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H. A. KIPPER

A HAPPY HOUSE IN A BLACK PLANET: INTRODUÇÃO À SUBCULTURA GÓTICA


H. A. KIPPER

A HAPPY HOUSE IN A BLACK PLANET: INTRODUÇÃO À SUBCULTURA GÓTICA 1ª edição

fûÉ ctâÄÉ Xw|†ûÉ wÉ TâàÉÜ 2008


Agradecimentos desta obra Agradecimentos especias a minha amada esposa Flávia, não só pelo companheirismo, amor e alegria no dia a dia, mas também por todos os comentários e sugestões a esta livro, sem os quais ele seria muito mais complexo e verborrágico, logo inútil para o propósito a que se destina. Agradecimentos ao companheiro Ary pelo bom humor ao longo de tantos anos e pelo trabalho gráfico sempre exímio e talentoso. A luta continua… Agradeço ainda a toda cena Gótica paulista e brasileira, que tem sido uma segunda casa feliz para mim desde 1990, tanto aos que se foram quanto aos que ficaram, e aos tantos amigos que prestigiam nosso trabalho com carinho e gentileza. São Paulo, outono de 2008


A HAPPY HOUSE IN A BLACK PLANET: INTRODUÇÃO À SUBCULTURA GÓTICA


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Parte I  O que é Subcultura?

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Subcultura X Outros Bichos

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Subcultura Gótica: Algumas Polêmicas

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A Homologia Subcultural, sua Flexibilidade e Evolução

04

A Evolução das Estruturas Subculturais Ontem e Hoje

FAQ GOTH- Perguntas Frequentes

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Parte II  O que é Subcultura Gótica?

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Prólogo

Características e Estrutura da Subcultura Gótica: 06

Estruturas da Subcultura Gótica – Introdução

6.1 Indicadores de Consistência Subcultural 07

Características da Subcultura Gótica a. o sombrio e o macabro b. o feminino e o ambíguo

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c. absorção de elementos de estilos relacionados d. a teatralização e o corpo

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e. apologia à cultura e saudosismo

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Parte III  Repertório e Referências da Subcultura Gótica:

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Cinco coisas que os Góticos não são!

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“Tipos” de Góticos

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Símbolos Recorrentes na Subcultura Gótica

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O Significado da Androginia e da Maquiagem

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A Temática Mística em uma Subcultura Laica

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Glossário de Estilos Musicais relacionados à Subcultura Gótica

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As Gerações de bandas Góticas e Darkwave

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Livros e Autores que os Góticos Amam

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Curiosidade: Origem dos Nomes de Algumas Bandas

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Cinema: Filmes Referência ou Influenciados

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Cronologia do uso subcultural do termo “Gótico”

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“Arqueologia” dos usos do termo “Gótico”

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Decadence Avec Elegance: Beautiful Losers

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Anfíbios Culturais

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Sobre o Título deste Livro

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Obras Citadas/Bibliografia

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“Planet Earth is Blue and There’s Nothing I can Do.” (David Bowie- “Space Oditty”) “This is the happy house-we're happy here in the happy house. To forget ourselves- and pretend all's well There is no hell.” (Siouxsie and The Banshees- “Happy House”)

Este livreto se propõe apenas a ser um guia introdutório das principais referências, ícones e questões que permeiam e caracterizam a subcultura urbana mundial conhecida como Gótica. Aqui não aprofundaremos cada questão, mas daremos uma descrição às vezes sumária de pontos básicos. Fazemos isso por acreditar que só conseguimos nos aprofundar em alguma questão se partimos de alguns pontos iniciais estruturados. Mais tarde, podemos até vir a questionar aquela “simplificação” inicial: isso é possível exatamente por que ela cumpriu bem sua função didática. Estamos conscientes de que não se pode “vivenciar” todos os aspectos de uma cultura ou subcultura apenas através de livros: sugerimos aos interessados na subcultura Gótica que busquem também conhecer a subcultura Gótica e os Góticos em seu “habitat”. Nesta outra forma de conhecimento, recomendamos muito cuidado, pois atualmente muitas coisas “não-góticas” ou até “anti-góticas”

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são apresentadas como Góticas. Esperamos que este livreto possa também ajudar o leitor a não comprar gato preto por lebre preta… Este livreto é uma organização de textos originalmente produzidos isoladamente. Aqui eles foram revisados e reescritos, e principalmente reorganizados da forma mais didática possível. Assim, se em algum momento eles soarem repetitivos ou repisarem alguma questão óbvia, pedimos que o leitor tenha com o autor a paciência condescendente que os alunos mais adiantados tem nas aulas de revisão.

Propomos aqui exatamente uma introdução didática. Não pretendemos fechar questões. Pelo contrário, a idéia deste livreto é colocar muitas placas apontando para informações que não estão aqui, ou que aqui são apenas insinuadas ou citadas “en passant”. A partir destas placas, como guia inicial, esperamos que o leitor possa partir nesta jornada e conhecer a subcultura Gótica e toda sua riqueza e história, que tendo começado há quase 30 anos, continua desde então se desenvolvendo e evoluindo por todo este “blue planet” – planeta azul/triste. Mas aqui estamos em uma “happy house”: somos felizes aqui - “dentro”. Tenham todos um bom início de jornada.


Parte I  O que é Subcultura?

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01  SUBCULTURA X OUTROS BICHOS Este texto é um dos textos mais chatos do livro. Se você tem familia-

ridade com os termos do título, pode pular e partir para a parte mais divertida. Mas se você cair na besteira de ler esta parte, não desista do livro: o resto dele é bem mais interessante. Aqui se pretende apenas definir em linhas gerais alguns termos que serão usados ao longo deste livro. Não é nossa intenção analisar em profundidade cada um deles, apenas apresentá-los ao leitor para facilitar sua leitura nos próximos textos.

O QUE É CULTURA? Usamos aqui o termo “cultura” no seguinte sentido sociológico: cultura é “um todo complexo que abarca conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes, e outras capacidades adquiridas pelo homem como integrante de uma sociedade” 1. Importante não entender “cultura” aqui no sentido limitado de “erudição” ou “cultura letrada”.

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Muitas culturas são formadas a partir da fusão das culturas de outros povos, gerando um novo padrão. Muitas culturas possuem no seu interior “subculturas”.

O QUE É SUBCULTURA TRADICIONAL? Subcultura pode significar uma “parte de uma cultura” que possui um conjunto diferenciado de “valores, crenças, normas e padrões de comportamento, portanto um modo de vida compartilhado por parte de uma população” 2. Podemos dar como exemplo as subculturas regionalistas tradicionais do Brasil, como a nordestina ou a gaúcha. Elas estão inseridas na sociedade brasileira e em sua cultura, mas, ao mesmo tempo, possuem um sistema de significação e representação do mundo próprio e único.

O QUE É SUBCULTURA URBANA E TRANSLOCAL? Com a industrialização, urbanização e globalização das informações, a situação das culturas mudou bastante. Principalmente na segunda metade 1 2

definição de Edward B. Taylor, em “Introdução à Sociologia” Sebastião Vila Nova, em “Introdução à Sociologia”


Parte I

 O que é Subcultura?

do século XX, com o aparecimento da televisão e outros métodos de radiodifusão e, mais tarde, com o surgimento da Internet. Temos um cenário no qual a cultura das zonas urbanas industrializadas tende a perder características locais e a adotar características de uma cultura global economificada: a cultura da sociedade de consumo contemporânea. Neste contexto, depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), começam a surgir algumas subculturas urbanas, como os Beats, Rockers, Mods, Skinheads, Hippies, Glam-Rockers, Punks, Góticos, etc. Algumas delas desapareceram em pouco tempo, mas outras permaneceram e mantiveram coerência interna por um longo tempo. Hoje estas subculturas apresentam diversas características, entre elas, não serem limitadas geograficamente: a translocalidade. Essa e outras características da subcultura Gótica serão analisadas com mais atenção no capítulo 8Estrutura da Subcultura Gótica. Da mesma forma que as subculturas tradicionais ou regionais, o participante de uma subcultura translocal continua participando, de alguma forma, da cultura dominante local.

O QUE É BRICOLAGEM SUBCULTURAL? Levi-Strauss (3) comenta que a bricolagem é a montagem de um novo “jogo” a partir do campo limitado pelas peças pré-existentes. Bricolagem é um termo usado para explicar como uma cultura constrói seu sistema simbólico a partir de elementos pré-existentes e à disposição naquela cultura ou, eventualmente, herdados ou tomados de alguma outra cultura. Por isso, um mesmo símbolo vai ter, em culturas diferentes, significados diferentes. Mas apesar de diferentes, estes significados atribuídos não são aleatórios: constituem um sistema de significado que expressa, simbólica e esteticamente, a visão de mundo e modo de vida de um determinado grupo social. Ao estudarmos os mitos do mundo inteiro vemos como eles expressam os valores de suas sociedades de origem. Portanto, para entendermos o que significa “a águia” em determinada cultura ou subcultura, não adianta apenas estudarmos em profundidade as “águias” em geral. Devemos, isto sim, olhar para o modo de vida e convi3

Claude Levi-Strauss, em “O Pensamento Selvagem”

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vência daquele grupo subcultural, e verificar em que posição simbólica ele colocou a águia em seu sistema simbólico. Uma subcultura ao se apropriar de algum item de outra cultura ou subcultura vai, provavelmente, ressaltar algum aspecto que, apesar de poder estar contido nos sentidos gerais daquele item, não é necessariamente o que se destacava no sistema cultural original. Por exemplo, o Ankh na subcultura Gótica tem significados ressaltados pelos outros elementos do sistema subcultural Gótico, que não são os mesmos elementos ressaltados no sistema da religião e cultura Egípcia, origem do Ankh. Portanto, a origem não explica totalmente o uso atual e, às vezes, pode ser diverso.

O QUE É HOMOLOGIA? Homologia é o estudo das coisas homólogas. Coisas homólogas seriam aquelas que, apesar de diferentes na forma, guardam uma relação de significado, ou, ainda, a relação entre um conceito ou idéia e suas formas e símbolos.

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Alguns exemplos de homologia. A relação homóloga entre a música punk, suas roupas e a estética de seus fanzines, todos igualmente remetendo a idéias de urgência, fragmentariedade e desrespeito a ordem. Ou a relação homóloga entre o visual militar ou proletário de grupos skinheads e sua ideologia baseada em disciplina e respeito a valores tradicionais. Muito importante salientar que a homologia em um sistema cultural ou subcultural não é uma relação nem fechada nem estática. De forma comparável à língua de um povo, ela evolui de acordo com a sua utilização pelo grupo social e também tem um espaço grande de “ruído” que permite a sua renovação coerente e a criatividade dos indivíduos. No capítulo 9-item C-Absorção de Elementos de Estilos Relacionados, isso ficará mais claro. Em um estudo 4 sobre as subculturas urbanas inglesas posteriores a Segunda Guerra Mundial, o conceito de bricolagem subcultural é usado para explicar o modo de construção de sistemas simbólicos homólogos nas subculturas urbanas, como os mods, punks, rastas, skinheads, etc. No capítulo 5- A Homologia Subcultural, sua Flexibilidade e Evolução comentaremos mais sobre isso. 4

Resistence Through Rituals- Youth Subcultures in post-war Britain- edited by Stuart Hall & Tony Jefferson


Parte I

 O que é Subcultura?

02  SUBCULTURA GÓTICA: ALGUMAS POLÊMICAS SUBCULTURA, TRIBO, MOVIMENTO OU MODA? Existe uma polêmica entre o uso dos termos “subcultura”, “tribo” ou “movimento” para certos tipos de grupos sociais contemporâneos. Alguns autores conceituam tais termos de forma bastante próxima, enquanto outros autores aplicam estes termos a relações sociais com características bem diferentes. Não vamos entrar nesta polêmica aqui, pois, além de ser um debate extenso e cheio de sutilezas, provavelmente não interessaria à maioria de nossos leitores. Além disso, cabe salientar que a maioria dos termos oriundos das Ciências Sociais tem, pelo menos, mais de um sentido. Por isso, ao longo deste livro deixaremos bem claro em que sentido usamos o termo “subcultura”. O conceito de "tribo urbana pós-moderna" foi popularizado por Michel Maffesoli no final dos anos 80. Ele salientava mais características grupais como fluidez, transitoriedade, o localismo e "espírito de máfia" 1. Mas acreditamos que o conceito de "subcultura" é o mais adequado para o tipo de grupo social com as características que descrevemos aqui no capítulo 8-Estrutura da Subcultura Gótica: DIFERENCIAÇÃO CONSISTENTE, TRANSLOCALIDADE, IDENTIDADE, COMPROMETIMENTO e AUTONOMIA. Analisamos aqui a subcultura Gótica como uma subcultura por ser um "grupo social" que possui estas características. Algumas pessoas ou grupos podem se relacionar com a subcultura Gótica de formas menos comprometidas ou menos duradouras, convivendo com outras pessoas ou grupos que podem ter uma participação subcultural ao longo de décadas, funcionando como um eixo de sustentação. Mas também as mesmas pessoas podem passar por tipos e níveis de participação diferente ao longo dos anos. No Brasil, o termo movimento foi bastante usado no passado, mas mais recentemente passou a ser questionado na sua adequação, aqui, devido a 1

Michel Mafesolli- “O Tempo das Tribos”, 1987

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uma associação do termo apenas a “movimento social para mudar o mundo”. Todavia este não é o único sentido do termo movimento, que pode ser usado, por exemplo, também para escolas artísticas. Em outras línguas, todavia, o termo “movimento” 2 é eventualmente usado sem maiores restrições, com sentido próximo ao que usamos aqui para subcultura, ou em conjunto com outros termos. Grupos sociais com outras características e/ou outras estruturas internas podem receber outras definições.

GÓTICO: PRA SEMPRE “FORA-DE-MODA” (MAS COM MUITO ESTILO!) Os estilos das modas comerciais passam, pois não são ligadas a nada de substancial. Os estilos subculturais permanecem, pois fazem parte de um sistema (sub)cultural.

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Quando alguns jornalistas e bandas usaram pela primeira vez o termo “Gótico” para comentar um estilo, talvez imaginassem que fosse apenas mais uma moda passageira. Mas hoje, mais de 25 anos depois, em torno dos símbolos emitidos inicialmente (talvez inconscientemente) pelos artistas e seus trabalhos, se aglutinou todo um sistema simbólico de representação do mundo que vai muito além da música e do visual. Desde os anos 80 até hoje temos a consolidação uma subcultura urbana não centralizada, com história própria, espalhada por países de todo o mundo. A subcultura Gótica inclui produção musical, literária, cinematográfica, moda, comportamento, economia e trabalho (lojas, gravadoras, editoras, clubes) e entretenimento, etc. E, claro, inclui também relações afetivas com estes símbolos tão significativos e entre as demais pessoas ligadas a esta subcultura. 2

Antoine Durafour- em “Le Milieu Gothique”, 2005, como na citação que fazemos no início do capílulo “D) A TEATRALIZACAO E O CORPO”. Outro exemplo do uso do termo movimento de forma “apolítica” aparece neste trecho desta entrevista para versão portuguesa da revista Elegy francesa, especializada no estilo Gótico/ Darkwave/ Pos-Punk: Revista Elegy- “-Fala-me um pouco sobre o meio underground onde vives, o teu estilo de vida, de música que ouves? Qual é na tua opinião o futuro deste movimento? (…)”. Ronny Moorings, vocalista da banda gótica/darkwave Clan of Xymox, na ativa desde 1983 até hoje, responde: “ - O “Gótico” acaba por ser o único movimento alternativo onde me sinto confortável, também porque considero que é o único movimento alternativo que resta. (…)”. Revista “Elegy Ibérica”, edicão portuguesa, #02, 2006- entrevista com Clan Of Xymox


Parte I

 O que é Subcultura?

A participação do tipo subcultural acontece em um grupo social que possui uma visão de mundo diferenciada da sociedade dominante, mas também diferente de outras subculturas. A visão de mundo diferenciada de cada subcultura é expressa ou vivenciada através de seu sistema de símbolos. É importante ainda diferenciar os modismos que surgem DENTRO de uma subcultura X (decorrentes de sua evolução natural ao longo do tempo) dos modismos passageiros criados no mainstream inspirados em fragmentos de uma subcultura X pré-existente. São dois processos diferentes, mesmo que eventualmente possam se relacionar.

NASCI GÓTICO OU TENHO ALMA GÓTICA? Quando nos sentimos atraídos por uma subcultura, muitas vezes intuitivamente ou apaixonadamente, isso acontece geralmente porque as representações da visão de mundo desta subcultura englobam, combinam parcialmente ou produzem uma integração na nossa visão de mundo pessoal. Por isso, coloquialmente, é comum ouvirmos alguém dizer que ao conhecer a subcultura Gótica “descobri que sempre fui Gótico(a)” ou “Eu nasci com alma Gótica”. Obviamente estas são apenas formas coloquiais de dizer que aconteceu uma identificação com elementos que já existiam em nossa visão de mundo pessoal, em nossa personalidade, ou em nossos interesses pessoais.

OS ADOLESCENTES NAS SUBCULTURAS Nem subcultura Gótica é um modismo adolescente, nem todos os adolescentes se deixam seduzir por “modismos adolescentes”. Mas muitos adolescentes se aproximam da subcultura Gótica como se esta fosse um modismo adolescente. E, principalmente, nem todo adolescente se aproxima da subcultura Gótica por modismo. Alguns adolescentes buscam pertencer a “qualquer rebanho” ou “gangue” que lhe ofereça uma identidade fácil que possa ser uma alternativa à identidade de “filho” dependente dos pais que tinha até então. Este tipo de participação subcultural não nos interessa aqui, pois quem se aproxima de uma subcultura apenas para “ter amigos” ou “uma galera” vai se afastar desta subcultura pouco tempo depois, muitas vezes falando mal dela ou a ela se referindo como “coisa de adolescente”. De fato, para esta pessoa

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foi “coisa de adolescente” pois ela se aproximou por motivos equivocados: apenas por necessidade de pertencimento a algum grupo, necessidade de auto-afirmação e/ou uma identidade superficial e fácil. Claro que uma parte dos que se aproximam cedo de uma subcultura acabam se identificando de fato com o que ela significa. Mas para que isso aconteça é preciso que a pessoa descubra quem ela é ou quer ser. Subculturas não podem ser substitutos de nossa identidade, apenas fazem parte de nossa identidade, juntamente com outras coisas. Somos Góticos e ao mesmo tempo somos várias outras coisas não necessariamente relacionadas a subcultura Gótica. Sem dúvida, a convivência entre pessoas maduras que se percebem como Góticas inclui também “a proximidade afetuosa" ou “celebração grupal", mas neste caso a participação e pertencimento na subcultura Gótica não se baseiam apenas nestes dois fatores, pois a percepção de identidade subcultural permanece mesmo na ausência deles.

O DESAPARECIMENTO SOCIAL DA MORTE (E DA VIDA...)

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Os Góticos são muita vezes caricaturizados pela mídia de massa como pessoas mórbidas ou obcecadas pela morte. Esta visão redutora e preconceituosa espelha mais o recalque da cultura dominante em relação aos temas morte e mortalidade, e não diz nada sobre a subcultura Gótica. Conseguimos integrar cotidianamente nossa relação com a morte, processos vitais e de envelhecimento? Como Walter Benjamin 3 nos lembra, durante o século XX vivenciamos na sociedade urbana industrializada do ocidente o “desaparecimento” da morte e de outros processos que costumavam gerar historicidade e sentido em nossas vidas. Os nascimentos e os moribundos foram escondidos nos hospitais. Os velórios foram retirados das habitações e cada vez mais existem espaços públicos ou empresas privadas que tem espaços para o velório. Também os processos de preparação do morto para o enterro cada vez mais passam longe de seus familiares, lar e amigos. Assim, nossos “lares” e nossas vidas perderam muito de sua historicidade e sentido, e nossa percepção do processo vital natural foi brutalmente distorcida. Pior, ao perdermos a noção da perecibilidade e do ciclo vital, 3

Walter Benjamin - “Magia e Técnica, Arte e Política” cap. 10.


Parte I

 O que é Subcultura?

perdemos a noção de valor da vida que só o contato com a morte e os nascimentos nos traziam. Nesse contexto, não é nenhuma surpresa a existência de um subcultura que faz questão de “se” lembrar da morte e do “carpe diem”, valorizar a vida constantemente. Neste aspecto, podemos considerar a subcultura Gótica mais saudável e integrada do que a cultura economificada dominante, visto que esta última se aliena e até cinde com realidades vitais e vitalizantes. Não se trata de apologia ao pessimismo ou negativismo, mas, isto sim, de uma reintegração de aspectos da vida e da realidade humana. Principalmente daqueles aspectos hoje mais rejeitados e negados socialmente. Quem freqüentar a cena Gótica, em pouco tempo vai perceber que ela é bastante divertida e vivaz, como se alguém tivesse colocado conhaque demais no café de um velório e estivesse contando boas piadas…

03  A HOMOLOGIA SUBCULTURAL, SUA FLEXIBILIDADE E EVOLUÇÃO “...as civilizações antigas não tinham arte nem cultura, tal como as entendemos hoje. Isso quer dizer que a estrutura moderna, feita de esferas separadas e independentes, é totalmente estranha às sociedades antigas. (...) as sociedades pré-modernas... não tinham uma cultura, eram uma cultura. (...) a produção era estética, a estética era religiosa, a religião era política, a política era cultural, a cultura era social, e assim por diante. (...) Em uma sociedade como cultura - que tinha que integrar também a morte- a arte passava a ser necessariamente um componente da vida diária.” (Robert Kurz, 1998)

POR QUE DIABOS UM ESTILO ME ATRAI? Por que gosto mais de um poema do que de outros? Perguntas como “o que mantém a coesão de uma subcultura” ou “o que faz com que uma determinada subcultura atraia algumas pessoas e não outras” geralmente são difíceis de responder. Para entender melhor estas e outras questões que envolvem as relações entre estilo e significado nas

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subculturas, neste texto abordamos o conceito de “homologia subcultural” desenvolvido no livro “Subculture: the meaning of style” de Dick Hebdige, 1979. Observando o funcionamento da homologia em outras subculturas, podemos apreender instrumentos que nos ajudam a entender a relação entre estilo, estética, valores e significados na subcultura Gótica ou em qualquer outra. “Paul Willis (1978) aplicou a palavra “homologia” a uma subcultura no seu estudo dos hippies e motociclistas, usando o termo para descrever a relação simbólica (symbolic fit) entre os valores e o estilo de vida de um grupo, sua experiência subjetiva e as formas musicais que este grupo usa para expressar ou reforçar o que considera importante. No texto “Profane Culture”, Willis mostra como (...) a estrutura interna de qualquer subcultura é caracterizada por uma extrema ordenação: cada parte é organicamente relacionada a outras partes e é através da adequação entre elas que os membros de uma subcultura entendem o sentido do mundo.” (Dick Hebdige, 1979)

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Sem dúvida essa ordenação é flexível e acontece uma evolução ao longo do tempo, caso a subcultura não deixe de existir. O próprio Hebdige comenta que essa relação homológica entre as partes simbólicas do estilo subcultural e seu significado não é fechada e fixa para cada membro de uma subcultura.

UM “NÃO” ESPECÍFICO E CRIATIVO Pelo contrário, os significados subculturais se constituem muitas vezes como uma “recusa específica” que não dita uma regra de comportamento. Mas, ao recusar alguns aspectos do mundo, acaba por salientar outros. E esta escolha, como veremos adiante, pode ser feita de formas bem diversas. Patrice Bollon, em “A Moral da Máscara”, também aborda a questão da recusa ao comentar sistemas estéticos: “Mais do que sistemas de normas, são sistemas de tabus. Podemos dizer o que absolutamente não seriam; mais difícil seria dizer o que são. (...) Seu código... não estabelece uma sensibilidade, um significado, ou uma ideologia; ele delimita um espaço de sensibilidade, uma área de significados, um feixe de atitudes, uma constelação de idéias no interior dos quais todas


Parte I

 O que é Subcultura?

as modulações são permitidas, ou até requisitadas. (…) A meta foi atingida: criar uma concepção do mundo, circunscrever uma visão passível de evoluções que permitam a expressão pessoal. (…) Com efeito, o que as (modas e culturas) aproxima é que nenhuma delas oferece “respostas” às perguntas: elas se contentam em delimitar espaços onde simplesmente essas perguntas não são mais feitas.” (Patrice Bollon, 1990) Essa concepção poderia ser aplicada também ao estilo em uma subcultura ou de uma cultura tradicional (ex: estilo das vestimentas egípcias em relação à sua cultura, etc). Este “espaço de sensibilidade, uma área de significados, um feixe de atitudes, uma constelação de idéias” são uns, e não quaisquer: diferente em cada subcultura, e é esta “concepção de mundo” que define cada subcultura.

CONSTRUÇÃO DE UMA MITOLOGIA: MEU REINO POR UM SENTIDO! Ao mesmo tempo, os símbolos, rituais, objetos, comportamentos, vocabulário, etc, constroem um tipo de mito ou sistema através do qual o membro da subcultura se vê no mundo e vê o mundo como o imagina. Através da escolha desta ou daquela subcultura, o indivíduo escolhe um sentido e significados através dos quais ele olhará e vivenciará, pelo menos em alguns momentos, o mundo. Hebdige explica como os objetos de estilo de uma subcultura são em grande parte equivalentes das questões centrais, auto-imagem coletiva e estrutura social desse grupo subcultural. Nos objetos os membros podem ver seus valores centrais refletidos. O autor exemplifica comentando os Skin-Heads: “As botas, os suspensórios e o cabelo raspado só foram considerados apropriados e conseqüentemente significativos porque eles comunicavam as qualidades desejadas: dureza, masculinidade e a classe trabalhadora local. Desta forma, os objetos simbólicos - roupa, aparência, linguagem, ocasiões de ritual, estilos de interação, música- foram feitos para formar uma unidade com as relações, situações e experiência do grupo” (Hall, 1976). Já ao comentar os Punks, o autor comenta que eles se vestem como xingam, e sua música se parece com sua roupa e sua visão de mundo: urgente, fragmentada, uma colagem agressiva de pedaços de símbolos de

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um mundo sem sentido. “Havia uma relação homológica entre as roupas toscamente remendadas, o cuspir, o vomitar, o formato dos fanzines, as poses insurgentes e a música conduzida freneticamente.”

“EU FALO ATRAVÉS DE MINHAS ROUPAS” O “discurso” não é apenas aquilo que é dito através de palavras enunciadas ou escritas. “Discurso” é também o que um objeto quer dizer, seu “sub-texto” não dito. E este objeto pode ser uma roupa, um comportamento, um acessório, uma foto, um quadro, uma peça, etc. Hebdige nos explica que há dois tipos de apropriação subcultural dos objetos. Um tipo que se concentra no ato de transformação do objeto simbólico (roupa, cabelo, música, literatura, ícones religiosos ou ideológicos, etc). O outro tipo se concentra na reverência do significado literal do objeto simbólico. “A suástica estava sendo usada para significar o quê? (…)

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Convencionalmente, no que interessava aos ingleses, a suástica significava “inimigo”. Além disso, no uso dos punks, a suástica perdeu o seu significado histórico “natural” no século XX: nazi-fascismo. (...) a suástica era usada (pelos punks) por que era garantia de chocar. Um punk entrevistado pela Time Out (1977) por que ele usava suástica respondeu:- “os punks apenas gostam de ser odiados”. Ao contrário dos punks, no caso de um Neo-Nazista, a suástica é usada no sentido tradicional e literal: respeitosamente. Assim, vemos que um mesmo símbolo ou tema pode ser adotado com significados diferentes, ou até opostos, por grupos sociais diferentes. Tomarmos como referência o sentido original da suástica usado pelas religiões antigas seria um total equívoco no entendimento do uso feito dela pelos grupos que comentamos acima.

CUIDADO! DESLIZAMENTO DE SIGNIFICANTE NA PISTA… “…quando aquele objeto é colocado dentro de um conjunto totalmente diferente, um novo discurso é constituído, uma nova mensagem é veiculada.” (Clarcke, 1976, em Hebdige, 1979) Por exemplo, os Góticos, desde os anos 1980, adotam a cruz e outros símbolos com um deslizamento de sentido desses objetos, inserido-os em


Parte I

 O que é Subcultura?

um novo sistema simbólico: o sistema da subcultura Gótica. Podemos dizer que os Góticos fizeram o mesmo até com elementos de estilos literários e musicais, vestuário, maquiagem, etc. No sistema Gótico, a cruz vai servir de símbolo que remete a todas as coisas socialmente relacionadas à cruz: sofrimento do inocente, paixão de cristo (“stigmata martir”), morte, cemitérios urbanos, etc. Da mesma forma que punks não são nazistas ao usar uma suástica, Góticos não usam cruzes por que são cristãos (apesar de alguns serem) nem usam ankhs por que pretendem ser egípcios… Assim, vemos que o que define a atitude e o significado de uma subcultura não é apenas o objeto, símbolo ou tema cultural do qual ela se apropria. O mesmo tema ou objeto pode gerar significados e visões de mundo muito diferentes e até opostas, dependendo da forma como uma subcultura se apropria deles, se de forma “respeitosa e literal” ou de forma “transformadora e recontextualizada”. O significado geral vai ser definido pelo todo do sistema simbólico.

DE PROFUNDIS NA SUPERFÍCIE: Assim, divisões artificiais entre “superficial” e “profundo” aqui não fazem muito sentido. Sem o seu estilo, tanto uma subcultura como uma escola artística deixa de ter significado. O que seria da pintura Expressionista sem as pinceladas largas e a proporção emocional? O que significaria a poesia cubista se escrita em sonetos? A arquitetura Bauhaus não seria Bauhaus se usasse ornamento Barroco. E assim por diante. Como já vimos, um mesmo significado pode ser aplicado a vários símbolos, ou o mesmo símbolo, por apropriação, ser utilizado para outros significados. Em uma subcultura, o significado de cada objeto apropriado por ela é recriado pelo conjunto dos objetos de seu sistema. Cada item de um sistema subcultural muda e reforça o significado dos outros itens, e o conjunto forma um estilo significante e coerente como um todo, apesar do “ruído” e espaço “em aberto” que existe em qualquer “discurso poético” no qual cada indivíduo pode interagir individualmente com o significado, acrescentando elementos pessoais.

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A COZINHA GÓTICA NUM RESTAURANTE PERTO DE VOCÊ… Paul Hodkinson, em seu livro “Goth: Identity, Style and Subculture”, 2002, depois de rejeitar um conceito mais rígido e mecânico de homologia, escreve: “Muitos integrantes sentiam que havia algum tipo de ligação entre seu estilo e certas qualidades gerais que eles compartilhavam com os demais góticos, incluindo criatividade, individualidade, liberalismo e compromisso…” Em outros capítulos Hodkinson faz uma extensa descrição das características recorrentes e perenes que registrou na cena Gótica inglesa. Outros autores comentando a cena Gótica francesa (Antoine Durafour), norteamericana, inglesa ou mundial (Nancy Kilpatrick, Gavin Baddelley, Mick Mercer, etc) ressaltam as mesmas características centrais e estruturantes que encontramos entre Góticos brasileiros.

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Cozinheiras diferentes preparam a mesma receita com um toque especial e adapta-se aos condimentos mais fáceis de achar na sua região. Da mesma forma, as diferenças locais entre as diversas cenas Góticas mundiais se limitam a ressaltar algum ponto que faz mais sentido devido à história, geografia e condições sócio-econômicas de cada uma delas. Mas sem descaracterizar os significados essenciais que as definem como parte da subcultura Gótica. Ressaltamos que não existe homologia “fechada” ou “imutável”.

ABÓBORAS NÃO FRAGMENTADAS “Quantos mais grupamentos subculturais em uma sociedade, maior a liberdade potencial do indivíduo.”, escreveu Alvin Tofler em “O Choque do Futuro”, há mais de 30 anos. Sem dúvida alguém pode se fantasiar de gótico ou de abóbora no halloween, e isto não ter muito significado para aquela pessoa. Os significados só se tornam aparentes em um determinado contexto. Assim, no contexto da subcultura Gótica, é perceptível uma relação de homologia entre a estética do estilo e o discurso que verificamos na produção de canções, textos, imagens, pinturas, esculturas, comportamentos humanos em relações sociais, linguagem, mitos, etc, e uma certa visão de mundo expressa abertamente e de forma recorrente nos últimos 25 anos.


Parte I

 O que é Subcultura?

Sem dúvida estes significados não são fechados, da mesma forma que as imagens de um poema não são. Cada poema tem um feixe de significados interligados. Mas apesar de vasto, este feixe não é infinito. No caso de um poema, seus significados só são separáveis de sua forma e estilo com a sua destruição. No caso de uma subcultura que continua ao longo de muito tempo, parece que novos versos são possíveis e alguns vocábulos atualizáveis, sempre variando sobre o sentido original. E às vezes uma estrofe gera um novo poema, mesmo que o texto original siga um rumo paralelo… Finalmente, respondendo à pergunta do começo deste texto, podemos dizer que um estilo nos atrai por que de alguma forma – provavelmente não consciente - reconhecemos afetivamente em seus símbolos algo que buscamos, talvez a simulação ou a realização de um dos artigos mais raros atualmente: o sentido. Quando nos sentimos atraídos por uma subcultura, muitas vezes intuitivamente ou apaixonadamente, isso acontece geralmente porque as representações da visão de mundo desta subcultura englobam, combinam parcialmente ou produzem uma integração na nossa visão de mundo pessoal.

04  A EVOLUÇÃO DAS ESTRUTURAS SUBCULTURAIS ONTEM E HOJE Algumas características diferenciam as subculturas do passado das

atuais, entre elas:

1. LONGEVIDADE Até o final dos anos 1970 poderíamos ter a impressão que todas subculturas eram “juvenis” e fadadas a serem fenômenos passageiros substituídos por outros ao final de alguns anos. Mesmo os duradouros “Beats” haviam desaparecido. Mas hoje vemos que algumas subculturas possuidoras de sistemas de significação mais ricos permanecem ativas, organizadas e, principalmente, em atualização. E não se tratam de meros “revivals”. Estas subculturas permaneceram organizadas mesmo depois que a mídia de massa as “deixou” de lado, e sobreviveram a inúmeras modas que

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nas últimas duas ou três décadas surgiram e desapareceram. Alguns exemplos significativos são a subcultura Gótica, e as subculturas ligadas ao HipHop ou ao Metal. A subcultura Gótica, por exemplo, permanece em atualização por mais de 20 anos, apresentando redes atualizadas de relações humanas e produção cultural. Nada indica que estas subculturas venham a desaparecer.

2. DESTERRITORIALIZAÇÃO

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Algumas subculturas dos anos 1950, 60 e até 70 dependiam fortemente da proximidade física e geográfica dos seus membros para manter um vínculo que muitas vezes se tornava realmente um tipo de “gangue” ou de base hierárquica, ou “ainda círculo de informação” fechado. Mas aos poucos temos uma transição para outro modelo mais sustentável e durável. Se Teds, Rockers, Mods e Skin-Heads dependiam nas suas épocas de sua relação grupal e territorial, hoje temos subculturas urbanas que são até transnacionais ou “translocais”. A popularização da Internet no final dos anos 1990 levou a uma disseminação da informação sem dependência nem da mídia de massa mainstream, nem da “gangue”, grupo ou fanzine underground. Com isso o acesso subcultural deixou de ser mediado por grupos que mantinham a informação como capital de controle ao acesso subcultural. Assim, vemos que a relação dos indivíduos de uma subcultura como a Gótica, em 2007, se dá muito mais com os conceitos e informações da subcultura e que estes são bastante homogêneos de país para país: um gótico italiano vai ter mais assunto com um gótico brasileiro do que com seu vizinho da frente nãogótico. Em outras subculturas, todavia, a relação grupal e de hierarquia permanece até hoje, devido exatamente ao sistema de características dessas subculturas.

3. PARTICIPAÇÃO FEMININA Se entre Teds e Rockers a participação feminina permanece muito próxima do papel tradicional da mulher na sociedade daquela época (1950/60), já com os Mods iniciais (aprox. 1964) temos uma estética e atitude que permite que as mulheres participem de várias formas, e não apenas como “acompanhante”. A participação feminina pode ser com outras


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 O que é Subcultura?

mulheres ou até sozinha. Paralelamente, subculturas mais “machistas” vão manter a mulher em uma posição mais tradicional. No final da década de 1960 temos o surgimento dos SkinHeads e dos Hippies, que tem posições bem diversas em relação a participação feminina. Mesmo que existisse uma certa participação feminina, até hoje os Skinheads permanecem com uma estrutura basicamente masculina. Já os Hippies, surgidos em uma época em que as mulheres jovens conseguem mais espaço na classe média, apresentam modelos de mulher Hippie da mesma forma que a mulher Mod (e não mera acompanhante) em quantidades “normais”. Nos anos 70 cresce este movimento de participação feminina no Glam o New Romantic e o Gótico, a participação feminina chega a um ponto quase de igualdade, principalmente no Gótico, que apresenta de 1984 até hoje uma dominância de valores socialmente considerados femininos. Nos anos 90 vamos ver algumas subculturas de afirmação feminina em que as mulheres tomam papel de destaque, como as Riot-Grrrls.

4. ACESSIBILIDADE E PARTICIPAÇÃO O acesso a uma subcultura depende de uma combinação de disponibilidade de condições sócio-econômicas do indivíduo e da abertura da estrutura da subcultura. No passado a acessibilidade dependia de um contato com “grupos na rua” (o que, por exemplo, nos anos 50 condenava a participação feminina a ser periférica) ou mesmo rituais de passagem, ou pactos de irmandade. Por outro lado, algumas das subculturas que sobreviveram mais tempo têm hoje uma alta acessibilidade, sendo que a participação e o começo do processo de conhecimento pode se dar até mesmo sem um contato direto. Isso torna os indivíduos menos dependentes de estruturas grupais limitadas pelo tempo e espaço. Isso evita que uma subcultura desapareça em uma região se um grupo de referência desaparece. A descentralização da informação oferecida pela comunicação via Internet nos últimos 10 anos ou mais permitiu que algumas subculturas chegassem a um nível de estabilidade e segurança que não tinham no passado.

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Como desenvolveram tanto uma micro-mídia ou sistemas de comunicação subculturais, estas subculturas não são mais dependentes da mídia de massa (para a qual tudo é passageiro) nem apenas de grupos de controle e organização locais (que podem acabar).

5. DESJUVENILIZAÇÃO E DESCRIMINALIZAÇÃO

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O fato de algumas subculturas como a Skinhead, a Metal ou a Gótica já durarem mais de 20 ou até 30 anos faz com que a participação deixe de ser um fenômeno “juvenil de transição ou adaptação” como nas subculturas dos anos 50 ou 60, ou de consumo de modas passageiras que são ainda hoje vendidas pela mídia de massa como “movimentos”. Por exemplo, na subcultura Metal, encontramos muitos indivíduos de mais de 40 anos, com todas as idades intermediárias, o mesmo acontecendo com a subcultura Gótica, na qual encontramos indivíduos dos 15 até mais de 40 anos. Interessante notar que muitas vezes observamos em subculturas como a Gótica e a Metal, o fenômeno transgeracional, ou seja, pais e filhos participando juntos de Shows e Eventos e compartilhando gostos subculturais semelhantes. A proporção parece menor entre os mais velhos, mas é preciso notar que muitas vezes após os 30 anos muitos se tornam membros subculturais “indoor” ou menos visíveis. Também vemos que a relação de subculturas com grupos juvenis ligados ao crime deixa de ser algo comum para se tornar exceção ou inexistente, exatamente pelos fatores citados nos itens 2 e 4, entre outros motivos. Todos estes fatores somados mostram claramente que as estruturas subculturais são fenômenos em constante atualização, e que se diferenciam tanto das modas passageiras atuais, quanto de modelos de subculturas do passado que se mostraram fadados ao desaparecimento.


Parte II  O que é Subcultura Gótica?

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Parte II

 O Que é Subcultura Gótica?

05  F.A.Q. GÓTICO 55 PERGUNTAS FREQÜENTES SOBRE A SUBCULTURA GÓTICA por

YÄöä|t YÄtÇá{t|w e ^|ÑÑxÜ

Este FAQ busca apenas passar as informações mais básicas de forma bem-humorada e informal. Várias destas questões são aprofundadas em outros capítulos. Uma dica importante: não procure tentar entender ou aprender tudo sobre o que quer que seja de uma vez só ou em pouco tempo: ninguém jamais aprendeu ou aprende assim, pois qualquer aprendizado é um processo afetivo, que exige pausas e retomadas. 01. O que significa a palavra “Gótico”? A palavra “Gótico” já teve inúmeros significados nos últimos 2000 anos, alguns destes significados relacionados entre si, outros não. Neste FAQ estamos abordando apenas a subcultura urbana que surgiu na Inglaterra no começo dos anos 1980 e se desenvolveu e se espalhou pelo mundo todo até hoje. 02. Por que essa subcultura recebeu o nome “Gótico” Na passagem dos anos 70 para os anos 80 este rótulo foi usado inicialmente como adjetivo, ironia ou brincadeira para definir um estilo (música, visual, comportamento) que surgiu na Inglaterra. Após 1983 o nome pegou completamente, e denomina até hoje a subcultura mundial que aí se originou. 03. Mas o nome Gótico não foi dado por causa daqueles bárbaros (Góticos, Visigóticos, Ostrogóticos, etc) que invadiram o Império Romano até os séculos IV e V? Não. Ao longo dos séculos as palavras Goth e Gothic, em Inglês, desenvolveram vários outros significados. 04. Já sei: Então o nome Gótico foi dado a esse movimento por causa das catedrais Góticas do século XI a XIV? Não diretamente. Nem essas catedrais eram chamadas de Góticas quando foram construídas. Elas foram chamadas de “Góticas” muito tempo depois, pelos Renascentistas e Iluministas, pejorativamente, para criticar a ideologia católica da Idade Média, a qual se opunham. 05. Então as Catedrais Góticas não foram construídas pelos Godos (Góticos)? Não. Elas foram contruídas muitos séculos depois que os Godos já tinham se diluído na cultura Européia. Essas catedrais expressam a ideologia e a estética da Igreja Católica e da nascente burguesia urbana da época de sua construção.

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06. Qual o significado de “Gothic” em Inglês? O adjetivo “Gothic” em Inglês carrega sentidos que lembram: vitoriano, sombrio, misterioso, fantasmal, onírico, macabro, amedrontador, etc. 07. Então tudo que é vitoriano, sombrio, misterioso, fantasmal, onírico, etc é Gótico? Sim, mas não no sentido exato que foi usado para designar o movimento estético e a subcultura que surgiu em 1980. Lembre-se que o uso foi metafórico e também irônico. 08. Como a palavra Goth adquiriu este sentido em Inglês? Entre o século XVIII e o XIX existiu um movimento literário chamado Romantismo, ligado ao chamado Romance Gótico. Eles ajudaram a estabelecer a imagem de Gótico como sombrio, fantasmagórico, misterioso. 09. Isso aconteceu por que as Catedrais Góticas são sombrias? As catedrais góticas não são sombrias. Arquitetonicamente, elas são caracterizadas por grandes janelas cobertas de vitrais coloridos. As paredes se resumem quase que a molduras das janelas. A estrutura geral é leve. 10. Por que diabos elas foram então chamadas de “Góticas”? Intriga da oposição...Pela “oposição” dos movimentos filosóficos e artísticos que vieram depois, para criticá-las. 11. Então por que os Românticos usaram “Gótico” como algo bom?

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Por que já tinha se passado mais de um século, e os Românticos resolveram criticar aqueles que tinham criticado o fim da Idade Média. Assim, o que era um nome pejorativo passou a ser o nome “legal” de uma estética. 12. Caraca! Isso tudo influenciou o movimento que surgiu nos anos 1980? Não diretamente. Ainda estamos falando do sentido da palavra! Muitas outras coisas influenciaram também. Existem as influências diretas, as influências do contexto, as referências indiretas, a reapropriação de conceitos... 13. Quais são as influências diretas? Musicalmente, vamos considerar influências diretas aquelas desde meados dos anos 60 em diante. Levando em conta os estilos musicais e entrevistas podemos citar os seguintes movimentos: o Krautrock, o Glam, o Proto-Punk, e o Beat. Entre os artistas que influenciaram diretamente, de 1965 a 1975 temos: David Bowie, Nico, Velvet Underground, The Doors, Lou Reed, Iggy Pop & The Stooges, John Cale, Roxy Music, Brian Eno, Cabaret Voltaire, Patty Smith, T-Rex, New York Dolls, Kraftwerk, Throbbing Gristle, Pere Ubu, Suicide, Leonard Cohen etc. 14. Mas o Gótico é apenas um estilo musical? Não. O Gótico é uma subcultura completa. Sem dúvida a música é um eixo importante. Mas, como em qualquer cultura, outros elementos são constituintes também.


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 O Que é Subcultura Gótica?

15. O que é uma Subcultura? … uma cultura paralela à Cultura Oficial, que não combate a cultura oficial, mas também não a aceita. Uma subcultura busca construir um universo a parte, que faça sentido para seus membros, integrando música, pintura, literatura, roupas, eventos, festas, lojas, trabalho, relações humanas, comportamento, etc. Para saber mais leia a parte I deste livro – O que é Subcultura? 16. E como é a Literatura da subcultura Gótica? Não existe Literatura “da” subcultura Gótica, existem vários estilos literários mais apreciados nesta subcultura, entre eles, o Romance Gótico (Walpole, Mary Shelley, etc), Romantismo (W.Blake, Keats, Byron, E.A.Poe, etc), a poesia Simbolista/Decadentista (Baudelaire, T.S.Elliot, Rimbaud, Oscar Wilde, etc), o romance Existencialista (Camus, Sartre, etc), Literatura Beat (Ginsberg, Burroughs), etc. 17. Mas meu professor de Literatura disse que existe Literatura Gótica, ele não sabe disso? Ele está certo, apenas está se referindo a uma tendência ou movimento específicos dentro da Literatura, e não especificamente a subcultura Gótica de que falamos aqui. 18. A Literatura Gótica influenciou o movimento dos anos 1980? Não diretamente, mas sem dúvida o movimento dos anos 1980 fez releituras ou sátiras da Literatura Gótica. Essa Literatura também serviu de tema para movimentos artísticos anteriores, que influenciaram o movimento estético dos anos 1980, como, por exemplo, o Expressionismo. 19. E como posso saber que estes movimentos artísticos influenciaram diretamente a subcultura Gótica? Por que eles são citados diretamente pelas bandas ou tem suas estéticas usadas por elas. Encontramos citações tanto diretas quanto de estilo nas capas de álbuns, nas músicas e nas letras. Alguns exemplos: • o nome e o logotipo da banda Bauhaus são os mesmos da escola artística (pintura e arquitetura) Bauhaus. Ilustrações e fotos dos primeiros álbuns da banda traziam imagens de filmes expressionistas ou de terror antigos. • A música “Killing an Arab” do The Cure é baseada no romance “O Estrangeiro” (do existencialista francês Albert Camus). O Bauhaus tem uma música com o nome do teatrólogo surrealista francês Antonin Artaud (“teatro da crueldade”) e outra com o nome do ator do cinema expressionista Bela Lugosi. • A banda Siouxsie & The Banshees tem uma música chamada Premature Burial baseada no conto de mesmo nome de Edgar Allan Poe. • musicalmente, temos muita influência da música desenvolvida pelo modernismo, com conceitos como o minimalismo, música étnica, musica eletrônica, não–música, etc, etc. Se você procurar, encontrará muitos outros exemplos.

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20 Quem foi Bela Lugosi? Bela Lugosi (1882-1956) foi um famoso ator de origem húngara que participou de inúmeros filmes, mas foi imortalizado (hmmm....) como o Drácula canastrão produzido por Tod Browning (“Dracula”, 1932). A música “Bela Lugosi is Dead” (1979) da banda gótica Inglesa Bauhaus se refere a ele, e é considerada por muitos como o “hino gótico”. 21 O Expressionismo e o Cinema Expressionista tem a ver com o Gótico? Tanto a estética dos filmes como da pintura Expressionista tem sido bastante usada pelos Góticos desde os anos 1980. Ex: filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari”, “Metrópolis” “Nosferatu” e “Drácula” entre muitos outros. O cinema de terror “B” também é uma fonte inesgotável de inspiração para o humor Gótico. 22 Os Goticos só vestem preto? Eu tenho que vestir preto para ser Gótico? Você não precisa vestir só preto e nem os Góticos vestem apenas preto. Mas buscam um grande contraste e superposição de estilos diversos. O importante é o efeito dramático. Geralmente isto é conseguido usando alguma peça de tom escuro. 23 O Gótico verdadeiro é apenas o dos anos 80? Não. A subcultura e o gênero musical surgiram e se caracterizaram nos anos 80, mas continuaram a crescer e a se desenvolver mundialmente nos anos 90 e continuam até hoje.

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24 Então por que dizem que o Gótico dos anos 80 acabou nos anos 90? Porque em 1º de janeiro de 1991, os anos 80 acabaram e começaram os anos 90!!!! Assim, os álbuns lançados a partir desta data não poderiam jamais ser considerados como anos 80 por uma questão cronológica...rs. Logo, nos anos 90, temos o Gótico dos anos 90 e hoje o Gótico dos anos 00...J. Muitas bandas góticas dos anos 80 continuaram em atividade nos anos 90 e algumas continuam até hoje. Também muitas outras bandas surgiram nos anos 90, tanto com novas propostas, quanto inspiradas nas bandas dos anos 80. E depois do ano 2000 isso continua acontecendo até os dias de hoje. Logo, o Gótico não só nunca acabou como não houve nenhum período no qual ele tenha deixado de existir. Apenas a informação das cenas Góticas dos Estados Unidos e da Europa deixou de chegar atualizada até o público brasileiro, como chegava até o começo dos anos 90. 25 Quais são as principais bandas dos anos 80? Bauhaus, Siouxsie and The Banshees, Cocteau Twins, Dead Can dance, The Cure, Joy Division, The Damned, X-Mal Deutschland, Echo and The Bunnymen, The Smiths, Sisters of Mercy, The Mission, Einsturzende Neubauten, Alien Sex Fiend, Nick Cave, Opera Multi Steel, Poesie Noire, Clan of Xymox, The Fields Of The Nephillin, The Jesus and Mary Chain, Depeche Mode, Mecano, Front 242, Trisomie 21, Malaria, Christian Death, Sex Gang Children, Mephisto Walz, UK Decay, Killing Joke, Black Tape For a Blue Girl, Kirlian Camera, etc.


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26 Quais são as principais bandas dos anos 90? Switchblade Simphony, London After Midnight, Wolfsheim, Nosferatu, Inkubus Sukkubus, Faith and The Muse, Sopor Aeternus, The Cruxshadows, Love Spirals Downwards, Ikon, Bella Morte, Cranes, Miranda Sex Garden, La Floa Maldita, Rosetta Stone, Lycia, Sunshine Blind, Project Pitchfork, The Merry Thoughts, Das Ich, Shadow Project, Diary of Dreams, Collection D’Arnell Andrea, L’Ame Imortelle, In Strict Confidence, The House of Usher, Paralysed Age, Manuskript, Libitina, Two Witches, Spahn Rach, De/Vision, Beborn Beton, Wumpscut, Apoptygma Berzerk, VNV Nation, QNTAL, etc. 27 Quais as principais bandas recentes (século 21)? Diva Destruction, BlutEngel, The Vanishing, The Ghost of Lemora, Collide, Ego Likeness, Audra, Hatesex, Frank The Baptist, Elusive, Dresden Dolls, Cinema Strange, The Last Days of Jesus, Rasputina, The Screaming Banshees Aircrew, Scary Bitches, Zombina & The Skeletones, Darvoset, Black Ice, The Birthday Massacre, Diorama, Helium Vola, Katzenjammer Kabaret, Cauda Pavonis, Elusive, Welle Erdball, Tragic Black, Devilish Presley, Human Disease, Scarlet Remains, Carfax Abbey, Anders Manga, Shadow Reichenstein, Eisbrecher, Android Lust, Voltaire, etc. 28 Existem bandas brasileiras em atividade hoje? Sim. Exemplos: Elegia, Plastique Noir, Tears of Blood, Scarlet Leaves, Zigurate, Strangeways, Banda Invisível, Dead Roses Garden, Vesúvia, Necrópolis, Downward Path, Pecadores, Bells of Soul, Escarlatina Obsessiva e muitas outras. 29 Mas então o Gothic Metal não foi a evolução do gótico nos anos 1990? Nããaãããããaãão!!!! Não mesmo. Com certeza não foi. De jeito nenhum, nein, niet, non. A falta de informação ocorrida na cena Gótica brasileira nos anos 90 gerou um espaço propício para a proliferação da idéia de que o Gótico havia acabado e que o “Gothic Metal” seria a “evolução” do Gótico. Idéia essa muito interessante para as gravadoras e produtoras interessadas em comercializar esse “rótulo”. A partir daí, qualquer banda de “Metal” que tivesse vocal feminino lírico ou teclado ou letras “trevosas-du-maaal” passou a ser comercializada sob o rótulo “Gothic Metal”, sendo que muitas vezes isso era até imposto às bandas pelas gravadoras como condição para a gravação. 30 Góticos são deprimidos? Não. Depressão é uma doença, um distúrbio bio-químico do organismo que pode ser gerado ou não por distúrbios emocionais e, como qualquer doença, deve receber tratamento médico e psicológico. Góticos apenas não fogem dos aspectos e momentos doloridos ou mais tristes da vida, pois consideram que estes são partes integrantes da vida, assim como o ano tem tanto inverno como verão. Você pode dizer que os Góticos são mais “melancólicos” e “saudosistas”, esses termos são mais apropriados (não que saibamos exatamente do que temos saudade, mas devemos ter perdido algo muito legal...)

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31. Melancolia é tristeza? Não. Tristeza é algo muito chato, apesar de fazer parte da vida. Já melancolia é algo mais interessante! Posso ser melancolicamente triste, ou melancolicamente alegre, ter prazeres melancolicamente, rir melancolicamente ou chorar melancolicamente. A base da melancolia é a presença constante da consciência de que a vida e cada experiência vivida está fadada ao fim (mas não é por isso que vamos deixar de aproveitar todos os bons momentos, não é mesmo?) 32 Góticos cometem o suicídio? Claro que não, senão não existiriam mais Góticos...rs... nem eu estaria escrevendo isso aqui… 33 Góticos tem religião? Só aos domingos!!! Brincadeira. Os Góticos podem ter a religião que eles bem entenderem, ou nenhuma, mas essa é uma escolha pessoal, não tendo nada a ver com a subcultura Gótica. Evidentemente, pessoas ligadas a religiões muito conservadoras e que seguem suas regras ao pé da letra podem ter problemas com alguns elementos da poesia, da música, do comportamento, do visual, e do discurso da subcultura gótica que sejam contra algumas regras tradicionais ou conservadoras. 34 Góticos são etnicamente brancos?

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Não! Góticos costumam usar maquiagem de teatro, cinema antigo, cabaret ou circo, para expressar dramaticidade e/ou androginia. 35 Mas por que querem expressar isso? Como a subcultura Gótica/Darkwave existe em um contexto de “fuga e crítica” à sociedade Industrial-Positivista, essa subcultura adotou vários elementos estéticos considerados “antigos” de grupos considerados “underground” ou “decadentes” ou “pervertidos” ou ”artísticos” no passado. Ex: a estética de teatro, cinema expressionista ou noir, circo, vaudeville, etc. 36 O Gótico surgiu do Punk? Não apenas do Punk. O Punk teve o efeito de dar notoriedade a muitos artistas, mas muitas influências diretas do Gótico e da Darkwave são anteriores ao Punk 1976- 77. Se o Gótico tivesse simplesmente surgido do Punk, a maioria de suas características principais teriam surgido do nada. O Glam-Rock, o New-Romantic e o KrautRock, por exemplo, também tiveram grande influência na formação do Gótico, sem falar das influências não musicais. 37 Que outros estilos musicais e subculturas influenciaram e influenciam de alguma forma a música da subcultura Gótica? Algumas dúvidas sobre isso podem ser esclarecidas no capítulo 15- Glossário de Estilos Musicais relacionados à Subcultura Gótica. 38 O que é Pós-Punk? Não vamos entrar em detalhes da historia do Pos-Punk aqui. Do ponto de vista do Gótico, basta saber que de 1979 a 1983, entre as muitas bandas que eram


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consideradas Pos-Punk apenas algumas eram ao mesmo tempo consideradas Góticas. Assim, nem tudo o que é Pos-Punk é Gótico!!! 39 Ah! Entendi! Então nem tudo o que é Pos-Punk é Gótico! Mas tudo o que é Gótico é Pós-Punk? Nâãããããão!!! Talvez apenas bem no começo, quando, afinal, praticamente TUDO era Pos-Punk e a subculttura Gótica ainda não havia se definido totalmente. Hoje a subcultura Gótica se expressa através de vários outros estilos. 40 Qual a diferença entre Gótico e DeathRock? Sabe aqueles casais que vivem resmungando e brigando o dia inteiro por décadas a fio, mas que não tem coragem para se separar, nem para admitir que se amam? … um caso desses. A diferença é de grau, alguns elementos são mais explorados no Deathrock e outros mais no Gótico. Musicalmente o DeathRock costuma trabalhar com tendências mais próximas ao punk, apesar de algumas bandas trabalharem com rock e eletrônico, mas sempre de forma mais minimalista. Tematicamente, o Death-Rock tende mais para o humor, horror e ironia. Não que o Gótico não trabalhe também com estes traços, mas de forma menos acentuada. A temática Gótica costuma ser um pouco mais “trágica”, mas ao mesmo tempo irônica. O DeathRock pode tanto participar de uma cena Gótica quanto se organizar em uma cena paralela. 41 Góticos têm que gostar de frequentar cemitérios? Não, não existe nenhuma lei que diga que você tem que ir ao cemitério ou gostar de cemitérios para ser Gótico. Mas na subcultura e na música Gótica/Darkwave estão muito presentes as temáticas da fugacidade da vida, da morte como algo que está presente o tempo inteiro dando significado à existência, do carpe diem, etc, então a atração pelos cemitérios acontece muitas vezes, seja para refletir sobre o sentido da vida ou para zombar da morte. Enquanto podemos… Além disso, muitos Góticos (e não-Góticos também) apreciam a Arte Tumular (esculturas, pinturas e arquiteturas características dos cemitérios). Maiores informações sobre Arte Tumular em cemitérios de São Paulo: http://portal.prefeitura.sp.gov.br/empresas_autarquias/servico_funerario/ arte_tumular/0001 42 O que é Carpe Diem? Ditado e estilo de vida: em Latin: “aproveita o dia” (de hoje) pois a morte pode chegar já amanhã. A versão mais usada pelos Góticos é “Carpe Noctem” (aproveita a noite) no mesmo sentido que a outra expressão. 43 Porque os góticos usam crucifixo? O uso de um crucifixo por alguém vestido e maquiado como um gótico já é algo de deixar as velhinhas da missa das 6 da manhã com os cabelos mais em pé que os nossos (e sem laquê, nem sabonete seco...rs). O uso de crucifixos surgiu em parte pela temática de sofrimento (paixão) e sacrifício do cristianismo e em parte pela intenção herética de colocar símbolos religiosos em contextos mundanos ou esdrúxulos.

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44 Porque os góticos usam Ankh? Este símbolo se tornou popular entre os Góticos sendo relacionado ao Vampirismo depois do filme “The Hunger” (Fome de Viver, 1983). Neste filme, David Bowie e Catherine Deneuve representam um casal de vampiros. No início há uma cena em que a dupla está à espreita de suas presas numa casa noturna ao som de “Bela Lugosis’s Dead”, tocada pelo próprio Bauhaus, com seu vocalista Peter Murphy cantando atrás de grades. O detalhe é que este casal de vampiros não tem caninos proeminentes: usam colares cujos pingentes são Ankhs egípcios com pontas afiadas que servem para cortar as veias de suas vítimas. A vampira ancestral está viva desde o antigo Egito, o que justifica no roteiro a apropriação deste antigo símbolo religioso egípcio (o Ankh) em um novo contexto. O filme discute questões existenciais sobre a vida e a morte. Posteriormente, em 1989, Neil Gaiman usou o visual da subcultura Gótica para seus personagens da premiada série de quadrinhos “SandMan”. A personagem Morte (Death), por exemplo, é uma simpática e irônica garota Gótica que usa um grande Ankh. Esta série de quadrinhos popularizou ainda mais o uso do Ankh. 45 Os góticos são satanistas? A subcultura Gótica/Darkwave não tem ligação com nenhuma religião ou anti-religião organizada. Aliás, no Gótico, quase tudo é desorganizado, he-he… Aliás, é exatamente por isso que estamos fazendo esse FAQ. 46 Os góticos cultuam a morte?

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Só aquela da HQ Sandman, que é a maior gatinha! Rss… Mas falando sério, essa HQ é bem legal e tem a ver com a questão da Morte na subcultura Gótica e Darkwave. Afinal, “a morte é o alto preço da vida”. 47 Os góticos e góticas são homossexuais ou bissexuais? Só os que são. Mas não podemos esquecer que quando a subcultura Gótica surgiu, ainda nos anos 1980, a sociedade era muito mais conservadora e machista do que hoje. Imagine um bando de rapazes usando maquiagem e esmalte e pregando que homens podem ter sentimentos históricamente definidos como femininos? Fomos imediatamente rotulados de “viados”. O fato da estética Gótica/Darkwave/Death-Rocker ter adotado a Androginia ou a maquiagem teatral fez com que ela acabasse sendo inicialmente um refúgio para indivíduos de todas as 2.328 opções sexuais existentes, até mesmo para as mais depravadas de todas, como a castidade. Então, se você vai frequentar a subcultura e a cena Gótica, precisa saber que vai encontrar pessoas de todas as orientações sexuais e que tolerância faz parte de nossa história e tradição. Mas evidentemente, seria um absurdo alguém ser obrigado a ter uma orientação sexual ou outra para fazer parte dessa cena. 48 Vejo muito visual S&M na cena Gótica. Os Góticos são sadomasoquistas? Novamente, somente os que são. Os Góticos são fetichistas, gostam de insinuar, de brincar de faz-de-conta, porém apenas alguns Góticos são realmente S&M,


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sendo isso uma opção sexual pessoal. Quanto ao estilo S&M de visual, o mesmo está presente na cena Gótica desde o início, nos anos 80. 49 O que significa androginia? Androginia significa ter uma determinada aparência tal que seu sexo não possa ser definido a primeira vista. Assim, você pode encontrar uma mulher que você não consegue identificar se é homem ou mulher, ou um homem que você não consegue identificar o sexo. Androginia é uma opcão estética, e não uma opção sexual. E é muito difícil conseguir parecer totalmente andrógino (poucos nascem naturalmente assim). A maioria se contenta em adotar elementos estéticos do sexo oposto por diversão e/ou fetichismo. 50 Para ser um gótico verdadeiro eu preciso usar o visual gótico o tempo todo??? Não. Não mesmo. Sim, tenho certeza. Pois é... Além disso, precisamos entender que qualquer cultura e subcultura tem sua indumentária cotidiana e outra indumentária “de festa”. Como em qualquer evento social, nas festas as pessoas usam a “indumentária cultural” mais completa e especial. Em outras palavras, você não precisa usar sobretudo de lã e maquiagem teatral sob um sol de 40 graus e nem pedir demissão do seu trabalho porque lá as pessoas não entendem muito bem o seu visual...rs. Todavia a indumentária é um elemento cultural importante em qualquer subcultura ou cultura. 51 Para ser Gótico eu preciso ser fã de “Vampiros”? Se eu sou fã de “Vampiros” eu sou Gótico? Nem uma coisa nem outra. Existe a subcultura Gótica/Darkwave que aborda, às vezes, temas vampíricos entre muitos outros. Existem, paralelamente, fãs de “Vampiros”. Assim: a. você pode ser Gótico e fã de “Vampiros” (vários Góticos usam visual “vampírico”) b. você pode ser Gótico e não ser fã de “Vampiros” c. você pode ser fã de “Vampiros” e não ser Gótico. 52 O que é ser “Mixirica”? Mixirica é uma gíria já antiga na cena Gótica brasileira, que pode ser usada tanto de forma carinhosa como pejorativa. “Mixirica” significa “exagerar” ou ser “afetado” no comportamento, linguajar ou visual Gótico. Pode querer dizer que algo é “estereotipadamente gótico”, tanto para o bem como para o mal. Afinal todo mundo tem seu momento mais “mixiricoso” e isso sempre é muito divertido. 53 O que é Wannabe? Wannabe singnifica “querer ser” em Inglês. Significa alguém novo em uma cena, que ainda está aprendendo sobre ela mas ainda não sabe muito. Dependendo da pessoa que usa o termo, pode ser usado no sentido positivo ou como crítica (o que, inflizmente, é mais comum).

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54 Quais os símbolos mais recorrentes na subcultura Gótica? Observando a produção artística relacionada a subcultura Gótica desde seu começo até hoje, alguns símbolos e imagens são recorrentes. Veja a lista de símbolos importantes no Capítulo 12- Símbolos Recorrentes na Subcultura Gótica. 55 Agora que eu já li tudo isso eu sei tudo sobre o que é Gótico? Não, seus problemas acabaram de começar..he-he. Aprender é aumentar a complexidade de nossas dúvidas e torná-las mais interessantes e menos banais. De qualquer forma, seja bem vindo ao clube das incertezas!!! Se depois de beber uma boa taça de vinho com gelo sob o refrescante luar você já tiver relaxado e desejar pesquisar mais sobre algumas das questões aqui citadas, talvez você encontre algo do seu interesse no restante do livro. Kipper, freqüenta a cena Gótica paulista desde 1990; Flávia Flanshaid, freqüenta a cena Gótica paulista desde 1995.

06  ESTRUTURA DA SUBCULTURA GÓTICA INTRODUÇÃO: SUBCULTURAS TRANSLOCAIS HOJE

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Abaixo, entre outras obviedades e lugares comuns, consideraremos que o diferencial entre remédio e o veneno é a dosagem, não a substância. Ou tentaremos imaginar alguma metáfora mais criativa, caso merecermos a simpatia das musas. Também mostraremos como somos inteligentes e modestos, e que não somos uma fase da adolescência. Da mesma forma que os dois reis de Alice no País das Maravilhas, pensadores de diversos matizes ideológicos discordam em quase tudo, mas concordam em um ponto: que a mídia e o comércio impedem a formação de grupos culturais (e, logicamente, também os subculturais) com substância, consistência e significado. Apenas uns repudiam e lamentam esta fatalidade, enquanto outros a celebram. Não é nosso objetivo aqui avaliar a procedência daquela lamentação ou desta celebração. Mas naquilo que interessa a descrição da subcultura Gótica, precisamos questionar o pressuposto inicial da incompatibilidade total entre mídiacomércio e cultura significativa.


Parte II

 O Que é Subcultura Gótica?

Aqui pouparemos nosso querido leitor deixando para manifestar todo nosso desprezo por certas tendências ideológicas em um próximo livro, fazendo-o então da forma mais pedante, impiedosa e sarcástica possível. Ora, alguém esperaria menos de um Gótico? Mas seguindo com o féretro: neste livro usamos o termo subcultura no sentido de um grupamento social relativamente independente, dentro de um outro grupamento cultural dominante. E, muito importante: partimos da constatação que a cultura dominante e estas subculturas adjacentes não são mais delimitadas regional ou geograficamente. Temos grupamentos subculturais com números variáveis e integrantes delimitados geograficamente, mas estes grupamentos localizados estão ao mesmo tempo ligados por identidade, consistência e em comunicação com outros grupamentos locais ou com indivíduos isolados em locais em que não existem grupamentos subculturais. Mas mesmo um indivíduo em uma região em que exista seu grupo subcultural pode não depender apenas deste, e estar mais ou apenas ligado a outros grupamentos subculturais em outros locais. O motivo de ressaltarmos este ponto é desestimular qualquer confusão da subcultura Gótica com grupos ou gangues urbanas limitadas regionalmente, que dependem de um comprometimento local e, muitas vezes, de uma hierarquia. Uma subcultura translocal funciona de forma diferente.

a) TENDÊNCIA À INTEGRAÇÃO O que diferencia uma subcultura da cultura hegemônica de uma época e região não é apenas quais elementos apresenta. Mas, isto sim, a forma pela qual uma dada subcultura se apropria desses elementos, em que sistema os insere e, principalmente, a estrutura interna desta subcultura. Subculturas, hoje, tendem a integrar as diversas esferas de conhecimento e relação social através dos quais o estilo subcultural é expresso. A cultura hegemônica, pelo contrário, hoje tende a fragmentar estas esferas, tratando artes, trabalho, cultura, diversão, educação, entretenimento, comércio, religiosidade, etc como universos separados. Há várias hipóteses sobre os motivos pelos quais a sociedade hegemônica atual se organiza desta forma. Dentre eles, o filósofo Robert Kurz

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comenta que a fragmentação de todas as áreas de atuação humana em esferas separadas serve à hipertrofia da esfera econômica, a qual, hoje, seria a única esfera que atribuiria “valor” às outras esferas. Evidentemente esta valoração apenas a partir da esfera econômica gera nos indivíduos uma falta de sentido que pode ser medida pelos ascendentes gráficos de vendas dos prozacs, viagras e reguladores de apetite… Caso esta interpretação esteja correta, ela explicaria porque a falta de “sentido” e “significado” da vida é uma reclamação constante de nossa época. Ao mesmo tempo, poderíamos entender porque uma das grandes justificativas dos participantes de subculturas é que elas “fazem sentido”. De fato, as subculturas, em seu microcosmo mais integrado, reproduzem de uma forma mais flexível as estruturas de culturas tradicionais das sociedades integradas do passado, mas com a vantagem de você poder entrar e sair dela e questioná-la ou construir criativamente comportamentos desviantes.

b) TRANSLOCALIDADE E LIBERDADE INDIVIDUAL

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Diferentemente de subculturas do passado, “práticas, identidades e comunidades culturais cara-a-cara e localizadas” não são mais “o único exemplo possível de agrupamentos culturais substantivos em pequena escala…”. As subculturas hoje se estendem pelo mundo todo, sem que necessariamente um indivíduo dependa de uma “liderança” ou “grupo” local para mediar sua participação subcultural. Esse processo se torna mais notável nas subculturas substanciais e de longa duração, como a Gótica. Subculturas hoje, e já há algum tempo, são fenômenos que não estão restritos no espaço. Góticos de países diferentes provavelmente encontrarão mais em comum entre si do que com seus vizinhos nos seus respectivos bairros.

c) MÍDIA E MERCADO “Uma subcultura -no sentido usado neste livro- indica um agrupamento relativamente independente dentro de uma sociedade diferente.” (Hodkinson, 2002)


Parte II

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Não existem nem bancos, nem escolas, nem hospitais Góticos, nem uma estrutura política oficial. Por isso nos referimos a uma subcultura como algo “dentro” de uma sociedade diferente. Consideramos que esta subcultura se organiza de uma forma que desenvolve sua mídia própria e seu sistema micro-econômico, e que estas estruturas só são subculturais enquanto estão integradas e servem a outras estruturas subculturais, como o significado, a diferenciação cultural e a integração deste grupo. A esfera econômica permanece presente, mas ela é apenas um meio, não é a única esfera que dá sentido ao todo, como acontece na cultura economificada hegemônica hoje. “Conseqüentemente não é necessário um isolamento ou oposição a nenhuma “cultura dominante” unificada nem, sem dúvida, ao sistema capitalista que permeia todos os elementos das sociedades Ocidentais.” No mundo inteiro, e também no Brasil, parte dos Góticos trabalha e vive em empreendimentos comerciais, lojas, revistas, clubes, confecções especializadas e centrados na subcultura gótica. A existência desta rede de micromídia e micro-comércio não descaracteriza a coesão dos quatro elementos de “unidade” subcultural que, segundo a classificação de Hodkinson, descrevemos no ítem a seguir.

6.1  INDICADORES DE CONSISTÊNCIA SUBCULTURAL: As citações entre aspas deste capítulo “Estrutura da Subcultura Gótica” são de Paul Hodkinson. “O estilo encapsula importantes elementos de diversidade e dinamismo, suas fronteiras não são absolutas, e os níveis de comprometimento variam de um indivíduo para outro.Além disso, mais do que se basear inteiramente na gravitação automática de seus participantes, as construções iniciais e sua subseqüente sobrevivência se baseou em redes de informação e organização internas e externas, freqüentemente na forma de mídia e comércio." (Hodkinson, 2002)

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Podemos listar na subcultura Gótica, quatro fatores interligados e complementares de consistência subcultural: •

DIFERENCIAÇÃO CONSISTENTE

IDENTIDADE

COMPROMETIMENTO

AUTONOMIA

a) DIFERENCIAÇÃO CONSISTENTE e TRANSLOCALIDADE

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Apesar das naturais evoluções e variações ao longo do tempo, a subcultura gótica apresenta uma coerência estética, simbólica e de significado nestas duas décadas e mais alguns anos. Se tomarmos os desenvolvimentos desde 1984, quando os padrões ficam mais definidos e conscientes, até hoje, essa variação mantém sua consistência interna. Góticos de todo o mundo e das diversas variantes da subcultura Gótica se reconhecem com facilidade. E provavelmente eu terei uma visão de mundo e mais assuntos em comum com um Gótico da "Xland" a milhares de quilômetros de minha casa do que com meu vizinho da porta da frente. Por isso podemos dizer que a subcultura Gótica é "translocal": é um grupo social que não é definido nem limitado por uma unidade espacial ou territorial. Evidentemente as cenas de cada país tem suas peculiaridades, mas elas não chegam a desfazer o nexo subcultural nem de significados em comum. Mas ao mesmo tempo não acontece uma uniformização ou constituição de um exército de clones: como em qualquer cultura, mesmo compartilhando de um background subcultural em comum, os indivíduos continuam indivíduos e expressam suas visões individuais. Também, dentro do rico leque estético e cultural da subcultura Gótica, existe um incentivo à criatividade e à individualidade.

b) IDENTIDADE: “(...) um claro e sustentado senso de identidade grupal, por si só, começa a estabelecer um agrupamento como substantivo em vez de efêmero. No caso da cena Gótica, enquanto a precisa importância da identidade subcultural relativa a outros aspectos da vida diferia entre os góticos, podemos observar que um senso de semelhança de pensamento (NT: “like-mindedness") com outros góticos- sem importar sua localização geográfica- era


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freqüentemente considerado pelos participantes como a mais importante parte de sua identidade." (Hodkinson, 2002). Essa “semelhança de pensamento" não se configura como uma “ideologia" no sentido político do termo nem com uma "filosofia" no sentido acadêmico do termo, mas sim como uma “visão de mundo" compartilhada e expressa esteticamente, o que pode ser verificado de forma estável nessa produção subcultural nos últimos 20 anos.

c) COMPROMETIMENTO: Lamentamos informar a pais e parentes (e filhos…) que a participação na subcultura Gótica não é uma fase da adolescência. Hoje temos Góticos dos 13 aos 45 anos, no mínimo. Para muitas pessoas, ser Gótico é algo para a vida toda, mesmo que para alguns destes a forma de participação e expressão, com o passar do tempo, se torne mais reservada ou discreta. Góticos constituem família, tem filhos e netos. Trabalham e desenvolvem carreiras nas mais diversas profissões, sem nunca perder o bom humor e a ironia pelo fato de o resto da humanidade ter menos senso de humor mórbido ou ser limitada esteticamente. Evidentemente, para aqueles adolescentes que se aproximam de alguma subcultura ou grupo modista apenas para, por algum tempo, “pertencer a um grupo", essa participação vai ser uma fase adolescente pelo simples fato de que este é um comportamento típico da adolescência. Mas estes não nos interessam aqui, pois abandonarão a subcultura em um período curto, tendo em geral a reação típica de desprezar o grupo ao qual havia se filiado, considerando-o como “bobagem adolescente", que não interessa a alguém agora tão “adulto". Hm. Bem, Freud explica… Mas o que nos interessa aqui são aqueles indivíduos que permanecem, pois realmente aconteceu uma identificação entre sua visão de mundo pessoal e pelo menos parte da visão de mundo expressa pela subcultura Gótica. Provavelmente alguns destes tenham se aproximado por motivos totalmente aleatórios, “de gaiato", ou levados por amigos ou até por acidente. Isto não importa. O que importa é que permaneceram porque ocorreu uma identificação.

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Identificação inicial que na maioria das vezes não é racional, mas, como uma paixão, nem por isso é menos significativa. Com o passar dos anos, a pessoa vai aos poucos entendendo as razões desta atração inicial. Não é sábio esperar que alguém que participa há pouco tempo já tenha uma visão consciente dos motivos de sua participação, pois provavelmente isso seria forçado. Isso é algo que acontece naturalmente com o tempo. Ninguém aqui tem pressa, não é mesmo? Também não é incomum indivíduos participarem ativamente por um período, depois passarem por um período mais reservado ou isolado, depois voltando a participar de atividades coletivas. Muitas vezes estas fases se intercalam. Outras vezes um Gótico se torna, depois de alguns anos, um gótico “indoor" (caseiro), e nem mesmo seus vizinhos desconfiam. Portanto, cuidado a quem você empresta açúcar: sua xícara pode voltar decorada com morcegos adesivos.

d) AUTONOMIA:

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Paul Hodkinson publicou em 2002 uma aprofundada pesquisa sobre a subcultura Gótica na Inglaterra até o final dos anos 90. Sobre a questão do comércio e mídia, ele comenta: “(...) eu tenho consistentemente levantado dúvidas sobre as várias perspectivas que assumem que a mídia e o comércio atuam como catalisadores para o colapso de agrupamentos substantivos. Em contraste, minha noção retrabalhada de subcultura considera ambos ( NT: mídia e comércio) elementos cruciais das sociedades ocidentais contemporâneas como essenciais para a construção e facilitação de subculturas. Logo, por detrás das identidades, práticas e valores da cena gótica, jaz uma complexa infraestrutura de eventos, bens de consumo e comunicação, todos completamente implicados em mídia e comércio." E logo a seguir: “(...) precisamos diferenciar entre diferentes níveis e escalas de mídia e comércio e, conseqüentemente, diferentes tipos de agrupamentos. (...) Devemos reconhecer que o envolvimento de um agrupamento com certas atividades lucrativas de forma alguma retira o significado de quaisquer ati-


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vidades voluntárias que também contribuem para sua sobrevivência e desenvolvimento. (...)" O comércio e a economia já existiam milênios antes do capitalismo. O problema é o capitalismo selvagem, não a economia. Importante não confundir as duas coisas. As sociedades de cultura integrada usavam uma economia pra funcionar, mas a diferença é que o valor e o significado naquelas culturas integradas não provinha apenas da esfera econômica, sendo a esfera econômica apenas um elo na cadeia, um meio. E não um fim em si mesmo nem a origem de todo valor e sentido, como acontece em nossa querida pós-modernidade capitalista. Assim, o que diferencia o remédio do veneno é a dosagem, não a substância: “(...) nosso interesse específico aqui é distinguir entre formas internas ou subculturais de comércio e mídia - que operam quase exclusivamente dentro das redes dos agrupamentos específicos- e os produtos e serviços externos e não-subculturais, produzidos por interesses comerciais de larga escala interessados em uma base de consumidores mais ampla." Assim, é importante notar que, ao invés de “desvalorizar" ou “viciar" o seu caráter subcultural, é exatamente a existência de uma rede de microcomércio e micro-mídia dentro e a serviço da cena Gótica que viabiliza sua existência enquanto subcultura. E, como subcultura, também é esta estrutura que coloca a mídia e o comércio a serviço de um sistema cultural e de um grupo social- e não o contrário. OBS: As citações entre aspas deste capítulo são de Paul Hodkinson.

07  CARACTERÍSTICAS DA SUBCULTURA GÓTICA “É preciso enfatizar que os indivíduos montavam seu próprio estilo selecionando dentre os elementos que eu descrevo e que, como conseqüência, poucos, senão nenhum, adotavam todos eles. O valor destas categorias é que elas permitem a demonstração da consistência estilística geral da cena Gótica, sem deixar de lado os elementos de diversidade e dinamismo.” (Hodkinson, 2002)

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Como toda subcultura (e cultura) moderna, a subcultura Gótica “roubou” quase todos seus artefatos e símbolos de outros sistemas estéticos e simbólicos, montando um novo sistema seu, no qual estes elementos reapropriados são resignificados. Portanto, buscar o “significado do Gótico” analisando em detalhe seus elementos isoladamente pode, às vezes, mais nos confundir do que esclarecer. Isso pode acontecer porque somente em relação ao sistema de representações da subcultura Gótica é que estes elementos produzem o sentido desta. É preciso observar o sistema como um todo para entender os elementos e, então, se pode perceber por que algumas características destes elementos são ressaltadas na subcultura Gótica, e outras não. Também seria muito extenso listar e analisar ícone por ícone, tótem por tótem, tabu por tabu. Em vez disso, vamos aqui desenvolver a descrição feita na pesquisa sobre a subcultura Gótica Inglesa realizada pelo cientista social Paul Hodkinson.

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Hodkinson dividiu didaticamente as características principais em três grandes grupos: (a) o obscuro e o macabro, (b) o feminino e o ambíguo e (c) elementos de outras subculturas. Depois faz comparações ao longo dos 20 anos de história da subcultura Gótica até o final da sua pesquisa (aproximadamente 1980-2000). Aqui acrescentaremos mais dois grupos de características que são baseados na pesquisa sobre a cena Francesa realizada pelo cientista social Antoine Durafour: (d) a teatralização e o corpo e (e) apologia a cultura e saudosismo. Observando características da subcultura Gótica no Brasil, notamos que os processos são similares, apenas com uma média de alguns anos de atraso. Comparativamente a relatos de outros autores que fizeram descrições recentes sobre a subcultura Gótica e Darkwave em outros países, chegamos a mesma conclusão, apesar das peculiaridades de tendência e nomeclatura de cada cena local.

a. O SOMBRIO E O MACABRO Nem tudo que é obscuro e/ou macabro se insere no repertório e sensibilidade da subcultura Gótica mas, em relação com os demais elementos subculturais, o obscuro e o macabro são elementos essencias nesta subcul-


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tura. Todavia a forma como Góticos e Darkwavers abordam o obscuro e o macabro obviamente difere da forma como outras subculturas e o mainstream desenvolvem estes temas. Observando os Góticos desde a década de 80 até 2007, percebemos, apesar das atualizações de visual e repertório, e variações de ênfase, que alguns elementos estéticos permanecem quase imutáveis: a preferência por uma estética roubada de filmes ou peças expressionistas, misturada a elementos circenses, de cabaret, vitorianos, glam e de filmes noir, sejam, policiais ou ficção científica. Temos também a recorrência de faces maquiadas de forma semelhante ao cinema expressionista ou teatro butoh, com faces esbranquiçadas e traços de preto alongados ao longo dos olhos. Costumamos ter uma attitude “camp” (ou “teatral auto-irônica”) condizente com esta estética. Na área da música, percebemos na subcultura Gótica uma variedade de estilos musicais que raras vezes encontramos em outras subculturas (geralmente organizadas em torno de um estilo musical e suas variações, das quais deriva seu nome, como o metal, o hip-hop, etc). No caso do Gótico o que unifica esta variedade é o uso de recursos que buscam causar efeitos normalmente adjetivados como “escura”, “profunda” e “sombria”, mesmo que os estilos musicais mais comuns na subcultura Gótica sejam dançantes ou agitados, como o Rock, o Synth-Pop, a Darkwave, Eletro, “Indie”, etc. Os vocais masculinos tendem a ter voz profunda e grave, ou entrecortada e sussurante. Os vocais femininos variam de fortes e mais agressivos (como no pos-punk) a etéricos ou sussurantes (como na Darkwave e ethereal). Se no começo dos anos 80 tínhamos o som Gótico mais baseado em guitarras, ao longo dos anos 90 se popularizam as tendências eletrônicas ligadas aos estilos genericamente chamados de “Darkwave” (um termo que tem várias interpretações). O fato é que hoje temos uma grande variedade de estilos musicais relacionados coerentemente ao Gótico. Mesmo bandas com sonoridade mais “dance” mantiveram algum tipo de tema obscuro, vocais profundos, letras sombrias e metafóricas e “poderosos acordes atmosféricos”. A forma como nos vestimos também é uma forma de discurso e comunicação públicos. Historicamente, a base do vestuário Gótico é preta, acei-

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tando algumas cores como sobreposição. Quais cores e a quantidade delas é uma tendência interna que varia ao longo das décadas dentro da própria subcultura Gótica e em cada cena local. Por exemplo, no começo dos anos 80 temos uma variedade de cores devido à ainda recente força da estética New-Romantic e New Wave. Na passagem dos anos 80 para os 90 temos um predomínio do preto, e, no final dos anos 90, temos a volta de algumas cores antes até proibidas, como o verde limão e o rosa, usados em detalhes sobre o preto (devido a influência cyber goth, mas as tendências ligadas aos estilos batcave e deathrock também voltaram com força na sua sobreposição infernal de texturas, cores e materiais rasgados). Claro que estes elementos decorativos são usados em conjunto com outros elementos historicamente usados e claramente “obscuros e sinistros”, como forma de manter a identificação subcultural.

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Se no começo dos anos 80 a herança punk e new-romantic já legara aos góticos alguns cabides com roupas de estilo vitoriano e seus babados, a moda cinematográfica dos anos 90 focada no imaginário de horror gótico vitoriano exacerbou esta característica, se tornando uma tendência forte a partir desta época. Se antes a temática vampírica já estava presente na estética da subcultura Gótica como um dos diversos cabides de seu armário, a exacerbação destes elementos levou a uma reação dentro da própria subcultura, contra o exagero no uso destes elementos, rejeitando quem levava tal temática muito a sério. Se na música e na roupa as manifestações do sombrio e do macabro são “claras” (sic), também no comportamento os Góticos tendem a ser bastante específicos na sua abordagem. Excessivo amuo ou declarações exageradas de “depressão” passaram a ser vistas de forma negativa por boa parte dos Góticos, como algo que seria uma invasão de comportamentos vindos da forma caricatural e preconceituosa como a sociedade vê os Góticos. A seriedade passou a ser vista como algo negativo dentro da subcultura Gótica, historicamente ligada ao humo-negro e atitude camp/ teatral, apesar da efetiva tragicidade lírica de muitas bandas. Como qualquer outra subcultura ou a própria cultura dominante, também a subcultura Gótica possui uma linguagem comportamental e gestual específica.


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b. O FEMININO E O AMBÍGUO “Para esta ética de estética, eles (nt: Góticos) se distanciam de todo imaginário brutal que poderíamos encontrar entre certos grupos de metal extremo. No seio do meio Gótico, valoriza-se mais a feminilidade, a androginia e o espírito dandy.” (Durafour) Inicialmente é preciso advertir que aqui nos referimos ao “feminino” como manifestações comportamentais, e não como gênero biológico ou opção sexual. E isso só pode ser compreendido se considerarmos que a divisão das características humanas em papéis “femininos” e “masculinos” é, em grande parte, construída histórica e ideologicamente. “Embora sem a paródia, ou sem fins políticos explícitos, o meio-ambiente padrão característico da cena Gótica afrouxou consistentemente os elos entre as facetas estilísticas dos gêneros e as categorias sexuais fixas de homem e mulher. Mais especificamente, sem realmente considerar estas categorias insignificantes, o gótico, desde o seu começo, se caracterizou pela predominância, tanto nos homens quanto nas mulheres, de tipos de estilos específicos que seriam normalmente associados com feminilidade.” (Hodkinson, 2002). Se observarmos a estética, temas líricos e atitudes góticas desde os anos 80, é difícil não perceber que esta subcultura teve um papel de consolidação e ruptura na “segunda fase da revolução sexual” do século XX. Se nos anos 60 as mulheres saíram as ruas lutando por ter direito a comportamentos considerados historicamente “dos homens”, na passagem dos anos 70 para os 80 temos o começo de um movimento masculino pela reintegração de partes do comportamento humano que eram tabus para os homens dos séculos anteriores por serem considerados “femininos”. Obviamente a subcultura Gótica não é militante neste sentido, mas ela surge e se desenvolve neste contexto. Especialmente no Brasil do final dos anos 80, um país conservador e predominantemente católico saindo de uma ditadura militar de direita. Lembremos que uma “cena” GLS autônoma só vai se estruturar abertamente no Brasil nos anos 90. Desde os anos 80, estilos específicos de maquiagem, que tem sido lugar-comum desde os tempos da banda Bauhaus (1979-1983), permaneceram populares tanto para os homens quanto para as mulheres durante o final dos anos 1990 e ainda hoje em pleno século XXI.

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A quantidade de jóias prateadas espalhadas pelo corpo e roupas também permanece, tendo apenas aumentado em quantidade e variedade durante os anos 90, especialmente com a popularização dos piercings. Mas isso é um sintoma do aumento da tolerância dos costumes: se nos anos 80 bastavam dois brincos para um rapaz sofrer preconceito na rua e ser olhado com estranheza, ao longo dos anos 90 os brincos masculinos deixaram de ser sinônimo de homossexualidade e/ou ligações ilegais. Assim, Góticos e alternativos passaram a se esbaldar na quantidade de brincos, piercings e cores de cabelo, especialmente nas zonas urbanas e metrópoles, historicamente centros que irradiam mudanças de comportamento. Dentro desse contexto, se nos anos 80 o elemento de feminilidade era expresso de forma relativamente mais “discreta” no seio da subcultura Gótica, ao longo dos anos 90 ele passou a ser expresso sem nenhum pudor. Se antes o uso de meias arrastão por todo o corpo era restrito às bandas e aos mais ousados, nos anos 90 e até hoje se tornaram um lugar comum para ambos os sexos, assim como proliferou o uso de saias longas ou curtas para os homens, juntamente com o fetiche por adereços Sado-Masoquistas. No Brasil, é facil compreender essas mudanças também no contexto das ruas: entre 1988-1992 (ou até o final dos anos 90 em alguns casos) Góticos saiam de casa “disfarçados de normal”, deixando para fazer sua maquiagem e vestir roupas mais ousadas apenas nos banheiros ou calçadas de seus clubes, pelo simples motivo de que era muito perigoso usar um visual fora dos padrões nas ruas naquelas épocas. Era comum o preconceito, ameaças ou agressões de fato, provindas tanto de populares como de outros grupos subculturais que tem a homofobia e comportamentos rígidos em sua cartilha de comportamentos. Hoje isso ainda acontece, mas com menor freqüência. “Em um movimento que remonta a algumas das influências punks originais, aspectos da cena fetichista dos anos 1990, e, indubitavelmente, a indústria do sexo, se tornaram largamente populares. Era cada vez mais fácil ver Góticos de ambos os sexos vestindo calças, camisas, saias, corsets, tops e coleiras de borracha ou PVC preto e, às vezes, colorido (...) Importantíssimo, no contexto da cena Gótica, do mais simples ao mais radical exemplo destas vestimentas foram sempre valorados mais em termos de suas qualidades estéticas subculturais do que por suas conotações sexuais.” (Hodkinson, 2002).


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Desde os anos 80 até hoje os tipos físicos mais “desejados” no seio da subcultura Gótica tendem a borrar os limites do “masculino” e “feminino”, principalmente no visual masculino. Historicamente, rostos e corpos finos, esguios ou alongados são valorizados tanto para homens quanto para mulheres. Já no estilo de corpo mais “cheio” a capacidade de apresentar um vasto decote de seios abundantes (mesmo que impulsionados por corsets ultra apertados…) é valorizado entre as mulheres. Entre os homens, Robert Smith e Frank The Baptist são bos exemplos de “gordinhos fofos” que representam outro padrão estético comum. Um homem considerado “efeminado” pelo padrão estético da cultura dominante ou mesmo em outras subculturas, provavelmente teria vantagens na cena Gótica. Mas se no passado a cena Gótica teria sido sua única opção de esconderijo, desde os anos 90 existem algumas outras cenas além da Gótica onde os andróginos podem se sentir confortáveis, notadamente a cena chamada no Brasil de “Indie”, entre outras. “… ser “um pouco emotivo as vezes”, em adição a sua aparência esguia, indica claramente que a demonstração pelos homens de certas características comportamentais e atitudes associadas com a feminilidade era também mais comum na cena Gótica do que na maioria dos elementos da sociedade fora dela. Isso certamente se reflete fortemente em alguns exemplos da música gótica, nos quais os estereótipos de temas emocionais, auto-indulgentes e angustiados- todos os quais tendem a ser mais associados com a feminilidade do que com a masculinidade- são uma generalização, mas não de toda imprecisa.” (Hodkinson, 2002) Esta aceitação de que homens tenham comportamentos e expressem emoções historiamente consideradas femininas não significa que exista um padrão de homossexualidade na cena. A grande questão é que existe uma dissociação entre o “papel social/comportamental” e a opção sexual. Isso quer dizer que um homem pode ser “feminino” e heterossexual. Esta tolerância comportamental levou a que várias coisas deixassem de ser tabu na cena Gótica, como o contato físico fraternal entre pessoas do mesmo sexo, algo ainda problemático em outros grupos culturais. Ao mesmo tempo, a cena Gótica se manteve como um ambiente seguro e hospitaleiro para comportamentos homossexuais e bissexuais, até mesmo valorizando tais coportamentos no nível simbólico. Podemos levan-

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tar a hipótese de que se tenha desenvolvido entre Góticos um tipo subcultural de feminilidade, adotada por ambos os sexos. Mas esta é uma questão complexa demais para ser desenvolvida aqui, onde buscamos delinear traços comportamentais gerais da subcultura Gótica. O fato é que a subcultura Gótica tolera uma grande variedade de comportamentos, visuais e estéticas. Aqui estamos descrevendo apenas os padrões mais estáveis nos últimos 25 anos, aproximadamente. Toda essa observação nos leva a ponderar que a subcultura Gótica tende mais para a Feminilidade do que para a Androginia, visto que hoje é comum vermos tanto homens como mulheres com visuais femininos, mas é bem menos comum verificar mulheres com visual masculinizado (algo mais comum em outras subculturas, como a Indie, Punk, etc).

C. ABSORÇÃO DE ELEMENTOS DE ESTILOS RELACIONADOS

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Primeiro é preciso salientar que a criatividade, e um certo nível de “contravenção” em relação ao que é considerado o “visual padrão” de certa época na cena Gótica, é algo geralmente visto como positivo. A herança de princípios do “faça você mesmo” ainda perdura, apesar da proliferação atual de grifes especializadas na estética Gótica. A “colagem” com elementos estéticos de outras subculturas relacionadas indica exatamente uma forte consciência dos padrões estéticos de cada uma dessas subculturas, pois estes elementos de “outras” subculturas são usados freqüentemente como “detalhes” sobre uma base mais “consistentemente gótica”. Muitas vezes como um comentário visual característico do senso de humor auto-irônico comum na cena Gótica. Segundo, é importante esclarecer o que significa “estilos relacionados”. Geralmente são absorvidos pelos góticos alguns elementos de grupos considerados “alternativos”. Alternativo se tornou nos últimos anos um termo guarda-chuva que genericamente se define por oposição a “mainstream” (moda dominante). Isso vale tanto para o visual quanto para a música ou outros elementos. Se na fase pos-punk dos anos 80 já podíamos perceber elementos fetichistas, esta tendência estética cresceu dentro da cena Gótica/Darkwave ao longo dos anos 90 até hoje, com Sex-Shops e lojas de roupas SadoMasoquistas se tornando mais um destino de “shopping” subcultural.


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Outro destino de “shopping” são os brechós, lojas de roupas, sapatos e utensílios usados ou antigos que oferecem uma enorme variedade de elementos para composição, tanto de um estilo Gótico clássico, como de um composto de elementos “relacionados”. No Brasil, especialmente em S.Paulo, desde os anos 80 tivemos a cena Gótica convivendo com diversas outras cenas, logo, absorvendo elementos considerados aceitáveis destas. Começando pelos Darks, com sua mistura de elementos punk, new wave e new romantic, ainda nos anos 80 temos uma convivência do Gótico com o que passou a ser chamado de Indie, Rockabillies, etc. O caso do Indie é curioso pois Góticos paulistas compartilharam clubes com Indies pelo menos de 1988 a 1997, sendo que, porém, mais no final deste período, os dois grupos se diferenciam no visual e nas bandas preferidas, principalmente ao sucesso comercial do chamado “brit-pop” (aprox. 1994/95). Passados mais de dez anos, em 2007 um revival de estética 80’s e “goth” no mainstream leva as duas cenas a ter algumas tendências em comum novamente. Mas a tendência mais forte no final dos anos 90 é a incorporação de alguns elementos de música eletrônica mais popular como trance, tecno e electro, revitalizando tendências da Darkwave, Darkeletro e EBM. Isso levou a tendências estéticas complementares, com a estética “cyber” e elementos visuais absorvidos das cenas “rave” ou dance-club: tops, vestidos e calças apresentando desenhos brilhantes ou sensíveis a raios ultra-violeta, cabelos coloridos ou com apliques em cores vivas como pink, laranja, verde, azul. “Os últimos anos do século XX assistiram ao advento do cibergótico. A música industrial deu ânimo masculino à feminilidade espiritual da subcultura Gótica, de forma que o casamento arranjado entre o gótico e o metal nunca foi consumado. “Eu vejo o industrial e o gótico como dois lados da mesma moeda- o yin e o yang- o masculino e o feminino, escreve Alicia Porter em sua pesquisa “Study of Gothic Subculture”, divulgada pela Internet. “O gótico expressa o emocional, a beleza, o sobrenatural, o feminino, o poético, o teatral; e o industrial incorpora o masculino, a raiva, a agressividade, o barulhento, o científico, o tecnológico, o político. (…)” (“Goth Chic”, de Gavin Baddeley, pag 281, trad. de Amanda Orlando).

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Sobre essa mistura de estilos, Hodkinson comenta: “apesar de consistir de numerosos elementos agrupados de diferentes fontes e em diferenetes estágios, existia um estilo gótico diferenciado bem discernível, o qual se manifestava consistentemente de um indivíduo para o outro, de um lugar para o outro e de um ano para o seguinte.” Na passagem para o século XXI, além do revival pos-punk no mainstream, se popularizam bandas e os estilos oriundos do Japão conhecidos como Gothic-Lolita e Visual K. Elementos soltos desta tendência acabam por ser usados por Góticos de todo o mundo. Como uma certa reação aos estilos “ultra-dance” da virada do século, temos acompanhado também um movimento de resgate de “visuais tradicionais” e “bandas acústicas” com a valorização de visuais extremos e bricolados, ligados a tendências próximas ao DeathRock, Cyber-Goth e Gothic-Lolita. Ao lado destas temos as tendências mais tradicionais, gerando misturas de visuais e sonoridades bastante criativas neste final da primeira década do século XXI.

d. A TEATRALIZAÇÃO E O CORPO “Devemos ou ser uma obra de arte, ou vestir uma obra de arte”

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(“One should either be a work of art, or wear a work of art”) Oscar Wilde, circa 1900 “No seio do movimento1 gótico, o visual, a dança, as atitudes e as posturas formam uma linguagem estética codificada que concorda com uma nova percepção da corporeidade (conjunto dos traços concretos do corpo como ser social): perceber os corpos como “obra de arte” é reconsiderar seu valor em um mundo onde nossos corpos não nos pertencem mais verdadeiramente.” (Durafour, 2005) No meio Gótico, temos uma teatralização do ambiente e dos comportamentos, e a trasformação de nós mesmos e de nosso corpo: Uma “visão de si mesmo em uma sociedade percebida como desencantada, um culto da evasão e de irracionalidade permitindo, paradoxalmente, 1

No meio Gótico brasileiro, a palavra “movimento” foi bastante usada até o começo dos anos 90 para definir esse meio. Porém depois passou a ser considerada “out”, devido a conotação fortemente política que muitos consideraram ser o único significado deste termo. Mas a palavra “movimento” tem diversos significados, não apenas “ação para alterar a sociedade”. No caso do autor que citamos, ele usa o termo em francês de forma bastante livre, em conjunto com outros.


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se reencontrar a si mesmo pela reapropriação do corpo, … (… graças a uma certa ética da estética.)” (Durafour, 2005). Todo grupo social tem seus códigos comportamentais. Os códigos da subcultura Gótica são de um tipo específico, coerente com outros aspectos de seu sistema. O tipo de teatralização ou “exagero” no comportamento típico da interação entre góticos em seu ambiente faz com que o indivíduo se reaproprie de seu corpo, fazendo dele um certo discurso. Podemos perceber essa teatralização e uso discursivo do corpo e do visual como semelhante aos outros elementos simbólicos da subcultura Gótica. Esse discurso é facilmente perceptível pelos outros góticos ou por pessoas que vivenciaram ambientes góticos. Sua falta também serve para que os Góticos percebam “outsiders” em seu ambiente, ou se comuniquem na presença de “estrangeiros culturais”, ou fora de ambientes que aceitem Góticos. Ou simplesmente se reconheçam nas ruas, às vezes por um detalhe sutil. Assim, a expressão corporal se torna um produto social e cultural. Mas quais as características desta teatralização na subcultura Gótica? Outros grupos sociais também teatralizam, mas com significados e intensidades diferentes. Observemos características da dança, da música e de relação: “A música gótica (…) joga com os registros de amargura, melancolia, obscuridade, do contraste entre doçura e violência; apta a veicular uma gama de emoções das mais diversas. Os sons inquietantes…(…) atmosfera inabitual, (…)cinematográfica, (…) música teatral, que busca sempre a expressão do belo no sofrimento, na melancolia e na morte.” (Durafour, 2005) Temos assim uma trilha sonora ideal que nos lembra a letra de “She’s in Parties” do Bauhaus. Estamos atuando em alguma peça ou filme sombrio e melodramático. Criamos um espaço separado do mundo, fantástico e fantásmático, que comenta o terrível mundo “lá fora”. A happy house in a black planet. Os comportamentos e coreografias mais comuns nas pistas de eventos Góticos típicos nos dão mais indícios:

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“O estilo de dança gótico (…) como outras características oscila entre o teatral e o dramático. Nas músicas de tempo baixo é comum o estilo “etérico” ou ondulatório, com coreografias simples mas que simulam ou buscam uma imagem de “transe” e “sublime”. Algumas destas coreografias improvisadas permanecem nos tempos acelerados, que incorporam gestos rápidos e dramáticos em que a agilidade do dançarino é ressaltada, parecendo expressar uma sucessão de emoções fortes teatralizadas. Assim temos um contraste com outros estilos musicais que não possuem tipos de dança com tanta improvisação nem com tanta simbolização”. (Durafour, 2005) O autor está comentando a cena Gótica francesa, mas os mesmos tipos de estilização comportamental e de dança podem ser observados entre Góticos brasileiros ou norte americanos, etc. "Assim, o universo Gótico é fortemente teatralizado. Tudo é questão de representação e de manipulação estética, incluindo a expressão da violência, quando ela existe. Neste assunto, convém separar o universo Gótico do universo Black Metal, que é musicalmente muito violento" (Durafour, 2006, La Presse)

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Às vezes a atitude teatral acaba causando um mal estar exatamente por funcionar como um espelho de comportamentos “escondidos” ou “dissimulados” de nossa civilização atual: “o mundo gótico torna-se horripilante a medida que (outras pessoas) perdem a profundidade psicológica. A vida em geral torna-se “teatral”, uma “morte em vida”, e os eus corporificados tornam-se meros atores ou caricaturas, ou em alguns casos mais severos, coisas insensatas que estão juntas, como autômatos ou cadáveres ambulantes” 2 Talvez por isso a subcultura Gótica continue após tanto tempo: ela é um espelho cada vez mais atual, ou uma resposta lúdica a um conjunto de questões de nossa sociedade que possivelmente não terão solução nas próximas décadas. Ou séculos, se não formos otimistas…

e. APOLOGIA À CULTURA E SAUDOSISMO É difícil dizer se os Góticos são um grupo social mais culto que outros, mas algo que se pode dizer com segurança é que Góticos são “cultófilos”, 2

A. Henderson, “Romantic Identities” 1996, p.54, em “Visões Perigosas”, de Adriana Amaral, 2006, p.59.


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ou seja: colocam a “cultura” como um valor importante, geralmente em oposição a um mundo considerado “materialista”, que rejeitam. Mas qual “cultura” e qual “arte” é valorizada no seio da subcultura Gótica? Góticos costumam fazer uma sacralização da cultura, considerando a poesia e outras artes como um símbolo importante. A diferença não está em valorizar a “cultura”, mas considerar que esta é um valor mais importante do que outras coisas “utilitárias” ou “mundanas”. Na poesia, não por coincidência, escolas românticas e simbolistas costumam ter a preferência. Também na vestimenta vemos uma grande tendência à fuga ao utilitarismo e rejeição ao pragmatismo: as peças de vestuário mais típicas dos góticos primam pelo excesso, por adereços “inúteis”, seja na sobreposicão de um visual pos-punk ou no rococó de um visual neo-vitoriano. Em ambos os casos temos um afastamento do “funcional”, do “prático” e do “natural”. E uma busca do artifício, do artificial e do artístico. Mesmo bebendo da cultura geral, os Góticos sacralizam alguns aspectos desta como estandartes de diferenciação em relação ao “gosto popular” e “mundano”. Aparentemente estes gostos dos Góticos procuram exatamente demarcar uma fronteira em relação a uma sociedade dominante em que o lírico e tudo que não é prático ficam em último lugar. As mesmas referências culturais que são tão valorizadas no seio da subcultura Gótica podem ser encontradas no conjunto cultural “normal”, mas no sistema Gótico estas obras recebem outros significados por serem consideradas relacionadas a todo um sistema de valores, comportamentos, músicas, etc. A grosso modo, podemos dizer que um poema de Allan Poe (ou outro autor importante) na subcultura Gótica não é mais um “ítem de cultura” mas, além disso, se transforma em algo como um “avatar” que remete a todos os demais elementos do sistema de símbolos da subcultura Gótica: “O que explica essa sacralização de um tipo de obra de arte é seu caráter durável, (…) estas obras cristalizam os valores e as idéias centrais do movimento Gótico”. (Durafour, 2005) Assim, os Góticos não parecem estar interessados em “qualquer” cultura, mas em obras duráveis e/ou de significado perene. E que sirvam para referendar sua visão de mundo específica.

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Complementar a essa busca pelo perene e durável, o “saudosismo” é, previsivelmente, uma outra forma de rejeição ao utilitarismo do mundo atual, que valoriza mais o novo e o descartável. Esse saudosismo se manifesta por uma “síndrome de Paraíso Perdido”, que pode ser tanto um “passado em que éramos mais humanos”, um “presente decadente” ou “um futuro que vai ser apenas um passado tecnologizado”. Não sabemos exatamente o que perdemos, mas deve ter sido melhor… Qualquer uma dessas idéias coloca o conceito de “progresso”, no mínimo, como questionável. Aqui é difícil não traçar um paralelo com o aspecto “anti-positivista” do Romantismo e movimentos relacionados a este. Paralelo enriquecido por todo um repertório rico de referências herdadas de movimentos de caráter semelhante desde o final do século XIX e por todo século XX. Não é a toa que algumas das grandes fontes de referências dos Góticos desde os anos 1980 são o cinema Expressionista, autores Românticos e o Romance Gótico. Mas “o movimento Gótico não é verdadeiramente contestatório. Ele se concentra mais em se mostrar, num jogo de papéis permanente (no qual se olha no olhar do outro).” (Durafour, 2005) Mas apesar desse aspecto saudosista, o meio Gótico é bastante “celebrativo”, pois a resposta dos Góticos ao “Memento Mori” (lembra-te que morrerás) geralmente é “carpe noctem” (aproveita a noite, uma variante notívaga do tradicional conselho latino “carpe diem”- aproveita o dia). Afinal, não existe solução para este “Black Planet” dentro do limiar de nossas existências. Mas não esquecemos do que tem sido perdido, e o celebramos na privacidade e segurança de nossas “Happy Houses”. O inferno, como diz essa nossa querida canção “é lá fora”.


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 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

08  CINCO COISAS QUE OS GÓTICOS NÃO SÃO! Não somos apenas “uma fase difícil”. A mídia tem divulgado alguns estereótipos e caricaturas a tal ponto que isto faz com que pessoas acabem se sentindo atraídas ou rejeitando a Subcultura Gótica por motivos errados. Se você vai rejeitar e criticar, ou se vai se sentir atraído e querer conhecer, é melhor que seja pelos motivos corretos. Não somos: 1-DEPRIMIDOS - Depressão é uma doença, que pode ter origem através de um desequilíbrio biológico ou ser causada por fatos de sua vida. Em qualquer um dos dois casos você precisa de um psicólogo e/ou psiquiatra, não se tornar Gótico. Você pode até se aproximar da cena Gótica em um destes momentos, mas precisa saber que nós Góticos gostamos muito de nos divertir, rir e que a música em nossos eventos é dançante. Muitos Góticos podem ser melancólicos e saudosistas, mas isto é algo totalmente diferente de depressão. 2-MAU-HUMORADOS - Sem dúvida nenhum de nós compartilha do clima “fozzy-comédia-histérico” da sociedade de consumo. Inclusive nosso humor-negro, ironia e cinismo é exercido contra esta sociedade. O humor é uma característica essencial na cena Gótica, principalmente o humor negro e o humor camp. E a ironia. E um certo cinismo viperino. E… bem, creio que vocês já entenderam. 3-SUICIDAS - Claro que Góticos não são suicidas. Se fossem, não existiriam mais Góticos Ok, existe todo aquele apreço ao “herói ultra-romântico” por um lado, e, por outro, a exploração limite entre sexo/morte. Stigmata Martir. 4-VÂNDALOS DE CEMITÉRIO - A vida tem tanto valor e deve ser aproveitada ao máximo exatamente por que ela tem fim. Neste sentido a consciência de nossa finitude nos faz refletir e valorizar mais cada momento de nossa vida, ao mesmo tempo que este prazer é atravessado por uma certa melancolia inerente à condição humana. Assim, os cemitérios além de ótimos lugares para um passeio tranqüilo ao apreciar a beleza dos jardins e esculturas, são também ótimos lugares para a reflexão e poesia. Seria totalmente incoerente para um Gótico depredar ou vandalizar um Cemitério.

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5- PESSOAS QUE SÓ GOSTAM DE SOFRER - Ninguém gosta de sofrer, a questão é que o sofrimento e as perdas fazem parte da vida, e vivemos em uma cultura que esconde ou não se relaciona muito bem com isso. A condição humana é trágica: precisamos saber rir disso. Então, não existe uma apologia ao sofrimento: apenas não douramos a pílula. (literal e metaforicamente falando, he-he).

09  TIPOS DE GÓTICOS Os tipos abaixo são quase “abstrações puras” que praticamente não existem isoladas. Estão ordenadas assim apenas para finalidade didática. Afinal duas das grandes diversões na cena Gótica são: primeiro, misturar elementos de tendências diferentes e segundo, ficar identificando as combinações que os outros fazem. As variantes misturando os tipos abaixo dão margem a uma infinidade de tipos diversos.

Os tipos básicos:

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a) Gótico Clássico ou Pos-Punk - O visual é inspirado pelo do it yourself do pos-punk e new wave, tendo como modelos variantes do visual usado ao longo dos anos 80 por bandas como The Cure, Bauhaus, Siouxsie and The Banshees e similares. Os itens mais característicos são as maquiagens marcadas e os cabelos armados, e os visuais com sobreposições e com influência em parte New Romantic, em parte Pos-Punk/New Wave. b) Victorian Gothic ou Gótico Romântico - Apesar do visual do Gótico Pos-Punk/New Wave incluir alguns ítens pseudo-vitorianos herdados dos new-românticos, o Gótico Vitoriano se concentra em visuais que de alguma forma buscam fazer um estilo de época, seja uma época passada ou um futuro "neo-vitoriano". Pode ser, portanto, uma reconstrução de um visual novecentista, ou um visual misturando elementos pseudo-vitorianos a elementos e materiais futuristas como latex e couro ou itens S/M. c) Coldwave/Darkwave Gothic - Geralmente um visual quase todo preto, mas bem mais discreto, com menos maquiagem ou sem nenhuma. d) Cyber Góticos: É um visual baseado em restos industriais, que podem incluir elementos de neon, pseudo implantes cibernéticos e máscaras de gás. Se parece às vezes com um visual deathrock com elementos futuristas.


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São comuns os appliqués e extensões nos cabelos em cor, mas a cor de base ainda é o preto. e) Deathrock Góticos - Alguns consideram hoje o Deathrock uma subcultura a parte, mas no mínimo temos muitas bandas e Góticos de tendência próxima ao Deathrock. O visual seria o Gótico Clássico ou Pos-Punk levado aos extremos de sobreposição de texturas e exageros, com sobreposição de tecidos e meias rasgadas ou reutilizados, maquiagens mais agressivas ou surreais. O clima circense/teatral é levado às últimas conseqüências. f) Medieval ou Ethereal - É um visual mais usado pelas mulheres, sendo uma variante romântica mas que escapa do clima de luto do estilo Vitoriano. Podemos ter visuais medievais recriados ou simulações de ninfa ou fadas que incluem elementos de várias cores e geralmente longos vestidos. g) Circus-Cabaret-Vaudeville - Um tipo de visual apreciado por deathrockers, mas também presente nas outras tendências. Temos o uso de indumentária e maquiagem de Cabaret ou Circo estilizada, como se estivéssemos em um teatro de Vaudeville. Poderíamos citar uma lista infindável de subtipos, mas não roubaremos ao leitor a diversão e experiência de aprender a reconhecer as sutilezas destes tipos e suas misturas na realidade da cena Gótica mais próxima.

10  SÍMBOLOS RECORRENTES NA SUBCULTURA GÓTICA "Eu vejo o industrial e o gótico como dois lados da mesma moeda- o yin e o yang- o masculino e o feminino, escreve Alicia Porter em sua pesquisa Study of Gothic Subculture,(...) O gótico expressa o emocional, a beleza, o sobrenatural, o feminino, o poético, o teatral;..." (Goth Chic, Gavin Baddeley, 2003) Por que nos atraímos inicialmente por uma subcultura com características X, Y ou Z, e não por uma subcultura com características A, B ou C? Isso acontece pois algumas características nossas que não encontravam um modelo de expressão e identificação em outros lugares acabaram por encontrá-lo na subcultura Gótica e em sua Estética, Cena e História.

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A identificação inicial é sempre Intuitiva e Estética: como uma paixão. Porém, se o indivíduo em questão nunca entrar em contato com a subcultura Gótica esta identificação se torna impossível. Mas quais seriam estas características que nos atraem na subcultura Gótica? Podemos dizer que a subcultura Gótica vem exatamente suprir deficiências da cultura oficial industrial do ocidente. Por isso muitas vezes elabora características opostas a ela. A cultura oficial nos dita comportamentos despersonalizados, impede a individualidade, nega a morte enquanto experiência vital, e é apolínea, mecanicista, positivista e predominantemente “Yang” (masculino como referência de humano). Nela não há mais espaço para aquele Individualismo que o Oscar Wilde define no seu livro "a alma do homem sob o socialismo". Assim, buscamos “espaço” ou “algo que nos falta” em alguma subcultura.

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Podemos dizer que outro elemento que caracteriza o Gótico é um caráter compensatório Ying, pois a sociedade oficial é hoje predominantemente Yang. Assim, buscamos um equilíbrio ou compensação. Podemos observar o caráter Ying de todo sistema estético e simbólico do Gótico (e também em grande parte da Darkwave). O conjunto destes símbolos é repetido em grande quantidade e freqüência em letras, músicas, roupas, imagens, comportamentos, discursos, etc ligados a subcultura gótica: • • • • • • • • • •

Lua Prata Água/Mar Noite Outono e inverno Sensualidade Mistério Decadência Expressionismo Feminilidade (no caso das mulheres) e Anima (parte feminina no homem)

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Onírico Surrealismo Dionisíaco Intuição Androginia Drama Anti-racionalismo Expressão da Emotividade Lirismo Serpente Vampiro Bruxa, feiticeira, magia

• • • • • •

Ennui, spleen Horror com humor Obscuridade Paixão Anjos caídos Urbanidade problemática/ cidades vazias • Romantismo • Seasonal, cíclico • Hedonismo


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Claro que nenhum Gótico ou obra de arte da subcultura Gótica possui todos estes elementos no grau máximo, nem isso é necessário, pois como verificamos em qualquer sistema cultural (como o brasileiro ou nordestino, por exemplo) ou subcultural, nenhum indivíduo ou obra possui a totalidade do sistema, mas ambos fazem parte do sistema simbólico, se relacionando e se ligando a outros elementos e símbolos que aumentam o sentido do conjunto e formam um tipo de “ambiente”. Assim, algumas pessoas desenvolvem mais alguns elementos do que outros. Isso que nos faz permanecer Indivíduos mesmo dentro de uma subcultura. Depois, em um segundo momento, começamos a compreentender o significado da atração que estes símbolos estéticos e esses sentimentos exercem sobre nós. Isso nos faz entender e nos interessarmos também pela história e teoria da subcultura Gótica. Sem deixar de senti-las. Sentir e Saber não são coisas excludentes, é falso o dualismo que opõe sentimento e conhecimento. Mas isso é um processo que se dá com a vivência na subcultura. Pois o aprendizado é um processo afetivo de sucessivos ciclos de aproximações e estagnações ao longo do tempo. Afinal, Cultura sem sentimento é Erudição estéril, e Sentimento sem Cultura, cai no lugar comum.

11  A ANDROGINIA E A MAQUIAGEM NA SUBCULTURA GÓTICA Toda Cultura expressa e comunica seus valores através de um sistema de símbolos estéticos. Não é diferente com a subcultura Gótica e a tendência Darkwave. Evidentemente ninguém é obrigado a usar maquiagem ou a ser andrógino. Mas desde o seu estabelecimento, na virada dos anos 1970 para os 80, a subcultura chamada de Gótica teve, entre as suas características diferenciais, o gosto pelo jogo de cena da androginia e da maquiagem teatral. Estes dois elementos não são gratuitos: estão ligados às demais influências e referências culturais dessa subcultura.

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AS INFLUÊNCIAS E A MAQUIAGEM Insatisfeita com o mundo atual, a subcultura Gótica vai buscar equivalentes simbólicos desta insatisfação na cultura do passado recente. Ou em um passado idealizado ou “alterado” que usamos para comentar o nosso presente. O contrário de uma sociedade amena e pasteurizada é a busca pelo drama, expressão e catarse. Os elementos estéticos adotados pela subcultura Gótica são buscados exatamente no teatro, no cinema expressionista e no cinema da nouvelle-vague francesa, no teatro popular ou vaudeville, na cabaret culture dos anos 1930 e na estética da geração beat e glam, mas também em uma estética romântica e vitoriana, adequadas a um poema de Baudelaire ou a um conto de Poe ou de Oscar Wilde.

O TEATRO DA VIDA: LUZ FORTE GERANDO SOMBRAS INTENSAS

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O teatro e o cinema expressionista usam a maquiagem de grande contraste entre o branco e o negro por dois motivos básicos e convergentes: 1) a intenção de amplificar a expressão dos traços e expressões e o caráter dramático das relações e 2) permitir a visualização a distância (no caso do teatro) e em condições de filmagens precárias (iluminação, tipo de película primitiva, etc) ou com opções estéticas minimalista de alto contraste de luz e sombra. Também o teatro oriental carrega muito nas maquiagens. Ainda hoje, como era feito no passado no teatro ocidental, são permitidos apenas homens como atores, mesmo para os papéis femininos. É quase certeza que nas primeiras apresentações das peças de Shakespeare, Julieta fosse um menino ou rapaz… O conceito essencial do Expressionismo, seja na pintura ou no cinema, é o grande contraste e a amplificação e expressão das emoções e sentimentos. Por isso, o uso de luz forte para produzir uma grande sombra e contraste é um elemento estético que expressa um significado intencional.

A ANDROGINIA COMO REPRESENTAÇÃO DA CRISE DOS PAPÉIS SOCIAIS Apenas na década de 60 do século XX a questão da posição do homem e da mulher na sociedade sofreu uma crise. Saímos de uma posição mile-


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 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

nar que privilegiava o homem para uma posição de crítica a este modelo, em busca de uma igualdade que ainda estamos longe de alcançar, apesar dos avanços. Não podemos esperar que um desequilíbrio de milênios seja corrigido em apenas poucas décadas. Mas desde 1960 homens e mulheres começaram a conquistar o direito de expressar e desenvolver partes de suas psiques que antes lhes eram vedadas. Por exemplo, as mulheres conquistaram o direito a se desenvolver intelectual e profissionalmente, e os homens, emocional e parentalmente. Agora as meninas já podem ser mais independentes e os meninos já podem chorar. As mulheres podem ter a satisfação profissional enquanto os homens vêm conquistando o direito de serem pais, e não apenas provedores de suas famílias. Foi apenas o começo do caminho para que ambos os gêneros se tornem um dia seres humanos mais completos. Mas o que nos interessa aqui é que vários movimentos de vanguarda desenvolveram estéticas exageradas ("expressionistas") para expressar essas mudanças. Ou para lutar por elas.

A ANDROGINIA ESTÉTICA As cenas culturais de vanguarda ou underground de várias épocas anteciparam as questões do futuro, ao mesmo tempo que abrigavam aqueles que não tinham lugar na sociedade oficial por estarem em desajuste com o pensamento de sua época. Nos anos 1970, a questão da bissexualidade psicológica do ser humano foi expressa de forma radical pelo movimento Glam-Rock. O uso da maquiagem neste movimento é largamente difundido, tanto para homens quanto para mulheres. Foi realmente um choque radical para criar a ruptura com uma sociedade que ainda preservava modelos tradicionais do que é ser homem e o que é ser mulher. Com o tempo, o choque se diluiu e foi absorvido, e algumas mudanças, que são hoje consideradas normais, foram estabelecidas. Oficialmente o Glam acaba em 1975, mas boa parte de seus conceitos vai, a seguir, ser absorvida por novos movimentos que estão surgindo: a new-wave, o pos-punk inicial, o new-romantic e o gótico.

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ANDROGINIA X HOMOSSEXUALIDADE Androginia e homossexualidade não são a mesma coisa. Androginia é uma opção estética e a homosexualidade é uma opção sexual. Assim, um homem ou uma mulher pode optar por uma estética Andrógina e ao mesmo tempo ter qualquer opção sexual: heterossexual, homossexual, bissexual ou nenhuma das anteriores… Além disso, a maioria dos Homossexuais não usa visual andrógino, sendo bastante comum visuais totalmente masculinos e alguns visuais até com certo exagero das características masculinas (barba, bigode, cavanhaque, músculos trabalhados, costeletas, etc). E as homossexuais femininas freqüentemente usam visuais socialmente aceitos como femininos. Evidentemente que no passado, em uma sociedade conservadora, preconceituosa e homofóbica, uma subcultura como a Gótica, que usa a androginia como símbolo estético, sofria do mesmo preconceito que a homossexualidade sofria.

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Ao mesmo tempo, antes da organização dos movimentos pelos direitos homossexuais nos anos 90 e da formação de uma cena e subcultura GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), fica fácil entender por que a subcultura Gótica era uma opção de abrigo para homossexuais de ambos os sexos. Em qualquer outra cena alternativa sofreriam mais preconceito. Não que não sofressem também nesta, mas ao menos na cena Gótica isso era uma incoerência. Essa "licenciosidade" simbólica na esfera sexual acabou agregando vários elementos fetichistas à estética da subcultura Gótica e Darkwave, como os elementos estéticos Sado-Masoquistas. Mas, na maioria dos casos, estes elementos são usados apenas como fetiches estéticos. Cabe ressaltar que hoje na subcultura Gótica é mais comum um visual feminino tanto para as mulheres como para os homens. Hoje, vemos um número muito menor mulheres com visual andrógino do que em outras cenas. Talvez fosse mais apropriado dizer que a subcultura Gótica valoriza um certo tipo de “feminilidade estética” tanto para homens como para mulheres.


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A ANDROGINIA E O VAMPIRO: A FACE BRANCA DO IMPURO Ao longo dos anos 1990 o Vampiro se tornou um ícone pop ainda maior do que nos anos 1980. Como sabemos, o Vampiro é considerado um símbolo da expressão de impulsos tidos como impuros ou pecaminosos pela sociedade oficial. Este uso simbólico do mito do Vampiro é coerente com os demais elementos estéticos do Gótico que abordamos aqui. Assim, um Gótico pode usar um visual de Vampiro ou não. Esta é uma das diversas opções de visual.

MAQUIAGEM BRANCA E A QUESTÃO ÉTNICA Como vimos nos itens anteriores, a maquiagem branca do Gótico não tem nenhuma ligação com a intenção de parecer ou ser mais “branco” do ponto de vista étnico. Pelo contrário, o branco na maquiagem Gótica simboliza uma expressão dramática ou catártica, ou ainda o caráter do Impuro do Vampiro ou ainda da palidez da morte como questão existencial. Ao mesmo tempo, a inclusão de diversos elementos estéticos de culturas não-européias modernas no universo Gótico e Darkwave (asiáticos, africanos, orientais, pagãos) caracterizam nossa subcultura como multi-culturalista. Ao mesmo tempo, elementos estéticos da cultura Européia antiga são integrados nesta "salada-de-frutas". Por isso temos Góticos de todas as etnias: brancos, negros, amarelos, mulatos, vermelhos, verdes…(bem, se levarmos em conta a maquiagem, a lista não tem fim…).

A INDIVIDUALIDADE DENTRO DE UMA CULTURA Toda Cultura expressa e comunica seus valores através de um sistema de símbolos estéticos. Não é diferente com a subcultura Gótica. Da mesma forma, há pessoas que usam de formas diferentes ou em quantidades diferentes o repertório estético da cultura a qual pertencem. Também, existe um uso estético diferente para cada ocasião: existe uma estética para o trabalho, uma para a festa, outra para o casamento, uma para o dia, outra para a noite, e assim por diante. Assim, uma pessoa pode construir uma individualidade dentro de uma cultura. Quanto mais informação estética uma pessoa tiver, maior o reper-

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tório que ela tem para escolher elementos estéticos coerentes com a sua personalidade e intenções. O mesmo vale para as características simbólicas, artísticas e psicológicas em uma subcultura. Esta questão é mais desenvolvida na parte “c” do capítulo “9- Características da Subcultura Gótica”.

MODA OUTONO-INVERNO… E O ANO INTEIRO. A subcultura Gótica foi influenciada e herdou elementos de movimentos contra-culturais, e já surge com a desilusão de que "não adianta perder tempo com a sociedade oficial, vamos criar nosso mundo à parte, incluindo o que falta no outro". Neste aspecto, podemos dizer que a subcultura Gótica é mais “completa” que a cultura oficial, pois inclui todos os elementos desta e mais os aspectos "obscuros" e dramáticos que ela nega. Se a cultura oficial é a primavera e o verão, a subcultura Gótica é o ano completo.

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Evidentemente, por efeito compensatório da alienação da sociedade oficial, a subcultura Gótica enfoca mais o outono e o inverno. Mas de forma alguma deixa de "dançar saltitante nas paixões da primavera e de sucumbir à lassidão e ludicidade luxuriosa dos verões escaldantes".( rsss....) Enquanto o outono e o inverno não chegam, é claro…

12  A TEMÁTICA MÍSTICA EM UMA SUBCULTURA LAICA “Following the footsteps, of a rag doll dance, we are entranced. Spellbound” “Speelbound”-

Siouxsie & The Banshees

A Subcultura Gótica é laica, isto é, não tem religião. E muito menos se constitui ela mesma uma doutrina religiosa ou mística. A ligação da subcultura Gótica com o ocultismo é meramente simbólica: ela se apropriou de alguns símbolos ligados historicamente a alguns misticismos e os usou de outra forma, da mesma forma que se apropriou de símbolos das mais diversas simbologias para construir seu sistema simbólico próprio.


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 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

Evidentemente isto muitas vezes fez com que pessoas que, em suas vidas pessoais, adotassem cultos pagãos europeus, ameríndios, africanos, asiáticos -ou de outras religiões não judaico-cristãs- se sentissem confortáveis ou atraídos pela subcultura Gótica. Paralelamente a subcultura Gótica, desenvolveu-se um circuito de bandas e pessoas que levam alguns destes cultos mais a sério, mas isto é uma opção pessoal e complementar de cada um. A subcultura Gótica apenas é tolerante o bastante para não disseminar nenhuma espécie de restrição a escolhas religiosas pessoais. Apenas, como já comentamos acima, é comum na subcultura Gótica e Darkwave (e talvez ainda mais no Death-Rock) encontrar letras e músicas que façam um uso de símbolos religiosos que pode ser considerado herético por alguém que seja religioso de forma dogmática. Também não são incomuns citações ateístas (mas isso é uma escolha pessoal de algumas bandas).

CITAÇÕES EM BANDAS E MÚSICAS Alguns exemplos são: •

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Ian Astbury, da banda Southern Death Cult (depois “Death Cult” e, finalmente “The Cult” a partir de 1983) tinha uma temática muito ligada ao paganismo e xamanismo dos índios da américa do norte. Além da adoção de percussões tribais, a influência é de Jim Morrisson, que representava transes xamanísticos em seus shows. Músicas como “Apache”, “Moya” e “Ghost Dance” são literais. A temática da banda The Doors parece ter influenciado outras bandas góticas também. A música "Pagan Love Song" do Virgin Prunes, o album "Juju" do Siouxsie and The Banshees, (Juju é uma palavra africana para "Karma", e a capa traz uma escultura africana). Ao lado das percussões tribais o nome “Siouxsie Sioux” também é auto-explicativo: Sioux é uma tribo norte-americana. a banda Cristian Death trabalhou ostensivamente com a temática cristã, geralmente de forma chocante ou herética. A música “Inkubus Sukubus” do X-Mal Deutschland o nome da banda Dead Can Dance e a capa do primeiro álbum referem-se a uma máscara ritual da Nova Guiné e seu significado simbólico. a temática de halloween, vodoo e bruxaria é comum, mas geralmente em tom de brincadeira. bandas com nomes como “Two Wiches” e “Inkkubus Sukubus” dispensam maiores explicações. Esta segunda banda tem uma militância Pagã-Celta explícita.

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a banda “The Jesus and Mary Chain”, além do nome considerado herético por alguns, também usa metáforas cristãs e o nome de Jesus de forma totalmente descompromissada.

Os exemplos são muitos mais, mas a abordagem é artística e poética, e não-religiosa. Ao mesmo tempo temos canções como “Gottes Tod” (a morte de deus) da banda Das Ich, que relata os sentimentos humanos na ausência de qualquer deus.

SÍMBOLOS RELIGIOSOS RECONTEXTUALIZADOS PELOS GÓTICOS:

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Assim, quando encontramos alguém na subcultura Gótica usando um determinado símbolo (cruz, ankh, pentagrama, etc) isso não quer dizer que esta pessoa seja adepta das respectivas doutrinas místicas ou religiosas. Ao mesmo tempo a subcultura Gótica, desde sua origem, aborda seus temas de uma forma que pode questionar valores sociais e religiosos vigentes, muitas vezes usando de símbolos de forma herética ou questionando o sentido da vida. Isto pode causar algum choque ou incômodo a alguém que leve alguma religião mais a sério. Mas ao mesmo tempo, são comuns símbolos como almas, anjos caídos, espíritos, ao lado de músicas com conteúdo não religioso. Dentro da subcultura Gótica, estes símbolos devem ser tomados da mesma forma que na poesia: como metáforas de sentimentos humanos.

VAMPIROS NA SUBCULTURA GÓTICA: Os Vampiros são um dos diversos símbolos metafóricos na subcultura Gótica, entre muitos outros. Um exemplo é o caso daquele que é considerado o hino não oficial da subcultura Gótica: a música “Bela Lugosi is Dead", (1979) da banda Bauhaus. A letra é uma sátira baseada no filme Drácula de 1932, cujo ator principal é Bela Lugosi, considerado por muitos uma referência de atorcanastrão. A associação entre subcultura Gótica, Vampiros, música Gótica e PosPunk, Ankhs e Egiptologia se tornou “Pop" e consagrada a partir do filme “Hunger" (Fome de Viver, 1983). Nele, a mesma banda Bauhaus aparece na abertura tocando "Bela Lugosi is Dead" em um clube noturno no qual um


Parte III

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casal de vampiros new-romantic (representados por David Bowie e Catherine Deneuve ) entram para caçar suas presas da noite. Esses elegantes vampiros em crise existencial usam amuletos Ankhs com pontas afiadas para cortar a jugular de suas vítimas. A vampira deste filme está viva desde o antigo Egito. Em 1994 o livro de Anne Rice “Interview with the Vampire", escrito em 1976, é transformado em filme, trazendo às telas vampiros humanizados que colocam em cheque questões existenciais e morais. Bem, pelo menos para alguns deles… Novamente, no filme “A Rainha dos Condenados”, (também baseado no livro de mesmo título de Anne Rice) somos remetidos ao antigo Egito como origem do vampirismo através da personagem principal, Akasha. Estes filmes e outros geram um “boom" da temática vampírica nos anos 90, tanto dentro da cena Gótica como fora dela. Apesar do tema do vampiro estar presente na subcultura Gótica desde os anos 80, aconteceu uma hipertrofia deste tema durante os anos 90 em detrimento de outros. Mas o vampiro continua sendo um símbolo tradicional na subcultura Gótica. Junto a outros como os zumbis, Frankenstein e fantasmas, também o Vampiro não está nem morto nem vivo, levando a um questionamento do que exatamente significa estar vivo e viver.

SATANISMO E CRISTIANISMO: A subcultura Gótica é laica, ou seja, não tem religião, mas também não é anti-religiosa por definição. Não existe nenhuma ligação direta e literal da subcultura Gótica e Darkwave nem com Satanismo nem com Cristianismo. Qualquer citação neste sentido é encontrada no sentido metafórico ou poético. Por exemplo: o crucificado como símbolo de sofrimento sentimental, ou o demônio como símbolo das tentações, o anjo caído como símbolo da perda das ilusões ou utopias, etc. Um gótico pode ter qualquer religião ou nenhuma religião. Religião ou crença mística é uma questão privada e pessoal de cada um.

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13  GLOSSÁRIO DE ESTILOS MUSICAIS RELACIONADOS À SUBCULTURA GÓTICA Obs1: O foco deste glossário é a formação dos estilos gothic/darkwave/post-punk e "parentes" mais próximos. Obviamente, se o foco fosse a formação de outros estilos, estes estariam mais detalhados. Obs2: Importante ressaltar que: a) Uma banda não tem um rótulo único. Geralmente existe mais de um rótulo aplicável à mesma banda. b) Na mesma época, o mesmo estilo pode receber nomes diferentes em países diferentes. c) Em épocas diferentes o mesmo estilo pode receber nomes diferentes no mesmo país. d) A mesma banda pode ir mudando de estilo ao longo do tempo ou trafegar por vários estilos na mesma época.

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Abaixo, comentamos, alguns mais longamente que outros, os seguintes rótulos/estilos (a ordem não é cronológica): INFLUÊNCIAS (1965-1977): 01

Os 60’s e Glam Rock

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KrautRock

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Punk

NEW WAVE/ POS-PUNK/ WAVEs (1978 em diante): 04

New Wave

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Cold Wave e French New Wave

06

Neue Deutsche Welle (NDW) ou New Wave Alemã

07

Pos-Punk

08

Industrial

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E.B.M.

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DarkWave

11

Gothic

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New Romantic

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Death-Rock

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Ethereal e Ethno


Parte III 15

Synth-Pop

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Trip-Hop

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"80's"

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INFLUÊNCIAS 01. 60’s e GLAM ROCK: Acid-Rock, Rock Psicodélico, Folk-Rock, os restos do movimento Beat: alguns artistas da segunda metade dos anos 1960 inauguraram elementos que influenciariam tanto o punk como continuariam referências no pospunk e no Gótico. The Doors e Velvet Underground praticamente na mesma época, em extremos opostos dos Estados Unidos, trouxeram algo novo para o universo do rock e da música alternativa. O estilo de poesia de suas letras, de imaginários explorados nos textos Beat tardios de Jim Morrisson e Lou Reed se tornam referências essenciais. A quantidade de "hinos" que essas duas bandas produziram nos seus primeiros álbuns entre 1967 e 1969 marcou profundamente a geração que estaria fazendo música no começo dos anos 80. Também é curioso notar a quantidade de covers das bandas The Doors e Velvet Underground que foram realizados por bandas Góticas e Darkwave. Sem falar na influência óbvia de estilo e estética. Já o Glam-Rock existiu oficialmente de 1970 a 1975. O estilo se caracteriza por uma temática hedonista-decadentista, (algo que já víramos no Doors e no Velvet antes) androginia, e um Rock básico ou recheado de experimentalismo, muitas vezes considerado proto-Punk. Mas também havia lugar para muito lirismo, folk, cabaret e poesia. Ex: T-Rex, New York Dolls, Iggy Pop (& Stooges), David Bowie, Lou Reed, Roxy Music, Sweet, Slade, Gary Glitter, etc. (Obviamente muitos destes artistas tiveram carreiras antes e depois da fase Glam-Rock). O Glam-Rock influenciou diretamente o Pos-Punk e o Gótico, tanto na musicalidade como em suas temáticas e abordagens, sendo que muitas das primeiras bandas Góticas pareciam e soavam muito como bandas GlamRock. Ex: Bauhaus e Specimen.

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Por exemplo, para reagir ironicamente às críticas de que era “apenas um revival glam”, o Bauhaus lançou um compacto com um cover quase idêntico de “Ziggy Stardust” de David Bowie e com o símbolo facial de Bowie na capa sobre o logotipo do Bauhaus. Não poderíamos deixar de citar a influência transversal do “country obscuro” e da “chanson” francesa tardia. Pelo primeiro grupo temos, por exemplo, Johnny Cash, que além das letras voltadas para o “dark side” ficou conhecido no final dos anos 60 como “the man in black” pois popularizou um estilo incomum no country na época: roupa preta, longos sobretudos negros e chapéus da mesma cor. O poeta e escritor canadense Leonard Cohen desde seu primeiro álbum em 1967 também se tornou um ícone para a geração seguinte de compositores. Por exemplo, o nome da banda The Sisters of Mercy e o famoso verso “some girls wander by mistake” saíram deste primeiro álbum.

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Do lado da chanson francesa, com seu estilo decadentista de “crooners dramáticos” temos que citar os trabalhos mais tardios de Jacques Brel, principalmente seu álbum de despedida quando soube que iria morrer. Liza Minelli não é uma cantora francesa e sim Americana, mas ela encarnou com perfeição o estereótipo da “decadence” dos cabarets no musical e no filme “Cabaret” de 1972, que marcou a geração que se seguiria.

02. KRAUTROCK: Krautrock é o nome que se dá ao experimentalismo no Rock alemão do final dos anos 60 e ao longo dos anos 70. Este experimentalismo mistura rock, psicodelia, música experimental eletrônica, música concreta, eletroacústica, minimalismo, proto-industrial, música erudita moderna experimental, jazz e quase tudo que se possa imaginar… O Krautrock foi influente tanto no pos-punk como na música Industrial e as tendências eletrônicas, assim como as várias tendências pos-punk, new wave, além do synth e EBM. EX: Kraftwerk (que influenciou quase tudo que se conhece em termos de música eletrónica), Can, Neue, Tangerine Dream, Faust, Popol Vuh (responsável pela trilha sonora da refilmagem em 1979 do clássico “Nosferatu” por Werner Herzog), Cluster, Amon Düül II, etc.


Parte III

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03. PUNK: Punk é um rótulo polêmico. A primeira polêmica é se é um estilo norte americano ou britânico. Outra polêmica é se começou em 77 ou terminou em 77… A hipótese mais plausível é que tanto o som punk quanto o nome tenha surgido em território norte-americano. O som, a partir de bandas do final dos anos 60 como MC5 e The Stooges (de Iggy Pop). O nome a partir de uma revista/zine do começo dos anos 70. Ainda nos Estados Unidos temos a banda New York Dolls (1970-1974) que trazia uma mistura de rock básico e estilo que seria base para o Glam também. Em seguida temos uma segunda geração, ligada ao clube CBGB, que contava com grupos como Richard Hell and The Voidoids, Television, Patty Smith Group, Talking Heads, Blondie e The Ramones. Isso tudo até 1975. Mas esse punk norte-americano era bem mais variado, com temáticas poéticas e ao mesmo tempo agressivas, líricas e suaves intercaladas com arroubos sônicos. Diferente do que ficaria conhecido como punk a partir de 1977 com os ingleses do Sex Pistols: desenvolvido por Malcoln McLarem este “punk” tem uma temática mais extrospectiva e política. Testemunhas e relatos deixam claro que depois de não conseguir levar Richard Hell e remanescentes do New York Dolls para a Inglaterra, McLaren resolveu montar uma banda cópia deles para promover sua loja de roupas. Assim acaba um "punk" e começa "outro punk". Obviamente muita gente levou a farsa situacionista dos Pistols a sério e criou-se algo maior que o esperado. A ética "faça você mesmo" (do it yourself, ou DIY) teve pelo menos um efeito benéfico: fazer com que muita gente que jamais ousaria tocar em um instrumento saísse de casa e conseguisse transmitir sua mensagem e, em alguns casos, se desenvolvessem como artistas. Depois o punk se dubdividiu em uma infinidade de sub-estilos que precisariam de um dicionário para serem descritos. Mas o que nos interessa aqui é que as primeiras bandas Góticas surgiram no furor do "pos-punk", sendo que muitos dos membros da primeira geração de bandas estiveram em bandas punk anteriormente. Assim, por um período, de 1978 a 1982 aproximadamente, o Gótico é mais relacionado com o cenário Punk/Pos-Punk. Depois de 1983/1984 se constitui clara-

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mente como uma subcultura separada e autônoma, com outras influências se destacando (Krautrock, Glam, Acid-Rock, estilos Eletrônicos, New-wave, etc), e vem evoluindo e se desenvolvendo até hoje. OBS: dica de leitura: Mate-me Por Favor, de Legs McNeil e Gillian McCain (vol I e II)

NEW WAVE/ POS-PUNK/ GOTHIC/ WAVEs: 04. NEW-WAVE: Um dos rótulos mais incompreedidos que existe, coitado, é "New Wave". Talvez porque o rótulo acabou se tornando abrangente demais. “WAVE”, em geral, acaba sendo um termo usado para as diversas “ondas” e novos estilos que surgiram e se propagaram depois do punk e de todo o experimentalismo dos anos 70, influenciados pela rejeição de formas consideradas “velhas” de fazer música. Às vezes podemos encontrar a expressão “as waves” se referindo às várias correntes que comentamos abaixo, new wave, ndw, coldwave, gothic-wave e depois darkwave.

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A versão mais reproduzida sobre a origem do nome “new wave” é que ele vem de "French-New-Wave", um movimento de renovação do Cinema Francês da década de 60, representados por cineastas como Jean Luck Godard, François Truffaut, etc. Esse movimento é chamado em francês de "Nouvelle Vague" (nova onda, new wave). Os filmes costumam ser mais sombrios, “noir”, às vezes existencialistas e irônicos, usando de muito simbolismo e abordando a alienação social e psicológica do indivíduo. Como estes filmes eram muitas vezes “independentes”, as bandas “independentes” teriam sido assim chamadas por associação. Depois o termo New-Wave adquiriu outros sentidos. Na musica-pop, no final dos anos 70 para o começo dos 80, o termo New-Wave começou a ser usado para designar as bandas que haviam começado em 1974/75 como Punk, mas depois seguiram um caminho experimental. Ex: Talking Heads, Patty Smith, Television, Blondie e outros da cena de Nova York. Ícones new-romantic também podem ser classificados como new-wave (ex: Duran Duran, Visage, Culture Club), assim como fases menos “punk” de bandas do “pos-punk” (The Cure, Siouxsie and The Banshees, etc).


Parte III

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Alguns artistas se tornaram estereótipos New Wave exatamente por explorarem também a questão do visual e aproveitarem o surgimento do vídeo e da MTV: The Buggles, Devo, Cindy Lauper, PIL, B-52’s, Culture Club, etc. Temos ainda a versão francesa do Movimento musical New-Wave a "French-New-Wave" (algumas bandas sendo chamadas também de ColdWave) e a NDW alemã (Neue Deutsche Welle). O movimento New-Wave, assim, de forma alguma se resumia a apenas “um povo com roupa colorida que dançava para sintetizadores".

05. COLDWAVE e FRENCH NEW WAVE: “A falta de perspectivas e o isolamento “entre quatro paredes” fez a dupla Bowie/Eno criar – sobretudo em Low – texturas sonoras que eram descritas como um “deserto futurista congelado por sintetizadores”. Nascia ali o embrião do gênero que viria a ser conhecido por cold wave ou a facção mais fria, robótica e apocalíptica do pós-punk. Não por acaso, o Joy Division tiraria seu primeiro batismo (Warsaw) da faixa de abertura do Lado B de Low” (texto online de Abonico R. Smith). Eventualmente chamado também de “Cold New Wave”, ou ainda um estilo tardio de pos-punk ou de “pré-darkwave”, o termo Coldwave é aplicado ao trabalho de linha eletrônica minimalista e “frio”, mas sem deixar de ser dançante, usado especialmente para bandas francesas do final dos anos 70 e anos 80. EX: Opera Multi Steel, Trisomie 21, Collection D’Arnell~Andrea, Guerre Froide, Clair Obscur, Kas Product, Asylum Party, Barroque Bordello, Little Nemo, Norma Loy, etc. Além de Gary Numan, também Cabaret Voltaire, a fase "Faith" do The Cure, Cocteau Twins, Dead Can Dance e algumas fases de Siouxsie and The Banshees são citados como ColdWave. Mais tarde o termo Darkwave foi aplicado retroativamente a muitas destas bandas, sendo que por associação o termo Gótico e Darkwave acabam sendo usados paralelamente. Cuidado: existe um segundo sentido de Coldwave, totalmente diferente deste, usado principalmente nos EUA e que se refere a um ramo de Industrial-Rock.

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06. NEUE DEUTSCHE WELLE (NDW): Na Alemanha temos a Neue Deutsch Welle (NDW - Nova Onda Alemã, German New-Wave), que ia desde um lado mais experimental até outro mais comercial. Do lado mais experimental é comum listar bandas que encontramos também catalogadas como Industriais ou Góticas: Malaria, XMal Deutschland, Einsturzende Neubauten, etc. Temos bandas como o Liaisons Dangereuses que podem ser consideradas o “elo perdido” entre o pos-punk, eletro e o que viria a ser chamado de EBM/Industrial. Do lado mais comercial: Falco, Trio, Spyder Murphy Gang, Nena, etc. Definitivamente, uma música de temáticas noir, mas com abordagem pos-punk usada com elementos eletrônicos. Podemos traçar um paralelo com a Cold Wave francesa, mas em um país que foi o berço do experimentalismo do Krautrock, tendo uma influência mais forte deste. Obs:Assim, considerando todas as variantes do uso desses rótulos, fica mais fácil entender a mistura desde os anos 80 entre o público e som Gótico, DarkWave e NewWave nas casas noturnas paulistanas chamadas de "góticas”.

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07. POS (T)-PUNK: Positive-Punk (ou Posi-Punk) e Pos-Punk não são a mesma coisa. Não vamos entrar em detalhes em um glossário, apenas basta saber que o rótulo Positive Punk (ou Posi-Punk, com “i”) foi usado pela imprensa inglesa por um período durante 1983, mas este rótulo foi abandonado com o “boom” “Goth” logo a seguir. (mas positive punk não é também sinônimo de Goth). Pos-Punk (ou Post-punk, com “T”) é um termo que abrange bandas de diversos estilos e tendências, sendo às vezes difícil estabelecer a fronteira com outro termo genérico, a New Wave. Assim o essencial é saber que o “Pos-Punk” é um conjunto maior que continha várias tendências, e o Gótico foi apenas uma delas no período de 1978 a 1983 aproximadamente. Assim, nem toda banda Gótica é pos-punk, e nem toda banda pos-punk é Gótica. A abordagem do pos-punk já era diferente do punk: mais introspectiva, onírica, sensível e irônica, mas sem perder o humor-negro. As temáticas eram variadas, usando de todo repertório Pop como metáfora para comentar questões cotidianas. O Pos-Punk, como termo genérico, definia um


Parte III

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leque grande de estilos, com base comum nos princípios do minimalismo, experimentalismo e outros comuns ao punk, o glam-rock, new-wave, NDW, Industrial, synth e o punk-glam, misturando ainda ritmos latinos, tribais e da black-music. Ou simplesmente tudo que soasse minimamente “novo” depois do punk. Exemplos de Bandas consideradas tanto Góticas como Pos-Punk: Bauhaus, Alien Sex Fiend, The Damned, Sex Gang Children, Malaria, The Cure, X-Mal Deutschland, Siouxsie and The Banshees, Birthday Party, Nick Cave, Specimen, Joy Division, etc. Obviamente muitos dos fans das bandas Góticas pos-punk não eram Góticos, da mesma forma que muitos Góticos gostavam (e gostam) de bandas pos-punk que não são Góticas. O que explica porque bandas novas do revival pos-punk que acontece no começo do século XXI são bem recebidas pelo público Gótico. Resumindo, podemos dizer que a partir de 1983 o termo Gothic se fixa, sendo aplicado também retroativamente.

08. INDUSTRIAL: O Termo “Industrial” teria sido sugerido pelo músico e performer Monte Cazazza: “música industrial para pessoas industriais”. A idéia era uma “nãomúsica” que satirizasse o mundo Industrializado. Influenciados por experiências feitas na música erudita experimental ao longo do século XX, um dos resultados foi o Industrial que surgiu em meados dos anos 70, principalmente ligado ao selo Industrial Records. No final dos anos 70, na Inglaterra, os mesmos conceitos eram desenvolvidos pelos pioneiros do Throbbing Gristle, do Cabaret Voltaire e do Clock DVA. Industrial constituía em buscar fazer algo “musical” sem melodia ou mesmo sem instrumentos, usando de objetos cotidianos e/ou industrializados. As sonoridades podiam ser tanto extremamente delicadas quanto totalmente perturbadoras e agressivas. Em 1980, surge um dos Ícones do Industrial, a banda alemã Einsturzende Neubauten. Com o tempo, algumas bandas vão mesclando o estilo com

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outros, e surge o Industrial-Rock, como o caso da banda Nine Inch Nails, mas inicialmente ainda guarda ligação com o estilo original. Logo cedo bandas de Industrial incorporaram os novos experimentalismos eletrônicos, sendo que é comum encontrarmos grupos que transitam nas misturas Industrial/EBM/ Synth-Pop/ Electro. O Industrial tem origens bastante próximas ao EBM, e às vezes os estilos se confundem. Bandas importantes: Das Ich, Skinny Puppy, Front Line Assembly, The Young Gods, etc. Mais recentemente, ao longo dos anos 90, se popularizou um outro estilo chamado “Industrial”, com muitos elementos de Metal, mas que não tem mais quase nada da experimentação do Industrial original. Tais bandas são chamadas de Industrial-Metal. Mas ainda podemos encontrar bandas que fazem hoje um som Industrial mais tradicional.

09. E.B.M. (Eletronic Body Music):

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EBM é outro dos estilos surgidos do experimentalismo eletrônico dos anos 70, guardando sempre grande intercâmbio com o Industrial e gerando sub-gêneros. O maior Ícone é a banda FRONT 242. Outras são Nitzer Ebb, Klinik, Neon Judgement, Skynny Puppy, Front Line Assembly, Leather Strip, Wumpscut, Hocico, etc. Como pode ser visto no ítem sobre Industrial, não é fácil estabelecer uma fronteira clara entre os estilos. Também ao longo dos anos 80 e 90 a “EBM” incorporou experências com vários outros estilos, incluindo elementos electro, breakbeat, synth e até mesmo trance e techno, gerando desde sonoridades altamente experimentais quanto, por outro lado, estilos que fazem a felicidade de clubbers pelo mundo todo. Da mistura de EBM, Synth-pop e elementos de Trance (ou outros estilos bastante eletrônicos, dançantes e pops) surgiu no final dos anos 90 o chamado “Future Pop”.

10. DARKWAVE: Este é um dos rótulos mais controversos. Existem pelo menos três significados mais difundidos para DarkWave:


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a) DarkWave foi o rótulo utilizado para bandas principalmente alemãs do começo da decada de 90, mesmo que depois algumas delas tenham enveredado por estilos que hoje recebem outras classificações. Ex: Project Pitchfork e Das Ich. O termo acaba sendo usado hoje para grupos que trafegam do synth-pop ao EBM/Industrial, mas abusando de temáticas, climas e vocais que os aproximam do Gótico e da Coldwave. EX: Deine Lakaien, Diary of Dreams, Wolfsheim, Diorama, Clan of Xymox (depois de 2.000, principalmente), etc. b) No Começo dos anos 90 a gravadora norte-americana Projekt começou a usar o termo DarkWave para definir seu catálogo. Como esse catálogo incluía muitas bandas similares a Cocteau Twins, Dead Can Dance e sonoridades Ethereal, estes estilos passaram a ser chamados também de Darkwave. Por extensão, passou-se a chamar de DarkWave retroativamente a bandas dos anos 80 que tinham estilo semelhante a Coldwave e que na verdade influenciaram a DarkWave dos anos 90. Ex: bandas francesas como Opera Multi Steel, Collection D’arnel Andrea e as duas bandas Inglesas já citadas. Bandas que começaram fazendo uma New-Wave mais alternativa ou “obscura” passaram a ser incluidas neste rótulo. Muitas bandas do estilo Ethereal também acabam sendo colocadas nesta classificação: Ex: Black Tape for a Blue Girl, Love Spirals Downward, Lycia, Bel Am. etc, Reclassificadas retroativamente: Cocteau Twins, Dead Can Dance, Opera Multi Steel, etc. c) Se bandas como Cocteau Twins e This Mortal Coil foram lançadas pelo mesmo selo que Bauhaus (4ad), também acabou se usando o termo Darkwave para todo o Gótico que não fosse muito “Rock”. Algo como uma “New-Wave mais obscura”. Assim, em alguns casos, Darkwave é usada quase como sinônimo de Gothic. Além disso, bandas como The Cure (principalmente de 81 a 83) e Cocteau Twins, só para dar dois exemplos, na mesma época trabalhavam com sonoridades muito próximas (Coldwave ou “góticas” na opinião de alguns). Esses 3 sentidos às vezes se complementam, às vezes se confundem… Às vezes, também, em vários países, o termo “Darkwaver” é usado pelas pessoas como auto-definição para se classificarem como “verdadeiros Góticos” em oposição aos “góticos comerciais da MTV”, dos fãs de Marylin Manson, Nu-Metal ou dos Gothic-Metallers…

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11. GOTHIC “GOTH”, Gothic, ou Gótico não é exatamente um estilo musical, mas uma abordagem e conjunto de características que podem ser aplicados a vários estilos musicais “wave” ou “pos-punk”. Assim podemos ter bandas Góticas fazendo Eletro-Goth, Synth-Goth, Gothic-Rock, Pos-Punk-Goth, “Gothic” Darkwave (apesar desta ser quase uma redundância….), Ethereal Gothic, etc. Também nem toda música “gótica” é rock. O Rock’n’Roll é apenas um dos inúmeros gêneros musicais usados como veículo do estilo e subcultura Gótica. O Goth/Gothic se tornou muito mais que um gênero musical: uma subcultura e um estilo de vida que acabam caracterizando até outros gêneros musicais (desde que estes não sejam estéticamente – musical e liricamente - incoerentes com o que significa Gótico no nosso contexto). EX: ElectroGoth, Darkwave, Deathrock (apesar deste existir também como cena em separado), Ethereal, Ethno, Gothic-Industrial, Pos-Punk, etc

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Alguns exemplos de bandas Góticas de vários estilos musicais: Switchblade Symphony, Clan of Xymox, Bauhaus, Faith and The Muse, Siouxsie and The Banshees, Nosferatu, London After Midnight, Opera Multi Steel, The Ghost of Lemora, Cruxshadows, Blutengel, Paralysed Age, Diva Destruction, Ikon, Corpus Delicti, Sisters of Mercy, Poesie Noire, etc.. Apesar de usos anteriores entre 1967 e 74, os primeiros usos “oficiais” do adjetivo “Gothic” foram no final da década de 70 para bandas como Bauhaus, Joy Division e Siouxsie and The Banshees, que eram tambem chamadas nessa época de pos-punk. O Gótico continuou seu desenvolvimento ao longo dos anos 90 e no seculo 21, desenvolvendo cenas em todas as latidudes e longitudes.

12. NEW ROMANTIC: Tudo começou no Blitz Club… No começo dos anos 1980 o estilo New-Romantic foi uma tendência ligada a New-Wave baseado inicialmente no clube londrino Blitz (desde 1979) e muitos outros. O estilo New-Romantic que conviveu e influenciou muitas bandas chamadas Góticas ou Death-Rock, sendo que características


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do New-Romantic foram incorporadas à estética Gótica, ou, vendo de outro ponto de vista, se desenvolveram juntas. Musicalmente, a principal diferença entre o New Romantic e o Glam-Rock (cuja influência é óbvia) é que enquanto o Glam-Rock tinha uma sonoridade mais orientada para a guitarra e o rock, o New Romantic era mais orientado para bases electropop, sintetizadores e para as pistas de dança. O New-Romantic se caracterizava por uma espécie de ultra-individualismo dândi, expressado por roupas super “chiques” (mas geralmente modernizadas), maquiagens ultra radicais e por uma música hedonista e dançante. Os ícones eram David Bowie e Duran Duran. Lembram do visual e do som destes dois no começo dos 80’s ? Outras bandas importantes: Classic Noveaux, Visage, Depeche Mode (principalmente no começo), Soft Cell, Gary Numan, Culture Club, Adam and The Ants, Spandau Ballet, Japan, Ultravox. etc

13. DEATH-ROCK: O termo “Death-Rock” surge nos Estados Unidos aproximadamente em 1981 com a banda Christian Death. Depois, quando o termo Goth se firma na Inglaterra, “Death-Rock” passa a ser usado também lá para as bandas “pos-punk/Góticas” mais “punk-góticas”. Enfim, os Góticos tendem a considerar a maioria delas Góticas também, apesar de muitos deathrockers rejeitarem a associação. O Death-Rock pode ser visto tanto como uma cena à parte ou como uma parte do Gótico. Historicamente, seria o lado do Gótico mais ligado ao Punk-Rock, mais escrachado, irônico, decadente, circense e ligado a um clima de cabaré dadaísta. Não que estas referências não estejam no Gótico em geral, mas no Death-Rock elas são muitas vezes exageradas e levadas ao extremo. Mas sem perder um certo tom existencial ou nihilista. Ex: Alien Sex Fiend, Sex Gang Children, Cristian Death, Cinema Strange, The Last Days of Jesus, Bloody Dead and Sexy, Tragic Black, etc. Dentro do Death-Rock existem várias subdivisões e variantes. Algumas se aproximam mais do Gótico, se tornando difícil distinguí-los enquanto outras se afastam do Gótico, chegando até a um punk-hardcore de temática de Horror.

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Considerada como cena à parte, o Death-Rock pode incluir tendências que não são aceitas na cena Gótica, da mesma forma que várias tendências Góticas são paradoxalmente repudiadas por deathrockers como “nãogóticas”. Realmente é um casamento complicado… Aqui abordamos apenas o Death-Rock do ponto de vista da cena Gótica.

14. ETHEREAL e ETHNO:

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Nas subdivisões da Darkwave, temos o Ethereal, conhecido por suas melodias lentas e delicadas e seu clima onírico. Pode ter base eletrônica ou acústica, confundindo-se com o Ethno, se explorar ritmos ou melodias Ethnicas, ou seja, rítmos e instrumentos músicas tradicionais de outras culturas (não-européias). Exemplos: Cocteau Twins, Dead Can Dance, Lycia, Theodor Bastard, Bel Am, Bel Canto, Collection D’Arnell Andrea, Love Spirals Downward, Love is Colder Than Death, This Ascension, Black Tape for a Blue Girl, etc. É importante lembrar que Ethereal e Ethno não são simplesmente música folclórica, nem apenas “música clássica ou suave” e também não são sinônimos. Apesar de ser comum encontrarmos elementos de Ethno no estilo Ethereal e vice-versa, existem inúmeros trabalhos que são puramente Ethno ou Ethereal. Existem ainda trabalhos que misturam qualquer um destes dois estilos com outros estilos diferentes, como por exemplo, SynthPop, Electro, New-Wave e etc. Muitas bandas deste estilo são classificadas também, em outros contextos ou outras cenas, como Medieval, World Music, New Age, Shoegaze ou Dark-Ambient. Como já explicamos no ítem Darkwave, o selo Projekt popularizou o termo Darkwave como relacionado ao Ethereal. Assim, podemos encontrar às vezes o termo “ethereal-darkwave” como forma de explicar a qual sentido de Darkwave estamos nos referindo.

15. SYNTH-POP: A principal influência do Synth-Pop foi a música dos krautrockers alemães do Kraftwerk (desde a década de 70). Exemplos de Synth-Pop dos anos 80: Soft Cell, Gary Numan, Pet Shop Boys, New Order, Information Society, Depeche Mode.


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

No final dos anos 60 surgiram as primeiras músicas feitas com sintetizadores. As experiências em música eletrônica, que estavam apenas na música erudita, começam a aparecer na música Pop. Por isso muitos dos primeiros a produzir música “sintética” (“synth”) eram indivíduos com formação erudita. O experimentalismo eletrônico se espalha e se mistura com o Jazz e o Rock, como no caso do KrautRock (ver item 1). O uso de elementos eletrônicos minimalistas também foi elemento de constituição da Cold Wave (parte mais “robótica” do pos-punk), da New Wave e praticamente todos os estilos eletrônicos posteriores, como EBM, Darkwave, DarkEletro, Eletro-Goth, Futurepop e outros.

16. TRIP-HOP: A data "oficial" de batismo do Trip-Hop é 1995, quando jornalistas precisavam de um novo termo para nomear toda uma corrente de música eletrônica/pop experimental, especialmente da cena local das cidades de Bristol e Portishead na Inglaterra. 1994 é o ano do emblemático album "Dummy" da banda Portishead, que traz todos os elementos básicos do estilo de forma bastante clara. Mas mesmo sem nome, o estilo está entre nós desde a virada para os anos 90. Por que o nome "Trip-Hop"? A parte "-Hop" vem de "Hip-Hop", pois a maioria das rítmos experimentais deste gênero vinha de alterações ou quebras de bases hip-hop (claro que há outras influências). A parte "Trip-" vem do termo "viajar" (" trip ", em inglês) devido a forte influência de sons "viajantes" do Jazz experimental, Jazz-swing e Darkwave (às vezes, Ethereal). Outra influência é a de trilhas sonoras de filmes, especialmente os de base jazzística antigos. Bandas Góticas e Darkwave foram influenciadas pelo gênero. Ex: Switchblade Symphony, Ego Likeness, Bel Canto, Qntal, O Quam Tristis, etc.

17. “80’s”: O Gótico começou e teve um “boom” nos anos 80, mas nem tudo o que foi feito nos anos 80 é Gótico. O rótulo “80’s” não deve ser usado como sinônimo de “Gótico 80’s” ou “Gótico Old-School” simplesmente por que o termo “80’s” se refere a toda música pop ou alternativa produzida

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As Gerações de bandas Góticas e Darkwave

nos anos 80. Pode incluir bandas Góticas ou não. Por exemplo, é possível fazer uma festa “80’s” sem tocar nenhuma banda Gótica. Algumas festas Góticas, por outro lado, costumam incluir “80’s” nas suas programações devido a similaridade de estilo e sonoridade com o Gótico 80’s.

14  AS GERAÇÕES DE BANDAS GÓTICAS E DARKWAVE

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Estas listagens não buscam ser nem perfeitas nem completas, mas apenas dar um panorama geral da riqueza do cenário musical Gótico/Darkwave e, principalmente, de sua renovação nas décadas de 1990 e no século XXI. Optamos por destacar estas fases pois já existe muita informação disponível sobre o Gótico dos anos 80. Quanto às vertentes EBM/Industrial, que são bem aceitas na cena Gótica/Darkwave desde os anos 80 até hoje, optamos por não nos aprofundar nelas neste texto (salvo alguns nomes isolados que são citados). A divisão cronológica é intuitiva e o autor não se incomodaria em mudá-la nem se envolverá em um duelo de espadas até a morte para defender a estrutura de uma mera representação didática. • 1968-1977- as influências: glam, proto-punk, krautrock • 1978-1983- pos-punk, synth, industrial, coldwave, batcave… • 1983-1990- a consolidação • 1991-1999- darkwave e a renovação: • 2000-2008 (…?)- a nova geração e as bandas brasileiras recentes

2000-2008 (…?) - A NOVA GERAÇÃO e as bandas brasileiras recentes É difícil apontar os destaques de uma década em curso. Mas, além das bandas dos anos 90 que continuam em grande forma e ativas, já podemos apontar algumas surgidas desde 99 e que se destacam: The Ghost Of Lemora, Scary Bitches, Blutengel, Diva Destruction, Katscan, Helium Vola, L’Ame Imortelle, Diorama, ASP, Unto Ashes, Darvoset, O Quam Tristis, The Vanishing, Frank The Baptist, Black Ice, Tragic Black, All Gone Dead, Anders Manga, Ego Likeness, Carfax Abbey, The Last Days of Jesus, Zombie Girl,


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

Faun, Unheilig, Android Lust, Tristesse de la Lune, Audra, Voltaire, The Birthday Massacre, Bloody Dead and Sexy, The Chants of Maldoror, Joy Disaster, Hatesex, Scarlet Remains, Autumn’s Grey Solace, Cinema Strange, New Days Delay, Cauda Pavonis, Irfan e tantas outras... Também muitas bandas que começaram na fase anterior (ver abaixo 1991-1998) continuam em atividade e se renovando. Algumas bandas surgidas nos anos 80 também tem surpreendido com o som renovado, como são os exemplos do Clan of Xymox e Mephisto Walz, entre outras. Enquanto isso, no Brasil, temos presenciado um florescimento de novas bandas com trabalho próprio no cenário Goth/Darkwave dos anos 00’s: Plastique Noir, A Banda Invisível, The Downward Path, Scarlet Leaves, Bells of Soul, Almas Mortas, Escarlatina Obsessiva, Discotronike, Pecadores, Zigurate, In Auroram, Dead Roses Garden, Days are Nights, Ismália, Anorexic Juliet, Orquídeas Francesas, Deadjump, Knutz, Zigurate, Mundo da Mente, Jardin do Silêncio, Pianuts, Lumen, etc . Além de bandas dos anos 90 que continuam em atividade e se aprimorando como Elegia e Tears of Blood. Ou bandas que lançaram material, atuaram neste período ou não estão mais em atividade como Back Long Arch, Der Kalte Stern, Das Projekt Krummen Mauern, Vesúvia, Mercyland, Strangeways, etc.

1991-1999- DARKWAVE E A RENOVAÇÃO Neste período as cenas da Alemanha e dos EUA se fortificam. A Alemanha passa a sediar o maior evento Gótico mundial, o Wave Gotik Treffen, e estrutura uma micro-mídia subcultural especializada, o que vai acontecer depois também em outros países. O som eletrônico se refina com a Darkwave alemã. Nos EUA, o selo Projekt vai dar um sentido um pouco diferente ao termo Darkwave, mas o importante é que em ambos os lados do Atlântico, temos uma proliferação de bandas que fazem a felicidade de Góticos de todo o mundo, renovando e atualizando as sonoridades Gothic e Darkwave: Calva Y Nada, In Mitra Medusa Inri, Ikon, Rosetta Stone, Nosferatu, Inkubus Sukkubus, Libitina, Manuskript, Das Ich, Project Pitchfork, Bel Canto, Diary of Dreams, Hocico, The House of Usher, Sopor Aeternus, Love Is Colder Than Death, Paralysed Age, The Merry Thoughts, Still Patient, Melotron, De/Vision, In Strict Confidence, Corpus Delicti, The

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Last Dance, Rhea’s Obsessions, Switchblade Symphony, London After Midnight, Sunshine Blind, Ex-Voto, Trance to The Sun, Lycia, The Cruxshadows, Collide, Faith and The Muse, Shadow Project, Bella Morte, Qntal, Malaise, Miranda Sex Garden, Abney Park, Beborn Beton, Absurd Minds, Fear Cult, Sanguis et Cinis, Love Spirals Downward, Children on Stun, Suspiria, La Floa Maldita, Frozen Autumn, The Eternal Afflict, Killing Ophelia, Rasputina, Love Like Blood, Faith and Disease, Girls Under Glass, etc. Bandas que começaram no final dos anos 80, como Cranes e Wolsheim se destacam nesta década, sendo que esta última permanece um ícone até o presente, arrastando multidões a seus shows. Theatre of Tragedy causa polêmica ao introduzir elementos operísticos ou metal em suas composições, em doses toleráveis aos ouvidos goth/darkwavers, um equilíbrio muitas vezes alcançado pela também polêmica banda Lacrimosa.

1983-1990- A CONSOLIDAÇÃO

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O nome Gótico vinha sendo aplicado a um segmento de bandas do pospunk há anos, mas podemos dizer que ele se fixa como um nome definitivo do meio para o final de 1983. Neste período a sonoridade pos-punk se dilui em outras influências como um rock mais acessível e sonoridades influenciadas pelo synth, coldwave e EBM. A Inglaterra foi o berço do Gótico na fase anterior, mas nesta fase já temos bandas de destaque também na França, Bélgica, Holanda, Alemanha e EUA. Mesmo que alguns tenham surgido um pouco antes, fazem seus primeiros lançamentos nesta época: The Sisters of Mercy, The Fields of The Nephillin, All About Eve, Clan of Xymox, Dead Can Dance, The Jesus and Mary Chain, In The Nursery, This Mortal Coil, Love And Rockets, Black Tape For A Blue Girl, Nick Cave and The Bad Seeds, Ministry, Deine Lakaien, Calling Dead Roses, Marquee Moon, Invisible Limits, Trisomie 21, Poesie Noire, Collection D’Arnell Andrea, Opera Multi Steel, Kas Product, MephistoWalz, Eva O., Two Witches, Gitane Demone, This Ascension, The Creatures, Front Line Assembly, Delerium, Skinny Puppy, The Wake, Red Lorry Yellow Lorry, etc. Nesta época bandas que surgiram na fase anterior já tinham vários álbuns e faziam sucesso.


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

1978-1983- POS-PUNK, SYNTH, INDUSTRIAL, COLDWAVE E BATCAVE… O nome desta fase poderia ser “tudo ao mesmo tempo agora”. Todo experimentalismo produzido desde o final da década de 1960 em várias áreas da música pop e underground parece convergir para um momento de criação de “novos estilos”. As bandas: Bauhaus, Specimen, Joy Division, The Cure, Siouxsie and The Banshees, Cocteau Twins, Sex Gang Children, Kirlian Camera, Alien Sex Fiend, Attrition, U.K.Decay, X-Mal Deutschland, The Damned, Einsturzende Neubauten, Malaria, Mecano, Die Form, Christian Death, Tuxedomoon, Southern Death Cult, Birthday Party, Grauzone, Kas Product, Gary Numan, Anne Clarck, Virgin Prunes, Danse Society, Play Dead, New Order, etc

1968-1977- AS INFLUÊNCIAS: glam, proto-punk, krautrock Em 1976/77 a banda Nova-Iorquina Suicide já fazia o que hoje chamaríamos de Electro-Punk, Pére Ubu já usava suas batidas tribais no seu “artrock” e os alemães do Kraftwerk já tinham vários álbuns revolucionários no currículo. A geração Glam-Rock (1970-1975) influenciou diretamente as bandas Góticas mas, na segunda metade dos anos 70, ícones do Glam como David Bowie e Brian Eno absorveram influência do experimentalismo alemão do Krautrock (1968-1979 aprox. proto-industrial, serialismo, música cósmica, etc). Glam Rock: David Bowie, T-Rex, Gary Glitter, Roxy Music, Brian Eno, New York Dolls, etc. Krautrock e Proto-Industrial: Cabatet Voltaire, Kraftwerk, Tangerine Dream, Can, Neue, Throbbing Gristle, Monte Cazaaza. Outras influências importantes do final dos anos 60: The Doors, Velvet Underground (provavelmente, ao lado de T-Rex, as duas que foram alvo de mais covers por bandas Góticas) e The Stooges. Bandas da cena punk Nova Iorquina (1975-1977) são também importantes para entender o que foi feito a seguir: Patty Smith, Richard Hell and The Voidoids, Talking Heads, Blondie, etc. E Lou Reed e Iggy Pop em carreira solo. Sem esquecer o nosso querido The Cramps. Algumas referências de “crooners” e “cantores de cabaré” são importantes, senão pelo estilo de vocal, pela temática das letras: Leonard Cohen, Jacques Brel, Edith Piaf e Johnny Cash, the man in black.

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15  LIVROS E AUTORES QUE OS GÓTICOS AMAM Não existe uma Literatura "DA" subcultura Gótica. Mas existe um certo conjunto de obras e autores que -no conjunto ou em parte - tem sido citado, adotado e amado sistematicamente por Góticos de todo o mundo desde que se começou a falar em Gótico nos anos 1980 até hoje. Não acreditamos que esta permanência de padrão seja mera coincidência e sim um flexível, mas bem articulado, “discurso de gosto” grupal, homólogo aos demais elementos da subcultura Gótica. Existe uma lista evidente de correntes literárias de cuja estética e conceitos a subcultura Gótica tem sistematicamente se reapropriado, feito releituras ou citações. Às vezes isso é feito como forma de embasar sua visão de mundo, por analogia ou homologia estética. Ou mesmo como inspiração direta. Ou, colocado de outra forma, obras em que os góticos encontram expressos elementos estéticos e conceitos que espelham o seu "ser gótico" e os valores e conceitos estéticos que consideram "da subcultura Gótica".

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Várias correntes costumam ser citadas ou sofrerem reapropriação pelos Góticos. Romantismo, Romance Gótico, Simbolismo, Esteticismo, Decadentismo, Expressionismo, Literatura Fantástica, Roman Noir, Literatura Beat, etc... Vários autores costumam ser associados ou sofrer reapropriação pelos Góticos do mundo todo desde o final dos anos 1970 e começo dos 1980 até hoje. A seguir, apresentamos uma lista que não pretende ser completa ou perfeita, mas apenas uma amostra que permita um entendimento do "clima" geral das obras literárias mais citadas e apreciadas entre as pessoas associadas a subcultura Gótica. •

Edgar Allan Poe- contos e poemas

Charles Baudelaire- As Flores do Mal

Mary Shelley- Frankenstein

Bram Stoker- Drácula

Lord Byron- obra poética

Alvares de Azevedo- obra poética

Augusto dos Anjos- obra poética

Cruz e Sousa- obra poética


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

Oscar Wilde- O Retrato de Dorian Gray e outros contos e poemas

Lautreamont (Isidore Ducasse)- Os Cantos de Maldoror

Kafka- Metamorfose

Camus- O Estrangeiro

John Keats- obra poética

Sheridan Le Fanu- Carmilla (ou “o Vampiro de Karstein”)

H.G.Wells- O Homen Invisível

Arthur Rimbaud- obra poética

Horace Walpole- O Castelo de Otranto

Christopher Marlowe- Dr. Faustus

Goethe- Faust e Werther (ou As tristezas do jovem Werther)

R.L.Stevenson- O Médico e o Monstro (The Strange case of Dr.Jekyll and Mr.Hyde)

Anne Radcliffe- Os Mistérios de Udolpho, O Italiano e outros romances

Anne Rice- Entrevista com o Vampiro, O Vampiro Lestat e sequências

H.P.Lovecraft- contos e histórias

Lewis Carrol- Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos Espelhos

Marion Z.Bradley- série As Brumas de Avalon

Dante Alighieri –A Divina Comédia

John Milton- Paraíso Perdido

William Blake- obra poética

Dostoyevsky- Notas do Submundo e contos

T.S.Elliot- obra poética

Emily Dickinson- obra poética

Florbela Espanca- obra poética

Machado de Assis- Memórias Póstumas de Brás Cubas

Erico Veríssimo- Incidente em Antares

George Orwell- 1984

As obras listadas acima são classificadas em diversas escolas literárias.

Observação Importante: Existe uma corrente literária chamada “Romance Gótico”, todavia, apesar de parte das obras das quais os Góticos costumam se reapropriar fazer parte desta corrente, estas não são as únicas. Tampouco podemos reduzir os conceitos desenvolvidos pela subcultura Gótica desde a década de 1980

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a um sinônimo do “Literary Gothicism”. Mas apesar de ser apenas uma parte e não o todo, sua importância é grande na formação do imaginário Gótico, tanto no senso comum como na subcultura Gótica.

16  CURIOSIDADE: ORIGEM DOS NOMES DE ALGUMAS BANDAS Por curiosidade e passatempo, comentamos aqui a origem do nome de algumas bandas conhecidas e apreciadas pelos Góticos, apenas como forma de dar alguns exemplos do tipo de referências e citações comuns em nosso meio.

SIOUXSIE AND THE BANSHEES:

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Banshees- do filme- “Cry of the Banshee”- 1970, inspirado em conto de Edgar Alan Poe. Na Inglaterra Elizabetana, um Lord maldoso (representado por Vincet Price) massacra quase todos os membros de um coven de bruxas. Siouxsie: diminutivo de Sioux, tipo de índio norte-americano. Banshees são um tipo de espíritos “gritadores" do folclore irlandês, que anunciam a chegada da morte. A banda também tem uma música inspirada em outro conto de Poe: Premature Burial.

THIS MORTAL COIL: Expressão do monólogo de Hamlet de Shakespeare - significa “este pedúnculo mortal", referência ao nosso corpo físico e sua mortalidade.

BAUHAUS: Movimento artístico modernista fundado em 1919 na Alemanha, como um desenvolvimento do expressionismo. Por isso o nome da banda originalmente era “Bauhaus 1919”.

LOVE IS COLDER THAN DEATH: (German: Liebe ist kälter als der Tod/ o amor é mais frio que a morte) – filme do Cineasta Rainer Werner Fassbinder, 1969.


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

Foi também nome de um álbum e música da banda belga Poesie Noire, em 1989.

LONDON AFTER MIDNIGHT: Baseado no filme perdido de terror vampírico com este mesmo nome, “London After Midnight” de 1927, com o carismático ator Lon Chaney e dirgido pelo emblemático (pelo bem e pelo mal…) diretor Tod Browning, responsável também pelos filmes Drácula (1931) e Marca do Vampiro (1935) com Bela Lugosi, entre outros clássicos do cinema de Horrror B.

THE SISTERS OF MERCY: Considerando que os álbuns de coletâneas da banda levam o nome de um verso da música “Teachers” do primeiro álbum (1967) músico canadense Leonard Cohen (‘Some Girls wander by Mistake…into the Mess Those Scalpels Make”) é bem provável que o nome da banda se refira também a outra música do mesmo álbum de Cohen chamada exatamente “The Sisters of Mercy”, que faz exatamente a analogia entre as religiosas “Irmãs da Misericórdia” e aquelas outras “misericordiosas” damas da noite que são igualmente o último recurso das almas e corpos no fim da linha… O estilo de letras de Leonard Cohen sombrio e irônico provavelmente também é uma influência. O The Sisters of Mercy também fez alguns covers de Cohen que podem ser encontrados em gravações ao vivo.

DEAD CAN DANCE Referência a danças rituais de tribos da Oceania (a vocalista é Australiana) em que os dançarinos envergam mascaras que representam os mortos. O primeiro álbum da banda traz uma destas mascaras ritualísticas reproduzidas na capa.

SKELETAL FAMILY: Referência à música “chant of the evercicling dance of the skeletal family" do álbum “Diamond Dogs" (1974) de David Bowie. O mesmo álbum cita o cineasta Tod Browning entre outras referências de horror e Halloween em suas outras letras.

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CAVARET VOLTAIRE: Inspirado no cabaré suíço fundado em 1916, no qual surge o movimento artístico modernista Dadaísmo. Coerente com a orientação artística musical original dessa banda, baseada na desconstrução musical.

COCTEAU TWINS: Provavelmente referência transversal ao francês Jean Cocteau, cineasta, escritor, poeta, etc. Jean Cocteau é autor do classico Les Enfants Terribles, a história de dois irmãos e uma irmã—curiosamente de nome Elizabeth como a vocalista da banda. Autor também de “Sangue de Poeta", “Orfeu" e a “Bela e a Fera". Jean Cocteau realizava filmes com um clima noir onírico e surrealista.

SEX GANG CHILDREN: Nome retirado de um romance do escritor beat William Burroughs.

THE GHOST OF LEMORA:

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Referência ao filme de horror e suspense da década de 1970 chamado “Lemora – A Child’s Tale of The Supernatural”.

DALI'S CAR: Referência ao “carro” ovóide inventado pelo artista surrealista Salvador Dali.

TRISTESSE DE LA LUNE: Nome de um poema de Baudelaire

THE HOUSE OF USHER: Citação do conto de Edgar Allan Poe, “A queda da casa de Usher”.

THE CHANTS OF MALDOROR: Referente ao poema de Lautreamont “The Chants of Maldoror”

MEPHISTO WALZ: “As Valsas de Mephisto” são quatro valsas do compositor clássico Franz List (1811-1876) inspiradas na lenda de Fausto. “Mephisto Waltz” é também um filme de suspense e horror (1971) sobre um pianista moribundo que negocia com satã.


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

17  CINEMA: FILMES REFERÊNCIA OU INFLUENCIADOS ASAS DO DESEJO (1987, De Himmel Ubber Berlim/ Les Ailes du Desir, de Win Wenders)

A curiosidade de sentir a vida, significado da mortalidade e de poder escolher o errado ou o certo atormenta os anjos-da-guarda que sobrevoam a Berlim dividida do pós-guerra. Mas os anjos podem escolher deixar de ser perfeitos e eternos e conhecer o que é ser humano... se ousarem. Curiosidade: durante o filme, o anjo “caído" vai procurar a trapezista de circo que o encantara exatamente em clube noturno em que está acontecendo um show de Nick Cave and The Bad Seeds, que apresenta a música “From Her to Eternity" completa. A trilha sonora do filme é marcada por expoentes do pos-punk e no-wave Europeus e Norte Americanos. Win Wenders ainda realizou uma “continuação" deste filme, chamada “Tão Longe Tão Perto" (So Far So Close) que é igualmente imperdível.

BLADE RUNNER, O Caçador de Andróides (1982, Blade Runner, de Ridley Scott)

Quanto tempo viveremos e se vale a pena arriscar viver até lá é a resposta que os andróides Replicantes deste filme buscam. Estes andróides têm um “prazo de vida" estipulado, mas só o seu “criador" sabe. Durante o filme o detetive que caça os Replicantes tem que se perguntar se suas lembranças são suas mesmo e o que realmente caracteriza um ser humano... O cenário do filme é extremamente bem cuidado com a criação de um futuro ao mesmo tempo obscuro, decadente e barroco. A maquiagem da Replicante representada por Daryl Hannah é famosa entre Góticos até hoje. Existem duas versões do filme: uma lançada na época, com narração e algumas cenas diferentes, e uma versão lançada posteriormente pelo diretor, sem narração e com cenas extras.

THE HUNGER (1983, The Hunger, de Tony Scott, com Bauhaus, David Bowie e Catherine Deneuve)

Bastaria a cena de abertura em que vemos intercaladas cenas de uma apresentação da banda Bauhaus (tocando o seu "hino Gótico" Bela Lugosi

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is Dead) com algumas das melhores cenas de Vampirismo já filmadas, para este filme se tornar um clássico da cena Gótica. Mas, além disso, os vampiros desta história são representados por David Bowie e Catherine Deneuve, e são vampiros que apresentam alguns questionamentos existenciais sobre a vida eterna e a morte. Também pela primeira vez no cinema vemos o símbolo Ankh ser diretamente associado com Vampiros e Egiptologia, ao som de uma banda Gótica apresentando uma música que é uma piada sobre outro ator que representou um vampiro décadas antes: Bela Lugosi.

CABARET (1972, Cabaret, de Bob Fosse, com Liza Minelli)

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"Divine Decadence, darling!"...é a frase que marca a protagonista. A atriz Liza Minelli compõe um figurino inesquecível no papel de uma cantora de cabaré (Sally Bowles) que sonha em ser uma estrela e é apaixonada por um rapaz bissexual. Mas logo o destino começa a lhes pregar peças… Baseado na obra do escritor Christopher Isherwood (nos musicais derivados deste) e sua descrição sobre a ebulição cultural da "Cabaret Culture" durante a República de Weimar (período democrático mas conturbado por crises econômicas no entre guerras 1919- 1938) na Alemanha obscurecida pela ameaça representada pela ascensão do Nazismo. Segundo o escritor Patrice Bollon, o visual deste filme musical teria influenciado o Bromley Contingent (do qual emergiu, entre outros, Siouxsie Sioux). Coincidindo com o imaginario "glam-decadent" da época Glam dos anos 70, a estética e temática do filme teria virado moda em certos círculos londrinos e influenciado o grupo Bromley Contingent, ligados à loja de roupas Sex de Malcoln Maclarem e da estilista Vivienne Westwood, que na época organizaram e vestiram os Sex Pistols. Do Bromley Contingent emergiram várias estrelas do Pos-Punk e Goth. O fato de um dos integrantes deste grupo ter adotado o codinome "Berlim" e os demais, como os futuros integrantes do Siouxsie and The Banshees adotarem na época (1976-77) uma estética tipicamente de cabaret e vaudeville, atestam a influência direta.

THE ROCKY HORROR PICTURE SHOW (1975, dirigido por Jim Sharman)

Difícil dizer se este é o ultimo fime Glam ou o primeiro filme Gótico. Ou o elo perdido? 1975 é ao mesmo tempo o auge e o fim do Glam-Rock.


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

É preciso lembrar disto, e este filme se tornou um cult de varias gerações por misturar horror-B, musical glam, humor camp. Um musical comédiahorror de visual alucinante. O carro de um casal de noivos quebra no meio do nada e eles vão pedir ajuda exatamente em um castelo próximo, habitado pelos alienígenas do planeta Transexual e que naquela noite vão trazer à vida um “Frankenstein” muito diferente. Imperdível!

O GABINETE DO DR. CALIGARI (1919, Das Kabinett des Doktor Caligari dirigido por Robert Wiene)

Se um filme precisa ser visto para entender o que é "cinema expressionista" este é o mais indicado e completo. Tanto na caracterização e atuação dos personagens como no design dos cenários temos a estética expressionista usada na sua plenitude. Conrad Veidt representa um sonâmbulo que vive em uma caixa, apresentado pelo Dr.Caligari como alguém capaz de dizer o futuro do público nos raros momentos em que acorda. Mas estranhos assassinatos começam a ocorrer, há suspeitas sobre um asilo de loucos, ou será que...

EDWARD MÃOS DE TESOURA (1990, Edward Scissorhands. Dirigido por Tim Burton)

Com Johhny Deep no papel principal, Wynona Ryder e Vincent Price no papel do cientista criador de Edward. Edward é um tipo de Frankenstein romântico e sensível que vive escondido em uma torre abandonada desde que seu criador morreu antes de “completá-lo”: faltavam as mãos, o que fez com que Edward tivesse que usar tesouras para fazer mãos, com a qual realiza belas obras de arte mas…que podem causar muitos problemas se ele for levado a conviver na “civilização”. O visual do protagonista é fortemente inspirado nas bandas Góticas dos anos 80, algo que o diretor Tim Burton não esconde também em outros de seus filmes e em seus próprios visuais.

NOSFERATU (1922, Nosferatu, eine Symphonie des Grauens, dirigido por F.W.Murnau, com Max Schreck ).

Esta é a primeira versão da história do conde Drácula no cinema. Como o escritor Bram Stoker não autorizou o uso do nome “Dracula”, o diretor F.W.Murnau usou “Nosferatu”. Um dos mais clássicos filmes de vampiro, devido à atuação e aparência única de Max Schreck como o vampiro e

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conde Graf Orlock, e pela direção de F.W.Murnau que cria um clássico do expressionismo alemão. A historia é a clássica do Vampiro que se muda para uma cidade e começa a aterrorizá-la…

O ESTRANHO MUNDO DE JACK (1993, The Nightmare Before Christmas, de Tim Burton)

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Jack Skelington, protagonista desta animação, se tornou um ícone para os Góticos bem humorados de todo o mundo. Ele é o lider da cidade de Halloween, que vive para isso o ano inteiro. Jack, porém, começa a se entediar e vai buscar outras aventuras, como tentar organizar o natal em seu estilo no mundo inteiro. Claro que as coisas não dão muito certo… A animação é realizada com uma qualidade poucas vezes vista com bonecos pelo método stop-motion. O estilo expressionista e sombrio de Tim Burton nos cenários e personagens também pode ser visto em outras animações do diretor, como “A Noiva Cadáver” (Corpse Bride, 2005). Destaque para o par romântico que Jack faz com a zombina-boneca Sally, imortalizada na canção “Sally Song”, de Danny Elfman, que a banda Gótica London After Midnight regravou em 1998. Elfman, que geralmente faz as trilhas sonoras de Burton, colaborou também com os Siouxsie and The Banshees na música “Face to Face”, em 1992, trilha do filme “Batman Returns”.).

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994, Interview with the Vampire, dirigido por Neil Jordan)

Baseado no livro “Interview with the Vampire” de Anne Rice publicado em 1976, o filme traz os dramas existenciais do vampiro Louis (Brad Pitt) em choque com cinismo do vampiro Lestat (Tom Cruise), além dos clássicos vampiros Armand (Antonio Banderas) na direção do “Theatre des Vampires” e a doce Claudia, a menina vampira.O destaque do filme é o mesmo do livro: trazer vampiros que não são apenas caricaturas de terror, mas indivíduos que se debatem com questões morais e existenciais.

BEETLEJUICE (OS FANTASMAS SE DIVERTEM) (1988, dirigido por Tim Burton)

Com o típico humor-negro Burtoniano, o filme fez tanto sucesso que deu origem ao popular desenho animado de mesmo nome. Um casal morre e se torna fantasma em sua casa de campo, mas começam a ter trabalho para espantar os novos moradores. Para isso pedem ajuda para outro fan-


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

tasma, o zumbificado Beetlejuice (Michael Keaton), que popularizou mais ainda os ternos e camisas listrados em preto e branco (e outros) na cena gótica, assim como o grito “BeetleJuice” (“Besouro-suco” ou suco de besouro, em português). A única alegria dos fantasmas acaba sendo a filha gótica do casal de novos moradores, Lydia, interpretada por Winona Ryder em interpretação e visuais góticos imperdíveis. Figurinos, cenários e maquiagem merecem destaque. Depois, na série de desenhos animados, Lydia e Beetlejuice se tornam os personagens principais.

METRÓPOLIS (1927, dirigido por Fritz Lang)

Considerado por muitos o primeiro filme de ficção científica. O filme tem um roteiro e efeitos especiais inovadores para a época: em um futuro distante na época (2026) a industrialização e a tecnologia se desenvolveram tanto que os seres humanos passaram a ser vítimas deste processo, sendo a sociedade dividida entre trabalhadores explorados e tecnocratas que vivem no “paraíso”. Um clássico de Fritz Lang, considerado referência do expressionismo alemão tardio.

DRÁCULA (1931, dirigido por Tod Browning, com Bela Lugosi)

Imperdível por vários motivos, tanto pela atuação do ator Bela Lugosi, considerado um canastrão para muitos, mas que se estabeleceu como sinônimo de vampiro no cinema por muito tempo como por ter sido dirigido pelo “melhor pior cineasta da historia”, Tod Browning. A história é a que todos conhecemos … Destaque para os rudimentares efeitos de luz nos olhos de Drácula para aumentar a aparência sobrenatural.

NOSFERATU (1979, Nosferatu, Phanton der Nacht, de Werner Herzog)

Com Klaus Kinski e Isabelle Adjani nos papéis principais, Bruno Ganz no papel de Jonathan Harker, seguindo a obra de Bran Stoker. Klaus Kinski consegue compor um vampiro que compete em estranheza com o Nosferatu de Max Schreck(1922). A intenção do diretor Wener Herzog era exatamente retomar o cinema alemão do ponto em que ele havia sido interrrompido, refilmando um clássico do expressionismo alemão. Com uma sombria trilha sonora da banda krautrock alemã Popol Vuh.

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A NOIVA CADÁVER (2005, The Corpse Bride, de Tim Burton)

Comédia romântica filmada com o estilo animação stop-motion, conta a história de uma noiva morta que busca um noivo…vivo ou morto. Com deliciosas cenas musicais no reino dos mortos, o filme explora com bom humor todos os clichês do horror gótico.

O ANJO AZUL (Der Blaue Engel, 1930, de Josef von Sternberg, com Marlene Dietrich)

Marlene Dietrich interpreta Lola, o protótipo da femme-fatale: a estrela de um cabaré nômade que visita as cidades por algum tempo e logo parte. Em uma destas cidades enfeitiça um proeminente burguês e professor (interpretado pelo excelente Emil Jannings), levando-o a degradar-se progressivamente.

BRAM’S STOCKER DRÁCULA (1992, dirigido por Francis Ford Coppola)

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Versão moderna mas bastante fiel ao livro de Bram Stoker, bem dirigida e com um casting de estrelas: Gary Oldman (príncipe Drácula), Keanu Reeves (Jonathan Harker), Anthony Hopkins (Van Helsing) e Winona Ryder (Mina) nos clássicos papéis principais e o músico Tom Waits no papel de Renfield. O filme começa com a suposta origem de Drácula como Vlad Tepes no século XV e o surgimento da maldição do vampiro e segue o enredo clássico. Imperdível.

O CORVO (The Crow, 1994, com Brandon Lee, dirigido por Alex Proyas)

Eric Draven (Brandon Lee) e sua noiva são brutalmente assassinados, mas, segundo uma lenda, quando um homem é morto tão injustamente um corvo pode trazer sua alma de volta para buscar vingança. E é o que acontece com o protagonista, que passa a ter um corvo como guia ente o mundo dos vivos e dos mortos enquanto realiza sua vendetta. O detalhe é que quando está quase morrendo o personagem consegue ver sua amada. Para aumentar a aura misteriosa do filme, o ator Brandon Lee morreu durante as filmagens ao ser atingido por uma bala verdadeira que estava por engano em uma arma cenográfica. A trilha Sonora traz vários clássicos.


Parte III

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A maquiagem de Eric Draven se tornou popular entre Góticos do mundo todo, mas tão popular que acabou se tornando repetitiva, por isso, às vezes sofre certa rejeição. Além disso, é bem difícil de fazer…

A FAMÍLIA ADDAMS (The Addams Family, 1991, dirigido por Barry Sonnenfield)

A Família Adams criada pelo cartunista Charles Addams gerou várias séries e filmes. Esta versão de 1991 é baseada na série televisa tradicional em que personagens de terror constituem uma atrapalhada e mórbida família. Formada pelos patriarcas Gomez (Raul Julia) e Mortícia (Anjelica Huston, inspirada na Vampira de Maila Nurmi), seus filhos Pugsley, Wednesday (a “maléfica menininha” Christina Ricci), Tio Fester, and Grandmama, o mordomo Lurch de estilo Frankenstein e o seu ajudantede Thing (coisa), uma mão sem corpo… Existe uma continuação de 1993, “Addams Family Values”, com os mesmos atores. Procure conhecer também a antiga série de TV “Addams Family”.

PLAN 9 FROM OUTER SPACE (1959, dirigido Edward Davis Wood, Jr.)

Só assista este filme naquele humor de rir de algum filme antigo muito mal feito, com efeitos especiais ruins, atores totalmente canastrões e um roteiro absurdo. Neste tipo de ruindade, Plan 9 é o melhor. Além disso, conta com Bela Lugosi no seu último papel (de fato ele morre durante a filmagem), Maila Nurmi como qualquer coisa zumbi do espaço que parece a Vampira de sempre. No roteiro, Aliens do espaço exterior buscam implementar um plano em que ressussitam mortos recentes…O que seria do deathrock sem este filme?

O SÉTIMO SELO (1957, Det Sjunde Inseglet, de Ingmar Bergman)

Filme alegórico em preto e branco. Um cavaleiro medieval volta à sua aldeia, mas a encontra devastada pela peste. A Morte quer levá-lo também, mas o cavaleiro quer entender o sentido da vida e para ganhar tempo desafia a Morte para uma partida de Xadrez… e o jogo começa. Várias questões existenciais e religiosas são abordadas em cenas antológicas e até engraçadas pra quem tem uma boa dose de humor negro.

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18  CRONOLOGIA DO USO SUBCULTURAL DO TERMO “GÓTICO” Aqui falaremos apenas sobre o uso do termo “GOTH” (Gótico) aplicado inicialmente a um estilo musical e depois à subcultura de mesmo nome, nos últimos 40 anos. 1967: em um artigo pouco conhecido, John Stickney define a banda The Doors como “Gothic Rock". Curiosamente a descrição das características “góticas" da banda nesse texto coincide com o que seria definido como Gótico dez a quinze anos depois. Essa referência é citada no site Scathe e aceita como fonte nos livros Goth Bible e Goth Chic. Não é possível confirmar se esta citação influenciou outras citações posteriores, mas algo facilmente observável é a influência da banda The Doors já sobre a primeira geracão de bandas Góticas, tanto nas letras, vocais, estilo, quanto nos covers. Citações nos anos 70 parecem comprovar que esta influência era um lugar comum (ver citação de Kent em 29/7/1978, alguns itens abaixo).

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1972: Lançado o filme “Cabaret”, com Liza Minelli, baseado na obra “GoodBye Berlim” de Chistopher Isherwood, sobre os cabarets e a “divina decadência” da Berlim dos anos 1930. Patrice Bollon em “A Moral Da Máscara” relata que este filme teria gerado uma moda em Londres que influenciou o Bromley Contingent, do qual emergiram várias pessoas que se tornaram referência no pos-punk e no Gótico. Os mais conhecidos são Siouxsie Sioux e Steven Severin, da banda Siouxsie and The Banshees. 1972-1974: "Diamond Dogs" - Em 1974 David Bowie em uma entrevista a respeito do seu álbum “Diamond Dogs” teria comentado que este era “gótico” no estilo. Podemos encontrar neste álbum elementos que foram adotados por punks e góticos. No figurino de sua tournée de 1972, encontramos o uso de meias arrastão como camisa e as maquiagens expressionistas dos performers do show. “Diamond Dogs” é baseado nas distopias dos livros “1984” de George Orwell , na ficção científica “A Boy and His Dog” de Harlan Ellison e em The Wild Boys de William Burroughs. Algumas canções, como “the evercicling dance of the skeletal family” e outras, falam de uma “Metrópolis”


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decadente e imunda habitada por seres de Halloween (halloween jack, etc) e personagens de Tod Browning (em "Diamond Dogs"). Tod Browning foi o cineasta que dirigiu Drácula, com Bela Lugosi (1931). A faixa "We are the Dead" é auto-explicativa, além de "1984" e "Big Brother". 1975: É lançado o filme “The Rocky Horror Picture Show”, no qual o GlamRock encontra a “Família Addams” em um filme de terror B dos anos 50… 29/7/1978: Nick Kent na revista NME diz de Siouxsie: "Paralelos e comparações podem ser agora traçadas com arquitetos do gothic rock como The Doors e, certamente, Velvet Underground do começo”. Siouxsie and The Banshees lançaram em 1978 seu álbum “The Scream”. (fonte: scathe). 1979: Martin Hannett, empresário do Joy Division, descreve o álbum Closer do Joy Division como “Música dançante, com tonalidades góticas”. 23/6/1979: Nick Kent chama o The Cramps de “American Gothick” em uma resenha da revista NME. The Cramps já tinha então alguns anos de carreira. 15/9/79: No programa “Something Else” da BBC TV, Tony Wilson (produtor da banda) descreve o Joy Division como "Gótico comparado com o pop comercial". Na mesma entrevista Bernard Albrecht, guitarrista da banda, reforçou essa noção comparando a música da banda ao seu amor ao clássico filme expressionista Nosferatu (1922), dizendo: “a atmosfera (era) realmente maligna, mas você se sente confortável nela”. 2/10/79: Penny Kiley escreve em uma resenha "'Gótico se tornou uma definição algo supertrabalhada do gênero, mas o efeito do Joy Division é o mesmo (para pegar um exemplo óbvio) que dos Siouxsie and The Banshees”. 1979: Bauhaus lança o single de “Bela Lugosi is Dead”. As artes dos álbuns e material gráfico da banda trazem imagens de filmes expressionistas e do Drácula de Bela Lugosi. A temática estava na moda… Fev/81: Em entrevista com Steve Keaton da Sounds, Abbo do UK Decay diz: “… nós estamos nesta coisa toda de Gótico”... 1981: Os comentários abaixo são tirados de "Siouxsie And The Banshees: The Authorised Biography", de Mark Paytress, e se referem especialmente ao álbum “Juju”, lançado em 1981.

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Steve Severin (da banda Siouxsie and The Banshees): “Nós realmente descrevemos “Join Hands” (1979) como “gothic" na época do seu lançamento, mas os jornalistas não se prenderam muito a isso. Com certeza, naquela época nós estávamos lendo muito Edgar Allan Poe e escritores similares. Uma música como “Premature Burial" daquele álbum é certamente Gótica no sentido apropriado”. 1982/começo de 83: O clube Batcave é aberto em Londres. Ian Astbury (Southern Death Cult, The Cult) usa o termo “goths" para descrever os fans do Sex Gang Children, o que é divulgado pelo redator da NME, Stephen Dorrell. “Goth” se torna finalmente aceito como um movimento de direito.

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Andi (do Sex Gang Children) relata a respeito da época: “- chamaram meu apartamento de Visigoth Towers pelas minhas costas como piada. Dois músicos que eu conhecia que viviam por perto - Ian Astbury and Billy Duffy (ambos dos primórdios Goth do Southern Death Cult) inventaram o apelido “Gothic Goblin” ou “Count Visigoth”. Acho que alguém mencionou isso para um jornalista chamado Dave Dorrell, que então começou a divulgar o termo “Goth". Mas "Gothic" já vinha sendo usado por algum tempo (antes) para descrever vários estilos de música, especialmente Joy Division. Para mim, especialmente, o termo Gothic se refere a algo um pouco mais elaborado e clássico do que o Gótico comercial que temos visto." Out/1983: O jornalista Tom Vague se refere a “Hordes of Goths" na revista Zig Zag, (cujo diretor era Mick Mercer). Nessa época tanto o termo Gótico como a Subcultura relacionada já estavam estabelecidos... Anos depois de ter sido usado pela primeira vez, o termo se torna aceito e definido. Aparentemente o termo positive punk foi uma tentativa de alguns jornalistas de mudar o nome daquela tendência, por alguns meses (fevereiro/1983), mas o termo não pegou. Mick Mercer comentou: “As pessoas precisam se lembrar que Richard (Richard North da NME que divulgou o termo Positive Punk) não estava falando de nada mais que uma certa atitude de uma poucas bandas no seu artigo sobre o Positive Punk (aprox. Fev/1983) e ele não tinha intenções extras de proclamar um movimento. Ele ficou tão surpreso quanto qualquer um quando o artigo foi para a capa da revista…(..). Foram os subeditores, provavelmente em uma semana fraca,


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que inventaram tudo. Ele só estava interessado em procurar uma linha de pensamento Punk mais imaginativa, não um movimento." Em uma entrevista com Dave Thompson e Jo-Anne Green da revista Alternative Press em Novembro de 1994, Ian Astbury, o ex-vocalista do Southern Death Cult, declara que ele inventou o termo gótico: “O termo “goth” era um pouco uma piada, insiste Ian Astbury. “Um dos grupos que estava se destacando ao mesmo tempo que nós era o Sex Gang Children, e (o vocalista) Andi – costumava se vestir como um dos fans do Siouxsie and The Banshees, e eu costumava chamá-lo de “Gothic Goblin” porque ele é um cara pequeno e moreno. Ele gostava de Edith Piaf e essas músicas macabras, e ele vivia em um prédio em Brixton chamado “Visigoth Towers”. Assim, ele era o “Gothic Goblin”, e seus seguidores eram os “Goths”. Daí que o Gótico veio.” Todavia, devido aos outros usos anteriores ou similares fica difícil considerar este o primeiro uso. 1983: Marc Almond (Soft Cell) relata sobre 1983: “a moda daquele ano era o gótico-roupas pretas, batom preto, renda preta, cabelo preto - você podia incluir qualquer coisa desde que fosse preta. Rostos pálidos, bijuterias imitando ossos, qualquer coisa que lembrasse morte estava na ordem do dia”. Com o crescimento da cena, a imprensa inglesa aceita o nome que se tornou popular: Goth. Ainda em 1983 é lançado o filme “Fome de Viver” com o Bauhaus tocando “Bela Lugosi is Dead” na abertura, em um clube noturno em que os vampiros representados por David Bowie e Catherine Deneuve vão para buscar suas vítimas… Talvez pela primeira vez no cinema os vampiros são representados de forma mais “sensível”. Em 1984 o gótico já estava “fora de moda” para a imprensa comercial, mas se tornara algo muito maior que uma moda passageira… até hoje. Felizmente, no mundo real, as coisas não desaparecem quando a imprensa comercial deixa de falar delas…

DESENVOLVIMENTOS POSTERIORES Aqui comentamos sobre o termo gótico na primeira geração do Gótico (1978-1983). Sobre os desenvolvimentos posteriores nos aprofundaremos em outra oportunidade. Mas a seguir algumas linhas gerais:

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Na Alemanha, desde o começo dos anos 90, floresceu uma cena “Darkwave-Goth” com uma imprensa própria especializada tanto na área musical como comportamental. Também existe na Alemanha desde 1992 o maior festival mundial de música Gótica que cresce a cada ano, o Wave Gotik Treffen . Temos desenvolvimentos igualmente importantes em outros países da Europa. Também nos Estados Unidos, onde tanto o lado mais Deathrock quanto o mais Darkwave e Ethereal, ou a mistura com Industrial, florescem até hoje associados a subcultura Gótica. Da mesma forma que a Europa, os EUA também possuem selos importantes lançando artistas de qualidade desde o Gothic-Rock, DeathRock, Ethereal, Synth-Goth, Electro-Goth, Industrial, etc, que representam muito bem a tradição Gótica. Tanto nos EUA como na Europa e até no Brasil novas bandas com novas sonoridades continuam surgindo durante os anos 90 e até hoje.

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Importante lembrar sempre que cada continente ou mesmo país usa rótulos ligeiramente diferentes para as mesmas bandas, ou usa um mesmo rótulo em sentido diferente. Comentamos mais essa questão no capítulo 15- Glossário de Estilos Musicais.

19  “ARQUEOLOGIA” DOS USOS DO TERMO “GÓTICO”. Abaixo, vamos comentar um pouco as transformações de significado que o termo “Gótico” foi sofrendo ao longo dos séculos, até chegar ao século XX e ser usado como jargão pelos… Góticos.

1- DO SÉCULO V AO XIV: Os povos que invadiram as diversas fronteiras do Império Romano, forçando o bloqueio econômico da Europa e a economia Feudal, tinham várias origens: vândalos, germanos, anglo-saxões, otomanos, ostrogodos, francos, visigodos, mongóis. Mas essas invasões haviam acontecido de seis até dez séculos antes da construção das imensas catedrais verticais e luminosas da baixa idade média.


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A cultura expressa na “ideologia” da arquitetura da baixa Idade Média era Escolástica, Católica e Teocêntrica, mas, estando na transição para o Renascimento, sua forma resultava também do emprego de técnicas resgatadas da antiguidade clássica e do oriente, somados a valores da urbanização e da burguesia comercial com seu poder emergente. Logo, não há ligação direta e causal entre as “culturas bárbaras ou pagãs” e a arquitetura dessas catedrais católicas da baixa Idade Média que, mais tarde, seriam conhecidas como “Góticas”, pois naquela época estas não eram chamadas de Góticas. Quando foram construídas (séculos XII a XV) aquelas catedrais verticais, com amplos arcos ogivais, com grande quantidade de enormes janelas recobertas de vitrais multi-coloridos era chamadas de “obra-francesa”, ou “arte francesa”, expressando a maestria técnica do renascimento urbano no final da Idade Média nas terras francesas. Foi muito tempo depois que os detratores da Idade Média resolveram achar um "bode expiatório" para a Idade Média, e escolheram os Godos (que eram os Bárbaros mais conhecidos pelos italianos renascentistas). No século XVI os Renascentistas também cunharam a expressão “idade das trevas”, outra idéia preconceituosa para designar a Idade Média. Afinal, segundo os Renascentistas, o berço “greco-romano” da Europa não poderia ter produzido um período de 1000 anos de tamanho “obscurantismo cultural e mau-gosto”. Mas isso era parte da propaganda ideológica deles e depois dos Iluministas para vender seu peixe anti-eclesiástico e anti- teocentrista.

2- PRIMEIRA METÁFORA: Assim, o adjetivo “Gótico” foi pela primeira vez aplicado a algo que não tinha ligação com os Godos. Aqueles novos pensadores e artistas rejeitavam a Idade Média, para, assim, desprezar a arquitetura e toda cultura medieval teocêntrica contra a qual se insurgiam em defesa da Razão da Ciência e do Humanismo. Após o século XVI, o conceito de Idade Média como "idade das trevas" intelectual foi difundido em oposição ao conceito de "luzes" e "esclarecimento" do Renascimento e, depois, do Iluminismo. O Antropocentrismo vem substituir o Teocentrismo e as doutrinas Escolástica Medieval e Católica.

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3- VOLTANDO À BAIXA IDADE MÉDIA…

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Todavia este preconceito dos renascentistas era exagerado, pois essas “obras francesas” (depois chamadas de “Góticas”) só foram possíveis graças a uma retomada do comércio, do desenvolvimento técnico e urbano e do estudo da matemática clássica grega, como a do matemático Euclides, tendo sido a geometria Euclidiana fundamental para o seu desenvolvimento. Assim, a cultura Greco-romana não desapareceu totalmente durante a Idade Média. Paradoxalmente, séculos antes, ao dominar militarmente a Grécia, o Império Romano havia sido “derrotado” culturalmente pela cultura Helênica (Grega). Depois, essa cultura Greco-Romana-Cristã dominou exatamente aos que derrubaram o Império Romano. Então, essas catedrais Góticas da baixa Idade Média, banhadas de luz e cor de suas imensas janelas, eram o ponto de encontro da sociedade que se reurbanizava. Nelas, os burgueses realizavam assembléias civis e também eram usadas como bibliotecas. Podemos considerá-las um momento de tensão e passagem do homem da sociedade teocêntrica para a sociedade antropocêntrica, transição que se completa gradualmente até o século XVII, com o progressivo crescimento dos valores e conceitos racionais e iluministas.

4- SÉCULO XVIII: REAÇÕES AO SÉCULO DAS LUZES Mas então como “Gótico” e as catedrais medievais chegaram a ter um sentido “romanticamente obscuro” como conhecemos hoje? O século XVIII foi o chamado “século das luzes”, apogeu do pensamento Iluminista e Racionalista, e do “cogito ergo sum” de Descartes, que deram a tônica geral. Newton depois descreve as leis gerais da Física e o Mecanicismo se estabelece. O tempo passa a ser dividido em unidades iguais e vazias. A percepção de mundo como o conhecemos hoje é esboçada neste período. Tanto que na segunda metade do século XVIII temos a explosão da primeira Revolução Industrial e das Revoluções sociais que derrubariam os primeiros absolutismos: a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa. Obviamente o Racionalismo e o Cientificismo geraram reações contra sua excessiva tentativa de “desmistificar”, mensurar e controlar totalmente a realidade.


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Como reação, já no final do século XVIII e início do XIX temos a origem do romance Gótico, com sua temática fantástica e misteriosa. (ex: O Castelo de Otranto de Horace Walpole, e Frankenstein de Mary Shelley). Da mesma forma que o Romantismo, também era uma reação contra o Racionalismo e o Iluminismo. Foi chamado de Gótico por recriar elementos da Idade Média de forma idealizada, logo ocorre a mesma associação que ocorreu no Romantismo. Na poesia Inglesa da passagem do século XVIII e começo do XIX temos vates, místicos e românticos: William Blake, Coleridge, Keats, Percy Shelley, Byron e etc...

5- SÉCULO XIX, QUANDO AS “LUZES” BRUXULEIAM… No começo do século XIX, na França, a Revolução Francesa e o Império Napoleônico “deram errado”, frustrando os projetos modernizadores e a “Razão”. Neste contexto surgiu a Moda Romântica, que buscava exatamente resgatar as raízes nacionais, os sentimentos, paixões e mistérios. Por isso criavam uma versão idealizada de seu passado, buscando as "glórias" da monarquia francesa, da época da Idade Média e do “Gótico”. Aqui o termo “Gótico” já é considerado um adjetivo comum para a Idade Média. Uma boa comparação para entender esse processo foi o que se passou com os românticos brasileiros. Livros como Iracema, O Guarani, Ubirajara, O Gaúcho... na falta de uma idade média e cavaleiros, foram idealizados os índios e outros nativos, criando representações que não tinham muito a ver com a realidade destes. Da mesma forma a idealização Romântica de elementos da Idade Média associada ao conceito de Gótico (aqui já relacionado às catedrais) tem mais a ver com as necessidades estéticas e ideológicas da época do Romantismo do que com os fatos históricos da Idade Média e dos “Godos”. Mas esta “ficção” e romantização de uma época imaginária e fantástica foi o que embebeu a palavra “Gótico” de boa parte dos sentidos com os quais a recebemos. E a estes sentidos acrescentamos outros…

6- NEO-GÓTICO DO SÉCULO XIX: REVIVAL VITORIANO Até o final do século XIX ainda temos um revival Neo-Gótico ou “Vitorian Gothic” também na Inglaterra Vitoriana, notoriamente na

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Arquitetura (Novas Casas do Parlamento, de 1837, o Big Ben e Tower Bridge 1866-94). Mas por que esse nome "neo-gótico"? Era um estilo que se referia, no século XIX, a um suposto estilo Gótico original que nem era, na sua época, chamado de Gótico. Também a Rainha Vitória envergando luto (vestimentas pretas) por décadas influenciou a moda da época (ela ficou viúva muito cedo e não se casou novamente). Assim, nova associação importante: os conceitos de “Vitoriano” e “Gótico” se contaminam e confundem em nosso imaginário e no repertório cultural que recebemos. Como Frankenstein antes, no final do século XIX o tipo de romance “Gótico” se torna mais psicológico do que de terror material (ex: Mr.Jeckyl & Dr. Hide, O Homem Invisível, Drácula, o Retrato de Dorian Gray, etc). Os recursos da ciência e da razão são apresentados como fonte de horror e perigo, se usados sem critérios morais e/ou sem levar em conta o lado humano. Ao mesmo tempo a nobreza já é mostrada como decadente, inútil e ridícula.

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A urbanização paralela à Industrialização do final do século XIX, produz um novo tipo de cidade em que as relações humanas se esvaziam e deterioram. Este novo tipo de “inferno” foi explorado em obras literárias por autores simbolistas como Baudelaire e Rimbaud. O século XIX viu o florescimento das ciências, da tecnologia e da filosofia positivista, o Iluminismo degenera em uma Religião de Cientistas Racionalistas... até que tropeçam, novo século, em Freud e na Primeira Guerra mundial. Depois dela, o “horror” terá que tomar novas proporções…

7- SÉCULO XX: OS DÂNDIS ELÉTRICOS Depois do Decadentismo “anti-social” e dândi 1 de Baudelaire e Oscar Wilde, depois de T.S Elliot e de Leopold Bloom (o não-Herói e não-anti1

No século XIX “a triunfante supremacia da Grâ-Bretanha fez do nobre Inglês o padrão da cultura, ou melhor, da incultura aristocrática internacional, pois os interesses do dândi- bem barbeado, impassível e refulgente- deviam ser limitados a cavalos, cães, carruagens, pugilistas profissionais, caça, jogo, diversões de cavaleiros e sua própria pessoa. Tal extremismo heróico incendiou até mesmo os românticos, que também apreciavam o “dandismo” (Eric Hobsbawn- 1789-1848, A Era das Revolucões (1978)). Neste contexto podemos entender o significado do título do último álbum da banda ícone do Glam-Rock. T-Rex, pouco antes da morte de Marc Boland em 1977: “Dandy in The Underworld”. O conceito de “dandy” decadente, assim, foi recuperado pelo Glam nos anos1970 e chegou até so Góticos e New-Romantics nos anos 1980.


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herói “homem-feminino”) de James Joyce, em meio a Cabaret Culture de Brecht e Weil, do teatro da crueldade de Artaud e do Manifesto Bauhaus de 1919... luz, câmera... ação! O Cinema Expressionista, no século XX, vai se inspirar nos romances "NeoGóticos" do século XIX que satirizavam a vida racional ao mesmo tempo que usavam para isso figuras caricatas de uma aristocracia decadente, com condes ou lordes ridículos e "do mal" em seus castelos empobrecidos ou metrópoles obscuras. O Expressionismo buscava retratar a realidade com as proporções sentidas, não apenas reproduzir a realidade: nisto não haveria arte alguma. Em 1919, o manifesto da escola Bauhaus busca estabelecer uma nova arte, na qual a criatividade seja devolvida ao trabalho, e a artisticidade, ao dia a dia. Os Surrealistas buscavam expressar os símbolos do Inconsciente livremente. Os Cubistas pretendiam, por suas vez, mostrar uma imagem de vários pontos de vista e em vários tempos ao “mesmo tempo”, rompendo com as noções de tempo-espaço criadas pela Ciência Newtoniana. Logo depois, Einstein atacaria a Ciência “por dentro” com a Teoria da Relatividade. Bergson também já havia feito sua desconstrução da Ilusão Mecanicista na Filosofia, voilá: século XX. Freud, no começo do século XX, rompe definitivamente com o que ainda restava de Racionalismo propondo que o ser humano possuía instâncias não conscientes (conceito de Inconsciente) que determinavam suas ações e comportamentos. Posteriormente a Literatura e a Filosofia existencialistas vão abordar os dramas existenciais mais extremos do ser humano, abandonado em meio ao vazio sem bóias de salvação racionais ou morais, como nos romances “A Náusea” de Sartre e “O Estrangeiro” de Camus. Após o Situacionismo e o Existencialismo (1950 aprox.) e Pop-Art e Nouvelle-Vague (1960 em diante), nos anos 1970 (Glam-Punk) e dos 1980 até hoje, tudo que citamos vai direta ou indiretamente, sofrer uma nova apropriação e releitura. Por exemplo: a apropriação de Frankenstein ou Drácula pode tanto se dar através da releitura expressionista quanto por uma releitura do romance do século XIX, ou ainda através da releitura POP, ou tudo isso junto, adaptados à linguagem contemporânea e como símbolos e metáforas de questões atuais.

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8- 1970’s: BOMBAS NUCLEARES, GLAM, PUNK, GOTHIC E NEW-ROMANTIC: Nos anos 70, a “era de ouro econômica” e seu otimismo que perduravam desde o pós-guerra encontram seu fim. O novo mundo da Guerra se aproxima dos anos 80 ameaçado pela aniquilação nuclear a qualquer momento, ao mesmo tempo que a situação econômica mundial começa a se deteriorar. A terceira Guerra mundial parece eminente, e um revival da República de Weimar pré-segunda Guerra mundial e de seu expressionismo e “decadence” parece fazer todo o sentido. As perspectivas são sombrias, até mesmo… “góticas”. Em 1970 já temos o Glam-Rock na Inglaterra e o Glam-Punk Nova Iorquino que desembocam, na Inglaterra, no Punk 77 e no Gótico. O nome Gótico é aplicado a este movimento no sentido que o adjetivo "Gothic" havia adquirido na língua inglesa durante todo este processo que descrevemos. No sentido de algo ligado ao “lado não racional” e não-positivista, imaginativo e que ousa mergulhar nas “trevas” da psique e da terrível “condição humana” mas também no “maravilhoso e misterioso”.

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Em 1972 o filme "Cabaret" (baseado na obra de Christopher Isherwood sobre o período da Alemanha anterior a Segunda Guerra Mundial) com Liza Minelli, acaba criando uma moda "retrô-glamour-niilista-cabaret" em Londres, que vai desembocar no Punk e no Gótico. Ao mesmo tempo (1969-1975) está rolando o Glam e o Punk USA e o que vai ser chamado de New Wave já engatinha. Tudo isso vai influenciar a cena proto-Gótica que surgirá a seguir. O New-Romantic dos anos 1980 não tem a ver “diretamente” com o Romantismo dos movimentos literários e revivals anteriores, mas ele vai influenciar muito o Gótico em formação. Era um movimento que visava a criatividade e a busca da individualidade, com um grande enfoque no uso glamoroso das roupas e cabelos e claro, na dança. Os maiores ícones eram David Bowie e Duran Duran, sem esquecer Visage, Ultravox, Classix Noveaux, Depeche Mode e outros. Isso tudo se dá no contexto da Guerra Fria e da continuidade da revolução Sexual, na qual os papéis sociais dos gêneros, fixos há séculos, são rompidos, questionados… e satirizados.


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9- POP 1980’s: UM MOMENTO CATALIZADOR Em 1978 o Punk já dera lugar à New Wave, e parte da New Wave veste preto, na roupa e na alma. Em 1982/1983, temos uma catálise de elementos: no filme Hunger (Fome de Viver) David Bowie e Caterine Deneuve representam vampiros que caçam suas presas extamente em um clube "gótico/new-wave” no qual está acontecendo um show do ...Bauhaus com Peter Murphy cantado “Bela Lugosi is Dead”. Não por acaso a vampira Deneuve é uma "antiga" do Egito e ambos usam Ankhs (!) com pontas afiadas no pescoço para cortar a jugular de suas vítimas. Aí temos o resgate de vários símbolos de várias épocas atualizados e recontextulizados. O nome usado acaba sendo Gótico, mas a palavra é usada no sentido adjetivo e metafórico. Quando a subcultura define seus padrões, aproximadamente entre 1983/84, o termo que predomina acaba sendo Goth/Gothic. (mais detalhes no capítulo 20- Cronologia do uso subcultural do termo Gótico).

10- NO SÉCULO XXI: “PLANET EARTH IS BLUE...” Há pelo menos dois tipos de Modas: aquelas que encontram um eco em uma fase histórica, expressando um significado cultural e psicológico importante, e aquelas outras que são apenas um sucedâneo das primeiras. As do segundo tipo passam em pouco tempo. Com quase 30 anos de estrada, o Gótico já provou ser uma “Moda” do primeiro tipo, e mais: se configurou como uma subcultura em constante atualização de seus elementos. Também sua música se tornou um gênero em constante atualização, não podendo ser reduzida “a fase pos-punk”. Ao contrário de várias outras “modas” (do segundo tipo) musicais que desapareceram neste mesmo período. Não há ligação causal entre as “culturas bárbaras ou pagãs” e a arquitetura das catedrais católicas na Europa da baixa Idade Média que mais tarde seriam conhecidas como “Góticas”, mas que na época que foram construídas eram chamadas de “obra francesa”. Assim, não temos nenhuma ligação com os "Godos".

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Mas nos identificamos com a reapropriação idealizada que o Romantismo fez da "Arte Gótica" das catedrais do final da Idade Média. Nos anos 1980 nos reapropriamos desta reapropriação… e acrescentamos mais temperos. Logo nossa ligação é apenas com as recriações feitas pelo Romantismo e não com o Catolicismo. As reapropriações de elementos do Romantismo e Romance Fantástico do século XIX que o Gótico do século XX faz, também são releituras mediadas pelo contexto histórico do século XX e traduzidas pelas releituras e movimentos artísticos que aconteceram entre um e outro. Temos releituras: os livros e temas (Drácula, Frankenstein, Mr.Hide, etc...) já tinham sofrido releituras pelo cinema expressionista na década de 1930. Portanto a releitura que foi feita no final dos 1970’s e 1980’s já é uma releitura que inclui várias outras releituras. Além disso, isso está acontecendo no contexto do Modernismo, da pós-Pop-Art e do Situacionismo, etc.

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Ora, uma releitura é a reapropriação e resignificação de um significado/símbolo para um novo contexto. (Mais informações sobre processos de reapropriação de símbolos no Capítulo 5- A Homologia Subcultural, sua Flexibilidade e Evolução) É a Sociedade Industrial, com suas filosofias, ideologias e, principalmente, resultados na realidade, que dá esse contexto. Nele, a subcultura Gótica vai encontrar significados em comum com uma série de movimentos artísitcos e de pensamento desde o começo do século XIX. Isso não quer dizer que ela descenda diretamente deles ou de algum deles especificamente. Nos anos 1990’s, após a queda do Muro de Berlim, aconteceu uma tentativa “Fukuiâmica” de instalar um “neo-otimismo-mundial” made in USA, como no pós-guerra dos anos 1950. Aparentemente, não deu muito certo, e um novo “mal-estar” se espalha pelo nosso “blue planet”. Ou “Black Planet”? A história continua. E todas essas referências estão hoje sofrendo releituras pelo Gótico atual do século XXI, um século que começa tão ameaçador e conturbado como o final dos anos 1970. Talvez apenas o Apocalipse não seja nuclear e com exércitos em luta, mas ecológico ou financeiro e com ataques terroristas… De qualquer forma, um tom expressionista ou a fuga para um espaço imaginário mais etérico e menos utilitário continuam atuais como nunca.


Parte III

 Repertório e Referências da Subcultura Gótica

Dândis elétricos e uma cyber-decadência neo-vitoriana. Frankenstein continua sem lar pra voltar. Dorian Gray continua sem opção. Goth is Undead, again and again.

20  DECADENCE AVEC ELEGANCE: BEAUTIFUL LOSERS “Próximo de Bauhaus, provavelmente o artefato mais celebrado da república de Weimar1 foi um filme exibido em Berlim em fevereiro de 1920, O Gabinete do Dr.Caligari 2. Willy Haas escreveu mais tarde: “Aí estava a Alemanha “gótica”, sinistra, demoníaca, cruel” 3. Com seu enredo de pesadelo, sua tendência expressionista, sua atmosfera obscura, Caligari continua a personificar o espírito de Weimar para a posteridade tanto quanto as construções de Gropius 4, as abstrações de Kandinsky 5, os cartazes de Grosz 6 e as pernas de Marlene Dietrich 7.” (Peter Gay, Os Anos do Expressionismo, em seu livro “A Cultura de Weimar”) A primeira exposição de Toulouse Lautrec acontece no famoso cabaré Moulin Rouge 8, no boêmio bairro Parisiense de Montmartre que na virada do século XIX para o XX recebe os artistas e intelectuais “alternativos” da época. Em 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, o quartel general dos artistas, escritores, políticos, pensadores e Dadaístas-proto-Surrealistas 9 de André Breton é no Cabatet Voltaire em Zurique. Em 1924 Breton escreve o Manifesto Surrealista. 1

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República de Weimar - O período que a historiografia classifica como a “cabaret culture” oficial: o entre guerras (1919-1938) na Alemanha, com todo a crise social e hiperinflação da República de Weimar. “O Gabinete do Dr.Caligari” (Das Cabinet des Dr.Caligari, 1920). Dirigido por Robert Wiene, é o filme seminal e modelo do cinema expressionista Alemão. Willy Haas - "Die Literature Welt"- citado pelo autor Peter Gay. Walter Gropius - artista que escreveu o Manifesto Bauhaus, em 1919. Kandinsky – pintor inicialmente Expressionista que em fase posterior desenvolveu um trabalho abstrato. Lecionou na escola Bauhaus. George Grosz - pintor Expressionista alemão de caráter fortemente caricatural e politizado. Marlene Dietrich interpreta a cantora de cabaré “Lola” no emblemático filme “O Anjo Azul” (Der Blaue Angel, 1930). “Toulouse Lautrec et le Paris de Cabarets”- Jacques Lassaigne, (1967) reedit:1976.

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Em 1928, W.H.Auden, um dos principais nomes da poesia de língua inglesa do século XX, se interessou por Berlim talvez menos pelo fato de ser “um centro de ativismo político de esquerda e de experimentação musical” e mais pela “tolerância com que a cidade na época costumava encarar a sexualidade não-ortodoxa” 10. Além de desfrutar destas liberdades, Auden também trabalhou com Christopher Isherwood. Os cabarés não eram apenas centros de comércio sexual e de drogas legais ou ilegais. Foram, desde o século XIX, também centros catalizadores e irradiadores de cultura avant-garde. Reuniam discussões vanguardistas nas artes, na filosofia e até na política. Ao pronunciarmos a palavra “cabaré”, as imagens mais comuns são as cenas imortalizadas por Toulouse Lautrec em suas pinturas. E a Lola de Marlene Dietrich em “Anjo Azul” com seu realismo fantástico e atmosfera nebulosa e barroca. Ou, na releitura de Liza Minelli em "Cabaret" baseado na obra de Christopher Isherwood relatando a liberdade e a criatividade da Berlim de Weimar enquanto o pesadelo Nazista já ameaçava desabar sobre todos. Lembramos também da boemia dos artistas e pensadores modernistas no Quartier Latin e outros bairros então pobres de Paris, a outra capital cultural daqueles anos conturbados. E uma dose de absinto, claro. Antigos cabarés, o teatro burlesco, os “scketches” populares do “Teatro de Vaudeville” com suas maquiagens exageradas e circenses, as canções, como os trabalhos de Kurt Weil e Bertold Brecht, e outros que falam de forma simples dos sentimentos das pessoas, com shows vistosos, dramáticos e populares. Também no começo do século XX, quando o Cinema nasce, sua estética vai beber destas fontes e de outras comuns ao Expressionismo. 9

Dadaísmo: “Por volta de 1916, o poeta alemão Hugo Ball e a cantora Emmy Hennings, abriram em Zurique o Cabaret Voltaire, espaço semelhante aos bares e cafés que havia antes da Primeira Guerra em Munique, incluindo em seu programa, leitura de poemas, execução de performances musicais e exibições de pinturas, atraindo dezenas de artistas e pessoas ligadas à arte que estavam na Suíça para fugir dos horrores da guerra. Entre esses artistas estavam Tristan Tzara, Hans Harp e Marcel Janko, que se envolveram na fundação do movimento Dadá.” Dirce Guarda - “Corpo e Obra, Reflexões sobre o Corpo Na Linguagem Performática”. Surrealismo: “A palavra surrealismo foi usada pela primeira vez pelo poeta Guillaume Apollinaire em 1912 na apresentação de um balé de Jean Cocteau e Erik Satie, intitulado Parade, referindo-se a uma arte que ultrapassava as aparências, desobrigada de fidelidade para com o real.” Florisvaldo Mattos em http://www.revista.agulha.nom.br/fmatos01.html

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W.H.Auden- José Paulo Paes e João Moura JR., 1986. Chritopher Isherwood – “Goodbye to Berlim” 1939


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O musical “Cabaret” (1972) inspirado na obra de Chritopher Isherwood resgata e glamoriza o tema, mas a corista vamp interpretada por Liza Minelli agora usa botas combinando com a meia arrastão, o corpete, a cinta-liga e chapéu coco, uma Louise Brooks atualizada. Patrice Bollon 11 comenta que este musical e o filme geraram uma moda em Londres que influenciou um novo grupo: O Bromley Contingent, do qual emergiria, entre artistas do pos-punk, a diva Siouxsie Sioux. Siouxsie aparece como uma Liza Minelli pós-punk, atualizando o espírito decadentista dos cabarés da Belle Èpoque, dos anos 20 e da Cabaret Culture alemã. De fato as cenas glam, punk e wave e pos-punk beberam sequiosamente de toda essa tradição “vaudevillesca” e “decadentista”, sintetizando seus significados em estéticas para o fim-de-século e milênio. Os anos 1980, com a iminente ameaça de apocalipse nuclear e a falência dos sonhos americanos e de paz e amor, se pareceram muito com vários outros períodos anteriores desde a revolução industrial, principalmente a Berlim de Weimar pressentindo o horror que viria de 1939 a 1945, ou antes, a Belle Èpoque da Paris do Moulin Rouge que sucumbe ao horror da Primeira Guerra Mundial. Antes de Weimar, os artistas que pegaram em armas no primeiro conflito mundial que se estendeu de 1914 a 1919 voltaram das trincheiras com uma noção ainda mais clara de que “havia algo de podre no reino da Dinamarca”. Ou melhor, algo de extremamente errado na cultura européia recente. O Positivismo e o Racionalismo não haviam entregado o “bem” que prometeram: pelo contrário, durante a Primeira Guerra Mundial entregaram ainda mais horror, agora tecnológico e em escala industrial. O cabaré foi o lugar daqueles que não tem o “poder” ou o “phallus” no apolíneo mundo da sociedade industrial e positivista. O lugar dos “belos perdedores” 12 e dos “comedores de lótus” 13. O lugar de coisas “improdutivas” e “pouco práticas” não mensuráveis nos gráficos dos noticiários. Patrice Bollon - “A Moral da Mácara- Marveilleux, Zazous, Dandis, Punks, etc.” 1993 (Morale du Masque, 1990) "Beautiful Losers” é o título de um romance experimental de Leonard Cohen lançado em 1966 que foi sucesso na época. “Decadence avec Elegance” é a versão afrancesada que o rockeiro brasileiro Lobão fez do verso famoso do Kraftwerk em “Europe Endless” (1977): “Promenades and avenues / Europe endless / Real life and postcard views / Europe endless / Elegance and decadence” 13 Comedores de Lótus - se refere aos “comedores de lótus” da ilha do Ciclope como relatado na obra “Odisséia” de Homero. A expressão é usada para se referir a pessoas que vivem para o dia, sem astúcias e sem ambições. 11

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Coisas que, aos poucos, fazem a sociedade aceitar padrões de comportamento, antes considerados malditos. O cabaré nesta época foi a casa e refúgio para os fugitivos de um mundo que se tornava cada vez menos feito para seres humanos. Por alguns momentos de congraçamento nos esquecemos do mundo lá fora, e cantamos: “This is a Happy House, we’re happy IN here.” 14 A face branca é a face do ator expressionista em seu personagem tragicômico, visceral e impuro, e não a face branca da pureza moral ou étnica. Infelizmente, faces deste segundo tipo enterraram a República de Weimar. Mas enquanto isso o melhor que a corista pode fazer é mostrar suas glamorosas unhas verdes e exclamar - “Divina decadência!”. 15

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Evidentemente os Góticos não vivem em uma ilha isolada no meio do Mar Negro ou do Mar Morto. Também nos servimos do sistema comercial e de toda estrutura da sociedade oficial. “Todavia, o consumo seletivo de fontes não-subculturais não é inconsistente com a conceituação da cena gótica como uma subcultura”. (Hodkinson, 2002) A subcultura Gótica não está conspirando-sorrateira e pacientementepela destruição ou conversão da cultura dominante. Não existe um conflito: existe a definição de um espaço de diferença. Um espaço que às vezes é físico, mas sempre é mental: mesmo mergulhado no dia a dia de seus afazeres na sociedade dominante, o gótico preserva sua visão de mundo diferenciada. As contraculturas dos anos 1960 foram movimentos que realizaram uma atualização da sociedade ocidental para uma nova moralidade adequada aos novos padrões de trabalho, comércio e produção da segunda metade do século XX. Realizada esta função, se desestruturaram ou foram incorporadas no maistream, remanescendo apenas como grupos revivalistas. (ver Stuart Hall e Tony Jefferson, 1975). 14 15

Estribilho da canção “Happy House” da banda Siouxsie and The Banshees Frase repetida pela personagem Sally Bowles, interpretada no filme Cabaret por Liza Minelli.


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De forma diferente, as subculturas atuais não visam alterações na sociedade hegemônica. Simplesmente existem paralelas a esta, compartilhando o espaço físico, mas em um espaço “separado” no aspecto cultural. Assim, apesar da popularidade das teorias em contrário, podemos concluir que grupos sociais alternativos, significativos, substantivos e coerentes e com comprometimento dos indivíduos continuam a existir e a ter vitalidade. Há mais de duas décadas a subcultura Gótica é um bom exemplo disso. “Através de uma redefinição do conceito de subcultura, baseada em indicadores de relativa diferenciação, identidade, comprometimento e autonomia, este livro procura prover meios para a conceitualização da cena gótica - e outros agrupamentos que escolhermos- caracterizados mais por sua substância do que pela sua fluidez. Fazendo isso, evitamos a supergeneralização de superficialidade, ausência de significado e colapso de agrupamentos substantivos que, de maneiras diferentes, caracteriza tanto as teorias da cultura de massa quanto as pós-modernistas e, às vezes, até as de coletividade fluida.” (Hodkinson, 2002)

22  SOBRE O TÍTULO DESTE LIVRO “A happy house in a black planet”, ou em bom português: “uma casa feliz em um planeta negro”. O título deste livro é uma brincadeira com o nome de duas das mais famosas e- não sem razão- emblemáticas canções que embalam a cena Gótica desde os anos 80:“Happy House” e “Black Planet”. Unimos os dois nomes montando uma frase que acreditamos ter muito a ver com o espírito geral da subcultura Gótica. Abaixo, nas traduções das letras dessas duas canções, podemos ver o que mais estas canções têm em comum.

HAPPY HOUSE (Casa Feliz) Música da banda Siouxsie and The Banshees, 1980 Tradução: Esta é a Casa Feliz A gente é feliz aqui na Casa Feliz Ah, é o maior barato

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A gente vem pra brincar na Casa Feliz E gastamos o dia inteiro na Casa Feliz Onde nunca chove. A gente vem pra gritar na Casa Feliz Estamos num sonho Na casa feliz Nós somos todos bem lúcidos Esta é a Casa Feliz A gente é feliz aqui Tem lugar pra você se você disser “sim” mas não diga não, ou você vai ter que ir embora nós não fizemos nada de errado usando nossas viseiras na cara, é seguro e calmo se você canta junto.

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Esta é a Casa Feliz A gente é feliz aqui na Casa Feliz Para esquecer de nós mesmos -fingir que está tudo bemnão existe inferno.

BLACK PLANET (Planeta Negro) Música da Banda The Sisters of Mercy, 1985 Tradução: (pelos céus do oeste) (meu reino vem) Tão quieto, tão escuro por toda Europa E eu sigo toda autoestrada 101 (1) Pela costa do oceano virada para o por-do-sol (2) Para que o Reino venha (3) Sobre O Negro Planeta Negro Negro Mundo Negro Dando voltas na radiação


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Dando voltas sob a chuva ácida Sobre um Negro Planeta Negro Planeta Negro suspenso sobre a autoestrada Fora da minha imaginação Fora da memória Mundo negro fora da minha mente Ainda tão escuro por toda Europa E o arco-íris aqui Nos céus do oeste O golpe fatal a aparecer No final do grande atracadouro branco Eu vejo um Negro Planeta Negro Negro Mundo Negro Dando voltas sob a radiação se ligue, sintonize, se consuma (4) sob a chuva ácida em um… Planeta Negro

(1) Highway 101- é uma autoestrada que percorre a costa oeste dos Estados Unidos, frente ao Pacífico, passando pela Califórnia. (2) oeste (3) “thy kingdom come” Ou “kingdom come” é uma citação direta ao “Pai nosso” (Lord’s Prayer) em Inglês. Equivale em português à parte “venha a nós o vosso reino” dessa prece. Em Inglês, geralmente usado em citações para significar a vida após a morte, o “outro mundo” (o além). (4) no original, “Tune in turn on burn out in the acid rain”. A frase "Turn on, tune in, drop out" (algo vagamente como “se ligue, sintonize, desencane”) cunhada pelo líder da contra-cultura Timothy Leary, nos anos 60, teve inúmeras interpretações. Nesta música, o autor Andrew Eldritch substitui o “drop out”, por “burn out” (queime totalmente), mudando sensivelmente o sentido da frase original.

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23  Obras Citadas/Bibliografia Bibliografia, Fontes e Leituras Sugeridas Subcultura Gótica e Geral Livros específicos sobre a subcultura Gótica: •

Le Milieu Gothique- Antoine Durafour- 2005

The Goth Bible- Nancy Kilpatrick- 2004

Goth Chic- Gavin Baddeley- 2002

Goth: Identity, Style and Subculture- Paul Hodkinson- 2002

Hex Files:the goth bible- Mick Mercer-1997

Livros que citam a questão subcultural em geral, mas não são específicos sobre a subcultura Gótica:

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Subculture: The Meaning of Style- Dick Hebdige-1979

Resistence Through Rituals, youth subcultures in post-war Britained.Stuart Hall and Tony Jefferson-1975

Post-Punk Diary 1980-1982- GeorgeGimarc-1997

Cenas Juvenis: punks e darks no espetáculo urbano- H.W.Abramo- 1994

Mate-me Por Favor- Legs MacNeil e Gilliam McCain-1997

Industrial Evolution-through the 80's with Cabaret Voltaire- Mick Fish- 2002

Visões Perigosas: uma arque- genealogia do Cyber-Punk- Adriana Amaral- 2006

A Moral da Máscara-Patrice Bollon-1990

The Gothic- David Punter and Glennis Byron- 2004

Siouxsie and the Banshees: The Authorised Biography- Mark Paytress, 2003

Livros de cultura geral citados ou comentados indiretamente: •

O Pensamento Selvagem- Claude Levi-Strauss-1962

O Tempo das Tribos- Michel Maffesoli- 1987

Sebastião Vila Nova- Introdução a Sociologia- 1985

Magia e Técnica, Arte e Política- Walter Benjaminobras escolhidas, vol 1. 1994

A Cultura de Weimar- Peter Gay- 1968

Expressionismo- Dietmar Elger- 1998

W.H.Auden- José Paulo Paes e João Moura JR., 1986


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Toulouse Lautrec et le Paris de Cabarets- Jacques Lassaigne (1967) reedit: 1976

Eric Hobsbawn- 1789-1848, A Era das Revolucões- 1978

História Geral- Cláudio Vicentino- 2000

Development and Character of Gothic Architecture- Charles Herbert Moore- 2003

Medieval Architecture (Oxford History of Art) -Nicola Coldstream- 2002

O Choque do Futuro- Alvin Tofler- 1970

Sites e Revistas citados: •

revista Elegy Ibérica, edicão portuguesa, #02, 2006- entrevista com Clan Of Xymox

site Scathe: An Early History of Goth: http://www.scathe.demon.co.uk/histgoth.htm

revista Veredas- artigo “Estética da Modernização-da cisão à integração negativa da arte”, Robert Kurz, 1998”

Revista “NME”, Inglaterra, fevereiro 1983

Revista “The Face”, Inglaterra, fevereiro 1983

Jornal “La Presse”, Canadá, 15 de setembro de 2006

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SOBRE O AUTOR

H.A.Kipper nasceu no inverno de 1970, freqüenta a cena Gótica Paulista desde 1990 e organiza eventos e páginas informativas na web sobre esta desde 2004. Além de Gótico, amante de Darkwave e da subcultura Gótica, é, entre outras coisas, Gaúcho, Gremista, Brasileiro, Pai, Filho e Marido, Ilustrador, Cartunista e Quadrinhista profissional, DJ amador, Democrata Xiita, Belletrista bissexto e estudante de Ciências Sociais. Sim, podemos ser muitas coisas, mas ser é como amar: “um longo trabalho, para os quais todos os outros são apenas preparação”…(depois de Rilke)


A happy house in a black planet de kipper  

- A HAPPY HOUSE IN A BLACK PLANET: INTRODUÇÃO À SUBCULTURA GÓTICA de H. A. Kipper (2008, 126 pgs,ed. do autor) O livro busca trazer em uma...