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EDITORIAL 3

FOI ASSIM QUE TUDO COMEÇOU M.B.L. Della Torre

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QUAL É A FUNÇÃO DO ESCRITOR? Antonio Roberto Fava

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NINGUÉM ALÉM DE DEUS... Celso Gabriel de Toledo e Silva

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FOLHA SECA - “Um autêntico e incontestável magnata” Jonas Rosa

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FLORISBELA Therezinha Rocha Poles

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SÃO PABLO DAS PALAVRAS Maria Lucia Nascimento Capozzi

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O CALOR E DONA MINÓRIA Judith MacNight Jones

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MEMÓRIA

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A BALADA TRISTE DE CARSON MCCULLERS Antonio Roberto Fava

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POETAS... POESIAS Maria Nagiba Risek Maluf

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DEVANEIO IV Catharina Fortunato De Barros A FRAGILIDADE HUMANA M.B.L. Della Torre

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O ESPANTALHO E O CORVO Ariel Capozzi

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RESUMO Nelly Rocha Galassi MULHER Maria Mirian

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O MENINO E O VENTO Antonio Roberto Fava

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MENINA DOS OLHOS Wilma Lúcia CONSEQÜÊNCIA Geraldo Trombin

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QUEM SABE João Rodella O PALHAÇO E O PICADEIRO Americana Ferreira Koester

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DRIBLANDO A MORTE ENTRE MÚMIAS E CARANGUEIJOS Sidney de Souza Almeida

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O SEGREDO DA LUA Katya Forti

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PERFIL RAYMUNDO, O EMPRESÁRIO QUE AMA OS LIVROS Antonio Roberto Fava

VOCÊ tem em mãos o primeiro número da revista Espaço da Palavra. Publicação cujo principal propósito é levar a você um pouco do que se produz na cidade em termos de literatura. A intenção da revista não é promover acirradas discussões como o fazem na academia sobre estudos estéticos ou períodos históricos da literatura. Embora eventualmente isso possa ser tema para uma matéria. Não se pretende também criar nenhum movimento literário. Nem é esse o propósito da revista. Nem fazer escola ou criar estilos inovadores de linguagem. (Deixemos isso para os acadêmicos). Apenas veicular o que produzem aqueles que gostam de escrever, de fazer literatura. Por meio do conto, da crônica, da poesia e do ensaio, o leitor pode encontrar aqui um pouco de tudo: do real ao insólito, do irreverente ao lírico, do melodrama ao trágico, de acordo com o estilo e gênero de que cada autor melhor sabe fazer. Escrevemos logicamente para sermos lidos. Eis aí o papel da revista. Agora, por que é que queremos ser lidos? Porque temos necessidade de, queiramos ou não, sermos, ainda que timidamente, testemunhas de pelo menos uma parte do nosso tempo. Uma forma de dizer “olha, eu passei por aqui, viu?” E também, como diz Lygia Fagundes Telles, “escrever por aqueles que não podem escrever”. Mas se não conseguirmos nada disso, ainda assim ficaríamos satisfeitos e felizes se um texto, qualquer texto, tenha proporcionado alguns bons momentos de lazer. Ou de reflexão. Porque não?

Projeto aprovado pelo Concult. Edição patrocinada com recursos captados por meio da aplicação da Lei Municipal de Incentivo à Cultura no 3.078, de 22 de julho de 1997, Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Americana. EXPEDIENTE Ano I no 1 maio/junho 2005 - PUBLICAÇÃO: Espaço Literário “Nelly Rocha Galassi". CONSELHO EDITORIAL: Maria Benedicta Lima Della Torre, Antonio Roberto Fava, Maria Lucia Nascimento Capozzi, João Rodella, Grabriela Schultze, Magali Berggren Comelato. PROJETO GRÁFICO: Heloisa C. Pavan. PRODUÇÃO EDITORIAL: Maria Lucia Nascimento Capozzi. IMPRESSÃO E ACABAMENTO: Gráfica e Editora Adonis. JORNALISTA RESPONSÁVEL: Antônio Roberto Fava Registro Profissional no11.713-SP.


O Espaço Literário "Nelly Rocha de Aniversário do Galassi" foi criado Grupo, Festa Junina e em 1981 por Nelly Comemoração do Natal. Rocha Galassi Não dispondo de (falecida), Thereziuma sede própria, o nha Rocha Poles e grupo se reúne nas casas Nelly Therezinha Ivanise Ivanise Pântano (fados sócios, num sistema lecida), tendo como alternativo. assessora pedagógica a professora Lúcia Chaíne. O Espaço Literário "Nelly Rocha Galassi" é Um pequeno grupo de pessoas que passou a reunirdirigido por uma diretoria, eleita por aclamação, para um se semanalmente com o objetivo não só de estudar a mandato de dois anos. Pode haver reeleição. Já presidilíngua portuguesa, mas também escrever e publicar, no ram: Therezinha Rocha Poles (primeira presidente), jornal da cidade, poesias, crônicas e contos. Maria Benedicta Lima Della Torre (dois mandatos), No decorrer do processo evolutivo, como tudo que Maria Lucia Nascimento Capozzi (três mandatos e seis é vivo, foi se modificando: cresceu em número, produmeses completando o mandato de Dr. Sidney, falecido ziu frutos, através dos trabalhos literários difundidos em 20 de dezembro de 2001. pelos jornais, antologias e livros de nossos autores. Além da diretoria, há também o Conselho O Espaço Literário é, e sempre foi, um grupo Consultivo, formado por todos os ex-presidentes. heterogêneo no estilo, formação, idade e profissão dos Ainda conta com dois departamentos sendo um cultural, associados, sendo a unidade e coesão encontradas no ideal responsável pelos eventos culturais e outro social, comum: o cultivo da língua portuguesa e o empenho e encarregado da organização das reuniões festivas. O compromisso com a literatura. Há, em todo grupo, a Grupo já publicou as seguintes coletâneas: vontade de escrever cada vez melhor. Não é tarefa fácil, 1989 - Revista “Nossas Crônicas e Poesias” pois, para se escrever bem não é suficiente jeito e inspira7 autores - 100 exemplares. ção. O escritor necessita de constante estudo, dedicação e 1991 - Revista “Momentos Poéticos” contínua busca de aperfeiçoamento. O grupo existe e 12 autores - 210 exemplares. batalha para se aproximar cada vez mais do ideal de bem 1994 - Via Palavra 1 escrever. 13 autores 500 exemplares - J. Scortecci Editora. Atualmente o grupo conta com 52 sócios, sendo 25 1995 - Via Palavra 2 sócios ativos, 9 sócios correspondentes (de outras 16 autores 500 exemplares - J. Scortecci Editora. cidades), 5 sócios honorários e 4 sócios beneméritos. 1997 - Via Palavra 3 Durante muitos anos foi formado somente por mulheres, e 22 autores 1.000 exemplares - Caminho Editorial. 1998 - Via Palavra 4 só a partir de 1996 passou a contar também com escritores. 32 autores 1.000 exemplares - Caminho Editorial. A primeira denominação "Grupo Espaço 2000 - Via Palavra 5 Literário" foi sugerida em 1984 por Therezinha Rocha 33 autores 1.500 exemplares - Caminho Editorial Poles. Em 1998, passou a ser denominado Espaço 2002 - Via Palavra 6 Literário "Nelly Rocha Galassi" por sugestão da então 42 autores 1.200 exemplares - Caminho Editorial presidente Maria Lucia Nascimento Capozzi e aceitação 2004 - Via Palavra 7 unânime dos associados. Nelly, poetisa e escritora 42 autores 1.000 exemplares - Caminho Editorial maior - estrela de primeira grandeza de nosso Espaço morreu na madrugada de 28 de abril de 1998. Os sócios também publicaram seus livros e O grupo se reúne periodicamente duas vezes por podemos afirmar que mais de 40 obras já foram editadas mês, para estudos, debates e leitura dos trabalhos. por diversos autores do grupo. Promove eventos como lançamentos de livros, saraus, palestras e reuniões festivas sendo as principais a Festa


E N T R E V I S TA

Antonio Roberto Fava A pergunta foi feita há algum tempo à escritora Lygia Fagundes Telles, durante um encontro de escritores realizado na Unicamp. A resposta veio ligeira, mas nem por isso, irrefletidamente. “Ser testemunha do seu tempo e da sociedade. Escrever por aqueles que não podem escrever. Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir da nossa boca a palavra que gostariam de dizer. Comunicar-se com o próximo e se possível, mesmo por meio de soluções ambíguas, ajudá-lo no seu sofrimento e na sua esperança”. Provavelmente uma das mais talentosas escritoras brasileiras, autora de dezenas de livros, romances, contos e ensaios, Lygia diz que escreve para ser lida e tentar, se possível, mudar alguma coisa na vida do leitor. Diz que muitos de seus textos nascem de coisas extremamente banais, uma frase que ouve ou de uma simples idéia. Mas a maior parte origina-se de coisas obscuras. “Afinal, o ato da criação literária é sempre um mistério onde há magia”, diz Lygia, para quem é impossível localizar criação e criatura. Quer dizer, separar a obra do criador. A autora de Antes do baile verde (1970), Prêmio Guimarães Rosa, e A noite escura e mais eu (1998), entre tantos outros, sabe que há escritores que conseguem esclarecer tão bem o lado obscuro do ofício. “Eu não. Escrevo e esse corpo-acorpo com a palavra já me toma todo o tempo, que se faz cada vez mais curto neste cotidiano devorador”. Para ela escrever é uma luta. “Uma luta que pode ser vã, mas que me toma toda a manhã. E a tarde. E até a noite. Luta que requer paciência, humildade e humor”. Lygia, como todo escritor de grosso calibre, revela que tem o hábito de reescrever um texto uma porção de vezes. Pois quando se faz um texto sempre acaba ocorrendo algo que incomoda e que, por isso, deve ser modificado. Escrevemos para ler o que escrevemos e ver se está bom. É claro que nunca está e, por isso mesmo, reescrevemos uma, duas, tantas vezes quanto for preciso para que a leitura se torne suportável. Somos nosso primeiro e mais severo leitor. “Escrever é oferecer-se a si mesmo em julgamento”, escreveu Ibsen.

Encontro marcado - Elegante e dona de uma peculiar docilidade, Lygia lembra que suas primeiras histórias foram produzidas ainda quando fazia o secundário. Reuniu-as num pequeno livro que viria a destruir anos mais tarde porque, em sua opinião, a pouca idade não justificaria o mau livro. “Hoje, uma jovem de quinze anos fuma, bebe, lê Kafka, discute sexo enfim, ousa em tudo. Com essa idade, eu era só ignorância. E medo”, diz a autora de As meninas (1973), texto que recebeu os mais importantes prêmios. Inclusive o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Mas quanto ao hábito do autor reescrever ou não é uma questão de princípio. Tem gente que não gosta de reescrever. Diz que não tem paciência. Há autores porque escreveram um ou dois textos, e por algu-ma razão publicados, costumam acreditar que já são escritores. E pas-sam a agir como tais, como se já tivessem conquistado o Nobel de literatura. Escrever, portanto, é praticar com intensidade e atenção especiais. “É muito comum o sujeito que por ventura tenha publicado um livro e julgar-se bom o bastante”, me disse um dia o escritor paulistano Marcos Rey, autor de Memórias de um gigolô, Café na cama e Malditos paulistas, entre tantos outros. E dá uma dica: “Escrever bem significa cortar, reescrever, cortar palavras, reescrever outra vez, sempre em busca da palavra certa, e no fim achar que seu texto ainda não ficou tão bom, que poderia ter ficado melhor. Um escritor começa a morrer (literariamente) quando imagina que seu texto é o melhor texto do mundo”. Escrever, em última análise, consiste em uma


série de permissões que conferimos a nós mesmos para que possamos nos expressar de determinadas formas, e possamos também inventar, saltar, voar, cair até descobrir nosso traço peculiar de narrativa e insistir nele. Em outras palavras, até descobrirmos nossa liberdade interior. É ser severo, sem ser crítico consigo. Outro romancista que buscava a perfeição de um texto era Fernando Sabino, que morreu dia 11 de outubro do ano passado aos 81 Anos. Para ele, “o ato de escrever é algo muito difícil e penoso, tenho sempre de corrigir e reescrever várias vezes. Basta dizer que cheguei a escrever 1 100 páginas datilografadas das quais aproveitei pouco mais de 300”. Fernando Sabino deixou uma vasta obra. Seu livro mais conhecido é Encontro marcado (1965), obra que melhor define a geração dos escritores do pósguerra no Brasil. Entre suas principais obras estão, para citar apenas algumas, A falta que ela me faz (1980), O menino no espelho (1982), O gato sou eu (1983) e O

tabuleiro de damas (1988). Graciliano Ramos, que escreveu o clássico Vidas secas, além de São Bernardo (romances), Insônia (contos) e Memórias do cárcere (memórias), em relação ao ofício de escrever, costumava dizer que “o que é preciso é ter muita coragem e muita paciência, trabalhar seis meses, um ano, várias horas por dia, sem grandes esperanças”. O mineiro Paulo Mendes Campos, autor de Trinca de copas, Menino de cidade e O canarinho, diz que “quando escrevo para mim mesmo, costumo ficar corrigindo dias e dias, uma curtição. Corrigir é estar vivo”. Já Ignácio de Loyola Brandão que estreou na literatura com Depois do sol (contos) de 1965 conta que escreve por necessidade. “Sou neurótico, quero resolver meus problemas internos, me situar no mundo. Acho que preciso escrever para dar um depoimento do meu tempo, contar da condição humana nos dias em que vivemos. Gosto de escrever porque me diverte, me alegra”.

Entre tantos que se diziam ser meus amigos procurei um amparo, Necessitava de um ombro acolhedor, nada mais... Porém nada consegui, ninguém pode me ouvir, Cada qual com os seus problemas, é a vida; Minhas dores, revoltas, ansiedade, até solidão, Não encontrei alguém que pudesse dividi-las, Foram reveladas as quatro paredes que me acolhem para o dormir, Foram divididas comigo mesmo, com Deus, meu único amigo; Horas de pensamento, lágrimas que atravessam a noite, Recordações de uma vida fragmentada, carregada em ilusões, Um tempo onde desejava que houvesse apenas o dia, Rezava, implorava para que a noite nunca chegasse; Porém tal qual o destino implacável a noite fazia-se companheira, Mal sabia eu que era o remédio para minha libertação, As doses para a minha cura, meu crescimento, Um tempo passado de dor que hoje me faz alguém feliz e consciente.


C O N TO

Residia em Caratinga, em Minas Gerais, branco, idade, talvez entre 40 e 50 anos. Desconheci seu nome civil. Diretamente não o chamavam pelo apelido, pois dizem que se ofendia. Andava pelas ruas com um porrete na mão; olhava os prédios, as casas, os automóveis, as calçadas movimentadas de gente, numa atitude solene e autoritária, pois “tudo aquilo era dele...”. Certa ocasião saí do restaurante de um hotel, juntamente com um senhor bem conhecido na cidade, que, aliás, tinha o apelido de “pasteleiro”, pois em certa época fabricava pastéis para vender. Por acaso nos deparamos, na soleira da porta de saída, com o Folha Seca, que vociferou: "O Pasteleiro, seu ladrão, quem te autorizou a entrar no meu hotel?..." Dizem que abordava os policiais, quando os encontrava parados e ameaçava-os: "Eu pago um ordenadão para vocês, seus vagabundos, para ficarem aí de pé? Tratem de trabalhar, senão ponho vocês todos no olho da rua, mando tudo embora...”. Uma pessoa que aguardava comigo a chegada de uma outra numa esquina de rua, chamou o Folha Seca que passava por ali. Abordou-o com um ar solene e respeitoso. Esse se mostrava pois como tipo irônico,

histriônico, alimentador de birutices. Falou assim: “Eu não agüento mais aquela situação: "Aquela mulher vive de intrigas. Inferniza a minha vida. Quero sua proteção." Ele, o Folha Seca, respondeu: "Mata ela... Mata ela e vem se abrigar na minha sombra”. Mostrava um ar severo e decidido, e nessa resolução se assemelhava a algum caudilho rústico do passado. Para mim, Caratinga perdeu pelo menos metade de sua graça popular, perdendo o Folha Seca. Os idiotas da obviedade, conseguiram enviá-lo para um manicômio, em Barbacena, de onde, me informaram, voltou até com alguns ferimentos. E morreu... Que pena... Folha Seca era um autêntico folclore festivo, que só ameaçava com palavras corriqueiras, mas não fazia mal a ninguém... Suas agressões eram apenas um palavreado nascido da distorção de uma realidade objetiva. Seu mal era incurável e assim mandá-lo para um manicômio, foi uma maldade inútil. “Folha Seca era uma espécie de Don Quixote, sem Sancho Pança, sem Dulcineia, sem Rocinante”.

Que descanse na paz de Deus, já livre das suas tremendas responsabilidades terrenas.


C O N TO

Therezinha Rocha Poles São seis horas. A tarde afasta-se, sem pressa, escoltada por um sol de verão que brilha imponente, teimando em derramar o seu calor sobre a Terra. Eu acabo de deixar meu escritório de trabalho e, parado em frente da casa de Florisbela, reluto em entrar tanto quanto em voltar ao meu pequeno quarto de hotel, onde o calor é sufocante e as saudades se avolumam de tal forma que não sobra espaço para mais ninguém. Posso entrar, se quiser, usando o pretexto de apanhar o restante de minhas roupas. Ainda tenho a chave e, afinal, não somos inimigos. Esperarei por ela, conversaremos e, mesmo que não haja uma reconciliação, o fato de tornar a vê-la devolverá, quem sabe, um pouco da minha paz. Transponho o portão e o pequeno jardim, observo o jasmineiro solitário a um canto, oferecendo-me o perfume de suas flores e, ao girar a chave na fechadura, espero encontrar Florisbela do outro lado da porta. Ela me oferecerá seus lábios carnudos, como fazia antes, e eu os beijarei sorvendo-os com a sofreguidão de um faminto que saboreia um fruto maduro. Porém, ao entrar, verifico que não há ninguém na sala, apenas o eco do vazio e as recordações estampadas nas paredes e nos retratos a me fitarem com olhar penetrante, repleto de malignidade. Ficamos assim por instantes, eu e minhas lembranças, ambos cheios de indagações e a saudade a crescer e a querer saltar de dentro do meu peito como o duplo do meu próprio fantasma. Em outros tempos, Florisbela teria apanhado minha maleta, ajudar-me-ia a desvestir o paletó e, antes que eu reclamasse do cansaço do dia, me tomaria pelas mãos e me convidaria para um banho a dois, na banheira previamente preparada com sabão perfumado e sais de banho. Depois ela se despiria, retirando as peças devagar, uma a uma, com aquele jeito todo seu de enlouquecer um homem e eu me entregaria ao aconchego do seu corpo ouvindo-a proclamar o seu amor por mim. E, pela vigésima vez, trocaríamos aquele diálogo: - Você me ama? - Sabe muito bem que meu amor por você é infinito. - Jura que nunca será de outro? - Não poderia. Sou sua. E você, é meu?

- De mais ninguém. E já dentro d'água, ela me envolveria em seus braços, entrelaçaria em mim suas pernas roliças, me espremeria contra seu ventre macio, permitindo-me sentir a maciez do seu púbis. Eu, então, desmancharia carinhosamente a espuma formada ao redor dos seus seios e desfrutaria da sensualidade de suas entranhas. Mas tudo isso não passa de devaneios, lembranças de um passado que embora recente não significa mais nada. Se não fosse a visita inesperada de Elisberto, talvez ela nunca tivesse se revelado e eu ainda estaria vivendo o seu amor. Afinal, o que é pior; viver enganado ou sofrer a desventura de uma realidade infeliz? Quem estaria agora beijando os lábios carnudos de Florisbela? Quem estaria desfrutando sua carne macia e recebendo suas juras de amor? Um rumor de passos no jardim quebra a seqüência dos meus pensamentos. É Florisbela que chega e entra demonstrando estudada surpresa ao ver-me. - Ah, é você? Pensei que fosse outra pessoa observa maliciosamente. - Vim apanhar o restante de minhas roupas respondo, dirigindo-me às escadas que levam ao quarto de dormir. Quando voltei, ela continuava ali, tão imóvel e fria como se estivesse ausente. Tive ímpetos de puxá-la para junto de mim, arrancar-lhe a roupa e possuí-la ali mesmo, desvairadamente. No entanto, apenas apertei a sacola de roupas junto ao peito sentindo menos o seu peso do que o da humilhação lancinante que me aniquilava. Saio carregando minha frustração. Já é noite e posso ver, por entre as árvores da rua, um céu escuro, onde algumas estrelas brilham, brancas e frias. Adentro novamente à quietude do meu mundo e retorno, sem pressa, ao pequeno quarto de hotel onde o calor é sufocante e as saudades se avolumam de tal forma que não sobra espaço para mais ninguém.


Em minha memória, ecos de uma canção ouvida na juventude, levam-me à relembrança da primeira vez que ouvi o nome do poeta, na voz de outro poeta, Chico Buarque: ...devolva o Neruda que você me tomou, e nunca leu... Neruda, Pablo Neruda. Quem seria para merecer a menção e o aval do Chico? Interessada naquele nome sonoro, busquei o livro, a obra, o autor. Encontrei. Li e reli, encantada que sempre fui pelas palavras. E dele nunca mais me apartei. Achara um mago das palavras. Com elas, feito um Midas, tudo ele transformava em lirismo, em poesia, o verdadeiro ouro do mundo a escorrer de suas mãos, através de suas “penas”... Cantou a pátria, as terras do exílio, as mulheres que amou, a luz da lua de Capri, as lutas da república espanhola, o mar e as cordilheiras andinas, os pequeninos pés de Matilde Urrutia - a derradeira companheira, as revoluções latino-americanas, o sol e as marés, os caracóis e as peças naufragadas que aportavam nas areias brancas da sua Isla Negra, refúgio e inspiração de seus melhores dias vividos. Na inspirada poesia de Pablo Neruda os especialistas reconhecem quatro vertentes: a primeira refere-se aos seus poemas de amor, como em "Veinte Poemas de Amor y una Canción Desesperada"; a segunda é a poética voltada para a solidão e a depressão, como em "Residencia en la Tierra". A poesia épica, política, como em seu "Canto General" representa a terceira vertente; enquanto a poesia imagética do cotidiano, como em "Odas Elementales", é a quarta vertente poética do notável escritor chileno. Sua influência sobre os poetas de língua hispânica foi incomensurável e sua reputação transcendeu os limites do idioma. Simbolista no início, teve fase surrealista até chegar ao realismo, substituindo a estrutura tradicional da poesia por uma forma expressiva mais acessível. Alternou a vida literária com a carreira diplomática e a política. Em 1971, Neruda recebeu o Prêmio Nobel de Literatura e o Prêmio Lênin da Paz. Esteve no Brasil em diversas oportunidades e, numa delas, declamou poemas seus perante grande massa popular concentrada no estádio do Pacaembu, em São Paulo, onde desfrutava de vasto círculo de amizades.

Era o embaixador chileno na França quando ocorreu o golpe militar que depôs Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. De volta ao Chile, sofreu perseguições políticas. Viu uma onda de assassinatos assolar seu país: seu povo e muitos de seus amigos sendo mortos. O presidente Allende suicidara-se; a democracia de seu país, tão celebrada em seus poemas, se extingüia. Assim, doze dias após o golpe, a tristeza tomou Pablo Neruda. Doente, sem vontade de viver, o poeta agonizou em sua casa de Isla Negra, pousada sobre as escarpas do Pacífico, olhando sem ver o mar que rugia contra as pedras, até desferir o vôo solitário... Em 23 de setembro de 1973, sucumbe à doença e, certamente, à amargura do golpe de estado vitorioso de Pinochet contra o governo de Salvador Allende. Imortalizava-se o menino pobre de Parral, filho de um ferroviário, e órfão de mãe com apenas um mês de idade, Ricardo Neftalí Reyes Basoalto, que inspirado no poeta tcheco Jan Neruda (1834-1891), com 16 anos começou a escrever versos, seu rio invisível, usando o pseudônimo que o consagraria, e se tornaria seu nome legal em 1946: Pablo Neruda. Outros ecos chegam-me à sensibilidade: palavras inspiradas, palavras avidamente buscadas, palavras partilhadas, palavras escritas com devoção e fé. Porque, como afirmou o acadêmico Antônio Olinto, em entrevista recente, Neruda deveria ser “canonizado”. Concordo e acrescento: São Pablo Neruda, protetor das palavras concebidas para tornar o mundo mais belo, mais lírico, mais justo. Palavras colhidas pela aragem com aromas de jasmins, estrelas, marés e maremotos, para justificarem como ele próprio definiu-se: da terra sou e com palavras canto. São Pablo das Palavras, protegei-nos contra os discursos profanadores da verdade, das palavras endurecidas pelas guerras e injustiças. E concedei-nos o acesso às palavras de luz, sementes e vertentes das belezas, da sacralidade do Verbo, aquelas que permanecem nas mãos, nas mentes, nas essências da perpetuidade onde repousas, mergulhado na luz da grande noite dos tempos, na possessão infinita de tudo o que existe. " .... Deixa que o vento corra, enquanto eu, mergulhado nos teus imensos olhos, nesta noite imensa, descansarei..."


Quando Americana ainda era Estação de Santa Bárbara, no final do século passado, seus habitantes moravam em pequenas propriedades, esparramadas pelas colinas, plantando para o seu sustento e criando animais para suprir a variedade de sua mesa. Comia-se bem naquele tempo. Na fazendinha do Doutor Roberto Norris, entre o Jardim São Pedro e a Cidade Jardim, a casa modesta ficava nas imediações da atual Indústria Kron. O córrego que passava perto da casa era de água limpinha e servia para o uso geral, mas a água para o gasto da casa era tirada diretamente da mina. Miss Norris, como era chamada a mulher do doutor, já era professora, quando veio dos Estados Unidos e trouxe, na bagagem, além dos seus conhecimentos, muitas sementes de frutas, hortaliças e flores. Miss Norris só queria levar aqui o tipo de vida que levava na sua terra natal, como vivia ensinando aos outros alguma coisa. Suas vizinhas italianas aprenderam muita coisa, menos a pronunciar seu nome: Miss Norris, Mi Norris, Minória... e, no fim, ficou Dona Minória. Dona Minória não só plantava e criava, como defumava carne e fazia conserva das frutas e verduras. Lecionava piano, costurava, confeccionava os mais lindos chapéus e leques, usando penas de aves, assim como bolsinhas, com variedades de sementes. Com isso, ajudava no minguado orçamento da casa. Os filhos eram muitos e o pouco dinheiro que o doutor conseguia receber não dava. Mas, como boa provedora, Dona Minória sempre tinha uma reserva guardada para as emergências. Um dia apareceu em sua casa um dos muitos missionários americanos que trabalhavam no Brasil e gostavam de

visitar os patrícios quando podiam. Nada era bom demais para eles. Dona Minória preparou um bom almoço e abriu um vidro de conserva de doce de pêssego para a sobremesa. Ele estava espumando um pouco. Chamou um dos filhos e mandou que fosse despejá-lo no coxo dos perus (não se podia perder nada) e abriu um outro para a mesa. Passado algum tempo, o menino entrou correndo em casa: - Mamãe, os perus estão todos mortos! Correram para ver e lá estavam os enormes perus estirados no chão. Dona Minória teve vontade de chorar, mas dominou-se e disse ao filho: - Morreram com a conserva estragada! Tire as penas enquanto estão quentes. Ainda posso aproveitá-las. Mais tarde você vai enterrá-los para mim. Agora está fazendo muito calor. Voltou para casa para hospedar as visitas, e quando estas se foram, no fim da tarde, preparou-se para ajudar o filho na dura tarefa de enterrar tantas aves. Chegando lá, onde estavam os perus? Andando às tontas, cambaleando e caindo, levantando para tornar a cair, no maior espetáculo de bebedeira! Nunca se viu coisa mais ridícula do que aqueles perus pelados, dançando a um som que só eles ouviam. A família toda foi ver e quem soube também foi. Riram até as lágrimas escorrerem pelas faces e só pararam quando o fôlego acabou. O calor fermentou o doce de Dona Minória, transformando-o em álcool, e o próprio calor salvou a vida dos perus, impedindo que fossem enterrados vivos.


Natal - 1992

Encontro de escritores - 1997

Judith Mac-Knight Jones, Americana Ferreira Koester, Maria Cecília Dei Santi, Maria Benedicta Lima Della Torre, Maria Lucia Nascimento Capozzi, Nelly Rocha Galassi, Regina Lúcia de Gouvea Santos Gonçalves, Roberta Helena Suzigan Adamson, Therezinha Rocha Poles, Nagiba Maria Rizek Maluf, Catharina Fortunato de Barros, Bêne Barichelo, Sônia Barros e Lizete Suzigan Lançamento do livro de Sônia Barros - 1997

Walther José De Faé, Judith Mac-Knight Jones e Maria Benedicta Lima Della Torre

Sidney de Souza Almeida, Nelly Rocha Galassi, Sônia Barros, Roberta Helena Suzigan Adamson e João Rodella

Lançamento Via Palavra 6 - 2002

Churrasco 22º Aniversário - 2003

Maria Lucia Nascimento Capozzi, Wilma Lúcia da Silva Moraes, Regina Lúcia de Gouvea Santos Gonçalves e João Rodella

Maria Inês Zoppi, Maria Benedicta Lima Della Torre, Magali Berggren Comelato, Maria Lucia Nascimento Capozzi, Thaís Aparecida Polo Worschech, Lili de Almeida Franco, Maria Mirian, Inês Furlan, Ana Maria Volpato Jensen, Leila Seleguini, João Rodella, Terezinha Galassi Antônio, Catharina Fortunato de Barros, Gal Furlan e Sueli Olivato


Festa 23º Aniversário - 2004

Lançamento Via Palavra 7 - 2004

Maria Benedita Lima Della Torre, Maria Lucia Nascimento Capozzi, Therezinha Rocha Poles, Lázara Josepha Wonrath, Wilma Lúcia da Silva Moraes, Ricardo Mardegam, Regina Lúcia de Gouvea Santos Gonçalves, Thaís Aparecida Polo Worschech, J.D. Zanco, Nagiba Maria Rizek Maluf, Jota de Liveira, João Rodela e Geraldo Trombim.

Lázara Josepha Wonrath, Celso Gabriel de Toledo e Silva, Wilma Lúcia da Silva Moraes,Catharina Fortunato de Barros, Kátya Cristina Forti, Maria Mirian, Bêne Barichelo e Maria Benedicta Lima Della Torre Jota de Oliveira, Conceição Giacomini Soares, Gal Furlan, Geraldo Trombim, Maria Jacy F. Passiolo, Nagiba Maria Rizek Maluf, Maria Cecília Dei Santi, Kátya Cristina Forti, Bêne Barichelo, Maria Mirian, WilmaLúcia da Silva Moraes, Lázara Josepha Wonrath, Maria Lucia Nascimento Capozzi, Therezinha Rocha Poles, Devanir Ortunes, Maria Benedicta Lima Della Torre, Joana Ossuna, Catharina Fortunato de Barros, Sílvio Santos Basso,José Barichelo, Aline Gagliardo, Anderson Brongna, José Eduardo Festa de lançamento da coletênea Via Palavra 7 - 2004 Coelho e André Filipe Noronha Silva.


SUA VIDA, assim como sua obra, foi um tanto breve. Apenas 50 anos, tempo suficiente para criar obras memoráveis. Densas, instigantes e sofridas. Destaque para O coração é um caçador solitário (romance) e A balada do café triste (contos). Apaixonei-me por Carson McCullers (1917-1967) ainda garoto, creio que aos 17 anos, quando caiu-me às mãos um conto seu Uma árvore, uma rocha, uma nuvem, de 1951, publicado numa revista destinada ao público masculino. Li e reli compulsivamente o pequeno conto. Seduzido pelos personagens e pelo clima cinzento de uma manhã de chuva que os envolvia, um homem que, abandonado pela mulher, a quem amava, passa a vida a procurá-la, e um menino, entregador de jornais, descobri a magia que havia no texto de Carson McCullers. Passei anos buscando por mais textos dessa escritora nascida em 1917, em Columbus, Geórgia, Sul dos Estados Unidos. Rosto de menina, cabelos muito lisos e pretos, olhos grandes espantados sob uma delicada franja, McCullers escreveu o seu O coração é um caçador solitário aos 23 anos. Um texto denso, triste, carregado de emoções fortes. O livro conta várias histórias de vida que se entrelaçam e se desencontram em bares, calçadas, cortiços e miseráveis quartos de pensão de uma pequena cidade racista dos Estados Unidos. Como a menina de O coração é um caçador solitário, Carson McCullers era filha de um relojoeiro e apaixonada pela música de Mozart. Mas ela irá crescer, e, aos 18 anos, vai tentar estudar música em uma cidade grande (Nova Iorque). No entanto, nem tudo se dá como planejara: perde num vagão do metrô todo o dinheiro que

narrativa é voraz, afiada e lírica como uma navalha que rasga a madrugada. O grito dos solitários sem saída. Pode-se perceber que a literatura de McCullers não tem como propósito uma literatura como arma para tentar, digamos, melhorar o mundo, mas sem dúvida o melhorava muito apenas escrevendo, cheia de perdão pelas monstruosidades que nele habitam. Uma literatura muito parecida com a sua vida. O romance de Carson McCullers revela o que em poucas obras o ser humano terá sido encarado com tanto ceticismo, através de um senso crítico tão agudo e atento aos mínimos detalhes da maldade, dos pequenos crimes cotidianos que todos nós já cometemos, até maiores e igualmente comuns, como o assassinato, as torturas nas prisões e as guerras. Mas também em poucas obras o ser humano terá sido amado com tanta fraternidade, através de uma aceitação tão despojada e plena de seus limites, físicos, psicológicos e sociais. Viveu pouco. 50 anos. Mais da metade abalada por doenças misteriosas e dolorosas, operações delicadas e complexas, períodos negros de convalescença desesperada. Casou-se com um militar, Reeves McCullers, que se matou com um tiro. Mais tarde Carson se apaixonaria por duas mulheres, mas não foi correspondida. A autora de A balada do café triste, como deixou escrito, disse uma vez que “escrever uma linha demora muito tempo. Romance progride dia a dia, até à hora do ponto final. Este ofício sempre foi penoso para mim. Mas sempre soube que trabalhar não basta: o penoso progresso do trabalho deve ser iluminado por uma revelação, uma chispa divina, que

possuía e Carson se submete a vários empregos, até desistir e começar a escrever O coração é um caçador solitário, publicado em 1940. Considerado uma obra-prima, o romance transforma-se em filme, em 1968. Cinco anos antes, também A balada do café triste era também transcrita para o cinema. “McCullers e talvez Faulkner são os únicos escritores, desde a morte de D. H. Lawrence, que apresentam uma sensibilidade poética original. Eu prefiro McCullers a Faulkner porque ela escreve com mais clareza; e a prefiro a D. H. Lawrence porque ela não tem mensagem”, diz o escritor Graham Greene, autor de O condenado, entre outros. Grito dos solitários, McCullers foi uma das mais inquietantes e inconformadas autoras norte-americanas. Fez uma literatura coberta de dor, recheada de injustiças, violência e dores maciças de perversidade humana. Ela é, na verdade, uma das mais marcantes autoras que trataram da solidão e do grotesco da condição humana. Sua

dê equilíbrio a ele e o leve ao ponto final”. A escritora, cuja vida foi marcada pela dor e pelo sofrimento, lutou com uma série de problemas: febre reumática, pneumonia, um ataque cardíaco e paralisia. Ainda assim McCullers, não se sabe de onde, conseguia tirar uma força interior para não só escrever, mas também para receber convidados e passear. E assim escreveu até o fim. E, até o fim de seus dias, viveu confirmando o que dissera a uma psiquiatra, num certo dia de absoluta exaustão e melancolia no final de 1958: - Doutora, perdi a minha alma. A médica então respondeu de maneira terna, suave: “Não acho que esteja perdida. Creio que está apenas extraviada”. A busca durou até o dia 19 de setembro de 1967, o último dos dias de Carson McCullers. Ela certamente sabia que jamais encontraria a alma extraviada. Como também tinha consciência de que estava perdida para sempre, e que no peito carregava um coração fatigado, um caçador solitário em uma caçada sem fim.


Poetas Semeadores de Sonhos já se disse Sonhar, da matéria abstrair-se E do que é terreno. Alçar a píncaros, regiões onde desfilam Alvissareiros Os devaneios sublimes do espírito. Ser poeta... Ter um ideal criador Para encontrar e traduzir De dentro de si mesmo Uma concepção harmoniosa do universo. A possibilidade de um mundo melhor É possível antever, sendo nisto que consiste A missão superior da poesia. Todo poeta é um idealista Concentra as forças vivas do homem Como energia criadora do ideal De um mundo novo Estruturado sobre as bases do amor, Da bondade, da fraternidade, Pela concepção, contemplação e exaltação De tudo que a Natureza apresenta De belo e de divino. E um livro de poesias é uma peça colocada Na teia emaranhada De infinitos sonhos altruístas, De messes e de flores para alcançar o Absoluto O Eterno que não passa.


POESIA

Os sonhadores vivem lembranças e fantasias e mergulham num mar de desejos às vezes irrealizáveis não por serem impossíveis, mas porque eles não têm a coragem necessária de ir à luta. Assim aconteceu comigo aos quinze anos! Era menina-moça e sonhava em debutar, dançar a valsa e festejar essa nova etapa de minha vida. Mas como? Naquele tempo não tinha baile de debutantes. Eu sonhava fazer uma festa em minha casa, no quintal, onde pereiras, jabuticabeiras seriam enfeitadas com lanternas coloridas, tendo por fundo, músicas românticas do nosso tempo. Muitos doces caseiros seriam feitos em casa, por minha mãe. Como eu sonhava! Apesar de meu Pai ser muito bom, eu não tinha coragem de lhe pedir essa festa. Hoje penso se lhe tivesse pedido com prazer ele teria feito. Naquele tempo o respeito nos distanciava das pessoas queridas. Hoje, estando na década dos 70 anos, completamente dona dos meus atos, aproveito festejar muito, não só os longínquos 15 anos, mas, tudo em minha vida. Deus me dá a graça de estar com a minha família, com a comunidade. Com os amigos. No dia 23 de abril comemoramos o 24o aniversário do Espaço Literário “Nelly Rocha Galassi”. Nessa convivência saudável, continuo aprendendo e ao mesmo tempo, usufruindo de amizades com pessoas cultas, sensíveis e sonhadoras. Isso me completa e me faz pensar: “Quem espera sempre alcança”. Sessenta anos são passados e continuo comemorando, não só os quinze anos, mas a vida, todas as amizades, a família e a alegria de viver!

1994 - Via Palavra 13 autores 500 exemplares João Scortecci Editora

1997 - Via Palavra 3 22 autores 1.000 exemplares Caminho Editorial

Quão grande é a fragilidade humana Perante a vida com múltiplos percalços! Tantos e tantos são os fatores de risco Muitos até causados pelo próprio homem, Usando o poder, as armas, a maldade, A ganância, a ignorância, a intolerância, Não pondo limites no mal, na crueldade. Outros percalços nos vem da natureza: Em ventanias, tormentas, tempestades, Raios, maremotos, terremotos, tornados, Causando tanta desolação, calamidades. Entre gritos e dores sucumbe o homem, Não encontrando, na aflição, a quem apelar Quão grande é a fragilidade humana! Quão estulta e inútil nossa vaidade! Há também doenças que afligem o homem Tornando-o limitado e dependente Suportando até atrozes sofrimentos Que nem fortes remédios podem aliviar. O lenitivo que a humanidade encontra Para minorar e suportar tanta fragilidade, “Essa insuportável leveza do ser” Está na fé, no amor, na solidariedade, Na ciência, na busca do conhecimento, E em tudo aquilo que o homem possa Apoiar-se em sua grande fragilidade!


C O N TO

Um exército de penachos perfilados se alinhava cobrindo a encosta dum verde só de se ver, por ser sempre tão igual. Lanças encabeçadas por espigas embonecadas já secavam nos talos, e breve estaria por vir a hora de colher. Sobre um mourão de aroeira da cerca de farpado que limitava o milharal, um corvo solitário, missionário vanguardeiro, cuidadosamente examina a plantação. Uma brisa morna e preguiçosa sussurra seus suspiros sobre cabeleiras e pendões vacilantes. No farfalhar das lâminas aveludadas, em repentino destaque e sem aviso, surge, descoberto diante do corvo intrigado, um espantalho empertigado e bem traiado, guardião daquela roça tão apetitosa que escalava a serra. O pássaro, que já havia deliberado avisar seus parentes, se vê obrigado a repensar sua decisão. Dando tempo ao tempo e se fazendo de sonso, puxa conversa... - Bom dia, moço, tá um calorão danado, num tá não? - Bom dia e adeus, vá pousar em outra freguesia. - Só quis ser amigável, não seja tão malcriado. - O senhor, seu Corvo, sabe muito bem porque estou aqui, portanto não me venha com conversa fiada. Cínico e dissimulado, o corvo só pensa no próprio estômago e, com o bico salivado pela gula, se desmancha em argumentos... - O que sei, moço, é o que está nos livros, nas escrituras sagradas: “observai as aves do céu, não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso pai celeste as sustenta”. Vê, assim está escrito. - Sei, sei, muito ilustrativo e conveniente, mas esta roça é do homem aí da fazenda, e não é para o seu bico. Tenho os dedos de palha e meu paletó xadrez, estou aqui pra espantar vocês. Entendeu? Espantar, espantalho, sacou? Mas o corvo, em seu próprio nome e estômago, não tem a menor intenção de desistir assim tão fácil e insiste cerimonioso. Afinal, era uma fartura de milharal.

- O moço, me dê sua atenção, é de natureza, por isso ainda mais está escrito. “Olhai os lírios do campo, não trabalham nem fiam, contudo vos afirmo que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como qualquer um deles. - Mui sábio, mui bonito, também gosto de flores, mas os meus pés são de sabugos, minhas calças de riscado, e é de palha meu chapéu. Estou aqui para lhe avisar, o milho todo destas espigas é do homem aí, ó! O pássaro, já decidido a servir-se, continua agora inspirado no “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Instigado pela gula que lhe escorre dos olhinhos piscantes, argumenta com veemência: - Está escrito que tudo sobre a face da terra e sob o céu de Deus, é de Deus. Assim foi, assim é, assim será. Portanto, o que é do Pai a todos os filhos pertence. - Ah! Então é festa, casa da sogra, pode esquecer esse papo subversivo, coisa de vagabundo que ainda por cima se esconde por trás de preceitos religiosos. Todo o resto pode ser de Deus pra ser dividido, mas esta roça é do homem aí, ó, e ele, senhor Corvo, tem cachorro e paude-fogo. Por isso chega de lero-lero, vá vê se tô na esquina olhando os lírios do campo, vai logo, negão... Entretanto, o corvo era malandro obstinado, pródigo no manejo das palavras, duelista tarimbado variava seus apelos e, com habilidade, apertava o “empalhado” por todos os lados. “Talvez, se lançasse mão da generosidade da natureza conseguisse, afinal, convencer aquele espantalho turrão", pensou, enquanto por instantes escondia o bico afiado por entre as penas negras da asa em descanso. - Veja amigo, quanta fartura, quanta abundância há nessas terras de Deus! Para cada dente de alho plantado, uma cabeça colhida. Para cada semente lançada, milhares devolvidas. Para cada grão de milho, centenas numa só espiga. Se tão pouquinho foi plantado e tanto será colhido, porque, então, essa sua mesquinhez empedernida? - É, e daí, Urubu? Meu nariz é de cortiça, meus olhos e boca são traços de carvão. Essas espigas aí, todas elas, em cada pé, grão por grão, são do homem aí, ó! “Urubu! Essa agora...” - pensa o corvo, ofendido. “Além de arrogante é desaforento esse sujeitinho sem alma, coração feito de jornal. Urubu, era só o que me faltava, ser comparado ao primo comedor de carniça”. Apesar de todos os pesares, subestima o espantalho por sua postura inerte. Guloso, esquece que o boneco empalhado ali plantado é um alerta montado pelo homem que lhe emprestou o paletó, e o homem é um inimigo egoísta e cruel. Não se intimida com a ameaça do ataque da cachorrada, afinal cachorro não voa. “Que se dane o homem, seus cães, seu pau-defogo, e que se dane também esse bonecão metido a guardião de fundo de quintal. Só umas poucas espigas, depois eu volto com a turma e pego mais”.


No chão, pousado, entretido em saborear o milho tenro e novo, se espanta quando uma matilha de perdigueiros furiosos invade o milharal fazendo escarcéu. “Pega, pega, pega ladrão"! Atrás da matilha vem o homem, e na mão do homem o pau que cospe fogo. O espantalho impassível vê assim cumprido seu papel. O corvo atrevido, insolente e esfomeado, surpreendido ensaia fuga improvisada, pairando breve por sobre os penachos agitados pela brisa pachorrenta das tardes de verão. Todavia o vôo alçado se mostra, se desabriga, se destaca contra o azul impecável do céu que

lhe faz tela de fundo. Alvo fácil e indefeso, é colhido por uma descarga de chumbo grosso. Mortalmente ferido despenca rumo ao solo próximo. Agonizante, nos momentos finais de lucidez, podia jurar se ainda fosse capaz, que ouviu a voz fanhosa do espantalho resmungando por entre os dentes de pano, como quem conversa com seus próprios botões... “A verdade não é de ninguém, não é não, quando muito o que se tem é só um pedacinho. É o que se tem, é sim. Tenho os meus dedos de palha, o meu paletó xadrez. Estou aqui para espantar vocês".

Ontem foi riacho escorrendo pela paisagem multicolorida. Ontem foi campo de trigo na tarde de fecundações. Ontem foi noite esparramada a luzir reflexos por caminhos de estrelas. Hoje, a vida fechando cortinas e uma saudade concentrada no trabalho artesanal de gotas de lágrimas.

Escultura: Crivellé

1998 - Via Palavra 4 32 autores 1.000 exemplares Caminho Editorial

Mãe extremosa, gloriosa, Protetora, neutra, professora... Mulher, acolhedora, redentora. Servindo sempre aos seus, Não esmorece jamais... Ante as dores é a força, Ante as alegrias, o arauto. Mulher símbolo de amor, Servidão desejada, esperada, À família e aos amigos, Serve com carinho Abrange e abraça em oração, Levando sempre seu afeto, Encerrando em seu círculo, Toda a glória da mulher, Mãe, filha, esposa, coração!... Mulher é bendita... Sol da vida Sal da Terra Lua em noite de paz Gotícula refrescante Do sereno e da chuva Que leva luz a tudo que faz!!!


O vento forte passa zunindo pelas tabuinhas da veneziana. Parece nervoso. Deitado na cama, coberto até o pescoço, ouço, quietinho, todos os ruídos da noite. Tenho a sensação de que o mundo está desabando; mas aqui eu me sinto protegido da fúria desse vendaval, que parece querer invadir a minha casa. Posso ouvir o ruidoso farfalhar de folhas e galhos das árvores no quintal, o zumbido infernal de coisas arrastadas pelo meio da rua. Vez ou outra, o latido vindo de um cão do outro lado do bairro. É só o que eu ouço na solidão da noite. Mamãe e papai dormem. Meu irmão, no mesmo quarto que eu, também. Tudo bem com eles, indiferentes à cólera desse vento. Ajeito a coberta e tento dormir. Nada. Até que gosto de ouvir o barulhinho do vento uivando lá fora, escoando pelas frestas do telhado, tornando a noite mais fresquinha. Só espero que não provoque estragos na cidade como da última vez, que destelhou a casa de dona Candinha. Meu pai até ajudou-a a comprar telhas novas. Vozes parecem vir à minha janela. Desconhecidas, que eu não consigo distingüi-las. Prendo a respiração e espero. E se forem ao quartinho, pegam a minha bicicleta, roubam o meu carrinho de rolimãs, hein? Embora esteja com as bolinhas de aço secas, por falta de graxa, eu não vou gostar. Percebo que começam a bater uns pingos na janela. Finos e esparsos. Vai chover. Minha mãe costuma dizer ela quase sempre acerta - que depois do vento forte vem chuva. E das brabas. O vento sopra, agora ainda mais arrogante. Noto então que já não há mais vozes. Ouço apenas os gemidos da minha cachorra Tiquinha. Pô, como é que fui me esquecer dela! Pulo da cama, procuro pelos chinelos, ponho uma camisa de mangas compridas e vou pro quintal. Assim que abro a porta sou recebido por uma golfada de vento e um jato de água cujos pingos espetam-me o rosto como se fossem finíssimas agulhinhas. Por pouco não sou jogado para trás. Ganho o quintal, desviando das poças d'água; galhos dos pés de manga e de amora arranham-me a cara. Chamo pela minha cadelinha. Nada. Impetuoso e constante, o vento parece disposto a me impedir. Uma lata vazia, dessas de óleo de vinte litros, voa em minha direção e bate-me na testa. Caio. Assusto-me

mais com o barulho do que com a pancada da lata. Olho debaixo da mesa, do armário, por entre os brinquedos, a máquina de costura de mamãe e um monte de coisas que guarda no quartinho. Neca de Tiquinha. Começo a me desesperar quando sinto um chumaço macio de pêlos a roçar-me a perna. Tiquinha!!! “Que bom te ver, menina!” Parece-me que também ela está feliz por me encontrar. Acomodo-a num canto forrado com panos e jornais e volto para dentro de casa, igual a um pintinho molhado. Enxugo-me, troco de roupa e caio na cama, pensando, como estarão dona Candinha e seu Nicanor, com suas galinhas e cavalos. Lembro-me dos meninos do seu Vanderlei, amigo de meu pai, que mora a trinta metros da linha de trem, numa casinha de três cômodos, paredes rachadas, quintal de terra batida (agora deve ser só lama). O Jurandir, de quatro anos, magrinho, nariz escorrendo, que vai à escola descalço... (Um dia minha mãe separou uns tênis, umas roupas, minhas e do meu irmão, e deu pra ele. Ah!, eu fiz questão de dar um estojo pra lápis novinho, presente do meu pai). Depois tem a Janice, mais velha, treze anos, irmã do Jurandir; cabelos curtos, olhos miudinhos e pintinhas no rosto. Minha mãe diz sardas. Pintinha, sardas. Mamãe fala que Janice é meiga e educada. Acho minha mãe inteligente. Ela diz cada palavra bonita. Meiga, por exemplo, é uma delas. Ela acha a Janice bonita. Eu também. Só que eu não falo isso pra ninguém. É um segredo meu. Só meu. Gosto de ficar junto de Janice, de conversar com Janice. Gosto do jeito que me olha e diz coisas que às vezes eu não compreendo muito bem. Às vezes fico com vergonha dela. Principalmente quando Janice põe a mão no meu rosto e fala perto dos meus ouvidos. Outras, em frente de casa, quando a gente brinca no escuro, os olhinhos dela brilham como os de um gato. Ah, Janice, quando eu ficar mais moço... Um relâmpago, seguido de um estrondo, de repente ilumina o quarto como se fosse uma faísca gigante. Começo a ficar com medo. Penso em chamar papai. Mas ele pode não gostar e me manda de volta pra cama. Fico quieto e tento dormir. Quero saber como estão dona Candinha, seu Vanderlei, a Janice, o Jurandir e o seu Nicanor. Devem estar passando uns maus bocados como diz meu pai com essa chuva que Deus manda, e esse vento que não pára. Ouço vozes. Parecem nervosas, chorosas, vindas


de longe, seguidas de gritos. Choro de criança que o vento abafa, permitindo que apenas um fiozinho de voz chegue aos meus ouvidos. Chamo o meu irmão Zé Carlos. A gente abre um pedacinho da janela e fica olhando a chuva brilhante que cai lá fora como se minúsculas facas despencassem lá de cima. Uma sirene, acho que dos Bombeiros, toca lá longe. Depois, outros carros, outras sirenes, barulhos diferentes. Uma confusão de dar medo. A rua em frente da minha casa parece um rio, que vai levando tudo que encontra pelo caminho: latões de lixo, galhos e até um velho carrinho de bebê. E tudo vai rolando lá pra baixo, onde as casas ficam à beira do rio e da linha de trem. Voltamos pra cama e começamos a rezar. Por nós, por Janice, pelo seu Vaderlei, dona Candinha e seu Nicanor. A princípio, de maneira fervorosa, compenetrados; depois, as palavras e as idéias se misturam, se confundem na cabeça. A confusão é tanta que já nem sei quando (e como) termina o meu Pai Nosso e começa a Ave Maria ou a Salve Rainha. Às vezes, as frases de uma prece se misturam com as de outra; o santo de uma oração

Perdi a menina dos olhos Por entre os abrolhos, Onde fui te buscar. Perdi os sonhos da menina, Que muito traquina, Vivia a reinar. Perdi o encanto da vida, Que durante a lida, Esqueci de viver. Perdi teu abraço apertado, Teu beijo molhado, Do entardecer. Perdi teu olhar de improviso, Sem qualquer aviso, Deixei de avistar. Perdi o teu corpo moreno, Carinho sereno Pra me apaziguar. Perdi a ventura suprema, Da vida amena, Que pude encontrar. Perdi a luz que ilumina O olhar da menina, Que era tão meu!

de repente salta para outra sem pedir licença. As pálpebras quase se fecham. Insisto: “Pai nosso que estais no céu... senhor é convosco, bendito é o fruto do vosso... venha a nós o vosso reino seja... rogai por nós... pecadores... o pão nosso de cada nos dai hoje... nossa morte... Mãe de Deus... rogai por... amém”. O amém não vem agora, penso. Começo tudo outra vez: “Pai nosso que... cheia de graça... bendita sois vós entre as... Vejo mulheres, de rosto coberto, diante de u'a mesa cheinha de frutas deliciosas. Ao lado, outra mesa repleta de pão e vinho. Há homens barbudos, roupas longas e largas, comendo e bebendo, rindo e falando alto. Entre eles está um homem, também de barba e cabelos longos, que se destaca pela serenidade de seus gestos. Seus olhos, azuis quase transparentes, são ternos e doces, e transmitem uma paz e uma tranqüilidade que eu nunca vira antes. Depois, o barulhinho da chuva e do vento aos poucos vai sumindo, sumindo até que tudo fique no mais absoluto silêncio.

2000 - Via Palavra5 33 autores 1.500 exemplares Caminho Editorial

Beijos, abraços calorosos, apertados, querência. Delirante mente, perturbada mente, demência. Cobiça, olho-gordo, crueldade, malevolência. Arma em punho, resistência, tiro à queima roupa, violência. Agitação, nervosismo, estresse, gastrite, efervescência. Puxada de tapete, tombo, cara no chão, intumescência. Concorrência, deslealdade, indecência. Química, arrepio, tesão, corpo em evidência. Preconceito, desrespeito, sinal de negligência. Amizade, três patetas, sucesso, permanência. Descomprometimento, evasão, ponto de reticência... Será que consegui passar a essência ou está faltando coerência?


Americana Ferreira Koester

2002 - Via Palavra 6 42 autores 1.200 exemplares Caminho Editorial

Lá vai ele. O mundo é o seu caminho. Quando a fome torniqueta as suas entranhas, bate palmas nas casas e pede. Qualquer coisa serve. E quantos lhe dão apenas restos. Ou pão duro e velho. Ele recebe, enfia no bolso e senta-se em qualquer chão para roer. A molecada fica por perto, caçoando daquele farrapo humano. Ele não se importa. Nem mesmo importa o fustigar do vento que lhe devassa a pele, penetrando a surrada camisa e a calça rota. Incomoda-o a dor dos pés que conhecem a aspereza de todos os caminhos, pelos buracos da sola dos sapatos. E muito mais o rasgo que tem na alma faz tantos anos, por onde entra o enregelante frio da humanidade. Qualquer dia o seu coração se partirá em dois e finalmente ele tombará. Quem sabe então, aqueles que lhe atiraram um naco de pão, sem o prazer da solidariedade, atirarão sobre o seu corpo um punhado de terra com a volúpia do nojo. Quem sabe a sua alma, que andou pelo mundo de déu em déu, dentro de um corpo carcomido pela dor, ganhe um pedacinho do céu com sabor de pão quente lambuzado de margarina. Quem sabe.

Para que escolher um mundo artístico, Num país que não cresceu? Mas se quizer um picadeiro, Cada qual escolha o seu. Palhaços têm muito campo, nesse mundo de Deus, Na terra brasileira, O artista já morreu. O artista morre cedo, Os estribilhos sempre iguais, As fantasias são as mesmas, No país do carnaval. Máscaras certas, Em caras erradas, máscaras erradas em caras certas, Curtimos a ciranda da vida, em torturantes gargalhadas. O carnaval passou, palhaços repetem as canções, Seguem ricos... seguem pobres, repetindo os mesmos refrões. Todos desesperados, querem as mágoas afugentar, Mas tomem muito cuidado, não deixem a coisa esquentar. Quando a folia terminar, e a quimera se esconder, Não haverá mais lugar, para o palhaço soluçar, Toda a alegria se dispersa, como a fumaça, Deixando nos corações, recordações bem doridas. Assim... amigos, caminha a humanidade, Triste, Fraca e Desnutrida.

2004 - Via Palavra 7 30 autores 1.000 exemplares Caminho Editorial


Estávamos quase no final de uma excursão ao Egito. Já havíamos visitado o museu do Cairo, onde múmias não faziam falta, cruzado de navio o rio Nilo, passeado pelas ruínas de Karnak, apreciado a represa de Assuã e seus templos salvos da água. No dia seguinte iríamos à cidade histórica de Alexandria. Naquele fatídico dia, constava na programação visitas às pirâmides e à esfinge pela manhã, com almoço incluído. À noite, voltaríamos ao local para assistir ao maravilhoso espetáculo de luz e som. Cada um munido de um litro de água mineral, ato que se repetia três vezes ao dia, para suportar o calor de mais de quarenta graus, chegamos acompanhados pelo guia ao local do nosso destino. Primeiramente, fomos dar umas voltinhas montados em camelos, para as tradicionais fotos. Como turista é bobo! A visão externa das pirâmides é de impressionar. Como o povo, cuja inteligência construiu há mais de 4.000 anos aquelas portentosas obras, pode se deteriorar tanto, através dos séculos? “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento!” Nunca vi um ditado cair tão bem quanto naquela visita. Depois de se extasiar com a visão externa daquelas monumentais obras, o seu interior, onde nada existe para se ver, não vale o sacrifício de se subir, agachados, quase uma centena de degraus de madeira, inalando o tempo todo um terrível cheiro de mofo, apenas para receber informações de que aqui havia a tumba do faraó tal com sua múmia, ali a múmia do faraó tal, lá a tumba com a múmia do faraó fulano, mais além, do sicrano e assim por diante. Além dos próprios egípcios, os franceses e os ingleses trataram de saquear tudo. Quem quiser complementar a visita que vá ou Museu do Cairo, a Londres ou o Museu do Louvre, em Paris. Depois de suportar o insuportável cheiro de mofo dentro das pirâmides e de visitar a esfinge, fomos levados, por nosso guia, para almoçar num restaurante das proximidades, fonte originária do meu calvário. Éramos dois casais. Como entrada, foram servidos quatro caranguejos ensopados, que meus acompanhantes se recusaram a comer. Bom de boca, sempre com os olhos maiores do que a barriga, cuidei de suprir a rejeição dos demais. “Só para agradar ao garçom”, comi os quatro. Estavam deliciosos. Em seguida vieram os demais pratos: saladas, carnes, massas e, para encerrar, a

sobremesa. Topei tudo: o passeio tinha sido cansativo e estava faminto. Após pequeno repouso no hotel, à noite, na hora aprazada, nos instalamos nas arquibancadas para assistir ao espetáculo de luz e som. Quinze minutos após seu início, comecei a transpirar, com suores frios e ânsias de vômitos. Corri para o restaurante anexo, perguntando pelo banheiro. Indicaram-me uma escada, a qual desci correndo seus trinta degraus, que terminavam num grande salão de piso branco, com vários boxes e duas pias bem ao fundo. Não deu tempo de alcançá-las. Fui “destripando o mico”, “lavando” aquele chão branco, desde o sopé da escada até a pia, para espanto de um menino de quatorze anos, encarregado da limpeza. Sentindo-me aliviado, gratifiquei o menino para cuidar da limpeza e voltei para o espetáculo. Não se passaram dez minutos e o suor frio com as ânsias de vômitos voltaram violentos, mas agora acompanhados de fortes dores abdominais. Correria para o banheiro. O menino, que ainda limpava o piso, já prevenido, saiu correndo da minha frente. Desta vez deu tempo de chegar à pia, mas a barriga já reclamava por urgentes providências. Pedi um tempo à parte de cima e tratei de cuidar da parte de baixo. Foi só o tempo de me sentar. Não sei porque, veiome a associação com uma cascata correndo água abaixo. E que aguaceira tinha a cascata! Novamente aliviado, ao retornar, encontrei meus companheiros no topo da escadaria. O espetáculo continuava mas, por unanimidade, resolvemos chamar o guia com o carro para nos levar, com urgência, de volta ao hotel, para evitar novo espetáculo no banheiro. Instalei-me no banco da frente e avisei ao motorista, quando eu gritar “Pare”!, você pára de imediato. Tínhamos ainda pela frente meia hora de viagem até o Hilton Hotel. Quinze minutos passados voltaram os suores, as ânsias e as cólicas abdominais. “Pare”! O motorista parou... por cúmulo da sorte, na porta de um hospital, onde entrei em disparada perguntando à recepcionista pelo banheiro mais próximo. A coitada ainda indagou: “Quer que eu chame o médico de plantão?” Quase berrando, respondi: “Não, quero um banheiro!”


Apontou-me uma porta alguns passos adiante. Que felicidade! Entrei no menor, mas para mim, o mais funcional banheiro do mundo, com a pia quase em cima do vaso sanitário. Na medida certa: desta vez pude atender tanto a parte de cima quanto a de baixo, com as duas cascatas funcionando ao mesmo tempo. Naquele momento pensei no português que elegeu a melhor coisa do mundo. Dei-lhe razão. Mais uma vez aliviado, mas temendo novos temporais com trovoadas e aguaceiros, pedi ao motorista que corresse para o hotel. Ao chegar ao saguão, senti que recomeçaram as cólicas e os suores. Estava hospedado no décimo andar. Corremos para o elevador, onde já se encontravam dois americanos (eles estão em todo lugar). Parece incrível, mas o elevador enguiçou e parou entre o primeiro e o segundo andar. Não subia, nem descia. Os americanos, qual hienas, dando risadas. Eu, me contorcendo e respirando fundo para enganar as ânsias de vômitos. Os americanos dando risadas. Foram dois a três minutos que me pareceram séculos. Os americanos dando risadas. Quando já havia me decidido a lançar sobre eles todos os produtos causadores de minhas ânsias, ótimos para transformarem risos em choros, eis que a porta do elevador se abre no segundo andar. Dentro daquele dia de azar, havia espaços para lampejos de sorte. O primeiro deles foi no hospital, agora, bem em frente ao elevador, uma porta onde se lia: W.C. Naquele banheiro do segundo andar, nova “sessão” dupla, atingindo os andares superior e inferior do meu corpo, agora, um de cada vez. Finalmente, consegui chegar ao meu apartamento, onde, da meia noite às seis da manhã, viajei vários quilômetros, no interminável vai e vem da cama ao banheiro e do banheiro à cama. Nunca me senti tão mal na minha vida. Só não me internei naquele hospital egípcio porque fiquei com medo de que me transformassem numa múmia. Imaginem chegar em casa embalsamado! O pior de tudo foi agüentar a mulher dizer, a cada meia hora: “Quem mandou comer os caranguejos?” Comi apenas quatro, mas devo ter expelido algumas dúzias. Amaldiçoei todos os caranguejos do mundo. Não é à-toa que esse bicho vive na lama, atolado. Mas não precisava me deixar também todo atolado...

Na solidão da noite A lua como testemunha. Saudade parecendo açoite E o poeta uma canção compunha. Rabiscava apenas os primeiros versos Quando um brilho intenso adentrou seu quarto Era a lua que num fraternal gesto Lhe ofertava o seu abraço. Pediu ao poeta um instante de silêncio E sussurrando começou a lhe contar Uma história de amor, enfim, um segredo Para a sua canção embalar. Essa história começou Há muito tempo, lá longe, Eu era sozinha e triste Quando o sol surgiu lá de trás. Por ele me apaixonei Num instante, sem trégua Seus raios me aqueceram Seu calor me ofertou, como prova de amor. Tudo era felicidade em minha vida Até que surgiu um problema: Toda vez que chegava perto dele O calor de seus abraços me derretia. Fiquei desconsolada, de nada eu queria saber Então ele me disse assim: Todas as tardes quando eu me esconder, Você toma conta do céu para mim. Não resisti a esta proposta, Me rendi, não disse mais nada! E todas as noites quando eu apareço O sol, detrás do monte, me dá uma piscada. Com este galanteio, fico toda enluarada Vai ver que é por isso que à noite, Eu sou muito admirada, e até o poeta da madrugada faz de mim, sua amante amada.


“O homem atrás do bigode é sério, simples e forte”. (Carlos Drummond de Andrade, in Poema de Sete Faces).

Entre a literatura nacional e a estrangeira, Raymundo não vacila: fica com as duas. É que, segundo diz, tanto uma quanto a outra tem grandes romances e excelentes autores. Senão, vejamos: Stefan Zweig, Jorge Amado, José Mauro de Vasconcelos. Certamente citaria também Machado de Assis, o Bruxo de Cosme Velho, sem dúvida o maior escritor brasileiro. (A propósito de Zweig, é preciso lembrar que morou no Brasil. Mais precisamente em Petrópolis, Estado do Rio. Ocorre que, ainda não se sabe o motivo, Zweig e sua esposa Lotte fizeram um pacto até hoje cercado de muito mistério: ambos se suicidaram após o carnaval de 1942, ao qual o casal havia assistido). Bem, o nosso Raymundo, Soares Barros, objeto de nossa conversa, contador por formação e bem sucedido empresário, é casado com a poetisa Catharina Fortunato de Barros, a dona Nelinha. Com ela pôs no mundo três filhos: Tânia, Marcos e Kátia, que por sua vez lhes deram sete netos. Adultos e formados. Raymundo é um homem simples e de hábitos igualmente modestos: além de apreciar uma boa leitura (já leu quase que todos os clássicos), o que mais gosta é, primeiro: estar com a família, quando participa dos almoços domingueiros, regados a um bom papo, ocasião em que reúne todo o seu pessoal; e segundo, passar as férias numa cidade praiana. Raymundo confessa que desde criança é apaixonado por animais, principalmente cães e cavalos. Aposentado há anos, é um homem que não sabe o que é ficar parado. Quer dizer, a essa altura do campeonato, é lógico que não vai matar-se de trabalhar, passar horas inteiras atrás de uma escrivaninha dando ordens, esquentando a cabeça com questões administrativas e

financeiras. Bom, nem por isso deixa de, diariamente, dar um pulo na empresa para ver como é que as coisas andam. “Posso lhe adiantar que hoje desfruto da tranqüilidade de morar numa boa e confortável casa na chácara, localizada nos arredores da cidade”, diz o empresário. Seu passatempo favorito, no entanto, é a leitura de livros e jornais. Para justificar essa preferência, Raymundo possui em sua residência uma biblioteca com mais de 1.500 livros. Ali o empresário é capaz de encontrar de tudo um pouco, das enciclopédias mais importantes do mundo até às mais variadas coleções de obras literárias. Não é difícil achar na sua estante a coleção completa da Biblioteca Folha, (recente promoção do jornal Folha de S. Paulo), que teve início com o polêmico Lolita, de Vladmir Nabokov. E mais, tem todos os exemplares da Seleções Reader Digest. “Todos lidos”, garante. Raymundo admite, contudo, que não tem o hábito de escrever. “Isso eu deixo a cargo da Nelinha, que o faz muito bem”. Hoje, como diz, chega a ler vários livros por mês. E não faz conta se a obra é de contos, um romance ou uma novela. Uma vez, enquanto eu olhava, curioso, a estante de livros da casa, perguntei ao Raymundo qual (ou quais) o escritor, brasileiro ou não, que mais admira. Talvez por querer manter a linhagem do homem elegante que é, não me citou nenhum nome em particular. Olhos vivos por detrás dos óculos de aros finos, simplesmente me responde, como se refletisse: “Olha, são tantos, viu”. Não insisto. Embora não escreva, Raymundo revela que aprecia muito as reuniões dos escritores que compõem o Espaço Literário “Nelly Rocha Galassi”. E não esconde o orgulho de ver a esposa dona Nelinha pertencer a um grupo de pessoas com tão nobres propósitos culturais. (A. R. F.)


Há um consenso geral: cada ser humano tem a sua própria sensibilidade, as suas inquietudes, num torvelinho de dúvidas existenciais e profunda necessidade de conhecer e ser reconhecido. Dentro de tal contexto, o ato de escrever corresponde sempre à busca de interlocutores que não se têm na realidade, o desejo de falar e ser ouvido, a necessidade de compartilhar idéias e pontos de vista, narrar a percepção dos movimentos do mundo, publicar técnicas e ideologias, verbalizar a fé ou as descrenças, os afetos e as frustrações. Ora, o senso comum nos aponta uma realidade entristecedora: o homem contemporâneo está cada vez mais só, mais isolado, desconectado de seu próximo, num paradoxal encontro com a solidão, sem que seja essa a sua verdadeira escolha, pois sua natureza é gregária. Assim, quisera estar sempre articulado com os outros. Ante tal impossibilidade, busca alternativas: freqüenta um analista para ouvi-lo, dialoga com o trabalho compulsivo, refugia-se nos encontros virtuais, paga o cachê do acompanhante profissional ou então, alguns - que são cada vez mais numerosos - recorrem às folhas em branco, aos “ouvidos” do papel: A4, A5, carta, executivo, legal, caderno antigo, documento em branco do Word... Qualquer coisa serve. E escrevem. E mais: ao escrever, se escrevem. Em meio ao turbilhão de sentimentos e pensamentos transformados em palavras, frases e parágrafos, ou versos e estrofes, surgem confissões em forma de crônicas, contos, romances, poemas, ensaios, biografias. Enfim, nasce a matériaprima de um livro.

Voltemos, assim, à segunda indagação da questão inicial: por que publicar um livro? Ora, bem sabemos que o universo editorial publica muito mais obras que a capacidade do mercado mundial tem de absorver tais produtos culturais; que aos países pobres, ou em desenvolvimento, a inclusão cultural não é ainda uma realidade tangível e que grande parte das pessoas não cultiva o importantíssimo hábito de ler. Então, por que publicar livros? Por algumas simples e definitivas razões. Na frase de Bernard Shaw, muito citada por Clarice Lispector, "A vida é muito curta pra ser pequena", a essência do que nos atemoriza. Quase todos tememos a fugacidade da vida. Afinal, como lidar com o que não conhecemos, em nossas tantas limitações? E buscamos refúgio na idéia de imortalidade, de permanência por meio de coisas palpáveis. Então, “fazemos e criamos filhos, plantamos árvores e escrevemos livros”. Assim, fazer o registro da nossa vida pequena e efêmera, antes que essa se acabe, nos garante a perpetuidade. Por todas estas razões e muitas outras mais que ficam implícitas nesta dialética, as pessoas necessitam escrever e publicar seus sonhos, suas confissões e suas necessidades intrínsecas. E o livro, cofre de palavras e idéias, está sempre ao alcance dos olhos, das mãos e das mentes humanas, cumprindo sua função permanente de diálogo universal entre os homens.


Espaço da Palavra  

Publicação do grupo Espço Literário Nelly Rocha Galassi

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