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Autor Carlos Melo Sereno

Textos e Poemas Carlos Melo Sereno

Conceção Gráfica e Fotos Hellag (Helena Lagartinho)

Contracapa Maria do Carmo Alves (aguarela editada para p&b)

Janeiro 2015 © Carlos Melo Sereno


Quando a sensibilidade, a criatividade, a harmonia e a musicalidade se encontram, explode poesia nas palavras, nas cores, nas imagens e nos sons. Reflexos falseados da vida do autor, talvez, mas não menos falsos do que a sua experiência material. Assim, escrevendo ou retratando pensamentos e sentimentos que de outro modo não seriam expressos, pois que abstratos e ausentes do espírito, o autor vai deixando, na sua obra, um pouco da sua essência, esta sim, o seu melhor e mais belo poema Maria do Carmo Machado


POESIA MATERNAL Não me lembro dos poemas que recitavas antes de eu adormecer e que tinham o condão de me acalmar e induzir o sono profundo de criança! Sonhava muitas vezes com eles e não poucas acordava a recitar um último verso, que se fixara no subconsciente embotado pelo sono! Acreditei que a vida era um soneto eterno, onde todos cantariam o amor, a amizade, a solidariedade e assumiam a partilha de emoções! Cresci, um dia partiste sem aviso e a realidade chegou rapidamente com a missão de destruir o mais rapidamente possível antologia poética que herdara e guardava religiosamente! Quase que era o fim mas resolvi continuar a lutar, á espera que um dia, á beira do leito na hora da partida, me voltes a recitar as estrofes da vida! Até lá quero dormir! 6


FILOSOFIA BARATA A vida é uma reta! Ou seja, a distancia mais curta entre dois pontos! A partida e a chegada! Á chegada há uma curva que sobe, ponto de encontro de emoções vividas, ponto de partida de nova reta desconhecida e sem chegada! Paralelamente, um circuito fechado, cheio de altos e baixos que tem chegada, mas já não tem partida! CONTRASTES!!!

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HISTÓRIA VERDADEIRA Guardei as frias lágrimas, Que te escorriam na face E a dor que trazias no peito! Senti a angústia, o medo, O desespero e a impotência, Que te puseram sem jeito, Quando morreu a esperança Que havias alimentado Com infinita paciência, De prolongar a vida E o amor que tinhas dado, Aquela pobre criança, Que agora está no além E que ainda há muito pouco, Eu ouvi chamar-te Mãe!

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LÁGRIMAS

UM ADEUS TRISTE

As lágrimas que te correm na face, Vêm do fundo da alma E são testemunho de vida! Deixa que se diluam no tempo, Que saciem o pensamento E se evaporem na brisa da tarde calma... É adeus mas não o fim! A vida não é chama eterna, Mas a morte não chora assim!

Estou triste! Já não ouço os pardais, As árvores estão nuas, Os dias são mais curtos, As noites mais compridas! No céu há nuvens pesadas, As estrelas andam escondidas, As pessoas fogem das ruas! Estou cada vez mais triste! Os poetas estão meios mortos, As ninfas andam aos ais, Definham também os artistas! Querem matar o teatro, Acabar com a poesia, Calar a orquestra da vida, Anular a criatividade, Como há muito não se via! Desiludam-se os abutres, Que não vão ter bacanal, Pois mesmo muito ferida, A cultura é imortal!

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BALADA DA DESPEDIDA

Fui direito ao Penêdo, Que chamaram da Saudade, Vestido de capa e batina E de guitarra na mão, Esquecido da minha idade! A noite estava linda, De luar e de Verão, Quando comecei a cantar, Sentado no banco de pedra, Um poema que era meu, Mas dedicado a Coimbra E á velha deusa Fedra, A tal que traiu Tseu! Juntaram-se musas e deusas E foram chegando estudantes, De capas negras traçadas! Cantámos todos como dantes, Cantávamos ás namoradas, Na plenitude da vida! E quando o dia nasceu, Já de gargantas cansadas, Acabou tudo a cantar O hino que não morreu, A balada da despedida!

SÓ, Como poema inacabado, Á espera de retoque, Que teima em tardar! SÓ, Como barco perdido, Sem vela e de leme partido, Á deriva no meio do mar! SÓ, Como cachorro abandonado, Em rua escura, Triste, saudoso, magoado, Sem sequer poder ladrar! SÓ, Como rosa velha, Em jardim de inverno, De pétala amarela, pardacenta, Que vai morrer a qualquer momento! SÓ, Como pássaro caído do ninho, Piando até á exaustão, Senhor da sorte que o espera, Se ninguém lhe deitar a mão! SÓ, Porque nasci assim, Com sorte e destino traçado, Velho, caído do ninho, Á deriva e abandonado, Num mundo que não é meu, Poema autêntico, mas inacabado, Nascido da sorte que alguém me deu!

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MENSAGEM SECRETA Está uma mensagem secreta, Ainda bem enrolada, Numa garrafa verde, Que acaba de dar á costa! De origem desconhecida, Resistiu aos oceanos E á fúria da tempestade, Ao longo de muitos anos! Quero fazer uma aposta, Como lhe conheço a verdade, Antes de ser violada! Trás uma jura de amor, De amor de perdição, Que há quase meio século, Alguém escreveu á mão, Em poema sedutor!

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MINI POEMA

REVOLTA CONTIDA

Tenho as portas da alma, Abertas de par em par, Para que entre a luz De um sol-poente Em tarde calma, Carícia suave do verbo amar, Ao alcance de toda a gente!

De braços no ar, Afinem gargantas, Gritem revolta, Distribuam abraços, Carinho e ternura, No cimo do monte, No meio da rua, Á porta de casa! Toquem o sino Da velha aldeia, Saúdem a Lua Que está de volta E regressou em brasa! Mas deixem ouvir, No intervalo do vento E bem perto da fonte, O som leve E a terna melodia, Do velho violino, Em eterno lamento E sublime magia! Que se calem os lobos, Os cães, os gatos, os ratos, Os mochos, as corujas E os grilos do campo, Para que a noite Abra o manto E deixe nascer o dia!

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PARA TI Deixa que os meus dedos Percorram os teus lábios sensuais, Descubram cascatas escondidas, Fotografem os teus segredos E toquem a pele de veludo, Em sensação crescente, De rodopio profundo, Sem medos, sem gritos nem ais! Vivência de horas perdidas Á beira do cais de embarque, Naquele mar de ternura! Azimute de quem parte, Na esperança, quase certeza, Do direito ao nosso mundo!

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ADOLESCENTES Ficava dias perdidos, Debruçado na janela, No alto do muro branco, Que eu chamava de vergonha, Para te ver atrás dos vidros, Calma, segura e bela, Senhora do teu encanto! E se te encontrava nas ruas, Cruzávamos olhares castos, De olhos fixos no chão, Calando mil sentimentos, Que coravam as faces nuas, Carregadas de timidez! Antes que fique de rastos, Quero voltar aos bons tempos, Para te pegar na mão, E olhar o azul dos olhos, Que se mantêm bem vivos, Numa face envelhecida. Testemunha dos dias perdidos! Prometo, é só mais uma vez!

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VIVER

SOLIDÃO

Viver, É rever o passado, Inventar o presente, Acautelar o futuro, Afastar a dôr, Matar a solidão E respirar o ar puro, Que nos refresca a mente! É contar estrelas, Saudar o sol E a Lua cheia Das noites longas, Andar na areia, Á beira do mar, Chapinhando nas ondas! É deitar no relvado, Esquecer os minutos, Ouvir o canto das aves, O sussurro das folhas E o grito dos putos! Viver, É estar atento, Amar sem entraves E perceber á partida, Que no fim da linha, Que dá volta ao mundo, Há o refúgio do vento, Num túnel sem fundo, Onde vive a morte E termina a vida!

Solidão, É grito no deserto, Que se perde no horizonte, Sem eco nem retorno. É estar no fim do mundo, Sem alguém que esteja perto, É monólogo permanente, Ao falar para ninguém, É ser ave sem voar, Barco que vai ao fundo, É querer ir á outra margem, Sem poder usar a ponte! Solidão, É o fim do caminho, Que termina no abismo E sem direito a regresso! É corrida em contra-mão, Loucura que não melhora, Um abraço sem carinho, Garganta que tem um nó, Temporal que não vai embora! Será que já estou só?

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ILUSÕES DE MÃE

PREMONIÇÃO

Sei que estás longe, Mas sinto-te aqui, Mesmo ao pé de mim, Com a ternura de sempre, De cuidados redobrados, Pensando que não cresci E que ainda não sou gente! Continuo o teu menino, De gestos atrapalhados E sorriso inocente, A quem contas uma história, Ou inventas a cantiga Que me põe de olhos fechados E se grava na memória, Para cantar toda a vida! Vês caracóis dourados, Onde só há cabelos brancos, Testemunhos de velhice E da vivência já longa, Com limites definidos, Por Alguém que bem conheces! POR TI, Quero continuar pequeno, Vivo, terno e traquina! Que ninguém diga a idade, Á minha saudosa Mãe. No dia em que partir, Ao deixar de ser terreno, Será ao virar da esquina, Que malandro e a sorrir, Contarei toda a verdade!

Estava a chorar, A pobre Mãe, Enquanto o caldo fervia, Numa panela de ferro, Em lume brando de lareira! O filho chorava também E toda a gente sabia, Que era de fome, Sono e frio, Que o pobrezito gemia! O Pai que chegou cansado, Exausto e impaciente, Resolveu dar um berro E ameaçou levantar a mão! Foi-se apagando a fogueira E arrefecendo o granito, Enquanto alguém escrevia, No braseiro ainda quente, Que em casa onde há fome, Alguns choram e todos ralham E ao contrário do que dizem, Talvez alguém tenha razão!

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MORTE Á GUERRA E Á FOME

Olhos lindos Mas muito tristes, De pestanas caídas E lágrimas secas, Face sem expressão, De sorriso gasto E ao canto do lábio, Uma migalha de pão! Ténue gemido Que ninguém ouviu, Mosca teimosa, Entrando na boca Esquecida na mama Que há muito faliu, No corpo franzino Da Mãe quase louca! Lá ao fundo, Uma rosa de porcelana Diz adeus ao menino, Que se despede do mundo, Sem lugar na terra, Sem direito á vida, Sem qualquer futuro, Nem sequer presente, Nascido para morrer E ser vítima inocente, Da maldita guerra!

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PRIMEIRAS CHUVAS Cai a primeira chuva, De um Outono prometido, Que me ensinaram a amar! Estação da minha vida, Transição do já vivido, Trampolim para o que resta, Antes que chegue a partida! Não param de cair folhas, Sopradas por vento forte, Ainda com gotas da água, Que as lavou antes da morte ! Gemem os ramos feridos, Abanam os grossos troncos, Mas vão-se aguentando as raízes, Na estação das aguarelas E dos tons mornos, sedutores, Que nos tornam mais felizes, Porque nos tocam a alma E renovam velhos amores!

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CHUVA DE PÉTALAS Hoje chovem Pétalas aos milhares, Das rosas que plantei, Quando vivia feliz No jardim do Paraíso! Descem alegres aos pares, Em bailado ensaiado, Abrem um largo sorriso, Ao ouvir o canto dos anjos, Em solene despedida, Num longo e sentido adeus! Escurecem o horizonte. Envergonham o sol nascente, Saúdam a lua que dorme E num último sopro de vida, Perfumam as fragas do monte! Aterram na giesta em flor E no alecrim também presente. Pintam de azul a alfazema E de roxo o rosmaninho! Morrem calmas e sem dor No cimo do montanha mais alta, Descansam em paz, finalmente E dão sentido ao meu poema!

ECLIPSE TOTAL

De repente, Os pássaros voam em círculos, Os cães não deixam de uivar As cabras já não saltam, Os gatos não sabem miar, Os morcegos voam de dia, O galo já não canta E há eclipse do Sol! O mundo não vai acabar, Como pensou toda a gente, Mas no céu houve milagre! Apagaram-se as estrelas, Chocaram os planetas, Morreram as constelações! Restaram a Terra e a Lua Em namoro permanente E eu na minha rua, A viver de recordações!

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ENCONTRO SECRETO

DESFOLHADA

Era miúdo inocente, Quando te esperava Á esquina da rua, Observando os teus passos Além do porte imponente! Foste promovida a Raínha, Em sonho de adolescente, Num reino desconhecido, Onde o trono era teu Mas tu eras só minha! Passavas com ar altivo, Que não deixava reparar No garoto que sofria, Convencido que te amava, Esperando o gesto meigo Que pudesse acabar, Com a mágoa que carpia! Um dia, Falhaste o encontro, Sem que nada fosse dito, Nem sequer teres avisado Que a partir daquela data, Decidiras ir embora, Sem destino definido, Nem regresso programado! Dizem que o amor passa E a saudade não mata, Mas eu morri naquela hora!

Alegre, mas sujo e cansado, Á frente do carro de bois, Nos olhos o pó do campo, Nos ouvidos ,o chiar do rodado De madeira besuntada! Levava um monte de milho, Que ia ser debulhado Á noite, na velha eira, Com luz do luar de prata Em eterna desgarrada! O «Milho-Rei», dava beijo E talvez mudasse a sina, Como rezavam as cantigas, Tocadas na concertina! Quase louco de desejo, Cantou a noite inteira, Cruzou olhares e sorriso E dançou na desfolhada! Só a espiga não apareceu, Para mal da brincadeira! O beijo, ninguém lho deu. Chorou o tempo perdido E a festa ficou adiada!

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DESERTO DA VIDA Há longos, longos anos, Vou percorrendo um trilho, No grande deserto da vida! Piso a areia escaldante, Bebo do sol o brilho, Dos catos a água fresca, Cada vez mais delirante, Na procura do oásis Da grande palmeira verde, Batida pelo vento quente E pela tempestade de areia, Á beira do velho lago Pintado de azul celeste, Pela mão da Tuaregue! Perdi peso, estou cansado, Meio cego, quase surdo Morto de sede, meio parado, Á espera que o luar me leve A um trilho iluminado, Sem palmeiras, sem oásis, Nem tão pouco a Tuaregue, Que pintou o lago de azul! Termina aí a corrida E entre rosas e lilases, Consigo ouvir num murmúrio, Que também acaba a vida!

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A MINHA VELHA ALDEIA Na minha velha aldeia, Há um sino de bronze, No alto do campanário, Que o sacristão toca a Santos, Para confortar as almas E ás vezes a rebate , Se há sarilho no campo! Na minha velha aldeia, O céu é mais azul, Mais longo o horizonte E o sol das manhãs calmas, Aquece a seara ondulante E seca o milho na eira! Na minha velha aldeia, Há um riacho que canta, Lavando as pedras polidas No leito de areia fina, Onde saltam rãs e relas E nadam peixes dourados! Nos prados pastam rebanhos, Os cães dormem a sesta, Os gatos têm sete vidas, Os ratos estão bem tratados E nos Invernos gelados, Há lobos em alcateia! Na minha velha aldeia, Fui feliz, corri, saltei E aprendi a conhecer Os mistérios da natureza, As virtudes e os pecados, O amor, o bem e o mal! Por isso, quando morrer, Quero ter a certeza Que me vão deitar as cinzas, No meu velho sobreiral! 22


O SINO DA MINHA ALDEIA

O SINO DA ERMIDA

Ainda há pouco ouvi O sino da minha aldeia, Que tocava a rebate, Num bater descontrolado De badaladas perdidas, Como nunca tinha ouvido! Seria lobo esfomeado Perdido da alcateia, Fogo posto no montado, Ou alguém desiludido, Febril, a gemer de dor, Por ter vivido mil dias Á procura de um amor, Mil vezes também negado, Apesar de lhe ser devido? Calou-se o bronze cansado, Sem ninguém ter percebido Quem o fez vibrar assim, Se foi Deus ou o Diabo! Só quando a noite caiu E o dia chegou ao fim, É que alguém descobriu, Que em desconto dos pecados, Só poderia ter sido Brincadeira de Finados!

Procuro o sorriso lindo, Que se perdeu no mundo, Ao partir sem despedida, Para destino incerto! A saudade dói bem fundo E por mais que tente sorrir, Sinto os dedos gelados, Percebo a vida a fugir, Com o fim já bem perto, Ali ,ao pé da ermida, Com toque de sino a finados! Acordo do sonho mau, Quando sopra o vento Norte, A quem pergunto em surdina, O porquê da minha sorte, O porquê da triste sina! Em resposta ouço o silêncio, Contar em grande segredo, Que o vento levou a morte Para bem longe da ermida E obrigou o sino a tocar, A partitura da vida!

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TRABALHO E DOR

LAVADEIRAS TROPICAIS

Chegou sujo, lento e cansado, Sentou-se na mesa do canto. Num gesto programado, Tirou o chapéu da cabeça, E pediu um copo de três, Que bebeu de um só trago, Tentando apagar de vez A revolta, que é mais dor, De um trabalho quase escravo, Que marcou rugas na alma Do velho trabalhador! Nem o fado que se ouvia, Numa telefonia sem fios, De prazo ultrapassado, Fez renascer o amor Que morreu com a Maria, No dia em que o rouxinol Deixou de cantar nos rios! Desiludido, triste e esgotado, Adormeceu profundamente, Mas nem assim esqueceu a dor...

São lindas as lavadeiras, Vestidas de cores garridas, Branco, verde, encarnado, De mãos a esfregar na pedra As roupas encardidas E pés metidos na água, Daquelas belas ribeiras! Bate o sol na pele de bronze, Sopra a brisa no coqueiro, Nasce um sorriso sem mágoa Nos lábios daquelas rainhas, Que vai durar o dia inteiro! Nas costas dormem os filhos, Na cabeça lenços de xita, Nas ancas saias molhadas! A vida não tem sarilhos, Na alma não mora o mal! São lindas as lavadeiras Que vestem cores garridas E lavam nas lindas ribeiras Daquela Ilha Tropical!

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A ILHA DE CORAL

Resolvi mergulhar, Na água verde do mar, Tão verde e tão calma, Como o verde, Na calma do teu olhar! No meio daquela água, Quase morna e transparente, Não foi difícil encontrar, Uma ilha de coral, Branco, azul e rosa, Afastada de toda a gente, Onde os peixes foram pintados, Com as cores do arco-íris E a sereia indolente, Vai cantando a sua mágoa! Ali, também são proibidos, O stress, o ódio, o trauma, A inveja, a guerra e a dor! É a reserva da alma, Vida nova, novo mundo, Refúgio de um grande amor!

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BATUQUE

PRAIA DAS SETE ONDAS

Caiu a noite na baía E adormeceram as ondas, Cheias de sal e luar, Que desmaiam na areia, Ao ritmo e som do tambor E das ancas que não param, Daquelas mulatas lindas! Ninguém come nem dorme, No mundo de poesia, De uma noite tropical, Onde se canta o amor, Ali á beira da praia, Como há muito não se via! As danças loucas, infindas, Duram a noite inteira, Até que ao nascer o dia, Se apaga o som do tambor, As gaivotas voltam ao mar E param as ancas cansadas, Daquelas mulheres lindas, Que adormecem na praia, Cansadas de tanto sonhar!

Sento-me á beira do mar, Na areia branca molhada, Á espera que a água calma, Pintada de verde esperança, Me traga a mensagem esperada! Sete ondas, sete sonhos, sete desejos E também sete ilusões! Nem mesmo assim pára a dança. Vai a água, fica a espuma, Vem acima ,volta abaixo E a maré não se cansa, Com a chegada da bruma! Dilui-se a mensagem no mar, E morre á beira da praia, Lado a lado com a esperança! Não volto a contar as ondas, Não revelo os meus desejos, Nem sequer espero sonhar! Mas quero voltar um dia E entrar pelo mar dentro! Se a maré me ajudar, Apanho a mensagem perdida, Que atiro a favor do vento, Longe da corrente maldita. E então deitado na praia, Voltarei a amar a vida!

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RECORDANDO Voltei á velha praia que me conhece desde criança, onde regresso periodicamente e sempre que posso, numa espécie de compromisso vitalício, com quem me ajudou a viver e a entender a vida! Guardo na minha memória remota, o cheiro a maresia, carregado de algas esverdeadas, o marulhar das ondas calmas, o vento Norte que se encarregava de renovar a areia, os raios de luz em ritmo cadenciado do Farol da discórdia, incansável na sua rotina de lanterna iluminada com reflexos específicos, num misto de saudação noturna e aviso de coordenadas, aos barcos e pescadores que passam ao longe! Ouvi o piar das gaivotas sempre atentas aos restos de peixe que vão sendo lançados ao mar pelos pescadores das traineiras, segui-lhes o voo elegante e os mergulhos certeiros e rentáveis em termos alimentares! Imaginei a velha ronca em dias de nevoeiro e fechei os olhos na tentativa de me deixar embalar pelo som virtual, para dormir com a mesma tranquilidade com que o fazia há muitos anos! Acho que consegui definir a silhueta do Catitinha, calcorreando a areia quente ,rodeado de crianças a quem o velho banheiro se encarregava de dar uns valentes mergulhos para desentupir narinas e prevenir viroses nos meses de Outono e Inverno! Chamei em vão o homem da bolacha americana, três para a prima duas para a mana, a senhora de branco vestida com o cesto dos pasteis de nata, dos caramujos e das bolas de Berlim! Voltei a ensaiar os gestos que fizeram de mim um campeão do jogo do prego e encontrei um velho ringue de borracha já desfeita, mas que fez questão de aparecer! Á noite voltei ao eterno paredão, contei estrelas, vi constelações, dei a volta á meia-laranja e sentei-me no muro, sentindo o ar húmido mas refrescante que o mar fez questão de me oferecer! Revi uma série de filmes, em que os atores eram velhos amigos e fiz questão de adormecer por instantes! A realidade acordou-me pouco depois, a rotina instalou-se ao meu lado, o sonho não teve tempo de se concretizar e o passado desapareceu por encanto! Sem alternativa, retomei o ritmo infernal da vida moderna onde nada disto faz sentido e as recordações, numa sociedade desumanizada e sem qualquer tipo de poesia, não são permitidas! Por isso, hoje mesmo, comecei a contagem decrescente dos dias que faltam para voltar á velha praia, carregada de algas verdes e onde desde sempre os raios do velho Farol me indicaram as coordenadas da vida!

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PESCADOR

MARIA

Xaile Negro Pelos ombros, Olhos vidrados Que se fixam No horizonte Da esperança perdida, À procura De escombros Ou de uma onda De regresso à vida! Apenas espuma, Desfeita Em bocados, Soluços de dôr Que se perdem Na bruma E na noite, A cair devagar! Apagam-se as estrelas, Some-se o luar, Reina o silêncio, Param as correntes, Acalmam-se as ondas, Amaina-se o mar, Morre o pescador!

Maria Que não é virgem, Maria só, Desconhece a origem, Caída no mundo Em noite de breu, Olhos cinzentos, Sorriso triste! Maria, Que mete dó, Sem graça, Sem reino Nem tentações, Mas cheia de fome! Cansada da vida, E do mar De tormentos, No meio da praça, Tal como eu, Gere a desgraça E perde ilusões!

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A MINHA GRUTA Anda, Vem daí De mão dada, Subir a montanha Da vida, Até á gruta Perdida, Onde reservei Lugar para ti! No fim Da escalada, Verás que o Sol Nasce mais cedo, O mundo Parece melhor, Não há tristeza Nem dor E a Lua Tem um segredo! Á noite, Ficaremos bem juntos, Para sermos só um E a montanha Possa ser tua, Quando nascer o amor!

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MENDIGO Mãos negras, Calejadas, Rugas profundas, Dedos feridos, Unhas partidas E um naco de pão! Destino marcado Nas linhas da mão, Apelo adocicado, Mensagem de amor, Seguramente, Já não sente dor! E eu? Porque fico parado?!!!

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BONECA DE TRAPOS! Comprei Uma boneca de trapos Com cara de porcelana, Em plena Feira da Ladra. Num dia desta semana! Dei-a A uma garota triste, Que há muito Olhava para ela! Pegou-lhe Com mil cuidados, Lavou-a Com água da chuva, Penteou-lhe Os cabelos sujos E resolveu Chamar-lhe Ana. Antes de se ir embora Em correria louca, Pelas pedras da calçada! Estava feliz a miúda, A primeira vez na vida, Com a boneca de trapos Que nem sequer tinha roupa! Anos mais tarde, Encontrei-a na mesma rua Com a boneca ao peito! Sorriu-me reconhecida E partiu como chegara, Sem largar a sua Ana Num cumprimento perfeito! Fizera da boneca, irmã, Amiga única, confidente E testemunha de uma vida Que o destino já marcara!

ROSA ENJEITADA

Pronta a entregar o corpo, Quase vendias a alma, Como desprezavas a vida, Ou desdenhavas da morte Em troca de um sorriso, De uma palavra amiga, Ou da rosa mal aberta! Estavas sempre calma, Forte, segura e decidida, Senhora da tua sorte, Ciente de uma vida perdida! Um dia fechaste a janela De um quarto pequeno, Mas arejado e limpo, Que escureceu de repente! Restou um raio dourado, Que decidiu estar presente Testemunhando a partida, Já há muito anunciada, Para o cume do Olimpo! Tinhas desistido da vida, Do sorriso, da palavra E dos amores do passado, Quando alguém te recordou, Que eras uma rosa enjeitada!

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POEMA DA VERDADE

RUÍDOS

Sigo as tuas pisadas, Vou atrás do teu perfume E consigo ver um espelho, Na menina dos teus olhos, Que reflecte o desejo De viver um grande amôr! Adoro as tuas risadas, Quando aperto o decote Da tua blusa de folhos, Ou quando sinto ciúme E mais pareço um fedelho, Se alguém te dá um beijo! É pura a realidade, De um amôr de juventude Que se esgota nas palavras, Nos gestos,nos sonhos, No respeito,na virtude E no poema da verdade!

Pior que o ruído do trovão, É o silêncio da morte, Inundando montes e vales, Que troa sem parar No anúncio da última sorte! Pior que o barulho do canhão, É o silêncio que se segue E simula que a guerra acabou, Intercalado por ténue gemido Que vem do corpo inerte E com a alma a sangrar, Do inocente que foi ferido! Pior que o estoiro do balão, É o silêncio triste e profundo, Do miúdo que dorme na rua, Cheio de frio, morto de tristeza, Sem ainda ter entendido, Porque veio a este mundo!

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A ILHA ONDE DEUS VIVEU

Há uma ilha verde, Onde as ondas são meigas, A calêma mais atrevida E cheira sempre a maresia, Passageira preferida De uma brisa tropical! Há música e dança quente No fundão da heresia, Batuque e «tchilo-li» Que divertem toda a gente, Até á nota final! Há amor,reina a paixão, A morna canta a saudade Doutra ilha menos verde, Também bonita de verdade! Sintoniza-se corpo e alma, Dá-se vida á ilusão E afoga-se a maldade, A beber vinho de palma! Quando o sol aparece Parido no horizonte, Tudo acaba por encanto E respeito ao novo dia! Lavam-se os olhos na praia, Põe-se a canôa no mar, Atiram-se as redes á água E deixamo-nos embalar, Cobertos pelo leve manto, De uma nuvem passageira! Foi naquela ilha perdida, Que Deus viveu algum tempo E ordenou um estilo de vida, Sem fome, sem guerra,sem mágoa!

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GUERRAS Pedia a paz, De filho nos braços, Soluçando de dor, Ele moribundo E ela esfomeada, A espremer a mama Sem leite, esgotada, Num filme de horror, Onde morriam os laços Que a iam mantendo, Cidadã deste mundo! A paz não chegou, Por ordem duns senhores, Que em grandes jantaradas, Com retrato de família, Troca cínica de abraços, Discursos, vãs promessas E reuniões viciadas, Só pensam na banca! Nesse dia triste, O Sol não nasceu E o tempo parou, Para deixar passar Uma pomba branca, Que só ela pôde ver, Quando o filho morreu!

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OLHOS

APOSTA VENCIDA

No fundo Dos teus olhos, Coabitam Amor, Ternura e paixão, Em simbiose Perfeita, Equilíbrio programado E tempero De ilusão! As tuas pupilas, Suplicam Um olhar Mais profundo, Sobre a fome Que há no mundo, A dor, O sofrimento E a revolta, De quem Já não sabe andar E é pitéu Desejado Do abutre, Nojento e pelado, Quando em breve Subir ao céu! Os meus olhos Estão fechados, Mas não deixo De estar atento!

Passo Os dedos Na tua pele macia E percebo Que pouco a pouco, Vais perdendo Os medos, Que te frenam O desejo De amar a vida, Ser amada, Se possível possuída! Sorris, Como há muito Não sorrias, Soltas a alma Num gemido rouco, Revelas segredos, Suspiras, feliz, No intervalo de um beijo! Renovas a vida, Renegas a morte, Pareces perdida E sobes ao céu, Enquanto na terra Fico só eu, No reino da sorte, Pagando a fatura Da aposta vencida!

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ORIGENS

PAI!

A origem está aqui, Onde se conjuga O verbo amar No presente do indicativo, De manhã, à tarde, Ou em noites de luar! Aqui mora a essência Da génese da minha vida, Num puzzle perfeito, Sem folga nem peça a sobrar! No velho casarão arruinado Com telhas e vidros partidos, Vai entrando um sol dourado, De um Setembro Em que as folhas duram mais E perduram jardins floridos! Sobe a coluna de fumo, Que mancha de branco, O azul muito claro Do céu arredondado E faz alguns caracóis, No cabelo esbranquiçado De uma nuvem passageira! Subo ao alto do monte, Onde existe uma fonte De água que sabe a jasmim E não pára de correr! É a minha fonte de vida, Negando o principio do fim, Para não me deixar morrer!

PAI, Foste a origem, O exemplo, Primeiro amigo, Ponto de equilíbrio E também suporte! Guardião do templo, Olhar sereno, Carícia pronta, Padrão de vida E do amor pleno! Depois da morte, Continuas presente, No sorriso, no gesto, Na politica da verdade, Na postura que não mente Nem anda á deriva, No meu mar de saudade!

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AMARRAS Não é fácil, Cortar as amarras De barcos fundeados, Em baías perdidas! Sopram os ventos, Tocam guitarras, Agitam-se as águas, Mas mesmo inundados, Baloiçam-se lentos A carpir mágoas E recusam partir! São os barcos da vida, Sem rumo nem sorte, Que aprenderam a sorrir E a negar a morte!

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TROCADILHO Surpreendo-me, Ao dizer o que não penso E a esquecer tudo o que não digo! Compreendo-me, Porque não quero falar De tudo o que penso, Nem devo pensar Naquilo que não digo! Será que encontrei o equilíbrio?

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PEREGRINO DO MUNDO

PROFISSÃO DE FÉ

Sou, Peregrino do mundo, Há muito Na estrada da vida! Pé descalço, Pé ferido, Manta rôta, Cabelo imundo, Bastão velho, Cantil partido E coração cansado! Cansado de andar Á procura da luz, Penitente da vida, Resistente á morte, Até que um dia, Terei de parar! Acabam-se os montes, Os rios e os vales, As chuvas ,os ventos, O frio, o calor, O céu e os mares, Mas, Com um pouco de sorte, Restará o amor!

Não quero, Ser a sombra Do que sou, Nem penumbra Da luz Que nunca tive! Quero ficar Igual ao que sou, E amar Aquilo que me seduz!

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O AVÔ

MIMO

A chuva tamborilava Em noite de invernia, No vidro da janela, Do meu quarto de criança! Um pouco mais ao lado, Na velha montanha, Havia um pinheiro manso Que ensaiava uma dança, Ajudado pela ventania Que não parava de soprar! Acordei meio assustado E acho que tive medo, Ao ouvir um cão uivar, No meio da noite escura! Foi então que apareceu Um senhor de certa idade, Que me ensinou em segredo, Como dormir sossegado E a parar a tempestade! Deixou então de chover, O vento não mais soprou, O cão deixou de uivar E quando o dia nasceu, Abracei o meu Avô !

Há anos, Percorro o caminho, Que penso ser meu! Procuro uma festa, Uma palavra, um carinho, Ou até um mimo Caído do céu! Insisto, não desisto E continuo a andar, Por ter a certeza Que no tempo que resta, Ele há-de chegar!

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SONHO DE MENINO Tropeรงo Na sombra Que me precede, No caminho louco Que me espera, Fugindo ao destino Que me persegue, Ao encontro da sorte Que nรฃo domino, Desprezando a morte Que desespera, Quando gravo no tempo O meu sonho de menino!

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MONTANHA DE ILUSÃO Sou rio Que nasceu Da frágua No alto do monte E correu em contramão, Á espera De chegar á foz Onde agora Estou parado! Era doce, Fiquei salgado, Diluído numa água Que não é rio Nem é mar, Mas montanha de ilusão!

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TONS RENOVADOS Caiu a tarde, O sol já fugiu, Mas ficou o céu Com o tom encarnado, Da madeira que arde! Piam gaivotas, Virou a maré E saltam taínhas, Na prôa dos barcos! As velhas beatas, Não param de rezar As Salvé-Raínhas Que vão ajudar A descontar pecados, De quem já morreu! Adormecem os justos, A Lua descansa Por ser Lua Nova, Mas a noite avança Apesar de ser velha! É assim, O ciclo de vida, Que todos os dias É posto á prova! Para uns é uma dança Para outros saída E para mim, Cada dia que acaba, Ou noite vivida, É esperança renovada De adiar a partida!

GUERREIRO

Guerreiro Perdido No campo De batalha, Magoado, Ferido, Sustendo O pranto, Sem alguém Que lhe valha Numa luta Sem sentido! Toca o clarim, Há cavalos À carga, Disparam canhões, Caem morteiros, Silvam as balas, Há fumos no ar, Rebentam granadas! Morrem soldados, Calam-se as armas Diluem-se os gritos, O pó, o fumo E os ais! Mas a guerra Não chega ao fim, Nem pode acabar! Que morram Mais inocentes, Que haja Mais órfãos, Chorem viúvas Pais e parentes, Morra a esperança E chegue a miséria! O bicho-homem, Gosta assim!

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ARQUIVO

VACAS MAGRAS

Arquivo Na memória Gasta, O gesto, O sorriso E a palavra Casta, Que fizeram História, Na história Da minha vida! Papiro Amarrotado Que o tempo Envelheceu, Amarelado E a tremular Ao vento, Registo De ternura, Testemunho sumido, De um degredo Previsto E do segredo Que é só meu!

Digo Adeus Às fragas De musgo amarelado E sem flores de Maio, Que me olham De soslaio Em tempo De vacas magras! São celeiros Das dores De um povo, Ainda mais pobre, Espoliado, Deprimido, Desesperado, Que nada Tem de novo E a quem tudo É negado! Tristes fragas De tom amarelado, A quem sonegaram As flores de Maio!

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ANTEVISÃO Não há trabalho, Falta o pão, Sobra o imposto, O desespero, As rugas No rosto E a solidão! Morreu o futuro, Morre o desejo, E ao sol-posto O tempo pára, É tudo escuro, Nega-se um beijo, Come-se um naco Que é de pão duro, Fecham-se os olhos, É proibido dormir, Fogem os sonhos, Só resta partir!

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CENA PROIBIDA

Sou vaso comunicante, Em sistema controverso, Elo de transmissão No motor Da tua vida! Sou arado que desbrava O teu espaço de cultura, Poeta que tenta Cantar-te em verso, Ponto distante Na recta que nos separa! E no entanto, Estás ali, Mesmo á mão, Num sonho feliz E permanente, Que a memória grava Por encanto E arquiva para sempre, No registo De uma cena proibida!

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MAR DE SARGAÇOS

DESTINO

Cansado de nadar, E desfeito em pedaços Por uma onda maldita, Morri na praia Do meu mar de sargaços, Palco de uma vida, Razão de um projeto! Restou uma gaivota perdida, Á espera de ouvir poesia E saudar a partitura, De uma velha sinfonia! Ficou triste, desiludida… Da música, Só ouviu o eco E a rima, Morreu á partida!

Estou Rouco De gritar Aos sete ventos, A minha dor, Os meus lamentos, O destino Do amor E a ausência De sentimentos, Sem ter Um retorno Que me ajude A vencer, A tormenta Que se adivinha! Não pára de chover No meu Outono, O Sol morreu E não sou dono De nada, Porque até a vida, Deixou de ser minha!

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PARA TI

NENUFARES

Quero Que regresses, Para te fazer Uma festa, Devolver O amor Que me deste E viver contigo, O tempo Que me resta! Quero Que saibas A dor Que senti Quando partiste, Sem avisar Que era verdade Que partias! Quero Que sintas O mundo De saudade Que me separa de ti, Mãe sem dia, Porque foste Mãe Todos os dias!

Que No teu Rio de lágrimas, Desabrochem Nenúfares encarnados, Em aguarela De vida, Com os teus desejos Pintados, Numa tela Perdida, Na porta Meia aberta Do solar Dos poetas!

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COMBOIOS DA VIDA

BANDA DA VIDA

Esperei Por ti Na estação, Até passar O último comboio, Onde não vieste E que Nem sequer parou! Fiquei Mais só, Em contramão, À espera De uma luz No túnel, Que também Não chegou! A vida É assim! Uma dança Em que Passa o comboio, Morre a ilusão, Acaba a esperança E tudo tem fim!

Não tarda Que me contes A história, Que te ensinei Em criança! Já vou Sentindo o medo, Que te ajudei A vencer, Quando deixo escapar O segredo Que nunca Te quis contar! É que Na vida Muda a dança, Quando a banda Desafina E só nos resta morrer!

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RODA DA SORTE Rodou A roda da sorte, Da sorte Que nunca tive! Queria O direito á vida, Á fortuna E ao amor, Se possível, Mesmo Para além da morte! Mas depois, Veio o pior! A cautela Saiu branca, Como a areia Atrás da duna E o vento, A soprar de norte, Levou de vez A fortuna!

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BATER NO FUNDO Não sou Maior Nem melhor, Que qualquer Cidadão do mundo! Afinal Sou o que sou, Nem pior Nem melhor, Do que alguém Que fica só, Quando o amor Bate no fundo!

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MONGE NA MINHA ALDEIA

BARCO PERDIDO

Só, Sinto-me só Como cão vadio, Gato selvagem, Lobo sem alcateia, Ou leão que se isola Para ir morrer longe! Preso por um fio, Leva-me a aragem Para os confins Da minha aldeia, Onde o sino Continua a tocar, No mosteiro Onde serei monge, Até que a morte Me venha buscar!

Veio do nevoeiro, Um barco De vela branca, Que chegou silencioso Sem patilhão Nem retranca, Perdido, Desgovernado, Saído da tempestade E de um mar enfurecido! Apontou a estibordo, Á procura do azimute Que o levasse á verdade Do mundo Que tinha perdido! Encalhou Na velha praia, De onde havia partido Em noite de mistério E acabou por ir ao fundo! Afinal o rumo certo, Terminou no cemitério!

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LIVRO DO TEMPO

SÓ EU E A SOMBRA

Abri O livro Do tempo, Que folheei Devagar, À procura Da origem Do vento E da génese Do verbo amar! O vento É filho do perigo, Mas do verbo, Nem sinal! Conjuga-se O tempo inteiro, Mas a origem É intemporal!

Saio Na noite fria, Pedindo ao vento Que me traga A notícia esperada, À chuva Que me afogue O tormento, Ao frio Que congele O segredo, Ao silêncio Que me permita A palavra! Passaram Todos por mim. O vento distraído, O frio muito apressado, A chuva Sem parar de cair E um silêncio Sem fim, Deixando-me só Na calçada, Sentindo-me perdido, Mais confuso, Desiludido, preocupado! Então, Olhei para trás, Antes de decidir partir! Não senti a ventania, Não vi chover, Não tive frio, Não quebrei o silêncio, Só a sombra me seguiu!

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GOTAS DE CHUVA As lรกgrimas Derramadas, Sรฃo gotas de chuva Que inundam O campo seco, Do meu pobre universo! Hรก no ar Um cheiro A terra molhada, Onde as sementes Ficam greladas, As plantas floridas E se renova uma vida, Que quero cantar em verso!

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TERRA DE NINGUÉM Terra De ninguém, Não é tua Nem minha, É deserto de vida, Passaporte do além! Reina o silencio, O nevoeiro E o fumo branco Que vai saindo Da trincheira! Não há balas, Baionetas ou canhão E no entanto Sou prisioneiro De inimigo Que não conheço! Quero sonhar Com a minha aldeia, Mas não adormeço, Ao sentir que a alcateia Rasteja no chão Silenciosa E pronta A atacar! É frágil a trégua Fio de vida, Prenuncio de morte Em terra perdida E destino sem sorte!

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CONTO DE NATAL Era uma vez Um menino pequeno. A viver Na floresta, Numa casinha de pau Toda coberta de giesta! Era amigo do Lobo Mau E do Capuchinho Vermelho, Cantava Como os passarinhos Saltava Como o macaco, Esculpia Como o Pica- Pau E á noite adormecia A sonhar Com o Pai Natal, Que um dia prometeu Dar-lhe uma prenda, Como ninguém Vira outra igual! Limpou tudo

Na cabana, Incluindo a chaminé! Não dormiu, Ficou em pé. À espera do barulho Dum trenó Puxado a rena, Onde viesse o embrulho Com a prenda anunciada! Uma fisga, Uma bola, Um berlinde Até talvez um pião! Cansado De tanto esperar, Não resistiu a Morfeu! De manhã, Ao acordar, Restou-lhe a desilusão De um presente adiado. Porque o trenó não chegou! Então, O menino pequeno. Amigo do Lobo-Mau. Fez tudo para não chorar E ficou resignado. Com a sorte Que Deus lhe deu! NATAL

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HĂĄ dias apeteceu-me andar a pĂŠ

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Há dias ,apeteceu-me andar a pé numa avenida de Lisboa, minha preferida desde que aterrei nesta cidade! Tentava espalhar um pouco da angustia que convive ultimamente comigo, na calçada ondulada dos passeios cada vez mais vazios, daquela artéria! Não quis ver montras, talvez por ter perdido poder de compra, não me apetecia olhar as pessoas que se iam cruzando comigo, nem sequer o barulho dos motores ou o extrato de escape dos automóveis, interferiam com o ritmo da minha passada, totalmente comandada e sincronizada com o meu pensamento, ou mais preocupante que isso, com a notória insuficiência de coordenação de ideias! Foi assim que passei por uma criatura sentada no chão ,com um cartão onde estava escrita uma frase ,a que inicialmente não atribuí qualquer importância especial, tal a frequência cada vez maior de situações de miséria, sentadas nos passeios e que esperam desesperadamente por uma ajuda que nem sempre aparece! É que a convivência diária com situações deste tipo, acaba quase por nos imunizar em relação á desgraça alheia! E foi o quase que me vai restando, que teve papel importante na decisão que tomei uns metros á frente, de voltar para trás! Alguma coisa me dizia que aquela mensagem podia ter algum conteúdo especial em relação a tantas outras! Aproximei-me da criatura e li no cartão acastanhado ,em letras já meias sumidas: «Roubaram-me tudo na vida! Ajudem-me a encontrar a morte!»Reparei então, no autor da suplica, que me olhava com uns olhos cansados mas curiosos e sorria com a minha atrapalhação! Piedosamente ,contou-me numa voz monocórdica ,que já tinha tido uma vida razoável, mas que se tinha deixado levar pelas ofertas de crédito que os bancos lhe foram quase impondo, até ao dia em que começou a sentir na pele os efeitos da crise ,nomeadamente de um despedimento oportunista, sem justa causa, da morte da mulher ainda nova e do abandono a que os filhos o votaram, apesar de estarem a usufruir dos rendimentos dos cursos superiores que com muito sacrifício lhes tinha pago, no tempo das vacas menos magras! Os mesmos bancos que lhe tinham oferecido todo o crédito, levaram-lhe o apartamento de duas assoalhadas e posteriormente o velho automóvel que lhe serviu de abrigo durante algum tempo! Perdido numa cidade agreste, dorme agora debaixo de um viaduto, depois de comer uma sopa que os amigos da carrinha branca fazem o favor de lhe oferecer quase todas as noites! Acabaram-se os sonhos, a motivação, a esperança em dias melhores e a vontade de viver! Os olhos até então tristes e secos debitaram duas lágrimas de um saco lacrimal seguramente exausto! Levantou -se penosamente ,recolheu o cartão e com voz sumida afirmou-se muito grato por eu ter falado com ele!Há muito tempo que não conseguia falar com ninguém apesar dos milhares de pessoas que passavam por ali! Tinha ganho o dia, porque eu não o podia ter ajudado melhor! Deu meia volta e afastou-se avenida fora sem olhar para trás! Eu, fiquei preso numa calçada ondulada ,que já nada me dizia ,durante largos minutos, sem ouvir os automóveis, sem reparar nas pessoas e intoxicado ,não pelo fumo dos escapes mas pela tremenda injustiça e desigualdade social, de que no fundo, de um modo ou de outro, todos somos responsáveis! Desde esse dia que nunca mais vi o meu interlocutor!!! Mas a verdade é que sempre que passo no seu posto de desilusão, apetece-me sentar nas pedras da calçada e escrever num cartão castanho: Ajudem-me a perceber a fronteira entre uma vida minimamente digna e a morte libertadora !E se necessário for e quando for necessário, ajudem-me a morrer!

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SERMÃO

ESPÉCIE DE POETA

Nos olhos, O brilho da juventude, Nos lábios, Um sorriso de criança, Nas mãos, A ternura De uma amante, No corpo, A elegância De quem dança! No teu peito, Há um mar De virtude, Na alma, A essência De uma artista! Um dia Serás gente! Vais aprender A remar Contra as marés E terás saudade Da criança Que já não és! Vais conhecer Noutra face Do mundo, O lodo de um rio Que não tem fundo E quanto custa Perder a liberdade! Então, Vais entender O que é a vida!

Sou Uma espécie de poeta, Das horas vagas, Que olha o horizonte Sentado nas fragas, Escreve uns versos, Acerta umas rimas, Fazendo a ponte Entre o ódio E o amor! Sou Uma espécie de poeta De causas perdidas, Que afoga a dor Num pranto contido E afasta a tristeza De quem está perdido E farto de ouvir Promessas falidas! Finalmente, Também sou Uma espécie de poeta, Que canta a beleza Da água fresca Que escorre da bica Da fonte da vida! Ódio, amor, Promessas, tristeza, Pranto e dor! Pobre poeta, Velhos poemas, Corpo cansado, Alma partida! 59


CRUZ DA VIDA No cimo Daquele granito. Há nuvens pesadas Que tentam vergar A cruz da vida! Ao longe Ouve-se um grito E a oração Do velho monge, Escondido no convento! Voam Morcegos, pegas E os abutres Também abundam, Á espera Que a esperança morra E a seguir Venha o banquete, Como é regra! Só que a esperança Não morre! Sobrevive, aguenta, Vai vergando, Mas não quebra!

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PUTO Quero Ser puto Da minha rua, Chutar A bola de trapos, Lançar O velho pião, Jogar ao agarra E ao botão, Correr Sem destino marcado, Pelos caminhos Da minha aldeia, Apanhar á mão Os grilos da minha escola, Partir á desfilada Como lobo em alcateia! Quero Voltar ao passado, Andar á procura dos ninhos E acordar de madrugada A ouvir os passarinhos! Quero ainda, Voltar a sonhar Com a alegria perdida E gritar a todo o mundo, Que serei puto toda a vida!

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DESEJOS

MAIS DESEJOS

Mais Do que um brinquedo, De uma bola Ou de um pião, Dá-me a tua mão E conta-me ao ouvido O segredo De viver! Mais Do que um carinho Ou a velha frase feita, Quero a garantia Que o caminho Não chegou ao fim! Mais Do que o ramo de rosas, Ou qualquer bálsamo Para as dores, Quero ter a certeza, Que um dia Quando eu partir, Os meus versos E tristes prosas, Vão poder descansar, Num canteiro Do teu jardim!

Quero a paz Que não tenho, O amor Que desdenho, A vida Com que sonhei E que a morte Se esqueça de mim! Quero sentir Que vale a pena, Que a tarde Vai ser serena E que a noite Vai ter um fim! Quero A esperança perdida, O regresso Do barco que parte, A espiga dourada Do campo, O antúrio Do meu jardim! No fundo Só quero a vida!

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AMNÉSIA

DIA DO ABRAÇO

Quero esquecer O que recordo, Recordo sem querer, O que já esqueci! Vivo, Sem saber Se estou vivo, Porque morro Com saudades de ti!

O abraço, É gesto eclético, Que transmite sensações, Amizade, Desilusões, Não poucas vezes dor, Momentos de felicidade, Ou alquimia do amor! Poético, Químico, exuberante, Cínico, traidor E até patético! Tão velho Como a humanidade, Só agora tem estatuto! Decretou a sociedade, Que tão nobre gesto, Teria que ter um dia! Quem diria!!!

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NÃO VOU DEIXAR Não vou deixar Que a vida me fuja Entre as rugas Das minhas mãos! Não vou deixar Que as sanguessugas Bebam o sangue Que corre nas veias Dos meus irmãos, Nem vou permitir Que velhos vampiros De focinhos nojentos, Tentem roubar A sopa dos pobres Armados em nobres E donos do mundo! Não quero deixar Que o cravo encarnado Ou a rosa dos ventos, Morram no cano Da minha espingarda! No fundo. Quero a verdade Que alguém escondeu, Atrás do pano Do palco da vida E a liberdade Porque todos lutámos E quase morreu!

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O BANCO DO REFORMADO Sentado No banco do jardim, Está o velho reformado, De cartas na mão, Cigarro Quase apagado, Lunetas Meias partidas, Boca ao lado, Uma pomba Que o olha no chão, Um gato Com sete vidas E a morte Que o vigia Atrás do arbusto verde, Pronta para o levar, Quem sabe Se ao fim do dia! Cansado, Sente-se perdido E não dorme, Com medo De não acordar! Triste sina A do reformado! Mas, Não tenhas medo amigo, Porque quero Ser teu irmão! Vou evitar Que um dia, A pomba levante voo E a morte se meta contigo! 65


CONCERTO LOUCO

O FIM

Hรก Notas soltas Que pairam No ar, Sinfonia interrompida Antes de tempo, Concerto de vida Atirado ao vento, Som de violino De corda partida, Solo de piano Em palco vazio, Maestro louco, Batuta perdida! Que rufem tambores, Toquem sirenes, Apitos, relas, Buzinas, pandeiretas, Tachos, panelas, Mas plantem violetas E outras flores, No teatro da vida!

Um sino Que toca, Uma alma Que parte, Uma mensagem Que chega, Um vento frio Que corta! A alma estรก perdida, O sino toca a rebate, O vento virou selvagem! Entรฃo, Que resta da vida? Um mundo De porta fechada, Uma janela De vidro partido, Um barco Que foi ao fundo, Um lobo Que uiva no monte, Onde morre o alecrim, A giesta vai secando E ardeu o rosmaninho! Acho que chegou o fim!!!

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HINO Á VIDA

FRONTEIRA VIRTUAL

Há Uma fraga Onde me sento, No alto do monte, Em diálogo sereno Com o velho Pinheiro manso! O tradutor É o vento E o tema, A história de amor, Entre mim E a liberdade! Há acordo pleno! Respira-se Um ar mais puro, A imaginação é livre, O sonho, realidade, Reina a giesta E a urze florida, No reino do alecrim, Onde o lema É a verdade, O trabalho uma festa E o silencio Um hino á vida!

Entre ti E mim, Há um rio E uma ponte, Que separam A minha margem Da tua! É fronteira virtual, Que um dia Alguém inventou E que só a imaginação Perpetua!

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APETÊNCIAS Apetece-me Escrever um poema Na areia escaldante Da minha praia, Procurar a liberdade No céu azul Do meu Abril, Guardar a sete chaves O meu lema De paz, rigor E de verdade, Lançar uma canção Ao vento Norte, Transformar a ilusão Em realidade E sonhar Que um dia, A vida vence a morte! E no entanto, Apanhei a onda errada, Sem força, sem espuma E sem retorno, Que transforma A brisa fresca Em vento morno E a virtude do amor Num mar de pranto!

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A MORTE DO POETA Estão congeladas, As pétalas Das minhas rosas, Brancas, amarelas E encarnadas, No jardim Que já foi meu! Fogem os versos, Morrem as prosas, Rolam as lágrimas, Nascem as dúvidas E já nem as rosas Olham para mim! Fica o poema, Mas dobram os sinos, Porque o poeta morreu!

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POEMA FRUSTRADO

MISERÁVEIS

Poema frustrado No fim do dia De um poeta infeliz! Rima perdida, Sentimento confuso, Sonho desfeito Na chama apagada Da fogueira da vida, Que vai partindo E nada me diz! Silencio profundo Na noite cerrada, Num mundo Que dorme, De gente com fome, De gente sem nada! Poeta frustrado, Poço sem fundo Num poema infeliz!

Voltaram Os vampiros Que tinham fugido! Organizados, Voam em bando Pela calada da noite! Atacam velhos, Pobres, doentes E reformados, Alvos primários Da sede de sangue! Nada de novo… Negros, nojentos, Inventam lamentos, Afiam os dentes E riem felizes Da tristeza De um povo! Até quando?

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BARCO PERDIDO

PERFIL

Sou Barco perdido No meio do rio, Indiferente À chuva, Ao vento E ao frio, Cansado de navegar E fundeado Para sempre, Na maré Da solidão!

Tens Nos lábios O sal da vida, Nos olhos A luz do dia, No sorriso O canto meigo De uma doce cotovia! Solta os cabelos Ao vento, Corre na pradaria, Vive a vida Num momento, Monta cavalos selvagens, Segura a Primavera Nos dedos, Grita a tua liberdade, Agita a nossa bandeira E se te chegar a saudade Avisa, Que eu paro o tempo!

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LIVRO DA VIDA Olhei No chão gelado, A folha caída Do velho carvalho E percebi, Como o tempo Se vai renovando Em cada Outono, De uma vida Com prazo marcado! É a poesia, Apesar de tudo, Que viaja no vento E canta o destino Em concerto mudo, Da vida que passa! Ciclo viciado Que terá um fim, Como a rosa Que vai morrendo Em cada pétala que cai, No canteiro do fundo Do meu jardim, Em cada nota Que se solta, Triste e melódica Da eterna sinfonia, Em cada linha De prosa perdida, Que vou escrevendo No livro da vida!

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VELHA RAPOSA Cuidado Com a velha raposa, Ladina, matreira, Manhosa, Ás vezes mentirosa E capaz De convencer o galo, A abrir a capoeira! Diz que as uvas Estão verdes E não prestam As galinhas Preferidas, No harém Do cantador! Cuidado, Não se deixem levar! Na vida Há muitas raposas, Que desdenham Para comprar!

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SUBO À ÁRVORE DA VIDA

DIREITO A EXISTIR

Subo A árvore da vida, Lesto e resoluto E espreito À volta de mim! Lá em baixo, É o zero absoluto, Lá no cimo Está o fim! É o zero E o infinito Em oposição total! O zero É vida perdida E para cima Vejo mal Porque o céu Está nublado! Talvez seja Por isso Que decidi Ficar parado!

Leio Nos teus olhos, A vida dura Que não escolheste, Na face, As rugas fundas Que o tempo lavrou, No sorriso, A tristeza De um amor Que não nasceu, Na alma, A promessa Que não vingou! E no entanto Tu resistes a partir, Serena, doce, pura, Sem ódio, Sem vingança Nem rancor, Esperando Que um dia O mundo entenda, Que afinal Tens direito a existir!

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PEDINTE

PARA A LUISA MOURA

Sentada Na calçada húmida Da rua do fundo, Corpo franzino Em manta rôta, Que disfarça também O ar imundo, Estendes a mão Á gente que passa! Odeias o mundo, Perdida no tempo, Renegas a sorte, Não tens história, Direito a lamento Ou lugar na memória Da gente que ri No meio da praça! Afinal, Que te deixam fazer? Estender a mão, Á espera da morte?!

Quero Mudar de planeta, Assumir Outra dimensão, Viajar no espaço, Chegar á Lua, A Marte e Plutão, Montado Na minha caneta, Apoiado Na minha ilusão, Que também Pode ser tua, Se no meio duma tela Demonstrares Com o pincel, Que arte Não é tortura E a vida É aguarela!

75


PLATÃO Numa noite de luar, Aterrou na minha rua O primo de Platão, Por baixo da minha janela E muito perto da tua! Foi assim há tantos anos, Que já me falha a memória! Morreram os sonhos, As promessas, Os olhares, A vergonha, O disfarce E até morreu a história, Mas foi linda a ilusão!

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ALUNAGEM Quero voar Livremente, Rasando as ondas Do mar azul, Como gaivota Em liberdade, Voando sem destino, Sem horizonte Nem fronteiras! Levo comigo A semente, Que deixarei Nos mares da Lua, Nos lagos e montes Se um dia lá chegar! Vai germinar a amizade, O carinho, a ternura E até talvez o amor! Quero esquecer a saudade, Deixar de sentir dor, Ser Rei Num mundo novo Onde exista a verdade E uma tiara De pedras lunares, Que por um dia será tua!!!

77


EU E TU Sou O eco Do teu sentimento, Barreira de som Do teu silencio, Reflexo banal Da tua desilusão! És O refúgio Do meu pensamento, Grade pintada Da minha prisão, Mar de saudade Na hora da morte, Areia dourada Da praia do Norte! A vida não pára, O tempo não volta, Tu calas a mágoa E eu sinto a revolta!!!

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DE MÃOS DADAS Vamos correr De mãos dadas, Pelos montes, vales E campos floridos Da minha infância, Descobrir Caminhos perdidos Onde os girassóis Rodam para nós, Os lírios Crescem felizes E a espiga É mais dourada! Vamos voar, Como os pássaros Que cantam Na madrugada, Ouvir o cuco, O melro

E os pardais, Subir O monte da fraga, Tocar as nuvens Com os dedos E descobrir No horizonte, A razão De alguns segredos! É necessário E urgente, Que o sonho Se mantenha vivo, A esperança Se renove, O velho Se amarre á vida E que a criança Não volte a ter fome! O resto, É tempo perdido!!!

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SOL POENTE Mesmo quando o Sol desaparece no horizonte, Hรก sempre uma porta que se abre Para um amanhecer desejado! Mesmo quando a esperanรงa se desvanece, Hรก sempre um raio de Sol Que se esquece de mergulhar No mar da desilusรฃo! Assim seja!!! Ou melhor: Assim deveria ser!!!

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ALTERNATIVA Quando a alegria Vira tristeza, O desgosto Destrói a paixão, A riqueza É pura ilusão, O diálogo Tempo perdido, A esperança Morre á nascença, A liberdade Acaba ao Sol-Posto, O amor abre falência E a morte é alternativa, A vida não faz sentido!!!

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FIM DE PERCURSO

MISÉRIA

Sonhos de infância, Que guardei em gavetas Fechadas á chave! Desejos de adolescente, Dispersos na areia Que o mar engoliu! Conversas da treta, Mentiras, desgraças, ilusões, Duras verdades, Desgostos de amor, Mil pecados, mil perdões, Viagem sem sorte Num tempo passado, Sem futuro nem presente! Mar de saudades, De sonhos perfeitos, Agora desfeitos E fontes de dor! Chegada sem partida, Viagem sem norte Pela estrada da vida, Na vã tentativa De vencer a morte, Esperança louca Que o tempo desmente!

Olhos tristes, Quase vidrados, Sorriso perdido, Olhar distante Diluído no tempo, Lágrima contida Nas rugas profundas De face amarelada! Cabelos cinzentos Ao sabor do vento, Noites perdidas Num mar de lamento, Sonhos sem vida, Duvidas, tormentos, Sina sem sorte Cantada num fado Com voz dorida! Sono de morte, Destino marcado, Soneto pobre De rima cansada, Miséria de vida!

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SEREIA CANSADA Há ondas verdes Que morrem na praia, Junto ao castelo de areia Onde guardo alguns segredos E me deito A seguir as nuvens brancas, Que correm loucas No enorme céu azul! Refresco o pensamento Com a espuma Que inunda o ar E adormeço calmo, Embalado pelo vento, Que me oferece também, O doce marulhar! Tenho sonhos dourados Que se afogam no mar, Ilusões antigas Que se diluem na areia, Desejos contidos

Que quero calar, Tempos passados Que não consigo esquecer! Apago a luz do Sol, Acendo o luar de prata E sigo os raios dourados Do meu velho Farol, Rumo a um destino Que desconheço, Por uma porta Que se abre com desprezo, Para um fim de vida Que seguramente não mereço! Há gritos de vampiros, Danças de fantasmas, Risos de duendes E lá no fundo Um canto de sereia Que se afasta devagar, Até ás dunas, Para se deitar Embrulhada em grãos de areia, Cansada de tentar mudar o mundo!

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LÁGRIMAS

A JANGADA

As lágrimas Que deslizam na tua face, São lenços brancos No cais da despedida, Num adeus ao mundo, Que é também adeus á vida, Páginas soltas De romance inacabado, Mágoa profunda De tristeza encomendada! São pérolas cinzentas Do rio meio seco, Gotas de orvalho Em manhã de nevoeiro, Ondas meigas Em maré cheia de tormentas, Nuvens brancas Num céu azul claro, Que sem pressa, Correm lentas, Em namoro descarado Com o vento! Lágrimas salgadas Que definem a tua vida, Pétalas de rosa Que só duram um momento!

Sopra forte o vento Na vela da minha jangada! Avança só, No mar imenso Da minha vida, Sem rumo certo, Rápida, apressada, Já longe da partida, Muito perto da chegada!

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LAGO AZUL DA TUA VIDA Deixa voar Os cisnes brancos, Quase imaculados, Que nadam felizes No lago azul da tua vida! Deixa-te levar Nas asas ritmadas E dança em pontas, Leve como as penas Que as cobrem! Aterra nas nuvens, Continua a dançar E dá vida aos sonhos Que mudem o mundo! Ouve a canção Do coro dos anjos E vive a ilusão Que dura um momento, Do amor profundo E da paz que persegues! Depois, Deixa-te levar pelo vento, Antes do canto Do cisne moribundo, Que pintou de branco O lago azul da tua vida!

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CARÍCIA DE MÃE No teu rosto, Há rugas de erosão, Que o tempo impiedoso Sulcou profundas, No sorriso A penumbra triste Do Sol-Posto, Nos olhos cansados Uns resíduos de paixão! Há também O silencio, Que compromete A penitencia terrena De pecados Que ninguém comete! Sonho perdido De uma vida plena Mas vazia de sentido, Lembrança saudosa Diluída num passado Que perdura, Mar imenso Com ondas cheias de ternura, Que nascem felizes Da caricia de uma Mãe!

86


VIVER

ACORDES PERDIDOS

Quero a frescura Da madrugada, A cor branca Da gaivota imaculada, A luz que irradia Da flor do girassol, Um feitiço Que pare o vento E água benta Que me faça virar santo! Quero adiar o adeus, Recuperar sonhos desfeitos, Dar vida aos meus desejos, Renascer ao por do Sol, Desprezar destino e fado, Descobrir o teu segredo, Recordar a cor dos beijos, Dormir na praia sem medo, Apanhar búzios antigos Que eram meus, Subir ao monte Que me viu crescer E matar a sede Na tua fonte! Apenas quero viver!

Sonhos antigos, Ideais loucos De juventude ingénua, Poemas e baladas, Do Zeca,do Adriano, Acordes esquecidos Que morreram aos poucos! Restou a saudade Da luta adormecida Que é urgente acordar! Voltem os cravos Aos canos enferrujados Das espingardas de Abril! Voltem os sonhos, Regressem as ilusões, Renovem-se ideais, Declamem-se poemas, Dedilhem-se baladas, E devolva-se sentido á vida, Restaurando a liberdade!

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FUGA DA VIDA

A TUA PRAIA

Sinto que a alma Me vai fugindo Por caminhos Que só o espirito conhece, Ruas estreitas, Cheias de pedra Em que vou tropeçando Sem cair, Onde passeio só E só conto comigo! Viagem longa e calma, Há muito programada Em mapa virtual Carregado de pó, No tempo Que parece parado, Mas não para de fugir! É a fuga da vida, Que começa ao nascer, Fado corrido De triste lamento, Mais rico ou mais pobre, Mas de fim garantido, Como semente caída Em moinho de vento!

Ouço os teus passos, Na calçada Da minha vida, Sinto o teu perfume Diluído no vento, Recordo o teu sorriso Á luz do luar, Na praia escondida Onde quero enterrar O meu velho lamento! Não choro por vergonha, Orgulho ou teimosia, Mas há uma dor no peito Que me mata devagar, E quase me afoga No mar de pranto, Onde as musas Ensaiam o canto De louvor á maresia! Mais tarde esconde-se a Lua, Acordam ondas em fúria E renasce a vaga esperança Que ao romper do novo dia, Eu assista ao teu regresso Á praia que foi sempre tua!!!

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BARCO DE PAPEL Sento-me á beira do rio, Olho as águas em movimento, Conto as pedras do fundo E deixo correr o pensamento, Á espera de entender o mundo! Há reflexos de prata, Sussurros de águas claras, Folhas verdes flutuantes Que escondem nenúfares risonhos E poemas de rima fechada No cofre forte dos sonhos! A seguir ao por do Sol, Conto as estrelas do céu, Saúdo a estrela polar E o canto do rouxinol Que cala o silencio da noite, Num festival ao luar! Quando acordo ao nascer do dia, Vejo um barco de papel Que luta contra a corrente E baloiça ao sabor do vento, De vela desfeita em farrapos, Que trás dentro uma mensagem, Que uma criança escreveu! Atraca devagar á margem E entrega-me o papiro em mão, Onde afirma em letra sumida, Que quer feliz toda a gente E que a liberdade e o amor, São a essência da vida!

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TROCADILHO Sei que não sentes O que dizes, Muito menos dizes O que pensas! O crepúsculo, Não é noite nem dia, A duvida não é certeza Nem negação, O amor Não é o mesmo que paixão, A verdade É o cumulo da pureza, A saudade Tem pacto com a dor! A vida É antecâmara da morte, A tristeza Prima do desgosto, O ódio Sentimento sem rosto, A velhice É luz do sol-posto! Digo o que sinto, Quase sempre o que penso, Ás vezes invento, Mas não minto!

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PAPAGAIO DE PAPEL

MORTE À NASCENÇA

Papagaio de papel A voar no céu, A favor do vento, Levando o sonho puro Da criança que o segura, Para as nuvens brancas Que se desfazem Como castelos de areia, Derrubados pelas ondas Em tempo de maré cheia! Sonho sem futuro Que vai virar tormento, Na frieza de um mundo Que de sonhos nada tem! Desfaz-se o castelo de areia, Morre o sonho da criança E só fica o papagaio A teimar na mesma dança, Até que o papel se rompe E o miúdo desiludido Chora de desgosto, Exigindo o regresso do sonho, Sem entender que na vida Os voos não são eternos E muitas vezes os sonhos, São pássaros com asa partida!

Tu que nasceste Para viver, Morres á nascença, Sem direito á vida, Em nome da tua inocência E dos genes que herdaste! Negam-te o carinho Que devias ter, Eliminam-te á partida, Em nome De pretensa segurança! Não chores, Não fiques triste! No fundo, Não perdes muito! Um mundo enlouquecido, Homens que viram bestas, Ódio desmedido, Balas perdidas, Canhões derretidos, Ruinas fumegantes, Ideais pervertidos, Num mundo Que não quero meu E nunca seria o teu! Quem morre á nascença, Inocente como tu, Não chora na terra E sorri no céu, Onde ainda não há guerra!!!

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ESCONDERIJO

Sei que estás escondida, Atrás do monte Em que foste Rainha, Onde o alecrim murchou, A alfazema morreu, A águia deixou de voar, O vale deixou de ter vida E as nuvens da ilusão Vão passando bem longe! Sei que te escondes, Negando a realidade, Fugindo da paixão Que te inunda a alma E te isolou como um monge Em Mosteiro arruinado! Resta a saudade Da tarde calma Em que tudo aconteceu, A vida foi mais vida E se acendeu a chama sagrada, De um amor que não morreu!

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VALE DA MINHA ALDEIA Lavo o olhar Na seara dourada E a alma, No campo de girass贸is Do vale da minha aldeia, Onde sopra a brisa calma Que me empurrou para a vida! Apanho uma papoila encarnada Que transformo em sereia, Para que cante a noite inteira! Refresco os olhos No luar de prata, Que ilumina estrelas cadentes E a voz apaixonada, De um cantor de serenata! Vivencia perdida De saudoso encanto, Origem de um rumo Dilu铆do no tempo, Estertor de fogueira Reduzida a fumo, Final de corrida Sem fim definido, Promessa falhada De mudar o mundo, Triste lamento Num poema esquecido!!! 93


UM ADEUS

A TORMENTA

Um adeus Como tantos outros, Sem saber Que era o ultimo, Nem que os malmequeres Iriam murchar E as papoilas encarnadas Mudavam de cor, Nos campos verdes Da minha infância! Um adeus Não despedida, Um regresso sem olhar, Calmo, sem a dor Que agora sinto, Ao saber que te perdi! A morte não é partida, Não é adeus ou despedida, Tão pouco fim da amizade, Muito menos o fim da vida! É viagem No mar da saudade E um estado de torpor Que um dia vai acabar!!!

Um dia, A chuva vai parar, As nuvens abrem alas, Para que um raio de Sol Ilumine o regresso da liberdade E papoilas encarnadas Ensaiem uma dança, Nas searas verdes De espigas douradas! Um dia, O vento vai parar Ao fundo da minha rua E deixará a mensagem Escrita no tempo, Da Primavera anunciada Mas que tarda a chegar! Um dia, Alguém me dirá, Que a tormenta morreu Porque o reinado acabou! Nesse dia, Voltarei a ser eu!!!

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ECO DA LIBERDADE

É PRECISO VIVER

Quero ouvir o eco, Do teu grito de liberdade Em noite de temporal, E que ondas gigantes De um mar de dignidade Há muito adormecido, Destruam o marasmo De um Povo traumatizado E lhe devolvam A alegria e o direito de viver! Quero separar O trigo do joio, O bem do mal E assumir finalmente, Que apesar de tudo, existo E tenho um lugar na vida! Quero denunciar O abuso, o despotismo, Matar a prepotência, A hipocrisia, o egoísmo, E criar um mundo novo, Onde possa germinar A semente da igualdade E cresça o amor fraterno Em seara abençoada! Nesse momento, O sonho será realidade, Acaba o meu tormento E já não quero morrer!

Corta as amarras, Que te prendem Ao cais da escravatura Sem sentido E navega no mar calmo, De um desejo contido!!! Deixa que o vento Te leve para longe E te deixe nas dunas De uma praia de sonho, Com areias douradas E ondas verdes, profundas Que lavam o tempo! Recupera a razão de ser, O sentido da vida, O passado perdido, Cavalga a esperança E entra na dança! É urgente viver!!!

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ESTERTOR DA VIDA Há papoilas encarnadas, Entre espigas de trigo Que bailam horas seguidas Ao sabor do vento! Dança intemporal, Poema de rima certa, Sorriso ingénuo de criança, Sonho quase real Onde não cabe o tormento, Em palco de histórias perdidas! No fim do dia, O Sol desmaia, Adormece a cotovia E há promessas de amor Entre o trigo

E uma papoila atrevida, Que duram a noite inteira Até vir a madrugada! Repete-se o ciclo, Sem ser eterno! Um dia, Quando menos se espera, O trigo seca, A papoila empalidece, Cala-se a cotovia, Acaba a dança, O poema desaparece E até o sorriso de criança! Acabou uma era Ao nascer do dia! Mas quando o mundo Parece perdido, A terra estremece Num estertor de vida E renasce a esperança!!!

De espiga dourada

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VELHO VIOLINO Gemem as cordas Do velho violino, Onde o mendigo da esquina Faz vibrar desde sempre, Velhas melodias Que resistem ao tempo, Desgastadas em notas soltas Que se perdem no ar E danรงam loucas No centro da praรงa! Passam pessoas De orelhas moucas E olhos vidrados, Dorme o cachorro Guardando as moedas Que caem no gorro! Sinfonia de morte lenta, Mil vezes repetida Nas notas soltas Espalhadas ao vento, Onde o mendigo da esquina, Esconde o lamento Na pauta da vida!!!

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ESTRELA CADENTE Sinto-te muito perto Do infinito Que quero ser! Sei que um dia, Vais chegar sem aviso, Cumprindo um destino Que não me larga, Nem me deixa viver! Estás perto, Mas ainda longe, Isolada, Intransponível, Numa concha fechada, Personagem principal Numa cena macabra, De peça inacabada!

Onde sou um velho monge!!! Derruba as ameias Dos castelos de areia, Despreza o lamento Das ondas que morrem E o pio da gaivota Que voa no céu! Escuta a mensagem Que o vento deixou No cimo da duna, Onde em noites de luar Há cânticos de sereia E faz como eu! Fecha os olhos devagar, Aproveita a brisa que corre, O cheiro a maresia, Ouve o murmúrio do mar E aguarda calmamente Que eu te leve a passear, Num rasto de estrela cadente!

És muro de um convento

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MÃE

FRÁGUA CINZENTA

Quero ficar sentado Só mais uma vez, No teu colo quente, Sentir o veludo dos teus dedos, Em cafuné saudoso No caracol de cabelos, Adormecer calmo, s em medos, Acordar no teu olhar inteligente, Beber a ternura dos teus gestos, Caminhar no mundo Que foi só nosso! Quero ouvir ainda Os teus conselhos E cravar a minha âncora Bem no fundo, Do mar de saudade já infinda! Só mais um desejo, Que é ordem também: Onde quer que estejas, Apanha a primeira nuvem E vem depressa ,MÃE!!!

Sentado na velha frágua cinzenta, Retocada com colar de musgo verde, Deixo-a assumir O papel que representa, Na vida cheia de bruma E na duvida que me atormenta! Deixo o olhar perseguir O futuro desconhecido, Deixo voar o pensamento Longe do mundo perdido, Ordeno que o Sol brilhe, Mando que pare o vento! Quando a noite cair E o céu escurecer, Quero o luar inspirado No canto do rouxinol! Que as fadas me deixem partir, Os duendes me levem nos braços E os deuses me deixem viver!

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QUARENTA ANOS DEPOIS Um dia, Há muitos anos, Nasceram cravos Na ferrugem dos canos De velhas armas, Nas mãos calejadas De um punhado de bravos Que transformaram Abril, Numa Primavera sem fim! Eram frescos, encarnados, Colhidos na madrugada Em que a liberdade nasceu, Num novo canteiro Do velho jardim! Revolta florida, Num mar de ternura, Sem bombas, sem tiros, Ponte de amor, Hino de vida, Viveiro de paz, Fim de ditadura! Os cravos estão vivos, Resistem, não morrem, A esperança renasce E acorda o ideal Nos tempos que correm,

Quando se ouvem as botas Bater na calçada Dos anos perdidos E se escutam as notas Da canção imortal!

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VIDAS

SOL POSTO

Escorrem gotas de suor, Na face de pele morena, Cheia de rugas Lavradas pelo arado do tempo! Quase ausente, distraído, Gesto mecanizado em lamento, Remexe a terra de mãos sujas, Alonga o olhar meio perdido, Na procura incessante, Desesperada e permanente De um amor sempre distante, No trilho secundário, De uma vida sem sentido!

Deixa que as lágrimas Te corram no rosto E a alma te chore no peito! A vida sem amor Não tem qualquer jeito, Como o dia sem luz, É apenas Sol-Posto!!!

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APETECE-ME PARTIR

Apetece-me partir, Sem destino Nem despedida, Sem promessa de regresso, Hora de chegada, Ou minuto de partida! Apetece-me fugir de mim, De ti, de tudo e de todos, Ficar só por um momento, Ser senhor do mundo Que não conheço, Libertar o pensamento E refrescar a vida, Sem pensar que a morte existe! Apetece-me ser criança, Adolescente, a mante, Perdoar, ser perdoado E encontrar um Deus Que desconheço! No fundo, Quero tudo o que não tenho, Ou se tive já perdi! Apetece-me partir Sem destino, Nem promessa de regresso!!!

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Cheguei á conclusão brilhante que preciso refletir, sobre a minha vida, o mundo onde aterrei há mais anos do que gostaria de ter, os meus amigos e principalmente sobre mim mesmo! Alguma coisa está errada, muita coisa não bate certo, neste ritmo de vida infernalizado pela concorrência desmedida, centralizado e dirigido para o enriquecimento a qualquer custo, o interesse pessoal e pessoalizado, a insensibilidade crescente, a desonestidade florescente e a indiferença total em relação aos grupos etários mais carenciados! Os princípios que nos foram incutidos em família ,na escola e até no convívio social, que naturalmente defenderei até ao fim, deixaram de ter qualquer significado ,apenas porque contrariam frontalmente a inexistência cada vez mais palpável dessas mesmas regras sociais de respeito mutuo, de lealdade, franqueza e honestidade de processos! Quem como eu os vai defendendo contra ventos e marés, s ente o olhar de desprezo tecnocrático e frio, dos defensores da nova cultura! As pessoas são dirigidas para determinado tipo de objetivos, obrigadas a seguir parâmetros dúbios e a entrar desde muito novos na guerra da concorrência desenfreada, que naturalmente nada tem a ver com competência! O conhecimento mais alargado e a cultura, são lamentavelmente secundarizados, originando e patenteando a ignorância total sobre tudo o que não se insira nos objetivos pré-definidos! A moral é relativa e as regras da sã convivência apenas se aplicam, quando possam ter interesse na consumação dos objetivos definidos e das metas préprogramadas ,que têm de ser cumpridas a qualquer preço, custe o que custar e a quem custar! Os profissionais, robotizam-se quase sem se aperceberem da descaracterização que lhes é imposta e consolidada pela atitude no trabalho! Passam a vida em viagens transcontinentais, em reuniões de lavagem cerebral ,em eventos que na maior parte dos casos servem para matraquear regras e seguramente em todos eles se agrava substancialmente o preço que temos de pagar pelo produto final! Saltam de empresa e emprego dia sim dia não e fazem o curriculum á custa da diversificação de atividades assumidas e de conhecimentos adquiridos empiricamente! A vida profissional útil e a utilidade que as empresas lhes reconhecem, poucas vezes tem durabilidade aceitável, desde que se excluam os predestinados afilhados e protegidos que vão ocupando e esgotando cargos vitalícios! É esta cultura que não entendo nem consigo apreender, naturalmente por defeito meu, por insuficiência de preparação e porque me nego terminantemente a aceitar como padrão de vida! Por isso necessito perceber se tenho alguma hipótese de sobreviver, o u se definitivamente terei de recorrer á gruta com que sempre sonhei, no alto da minha montanha preferida, libertando-me de vez das pressões a que as injustiças me submetem diariamente, das desilusões que se vão amontoando, da corrupção que não suporto e até da desinserção social que me vai isolando progressivamente! Será uma espécie de levitação, sbre o mundo e sobre mim mesmo! No fim, poderei regressar mais fresco e capaz de aguentar a Via Sacra da vida, ou seguirei viagem para outras paragens seguramente menos poluídas! Depois dou noticias!!! 103


Carlos Melo Sereno

Nascido em Aveiro, no dia “D” Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina de Lisboa Neurocirurgião pelos Hospitais Civis de Lisboa Fotógrafo amador Poeta nas horas vagas

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Retrato de Rimas Soltas  

Autor - Carlos Melo Sereno Livro de Poemas Fotos - Hellag (Helena Lagartinho)

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