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Foto: Nilcélia Zottino

Foto: Arquivo Pessoal Vinícius Nunes

Brincadeiras que encantam gerações Jornal Em Foco - Campo Grande - MS Outubro de 2012 - Ano X - Edição 154

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A difícil tarefa de zelar pela vida Pág. 11

Comportamento Defensor do planeta cansado do consumismo decide sair da rotina e resolve conhecer a realidade viajando a pé

Andarilho percorre o mundo Aliny Mary Dias

CAMPO GRANDE - OUTUBRO DE 2012

B OA N OT Í C I A

biente sofre”, afirma. Nos olhos daquele homem foi possível ver o sofrimento que o desmatamento da Amazônia ou o forte calor de Bangladesh o causavam. Para ele, todos os habitantes do planeta têm responsabilidade com o meio ambiente. “Todo mundo têm que entender que as pessoas um dia terminam e morrem, mas o planeta continua, então temos que cuidar dele”. Sobre a família Martin conta que deixou irmãos, irmãs e parentes na Inglaterra, ele não pretende voltar à cidade natal e quando perguntei se tinha filhos, foi incisivo. “Para que eu vou ter filhos? Não quero que eles vivam nesse mundo mau, as pessoas são muito más e não têm amor pela natureza e nem pelo outro”. Martin não parava de falar e o que eu mais queria saber aquela altura era como ele se sustentava. Ele já tinha me contado que em todas as cidades que passava procurava um quartel do Corpo de Bombeiros para se hospedar, ficava entre três a quatro dias em cada cidade e depois pegava uma estrada e partia. Em um momento da conversa, enquanto Martin me mostrava sua mochila cheia de acessórios criativos que ele mesmo criou, vi uma carteira. Perguntei para ele se tinha documentos ou passaporte, ele a abriu e avistei um cartão de crédito. Achei aquilo estranho, para um homem que lutava contra o consumismo, mas depois entendi o porquê. Durante os 15 anos de trabalho de Martin, ele juntou o salário e o depositou em uma conta bancária, é desta conta que ele retira o dinheiro para comer e comprar tênis novos quando precisa. “Durante esses 5 anos e 3 meses de viagem eu gastei 3 mil dólares, só saco o dinheiro quando preciso mesmo, só gasto o suficiente para não passar fome e continuar andando”, conta. Depois daquela aula de vida, olhei ao meu redor e percebi que vários militares estavam ali ouvindo as histórias de Martin. Se deixasse, aquele homem falaria a noite inteira, sem parar. Mas olhei para o relógio e vi que era hora de ir embora. Com o sorriso nos olhos Martin agradeceu o tempo que eu havia parado para escutá-lo e disse: “a minha história pode ser muito boa ou ruim, depende de como os jornalistas a escrevem e mostram isso para as outras pessoas”. Saí daquele lugar com uma vontade louca de chegar em casa, sentar na frente do computador e contar a história daquele homem para o mundo todo. Mas percebi que em 10 ou 11 parágrafos seria impossível transmitir toda a felicidade e aprendizado que aquele homem havia me proporcionado naquela tarde. Fui dormir com uma frase de Martin pipocando na minha mente e com a certeza que depois daquela tarde, havia entendido a verdadeira missão de todo o jornalista.

H i s t ó r i a - Depois de percorrer mais de 26 mil quilômetros andando, homem carrega consigo brasões e memórias dos locais por onde andou

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até o México, de lá foi até a estrada mais próxima e começou a pedir carona. Ninguém parou, então o homem começou a caminhar. “Eu andava e via a placa de 92 quilômetros até tal cidade, continuava andando e os quilômetros iam diminuindo, assim peguei gosto por caminhar e nunca mais parei”. Foram mais de 21 países visitados até aqui, mais de

26 mil quilômetros andados a pé e mais de 27 pares de sapatos gastos. Mas aquele homem era mais que um amontoado de números, eu ia anotando todos aqueles dados e percebia que estava prestes a fazer mais uma reportagem igual as outras que li no caderno surrado. Parei de escrever compulsivamente e perguntei ao Martin o porquê daquilo tudo, ele me respondeu com

outra pergunta. “Você está interessada na minha história? Tem tempo para me ouvir?”. Boquiaberta disse sim e aquele homem começou a falar em uma mistura de inglês, português, espanhol e castelhano. No início foi um pouco complicado, mas com os gestos e frases repetidas algumas vezes, a conversa fluiu durante 3 horas, que para mim pareceram 3 minutos. 14/2/2013, 12:31

O motivo que levou Martin a começar aquela aventura foi o consumismo e a degradação do meio ambiente. O andarilho é um defensor do planeta Terra. “Por que as pessoas compram tanto? Os produtos geram uma felicidade de uma ou duas semanas e depois as fábricas lançam uma coisa nova, as pessoas vão lá e compram de novo. Quanto mais o mundo compra mais o meio am-

EM FOCO

Foi um encontro ao acaso, sem hora e local exato para acontecer. Ao chegar ao quartel do Corpo do Bombeiros, minha expectativa era conhecer a rotina dos militares e quem sabe, encontrar entre aqueles oficiais uma boa história que valesse algum espaço neste jornal. Alguns minutos de conversa com o sargento Costa, temperada com muitas perguntas, é claro, e a sirene do pátio toca. Todos aqueles homens de vermelho que estavam sentados, tomando tereré para espantar o calor, se levantam. Correm em direção à viatura, ligam a sirene e saem em disparada. Eu estava preparada para que a entrevista fosse interrompida a qualquer momento, afinal aqueles homens são os heróis do povo e seguem à risca o dizer da oração do bombeiro: ‘jamais hesite no ato de salvar’. Um pouco desapontada, fui em direção a um banco próximo à parede para esperar a volta do sargento e de sua equipe. Avistei um homem de aparência frágil com uma linha e agulha nas mãos sentado no banco, várias bugigangas e uma mochila tomavam conta de quase todo o espaço. Sentei um pouco longe dele, e sem querer conversa, mas também sem ser mal educada, dei-lhe um “boa tarde”. Aquele homem me olhou com um sorriso diferente e respondeu: “Bom tarde”. Logo percebi seu sotaque e vi que não era brasileiro, pensei comigo “deve ser mais um daqueles andarilhos nômades”, mas eu estava enganada. Em menos de 2 minutos de conversa, percebi que o inglês da cidade de Manchester, Martin Hutchinson de 50 anos, havia se tornado o personagem perfeito para minha reportagem. Aquele homem estendeu a mão e me deu um caderno cheio de brasões de corporações de bombeiros de todo o mundo colados na capa. Ao abrir tive uma surpresa, reportagens em todos os idiomas possíveis, fotos daquele homem bem mais novo do que agora, e todas as manchetes repetiam: ‘Homem cruza o mundo a pé pregando mensagem ecológica’. Não acreditava no que estava escrito ali, mas ao olhar para seus tênis bem gastos, uma sola bem grossa colada para proporcionar mais quilômetros de caminhada e com uma rápida conversa em inglês, comecei a ter a maior lição da minha vida. Martin é militar do Corpo de Bombeiros da Inglaterra e formado em Filosofia. Há 20 anos, cansado da rotina e do consumismo exacerbado, ele decidiu que todo o dinheiro que ganhasse trabalhando seria guardado. “Eu não gastei nada, só o suficiente para comer”, conta. Com o dinheiro arrecadado durante 15 anos de trabalho, o homem decidiu que queria conhecer o planeta e fugir daquela loucura da Inglaterra. Há 5 anos e 3 meses, Martin partiu do velho mundo e embarcou em um navio

Foto: Aliny Mary Dias


10 C o n t r i b u i ç ã o

Sair em busca de famílias que precisam de ajuda pode ser mais fácil e gratificante do que parece

Roupas procuram novos donos Paula Gomes

EM FOCO

CAMPO GRANDE - OUTUBRO DE 2012

B OA N OT Í C I A

Pela primeira vez abri meu guarda roupa e olhei para as minhas peças com um pensamento contrário ao habitual. Qual delas eu nunca mais gostaria de usar? Fiquei ali parada, sentada na cama, olhando minhas roupas e tentando encontrar um motivo pra continuar a ser dona delas. Me lembrei das pessoas que haviam me presenteado com algumas e os momentos que eu vivi usando outras. É, eu não me orgulho em assumir que tenho ciúmes e que pra mim é muito difícil me desfazer de qualquer roupa, mas pensei que talvez esse dia fosse perfeito pra praticar o desapego ainda mais pra fazer o bem a alguém. Separei algumas roupas e fiz toda minha família fazer o mesmo. Com a caixa cheia, imaginei mil lugares enquanto o plano ainda era montar uma mini banca de doação a espera de interessados. Peguei o carro e sai sem rumo, foi quando imaginei o quão difícil seria pra qualquer pessoa ir ao encontro de uma banca de doações. Admitir que você precisa da ajuda do próximo é algo constrangedor mesmo para aquele que necessita, então resolvi ir para um bairro afastado do centro e aleatoriamente escolhi o Bairro Nova Lima. Agora o objetivo era encontrar uma praça ou uma igreja e esperar alguém se aproximar, mas durante a procura todo e qualquer plano se desfez, quando vi sentada em frente a sua humilde casa sem portões uma senhora que aparentemente estava em uma cadeira de rodas.

Foto: Fabiele Vieira

D o a ç ã o - Maria e seu filho Patrick curtindo as roupas “novas” e nem se importam com os tamanhos, tudo o que vier será muito bem aproveitado pela família

Fiz o retorno, estacionei logo à frente, sai do carro e de mancinho fui chegando, “Boa tarde” eu disse cordialmente e ela meio assustada respondeu apenas com um sorriso. Perguntei se ela não conhecia algum lugar onde eu pudesse fazer algumas doações, mas logo percebi que eu já havia encontrado os donos de todas aquelas roupas. Maria deu uma olhada nas peças masculinas e disse que ajudaria muito a doação, pois ela tem três filhos homens na fase da pré-adolescência. Aos poucos foi se sentindo mais a vontade começou a me contar sobre sua vida de lutas. Aos três anos de idade Maria foi adotada por um casal que queria tudo, menos

dar carinho. Era obrigada a trabalhar desde muito pequena durante horas em cima de um cavalo para cuidar da fazenda e apanhava quase sempre por nada do que ela mesma intitula de “rabo de tatu”. Sem forças para continuar a agüentar os maus tratos, ela fugiu de casa aos 11 anos de idade. Com 18 anos ela se casou e teve três filhos: Kaique, Patrick e Rodnyck. Se separou aos 25 anos quando ainda estava grávida do caçula. Batalhadora ela trabalha há nove anos como segurança em um órgão da prefeitura, mas o trabalho teve de ser suspenso. Vocês se lembram que relatei no início quando há avistei de que aparentemente ela estava em uma caFoto: Gabriel Gomes

deira de rodas? Não, sentada ela tinha à sua frente um andador, que a ajudava a se locomover depois de uma cirurgia que ela tinha feito alguns dias atrás. Há algum tempo ela parou de sentir uma das pernas, e estava começando a sofrer muita dor na outra, foi quando descobriu uma hérnia de disco, um problema sério na coluna que deveria ser operado às pressas. Sempre do seu lado e fazendo tudo o que ela pedia estava Patrick, seu filho do meio e o primeiro que conheci naquele dia, com um jeitão calmo. O único corinthiano dos filhos de dona Maria arregalou os olhos de alegria, quando viu dentro da caixa

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uma família, mas muito mais por ter ajudado aquela família. Durante o tempo que estive lá, pude perceber o quanto eles são especiais, como sonham com uma vida melhor e como algo tão simples pode trazer tantos sorrisos. Lembrei do quanto foi difícil tirar cada roupa do meu armário e colocar naquela caixa e me senti mesquinha por ser egoísta a esse ponto. As roupas agora estão no melhor lugar onde poderiam estar. São da família Rodrigues, que acreditam que aquele foi apenas um dia em que receberam uma doação, e no início era apenas isso mesmo, o que eles não sabem é que quem recebeu a verdadeira doação de exemplo de força, perseverança e humildade, fui eu.

Receita de cidadania e respeito ao próximo Gabriel Gomes

C o m p r e e n s ã o - Preservar a segurança dos alunos e ao mesmo tempo humanizar o trânsito

de doações uma camiseta oficial antiga do seu time favorito. E foi logo chamar a pedido da mãe seu irmão mais novo na quadra poliesportiva perto de casa, para que pudesse escolher também algumas roupas. Rodnyck chegou correndo de bicicleta, acelerado parece ser o oposto do irmão Patrick, cheio de sorrisos gostou de todas as blusas mesmo sendo o dobro do seu tamanho afinal “é bom pra brincar e jogar bola”. O mais velho Kaique, eu não conheci, mas soube que não quis mais estudar à contra gosto da mãe e agora trabalha como aprendiz de marceneiro. Ao me despedir me senti muito feliz por ter ajudado

Respeitar, servir e viver bem com a sociedade, isso era o que Luiz Carlos Santos Messias esperava fazer quando fosse um adulto, e foi exatamente o que ele conseguiu. Casado, com quatro filhos, 44 anos e policial há 22 anos, hoje Luiz é considerado cabo da Polícia Militar. Muitas pessoas o conhecem por Messias, pois esse é o nome pregado em sua farda. “Me faz bem ver as crianças crescendo com a sociedade sem se tornar um infrator”, diz Messias que é voluntário aos sábados no movimento de escoteiros. O cabo começou a exercer a função de agente de trânsito no ano de 1995, no centro de Campo Grande, mas quando iniciou o Colégio Militar, ele foi transferido para o mesmo, fazendo lá uma orientação na entrada e saída dos alunos e preservando a segurança dos mesmos com relação aos veículos. Nadine Motta, de 14 anos, aluna do colégio, diz que o “guardinha” é engraçado e cita uma das suas muitas frases usadas. “Ele fala pra gente, você não é o Brad Pitt, mas 14/2/2013, 12:31

pode parar o trânsito apertando esse botão aqui”. Messias conta que tem facilidade de trabalhar com os alunos, pois já tem uma confiança dos pais, dos estudantes e até mesmo dos condutores, e explica esse modo diferente de abordar o trânsito. “Ao mesmo tempo em que a pessoa é um condutor, ela também é um cidadão, e você não sabe o que pode estar ocorrendo com ela atrás do volante. Ela pode ou não estar empregada, ou até estar com problemas familiares ou de saúde, e às vezes você trata ela como uma pessoa ignorante no trânsito, e não é, é que ela trouxe os seus problemas para traz do volante.” “Eu acredito que o trânsito de Campo Grande está perigoso em virtude da própria formação do condutor. O condutor é formado apenas para conduzir o veículo, ele não está formado psicologicamente para se entender como cidadão” diz Messias sobre o trânsito da capital, falando que falta um pouco de respeito tanto do condutor como do pedestre e dá um conselho para os Campo-Grandenses “Para que se tenha um trânsito se-

guro, é preciso que um saiba entender o outro no trânsito, porque sabendo entender o outro o mesmo fará o entendimento”. No final do ano passado Messias teve o seu cargo de orientação no trânsito do Colégio Militar, substituído por um semáforo. Zilda Torres, 39 anos, mãe de um aluno do Colégio Militar, diz “Vamos sentir falta do Messias aqui, ele sempre nos recebe muito bem, ele fez um laço de amizade muito grande com os pais e com os alunos daqui, e vamos sentir falta desse lado humano que o semáforo não vai ter”. “Acredito que minha presença aqui foi importante, porque tornou o trânsito mais seguro, não tendo nesses anos todo nenhum acidente com alunos e nem acidentes graves na entrada e saída dos mesmos... eu até brinco com as pessoas, não se acomodem como eu, mas sintam-se bem com o que faz. Hoje eu saio realizado do colégio, deixando nova sinalização, acreditando que não haverá riscos para as crianças, e falo que sou feliz por ser agente de trânsito”, finaliza Messias.


Desafio

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Ser mãe não é uma tarefa fácil como muitos imaginam e, ser mãe de primeira viagem, é mais difícil ainda

A p e g o - As atividades preparadas pela “mãe” de Maria Clara fez com que ela se apegasse aos carinhos e cuidados recebidos

que eu a achava a coisinha mais linda desse mundo, a bebê tirou a banana mastigada da boca e me ofereceu toda gentil. “Não, brigada”, eu repetia com um risinho amarelo. Maria não se fez de rogada e continuou insistindo, até que peguei a banana babada – o que a deixou muito satisfeita - e joguei no lixo. Também ofereci água na mamadeira e ela tomou com muito gosto. Eu estava morrendo de sede também, mas aprendi que vontade de filho vem muito, mas muito antes da nossa. E por mais que pareça estranho, é uma alegria imensa trocar nossa vontade pela deles. A próxima tarefa era a mamadeira. Quatro colheradas de leite em pó especial de soja e 210 ml de água quente, chacoalha, chacoalha, chacoalha e experimenta pra ver se não está quente demais. Porém, quem disse que Maria Clara me deixava tirála do colo pra preparar o ‘ma-

má’? Ou ela corria pra fora, ou vinha para perto de mim com os bracinhos estendidos para que eu a segurasse. Por várias vezes tentei colocá-la no colo da minha mãe, Nilcélia – que acompanhou a aventura rindo muito da minha cara de desesperada -, mas a Maria não queria saber dela. A essa altura já havia se apegado a mim e balançava a cabeça calmamente sempre que eu queria entregá-la pra alguém. Isso me deixou bem boba e fez com que eu sentisse uma grande onda de amor por aquela menina. Com muito custo, conseguimos despistá-la, o que não foi nada fácil porque a Maria é muito esperta e sempre dava um baile na gente. Minha mãe entrou na sala com ela enquanto eu preparava o leite. Preciso dizer que me atrapalhei e fiz a maior sujeira com o leite caríssimo? Não, né? Quando entrei na sala, minha ‘filha’ já esticava os bracinhos para provar a maFoto: Nilcélia Zottino

B r i n c a r - Uma das tarefas de ser mãe é buscar passar o tempo livre dando atenção aos seus filhos EmFoco_Boa_Noticia_Standard_CadernoB.pmd 11

madeira, dizendo ‘mamá, mamá’! Mas tenho certeza que minha peripécia não ficou lá muito gostosa. Ela bebeu uns golinhos, logo não quis mais saber e fomos brincar. Impressionante como para os bebês tudo é uma nova descoberta, a pequena se divertia com a textura da almofada, com o ursinho que fiz de fantoche, com o barulho das minhas chaves, meu brinco em formato de flor, meus óculos e todas as minhas brincadeiras para fazê-la rir – que deixariam qualquer outra pessoa revirando os olhos. Eu já estava cansada de tanto corre e corre, com o cabelo arrepiado e cara de doida. No entanto, a tarde era uma criança. Literalmente. E mesmo que eu não quisesse dar o braço a torcer, sabia que estava adorando passar meu tempo ali. Na varanda, um pequeno lanche preparado pela minha mãe permitiu que eu me sentasse um pouquinho e comesse uns bolinhos de chuva. Para beber, um daqueles sucos de caixinha que vem com canudo. De maçã. Logo a Maria chegou com seu sorriso aberto me pedindo um gole. Ofereci e ela bebeu com gosto, quase sem parar pra respirar. O que prova ainda mais a minha teoria: meu ‘mamá’ ficou realmente uma droga. Perdi o suco pra ela e nem me importei. Tudo o que importava era seguir os passos dela pela varanda, brincar com as flores do jardim, ouvir seus gritinhos felizes e quase morrer quando ela pisava com força em uma poça de água suja do jardim, rindo sem parar, ou tropeçava ameaçando cair. Nem gostava de imaginar o que aconteceria se ela se machucasse! Pior que isso foi a próxima arte da Maria: ligar a tor14/2/2013, 12:31

neira quebrada do jardim e nos molhar inteiras, se divertindo a valer com minha cara de perdida tentando impedir. Lá pelo fim da tarde, o que mais me tirou o sono: trocar a fralda. Descobri que esta parte a Maria detesta. Ela resmungava em cima do trocador, se debatia querendo mexer em uma caixa e não gostou nada. Mas foi só começar a brincar com ela que a ‘raivinha’ passou. Logo eu estava tirando a fralda suja, limpando e colocando uma nova. Mamãe acompanhou o processo e rindo, disse: “Parece que está fazendo uma cirurgia na menina!”. Apesar da piada, admitiu que eu levava jeito e, ao colocar uma nova roupinha

na Maria, notei que estava bem mais confiante. No fim, trocar a fralda foi o mais natural da experiência toda. O mais difícil é se esquecer de si mesmo em prol de uma pessoinha que depende de você, não tirar os olhos dela nem por um minuto, correndo atrás e dando bronca quando precisa – não fui bem sucedida nisso... ela é fofa demais pra pensar em brigar! Brincamos bastante com a motoca dela, sentamos no chão da varanda e o único momento em que ela chorou foi quando viu Regina, a babá, indo embora. Não durou muito, mas o foi o pior momento pra mim. Foi terrível ver a Maria Clara agarradinha na grade do portão, chorando e super sentida. Peguei as pulseiras que ela adora colocar no pulso e, minutos depois, a bebê já estava sorrindo e cantarolando – na linguagem dela – pelos cantos. Na hora de ir embora, um beijo na bochecha, um abraço apertado e um aperto no peito. Eu já sentia saudade. Quando a Ceci, mãe da Maria, voltou para casa, fomos embora bem rápido pra que ela não notasse minha ausência. E eu queria ficar mais, dar banho, fazer dormir, levar para passear, conversar... Dizem que ser mãe é padecer no paraíso. Se for realmente assim, quero padecer mais vezes. Quebrei meus próprios paradigmas e descobri que o medo pode te impedir de ter experiências maravilhosas. E foi uma doce bebê de olhos castanhos, cabelos cacheadinhos e olhar sapeca quem fez com que eu me desse conta disso. Ainda bem!

CAMPO GRANDE - OUTUBRO DE 2012

Cuidar de alguém indefeso e dependente não é tarefa fácil para quem é individualista e também um bocado desastrada. E mesmo que a pequena Maria Clara, de um ano e quatro meses, seja minha priminha adorada, nunca a havia segurado no colo por muito tempo, tomado conta dela, nem passado tempo suficiente em sua inocente companhia de bebê sapeca. A verdade é que não me considerava suficientemente “jeitosa” para ser responsável por alguém tão frágil. Isso mudou numa certa tarde em que, motivada pelo jornalismo, fui até a casa da Maria Clara disposta a vivenciar o máximo possível da experiência de ser mãe. Ao menos por um dia. Engoli todas as minhas limitações, preconceitos com relação a mim mesma e às críticas daqueles que consideraram a minha tarefa ‘fácil demais’ - estes, com toda a certeza, não me conhecem em nada. Fui até lá com várias pontadas de medo. “Será que eu vou conseguir segurá-la direito?”, “Mas... e se ela chorar?” e, principalmente, “Como é que eu vou fazer pra trocar fralda?” Indagação acompanhada por aquela fisionomia clássica de ‘ecaaa’. Chegando à casa da pequena, tive de esperar. Ela desfrutava do tradicional ‘soninho da tarde’, quase uma exclusividade do mundo dos bebês. Depois de duas horas, ela despertou, ainda sonolenta. A babá a colocou em meus braços e disse: “Mãe por um dia, ela é toda sua!”. Maria usava uma chupeta e estava com os cachinhos suados quando a acomodei em meu colo, dei um beijo em sua bochecha rosada e a levei para o primeiro desafio do dia: trocar de roupa. Ouvi dizer que algumas crianças odeiam essa parte, mas a minha pequena nem se abalou e até facilitou o meu serviço levantando os bracinhos rechonchudos, meu maior obstáculo foi mesmo minha falta de jeito. O modelito era uma graça: um vestido floral frente única e sandálias brancas de laço as quais ela chamava de “pato, pato”. Sapato na linguagem dos nenéns. Fomos até a cozinha e me explicaram que, após a soneca, ela costumava comer bananas. Peguei uma delas, descasquei e com Maria sentadinha no meu colo, fui oferecendo a fruta. Ela comia devagar e às vezes me presenteava com um de seus risinhos fofos. Então, no momento em

Foto: Nilcélia Zottino

Foto: Nilcélia Zottino

A t i v i d a d e s - Criança aprende por meio de brincadeira

EM FOCO

Taryne Zottino

B OA N OT Í C I A

Mãe por um dia: o desafio de cuidar e alimentar um bebê


12 I n f â n c i a

Repórter vive um dia de Peter Pan e revive brincadeiras do passado em escola pública de Campo Grande

Crianças ainda sabem brincar Foto: Arquivo pessoal Vinícius Nunes

Vinícius Nunes

CAMPO GRANDE - OUTUBRO DE 2012

B OA N OT Í C I A

Quando recebi a tarefa de ter que contar uma coisa boa, comecei a ficar pensando nas coisas que tinha visto nos últimos tempos. Recordei de ver crianças pulando corda, e brincando de verdade em uma escola. Visto que ultimamente este tipo de cena tem ficado raro devido a tantas tecnologias que as crianças e adolescentes estão conhecendo. É a Internet, os vídeo-games, celulares e tocadores de MP3 que cada vez invadem os lares destas crianças fazendo com que muitas vezes esqueçam o que é brincar. Me recordando disso resolvi voltar ao colégio onde vi várias vezes esta cena para ter esta experiência de brincar com elas, saber do que elas gostam, e quais as brincadeiras que elas sabem. Se realmente elas brincam como os nossos pais brincavam em casa e na escola. A surpresa foi que muitos adoram aquelas velhas brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde. Descobri brincadeiras que jamais tinha conhecimento, e o mais legal, brinquei com elas! Na minha infância eu não brinquei muito. Vivia em casa e sempre fui muito tímido. Para mim foi uma emoção ter voltado a ser criança. Me lembrei o quanto é bom ser uma. E despertei o meu lado infantil que acredito que todos nós temos, que devemos despertar sempre que possível. Reparei que as crianças não reparam na sua roupa, no seu jeito de ser. É como se elas valorizassem o que você é, e não o que você tem. Os adultos esquecem de ser assim. O coração de uma criança é o mais puro, gentil e verdadeiro que você pode procurar em uma pessoa. Quando comecei a brincar, os adolescentes olhavam para mim e começavam a rir. Eu fi-

N o s t a l g i a - Acadêmico volta à infância e constata que crianças ainda se interessam por um entretenimento que não envolva tecnologias presentes no mundo moderno

quei sem graça no começo, mas depois pensei: “Quer saber? Não estou nem aí. Hoje quero me sentir uma criança de novo!”. E consegui. Brinquei com eles, no chão da escola mesmo, de Corre Cotia. Aquela velha brincadeira de criança que você começa a cantar uma música, enquanto uma criança dá a volta no círculo com um objeto na mão, até que ela coloca o objeto atrás da criança e esta tem que correr para pegar a outra, e tomar cuidado para a mesma não sentar no seu lugar e você ter de dar a volta na roda e escolher o próximo. Eu corri bastante! E fui pego várias vezes. Quando você é pego você é a galinha choca, e tem que ficar no meio do círculo até outra criança ser pega de novo. Fui galinha choca várias vezes. Enquanto cantávamos perguntei o que elas gostavam. Conversei como se fosse da idade deles. Sorrimos juntos, foi divertidíssimo. Até uma menina pediu por favor para que eu fosse o professor dela! Eu fiquei emo-

cionado. Disse que se eu pudesse com certeza seria. O nome dela era Adriele, e ficou perto de mim o tempo todo, conversando e dando risada junto comigo. Quando eu mudava de lugar ela ia atrás. E toda hora dizia que queria que eu fosse o professor dela. Eles até me chamaram de professor. As crianças possuem uma alegria contagiante. Tentei me recordar de quando senti isso quando criança. E foram raras as vezes. Descobri que elas adoram a tecnologia que cada vez mais deixam elas mais isoladas, porém nunca vi uma criança se divertir mais do que brincar ali, no chão, se sujando, não se importando com nada. Posso brincar? Esqueci totalmente dos problemas. Esqueci por um bom tempo que estava ali apenas para experimentar o que elas faziam para depois relatar. E sabe o que é mais interessante? Aqueles adolescentes que riam de mim, alguns deles começaram a brincar

também! Eles chegavam até mim e perguntavam: “Posso brincar?”. Eu dizia: “Mas é claro”. Era mais uma criança fazendo parte de toda a diversão! Brincamos também de “Passar o anel”. Achava que elas nem conheciam esta brincadeira. Brincamos de “Gato e Rato”. Uma brincadeira que eu não conhecia e que achei hilariante! Se faz uma roda com todos de mãos dadas, o rato fica dentro do círculo enquanto o gato tenta pegar do lado de fora. Ele tem que tentar passar entre os braços que fecham o círculo. Enquanto as pessoas da roda devem fechar para impedir que o gato entre nele e pegue o rato. Às vezes acontece do rato ficar fora do círculo e o gato ficar preso. É algo como uma brincadeira corporativa. Todos ajudam o pobre ratinho indefeso a escapar do gato se não ele morre. E todos devem saber o que estão fazendo para proteger o ratinho amigo. Uma forma de metaforizar que somos ratos em uma sociedade cheia de gatos que querem nos pegar. Porém Foto: Vinícius Nunes

sempre irão existir amigos dispostos a nos ajudar. Todos por uma união que faz a diferença às vezes entre a vida e a morte sem percebermos. No caso da brincadeira é um caso entre ser pego ou não. Imaginação Adorei a forma como as crianças interagiam entre elas e comigo. Depois conversamos de outras brincadeiras que elas conhecem. E são tantas que não é possível brincar todas elas em um único dia, o que me deixou mais feliz foi o fato das crianças ainda brincarem. Porque este tipo de brincadeira melhora o nível social das crianças, além de, permitir uma atividade física boa, aprender a não ser egoísta e se interagir com toda a escola. Fazer um pequeno espaço da escola ser o seu “esconderijo secreto”, ativa na criança o senso da imaginação, e o mais legal. Faz com que elas fiquem de sorriso de orelha a orelha o tempo todo. Entretenimento este que em jogos eletrônicos é muito curto. Elas brincam mais na hora da aula de educação física, porém é importante resgatarmos esta forma de brincadeira que é mais antiga do que o tempo dos nossos pais. É uma cultura que não

deve ser perdida jamais. E tem mais uma notícia boa. Eu e mais uma coordenadora da Escola Luisa Vidal, escola onde eu visitei, vamos elaborar um projeto para resgatar mais brincadeiras antigas, algumas que nem mesmo as crianças sabem. Resgatar uma tradição que não pode ser perdida é ótimo! E ajudar estas crianças a serem mais crianças será um grande prazer. E poder voltar a ser criança novamente será bom demais. E você? Quando foi a última vez que brincou? Se faz muito tempo, pegue seus filhos, sobrinhos ou primos pequenos e finja por um bom tempo ter a idade delas. Tenho certeza que você vai querer mais e mais, assim como eu, que em breve começarei esse projeto com aquelas crianças. Quando estava saindo da escola uma das coordenadoras que estava conversando com todos os alunos, levanta bem alto um anel e pergunta: “Alguém perdeu um anel?” Comecei a rir, me lembrei que a pouco tempo, naquele mesmo lugar onde todo mundo estava sério para se dividir para ir para a aula, eu e um monte de crianças brincávamos com aquele anel justamente para descobrir de quem ele era. Ser o peter-pan de vez em quando faz bem a saúde.

EM FOCO

Foto: Vinícius Nunes

D i v e r s ã o - Passa anel foi uma das brincadeiras escolhida pelo repórter para interagir com os estudantes do colégio

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T r a d i ç ã o - Resgate de passatempos antigos foi objetivo da visita

Em foco edição nº 154 14 de outubro de 2012 (2)  
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