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SUPLE MENTO

LITE RÁRIO

Florianópolis - SC • Junho / 2018 • N.145 • Edições A ILHA • Ano 38

GRUPO LITERÁRIO A ILHA: 38 ANOS DE LITERATURA CARTA A UM POETA, POR MARIO QUINTANA A ESCRITA EXIGE SEMPRE A POESIA, POR MIA COUTO

MULHERES-POEMAS, POR LUIZ CARLOS AMORIM

CARLOSALBERTO FARACO: LÍNGUA

PORTUGUESA E LINGUÍSTICA Portal A ILHA: http://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br


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O ÚNICO LINDO CÁRCERE

REFÚGIO

Cláudia Ferro Kalafatas – Florianópolis, SC

Chris Abreu – Florianópolis, SC

A raiva da ruiva encobre rancor,

Do alto do meu refúgio

as curvas da vida formatam este escrever de dor.

Onde me guardo, me protejo É o mar azul e belo que vejo

Sob que disfarces tu te escondes, meu amor?

Mas eis que de repente O mar até então sereno

Assim pergunta o coração

Curva seus cílios brancos

que agoniza porque não te toca,

Assustado e reticente

réu que perdeu a cor do seu olhar

O vento corre veloz Fazendo cócegas nas árvores

em algum lindo lugar desse desejar,

Que vergam de tanto rir Rugem alto os trovões

percebi então, que uma luminosa lua

Arautos da tempestade

observava a solidão dos meus passos,

Que em breve está por vir Será que as nuvens negras

findo a rua

Escondem-se todos os dias

que não me leva a sedução dos seus traços,

Atrás de verdes montanhas Bebendo água em demasia?

alma pura, me enleve

E quando cheias, carregadas,

e leve para o único lindo cárcere:

Vêm nos lavar a alma

A prisão de teus braços...

Para ao cair da noite, Estarmos leves e renovadas? O mar novamente se acalma E espelha a lua cheia Cantam sapos e curupiras Melodiando a minha aldeia

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SUPLE MENTO

LITE RÁRIO

EDITORIAL GRUPO LITERÁRIO A ILHA: 38 ANOS DE LITERATURA Faz TRINTA E OITO anos que a revista Suplemento Literário A ILHA surgiu, em São Francisco do Sul, a partir de um jornal semanal, que existia naquela cidade histórica – é a terceira mais antiga do Brasil, com mais de quinhentos anos – em 1982. A redação do jornal recebia originais literários – contos, poemas, crônicas, mas as páginas do pequeno jornal eram insuficientes e surgiu a necessidade de um outro espaço, específico, como um suplemento, que acabou reunindo os escritores e resultou no nascimento do Grupo Literário A ILHA, junto com a revista. De lá para cá o grupo mudou para Joinville, onde ficou por quase vinte anos, congregando e integrando os escritores do norte do estado, de todo o estado, do Brasil e até de outros países, e em 2000 fincou sua sede em outra ilha, Florianópolis. O Suplemento Literário A ILHA é, sem sombra de dúvida, a publicação literária mais perene em Santa Catarina. Nenhum grupo ou revista essencialmente literários resistiu tanto tempo em atividade. A cada três meses, uma nova edição da revista circulou, durante trinta e oito anos, ininterruptamente. E com o advento da Internet, uma edição on-line no portal do grupo (http:// www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br), levou ainda mais longe a publicação, então ao alcance de todo o mundo. Para comemorar a resistência e persistência da revista que conseguiu projetar a literatura de Santa Catarina pelo Brasil e pelo mundo, será lançada uma nova antologia com os novos poetas da Grande Florianópolis. O editor

Visite o Portal

PROSA, POESIA & CIA.

do Grupo Literário A ILHA, na Internet, http://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br 3


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A AVASSALADORA PRESENÇA DO MAL Enéas Athanázio – Baln. Camboriú, SC

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scritor australiano, Morris West é dos maiores sucessos de crítica e público do século passado. Vários de seus livros alcançaram tiragens impressionantes e “As sandálias do pescador” vendeu mais de 60 milhões de exemplares, número impensável no Brasil. Suas memórias,“Do Alto da Montanha” (Record – Rio – 6ª. ed. – 2003) - conquistaram posição destacada num gênero sem muitos leitores entre nós. Elas retratam um homem de fé católica, ex-seminarista, sempre ligado à Igreja e preocupado com os mistérios de Deus. E suas memórias, no correr de quase todo o livro, circulam em torno dessas questões transcendentais. Sendo assim, é um homem otimista, cheio de certezas e esperanças a respeito

da vida futura. Às vezes, porém, espraiando o olhar pelo mundo, ele vacila e questiona. “Quanto mais penso a respeito dessas coisas, mais assustado fico pela crua realidade, o mistério obscuro e repetitivo da maldade no mundo. Nada aprendemos com o holocausto, o genocídio em Kampuchea, com as longas e sangrentas agonias da guerra no Oriente Médio. Por que é assim? Por que nós, criaturas racionais, agimos tão perversamente, tão destrutivamente? O que produz essa monstruosidade? O que a mantém viva e se reproduzindo?” – indaga ele (pág. 124). Examina em seguida a questão da tortura que campeia por esse mundo e para a qual a imensa maioria das pessoas se limita a encolher os ombros. “Ela é planejada por seres inteligentes para chegar

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à total degradação de uma pessoa humana, o aniquilamento da vontade e da dignidade mediante o exercício da crueldade baseado na suprema indiferença e na ilusória onipotência” (pág. 125). Ficou deveras chocado quando um industrial brasileiro não apenas justificou os “esquadrões da morte” como informou que ele e seus colegas financiavam essas atividades (pág. 134). Claro que se tratava de um cidadão prestante, modelo de virtudes, assíduo frequentador de cultos e generoso colaborador de entidades sociais. Diante disso tudo, conclui o memorialista: “Fui forçado a concluir – embora com relutância – que o homem é um animal enlouquecido, dedicado, por um quase universal impulso para a morte, à sua própria destruição” (pág. 138). Creio que Morris West não conhece a “teoria” de Monteiro Lobato. Segundo ela, o ser mais elevado criado por Deus foi o macaco. Ele vivia feliz e livre, despreocupado e alegre, pulando de galho em galho. Até que um deles, errando o cipó, caiu


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com a cabeça numa pedra e nela se desenvolveu um estranho tumor – o cérebro humano. Seus infelizes descendentes começaram a nascer com

cérebros e deu no que deu. Enquanto isso Deus, com seu imenso “sense of humour” deixou as coisas correrem para ver o que aconteceria. Com

certeza está estarrecido mas entende que ainda não chegou o momento das providências.

tradições de um povo e de uma terra .Os comércios locais e os moradores ( nativos ) são vosso património! Cuidem e lutem por eles .

BOM DIA, LISBOA

Pierre Aderne - Lisboa

Bom dia Lisboa, menina e moça, O que estão a fazer contigo ? Quando a última drogaria fechar... Quando a última mercearia fechar... Quando o último talho fechar ...

UMA IRMÃ

Quando a última peixeira fechar sua banca ...

Cláudia F. Kalafatas – Florianópolis, SC

Quando a última tasquinha fechar as portas ...

Hei, psiu! Preciso te falar da Clio

Quando acabarem os cafés, as velhas nas janelas e os varais de roupa em alfama e no bairro alto, quando acabar o cor-de-rosa de seus prédios, quando não encontramos mais alfacinhas nas sete colinas ...

auxílio e carinho como nunca se viu, abordagem tênue tal curso de lento rio, sua verdade desliza-nos de modo sutil,

Vão perceber porque os outros povos estão agora a buscar em Lisboa um novo solo.

invejável disposição que seu signo garantiu, entusiasmo quase febril,

Porque eles (me incluo) perderam em seus países de origem o mesmo que ainda resta cá e começa a sumir: a cultura e as

e quando o largo e sonoro sorriso desponta, alegria juvenil! 5


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RITA SAPECA, LEVADA DA BRECA

Else Sant’Anna Brum – Joinville, SC

Rita nasceu num dia de muito sol no mês de abril. O vento brincava com as folhas das árvores. Virava umas pra cá, derrubava outras pra lá. Uma das folhinhas voou, voou, entrou pela janela e foi cair bem no berço de Rita. A mãe de Rita falou: - Que folhinha sapeca! Rita abriu os olhinhos e sorriu. Gostou do nome “sapeca”! Sua mãe guardou aquela

folhinha no álbum da menina, como uma relíquia. Rita cresceu esperta, aprendeu a falar depressa e fazia muitas peraltices. Ela morava numa casa grande e bonita, numa chácara que seu pai herdara de seu avô. Subia nas árvores, conversava com as formigas, abelhas e qualquer bichinho que encontrasse. Os passarinhos ensinavam-lhe lindas canções aprendidas nos diversos lugares por onde andavam. Tinha como companheiros de travessuras um gato chamado Pitico e um cachorro com o nome Trovoada. A menina era conhecida em casa e na vizinhança como “Rita sapeca”. Mas ela nunca fazia mal a ninguém. Quando Rita fez cinco anos, pegou

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seu álbum para olhar e encontrou a folhinha. Ficou sabendo da história e guardou a folha numa caixinha de música. Todas as noites ela abria a caixinha e enquanto ouvia a música, conversava com a folhinha que se tornou sua grande amiga. Uma noite, depois de já ter dormido o primeiro sono, Rita ouviu que chamavam pelo seu nome. Descobriu que a voz vinha da caixa de música. Abriu e, para sua surpresa, a folhinha voou de dentro dela. - Estou cansada de ficar parada, disse a folhinha. Quer passear comigo, Rita? - Se quero? Ora que pergunta! Mas aonde vamos? Rita ficou admirada ao ver


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a folhinha aumentando de tamanho e dizer-lhe: - Suba aqui. A menina pulou na hora. Estava ali uma coisa que ela gostava: aventura! A folhinha, que era agora uma folhona, subiu em direção às estrelas. - Vou mostrar-lhe bem de perto o Cometa Halley. - Puxa, disse Rita, nem acredito, quer dizer, acredito sim! Ninguém viu direito esse danado de cometa e eu vou vê-lo de perto? - Vai sim e vai ver como é bonito!

SEGREDO MEU Rita Pea, Portugal

Rita arregalou os olhos diante de tanta luz, de tanta beleza! - Alô, senhor Halley, bem amigo da onça o senhor é, hein? Então, ficar tão longe e deixar tanta gente curiosa! - Como é, menina? Com toda essa poluição estou meio surdo. - Surdo nada, disse a folha. Os homens andam tão impossíveis que até os cometas têm medo! O cometa deu uma sacudidela na cauda, provocando uma ventania de pozinhos dourados. A

folhinha quase perdeu o equilíbrio do vôo. Achou melhor até voltar logo para a terra e... ZUM! Aterrissou no quarto de Rita entrando pela janela aberta. - Rita, Rita, por que está dormindo no chão? perguntou sua mãe. - Eu... não sei! Rita não teve coragem de contar para sua mãe o que acontecera durante a noite. Ela não ia acreditar mesmo! Era melhor guardar o segredo só para ela, sim, só para ela: Rita sapeca, levada da breca!

para cumprir o seu papel: rasgar os nossos corpos e acorrentar as nossas almas. Irá acontecer na próxima lua nova e talvez esteja na hora de escrever um último poema.

de outros corpos. Beije outras bocas. Que me entregue a outros desejos. Que ame outros rios, outros silêncios. A fome que me derrete é intemporal. Serás sempre Tu, o Sol onde beberei a vida. Até lá, os meus olhos cessam a madrugada. E um dia, quando encontrares estas palavras escritas, irás sentir o cheiro da cinza espalhado pela casa, onde permaneci atormentada, pelas chamas da tua ausência.

A tua pele guarda um Não ouso despedir-me do amor, porque somos segredo meu. Sabes que cometemos eternos. um pequeno delito e não sairemos incólumes do julgamento alheio. Seremos acusados e condenados por isso. A guilhotina estará presente

Se não posso amar aqui, amar-te-ei em qualquer outro lugar. A distancia é irrelevante. Sabes que serei Tua, mesmo que me alimente 7


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MULHERESPOEMAS Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completa 38 anos de literatura neste ano de 2018. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. lcamorim.blogspot.com.br

Estou envolvido com literatura há muito, muito tempo, desde que eu era menino, pois quando tinha quatorze ou quinze anos eu já escrevia, até ganhei um concurso de contos em uma revista, com prêmio em dinheiro. Então continuei a escrever, que o incentivo foi bom e passei a escrever crônicas, também, que publicava no jornal da minha cidade, na cidade vizinha e nos jornais dos Diários Associados de Santa Catarina. Quando cheguei à faculdade, publiquei meu primeiro livro, fundei um jornal, e lançamos um suplemento literário, para publicar as colaborações do leitor: contos, crônicas, poemas. Assim nasceu o Grupo Literário

A ILHA, da necessidade de abrir espaço para novos escritores. E já lá vão 38 anos. Como escritor, revisor, jornalista, editor, fundador e coordenador do Grupo Literário A ILHA, ando às voltas com literatura há quase quarenta anos. E nesta caminhada, tenho visto novos poetas aparecerem, sempre, alguns bons, outros nem tanto, alguns melhorando o fazer poético e se tornando bons poetas, outros desistindo por falta de talento, dedicação, talvez por falta de ler mais e escrever mais, sei lá. Então, fiquei muito feliz quando comecei a perceber as novas poetas que apareceram no Grupo Literário A ILHA recentemente. Essas novas poetas – poetisas, eu sei! – que coisa fenomenal! Elas já chegaram com a poesia pronta, com o olhar de poeta, com a alma de poeta, com o coração de poeta! Eu fiquei pasmo, maravilhado com a qualidade da poesia de nossas novas poetisas, 8

com o talento, com a vocação poética delas. Eu me encanto – e não só eu – a cada novo poema que elas mostram. E não canso de me perguntar: onde estavam essas poetas tão poetas, tão cheias de poesia, todo esse tempo, sem que lhes soubéssemos da suprema inspiração? Elas chegaram arrebatando, algumas até com aquele receio inicial e natural de mostrar o que estavam poetando, e se poesiaram. Sim, elas se poesiaram, pois elas, verdadeiramente, começam a personificar a poesia. E eu agradeço a Deus por elas existirem, por saber delas, por poder usufruir de suas sensibilidades, seu lirismo, suas emoções, coisas que elas têm de sobra. E olhem que sou exigente, não estou sendo condescendente nem gentil: são poetas de verdade, que eu admiro. Estão aí para provar isso a audiência da revista Suplemento Literário A ILHA, que vem publicando a obra delas.


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poetisa dos dedos cheios de poesia, fonte inesgotável de inspiração e sentimento.

Chris Abreu veio vindo de mansinho e se revelou gigante na sua magnitude poética. Sua serenidade constrasta com a energia e densidade da sua poesia, consistente e universal. Chegou esbanjando poesia, sensibilidade, emoção. A poesia flui dela naturalmente, com uma facilidade invejável. Ela é magistrial em poesiar-se. Como em “alongo os músculos / dos sentidos, / desprendo os ferrolhos do olhar, /…/ permito-me desabrochar…” Ah, Chris, eu também quero aprender a desprender os ferrolhos do olhar… Ou como em “Recria o arco-íris / com tuas cores exuberantes / fecunda nossa existência /com o pólen da paz.” Ou ainda “A vida se guarda / para na próxima alvorada / reverdecer.” Reverdeçamos, Chris. E por aí afora, tantos outros grandes versos e grandes poemas, de uma grande poeta, que seduzem a gente. Minha

Cláudia Kalafatás, com esse nome bonito de poeta grega, é poeta com certeza. E chegou jogando poesia de verdade, sentida e vivida, em cima da gente. Privilégio poder usufruir da sua criação, poder recriar a força da sua poesia. Mais uma grande poeta que se nos revela ritmo, sensibilidade e emoção, trazendo todo um universo em versos. Como em “Valsa e rapsódia / comungam meu viver / sensibilidade e poesia / querem ocupar o lugar…”. Já ocuparam, Cláudia. Sua obra prova isso. E tem mais, muito mais, como em “Quero que meus olhos / contem aos teus / o quanto me és”. Quem mais diria isso dessa maneira? Só Cláudia. Como, também, em “Sorvo minha tristeza 9

/ para garantir que você não veja / que meu silêncio te quer por perto.” E, ainda, em “Me empreste a vida / que habita o teu olhar.” Pra quê, Cláudia, se há tanta vida e tanta poesia no seu olhar? Minha poetisa dos sabores

cheios de poesia. Rita Marília eu já conhecia, já lhe tinha sorvido a poesia em goles pequenos. Mas espantei-me com a sua maturidade poética, descobrindo bem mais da sua poesia, com sua admiração pelo poeta Manuel de Barros, o grande poeta que acho que a ajuda a ser grande também. Rita é profunda e densa, como em “Vida é amor represado / Morte, amor trans-bordado…”. Rita, eu vejo e entendo “o brilho das estrelas / no seu olhar.” Ou então, dando continuidade à poesia do mestre: “Quando me escondo na lua de lata e o vento me empina


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como pandorga, minha cabeça salta de estrela em estrela para pegar uma e amarrar na cabeleira do cometa.” Ou ainda: “Eu fiquei rindo porque minha irmã não sabe que chorar também faz rio.” A sua poesia também me faz rio, Rita, a transbordar pelo universo. Minha poeta Manuelina, dos

vida! / Viver tão só, me dê a mão! / Águas que passam, água infinita / Águas tristes, águas frias, chuva de verão…” Com esse aval, não é preciso dizer mais nada. Só assinar em baixo da aprovação desse outro mestre. Minha poeta do coração cheio de poesia.

Merecem mais, porque curam a terra doente.” Ou em “Fechava os olhos pra segurar a noite dentro de si”. Ou ainda em “As vezes dói / mas não é tristeza, nem raiva, nem saudade. / É parto de poesia”. Poeta das mãos cheias de poesia.

olhos cheios de poesia. Marli Lúcia Lisboa, a poeta Bulucha, chega com a sua poesia pejada de romantismo para nos lembrar que a poesia é irmã gêmea do amor. A paixão pelo mar, a fé na vida, são outras fontes de inspiração. Bulucha não escreve de hoje e ao se juntar a nós, do Grupo Literário A ILHA, trouxe uma obra vasta. Após a leitura de uma edição do Suplemento Literário A ILHA, o professor Celestino Sachet deu destaque à poesia dela, consolidando o valor poético que já conhecíamos: “Duas almas, dois seres, uma

Taiana Brancher é outra poetisa de talento que se deixou revelar nas páginas do nosso Suplemento Literário. Sua poesia é um hino de amor à natureza, é um brado de alerta sobre o nosso pouco caso com o meio ambiente, é uma voz levantada a favor dos verdadeiros donos da terra. É uma poetisa de conteúdo, de poesia forte e robusta em defesa da verdade, poesia que canta o ser humano e a natureza que lhe dá vida. E possível reconhecer Taiana em versos como “Os índios precisam urgente de terra /

Fátima Barreto, a Fátima de Laguna, é poetisa de mão cheia. É escritora de prosa e verso, defensora e divulgadora da cultura catarinense, catarinense convicta que é. É fã ardorosa de Quintana, de quem talvez tenha herdado a observação atenta da poesia acontecendo ao seu redor, pelos caminhos da vida. Sua poesia é vigorosa e corajosa. Poesia sem amarras nem viseiras, como em “Olhei-a afastando-se em leveza e candura / levei comigo a feiura da nossa sociedade”. Cantando a natureza, em “Bem-te-vis já tecem a madrugada / pardais e quero-queros

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também tecem o amanhecer”. E romântica, em “Em ti, vermelho, azul e amarelo / brincam em distraída primavera / no

MAJESTADE Marlete Cardoso – Joinville, SC

Esta noite, enquanto rolava na cama, em companhia da insônia, meu pensamento, como cavalo selvagem enveredou-se pelo Brasil afora. E encontrei povos indígenas, com toda a majestade de sua condição milenar, mendigos nos centros das cidades. Pude vê-los em grupos, voltando para a aldeia que está espremida entre as rodovias, as cercas eletrificadas e as grandes plantações de arroz. O curumim já não pesca, pois o lambari foi envenenado assim como o rio. Vi o cacique cuspindo sangue e um

tom do amor”. Poeta do humor cheio de poesia. E muito mais eu poderia mostrar dessas grandes mulheres poetas, que se

revelaram tão fantasticamente para nós, seus leitores e admiradores. Há que lermos e sentirmos a sua obra.

pajé impotente diante da fome e da doença. Rodeei trotando suave a casa principal, feita de barro, e através da única porta, vi o chão batido e seu amor grande pela mãe- terra. Ah, cavalo, leva-me de volta! Vi homens e mulheres serem entregues como animais ao trabalho desumano, o estranho é que eles iam rindo. “O mal de todos, consolo é”, diziam lembrando o velho provérbio português criado para controlar os povos. Enquanto muitos nem precisavam de consolo, pois a televisão lhes inventava histórias, sendo contadas em capítulos, e tal qual Xerazade, os colocavam em suspense, com seus cérebros de molho a pensar no desfecho, a desejarem o mal para os vilões e

a se sentirem vingados quando estes, no último capítulo acabam mortos ou na cadeia. Tudo isso eu vi sem querer ver.

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Sem entender, vi pessoas nas ruas, brigando para manter preso um líder, que outros lutavam chorando para ver livre. Outro tipo de majestade. Insone, vi gente sem tempo, que não espreita mais o céu, que não busca um livro. Vi um Brasil sucateado, se tonar o país das piadas e estas, para que servem¿ Para alegrar, confundir, alertar ou só para não nos deixar morrer tristes¿ Ah, por favor, cavalo, quero meu conforto! Cabeça baixa me trouxe de volta em passo lento, e arrastando-me voltei à minha cama quando o sabiá já despertava. Que tal reunir todas elas numa antologia?


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AMOR ETERNO

AROMA DE AVENCA

Darcy Nogueira – Joinville, SC

Quando eu deixar de existir,

Maria de Fátima Joaquim – Joinville, SC

procura-me nas manhãs de primavera,

Quando o fogo do sonho

num raio de sol

Rasga o peito na rajada do vento

ou num pingo de chuva.

O espírito entretece

Quando eu deixar de existir,

Uns oráculos sobranceiros O arvoredo dançante

procura-me no crepúsculo dourado,

Acolhe o talha-mar

na melodia suave,

ao cantar seu mantra

nos corações dos poetas,

E no fundo dos sonhos

nos seus versos

Reza uma prece natural

e nas suas rimas…

Toca na água benta,

Eu estarei no teu sorriso,

feito banho de ofurô

na tua lágrima

Sente o sopro divino

ou nas tuas noites

No aroma da avenca perfumada.

de silêncio e solidão. Quando eu deixar de existir, procura-me, que a tua busca não será em vão. Eu estarei contigo em todos os lugares.

Visite o Blog CRÔNICA DO DIA Em http://lcamorim.blogspot.com.br Literatura, arte, cultura, cotidiano. Todo dia um novo texto. 12


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beleza, E ao contexto humano, estendes notas de esplendores.

TELHADO DE FLORES

Iluminas o Universo,

Lorena Zago – Presidente Getúlio, SC

Enobreces as auroras,

Quisera compreender a casa,

Perfumas anoiteceres,

Cujo telhado decora-se de flores.

Elevas os humores,

Quisera instaurar-me em sua essência,

Espelhas humildade,

Conhecer suas raízes,

Alegras as vivências,

Absorver a sutileza de sua estrutura,

Transcendendo na essência

Encantas com fulgores,

Esperança e amores!

Tocar de leve a composição do solo,

AURORA

Comungar de seu alicerce,

Adolfo Casais – Poeta Português

Emprestando-me a firmeza constituída,

A poesia não é voz – é uma inflexão.

Em suas paredes caladas,

Dizer, diz tudo a prosa. No verso

Transcendendo sapiência e esperança. Buscar abrigo, entrelaçando-me

nada se acrescenta a nada, somente

Nas frestas do amor impregnado em cada canto.

um jeito impalpável dá figura ao sonho de cada um, expectativa

Deixar fluir os meus sentidos

das formas por achar. No verso nasce

E conectar-me à luz do seu misterioso encanto.

à palavra uma verdade que não acha

E nesse contexto de beleza e magia,

entre os escombros da prosa o seu caminho.

Compartilhar a união dos elementos,

E aos homens um sentido que não há

De ser abrigo e ao mesmo tempo decorar olhares.

nos gestos nem nas coisas: voo sem pássaro dentro.

Oh, telhado de flores! Emanas ternura em tua singular 13


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ASAS DE UMA HORA “H” Por Celestino Sachet – Professor, escritor, estudioso da Literatura Catarinense, imortal da Academia Catarinense de Letras.

“Hora`H`” é uma construção literária marcada por orginalidades tanto no corpo quanto na alma. O “corpo”, no caso, é sua estrutura vocabular e “alma”, a estrutura temática da mensagem. Artística é a dança das palavras, dança ousada, desafiante; estética, a corporificação do tema que desafia o leitor a classificá-la novela, romance, memorial. Melhor: as três variáveis alimentadas pelo mesmo sangue. A personalidade temática de “Hora H” está marcada, em primeiro lugar, pelos 17 verbos que batizam cada um dos capítulos: “despertar”, para o primeiro; “encontrar”, para o último. Outros quinze verbos-capítulos respiram vida literária em: perceber, sentir, respirar, querer, brincar, conhecer, enxergar, rir, confiar, sonhar, perdoar, saber, pensar,

amar, lembrar. Só para aguçar a curiosidade do leitor: responda, por favor: Quais as diferenças entre “despertar” e “encontrar”? Ou melhor, quais as semelhanças entre “encontrar” e “despertar”? Melhor ainda: Qual a razão de a autora questionar-se, já na frase que inicia o texto: - Manhã. Abro os olhos e interrogo-me: em sou quem? E na última frase: - FIM… daquilo que era, começo daquilo que sou…” Na Hora “H”.

Enquanto cada cabeça de capítulo está marcada pela verbalização no infinitivo, o corpo de cada capítulo está recheado pela substantivação da narratividade. Na abertura do capítulo “encontrar”, último dos 14

dezessete do texto, Marli Lúcia Lisboa como que se despedindo da tarefa de anuncar a vida de sua “Hora H”, alerta: - Não sei o que sou, nem quem sou. Encontro-me, passo por várias emoções, entre elas há a que me fez reconhecer… A construção foi minha meta, a meta do começo, a meta do porquê. Para melhor se identificar, no mesmo capítulo, a autora enfileira uma procissão de substantivos-frases, iniciados pela letra maiúscula ou minúscula. Escutemos: - Vontade. Necessidade. Desejo. Querer. Medo, mas tenho calma, cansaço. Erro, verdade, desespero, alegria, tristeza, confiança, segurança, desconfiança, insegurança, falsidade, fingimento, interesse… Luz. Trevas… Discórdia. Ofensa… Perdão… Amizade… Amor… E mais… saudade… Eu choro… É a Hora H… tudo é a hora H…” Com sua “Hora H”, Marli Lúcia desenha uma caminhada preciosa na literatura dos catarinenses. Ela vai levá-la fundo, muito mais fundo, na Catarínica literatura.


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ALMA

Lu Constante – Joinville, SC

Translada-me num toque de mágica

POEMA INVOLUNTÁRIO

para o sem-fim,

Natália Correia

lá onde as cores se confundem,

Decididamente a palavra

onde as palavras são palavras,

quer entrar no poema e dispõe

sorrisos são sorrisos… nada mais.

com caligráfica raiva

Leva-me num olhar,

do que o poeta no poema põe.

pra onde eu possa imaginar

Entretanto o poema subsiste

mil coisas e não pensar em nada. Transporta-me num respirar desvairado,

informal em teus olhos talvez

pra onde as preocupações se desconcentram

palavra

mas perdido se em precisa significas o que vês.

e a violência não chegue.

Virtualmente teus cabelos sabem

Lá para onde as aparências não importam,

se espalhando avencas no travesseiro

só a poesia se faz canção.

que se eu digo prodigiosos

Transforma-me com um beijo,

cabelos

num ser esvoaçante, para que eu te encontre no ar

as insólitas flores que se abrem

e te sinta como fogo,

não têm sua cor nem seu cheiro.

no frio da minha alma tão só.

Finalmente vejo-te e sei que o

Ressuscita-me com tuas mãos firmes,

mar o pinheiro a nuvem valem a pena

para que eu me envolva mais e mais

e é assim que sem poetizar se faz a si mesmo o poema.

no teu silêncio cheio de emoção…

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QUASE QUATRO DÉCADAS DO GRUPO LITERÁRIO A ILHA

Em junho de 1980 o jornal “A ILHA”, de São Francisco do Sul, publicava a primeira edição do seu Suplemento Literário A ILHA. Devido ao recebimento de textos dos leitores – contos, poemas, crônicas – o jornal decidiu pelo suplemento, já que não havia espaço disponível em suas páginas. Nasceu, então, o Grupo Literário A ILHA , com a reunião de poetas da ilha. O jornal acabou, mas o Suplemento Literário A ILHA existe até hoje, trinta e oito anos depois, com o propósito de dar espaço aos escritores que queiram lutar pela popularização e valorização da literatura. Desenvolveu suas atividades em São Francisco por dois anos e em 1982 transferiu sua sede para Joinville, onde participou da vida cultural do norte e nordeste de Santa Catarina até fins de 1999. No ano de 2000, fincou raízes em

O Varal da Poesia do Grupo A ILHA, n os anos 80.

Florianópolis, voltando a justificar o nome que adotou em outra ilha, São Francisco do Sul. No início, o grupo apenas se reunia para discutir os próprios trabalhos e falar sobre literatura, além de selecionar os textos que seriam publicados no Suplemento. No segundo ano, antes mesmo de mudar para Joinville, o grupo já participava, também da Feira de Arte da Cidade das Flores, com o seu Varal da Poesia, que consistia em cartazes estampando poemas, pendurados em fios, como se fossem roupas ao sol, em plena praça. Uma vez com a sede em Joinville, poetas da região foram integrados ao grupo, ampliando o leque de atividades. 16

Além da participação em Feiras de Arte como a de Joinville, Jaraguá do Sul, São Bento do Sul, o Varal da Poesia foi levado também para cidades como Florianópolis, Blumenau, Brusque, Curitiba e a locais como escolas, bancos, festas, feiras, lojas. Nas reuniões de estudo e trabalho, todas as semanas, além de apreciar os textos dos integrantes, estudavam os autores consagrados e procuravam novas alternativas de levar a poesia até o público. Recitais de poemas eram apresentados pelo grupo na Feira de Arte, em escolas, em lançamentos, palestras, feiras do livro, eventos culturais e até no rádio. Os poetas do grupo visitaram diversas escolas,


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em Joinville e pelo norte catarinense, a convite, para falar de literatura. Nessas palestras, apareciam novos poetas, que se juntavam, quase sempre, aos poetas da praça.

literários nos anos oitenta e noventa, em São Francisco do Sul e em Joinville. Como exemplos, temos a comemoração do Dia do Escritor Francisquense, em novembro de 81, que reuniu autores de São Francisco e de GRANDES Florianópolis numa noite EVENTOS – LANÇAMENTOS de autógrafos. Na oporO Grupo Literário A ILHA tunidade, foi instalada, realizou grandes eventos também, a delegacia da Associação Catarinense de

Encontro de Escritores em São Francisco do Sul

Escritores na Babitonga. Em Joinville, no mês de outubro de 91, o grupo promoveu a Noite dos Escritores Catarinenses. Participaram da coletiva de autógrafos os escritores Enéas Athanázio, de Balneário Camboriú, Urda Alice Klueger, de Blumenau, Abel B. Pereira, de Florianópolis, entre outros. Em junho de 93, o Grupo Literário A ILHA trouxe a Joinville, para palestra na Univille, a escritora Teresinka Pereira, brasileira radicada nos Estados Unidos, professora e presidente da International Writing And Artists Association e o poeta romeno Florentim Smarandache. Inúmeros lançamentos de livros foram promovidos pelo grupo A ILHA em Joinville, São Francisco do Sul, Jaraguá, Itajaí, Corupá, Guaramirim, Brusque, Blumenau, Florianópolis, Porto

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Alegre, Rio, Cuba USA, Suiça, Portugal, além dos eventos acima mencionados. Aconteceram noites de autógrafos de integrantes do grupo e de convidados, de livros publicados pelas Edições A ILHA ou não.

mento Literário A ILHA Hoje em dia é muito mais e a publicação de livros difícil, se não impossível e opúsculos constituem se conseguir. os maiores espaços desta que é a entidade do gênero mais perene e mais representativa da literatura de Santa Catarina.

Evento literário na Univille, com a presença de escritores americanos, trazidos pelo Grupo A ILHA

AS EDIÇÕES A ILHA Edições A ILHA é nome da “editora” dentro do grupo. Editora que existe desde a criação do grupo, ainda que sem recursos. Quase uma centena de livros já foram publicados por ela e ela é, na verdade, uma das principais atividades dos poetas e escritores que compõe o grupo. A revista Suple-

O custo das edições ou é pago pelo autor da obra ou, se ele conseguir, com apoio de entidades comerciais, industriais ou culturais. A prática de se conseguir os recursos para se pagar a publicação de um livro com pequenas colaborações da indústria, do comércio ou da “cultura oficial” já funcionou em tempos idos, não tanto a última. 18

De uma maneira ou de outra, foram publicados, com o selo das Edições A ILHA, até agora, quase uma centena de livros, entre antologias, livros infantis, de conto, de crónicas, de poesia, de história da literatura. Livros de outras editoras também tiveram lançamentos organizados pelo grupo: “Feira de Contos”, antologia, 1981 “O cavalo em Chamas”, “Crime na Bahia Sul” de Glauco Correa, “Vida, Vida”, Editora AAFBB do Rio de Janeiro, contos, “Uma Questão de Amor”, Ed. Lunardeli, “The Poet”, da IWA, USA, 1994 e “A Cor do Sol”, poemas, Cepec, 1988, deste articulista , “A Literatura de Santa Catarina”, de


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Lauro Junkes, 1993 e já publicados, inclusive duas ou três décadas, dois deles vencedores pensava-se em romance. muitos outros. em concursos literários, Poesia era literatura de OS Maura Soares, com mais outros tempos, muito ESCRITORES de uma dezena de livros, antigos. A ILHA mudou DO GRUPO Mary Bastian, cronista e essa visão. Levando o Escritores consagrados autora de vários livros para Varal da Poesia a todos do Estado participaram o público infanto-juvenil, os lugares, fazendo recie participam do grupo, Marcos Antonio Meira, tais nos lugares onde era publicando em sua revista e tomando parte em romancista premiado com levado o varal, e mais, no eventos, alguns desde o vários livros publicados, rádio, na televisão, até início, como Urda Alice Harry Wiese, romancista e em bares, conseguindo Klueger, Eloí Elizabeth poeta premiado, Apolônia espaços em jornais, Bocheco, Ana Maria Gastaldi, romancista de grandes ou não, para Kovács, Enéas Athanázio, vários títulos de sucesso, falar de literatura, publiElse Sant´Ana Brum, Lauro Célia Biscaia Veiga, poeta car poemas e divulgar Junkes, Celestino Sachet, e prosadora e também a cultura, conseguiu-se Jacqueline Aisenman, editora, Selma Franzoi aproximar a poesia do Júlio de Queiroz, Wilson de Ayala, que lança seu grande público. Colunas Gelbcke e muitos outros. segundo livro de poemas literárias e culturais assinadas por este articulista E de outros Estados e até brevemente. em jornais como Diário de outros países, também. O GRUPO A Catarinense, A Notícia, Alguns integrantes d´A ILHA COMO ILHA começaram aqui AGENTE Jornal de Santa Catarina, e se projetaram como TRANSFORMADOR e em vários outros jornais poetas conhecidos e O Grupo Literário A ILHA pelo Brasil afora, faziam respeitados, como é o mudou a maneira que com que a poesia e a caso de Aracely Braz, com o público tinha de olhar literatura chegasse até a quatro livros publicados, a poesia. E de olhar o casa do leitor. A Internet, Rosângela Borges, com poeta, também. Quando nos anos 90, diminuiu três livros publicados, um se falava de literatura, há distâncias. deles de poemas para o público infantil lançado por editora mineira, Silvio Oliveira Dias, com vários livros publicados, Savagé, também com mais de três livros, Mariana, que terá sua obra reunida em um só volume, Erna O novo projeto POESIA NO SHOPPING, que substituiu o Varal da Poesia. Pidner, com vários livros 19


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Poetas do Grupo Literário A ILHA nos anos 80.

Um fato importante foi o de tirar a poesia do seu suporte tradicional, o livro, para levá-la à rua, literalmente, nos anos oitenta, o que fez com que as pessoas esbarrassem com o poema. E dar de cara com a poesia na rua, na praça, na loja, no banco, nas festas populares, na escola, no bar, fez com que as pessoas a conhecessem, pois muitos, até então, só tinham ouvido falar dela. Os poetas da praça levaram a poesia a todos esses lugares e o Recital de Poemas também. Quem nunca tinha tido qualquer aproximação com a poesia, quem nem sequer tinha ouvido falar dela, de repente, ouvindo um poeta recitá-la, ao passar pela praça, ou tendo a sua atenção

despertada pelo cartazes com letras grandes, cores e ilustrações pendurados ao vento, estampando poesia, descobria que gostava dela. Ou não. Mas cada um que gostava era um novo leitor que nascia, que não ia ler só os novos poetas que estavam expondo o seu trabalho, mas também os grandes autores, os mestres da poesia. O que significa que os livros de poesia passaram a vender mais, então. Tanto na praça, como na livraria. Não só os livros de poetas locais, como dos grandes nomes da poesia, como Quintana, Coralina, Pessoa, Drummond, etc. As coisas mudaram efetivamente nas livrarias, pois quando se queria comprar um livro de um 20

grande poeta brasileiro ou português, nos anos oitenta ou antes deles, era preciso encomendá-lo. Com o advento do Varal da Poesia e do Recital de Poemas, levados a diversos lugares, até ao rádio e à televisão, a poesia tornou-se bem mais conhecida e apreciada por um número maior de leitores, sendo possível encontrar livros do gênero nas livrarias sem ter que esperar que chegassem. A venda de livros, pelo menos nas regiões de penetração do Grupo Literário A ILHA, já não se resumia a romances, clássicos e didáticos. E, como já dissemos, com tudo isso mudou também a maneira de se olhar para os poetas. Não raro, eles tinha receio de dizer que eram poetas. Poderiam ser ridicularizados ou ser alvo de desdém, se confessassem que escreviam poemas. Hoje, depois que A ILHA levou a poesia para a rua, tanto a poesia escrita em cartazes, folhetos, livros como a declamada nos recitais e nos saraus, os poetas são vistos como escritores, como artistas da palavra que são.


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CHEGANDO ATÉ O LEITOR

reunindo a poesia de vários autores para que as escolas possam usá-las em sala de aula.

Um dos outdoors do projeto POESIA NA RUA do Grupo Literário A ILHA.

Para colocar a poesia nos olhos e nos ouvidos do leitor, talvez mais exatamente nos seus corações, o Grupo A ILHA usou, além do Varal da Poesia, dos folhetos – as famosas sanfonas poéticas, dos livros e dos recitais, novas alternativas, recursos pioneiros como o Projeto Poesia na Rua – poemas ou trechos deles em out-doors, espalhados pelas ruas, mistu rando-se ou destacando-se entre os outros painéis de propaganda; como o Projeto Poesia no Shopping, um varal da poesia atualizado, nos corredores dos shopping centers, no caminho do leitor, não mais os cartazes pendurados nos fios, mas banners colocados em biombos ou painéis. Alternativas, ainda, como o Projeto Poesia na Escola, lançando mão da tecnologia da informática, ao elaborar apresentações

Ou como o Projeto Poesia Carimbada, aderindo ao simples uso do carimbo para imprimir poemas em qualquer suporte, a qualquer hora. Ou como o Projeto Som da Poesia, que facilita e pereniza a distribuição da poesia declamada, gravada em CD. E, mais recente, a participação do Grupo A ILHA em Salões Internacionais do Livro, como o de Genebra, na Suiça, e Feiras do Livro como a de Portugal, levou a poesia dos catarinenses para fora do país, inclusive em outras línguas, como inglês, francês, italiano, espanhol. O Portal do grupo, PROSA, POESIA & CIA, desde o início dos anos 90 no ar, democratizou ainda mais os espaços oferecidos, pois os leitores e os escritores de qualquer parte

do mundo poderiam acessá-lo e participar, não só lendo as diversas seções mas também colaborando com seus textos. Com todas essas ações, podemos concluir que estamos alcançando os objetivos desejados: proporcionar espaço para levar até o público leitor a obra dos nossos escritores e insistir na tentativa de popularizar a poesia e a literatura, como um todo. São trinta e oito anos de trabalho e realizações, mas também de falta de reconhecimento e decepções, pois a “cultura oficial” parece que insiste em não ver o trabalho realizado pelo Grupo Literário A ILHA, infelizmente. Felizmente o resultado do trabalho realizado nos mostra que tivemos uma parcela de sucesso significativa. Por isso continuaremos.

Página inicial do portal do Grupo Literário A ILHA na internet

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a tornar-nos estrelas - ou anjos? – para desvelarmos o futuro.

MOTIVO

Nossa humanidade, entanto,

Cecília Meireles

tropeça em nossos erros.

Eu canto porque o instante existe

Astros, estrelas, anjos?

e a minha vida está completa.

Nossas asas nos pesam,

Não sou alegre nem sou triste:

somos apenas mortais

sou poeta.

neste planeta antigo,

Irmão das coisas fugidias,

que não sabemos guardar.

não sinto gozo nem tormento.

Quando chegar o amanhã,

Atravesso noites e dias

o destino se adiará,

no vento.

o futuro estará lá,

Se desmorono ou se edifico,

o infinito nos guiará?

se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

PAZ

Clarice Villac – Campinas, SP

quando brota num terreno difícil derrota

DESTINOS

o míssil,

Luiz Carlos Amorim

O tempo nos chama

a angústia se desfaz

para escrever a história

sem nada que amedronte,

de nossos destinos.

como gaivota

A vida é poeira

dando cambalhota

que o vento carrega

no horizonte

e o céu nos intima 22


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INSPIRAÇÃO, VONTADE, INICIATIVA? Denise Castro – Munique, Alemanha

Vamos conversar sobre algo aparentemente abstrato? Saiba desde já que você precisa destes três elementos para a alquimia textual.   Este assunto, para alguns, é também chamado de dom, para outros de talento... quando para nós, chama-se trabalho, simplesmente. Todo e qualquer escritor tem suas "vibes", seus ápices de criação, os quais podem sim ser chamados de inspiração. No entanto, cabe pensar: é ela quem faz o texto surgir e se concluir?

INSPIRAÇÃO Mas que palavrinha, hein? Vive circulando, inundando e pressionando você a escrever algo - ou não. Deixa eu te contar um ponto muito importante,

pra começar: inspiração não é o momento de êxtase que boa parte das pessoas denominam, Inspiração é ideia, é convite, é a chamada do papel para você. E deixa eu te contar mais um detalhe: nem sempre as palavras vão desembestar a falar e a aparecer quando a tal inspiração der o ar da graça. Por isso, prefiro mesclar os significados e pensar em inspiração como uma ideia repentina, um convite literário e muita vontade de escrever. O Dicionário Priberam ratifica meu pensamento definindo a palavra, dentre outros contextos, como: "Ideia ou pensamento que surge de repente; a estro." Este texto, por exemplo, tive a inspiração para escrevê-lo enquanto aspirava a casa, entretanto as palavras foram fluindo e se encontrando alguns dias depois, em pedaços, em meio aos meus blocos de notas, até chegar a hora oportuna para completá-lo e revisá-lo antes da 23

publicação. Inspiração é assim mesmo, um negócio louco que te agarra quando menos esperas, daí a importância de melhorar sua produtividade com algumas dicas que vão aqui: Como ser um Escritor produtivo e Ativo? Já imaginou se os cronistas de jornais tivessem que esperar surgir a inspiração perfeita para publicar semanalmente um texto? Essa palavra faz a nós uma pressão enorme e ainda leva-nos a pensar que fatos sóbrios e maravilhosos são inspiradores, quando pode ser totalmente o inverso. Lembro de em minha adolescência ter um fluxo de escrita maior quando estava triste e, inclusive, achava impossível escrever quando estivesse feliz. Até um dia dialogar com Fernando Pessoa, em frente A Brasileira, na cidade de Lisboa e entender a veracidade de seus versos de que​ "O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente." 


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VONTADE "Somos fingidores, podemos ser." Ele me disse, enquanto tomávamos uma bica. Porque após a inspiração, vem a Iniciativa. Neste instante, as primeiras linhas vão surgir e, nesse ato, você irá descobrir a necessidade de saber mais sobre a tal ideia repentina, virá a vontade de fazer hiperlinks ou uma literatura comparada; virão flashes de memória - das vivências do dia a dia - a se enroscar com a ficção e com a vontade de traduzir sensações reais ou imaginárias.

Neste ir e vir, o lapidar acontece e pode sair, rápido ou lentamente, o tão esperado texto.

aquilo que normalmente lhe faz apetecer/querer escrever qualquer coisa, um bilhete que seja.

INICIATIVA

Por isso, é importante conhecer a si mesmo e entender o seu próprio processo de criação. A mim, por exemplo, funciona muito bem estar nos transportes públicos; fazer faxina e a solitude num bar. Brotam muitos pensamentos nestes contextos, cujas experiências se transformam em contos ou crônicas, na maioria das vezes.

Agora, atentem a um pormenor: se você tem consciência de que escrever é também um trabalho e precisa ter a atenção e disciplina para efetuá-lo com precisão, deve já contra-argumentar comigo que essas ideias repentinas nem sempre são aproveitadas. Muitas e muitas vezes são tiros pela culatra, descobertos apenas no exato momento em que seu quadril se aconchega no assento da labuta. Muita paz e energias positivas nessa hora, você não está sozinho. Deixe quieta a ideia que não se estica e parta para os seus estímulos favoritos. Entenda estímulos como

(Nota: o texto acima foi publicado na edição anterior, equivocadamente, com a atribuição de autoria à Denise de Castro, Florianópolis, quando na verdade a autoria é de Denise Castro, de Munique. Pedimos desculpas pelo erro.)

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existir”, por um acaso não é a tua grande obra, A ILHA-Suplemento Literário, que há 38 anos retira da(s) ostra(s) a dor que é sua pérola? Alguma semelhança? Para mim, nenhuma dúvida paira.)

POEMA

Roseana Murray – Saquarema, RJ  

Algumas pessoas, as que recolhem areia dourada grão por grão

KALU

dos vãos opacos

Rita Marília – Florianópolis, SC

do silêncio, como se retira

Eram duas estrelas

da ostra

Uma do céu

a dor que é

Uma do mar

a sua pérola,

Que na areia se amavam

essas pessoas,

O mar ciumento chegou

matrizes de luz,

Galopando em suas vagas

fundam países

Separou

imaginários

Quem na areia se amava

sem fronteiras,

Nunca mais!

onde o amor

Nunca mais!

é possivel,

O mar rugindo espumava. (www.ritamarilia.com.br)

onde o voo é possivel, onde é possível existir. (Nota da poeta Rita Marília: Amorim, estas "algumas pessoas que recolhem areias douradas, grão por grão, que fundam países imaginários, sem fronteiras, onde o amor é possível, onde voo é possível, onde é possível 25


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QUANDO TU NÃO ESTÁS

Marli Lúcia Lisbôa – Bulucha São José, SC

Sólon Schil – Joinville, SC

A lua que desponta no horizonte Faz-me lembrar do teu abraço E os raios de luar na noite errante Mostra-me o andar lento do meu passo ... Olhando para aquele mar que bramia teu nome baixinho num grito, Senti que tua imagem ardia Em meu olhar perdido... Sentindo as ondas ferindo a terra, Disse para ti que o mar chora, E que em seu choro ele carrega A dor de alguém que vai embora ... Deixando na areia a cicatriz de um caminho, Procuramos no encontro nos achar E no refúgio de nosso ninho, Eu pude contigo no abraço, amar! Vasculhando no íntimo da espuma Encontrei o que estava a procurar: O som de tua voz leve como pluma No meu ouvido docemente a sussurrar! E naquela paisagem cheia de mistura Sol, terra, areia, vento e mar Cheguei na verdade da procura:

Queria dedicar-te um poema falando de mar, falando de estrelas. Queria cantar-te em rimas ricas ou não, não faz diferença. Teu sorriso alegre, como criança brincando nas brancas areias de uma praia qualquer… Queria dizer-te coisas tantas que nem sei se poderia dizer-te… Queria, neste momento, ouvir tua voz, como ouço os pássaros, cantando livres por aí. Queria que fosses tu e não apenas a brisa que sopra a afagar-me agora. Queria sentir em meus lábios o mel do teu beijo, mas só posso, neste instante, sentir a presença da tua ausência, abraçar a solidão e viver a saudade que deixaste em mim.

LÁ, eu queria contigo ficar ... 26


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DEPOIS DO FIM José Eduardo Agualusa - Portugal

Os escritores podem dividir-se entre aqueles que dizem sofrer enquanto escrevem e os que afirmam divertir-se. Podem também dividir-se entre os que escrevem para saber como termina a história que começaram, e os que só se sentam para escrever depois que desenharam, dentro da cabeça, a estrutura inteira do romance e definiram o enredo, ao mínimo pormenor. Sou dos que se divertem; sou também dos que escrevem para saber o que vai acontecer a seguir. A melhor parte do processo de escrita — pelo menos para os escritores que se divertem e escrevem para saber o fim — são as últimas páginas. O que acontece nessas últimas páginas, no instante em que diferentes e distantes fios se amarram e o enredo inteiro adquire subitamente forma e coerência, é uma espécie

de prodígio que nunca deixará de me espantar. São muitos os escritores que se deixam vencer pela melancolia depois que terminam um novo romance. Durante meses vemos crescer as personagens. Conversamos com elas. Vivemos com elas. Aprendemos com elas. E então, vira-se uma página e todas aquelas vidas se concluem. Sobra um silêncio enorme, uma imensidão de tempo por preencher. É bem certo que essas mesmas vidas a cujo fim assistimos estão prestes a começar para os leitores. Estão sempre a começar. Começam de todas as vezes que um novo leitor abre o livro e inicia a leitura. Como cada leitor cria um livro inédito à medida que o vai lendo, em função do seu próprio mundo, essas vidas nunca são exatamente iguais. Acontece-me muitas vezes só compreender o que escrevi depois que um leitor me conta a sua versão. Sinto cada vez mais dificuldade em falar sobre um livro que terminei de escrever. Aflige-me a fatal pergunta dos jornalistas, durante a 27

apresentação de um título novo: «Pode-me dizer de que trata o novo livro?» Apetece-me dizer a verdade: «Leia-o e diga-me.» Há muitos anos, quando comecei a escrever, tinha a pretensão de que sabia. Provavelmente, acreditava nisso. Agora, se tiver sorte, vou descobrindo de cada vez que um leitor fala comigo. Por isso, sou capaz de discorrer sobre os meus romances mais antigos, como se de facto os tivesse escrito — mas não sobre os recentes. Sinto-me um impostor. Se ainda ninguém os leu, então eu ainda não os escrevi. É difícil escapar à melancolia do criador depois do fim. Os escritores optam por diferentes métodos para tentar iludi-la. Numa entrevista recente, a romancista portuguesa Patrícia Reis explicou que antes de entregar o novo livro à editora começa outro: «É esse outro que me permite sobreviver ao luto que preciso fazer das personagens.» Patrícia emenda um romance no outro, como aqueles fumadores ansiosos, que vão acendendo um cigarro na guimba do


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anterior até terminarem o maço inteiro — ou a vida. Costumo fazer o mesmo. Semanas antes de concluir um romance começo a criar listas de projetos. No início ignorava os caminhos impossíveis. Hoje tomo nota de tudo, depois deito fora o que me parece fácil e começo a sondar as possibilidades dos caminhos impossíveis. Os caminhos impossíveis, aqueles que dão medo, são os únicos que merecem ser explorados. Escrever — como toda a viagem — é procurar o espanto. Conheço escritores que tentam driblar a tristeza ocupando o súbito vazio com outras formas de expressão artística: pintam, fotografam, compõem

fados, criam mapas de cidades imaginárias. Alguns são muito competentes nessas atividades paralelas. Bruce Chatwin fotografava bastante bem. Nabokov desenhava borboletas. Ferreira Gullar fazia colagens e cópias de telas famosas. O moçambicano Mia Couto toca violão. Valter Hugo Mãe canta fado. Outro escritor português, Afonso Cruz, dedica-se à produção de cerveja artesanal e de blues. O angolano Ruy Duarte de Carvalho, um dos maiores nomes da poesia africana em língua portuguesa, pintava belíssimas aguarelas de bois. Tenho duas dessas aguarelas, devidamente emolduradas, diante da minha mesa de trabalho. Olho para elas e viajo para

TEU ROSTO

o Sul de Angola. Terminei um novo romance. Ainda terei de viver mais algumas semanas dentro daquele mundo, trabalhando com editores e revisores, corrigindo provas, mas já me comecei a despedir dele. Sim a melancolia é inevitável, bem como o medo de não ser capaz de voltar a escrever. Faço listas de projetos. Fotografo. Pinto aguarelas - sem o talento de Ruy Duarte. Um dia destes espero voltar a escrever de novo, como se fosse a primeira vez, com a mesma surpresa, a mesma inquietação, a mesma incapacidade de perceber ao certo o que estou fazendo — até chegar ao fim, até que alguém leia e me diga.

marcado, inerte, triste,

Margarete Iraí – Itapema, SC

na saudade que insiste

Das brumas do tempo

em te buscar de volta!

teu rosto aparece,

… e deixo que a chuva

marcado, inerte, triste,

e o vento

na saudade que insiste

levem meu pensamento

em te trazer de volta!

com as brumas do tempo

Na soleira da porta

para a saudade que desiste,

carcomida pelo tempo,

resiste, insiste

recosto meu corpo

em te querer de volta… 28


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corre pela minha aldeia. O Tejo tem grandes navios

RECEITA MÁGICA

E navega nele ainda,

Aracely Braz – Céu dos Poetas

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

Quando ferver sua imaginação, adicione os seguintes temperos:

A memória das naus.

uma pitada de humor,

O Tejo desce de Espanha

boa dose de alegria,

E o Tejo entra no mar em

grande porção de amizade

Portugal.

e seja você, só você.

Toda a gente sabe isso.

Procure a estrela cadente,

Mas poucos sabem qual é o rio

pinte a relva verdejante,

da minha aldeia

realce as cores do ipê, deixe a borboleta voar!

E para onde ele vai

Salpique no ar seu carinho,

E donde ele vem.

Vista o perfume das flores;

E por isso porque pertence a

descalce toda amargura

menos gente,

e transborde o mundo

É mais livre e maior o rio da minha

de amor…

aldeia. Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América

 

PELO TEJO VAI-SE PARA O MUNDO

E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que

Alberto Caieiro (Fernando Pessoa)

há para além

O Tejo é mais belo que o rio que

Do rio da minha aldeia.

corre pela minha aldeia,

O rio da minha aldeia não faz

Mas o Tejo não é mais belo que o

pensar em nada.

rio que corre pela minha aldeia

Quem está ao pé dele está só ao

Porque o Tejo não é o rio que

pé dele. 29


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CARTA DE ATAHUALPA PARA KATTY

Urda Alice Klueger – Palhoça, SC

Oi, Katy. Hoje de tarde fiquei pensando que deveria lhe escrever. Foi quando a gente estava voltando para casa e eu fiquei lembrando em tudo o que havia acontecido. A gente ir passear três vezes por dia na praia é rotina – sabemos os horários, os trajetos, os cheiros que poderão haver por lá – basta a Urda pegar a bolsa dos cachorros (onde, dentre outras coisas, há a minha capa vermelha para chuva) mais a corrente da Tereza Batista, e já saímos correndo para o portão. Algumas vezes ela não pega a corrente da Tereza, e então essa cachorrona que agora faz parte da minha família fica meio murcha, o rabo caído, pois já entende que não irá junto. Nessas ocasiões, primeiro Tereza Batista ficava toda triste esperando lá no portão

– sabe como é, ela já sofreu muitos abandonos – como iria ter a certeza de que a gente iria voltar? Agora, no entanto, ela já sabe que a gente volta, e então, do portão ela retorna para a varanda e fica cuidando da casa Mas há as ocasiões especiais, quando, ao invés de pegar a bolsa dos cachorros, a Urda pega a mochila dela, o que significa que vamos sair de carro. Como sou um ser já bem ajuizado, espero para ver se ela pega também a chave do carro antes de sair correndo, mas o Zorrilho, aquele pingo de cachorro, mal vê ela pegar a mochila e já sai fazendo a maior barulheira em direção à garagem, seguido da Tereza Batista aos pulos. É só ela abrir as portas do carro e nós entramos correndo, e cada um sabe o seu lugar bem direitinho: Tereza e Zorrilho no banco de traz, e eu no banco do carona. Como quase sempre a nossa vizinha Maria Antônia vai junto nesses passeios, é claro que ela me dá o melhor colo que um cachorro pode ambicionar, e até abre a janela do carro para o vento trazer todos 30

os cheiros lá de fora para dentro. Vamos a muitos lugares, nesses passeios, como à praça do centro da Enseada, na agropecuária, na praia de Fora, tomar banho com a tia Lourdes na Barra do Aririú e em tantos lugares que nem dá para contar aqui. No Natal, fomos todos juntos, numa noite, ao Natal Luz da cidade de São José e nos divertimos muito! Noutro dia também passamos um dia inteirinho na praia do Raul Longo e o cachorrinho dele, o Chiquinho, que é uma nisca de nada, ficou apaixonado pela Tereza Batista! Nós quatro brincamos o dia inteirinho naquela praia maravilhosa que se chama Sambaqui e não houve nenhum problema – sabe como é, os homens daqui (e também algumas mulheres) tem medo da Tereza, pois no tempo em que ela não tinha dono e vivia na rua ela criou fama de cachorra mordedora. Hoje, no entanto, ela está que é uma lady, como diz a Maria Antônia – só se enfeza quando vê a gente que a maltratava no passado, e é por isso que sai de corrente para passear. A Urda sempre


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diz que a Tereza é uma academia de ginástica, pois ela se exercita muito segurando a corrente da grandona. E então passeamos por aí de carro, e a Urda e a Maria Antônia nos avisam quando vamos passar por algum cachorro para a gente latir, e também

CONCERTO MATINAL Mary Bastian – Joinville, SC

Gosto do silêncio da minha casa pela manhã, quando ouço apenas ruídos, canto dos pássaros, portas que abrem e fecham, conversas que parecem muito distantes e o barulho da cafeteira que coloquei a trabalhar. Abrir a janela e olhar o

latimos muito num gado que vive num lindo pasto aqui perto – é assim, de um lado da estrada há o grande pasto, e do outro lado é a praia, e o carro fica parado para a gente poder latir bastante naqueles bichões. Claro que nós não iríamos latir para eles fora do carro,

né? Há cada boi enorme!!! Bem, Katty, assim tem sido nossa vida por aqui. Nem contei da Domitila, que é uma gatinha que pensa que é cachorro e anda sempre atrás da gente pela praia, mas isto eu conto outro dia. Carinhosas lambidas do seu amigo Atahualpa.

tempo, conferir as flores que abriram no jardim, pegar o jornal debaixo da porta, isto tudo é minha maneira de verificar que ainda estou aqui e sentir prazer com isto. Me aconchego na poltrona da sala, café e jornal nas mãos e só depois disto é que começa o meu dia. Nunca marco compromissos para as manhãs. Elas são minhas, egoisticamente não as reparto. Só mais tarde, quando os barulhos se tornam mais fortes e ganham vida através de corre-

dores e portas e janelas do prédio, é que deixo de ser desocupada e assumo meu papel de pessoa que mora sozinha e tem de dar conta do necessário pra seguir em frente, coisas corriqueiras, não tão agradáveis como ficar algum tempo lendo ou especulando no computador. E é isto, estes pequenos nadas, que fazem a vida seguir. Por mais que se sinta que o tempo principal já passou, ainda estamos aqui, às vezes lembrando o que já foi, se poderia ter sido diferente

EXPEDIENTE Suplemento Literário A ILHA – Edição 145 – Jun/2018 – Ano 38 Edições A ILHA – Grupo Literário A ILHA - Contato: revisaolca@gmail.com A ILHA na internet: portal PROSA, POESIA & CIA.: http://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.br 31


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ou melhor, estamos aqui pra continuar tentando. E seguimos planejando pequenas coisas. Isto ficou bem claro pra mim no dia do meu aniversário. Sem saber como nem porque, resolvi festejá-lo, coisa que não fazia fora do meu circulo

CARTA A UM POETA Mário Quintana

Meu caro poeta, Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma

familiar desde que vim pra cá, há longos anos cheios de saudades do que deixei e do que perdi. Mas como diria minha avó, o que não tem remédio, remediado está, entrei de cabeça fresca no planejamento e festejei a data, à noite, com a chegada das vizinhas cheias de

abraços, atestando que conquistei um novo grupo de amigas. As antigas, que ficaram lá no sul, continuam guardadas no peito, que é o lugar cativo delas. A saudade, a gente finge que mata com uma conversa no Face nas manhãs silenciosas.

interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que

vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o

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condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos! Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz. A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra,

uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de ideias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação. Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é 33

sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade. Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria,


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espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te reco-

A ESCRITA EXIGE SEMPRE A POESIA Mia Couto - Portugal

Sou escritor e cientista. Vejo as duas actividades, a escrita e a ciência, como sendo vizinhas e complementares. A ciência vive da inquietação, do desejo de conhecer para além dos limites. A escrita é uma falsa quietude, a capacidade

mendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas. Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os

únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família. Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

de sentir sem limites. Ambas resultam da recusa das fronteiras, ambas são um passo sonhado para lá do horizonte. A Biologia para mim não é apenas uma disciplina científica mas uma história de encantar, a história da mais antiga epopeia que é a Vida. É isso que eu peço à ciência: que me faça apaixonar. É o mesmo que eu peço à literatura. Muitas vezes jovens me perguntam como se redige uma peça literária. A pergunta não deixa de ter sentido. Mas o que

deveria ser questionado era como se mantém uma relação com o mundo que passe pela escrita literária. Como se sente para que os outros se representem em nós por via de uma história? Na verdade, a escrita não é uma técnica e não se constrói um poema ou um conto como se faz uma operação aritmética. A escrita exige sempre a poesia. E a poesia é um outro modo de pensar que está para além da lógica que a escola e o mundo moderno nos ensinam. É uma outra

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janela que se abre para estrearmos outro olhar sobre as coisas e as criaturas. Sem a arrogância de as tentarmos entender. Apenas com a ilusória tentativa de nos tornarmos irmãos do universo.

Não existem fórmulas feitas para imaginar e escrever um conto. O meu segredo (e que vale só para mim) é deixar-me maravilhar por histórias que escuto, por personagens com quem me cruzo e deixar-me invadir

por pequenos detalhes da vida quotidiana. O segredo do escritor é anterior à escrita. Está na vida, está na forma como ele está disponível a deixar-se tomar pelos pequenos detalhes do quotidiano.

dando-lhe influências as mostrar a dualidade que habita em cada individuo. mais diversas. Assim, um signo como Dualidade no individuo... o de capricórnio, para Duas coisas em um só ficarmos no meu exemplo ser indivisível.

NO COMPASSO de nascimento, digamos, Nasce-se sozinho e DO UNIVERSO é tido como organizado, sozinho se vai para a Maura Soares – disciplinador, correto, No compasso binário do também tem sua vida universo – claro/escuro, desordenada, pois nem preto/branco, dia/noite, tudo deve ficar perfeito. sol/ chuva, assim são os O único ser perfeito é signos revelados pelo Deus que criou esta esoterismo. maravilha de cenário Ao mesmo tempo em que é o Universo onde que o nascido em deter- planetas circulam em minado dia é regido por suas órbitas. um signo correspondente Representado pela cabra do zodíaco, ele apresenta Almatéia, o signo de alternâncias de comportamento, não porque ele capricórnio é mostrado queira, mas porque na com metade do corpo hora de sua vinda para cabra, outra metade peixe. o planeta Terra, outros Por que assim as coiplanetas estavam orbitando sas se afiguram? Para Florianópolis, SC

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eternidade em busca de outra vinda, em direção a outro nascimento, outra esfera, outra dimensão para que as energias positivas acumuladas em determinada encarnação, sejam computadas e o “individuo” possa, assim, fazer parte da grande galeria de seres iluminados que habitará na casa do Senhor para todo o sempre, até que novas tarefas neste Planeta Terra lhe sejam exigidas para cumprir.


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A NOITE

ONDE

Teresinka Pereira - USA

Erna Pidner – Ipatinga, MG

Todos falamos do tempo e queremos nos esquecer que a madrugada é irreversivel. Quem sabe se o verso que desconhece o calendário e ignora o tiquetaque do relógio pode desafiar a noite e transpor a viagem dos dias sem medo da escuridão, sem medo do pecado, certificando-se em cada minuto que vivemos o escolhido e único paraíso do amor?

Onde a magia da noite e o mistério do luar, o pôr do sol fulgurante, o encanto das andorinhas e o entardecer crepuscular? Onde a flor que desabrocha num cantinho do jardim a saudade que machuca a tarde que se desdobra as lembranças de outros tempos onde as quimeras, enfim? Onde as manhãs primaveris e o gorjeio dos pássaros e a retreta na praça, as crianças a sorrir, a ginga do sambista,

O POETA É BELO

a desenvoltura do artista, onde as festas juninas,

Mario Quintana – Céu dos Poetas

o carnaval e o Natal?

O poeta é belo como o Taj-Mahal feito de renda e mármore e serenidade O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore ao primeiro relâmpago da tempestade O poeta é belo porque os seus farrapos são do tecido da eternidade

Onde a esperança de um futuro mais ameno, um viver mais consistente? Onde a vontade e acertar, onde tudo que tivemos e que um dia se foi? Onde mora a poesia, onde tudo que restou? 36


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dicionários, o professor mostrou como as palavras se fixam no que chamou de livro do tombo da língua.

do livro “Para Conhecer Norma Linguística”, escrito em parceria com Ana Maria Zilles, professora titular de linguística da CARLOS Faraco fala com pro- Unisinos (RS). ALBERTO priedade do fosso Como não poderia FARACO: sociolinguístico que deu deixar de ser, tratou da LÍNGUA PORTUGUESA origem à grande divisão história da ortografia do entre a norma culta e português, marcada por EM PAUTA sucessivas tentativas de O professor e sociolin- as variantes populares, acordos ortográficos no guista Carlos Alberto tema que perpassa a sua decorrer do século 20. Faraco, professor titular “História Sociopolítica aposentado e ex-reitor da da Língua Portuguesa” Coordenador da Comissão Universidade Federal do (Parábola Editorial, 2016), Nacional do Brasil junto e do distanciamento ao Instituto Internacional Paraná, fala sobre diversos entre a norma culta e da Língua Portuguesa, da temas, das origens da a norma-padrão, tema Comunidade de Países de língua portuguesa à Língua Portuguesa, sua dinâmica de uso Faraco está diretanas redes sociais. mente envolvido na A conversa passou confecção do VOC, pelo surgimento o vocabulário comum de novos termos da língua portuguesa, (inclusive os estrandisponível online geirismos e as gírias) desde maio de 2016. e pelo descarte de O VOC é a reunião palavras, duas faces das bases de palade um mesmo provras do português cesso, que é, afinal, de todas as nações próprio da língua.  lusófonas, feitas em conformidade com o Dos observatórios Acordo Ortográfico de neologismos de 1990. à confecção dos 37


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Faraco faz questão de dizer que, desde o início da fixação da ortografia do português, que se deu tardiamente (só no fim do século 19 e início do século 20), o Brasil e Portugal estiveram às voltas com a tentativa de fazer acordos ortográficos, não reformas ortográficas. “O português nunca teve uma reforma. Fazer uma reforma é mudar as bases da ortografia. A ortografia do português fixou-se em 1911 e os países foram fazendo pequenos ajustes para aproximar as grafias”, afirma. Léxico: universo em expansão A ortografia, no entanto, é a única parte da gramática sujeita, de fato, à convenção. De resto, a língua se constrói pelo conjunto de seus falantes, na dinâmica do uso, o que

é muito visível no léxico. Faraco lembra cálculo de Antônio Houaiss, que estimava um salto do número de palavras do português de cerca de 50 mil no século 16 para algo em torno de 500 mil no século 20.

“O vocabulário de uma língua é um universo em expansão; ele não tem limites. Novos objetos, novas práticas culturais, os esportes modernos, a comida, o comportamento, para tudo a gente 38

precisa de palavra”, diz. Neologismos: os empréstimos linguísticos Muitas dessas palavras novas são empréstimos linguísticos, que se fixam por causa da influência de culturas estrangeiras: “No fim do século 19 e início do 20, era muito chique no Brasil usar termos da língua francesa (como “tailleur” ou “soirée”) para descrever a moda feminina e os eventos sociais. Depois da Segunda Guerra Mundial, a ideia de modernidade se associou aos EUA”. A influência do inglês é muito presente hoje, mas isso não é motivo para preocupação com um suposto risco de descaracterização do idioma. Segundo o professor, um levantamento da quantidade de anglicismos que,


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nos últimos cem anos, entraram no português e ficaram chegou a um resultado surpreendente: apenas 4.000 se fixaram. “Quando eu jogava futebol, eu era ‘back’ (beque); havia o ‘centre forward’, o ‘referee’ etc. e foram todos descartados”, exemplifica. Os estrangeirismos que passam a integrar o léxico da língua sofrem um processo de “aclimatação”. Alguns são absorvidos integralmente, como “show”, cuja grafia não sofreu alteração, outros são traduções, como “empoderamento” (do inglês “empowering”) e outros são aportuguesados (“esnobe”, de “snob”). O leitor não terá dificuldade de encontrar muitos outros exemplos. O filtro fonológico da língua “Normalmente a palavra que vem de outra língua passa por um filtro, que é o filtro fonológico da

língua”, explica o professor, observando que escrevemos “smartphone” mas pronunciamos “esmartifone”. “Nossa estrutura pede a vogal que sustenta a sílaba”, explica. Antes que alguém diga que nós estamos “falando errado”, Faraco deixa claro que esse processo é normal: “O fato de ter essa potencialidade é um aspecto bonito da língua”. Erro de português Aliás, a ideia de erro em língua passa longe de quem se dedica à pesquisa linguística na universidade. Faraco é enfático: “A língua não funciona como a matemática nem como um quartel”. Ele lamenta a educação linguística que se volta apenas à “correção de erros”: “Nós perdemos [com isso] um ponto de observação importante, que é ver a língua em toda a sua mobilidade, 39

na sua ambiguidade, na vagueza, na imprecisão”. Gíria: “o mangue da língua” Quem quer conhecer a língua de fato deve abandonar preconceitos. Ao falar da gíria, por exemplo, Faraco explica que essa é uma faixa do vocabulário muito dinâmica, em que se criam palavras ou se dá novo sentido àquelas que já existem. “A gíria é o mangue da língua; o mangue é o viveiro da vida do oceano, é ali que se formam as novas vidas”, sintetiza. A internet parece ser mesmo esse oceano, em que a extrema heterogeneidade da língua se manifesta. De modo totalmente inovador, a tecnologia permitiu o contato entre as múltiplas variedades da língua. Poderá ser também um acelerador do processo de mudança linguística? Mudança linguística: “não há profeta em língua” “A mudança linguística


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vem do contato; é o contato das variedades que desencadeia processos de mudança. Já o caminho das mudanças é impossível prever porque a língua está no jogo das interações sociais. Não há profeta em língua, mas essa dinâmica que a tecnologia nos proporcionou vai ter impacto sobre a língua”, afirma.

tem de passar por um “período de decantação”: “O dicionário é uma espécie de livro do tombo da língua. Assim como se faz o tombamento de prédios históricos, de atividades culturais importantes, também se faz o tombamento das palavras, mas não é possível incorporá-las logo que aparecem. É Tudo leva a crer que a preciso ver se não vão tecnologia venha a impactar ser descartadas”, explica. também a confecção de Faraco lembra que a língua dicionários, que tradi- sempre tem um número cionalmente está muito ligada à língua escrita. Como a língua falada vem ganhando o registro escrito nas redes sociais, é possível que, no futuro, esse material seja aproveitado pelos lexicógrafos. O dicionário: “livro do tombo da língua” Para entrar no dicionário, entretanto, a palavra 40

de palavras muito maior do que aquele que ganha o registro: “O máximo que você consegue pôr num dicionário é ainda o mínimo”. Isso tem explicação: “Um dicionário geral da língua, com a etimologia das palavras, o histórico de entrada, as acepções com as abonações, tem de passar por uma filtragem”. Politicamente correto: ressignificação Essa filtragem, é bom que se diga, baseia-se na dinâmica natural das palavras nas interações sociais. Em sua opinião, não há como tirar termos de circulação à força, mesmo que sejam pejorativos ou ofensivos. “As palavras vão sendo descartadas naturalmente, nunca por censura ou imposição; é o próprio dinamismo cultural que ressignifica uma determinada


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realidade e atribui a ela de outro. Isso repercutiu eles deveriam falar ou um nome diferente. A na história social do país escrever”. tendência é buscar sem- e, consequentemente, Esse não é um problema pre uma expressão mais na língua. “Há um fosso só brasileiro, conforme precisa, mas a pior coisa sociolinguístico, histórico, explica Faraco. Esse é que pode acontecer é muito acentuado entre a um problema da América achar que, substituindo língua que os letrados Latina, “pois se criou as palavras, o problema praticavam (e praticam) na tradição histórica da está resolvido”, afirma.

e a língua que o povo, região a ideia de que a Faraco, que tem um tra- a massa que não era língua como se fala nas balho importante na área letrada, praticava. Há uma colônias é cheia de erros, de sociolinguística, não vinculação entre a cultura é descuidada”. Difundiu-se poderia deixar de passar escrita, a escola, o tempo a ideia de que “a língua por um dos temas que de escolaridade, o grau modelar mora em outro mais provocam contro- de renda e a língua que lugar; o espanhol mora vérsia entre especialistas a pessoa fala”, resume. em Madri e o português em língua. Sobreposição de normas mora em Lisboa”. Norma culta e variantes Essa distinção, no entanto, Assim, no século 19, criou-se populares: um “fosso vai além da oposição entre uma norma-padrão que sociolinguístico” norma culta e variantes tomou como referência O professor mostra que populares. Não bastasse a norma portuguesa. as grandes diferenças essa acentuada divergência, Nas palavras de Faraco, entre a norma culta da “por cima dessa norma “os letrados vivem essa língua e suas variantes culta, nós temos outra, a ‘esquizofrenia’, essa dispopulares têm raiz na norma-padrão, que é uma tância entre o que fazem partição social que se invenção efetivamente”. e o que deveriam fazer”. constituiu na época Em suma, existe outra O desafio, portanto, é colonial, com uma elite divisão, “uma dualidade atualizar a norma-padrão econômica de um lado e entre a prática efetiva para que ela, no mínimo, uma massa de escravos dos falantes letrados e o reflita a realidade dos e trabalhadores pobres modo como se diz que falantes da norma culta. 41


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A lua, romã dos céus, de seus coxins,

PAISAGEM COM ACENOS

acompanhou-me em aventuras de orvalho e almiscar.

Júlio de Queiroz – Céu dos Poetas

Tantas vezes, sozinho, escapuli do casulo do sono

Confesso: foi sempre um tempo palpitante.

para deslumbrar-me com os olhos luminosos da madrugada anoitecida,

Nele, apaixonei-me por relâmpagos;

ou dormir, outra vez,

vagabundeei, pés e coração nus, sonhando nuvens.

ouvindo estórias compridas, contadas pela chuva.

Vivi a calma beleza de tardes monásticas

Têm sido tantas as faces, tantos os gestos do Amor irmão,

e a gritaria azafamada e colorida de portos.

brincando de cabra-cega comigo,

Dialoguei com passarinhos na língua dos mariscos;

que, dele, o corpo não se cansou, foi-lhe demais;

recebi segredos estonteantes

o velho odre está se esgarçando.

que a grama me trazia, mandados por águas escondidas.

Daqui a pouco túneis de lua; galáxias apaixonadas,

Participei, em silêncio extasiado, das festas que árvores em flor dançaram com o ar fino.

cometas tontos de alegria, e,

Amei despudoradamente o mar,

um passaporte para tornar-me energia amorosa.

pela Constituição do Universo,

os ventos e seus amores:

Obrigado, amigo, por ser parte deste tudo,

as inquietas areias cantantes. Cães aceitaram-me, como igual, em sua confraria;

dado tão gratuitamente.

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LITERARTE LANÇAMENTO DO LIVRO “HORA H” O livro da escritora Marli Lúcia Lisbôa – a Bulucha, foi lançado no CIC-Centro Integrado de Cultura de Florianópolis, no dia 7 de maio. O evento teve retumbante sucesso, com um público leitor considerável, que lotou o Hall de entrada do Cinema do CIC. O Grupo de Poetas da Trindade foi importante parceiro do sucesso, pois compartilhou o espaço e promoveu, antes da seção de autógrafos, um sarau com a participação de poetas de quase todos os grupos literários da cidade e também de Laguna. Um evento literário dos mais concorridos dos últimos tempos.

ESCRITORES DO BRASIL A nova revista do Grupo Literário A ILHA, ESCRITORES DO BRASIL, está em fase de preparação para editoração. Se você, escritor de qualquer parte do Brasil ou brasileiro no exterior, quiser publicar nela, envie mensagem para o e-mail revisaolca@gmail.com, para obter as informações de como participar. Escritor novo ou não, você pode ter a sua obra publicada e lida por leitores em todo o mundo. Venha juntar-se a nós. Lembre-se: escritor é aquele que é lido.

Alguns dos escritores do Grupo Literário A ILHA


LITERARTE

URDA LANÇA NOVO LIVRO O novo livro da escritora catarinense Urda Alice Klueger, NO TEMPO DA MAGIA, foi lançado aqui na Grande Florianópolis e começa a ser lançado em outros pontos do Estado. Urda é uma das mais importantes representantes da Literatura Catarinense, grande romancista e grande cronista, escritora consagrada com mais de uma dezena de livros publicados.

PALESTRA NA ESCOLA JANDAGA, EM JARAGUÁ DO SUL O editor do Suplemento Literário A ILHA e das Edições A ILHA, do Grupo Literário do mesmo nome, esteve dando palestra para alunos da quarta e quinta séries do Instituto Educacional Jangada, em Jaraguá do Sul, no dia 10 de maio. O escritor conversou com várias turmas durante todo aquele dia, sobre poesia, leitura, escritura e literatura em geral, com a participação total dos estudantes.

FEIRA CATARINENSE DO LIVRO Os escritores do Grupo Literário A ILHA Luiz Carlos Amorim e Urda Alice Klueger participaram da 11ª. Feira Catarinense do Livro, em Florianópolis, no mês de abril, com tarde de autógrafos.

Ailha145defalta  

Revista SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA, do Grupo Literário A ILHA, edição 145

Ailha145defalta  

Revista SUPLEMENTO LITERÁRIO A ILHA, do Grupo Literário A ILHA, edição 145

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