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Texto: Natália Pesciotta

ESPECIAL

Arte: Guilherme Resende

o fio da meada A história dos tecidos rendeu nosso nome, brigas e honras. Além de beleza e identidade. Por tramas artesanais ou industrializadas, cantamos, criamos estampas e vilas. Saiba por que até café, música e futebol têm a ver com os panos dessa terra.

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em querer rasgar seda, somos Brasil por causa dos tecidos. Mal chegaram a estas bandas, os portugueses só queriam saber da árvore do tronco vermelho – o pigmento para dar cor aos panos era caríssimo na Europa. Os nativos também usavam o tingimento. Sabiam fiar e tecer com instrumentos feitos de galhos. Apesar de fazer redes de dormir e faixas, nunca pensaram em cobrir o corpo. Logo vieram os jesuítas e, para vesti-los como exigia a catequese, foram os primeiros costureiros a trabalhar em Teares horizontais por aqui. Ficamos bons nisso. As capitanias hereditárias investiram em plantações de algodão, principalmente no interior do Nordeste, região que pôde ser habitada graças às condições favoráveis para a cultura. Até para a Inglaterra, mestre no assunto, o Grão-Pará e o Maranhão começaram a exportar – tanto a manufatura quanto a matéria-prima. Pouco depois, contudo, Portugal cortou nossas asas. Em 1785 a rainha dona Maria manda ordem expressa: todos os teares deveriam ser desmontados e mandados para a Metrópole. Dizem que alguns foram para a fogueira. Ficava per-

mitida apenas a fabricação de panos grossos de algodão para “uso e vestuário dos negros ou para enfardar e empacotar fazendas”. Os senhores de engenho já faziam questão de vestir-se com tecidos europeus. A região de Minas Gerais, porém, bateu o pé contra a proibição porque a população, distante dos portos, havia desenvolvido sua produção. Com a Conjuração Mineira em ebulição, a ordem parecia uma afronta. Patriotas vestiam a camisa de tecido brasileiro como ato de rebeldia. Não estavam sozinhos. A Revolta dos Alfaiates na Bahia, mais popular, inspirava a fazer o mesmo. O líder Cipriano Barata andava com casaca preta de algodão da terra. Só quando a Família Real mudou-se para cá o alvará foi revogado. Hoje somos a sexta maior indústria têxtil do mundo, o segundo maior produtor de denim – matéria-prima de algodão para a fabricação do universal jeans – e o terceiro na produção de malhas, ao mesmo tempo que esbanjamos riquezas na produção artesanal. No meio disso, muitas histórias foram tramadas. E ainda não perdemos o fio da meada.


Chita pra que te quero

Chita

Chitinha

no manto do boi-bumbá. Mas no passado também era roupa do dia a dia de escravos, gente da roça, de criança brincar. Até hoje forra mesas e colchões no interior.

(SC).

Festa de Nossa Senho ra do Rosár io, em Chapa da do Norte (MG) .

Chitão

As estampas variam de acordo com o tamanho do padrão do motivo. Embora tenhamos importado os primeiros padrões de chita e chitinha, o chitão florido é invenção nossa. Começou a ser confeccionado nos anos 1950.

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Saindo do armário Nos anos 1960, o “flower power” do movimento hippie e o Tropicalismo colocaram a chita no auge. Na tevê, até Chacrinha vestiu-se de chitão. As estampas miúdas ganharam o apelido “chitinha-mamãe-dolores”, por causa de uma personagem da novela Direito de Nascer. Zuzu Angel despiu a chita dos preconceitos e levou-a para as passarelas. Foi estilista pioneira em resgatar brasilidade e voltar-se para o que as mulheres usavam nas ruas.

NOS ANOS 1950, CLARA NUNES era funcionária da tecelagem Cedro, em Caetanópolis, Minas Gerais. A fábrica foi a primeira do Brasil a fazer chita em escala industrial. O museu mantido pela empresa ainda guarda o cartão de ponto da sambista.

Cravo, canela e chita

Jorge Amado compôs o figurino de uma de suas personagens mais famosas, Gabriela Cravo e Canela (1958), de chita. No romance, quando a cozinheira chega fugida da seca e toma um banho, o patrão Nacib vê sua beleza. “No dia seguinte compraria um vestido para ela, de chita, umas chinelas também. Sem descontar do ordenado.” Depois de casados, ele lhe dá roupas e colares como os das senho-

ras chiques. Sem sucesso: “Vestidos pendurados no armário, em casa ela andava de chita, em chinelas ou descalça”. Depois que Sônia Braga viveu a personagem na versão televisiva do livro, em 1975, o tubinho do tecido virou mania pelo Brasil.

ACERVO TV GLO BO

REPRODU

ÇÃO

REPRODUÇÃO

Santo Antônio de Lisboa

IOLANDA HUZAK

Dança do Laço de Fita , em

IOLANDA HUZAK

Difícil um figurinista ou estilista discordar: o pano que mais tem a cara do Brasil é a chita. Verdade que ela deu lugar a tecidos mais modernos e talvez você nem a conheça pelo nome, mas a modalidade barata de fazenda de algodão marcou nosso imaginário. Primeiro, chita – que veio de “pinta”, em hindi – significava algodão estampado. Era um dos produtos desejados da Índia porque os europeus ainda não dominavam as técnicas de estamparia. Hoje quase sempre a base da chita é mesclada com poliester ou outros fios sintéticos. O nome costuma referir-se à sua estampa mais marcante, a florida bem tropical. Ela está nas roupas de São João, nas saias de dançar coco, nas camisas de congadas,


tramar

tramar

Tramar

A trama é o conjunto de fios colocados no sentido transversal de um tear. Os fios que vão passar por eles, paralelos ao tear, são a urdidura. A combinação dos elementos cria a variedade de tecidos.

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DENIM Algodão tingido de índigo apenas na urdidura.

SARJA Trama e urdidura cruzam-se em sentido diagonal.

FELTRO Tecido sem trama e urdidura. Os fios são prensados.

Pra não perder o fio da meada

A avó ensinou para a mãe, que ensinou para a menina moça. O tear manual em muitas cidadezinhas tece também a vida do lugar. Vai aglomerando mulheres em associações e resistindo à industrialização. É bem comum no Vale do Jequitinhonha, interior de Minas. Desde a colheita do algodão, tudo é feito manualmente. Descaroçam, batem, desembaraçam e cardam a fibra, numa rústica linha de produção. Dobram os fios em meadas para enfim serem tecidos. As músicas de trabalho das fiandeiras, bem pontuadas, dão força e ritmo ao trabalho.

Tecido social

A roda qu’eu fio nela Ô baiana, oi ai ai Sabe lê, sabe escrever Ô baiana, oi ai ai Também sabe me contar Ô baiana, oi ai ai Quanto custa um bem querer Ô baiana, oi ai ai. Trecho de Ai, Baiana, das fiandeiras de Sagarana, Minas Gerais.

s do Brasil e or

Casas, escolas, campos de futebol, armazéns, capelas, ambulatórios. As antigas tecelagens criavam Fo sil lha bra verdadeiros povoados, com níveis de de ua P an violência e criminalidade baixíssimos. ile e de Jenipa ira emenrut cum S p o Tudo mantido pelas fábricas, que u Serragem de ta va empregavam todos os habitantes. ou jaquiú Picão (erva) eira A primeira vila operária brasileira foi a Maria Zélia, fabricante paulista de juta. O empresário Jorge Street chegou a defender o direito de greve dos trabalhadores. Bangu era outra dessas vilas que virou bairro, com a fábrica hoje transformada em shopping center. A fluminense América Fabril, em Pau Grande, ficou conhecida por ser onde Garrincha trabalhava e morava. Bastava haver uma tecelagem, aliás, para ter pelada. Assim nasceram Bangu, Íbis, Juventus e outros times conhecidos do futebol brasileiro. a

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FUSTÃO Urdidura de linho, trama de algodão.

CETIM Cinco ou mais fios da urdidura para cada fio da trama.

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IOLANDA

HUZAK

MORIN O mais simples possível: fios de algodão na trama e urdidura cruzam-se na proporção de um para um. Era a base da chita.

Vila da tecelagem Bangu.


Me ensina a fazer renda No século 16 os holandeses invadiram o Nordeste brasileiro, não por coincidência onde se concentravam as plantações de algodão. Na época, as mulheres daqui perceberam que as roupas das mulheres de lá pareciam com as redes de pesca de seus maridos. Dizem que foi aí que começaram a rendar. A prática de entrelaçar fios para formar desenhos é muito presente, principalmente no Nordeste e Sul do País. A criatividade brasileira misturou e criou pontos originais, baseados nos tipos de renda que vieram de fora.

Celulose dissolvida em soda cáustica

Linho

Caule da planta de mesmo nome

Algodão

Espécie de pelo na semente do algodoeiro

Poliéster

Material petroquímico

Lã Pelo de ovelhas

Seda

Muito antes de existir

a São Paulo Fashion Week, os primeiros palcos para a moda brasileira foram mobilizados pelo setor de tecidos, como o concurso Miss Elegante Bangu, nos anos 1950. Durante toda a década de 1960, a Feira Nacional da Indústria Têxtil (Fenit) agitou a cena cultural do País. Além de desfiles, promoveu grandes shows em São Paulo, reunindo estilistas, músicos, intelectuais e gente de teatro.

Casulo do bicho-da-seda

Juta

Caule da planta de mesmo nome

FILÉ Feita com agulha e linha na mão, é a versão feminina das redes de pesca. O/AB

Viscose

BILRO Os movimentos da linha seguem um desenho fixado numa espécie de almofada. A origem é ibérica. Para pregar a guia, aqui usam-se espinhos de mandacaru.

REPRODUÇÃ

De onde vem?

RENASCENÇA De origem italiana, disseminou-se no Sul brasileiro. Por aqui ganhou pontos com novos nomes: aranha, abacaxi, traça, cocada, xerém, amor seguro, laço.

Mi ss ele ga nte Ba

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A tecnologia

pode fazer coisas incríveis com os tecidos. Já produzimos roupas capazes de eliminar odores da transpiração, secar a umidade corporal ou resistir a manchas. Para isso, as fibras são recobertas com nanocompostos, minúsculas partículas com propriedades especiais.

E o que tem o café com isso? Em 1889, 60% do nosso capital industrial ia para o setor têxtil. Grande parte dos investimentos servia para atender a demanda dos produtores de café, que precisavam de sacos de juta para transportar o produto. A juta, planta de onde vem a fibra, se dá muito bem no Norte do Brasil. Temos uma semelhante nativa da AmaZônia, a malva. Hoje, o mercado nacional demanda 20 mil toneladas delas, sobretudo para sacaria biodegradável de grãos. Com o declínio do uso de saquinhos plásticos, elas estão ganhando ainda mais espaço.

SAIBA MAIS • Que Chita Bacana, de Renata Mellão e Renato Imbroisi (A Casa, 2005). • Corantes Naturais da Flora Brasileira, de Eber Lopes Ferreira (Optagraf, 1998).

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Almanaque Brasil de Cultura Popular