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Como levar o espiritismo da mente para o coração | Tema 2

hhViver espírita

Em junho de 2013 apresentei a primeira do que pretendo seja uma série sobre como levar o espiritismo da mente para o coração. Ou, falando menos bonito, como colocar em prática, nas nossas vidas, os ensinamentos que aprendemos nos livros e na casa espírita. O primeiro tema dessa série foi a intuição ou como escutar o nosso coração sem que ele nos faça sair do caminho. O tema de hoje, que é o segundo, é sobre como “viver espírita”. Em geral procuramos uma casa espírita em razão de uma dor física ou espiritual, quando perdemos um ente querido e queremos entender isto, ao recebermos o diagnóstico de uma doença, ao nos sentirmos desconfortáveis conosco mesmos ou diante da própria vida. Nessas ocasiões, pensamos assim: “Ah, quem sabe eu vou até lá e entendo um pouco mais o porque disso tudo na minha vida, o que eu sou e porque estou aqui ...”. Quando chega alguém ao atendimento fraterno trazendo alguma dessas questões, começo, digamos, situando a pessoa sobre o que é a casa espírita e o que ela pode fazer por nós. Vou começar assim também, hoje. Pego um papel, faço um desenho e explico: aqui está o nosso planeta; sabemos que somos 7 bilhões de habitantes encarnados.


Saímos à rua diariamente e vemos muitas pessoas indo para os seus trabalhos, crianças indo para a escola ... mas vemos também bêbados, drogados, pessoas que se perderam de suas famílias, mendigos, e aqueles que têm estado muito em evidência hoje em dia, os habitantes das “cracolândias”; enfim, os marginalizados de toda ordem. Sabemos que essas pessoas precisam de assistência, necessitam de ajuda que muitas vezes não podemos dar, e nesse momento reivindicamos a presença do poder público, empregando o famoso “alguém tem que fazer alguma coisa para resolver essa situação”. Pois bem, esse é o cenário que enxergamos. Paralelamente, há no orbe terrestre cerca de 21 bilhões de desencarnados, número que não pode ser considerado exato, pois autores espíritas falam de 18 bilhões a 24 bilhões. Fico mais ou menos com a média desses valores e trabalho com a hipótese de o número de desencarnados representar o triplo do de encarnados. “Na casa de meu Pai há muitas moradas”, disse Jesus, e esses 21 bilhões estão vivendo desde as profundezas da Terra, algo com o que ainda não precisamos – e acredito que nem devemos! – nos preocupar; sobre a crosta, vivendo como se estivessem ainda encarnados, na ignorância da sua própria situação, ou em missão de trabalho. E ainda há outros tantos que vivem espalhados pelas inúmeras colônias espíritas que existem desde a crosta terrestre até o Alto. Embora nem sempre esteja ao nosso alcance resolver as necessidades da parcela dos 7 bilhões de encarnados que vivem à margem da sociedade, conseguimos perceber os seus problemas. Entretanto, não podemos ver o estado em que se encontram e o que necessitam os muitos desencarnados que perambulam à nossa volta, muitos deles perdidos. Imaginem a seguinte situação: você está andando na rua e uma pessoa decide seguir você. Ela entra na sua casa, fica atrás de você, perturbando. Você liga o liquidificador, ela puxa o fio da tomada,


você vai tomar banho, ela desliga o gás; você deita para repousar ela sacode a cama, canta, faz barulho. Em dois tempos a sua vida vira um inferno. É claro que essa é uma situação improvável que estamos usando para efeito de comparação, mas é mais ou menos assim o que acontece com essa parcela desses 21 bilhões de desencarnados que estão por aí, sem eira nem beira, muitos nem sequer conscientes de que não estão mais encarnados! Vou interromper um pouco para falar, de maneira genérica, bem superficial, sobre como se dá a nossa reencarnação, e depois retomo o tema central. Para ilustrar o processo de reencarnação vou citar duas situações possíveis, e que são as mais comuns.

Primeira situação Desencarnamos, permanecemos no umbral um longo período e, sem condições de sair de lá, somos resgatados pelo amor de alguém que, com seus méritos e progresso, solicita a nossa encarnação, a qual ocorre de maneira compulsória, do umbral para a concepção, sendo os detalhes importantes da nossa trajetória na Terra decididos por um grupo de espíritos, à nossa total revelia. Nesse caso, desembarcamos aqui em condições bem precárias, sem ter feito o crescimento horizontal que a vida fora do corpo propicia, aumentando a nossa bagagem de conhecimentos e nos fortalecendo emocionalmente, o que de uma certa maneira nos prepara para a reencarnação (mas não nos melhora moralmente).

Segunda situação Desencarnamos, passamos um tempo no umbral e depois vivemos e trabalhamos um tempo nas colônias. A propósito, um esclarecimento: a maioria de nós já passou alguma vez pelo umbral ao desencarnar, antes de chegar às zonas de socorro e assistência. Isso não ocorreu como punição, mas porque nossa condição evolutiva não nos permitia alternativa melhor. Hoje, para a maioria


de nós que está encarnado, já será possível ser socorrido logo depois do desencarne sem passarmos pelo umbral. Então, retomando. Estamos no astral e, em dado momento, iniciamos a preparação para o reencarne. Um grupo de espíritos encarregados dessa atividade se reúne conosco e juntos vamos decidindo quais serão os pontos a desenvolver nessa encarnação, e quais as “tarefas” que teremos que cumprir para o nosso crescimento e aprendizado. Algumas são sugeridas por eles, outras nós pedimos. Por exemplo, cheia de boas intenções eu poderia dizer “Quero encarnar como uma espécie de madre Teresa de Calcutá ...”, e eles me diriam “Calma, é preciso andar muito antes de ter uma encarnação como a de madre Teresa”. Assim vamos estabelecendo os pontos centrais da nossa caminhada, que não é jamais totalmente prescrita ou prevista. Há muitas páginas em branco, as quais serão preenchidas seguindo o fluxo, o ritmo natural da vida e as nossas decisões de momento, tomadas a partir da faixa, não muito larga, de livre-arbítrio de que dispomos. Em síntese: algumas coisas são solicitadas por nós, outras sugeridas pelo grupo de espíritos que nos auxilia no plano reencarnatório e aceitas por nós, e outras ainda impostas por eles. Essas últimas, por serem impostas, podemos chamar de provas “expiatórias”. Desde antes de nossa partida de lá, um outro grupo já está destacado para acompanhar a nossa encarnação e nos ajudar nos esforços para cumprir o plano que foi traçado. Esse grupo é formado pelos espíritos que chamamos de guias, mentores, protetores, espíritos familiares, anjos da guarda. Eles não se dedicam exclusivamente a nós, cuidam também de outras pessoas, não necessariamente todo o mesmo grupo, e têm também muitas outras atividades. O que mais os espíritos fazem é trabalhar e quem acha que quando desencarnando descansará, está enganado. O descanso que devemos almejar, o único possível, é a paz de espírito. A felicidade é exatamente isto: paz de espírito.


Chegaremos então à Terra, reencarnados, sabendo inconscientemente o que temos a fazer. Como não temos registro consciente de quais são essas tarefas, corremos de um lado para outro consultando cartomantes, “médiuns videntes”, astrólogos. Quem já não ouviu de um amigo que agora sim, encontrou uma médium que disse “tudo sobre ele”, que não adianta, nessa encarnação não vai mesmo conseguir um amor porque está pagando porque agiu assim ou assado. O pessoal adora pagar dívidas de outras encarnações. Nem é preciso apresentar uma fatura, já saem pagando! Vou entrar de fato, agora, no tema de hoje, o viver espírita. A primeira coisa, o item número um que precisamos entender para vivermos como espíritas, é que tudo nas nossas vidas é fruto das nossas escolhas. Ou porque pedimos, ou nos foi sugerido como o melhor caminho para o nosso aprendizado, ou por uma imposição que pode ser decorrente de escolhas erradas que fizemos no passado. Ou, ainda, pode ser apenas o caminho indicado como o melhor, tendo como objetivo o nosso crescimento. É, então, que entra o segundo item: não julgar! Li no livro Quem Perdoa Liberta que o ato de julgar é necessário para a formação de juízo de valor. É ver para discernir, ver para compreender e até para poder ajudar, e não ver para julgar e condenar. Vou dar um exemplo. Outro dia assisti a uma palestra no Lar de Frei Luiz e anotei algumas coisas que ouvi porque gostei muito e vou trazê-las aqui hoje. Uma delas foi quando o palestrante se referiu a uma pessoa dizendo que ele afirmava ser “kardecista, há 30 anos!”, e que frente a um usuário de crack em desajuste o kardecista queria “partir para cima e bater no rapaz”. Isso me fez lembrar de um caso que testemunhei: uma “kardecista” fica sabendo que uma outra trabalhadora da casa espírita havia sido diagnosticada com câncer e, ato contínuo, a “kardecista” comenta com o interlocutor: “Bem feito, é castigo porque ela fez tal coisa ...”. Julgou, sentenciou, condenou, tudo rapidamente e em uma pequena frase, a qual diz muito sobre ela mesma! Definitivamente, essa não é uma atitude espírita.


Vocês podem dizer que eu estou julgando a “kardecista”, mas é preciso ver para discernir, e até para poder compreendê-la. Ela, pobre dela, ainda não conseguiu ver mais à frente. Lemos livros espíritas, ouvimos palestras, e muitas vezes podemos ficar com a sensação que se uma pessoa é acometida de uma doença é castigo, ela está pagando. Ou entendemos que se uma pessoa fica paraplégica é porque em outra existência fez algo de muito ruim e agora merece pagar, sem nos darmos conta de que há muitas nuances e variações em cada uma dessas situações. Então, vamos nos colocar de maneira mais humilde ao olhar para o nosso próximo e menos dramática ao olharmos para nós mesmos. Tudo na nossa vida tem uma razão para acontecer, mas não podemos saber o que motivou o acontecimento. Do livro Boa Nova, cuja leitura, ou releitura para quem já leu, foi recomendada esta semana por e-mail pelo Sylvio, tirei um trecho de uma conversa entre Nicodemos e Jesus: “Tenho empregado minha existência em interpretar a lei, mas desejava receber a vossa palavra sobre os recursos de que deverei lançar mão para conhecer o Reino de Deus!”, inquiriu Nicodemos. E Jesus respondeu: “Primeiro de tudo, Nicodemos, não basta que tenhas vivido a interpretar a lei. Antes de raciocinar sobre as suas disposições, deverias ter sentido os textos.” Vivemos de julgar e interpretar, e não de sentir. O aprendizado da doutrina se dá pelos nossos sentimentos e não pela razão e pelo raciocínio. Ainda no livro Quem Perdoa Liberta, li que “A pior descrença na vida não é a que diz respeito a Deus. A mais maléfica descrença é a que temos em relação ao nosso próximo.” Assim entramos no terceiro item que trago hoje sobre o viver espírita, que também ouvi na palestra do Lar de Frei Luiz. O palestrante perguntou: “Já mudamos os alimentos dos quais nos nutrimos desde que começamos a frequentar a casa espírita?”. E ele mesmo respondeu: “Não falo de feijão com arroz, que nunca


fez mal a ninguém, a menos que a panela caia na cabeça da pessoa ... Falo do que nos nutre, do que sentimos, do que pensamos ... Ainda praticamos a maledicência? Ainda alimentamos em nós a inveja? Ou pior, ainda ocultamos de nós que sentimos inveja?”. Aí ele contou sobre um amigo que se queixava com frequência sobre outro colega que ia sempre até sua mesa para falar mal do chefe. Tantas vezes o palestrante ouviu a mesma história que perguntou se o amigo não tinha como evitar isto, já que o fato o incomodava tanto. Diante da negativa do amigo, ele sugeriu que então ele poderia começar a ajudar o colega a compreender o chefe, tentar entender o que se passa com ele, quais as suas dificuldades. Compreendendo não julgamos, auxiliamos. Aluisio, o palestrante ao qual me refiro, e que não é o meu marido embora tenha o mesmo nome, falou em “amor pautado na essência amorosa”, que leva à compreensão. E este é um bom exercício constante para o nosso aprendizado no viver espírita. E vamos então ao nosso quarto item, e aqui retomo a história com a qual abri a apresentação de hoje: a caridade. O Aluisio falou que não podemos ser turistas no centro espírita. “Ah, estou precisando, vou lá tomar um passe”. E o resto do tempo? E a prática do Evangelho? Então a partir do que descrevi quando comecei a falar hoje, para além do amparo a todos vocês, estamos ao mesmo tempo atendendo a um sem número de desencarnados. Tratei desse assunto em uma palestra aqui e está também na revista Novo Horizonte, com o título O trabalho na casa espírita. Estamos em tratamento constante e a encarnação é, em si, parte do nosso tratamento, é o meio pelo qual nos é proporcionado o aprendizado. E quando chegamos à casa espírita, trazemos inúmeros espíritos que começam aqui a ser tratados para iniciar sua caminhada no astral, dando oportunidade a eles de saírem das zonas de sombras que estão habitando. Vou destacar o que ouvi do Aluisio, lá no Frei Luiz: “Aqui é feito um trabalho imenso de caridade. Relógio interfere, tira! Celular


interfere, desliga! Alimentos pesados, carne, atrapalham, dispensa! Silêncio ajuda, vamos nos calar! Controlar os pensamentos auxilia, vamos controlar os pensamentos! Isso é disciplina, o primeiro passo para conseguirmos evitar a maledicência que citei antes quando contei do colega do meu amigo, falando mal do chefe. Se conseguirmos nos disciplinar aqui, fica mais fácil começarmos a fazer isso também do lado de fora. Ao mesmo tempo estamos praticando a caridade. É só querer, mas tem que querer de verdade! Desejar dar um basta nas nossas repetições, dar um basta no achar que não podemos fazer nada. É hora de crescer, o relógio da Terra está aí, tic, tac, tic, tac, tic, tac ..., o tempo está correndo. E nós, estamos parados? Parar é retroceder. Não avançar é retroceder!”. Isso tudo parece não ter conexão com a casa espírita quando acreditamos que viemos aqui “só para tomar um passe”, mas os ensinamentos espíritas servem para o dia a dia das nossas vidas. Sair daqui e não refletir sobre o que precisamos mudar é grave. Vir aqui e não agirmos com o mínimo de caridade, que mais do que tudo é amor, e com humildade, que é acatar o que nos é solicitado, é deixar uma oportunidade de servir e de crescer que nos é dada de graça, pois não exige de nós muito esforço. E o quinto item que trago hoje é: como é para um espírita o aprendizado de amar o seu próximo? Sylvio falou na primeira das três palestras que apresentou este ano aqui na Casa do Coração, que a família é o instrumento do qual dispomos para o aprendizado do amor. E que primeiro precisamos aprender a amar, para em seguida aprendermos a desapegar. Amamos com apego, não sabemos nos separar, qualquer separação é um drama em muitas famílias. Em todas as situações da nossa vida podemos nos perguntar o que precisamos aprender que ainda não aprendemos, porque quando temos dificuldade em aprender algo, a vida acaba nos enviando uma oportunidade. Sempre falo um pouco sobre psicanálise em minhas palestras


e não poderia passar sem fazer isto hoje. Sobre o efeito de uma análise, Lacan diz que ao nos submetermos à análise passamos de “amados” a “amantes”. Queremos ser amados o tempo todo, reivindicamos amor. Não doamos amor, trocamos, só amamos para sermos amados. “Amante” é aquele que ama, sem amor visceral, que quer incorporar o ser “amado”, na tentativa de constituírem “um”. Amante é aquele que doa, que oferece amor, e nada espera em retribuição. E chegamos assim ao nosso sexto item, que é sobre a educação, de modo amplo, e a ética. Fui buscar no dicionário e encontrei mais ou menos o seguinte: “No sentido prático, a finalidade da ética e da moral é muito semelhante. São ambas responsáveis por construir as bases que vão guiar a conduta do homem, determinando o seu caráter, altruísmo e virtudes, e por ensinar a melhor forma de agir e de se comportar em sociedade”. Lendo, relendo, estudando e, principalmente, “sentindo” os textos do pentateuco, chega-se a uma conclusão bastante simples sobre o que estamos fazendo aqui. Inserida nesses livros há a mensagem de que são três os compromissos básicos com os quais devemos nos ocupar. O primeiro deles é com o nosso próprio crescimento e aprendizado; o segundo é a responsabilidade que temos com o crescimento e aprendizado de todos os que estão a nossa volta e o terceiro é com a conservação e a preservação do nosso planeta. Para cumpri-los, necessitamos nos desenvolver em todos os aspectos, o que inclui nossa autoeducação, que não cessa jamais, a educação do nosso companheiro, dos nossos filhos. Em outra palestra, sobre os pensamentos, falei que estamos aqui para regenerar, consertar, modificar. Construir. Transformar o que era ruim em algo bom, produtivo. Transmutar nossas raivas, ódios, mágoas, em perdão e a seguir em amor. Quem consegue isto, cresce, aprende, evolui, e é para isto que nascemos, para nos tornarmos melhores e para ajudar os outros a também melhorarem. Falei ainda que a total responsabilidade pela nossa vida significa que tudo,


nela – pelo simples fato de estar na nossa vida –, é nossa responsabilidade. Tudo o que vemos, ouvimos, tocamos, provamos ou de alguma maneira experimentamos, é nossa responsabilidade. Como espíritas, precisamos viver de tal modo que possamos ensinar pelo exemplo, pelas atitudes, pela palavra amorosa. Vemos na rua o total desrespeito de uns para com os outros. Todos querem chegar antes, ocupar os melhores lugares, a falta de gentileza impera. Pior, nem olhamos para os outros à nossa volta. A cidade é grande, o trânsito é caótico, não podemos perder tempo, e assim contribuímos para a manutenção da “selva” em que vivemos. Pequenas gentilezas como ajudar uma pessoa que deixa cair seus pacotes, abrir a porta e segurá-la aguardando que outra pessoa passe, sorrir e agradecer quando a gentileza é dirigida a nós. Sorrir e cumprimentar as pessoas quando no elevador ... São coisas pequenas mas que modificam a aura a nossa volta. A frase do Profeta Gentileza, “gentileza gera gentileza”, é profunda e sábia. E a gentileza vai nos dando mais paz e mais alegria. Posso atestar isto, porque desde que passei a de fato enxergar os outros na rua, passei a me sentir mais feliz e em paz. O retorno disto é estupendo! Ouçamos o espírito José Mário no livro Quem Perdoa Liberta: “Iluminar a vida alheia com educação, reconhecimento e estímulo é a divina arte de acender dentro de nós próprios a luz dos talentos libertadores. Quem tem olhos de ver, vê o bem em toda parte. Quem se dispõe a se aprimorar nas lides da reforma interior, jamais poderá descuidar de enobrecer a vida onde quer que seja. A luz que exteriorizamos nos alivia e abençoa com o frescor da sensação de leveza e progresso (...) a bondade em nossa convivência é a maior proteção contra os assaltos impiedosos da sombra que ainda reside em nós próprios.” Como está a nossa ética doméstica, com a nossa família? No livro A força das Ideias, Richard Simonetti diz que se eliminássemos por completo a mentira da nossa vida tudo ficaria melhor. Somos queixosos, mas não vamos ao ponto, deixamos o barco


correr e reclamamos o tempo todo. Uma vez ouvi duas pessoas conversando e uma delas disse que por “aturar” o marido, com seus defeitos, está pulando uma encarnação. Infelizmente, as pessoas entendem que a proposta espírita é sofrer para pagar. No livro Quem sabe pode muito, quem ama pode mais, o Dr. Inácio Ferreira diz a uma paciente do Hospital Esperança: “A proposta educativa do Espiritismo não é passiva, sofrer e só sofrer. Resignação é a recomendação da doutrina. E resignação não quer dizer abaixar a cabeça e suportar.” Perguntou em seguida, à sua interlocutora, se ela acreditaria ser a única responsável por não ter estabelecido limites às dificuldades do marido. Muitas vezes, em determinada situação pode parecer mais cômodo acreditar que se está “pagando”, e com isto permanecer na inação, do que agir no sentido de corrigir o outro. Temos responsabilidades educativas com todos a nossa volta, a começar por nós mesmos. Sobre o “pagar”, no livro Boa Nova, recomendado pelo Sylvio, o espírito relata a Chico Xavier uma passagem na qual Cristo fala com clareza que entendemos e incorporamos a lei de Talião porque nos falta capacidade de entendê-la de outra maneira: “(...) o primeiro mandamento da lei é uma determinação de amor. Acima do ‘não adulterarás,’ do ‘não cobiçarás’, está o “amar a Deus sobre todas as coisas, de todo coração e de todo entendimento”. Como poderá alguém amar ao Pai, aborrecendo-lhe a obra? Contudo, não estranho a exiguidade de visão espiritual com que examinaste o texto dos profetas. Todas as criaturas hão feito o mesmo. Investigando as revelações do céu com o egoísmo que lhes é próprio, organizaram a justiça como o edifício mais alto do idealismo humano. E, entretanto, coloco o amor acima da justiça do mundo e tenho ensinado que só ele cobre a multidão dos pecados. Se nos prendemos à lei de Talião, somos obrigados a reconhecer que onde existe um assassino haverá, mais tarde, um homem que necessita ser assassinado; com a lei do amor, porém,


compreendemos que o verdugo e a vítima são dois irmãos, filhos de um mesmo Pai. Basta que ambos sigam isso para que a fraternidade divina afaste os fantasmas do escândalo e do sofrimento”. Educação e ética são assuntos importantíssimos, que requerem aprofundamento, e vou adotá-los como o Tema 3, para a próxima palestra, para poder falar mais longamente sbre eles. Passo, agora para o último item de hoje, o sétimo, que é sobre o aproveitamento das horas. Começo com Emmanuel, em psicografia de Chico Xavier: Sol que brilha, nuvem que passa, vento que ondula, terra expectante, árvore erguida, fonte que corre, fruto que alimenta e flor que perfuma utilizam a riqueza das horas para servir. Aproveita, igualmente, os minutos, para fazeres o melhor.

Estamos em tempo de transição da Terra, a qual nos levará da expiação à regeneração. Como disse Monteiro Lobato, “Tudo que na Terra existe a mais da natureza é produto do trabalho humano”, o que nos leva a refletir: estamos aproveitamento o tempo para realizar atividades no bem? Ou estamos preferindo a novela à leitura, o chopinho ao trabalho social? Não estamos proibidos de ir ao cinema, de assistir televisão ou frequentar festas, mas como disse André Luiz por intermédio de Waldo Vieira, no livro Sol nas Almas, é preciso decretar para nós mesmos orientações contra o desperdício das horas, valorizando as sobras de que dispomos para fazer algo proveitoso. Isto inclui a nossa auto-observação, para nos corrigirmos dentro das nossas possibilidades, a observação do outro, para praticarmos “o ver para discernir”, formando um senso crítico que não só nos ajudará como poderá nos levar a ajudar a todos os demais que vivem à nossa volta. E, consequentemente, praticarmos a caridade pura e verdadeira, da compreensão, do amor e do perdão. Encerro com Jesus, no livro Boa Nova, de Chico Xavier, ditado por Humberto de Campos, que nos traz os episódios do Evangelho descritos com muita clareza e simplicidade. Lendo a obra, a sensa-


ção que se tem é que Jesus está ali mesmo, ao nosso lado, falando diretamente conosco. Foi essa bênção que recebi como indicação esta semana do nosso amigo e irmão Sylvio: “Amados – entrou Jesus a dizer-lhes, com mansidão extrema – não tomareis o caminho largo por onde anda toda gente, levada pelos interesses fáceis e inferiores; buscareis a estrada escabrosa e estreita dos sacrifícios pelo bem de todos. Também não penetrareis nos centros das discussões estéreis, à moda dos samaritanos, nos das contendas que nada aproveitam às edificações do verdadeiro reino nos corações com sincero esforço. Ide antes em busca das ovelhas perdidas da casa de Nosso Pai, que se encontram em aflição e voluntariamente desterradas de seu divino amor. Reuni convosco todos os que se encontram de coração angustiado e dizei-lhes, de minha parte, que é chegado o reino de Deus. Trabalhai em curar os enfermos, limpar os leprosos, ressuscitar os que estão mortos nas sombras do crime ou das desilusões ingratas do mundo, esclarecei todos os espíritos que se encontram em trevas, dando de graça o que de graça vos é concedido.” Agradeço a todos vocês por terem estado comigo hoje. Agradeço a inspiração recebida, em especial ao Sylvio, que como um médium, intermediou essa inspiração. Uma boa sessão a todos. Que a paz continue conosco. Graças a Deus!

hhHelena de Castro casadocoracao.textos@gmail.com Casa do Coração | Rio de Janeiro, 13 de setembro de 2013.

Helena de Castro | Palestra 12  

Palestra de Helena de Castro na Casa do Coração, Rio de Janeiro, RJ

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