calvinismo e teologia Reformada estamos, sem dúvida, falando do verdadeiro cristianismo, da fé cristã redescoberta na Reforma Protestante do século XVI. Certa vez perguntei ao amável Dr. Morton Smith, professor de Teologia no Seminário Presbiteriano de Greenville-SC, porque pastores reformados são impedidos de pregarem nos púlpitos, até de igrejas históricas, quando estas igrejas ficam sabendo que eles são calvinistas de fortes convicções. Ele respondeu: Acho que é por causa da própria natureza do calvinismo: o cristianismo bíblico em sua maturidade , como disse B. B. Warfield. Warfield disse de Calvino: Até onde a Bíblia o levava, Calvino a seguia; onde a REVISTA OS PURITANOS 1•2009

Manoel Canuto

Bíblia parava, Calvino parava . É esta a característica principal do Calvinismo: toda a Bíblia. Por isso o Calvinismo é uma ofensa aos seus críticos. B. B. Warfiel estava se referindo a natureza positiva do Calvinismo; a natureza profunda e firme do Calvinismo irrita os críticos. Eles rejeitam o fato de o Calvinismo afirmar que isto é a verdade . Calvino dizia: A Bíblia diz assim e nada mais! . Isso, de fato irrita. Os críticos não percebem que Calvino falava dessa forma porque ele apresentava a doutrina reformada como sendo a doutrina bíblica em sua essência e não como a sua própria doutrina. As pessoas estão mais abertas para ouvir outros pregadores não calvinistas porque a natureza humana é pecaminosa e está sempre aberta para aquilo que não é bíblico. Infelizmente isto existe até entre os próprios presbiterianos . A Fé Reformada abraça a fé total dos crentes, toda a fé protestante. Isso significa que a Fé Reformada é ampla. Inclui todas as verdades que a igreja cristã tem tirado da Palavra de Deus. Um Reformado confessional deseja e busca se identificar com a teologia total das Escrituras. Esta mensagem bíblica expressa na fé Reformada foi o que os grandes pregadores do passado pregaram; que Calvino, John Knox e os puritanos pregaram e ensinaram. Que este número possa estimulálo a não apenas confessar a fé reformada, mas vivenciá-la através de um viver santo. Devemos muito à Re- REVISTA OS forma, somos herdeiros dela, PURITANOS mas acima de tudo somos de- Ano XVI - Número 4 - 2008 vedores do gracioso Cordeiro Editor Canuto de Deus que por nós padeceu Manoel mscanuto@uol.com.br Conselho Editorial e morreu. Josafá Vasconcelos e Manoel Canuto Neste ano comemoramos Revisores Canuto; Linda Oliveira; os 500 anos do nascimento Manoel Tradutores Linda Oliveira; Marcos Vasconcelos, do reformador João Calvino Márcio Dória, Josafá Vasconcelos (10 de julho de 1509), mas Projeto Gráfico e Capa Heraldo F. de Almeida este número trata de um de Impressão Gráfica e Editora Ltda. seus contemporâneos e que Facioli Fone: 11- 6957-5111 Paulo-SP recebeu sua forte influência: São OS PURITANOS é uma publicação trimestral da CLIRE — Centro de John Knox, o Pai do Presbite- Literatura Reformada das Pernambucanas, 30 - Sala 10 Graças rianismo. O próximo número R.Recife-PE - CEP 52011-010 Fone/Fax: (81) 3223-3642 destacará João Calvino ‒ O E-mail: ospuritanos@uol.com.br DIRETORIA CLIRE: Ademir Silva, Estudante da Palavra. Adriano Gama, Waldemir Magalhães. Boa leitura! 2


Preparação para a Reforma na Escócia

O tempo está cumprido, e é chegado o reino de Deus. Arrependei-vos, e crede no evangelho. (Mc 1:15).

Por T. M. Lindsay

que as autoridades eclesiásticas efetua-

A

ram inspeções com o fim de expurgar o

Escócia, longe do centro da vida

corpo docente dos erros dos lolardos. Em

européia no século dezesseis, re-

seu devido tempo, o lolardismo passou

cebeu, apesar disso, a Reforma

das universidades para o público, e os

quase tão cedo como a maioria

primeiros cronistas da Reforma nunca

dos outros países, e aceitou-a mais com-

deixam de se referir aos lolardos, ou ho-

pletamente do que eles.

mens bíblicos de Kent, e à entrevista que

A região tinha sido preparada para

tiveram com Tiago IV.

esta Reforma mediante a educação do

Havia estudantes escoceses em Paris

povo, mediante o constante comércio

quando Pedro Dubois, Marsílio de Pá-

entre a Escócia e as nações continentais,

dua e Guilherme de Ockham ensinavam

especialmente a França e a Alemanha,

publicamente que a igreja é o povo de

e mediante a simpatia dos estudantes

Cristo e que pode existir uma igreja sem

escoceses para com os primeiros mo-

papa e sem padres.

vimentos religiosos na Inglaterra e na Boêmia; e por outro lado a condição da

A Escócia e John Huss

Igreja romana, a pobreza das classes aris-

A Boêmia e os atos de John Huss neste

tocráticas e a situação política do país

país eram bem conhecidos na Escócia.

coadjuvaram em certa escala os esforços

Calderwood fala-nos de Paulo Craw, bo-

daqueles que anelavam por uma refor-

êmio que foi convencido de heresia às

ma religiosa na Escócia.

instâncias de Henrique Wardlaw, bispo

A Escócia e o Lolardismo1

de Stº André, perante sete doutores em teologia, por divulgar as doutrinas de

O contacto acadêmico aproximou muito

John Huss e de John Wycliffe, negando

a Escócia dos grandes movimentos inte-

que houvesse qualquer modificação da

lectuais da Europa. No período em que

substância do pão e do vinho na Ceia do

os estudantes escoceses iam em grande

Senhor, e reprovando a confissão auricu-

número para Oxford, John Wycliffe exer-

lar e as orações aos santos defuntos . Foi

cia o professorado, e o lolardismo triun-

condenado à fogueira, e no momento da

fava na grande universidade inglesa. Os

execução meteram-lhe uma bola de co-

estudantes escoceses voltavam contami-

bre na boca para que o povo não ouvisse

nados com as máximas constitucionais

o seu justo protesto contra a injusta sen-

e as aspirações religiosas dos grandes

tença deles .

homens de Inglaterra, e o lolardismo propagou-se na Escócia. Depois das Universidades de Aberdeen, Glasgow e St.

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

Recentes investigações arqueológicas

o

têm tornado evidente uma mais íntima

André terem sido fundadas, no século

conexão entre a Escócia e a Boêmia do

quinze, os velhos arquivos dizem-nos

que até então se suspeitava. 3


T. M. LINDSAY

A Igreja Romana e a Situação Política

de Deus seria se fosse dirigida de uma

se preparasse para Knox e para os

maneira diferente, o que tudo foi mui-

lords da Congregação.

A Igreja romana na Escócia era muito

to benéfico naquela ocasião.

rica, e era talvez mais corrupta do que

As riquezas da Igreja romana da

Durante umas poucas gerações a política exterior da Escócia tinha

em qualquer outra parte fora da Itália.

Escócia tinham, havia muito, exci-

sido de inimizade para com a Ingla-

A herança que lhe foi legada pela Igre-

tado a inveja dos barões, que espe-

terra e de amizade para com a Fran-

ja celta não era toda boa; os satíricos

ravam a ocasião em que pudessem,

ça. A aliança com esta nação havia

tinham começado a chamar a atenção

sem risco, apoderar-se de parte dos

motivado o casamento de Tiago V

para o contraste entre as profissões

bens eclesiásticos. Durante muito

com uma princesa da casa de Gui-

(o que se professava ‒ NE) e as vidas

tempo não ocorreu semelhante

se, e, mais tarde, os esponsais e

dos eclesiásticos, e os seus livros pro-

oportunidade. O clero era um se-

casamento da herdeira do trono

duziam grande impressão no povo

nhorio que gozava da estima ge-

da Escócia com o delfim da França.

Quanto aos modos mais

ral. Os vassalos da Igreja estavam

Tiago V morreu, ficando regente a

particulares por que muita gente na

em muito melhores condições, e

rainha francesa, cuja conduta incu-

simples.

Escócia adquiriu algum conhecimen-

tinham uma vida mais descansada,

tiu no espírito de muitos escoceses

to da verdade de Deus na época das

do que aqueles que cultivavam as

o receio de que a Escócia viesse a

grandes trevas , diz John Row, ha-

terras dos barões e de outras per-

tornar-se uma província de França.

via alguns livros tais como Sir Dávid

sonagens de menor categoria. Os

Tinham sido nomeados franceses

Lindsay, e as suas poesias acerca das

camponeses escoceses rir-se-iam,

para cargos de confiança na Escó-

Quatro Monarquias, que trata tam-

talvez, com as sátiras de David Lin-

cia; o castelo de Dunbar tinha uma

bém de muitos outros pontos, e ex-

dsay, mas gostavam da Igreja e per-

guarnição francesa; e a regente pro-

põe os abusos do clero daquele tem-

doavam-lhe os defeitos.

jetava criar um exercito permanen-

po; os Psalmos de Wedderburn e as

Quando os pregadores escoceses

te, segundo o sistema francês. Este

Baladas de Godlie, em que se alteram

que tinham estado em Wittenberg,

alarme foi tomando tal vulto que o

para fins piedosos muitos dos antigos

ou que tinham estudado as obras

partido nacional, que por fim triun-

cânticos papistas: e uma Queixa feita

de Lutero e dos outros reformado-

fou, chegou a inverter a política he-

pelos estropiados, cegos e pobres da

res, ou que sabiam pela Escritura

reditária da Escócia, e ficou tendo

Inglaterra contra os prelados, padres,

o que era desejar ardentemente o

por objeto uma aliança com a Ingla-

freiras e outras individualidades da

perdão e a salvação, começaram a

terra e uma guerra com a França. A

igreja que dispendiam prodigamente

pregar um Evangelho reformado,

Inglaterra era protestante, enquan-

todos os dízimos e outros rendimen-

então, e só então, é que o povo prin-

to que os verdadeiros senhores da

tos eclesiásticos em prazeres ilícitos,

cipiou a compreender a mordaz sig-

França eram os Guises, os cabeças

de modo que eles, os queixosos, não

nificação das sátiras que alvejavam

do fanático partido romanista, os

podiam adquirir alimentação nem alí-

a clerezia. As autoridades eclesiásti-

homens que planejaram a carnifici-

vio, como Deus tinha ordenado. Estas

cas fizeram todo o possível para su-

na de S. Bartolomeu.

coisas foram impressas, e penetraram

primir estes reformadores. Patrício

Tal era o estado das coisas na Escó-

na Escócia.

Hamilton, Jorge Wishart e muitos

cia quando João Knox começou a sua

Havia também peças dramáticas,

outros pregadores cheios de fervor

admirável obra de reformador.

comédias e outras histórias notáveis,

e de espiritualidade foram marti-

O povo estava educado acima da

que eram representadas em publico;

rizados; e estas crueldades contri-

sua civilização, e podia compreender

a Satyra de Sir David Lindsay foi repre-

buíram mais do que os sermões ou

e saudar as novas idéias, tendo, como

sentada no anfiteatro de S. Johnston

as sátiras para que o povo escocês

tinha, costumes grosseiros, e vivendo

(Perth), na presença do rei Tiago V e

se desgostasse da Igreja romana. A

como vivia ̶ uma vida rude. A igreja

de uma grande parte da nobreza e da

sanguinária Maria tinha provocado

tinha perdido a confiança da nação

classe abastada, durando a representa-

a Inglaterra se tornar protestante; e

em virtude da imoralidade do clero, e,

ção um dia inteiro, e fazendo sentir ao

o cardeal Beaton, com os seus ho-

por último, tinha excitado as paixões

publico as trevas em que estava envol-

micídios judiciais, e particularmen-

do povo contra si com a sua cruel per-

vido, e a perversidade dos homens da

te com o homicídio do velho Walter

seguição a homens de vida imaculada

igreja, e mostrando-lhe como a Igreja

Mill, fez com que o povo da Escócia

que pregavam um Evangelho puro.

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REVISTA OS PURITANOS 1•2009


PREPARAÇÃO PARA A REFORMA NA ESCÓCIA

Alguns dos barões tinham partilhado

riam a todo transe seguir o exemplo

a revivificação religiosa começada

da Inglaterra e enriquecer às custas

pelos pregadores reformados; outros

da igreja. Todos estes motivos, uns

estavam ansiosos por livrar o país do

puros e outros não, estavam agitando

domínio francês, e outros, ainda, que-

o povo da Escócia nos anos que prece-

deram o de 1560. Extraído do livro A Reforma (Início do Século XX) de T. M. Lindsay pp. 137-141 ̶ Doutor em Teologia e Professor de História Eclesiástica (Livraria Evangélica ‒ Rua das Janelas Verdes ‒ Lisboa) 1 Os lolardos foram pregadores itinerantes que espalharam os ensinos de Wycliffe pelo interior da Inglaterra, agrupados dois a dois, de pés descalços, usando longas túnicas e carregando cajados nas mãos ̶ pregavam nas vilas e cidades da Inglaterra a Palavra de Deus (NE).

A Santidade de Deus Cornelius Van Til

A

o discutir a santidade de Deus, novamente começamos no ponto de Sua auto-suficiência. Moisés diz em Êxodo 18:11: Agora sei que o SENHOR é maior que todos os deuses; porque na coisa em que se ensoberbeceram, os sobrepujou . Em 1 Samuel 2:2, Ana louva a Deus quando ela diz: Não há santo como é o SENHOR; porque não há outro fora de ti; e rocha nenhuma há como o nosso Deus . Assim, a santidade de Deus reside em Sua incomparável auto-existência. Deus não tem santidade, mas Ele é santidade. O profeta Amós salienta isso nessas palavras: Jurou o Senhor JEOVÁ, pela sua santidade, que dias estão para vir sobre vós, em que vos levarão com anzóis e a vossos descendentes com anzóis de pesca (Amós 4:2). O Senhor não poderia jurar pela Sua santidade se Sua santidade não fosse idêntica a Si mesmo. Por santidade de Deus, portanto, queremos dizer a absoluta pureza interna de Deus. Deve ser naturalmente esperado que, quando esse atributo de Deus é expresso na revelação de Deus ao homem, ele requer sua pureza completa. Essa pureza completa no homem consiste na dedicação completa da atividade moral do homem para a glória de Deus. Negativamente, isso necessariamente se expressará como separação do pecado. No Antigo Testamento essa expressão negativa da santidade de Deus é apresentada fortemente. Há toda uma maneira de dedicação a Deus de pessoas e coisas de um uso secular para um uso sagrado. A idéia é que, por causa do pecado, o todo da vida humana se tornou profanado. Não que isso fosse originalmente assim; totalmente o contrário. O secular , como tal, não é mal. Ele se tornou mal por causa do pecado do homem. A teologia barthiana não sustenta a queda do homem na história e, conseqüentemente, não pode fazer justiça à distinção bíblica entre o sagrado e o secular. A visão de Barth realmente se resume em dizer que há mal na matéria per se. É, portanto, impossível, segundo Barth, que deva existir quaisquer atos feitos pelo homem temporal que sejam verdadeiramente santos, mesmo no princípio. Não pode realmente existir nada sagrado como distinto de atos não-sagrados dele. A posição de Barth não é radicalmente diferente da do modernismo. Ela não tem lugar para o que é verdadeiramente santo neste mundo, porque ela não crê numa criação original perfeita, nem numa queda histórica. E nem ela crê num Deus santo auto-suficiente por detrás do mundo. Se cresse, também teria que crer numa criação temporal e na queda do homem na história. No Novo Testamento, a expressão positiva da santidade de Deus é mais forte do que negativa. Deus quer que Seu povo, deliberadamente, pelo dom de Sua graça, dedique-se a Ele. É o Espírito Santo que cria no homem uma verdadeira santidade a Deus. Certamente, o aspecto negativo não desapareceu. Ele se mostra na punição dos ímpios, daqueles que rejeitam o Santo. O castigo eterno para o ímpio é o resultado natural da santidade de Deus.

Fonte: Cornelius Van Til, An Introduction To Systematic Theology. REVISTA OS PURITANOS 1•2009

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John Knox ̶ O Pregador da Reforma Escocesa Prega a palavra, insta a tempo e fora de tempo, admoesta, repreende, exorta, com toda longanimidade e ensino. (II Tm 4:2).

Por Gaspar de Souza

E

vavelmente em um povoado Haddington, screver ou falar sobre John Knox

cerca de 30 quilômetros ao leste de Edim-

é como tentar descrever um Ti-

burgo, capital da Escócia.

tanic que não tenha naufragado.

Quanto ao ano também há incerteza.

Principalmente para mim, cuja

Alguns localizam 1503-04, mas tem sido

área de atuação na Teologia não é a His-

aceito 1513/1514. Lloyd-Jones (1993)

tória. Aceitei o desafio de pesquisar e

e Waldyr Carvalho Luz (2001) possuem

pôr em algumas folhas um pouco sobre

informações conflitantes acerca da vida

o trovejante John Knox e, confesso, saí

de Knox em termos familiar. O primeiro

atordoado com a vida do Patriarca do

faz-nos crer que Knox era de família po-

Puritanismo/Presbiterianismo. Certo está

bre, sem antecedentes aristocráticos e

o Rev. Waldyr Carvalho Luz (2001), cuja

ninguém que o recomendasse (JONES,

obra instigou-me a este pequeno enredo,

1993, p. 269). O segundo nos leva a pensar

em dizer que Knox é um sublime desco-

que, sendo seu pai, William Knox, homem

nhecido em nossos arraiais, todavia mere-

do campo, principal atividade da popula-

cedor de melhor sorte (idem, p.10). Que

ção semi-rural; e sua mãe pertencente à

isto é verdade o digam as bibliografias

linhagem dos Sinclair, Knox era de boa

em língua portuguesa no Brasil dedicadas

cepa escocesa e fruía de certa abastança

a este gigante da Escócia ̶ paupérrima!

(LUZ, 2001, p. 14). Esta segunda opinião

A Obra do Rev. Waldyr é a fonte prin-

é apoiada por William Mc Gavin (1841, p.

cipal para este paper, bem como um ca-

58) ao afirmar que os pais de Knox não

pítulo do Dr. M. Lloyd-Jones1. Os livros de

eram da classe mais baixa, visto que eles

História da Igreja também. Hoje, com o

estavam em condições de dar-lhe uma

auxílio da Internet, é possível encontrar

culta educação, o que incorria em consi-

diversos textos sobre e o Reformador Es-

derável despesa . Ele poderia não ter sido

cocês, e escritos de sua própria lavra. Não pretendo ser original, nem mes-

um aristocrata, mas também não foi criado na pobreza (JONES, 1993, p. 269).

mo exaustivo. Até porque seria impossí-

Acerca desta educação, Knox obteve

vel fazer isto em uma ou mesmo algumas

formação liberal, pelo menos em gramá-

palestras. Porém, este bosquejo nos dará

tica latina2 e francês nos estudos regula-

um panorama da vida da Trombeta de

res, vindo depois à Universidade de Saint

Deus , o Trovão da Escócia , John Knox,

Andrews, adquirindo sólida formação

o pregador da Reforma Escocesa.

acadêmica, que, embora não tenha co-

Soli Deo Gloria

6

de John Knox, além de que ele nasceu pro-

lado grau (LUZ, 2001, p. 17), ainda assim foi útil para a carreira eclesiástica que

Breve Biografia de John Knox

desejou seguir e seguiu ̶ o sacerdócio

Em termos biográficos, poucas informa-

católico (JONES, 1993, p. 268). Lá, em St.

ções têm sido preservadas acerca da vida

Andrews, influenciado pelo mestre John REVISTA OS PURITANOS 1•2009


JOHN KNOX ̶ O PREGADOR DA REFORMA ESCOCESA

Major, as idéias reformistas vieram-lhe

O segundo, George Wishart ̶ de

Knox foi: o Senhor permita que ela te-

ao encontro, tomando ciência de que

quem Knox tornou-se discípulo e pos-

nha a face da igreja de Cristo . Knox foi

a Reforma se alastrava pelo continente

teriormente um guarda-costas ̶ pre-

convidado a se retirar de Frankfurt por

europeu. Perguntas sobre como a Igre-

gador de sólidas convicções reforma-

influência de Cox e teve de retornar a

ja podia ser a sagrada instituição de

das zwingliana, foi o maior influencia-

Genebra, voltando a ser pastor da igre-

origem divina e depositária de Sua au-

dor de Knox. Wishart foi acusado de

ja inglesa.

3

toridade e mercês, de Sua graça e po-

heresia porque lia o Novo Testamento

Com a morte de Maria e subindo

der, e ao mesmo tempo, agasalhar tan-

Grego com seus alunos . Após sua

Elizabete ao trono em 1558, Knox re-

ta degradação e mundanidade, tanta

fuga para Inglaterra, Alemanha e Suiça,

tornou à Escócia me 1559, onde levou

corrupção e miséria (LUZ, 2001, p. 18),

Wishart passa à Edinburgo, Leith e Ha-

adiante a obra da Reforma na Escócia,

vinham-lhe à mente. Um dilema se lhe

ddington para a incansável tarefa de

pregando na igreja de S. Giles, em

impunha: deixar ou reformar. Optou

pregar e ensinar a fé reformada. Não

Edimburgo. Ainda neste ano, Knox es-

por esta última. Neste empenho, a Es-

foi senão após a morte de Wishart, em

creveu a Breve Exortação à Inglaterra

colástica e a Patrística foram alavancas

1546 e no mesmo ano, que Knox prega

a Abraçar Rapidamente o Evangelho

para este ímpeto, que o impeliram para

o seu primeiro sermão como pregador

de Cristo Doravante, à Supressão e ao

as Sagradas Escrituras, principalmente

da Escócia, para um grupo de refugia-

Banimento da Tirania de Maria . Nesta

em porções como a Oração Sacerdotal

dos protestantes no Castelo de Saint

sublime carta, Knox (1559) escreveu:

(Jo 17), a passagem onde lancei mi-

Andrews4, baseado em Daniel 7.24, 25,

nha primeira âncora . Sobre isto diz o

sob o tema a vinda do Anticristo .

Rev. Waldyr Carvalho (2001, p. 19)

Após libertação do Cativeiro Francês,

Penso ser minha responsabilidade (em poucas palavras) requerer de ti, e em nome de Deus, ó General da Ingla-

Knox volta à Escócia, em momento não

terra, o mesmo arrependimento e ver-

favorável, mudando-se para a Inglater-

dadeira conversão a Deus que eu tenho

que a real Igreja não era a organização

ra, onde se tornou ministro e pregador

requerido daqueles para quem antes

viciada que o afligia, uma instituição

em Berwick, fronteira com a Escócia.

particularmente escrevi. Pois, em muito

[desta oração], adveio-lhe a noção de

terrena, tão tisnada de imperfeição hu-

Nesta ocasião, Knox estava no centro

feito, quando com dor no coração eu

mana, tão passível de crítica severa, tão

das atividades da Inglaterra, pregando

escrevi a primeira carta, nem procurei,

distante dos padrões da santidade que

mesmo na presença do Rei Eduardo VI

nem poderia crer, que o Senhor Jesus

Deus em Sua Palavra requeria. A real e

e na Coorte.

tão repentinamente bateria em sua por-

verdadeira Igreja de Cristo era de natu-

Em 1553, morre Eduardo VI, sendo

ta (Ap 3), ou chamar-te-ia abertamente

reza espiritual, a comunhão dos remidos

sucedido por sua irmã Maria, católica

nas ruas (Pv 1), oferecendo a si mesmo

do Senhor, a comunidade dos nascidos

fervorosa, conhecida gentilmente por

para perdão de tuas iniqüidades. Sim,

do Espírito, a sociedade dos crentes cha-

Maria, a sanguinária . Knox sentiu que

entrar em tua cara, e então habitar e

mados por Deus, dEle santificados, fiéis

deveria deixar a Inglaterra e assim o

fazer sua habitação contigo (João 14),

à Sua vocação e dEle aprovados.

fez, indo, juntamente com outros pro-

quem tão desobedientemente tem re-

testantes, para Genebra. Lá começou a

jeitado seu jugo, tão desdenhosamente

Isto nos leva a lembrar de sua

estudar sob João Calvino.

tem pisado o sangue de seu testamen-

conversão. Duas personagens estão

Impressiona-o a Genebra Calvinista,

to (Hb 10.29) e tão cruelmente tem as-

envolvidas na história de Knox: Pa-

a quem Knox chamou de a mais per-

sassinado aqueles que foram enviados

trick Hamilton e George Wishart. O

feita escola de Cristo que jamais houve

a chamar-te ao arrependimento (Lucas

primeiro, Hamilton, que estudara sob

na terra desde a época dos apóstolos

11‒12). Considerada esta tua horrível

Lutero, tornando-se um jovem pre-

(apud GEORGE, 2000, p. 167). Calvino o

ingratidão, eu olharia para além das

gador luterano, veio a ser executado

persuadiu a co-pastorear os refugiados

punições e pragas que universalmente

na fogueira (28/02/1528). Esta execu-

ingleses em Frankfurt, Alemanha, o que

têm sido derramadas adiante, que pela

ção marcou John Knox que tinha por

aceitou, mas não sem muita relutância,

misericórdia (pelo som de sua trombe-

volta de quinze anos de idade, sendo

após muitas disputas com o anglicano

ta) tão subitamente tem sido oferecido

elemento marcante na rota decisória

Richard Cox, principalmente acerca do

a qualquer um dentro daquela miserá-

do próprio John Knox ruma à plena

Livro de Oração Comum. Cox desejava

vel ilha.

aceitação dos postulados da Reforma

que a igreja em Frankfurt tivesse um

No ano seguinte, 1560, John Knox,

(LUZ, 2001, p. 23).

rosto inglês (SILVA, s/d). A resposta de

juntamente com os Lordes da Con-

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

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GASPAR DE SOUZA

gregação, iniciam a Reforma na Escó-

ção] bíblico (LEITH, 1996, p. 211).

conteúdo, belos nas formas, em uma

cia, compondo a Confissão Escocesa

Fruto de uma forte teologia refor-

elocução vívida, variada, desenvolta,

(1560), de nítida formação calvinista, e

mada, as Escrituras eram tidas por

que prendia a atenção e incendiava

o Primeiro Livro de Disciplina. O domí-

Knox como absoluta autoridade sobre

a imaginação. Ora jocoso, ora solene,

nio papal na Escócia chegara ao fim e a

a igreja. As palavras encontradas na

ora sereno, ora agitado, ora pausado,

missa fora declarada ilegal. Ali nasceu

Confissão Escocesa refletem isto:

ora veemente, ora plácido, ora fervido,

o Presbiterianismo quando da organi-

Cremos e confessamos que as Escri-

John Knox era um mestre do púlpito, a

zação da igreja em presbitérios, síno-

turas de Deus são suficientes para ins-

empolgar o auditório e conquistar os

dos e uma assembléia geral, semelhan-

truir e aperfeiçoar o homem de Deus, e

ouvintes. Seu porte varonil, com seus

tes aos de Genebra. Nesse mesmo ano

assim afirmamos e declaramos que a

ombros largos, semblante vivaz, olhos

reuniu-se pela primeira vez a Assem-

sua autoridade vem de Deus e não de-

penetrantes, longa barba espessa, de-

bléia Geral da Igreja da Escócia. Foram

pende de homem ou de anjo. Afirma-

dos compridos e ágeis, deva-lhe ares

formalmente implantados em 1567

mos, portanto, que os que dizem não

de profeta redivivo, que o era.

(SILVA, s/d). Ainda houve tentativa de

terem as Escrituras outra autoridade a

Embora não muitos sermões do Re-

restaurar o episcopalismo na Escócia, o

não ser a que elas receberam da Igreja

formador Escocês tenham sido preser-

que houve forte oposição por Andrew

são blasfemos contra Deus e fazem in-

vados, as poucas preleções e escritos,

Melville, reitor de Glasgow. O presbi-

justiça à verdadeira Igreja, que sempre

são suficientes para dar uma mostra de

terianismo tornou-se o sistema oficial

ouve e obedece à voz de seu próprio

sua abordagem à pregação. Seguindo

dos escoceses em 1592 e, finalmente

Esposo e Pastor, mas nunca se arroga o

a exposição de Austin B. Tucker(s/d), é

estabelecido em 1690.

direito de senhora.

possível destacar os dois seguintes as-

Quando John Knox morreu, em 26

Ora, com este conceito acerca das

de novembro de 1572, a reforma esta-

Escrituras, John Knox não entenderia

pectos da Pregação de John Knox8: 1) Knox acreditava que a primeira

va firmemente estabelecida na Escócia

a tarefa de pregar a Palavra de Deus

responsabilidade do pastor reforma-

(VOS, 1984, p. 105).

como

do era pregar a Palavra de Deus ̶ as

John Knox Como Pregador ̶ a Trombeta de Deus

Obra de Deus . Iain Murray

(2006) diz que Knox estava convencido

outras duas responsabilidades básicas

de sua autoridade em pregar e que esta

era administrar os sacramentos e re-

convicção vinha do fato de que pregar

forçar a disciplina da igreja. Em outras

Pregador. Era assim que John Knox

é obra de Deus, [e] a mensagem é Sua

palavras, o pastor deveria manter a

certamente desejaria ser reconhecido.

palavra, e ele estava certo de que o Es-

igreja pura e verdadeira. Isto é refle-

Diz John Leith (1996 p. 211) que Knox

pirito Santo honraria esta [tarefa] .

tido na Confissão Escocesa, artigo 18,

não se considerava teólogo nem políti-

Segundo a boa descrição do Rev.

sob a epígrafe Os Sinais pelos quais a

co, preferindo afirmar sua vocação de

Waldyr Carvalho (2001, p. 59), Knox era

Verdadeira Igreja será Distinguida da

pregador . E assim o era. De forte per-

homem de convicção religiosas inaba-

Falsa e quem será Juiz da Doutrina .

sonalidade, Knox brigava com o púl-

láveis, de fervor irremisso, de aguda

Knox pregava expositivamente, numa

pito (KLEYN) de onde tocava a trom-

consciência de sua vocação e íntimo

compreensão histórica e gramatical

beta do mestre (SILVA, s/d). Gravuras

sendo da urgência da mensagem de

das Escrituras, em lugar da pregação

mostram-lhe inclinado sobre o púlpito,

que era portador [....] era um pregador

moralizante ou alegórica, tão em vigor

com o punho cerrado e rosto sisudo.

vigoroso, inflamado, incisivo, que não

na Idade Média. A tarefa do pregador

Associado à energia, perspicácia ,

media palavras, até brusco de lingua-

não era tão somente interpretar a Bí-

sabedoria6 e coragem7, Knox asseme-

gem, alheio à retórica artificiosa, inda

blia, mas declará-la a si mesmo como auto-evidente (TUCKER).

5

lhava-se aos profetas veterotestamen-

que notável orador, um tanto verboso,

tário. Aliás, era o Antigo Testamento

prolixo, repetitivo. Todavia, senhor de

sua preferência nos sermões (LEITH,

sólida argumentação, rigorosamente

livros da Bíblia verso por verso ̶ Diz

1996, p. 211). A veemência é-lhe reco-

lógica, a desafiar a inteligência e in-

Richard G. Kyle (apud TUCKER) que

2) Ele gostava de pregar através dos

nhecida. No estilo dos profetas do An-

fundir seguras convicções, nos moldes

Knox pregava livros inteiros no Antigo

tigo Testamento, ele trovejava contra a

escolásticos que lhe regiam o pen-

e Novo Testamentos, tais como Isaías e

corrupção do culto cristão e dos gover-

samento. Seus sermões, trabalhados

o Evangelho de João, embora o gostas-

nantes idólatras. Seus sermões foram

com esmero e arte, fascinavam o espí-

se de fazer extemporaneamente, isto

marcados pelo literalismo [NA. Exposi-

rito e desafiavam a vontade, ricos de

é, sem notas. Knox tendia a enfatizar o

8

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


JOHN KNOX ̶ O PREGADOR DA REFORMA ESCOCESA

Antigo Testamento. Isto o fazia ver que

zer até mesmo a Rainha dos escoceses,

pragas, invasões e desastres naturais

Maria, chorar de raiva (JONES, 1993,

devia julgar a Escócia e a Inglaterra tão

p. 274). Dela já se ouviu dizer: tenho

certamente como com o antigo Judá

mais medo das orações e pregações

e Israel . Deuteronômio 12.32 era um

de Knox do que de muitos regimentos

verso-chave para sua hermenêutica

de soldados ingleses . Randolph, cita-

(TUCKER) para, seguindo o texto (ver

do por Lloyd-Jones, como homem da

capítulo todo), buscar a pureza da reli-

corte e embaixador, disse: a voz de

gião. Os sermões de Knox não agrada-

um único homem é capaz de, em uma

riam os ouvintes modernos. Chegavam

hora, pôr mais vida em nós do que 500

a durar duas ou três horas! 3) Defesa da Verdadeira Doutrina

trombetas ressoando continuamente em nossos ouvidos (1993, p. 274).

̶ Knox abominava a falsa doutrina,

Queira Deus, neste 31 de outubro

principalmente a Idolatria. Seu maior

de 2008, mover nossos corações para,

inimigo era as inovações no culto (p.e.

à semelhança de Knox, termos um

ajoelhar-se para receber a Santa Ceia)

coração empenhado em propagar o

ou, no Catolicismo, a Missa. Em sermão

Evangelho, zelando pela fé e vivendo

pregado contra a Missa (1550), Knox

uma vida piedosa, como a do Trovão

escreveu: este dia venho até vossa

da Escócia .

presença, honorável audiência, dar a razão porque tão constantemente afirmo ser a Missa, e em todo este tempo tem sido, idolatria e abominação perante Deus John Knox, o Trovão da Escócia , com suas pregações, era capaz de fa-

Palestra proferida no escritório da CLIRE/Projeto Os Puritanos em Recife/Outubro de 2008 Rev. Gaspar de Souza é Pastor da Igreja Presbiteriana dos Guararapes ‒ Grande Recife. Prof. de Teologia Bíblica no Seminário Presbiteriano do Norte. BIBLIOGRAFIA 1. GEORGE, Thimoty. A Teologia dos Reformadores. São Paulo: Ed. Vida Nova, 2000. 2. KLEYN, Daniel. John Knox sobre Liturgia e Adoração. Disponível em: <http://www.cprf.co.uk/languages/portuguese_knoxonliturgy.htm>. Acesso em 30 de out. de 2008. 3. KNOX, John. The History of the Reformation of Religion in Scotland. Londres: Blackie & Son Glasgow, 1841. 4. ______. A Brief Exhortation to England, for the Speedy Embracing

of the Gospel Heretofore by the Tyranny of Mary Suppressed and Banished. Disponível em < http://www.swrb.com/newslett/actualNLs/briefexh.htm >. Acesso em 30 de out. de 2008. 5. ______. A Vindication of the Doctrine that the Sacrifice of the Mass is Idolatry. Disponível em <http://www.swrb.ab.ca/newslett/actualNLs/ vindicat.htm>. Acesso em 07 de out. de 2008. 6. LEITH, John. A Tradição Reformada: uma maneira de ser a comunidade cristã. São Paulo: Pendão Real, 1996. 7. LLOYD-JONES, D. Martin. John Knox: O Fundador do Presbiterianismo. Em: Os Puritanos: suas origens e seus sucessores. São Paulo: Ed. Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, pp. 268 ‒ 288. 8. LUZ, Waldyr Carvalho. John Knox: o patriarca do presbiterianismo. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 1993. 9. MURRAY, Ian. A Scottish Christian Heritage. Disponível em <http:// www.reformationtheology.com/2006/11/john>. Acesso em 07 de out. de 2008. 10. SILVA, Hélio de Oliveira. John Knox: O Reformador da Escócia. Disponível em <www.monergismo.com/textos/biografias/knox-reformador_helio.pdf>. Acesso em: 10 de out. 2008. 11. TUCKER, Austin B. John Knox: Bold Reformation Preacher. Disponível em <http://www.preaching.com/resources/past_masters/11551039>. Acesso em 07 de out de 2008. 12. VOS, Howard F. An Introduction to Church History. Chicago: Moody Press, 1984. Notas: 1 Consulte a bibliografia no fim do artigo. 2 Educação Liberal constituía no aprendizado do Trivium ̶ gramática, retórica e lógica. 3 Wishart esteve na Alemanha e Suíça. 4 Com o falecimento do rei James V, Maria Stuart, sua filha de seis anos de idade, assume o trono. O cardeal David Beaton apresenta documento de que o rei o havia nomeado para o reinado. Sob suspeita, o Parlamento Escocês, encarcerou o cardeal como conspirador. A regência foi assumida por James Hamilton, Conde de Arran, simpatizante da causa protestante e desejoso de livrar a Escócia da influência papal. Porém, por conta da legalidade de seu casamento, corria-se o risco de ter anulado pelo Papa, perdendo a nobreza. Por isso, pôs em liberdade o Cardeal Beaton, que pesadamente investiu contra os protestantes. A esperança protestante parecia arrefecer. Wishart entra aqui, determinado a implantar a Reforma na Escócia, sob o convite dos nobres reformistas que lhe dariam apoio . Wishart compreendeu que os nobres tinham interesses políticos (Inglaterra x França). Wishart foi traído pelos nobres , que o deixou para enfrentar o Cardeal Beaton. Apenas alguns ficaram com Wishart, mas não o bastante para impedir que o mesmo fosse preso, levado para o Castelo de Edinburgo (19/01) e depois transferido para o Castelo de Saint Andrews, de onde foi executado em 1º de março de 1546. O Castelo foi tomado em 29 de maio de 1546 por nobres reformistas , vindo a vingar a morte de Wishart. Lá permaneceram até que, em 31 de julho de 1547, a esquadra francesa, comandada pelo Papista Henrique II, interessado na Escócia, toma o Castelo e aprisiona os ocupantes, entre eles, John Knox, levado ao cativeiro francês, onde permaneceu dois anos como escravo nas galeras francesas (LUZ, 2001, p. 32 ‒ 49; JONES, 1993, p. 269). 5 Foi capaz de ver as sutilezas de Maria os seus esforços para anular os protestantes quando em Berwick, não atacou o Livro de Oração Comum, apenas não o usou. 6 Enfretou duas mulheres: Elizabete e Maria. nunca temeu o rosto do homem (JONES, 1993, p. 273). 7 Tucker lista outros. Consultar bibliografia.

Confissão de Fé de Westminster

Capítulo III Dos Eternos Decretos de Deus

I. Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes estabelecidas. Ref. Isa. 45:6-7; Rom. 11:33; Heb. 6:17; Sal.5:4; Tiago 1:13-17; I João 1:5; Mat. 17:2; João 19:11; At.2:23; At. 4:27-28 e 27:23, 24, 34.

II. Ainda que Deus sabe tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as circunstâncias imagináveis, ele não decreta coisa alguma por havê-la previsto como futura, ou como coisa que havia de acontecer em tais e tais condições. Ref. At. 15:18; Prov.16:33; I Sam. 23:11-12; Mat. 11:21-23; Rom. 9:11-18.

III. Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e alguns anjos são predestinados para a vida eterna e outros preordenados para a morte eterna. Ref. I Tim.5:21; Mar. 5:38; Jud. 6; Mat. 25:31, 41; Prov. 16:4; Rom. 9:22-23; Ef. 1:5-6.

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

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Catolicidade dos Reformadores Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei àquele que te amaldiçoar; e em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Gn 12:3).

Por Dr. T. M. Lindsay (1843-1914)

O

s reformadores não tinham em mente criar uma nova Igreja.

Nenhum dos reformadores

10

a toda a gente a evidencia d esse fato, a que davam tão grande importância?

Reivindicaram a sua posição por meio do um apelo à Constituição do Império medieval.

̶ nem Lutero, nem Zwínglio, nem Cal-

Os reformadores tinham-se desligado

vino ̶ pensou que procurando dar

do papa, e não viviam mais em comu-

culto a Deus da maneira mais simples

nhão com ele ou com a cúria romana.

que a Escritura aconselhava, e que a

No seu tempo, porém, estar na Igreja

sua experiência espiritual aprovava,

era ter comunhão com o papa e com

se estava afastando da Igreja. Esta-

Roma. Estar fora da alçada dos cui-

vam abandonando o Papa, e recusan-

dados pastorais do papa significava,

do ter comunhão espiritual com ele;

naqueles tempos de excomunhões e

mas continuavam, no seu entender, a

interdições por atacado, estar fora dos

pertencer à Igreja em que tinham nas-

privilégios da Igreja.

cido, pela qual haviam sido batizados,

Se o papa recusava ter comunhão com

e em cuja comunhão tinham prestado

qualquer homem, ou cidade, ou província,

culto a Deus desde a infância.

e a tornava interdita, ou a excomungava,

Eles não pensavam que a Reforma

eram, por esse fato, interrompidos todos

queria dizer deixarem a Igreja de seus

os serviços religiosos. Enquanto sobre

antepassados. Não tinham desejo algum

aquela área pesasse a excomunhão, não

de fazer uma nova Igreja, e ainda menos

podia haver batismos, nem casamentos,

de criar uma nova religião. A religião que

nem confortos espirituais na hora da mor-

eles professavam era a religião do Velho e

te. As igrejas permaneciam fechadas, e to-

do Novo Testamento, a religião dos san-

dos os serviços do culto público ficavam

tos de Deus desde os dias de Pentecoste.

suspensos até ser suspensa a excomu-

A Igreja a que eles pertenciam desde a

nhão. Segundo as idéias da época, não ter

sua separação de Roma era a. Igreja dos

comunhão com o papa era estar fora da

Apóstolos, dos Mártires e dos Padres. Era

Igreja. Era difícil demonstrar o contrário,

a Igreja em que Deus tinha sido adorado,

de um modo claro, sem, auxílio de uma

em que Cristo havia sido acreditado, e em

argumentação teológica.

que se havia sentido a presença do Espí-

O inteligentíssimo espírito de Lutero

rito Santo, desde o tempo dos apóstolos

descobriu um meio de mostrar, ao povo

até aos seus dias. .

que a Igreja não se limitava ao círculo

A Reforma conservava-os dentro da

formado por aqueles que estavam em

Igreja de seus pais, pensavam eles; não os

comunhão com o papa. O Santo Império

tirava dela. Como poderiam eles mostrar

Romano da Idade Média era mais do que

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


CATOLICIDADE DOS REFORMADORES

um estado político; era também, sob

não obstante haver-se desligado de

E refuta essas acusações, mostrando

um certo ponto de vista, uma Igreja.

Roma, não tinha abandonado a Igreja

a catolicidade da teologia da Reforma.

O seu imperador recebera ordens de

Católica de Cristo, pegou no Credo dos

Prova que todos os reformadores sus-

subdiácono. Chamava-se-lhe a Cristan-

Apóstolos, no Credo Niceno, e no Cre-

tentaram as grandes doutrinas católi-

dade. E, acima de tudo, os seus cida-

do de Atanásio, e publicou-os como

cas que a Igreja manteve em todos os

dãos deviam a posição que ocupavam

sendo a sua confissão de fé. Diz ele no

séculos, e que, quando se afastaram do

dentro dos seus limites protetores ao

seu prefácio: Reuni e publiquei estes

ensino da Igreja de Roma, ou de outra

fato de terem aceitado o Credo Niceno

três Credos ou Confissões, em alemão,

qualquer doutrina, o fizeram justa-

sob a forma latina aprovada pelo papa

Confissões que têm sido até hoje sus-

mente no ponto onde as idéias pagãs

Damaso. A Idade Média apresentava,

tentadas por toda a Igreja e com estas

e as práticas supersticiosas foram, de

portanto, a Igreja de Cristo sob dois

publicação testifico, de uma vez para

uma maneira bastante censurável, in-

aspectos: um era o da comunhão com

sempre, que adiro à verdadeira Igreja

troduzidas.

o papa, e o outro o da posição que ocu-

de Cristo, que até agora tem mantido

pava no Império Romano.

estas Confissões, mais não àquela falsa

Lutero manteve ostensivamen-

e pretensiosa Igreja, que é a pior ini-

A sua posição reivindicada pelo Credo dos Apóstolos

te o seu direito de cidadão do im-

miga da verdadeira Igreja, e que tem

Os cabeças da Reforma, que se encontravam à frente de uma grande

pério. Declarou uma e outra vez a

co1ocado

sua adesão ao Credo Niceno sob

idolatria a par destas be1as Confis-

revivificação religiosa, não imagi-

a forma prescrita. Era, segundo a

sões .

navam que estavam dirigindo um

distinção feita pelo imperador, um

sub-repticiamente

muita

Além disso, no seu tratado de con-

movimento novo, e muito menos

cristão ortodoxo. Estava dentro da

trovérsia contra os erros da Igreja Ro-

que estavam fundando uma nova

cristandade, era membro da gran-

mana, seguiu a orientação do prefácio

religião. Tinham, no seu entender,

de comunidade cristã, posto que

que acabamos de citar. Intitulou-o So-

uma ascendência espiritual, e repu-

não estivesse em comunhão com o

bre o Cativeiro Babilônico da Igreja de

tavam-se os verdadeiros herdeiros e

papa. Lutero aproveitou-se do cará-

Deus. Diligenciou provar que a Igreja

sucessores da Igreja dos Apóstolos,

ter eclesiástico do império da Idade

tinha sido levada cativa pelo papa e

dos Mártires e dos Pais, e, também,

Média; teve o cuidado de declarar, o

pela cúria, exatamente como acon-

da Idade Média. Nova era a Igreja

mais manifestamente possível, que

tecera aos israelitas quando foram

Romana, e não a deles. Pertenciam

era súbdito do império, e que era,

transportados para Babilônia. A Igreja,

à antiga Igreja, reformada, e eram

portanto, segundo a antiga classi-

libertada do jugo romano, ficava com

os verdadeiros, herdeiros dos sé-

ficação eclesiástica, cristão, e mem-

todos os privilégios que a Igreja de

culos de vida santa que os tinham

bro da Igreja cristã, ainda que não

Deus sempre tivera, e ficava, além dis-

precedido.

estivesse em comunhão com Roma.

so, livre da escravidão.

Fez com que aos seus contempo-

Eram, porém, acusados pelos seus

A Reforma, na opinião de Lutero, ti-

adversários de serem cismáticos e here-

râneos se tornasse evidente que a

rou a Igreja de um cativeiro pior do que

ges, de terem abandonado a Igreja Ca-

Igreja era mais ampla ̶ mesmo

o de Babilônia, e os vultos da Reforma

tólica de Cristo, e de procurarem criar

segundo as noções medievais ̶ do

eram homens comparáveis a Zoroba-

uma nova Igreja e fundar uma nova

que a comunhão com Roma. Ele

bel, Esdras e Neemias. Não estavam

religião. Disseram-lhes que a Igreja de

próprio estava fora da comunhão

fundando uma nova Igreja, estavam

Roma era a única comunidade cristã, e

com Roma, e, contudo, era membro

reconduzindo a antiga Igreja dos Após-

a única Igreja Católica e Apostólica.

da cristandade, e estava, por conse-

tolos da servidão para a liberdade.

guinte, dentro da Igreja.

Calvino era também um extremo

Como responderam eles a isto tudo? A sua resposta estava-lhes

A Catolicidade da reforma, segundo Lutero e Calvino

defensor desta idéia, posto que não a

preparada pela própria Igreja Ca-

expusesse de um modo tão descritivo.

tólica Romana. A Igreja de Roma

No prefácio às suas Institutas diz-nos

aceita o Credo dos Apóstolos, e

O império medieval tinha o Credo Ni-

que escreveu o livro para responder

esse Credo faz uma descrição da

ceno como marca dos seus cidadãos, e

àqueles que diziam que as doutrinas

Igreja que está em completo desa-

a sua dilatação era, portanto, igual à da

dos reformadores eram novas, duvido-

cordo com aquilo que o Romanis-

Igreja cristã. Lutero, para mostrar que

sas, e contrarias às dos Pais da Igreja.

mo insinua. O Credo dos Apóstolos

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

11


T. M. LINDSAY

diz Creio na Santa Igreja Católica

contrário, comunhão com os san-

comunhão, e esta existe em virtu-

e na comunhão dos santos e não

tos. Este ponto é bem frisado pelos

de do perdão que se alcança para

Creio na Santa Igreja Católica, e na

principais reformadores. O Credo

todos os pecados mediante a obra

comunhão de Roma . Não há em

diz que a Santa Igreja Católica se

redentora de nosso Senhor Jesus

nenhum dos credos antigos uma

baseia numa santa comunhão, e

Cristo.

palavra que dê a entender que ca-

que a santa comunhão se baseia no

tolicidade significa comunhão com

perdão dos pecados. A verdadeira

Roma; catolicidade quer dizer, pelo

catolicidade provém de uma santa

Extraído de A Reforma , T. M. Lindsay ‒ Livraria Evangélica, Rua das Jannelas Verdes, 32, pp. 221-224, Lisboa - 1912

Relutância em Submeter-se à Soberania de Deus

Jonh Owen

A

soberana e infinita sabedoria e graça de Deus é o único fundamento do pacto de graça no qual Deus promete eterna salvação a todos que colocam sua fé em Jesus Cristo para a justificação. A soberania da sabedoria de Deus perpassa todo o mistério do evangelho e é a razão da encarnação do Filho de Deus e de ele ser

cheio de toda a graça para ser o Salvador de pecadores (Jo 3.16; Cl 1.19; Jo 1.16). A soberana sabedoria e graça de Deus enviou Cristo para ser nosso substituto, para dar fiança pelos nossos pecados, para ser punido por eles em nosso lugar (Is 53.6, 10; 2 Co 5.21). A eleição eterna também surge da soberania da sabedoria e graça de Deus (Rm 9.11, 18). Também aquele chamado interior eficaz do Espírito, trazendo pecadores eleitos ao arrependimento e fé através da pregação do evangelho (Mt 11.25, 26). A justificação pela fé é também o efeito da soberana e infinita sabedoria e graça (Rm

3.30). E o mesmo pode ser dito de todos os demais mistérios do evangelho. Amor soberano, graça e bondade, derramados naqueles sobre quem Deus escolhe derramá-los, nos é apresentado no evangelho como uma verdade a ser recebida e acreditada. Mas à mente carnal, não espiritual, não convertida, nada disso agrada; ela se levanta em oposição a isso. Não pode tolerar a idéia de que a vontade, a sabedoria e o prazer de Deus deva ter nossa submissão e adoração, mesmo quando não pode ser entendida. Então a encarnação e a cruz de Jesus Cristo, Filho de Deus, são loucura para ela (1 Co 1.23-25). Os decretos de Deus a respeito da eleição e condenação são considerados parciais, injustos e subversivos de toda religião (Rm 9.17-21). Ela considera que a justificação pela imputação da justiça de Cristo perverte a lei e torna desnecessária toda nossa justiça pessoal. Da mesma forma, a mente carnal se levanta em oposição a todo o mistério do evangelho, todas suas doutrinas, mandados e promessas, como provenientes da soberania de Deus. Ela resiste àquela fé que está em dar a glória a Deus crendo nas coisas que estão acima da razão limitada, finita do homem, uma fé que é repulsiva para a razão corrupta e egoísta (Rm 11.18-21). Por isso, em contraposição à vontade e sabedoria soberana de Deus, os homens estabelecem sua luz interior como padrão pelo qual as verdades evangélicas devem ser medidas. Em vez de se tornar tolos, submetendo sua razão e sabedoria à soberania de Deus, para que possam ser verdadeiramente sábios, tornam-se sábios em seu próprio conceito, e assim tornam-se soberbos em sua loucura. Não há caminho mais largo para a apostasia do que o de rejeitar a soberania de Deus em todas as coisas concernentes à revelação de si e à nossa obediência, recusando levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo . Da recusa de submeter-se à soberania de Deus sobre todas as coisas, incluindo nossa eterna salvação, surgiram o Pelagianismo, o Arminianismo e todas as heresias da atualidade. Extraído do livro Apostasia do Evangelho, John Owen, Editora Os Puritanos, pp. 123-124. 12

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


John Knox ̶ Reformador e Pregador Procura apresentar-te diante de Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. (II Tm 2:15).

Rev. Dale H. Kuiper

O

homem que na opinião dos

rou sua original ordenação suficiente até

amigos e inimigos era consi-

mesmo quando aderiu à causa da Refor-

derado o maior homem que

ma na Escócia.

a Escócia já produziu, nasceu

Primeiro, Knox professou a fé pro-

em 1505 perto do vilarejo de Hadding-

testante perto do final de 1545. Várias

ton (alguns de seus biógrafos datam seu

influências foram usadas por Deus para

nascimento 1512). A educação de John

converter este filho de camponês da es-

Knox aconteceu na Burgh School em Ha-

cravidão de Roma para a liberdade do

ddington, onde os instrutores eram cató-

evangelho de Jesus Cristo. No início de

licos romanos e a instrução preparava os

sua maturidade ele leu tanto Agostinho

jovens para o clero ou às santas ordens. O

quanto Jerônimo. Segundo, ele assistiu as

Latim era tão exigido nesta escola, que

pregações de George Wishart por algum

aos estudantes era requerido falar Latim

tempo, tornou-se seu amigo pessoal, e

todo o tempo. O próprio Knox era um

até mesmo serviu como seu guarda-cos-

excepcional estudioso do Latim. Ele não

tas quando a vida de Wishart foi ameaça-

estudou Hebraico e Grego até depois de

da. Knox abraçou a pregação reformada

seus quarenta anos. Ele permaneceu na

de Wishart com entusiasmo. Por esta pre-

escola de Haddington até os dezessete

gação, George Wishart foi queimado na

anos, quando encarou a questão de qual

estaca pelo Cardeal Beaton. Em terceiro

universidade cursar. Escolhendo perma-

lugar, uma poderosa influência na con-

necer na Escócia, Knox evitou o humanis-

versão de Knox foi sua correspondência

mo que era extremo nas escolas do con-

com Calvino e Beza e sua residência em

tinente. Ele finalmente decidiu cursar a

Genebra em várias ocasiões. Inicialmente

Universidade de Glasgow, principalmen-

Knox estava mais próximo de Lutero do

te porque o mais famoso professor da Es-

que Calvino em sua visão, porém mais

cócia naquela época, John Major, estava

tarde ele considerou Luterano um termo

naquela faculdade. Essa universidade era

de censura, concordando com Latimer

uma fortaleza do ensino Católico Romano.

que a Reforma alemã era somente uma

Ela procurava defender e propagar a Teo-

recepção parcial da verdade.1 A visão de

logia e Filosofia medievais, assim como a

Knox com relação ao papado, à missa, ao

autoridade do papa. Knox foi ordenado ao sacerdócio um pouco antes de 1540. Ele se empregou

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

É geralmente dito que Knox nunca renunciou seus votos sacerdotais, mas conside-

purgatório, e outros desmandos mostram claramente que ele abraçou o ensino dos reformadores genebrinos.

em dar instrução privada para os filhos de

Mas junto a essas três influências nós

famílias escocesas proeminentes, ao in-

devemos acrescentar o devotado com-

vés de se engajar nos deveres paroquiais.

promisso de Knox com a bíblia como a

13


DALE H. KUIPER

inerrante Palavra de Deus e como a

Wishart nunca falou tão claramente, e,

a predestinação. Knox foi escolhido

única e final autoridade em matéria de

contudo, foi queimado; assim mesmo

para dar esta resposta. Entendendo a

fé, culto e vida. Knox concordou com

será ele.

3

importância desse assunto para a ver-

um certo Balnaves, a quem cita: Eles

Pouco tempo depois o castelo de

dadeira religião ele escreveu: Porém

enganam vocês quando dizem que as

St. Andrews tornou-se um refúgio para

ainda eu digo, que a doutrina da eter-

Escrituras são difíceis, nenhum homem

aqueles de convicção reformada por-

na predestinação de Deus é tão neces-

pode entendê-la, mas sim grandes

que politica e religiosamente a Escócia

sária para a Igreja de Deus que, sem ela,

clérigos. Verdadeiramente aqueles a

abraçou a causa da Inglaterra contra

a fé nem pode ser realmente ensinada,

quem eles chamam seus clérigos, não

a França católico-romana. Em 1547

nem seguramente estabelecida: o ho-

sabem o que as Escrituras significam.

o exército francês invadiu a Escócia

mem jamais poderá ser trazido à ver-

Não receiem nem temam ler as Escritu-

e capturou Knox e outros refugiados

dadeira humildade e ao conhecimento

ras, como lhes ensinaram anteriormen-

cativos, forçando-os às galés por de-

de si mesmo: nem ainda pode-se exta-

te; e nada busquem nela a não ser sua

zessete meses. Como um escravo das

siar na admiração da bondade de Deus,

própria salvação, é aquilo que é neces-

galés Knox sofreu várias torturas, e

e assim movido para louvá-lo como a

sário ao seu conhecimento. E então o

sua saúde foi permanentemente pre-

Ele é pertinente. E, por isso nós não

Espírito Santo, seu professor, não per-

judicada. Depois de sua saída em 1549

tememos afirmar, que tão necessário

mitirá que errem, nem que vão além do

Knox serviu a várias Igrejas na Ingla-

quanto é que essa fé verdadeira seja

caminho certo, mas os guiará em toda

terra: Berwick, Newcastle e Londres.

estabelecida em nossos corações, que

Knox expôs a Palavra de

Enquanto em Londres ele se juntou a

nós sejamos trazidos a uma humildade

Deus, Antigo e Novo Testamento, com

outros pastores na aprovação de Os

não fingida, e que sejamos movidos a

discernimento e poder. Ele aplicou as

Artigos Concernentes a uma Uniformi-

louvá-lo por Sua livre graça recebida;

Escrituras à situação da Escócia, Ingla-

dade de Religião , um documento que

assim também é necessária a doutrina

terra e Europa. Ele amava os Salmos

se tornou a base dos Trinta e nove Arti-

da predestinação eterna de Deus... As-

e os explanou minuciosamente para

gos da Igreja da Inglaterra.

sim somente está nossa salvação em

verdade.

2

aqueles em angústia espiritual com

Os anos de 1554-1559 encontra-

segurança, quando nós encontramos a

grande compreensão deles e compai-

ram Knox na Europa. Ele serviu a uma

causa da mesma no seio e no conselho

xão para com os fracos. Uma de suas

congregação de refugiados de língua

de Deus.

passagens favoritas era Deuteronômio

inglesa em Dieppe, França, e a um

As idéias de Knox na área da eclesio-

4:2 Nada acrescentareis à palavra que

tipo semelhante de congregação em

logia são extraordinariamente seme-

vos mando, nem diminuireis dela, para

Hamburg, Alemanha, uma insistên-

lhantes às nossas nas Igrejas Protestan-

que guardeis os mandamentos do SE-

cia de Calvino. Este pastorado ele re-

tes Reformadas. Ele trovejou contra as

NHOR vosso Deus, que eu vos mando .

signou devido a controvérsias sobre

reivindicações do papado. Ele chamou

Esta passagem foi um guia fiel para ele

vestimentas, cerimônias e ao uso do

a missa uma abominação e uma ido-

em todos os seus difíceis labores, assim

livro de orações inglês. Depois ele tor-

latria. Ele considerava a pregação do

como fora para Lutero e Calvino. Ele

nou-se pastor de uma congregação

evangelho o principal meio de graça, e

abraçou o grande princípio reformado

de refugiados ingleses em Genebra.

os sacramentos como secundários para

do Sola Scriptura!

4

Durante esses anos Knox escreveu

pregar como sinal e selo. O Batismo era

A primeira acusação ao destemi-

muito, pois este tempo na Europa foi

sinal da entrada na união com Cristo, e,

do reformador foi em St. Andrews. O

o mais pacífico de sua vida. Mesmo

portanto deveria ser administrado a

primeiro sermão que ele pregou teve

instado por Bullinger e Calvino para se

uma pessoa, apenas uma vez. A Ceia

como texto Daniel 7:24,25. Ele chamou

precaver com relação à magistratura

do Senhor era um constante alimento

a Igreja de Roma o homem do Pecado,

feminina, Knox publicou seu Primeiro

para os fiéis que estavam em Cristo. Ele

o Anticristo, a meretriz da Babilônia.

Soar da Trombeta Contra a Monstruo-

defendeu o batismo infantil e foi total-

Ele estabeleceu as marcas pelas quais

sa Magistratura das Mulheres. Devido

mente contra qualquer re-batismo; os

a verdadeira igreja deve ser distingui-

ao crescimento do Anabatismo na In-

Anabatistas eram seus inimigos foi seu

da da falsa. Alguns disseram, Outros

glaterra e na Escócia, um pedido veio

inimigo não só em matéria de Batismo,

cortaram os galhos do papado, mas

da Inglaterra aos exilados de Genebra

mas também porque eles tentavam

ele atacou na raiz para destruir o todo .

que alguém escrevesse contra o ata-

transtornar toda a ordem social. Nós

Outros

que efetuado pelos anabatistas contra

achamos interessante também que

14

disseram,

Mestre

George

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


JOHN KNOX ̶REFORMADOR E PREGADOR

Knox considerava o batismo Católico

nará tanto você e quanto eles . 6 Todas

necessários para construir um sistema

Romano válido, e sem nenhuma razão

as cerimônias e instituições religiosas

teológico que unisse todas as doutrinas

para o re-batismo. Enquanto insistia

devem ter uma clara ordenança bíblica

em um todo unificado. Todavia, ele era

que o batismo usado pelo papado é

para que sejam consideradas expres-

um contestador tremendo e hábil. Seu

uma adulteração e profanação do ba-

sões válidas de culto. O argumento de

estilo de pregar era inflexível e às vezes

tismo que Cristo instituiu, insistia que

Knox contra o falso culto sempre gira

áspero. Sua linguagem podia ser um

o batismo Romano levava as pessoas

em torno da sua defesa do Princípio

tanto violenta. As suas cinco reuniões

a depositarem sua confiança numa

Regulador do Culto.

com a Rainha Maria foram caracteriza-

mera cerimônia, e insistindo que os fi-

Somente em um aspecto Knox di-

das por uma linguagem que era pouco

lhos de Deus jamais deveriam oferecer

vergiu dos teólogos de Genebra e de

apurada e não era destinada a conven-

suas crianças para o batismo papista

nós. Ele nunca realmente condenou

cê-la, mas para mostrar quão errada

porque isto seria oferecê-los a Satanás,

o episcopado.7 Ele era um homem de

ela estava. Por outro lado, ele era um

Knox, contudo respondeu à pergunta:

sua época e compartilhava as idéias

pai gentil de cinco filhos que lhe nasce-

Deveríamos batizar novamente aque-

dos seus contemporâneos na questão

ram de duas esposas, a segunda a das

les que na infância foram poluídos com

do governo de igreja. A sua recusa a

quais era bem mais jovem do que ele

tal sinal adúlterado? com um inques-

bispado Inglês era mais por razões prá-

e serviu como sua enfermeira em seus

tionável Não. Suas bases para sua po-

ticas do que por princípios. Ele preferia

anos de declínio. Ele foi amado pelos

sição eram: (1) O fogo do Espírito Santo

o trabalho pastoral em uma esfera mo-

seus alunos e paroquianos, e era um

queimou o que quer que recebamos de

desta, pregando o bendito evangelho,

bom exemplo para eles em toda. Perto

suas mãos além da simples instituição

ao invés dos árduos deveres de um

do final da sua vida ele estava tão fraco

de Jesus Cristo. (2) E na realidade, a

superintendente. Ele nunca aceitou

que precisava ser ajudado a subir ao

malícia do diabo jamais poderia abolir

a opinião que bispos eram uma insti-

púlpito; uma vez ali, ele se tornava tão

completamente a instituição de Cristo,

tuição contrária às Escrituras; eles po-

veemente que começava a golpear o

pois foi ministrada a em nome do Pai,

diam ser tolerados. Beza, ouvindo das

púlpito como se para o destruir. A sua

do Filho, e do Espírito Santo. (3) Eu

discussões que continuavam na Escó-

aparência era solene e sóbria muito

confesso, que por um tempo não nos

cia a respeito do governo da igreja, es-

embora possuísse uma natural digni-

serviu de nem um proveito; mas agora,

creveu a Knox em abril de 1572: Mas

dade e cortesia. O seu amor pela ver-

como é dito, o Espírito de Jesus Cristo,

disto, também, meu Knox, que está

dade e audácia em declará-la atraía os

iluminando os nossos corações, expur-

agora já quase patente aos nossos pró-

crentes para os cultos e pregação. Ele

gou o mesmo pela fé, e faz com que os

prios olhos, lembraria a você mesmo e

gastava muito tempo e meditação em

efeitos desse sacramento operem em

aos outros irmãos, que, como os bispos

seus sermões, ou os escrevendo na ín-

nós sem reiteração do sinal exterior.

produziram o Papado, assim também

tegra ou usando abundantes notas. A

5

Knox agarrou-se tenazmente ao

falsos bispos (relíquias do papismo)

sua severidade no debate e na prega-

Princípio Regulador do Culto como

introduziram o epicurismo no mundo.

ção foi defendida pelos por seus segui-

também o conhecemos e o mante-

Deixe aqueles que planejam a segu-

dores dada a importância dos assuntos

mos. Condenando a missa, ele disse: E

rança da igreja que evitem esta pesti-

em pauta; eles requeriam mais um

agora, em poucas palavras, para tornar

lência, e quando no decorrer do tempo

profeta franco ao invés de um orador

claro o que você parece duvidar: isto é,

você tiver subjugado esta praga na Es-

lisonjeiro.

que a Palavra de Deus condena as suas

cócia, de modo nenhum, eu lhe peço,

A estima em que Knox era tido pe-

cerimônias, é evidente; pois o claro e

jamais a admita novamente, por mais

los fiéis da Escócia foi assim expressa-

estrito mandamento de Deus é: Não

que ela possa lisonjear a pretensa pre-

da pelo seu servo Richard Ballantyne:

aquelas coisas que parecem agradá-

servação da unidade. 8 Acha-se que se

Desta maneira parte este homem de

veis aos teus olhos farás para o Senhor

ele tivesse vivido por mais tempo a sua

Deus, a luz da Escócia, o conforto da

teu Deus, mas aquilo que o Senhor teu

atitude teria mudado e alinharia mais

igreja nacional dentro da mesma, o es-

Deus te ordenou; isto farás; nada acres-

com a forma Presbiteriana de governo

pelho da piedade, e padrão e exemplo

centes a ela; nada diminuas dela . Ago-

da igreja.

para todos os verdadeiros ministros,

ra a menos que sejas capaz de provar

Como teólogo, Knox não se igualava

em pureza de vida, integridade na

que Deus ordenou as tuas cerimônias,

a Calvino, ou até mesmo Melanchthon;

doutrina, e intrepidez na reprovação à

este seu primeiro mandamento conde-

ele carecia dos poderes construtivos

perversidade, e alguém que não se im-

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

15


DALE H. KUIPER

portava com o favor dos homens (por

freqüentemente ameaçado por facíno-

maior que fosse) para reprovar seus

ra e adaga, mas, não obstante, termi-

abusos e pecados... Que competência

nou os seus dias em paz e honra. Pois

no ensinar, que audácia em reprovar

ele tinha a providência de Deus velan-

e ódio à perversidade haviam nele, o

do por ele de uma maneira especial,

meu embotamento não é capaz de

quando buscavam sua própria vida.

10

declarar . 9 Ele morreu em outubro de

Toda igreja Presbiteriana e Refor-

1572, cheio de fé e ainda pronto para

mada tem uma grande dívida para com

a luta. Morreu com amigos lendo para

John Knox, e gratidão para com Deus

ele Isaías 53 e João 17. Morreu calma-

pelo que Ele operou por meio deste

mente e em paz. Foi enterrado em um

homem corajoso de sua época. Onde

cemitério perto da igreja de St. Giles,

podem ser encontrados homens de sua

onde uma pedra plana ainda marca a

envergadura hoje na Escócia, Inglater-

seu túmulo.

ra, Europa e nos Estados Unidos? Onde

A importância de Knox pela causa

pode ser encontrado tal ódio santo

da igreja e do evangelho de Cristo na

pelas superstições romanas, doutrinas

Escócia, Inglaterra, e Europa dificil-

falsas, e impiedade hoje, como podia

mente pode ser super-enfatizado. Ele

ser encontrado em Knox do tempo de

deu toda a sua vida para a reforma da

sua conversão até o último dia de sua

igreja. A sua religião lho possuiu por

vida? Possa Deus levantar tais homens

completo, como a verdadeira religião

assim nos lugares onde são necessá-

deve fazer. Pouco antes de morrer ele

rios para a preservação e defesa das

disse de si mesmo: A ninguém cor-

verdades da Reforma hoje!

rompi; a ninguém defraudei; comércio não fiz . Logo depois que ele morreu o Conde de Mortoun o elogiou assim: Aqui jaz um homem que em sua vida nunca temeu a face do homem: que foi

1. F. Hume Brown, John Knox, A Biography, Adams and Charles Black, London, 1895, vol. I, p. 71. 2. Brown, vol. I, p. 97. 3. Kevin Reed, editor, Selected Writings of John Knox, Heritage Publications, Dallas, 1995, p. 7, and Brown, vol. I, p. 76. 4. Brown, vol. I, pp. 250, 251. 5. Reed, p. 317. 6. Reed, p. 16. 7. a) A recusa por parte de Knox quanto a um bispado era para ele uma

questão de princípio. Ele estava disposto a tolerar a atual Igreja Anglicana como ele encontrou, desde que a reforma pudesse utilizar a autoridade episcopal dos seus bispos para promover o progresso da Reforma na Inglaterra. Embora sendo utilizado como um pregador itinerante do Evangelho no norte da Inglaterra, ele era um escocês submisso, não um inglês submisso, e tinha recebido refúgio e calorosa recepção dos reformadores ingleses aos protestantes escoceses como refugiados da perseguição papal na Escócia, onde a Reforma não foi estabelecida pela lei civil, até 1560, quando então toda jurisdição papal foi abolida e substituída pela reforma da igreja. Quando perguntado sobre quais os motivos da recusa do bispado de Rochester, afirmou que não tinha liberdade em sua mente para aceitar a mudança no estado atual da Igreja da Inglaterra . Quando perguntado se era da opinião de que não poderia servir legalmente ministrando atos eclesiástico de acordo com as atuais leis da Inglaterra, ele respondeu que havia muitas coisas na Igreja Inglesa que precisavam de Reforma e que, a menos que fossem reformadas, os ministros não poderiam, em sua opinião, conscientemente assumir este ofício diante dos olhos de Deus; nenhum ministro tinha autoridade, de acordo com as leis inglesas de impedir que o indigno participasse dos sacramentos, que foi o principal ponto de seu gabinete . Outra razão apontada foi a sua desaprovação de se participar da Ceia de joelhos e não sentado. Knox tinha seus princípios. Sem sacrificá-los ele estava sempre alegre em pregar a Palavra onde Deus na Sua providência abria uma porta para ele. b) Os superintendentes da pós-Reforma, prescritos no primeiro Livro de Disciplina, não foram em nenhum sentido orgulhosos bispos diocesanos, mas isto foi um expediente temporário visto como necessário até que a Escócia, como um todo, tivesse ordenado ministros do evangelho reformados suprindo todos os membros da nação. A evangelização de toda a nação e a plantação de novas igrejas reformadas foi uma primária e urgente preocupação dos reformadores escoceses. Um educado e piedoso ministério foi seu objetivo, buscando a glória de Deus, a salvação de almas, e o bem-estar espiritual das gerações futuras. Estes superintendentes foram escolhidos para responderem diante da Assembléia Geral, selecionados com base na sua evidente piedade, zelo pelos Princípios da Reforma, pelos princípios educacionais e outros dons. Eles foram eleitos e admitidos ao ofício como outros pastores e sujeitos à mesma disciplina e admoestação (repreensão, suspensão, deposição). Ao examinar aos que eram admitidos para o ministério, eles foram obrigados a se associar juntamente com os ministros das paróquias vizinhas. Foram proibidos de exercer qualquer jurisdição espiritual sem o consentimento dos sínodos provisórios. Foram autorizados a permanecer apenas por curtos períodos na cidade de sua residência principal e tinham de continuamente se deslocar através de todo distrito pregando pelo menos 3 vezes por semana e não permanecendo por mais de 20 dias em cada um lugar. Beza não estava na Escócia para ver as dificuldades com que os reformadores escoceses tinham de lidar com o que restava da reforma escocesa e provavelmente entendeu mal a posição dos superintendentes temporários ̶ confundindo-os com bispos orgulhosos. Deve ser lembrado que a Reforma suíça tinha sido estabelecida muito antes do triunfo da Escócia sobre dominação romana! (Rev. Ronald Mackenzie, Escócia ̶ NE) 8. Brown, vol. II, pp. 278, 279. 9 Samuel Jackson et. al., The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. VI, Funk and Wagnalls Company, New York and London, 1920, p. 265. 10. Brown, vol. II, p. 288. Outras Fontes The Reformation in Scotland, John Knox, Banner of Truth Trust, Edinburgh, 1898. The Scottish Reformation, Gordon Donaldson, Cambridge University Press, London, 1960. Rev. Kuiper é pastor da Southeast Protestant Reformed Church em Grand Rapids, Michigan.

Confissão de Fé Escocesa Capítulo 10 A Ressurreição Visto que era impossível que as dores da morte pudessem reter cativo o Autor da vida,1 cremos sem nenhuma dúvida que nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado morto e sepultado, o qual desceu ao inferno, ressuscitou para nossa justificação2 e para a destruição daquele que era o autor do pecado, e nos trouxe de novo a vida, a nós que estávamos sujeitos à morte e ao seu cativeiro.3 Sabemos que sua ressurreição foi confirmada pelos testemunhos de seus inimigos4 e pela ressurreição dos mortos, cujos sepulcros se abriram e eles ressuscitaram e apareceram a muitos dentro da cidade de Jerusalém,5 e que foi também confirmada pelos testemunhos dos anjos,6 pelos sentidos e pelo julgamento dos apóstolos e de outros que privaram com ele e com ele comeram e beberam depois da sua ressurreição.7 1. At 2:24. 2. At 3:26; Rm 6:5, 9; 4:25. 3. Hb 2:14-15. 4. Mt 28:4. 5. Mt 27:52-53. 6. Mt 28:5-6. 7. Jo 20:27; 21:7,12-13; Lc 24:41-43. 16

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


A Apostolicidade da Igreja Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo o próprio Cristo Jesus a principal pedra da esquina (Ef. 2:20).

Rev. Angus Stewart

D

santidade apostólica, catolicidade aposesde o Concílio de Constanti-

tólica e unidade apostólica. Portanto re-

nopla (AD 381), a igreja Cristã

lacionamentos ecumênicos entre congre-

tem confessado em seus cre-

gações e denominações deverão começar

dos quatro atributos da verda-

com discussões doutrinárias: Concorda-

deira igreja; que ela é una, santa, católica

e apostólica . Efésios 2:20 ensina a apos-

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

dade da igreja. A verdadeira igreja possui

mos na fé apostólica? Além do mais, há somente um funda-

tolicidade da igreja, pois a igreja é edifi-

mento da igreja; não dois ou mais. A base

cada sobre o fundamento dos apóstolos

da igreja não é apostolicidade e unidade

e profetas .

ou santidade ou catolicidade. Tampouco

Portanto a apostolicidade da igreja é

é a igreja baseada sobre a apostolicidade

bíblica e credal; mas o que é que signi-

e a espontânea vontade do homem ou a

fica? No dia de Pentecostes, o início do

ciência moderna ou tradições da igreja. O

período do Novo Testamento, a igreja foi

exclusivo fundamento da igreja é a verda-

reunida pela pregação dos apóstolos, e

de apostólica das Sagradas Escrituras que

perseveravam na doutrina dos apóstolos

revela Jesus Cristo crucificado, ressuscita-

(Atos 2:42). Hoje, a doutrina apostólica

do e reinando, pois Ele pessoalmente é o

está contida no Novo Testamento que é

fundamento da igreja (1Co. 3:11).

a conclusão e o cumprimento do Velho

Fundamentos, é claro, são alicerçados

Testamento. Portanto é apostólica aquela

uma única vez, e o fundamento da igreja

igreja que é inteiramente caracterizada

nunca pode ser re-alicerçado. A fé apostó-

pela verdade ensinada pelos apóstolos

lica uma vez por todas foi entregue aos

nas sagradas Escrituras, e ministros Cris-

santos (Jd 3). Como um sábio construtor,

tãos são sucessores dos apóstolos se eles

o fundamento de Deus é forte o suficien-

pregarem a doutrina apostólica.

te para suportar a totalidade da igreja de

Efésios 2:20 ensina que a apostolici-

todas as épocas. Por isso apartando-se da

dade é o fundamento da igreja, pois a

doutrina apostólica ̶ a verdade do Deus

igreja é edificado sobre o fundamento

Triúno, as Escrituras, a criação, a graça

dos apóstolos e profetas . A santidade da

soberana etc ̶ o fundamento da igreja

igreja é a sua beleza (Ef. 5:26-27); não o

é falsificado e resulta no desabamento

seu fundamento. A catolicidade da igreja

de uma congregação ou denominação.

é a sua extensão universal incluindo todas

Pessoas podem ainda freqüentar, mas es-

as nações, tribos, povos e línguas, etc (Ap.

piritualmente a congregação está se de-

7:9); não o seu fundamento. A unidade da

generando e a caminho de ser uma falsa

igreja é a sua singularidade espiritual e

igreja.

numérica; não o seu fundamento. Como

Fundamentos também determinam o

fundamento da igreja, a apostolicidade

comprimento e a largura, e, portanto, a

é a base da santidade, catolicidade e uni-

forma de um edifício. Doutrinas falsas em 17


ANGUS STEWART

uma igreja não somente destroem o

eleição incondicional, a predestinação

congregação apostólica, no culto, nas

fundamento; eles também alicerçam

etc.; e minam os credos da Reforma

orações, no governo da igreja, nos ofí-

um fundamento adicional. Tudo o que

que sumariza a verdade apostólica.

cios (ministros, presbíteros e diáconos),

reivindica ser igreja, mas não é alicer-

Tudo isso nos capacita a testar se

çada no fundamento apostólico está

as igrejas são instituídas à luz da Pala-

debaixo do julgamento de Deus.

vra de Deus. A pergunta chave é esta:

nas instruções aos filhos da aliança, no evangelismo etc.? A membresia em uma igreja apostó-

A melhor maneira para demolir um

Esta congregação ou denominação é

lica traz honra a Jesus Cristo que está

edifício não é quebrando sua janela ou

apostólica em todas as coisas? Esta ou

presente onde a verdade apostólica é

a sua chaminé ou até mesmo as suas

aquela igreja é inteiramente caracteri-

pregada, crida, amada, confessada, de-

paredes, mas destruindo o seu fun-

zada pelos ensinamentos apostólicos

fendida e perseguida. Tais igrejas são

damento que sustenta o edifício. Do

para que ela seja coluna e baluarte

lugares onde os seus membros cres-

mesmo modo, a maneira mais eficaz

da verdade (1Tm. 3:15) sustentando

cem na graça pelo conhecimento de

de destruir uma igreja é minar o seu

a verdade de Jesus Cristo em um mun-

nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo

fundamento: a doutrina apostólica.

do que odeia a verdade? A três marcas

(2Pe. 3:18), aquele que é posto em

Portanto, abertamente ou sutilmente,

da igreja estão presentes: pregação

toda a Sua riqueza, pelo ensinamento

falsos mestres atacam a depravação

apostólica, sacramentos apostólicos

apostólico.

total, a justificação pela fé somente, a

e disciplina na igreja apostólica? É a

Rev. Angust Stewart é pastor na Covenant Protestant Reformed Church of Ballymena, Irlanda do Norte.

Para nossas Crianças “Ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24a) Joel Beeke e Heidi Boorsma

C

erta vez, o Senhor Jesus contou uma história sobre um jovem rico. Este jovem rico veio a Jesus, perguntando o que deveria fazer para ter certeza de que iria para o Céu. Jesus lhe disse que ele deveria guardar os Dez Mandamentos. O jovem rico respondeu: “Tenho guardado os mandamentos desde a minha juventude”. Crianças, vocês sabem quem foi a única pessoa aqui na terra que guardou os dez mandamentos perfeitamente? Jesus falou ao jovem rico que ele deveria, então, vender tudo o que tinha e dar o dinheiro às pessoas pobres ao seu redor. Mas o jovem rico tinha um problema. Ele amava muito todas as coisas que ele possuía. Com certeza ele possuía muitas coisas boas, porque lemos na Bíblia que ele era rico. Jesus estava investigando o coração do rapaz para ver o que ele amava mais: aos seus bens materiais ou a Jesus, o Senhor dos céus? Lemos na Bíblia que o jovem se retirou triste. Ele queria o dom do céu, mas não queria o doador daquele dom, Jesus Cristo. Meninos e meninas, ninguém pode servir a dois senhores. Não podemos dar o nosso coração a ambos: a Deus e ao mundo. Este jovem rico servia ao mundo e amava as coisas deste mundo. As riquezas tinham o primeiro lugar no seu coração, por isso, ele não podia dar o seu coração a Deus. As riquezas eram os seus ídolos, os quais ele amava mais do que a Deus, o seu Criador. Deus quer que o amor de nosso coração seja para Ele e não para as coisas deste mundo. Deus diz na Sua Palavra: “Filho meu, dá-me o teu coração”. Como você se sentiria, se os seus queridos pais dessem muito tempo e amor para as coisas que eles possuem e nunca dessem amor ou atenção a você? Você se sentiria muito triste, não é? Deus é o nosso Criador. Ele é o Pai de todas as Suas criaturas. Ele deseja que nós O amemos e O sirvamos com todo o nosso coração. Você vai pedir, então, a Deus que lhe dê graça para amá-Lo mais do que a qualquer pessoa ou a qualquer coisa nesta vida? Extraído do livro, O ABC de Deus para a Vida, Knox Publicações, pp. 34-35.

18

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


John Knox na Liturgia e na Pregação Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu... (Gn 20:3, 4).

Rev. Daniel Kleyn

A

aos Protestantes na Escócia o forçou, e ntes da Reforma na Escócia, a

muitos outros, a fugir. Embora retornan-

Igreja Católica Romana estava

do ocasionalmente a Escócia, Knox esteve

tão profundamente corrompi-

em Genebra por aproximadamente seis

da qualquer adoração verda-

anos, de 1554 a 1559.

deira de Deus quase impossível. Homens

Enquanto em Genebra, Knox desfru-

e mulheres se curvavam diante de ima-

tou de muita interação com o reformador

gens. Mártires, apóstolos e virgens eram

João Calvino. Isto lhe deu oportunidade

adorados. Numerosos dias santos e festas

de discutir com Calvino não somente te-

(freqüentemente pagãs na origem) esta-

ologia, mas também política da igreja. Ele

vam constantemente sendo adicionadas.

aprendeu muito de Calvino e tornou-se

A igreja na Escócia estava, portanto, numa

perfeitamente inteirado com as visões de

terrível necessidade de reforma, especial-

Calvino sobre adoração.

mente na área da liturgia e adoração.

Em Genebra, Knox também serviu

No tempo da necessidade da igreja,

como pastor de uma pequena congre-

Deus levantou John Knox para liderar a

gação de ingleses exilados. Através disto

Reforma Escocesa. Ele corajosamente e

ele ganhou, aparentemente, experiência

ousadamente enfrentou os males da Igre-

prática na forma Reformada de adoração

ja de Roma. Aspirava incansavelmente

que Calvino ensinou e estabeleceu em

limpar a igreja e a nação das corrupções

Genebra. E ele a aprovou. Isto é eviden-

da falsa adoração. Ele condenou aber-

te a partir de uma carta que ele escreveu

tamente as práticas perversas de Roma.

de Genebra para amigos na Inglaterra, na

Mostrou ao povo o que exatamente esta-

qual ele declarou, ... Não temo nem me

va errado na forma de adoração de Roma,

envergonho de dizer [que aqui] é a mais

e apresentou de forma adequada, uma

perfeita escola de Cristo que já houve na

liturgia e adoração bíblica.

terra desde os dias dos apóstolos. Em ou-

Fazendo isto, Knox aplicou à adoração

tros lugares, eu confesso ser Cristo prega-

um dos solas da Reforma ̶ sola scriptura.

do verdadeiramente; mas os costumes e a

Somente a Escritura deve ser o guia para

religião serem tão sinceramente reforma-

a adoração. Todas as práticas e observân-

da, não tenho visto todavia em nenhum

cias na igreja que não têm autoridade es-

outro lugar . [1]

criturística, devem ser abolidas. Ao apelar

Knox adotou as visões de Calvino so-

para o princípio do sola scriptura para a

bre adoração, perfeitamente convencido

adoração, Knox estava confirmando o que

de que elas eram bíblicas e corretas. Ele

desde então se tornou conhecido como o

entendeu que o homem por si mesmo

Princípio Regulador do Culto .

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

exílio em Genebra. A perseguição severa

não pode decidir como Deus deve ser

Knox chegou a um claro entendimento

adorado. Somente Deus pode determi-

deste princípio de adoração durante seu

nar isto. Portanto, qualquer prática ou 19


DANIEL KLEYN

cerimônia religiosa na igreja que não tenha garantia escriturística deve ser profundamente

rejeitada.

mas dos homens. A adoração de Roma, de acordo

de Westminster para adoração aparecido em 1645.

Fazendo

com Knox, consistia de incontáveis

A liturgia de Knox foi baseada larga-

referência à Deuteronômio 4:2 e 12:8,

invenções papais . Era inventada por

mente naquela da congregação Ingle-

Knox coloca isto desta forma: Não

homem e, dessa forma, grandemen-

sa que ele pastoreou em Genebra, se-

fareis tudo o que bem parece aos seus

te desonrante e desagradável a Deus.

guindo as mesmas regras gerais e con-

olhos para o Senhor teu Deus, mas o

Portanto, a ira e a terrível maldição

teúdo. No prefácio deste livro ele de-

que o Senhor teu Deus te ordenou; não

de Deus é declarada cair sobre todos

clara: Nós, portanto,... apresentamos

acrescentareis nada; nem diminuireis

aqueles que ousam tentar adicionar

a vocês, que desejam o aumento da

dela . O resultado da estadia de Knox

ou diminuir qualquer coisa em Sua re-

Glória de Deus, e a Simplicidade pura

em Genebra foi que ele retornou a Es-

ligião . [3]

de Sua Palavra, uma Forma e Ordem de

cócia decididamente em favor de fazer

De acordo com Knox, permitir aos

uma Igreja Reformada, limitada dentro

as coisas como Calvino as havia feito

homens determinar o que pode e o

do Compasso da Palavra de Deus, que

em Genebra. Através de escritos, de-

que não pode ser incluído na adoração,

nosso Salvador nos deixou como única

bates e especialmente pregações, ele

abre o caminho para idolatria. Isto foi

e suficiente para o governo de todas as

começou a implementar os princípios

verdadeiro especialmente no caso da

nossas ações por ela .

Reformados de liturgia e adoração.

missa. Em A Vindication of the Doc-

Com respeito aos sacramentos,

trine That the Sacrifice of the Mass Is

Knox mostrou que somente aqueles

Knox era um pregador poderoso. Ele colocava mais vida em seus ouvin-

Idolatry (Uma Vindicação da Doutrina

sacramentos que foram instituídos por

tes a partir do púlpito em uma hora do

de que o Sacrifício da Missa é Idolatria)

Cristo são válidos. Para que os Sacra-

que seiscentas trombetas . [2] Mesmo

, Knox declara, Toda adoração, honra

mentos sejam corretamente adminis-

quando estava velho e tinha que ser

ou serviço inventada pela mente do

trados, julgamos duas coisas serem

assistido ao púlpito, ele ainda se torna-

homem na religião de Deus, sem Seu

indispensáveis: A primeira, que sejam

va tão animado que, segundo alguns,

expresso mandamento, é idolatria. A

administrados por Ministros fiéis, os

parecia como se ele estivesse ding

Missa foi inventada pela mente do ho-

quais afirmamos serem somente eles

the pulpit in blads (quebrando o púl-

mem, sem qualquer mandamento de

que foram designados para a pregação

pito em pedaços) até ele sumir de sua

Deus; portanto, ela é idolatria , e blas-

da Palavra... A outra, que sejam admi-

frente. Do púlpito, portanto, ele sem

fema à morte e paixão de Cristo . [4]

nistrados em tais elementos, e de tais

medo condenou os erros da igreja de

Por meio da insistência de Knox so-

maneiras, como Deus estabeleceu; de

Roma e apresentou o caminho bíblico

bre a adoração biblicamente baseada

outra forma, afirmamos, que eles ces-

da adoração.

e seus labores diligentes em proclamar

sam de ser os Sacramentos corretos de

esta verdade, Deus produziu uma re-

Cristo Jesus . [5]

Um exemplo disto é um sermão que ele pregou em St. Andrews logo

forma na adoração na Escócia. A falsa

Concernente a leitura da Escritura

após o seu retorno de Genebra. A au-

adoração de Roma foi abandonada, e

na adoração, Knox cria ser de extre-

diência de Knox consistia de muitos

a verdadeira adoração de Deus foi res-

mo proveito que as Escrituras sejam

homens influentes, incluindo nobres

taurada. Os ídolos mortos de Roma fo-

lidas em ordem, isto, que algum livro

e sacerdotes. Nem todos eram a favor

ram substituídos pela pregação vida da

do Velho e do Novo Testamento seja

da Reforma, mas isto não o dissuadiu.

Palavra. E somente aqueles elementos

iniciado e ordenadamente lido até o

Ele pregou sobre a limpeza de Jesus

de adoração que a Escritura prescrevia

fim . [6] Ele aplicou isto também a pre-

do templo. Durante seu sermão ele

foram admitidos, tais como oração, a

gação. Pulando e divagando de um

fez direta aplicação ao papado. Ele

leitura e pregação das Escrituras, o

lugar ao outro da Escritura, seja na lei-

descreveu e condenou, sem reservas, a

cântico dos Salmos, e a administração

tura, ou na pregação, julgamos não ser

corrupção que o papado tinha introdu-

apropriada dos sacramentos.

proveitoso para edificar a igreja, como

zido na igreja. O sacerdócio de Roma,

Knox escreveu o Book of Com-

o seguimento contínuo de um texto .

disse, eram simonistas (N.T.: de simo-

mon Order (Livro da Ordem Comum),

[7] Os ministros devem pregar a partir

nia, compra ou venda ilícita de coisas

freqüentemente referido como A Li-

das Escrituras livro por livro, e capítulo

espirituais), vendedores de perdão,

turgia de Knox . Este livro foi aprovado

por capítulo, numa forma contínua e

colecionadores de relíquias e encantos,

e adotado pela Assembléia Geral em

ordenada.

exorcistas e traficantes dos corpos e al-

1564 e usado na Escócia até o diretório

20

As formas de oração foram incluídas REVISTA OS PURITANOS 1•2009


JOHN KNOX NA LITURGIA E PREGAÇÃO

na liturgia de Knox. Eles foram destina-

sa claramente esta opinião de Knox

das pelos dois princípios apresentados

dos para o uso durante os serviços de

com respeito à liturgia e adoração.

em 1 Coríntios 14, a saber, que todas as

adoração. Knox deixou claro, contudo,

Elaborada em 1560 por Knox e outros

coisas devem ser feitas decentemen-

que devia haver também lugar para

cinco ministros, o Artigo 20 desta con-

te e com ordem (v. 40), e que todas as

as orações livres. As formas de oração

fissão declara que na Igreja, em que

coisas devem ser feitas para

eram modelos. Ninguém estava estrita- ̶ como casa de Deus que é ̶ convém

edifica-

ção (v.26).

mente obrigado a usá-las. Os ministros,

que tudo seja feito com decência e or-

A igreja de hoje faria bem em le-

portanto, desfrutavam de liberdade na

dem. Não que pensemos que a mesma

var no coração e colocar em prática

oração pública.

administração ou ordem de cerimônias

as visões bíblicas de John Knox com

possa ser estabelecida para todas as

respeito à liturgia e adoração. Porque

atividade corporativa. A Igreja Católica

épocas, tempos e lugares; pois, como

novamente hoje muitas

Romana tinha impedido as pessoas de

cerimônias que os homens inventaram,

feitas por homens têm se infiltrado

A própria adoração tornou-se uma

invenções

serem envolvidas na adoração. Agora,

são apenas temporais, e, assim, podem

nos serviços de adoração de muitas

contudo, o latim foi substituído pelo

e devem ser mudadas quando se per-

igrejas. Knox corretamente apontou

inglês, de forma que todos pudessem

cebe que o seu uso fomenta antes a su-

que isto se eleva à idolatria. Deve ser

entender. As Escrituras foram traduzi-

perstição que a edificação da Igreja .

condenado e abandonado. Somente o

das para uma linguagem comum. To-

Esse artigo mostra que Knox e seus

que Deus ordena pode ser incluído na

das as igrejas tinham uma Bíblia em

colegas Reformados na Escócia não

adoração. Que possamos sempre, pela

inglês e a expunham regularmente

estavam a favor de fazer uma forma

graça de Deus, manter e praticar a ado-

para que até mesmo aqueles que não

particular de adoração obrigatória. As

ração bíblica.

podiam ler, pudessem se beneficiar. O

igrejas estavam livres para mudar sua

evangelho era proclamado com clari-

liturgia. Mas elas não podiam mudá-la

dade e simplicidade. E os Salmos eram

para seja o que for que lhes agradas-

colocados em canções familiares de

se. Elas deviam ser governadas pelas

forma que as próprias pessoas podiam

Escrituras. A Palavra de Deus devia

expressar louvores e graças a Deus.

dirigi-las. Especificamente, a liturgia e

A Confissão Escocesa de Fé expres-

a adoração eram para serem governa-

Rev. Kleyn é pastor da Igreja Protestante Reformada de Edgerton, Minnesota . NOTAS: 1. Charles Baird, The Presbyterian Liturgies (As Liturgias Presbiterianas), Grand Rapids: Baker Book House, 1957, p. 97. 2. Philip Schaff, Creeds of Christendom (Credos do Cristianismo) , Grand Rapids: Baker Book House, 1990, vol. I, p. 677. 3. John Knox, True and False Worship (Adoração Verdadeira e Falsa), Dallas: Presbyterian Heritage Publications, 1994, p. 36. 4. Knox, True and False Worship (Adoração Verdadeira e Falsa) , pp. 22, 23. 5. The Scotch Confession of Faith (A Confissão de Fé Escocesa) , Article 22. 6. John Knox, The Reformation in Scotland (A Reforma na Escócia) , Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1982, p. 253. 7. Knox, Reformation in Scotland (A Reforma na Escócia).

Knox e a Característica Peculiar do Puritano Knox é o fundador do puritanismo porque ele apresenta com muita clareza os princípios normativos do puritanismo. Isto é, primeiramente e acima de tudo, a autoridade suprema das Escrituras como a Palavra de Deus. Não preciso aprofundar-me nisso. O catolicismo romano põe em primeiro lugar a igreja, a sua tradição e a sua interpretação das Escrituras; e todas as igrejas reformadas imperfeitamente continuaram a fazer o mesmo. No entanto a característica peculiar do puritano é que ele assevera a autoridade suprema da Palavra de Deus. Este era o princípio normativo de Knox. Se uma coisa não podia ser justificada pelas Escrituras, ele não a aceitava e não permitia que fosse adotada. Extraído do livro Os Puritanos ̶ Suas Origens e Sucessores, Dr. Martin Lloyd-Jones, p. 276, Editora PES. REVISTA OS PURITANOS 1•2009

21


Incapacidade de Vir a Cristo Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia (Jo. 6:44).

Robert Murray M Cheyne

Q

vida em favor de seus seguidores. Falava uão surpreendente é a depra-

com mansidão, suportando a ofensa con-

vação do homem natural!

tra Ele mesmo vinda dos pecadores, não

As Escrituras nos ensinam

ultrajando quando era ultrajado. Jesus

isso abundantemente. Todo

falava com santidade, porque era Deus

pastor fiel levanta a sua voz como uma

manifestado na carne . Mas tudo isso não

trombeta, para mostrar isto às pessoas. E

atraía os seus ouvintes. Nunca houve um

a primeira obra do Espírito Santo, no co-

dom mais precioso oferecido aos homens.

ração, é convencer do pecado. Na Palavra

O verdadeiro pão do céu é meu Pai quem

de Deus, não existe uma descoberta mais

vos dá... Eu sou o pão da vida; o que vem

terrível sobre a depravação do homem na-

a mim jamais terá fome; e o que crê em

tural do que estas palavras do evangelho

mim jamais terá sede (Jo 6.32, 35).

de João. Davi afirmou: Eu nasci na iniqüi-

O Salvador de que as pessoas conde-

dade, e em pecado me concebeu minha

nadas necessitavam estava diante delas.

mãe (Sl 51.5). Deus falou por meio do

Sua mão lhes foi estendida. Ele estava ao

profeta Isaías (48.8): Eu sabia que proce-

alcance delas. O Salvador ofereceu- lhes

derias mui perfidamente e eras chamado

a Si mesmo. Oh! que cegueira, dureza de

de transgressor desde o ventre materno .

coração, morte espiritual e impiedade

E Paulo disse: Éramos, por natureza, fi-

desesperadora existem na pessoa não-

lhos da ira, como também os demais (Ef

convertida! Nada pode mudá-la, exceto

2.3). Mas nesta passagem de João somos

a graça do Todo-Poderoso. Oh! homem

informados de que a incapacidade do ho-

destituído da graça de Deus, seus amigos

mem natural e sua aversão por Cristo são

o advertem, os pastores clamam em voz

tão grandes, que não podem ser vencidas

alta, a Bíblia toda o exorta. Cristo, com to-

por qualquer outro poder, exceto o poder

dos os seus benefícios, é colocado diante

de Deus. Ninguém pode vir a mim se o

de você. Todavia, a menos que o Espírito

Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o

Santo seja derramado em seu coração,

ressuscitarei no último dia (Jo 6.44). Nun-

você permanecerá um inimigo da cruz de

ca houve um mestre como Cristo. Jamais

Cristo e destruidor de sua própria alma.

alguém falou como este homem (Jo 7.46). Jesus falava com muita autoridade,

22

dAquele que estava prestes a dar a sua

Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer .

não como os escribas, mas com digni-

Quão invencível é a graça de Jeová!

dade e poder celestial. Ele falava com

Nenhuma criatura tem o poder de

grande sabedoria. Falava a verdade sem

atrair o homem a Cristo. Exibições, evi-

qualquer imperfeição. Seus ensinos eram

dências miraculosas, ameaças, inovações

a própria luz proveniente da Fonte de Luz.

são usadas em vão. Somente Jeová pode

Ele falava com bastante amor, com o amor

trazer a alma a Cristo. Ele derrama seu Es-

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


INCAPACIDADE DE VIR A CRISTO

pírito com a Palavra, e a alma sente-se

cava o mundo agora para ele? Mateus

gem de Deus, que é o dom mais glorio-

alegre e poderosamente inclinada a

não se importava mais com os lucros,

so, excelente e precioso de Deus?

vir a Jesus. Apresentar-se-á volunta-

os prazeres e os louvores do mundo.

Quantas vezes o apóstolo Paulo

riamente o teu povo, no dia do teu po-

Em Cristo, ele viu aquilo que é mais

insiste, em Efésios 1, que somos sal-

der (Sl 110.3). Acaso, para o Senhor

agradável e melhor do que todas essas

vos pela graça imerecida e gratuita? E

há coisa demasiadamente difícil? (Gn

coisas do mundo. Mateus se levantou e

como João atribui toda a glória da sal-

18.14) Como ribeiros de águas assim

seguiu a Jesus.

vação à graça gratuita do Senhor Jesus

é o coração do rei na mão do Senhor;

Aprendamos que uma simples pa- ̶ Àquele que nos ama, e, pelo seu san-

este, segundo o seu querer, o inclina

lavra pode ser abençoadora à salvação

gue, nos libertou dos nossos pecados...

(Pv 21.1).

de almas preciosas. Freqüentemente,

a ele a glória e o domínio pelos séculos

Considere um exemplo: um judeu

somos tentados a pensar que tem de

dos séculos. Amém! (Ap 1.5, 6).

estava assentado na coletoria, próxima

haver algum argumento profundo e

Quão solenes foram as palavras de

à porta de Cafarnaum. Sua testa estava

lógico, para trazer as pessoas a Cristo.

Jonathan Edwards (Puritano da Nova

enrugada com as marcas da cobiça, e

Na maioria das vezes, colocamos nossa

Inglaterra), em sua obra Personal Narrative (Narrativa Pessoal)!

seus olhos invejosos exibiam a astúcia

confiança em palavras pomposas. No

de um publicano. Provavelmente, ele

entanto, a simples exposição de Cristo

ouvira falar de Jesus; talvez O tivesse

aplicada ao coração pelo Espírito Santo

tuita de Deus, em demonstrar mise-

ouvido pregando nas praias do mar

vivifica, ilumina e salva. Não por força

ricórdia àquele para quem Ele quer

da Galiléia. Mas seu coração munda-

nem por poder, mas pelo meu Espírito,

expressar misericórdia, e a absoluta

no ainda permanecia inalterado, visto

diz o Senhor dos Exércitos (Zc 4.6).

dependência do homem quanto às

A absoluta soberania e graça gra-

que ele continuava em seu negócio ím-

Se o Espírito age nas pessoas, estas

operações do Espírito Santo têm sido

pio, assentado na coletoria. O Salvador

simples palavras: Segue a Jesus , fala-

para mim, freqüentemente, doutrinas

passou por ali e, quando olhou para o

das em amor, podem ser abençoadas e

gloriosas e agradáveis. Estas doutrinas

atarefado Levi, disse-lhe: Segue-me!

salvar todos os ouvintes.

têm sido o meu grande deleite. A so-

Jesus não disse mais nada. Não usou

Aprendamos a tributar todo o lou-

berania de Deus parece-me uma enor-

qualquer argumento, nenhuma ame-

vor e glória de nossa salvação à graça

me parte de sua glória. Tenho sentido

aça, nenhuma promessa. Mas o Deus

soberana, eficaz e gratuita de Jeová.

deleite constante em aproximar-me

de toda graça soprou no coração do

Um falecido teólogo disse:

de Deus e adorá-Lo como um Deus

publicano, e este se tornou disposto a

Deus ficou tão irado por Herodes

seguir ao Senhor. Ele se levantou e o

não lhe haver dado glória, que o anjo

seguiu (Mt 9.9).

do Senhor feriu imediatamente a Hero-

Ao sentir-me à graça um grande

des, que teve uma morte horrível. Ele

devedor; Sou constrangido sempre, a

Agradou a Deus, que opera todas

soberano, rogando-Lhe misericórdia soberana .

as coisas de acordo com o conselho

foi comido por vermes e expirou. Ora,

todo instante! Que esta graça, com al-

da sua vontade, dar a Mateus um vis-

se é pecaminoso um homem tomar

gemas, meu Senhor, Prenda somente a Ti meu coração hesitante.

lumbre salvador da excelência de Je-

para si mesmo a glória de uma graça

sus; a graça caiu do céu no coração de

tal como a eloqüência, quão mais pe-

Mateus e o transformou. Ele sentiu o

caminoso é um homem tomar para si

aroma da Rosa de Sarom. O que signifi-

a glória da graça divina, a própria ima-

Robert Murray M Cheyne (1813 - 1843) foi ministro de St Peter s Church Dundee, Escócia (1836 - 1843). Foi um devoto pastor evangélico e evangelista com grande amor pelas almas.

Catecismo Menor de Westminster

Pergunta 19 ‒ Qual é a Providência de Deus para com os Anjos? R: Deus, pela sua providência, permitiu que alguns dos anjos, voluntária e irremediavelmente, caíssem em pecado e perdição, limitando e ordenando isso, como todos os pecados deles, para a sua própria glória; e estabeleceu os mais em santidade e felicidade, empregando-os todos, conforme lhe apraz, na administração do seu poder, misericórdia e justiça. Judas 6; Luc. 10:17; Mar. 8:38; 1 Tim. 5:21; Heb. 12:22; Sal. 103:20; Heb. 1:14. REVISTA OS PURITANOS 1•2009

23


A Mulher Virtuosa

A mulher que teme ao Senhor, essa será louvada (Pv. 31:30).

Dr. David Murray

É

lila? Manipulação. Jezabel? Idolatria. Safidifícil escrever um estudo bíbli-

ra? Mentira. Mical? Escárnio. A mulher de

co sobre a mulher virtuosa . A

Jó? Rebelião. A mulher de Ló? Mundanis-

primeira dificuldade é que eu

mo, etc. Ponha todos esses vícios juntos e

sou homem. E qual é a melhor

você terá uma figura completa da mulher

pessoa para descrever uma mulher virtu-

ímpia. Ora, eu tenho certeza de que você

osa? Bem, é encorajador o fato de que o

não procura nada parecido, senão o con-

escritor de Provérbios 31 era homem. En-

trário.

tão, há aqui um precedente bíblico.

Outra abordagem pode ser observar o

A segunda dificuldade é que há muitos

ensino de Paulo (Ef. 5:22-33; Tito 2:3-5), ou

exemplos de mulheres ímpias bombarde-

o ensino de Pedro (1Pe 3:1-7). Mas, neste

ando-nos diariamente de várias formas, e

artigo nós vamos olhar somente para a

muitas destas influências nocivas têm se

mulher virtuosa tão belamente descrita

infiltrado na igreja. Contudo, nós devemos

em Provérbios 31:10-31. Ajudará se você

crer que a Palavra de Deus é apta não ape-

abrir sua Bíblia nessa passagem para ver-

nas para frear essa torrente de mundanis-

mos, primeiramente, as características da

mo, mas até mesmo para extingui-la.

mulher virtuosa, e então os seus desafios.

A terceira dificuldade é o volume de material bíblico para estudo. Há muitos versículos relevantes e muitas formas de

AS CARACTERÍSTICAS DA MULHER VIRTUOSA

se abordar este assunto. Nós podemos,

1) Antes de qualquer coisa, a mulher

por exemplo, percorrer muitos dos exem-

virtuosa centra-se em Deus. Ela não liga

plos bíblicos positivos e destacar uma

para o que as pessoas pensam de suas

virtude que sobressai quando seu nome

roupas ou de seu visual. Por que? Porque

é mencionado. O que lhe vem à cabeça

é ao Senhor que ela teme. Enganosa é

quando você ouve o nome de Débora?

a graça, e vã, a formosura, mas a mulher

Coragem. Rute? Lealdade. Ana? Abnega-

que teme ao Senhor, essa será louva-

ção. Maria? Fé. Maria Madalena? Amor.

da (v.30). Esse é o ponto culminante da

Dorcas? Boas obras, etc. Siga as mulheres

descrição da mulher virtuosa e aponta a

piedosas da Bíblia e anote uma qualida-

origem primária de todas as suas virtudes.

de, a que vier imediatamente à sua men-

No centro da vida desta mulher está seu

te. Então ponha todas essas qualidades

relacionamento com Deus, e ela teme

juntas e você terá o quadro completo da

tudo que possa vir a ameaçar essa relação.

mulher virtuosa.

24

vem à cabeça quando você pensa em Da-

Ela é conhecida como uma mulher que

Se preferir, você pode listar as mulhe-

desfruta do favor de Deus e teme, mais do

res ímpias que aparecem na Bíblia e iden-

que qualquer outra coisa no mundo, vê-lo

tificar seus maiores defeitos. O que lhe

aborrecido.

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


A MULHER VIRTUOSA

2) Em segundo lugar, a mulher virtu-

4) Em quarto lugar, a mulher virtuo-

der e conter. Aprender seu papel e

osa preocupa-se com a Palavra. Como

sa, se for mãe, centra-se em seus filhos.

suas responsabilidades através da

Provérbios nos lembra repetidas vezes:

Levantam-se seus filhos e lhe chamam

Bíblia, não das novelas. E, conter-se.

O temor do Senhor é o princípio da sa-

ditosa (v.28). Por que? Porque sua

Se você puder administrar metade

bedoria . Não é de surpreender, então,

mãe devotou-se a eles todos os dias

de si já será muito. Você não precisa

que quando essa mulher temente a

de suas vidas. Por quatro vezes lemos

provar-se assumindo outras respon-

Deus fala, abre sua boca com sabe-

da preocupação desta mulher com sua

sabilidades fora do lar. Perceba quais

doria e a instrução da bondade está na

casa (v.15, 21,27). Se pudéssemos en-

seus limites dentro de casa mesmo,

sua língua (v.26). Sua conversa refle-

xergar dentro de sua mente, veríamos

dentro da própria família. Ter mui-

te seu interesse principal: a sabedoria

esta frase rondando circularmente:

tos alvos freqüentemente resulta

revelada de Deus e Sua benevolente

Minha casa, minha casa, minha casa,

em uma tensão quase insuportável

lei. A mulher que centra-se em Deus,

etc . Ela não encara os filhos como um

que sugará seu tempo e seus dons.

centra-se na Palavra de Deus. Ela não

acessório necessário, nem como um

Então, você tem de primeiro cuidar

fica tentando passar a vista em alguns

problema que pode ser repassado. O

de si, antes que possa cuidar dos

versículos aqui e ali enquanto grita

coração dela está tomado pelos filhos.

outros. Atente para o verso 17: Cin-

com as crianças e atende ao telefone.

Ela os ama e cuida de seus corpos, de

ge os lombos de força e fortalece os

Ela levanta alguns minutos mais cedo

suas mentes, e de suas almas.

do que o necessário, com o objetivo de

5) Isso nos conduz à quinta caracte-

braços . Um pregador sugeriu que, trazendo para nossa linguagem, isto

começar o dia com um período calmo

rística da mulher virtuosa. Ela centra-se

poderia ser parafraseado como: Ela

e pacífico de leitura da Palavra de Deus.

em sua casa. Ela administra e conduz

vai à academia puxar ferro!

Como isto transforma o dia! Ela agora

este complexo e diversificado empre-

não sei se é bem isso, mas, deu para

tem sabedoria e palavras amáveis de

endimento com habilidade, precisão, e

você ter uma idéia. Perfeição é algo

Deus para dizer aos outros.

Bom,

eficiência idêntica a dos que compõem

impossível neste mundo. Você deve

3) Em terceiro lugar, a mulher virtuo-

as mesas de decisão de muitas grandes

saber seus limites e trabalhar dentro

sa, se casada, centra-se em seu marido.

corporações. Há um departamento de

deles. Tome tempo para refrigerar

Ela encontra grande satisfação em ser

vestuário (v.13, 19, 21, 24), departa-

sua alma e renovar suas forças. Cuide

uma ajudadora para o seu marido (Gn.

mento alimentício (v.14, 16), departa-

da mulher interior. E, não se sinta cul-

2:18). Ela não vê isto como um manda-

mento de decoração (v.22), e depar-

pada por cuidar da exterior (v. 22).

mento humilhante, porque sabe que

tamento financeiro (v.16, 18). Depen-

2) Em segundo lugar, há um duplo

Deus usa a mesma palavra hebraica

dendo das circunstâncias, pode haver

desafio para os maridos ̶ apreciar e

(ëzer) para descrever a Si mesmo como

também um departamento educacio-

aliviar. Se você tem uma esposa como

o ajudador do Seu povo (Sl. 54:4). Ser

nal. Tudo isto demanda uma variedade

esta, então lembre-se que você tem

uma ajudadora é ser como Deus ̶ que

de talentos e de ações dia-a-dia. Para

algo mais precioso do que rubis (v.10),

nobre chamado! O papel de ajudadora

alguém que trabalha fora, tal agenda

uma benção pela qual deve louvar a

da mulher virtuosa pode ser resumido

implicaria numa média de 14 horas de

Deus (v.28). Repare que esse mesmo

em duas palavras: conselho e progres-

serviço por dia.

verso também fala do marido: Ele a

so. Estando preocupada com Deus e

6) E, em sexto lugar, como se não

louva . Expresse seu apreço por tudo

Sua Palavra, o coração do seu mari-

bastasse, há também um departamen-

que ela está fazendo por você e seus

do confia nela (v.11). Ele a consulta e

to de caridade. A mulher virtuosa pre-

filhos. Mas não só aprecie, também

busca seus piedosos conselhos antes

ocupa-se com os pobres. Abre a mão

lhe dê alívio. Palavras custam pouco.

de tomar decisões que dizem respeito

ao aflito; e ainda a estende ao necessi-

Há ações bem mais dispendiosas. A

a ambos. E, ela não compete com seu

tado (v.20).

vida do homem geralmente não tem a

marido nem o critica na frente de outros, mas busca seu progresso. Ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida (v.12). Como resultado, seu marido é estimado entre os juízes, quando se assenta com os anciãos da terra (v.23). REVISTA OS PURITANOS 1•2009

OS DESAFIOS DA MULHER VIRTUOSA Essas características resultam numa série de desafios. 1) Primeiramente, há um desafio duplo para a mulher cristã ̶ apren-

multiplicidade de tarefas que tem a da mulher. Nós temos nosso trabalho e... nosso trabalho. Então, que tal pegar as crianças por algumas horas? Em último caso arranje uma babá e saia com sua esposa para jantar. Faça-a experimentar a verdade de seus elogios. 25


DAVID MURRAY

3) Em terceiro lugar, há um desafio

cuidando de uma mãe cristã, e levá-la

pias na Bíblia (se necessário, use um

duplo para os pais ̶ modelar e mol-

para tomar um café?! Que alívio, mes-

Dicionário Bíblico) e explique como

dar. As mães, em especial, têm o papel

mo que seja apenas uma ou duas horas

elas foram um grande obstáculo ao

de modelar as mulheres piedosas. Mas

livre de responsabilidades. Isto pode

progresso do reino de Deus e tiveram

os pais têm o papel de mostrar a seus

transformar a semana para muitas es-

uma influência e impacto destrutivos.

filhos como as mulheres piedosas de-

tressadas filhas de Deus.

4) Cheque as seguintes passagens

vem ser guardadas e tratadas. Modelar

Mulheres virtuosas, nos levantamos

bíblicas e escreva um breve sumário

pelo exemplo e moldar pelo ensino.

a uma só voz para louvá-las, e bendi-

do que cada uma ensina sobre o papel

Ensine seus filhos sobre verdadeira

zemos a Deus por ter nos dado vocês.

da mulher virtuosa na relação com seu

masculinidade e feminilidade através

Muitas mulheres procedem virtuo-

esposo, com seus filhos e com a igreja:

da Bíblia. Mostre a eles que o plano de

samente, mas tu a todas sobrepujas

Efésios 5:22-33; Tito 2:3-5, 1Pe 3:1-7.

Deus para a humanidade é muito mais

(v.29).

bonito, nobre, e dignificante do que o do mundo.

Questões

5) À luz do que você estudou, reflita e discuta como os maridos e a igreja podem ajudar as mulheres a enfrentar

4) Em quarto lugar, há um duplo de-

1) O que a variedade de referências

safio para a Igreja ̶ empatia e auxílio.

bíblicas a respeito da influência das

os desafios da nossa atual cultura. 6) Reflita e discuta sobre como as

Mulheres virtuosas, e especialmente

mulheres lhe diz sobre a importância

mulheres piedosas, auxiliadas por ho-

as jovens, precisam de nossa compre-

deste assunto? Explique.

mens tementes a Deus e sob o minis-

ensão e encorajamento. Elas têm uma

2) Faça uma lista das muitas mulhe-

tério de uma igreja bíblica podem ser

tarefa humanamente impossível. E

res piedosas na Bíblia, quantas você

uma grande e benéfica influência em

não precisam da igreja pondo ainda

puder encontrar (use um Dicionário

suas famílias, igrejas e na sociedade

mais exigências. Precisam é de nossas

Bíblico se necessário) e explique como

em geral.

orações e de nossa ajuda prática se a

elas serviram a Deus e promoveram Seu

podermos dar. Senhoras, que tal pas-

reino sendo verdadeiras ajudadoras.

sarem uma manhã durante a semana

3) Faça uma lista das mulheres ím-

Dr. David Murray ensina Antigo Testamento a Teologia Prática no Puritan Reformed Theological Seminary em Grand Rapids, Michagan, E.U.A.

Segunda Confissão Helvética Capítulo 8 Da Queda do Homem, do Pecado e Sua Causa Deus não é o autor do pecado; e até onde se pode dizer que ele endurece. Está claramente escrito: Tu não és Deus que se agrade com a iniqüidade. Aborreces a todos que praticam iniqüidade. Tu destróis os que proferem mentira (Sal 5.4 ss). E de novo: Quando ele profere a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (João 8.44). Além disso, há em nós suficiente pecado e corrupção, não sendo necessário que Deus em nós infunda uma nova e ainda maior depravação. Quando, portanto, se diz nas Escrituras que Deus endurece, cega e entrega a uma disposição réproba de mente, deve-se entender que Deus o faz mediante um justo juízo, como um Juiz Vingador e justo. Finalmente, sempre que na Escritura se diz ou parece que Deus faz algo mal, não se diz, por isso, que o homem não pratique o mal, mas que Deus o permite e não o impede, segundo o seu justo juízo, que poderia impedi-lo se o quisesse, ou porque ele transforma o mal do homem em bem, como fez no caso do pecado dos irmãos de José, ou porque ele próprio controla os pecados, para que não irrompam e grassem mais largamente do que convém. Santo Agostinho escreve em seu Enchiridion: De modo admirável e inexplicável não se faz além da sua vontade aquilo que contra a sua vontade faz. Pois não se faria, se ele não o permitisse. E, no entanto, ele não o permite contra a vontade, mas voluntariamente. O bom não permitiria que se fizesse o mal, a não ser que, sendo onipotente, pudesse do mal fazer o bem . É isso o que ele diz. 26

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


Temos um Altar

Temos um altar, do qual não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo (Hb. 13:10).

Dr. David Murray

Bom dia, Baruque e minha querida Jerusa, bem-vindos ao Tabernáculo ̶ expo-

Ler Êxodo 21:1-8; 38:1-8; Mateus 23:17;

sição da imagem de Deus. Há muito para

Hebreus 13:10-12

ser visto em uma visita; penso que hoje

J

erusa esperou um longo tempo

podemos simplesmente olhar para uma

por este momento: sua primeira

dessas figuras da verdade ̶ este grande

visita ao Tabernáculo com seu pai,

altar de bronze. Você se lembra dos três

Baruque. Ela tinha ouvido muito

Ss que lhe ensinei sobre o altar? Não?

sobre ele de seus parentes e dos gentis

Não se preocupe, isso acontece com mui-

sacerdotes que sempre os visitavam para

tas crianças na primeira visita. Deixe-me

conversar e orar com a família. Ela tinha

relembrá-la. Os três Ss são: santificação,

visto sua fumaça distante sobre o acam-

suporte e salvação .

pamento durante o dia e seu estranho brilho à distância durante a noite. Quando o

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

Santificação

vento vinha do oeste, podia mesmo sentir

Santificação é uma palavra bem grande,

o cheiro dos animais queimando. Agora o

não é, Jerusa? O que ela significa? Bem,

dia, há muito prometido, havia chegado.

ela pode significar duas coisas. Primeiro,

Baruque e a pequena Jerusa rapida-

ela descreve como Deus tira os espinhos

mente percorreram as poucas léguas de

do pecado e planta a semente da graça na

sua tenda, nos arredores do acampamen-

alma dos crentes. Mas ela também pode

to, em direção ao Tabernáculo, no centro.

significar separado ou consagrado . Por

À medida que entravam na parte externa,

exemplo, quando eu me tornei sacerdote,

Jerusa viu algo que jamais esqueceria

eu fui santificado . Agora, isso não signi-

̶ um altar grande, negro e flamejante.

fica que vivo sem pecar ̶ eu desejaria

Ela podia sentir o calor já na porta do Ta-

que fosse assim! Mas, não, significa que

bernáculo. E estava tão dominada pelo

fui tirado das tarefas comuns e rotineiras

que via, pelo que escutava e cheirava que,

e dedicado, ou separado, para a obra de

subitamente, esqueceu tudo aquilo que

Deus. Isto é o que nós queremos dizer

havia sido ensinado por seus pais e pelos

com Tudo que tocar o altar será santo

sacerdotes. Deu um branco. Papai, o que

(Ex. 29:37). Nossos sacrifícios e ofertas

é isso... o que é aquilo... e aquilo ali? , ga-

são santificados pelo altar. Elas se tornam

guejou.

aceitáveis e válidas por causa do contato

Baruque suspeitou que isto poderia

com o altar. Sem esse contato, não teriam

acontecer e estava preparado. Ele combi-

valor nenhum para qualquer pessoa. Você

nou com seu sacerdote que os encontras-

pode perguntar: o que tornou o altar tão

se no altar naquela manhã para explicar

poderoso? Isso é mágica? Não. É porque

tudo à Jerusa de uma maneira simples. E

Deus simplesmente disse que seria as-

lá estava ele, o sacerdote Eliatã, a postos.

sim. Mas isto pode também ter relação

27


DAVID MURRAY

com o modo como ele é feito. Debai-

a flamejante ira de Deus oferecendo-se

to, especialmente quando entrar em

xo do bronze há madeira de acácia. É

a Si mesmo como o sacrifício final pelo

Canaã. Você irá encontrar pessoas que

a mais bela e a mais cara madeira do

pecado e, contudo, Ele próprio não

dizem que há muitos caminhos para

mundo. Alguns a chamam de madeira

será consumido. Ele será como este

Deus. Por favor se lembre, Jerusa, de

incorruptível porque ela não apodrece.

altar ̶ capaz de suportar o sacrifício

que há somente um altar divinamente

Assim, nossos sacrifícios são feitos de

pelo pecado, capaz de erguê-lo da ter-

autorizado. Deus designou e aprovou

uma maneira bela e santa, e se tornam

ra para o céu, embora o sacrifício esteja

somente um caminho de salvação. Não

aceitáveis quando oferecidos sobre

consumido. Estou cada vez mais incli-

há outro caminho para Deus, exceto

este altar porque Deus o disse, e por-

nado a concordar com estes experien-

através do Messias que está figurado

que entram em contato com algo belo,

tes anciões. Eles têm estudado estas

neste altar. Não há outro nome debai-

santo, e incorruptível .

coisas e orado a respeito delas desde

xo do céu pelo qual se possa ser salvo.

quando eu ainda nem era nascido. Je-

Finalmente, o altar de bronze nos

este altar é somente uma figura da ver-

rusa, você não gostaria de ser avivada

ensina sobre o poder da salvação. O

dade. Como toda figura, ele deve nos

quando nosso Messias chegar, quando

que você vê nestes quatro cantos, Je-

fazer querer ver o que está retratado.

estas figuras se tornarem vivas? Que

rusa? Chifres, está correto, um em cada

E você sabe o que está retratado aqui?

grande dia será este! .

ponta. Os animais com os maiores chi-

Salvação

por isto que Deus geralmente fala de

mos tudo que há para se saber sobre

Vejo que você está ficando cansada,

chifres como símbolo de força. Então,

Ele ainda. Mas o que está figurado nos

minha querida Jerusa. Deixe-me expli-

aqui Deus está clamando aos quatro

ensina que tudo que tocar o altar será

car o último s ̶ salvação. O altar nos

cantos da terra: Venham ao meu po-

santo . Somente através dEle nossas

ensina sobre a importância da salvação.

deroso altar para obterem a poderosa

Mas, querida Jerusa, lembre-se que

O Messias. Ele é o altar verdadeiro por detrás desta figura do altar. Não sabe-

fres são geralmente os mais fortes. É

ofertas e sacrifícios são aceitos. Cada

Você vê como este altar domina o Ta-

salvação . Esse é o papel de Israel no

cântico, oração, sermão, e ato deve ser

bernáculo? Ele foi a primeira coisa que

mundo, Jerusa. Chamamos as nações

santificado pelo contato com Sua bela,

você viu quando chegou na entrada,

para o único Deus verdadeiro e a po-

preciosa, e incorruptível pessoa .

não foi? Ele obscureceu todas as outras

derosa salvação que Ele oferece atra-

coisas. Ele tem cerca de 2,5 metros de

vés do Salvador que virá.

Suporte

largura, 2,5 de comprimento, e 1,5 me-

Bom, você parece bem cansada. Há

O segundo s é suporte. Além de san-

tros de altura. Você não pode ir a lugar

uma porção de coisas para se aprender,

tificar o sacrifício, o altar lhe dá supor-

algum no Tabernáculo sem passar por

não é? Você já viu o bastante para refle-

te. Você deve notar, Jerusa, que o altar

ele. Nossa vida como nação centraliza-

tir por muitas semanas. Fale a seu pai

está coberto de bronze, um metal que

se nele. Diariamente, semanalmente,

sobre o altar, e busque comunhão com

é associado com força e resistência (Dt.

mensalmente, anualmente, e nas oca-

o povo de Deus. Acima de tudo, fale do

28:33). Em sua abertura há uma grade

siões festivas os sacrifícios são feitos

altar de Deus em suas orações, e peça

de bronze, que sustenta e apóia o sa-

sobre ele. Através de tudo isto, Deus

a Ele para mostrar a você o Salvador e o

crifício enquanto o fogo o abrasa. Sen-

está nos dizendo que a salvação do

caminho da salvação retratados aqui. E,

do feito de bronze, o altar e a grade são

pecado é a coisa mais importante no

a medida em que Ele se revelar a você,

fortes e firmes o suficiente para resistir

mundo. Toda a nossa vida deve cen-

seja de forma súbita ou lentamente,

ao constante fogo ardente e ao calor

trar-se e girar em torno do altar. Jerusa,

ponha sua inteira fé e confiança nEle

flamejante até que o sacrifício esteja

isto é muito mais importante do que

e somente nEle. Conversaremos mais

totalmente consumido .

fazer amigos, brincar ou ir à escola. O

depois.

Veja o fogo, Jerusa. Você não iria

Messias deve ser a pessoa mais impor-

querer demorar muito se estivesse ali,

tante em sua vida ̶ mais importante

Conclusão

iria? Aquele fogo queima todo dia e

até do que sua mãe ou seu pai.

Bem, crentes do Novo Testamento, o

toda noite, contudo, o altar nunca é

O altar de bronze também nos en-

Messias transpôs a figura, o altar se tor-

consumido. Alguns de nossos sacerdo-

sina sobre a singularidade da salvação.

nou carne. Confirmando o Antigo Testa-

tes mais antigos crêem que isto figura a

Quantos altares para sacrifício Deus

mento, Ele disse, este é o altar que san-

incrível força do Messias vindouro. Eles

autorizou, Jerusa? Sim, está correto,

tifica o sacrifício (Mt 23:17). Em cumpri-

dizem que quando Ele vier, irá suportar

somente um. Você deve se lembrar dis-

mento ao Antigo Testamento, Ele disse:

28

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


TEMOS UM ALTAR

E por eles eu santifico a mim mesmo,

2. Concluímos nossas orações en-

5. Antigos altares pagãos tendiam a

para que eles sejam santificados na

comendando-as a Deus por meio de

ser extraordinariamente elaborados e

verdade (João 17:19). No contexto em

Jesus . Como podemos ser mais cons-

belissimamente ornamentados. O altar

que se fala sobre Jesus Cristo, o mesmo

cientes da necessidade de que Jesus

de Israel era simples e claro. O que isto

ontem, hoje, e eternamente, o Apósto- santifique nossos cânticos, nossos ser-

nos diz sobre o Salvador e Sua salvação?

lo afirma: Possuímos um altar do qual

mões, nosso testemunho, nossa adora-

6. Sacrifícios eram com freqüên-

não têm direito de comer os que minis- ção? Que passos podemos tomar para

cia amarrados no altar com cordas (Sl

tram no tabernáculo (Hb. 13:10). Ele

118:27). O que isto nos ensina sobre a

cultivar mais da intermediação de Cris-

chama todos os crentes para o único al- to em nossa mente e coração?

disposição dos animais para o sacrifí-

tar da Igreja do Novo Testamento, Jesus

3. Que passagens podem lhe ajudar

cio, e como isto contrasta com o sacri-

Cristo, e exclui todos aqueles que ainda

a entender melhor e a louvar o podero-

estão olhando para o altar do antigo Ta- so suporte de Cristo como seu altar? bernáculo. E segue argumentando que

4. Cristo e somente Cristo é nosso

como o altar do Tabernáculo santificava

sacerdote, nosso sacrifício, e nosso al-

os sacrifícios das pessoas, assim o san- tar ̶ as três coisas. Por que é um erro

fício de Cristo? 7. Que outras passagens referem-se a Cristo como o único caminho de salvação? 8. Como os pais e as igrejas podem

gue de Cristo santifica as pessoas (Hb.

comum falar da cruz, ou da mesa da

tornar a importância da salvação tão

13:12). Temos um altar!

comunhão, ou do nosso coração como

clara quanto o altar de bronze a tornou

um altar? Você reconhece que esteve

para Israel?

Questões

erroneamente diminuindo a pessoa de

1. Quais são os dois significados da san- Cristo, caso tenha se expressado dessa tificação?

forma?

Dr. David Murray ensina Antigo Testamento a Teologia Prática no Puritan Reformed Theological Seminary em Grand Rapids, Michagan, E.U.A. Dr. David Murray será o principal conferencista do XVIII Simpósio Os Puritanos em Maragogi-Al - 29 de junho a 03 de julho.

A Morte do Mais Apaixonado dos Escoceses Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos. (Sl 116:15).

Por Waldir Carvalho Luz

N REVISTA OS PURITANOS 1•2009

mesmo, cônscio de seu estado, prepara-

ove de novembro de 1572, do-

va-se, admiravelmente sereno, para o

mingo. John Knox celebra o

iminente desenlace. Na quinta-feira (13

que lhe seria o último ato pú-

de novembro) não mais podia ler sua

blico: a solene investidura de

inseparável Bíblia, hábito diário que

Lawson como seu sucessor à frente da ve-

observava com absoluta regularidade.

nerável Igreja de St. Giles, retirando-se, a

Naturalmente, a sombria notícia de seu

seguir, para sua residência, de onde não

próximo fim espalhou-se rapidamente

mais sairia em vida. Sua condição já não

por todos os recantos, despertando

deixava esperanças de recuperação. Ele

enorme onda de simpatia e dorido sen29


WALDIR CARVALHO LUZ

so de lamentável perda nos arraiais

feito como qualquer um, cuja palavra,

queles que o assistiam, enquanto os

reformados. Percebiam todos, agora,

no entanto, era, desarrazoadamente,

demais tomavam parte no culto da

as dimensões grandiosas desse vulto

acatada como se fora ele um oráculo

Igreja, sentiu John Knox que a morte

extraordinário, o quanto fizera pela

de Deus. O digno Conselho, é claro,

se aproximava. Entretanto, ainda não

pátria e pela Kirk1, e grande era a de-

queria poupar ao venerando pastor

lhe era o instante derradeiro. Passa-

solação de todos sentida. De todos os

o dissabor de saber desse fato, silen-

das algumas horas, um tanto agitadas,

lados, velhos companheiros e amigos

ciando sobre o assunto. Mas, para

de novo se pôs a falar, com lucidez

afluíam para dizer-lhe o último adeus.

surpresa de todos, John Knox, arfante

completa, gozo indizível, convicção

Para com todos tinha ele uma palavra

e combalido, trouxe à baila a desagra-

absoluta, de como pelas duas noites

de bênção e de exortação, apelando

dável questão, confessando que se

anteriores estivera em contínua me-

a que não fraquejassem na fé, não

reconhecia frívolo, vaidoso, imperfei-

ditação acerca da sofrida Igreja de

desamparassem a Kirk, fossem fiéis à

to, como o acusava o queixoso, mas,

Cristo, desprezada no mundo, mas

Causa de Cristo e à Escócia livre e so-

assim mesmo, pregara a Divina Pala-

mui preciosa aos olhos do Senhor,

berana. Não se esqueceu de enviar a

vra com toda fidelidade e essa mesma

em favor da qual orara intensamente

Kirkcaldy vívida e solene mensagem,

Palavra deixava bem claro que o ím-

e a qual entregava aos cuidados dA-

conclamando-o a relembrar os dias

pio, contumaz e rebelde que é, pere-

quele Que é o seu cabeça e esposo

de companheirismo do passado, a

cerá. Era isso que sentenciara contra

fiel. Nessa arrebatadora experiência

retomar à constância de outrora, a

Maitland e todos quantos rejeitavam

espiritual lutara contra Satanás e suas

arrepender-se de seus descaminhos,

os sagrados caminhos do Senhor. Não

potestades nas regiões celestiais e

se não queria perecer ingloriamente.

havia como sequer censurá-lo, muito

saíra triunfante, penetrara os arcanos

Ainda no leito de morte, o insigne

menos condená-la. Pediu-lhes que

paradisíacos e fruíra o superno gozo

pregador pregava com alma e cora-

lhe lessem o Salmo IX. Fizeram-no,

da bem-aventurança que esperam os

ção a verdade a que servira com pai-

com lágrimas incontidas. E partiram

justificados no sangue de Jesus. Em

xão e fervor.

desolados.

seu lívido semblante refletia-se a ale-

Agravava-se-lhe, mais e mais, a

Falava, agora, com extrema difi-

gria dos salvos em comunhão com o

precária condição de saúde. Sentia

culdade, voz quase inaudível, em bre-

Pai Celeste. Aos poucos se aquietou,

penosas dores e anuviava-se-lhe a

ves frases entrecortadas. Sobretudo,

após recitar pausadamente a Ora-

lucidez da mente. Queria levantar-

queria ouvir mais da Sagrada Escri-

ção do Senhor, e pareceu adormecer

se para pregar, tendo de ser contido.

tura: Isaías LIII, Salmos variados, com

tranqüilamente, de vez em vez mur-

Pediu a presença dos presbíteros e

destaque para o Evangelho Joanino,

murando: A Kirk... a Kirk... a Kirk... .

diáconos de sua igreja para suas der-

mormente o fascinante capítulo XVII,

radeiras recomendações e despedi-

seu predileto.

Amanheceu a segunda-feira (24 de novembro, 1572). Insistia ele em

das, lembrando-lhes que toda a sua

Diante de seu leito de moribundo

levantar-se. A custo, arrastou-se até

luta havia sido unicamente por amor

passavam as mais eminentes figuras

uma cadeira, assentando-se. Tentava

à Kirk e ao povo de Deus, jamais bus-

da nobreza, tais Glencaim, Lindsay,

levantar-se e andar, mas não tinha

cando proveito e vantagens pessoais

Boyd, Ruthven, até mesmo James

forças para tanto. Cerca de meia hora

na prédica ou no exercício de seu

Morton, já indicado como regente da

depois, voltou ao leito, ajudado por

ministério, opondo-se aos muitos ad-

Escócia, particularmente aqueles que

assistentes. Por volta do meio-dia,

versários apenas na extensão de sua

lhe deram apoio nas vicissitudinárias

pediu à jovem esposa que lhe lesse

rebeldia contra a verdade e vontade

pelejas que travara, correligionários

o capítulo XV de I Coríntios. Leu-o,

do augusto Senhor a Quem servira

animosos e companheiros leais, sem

profundamente emocionada, a voz a

com todas as forças de seu arrojado

os quais não teria podido defender a

tremer. Então, sonolento, balbuciou,

ser. Maitland encaminhara ao nobre

soberania da pátria e implantar a fé

lentamente: Em Tuas mãos entrego o

Conselho da Igreja queixa formal con-

reformada como o fez. Contristados,

meu espírito... em Tuas mãos... , mas

tra o zeloso patriarca de que o havia

comovidos, acabrunhados, retiravam-

ainda não era chegado o momento

chamado de ateu e inimigo da Causa

se, aguardando o esperado desenlace

final. Bem mais tarde, seriam umas

Divina, ao mesmo tempo que lhe ex-

para qualquer momento.

quatro horas, desejou ouvir, de novo,

probrava a servil subserviência a um

Dia 23 de novembro (1572), do-

seu capítulo predileto, João XVII, e

homem vão, mesquinho, tão imper-

mingo, à tarde. Cercado somente da-

mais. A resignada Margaret, esposa

30

REVISTA OS PURITANOS 1•2009


A MORTE DO MAIS APAIXONADO DOS ESCOCESES

devotada, Bannatyne e vários ami-

mo aqueles que não comungavam de

que jamais tirara proveito de sua con-

gos se revesavam na leitura de textos

suas idéias e até o detestavam, se fez

dição de ministro da Igreja para be-

bíblicos, por três horas. O extenuado

presente. Morton, nesse dia investido

neficiar-se de seus recursos em favor

enfermo adormeceu novamente e

como regente da Escócia, pronunciou,

de si mesmo, como dizia: A ninguém

deixaram-no dormir sem perturbá-lo,

ao lado da sepultura, eloqüentes pa-

corrompi, a ninguém defraudei, não

embora chegada a hora das preces

lavras de encômio ao saudoso profeta

acumulei bens à custa da exploração

vespertinas, delonga das até meia

cuja grandeza de alma e dignidade de

de ninguém . A Assembléia Geral vo-

hora após as dez, quando, ajoelhados,

caráter o faziam a personalidade mais

tou que seu estipêndio continuasse a

as recitaram, em voz baixa, como em

marcante de seu tempo na gloriosa

ser pago à família por mais um ano.

um rito mortuário. Então, alguém se

terra escocesa, culminando com esta

Morton, o gracioso regente, por sua

aproximou do leito e, embora certo

sentença lapidar, digna de ser-lhe o

vez, tomou providências para que

de que não lograria resposta, em voz

mais apropriado epitáfio: Aqui jaz

os dependentes do nobre pregador

branda, perguntou ao moribundo se

um homem que a ninguém lisonjeava,

fossem devidamente assistidos pelo

havia ouvido as orações. Abrindo os

nem temia a ninguém . Mas, o senso

erário público. Nada mais merecido,

azulados, mas mortiços olhos, a esbo-

de irremediável perda lancinava os

e ainda era pouco, pelo muito que o

çar um sorriso de satisfação, disse que

doridos corações, inconformados em

magno campeão fizera por sua gente,

sim, e muito feliz.

que emudecera para sempre aquele

por sua pátria, por sua Igreja.

Um pouco antes das onze ho-

que era a própria consciência nacio-

Seus dois filhos do primeiro casa-

ras dessa noite, deu ele um suspiro

nal, a deblaterar contra a injustiça e

mento, Nathaniel e Eleazer, eram ain-

prolongado, resfolegante, soluçoso.

a conclamar a todos a que se rendes-

da adolescentes, de quinze e quatorze

Ainda respirava, fundo, frouxamente.

sem a Cristo, o augusto Redentor de

anos, respectivamente, quando lhes

Pediu-se-lhe que desse um sinal der-

toda alma arrependida...

faleceu o genitor. Foram, porém, de-

radeiro de que gozava de paz íntima

Não se sabe hoje com certeza o

vidamente assistidos e estudaram no

e nenhuma aflição o angustiava. Não

local exato de seu sepultamento. En-

famoso e aristocrático St. John s Col-

mais podendo falar, conseguiu levan-

tretanto, na praça que fica entre a

lege, da Universidade de Cambridge,

tar uma das mãos em aceno positivo.

Igreja de St. Giles e o prédio do Parla-

seguindo também eles a nobre carrei-

Mais um leve suspiro. Descaiu-lhe a

mento, em Edimburgo, uma lápide

ra eclesiástica, se bem que na Igreja

mão ao lado do corpo, que se quedou

singela assinala o sítio tradicionalmen-

da Inglaterra, não na Kirk da Escócia,

imóvel. Deixava esta vida, partindo

te reconhecido como o de sua sepul-

o que não seria de causar espécie,

ao encontro de seu amado Senhor,

tura, em que se vê a inscrição: I. K. (as

nem desagradaria ao magnânimo Re-

o mais apaixonado dos escoceses, o

iniciais do nome Iohannes Knox) 1572

formador, vivesse ele ainda. Tiveram

mais impertérrito defensor da sobe-

(o ano de seu falecimento).

ambos vida demasiado breve. Natha-

rania de sua pátria, o mais heróico

Tinha o grande homem ao falecer

niel morreu com vinte e três anos, em

batalhador pela implantação da fé

cinqüenta e nove anos, ou, admitindo- 1580, oito anos após o falecimento do

reformada na terra que o viu nascer,

se que nascera em 1505, como que-

ilustre pai, Eleazer, com trinta e um,

patrono incomparável da Kirk, pa-

rem alguns, sessenta e sete. Deixava

em 1591, onze anos após o irmão, de-

triarca inconcusso do Presbiterianis-

viúva a dedicada Margaret, com três

zenove após o genitor. Não deixaram

mo. Glória a Deus por esse apóstolo

filhas pequenas. Embora recebesse,

descendentes, de sorte que, com eles,

extraordinário, orgulho de sua gente,

em geral, honorários satisfatórios e,

se extinguiu a linha masculina do

exemplo para todos quantos amam

como todo bom escocês, fosse bas-

grande Reformador.

o Evangelho e servem honrosamente

tante sóbrio e econômico, legou à

Esse foi John Knox, o gênio do Pro-

ao Senhor e Sua Igreja.

família recursos irrisórios, reduzida

testantismo Escocês, o apóstolo da

Dois dias depois, na quarta-feira

soma que a deixava em reconhecida

Fé Reformada no país, o patriarca do

26 de novembro de 1572, realizaram-

pobreza, mais da metade das suas

Presbiterianismo em todos os tempos.

se os funerais do insigne paladino, em

posses consistindo de empréstimos

um ambiente de muita tristeza e de-

generosamente feitos a pessoas que

solação, enorme a multidão que lhe

lhe batiam à porta em busca de ajuda

acompanhou o corpo sem vida a sua

e raramente se lembravam de reem-

morada final. A nobreza em peso, mes-

bolsá-lo. Bem podia ele jactar-se de

REVISTA OS PURITANOS 1•2009

Dr. Waldir Carvalho Luz é pastor jubilado da IPB; foi Professor de Grego e Hebraico no Seminário do Sul. Tradutor de várias obras, entre elas, As Institutas de Calvino. Extraído (com autorização) do livro John Knox ‒ O Patriarca do Presbiterianismo, Cultura Cristã, pp. 219-224 NOTA: 1 A Catedral de St Giles é a histórica igreja da cidade de Edimburgo. Também conhecida como High Kirk of Edinburgh ‒ Igreja Mãe do Presbiterianismo

31


Para os Anciãos Os Dias Passados Rev. Ashton Oxenden

V

ocê lembra daquilo que eu disse no último capítulo acerca do que Moisés fez antes de morrer? Ele foi direcionado por Deus a ir até o alto do Monte Pisga e ter uma visão da Terra Prometida que se situava diante dele. Mas nós dificilmente podemos imaginar que isso foi tudo o que fez. É mais do que provável que outro propósito para o qual ele subiu aquele alto monte tenha sido para que pudesse dali avistar todo o caminho que já havia percorrido em sua jornada no deserto. Eu disse que seria bom para você olhar aqui e ali para trás, para todos os anos pelos quais tem passado. Deixe-me agora ajudá-lo a fazer isso. Primeiramente, faça uma boa análise e veja que pecados marcaram a sua vida passada. À medida que olha para trás, eu me atrevo a dizer que você sentirá que há muitas ações que você apagaria com satisfação se pudesse. Há muitos dias que você gostaria de viver novamente na esperança de vivê-los melhor; muitas palavras que gostaria de anular; muitos feitos que daria o mundo para desfazer; muitos maus pensamentos que alimentou e que deixaram uma mancha em você que nem mesmo o tempo pode apagar. Eu sei que é muito doloroso ficar pensando em nossos pecados passados, mas não devemos recuar diante disso. É tolice enganarmos a nós mesmos e imaginarmos que eles não foram cometidos. Lá eles estão e Deus os vê, se nós não o fizermos. Os Seus olhos os perceberam quando foram cometidos e os vêem ainda hoje. Eles podem ter quase desaparecido da nossa memória, mas Deus lembra-se deles: Ele não esquece de nada. Pessoas idosas são muito tendentes a pensar que o que é passado e que já foi esquecido por eles está também apagado do livro das memórias de Deus. Freqüentemente, por exemplo, quando os pecados e tolices da sua mocidade são mencionados, eles expressam apenas um suspiro passageiro e não passam disso. Pensam que tais coisas são desculpáveis nos tempos de juventude, e que Deus não será tão rigoroso a ponto de destacar o que foi feito de errado naqueles dias. Imaginam que o passado distante não lhes será creditado, visto que desde então se tornaram mais sábios e zelosos. Mas é realmente assim? É Deus alguém como nós? Pode alguma extensão de tempo fazer desaparecer os nossos pecados da Sua memória? Não está escrito que até “por cada palavra vá que os homens pronunciarem eles haverão de prestar contas?” Eu estou certo de que é muito bom para todos nós - e especialmente para aqueles que estão se aproximando mais do final da vida - que olhemos de maneira apropriada para os pecados que temos cometido. É tolice fecharmos os nossos olhos para eles e persuadirmos a nós mesmos de que não existem. De fato, se temos alguma vida espiritual em nós, podemos esquecer qualquer coisa, mas nunca nos esqueceremos daqueles abomináveis pecados que macularam as nossas almas. Mas não é suficiente olharmos para eles de um modo geral. Nós devemos nos fixar neles um por um, e trazê-los para fora dos seus esconderijos. Deve haver uma busca cuidadosa, como

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que com uma vela na mão — uma busca honesta, sincera e diligente, a fim de que nenhum deles escape de nós. “E qual o proveito disso?” você talvez esteja pronto para perguntar. “Há alguma utilidade em nos fazermos infelizes? Aquilo que já foi feito pode ser desfeito?” Oh, certamente é muito melhor descobrirmos os nossos pecados agora do que tê-los trazidos à luz, pela primeira vez, quando comparecermos diante de Deus. E muito melhor sabermos como está a nossa posição diante de Deus agora do que aprender isso naquele mundo em que não há mais esperança para o pecador. E o que vamos fazer com os nossos pecados quando nós os identificarmos? Há alguma maneira pela qual possamos nos livrar deles? Ou eles deverão permanecer como manchas negras em nossas almas, como dívidas não pagas que nunca poderão ser canceladas? Não, amado amigo. Há um caminho, um único caminho pelo qual cada pecado cometido e cada ação deixada por fazer podem ser apagados para sempre. Cristo pagou a dívida pelos pecadores. Ele derramou o Seu sangue na cruz por pecadores como você. Ele morreu para que os pecadores possam viver. E Ele é capaz, neste momento, não somente de perdoar todos os seus pecados, mas de cobri-lo com a Sua perfeita justiça e fazê-lo Seu para sempre; Ele “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus” (Hb. 7:25). Vá agora a Jesus e peça a Ele que lhe dê arrependimento (At. 5:31). Peça a Ele para que toque o seu coração pelo Seu Espírito Santo e lhe faça odiar os seus pecados e lamentar por eles com santo sofrimento. Oh, como é bom para nós sentir pesar pelos nossos pecados! Sujeite-se a isso; nós haveremos de nos entristecer por eles se formos trazidos para debaixo do poder da graça de Deus. Mas lembre-se, aflição e lágrimas não limparão essa mancha. Elas não podem remover um único átomo da nossa culpa. Não, somente o sacrifício de Cristo pode pagar a nossa culpa. Nele somente podemos encontrar perdão. “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo. 1:7). Aqui então, meu querido amigo, está o bom proveito de identificarmos os nossos muitos pecados. É para que possamos ter cada um deles perdoado; é para que nós possamos ser feitos felizes em Cristo, nosso Salvador. Ele é todo poder e amor. Ele pode e quer salvar. Ele diz: “Vinde até mim... e Eu vos aliviarei”; “ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã” (Mt. 11:28; Is. 1:18). Mas há algo mais que devemos atentar e relembrar além dos nossos pecados; devemos olhar para trás e considerar as nossas muitas misericórdias (SI. 103:1-5). Pense nos inúmeros atos de amor e bondade que Deus tem mostrado a você durante os anos que se passaram. Moisés trouxe à mente, eu ouso dizer, aqueles quarenta anos nos quais o Senhor tão grandemente o abençoou. Todo o caminho que ele havia trilhado fora, de fato, coberto de misericórdias — misericórdias a ele mesmo, à sua família e ao seu povo. É dito que por quarenta anos “nunca envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé” (Dt. 8:4). Quando eles tiveram sede, “da pedra fez brotar torrentes, fez manar água como rios” (SI. 78:16). Quando tiveram fome, Ele os alimentou com pão dos céus (Ex. 16:4). Ele os guiou, não pelo caminho mais curto nem pelo mais fácil, mas “pelo caminho correto” até a terra que lhes fora prometida. Deus não tem lidado assim tão graciosamente com você? Bondade e misericórdia não lhe têm

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seguido em todos os seus dias? Pense nos seus muitos livramentos dos perigos. Pense em como você tem sido poupado enquanto outros têm sido ceifados desta vida. Pense em todas as bênçãos que desfrutou quando sequer as merecia. Pense na paciência que Deus teve quando você provocou a Sua ira. Pense em como Ele fez uma coisa e outra funcionar conjuntamente para o seu bem. Muitas vezes você disse a si mesmo: “isso é um infortúnio; está tudo contra mim”; e talvez isto mesmo tenha vindo a transformar-se em seu maior bem. As misericórdias passadas de Deus devem ser uma garantia daquelas que estão por vir. Você bem pode implorar como Davi: “Tu me tens ensinado, ó Deus, desde a minha mocidade... Não me desampares, pois, ó Deus, até à minha velhice e às cãs” (SI. 71: 17-18). Você pode esperar provações mais adiante à medida que alcança os estágios restantes no deserto desta vida. Mas pode estar certo de que o maná com o qual tem sido alimentado não falhará, nem as nuvens de proteção que lhe têm abrigado serão removidas até que a sua peregrinação tenha um fim. Esteja certo, Deus nunca abandonou um peregrino exausto. Ele nunca negligenciou um servo idoso. Você sabe que Ele lhe prometeu: “até à vossa velhice, eu serei o mesmo e, ainda até às cãs, eu vos carregarei; já o tenho feito; levar-vos-ei, pois, carregar-vos-ei e vos salvarei” (Is. 46:4). As últimas palavras do bom e velho Dr. Guyse foram: “ó meu Deus! Tu tens estado sempre comigo, não me abandonarás agora”. Pense em tudo isso e estas coisas aquecerão o seu coração frio. Você encontrará um amor incendiador dentro de você ao trazer à mente a bondade daquele Amigo celestial que tem lhe protegido tão amorosamente, e que tem cuidado de você desde a sua infância até agora. E, oh, se você é um verdadeiro servo de Deus; se já foi levado a conhecer e a amar o seu Salvador; se o caminho de santidade tem sido o seu caminho, então não há uma misericórdia que exceda a todas as outras no seu caso? Não pulsa o seu coração de gratidão quando pensa nesta graça que o chamou das trevas para a bendita luz da verdade de Deus, que endireitou os seus pés dos caminhos de pecado e miséria para o qual se apressava, e trouxe-lhe para o caminho da paz? De todas as suas misericórdias, não há nem uma tão grande quanto aquela que lhe conduziu a Cristo e fez de você um participante da Sua grande salvação. É dito sobre John Newton que, embora a sua memória lhe falhasse em sua idade avançada, havia duas coisas das quais ele nunca esqueceu: uma era que “ele era um grande pecador’; e a outra era que “Jesus era um salvador ainda maior”. Deixe-me encorajá-lo, então, a olhar para trás tanto com relação aos seus pecados passados, quanto às misericórdias passadas. Isso é especialmente necessário para você que tem vivido muitos anos neste mundo e em cuja ampulheta não resta mais do que poucos grãos para se esgotarem. Faça-o com um espírito humilde e atencioso e eu creio que descobrirá que muito bem procederá disso. Tome este e muitos outros conselhos que ofereço como vindos de alguém que realmente se importa com você. Sim, eu me importo com os idosos. Eu conheço as suas provações, as suas enfermidades e as suas dificuldades. E eu também sei que o Salvador mesmo se importa com você. Ele tem em estoque muitas e grandes bênçãos, as quais está pronto para derramar sobre a sua vida. E o que eu desejo neste livro é levá-lo a desfrutar delas, a fim de que você possa ter uma velhice bendita e feliz. Extraído do livro “O Segredo Para Envelhecer Feliz” de Ashton Oxenden — Knox Publicações (com permissão); pp. 16-22.

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Confissão de Fé Belga de 1561

Artigo 13 A Providência de Deus

Cremos que o bom Deus, depots de ter criado todas as coisas, não as abandonou, nem as entregou ao acaso ou a sorte1, mas que as dirige e governa conforme sua santa vontade, de tal maneira que neste mundo nada acontece sem sua determinação2. Contudo, Deus não é o autor, nem tem culpa do pecado que se comete3. Pois seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis, que Ele ordena e faz sua obra muito bem e com justiça, mesmo que os demónios e os ímpios ajam injustamente4. E as obras dEle que ultrapassam o entendimento humano, não queremos investigá-las curiosamente, além da nossa capacidade de entender. Mas, adoramos humilde e piedosamente a Deus em seus justos julgamentos, que nos estão escondidos5. Contentamo-nos em ser discípulos de Cristo, a fim de que aprendamos somente o que Ele nos ensina na sua Palavra, sem ultrapassar estes limites6. Este ensino nos traz um inexprimível consolo, quando aprendemos dele, que nada nos acontece por acaso, mas pela determinação de nosso bondoso Pai celestial. Ele nos protege com um cuidado paternal, dominando todas as criaturas de tal modo que nenhum cabelo - pois estes estão todos contados- e nenhum pardal cairão em terra sem o consentimento de nosso Pai (Mateus 10:29,30). Confiamos nisto, pois sabemos que Ele reprime os demônios e todos os nossos inimigos, e que eles, sem sua permissão, não nos podem prejudicar7. Por isso, rejeitamos o detestável erro dos epicureus, que dizem que Deus não se importa com nada e entrega tudo ao acaso. 1) Jo 5:17; Hb 1:3. 2) Sl 115:3; Pv 16:1,9,33; Pv 21:1; Ef 1:11. 3) Tg 1:13; 1Jo 2:16. 4) Jó 1:21; Is 10:5; Is 45:7; Am 3:6; At 2:23; At 4:27,28. 5) 1Rs 22:19-23; Rm 1:28; 2Ts 2:11. 6) Dt 29:29; 1Co 4:6. 7) Gn 45:8; Gn 50:20; 2Sm 16:10; Rm 8:28,38,39.

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John Knox — O púlpito que ganhou a Escócia  

A Fé Reformada abraça a fé total dos crentes, toda a fé protestante. Isso significa que a Fé Reformada é ampla. Inclui todas as verdades que...

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